Warcross: Jogador, caçador, hacker e devedor – Marie Lu

PARA OS MILHÕES QUE SE CONECTAM TODOS OS DIAS, WARCROSS NÃO É APENAS UM JOGO – É UM MODO DE VIDA...
Category: Ficção Cientifica

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Story Transcript


Para Kristin e Jen Obrigada por mudarem minha vida e por estarem comigo tantos anos depois

Sumário Para pular o Sumário, clique aqui.

Epígrafe Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Capítulo 8 Capítulo 9 Capítulo 10 Capítulo 11 Capítulo 12 Capítulo 13 Capítulo 14 Capítulo 15 Capítulo 16

Capítulo 17 Capítulo 18 Capítulo 19 Capítulo 20 Capítulo 21 Capítulo 22 Capítulo 23 Capítulo 24 Capítulo 25 Capítulo 26 Capítulo 27 Capítulo 28 Capítulo 29 Capítulo 30 Capítulo 31 Agradecimentos Créditos A Autora

Não existe uma pessoa no mundo que não tenha ouvido falar de Hideo Tanaka, o jovem gênio que inventou Warcross quando tinha apenas 13 anos. Uma pesquisa global publicada hoje mostra que surpreendentes 90 % das pessoas entre 12 e 30 anos jogam regularmente, ou pelo menos uma vez por semana. Espera-se que o Campeonato de Warcross oficial deste ano atraia mais de 200 milhões de espectadores. […] Errata: Uma versão anterior deste artigo descreveu erroneamente Hideo Tanaka como milionário. Ele é bilionário. –– THE NEW YORK DIGEST

MANHATTAN Nova York, Nova York

1 Está um frio de rachar para passar o dia fora numa caçada. Eu tremo, subo o cachecol e cubro a boca, e tiro alguns flocos de neve dos cílios. Em seguida, bato forte com a bota no skate elétrico. O skate é velho e gasto, como tudo que eu possuo, a tinta azul quase toda descascada revela embaixo o plástico prateado ordinário… mas ainda funciona, e quando pressiono com tudo o calcanhar, o skate responde e me joga para a frente, me empurrando entre duas fileiras estreitas de carros. Meu cabelo vibrante e multicolorido voa na minha cara. – Ei! – grita um motorista quando manobro perto do carro dele. Eu olho para trás e o vejo balançando o punho para mim pela janela aberta. – Você quase arranhou meu carro! Eu apenas viro a cabeça e o ignoro. Normalmente, sou uma pessoa mais gentil – no mínimo, eu teria berrado um pedido de desculpas. Mas hoje acordei com um papel amarelo grudado na porta do meu apartamento, as palavras impressas na maior fonte concebível. 72 HORAS PARA PAGAR OU SAIR Tradução: meu aluguel está quase três meses atrasado. Portanto, a não ser que eu consiga arrumar 3.450 dólares, até o fim de semana eu vou estar no olho da rua. Isso é de estragar o dia de qualquer um. Minhas bochechas ardem por causa do vento. O céu que cobre os arranha-céus está cinza, cada vez mais cinza, e em poucas horas os poucos floquinhos de neve vão virar um fluxo regular. Carros lotam as ruas, uma fileira interminável de luzes de freios e buzinas daqui até a Times Square. O grito ocasional do apito do guarda de trânsito soa acima do caos. O ar está carregado com o odor de escapamento, e vapor sobe de um bueiro aberto ali perto. Pessoas sobem e descem as calçadas. Estudantes voltando para casa são fáceis de identificar, as mochilas e os fones de ouvido enormes se destacam na multidão. Tecnicamente, eu devia ser um deles. Esse devia ser meu primeiro ano na faculdade. Mas comecei a matar aulas depois que meu pai morreu, e larguei tudo vários anos atrás. (Tá, tudo bem; tecnicamente, eu fui expulsa. Mas juro que teria largado mesmo. Mais sobre isso depois.) Olho para meu celular de novo, a mente voltando à caçada. Dois dias antes, recebi a seguinte mensagem de texto: ALERTA do Departamento de Polícia de Nova York! Mandado de prisão para Martin Hamer. Pagamento U$5.000.

A polícia anda tão ocupada com a atividade criminal crescente nas ruas que não tem tempo de caçar pequenos infratores por conta própria; pequenos infratores como Martin Hamer, procurado por apostar em Warcross, roubar dinheiro e supostamente vender drogas para custear a jogatina. Então, uma vez por semana, a polícia envia uma mensagem dessas, uma promessa de pagar qualquer um que consiga pegar o criminoso em questão. É aí que eu entro. Sou caçadora de recompensas, uma entre muitos em Manhattan, e estou me esforçando para capturar Martin Hamer antes que outro caçador consiga.

Qualquer um que já tenha enfrentado dificuldades vai entender o fluxo quase constante de números que passa pela minha cabeça. Um mês de aluguel no pior apartamento de Nova York: U$1.150. Um mês de comida: U$180. Eletricidade e internet: U$150. Caixas de macarrão, pacotes de lámen e latas de apresuntado que ainda estão na minha despensa: 4. E assim por diante. Como se não bastasse, eu devo U$3.450 de aluguel e tenho uma dívida de 6 mil dólares no cartão de crédito. Saldo na minha conta bancária: U$13. Não são as coisas comuns com que uma garota da minha idade normalmente se preocupa. Eu devia estar surtando por causa de provas. Entregando trabalhos. Acordando cedo. Mas não tive exatamente uma adolescência normal. Cinco mil dólares é, fácil, a maior recompensa dos últimos meses. Para mim, parece até uma fortuna. Então, nos últimos dois dias, não fiz nada além de procurar por esse cara. Já perdi quatro recompensas seguidas este mês. Se perder essa também, vou me ferrar de verdade. Os turistas sempre lotam as ruas, penso quando um desvio me obriga a seguir por um caminho até a Times Square, onde fico presa atrás de um monte de autotáxis atravancando uma passagem de pedestres. Eu me inclino para trás, paro e começo a recuar. Enquanto faço isso, olho novamente para o celular. Dois meses atrás, eu consegui invadir o diretório principal de jogadores de Warcross em Nova York e sincronizei tudo com os mapas do meu celular. Não é difícil se você lembrar que todo mundo está conectado de alguma forma. Só exige tempo. Você invade uma conta, depois segue para os amigos, depois para os amigos deles, e acaba conseguindo rastrear a localização de qualquer jogador da cidade de Nova York. Eu tinha finalmente localizado o paradeiro físico do meu alvo, mas meu celular é obsoleto, rachado e surrado, com uma bateria antiga que vai mal das pernas. Fica o tempo todo tentando entrar em modo de descanso para economizar energia, e a tela está tão escura que mal consigo enxergar. – Acorda – murmuro, apertando os olhos para os pixels. Finalmente, o pobre celular solta um zumbido digno de pena, e o marcador vermelho de localização é atualizado no meu mapa. Eu saio do engarrafamento de táxis e pressiono o calcanhar no skate, que protesta por um momento, mas em seguida acelera, um ponto em um mar de humanidade em movimento. Quando chego a Times Square, telas acima de mim me cercam em um mundo de néon e som. Toda primavera, o Campeonato Oficial de Warcross é iniciado com uma cerimônia enorme, e duas equipes de jogadores de mais destaque competem em uma rodada só de grandes astros. A cerimônia de abertura deste ano acontece hoje à noite em Tóquio, então todas as telas passam algo relacionado a Warcross, mostrando uma rotação frenética de jogadores famosos, comerciais e imagens dos pontos altos do ano passado. O videoclipe mais recente e mais louco de Frankie Dena é exibido na lateral de um prédio. Ela está vestida como seu avatar de Warcross – um terno de edição limitada e capa com traçados purpurinados – e dança com vários homens – tipo executivos – em ternos rosa-pink brilhante. Sob a tela, um grupo de turistas animados posa para fotos com um rapaz fantasiado de Warcross. Outra tela exibe cinco dos jogadores-celebridades que vão competir na cerimônia de abertura daquela noite. Asher Wing. Kento Park. Jena MacNeil. Max Martin. Penn Wachowski. Eu inclino o pescoço para admirá-los. Cada um está vestido da cabeça aos pés com a moda da estação. Eles sorriem para mim, as bocas grandes o bastante para engolir a cidade, e, enquanto observo, todos levantam latas de refrigerante, declarando a Coca-Cola sua bebida preferida durante a temporada de jogos. Duas linhas de texto surgem abaixo deles: OS MELHORES JOGADORES DE WARCROSS CHEGAM A TÓQUIO, PREPARADOS PARA DOMINAR O MUNDO Mas logo atravesso o cruzamento e entro em uma rua menor. O pontinho vermelho do meu alvo no

celular se move novamente. Parece que ele entrou na rua Trinta e Oito. Eu me espremo por mais alguns quarteirões de trânsito até finalmente chegar e parar no meio-fio ao lado de uma banca de jornal. O pontinho vermelho de localização agora está parado sobre o prédio à minha frente, bem acima da porta de um café. Eu puxo o cachecol e solto um suspiro de alívio. Minha respiração condensa no ar gelado. – Peguei você – eu sussurro, me permitindo um sorriso enquanto penso na recompensa de cinco-mildólares. Pulo do skate elétrico, puxo as tiras e prendo no ombro, de forma que ele fica batendo na mochila. Ainda está quente do uso, o calor se espalhando pelo meu moletom, e arqueio as costas para apreciá-lo. Quando passo pela banca de jornal, observo as capas das revistas. Tenho o hábito de dar uma olhadinha, em busca de cobertura sobre minha pessoa favorita. Sempre há alguma coisa. E, sem erro, uma das revistas o exibe com proeminência: um jovem alto sentado em um escritório, usando calça preta e uma camisa de colarinho engomado, as mangas casualmente dobradas até os cotovelos, o rosto obscurecido pelas sombras. Abaixo dele há o logotipo da Henka Games, a desenvolvedora de Warcross. Eu paro para ler a manchete. HIDEO TANAKA FAZ 21 POR DENTRO DA VIDA PARTICULAR DO CRIADOR DE WARCROSS

Meu coração dá um pulo familiar quando leio o nome do meu ídolo. Pena que não tenho tempo para parar e folhear a revista. Talvez mais tarde. Eu me viro com relutância, ajeito a mochila e o skate nos ombros e puxo o capuz para cobrir a cabeça. A vitrine pela qual passo reflete uma visão distorcida de mim: rosto alongado, calça jeans escura esticada demais, luvas pretas, botas surradas, cachecol vermelho desbotado e enrolado no moletom preto. Meu cabelo da cor do arco-íris escapa de dentro do capuz. Eu tento imaginar essa garota refletida na capa de uma revista. Não seja burra. Afasto o pensamento ridículo enquanto sigo para a entrada do café, deslocando a mente para a lista de ferramentas na minha mochila. 1. Algemas 2. Lançador de cabo 3. Luvas com pontas de aço 4. Celular 5. Muda de roupa 6. Arma de choque 7. Livro Em uma das minhas primeiras caçadas, meu alvo vomitou em mim depois que usei minha arma de choque (no 6) nele. Comecei a carregar uma muda de roupa (no 5) depois disso. Dois alvos conseguiram me morder, então, depois de algumas vacinas de tétano, acrescentei as luvas (no 3). O lançador de cabo (no 2) é para chegar a lugares difíceis e para pegar pessoas difíceis. Meu celular (no 4) é meu assistente portátil de hack. As algemas (no 1) estão ali por motivo óbvio. E o livro (no 7) é para quando a caçada envolve muita espera. Sempre vale a pena carregar um entretenimento que não consome bateria. Eu entro no café, aprecio o calor e olho novamente para o celular. Há clientes enfileirados em uma bancada que exibe doces, esperando um dos quatro caixas automáticos abrirem. Estantes decorativas ocupam as paredes. Uns poucos estudantes e turistas estão sentados às mesas. Quando aponto a câmera do celular para eles, vejo os nomes pairando acima das cabeças, o que quer dizer que nenhum deles se

configurou no Particular. Talvez meu alvo não esteja neste andar. Passo pelas estantes, minha atenção indo de mesa em mesa. A maior parte das pessoas não observa os seus arredores; pergunte a qualquer um o que a pessoa sentada logo ao lado estava vestindo e há boas chances de não saberem responder. Mas eu sei. Sou capaz de recitar o traje e o comportamento de cada um naquela fila do café, o jeito preciso como os ombros de alguém se curvam um pouco demais, as duas pessoas sentadas lado a lado que não trocaram uma palavra, o cara que toma cuidado de não fazer contato visual com ninguém. Consigo observar uma cena como um fotógrafo captura uma paisagem: eu relaxo os olhos, analiso a visão completa de uma vez, procuro o ponto de fuga e tiro uma foto mental para me lembrar da coisa toda. Busco a falha no padrão, o prego que se destaca. Meu olhar para em um grupo de quatro garotos lendo nos sofás. Eu os observo por um tempo, esperando sinais de conversa ou dicas de bilhetes sendo trocados de mão em mão ou por telefone. Nada. Minha atenção vai até a escada que leva ao segundo andar. Sem dúvida há outros caçadores se aproximando do alvo; preciso pegá-lo antes que alguma outra pessoa o encontre. Meus passos aceleram quando subo. Não tem ninguém ali, ao que parece. Mas reparo no som baixo de duas vozes em uma mesa no canto, escondida atrás de um par de estantes que tornam quase impossível vê-los da escada. Chego mais perto com pés silenciosos e espio pelas prateleiras. Há uma mulher sentada à mesa, o nariz enfiado em um livro. Um homem de pé ao lado dela, mexendo os pés com nervosismo. Eu levanto o celular. Como esperado, os dois estão configurados como Particular. Eu me esgueiro até a parede para que eles não consigam me ver e escuto com atenção. – Eu não tenho até amanhã à noite – diz o homem. – Desculpe – responde a mulher. – Mas não tem muito o que eu possa fazer. Meu chefe não vai liberar essa quantia sem tomar medidas adicionais de segurança, não com o mandado de busca que a polícia emitiu para você. – Você me prometeu. – E peço desculpas, senhor. – A voz da mulher está calma e cínica, como se ela já tivesse precisado dizer isso incontáveis vezes antes. – É época de jogo. As autoridades estão em alerta total. – Eu tenho trezentas mil notas com você. Você faz alguma ideia do quanto vale isso? – Faço. É meu trabalho saber – responde a mulher com a voz mais seca que já ouvi. Trezentas mil notas. São uns duzentos mil dólares no câmbio atual. Esse aí aposta alto. Apostar nos jogos de Warcross é ilegal nos Estados Unidos; é uma das muitas leis que o governo aprovou recentemente em uma tentativa desesperada de acompanhar a tecnologia e os crimes cibernéticos. Quem ganha uma aposta em uma partida de Warcross ganha créditos de jogo chamados notas. Mas a questão é a seguinte: você pode pegar essas notas online ou levar a um lugar físico, onde encontra uma contadora como aquela moça. Você troca suas notas com ela. Ela te dá dinheiro de verdade, mas tira uma parte para o chefe. – O dinheiro é meu – insiste o homem agora. – Nós temos que nos proteger. Medidas adicionais de segurança exigem tempo. Volte amanhã à noite, que poderemos trocar metade das suas notas. – Eu já falei, eu não tenho até amanhã à noite. Eu preciso sair da cidade. A conversa se repete. Eu prendo a respiração enquanto escuto. A mulher praticamente confirmou a identidade dele. Meus olhos se apertam e meus lábios se curvam em um sorrisinho faminto. Esse é o momento pelo qual anseio durante uma caçada: quando as peças que descobri se juntam em um ponto, quando vejo meu alvo fisicamente na minha frente, pronto para ser capturado. Quando resolvi o quebra-cabeça.

Peguei você. Enquanto a conversa vai ficando mais urgente, eu clico duas vezes no celular e mando uma mensagem de texto para a polícia. S uspeito em custódia física.

Recebo uma resposta quase imediatamente. DPNY ALERTADO.

Eu tiro a arma de choque da mochila. Fica presa por um momento na beirada do zíper e faz um leve ruído. A conversa para. Atrás das prateleiras, o homem e a mulher viram a cabeça para mim como cervos na luz de faróis. O homem vê minha expressão. O rosto dele está coberto de uma camada de suor, e o cabelo está grudado na testa. Uma fração de segundo passa. Eu disparo. Ele corre, e eu erro por um fio de cabelo. Bons reflexos. A mulher também corre da mesa, mas não ligo a mínima para ela. Corro atrás do sujeito. Ele pula escada abaixo, três degraus de cada vez, e quase cai na pressa, derrubando o celular e um monte de canetas. Ele corre para a entrada quando chego no térreo. Passo pela porta giratória logo atrás dele. Nós saímos na rua. As pessoas soltam gritos de susto quando o homem as empurra para passar. Ele derruba uma turista que tira fotos, e a mulher cai de costas no chão. Em um movimento, jogo o skate elétrico na calçada, pulo em cima e pressiono o calcanhar com toda a minha força. Faz um ruído agudo; eu disparo pela rua. O homem olha para trás e me vê me aproximando rapidamente. Ele vira numa esquina à esquerda em uma corrida desenfreada. Eu o sigo, virando em um ângulo tão fechado que a beirada do meu skate raspa no asfalto, deixando uma linha preta comprida. Miro a arma de choque nas costas do homem e disparo. Ele grita e cai. Na mesma hora, tenta se levantar, mas eu o alcanço. Segura meu tornozelo. Eu tropeço e o chuto. Os olhos dele estão enlouquecidos, os dentes apertados e o maxilar contraído. Uma lâmina aparece. Eu vejo o brilho refletido contra a luz bem a tempo. Dou um chute no homem para afastá-lo e rolo para longe antes que ele possa furar minha perna. Minhas mãos seguram a jaqueta dele. Disparo a arma de choque mais uma vez, agora de perto. Acerta com tudo. Seu corpo fica rígido, e ele desaba no chão, tremendo. Eu pulo em cima dele. Meu joelho aperta suas costas enquanto o homem chora no chão. O som das sirenes da polícia surge na esquina. Um círculo de pessoas se formou em volta de nós agora, os óculos gravando tudo. – Eu não fiz nada – choraminga o homem sem parar. A voz dele sai trêmula devido à força com que o estou empurrando no chão. – A moça lá dentro… posso dar o nome dela… – Cala a boca – digo, interrompendo a fala dele enquanto prendo algemas em seus punhos. Para minha surpresa, ele cala mesmo a boca. Nem sempre os alvos são bons ouvintes. Não o solto até uma viatura da polícia chegar, até eu ver luzes vermelhas e azuis brilhando na parede. Só então me levanto e me afasto dele, tomando o cuidado de esticar as mãos para a polícia poder vê-las claramente. Minha pele formiga pela emoção da caçada bem-sucedida enquanto vejo os dois policiais colocarem o homem de pé. Cinco mil dólares! Quando foi a última vez que tive metade desse dinheiro todo de uma vez? Nunca. Vou poder respirar de novo por um tempo; vou pagar o aluguel que devo, o que é capaz de acalmar meu

senhorio por enquanto. Vão sobrar 1.550 dólares. É uma fortuna. Minha mente repassa as outras contas. Talvez eu possa jantar alguma coisa diferente de macarrão instantâneo hoje à noite. Quero dar um salto da vitória no ar. Eu vou ficar bem. Até a próxima caçada. Demoro um momento para perceber que a polícia está indo embora com o novo prisioneiro sem nem olhar na minha direção. Meu sorriso some. – Ei, policial! – grito, correndo atrás da mais próxima dos dois. – Você vai me dar uma carona até a delegacia para eu receber meu pagamento? Ou devo encontrar vocês lá? A policial me olha de um jeito que não casa com o fato de que acabei de pegar um criminoso para eles. Ela parece exasperada, e os círculos escuros embaixo dos olhos me dizem que já faz um tempo que não descansa muito. – Você não foi a primeira – diz ela. Eu levo um susto. – O quê? – digo. – Outro caçador ligou e deu o alerta antes de você. Por um momento, só consigo encará-la. Mas, de repente, solto um palavrão. – Quanta baboseira. Vocês viram a coisa toda acontecer. Vocês confirmaram meu alerta! – Eu levanto o celular para a policial ver a mensagem de texto que recebi. E é claro que é nessa hora que a bateria do meu celular finalmente morre. Não que a prova fosse fazer diferença. A policial nem olha para o meu celular. – Foi só uma resposta automática. De acordo com as minhas mensagens, eu recebi a primeira ligação de outro caçador no local. A recompensa vai para o primeiro, sem exceção. – Ela dá de ombros de forma solidária. É o detalhe mais idiota que eu já ouvi. – Vai nada! – rebato. – Quem é o outro caçador? Sam? Jamie? Eles são os únicos procurando nesta área, além de mim. – Jogo as mãos para cima, em frustração. – Quer saber, você está mentindo, não tem outro caçador. Você só não quer pagar. – Eu a sigo quando ela vira as costas. – Eu poupei vocês de um trabalho sujo. Esse é o acordo, e é por isso que qualquer caçador de recompensas vai atrás das pessoas que vocês têm preguiça de pegar. Vocês me devem essa e… O parceiro da policial segura meu braço e me empurra com tanta força que eu quase caio. – Pra trás – diz ele, rosnando. – Emika Chen, não é? – A outra mão dele está apertando o cabo da arma no coldre. – É, eu me lembro de você. Não vou discutir com uma arma carregada. – Tudo bem, tudo bem. – Eu me obrigo a dar um passo para trás e levanto as mãos no ar. – Eu vou, tá? Estou indo embora. – Eu sei que você já passou um tempo na cadeia, garota. – Ele me olha de cara feia, os olhos duros e cintilantes, antes de se juntar à parceira. – Não me faça levar você de novo. Ouço o rádio da polícia os chamando para outra cena de crime. O barulho ao meu redor fica abafado, e a imagem de cinco mil dólares na minha mente começa a oscilar até finalmente virar outra coisa que não reconheço mais. No intervalo de trinta segundos, minha vitória foi jogada nas mãos de outra pessoa.

2 Saio de Manhattan em silêncio. Está ficando mais frio, e a neve começou a cair com mais força, mas o ardor do vento no meu rosto encaixa bem com meu humor. Aqui e ali, grupos começaram a surgir nas ruas, e pessoas usando camisas vermelhas e azuis fazem contagem regressiva a plenos pulmões. Eu vejo as comemorações acontecendo. Ao longe, todos os lados do Empire State Building estão acesos, exibindo imagens enormes de Warcross. Quando ainda morava no lar para crianças órfãs, conseguia ver o Empire State Building se subisse no telhado. Eu ficava sentada lá por horas observando enquanto imagens de Warcross surgiam nas laterais, minhas pernas magrelas penduradas, até o amanhecer chegar e a luz do sol me banhar de dourado. Se olhasse por tempo suficiente, conseguia me ver exibida lá. Mesmo agora, sinto aquela antiga pontada de emoção ao ver o prédio. Meu skate elétrico apita uma vez e me tira do delírio. Olho para baixo. A bateria está chegando ao final. Suspiro, paro e penduro o skate no ombro. Procuro moedas no bolso e vou para a primeira estação de metrô que encontro. O crepúsculo transformou-se em uma noite azul-acinzentada quando chego na frente do Hunts Point, no Bronx, o prédio de apartamentos que chamo de lar. Esse é o outro lado da cidade cintilante. Pichações cobrem uma lateral do prédio. Barras de ferro enferrujadas bloqueiam as janelas do primeiro andar. Tem lixo empilhado perto dos degraus da entrada principal: copos de plástico, embalagens de fast food, garrafas de cerveja quebradas. Tudo está parcialmente escondido sob uma camada fina de neve. Não têm telas acesas aqui, não têm carros automáticos chiques passando pelas ruas rachadas. Meus ombros murcham e meus pés parecem de chumbo. Eu nem jantei ainda, mas, a essa altura, não consigo decidir se o que quero mais é comer ou dormir. Mais à frente, na rua, um grupo de pessoas sem-teto está se acomodando, abrindo cobertores e montando barracas na entrada de uma loja fechada. Sacos plásticos forram o interior das roupas puídas. Afasto o olhar, comovida. Houve uma época em que aquelas pessoas foram crianças, talvez tivessem famílias que as amavam. O que as levou a esse ponto? Como eu seria no lugar delas? Finalmente, me obrigo a subir a escada até a entrada principal e a percorrer o saguão até a porta do meu apartamento. O corredor está fedendo, como sempre, a xixi de gato e tapete mofado, e pelas paredes finas, consigo ouvir os vizinhos gritando uns com os outros, o volume de uma TV altíssimo, um bebê chorando. Eu relaxo um pouco. Se tiver sorte, não vou esbarrar com meu senhorio, de regata e moletom e rosto vermelho. Talvez eu consiga ter uma noite de sono sossegada até ter que lidar com ele de manhã. Um novo aviso de despejo foi grudado na minha porta, bem no lugar onde estava o que arranquei. Fico olhando por um segundo, exausta, relendo a mensagem. AVISO DE DESPEJO – NOVA YORK NOME DO LOCATÁRIO: EMIKA CHEN 72 HORAS PARA PAGAR OU SAIR Era mesmo necessário ele voltar e colocar um aviso novo, como se quisesse garantir que todo mundo no prédio soubesse? Para me humilhar mais? Rasgo o aviso da porta, amasso bem e fico parada por um momento, olhando para o espaço vazio onde antes estava o papel. Há um desespero familiar se formando

em mim, um pânico crescente que palpita de forma barulhenta no meu peito, destacando cada coisa que devo. Os números na minha cabeça recomeçam. Aluguel, comida, contas, dívidas. Onde vou arrumar dinheiro em três dias? – Ei! Dou um pulo ao ouvir a voz. O sr. Alsole, meu senhorio, saiu do apartamento dele e está andando na minha direção, aquela careta de desagrado parecendo a de um peixe, o cabelo laranja fino esticado em todas as direções. Uma espiada nos olhos vermelhos e injetados me diz que ele está doidão de alguma coisa. Que ótimo. Mais uma discussão. Não vou aguentar outra discussão hoje. Procuro as chaves, mas é tarde demais. Então eu empertigo os ombros e levanto o queixo. – Oi, sr. Alsole. – Tenho um jeito de pronunciar o nome que soa como sr. Asco. Ele me olha de cara feia. – Você me evitou a semana toda. – Não de propósito – insisto. – Estou trabalhando como garçonete de manhã agora, lá na lanchonete, e… – Ninguém precisa mais de garçonetes. – Ele aperta os olhos para mim com desconfiança. – Bom, esse lugar precisa. E é o único emprego que tem. Não tem mais nada. – Você disse que ia pagar hoje. – Eu sei o que eu disse. – Respiro fundo. – Posso ir mais tarde conversar… – Eu disse mais tarde? Eu quero agora. E você vai ter que acrescentar mais cem dólares ao que me deve. – O quê? – O aluguel vai subir este mês. No quarteirão todo. Você acha que essa propriedade não é bem cotada? – Isso não é justo – digo, a raiva surgindo. – Você não pode fazer isso. Acabou de aumentar! – Sabe o que não é justo, garotinha? – O sr. Alsole aperta os olhos para mim e cruza os braços. O gesto estica as sardas na pele dele. – O fato de você estar morando de graça no meu prédio. Levanto as duas mãos. O sangue está subindo às minhas bochechas. Consigo sentir o calor. – Eu sei… É que… – E notas? Você tem mais de cinco mil notas? – Se tivesse, daria pra você. – Então me ofereça outra coisa – diz ele com desprezo. Aponta um dedo que parece uma salsicha para o meu skate. – Se eu vir isso de novo, vou quebrar com um martelo. Venda essa coisa e me dê o dinheiro. – Só vale cinquenta pratas! – Dou um passo à frente. – Olha, vou fazer o que for preciso, eu juro, prometo. – As palavras jorram pela minha boca em confusão. – Só me dê mais uns dias. – Escuta, garota. – Ele levanta três dedos, me lembrando exatamente quantos meses devo. – Cansei desses showzinhos de pena. – Ele me olha de cima a baixo. – Você tem quantos anos, 18? Eu enrijeço. – É. Ele indica o corredor. – Vá arrumar um emprego no Rockstar Club. As garotas lá ganham quatrocentos dólares por noite só pra dançar em cima das mesas. Você deve conseguir uns quinhentos. E não vão nem ligar para sua ficha vermelha. Eu aperto os olhos. – Você acha que eu não verifiquei? Só posso com 21. – Não quero saber o que você vai fazer. Quinta. Entendeu? – O sr. Alsole fala alto o bastante para o cuspe voar na minha cara. – E quero esse apartamento limpo. Impecável. – Não estava impecável quando eu cheguei! – grito em resposta. Mas ele já virou as costas e está andando pelo corredor.

Solto o ar lentamente quando ele bate a porta. Meu coração dispara no peito. Minhas mãos estão tremendo. Meus pensamentos voltam para os sem-teto, com olhares vazios e ombros murchos, e depois para as garotas que já vi algumas vezes saindo do Rockstar Club, fedendo a fumaça e suor e perfume pesado, a maquiagem borrada. A ameaça do sr. Alsole é um lembrete de onde posso ir parar se não tiver sorte logo. Se não começar a fazer escolhas difíceis. Vou encontrar um jeito de fazê-lo sentir pena. De amaciá-lo. Só me dê mais uma semana, eu juro, e vou arrumar metade do dinheiro pra você. Eu prometo. Repito as palavras em pensamento enquanto enfio a chave na fechadura e abro a porta. Está escuro dentro de casa, mesmo com o brilho azul-néon entrando pela janela. Acendo as luzes, jogo as chaves na bancada da cozinha e atiro o aviso amassado no lixo. Em seguida, paro e olho ao redor. O apartamento é pequenininho, cheio de pertences. Tem rachaduras no gesso das paredes. Uma das lâmpadas do único lustre do aposento queimou, e a segunda está fraca, esperando que alguém a troque antes de queimar também. Meus óculos de Warcross estão sobre a mesa dobrável de jantar. Eu os aluguei por um preço baixo porque são de um modelo antigo. Duas caixas de papelão cheias de coisas estão empilhadas na cozinha, tem dois colchões no chão perto da janela, e uma TV antiga e um sofá velho amarelo-mostarda ocupam o resto do espaço. – Emi? Uma voz abafada vem de baixo de um cobertor no sofá. Minha colega de quarto se senta, esfrega o rosto e passa a mão pelo cabelo louro emaranhado. Keira. Ela dormiu com os óculos de Warcross, e tem uma marca leve nas bochechas e na testa. Ela franze o nariz para mim. – Tem algum cara com você de novo? Eu balanço a cabeça. – Não, sou só eu hoje – respondo. – Você deu ao sr. Alsole a sua metade do dinheiro hoje, como disse que faria? – Ah. – Ela evita meu olhar, joga as pernas pela lateral do sofá e estica a mão para pegar um saco de batatas pela metade. – Vou entregar pra ele no fim de semana. – Você sabe que ele vai nos despejar na quinta, né? – Ninguém me contou. Minha mão aperta as costas da cadeira de jantar. Ela não saiu do apartamento o dia todo, então nem viu o aviso de despejo na porta. Eu respiro fundo e lembro a mim mesma que Keira também não conseguiu arrumar trabalho. Depois de quase um ano tentando, ela desistiu e se encolheu no canto dela, passando dias perdida em Warcross. É um sentimento que conheço bem, mas estou exausta demais hoje para ter paciência com ela. Eu me pergunto se a percepção de que vai ter que morar na rua vai finalmente entrar na cabeça dela quando estivermos na calçada com todos os nossos pertences. Eu tiro o cachecol e o moletom até estar com meu top favorito, vou até a cozinha e coloco água para ferver. Em seguida, vou até os dois colchões encostados na parede. Keira e eu separamos nossas camas com uma divisória improvisada de caixas velhas de papelão coladas com fita adesiva. Deixei meu lado o mais aconchegante e arrumado que consegui, decorei o espaço com fios cheios de luzinhas douradas. Um mapa de Manhattan, coberto com meus rabiscos, está preso na minha parede junto com as capas de revista de Hideo Tanaka, uma lista manuscrita do placar amador atual de Warcross e uma decoração de Natal de quando eu era criança. Meu último pertence é uma das velhas pinturas do meu pai, a única que tenho, apoiada com cuidado ao lado do colchão. A tela explode com cor, a tinta grossa e cheia de textura, como se ainda estivesse molhada. Eu tinha mais trabalhos de meu pai, mas precisei vender cada vez que as coisas ficavam desesperadas demais, e fui delapidando a lembrança dele para poder sobreviver à sua ausência.

Eu me sento no meu colchão, que solta um gemido alto. O teto e as paredes estão banhados de azulnéon do mercado de bebidas do outro lado da rua. Fico deitada, ouvindo o grito constante e distante das sirenes vindo de algum lugar lá fora, os olhos grudados em uma mancha antiga de infiltração no teto. Se meu pai estivesse aqui, estaria se movimentando com aquele seu jeito inquieto de professor, misturando tintas e lavando pincéis em potes. Talvez estivesse refletindo sobre a ementa das aulas do semestre seguinte, ou sobre seus planos para a New York Fashion Week. Eu viro a cabeça para o resto do apartamento e finjo que ele está aqui, a versão saudável e não doente dele, a silhueta alta e magra delineada perto da porta, a floresta de cabelo tingido de azul brilhando em prata na escuridão, os pelos do rosto bem raspados, os óculos de armação preta emoldurando os olhos, o rosto de sonhador. Ele estaria vestindo uma camisa preta que exibia as tatuagens coloridas que subiam pelo braço direito, e sua aparência seria impecável, os sapatos engraxados e a calça perfeitamente passada, exceto pelas gotículas de tinta manchando as mãos e o cabelo. Dou um sorriso por causa da lembrança de estar sentada em uma cadeira, balançando as pernas e olhando os curativos nos meus joelhos enquanto meu pai fazia mechas coloridas temporárias no meu cabelo. Lágrimas ainda manchavam minhas bochechas de quando voltei correndo da escola chorando porque tinham me empurrado no recreio e minha calça jeans favorita rasgou nos joelhos. Meu pai cantarolava enquanto trabalhava. Quando terminou, ele ergueu um espelho na minha frente, e eu arfei de alegria. Muito Givenchy, muito na moda, disse ele, batendo de leve no meu nariz. Eu ri. Principalmente se a gente amarrar assim. Está vendo? Ele prendeu meu cabelo em um rabo de cavalo alto. Não se acostume, vai sair na lavagem em alguns dias. Agora, vamos comer pizza. Meu pai dizia que o uniforme da minha antiga escola era uma espinha na cara de Nova York. Dizia que eu devia me vestir como se o mundo fosse um lugar melhor do que é. Ele comprava flores cada vez que chovia e enchia nossa casa com elas. Esquecia de limpar as mãos durante a pintura e acabava deixando impressões digitais coloridas em toda parte. Gastava o salário modesto em presentes para mim, materiais de arte, em caridade, em roupas e vinho. Ria com muita frequência, se apaixonava rápido e bebia livremente demais. E então, em uma tarde, quando eu tinha 11 anos, ele voltou para casa, se sentou no sofá e ficou olhando para o vazio. Tinha acabado de voltar de uma consulta médica. Seis meses depois, estava morto. A morte tem o péssimo hábito de cortar todas as linhas cuidadosas que você desenhou entre seu presente e seu futuro. A linha que leva ao seu pai enchendo seu quarto do alojamento da faculdade de flores na sua formatura. A ele desenhando seu vestido de casamento. A ele jantando na sua futura casa todos os domingos, onde a cantoria desafinada dele faria você chorar de tanto rir. Eu tinha cem mil dessas linhas, e em um dia elas foram cortadas, me deixando sem nada além de uma pilha de contas médicas e uma dívida de jogo. A morte nem me deu um lugar para direcionar a minha raiva. Só consegui olhar para o céu. Depois que ele morreu, comecei a copiar o visual dele: cabelo desgrenhado e colorido de uma forma nada natural (caixas de tinta de cabelo são a única coisa com que estou disposta a desperdiçar dinheiro) e um braço fechado com tatuagens (feitas de graça, por pena, pelo antigo tatuador do meu pai). Viro a cabeça de leve e olho para as tatuagens que cobrem meu braço esquerdo, depois passo a mão pelas imagens. Elas começam no meu pulso e sobem até o ombro, tons fortes de azul e turquesa, dourado e rosa: peônias (as favoritas do meu pai), prédios do estilo Escher subindo de ondas do mar, notas musicais e planetas contra um fundo de espaço sideral, um lembrete das noites em que meu pai me levava de carro até o interior para ver as estrelas. Finalmente, terminam com uma linha fina de palavras que sobem pela minha omoplata, um mantra que meu pai repetia para mim que recito sempre que as coisas ficam difíceis demais. Toda porta trancada tem uma chave. Todo problema tem uma solução.

Todo problema, claro, exceto o que o levou. Exceto o problema em que estou metida agora. E o pensamento é quase suficiente para me fazer me encolher e fechar os olhos, me permitir afundar em um lugar escuro e familiar. O som de água fervendo me arranca do meu devaneio bem a tempo. Se levanta, Emi, digo para mim mesma. Eu me arrasto da cama, sigo para a cozinha e procuro um pacote de macarrão instantâneo. (Custo do jantar de hoje: um dólar.) Meu estoque de comida se reduziu a uma caixa de macarrão com queijo. Olho de cara feia para Keira, que ainda está sentada no sofá, grudada na TV (TV usada: 75 dólares). Com um suspiro, abro o pacote de macarrão e viro na água. Uma batida de música e de festa vem de algum outro lugar no prédio. Todos os canais locais estão transmitindo alguma coisa relacionada à cerimônia de abertura do campeonato de Warcross. Keira para em um canal que mostra uma montagem dos pontos altos do ano anterior. Em seguida, corta para cinco comentaristas sentados no nível mais alto do Tokyo Dome, em um debate acalorado sobre qual equipe venceria e por quê. Abaixo deles há uma arena escura de cinquenta mil torcedores aos gritos, iluminada por holofotes vermelhos e azuis em movimento. Chove confete dourado do teto. – Uma coisa com que podemos todos concordar é que nunca vimos uma escalação de coringas como a deste ano! – diz uma comentarista, um dedo enfiado na orelha para poder ouvir com o barulho. – Um deles já é uma celebridade antes mesmo de começar. – Isso mesmo! – exclama um segundo comentarista, enquanto os outros assentem. Um vídeo mostrando um garoto surge atrás deles. – DJ Ren apareceu nas manchetes como um dos nomes mais quentes da cena musical underground da França. Agora, Warcross vai torná-lo um nome famoso para todo mundo! Enquanto os comentaristas voltam a discutir sobre os jogadores mais novos deste ano, eu engulo uma onda de inveja. Todos os anos, cinquenta jogadores amadores, os coringas, são escolhidos por um comitê secreto para serem colocados no processo de seleção das equipes. São as pessoas mais sortudas do mundo, na minha opinião. Minha ficha criminal automaticamente me desqualifica para essa indicação. – E vamos falar sobre a agitação que os jogos estão despertando este ano. Vocês acham que vamos quebrar recordes? – pergunta a primeira comentarista. – Parece que já quebramos – responde um terceiro. – Ano passado, um total de trezentos milhões de espectadores assistiram à final. Trezentos milhões! O sr. Tanaka deve estar orgulhoso. – Enquanto ele fala, o fundo muda de novo para o logo da Henka Games, seguido de um vídeo do criador de Warcross, Hideo Tanaka. É um clipe dele usando um smoking impecável, saindo de um baile beneficente com uma jovem ao lado, o casaco sobre os ombros dela. Ele é gracioso demais para um cara de 21 anos, e quando as luzes piscam em volta dele, não consigo deixar de me inclinar um pouco para a frente. Ao longo dos últimos anos, Hideo se transformou de gênio adolescente magrelo em um jovem elegante com olhar penetrante. Educado é a palavra que a maioria das pessoas usa quando descreve sua personalidade. Fora isso, ninguém sabe realmente como ele é, a não ser que pertença ao seu círculo mais próximo. Mas não passa uma semana agora sem que apareça na capa de algum tabloide, saindo com essa ou aquela celebridade, sendo colocado no topo de todas as listas em que se consegue imaginar. O mais jovem. O mais bonito. O mais rico. O mais cobiçado. – Vamos dar uma olhada na plateia do jogo de abertura desta noite! – continua o comentarista. Um número aparece, e todos começam a aplaudir. Quinhentos e vinte milhões. Isso só para a cerimônia de abertura. Warcross é oficialmente o maior evento do mundo. Levo minha panela de macarrão até o sofá e como no piloto automático enquanto vemos mais imagens. Há entrevistas com fãs histéricos entrando no Tokyo Dome, os rostos pintados e as mãos segurando pôsteres caseiros. Há imagens de trabalhadores verificando os cabos de conexão. Há documentários em estilo olímpico mostrando fotos e vídeos de cada um dos jogadores de hoje. Depois disso, aparecem as

imagens do jogo: duas equipes se enfrentando nos mundos virtuais infinitos de Warcross. A câmera vira para a plateia que grita, depois para os jogadores profissionais esperando em uma sala particular nos bastidores. Os sorrisos deles estão largos hoje, os olhos vivos com expectativa enquanto acenam para a câmera. Não consigo deixar de sentir amargura. Eu também poderia estar lá; seria tão boa quanto eles, se tivesse tempo e dinheiro para jogar o dia todo. Eu sei. Mas aqui estou, comendo macarrão instantâneo na panela, me perguntando como vou sobreviver até a polícia anunciar outra recompensa. Como deve ser ter uma vida perfeita? Ser uma superestrela amada por todos? Ser capaz de pagar suas contas em dia e comprar o que quiser? – O que a gente vai fazer, Em? – diz Keira, rompendo nosso silêncio. A voz dela soa vazia. Ela me faz essa pergunta todas as vezes que entramos em território perigoso, como se eu fosse a única responsável por nos salvar, mas hoje permaneço olhando para a TV, sem desejar responder. Considerando que tenho exatamente treze dólares na conta agora, nunca estive em território mais perigoso. Eu me encosto e deixo as ideias percorrerem minha cabeça. Sou uma hacker boa, ótima, mas não consigo arrumar um emprego. Ou sou jovem demais ou sou criminosa demais. Quem quer contratar uma ladra de identidades condenada? Quem quer que você conserte seus aparelhos se acham que você pode roubar suas informações? É isso que acontece quando você tem quatro meses de detenção juvenil na ficha que não podem ser apagados, junto com uma proibição de dois anos sem tocar em computadores. Não me impede de fazer certo uso do meu celular hackeado e dos meus óculos, claro, mas me impede de me candidatar a qualquer emprego real que sou capaz de fazer bem. Nós quase não tivemos permissão de alugar o apartamento. Até o momento, só encontrei uma caça de recompensas ocasional e um emprego de meio período de garçonete, que vai acabar na hora que a lanchonete comprar uma garçonete automatizada. Qualquer outra coisa provavelmente envolveria que eu trabalhasse para uma gangue ou roubasse alguma coisa. Pode ser que chegue a isso. Respiro fundo. – Não sei. Vou vender o último quadro do meu pai. – Em… – diz Keira, mas deixa as palavras no ar. Ela sabe que é uma proposta vazia, de qualquer modo. Mesmo que vendêssemos tudo no nosso apartamento, conseguiríamos no máximo uns quinhentos dólares. Não chega nem perto do suficiente para impedir que o sr. Alsole nos expulse para a rua. Uma náusea familiar surge no meu estômago, estico a mão e massageio a tatuagem na minha omoplata. Toda porta trancada tem uma chave. Mas e se essa não tiver? E se eu não conseguir sair disso? Não tem como eu conseguir botar as mãos em dinheiro suficiente a tempo. Estou sem opções. Eu luto contra o pânico, tento impedir que minha mente desabe e me obrigo a regular a respiração. Meus olhos vagueiam para longe da TV e na direção da janela. Onde quer que eu esteja na cidade, sempre sei exatamente em que direção fica meu antigo orfanato. E, se eu me permitir, consigo imaginar o apartamento que dividia com meu pai sumindo e se transformando nos corredores escuros e apertados da nova casa, com o papel de parede amarelo descascando. Consigo ver as crianças maiores disparando atrás de mim pelo corredor e me batendo até eu sangrar. Consigo me lembrar das picadas dos insetos que infestavam a cama. Consigo sentir o ardor no rosto de quando a sra. Devitt me estapeava. Consigo me ouvir chorando silenciosamente no meu beliche enquanto imaginava meu pai me salvando daquele lugar. Consigo sentir o arame das cercas sob meus dedos enquanto eu as pulava e fugia. Pense. Você consegue resolver isso. Uma vozinha na minha cabeça se anima, teimosa. Essa não vai ser a sua vida. Você não está destinada a ficar aqui para sempre. Você não é seu pai. Na TV, as luzes do Tokyo Dome finalmente são reduzidas. Os gritos crescem a um rugido ensurdecedor.

– E isso encerra nossa cobertura pré-jogo da cerimônia de abertura de Warcross! – exclama um comentarista, a voz rouca. Ele e os outros fazem o sinal de V de vitória com os dedos. – Para quem está assistindo de casa, é hora de colocar os óculos e se juntar a nós no evento… do… ano! Keira já colocou os óculos. Sigo para a mesa dobrável, onde os meus estão. Algumas pessoas podem dizer que Warcross é só um jogo idiota. Outros dizem que é uma revolução. Mas para mim e para milhões de outros, é o único jeito seguro de esquecer nossos problemas. Eu perdi a recompensa, meu senhorio vai aparecer gritando e pedindo o dinheiro dele amanhã de manhã de novo, vou me arrastar até o trabalho de garçonete e vou virar sem-teto em alguns dias, sem ter para onde ir… mas hoje… hoje posso me juntar a todas as outras pessoas, colocar meus óculos e ver magia acontecer.

3 Ainda me lembro do momento exato em que Hideo Tanaka mudou minha vida. Eu tinha 11 anos, e meu pai estava morto havia poucos meses. Chuva batia contra a janela do quarto que eu dividia com outras quatro crianças no orfanato. Estava deitada na cama, incapaz mais uma vez de me obrigar a me levantar e ir para a escola. Meu dever incompleto estava sobre o cobertor, ali desde a noite anterior, quando adormeci olhando para as páginas em branco. Eu tinha sonhado com a minha casa, meu pai fazendo ovos fritos e panquecas encharcadas de xarope, o cabelo ainda brilhando com purpurina e cola, a gargalhada alta e familiar preenchendo a cozinha e saindo pela janela aberta. Bon appètit, mademoiselle!, ele exclamava, com o rosto sonhador. E eu gritava de alegria quando ele passava os braços em volta de mim e bagunçava meu cabelo. Então acordei, e a cena tinha sumido, me deixando em uma casa estranha, escura e silenciosa. Não me mexi na cama. Não chorei. Desde a morte do meu pai, eu não havia chorado nenhuma vez, nem mesmo durante o enterro. Qualquer lágrima que pudesse ter derramado foi substituída imediatamente por choque quando descobri quantas dívidas meu pai tinha acumulado. Quando descobri que ele frequentou clandestinamente, durante anos, fóruns de apostas online. Que ele não pôde fazer tratamento no hospital porque estava tentando pagar a dívida. Assim, passei aquela manhã da mesma forma como tinha passado todos os dias dos últimos meses, perdida em um estado atordoado de silêncio e imobilidade. As emoções já tinham sumido por trás de uma cavidade de neblina no meu peito. Eu usava todos os meus momentos desperta para olhar para o nada: a parede do quarto, o quadro branco da sala de aula, o interior do meu armário, os pratos de comida insípida. Meus boletins eram um mar de tinta vermelha. Uma náusea constante roubava meu apetite. Meus ossos se projetavam nos punhos e cotovelos. Círculos escuros envolviam meus olhos, uma coisa que todo mundo notava menos eu. Por que me importaria? Meu pai tinha morrido e eu estava muito cansada. Talvez a neblina no meu peito pudesse crescer, ficando cada vez mais densa, até um dia me engolir, e eu também pudesse sumir. Então, me deitava encolhida, vendo a chuva bater na janela, o vento sacudir a silhueta dos galhos das árvores, me perguntando quanto tempo demoraria para a escola perceber que eu tinha faltado de novo. O rádio relógio – a única coisa no quarto fora as nossas camas – estava ligado, um aparelho usado que foi doado ao orfanato pelo centro de caridade. Uma das outras garotas não se deu ao trabalho de desligar quando o despertador tocou. Eu ouvia sem ânimo enquanto as notícias falavam do estado da economia, dos protestos nas cidades e no interior, da polícia sobrecarregada tentando acompanhar os crimes, das evacuações em Miami e Nova Orleans. De repente, mudou. Começou um especial de uma hora, falando sobre um garoto chamado Hideo Tanaka. Ele tinha 14 anos, ainda novidade nos holofotes. Conforme o programa transcorria, passei a prestar atenção. – Lembram-se do mundo antes dos smartphones? – disse o locutor. – Quando estávamos à beira de uma grande mudança, quando a tecnologia estava quase lá, mas ainda não, e foi preciso um dispositivo revolucionário para nos fazer dar o salto? Bom, ano passado um garoto de 13 anos chamado Hideo Tanaka nos fez dar um novo salto. “Ele conseguiu isso ao inventar um par de óculos fino e sem fio com hastes de metal e fones de ouvido

retráteis. Não se deixem enganar. Não são nada como os óculos que conhecemos, os que parecem uns tijolões presos na nossa cara. Não, esses óculos ultrafinos são chamados NeuroLink, e são usados com a mesma facilidade de um par de óculos normal. Estamos com o modelo mais recente aqui no estúdio – ele fez uma pausa para colocá-los – e juramos que é a coisa mais sensacional que já experimentamos.” O NeuroLink. Já tinha ouvido esse nome em noticiários. Mas, agora, escutava a explicação na voz daquele locutor de rádio. Por muito tempo, para criar um ambiente de realidade virtual realista, fazia-se necessário renderizar um mundo com o máximo de detalhes possíveis. Isso exigia muito dinheiro e um grande esforço. Mas, por melhores que fossem os efeitos, ainda dava para perceber, ao olhar com atenção suficiente, que não era real. Há milhares de pequenos movimentos no rosto humano a cada segundo, mil tremores diferentes em uma folha de árvore, um milhão de coisinhas que o mundo real tem e o virtual não. Sua mente sabe disso inconscientemente, então alguma coisa vai parecer errada, mesmo se você não conseguir identificar. Por isso, Hideo Tanaka pensou em uma solução mais fácil. Para criar um mundo real sem defeitos, não é preciso desenhar a cena 3D mais detalhada e realista do mundo. Só é preciso enganar a plateia para que pense que é real. E adivinha quem pode fazer isso melhor? Seu cérebro. Quando sonhamos, por mais maluco que o sonho seja, nós acreditamos que é real. Com som totalmente ambiente, em alta definição e com efeitos especiais em 360 graus. E nada daquilo é o que realmente estamos vendo. Nosso cérebro está criando uma realidade inteira, sem precisar de tecnologia nenhuma. Assim, Hideo criou a melhor interface cérebro-computador já construída. Um par de óculos finos. O NeuroLink. Usá-lo ajudava o cérebro a gerar mundos virtuais que pareciam em imagem e som indistinguíveis da realidade. Imagine andar por aí naquele universo: interagindo, jogando, conversando. Imagine andar pela Paris virtual mais realista do mundo ou relaxar em uma simulação completa das praias do Havaí. Imagine voar por um universo de fantasia com dragões e elfos. Qualquer coisa. Com o apertar de um botãozinho na lateral, os óculos também podiam mudar, como lentes polarizadas entre o mundo virtual e o real. E ao olhar para o mundo real por elas, dava para ver coisas virtuais pairando sobre objetos e lugares da vida real. Dragões voando na rua. Os nomes das lojas, restaurantes e pessoas. Para demonstrar como os óculos eram incríveis, Hideo fez um videogame que acompanhava cada unidade. O jogo se chamava Warcross. Warcross era bem simples: duas equipes lutavam, uma tentando capturar o Artefato (uma joia brilhante) da outra equipe sem perder o seu. O que tornava tudo espetacular eram os mundos virtuais em que as batalhas aconteciam, cada um tão realista que, ao botar os óculos, parecia que você tinha sido largado no local. Enquanto o programa de rádio continuava, descobri que Hideo, nascido em Londres e criado em Tóquio, aprendeu sozinho a programar aos 11 anos. A minha idade. Não muito tempo depois, ele construiu o primeiro par de óculos NeuroLink na oficina de consertos de computador do pai, com a ajuda da mãe neurocientista. Os pais dele o ajudaram a pagar por mil óculos, que Hideo começou a enviar para pessoas. Mil pedidos viraram, da noite para o dia, cem mil. Depois, um milhão, dez milhões, cem milhões. Os investidores fizeram propostas impressionantes. Houve processos por causa da patente. Os críticos argumentavam que o motor do NeuroLink modificaria a vida diária, as viagens, a medicina, as forças armadas, a educação. “Link Up” era o nome de uma música popular de Frankie Dena, o grande sucesso do último verão. E todo mundo, todo mundo, jogava Warcross. Alguns jogavam intensamente, formando equipes e batalhando durante horas. Outros jogavam só para relaxar em uma praia virtual ou apreciar um safári virtual. E outros jogavam usando os óculos no mundo real, exibindo seus tigres de estimação virtuais ou

ocupando as ruas com suas celebridades favoritas. Como quer que as pessoas jogassem, tornou-se um estilo de vida. Meu olhar desviou do rádio para as páginas de dever de casa sobre o cobertor. A história de Hideo despertou alguma coisa no meu peito e atravessou a névoa. Como um garoto só três anos mais velho do que eu dominou o mundo de repente assim? Fiquei onde estava até o programa terminar e música começar a tocar. Permaneci deitada lá por mais uma longa hora. Depois, gradualmente, me desencolhi e estiquei a mão para pegar um dos meus deveres. Era da minha aula de Introdução à Ciência Computacional. O primeiro problema era para encontrar o erro em um código simples de três linhas. Eu o observei, imaginando um Hideo de 11 anos na mesma posição que eu. Ele não ficaria deitado ali, olhando para o nada. Teria resolvido aquele problema, o seguinte e o seguinte. O pensamento conjurou uma antiga lembrança do meu pai sentado na minha cama me mostrando as páginas do final de uma revista, onde havia dois desenhos que pareciam idênticos. Mas o leitor tinha que encontrar a diferença entre eles. É uma pegadinha, me lembrei de declarar para ele com os braços cruzados. Meus olhos se apertaram para cada canto das duas imagens. Os desenhos são idênticos. Meu pai deu um sorriso torto e ajeitou os óculos. Ainda havia tinta e cola no cabelo dele, de quando estava fazendo experiências com tecidos mais cedo. Eu precisaria ajudá-lo a cortar os fios grudados depois. Olhe melhor, respondeu ele. Pegou o lápis preso na orelha e fez um movimento circular sobre a imagem. Pense em um quadro pendurado na parede. Sem usar nenhuma ferramenta, você consegue perceber quando está torto, mesmo que seja só um pouquinho. Parece errado. Não é? Eu dei de ombros. É, acho que sim. Os humanos são surpreendentemente sensíveis. Meu pai indicou os dois desenhos de novo com os dedos sujos de tinta. Você tem que aprender a olhar para o todo de uma coisa, não só para as partes. Relaxe os olhos. Examine a imagem inteira de uma vez. Eu prestei atenção, encostada e com o olhar relaxado. Foi nessa hora que eu vi a diferença, a marquinha em um dos desenhos. Ali!, exclamei, apontando com empolgação. Meu pai sorriu para mim. Está vendo?, disse ele. Toda porta trancada tem uma chave, Emi. Eu fiquei olhando para o dever de casa, as palavras do meu pai girando na minha cabeça. E fiz o que ele tinha pedido, recostei-me e observei o código inteiro de uma vez. Como se fosse um quadro. Como se eu estivesse procurando o ponto de fuga. E quase na mesma hora eu vi o erro. Estiquei a mão para pegar o laptop da escola, abri e digitei o código correto. Funcionou. Oi, mundo!, disse o programa no meu laptop. Até hoje, não consigo descrever direito o que senti naquele momento. Ver minha solução funcionando, sendo executada na tela. Perceber que, com três linhazinhas de texto, eu tinha o poder de mandar uma máquina fazer exatamente o que eu queria. As engrenagens na minha cabeça, emperradas por causa do sofrimento, de repente voltaram a girar. Implorando por outro problema. Eu terminei o segundo. E um terceiro. Continuei trabalhando, cada vez mais rápido, até terminar não só aquela folha de dever de casa, mas todos os problemas do meu livro. A névoa no meu peito se dissipou e revelou um coração quente batendo embaixo. Se eu era capaz de resolver aqueles problemas, era capaz de controlar alguma coisa. E, se era capaz de controlar alguma coisa, podia me perdoar pelo único problema que não consegui resolver, pela única pessoa que não consegui salvar. Todo mundo tem um jeito diferente de fugir da imobilidade sombria da mente. Eu descobri que aquele era o meu. Naquela noite, comi todo o meu jantar pela primeira vez em meses. No dia seguinte e no outro e nos que vieram depois, canalizei todas as energias que tinha em aprender tanto quanto pudesse sobre

programação, Warcross e o NeuroLink. Quanto a Hideo Tanaka… daquele dia em diante, assim como o resto do mundo, fiquei obcecada. Eu o observava tão intensamente que era como se estivesse com medo de piscar, incapaz de afastar o olhar, como se ele pudesse iniciar outra revolução a qualquer momento.

4 Meus óculos são velhos e usados, de uma geração bem anterior à mais recente, mas funcionam bem. Eu os coloco, e os fones de ouvido encaixam direitinho, bloqueando o som do tráfego lá fora e os passos do andar de cima. Nosso humilde apartamento (e, com ele, todas as minhas preocupações) é substituído por escuridão e silêncio. Expiro, aliviada de deixar o mundo real para trás por um tempo. Minha visão logo se enche de uma luz azul-néon, e me vejo de pé no topo de uma colina, olhando para as luzes da cidade de uma Tóquio virtual que poderia passar pela verdadeira. O único lembrete de que estou dentro de uma simulação é uma caixa nítida pairando no centro da minha visão. Bem-vindo de volta, [inválido] Fase 24|-N 430 As duas linhas desaparecem. Claro que [inválido] não é meu nome. Na minha conta hackeada, posso andar por aí como uma jogadora anônima. Outros jogadores que cruzarem meu caminho vão me ver com um nome de usuário gerado aleatoriamente. Quando olho para trás, vejo minha sala customizada decorada com variações do logotipo de Warcross. Normalmente, essa sala tem duas portas: jogar uma partida ou ver outras pessoas jogando. Mas hoje há uma terceira, acima da qual há um texto. Jogo da Cerimônia de Abertura de Warcross Ao vivo Na vida real, bato com os dedos no tampo da mesa. Quando faço isso, os óculos sentem os movimentos dos meus dedos, e um teclado virtual aparece. Procuro Keira no diretório de jogadores. Encontro-a na mesma hora, me conecto com ela, e depois de alguns segundos ela aceita o meu convite e aparece do meu lado. Como eu (e a maioria dos demais jogadores), ela fez seu avatar para parecer uma versão idealizada do seu eu real, adornado com alguns itens de jogo descolados que ela comprou, como um peitoral de armadura brilhante e um par de chifres. – Vamos entrar – diz ela. Sigo em frente, estico a mão e abro a terceira porta. Sou banhada de luz. Aperto os olhos, e meu coração dá um pulinho familiar quando o rugido invisível dos espectadores afoga tudo. Uma trilha sonora começa a tocar nos meus fones. Eu me vejo de pé no que parece ser uma dentre um milhão de ilhas flutuantes, encarando o vale mais bonito que já vi. Uma área ampla de planícies verdejantes vira uma lagoa azul cristalina, cercada de penhascos altos e pedras lisas e íngremes, o topo coberto de vegetação. Cachoeiras despencam pelas laterais. Quando olho melhor, percebo que as pedras são na verdade esculturas enormes, cada uma entalhada para parecer com os vencedores dos torneios antigos. Raios de sol dançam pelo vale, lançando luz pelas planícies enquanto as ilhas flutuantes criam áreas de sombras; bandos de aves brancas gorjeiam em formação abaixo de nós. As torres de um castelo nos penhascos aparecem em meio à névoa distante. Mais ao longe, perto do horizonte, criaturas majestosas parecidas com arraias deslizam no ar. Lá, o céu está preto, e há relâmpagos piscando entre as nuvens. Estremeço como se conseguisse sentir a eletricidade no ar.

Até a trilha sonora escolhida para a fase é absurdamente épica, uma orquestra de instrumentos de cordas e tambores graves que fazem meu coração voar. Acima de tudo, uma voz grandiosa ecoa pelo mundo: – Bem-vindos ao Jogo da Cerimônia de Abertura de Warcross. Um ding suave toca, e uma bolha transparente pipoca na minha frente. Login na Cerimônia de Abertura realizado! +150 pts. Pontuação do dia: +150 Fase 24 | -N 580 Em seguida, some. Minha recompensa por assistir à cerimônia de abertura é 150 pontos, que vão me ajudar a subir de fase… só que não, porque eu hackeei essa versão de Warcross. Que pena. Se eu jogasse como uma pessoa normal, provavelmente estaria na fase 90, mais ou menos. Mas ainda estou na 24. – Eles sempre capricham, né? – A voz de Keira me faz piscar. Ela está com uma expressão maravilhada no rosto. Sorrio, respiro fundo e abro os braços. Pulo da minha ilha flutuante. E voo. Meu estômago despenca quando meu cérebro acredita que estou mesmo a milhares de metros no ar. Deixo escapar um gritinho de empolgação enquanto flutuo sobre a planície, a música me deixando energizada. Há restrições para os jogadores competindo oficialmente; alguns mundos permitem que voem ou nadem embaixo d’água, enquanto outros precisam obedecer à gravidade virtual. Mas a plateia sempre tem liberdade de vagar pela paisagem como quiser. Nós não somos capazes de alterar o mundo de forma nenhuma e nem interferir com os jogadores, que não nos enxergam. Eles só podem ouvir os nossos gritos e vaias, assim como os gritos do juiz. Voo direto pelas ilhas flutuantes como um fantasma, indo o mais rápido possível até estar tão longe da Terra quanto sou capaz. Em seguida, me viro e mergulho de volta como um meteoro. Finalmente paro em uma das ilhas flutuantes, na hora que os gritos da plateia se misturam com as vozes dos comentaristas do jogo que saem dos meus fones de ouvido, como se eu os estivesse ouvindo em um rádio. – Está na hora do Jogo da Cerimônia de Abertura anual! – exclama um deles. – Estamos reunidos aqui hoje para ver essa apresentação estelar antes do verdadeiro torneio da temporada começar. Do lado mais distante, temos a Equipe Alfa, liderada por Asher Wing! Do lado mais próximo, temos a Equipe Beta, liderada por Penn Wachowski! Os jogadores finalmente aparecem, espalhados em cantos opostos do grupo de ilhas flutuantes. Vou para longe de Keira e me aproximo para vê-los melhor. A regra de avatares para jogadores oficiais e profissionais de Warcross é que suas representações virtuais devem parecer como eles são de verdade – sem nada da customização maluca que os usuários comuns podem usar –, e que os integrantes de cada equipe devem vestir as mesmas cores. A cor da Equipe Alfa é azul. Tem Jena, com o cabelo louro e os membros longos em sua armadura azul de Warcross sob medida, a textura de escamas de dragão feita de acordo com a fase dela. Ela é uma das jogadoras mais jovens, de apenas 18 anos, como eu, e é da Irlanda. Enquanto estou olhando, ela joga o cabelo por cima do ombro e apoia as mãos nos quadris. As braçadeiras prateadas cintilam ao sol, assim como as facas idênticas presas nas coxas. A plateia grita em aprovação. Em uma ilha flutuante próxima está Max. Ele é filho de multimilionários e formado em Harvard. A posição dele em Warcross é Guerreiro, pela pura força muscular e poder, e, portanto, o seu objetivo é derrubar os oponentes em vez de caçar o Artefato. Aos 28 anos, ele é o jogador mais velho do torneio deste ano. A armadura de ombros dele é enorme e volumosa, tão brilhante que reflete o céu e contrasta intensamente com a pele escura. Tem também Asher, o capitão da equipe, que está mais distante de onde estou. Originalmente

conhecido como irmão mais novo de Daniel Batu Wing, ator e dublê, Asher agora está famoso por seus próprios feitos, graças a Warcross. Ele tem cabelo castanho denso tão claro que é quase louro, e os olhos são de um azul vívido, da mesma cor da lagoa virtual abaixo. A armadura safira tem placas de aço nos ombros e tiras de couro nos braços e cintura. Ele sorri com ousadia, cruza os braços sobre o peito e grita um desafio para a equipe adversária do outro lado do mundo do jogo, o que faz a plateia enlouquecer. Quando mudo o visor para ver a plateia no Tokyo Dome, as pessoas estão gritando o nome dele e balançando feito loucas hastes iluminadas. CASA COM IGO, ASHER!!!, gritam pôsteres de fãs. Asher diz alguma coisa pela linha particular, palavras que só os colegas de equipe conseguem ouvir. Acima da cabeça dele brilha uma pedra azul. É o Artefato da equipe dele. A apresentadora do jogo começou o ritual pré-jogo oficial, lendo algo sobre manter a esportiva e jogar com honra. Enquanto ela fala, minha atenção se volta para a Equipe Beta. Estão todos vestidos de armaduras vermelhas, claro; o jogo anual de abertura sempre separa as equipes em azul e vermelho. Penn, o capitão da Equipe Beta, tem um Artefato vermelho cintilante pairando sobre a cabeça. Ele e Asher exibem expressão de desprezo um para o outro, e os gritos da plateia elevam-se ainda mais. Pelos fones de ouvido, ouço a apresentadora terminar o discurso com um lembrete agora padrão de qual é o objetivo do jogo, para qualquer nova pessoa que esteja assistindo na plateia. – Lembrem-se, equipes, vocês só têm um objetivo: pegar o Artefato da equipe adversária antes que eles consigam pegar o seu! Os jogadores erguem o punho direito. Batem duas vezes no peito, a resposta padrão para aceitar as regras. Há uma pausa breve, como se a fase inteira tivesse congelado de repente. – Jogo! – diz a apresentadora. A plateia fala junto. – Preparar! Lutem! O mundo treme com os gritos da plateia invisível, e as nuvens no céu começam a se mover rapidamente. A tempestade que escurece o horizonte está se aproximando em velocidade assustadora, os relâmpagos mais perto a cada segundo. Como acontece com todos os mundos de Warcross, o jogo fica mais difícil quanto mais tempo dura. Ao mesmo tempo, bolinhas coloridas aparecem, pairando acima das muitas ilhas. Esses itens são power-ups: bônus de explosões temporárias de supervelocidade, asas para ajudar a voar por curtos períodos, escudos de defesa que podem impedir um ataque inimigo e assim por diante. Há dezenas de power-ups diferentes que podem aparecer em um jogo, e novos estão sempre sendo acrescentados. Power-ups de nível baixo (como um que ajude a pular um pouco mais alto) existem aos montes. Vejo três pairando sobre ilhas próximas de mim agora. Mas power-ups de nível alto (como a capacidade de voar o jogo todo) são muito raros e difíceis de pegar. Alguns são tão valiosos que uma equipe pode mandar um dos jogadores atrás dele durante a partida inteira. Os power-ups podem valer muito dinheiro na comunidade de Warcross. Nos jogos regulares, powerups que você pega e não usa podem ser guardados no seu inventário de jogador. Você pode vendê-los ou trocá-los com outros jogadores. Power-ups valiosos podem ser vendidos por milhares de notas. Warcross é tão bem programado que nunca tentei roubar um power-up. Mas encontrei recentemente uma falha de segurança que talvez me permita pegar um item da conta de um usuário bem na hora em que ele for usar. Eu me vejo olhando ao redor agora, me perguntando o quanto de dinheiro conseguiria se pegasse alguns daqueles itens para revender. Mas nenhum dos que vejo são valiosos o suficiente. Cinquenta notas aqui, mais trinta ali. Não vale arriscar fazer um hack no maior jogo de abertura de todos os tempos. Definitivamente não vale arriscar outra marca na minha ficha. – Asher está fazendo a primeira jogada da partida! – A voz de um comentarista ecoa nos meus ouvidos. – Está dando instruções a Jena. Para ela pegar um power-up. Asher realmente viu alguma coisa antes de qualquer outra pessoa. Ele olha primeiro para Jena e faz um

movimento de braço na direção de uma bola distante pairando acima de uma pedra que se projeta alto na extremidade da lagoa. Ela nem hesita. Na mesma hora, pula da ilha flutuante e cai em outra, seguindo na direção da pedra. Atrás dela, a ilha na qual ela estava de pé originalmente se desfaz em pedacinhos. – Alguma coisa chamou a atenção de Asher! – diz outro comentarista. – Só algo importante o faria mandar uma das colegas de equipe ir buscar. Ao mesmo tempo, Asher e seu Guerreiro, Max, saltam para a frente. A outra equipe já partiu para a caçada, se deslocando na direção deles. Cada vez que um jogador pula de uma ilha para outra, a ilha que ficou para trás se desfaz. Eles precisam escolher os passos com sabedoria. Asher e Max se deslocam juntos, a atenção voltada para Penn. Eles vão atacá-lo pelos dois lados. Estico o pescoço na direção onde o objeto distante está, em uma tentativa de ver qual power-up chamou a atenção de Asher. Meu mundo dá um zoom. O power-up é uma esfera brilhante, tão vermelha que parece ter sido mergulhada em sangue. – Morte Súbita! – exclama um comentarista na mesma hora que solto um ofego. Um power-up raro, realmente. A Morte Súbita pode deixar um jogador à sua escolha paralisado pelo resto do jogo, inútil para os colegas de equipe. Nunca vi esse power-up em uma partida regular de Warcross, e só umas poucas vezes em um jogo de torneio oficial. Deve valer pelo menos cinco mil… talvez quinze mil dólares. Max, apesar de todo o seu tamanho, é mais rápido do que Asher. Ele chega a Penn primeiro, depois parte para cima do Artefato vermelho acima da cabeça dele. Penn desvia a tempo. A ilha em que eles estão começa a rachar, incapaz de aguentar os dois por muito tempo, e Penn pula para a ilha mais próxima. Mas a mão de Max se fecha em volta do braço dele antes que ele consiga ir. Max solta um rugido e puxa Penn para trás. Penn sai voando. Consegue se segurar na beirada da ilha antes de desabar na lagoa abaixo. Ele fica pendurado, momentaneamente indefeso e atordoado. A plateia berra quando a barra de energia de Penn diminui por causa do golpe de Max. Penn Wachowski | Equipe Beta Energia: -35%

Agora, Asher se junta à ação. Ele pula da ilha onde está na hora que começa a desmoronar, caindo perfeitamente agachado naquela onde Penn está pendurado. A ilha treme com o impacto. Ele se inclina, segura Penn pelo pescoço antes de ele se recuperar do último golpe, e o joga no chão, rachando o solo. Uma explosão de luz azul irradia de Asher, como um anel, quando ele ataca. Penn Wachowski | Equipe Beta Energia: -92% | ATENÇÃO A plateia invisível berra enquanto um comentarista grita: – Penn vai cair! Se ele não proteger o Artefato da equipe, Asher vai encerrar esse jogo cedo… Penn solta uma das mãos e usa um power-up de Raio em Asher antes que ele possa dar o golpe fatal. Um brilho ofuscante de luz engolfa Asher por um instante. Ele levanta as mãos em vão, mas é tarde demais: o power-up o cegou por cinco segundos inteiros. A barra de energia dele cai vinte por cento. Penn parte para cima do Artefato de Asher. No último instante, Max salva o Artefato ao pegá-lo primeiro, de forma que agora fica pairando sobre a cabeça dele. A plateia solta uma explosão de gritos e vaias. Eu também. Mas minha atenção se volta toda hora para o power-up de Morte Súbita.

Não faça isso. – Um esforço enorme da equipe Beta! Penn anda trabalhando na defesa! – grita um comentarista acima do barulho. Enquanto ele fala, as nuvens de tempestade finalmente chegam a nós, e o sol desaparece acima. – Nós perdemos Kento de vista por um tempo, mas parece que ele está agora indo atrás de Jena. Os dois estão indo pegar o power-up de Morte Súbita! O vento nos atinge. Faz as ilhas flutuantes balançarem no ar. Gotas grossas de chuva começam a cair, deixando cada ilha escorregadia e difícil de manter-se em pé. Eu volto minha atenção para Jena e Kento, que são agora duas figuras pequeninas e luminosas se aproximando rapidamente do power-up pairando acima da pedra. Dou um pulo das ilhas e voo na direção deles. Em pouco tempo, estou perto do Morte Súbita vermelho-sangue, vendo Jena e Kento tentarem pegá-lo. Eu me concentro no power-up. Em teoria, se Jena ou Kento botarem as mãos no power-up, eu talvez consiga invadir as suas contas de jogador. Talvez consiga roubar o Morte Súbita da conta deles. E aí, poderia vendê-lo. Quinze mil dólares. Apesar de tudo, fico tonta de empolgação. Tem como isso funcionar? Invadir um jogo regular de Warcross é uma coisa que nunca aconteceu; um jogo oficial do campeonato, então? Seria algo inédito. Nem sei se dá para acessar as contas deles da mesma forma que no Warcross regular. Meu hack pode não funcionar. Se me pegarem e eu for presa, vou ser julgada como maior de idade. Violar a lei só acelerou a morte do meu pai. E não tornou minha vida mais fácil. Fico onde estou, dividida, a garganta seca. E se eu conseguir roubar? É só um power-up em um jogo; eu não vou fazer mal a ninguém. Nunca testei esse hack de Warcross em uma arena como essa. Mas e se der certo? Eu poderia revender por milhares de dólares. Poderia pegar o dinheiro imediatamente e entregar para o sr. Alsole, pagar minhas dívidas. Esse dinheiro poderia me salvar. E nunca mais faria isso. A tentação me atormenta, e me pergunto se era isso que meu pai sentia cada vez que entrava online para fazer só mais uma aposta. Só uma aposta. Só desta vez. Jena chega ao power-up primeiro. Ela só tem tempo de removê-lo do penhasco antes de Kento a derrubar. Se eu não tomar uma decisão agora, vai ser tarde demais. Instintivamente, entro em movimento. Meus dedos digitam loucamente no tampo da mesa. Abro um diretório de jogadores e procuro o perfil de Jena. Enquanto faço isso, Jena chuta Kento para tirá-lo de cima dela e mergulha em um arco perfeito na direção da lagoa. Um trovão ensurdecedor soa sobre nossas cabeças. O nome de Jena finalmente aparece. Só tenho alguns segundos para agir. Não faça isso. Mas já estou fazendo. Um inventário completo dos pertences virtuais dela aparece. Movo a barra lateral até ver o Morte Súbita novinho em folha na conta dela, brilhando em escarlate. A única falha que encontrei na segurança de Warcross é um bug quando alguém está prestes a usar um item. Quando o item sai de uma conta de usuário para ser usado em jogo, existe uma fração de segundo em que fica vulnerável. Meus dedos tremem. À minha frente, Jena pega o novo power-up Morte Súbita. No inventário dela, vejo-o brilhar em dourado. Agora é a minha chance. Inspiro fundo, espero (não faça isso) e digito um único comando na hora que o item de Jena sai da mão dela. Meu corpo é tomado por um formigamento. Fico paralisada. Na verdade, todo mundo no jogo parece paralisado.

E então, reparo que Asher está olhando diretamente para mim. Como se conseguisse me ver. Eu pisco. Isso é impossível. Eu estou na plateia. Mas Jena também está me olhando. Eles estão de olhos arregalados. É nessa hora que percebo que o Morte Súbita está oficialmente na minha conta agora. Eu o vejo no meu inventário, na parte de baixo da minha visão. Consegui. Meu hack funcionou. Mas, de alguma forma, capturar o power-up produziu um glitch, uma falha que me jogou no torneio. O apito de um juiz ecoa à nossa volta. Os gritos da plateia viram sussurros de choque. Fico onde estou, sem saber o que fazer. Freneticamente, digito outro comando, tentando voltar a ser parte da plateia de novo. Mas não adianta. Todo mundo – os jogadores, os comentaristas, as milhões de pessoas na plateia – consegue me ver. – Quem diabos é você? – pergunta Asher. Só fico olhando, atônita. Um brilho vermelho de luz envolve a cena, e a voz onisciente ecoa em volta de nós. – Pausa – diz ela. – Falha no sistema. Minha tela fica escura. Sou expulsa do jogo e estou de volta na sala inicial, com uma vista virtual de Tóquio. As portas da sala sumiram agora. O power-up Morte Súbita ainda brilha no meu inventário. Mas, quando tento pegar, some. Apagaram do meu diretório. Arranco os óculos. Encosto na cadeira e olho ao redor como louca. Vejo Keira, sentada na minha frente. Ela também tirou os óculos e está me encarando com a mesma expressão de choque que vi no rosto de Jena. – Em – sussurra Keira. – O que você fez? – Eu… – começo a falar, mas paro. Na hora que invadi a conta de Jena, alguma coisa apagou meu anonimato. Fui exposta. Olho para a mesa. Meu coração está disparado. Keira se inclina para a frente. – Eu vi você no jogo – diz ela. – Em… Asher falou com você. Ele viu você. Todos viram você. – Ela levanta as mãos, atônita. – Você provocou um bug no jogo! Ela não faz ideia do tamanho do problema em que acabei de me meter; acha que foi um erro honesto. Por baixo do meu pânico crescente há um oceano de arrependimento. Não sei o que a Henka Games faz quando pega um hacker, mas vão me banir do jogo, sem dúvida. Eu vou ser processada por isso. – Desculpa – respondo, atordoada. – Pode ser… que não façam estardalhaço… As palavras ficam no ar. Keira expira e se encosta na cadeira. Nós não nos falamos por um tempo. Depois de ficar tão imersa em Warcross, o silêncio do apartamento é sufocante. – Você é inteligente, Em – diz Keira, olhando nos meus olhos. – Mas tenho a sensação de que está enganada quanto a isso. Como se combinado, meu telefone toca.

5 Nós duas damos um pulo ao ouvir o toque. Quando olho para o celular, o identificador de chamadas diz: Número desconhecido. – Você não vai atender? – diz Keira para mim, os olhos tão arregalados quanto os meus agora. Eu só balanço a cabeça repetidamente para o celular. Não saio do lugar, até que, depois do que parece uma eternidade, finalmente para de tocar. Na mesma hora, começa a tocar de novo. Número desconhecido. Os cabelos na minha nuca se arrepiam. Eu tiro o som do aparelho e o jogo no sofá para não poder vêlo mais. No silêncio, fico encolhida na cadeira e tento não olhar para a expressão perplexa de Keira. Quem está ligando só pode ser a polícia. Eles viriam me prender agora se eu não atendesse? A Henka Games me processaria? Passa pela minha cabeça que interrompi um jogo assistido por meio bilhão de pessoas, um jogo que movimenta milhões de dólares em patrocínio. A produtora do jogo ofereceria uma recompensa pela minha cabeça, para outros caçadores me rastrearem? Na verdade, podem estar enviando um alerta de texto agora mesmo, e por toda a cidade caçadores podem estar subindo em motos ou entrando em táxis, ansiosos para me pegar. Aperto as mãos trêmulas uma contra a outra no colo. Eu poderia fugir. Eu tinha que fugir. Pegaria o primeiro trem e sairia da cidade até a poeira baixar. Mas faço uma careta com o pensamento impossível. Se fugisse, para onde iria? Até onde conseguiria chegar só com treze dólares? E se… não… quando me pegassem, a fuga só agravaria meu crime. Talvez seja mais seguro ficar onde estou. Keira vai até o sofá. – Ainda está tocando, Em. – Então para de olhar – respondo, com mais hostilidade do que pretendia. Ela levanta as mãos. – Tudo bem, você que sabe. Faça o que quiser. – Sem dizer mais nada, Keira dá as costas para mim e vai até o colchão dela. Fecho os olhos, apoio a cabeça nas mãos e fico deitada sobre a mesa. O silêncio no aposento é sufocante, e apesar de não ouvir o celular, consigo sentir, consigo saber que ainda está tocando. A qualquer momento, vão começar a bater na porta. Toda porta trancada tem uma chave. Mas, desta vez, cheguei ao fim. Não sei por quanto tempo fico sentada à mesa, com pensamentos e planos girando na cabeça até todos se misturarem. Não sei em que momento, no meu estado de exaustão, pego no sono. Só percebo que adormeci quando, no meio da escuridão, um som me desperta. Ding. Ding. Ding. Abro um olho, grogue. É meu alarme despertando? Tem luz do sol entrando pelas persianas nas janelas. Por um instante, admiro como a luz forte está bonita. Na verdade, é o tipo de luz forte que me diz que estou atrasada para alguma coisa. Uma sensação de desespero se concentra no meu estômago. Adormeci à mesa de jantar. Levanto a cabeça. Meu corpo todo está dolorido, e meus braços estão com câimbras e formigando de eu dormir sobre eles a noite toda. Olho ao redor, atordoada. O que aconteceu na noite anterior volta com

tudo. Quando Keira foi para a cama, eu fiquei sentada à mesa, a cabeça nas mãos, me perguntando como pude ser burra a ponto de me revelar para quinhentas milhões de pessoas. Devo ter tido pesadelos; apesar de não me lembrar deles, estou exausta, e meu coração está batendo furiosamente. As ligações de telefone. O identificador de chamadas indicando número desconhecido. Meu coração se aperta, e meus olhos se desviam para o celular, ainda caído no sofá. Dormi algumas horas e ninguém apareceu na porta. Um pouco do meu pânico da noite anterior passa, e o choque de aparecer no meio do jogo de abertura diminui. Talvez nada aconteça. Os eventos até parecem um sonho. Ding. Eu me viro para o som de novo. Veio do meu celular. De repente, lembro que é quarta-feira. Estou atrasada para o trabalho na lanchonete. Deve ser meu chefe mandando mensagens de texto – pois, embora eu tenha deixado as chamadas no mudo, o meu celular ainda faz barulho a cada mensagem recebida. Em um momento, minhas preocupações mudam do bug para o perigo de perder o único ganha-pão que tenho. Pulo da cadeira. Keira se mexe no canto dela, parcialmente escondida atrás da divisória de papelão. Corro para o banheiro e enfio a escova de dentes na boca, passando o pente pelo cabelo colorido embaraçado ao mesmo tempo. Estou usando as roupas da noite anterior. Vai ter que ser assim. Não tenho tempo para me trocar. Eu me xingo em silêncio e termino de escovar os dentes. Vou ser despedida por faltar ao trabalho. Deixo a cabeça pender quando me encosto na pia, lutando contra o peso do mundo. Ding. Ding! Ding! – Ah, pelo amor de… – falo baixinho. Quando meu celular solta mais dois dings, desisto de ignorá-lo e saio correndo do banheiro. – Estou indo – murmuro, como se meu chefe pudesse me ouvir. Pego o celular e olho a longa lista de textos. Oitenta e quatro mensagens, de um número privado. Todas dizem a mesma coisa. S rta. Emika Chen, favor ligar para 212-555-0156 imediatamente.

Uma sensação de inquietação surge na minha barriga. – Em. Eu me viro e vejo Keira de pé, espiando pela persiana. Só agora escuto o som de vozes vindas da rua abaixo. – Emi – diz Keira. – Vem olhar. Ando até ela sem fazer ruído. Frisos finos de luz atravessam a persiana, fazendo listras amarelas nos meus braços. Os lábios de Keira estão franzidos em expressão intrigada. Separo duas placas da persiana e olho para fora. Um amontoado de pessoas ocupa os degraus que levam ao nosso prédio. Estão com câmeras enormes. Vejo siglas nas laterais dos microfones: são dos canais de noticiários locais. Meu estômago despenca. – O que está acontecendo? Keira se vira para me olhar, depois remexe os bolsos em busca do celular. Digita rapidamente alguma coisa. Prendo o ar e escuto o zumbido das vozes lá fora. Keira lê os resultados da busca no celular. A cor sumiu do rosto dela, e seus olhos estão arregalados. – Emi – diz ela. – Você está em toda parte. Eu me vejo olhando para uma lista de artigos de revista, todos com a mesma foto: uma captura de tela minha, com meu cabelo da cor do arco-íris, dentro do jogo de abertura de Warcross, e Asher virado para a minha direção em estado de choque. Keira desliza a tela para baixo. Os artigos continuam, as

manchetes se misturando.

Espectadora entra no jogo de abertura de Warcross WARCROSS HACKEADO! HACKER ATRAPALHA TEMPORARIAMENTE A ABERTURA DE WARCROSS

Quem é Emika Chen? Minha boca fica seca quando vejo meu nome. Sou uma tola por achar que minha gracinha da noite passada atrairia qualquer coisa diferente de holofotes. Minha identidade veio à tona. Aliás, não só veio à tona, como explodiu em mil pedacinhos, que agora estão grudados por toda a internet feito adesivos. É tarde demais para fugir. Fico paralisada enquanto Keira continua a fazer buscas, a expressão cada vez mais perplexa. – Não é possível que estejam falando sobre mim – gaguejo. – Não é possível. Só posso ainda estar dormindo. – Você não está dormindo. – Keira mostra o celular de novo. Leio o feed entupido com o meu nome. – Você está em primeiro lugar dentre os assuntos mais comentados do mundo. Na mesa de jantar, meu celular toca de novo. Nós olhamos ao mesmo tempo. – Keira – digo –, me faça um favor e pesquise um número para mim. – Ela me segue até a mesa de jantar, onde pego o celular e procuro nas mensagens infinitas e idênticas. – 212-555-0156. Keira digita o número em uma ferramenta de busca. Um segundo depois, engole em seco e olha para mim. – É o numero da filial de Manhattan da Henka Games. Um formigamento de pavor desce pela minha espinha e pelos meus braços. A Henka Games me mandou mais de oitenta mensagens de texto. Keira e eu nos entreolhamos por um momento e deixamos a comoção lá fora ocupar o silêncio da nossa sala. – Devem ser os advogados – sussurro. Uma onda de tontura me faz oscilar. Uma série de pensamentos surge: sirenes de polícia; algemas; tribunais; salas de interrogatório. Experiências familiares para mim. – Keira… eles vão me processar. – É melhor você ligar – respondeu Keira. – As coisas não vão melhorar se você ficar apenas esperando. Ela está certa. Hesito por um segundo antes de finalmente pegar meu celular. Minhas mãos tremem tanto que mal consigo digitar os números. Keira cruza os braços e fica andando de um lado para o outro na minha frente. – Coloque no viva-voz – acrescenta ela. Faço isso e seguro o celular entre nós. Eu esperava ouvir uma mensagem automática no estilo “obrigado por ligar para a Henka Games, para falar em inglês aperte 1”, o atendimento típico de um número corporativo. Mas o celular só toca uma vez e uma mulher atende. – Srta. Emika Chen? – diz ela. Fico tão assustada com o cumprimento personalizado que me enrolo na resposta. – Oi. Aqui. Quer dizer, eu. Quer dizer, sou eu. – Faço uma careta. Por que estou surpresa? Obviamente eles sabem meu número de celular, a julgar pela avalanche de mensagens de texto. Devem ter me passado

direto para uma recepcionista de verdade no instante que liguei para o número. Estavam esperando. – Excelente – diz a mulher. – O sr. Hideo Tanaka está na linha para falar com você. Por favor, aguarde. Keira inspira fundo e para de zanzar pela sala. Ela se vira para mim com olhos arregalados. Olho para ela, prestando atenção apenas à música de fundo que agora toca no telefone. Eu estou louca. – Ela acabou de dizer…? Nós duas pulamos quando a música é interrompida de repente. Uma voz de homem soa na linha. É uma voz que eu reconheceria em qualquer lugar, que ouvi em incontáveis documentários e entrevistas, que pertence à última pessoa com quem achei que um dia conversaria. – Srta. Chen? – diz Hideo Tanaka. O sotaque é britânico. Ele estudou em uma escola internacional britânica, lembro a mim mesma com desespero. Estudou em Oxford. A voz, tranquila e refinada, carrega a autoridade de alguém que comanda uma corporação enorme. Só consigo ficar parada, o celular na mão, olhando para Keira como se ela fosse transparente. Keira balança os braços freneticamente para mim, me lembrando que tenho que responder. – Hã – consigo dizer. – Oi. – É um prazer – diz Hideo, e meu celular treme na minha mão. Keira fica com pena de mim e segura o aparelho. Espero que as palavras seguintes de Hideo tenham a ver com meu incidente de hack, então começo a gaguejar na mesma hora uma espécie de pedido de desculpas, como se isso pudesse me ajudar. – Sr. Tanaka, sobre ontem… olha, eu sinto muito mesmo pelo que aconteceu… foi um acidente, eu juro… quer dizer, meus óculos são muito velhos e falham muito… – faço outra careta –, quer dizer… não que suas coisas sejam malfeitas nem nada… e não são! Quer dizer… – Sim. Você está ocupada agora? Se estou ocupada agora? Hideo Tanaka está ao telefone me perguntando se eu estou ocupada agora? Os olhos de Keira parecem que vão pular da cara. Não se faça de idiota, Emika. Fique calma. – Bem – respondo. – Na verdade, estou atrasada para meu trabalho de garçonete… Keira dá um tapa na testa com a palma da mão. Estico as duas mãos para ela em pânico. – Peço desculpas por atrapalhar seu planejamento – diz Hideo, como se minha resposta fosse a coisa mais natural do mundo –, mas você estaria disposta a faltar ao trabalho hoje e vir para Tóquio? Meus ouvidos começam a ecoar. – O quê? Tóquio… no Japão? – É. Eu me encolho, feliz de ele não poder ver meu rosto corando. O que mais poderia ser? Tóquio, Nova Jersey? – Tipo… agora? – pergunto. Um tom de graça surge na voz dele. – É, tipo agora. – Eu, hum… – Minha cabeça gira. – Eu adoraria, mas minha colega de apartamento e eu estamos prestes a sermos despejadas do nosso apartamento amanhã, então… – Suas dívidas foram resolvidas. Keira e eu trocamos um olhar de incompreensão. – Me desculpe… o quê? – murmuro. – Foram… resolvidas? – Foram. Os cálculos que se repetem constantemente na minha cabeça. Aluguel, contas, dívidas. U$1.150, U$3.450, U$6.000. Suas dívidas foram resolvidas. Assim, do nada, os números somem, substituídos apenas por ruído de fundo. Como é possível? Se eu fosse até o apartamento do sr. Alsole agora, ele nos mandaria embora e nos diria que está tudo bem? Por que Hideo Tanaka faria isso? De repente, me sinto tonta, como se pudesse sair flutuando do corpo. Não desmaie.

– Elas não podem estar resolvidas – eu me ouço dizer. – É muito dinheiro. – Eu garanto que foi bem simples. Srta. Chen? – Sim. Desculpe… sim, ainda estou aqui. – Que bom. Tem um carro esperando em frente ao seu prédio, pronto para levá-la ao Aeroporto Internacional John F. Kennedy. Leve o que quiser. O carro está pronto para quando você estiver. – Um carro? Mas, espere, quando é o voo? De que companhia aérea? Quanto tempo tenho para… – É no meu jato particular – diz ele, despreocupado. – Vai decolar quando você estiver dentro dele. Jato particular. – Espere, mas… todas as minhas coisas. Quanto tempo vou ficar aí? – Volto o olhar para Keira. Ela parece pálida, processando o fato de que nossas dívidas foram apagadas em um piscar de olhos. – Se quiser despachar quaisquer pertences para Tóquio – responde ele –, é só dizer e vai ser feito ainda hoje. Até lá, você vai ter tudo de que precisar aqui. – Espere um minuto. – Eu começo a balançar a cabeça. Despachar meus pertences? Quanto tempo ele quer que eu fique lá? Minha testa se franze. – Eu preciso é de um segundo para pensar. Não estou entendendo. – Minhas emoções finalmente jorram, liberando uma torrente de pensamentos. – De que se trata isso? O carro, minhas dívidas, o avião… Tóquio? – digo. – Ontem atrapalhei o maior jogo do ano. Deviam estar com raiva de mim. Você devia estar. Pra que eu vou pra Tóquio? – Respiro fundo. – O que você quer de mim? Há uma pausa do outro lado. De repente, percebo que estou discutindo com uma das pessoas mais poderosas do mundo… o meu ídolo, uma pessoa que observei de longe e sobre quem li e por quem fiquei obcecada durante anos, uma pessoa que mudou minha vida. À minha frente, Keira olha o celular com atenção, como se pudesse ver qual era a expressão do rosto de Hideo através dele. Engulo em seco em silêncio, assustada por um momento. – Eu tenho uma proposta de trabalho para você – responde Hideo. – Você gostaria de saber mais?

6 Confissão: eu viajei de avião um total grandioso de uma vez na vida. Foi depois que minha mãe partiu e meu pai decidiu que devíamos mudar de San Francisco para Nova York. O que me lembro desse voo é o seguinte: um monitor de TV pequenininho para assistir a desenhos; uma janelinha pela qual eu via as nuvens; uma bandeja de comida cheia de quadrados que mais parecia um jogo de Tetris, com uma coisa duvidosa que chamavam de frango; e um emulador de Sonic the Hedgehog 2 no meu celular, o jogo para o qual corria sempre que estava estressada. Por algum motivo acho que meu segundo voo vai ser bem diferente do primeiro. Depois que a ligação com Hideo terminou, a primeira coisa que fiz foi disparar pelo corredor e bater na porta do sr. Alsole. Um vislumbre do rosto atordoado dele foi tudo de que precisei para saber que não tinha alucinado tudo. Nosso aluguel está pago até o final do ano que vem. Arrumo minhas coisas em estado de torpor. Não tenho mala, então acabo enfiando o máximo de roupas que consigo na mochila. Meus pensamentos se embolam, todos sobre Hideo. Para que ele quer que eu vá? Deve ser importante se preciso ser levada assim para Tóquio. Hideo realmente já contratou alguns hackers no passado para ajudá-lo a corrigir bugs em Warcross, mas eles eram bem mais experientes e provavelmente não tinham ficha criminal. E se ele estiver na verdade com raiva de mim, esperando para aplicar a punição quando eu estiver no Japão? É uma ideia ridícula, claro… mas ser imediatamente convidada a fazer as malas e ir para Tóquio também é. Convidada por Hideo Tanaka. O pensamento aquece minhas entranhas de novo, e fico formigando com o mistério do que pode ser essa proposta de trabalho. Os olhos de Keira me acompanham pelo apartamento. – Quando você vai voltar? – pergunta ela, apesar de ter ouvido a mesma conversa que eu. Enfio outra camiseta na mochila. – Não sei – respondo. – Acho que em pouco tempo. – Secretamente, espero estar enganada. – Como você sabe que isso não é uma pegadinha? – diz ela. Há um tom de confusão na sua voz. – Quer dizer… o que aconteceu foi transmitido por toda a internet. Eu paro para encará-la. – O que você quer dizer? – O que impede alguém de ligar para o seu número um milhão de vezes e pregar a maior peça de todos os tempos em você? Deve ser isso. Só pode ser. Um hacker qualquer achou que seria engraçado. Alguém rompeu a segurança fraca do meu celular, imitou a voz de Hideo, armou para cima de mim. Deve estar se escangalhando de rir agora. Mas nosso aluguel está pago. Que pessoa desperdiçaria seu dinheiro em uma pegadinha assim? Só consigo dar de ombros. – Bom, vou ver até onde consigo levar. Não tenho muito a perder. Quando termino de pegar minhas coisas, corro até o amontoado de objetos junto à minha cama. Minha decoração de Natal. O quadro do meu pai. Pego os dois, tomando um cuidado especial com o quadro. É uma explosão de azul, verde e dourado que, quando você se afasta, dá a impressão de ser meu pai de

mãos dadas comigo, me levando por uma noite quente e ladeada de árvores no Central Park. Olho para a imagem por mais um momento e guardo o quadro com cuidado na mochila. Seria legal levar um pouco de sorte comigo nesta viagem. Uma hora depois, estou pronta. Coloco a mochila e o skate nos ombros e saio do apartamento, mas olho para trás, para Keira. Tenho a estranha sensação de que estou observando uma vida para a qual não vou voltar. Que essa vai ser a última vez que vou ver Keira. E percebo que estou ficando sentimental, silenciosamente desejando o melhor para ela. Keira vai ter um apartamento de graça até o final do ano que vem; talvez isso a ajude a se levantar e seguir em frente. – Ei – digo, sem saber direito como me despedir. – A lanchonete da esquina vai precisar de uma pessoa agora. Caso você esteja procurando. – É. – Ela sorri. – Obrigada. – Boa sorte. Ela assente uma vez, solene. Como se também soubesse que a despedida pode ser permanente. – Pra você também – responde ela. Fecho a porta e não olho para trás. Quando abro o portão principal do prédio, uma explosão de flashes me cega. Aperto os olhos e levanto a mão na frente do rosto. Um rugido de vozes se eleva. – Srta. Chen. Srta. Chen! Emika! Eu me pergunto por um instante como aquelas pessoas me reconhecem, isso antes de lembrar que, com as cores do arco-íris no cabelo, é bem óbvio que sou a mesma garota das capturas de tela publicadas. Uma figura enorme sobe os degraus, empurrando os jornalistas para o lado. – Me permita, senhorita – diz ele com tom simpático ao pegar minha mochila e meu skate. Ele estica um braço na minha frente e começa a descer a escada. Quando um jornalista fica insistente, ele o empurra com um rosnado. Sigo meu novo guarda-costas obedientemente, ignorando as perguntas feitas a mim de todos os lados. Nós finalmente seguimos até um carro, o autocarro mais aerodinâmico e lindo que já vi. Aposto que é a primeira vez que um desses é visto na nossa rua. O guarda-costas coloca as minhas coisas no portamalas. Uma das portas do carro se abre automaticamente, espera que eu entre e se fecha. O silêncio repentino e a separação da barulheira lá fora são um alívio. Tudo no automóvel parece tão luxuoso que sinto que o estou estragando só de sentar aqui. O aroma limpo de carro novo paira no ambiente. Tem garrafas de champanhe em um bloco de gelo modelado. Pelas janelas, vejo um amontoado de marcadores virtuais nas ruas e prédios. Avenida Randall, diz uma série de letras brancas sobrepostas à rua em que estamos. Pequenos balões coloridos de texto surgem acima de cada prédio. Condomínio Green Hills. Laundr-O-Matic. Comida chinesa. Esse carro tem o NeuroLink totalmente integrado. As luzes internas do carro se acendem. Uma voz soa. – Oi, srta. Chen – diz a voz. Levo um susto. – Oi – respondo, sem saber direito para onde devo olhar. – Alguma preferência de som ambiente? – continua a voz. – Algo sereno, talvez? Olho para o amontoado de jornalistas ainda gritando para a janela obscurecida do carro. – Sereno seria legal, sr… Carro. – Fred – diz o carro. – Fred – corrijo, tentando não me sentir estranha por conversar com uma garrafa de champanhe em um bloco de gelo. – Oi. Todas as janelas mudam de repente, e os jornalistas lá fora são substituídos pela vista de uma paisagem linda: grama alta balançando ao vento, penhascos brancos ao longo do horizonte, um oceano límpido com espuma clara e um pôr do sol manchando as nuvens de laranja e rosa. Até o caos do lado de fora agora soa abafado, encoberto pelo grasnar das gaivotas e das ondas do mar virtual quebrando.

– Eu sou George – diz o guarda-costas quando o carro começa a nos dirigir para longe dali. – Você deve ter tido uma manhã e tanto. – É – respondo. – Então… você sabe por que estamos indo para o aeroporto? – As instruções que me foram dadas pelo sr. Tanaka se restringiram a acompanhá-la em segurança até o jato. Volto a olhar para a paisagem virtual que passa por nós. Instruções dadas por Hideo. Talvez não seja uma pegadinha elaborada, afinal. Meia hora depois, a vista serena das janelas some, e o mundo real volta a aparecer. Nós chegamos ao aeroporto. Mas em vez de parar no lugar habitual onde os outros carros estacionam, o nosso vira em uma ruazinha curva que nos leva na direção do asfalto atrás do aeroporto. Ali, o carro para em uma garagem particular que fica situada ao lado de uma pequena fileira de jatos. Saio do interior escuro do carro e aperto os olhos para a luz. Um dos jatos tem Henka Games escrito na lateral. É enorme, quase do tamanho de um avião comercial, só que é fino e aerodinâmico, com um design de nariz elegante e afilado que o distingue dos demais jatos. Os painéis nas laterais são estranhos, quase translúcidos. A porta principal está aberta, e uma escada desce até o chão, onde tem um tapete vermelho fofo. Esse é o avião que o próprio Hideo usa sempre que viaja. – Por aqui, srta. Chen – diz George com uma leve curvatura de cabeça. Estou prestes a ir para a parte de trás do carro pegar minha mochila, mas ele me para. – Você não vai precisar carregar nada nesta viagem – acrescenta ele com um sorriso. Eu fico constrangida, com as mãos abanando, enquanto George pega minhas coisas e me leva na direção do jato. Subo a escada. No alto, dois comissários de bordo vestidos com uniformes impecáveis me oferecem sorrisos brilhantes e inclinam a cabeça. – O sr. Tanaka lhe dá as boas-vindas a bordo – diz um deles para mim. Assinto, sem saber como responder. Hideo está sendo informado de onde estou agora? Ele sabe que estou subindo a bordo do avião nesse exato momento? Meus pensamentos estão voltados para as palavras do comissário de bordo… até eu entrar e olhar o interior do jato. Agora entendo por que os painéis externos pareciam tão translúcidos. O interior aparenta ser feito de painéis de vidro, pelos quais vejo o aeroporto, a pista de pouso e o céu. Olhando melhor, os painéis têm o logo da Henka Games gravados em um suave baixo-relevo. Linhas finas de luz contornam os painéis. Até hoje, eu só tinha visto aviões lotados de assentos, mas esse possui um sofá inteiro de couro na parte mais ao fundo, uma cama de cada lado, um banheiro com chuveiro, e duas poltronas reclináveis na parte da frente. Uma taça de champanhe e um prato de frutas frescas ocupam a mesa que separa as poltronas. Fico paralisada por um momento, desconfortável de repente no meio de tanta extravagância. George coloca minha mochila em um armário nos fundos do avião. Em seguida, levanta o chapéu e dá um sorriso. – Tenha uma linda viagem – diz ele. – Que o voo seja bom. – Antes que eu possa perguntar o que ele quer dizer, ele se vira e desce a escada para voltar para o carro. Quando os comissários fecham a porta, um deles me convida a ficar à vontade. Ando até uma das poltronas, afundo cautelosamente no couro macio e inspeciono os braços. Será que os painéis de vidro mudam como as janelas do carro em que acabei de andar? Estou prestes a perguntar para o comissário que está se aproximando de mim, mas sou interrompida quando ele me entrega um par de óculos. Reconheço na mesma hora como óculos de Warcross da geração mais recente, vendidos nas lojas, bem mais poderosos do que os velhos alugados que eu usava até então. – Para seu entretenimento – diz o comissário, sorrindo para mim. – E para uma experiência de voo plena. – Obrigada. – Viro os óculos nas mãos, admirando o ouro maciço das hastes. Meus dedos param acima de um logo elegante que diz Alexander McQueen para Henka Games. São uma versão de luxo de edição

limitada dos óculos. Meu pai ficaria sem ar de tanta empolgação. Estou prestes a colocá-los quando o avião começa a se mover. Meus olhos vão para os painéis de vidro nas laterais e no alto da aeronave. Consigo ver através deles até o asfalto, e consigo enxergar até mesmo o trem de pouso da frente. Se eu olhar com vontade, parece que os assentos estão flutuando, sem nada nos separando do lado de fora. O chão passa cada vez mais rápido. Acima de mim, há um céu azul limpo, e parece que vamos ser lançados para a morte certa. Então o avião deixa a pista para trás, e meu corpo é ligeiramente pressionado contra o assento. Pelos painéis de vidro, o mundo abaixo se afasta, e de repente… estamos no ar. Só percebo a força com que estou apertando a poltrona quando o comissário de bordo me cutuca. Olho para cima e vejo o sorriso relaxado dele. – Não precisa se preocupar, senhorita – diz ele acima do zumbido do motor. – Este é um dos aviões mais modernos do mundo. É supersônico. Daqui, vamos viajar até Tóquio em menos de dez horas. – Ele indica o braço da poltrona, e quando sigo o olhar dele, vejo que os nós dos meus dedos estão completamente brancos de tanto eu apertar. Solto o ar com cuidado e afrouxo os dedos. – Certo – respondo. Quando começamos a aplainar na altitude certa, o mundo desaparece completamente sob um tapete de nuvens. Os painéis agora mudam para um tom opaco, deixando apenas duas tiras horizontais de vidro transparente dando visão para o lado de fora. O comissário de voo me diz para botar os óculos, e assim o faço. Na mesma hora, reparo em várias diferenças entre eles e os meus antigos de aluguel. Os novos óculos são mais leves, e encaixam com mais conforto no meu rosto. Quando os coloco, deixando o mundo ao meu redor um pouco mais escuro, e ponho os fones nos ouvidos, uma voz de mulher se faz ouvir. – Bem-vinda – diz a voz. Os óculos ficam completamente pretos, bloqueando a visão de meus arredores. – Por favor, olhe para a sua esquerda. Quando faço o que a voz mandou, vejo uma esfera vermelha se materializar no campo esquerdo da minha visão, pairando no espaço escuro. Um ding agradável soa. – Confirmado. Por favor, olhe para a sua direita. A esfera vermelha some. Eu obedeço, e quando olho para a minha direita, há uma esfera azul flutuando. Outro ding. – Confirmado. Por favor, olhe para cima. A esfera azul também some. Olho para cima e vejo uma esfera amarela flutuando. Ding. – Confirmado. Por favor, olhe para a frente. Na escuridão, uma esfera cinza aparece, seguida de um cubo, uma pirâmide e um cilindro. Mais uma vez, o ding soa, acompanhado de um breve formigar nas minhas têmporas. – Por favor, junte seu indicador e seu polegar com ambas as mãos. Faço como é pedido, e há uma série de testes rápidos dos meus movimentos. – Obrigada – diz a voz. – Você agora está calibrada. Esses novos óculos têm um sistema muito melhor do que os antigos. Com essa simples calibragem, os óculos agora devem ser capazes de identificar as preferências e variações do meu cérebro o suficiente para sincronizar tudo relacionado a Warcross comigo. Eu me pergunto se meus hacks ainda vão funcionar. Os óculos se acendem e ficam límpidos, e consigo ver o interior do avião novamente. Desta vez, uma camada de realidade virtual surge na minha visão, e os nomes dos comissários de bordo flutuam acima da cabeça deles. Enquanto observo, um texto branco transparente aparece no centro do meu visor. Bem-vinda a bordo do Jato Particular da Henka Games + 1.000 pts. Pontuação do dia: + 1.000 Fase 24|-N 1.580

O texto some, e um feed de vídeo virtual aparece, mostrando um jovem sentado a uma mesa comprida. Ele se vira para mim e sorri. Já vi esse homem vezes suficientes em entrevistas para reconhecê-lo na mesma hora: Kenn Edon, diretor criativo de Warcross e confidente de Hideo. Ele faz parte do Comitê Oficial de Warcross, o grupo de pessoas que escolhem as equipes e os mundos que vão aparecer nos torneios do campeonato de cada ano. Agora, ele se encosta, passa a mão pelo cabelo dourado e me oferece um sorriso. – Srta. Chen! – exclama ele. Ofereço um aceno fraco da mão em resposta. Ele olha para trás. – Ela está online. Quer falar com ela? Ele está conversando com Hideo, eu percebo, e meu coração pula até a garganta, em pânico com a ideia de que ele poderia me ver agora. A voz inconfundível de Hideo responde de algum lugar atrás de Kenn que não consigo ver. – Agora não – diz ele. – Mande lembranças. Meu momento de pânico vira uma pontada de decepção. Eu não devia estar surpresa: Hideo provavelmente está ocupado. Kenn se vira para a frente para me acenar um pedido de desculpas. – Você vai ter que desculpá-lo – afirma Kenn. – Se ele soa um pouco distante, garanto que não tem nada a ver com o entusiasmo que sente por você. Nada consegue afastá-lo quando está trabalhando em alguma coisa. Ele deseja agradecer a você por ter vindo tão prontamente. Kenn parece estar acostumado a pedir desculpas em nome do chefe. Em que Hideo está trabalhando? Já estou tentando descobrir que tipo de realidade virtual nova eles instalaram na sede principal. Kenn não está usando óculos, para começo de conversa. O fato de eu conseguir ouvir Hideo responder apesar de ele não estar logado e nem usando óculos, e de conseguir ver Kenn falando comigo ao vivo assim, sem dúvida é tecnologia nova. – Acredite – respondo, olhando ao redor. – Não estou incomodada. O sorriso de Kenn se alarga. – Ainda não posso dar muitos detalhes sobre o motivo de você estar vindo para cá. Isso vai ser com Hideo. Ele está ansioso para conhecê-la. – Outra onda de calor toma conta de mim. – Mas me pediu para dizer algumas coisas, para preparar você. Eu me inclino para a frente na cadeira. – Sim? – Vamos ter uma equipe pronta para levá-la para o seu hotel quando você chegar. – Ele levanta as duas mãos. – Alguns dos seus novos fãs podem estar reunidos no aeroporto para cumprimentá-la. Mas não se preocupe. Sua segurança é nossa prioridade. Eu pisco. Vi a lista de artigos de notícias que pipocaram hoje de manhã, e houve o grupo de jornalistas na porta do nosso prédio. Mas em Tóquio também? – Obrigada – decido dizer. Kenn batuca com os dedos uma vez na mesa. Eu escuto. – Depois que chegar, você vai ter a noite para descansar. Na manhã seguinte, você virá aqui para a sede principal da Henka Games para conhecer Hideo. Ele vai contar tudo que você precisa saber sobre o recrutamento. As últimas palavras de Kenn me deixam paralisada. É um pensamento tão maluco que eu não sei como reagir. – Espere – digo. – Calma. Você disse… recrutamento? – O recrutamento para determinar os jogadores deste ano no campeonato oficial de Warcross? – Ele pisca, como se estivesse esperando que eu entendesse. – Ora, ora, acho que disse. Parabéns.

7 Todos os anos, um mês antes dos jogos oficiais começarem, acontece o Wardraft, um evento assistido por praticamente todo mundo que se interessa por Warcross. É onde as equipes oficiais de Warcross selecionam os jogadores que farão parte das suas equipes durante os jogos do ano. Todo mundo sabe, claro, que os jogadores experientes provavelmente vão ser selecionados de novo. Jogadores como Asher e Jena, por exemplo. Mas sempre tem um grupo de coringas no meio da seleção, jogadores amadores indicados porque são muito bons no jogo. Alguns deles então ascendem e se tornam jogadores escolhidos regularmente. Este ano, eu vou ser um coringa. Não faz sentido. Eu sou uma boa jogadora de Warcross, mas nunca tive tempo nem dinheiro para conseguir experiência e nível suficientes para chegar aos rankings mundiais. Na verdade, serei o único coringa na seleção deste ano que não está em nenhum ranking internacional. E que tem ficha criminal. Tento dormir no avião. Mas, apesar da cama luxuosa e enorme ser melhor do que qualquer colchão em que já tenha me deitado, acabo só rolando de um lado para o outro. Finalmente, desisto e pego meu celular, carrego o emulador de Sonic the Hedgehog 2 e começo um novo jogo. A música familiar e metálica da Emerald Hill Zone toca. Enquanto corro por um caminho que sei de cor, consigo sentir meus nervos se acalmando, meus batimentos se firmando um pouco à medida que esqueço o dia e me preocupo com quando preciso pular e atacar um robô de dezesseis bits. Eu tenho uma proposta de trabalho para você. Foi o que Hideo disse, uma proposta sobre a qual me contaria os detalhes pessoalmente. Não parece uma coisa que ele faria por todos os coringas dos jogos. Meus pensamentos vão para as histórias que ouvi sobre Hideo. A maioria das pessoas nunca o viu sem ser de camisa e calça social ou smoking. Seus sorrisos são raros e reservados. Um funcionário disse em uma entrevista para certa revista que uma pessoa só era qualificada para trabalhar na Henka Games se conseguisse suportar o escrutínio do olhar penetrante de Hideo enquanto fazia uma apresentação para ele. Já vi transmissões ao vivo de repórteres tropeçando nas perguntas na sua presença, enquanto ele esperava com paciência e educação. Imagino como vai ser nosso encontro. É possível que ele dê uma olhada em mim e me mande de volta a Nova York sem dizer nada. O relógio flutuando no teto acima da minha cama me diz que são quatro da manhã no meio do Oceano Pacífico. Talvez eu nunca mais consiga dormir. Meus pensamentos giram. Nós vamos pousar em Tóquio em poucas horas, e depois vou conversar com Hideo. Eu talvez jogue nos jogos oficiais de Warcross. Como isso é possível? Ontem à noite, eu hackeei a cerimônia de abertura em uma tentativa desesperada de ganhar dinheiro rápido. Hoje, estou indo para Tóquio em um jato particular, em uma viagem que pode mudar minha vida para sempre. O que meu pai pensaria? Meu pai. Acesso minha conta e abro o menu, as palavras de um branco transparente no meu visor. Estico a mão e clico em um item do menu. Mundos de Lembrança Quando o seleciono, o menu abre um subconjunto de opções. Cada uma para a qual olho por mais de

um segundo começa a exibir uma prévia de uma Lembrança armazenada. Há Lembranças minhas com Keira comemorando nossa primeira noite no apartamentinho que alugamos, e uma segurando meu primeiro cheque depois da minha primeira caçada bem-sucedida. Tem também minhas Favoritas Compartilhadas, Lembranças criadas por outros usuários que qualquer um pode ver, como estar no lugar de Frankie Dena quando ela canta no Super Bowl ou na pele de um garotinho coberto por uma pilha de cachorrinhos, uma Lembrança compartilhada mais de um bilhão de vezes. Finalmente, vou ao meu subconjunto favorito, minhas Lembranças mais antigas, guardadas em uma categoria separada nos Favoritos. São vídeos velhos que gravei em um celular antes que o NeuroLink sequer existisse, vídeos que depois baixei para a minha conta. São do meu pai. Percorro a lista e escolho um. É do meu décimo aniversário, e as mãos do meu pai estão cobrindo meus olhos. Apesar de ser um vídeo velho e granulado de celular, enche minha visão pelos óculos como uma tela gigantesca. Sinto a mesma expectativa que senti no dia, sou invadida pela mesma onda de alegria quando as mãos do meu pai se abrem para revelar um quadro que ele pintou de nós dois andando por um mundo de pinceladas coloridas que parece o Central Park no crepúsculo. Pulo para cima e para baixo, giro o quadro e subo em uma cadeira para segurá-lo no ar. Meu pai sorri para mim, depois estica os braços para me ajudar a voltar para o chão. O vídeo prossegue até acabar e seguir automaticamente para a Lembrança armazenada seguinte. Meu pai de japona preta e um cachecol vermelho, me guiando pelos corredores do Museu de Arte Moderna. Meu pai me ensinando a pintar. Meu pai e eu escolhendo peônias do Flower District enquanto chove lá fora. Meu pai gritando Feliz Ano Novo! para mim em um telhado com vista para a Times Square. As Lembranças vão sendo reproduzidas sem parar, até eu não saber se entraram em loop e recomeçaram novamente, e aos poucos pego no sono, cercada de fantasmas.

NOS M EUS SONHOS, estou de volta ao ensino médio, revisitando o que me levou à minha ficha criminal. Annie Pattridge era uma garota desajeitada e tímida da minha escola, uma menina com olhos gentis que ficava na dela e almoçava em um canto da pequena biblioteca da escola. Às vezes eu a encontrava lá. Eu não era exatamente amiga dela, mas éramos cordiais uma com a outra – conversamos algumas vezes sobre nosso amor compartilhado por Harry Potter, Warcross, League of Legends e computadores. Em outras ocasiões, eu a via recolhendo livros do chão depois que alguém os derrubara dos seus braços, ou a encontrava sendo empurrada contra os armários enquanto outros alunos grudavam chiclete no seu cabelo, ou a observava saindo do banheiro das meninas com os óculos rachados. Mas um dia, um garoto que trabalhava em um projeto de grupo com Annie conseguiu tirar uma foto dela tomando banho na privacidade da própria casa. Na manhã seguinte, a foto de Annie nua tinha sido enviada para todos os alunos da escola, compartilhada nos fóruns de dever de casa e postada online. Em seguida, vieram as provocações. As impressões da foto, todas com desenhos cruéis. As ameaças de morte. Annie largou a escola uma semana depois. No dia que ela fez isso, peguei os dados de todos os alunos (e alguns professores) que compartilharam a foto. O sistema administrativo da escola? Tão fácil de invadir quanto um computador cuja senha é Senha. A partir daí, invadi o celular de cada um deles. Baixei todas as informações pessoais: os dados de cartão de crédito dos pais, número do seguro social, números de telefone, todos os e-mails e mensagens de ódio que mandaram anonimamente para Annie e, claro, o mais incriminador, as fotos particulares. Tomei cuidado especial de pegar tudo do garoto que tirou a foto. Em seguida, postei cada informação online, com o título “Trolls no Calabouço”. Imagine a confusão no dia seguinte. Alunos chorando, pais furiosos, reunião na escola, notícias nos

jornais locais. Depois, a polícia. Depois, eu expulsa. Depois, eu no tribunal. Acesso a sistemas de computador sem autorização. Divulgação intencional de dados sensíveis. Conduta negligente. Quatro meses em uma instituição juvenil. Proibida de tocar em um computador por dois anos. Uma marca vermelha permanente no meu registro, independente da idade, por causa da natureza do crime. Talvez eu tenha errado, talvez um dia olhe para trás e me arrependa de ter reagido daquele jeito. Ainda não tenho certeza de por que me joguei no fogo por causa desse incidente específico. Mas, às vezes, as pessoas chutam você no chão no recreio porque acham o formato dos seus olhos esquisito. Partem para cima de você porque veem um corpo vulnerável. Ou uma cor de pele diferente. Ou um nome difícil. As pessoas acham que você não vai reagir, que vai abaixar a cabeça e se esconder. E, às vezes, para se proteger, para fazer com que tudo passe, você faz isso mesmo. Mas às vezes você se vê na posição certa, com a arma certa para retribuir a pancada. Foi o que eu fiz. Bati rápido e forte e com fúria. Eu os atingi com nada além da linguagem sussurrada entre circuitos e fios, a linguagem que pode deixar as pessoas de joelhos. E, apesar do que aconteceu, eu faria tudo de novo.

QUANDO FINALM ENTE POUSAM OS, estou exausta. Visto minha blusa amassada, pego a mochila com meus poucos pertences e vou atrás do comissário de bordo pela rampa. Meus olhos seguem para o texto japonês impresso na entrada dos terminais do aeroporto. Não entendo nada… mas não preciso, porque uma tradução aparece acima na minha visão virtual. BEM -VINDA AO AEROPORTO DE HANEDA!, diz o texto. ESTEIRAS DE BAGAGEM . VOOS DE CONEXÃO INTERNACIONAL. Um homem de terno preto está me esperando no final da rampa. Diferentemente de Nova York, aqui consigo enxergar o nome flutuando acima da cabeça dele mesmo sem usar hack e sei que se chama Jiro Yamada. Ele sorri atrás de seus óculos, faz uma reverência e olha para trás de mim como se esperando mais malas. Como não vê nenhuma, pega a minha mochila e o meu skate e me dá boas-vindas. Demoro um segundo para registrar que Jiro está falando comigo em japonês… e que isso não importa, porque consigo ver um texto em branco transparente aparecendo sob o rosto dele, uma legenda que traduz tudo que ele diz. – Bem-vinda, srta. Chen – diz o texto. – Sua passagem pela alfândega já foi resolvida. Venha. Enquanto o sigo até o carro que nos aguarda, observo os arredores. Não tem nenhum jornalista me esperando. Relaxo. Entro no carro, idêntico ao que me levou até o aeroporto em Nova York, e vamos até a saída. Como antes, aparece uma cena relaxante (desta vez, uma floresta tranquila e silenciosa) nas janelas do carro. É lá que a multidão está. Quando nos aproximamos do portão de saída, um amontoado de gente corre para perto da guarita e aponta câmeras para nós. Só as vejo pela janela da frente. Mesmo assim, me encolho no assento. Jiro abaixa a janela um pouquinho para gritar para os jornalistas saírem do caminho. Quando eles saem, o carro segue em frente, os pneus cantando um pouco quando entramos na rua que leva à via expressa. – Podemos tirar o cenário das janelas? – pergunto a Jiro. – Eu nunca vi Tóquio. Em vez de Jiro me responder, o carro responde: – Claro, srta. Chen. Claro, srta. Chen. Acho que nunca vou me acostumar com isso. A cena de floresta das janelas some e o vidro fica transparente. Olho com espanto para a cidade da qual estamos nos aproximando. Eu já vi Tóquio na televisão, online e na fase Tóquio Noturna de Warcross. Já fantasiei tanto em estar

aqui, que vi até nos meus sonhos. Mas agora estou realmente aqui. E é ainda melhor do que qualquer uma dessas coisas. Arranha-céus que desaparecem nas nuvens noturnas. Vias expressas umas em cima das outras, mergulhadas nas luzes vermelhas e douradas dos carros que passam. Trens de alta velocidade correndo no céu e desaparecendo no subterrâneo. Comerciais passando em telas com oitenta andares de altura. Um caleidoscópio de cores e sons para todo lugar que eu olho. Não sei no que me focar primeiro. Quando nos aproximamos do coração de Tóquio, as ruas ficam cheias, tanto que o mar de gente lotando as calçadas faz a Times Square parecer vazia. Só percebo que estou boquiaberta quando Jiro olha para mim e ri. – Vejo muito essa expressão – diz ele (ou melhor, minha legenda indica que é isso que ele está dizendo). Engulo em seco, constrangida de ele ter me visto de queixo caído, e fecho a boca. – Esse é o centro de Tóquio? – Tóquio é grande demais para ter só um bairro central. Existem vinte e quatro seções, cada uma com características próprias. Estamos entrando em Shibuya agora. – Ele faz uma pausa para sorrir. – Eu recomendaria colocar seus óculos em modo de realidade virtual. Bato na lateral dos óculos para fazer como ele diz e, então, ofego. Diferentemente de Nova York e do resto dos Estados Unidos, Tóquio parece completamente refeita para realidade virtual. Nomes de prédios flutuam em cores néon acima de cada arranha-céu, e propagandas coloridas e animadas passam em laterais inteiras de prédios. Há modelos virtuais na frente de lojas de roupas, cada um girando para exibir uma variedade de trajes. Reconheço uma das modelos virtuais como uma personagem do último jogo da série Final Fantasy, uma garota com cabelo azul que agora me cumprimenta pelo nome e exibe sua bolsa Louis Vuitton. Um botão de comprar agora paira acima da bolsa, esperando para ser clicado. O céu está cheio de naves virtuais e esferas coloridas, algumas exibindo notícias, outras exibindo comerciais, outras ainda só parecendo estar ali porque são bonitas. Enquanto seguimos, consigo ver um texto bem clarinho e transparente no centro da minha visão indicando a quantos quilômetros estamos do centro do bairro Shibuya, assim como a temperatura atual e a previsão do tempo. As ruas estão lotadas de jovens com trajes complicados: saias de renda gigantescas, guarda-chuvas elaborados, botas de vinte e cinco centímetros de altura, cílios que parecem se estender por quilômetros, máscaras que brilham no escuro. Algumas pessoas têm seus níveis de Warcross flutuando acima da cabeça, bem como corações, estrelas e troféus. Outros têm bichinhos virtuais andando ao lado, cachorros virtuais roxos ou tigres virtuais prateados cintilantes. E ainda há aqueles que usam todo tipo de item de avatar, como orelhas de gato ou antenas na cabeça, asas enormes de anjo nas costas, cabelo e olhos de todas as cores. – Como estamos oficialmente na temporada de jogos – explica Jiro –, você vai ver isso com frequência. – Ele indica uma garota na rua com Fase 80 e ♥ 3.410.383 acima da cabeça, sorrindo quando várias pessoas a cumprimentam com um “toca aqui”, espalmando as mãos no alto, e a parabenizam pela pontuação alta. Um falcão virtual voa em círculos em volta da cabeça dela, a cauda ardendo em chamas. – Aqui, quase tudo que você fizer conquista pontos para a sua fase no Link. Ir à escola. Ir trabalhar. Fazer o jantar. E assim por diante. Sua fase pode gerar recompensas no mundo real, qualquer coisa desde popularidade com seus colegas de sala a um serviço melhor em restaurantes, até mesmo uma vantagem em relação a outros em uma entrevista de emprego. Assinto enquanto observo tudo com espanto. Já tinha ouvido falar que muitas partes do mundo são assim. Como se combinado, uma bolha transparente aparece na minha visão com um ding agradável. Primeira vez em Tóquio!

+350 pontos. Pontuação do dia: +350 Você subiu de fase! Minha fase pula de 24 para 25. Sinto uma onda repentina de euforia quando vejo isso. Meia hora depois, nós entramos em uma rua tranquila que sobe uma colina e paramos na frente de um hotel perto do topo. O nome, Crystal Tower Hotel, e o endereço flutuam acima do telhado. Posso nunca ter vindo a Tóquio, mas até eu consigo perceber que é um bairro chique, com calçadas perfeitamente limpas e fileiras organizadas de cerejeiras que ainda não floresceram. O hotel possui pelo menos vinte andares, tem design moderno e uma imagem virtual de uma carpa nadando na lateral. Jiro segura minha mochila quando saio do carro. As beiradas das portas deslizantes de vidro se acendem quando nos aproximamos, e ao entrarmos, dois funcionários fazem reverência para nós em ambos os lados da entrada. Inclino a cabeça, desajeitada. – Bem-vinda a Tóquio, srta. Chen – diz a recepcionista quando chegamos na recepção. Acima da cabeça dela está o nome, SakuraMorimoto, seguido de Recepção e Fase 39. Ela inclina a cabeça para mim. – Oi – respondo. – Obrigada. – O sr. Tanaka pediu nossa melhor suíte para você. Por favor – diz ela, esticando um braço na direção dos elevadores. – Por aqui. Nós a seguimos até um elevador, onde ela aperta o botão do andar mais alto. Meu coração dispara de novo. Hideo escolheu pessoalmente meu quarto. Não consigo nem lembrar a última vez que estive em um quarto de hotel; deve ter sido quando meu pai conseguiu um convite para a New York Fashion Week e nós dois ficamos em um hotelzinho porque eu chamei a atenção de um olheiro de modelos. Mas não chegava nem perto disso. Quando chegamos ao último andar, a recepcionista nos leva até a única porta no corredor. Ela me entrega um cartão magnético. – Aprecie sua estada – diz com um sorriso. Em seguida, abre a porta e me leva para dentro. É a cobertura. Entramos em um espaço inúmeras vezes maior do que qualquer lugar onde eu tenha morado. Uma cesta cheia de frutas frescas e petiscos com sabor chá verde ocupa a mesa de centro de vidro. Há um quarto e uma sala com uma janela de vidro curvo que vai do chão ao teto com vista da cintilante Tóquio. Daqui, com meus novos óculos, consigo ver os nomes virtuais das ruas e prédios piscando conforme ando pelo cômodo. Ícones (corações, estrelas, joinhas) se amontoam sobre várias partes da cidade, enfatizando as áreas que a maioria das pessoas marcou como lugares favoritos, lojas ou locais de encontros com amigos. Ando em direção a janela até meus sapatos baterem no vidro e olho para a cidade, impressionada. A Tóquio virtual de Warcross é uma visão e tanto… mas essa aqui é real, e saber que é real me deixa tonta. Uma bolha transparente surge de novo: Fez check-in na Cobertura 1 do Crystal Tower Hotel +150 pts. Pontuação do dia: +500 Fase 25|-N 1.580 – É melhor do que imaginei – digo. A recepcionista sorri, embora talvez seja uma coisa bem boba para ela. – Obrigada, srta. Chen – responde, com outra reverência. – Se precisar de alguma coisa durante sua estada, é só me avisar e vou providenciar. Quando ela fecha a porta ao sair, dou outro giro completo pelo quarto. Meu estômago ronca como se em resposta, me lembrando que uma refeição decente seria legal. Ando até a mesa de centro, onde uma opção chamada jantar no quarto paira no ar. Clico nas palavras

virtuais e sou cercada de repente por pratos flutuantes. Deve haver centenas de opções: hambúrgueres enormes pingando queijo derretido, pratos de espaguete com molho denso e almôndegas, pratos variados de sushi, tigelas fumegantes de sopas de macarrão em caldo grosso, frango frito crocante com arroz, bolinhos de carne de porco e bolinhos fritos, ensopados com carne e legumes, mochi brilhoso e macio de sobremesa com recheio doce de feijão-vermelho… os pratos não acabam. Minha cabeça gira até que finalmente escolho frango frito e bolinhos. Enquanto espero, passo dez minutos inteiros tentando entender como usar o banheiro e mais dez acendendo e apagando as luzes só balançando as mãos. E quando meu pedido chega, tudo está ainda mais gostoso do que parecia. Eu nunca comi uma refeição tão chique; não tenho na memória a última vez que comi algo que não viesse em uma caixinha. Quando não aguento comer mais nada, vou até a cama e me deito com um suspiro satisfeito. A cama é absurdamente confortável, firme o bastante para eu poder afundar lentamente até parecer que estou deitada em uma nuvem. Meu colchão no apartamento foi obtido de graça em uma calçada, um colchão velho de molas que chiava cada vez que me mexia. Agora, aqui estou eu, hospedada nessa cobertura enorme que o próprio Hideo pediu para mim. Meu humor satisfeito oscila, e tenho de repente uma sensação de não pertencer. Uma garota como eu não devia estar tocando nesses lençóis de luxo, comendo essa comida cara, dormindo em um quarto maior do que qualquer casa em que já esteve. Meu olhar vai até o canto da suíte, procurando os colchões no chão, a figura de Keira encolhida embaixo de um cobertor no sofá. Ela teria olhado para mim com aquela expressão de espanto. Você acredita nisso?, diria ela. Quero responder para ela, para alguém. Mas Keira não está aqui. Nada é familiar aqui, só eu mesma. Amanhã de manhã, às dez horas. Passa pela minha cabeça que nem tenho roupas adequadas para usar: nem terninhos de entrevista, nem uma calça ou uma blusa apropriada. Vou entrar na Henka Games amanhã parecendo uma garota tirada das ruas, literalmente. É assim que vou conhecer o jovem mais famoso do mundo. E se Hideo se der conta de que cometeu um erro enorme?

8 Uma calça jeans rasgada, com meus dois joelhos aparecendo. Minha camiseta velha favorita com uma estampa vintage da SEGA. O mesmo par de botas surradas que uso quase todos os dias. Uma camiseta xadrez vermelha de flanela, desbotada de tantas lavagens. Meu pai ficaria horrorizado. Apesar do conforto da cama, fiquei rolando de um lado para o outro a noite toda. Acordei ao amanhecer, com os olhos ardendo e desorientada, a cabeça lotada de pensamentos. Agora, estou com olheiras, e minha pele já viu dias melhores. Passei minha pobre camisa de flanela da melhor maneira que consegui, duas vezes, mas a gola ainda parece amassada e gasta. Dobro as mangas até os cotovelos e estico a camisa o máximo que consigo. No espelho, tento fingir que é um blazer elegante. A única coisa de que gosto no meu visual nesta manhã é meu cabelo, que parece estar cooperando comigo. Está volumoso e liso, e o arco-íris de cores brilha na luz matinal. Mas não tenho maquiagem para esconder as olheiras escuras sob os olhos e, com exatos treze dólares na conta, não vou sair por aí esbanjando em cremes para o rosto e corretivo. Minha camiseta e minha blusa de flanela têm aparência velha e gasta em contraste com tudo colorido e novo na cobertura. A sola da minha bota esquerda está se soltando. Os buracos na minha calça jeans parecem maiores do que eu lembrava. Produtoras de jogos não são famosas por códigos de vestimenta rigorosos, mas até elas devem ter algum tipo de etiqueta para se encontrarem com os chefões. Para se encontrarem com o chefão da indústria toda. Um ding agradável ecoa na suíte, e uma luz perto da minha cabeceira me alerta de uma ligação. Clico para aceitá-la e, um momento depois, a voz de Sakura Morimoto soa nos alto-falantes escondidos pelo meu quarto. – Bom dia, srta. Chen. – Pelos alto-falantes, sem camadas virtuais, ela muda para o meu idioma quando fala. – Seu carro a aguarda lá fora quando estiver pronta. – Eu estou pronta – respondo, sem acreditar nas minhas palavras. – Até daqui a pouco – diz ela. Jiro e o mesmo carro da noite anterior estão aguardando lá fora. Eu meio que espero que ele faça algum comentário sobre as minhas roupas ou que pelo menos levante uma sobrancelha. Mas ele se limita a me cumprimentar de forma calorosa quando me aproximo e me ajuda a entrar no veículo. Nós seguimos com uma cena de girassóis e um nascer do sol nas janelas. O terno de Jiro está impecavelmente arrumado, um traje preto perfeito com uma camisa branca engomada que deve ser de grife. Se é assim que os guarda-costas de Hideo se vestem, o que eu devia estar usando? Fico repuxando minhas mangas, tentando mudar magicamente minhas roupas para alguma coisa bonita ao esticá-las sem parar. Imagino o rosto do meu pai se me visse agora. Ele inspiraria e faria uma careta. De jeito nenhum, diria. Ele seguraria minha mão e me arrastaria até a loja mais próxima, que se danasse a dívida no cartão de crédito. O pensamento me faz puxar as mangas com mais força. Eu o afasto. O carro finalmente para na frente de um portão branco. Escuto com curiosidade o guarda dizer alguma coisa para o que parece ser um atendente automático. Com o canto do olho, reparo em um pequeno

logotipo na lateral do portão. Henka Games. O carro segue em frente e nós entramos e estacionamos em uma vaga perto da calçada da frente. Jiro se aproxima para abrir a porta para mim. – Chegamos – diz, com um sorriso e uma inclinação. Ele me leva por um par de portas deslizantes de vidro. Nós atravessamos o maior saguão que eu já vi. A luz entra de um átrio de teto de vidro até onde estamos, no meio de um espaço aberto decorado com plantas enormes. Água escorre de vários chafarizes nas paredes. Diversas varandas brancas se curvam no interior do prédio. Um entalhe suave do logotipo da Henka Games cobre uma das paredes brancas. No teto, estão penduradas faixas coloridas, cada uma exibindo o símbolo de suas respectivas equipes de Warcross, em comemoração à temporada do campeonato atual. Paro por um instante para admirar a vista. Se estivesse usando óculos NeuroLink agora, aposto que as faixas seriam animadas. Bem-vinda à Henka Games! +2.500 pts. Pontuação diária: +2.500 Você subiu de fase! Fase 26|-N 3.180 – Por aqui – diz meu guarda-costas, guiando-me adiante. Nós andamos na direção de cilindros transparentes de vidro, onde uma mulher sorridente nos espera. Ela tem um broche dourado no blazer perfeitamente passado, em homenagem à temporada atual do torneio, e uma prancheta sob um dos braços. O sorriso se alarga ao me ver, apesar de eu reparar que seu olhar se desvia rapidamente para minhas roupas. Ela não diz nada, mas eu fico vermelha. – Bem-vinda, srta. Chen – diz ela, inclinando a cabeça em um gesto calmo. Meu guarda-costas se despede de mim, e sou entregue a ela. – O sr. Tanaka está ansioso para conhecê-la. Eu engulo em seco enquanto retribuo a reverência. Ele vai é se desapontar quando der uma boa olhada no trapo que eu sou. – Igualmente – murmuro. – Tem algumas regras que você vai precisar seguir – continua ela. – Primeiro: fotos não são permitidas durante essa reunião. Segundo: preciso que você assine um acordo declarando aceitar não discutir publicamente nada do que ouvir aqui. – Ela me entrega o formulário na prancheta. Nada de fotos. Nada de discussões públicas. Não me surpreendo. – Tudo bem – respondo, lendo o papel na prancheta com atenção e assinando embaixo. – E terceiro: devo pedir que você nunca faça perguntas ao sr. Tanaka a respeito da família dele ou de assuntos particulares. Essa é uma política que vale para toda a empresa, e que o sr. Tanaka é muito rigoroso em cumprir. Olho para ela. Esse pedido é mais esquisito do que os dois primeiros, mas decido assentir de qualquer modo. – Nenhuma pergunta sobre família. Entendi. As portas do elevador se abrem para nós. A moça faz sinal para eu entrar e cruza os braços quando começamos a subir. Olho para o espaço ocupado pela produtora, os olhos voltados para as faixas enormes quando subimos por elas. O prédio é um lindo trabalho de arquitetura. Meu pai ficaria impressionado. Nós continuamos subindo até chegarmos ao último andar. Alguns funcionários passam por nós. Todos usando camisetas de Warcross e calça jeans. É uma visão tranquilizadora. Um dos funcionários olha para mim com uma expressão de reconhecimento nos olhos. Ele parece querer me parar, mas fica vermelho e muda de ideia. Percebo que todo mundo que trabalha aqui devia estar assistindo à cerimônia de abertura… e me viu entrar no jogo. Enquanto penso sobre isso, noto alguns outros funcionários no saguão abaixo, com os pescoços esticados cheios de curiosidade na nossa direção.

Minha guia segue por um corredor aberto até chegarmos a um saguão menor, onde há mais portas deslizantes. O vidro é completamente transparente, e consigo ver parte de uma sala atrás dele, junto com pinturas grandes dos mundos de Warcross nas paredes e uma mesa de reunião comprida. Minhas pernas começam a ficar dormentes, e sinto o medo subir pela espinha. Agora que estou a momentos da reunião, sou tomada de repente por um sentimento de que talvez não queira estar aqui, afinal. – Aguarde um momento, por favor – diz a moça quando chegamos às portas. Ela encosta o dedo com delicadeza em um painel na parede e entra quando as portas se abrem. De onde estou, a vejo fazer uma reverência pronunciada e perguntar alguma coisa em japonês. Só consigo entender Tanaka-sama e Chensan. Uma voz baixa responde de algum lugar do outro lado da sala. A moça volta e abre a porta deslizante. – Entre. – Ela assente quando eu passo. – Tenha uma boa reunião. – Ela vai embora pelo corredor de onde viemos. Eu me deparo no meio de uma sala com uma vista espetacular de Tóquio. Em uma ponta da sala, várias pessoas relaxam em cadeiras em volta de uma mesa de reunião: duas mulheres, uma de blusa e saia e a outra com uma camiseta de Warcross, blazer e calça jeans. Um homem jovem de cabelo louro está sentado entre elas, fazendo gestos com as mãos no ar. Eu o reconheço como sendo Kenn, que falou comigo no jato particular. As mulheres respondem a ele, avaliando alguma coisa em um dos mundos do campeonato de Warcross. Meu olhar o avalia um por um, até chegar na última pessoa da sala. Ele está sentado em um sofá cinza moderno ao lado da mesa de reunião, os cotovelos apoiados nos joelhos. As outras três pessoas estão viradas de forma inconsciente na direção dele, claramente esperando que dê a palavra final. Ele veste uma camisa branca de botão com corte perfeito, dobrada até os cotovelos, com os dois botões de cima casualmente abertos, uma calça escura e sapatos oxford vinho. O único item relacionado ao jogo que ele usa é um par de abotoaduras simples de prata cintilando na luz do sol, as duas no formato do logotipo de Warcross. Os olhos são muito escuros e emoldurados por cílios compridos. O cabelo é denso e preto, exceto por uma curiosa mecha prateada em um lado. Hideo Tanaka, em pessoa. Depois de anos admirando-o de longe, não sei bem o que eu esperava. Levo um certo susto ao vê-lo sem um monitor ou uma capa de revista obstruindo a imagem, como se ele estivesse em foco pela primeira vez. Ele olha para mim. – Srta. Chen – diz, levantando-se do sofá em um movimento gracioso. Ele se aproxima de mim, inclina a cabeça uma vez e estica a mão. É alto, os gestos são fáceis e sem esforço, a expressão séria. A única imperfeição nele são os nós dos dedos: parecem machucados, marcados e surpreendentes nas mãos elegantes, como se ele tivesse participado de uma briga. Eu me pego olhando com curiosidade e consigo parar a tempo de esticar minha mão também. Meus movimentos parecem os de um alce desajeitado. Apesar de as minhas roupas não serem tão diferentes das demais pessoas dali, sinto-me suja e malvestida em comparação ao estilo impecável dele. – Oi, sr. Tanaka – respondo, sem saber o que mais dizer. – Hideo, por favor. – Aí está o sotaque britânico sutil e suave. Ele fecha a mão na minha e aperta uma vez, depois olha para os outros. – Nossa produtora-chefe dos campeonatos, srta. Leanna Samuels. – Ele solta a minha mão para virar a dele na direção da mulher de blusa e saia. Ela sorri para mim e ajusta os óculos. – É um prazer conhecê-la, srta. Chen. Hideo indica a mulher de camiseta e blazer. – A segunda na linha de comando, srta. Mari Nakamura, nossa chefe- -executiva de operações.

Agora eu a reconheço, já a vi fazer vários anúncios relacionados a Warcross. Ela inclina a cabeça de leve. – Legal conhecer você, srta. Chen – diz ela com um sorriso. Retribuo a reverência da melhor maneira que consigo. – E você já foi apresentada ao nosso diretor criativo – termina Hideo, inclinando a cabeça na direção de Kenn. – Um dos meus antigos colegas de Oxford. – Não pessoalmente. – Kenn pula da cadeira e para na minha frente em poucos passos. Ele aperta a minha mão com vigor. Diferente de Hideo, sua expressão é calorosa o suficiente para esquentar uma sala no inverno. – Bem-vinda a Tóquio. Você provocou uma impressão e tanto em nós. – Ele olha para Hideo e seu sorriso aumenta. – Não é todos os dias que ele traz alguém do outro lado do mundo para uma entrevista. Hideo levanta a sobrancelha para o amigo. – Eu trouxe você do outro lado do mundo para entrar para a empresa. Kenn ri. – Isso foi anos atrás. É como eu falei, não é todos os dias. – O sorriso dele volta para mim. – Obrigada – decido dizer, a cabeça girando de cumprimentar quatro criadores lendários em dez segundos. A chefe-executiva de operações, Mari, se vira para Hideo e pergunta alguma coisa em japonês. – Podem ir em frente sem mim – responde Hideo em inglês. Os olhos dele pousam em mim de novo. Percebo que ele não sorriu desde que entrei. Talvez eu esteja mesmo malvestida demais para ele. – A srta. Chen e eu vamos nos permitir uma conversinha. Uma conversinha. Um bate-papo. Sinto o calor nas bochechas. Mas Hideo não parece reparar e faz sinal para que eu o siga para fora da sala. Atrás de nós, os outros voltam à conversa. Só Kenn me encara quando olho por cima dos ombros para eles. – Ele não é intimidante de propósito – diz ele com alegria quando as portas se fecham. – Então – diz Hideo quando seguimos pelo corredor até o átrio principal –, esta é sua primeira vez no Japão, não é? Faço que sim. – É bonito. – Por que tudo que eu digo de repente parece idiota? Mais e mais funcionários atrasam o passo para nos olhar enquanto passamos. – Obrigado por vir até aqui – diz ele. – Eu que agradeço – respondo. – Acompanho sua carreira desde que você começou a fazer sucesso. É uma grande honra. Hideo move a cabeça com pouco interesse, e percebo que deve estar cansado de ouvir isso de todo mundo que conhece. – Peço desculpas por interromper sua semana, mas espero que sua viagem tenha sido boa. Ele está falando sério? – “Boa” é pouco – respondo. – Obrigada, sr. Tanaka, Hideo, por pagar minhas dívidas. Você não precisava fazer isso. Hideo balança a mão com indiferença. – Não me agradeça. Considere como um pequeno adiantamento. Sinceramente, estou surpreso de você ter dívidas. Alguma empresa de tecnologia já deve ter reparado na sua capacidade. Uma pontada de irritação surge como reação à indiferença dele com a minha dívida. Acho que seis mil dólares – para mim, uma montanha inconquistável – não devem valer qualquer consideração quando se é um bilionário. – Eu tenho umas coisinhas na minha ficha – respondo, tentando afastar a irritação da voz. – Na minha ficha criminal, eu quis dizer. Não é nada sério, mas não tive permissão de tocar em qualquer computador

por dois anos. – Decido não mencionar a morte do meu pai e meu tempo no orfanato. Para minha surpresa, Hideo não me pressiona. – Eu já empreguei hackers suficientes para reconhecer um bom quando vejo. Você teria sido descoberta mais cedo ou mais tarde. – Ele me olha de lado. – E, bem, aqui está você. Ele nos leva por uma esquina e na direção de outro par de portas deslizantes. Nós entramos em um escritório vazio. As janelas vão do teto ao chão. Há um mural colorido pintado em um canto, uma mistura vibrante e estilizada de fases do jogo. Sofás modernos ocupam o outro canto. As portas se fecham atrás de nós, e ficamos sozinhos. Hideo se vira para mim. – Eu sei que você se viu mencionada por toda parte online – diz ele. – Mas consegue adivinhar por que está aqui? Por engano? Mas só respondo: – Durante o voo, o sr. Edon disse que eu seria colocada no Wardraft. Hideo assente. – Você vai, a não ser que não deseje. – Isso quer dizer que você quer que eu compita no campeonato de Warcross deste ano? – Sim. Eu inspiro fundo. Ouvir isso do próprio Hideo, do criador de Warcross, finalmente torna tudo real. – Por quê? – digo. – Sou uma boa jogadora, mas não estou nos rankings internacionais nem nada. Você está me colocando pela audiência? Como estratégia de marketing? – Você tem alguma ideia do que fez quando entrou no jogo de abertura? – Estraguei o maior jogo do ano? – arrisco um palpite. – Você conseguiu hackear seu caminho através de um escudo que quase nunca foi rompido. – Desculpe. Eu nunca tinha tentado aquele hack antes. – Achei que você tivesse dito que foi acidente. Encaro o seu olhar penetrante. Agora ele está zombando de mim por meu pedido de desculpas gaguejado na nossa primeira ligação telefônica. – Eu nunca tinha tentado acidentalmente aquele hack antes – reelaboro. – Não estou dizendo isso por estar chateado de você ter invadido o jogo. – Ele levanta a sobrancelha para mim. – Embora eu prefira que não faça de novo. Estou dizendo isso porque preciso da sua ajuda. Alguma coisa nas palavras anteriores dele desperta meu interesse. – Você disse que o escudo de segurança quase nunca tinha sido rompido – falo. – Quem mais entrou? Hideo anda até os sofás, se senta e se encosta. Faz sinal para eu me sentar na frente dele. – É por isso que preciso da sua ajuda. Em um segundo, eu entendo. – Você está tentando pegar alguém – digo. – E a melhor maneira de fazer isso é me colocando nos jogos deste ano. Hideo inclina a cabeça para mim. – Eu soube que você é caçadora de recompensas. – Sou – respondo. – Eu pego jogadores de Warcross com dívidas de aposta grandes e qualquer outra pessoa que a polícia não tenha tempo de prender. – Então você deve estar familiarizada com o submundo que surgiu desde que meus óculos chegaram ao mercado. Faço que sim. – Claro. Um submundo próspero sempre existiu por baixo da internet regular. Faz parte do mundo online que você não vê, que nenhuma ferramenta de busca mostra. Onde não dá nem para entrar se você não souber o

que está fazendo. A Dark Web é onde hackers se encontram, drogas são traficadas, sexo é vendido e assassinos são contratados. Isso só aumentou com a popularidade de Warcross e dos óculos NeuroLink. O mesmo submundo existe agora em realidade virtual, só que se chama Dark World, o Mundo Sombrio, um lugar virtual perigoso onde eu ando com frequência em busca dos criminosos que gostam de passear por lá. – E você se sente à vontade lá? – pergunta Hideo, me olhando. Eu me irrito com a condescendência dele. – Se não me sentisse, não seria muito útil para pegar um hacker, não é mesmo? Hideo não reage ao meu sarcasmo. – Você vai ser uma dentre três caçadores de recompensas que estou contratando para esse trabalho. – Ele estica a mão para a mesa de centro que nos separa e pega uma caixinha preta em cima de uma pilha de revistas de jogos. Ele a entrega para mim. – Isto é pra você. Os outros também vão receber. Outros dois caçadores de recompensas. Como nas minhas caçadas anteriores, vou estar competindo com outros. Hesito, mas pego a caixa na mão dele. Dentro há um recipiente pequeno de plástico com dois compartimentos redondos. Abro um. – Lentes de contato – digo, olhando para um disco transparente flutuando em líquido. – Versões beta. Vamos lançar para o público no final desta semana. Olho para Hideo com expectativa. – A próxima geração de óculos NeuroLink? Ele exibe uma leve sombra de sorriso, o primeiro que vejo. – É. Meus olhos se voltam para baixo de novo. Parecem lentes de contato comuns, menos nas bordas, onde, em letras finas, transparentes e repetidas estão as palavras Henka Games. A única coisa necessária para diferenciá-las de uma lente normal. Quando me mexo um pouco, as lentes cintilam na luz, sugerindo que a superfície deve ser coberta por uma teia fina de circuitos microscópicos. Por um segundo, esqueço minha irritação com as respostas de Hideo. Sinto como se estivesse de volta ao orfanato, ouvindo o rádio, escutando sobre a invenção revolucionária dele pela primeira vez. – Como… – começo a dizer, minha fascinação saindo como um grunhido rouco. – Como você fez isso? Como se carrega? Não dá para ligar na tomada. – O corpo humano produz pelo menos cem watts de eletricidade por dia – responde Hideo. – O smartphone médio só usa de dois a sete watts para ficar totalmente carregado. Essas lentes precisam de menos de um watt. Olho repentinamente para ele. – Você está dizendo que as lentes podem ser carregadas só pela eletricidade no meu corpo? – pergunto. Ele assente. – As lentes deixam uma camada inofensiva sobre a superfície do olho, de apenas um átomo de grossura. Essa camada age como condutora entre as lentes e seu corpo. – Usar o corpo como carregador – digo. Muitos filmes sobre isso foram feitos, mas aqui estou eu, olhando para a realidade nas minhas mãos. – Eu achava que era um mito da ficção científica. – Tudo é ficção científica até alguém tornar um fato científico – diz Hideo. Há uma intensidade específica no olhar dele agora, um brilho que ilumina toda a sua expressão. Eu me lembro de ter notado isso na primeira vez que o vi na televisão e reconheço agora. Esse é o Hideo que me atrai. Ele indica uma porta no final do escritório. – Experimente. Pego as lentes e me dirijo até a porta, que leva a um banheiro particular. Lá, lavo as mãos e apanho uma das lentes. Preciso tentar mais de dez vezes, mas finalmente consigo colocar as duas, piscando para afastar algumas lágrimas no processo. As lentes são geladas.

Quando volto para o sofá, observo a sala. Ao primeiro olhar, tudo parece igual. Mas reparo que o mural colorido atrás de Hideo está se movendo, como se a pintura estivesse viva, as cores girando e se alterando em uma exibição espetacular. Meu olhar continua vagando. Reparo em mais e mais coisas. Camadas de realidade virtual, libertadas dos limites dos óculos. Um velho jogo de Warcross se desenrola em outra parede vazia da sala, cobrindo-a do alto a baixo. O teto não é mais teto. Vejo uma noite azul-escura e a camada cintilante da Via Láctea. Planetas, Marte e Júpiter e Saturno, são amplificados e estão com cores saturadas, pendurados como esferas no céu. Em toda a sala, os objetos têm rótulos pairando acima. Fícus em um vaso flutua acima de uma planta verde, junto com as palavras Água | +1, querendo dizer que eu ganharia um ponto se a molhasse. Sofá flutua sobre nossos sofás, e Hideo Tanaka | Fase∞ flutua acima do próprio Hideo. Deve ter um Emika Chen | Fase 26 pairando sobre a minha cabeça. Algumas palavras translúcidas aparecem no centro da minha visão. Jogar Warcross Hideo se levanta e se aproxima para se sentar ao meu lado. Agora, percebo que ele também está de lentes de contato; com as minhas nos olhos, vejo uma camada suave de cores nas pupilas dele. – Entre em uma sessão de Warcross comigo – diz. Um botão aparece entre nós. – E vou mostrar a você atrás de quem eu estou. Eu respiro fundo e olho para o botão à minha frente por alguns segundos. As lentes de contato detectam meu olhar prolongado, e o mundo real à nossa volta (a sala, os sofás, as paredes) escurece e some. Quando o mundo reaparece, nós dois estamos de pé em um espaço vazio estéril com paredes brancas que se prolongam pela eternidade. Reconheço como um dos mundos iniciais em Warcross: a fase Pincel de Tinta. Se você esticar as mãos e passá-las pelas paredes brancas, traços de tinta cor de arco-íris cobrem as superfícies. Eu encolho os dedos dos pés e imagino andar – e, com esses dois sinais, meu avatar se desloca para a frente. Enquanto caminhamos, passo a mão distraidamente por uma das paredes e vejo as cores surgirem sob meus dedos. Hideo nos leva até um canto do mundo, onde finalmente para. Eu relaxo os dedos dos pés e também paro. Ele olha para mim. – Este foi o primeiro mundo em que reparamos que alguma coisa estava errada – diz. Ele passa a mão pela parede, deixando rastros verdes e dourados. Em seguida, enfia os dedos na superfície e empurra. A parede se abre, obedecendo ao toque de Hideo. Atrás da parede existe um mundo de linhas escuras e manchas de luz, sequenciado em padrões detalhados. O código que controla este mundo. É um vislumbre do API em funcionamento no jogo. Hideo entra na parede e faz sinal para eu me juntar a ele. Hesito só por um segundo e deixo o mundo manchado de tinta e com paredes brancas para entrar na confusão escura de linhas. Ali, as linhas luminosas lançam um tom azulado na nossa pele. Uma pontada de empolgação surge em mim com a visão, e eu observo as colunas, analisando e absorvendo o máximo que consigo. Hideo anda um pouco e para na frente de um segmento de código. Meus instintos agem, e meus olhos relaxam, observando todo o código à minha frente. Imediatamente, vejo qual é o problema. É sutil, fácil de deixar passar por alguém que não tenha a experiência de analisar o framework do NeuroLink, mas ali está, uma seção que parece deformada, as linhas emaranhadas de uma forma que não combina com o padrão ao redor, uma seção dissonante em relação ao resto do caos organizado. Hideo assente com aprovação quando percebe que eu reparei. Ele chega mais perto da parte emaranhada. – Está vendo o que ele fez?

Ele não está só me mostrando o que aconteceu. Está testando a minha capacidade. – Foi alterado – respondo automaticamente, os olhos percorrendo o código. – Para repassar informações. Hideo assente, estica a mão para a parte deformada e clica nela uma vez. O código pisca antes de se reordenar, limpo e organizado, como devia estar. – Nós consertamos. Só estou mostrando a você uma memória de como estava quando descobrimos. Mas a pessoa não deixou rastro nenhum, e foi ficando melhor em esconder qualquer pista de sua presença depois disso. Nós passamos a chamá-lo de Zero, pois esse é o padrão no registro de acesso. É a única marca que ele deixa para trás. – Hideo olha para mim. – Estou impressionado de você ter visto. Será que ele acha que eu sou Zero? Olho intensamente para ele. Hideo me trouxe até aqui, me encheu de perguntas (É sua primeira vez no Japão? Você tem alguma ideia do que fez?) só para ver se sou o suspeito que ele está procurando? Faço cara feia para ele. – Se você quer saber se sou Zero, podia só perguntar. Hideo me direciona um olhar cético. – E você admitiria? – diz. – Eu apreciaria sua sinceridade em vez desse joguinho de enrolação que você está fazendo comigo. O olhar de Hideo parece capaz de furar um buraco na minha alma. – Você hackeou o jogo da cerimônia de abertura. Devo pedir desculpas por desconfiar de você? Eu abro a boca, mas fecho. – Tudo bem – admito. – Mas não fiz isso. Ele afasta o olhar. – Eu sei. Não a trouxe aqui para forçar uma confissão. Fico furiosa em silêncio. O mundo ao nosso redor muda de repente. Somos afastados do código e da fase Pincel de Tinta. Agora, estamos em uma ilha flutuante, cercados de cem outras ilhas flutuantes, com vista para uma linda lagoa. Foi o mundo usado na cerimônia de abertura, o que invadi. Hideo puxa o mundo como se estivesse girando-o sob os dedos, e tudo passa correndo embaixo dos nossos pés. Engulo em seco. A versão à qual a conta dele está logada é obviamente diferente da minha e lhe dá habilidades que eu não tenho. É estranho estar dentro de Warcross com o seu criador e vê-lo jogar como se fosse deus. Hideo finalmente nos para em uma parte dos penhascos. Estica a mão e empurra. Mais uma vez, entramos em um espaço de linhas e luz. Desta vez, a parte emaranhada é bem mais difícil de encontrar. Eu deixo meu foco se perder e meu subconsciente emergir, procurando o rompimento do padrão. Demoro alguns minutos para perceber tudo, mas finalmente encontro a parte do código que está diferente. – Aqui – digo, apontando. – Mesma coisa. Seja lá quem for esse tal de Zero, ele mexeu na fase para lhe repassar informações sobre cada membro da plateia vendo o jogo. – A percepção provoca um arrepio macabro em mim. Eu olho melhor. – Espere… tem mais aqui. Ele quase desligou a fase, não foi? Este ponto… ele percebeu que o código era fraco aqui. Como Hideo não responde imediatamente, afasto o olhar do código e o vejo me observando. – O que foi? – pergunto. – Como você encontrou isso? – Encontrei o quê? O código embaralhado? – Dou de ombros. – Eu só… reparei. – Acho que você não está me entendendo. – Ele coloca as mãos nos bolsos. – Meus melhores engenheiros levaram uma semana para fazer o que você acabou de fazer. – Então talvez você precise de engenheiros melhores. Parece que não consigo controlar minhas respostas perto de Hideo. A postura distante dele deve estar

me contagiando. Mas ele apenas me encara com expressão pensativa. – E como você consertaria isso? – pergunta. Minha atenção é desviada para o código comprometido. – Meu pai me ensinou a avaliar tudo ao mesmo tempo – murmuro enquanto passo a mão pelo texto. – Não é preciso examinar cada detalhe. Só ver o padrão geral para perceber a fraqueza dele. – Estico a mão para pegar o código, puxo um bloco enorme e o empurro para longe. Em seguida, o substituo por uma única linha eficiente. O resto se encaixa ao redor. – Pronto – digo, apoiando as mãos nos quadris. – Assim está melhor. Quando olho para ele, vejo que está analisando minha alteração sem dizer nada. Talvez eu tenha passado no teste. – Razoável – diz, depois de um momento. Razoável. Razoável? Minha expressão de desprezo aumenta. – Por que alguém estaria interessado em coletar esses dados e estragar os jogos? – pergunto. – Seu palpite é tão bom quanto o meu. – Você receia que ele sabote os jogos de novo. – Meu receio é que ele faça alguma coisa bem pior. Eu me recuso a parar os jogos só por causa de uma ameaça de hacker, mas a segurança da nossa plateia não é algo que eu queira botar em risco. – Hideo olha para o lado. O mundo se afasta novamente, e de repente estamos de volta ao escritório dele. Levo um susto com a mudança repentina. Vou demorar a me acostumar a essas lentes de contato. – Devido ao seu atual status de celebridade, achei melhor empregar a tática de “escondê-la à plena vista”, colocando você em uma das equipes. Isso vai permitir que fique fisicamente mais próxima dos demais jogadores. – Por que você me quer próxima? – A natureza dos ataques me faz desconfiar de que Zero seja um deles. Um dos jogadores profissionais. Os nomes deles passam pela minha cabeça. – E pelo que eu e os outros caçadores vamos estar competindo? Qual é nossa recompensa? – Cada um de vocês vai ver a quantia do prêmio como um valor pendente na sua conta bancária. – Hideo se inclina para a frente e apoia os cotovelos nos joelhos. Ele me olha diretamente. – Se você decidir que deseja recusar, que é mais do que você gostaria de encarar, coloco você em um voo particular de volta a Nova York. Pode tratar isso como férias antes de voltar para a sua vida normal. Vou pagar uma quantia pela participação, de qualquer modo, por perceber uma falha de segurança grande no jogo. Leve o tempo que precisar para considerar a oferta. Uma quantia pela participação. É como se Hideo estivesse me oferecendo dinheiro de piedade, uma saída fácil se não me sentir à altura do desafio da caçada dele. Eu me imagino entrando em um voo para Nova York, voltando para a minha antiga vida enquanto algum outro caçador pega Zero. Um formigar me percorre só de pensar na possibilidade de solucionar esse problema, provavelmente o maior enigma que já me deram a chance de solucionar. Eu vou vencer desta vez. – Eu já pensei – digo. – Estou dentro. Hideo assente. – As instruções do Wardraft vão chegar para você em breve, assim como um convite para uma festa do jogo de abertura. Enquanto isso, faça uma lista de qualquer coisa de que você ache que vá precisar de mim. Códigos de acesso, contas, essas coisas. – Ele se levanta. – Estique a mão. Olho para Hideo com cautela e faço o que pediu. Ele a segura e a vira para deixar a palma para cima. Ele sustenta a mão dele dois centímetros acima da minha, até um retângulo preto parecido com um cartão de crédito aparecer na minha pele. Encosta um dedo de leve na minha palma e assina seu nome. A sensação da pele de Hideo se movendo na minha me faz prender o ar. O cartão de crédito virtual pisca em azul por um momento, autorizando a assinatura, e desaparece. – Isso é para você comprar o que precisar durante sua estada – diz ele. – Não tem limite, não tem

perguntas. Use a palma da sua mão sempre que precisar fazer uma compra, e a cobrança vai diretamente para isto. Cancele assinando seu próprio nome na sua palma. – Os olhos dele se grudam nos meus. – E seja discreta. Prefiro não espalhar as notícias de nossa caçada para o público. O que eu não teria dado durante minhas semanas mais difíceis por um cartão assim. Puxo o braço e sinto a assinatura ainda queimando na palma. – Claro. Hideo me oferece a mão dele. A expressão ficou séria de novo. – Espero ansioso nosso próximo encontro – diz, sem indicação nenhuma no tom de voz de que seja verdade. Meus olhos se voltam novamente para os dedos machucados antes de eu aceitar o cumprimento. Os últimos momentos são uma confusão. Hideo volta para a sala de reunião sem olhar para mim. Sou acompanhada até o saguão da produtora, onde assino mais papéis antes de seguir para o local em que o carro me espera. Quando me acomodo, solto o ar em um suspiro longo que não tinha percebido que estava segurando. Meu coração ainda está disparado no peito, minhas mãos trêmulas do encontro. Só quando deixamos a produtora para trás é que enfio a mão no bolso, pego meu celular e acesso a conta bancária. De manhã, eu tinha treze dólares. Com que quantia Hideo está me tentando? Finalmente, a página da conta carrega na tela. Fico observando em um silêncio perplexo. Depósito pendente: U$10.000.000,00

9 Preciso recarregar a tela mais algumas vezes antes de acreditar no número que vejo lá. E não muda. Dez milhões. Uma caçada de dez milhões de dólares. Hideo é louco. A maior recompensa que já vi foi de quinhentos mil dólares. Esse valor é astronômico. Deve haver mais complicações nesse trabalho do que Hideo está revelando, não pode ser tão simples quanto pegar um hacker que está tentando estragar os jogos, mesmo sendo no meio do campeonato mundial. E se for um trabalho mais perigoso do que penso que é? Balanço a cabeça. Warcross é o trabalho da vida de Hideo. Sua paixão principal. Lembro do brilho de intensidade que vi nos olhos dele quando me mostrou as lentes de contato. Eu possuo uma série específica de habilidades que o atrai: caço criminosos, sou hacker e sou uma fã de Warcross muito familiarizada com o processo interno do jogo. Talvez tenha sido difícil para ele encontrar caçadores adequados ao trabalho. Meus pensamentos voltam para o nosso encontro. O Hideo perfeito que mentalmente montei de anos de documentários e artigos não se parece com o que acabei de conhecer: condescendente, sério, frio, a realidade de uma figura mítica que construí na minha cabeça. Ele não é intimidante de propósito, insistira Kenn. Mas os muros de Hideo estão lá mesmo assim, fazendo sua educação parecer insultante e suas intenções vagas. Talvez seja tão podre de rico que não precisa se abrir com ninguém. Ou talvez só não goste muito de mim. Eu me irrito com o pensamento. Tudo bem. Também não gosto dele tanto assim. Além do mais, não preciso gostar de um cliente para trabalhar para ele. Não gosto da polícia para a qual trabalhei. Só preciso fazer meu trabalho, comunicá-lo a respeito do meu progresso e pegar Zero antes de qualquer outra pessoa. Só preciso pegar a recompensa. Dez milhões de dólares. Penso no meu pai, acordado até tarde da noite depois de achar que eu tinha ido dormir, apoiando a cabeça com cansaço nas mãos, olhando para a pilha infinita de contas atrasadas. Penso nele com olhar vidrado em uma tela iluminada, fazendo outra aposta com dinheiro que não tinha, torcendo para desta vez, desta vez ele ganhar muita grana. Dez milhões de dólares. Eu posso ganhar muita grana. Nunca precisaria me preocupar com dívidas de novo. Poderia ficar segura para o resto da vida. Se ganhar essa caçada, tudo muda. Para sempre. Uma mensagem apita na minha frente quando paramos na frente do meu hotel. É de Kenn. S rta. Chen! Não sei o que você disse para ele lá, mas… parabéns.

Parabéns por quê? Pelo quê?

Você devia saber que Hideo nunca contratou uma pessoa tão rápido. Nunca.

É mesmo? Achei que eu o tinha irritado.

Todo mundo acha isso. Não ligue pra ele. Procure por um presente na sua porta de entrada. Hideo mandou enviar assim que você saiu da sala dele.

Depois daquele encontro, é difícil de acreditar no que Kenn está dizendo. Obrigada.

Bem-vinda à equipe.

Quando Jiro me deixa no hotel e subo para a suíte, o presente, uma linda caixa feita de camurça preta, já está na minha mesa. Ao lado há um envelope brilhoso com um selo dourado com o logo de Warcross. Eu olho por um tempo, depois me inclino e abro a caixa. É um skate elétrico novinho de edição limitada, moderno e leve, pintado em um elegante padrão preto e branco. Testo o peso com as mãos sem acreditar, boto no chão e subo nele. O skate responde a meus comandos que é uma beleza. Os guarda-costas de Hideo devem ter contado sobre meu skate velho e surrado. Esse skate provavelmente vale uns quinze mil dólares. Já o vi em catálogos, fantasiei sobre como devia ser andar nele. Leio o cartão que acompanha a caixa.

Para você. Nos vemos no Wardraft. H.T. Em um segundo, ele está me interrogando. Em outro, está me mandando presentes. Meus olhos vão do bilhete ao envelope ao lado da caixa. Dois dias atrás, parei na frente do meu apartamento, observando com desespero um aviso de despejo amarelo. Agora, estico a mão para o envelope, rasgo e pego um papel preto grosso e pesado com letras douradas.

A srta. Emika Chen está oficialmente convidada a participar do Wardraft como Coringa no dia 3 de março EU ASSISTI AO WARDRAFT todos os anos. Sempre acontece no Tokyo Dome uma semana depois da cerimônia de abertura, com um estádio lotado de cinquenta mil fãs escandalosos e todos os olhos voltados para os coringas sentados nas fileiras da frente do estádio, em volta da arena central. Uma a uma, as dezesseis equipes oficiais de Warcross escolhem seus preferidos dentre os coringas. Os fãs de Warcross conhecem a maioria dos coringas de memória, porque eles costumam ser alguns dos jogadores de pontuação mais alta no jogo, os que estão sempre liderando o ranking e têm milhões de seguidores. Ano passado, a primeira escolha foi Ana Carolina Santos, representando o Brasil. No ano anterior, Penn Wachowski, da Polônia, que agora joga na Equipe Stormchasers, foi escolhido primeiro. No ano antes disso, foi Ki-woon “Kento” Park, da Coreia do Sul, que agora está na Equipe Andromeda.

Mas estou acostumada a ver essa loucura se desenrolar de casa, com meus óculos. Desta vez, vou estar sentada na fileira da frente do Tokyo Dome. Minhas mãos tremem agora, quando o carro para nas ruas próximas ao domo. Meus olhos ficam grudados no cenário lá fora. Se Times Square parecia enlouquecida com Warcross, nada se compara a Tóquio. Pelas minhas lentes de contato, toda a interseção principal de Shibuya está acesa com telas pairando no ar, rotando com fotos de cada coringa e mostrando clipes de escolhas anteriores. Milhares de fãs aos gritos se amontoam nas ruas abaixo. O carro dirige por uma seção especial isolada onde um esquadrão da polícia nos guia. Quando nós passamos, as pessoas na calçada acenam para cada um dos nossos carros, os rostos alegres de empolgação. Elas não conseguem ver através dos vidros escuros, mas sabem que é o único caminho usado para levar os jogadores até o domo. No alto, minha foto aparece, cobrindo toda a lateral de um arranha-céu. É uma foto antiga de quando eu estava no ensino médio, o último ano antes de ser expulsa. Estou séria, o cabelo liso e com pelo menos doze cores diferentes, minha pele tão pálida que parece cinzenta. Manchetes a meu respeito pipocam por toda parte.

ÚLTIMAS NOTÍCIAS: Emika Chen indicada para o Wardraft De bug sem grana a estrela dos coringas! Detalhes na edição desta semana AÇÕES DA HENKA GAMES VALORIZAM COM A PARTICIPAÇÃO DE EMIKA CHEN

Ver meu rosto estampado em oitenta matérias é o bastante para me deixar enjoada. Eu me obrigo a afastar o olhar da loucura lá fora e pressiono as mãos trêmulas uma na outra com firmeza no meu colo. Pense nos dez milhões, repito para mim mesma. Olho para fora novamente e vejo outro painel girar e mostrar uma foto do DJ Ren, que está usando seus fones de ouvido gigantes e inclinado por cima do equipamento de DJ. De repente, me ocorre que os outros dois caçadores de recompensas, sejam quem forem, estarão me observando no Wardraft. Me investigando. Eles também são coringas? Quando paramos na área isolada da entrada lateral do Tokyo Dome, já quase acalmei o frio invernal que assola a minha barriga. Em um borrão, vejo homens de terno abrirem a porta, me ajudarem a sair do carro e me guiarem por um tapete vermelho que leva para a parte fria e escura dos fundos do estádio. Tenha pensamentos irados, digo para mim mesma. Meus guias me levam por um corredor estreito cujo teto fica cada vez mais alto. O som de cinquenta mil gritos se aproxima. Em seguida, quando entro no espaço principal, o rugido fica ensurdecedor. O estádio está banhado por uma meia-luz azul. Dezenas de holofotes coloridos percorrem o espaço. Os corredores estão lotados de espectadores, acenando com pôsteres caseiros de seus coringas favoritos, todos reunidos aqui para nos ver em pessoa. Com as lentes de contato, enxergo telas holográficas enormes contornando a arena central. Em cada uma dessas telas, há imagens dos coringas em ação durante seus jogos mais populares. Os jogadores parecem pular para fora da tela como figuras gigantescas e tridimensionais, e cada vez que eles fazem uma jogada boa, a plateia grita o mais alto que consegue. Uma bolha surge na minha visão. Subo duas fases de uma vez.

Participante oficial do Wardraft! Parabéns! +20.000 pontos. Pontuação do dia: +20.000 Você subiu de fase! Está pegando fogo! Fase 28|-N 30.180 Você ganhou um baú do tesouro! As fileiras da frente do estádio estão parcialmente ocupadas por jogadores coringa. Quando o guia me leva até um lugar, observo as pessoas à minha volta e tento fazer a correspondência de algumas delas com suas personagens em Warcross. Meus olhos registram alguns rostos. Abeni Lea, que representa o Quênia. Ela está dentre os cinquenta melhores do mundo. Tem Ivo Erikkson, que representa a Suíça. Hazan Demir, uma garota da Turquia. Engulo em seco e me pergunto se seria bobeira pedir autógrafos deles. Hora de trabalhar, lembro a mim mesma. Silenciosamente, faço um gesto para cima com dois dedos e levanto meus escudos, depois procuro a segurança que cobre o domo. Hideo me deu uma identificação especial para passar por tudo, me oferecendo acesso às informações básicas que a Henka Games guarda sobre cada usuário, mas usar a identificação também vai permitir a Hideo me rastrear com mais facilidade, uma coisa que pode me deixar vulnerável a hacks de Zero ou de outro caçador. Então, editei meu acesso para ficar mais independente. Vai me ajudar a trabalhar melhor. Se Hideo tiver problema com isso, vai ter que se entender comigo depois. Em pouco tempo, números e letras aparecem em lugares aleatórios pelo domo, acentuando as áreas onde o código está gerando nichos de realidade virtual acima da cena real. O contorno da planta do estádio paira de leve sobre tudo. Mais importante, dados básicos aparecem sobre todas as pessoas na área, os dígitos azuis pequenos acima das cabeças delas, tantas que os dados parecem se embaralhar. Finalmente chego ao meu assento. Atrás de nós, o estádio solta outra rajada de gritos agudos quando as telas gigantes mostram uma montagem dos melhores jogadores da Equipe Phoenix Riders do ano anterior. – Hallo. – Eu me viro quando uma garota me cutuca. Ela tem cabelo louro-avermelhado preso em um rabo de cavalo desgrenhado e sardas na pele clara. Ela me dá um sorriso torto. Quando fala de novo, vejo a tradução transparente no meu visor. – Você é Emika? – Os olhos dela vão até meu cabelo colorido e para meu braço cheio de tatuagens. – A que invadiu a cerimônia de abertura? Faço que sim. – Oi. A garota assente também. – Eu sou Ziggy Frost, de Bamberg, Alemanha. Arregalo os olhos. – É mesmo! Eu conheço você! Você é uma das melhores Ladras que existem. Assisti a tantos jogos seus. Percebo que ela está lendo rapidamente a tradução para alemão das minhas palavras, que aparecem no visor dela. Ela abre um sorriso tão grande que chego a achar que vai explodir. Estica a mão e empurra alguém sentado na fileira da nossa frente. – Yuebin! – exclama. – Olha. Eu tenho uma fã. O cara que ela cutucou solta um grunhido irritado e se vira na cadeira. Ele tem um cheiro leve de fumaça de cigarro. – Parabéns – murmura em chinês enquanto leio a tradução das palavras dele. O seu olhar se desvia para mim. – Ei… você não é a garota que bugou o jogo de abertura? É assim que vou ser conhecida para sempre? A garota que bugou? – Oi – digo, esticando a mão. – Sou Emika Chen. – Ah! A americana – responde ele, apertando minha mão uma vez. – Você fala mandarim?

Eu balanço a cabeça. Meu pai sabia cinco expressões chinesas, e quatro eram palavrões. Ele dá de ombros ao ouvir minha resposta. – Ah, bem. Sou Yuebin, de Pequim. Abro um sorriso. – O Guerreiro do topo do ranking? O sorriso dele aumenta. – É. – Yuebin estica o braço e cutuca Ziggy uma vez. – Viu? Você não é a única que tem fã. – Ele olha para mim. – Então você é coringa agora? Tipo, parabéns, isso é muito legal e tal... mas não me lembro de ver você dentre os rankings mais elevados deste ano. – É porque a inscreveram no último minuto – diz Ziggy. – O próprio Hideo aprovou a indicação. – Yuebin solta um assovio. – Ele deve ter ficado muito impressionado com você. Então os boatos sobre mim se espalharam mesmo. Não é assim que quero que todo mundo em Warcross me conheça: a garota que bugou um jogo por pura burrice, e entrou no Wardraft como coringa só por causa dessa minha gracinha. E se Yuebin desconfiar que estou concorrendo por outro motivo? Não seja tão óbvia. Para ele, você só está aqui para jogar Warcross, lembro a mim mesma. Forço um sorriso para Ziggy e dou de ombros. – Acho que não importa. Aposto que vou ser a última escolhida. Ziggy só dá uma gargalhada bem-humorada e bate no meu ombro. – Como é o ditado? Nunca diga nunca? – responde ela. – Além do mais, lembra aquele ano em que aquele jogador, Leeroy alguma coisa, foi escolhido para os Stormchasers apesar de ele sempre estragar as jogadas da equipe? Meu Deus, ele era péssimo. – Tarde demais, ela percebe que me insultou sem querer de novo. – Quer dizer, não que você seja ruim como Leeroy! O que quero dizer é que nunca se sabe. Quer dizer… bom, você sabe o que eu quero dizer. Yuebin olha para ela com cara de deboche antes de sorrir para mim. – Você vai ter que perdoar a Ziggy – diz ele. – Ela nunca diz a coisa certa na hora certa. – Você nunca é a coisa certa na hora certa. Quando eles me esquecem e começam a discutir, repasso em silêncio os dados que consigo ver sobre cada um deles. Os nomes completos e endereços, as agendas de viagem, qualquer coisa que possa me ajudar a reparar em algo suspeito no comportamento deles; faço download de tudo isso e guardo para analisar depois. Mas mesmo com uma olhada rápida, o perfil de nenhum dos dois parece estranho. Não há escudo básico de qualquer tipo para proteger os dados. Yuebin até tem um vírus no Link dele que o está deixando mais lento. Por outro lado, talvez os dois estejam se escondendo por trás da fachada. É difícil saber sem avaliar todas as informações, como e-mails pessoais, mensagens particulares, Lembranças guardadas, coisas codificadas que nem a Henka Games tem permissão de acessar. Preciso de um caminho de entrada, de uma fraqueza, como a que explorei para roubar o power-up durante o jogo da cerimônia de abertura. Preciso de outra falha no padrão. As luzes principais do estádio ficam mais fracas, e os holofotes em movimento mudam de cor. Todos os assentos estão ocupados agora. O grito da plateia fica mais alto. Olho para a fileira de assentos e a sigo pela beirada da arena central, tentando reconhecer alguns dos outros coringas e associá-los aos jogadores de mais destaque que conheço. Ao meu lado, Ziggy e Yuebin finalmente param de discutir e se sentam mais eretos em expectativa. – Senhoras e senhores! As luzes agora percorrem o centro da arena, onde está um apresentador com uma camiseta com o logo de Warcross. – Fãs de Warcross de todo o mundo! – diz ele com voz alta. – Bem-vindos ao Wardraft! Estamos prestes a acrescentar alguns coringas à seleção das suas equipes favoritas de Warcross!

A plateia berra com aprovação. Meu coração está batendo tão rápido que me sinto fraca. – Vamos apresentar a pessoa mais importante aqui! – Ele aponta para cima na mesma hora que um holofote colorido muda para iluminar uma seção isolada do estádio, um camarote elegante com vidro em volta. Acima da caixa há uma placa virtual que diz Lugares Oficiais, separados para os executivos da Henka Games. Lá dentro, um jovem assiste, uma das mãos no bolso, a outra segurando um copo. Dois guarda-costas o ladeiam. Ao nosso redor, os hologramas mudam para mostrar o rosto dele. – A pessoa que tornou isso tudo possível: Hideo Tanaka! O estádio explode com os gritos mais altos que já ouvi, seguidos de um cantarolar trovejante de “Hide-o! Hi-de-o!” que faz a arena tremer. Hideo levanta o copo para fazer um brinde à plateia, como se esse nível de insanidade fosse perfeitamente normal, e se senta para assistir. Eu me obrigo a afastar o olhar. – Há dezesseis equipes oficiais de Warcross – continua o apresentador. – E cada equipe tem um total de cinco jogadores oficiais. Já escolhemos os jogadores veteranos que retornarão, mas todas as equipes hoje possuem pelo menos uma vaga. E temos quarenta coringas para eles escolherem. No final do recrutamento, os quarenta vão estar em alguma equipe. – Ele balança a mão na direção dos assentos da primeira fila. – Vamos fazer uma rápida apresentação! O holofote muda para apontar para o primeiro jogador coringa, e a música no estádio muda. O jogador é um garoto com cabelo castanho, que pisca por causa da luz repentina nele. – Rob Gennings, que representa o Canadá, fase 82, joga como Guerreiro. Ele ocupa a posição sessenta e seis no ranking mundial. – Gritos soam em toda plateia. Quando olho para as pessoas, vejo pôsteres balançando com entusiasmo, o nome de Rob escrito neles. Pela minha visão, repasso alguns dados básicos sobre Rob Gennings. Nome completo: Robert Allen Gennings. Orador no ensino médio. Último voo: de Vancouver para Tóquio, pela Japan Airlines. – Em seguida temos Alexa Romanovsky, representando a Rússia, uma jogadora de fase 90 conhecida por seus ataques de Ladra velozes como um raio. – Outra rodada de gritos. A música muda para uma canção que ela escolheu para si mesma. Observo uma lista de informações sobre ela. Nome completo: Alexandra Romanovsky. Local de nascimento: São Petersburgo. Antiga competidora da Paralimpíada. Ela foi desqualificada por arrumar briga com uma colega de equipe, e mudou seu foco para Warcross depois disso. Ela ergue a cabeça alto agora e assente para a plateia no domo. O apresentador continua pela fileira em ritmo rápido. O holofote vai se deslocando pelo lado oposto da arena, a música mudando a cada jogador. Todos eles são conhecidos e têm posições altas no ranking. Eu estou apenas na fase 28, porque normalmente entro usando uma conta codificada e anônima, e nenhuma atividade e vitória minha são registradas de forma adequada. – Renoir Thomas, da França, é mais conhecido como DJ Ren… A plateia explode em uma rodada ensurdecedora de gritos. Eu o procuro, mas o holofote para em um lugar vazio. A música que toca para ele é uma dele mesmo: “Deep Blue Apocalypse”, uma canção com um baixo sacolejante e uma batida viciante. Não há dúvida de que Ren é o mais popular. – … está ocupado no momento se preparando para a primeira festa de Warcross do ano. Mas fiquem tranquilos, vocês o verão em breve! As apresentações continuam. Tem mais dois coringas usando roupas cinza e brancas, fãs do Demon Brigade, provavelmente torcendo para que suas roupas chamem a atenção da equipe. Outros estão vestindo camisetas declarando seus jogadores profissionais favoritos. E há aqueles que parecem nervosos e deslocados, jogadores de ranking mais baixo ou que provavelmente serão escolhidos por último. Avalio os dados de cada um, baixando e salvando, organizando tudo em pastas. Tome cuidado com os nervosos, lembro a mim mesma. Pode ser um disfarce para esconder um hacker… – Emika Chen, fase 28, vem dos Estados Unidos da América! – grita o apresentador. Eu pulo quando o holofote se vira para mim, e de repente tudo é uma luz ofuscante. Uma explosão de gritos soa no estádio.

– Ela joga como Arquiteta. Vocês talvez se lembrem de vê-la no jogo da cerimônia de abertura, embora provavelmente não esperassem! Na verdade, ela ficou tão popular que nossos espectadores a inscreveram como indicada a coringa! Aceno com hesitação. Quando faço isso, os gritos ficam mais altos. Pareça sincera, digo para mim mesma. Abro mais o sorriso, tentando mostrar alguns dentes, mas a julgar pela minha projeção gigantesca no domo, estou com cara de quem comeu ostras estragadas. Penso se reparariam se me enfiasse debaixo da poltrona agora. Quando o apresentador termina de falar dos coringas, os holofotes se deslocam para a área do estádio onde as equipes oficiais estão sentadas. Gritos soam quando o apresentador introduz cada equipe. Meus olhos ficam grudados neles. Reconheço as roupas distintas brancas e cinza da Demon Brigade. Bem longe deles estão os integrantes já escolhidos para a equipe deste ano dos Phoenix Riders, liderados por Asher Wing, os capuzes e jaquetas vermelhos proeminentes. Eles dão uivos e berros quando o apresentador diz o nome deles. Em seguida, vem a equipe Andromeda, em tons de verde e dourado, e os Winter Dragons, em azul-gelo. Os Stormchasers em preto e amarelo. Os Titans (roxo), os Cloud Knights (safira e prateado). Enquanto continuo fazendo download das informações, sou distraída pelos holofotes mostrando cada equipe, sem nem conseguir acreditar que estou no mesmo lugar que essas pessoas. Finalmente, o apresentador termina. O estádio fica em silêncio quando um assistente entrega a ele um envelope colado. – Este ano, a equipe que vai escolher os coringas primeiro é… – Ele faz uma pausa enquanto rasga o envelope do jeito mais dramático que consegue. O microfone capta o som e o amplifica até o domo inteiro parecer estar sendo rasgado. Ele tira um cartão prateado, o levanta e sorri. O holograma muda e mostra o que o cartão diz. – Equipe Phoenix Riders! Na parte da equipe oficial, os Phoenix Riders soltam mais uma série de comemorações. No meio deles, Asher Wing está olhando para nosso arco de assentos de coringas com concentração silenciosa. Meu coração está tão disparado agora que estou com medo de que quebre minhas costelas. O apresentador espera um momento enquanto os Phoenix Riders trocam algumas palavras entre si. O silêncio parece se prolongar eternamente. Eu me pego inclinada para a frente na cadeira, ansiosa para saber quem vão escolher. Finalmente, Asher balança a mão uma vez na frente do corpo e envia a escolha da equipe para o apresentador. Ele olha para a escolha dos Phoenix Riders, pisca algumas vezes de surpresa e balança a mão uma vez. A seleção aparece em letras enormes acima da cabeça dele, girando lentamente. Todos os hologramas transmitem ao mesmo tempo. É o meu nome.

10 – Emika Chen! Um coral de sons ofegantes e surpresos ecoa por toda a arena. Há pessoas gritando à minha volta, alguém está sacudindo meus ombros e outra pessoa está gritando palavras entusiasmadas na minha cara. Tudo o que consigo fazer é observar, chocada. Sei que Hideo queria que me escondesse à plena vista de todos, mas não achei que fosse me fazer ser a primeira escolhida. Só pode ser algum engano. – Não é engano nenhum! – diz o apresentador, como se respondesse aos meus pensamentos. Ele gira com os braços esticados. – Parece que a primeira escolha deste ano vai ser uma coringa que não foi testada, não tem experiência e não está no ranking – ele pronuncia cada palavra lentamente, com grande ênfase –, que mesmo assim impressionou todos nós com a interrupção no jogo da cerimônia de abertura! – Ele continua falando, comentando com bom humor que talvez Asher Wing dos Phoenix Riders, bem conhecido pelas escolhas nada convencionais, tenha percebido alguma coisa que o resto de nós não percebeu. Só consigo olhar com expressão vazia na direção dos Phoenix Riders. Os olhos de Asher estão direcionados para mim, um sorriso arrogante se abrindo no rosto. Ele é um dos capitães mais intuitivos de todos, teria selecionado alguém com quem pudesse contar, jogadores experientes com rankings elevados. Não me escolheria só pelo espetáculo. Escolheria? Hideo o obrigou a essa decisão? Ele é Zero? Meu olhar se volta para o camarote particular, onde Hideo ainda está de pé, olhando diretamente para mim. Talvez tenha dado uma ordem para os Phoenix Riders me escolherem de primeira. Talvez seja pela audiência. Talvez seja para tirar o hacker Zero do meu encalço, riscada de sua lista de suspeitos por estar exposta demais. Ou talvez seja para distrair os outros caçadores de recompensa. Seja qual for o motivo, me vejo imaginando quando vou poder falar com ele de novo, perguntar qual é o raciocínio por trás disso. Alguém está sacudindo tanto os meus ombros que quase consigo sentir meu cérebro balançando. É Ziggy. – Você entende como isso é importante?! – grita ela na minha cara. Não sei bem como responder. – Quer dizer que você vai ter que se acostumar a ser seguida aonde for nos próximos meses e a estar em todos os noticiários. Heilige Scheiße! – Ela grita a expressão tão loucamente que o tradutor nem tenta interpretar. – Algumas pessoas têm tanta sorte. Finalmente consigo abrir um sorriso fraco, depois me acomodo para tentar assistir ao restante da seleção. Meus pensamentos giram quando o apresentador pega mais cartas e lê. A Demon Brigade escolhe Ziggy, enquanto os Phoenix Riders selecionam o DJ Ren. Os Titans escolhem Alexa Romanovsky. O show continua, mas sinto como se os holofotes ainda estivessem em mim. Os brilhos de luz que piscam na plateia me deixam tonta, e me pergunto quantas pessoas estão com os óculos direcionados para o meu perfil, procurando e revirando atrás de qualquer coisa que possam encontrar sobre mim. – Ei. – Yuebin me cutuca. – Olha, lá em cima. – Ele indica o camarote. Sigo o olhar dele, pronta para ver Hideo. Mas Hideo não está mais lá. Só ficou o restante dos chefes da empresa, conversando. Os guarda-costas de Hideo também foram embora.

– Parece que ele veio só para ver aonde você ia parar – murmura Yuebin, batendo palmas distraidamente enquanto outra escolha acontece. Só para me ver escolhida do jeito como ele queria. Meu coração disparado despenca um pouco, e tenho uma sensação estranha de decepção sem a presença dele na arena. Estou prestes a olhar para baixo novamente, mas alguma coisa se move no canto da minha visão. Meus olhos sobem até o teto. Fico paralisada. Lá, agachada no labirinto de vigas do teto, há uma figura virtual escura. Não consigo ver mais nada nele além de estática. A silhueta da cabeça está virada para baixo, observando a seleção se desenrolar. Nenhum nome flutua acima da cabeça dele. Tudo em sua postura parece tenso, alerta. Como se ele não devesse estar aqui. Um tremor percorre a minha coluna, deixa minhas mãos geladas. Ao mesmo tempo, meus instintos de caçadora de recompensas entram em ação: captura de tela, tirar uma captura de tela. Pisco, e na mesma hora a figura some de vista. – Ei – digo, olhando para Ziggy, que está comemorando um coringa escolhido pelos Stormchasers. – Hum? – responde Ziggy sem olhar para mim. – Você viu aquilo? – Vi o quê? Mas é tarde demais agora. A figura sumiu. Observo o teto de novo e de novo, talvez as luzes tenham me cegado tanto que não consigo mais enxergá-lo, mas ele não está em lugar nenhum. As vigas de metal e luzes estão vazias. Ele não estava aqui de verdade. Era parte da realidade virtual, uma simulação. E só eu consegui vêlo, graças ao meu hack. Ou era isso, ou tinha vivenciado uma alucinação insana. Ziggy franze a testa e aperta os olhos para o céu. – Vi o quê? – repete, dando de ombros. – Eu… – Obrigo-me a parar, sem saber o que dizer em seguida que não me faça parecer maluca. Forço uma gargalhada. – Ah, deixa pra lá. A atenção de Ziggy já voltou para a seleção dos jogadores. Mas fico de olho no teto, como se ele pudesse reaparecer se observasse por tempo suficiente. Será que o peguei? Enquanto os outros aplaudem a escolha de outro coringa, abro um pequeno painel secreto que guarda minha captura de tela. E ali está ele mesmo. Não alucinei nada.

O RESTO DO RECRUTAM ENTO passa voando. Quando termina e o restante do estádio começa a sair, guardas vêm levar os coringas e as equipes profissionais por saídas especiais. Caminho em um silêncio entorpecido, mesmo quando todo mundo por quem passo me observa com atenção e mesmo quando alguns outros coringas se aproximam para me parabenizar. Sorrio para eles, sem saber direito o que dizer. No fundo, continuo pensando na figura. Talvez fosse um dos caçadores de recompensa. Ou… talvez fosse Zero. Meu alvo. – Srta. Chen – um dos recepcionistas me chama, esticando a mão na minha direção e acenando. – Por aqui, por favor. Eu o sigo automaticamente. Atrás de mim, Ziggy e Yuebin acenam em despedida quando vão na direção de outro recepcionista, que está recolhendo os jogadores novos da Demon Brigade e dos Stormchasers. – Tchau! Vejo você em um jogo! – diz Yuebin. Aceno para ele. Sou levada a um carro, um dentre doze veículos pretos modernos em fila em frente a uma saída lateral particular. Mas um grupo de fãs já descobriu onde esperar, e quando vários de nós saem, eles levantam

os pôsteres e gritam para nós, esticando canetas e caderninhos. Atrás de mim, Asher Wing surge da saída, ladeado por dois guarda-costas. Na realidade virtual, o avatar de Asher se apoia sobre os dois pés; na vida real, ele é paralítico da cintura para baixo e fica sentado o tempo todo no que deve ser a cadeira de rodas mais cara do mundo. Agora que estou perto o suficiente, consigo perceber os detalhes dos contornos de ouro maciço da cadeira e o couro entalhado customizado. Olho para o rosto dele e me pergunto se devia me aproximar e dar um oi apropriado, mas me impeço de interrompê-lo enquanto Asher pisca para uma fã, que fica vermelha, e aproxima a cadeira da multidão para tirar fotos. A multidão quase o engole, mas os guarda-costas afastam todo mundo. Sou levada para um carro e meu momento passa. Vou ter que falar com ele depois, quando nossa equipe se reunir. Os carros saem um de cada vez, todos na mesma direção, pela mesma rua. Eu sei para onde estamos indo, já vi passar na televisão mais de dez vezes. No coração de Tóquio fica o bairro protegido de Mejiro, onde uma propriedade cercada de alojamentos luxuosos abriga as equipes de Warcross durante o torneio. Não demoramos para chegar lá. Quando alcançamos o portão, os repórteres e fãs se amontoam nas calçadas, guiando pequenos drones no céu para capturarem o máximo de vídeo que puderem. Vários drones pairam perto demais do portão; quando tentam atravessar, batem em um escudo invisível que os desarma e os faz cair com um estalo no chão. – Nada de câmeras, nada de drones – repete sem parar o guarda no portão, com tom entediado. Nós entramos no campus. Áreas de gramado verde ocupam o espaço, e entre elas há prédios individuais cercados de árvores. Pelas minhas lentes, uma camada virtual de cores fortes adorna as construções, pintando cada uma com as cores da respectiva equipe. Nomes e logos dos times pairam sobre cada alojamento, junto com uma mensagem alegre de Bem-vindos! que gira em línguas diferentes. Drones entregadores com autorização voam para dentro e para fora de cada alojamento, distribuindo pacotes. O carro para em um beco sem saída. Alguém está me esperando na calçada quando minha porta se abre. Eu me vejo olhando para o rosto sorridente de Asher. Nem tinha reparado que o carro dele estava na frente do meu. Acima da cabeça de Asher flutua seu nome, fase e Capitão dos Phoenix Riders. – Oi – cumprimenta, esticando o braço em minha direção. Atrás dele, grupos de outros jogadores já estão seguindo pelos caminhos que levam a seus prédios. – Sou Asher, representando Los Angeles. Pode me chamar de Ash. Aperto a mão dele. – É, eu sei – respondo, tentando não pensar no fato de que ele é alguém que assisti nas partidas de Warcross durante anos. – Eu sou fã dos filmes do seu irmão. Não achei que chegaria a falar com você hoje. A expressão dele esfria por um instante à menção do irmão, mas ele volta ao normal e dá uma risadinha. – Desculpe – responde ele. – Eu queria cumprimentar você quando estávamos indo para os carros, mas sabe como é. Os fãs primeiro. Abro um sorriso. – Bem, obrigada por me escolher. – Não fiz por caridade. – Asher balança a cabeça. – Os Phoenix Riders estão há anos com dificuldades. Nós precisamos de sangue novo e bom. Não tem nada de generoso em desejar o melhor para a minha equipe. – A cadeira de rodas dá uma meia-volta, e ele inclina a cabeça para que eu o siga. – É aqui que você vai ficar pelos próximos meses – diz quando dobramos uma esquina. Olho para a frente e vejo um prédio lindo pintado virtualmente com pinceladas de vermelho, dourado e branco. – Eu soube que o próprio Hideo aprovou sua indicação para o recrutamento. Depois do que você fez na cerimônia de abertura, é um gesto bem interessante.

Sorrio de novo, um pouco mais hesitante desta vez. – Acho que sou boa para a audiência – respondo. – Acho que é. Cuidado, lembro a mim mesma quando ouço a curiosidade na voz de Asher. Então Hideo não o forçou a me escolher. Ou talvez ele soubesse que a intriga que criou ao me botar no recrutamento fosse suficiente para interessar qualquer capitão. Seja qual for o verdadeiro motivo, pelo menos Asher não parece desconfiar dos planos de Hideo, e pretendo fazer com que continue assim. Quanto menos pessoas aqui souberem sobre o motivo de Hideo ter me contratado, maior chance vou ter de pegar o cara. – E parece que é bom para a sua audiência também – digo, mudando de assunto. – Os Phoenix Riders estão entre os assuntos mais comentados online, mais do que qualquer outra equipe. Aposto que a Demon Brigade não está feliz com isso. Ao ouvir o nome da equipe rival, Asher encosta a cabeça na cadeira de rodas e bate com a mão direita no braço. Ele sorri de uma forma que exibe um dos caninos, deixando a expressão maliciosa. – A Demon Brigade está sempre infeliz com alguma coisa. Ainda bem que é por nossa causa desta vez. Nós chegamos ao nosso prédio. Asher sobe pela rampa de acesso e, lá em cima, gira a cadeira uma única vez com um floreio. Ele para na entrada principal enorme, uma porta de vidro pintada com listras nas cores da nossa equipe, e abre espaço quando o painel se abre. – Coringas primeiro – diz. Eu entro em uma área aberta com três andares de altura. Direto para um sonho. O sol bate no átrio central por um teto de vidro em formato de pirâmide, inundando o local de luz. Diretamente abaixo do teto de vidro há uma piscina aquecida turquesa, perfeitamente quadrada e pronta para um mergulho. Sofás coloridos, todos vermelhos, dourados e brancos, e tapetes brancos grossos ocupam a sala. As paredes são feitas de telas do chão ao teto. Enquanto observo o interior luxuoso, examino os cantos da construção, já procurando pelos equipamentos que mantêm o alojamento online. Vou ter que encontrar meu caminho para dentro do sistema, até as contas de todo mundo. Alguma coisa me cutuca com hesitação na panturrilha. Olho para baixo. Parado ali, olhando para mim, está um robozinho quadrado da altura dos meus joelhos. Os olhos são azuis luminosos e têm forma de meias-luas, o corpo é pintado de uma amarelo alegre, e a barriga é coberta de um painel de vidro transparente, pelo qual vejo uma bandeja de refrigerantes gelando. Quando ele me vê olhando, projeta a barriga, abre a porta de vidro e retira a bandeja de refrigerantes para mim. – O nome dele é Wikki – diz Asher. – O drone da nossa equipe. Pode pegar um refrigerante. Não sei o que dizer, então pego uma lata. – Ele ainda está olhando para mim – murmuro para Asher. – Ele quer ver se você vai gostar da bebida. Tomo um gole de refrigerante. É delicioso, um sabor de morango borbulhante que faz cócegas por dentro. Faço um som exagerado de alegria. Wikki parece reparar, e acima da cabeça dele, uma tela virtual de informações surge: Emika Chen | refrigerante de morango | +1 – Ele vai registrar suas preferências de comida e bebida durante seu tempo aqui – acrescenta Asher. Um robô que rastreia as informações de todo mundo. Dou um sorriso para Asher, mas não pelo motivo que ele imagina. É meu bilhete de entrada. Tomo uma nota mental de descobrir como invadir o sistema de Wikki mais tarde. Wikki também oferece um refrigerante a Asher, depois fecha a barriga e desliza até um garoto sentado em um sofá. Enquanto olho, o garoto move as mãos no ar como se estivesse mexendo um volante, e de vez em quando faz um movimento de arremesso. Na parede há uma pista sinuosa passando por colinas

coloridas, ocupadas por cogumelos gigantes. Ele segue pela pista, ultrapassando outros jogadores com facilidade. – Mario Kart: Link Edition, como você pode ver – diz Asher. – É uma tradição aqui. – Tradição? – Jogamos uma hora todas as noites durante o treinamento para aumentar a velocidade dos reflexos. A coisa fica bem competitiva. – Ele bate palmas alto e ergue a voz para que se espalhe pelo alojamento. – Riders! Quem está aqui? O garoto escuta Asher primeiro, pausa o jogo, tira os fones de ouvido e se vira no sofá para olhar para o capitão. Eu o reconheço na mesma hora: o mundialmente famoso Roshan Ahmadi, com a pele morena e os cachos escuros e densos na cabeça, representante da Grã-Bretanha. – Adivinha quem veio comigo? – diz Asher, apontando para o meu cabelo. – Você é tão sutil Ash – responde Roshan com um sotaque britânico seco que parece mais casual do que o de Hideo. Ele assente uma vez para mim. – Oi, Emika. Sou Roshan. – Ele está voltando como nosso Escudo este ano – acrescenta Asher. – E também é o jogador de Mario Kart mais bem posicionado no ranking mundial, caso você esteja curiosa. – Oi. – Tiro uma das mãos do bolso e aceno uma vez. – É uma honra conhecer você em pessoa. Roshan parece satisfeito com isso. Ele me oferece um breve sorriso. – Igualmente, querida. – Todos já escolhemos os nossos quartos – diz Asher, indicando o corredor que sai do átrio principal. – Roshan quis o que tem as janelas maiores. O meu é o da ponta, que tem algumas adaptações especificamente para mim. Privilégios de capitão. O de Ren é o do final do corredor. E você… – Ei! Uma voz nos chama de um dos pisos acima. Olho e vejo uma garota com os cotovelos apoiados na amurada, mastigando chiclete ruidosamente. O cabelo é um conjunto de cachos pretos lindos que emoldura o rosto redondo, e ela está vestindo uma camiseta de clube branca e larga que contrasta com a pele negra. Quando olho de novo, reparo que a camiseta não é uniforme de esporte nenhum: ela diz TESTES DE QUADRIBOL com letras esportivas gigantes. Gosto da garota na mesma hora. – Essa é Hamilton Jiménez – diz Asher, alto o bastante para ela ouvir. – Ou só Hammie. Ela é nossa Ladra. – Ele pisca para ela. – E minha mão direita. Hammie sorri para Asher. – Está sentimental hoje, Capitão? Ele olha para mim. – Aviso: não deixe que ela convença você a jogar xadrez. – Não fique azedo só porque não consegue ganhar. – Ela faz uma bola enorme e suga o chiclete para dentro da boca novamente. O olhar dela se desvia para mim. – Seu quarto fica aqui em cima. No segundo andar. Peguei o quarto maior, porque você é coringa e eu não. Espero que não se importe. Aguardo para ver um quarto jogador dar as caras, mas a casa fica em um momento de silêncio. – Onde está o DJ Ren? – pergunto. – Só vamos vê-lo mais tarde – responde Asher. – Ren está se preparando para a festa hoje. É a única dispensa que ele vai receber de mim, principalmente porque estou contando com ele para ser nosso novo Guerreiro. E que isso seja uma lição para você também, Emi. Estamos aqui para ganhar. – Claro. – Que bom. – Ele assente e me avalia. – Espero que você seja tão boa Arquiteta quanto acho que é. Ouvir isso dele gera uma onda de ansiedade e empolgação em mim. O trabalho de um Arquiteto é manipular o mundo da fase a favor da equipe. Se houver um obstáculo, como uma ponte, eu a desabaria para podermos passar. Se houver pedras flutuantes, as juntaria para criar uma plataforma maior. Um

Arquiteto é um designer da fase, dedicado a alterar o mundo a favor da equipe na hora certa. É uma das funções mais importantes no time. Ano passado, os Phoenix Riders perderam o Arquiteto porque ele foi pego apostando milhões em partidas de Warcross. A equipe toda foi punida com rigor, jogada para o fim do ranking e desprovida dos dois melhores jogadores. – Vou fazer o melhor que puder – digo. – Amanhã – continua Asher enquanto o sigo até um elevador que leva ao segundo andar – nós vamos atualizar você e Ren sobre como as coisas funcionam nos jogos do campeonato. Vou mostrar para vocês dois um jogo oficial. Se bem que você – ele para e se vira para me olhar com expressão avaliadora – talvez já saiba mais do que demonstra. Levanto as mãos. – Foi acidente – digo, sentindo que vivo repetindo isso desde sempre. – Eu não sabia o que estava fazendo. – Você sabia – responde Asher sem hesitar. – Na verdade, você é uma jogadora de Warcross bem melhor do que sua fase sugere. Não é? – Ele indica os números acima da minha cabeça. – Depois que seu nome viralizou, pesquisei sua conta de Warcross. Estudei as poucas partidas que você jogou. Aquelas não são as habilidades de uma Arquiteta que só está na fase 28. Por que você joga tão melhor do que sua fase sugere? – O que leva você a dizer isso? Eu só jogo contra outros iniciantes. – Acha que não consigo enxergar além disso? Ele vem prestando atenção em mim. É verdade: transmito minhas partidas ao vivo via streaming quando estou conectada com minha conta pública de Warcross. Mas meu eu codificado e anônimo é a conta que uso com mais frequência. Todas as horas que passo nela não contam para meu nivelamento. Mesmo assim, não vou contar isso a Asher. – Eu só não tenho dinheiro e tempo para jogar tanto quanto quero – digo. – Mas aprendo muito rápido. Asher não parece acreditar nisso, mas deixa passar. – Todas as equipes vão subestimar você. Vão dizer que perdi o bom senso, que escolhi você só pela cobertura de imprensa que vai atrair para os Riders. Mas nós sabemos que não é só isso, não é? Não perco tempo com jogadores sem potencial. Você é uma arma disfarçada, e pretendo que continue assim até nosso primeiro jogo. Parece que estou me tornando a arma disfarçada de mais gente do que gostaria. Nós chegamos ao segundo andar. Asher se vira para mim, encosta a cabeça na cadeira e troca um olhar com Hammie. Ela assente, junta os cachos em cima da cabeça e volta a soltá-los. – Hammie vai mostrar o resto a você – diz Asher. – Vamos sair em algumas horas para a festa de abertura. – Ele começa a seguir para o elevador. – Todos os jogadores vão estar lá com tudo. Se você nunca viu uma festa de abertura, se prepare. É uma loucura. Hammie olha para mim assim que Asher sai. Ela tem a mesma altura do que eu, mas, de alguma forma, o jeito como projeta o queixo a faz parecer mais alta. Ela faz sinal para eu me aproximar e vai até a porta mais próxima. – Este é seu quarto – diz ela, me olhando por cima do ombro. Até espero que a porta se abra como uma porta normal, mas ela desliza para o lado. O quarto é enorme, ainda maior do que a cobertura do hotel em que fiquei. Uma parede inteira de vidro leva a um terraço particular, metade do qual é ocupado por uma piscina de borda infinita azul cintilante que segue até a beirada da varanda. Uma cachoeira cai de algum lugar do telhado na piscina. O resto das paredes é pintado virtualmente pelas minhas lentes de marfim e dourado. Quando estico a mão para tocar nas cores, elas balançam sob meus dedos, criando ondas pelo quarto. Ao mesmo tempo, três botões pequenos acima da minha mão pairam na parede. Um diz desligar, outro diz mudar de cena e o terceiro diz customizar. Decido desligar as cores por ora e aperto o primeiro botão. As paredes são substituídas por espaço

vazio. Olho ao redor. Minha cama é enorme, cheia de almofadas fofas e cobertores, e meus tapetes combinam com os que estão lá embaixo. Uma área de trabalho domina o resto do espaço: cadeiras, uma mesa vazia. Hammie sorri quando vê minha expressão. – E o seu é o quarto menor – diz ela. Eu me viro para o espaço. – Este lugar é absurdo. – Tudo no alojamento é gamificado – explica ela. – Assim como o resto de Tóquio. Você vai ganhar três notas cada vez que customizar suas paredes, e uma por mudar o cenário. O quarto está préprogramado com sua conta de Warcross. Se você estiver conectada, o sistema da casa sabe que é você que está entrando. – Como isso funciona? – pergunto. Ela se aproxima e indica o botão de ligar pairando perto da superfície da mesa, mas não tenta tocar nele. – Você é a única que pode ligar sua área de trabalho – diz ela. – Aperte aqui. Toco no botão. Assim que faço isso, a mesa previamente vazia se acende com listras suaves das cores da nossa equipe, com uma mensagem de boas-vindas para mim em texto branco. Um segundo depois, uma tela holográfica sobe da mesa. É um display comum de desktop, só que flutua no ar. Esse tipo de desktop começou apenas recentemente a ser comercializado nos Estados Unidos, e é claro que está fora do meu poder aquisitivo. Hammie sorri quando vê minha expressão. – Arraste a tela na direção das paredes – diz. Eu toco na tela com dois dedos e faço um movimento na direção da parede na nossa frente. O display segue meus dedos e voa da tela para a parede, onde preenche o espaço todo, ampliado. – A sala do andar de baixo possui a melhor área de trabalho, claro – acrescenta Hammie. – Mas temos isso em todos os quartos. É bom para uma reunião improvisada de equipe. Se o mesmo sistema está instalado lá embaixo, então o desktop de cada quarto não é tão seguro quanto ela acha. Posso entrar no sistema principal e depois serei capaz de acessar cada sistema individual, independentemente de para quem a área de trabalho foi feita. Dou um sorriso para o lindo display do tamanho da parede. – Obrigada. – Eu estava começando a achar que nenhum americano seria a primeira escolha. – Hammie prende um cacho atrás da orelha. – É bom ter você na minha equipe. Talvez eu pare de pegar no pé de Ash e pegue no seu para variar. – Ela dá uma piscadela e se vira antes que eu possa responder. Fico onde estou até ela sair e a porta se fechar. Em seguida, coloco as mãos nos quadris e admiro o quarto. Meu espaço. Na casa oficial dos Phoenix Riders. Ando até onde meus poucos pertences foram colocados, ao lado da cama, e pego minha decoração de Natal e o quadro do meu pai. Coloco as duas coisas na prateleira. Parecem pequenas ali, simples demais para aquele quarto luxuoso. Imagino meu pai ao meu lado. Bem, Emi, ele diria, empurrando os óculos no rosto. Ora, ora. Ao pensar no meu pai, minha atenção se desvia para o armário. Com uma batida do dedo na porta, ele se abre e revela um espaço tão grande quanto o apartamentinho onde eu morava com Keira. Caramba. O armário já está cheio de uma variedade de roupas, todas de marca. Olho sem acreditar antes de entrar e passar as mãos pelos cabides. Cada item deve valer milhares de dólares: camisas, calças jeans, vestidos, casacos, sapatos, bolsas e carteiras, cintos e joias. Minha mão para na sapateira, onde pego um par extravagante de tênis brancos, vermelhos e verdes que têm cheiro de couro novo, os calcanhares

decorados com tachas douradas. Como o restante do armário, os sapatos ainda estão com etiqueta, junto com um pequeno cartão.

GUCCI Patrocinadora oficial do VIII Campeonato de Warcross Presentes de patrocinador. Não é surpresa que todos os jogadores profissionais sempre parecem ter saído de uma passarela. Tiro minhas botas gastas, coloco com cuidado em um canto e experimento os sapatos novos. Cabem como uma luva. Uma hora passa voando enquanto experimento como louca tudo no meu armário. Tem até uma prateleira dedicada a máscaras faciais de todas as cores e desenhos, um acessório que vi sendo usado por toda Tóquio. Experimento algumas, puxando as tiras por cima das orelhas para fazer a máscara cobrir minha boca e meu nariz. Talvez seja interessante de se ter à mão se precisar andar pela cidade sem ser reconhecida. Quando termino, fico parada, ainda usando roupas extravagantes, sem fôlego e inquieta. Cada coisa ali custa mais do que minha dívida toda antes de Hideo pagá-la. Hideo. Eu balanço a cabeça, coloco tudo de volta e saio do closet. Vou ter muito tempo depois para admirar tudo aquilo; por ora, tenho que voltar ao trabalho. Hideo cuidou para que eu fosse escolhida para uma equipe, mas agora depende de mim garantir que minha equipe vença cada rodada. Quanto mais tempo os Phoenix Riders ficarem no campeonato, mais tempo tenho para investigar os jogadores. Nesse momento, os outros caçadores devem estar no rastro de Zero, relatando suas descobertas para Hideo enquanto fico admirando o guarda-roupa novo. Eles também deviam estar no Wardraft. E se também viram a silhueta negra empoleirada nas vigas do teto? Agora, outra pessoa pode estar ganhando dez milhões de dólares; posso já estar destinada a voltar a Nova York. E aqui estou, brincando com minhas roupas novas. Ponho as mãos na massa. Primeiro, subo os escudos e mudo para a versão anônima e invisível da minha conta. Em seguida, me sento na beirada da cama e puxo a captura de tela que tirei mais cedo das vigas do teto. A imagem é uma captura em 3D, que posso girar do ponto de origem. Além disso, pego todos os dados e códigos no domo no momento em que foi tirada. Aperto os olhos para a silhueta estática na minha captura de tela em 3D. Dar zoom só deixa a imagem mais embaçada. Consigo ver o código fazendo as simulações virtuais em volta do domo, mas não enxergo nenhum código nem dados da figura. Digito alguns comandos e removo os elementos visuais da captura de tela, para agora ficar imersa no código. Onde a silhueta se encontra, vejo apenas uma área de estática. Eu me encosto e fico pensando. Ele está escondido de mim de todas as formas possíveis… mas consegui vê-lo. Ele provavelmente não esperava isso. Se for Zero, não está se disfarçando tão bem quanto deveria. Mas o Tokyo Dome está em uma rede própria de conexões para o Wardraft. O jeito mais fácil daquela pessoa ter aberto caminho por hacking até lá é se for alguém cuja entrada já tinha sido aprovada na arena e tivesse sido fisicamente liberada pela segurança. Alguém na plateia, então. Ou um jogador, como Hideo desconfia. Ou um coringa. Eu me inclino para a frente de novo e reativo os elementos visuais, em seguida, dou zoom para quebrar o código que gerou a imagem dele. Uma visão simplificada do código aparece. Leio enquanto mordo distraidamente o lábio. Mas vejo uma coisa que me faz parar. Não passa de uma linha. Na verdade, é menos que uma linha: um par de letras e um zero, perdidos no código. Uma pista.

WC0 Dentro da programação de Warcross, a referência aos jogadores é quase sempre feita através dos seus identificadores, escritos como WPN. WP significa Warcross Player, jogador de Warcross. O N é um número aleatório e misturado. Então, se eu estiver olhando para um código do meu próprio avatar, provavelmente me veria sendo chamada de WP39302824, ou algo do tipo. A única ocasião em que um identificador diferente é usado pelos jogadores de Warcross é em Wardraft. Durante o recrutamento, os jogadores não são representados na programação por seus identificadores regulares. Eles não usam WP. Eles são WC, Wild Card ou Coringa. Minha identificação no Wardraft era WC40, porque fui a última a entrar na lista. WC0. De quem quer que a silhueta fosse, era alguém fisicamente autorizado a estar no Tokyo Dome. Um coringa no Wardraft. As suspeitas de Hideo chegaram perto. Eu roo distraidamente a unha, os olhos apertados enquanto penso. Preciso de outro momento em que todos os coringas estejam compartilhando o mesmo espaço. Uma vez fisicamente próxima de todos eles, serei capaz de estudar as suas informações. A festa de hoje à noite. As últimas palavras de Asher ecoam na minha mente. Todos os jogadores vão estar lá com tudo. Essa vai ser minha oportunidade. Abro um menu virtual e clico no botão de chamar Wikki. Um minuto depois, o robozinho entra no quarto, os olhos de meias-luas cheios de expectativa na minha direção. Faço sinal para ele se aproximar e o viro para poder estudar o painel na parte de trás da sua cabeça. Ao mesmo tempo, abro a configuração. – Você é a coisinha mais fofa, né – murmuro enquanto removo com cuidado a cobertura do painel. Dentro há um labirinto de circuitos. – Wikki, desligue todas as gravações. O robô obedece e desativa a coleta de dados. Enquanto mexo nele, percebo que não foi feito pela Henka Games, mas sim por alguma outra empresa, com segurança mais fraca. Lembraram de instalar proteções em todo o resto desse lugar, mas ninguém deu muita bola à segurança necessária naquele pequeno drone que só nos serve comida e bebida, e armazena silenciosamente informações sobre todos os nossos hábitos nesse processo. Uma hora depois, atravessei todos os escudos. Wikki registra bem mais dados do que imaginava. Além de armazenar informações sobre os Phoenix Riders, ele também parece preparado para servir as outras equipes, o que quer dizer que tem conexões opcionais às contas de NeuroLink de todas as demais pessoas. Abro um sorriso. Todo mundo está conectado de alguma forma a todas as outras pessoas. Rodo um script que se sobrepõe à segurança de Wikki. Enquanto trabalha, entro na conta de cada um dos meus colegas de equipe. Acesso e-mails, mensagens, Lembranças. De lá, preparo meu hack para penetrar nas contas de cada jogador das outras equipes. Vai demorar um tempo para baixar tudo, mas o programa está funcionando agora. Eu substituo o painel de Wikki, verifico duas vezes para ver se não deixei rastros da minha presença e reinicio o robô. Ele é ligado, os olhos piscam e a coleta de dados volta ao normal. Dou um tapinha na cabeça dele e aceito outro refrigerante de morango. – Obrigada, Wikki – digo, dando uma piscadinha para ele. Ele registra minha preferência e sai do quarto. Abro o refrigerante e tomo um gole. Até amanhã, já devo ter entrado.

11 Quando o sol se põe e chegamos ao coração de Shibuya, as luzes néon de Tóquio já estão acesas, deixando a cidade mergulhada em um arco-íris iluminado de cores. Seguranças cercam nossa limusine quando paramos na entrada da boate. As ruas estão fechadas, para que nenhum carro além do nosso possa passar, e um tapete vermelho cobre a calçada. Nós todos estamos de lentes. Através delas, enxergamos fagulhas prateadas e douradas que voam de ambos os lados das portas de vidro da boate, enquanto um logo de Warcross paira acima do prédio. A calçada está cintilando com um caleidoscópio de cores fortes e rodopiantes. O nome da boate, Sound Museum Vision, flutua nas portas de vidro como um logo gigante e iluminado. Mesmo daqui de fora, escuto uma batida alta vinda de dentro: os ritmos graves de uma música do DJ Ren. As únicas pessoas que podem entrar na boate hoje são os jogadores oficiais de Warcross, os funcionários da Henka Games e um grupo de fãs de Warcross que foram escolhidos por meio de uma loteria. Agora, eles estão reunidos do lado de fora em uma fila confusa, esperando que a segurança os deixe entrar. Quando nossa equipe se aproxima da entrada, os fãs soltam um coral de gritos. Nós quatro vestimos máscaras pretas iguais hoje. Hammie vai primeiro, os cachos soltos, compridos e volumosos, a roupa é um vestido amarelo e branco acompanhado de saltos pretos. Asher a segue, elegante em um terno vermelho ousado, enquanto Roshan está de preto dos pés à cabeça. Minhas mãos mexem constantemente na barra de um dos meus vestidos novos. Tem camadas de chiffon branco macio, que contrasta lindamente com as minhas tatuagens e meu cabelo colorido, mas é mais curto do que achei que seria. Nunca entrei em uma boate chique assim e, quando passamos pelos fãs, me pergunto se devia ter escolhido uma roupa diferente. Hideo vai estar aqui hoje, afinal. A última coisa que quero é parecer desconfortável na frente dele. Uma agitação na fila de fãs me faz olhar para trás. Como era de se esperar, Hideo está lá, ladeado por um grupo de guarda-costas. Mas estão dando algum espaço para ele hoje, e quando olho melhor, percebo que ele está ajoelhado para autografar o pôster de uma garotinha. Ela diz alguma coisa com animação. Apesar de não conseguir ouvir as palavras, o escuto gargalhar em resposta. O som me surpreende: é genuíno e juvenil, tão diferente da postura distante do nosso encontro. Eu me percebo demorando por um momento antes de finalmente me virar e voltar a seguir a minha equipe até o saguão da boate. A boate é no subsolo. Quando saímos do elevador, a música fica ensurdecedora de repente, a batida sacudindo meu corpo através do próprio solo. Hammie fica ao meu lado quando entramos, tira a máscara do rosto e a dobra, guardando na bolsa. Eu a imito. – O Sound Museum Vision tem o melhor sistema de som da cidade! – grita ela. – Todo feito sob medida. E reformaram o espaço alguns anos atrás. Está com o dobro do tamanho original. Chegamos ao pé da escada, onde outro grupo de seguranças nos permite passar. Lá dentro é uma caverna bocejante de escuridão, com luzes piscando e uma batida latejante que me sacode no fundo do peito. Mesmo sem as lentes, o espaço impressionaria. O teto tem pelo menos três andares de altura, e luzes azuis, verdes e douradas piscam nos cegando em cores. Um mar de gente enche o salão, os braços levantados, os cabelos balançando loucamente. Uma névoa leve paira no ar, dando a tudo uma obscuridade surreal. Telas enormes que vão do chão ao teto cobrem as paredes, assim como o fundo do

palco principal, passando uma animação de cada equipe de Warcross. Mas, com as minhas lentes, o espaço se transforma em uma coisa mágica. O teto parece um céu noturno coberto por uma camada de estrelas, com manchas verdes e vermelhas semelhantes a uma aurora boreal dançando de ponta a ponta. Algumas das estrelas se movem na nossa direção e respingam fagulhas, como se poeira de estrela chuviscasse sobre nós. Cada vez que o som do baixo se intensifica, o chão brilha em uma sinfonia de luzes. Os jogadores oficiais na pista brilham no escuro, as roupas iluminadas em néon, seus nomes, afiliação de equipe e fase pairando acima da cabeça como troféus dourados. Ao redor deles sempre há multidões compactas. Todo mundo está tentando chamar a atenção deles na pista de dança, nem que seja por um momento. Talvez Zero esteja aqui assistindo, lembro a mim mesma. Talvez os outros caçadores de recompensas também. Meus olhos desviam para o palco. O espaço é enorme, tão grande quanto um salão de concertos, e há uma orquestra ao vivo no poço abaixo. Na frente do fundo do palco há uma tela enorme com a cabeça azul-gelo de um dragão a atravessando. Fogo parece sair da boca do dragão em uma exibição espetacular. Levo outro segundo para lembrar que o dragão em si também é virtual; ele se move como se fosse real, virando e inclinando a cabeça a cada batida, seu rosnado ecoando de algum lugar nas profundezas do sistema de som. Na frente da boca do dragão, vejo uma cantora com cachos curtos e artificialmente louros e roupas em tons néon de azul. Frankie Dena! Ela está cantando o refrão de uma das colaborações dela com DJ Ren: “Ei, Ninja / Gângster / Moça com alma de dragão / Ei, da onde você vem, não, da onde você vem de verdade, amor / Ei, tive uma ideia / que tal você parar com essa palhaçada / Isso mesmo!” Dançarinos sacodem os braços no ritmo da música, com energia. Ela nos vê e faz uma pausa. – Os Phoenix Riders estão na pista! – grita. As luzes estroboscópicas se voltam em nossa direção, e de repente estamos cobertos de brilho vermelho. Gritos soam ao nosso redor, altos o bastante para sacudir o chão. Frankie sorri e aponta para uma figura no alto da parede do dragão. – Mostre seu amor pela sua equipe, Ren! A figura no alto olha brevemente através de uma jaula decorada com barras douradas. Ele está usando seu traje clássico de DJ: um terno preto bem ajustado, óculos dourados, uma máscara dourada e um fone de ouvido moderníssimo com asas douradas de metal dos dois lados, como se ele fosse o deus mensageiro Hermes usando uma criação da Hermès. A música muda em um movimento suave: o som de violinos e violoncelos elétricos e uma batida grave e reverberante enche o espaço. Ao mesmo tempo, o aposento ao nosso redor explode em chamas, e o dragão na parede transmuta-se em uma fênix vermelha e dourada. Ofego quando o chão dá a impressão de se mover. Ao olhar para baixo, vejo pedaços despencando e revelando lava derretida sob os nossos pés. A plateia grita de empolgação quando cada um de nós fica em ilhas de pedra flutuando na lava. DJ Ren inclina a cabeça sobre os instrumentos. Levanta um braço bem alto enquanto obriga a batida crescer a um ritmo febril, até eu mal conseguir suportar. Em seguida, faz um baixo cruel despencar sobre as nossas cabeças. O aposento treme, e a multidão explode em uma massa de membros saltitantes. A música me preenche até a alma. Por um momento, fecho os olhos e deixo as batidas me levarem. Estou atravessando as ruas de Nova York no meu skate elétrico, o cabelo colorido voando atrás de mim. Estou no alto de um arranha-céu açoitado pelo vento, os braços esticados. Estou voando pelos céus de Warcross, no espaço sideral. Sou livre. Asher já parece distraído, a atenção voltada para os jogadores da Demon Brigade, que acabaram de entrar na boate. Frankie anuncia a presença deles, e a parede de DJ Ren muda da nossa fênix para uma horda de monstros esqueléticos com capas e capuzes montando cavalos, passando pela plateia com as

espadas em riste. – Vá conversar com os Demons hoje – murmura Asher para mim. – Você é nossa nova recruta, e eles vão fazer tudo que puderem para intimidá-la. Querem que você vá insegura para o primeiro jogo. – Eles não me assustam. – É o que espero. – Asher pisca para mim. – Mas quero que você pareça assustada. Faça com que te subestimem. Quero que pensem que a encurralaram e botaram medo em você, que cometemos um erro enorme ao escolhê-la como primeira opção. Permita que fiquem arrogantes. Depois, vamos acabar com eles nos jogos e deixá-los de queixos caídos. Roshan olha de soslaio para Asher. – Não é meio cedo para jogar nossa coringa na linha de fogo? – pergunta ele. – Ela aguenta. – Asher sorri para mim. – Tem linha de fogo estampado na testa. Decido sorrir, torcendo para as coisas não estarem tão evidentes na minha cara a ponto de Asher descobrir o que estou realmente fazendo aqui. Minha atenção se volta para os Demons. Estão reunidos perto do palco onde o DJ Ren toca. É uma desculpa boa para eu coletar dados sobre todos. – Pode deixar, capitão – digo. Enquanto seguimos pelos amontoados de cotovelos e ombros, Roshan me passa uma bebida. – Você vai precisar – murmura ele. – Ash sempre sente vontade de alfinetar um pouco nossos rivais antes do jogo. Mas se você não quiser conversar com os Demons, não precisa. Para quase todos os lados que olho, vejo jogadores oficiais que reconheço. Eles também estão me observando, reparando em mim, conversando uns com os outros sem tirar os olhos de mim. O que estão dizendo? O que sabem? Algum deles também é caçador de recompensas? Para alguém acostumada a ficar na minha, o excesso de atenção é meio incômodo. Mas apenas sorrio de volta cada vez que reparo. – Vamos – digo para Roshan. – As pessoas vão falar sobre mim de qualquer forma. É melhor me acostumar logo com os confrontos. Roshan se inclina para perto de mim e indica a direção de Max Martin e Tremaine Blackbourne, da Demon Brigade, conversando em um canto. – Bom, se alguma hora jogarmos contra os Demons – diz ele no meu ouvido em voz baixa –, você vai precisar encarar aquele par. Max é o Guerreiro, Tremaine é o Arquiteto. E Tremaine vai partir pra cima de você no jogo porque você foi a primeira escolhida. Venha. – Ele coloca a mão nas minhas costas e me guia. Ao lado de Max, Tremaine parece magro e pálido, quase fantasmagórico em seu terno preto e branco. Ele e Roshan trocam um olhar gelado quando nos aproximamos. Tremaine ergue uma sobrancelha cética para mim. – Oi! – digo para ele, abrindo um sorriso largo e ingênuo. – Tremaine Blackbourne, não é? – Ao mesmo tempo, bato com os dedos sutilmente na perna e começo a baixar informações sobre ele e Max. – É tão emocionante estar no mesmo espaço que as outras equipes, não é? – Ela está emocionada de estar aqui – diz Tremaine para Max enquanto os olhos permanecem em mim. – Acho que eu também ficaria se tivesse trapaceado para chegar ao recrutamento. Bem que você queria ser inteligente o bastante para conseguir entrar na base da trapaça, sinto vontade de responder… mas respiro fundo e empurro a resposta goela abaixo. Ao ver minha expressão tensa, o sorriso de Tremaine se aperta mais. – Olha essa princesinha. Elas se magoam com tanta facilidade que precisam de um Escudo para acompanhá-las. – Os olhos dele evitam Roshan de uma forma que deixa claro para mim que é lá que a atenção dele está de verdade. – Ash deve estar perdendo o juízo pra escolher você primeiro. Max me avalia. – Bom, talvez Ash só quisesse escolher alguém que combinasse com o pedigree da equipe. Não é verdade, Ahmadi? – diz ele para Roshan. Mesmo com o olhar dos dois Demons fixados em mim, eles não

falam diretamente comigo. A mão de Roshan aperta um pouco meu braço. – Não dá nem pra se entrar em um restaurante chique sendo fase 28. Ela parece ter saído direto de um cesto de roupa usada. Finjo perder o equilíbrio e, com o salto, piso com força no sapato de Max. Ele solta um gritinho. – Ah Deus… me desculpe! – digo de repente, fingindo estar chocada. – É impossível andar com esses saltos usados. Roshan olha para mim com surpresa. Um sorrisinho paira nos cantos dos lábios dele. – Olha, sei que não começamos com o pé direito… literalmente – digo para Max enquanto ele olha para mim de cara feia. – Mas achei que talvez a gente pudesse recomeçar, sabe, para mostrar espírito esportivo. – Estico a mão para eles, esperando um aperto. Tremaine é o primeiro a cair na gargalhada. – Uau – exclama ele acima da música. – Você é uma coringa e tanto. – Ele faz questão de ignorar minha mão esticada. – Olha, Princesa Peach, não é assim que as coisas funcionam no campeonato. Olho para ele com confusão e inocência. – Ah é? E como funcionam então? Ele levanta um dedo. – Eu jogo contra você. – Outro dedo é erguido. – Eu venço você. Depois, se você pedir com jeitinho, eu dou um autógrafo para você. Isso é que é espírito esportivo generoso, você não acha? – Os fãs em volta dele dão sorrisinhos superiores para mim, e mesmo com a música do DJ Ren, eu consigo ouvir as risadinhas. Preciso de todo o meu autocontrole para não fechar o punho agora e arrancar o sorriso da cara de Tremaine na porrada. Já me meti em muitas brigas por menos. O que faço é reunir todas as informações que consigo sobre os dois jogadores. A essa altura, meu hack penetrou na conta dos Demons. Mas não tem nada nos dados desses dois que pareça suspeito. Volto minha atenção para as informações de Max Martin. Ele também é surpreendentemente esparso. Não tem escudos de segurança fora do comum. Nada de útil. Roshan vem me ajudar antes que os Demons possam acrescentar qualquer coisa. – Poupem saliva – diz ele friamente, o olhar fixo em Tremaine. – Bravata não vai ajudar na arena. Tremaine me olha com expressão de desprezo. Fico feliz de ver esse olhar: eles vão me subestimar. – Palavras grandes vindas da equipe mais mal posicionada. – O olhar dele se desvia brevemente para Roshan. – Voltem para seus Riders. – Ele sai andando, e Max vai atrás. – Quem foi que atropelou os bichinhos de estimação deles? – murmuro para Roshan, meu olhar nas costas de Tremaine. – É só parte da estratégia dos Demons. Eles falam feio e torcem para uma parte entrar na cabeça do adversário, até se instalar lá. Às vezes, funciona. Se você repetir um insulto vezes suficientes, qualquer um começa a acreditar. Uma lembrança leve de torneios passados volta a mim, e de repente me lembro de ter visto Tremaine e Roshan juntos com frequência, gargalhando e sorrindo. – Ei – digo. – Tremaine já foi dos Phoenix Riders, não foi? Vocês não eram amigos? A expressão de Roshan muda. – Podemos dizer que sim. – O que aconteceu? – Tremaine quer ganhar. Sempre – responde ele. – É simples assim. Então, quando a Demon Brigade se tornou a nova equipe da moda, ele quis sair dos Riders. – Ele dá de ombros. – É melhor assim. Combina mais com a personalidade dele de qualquer forma. Nesse momento, lembro que Roshan e Tremaine foram coringas no mesmo ano. Roshan foi o primeiro a ser escolhido. Quero perguntar sobre isso, mas a expressão no rosto dele me diz que está ansioso para mudar de assunto. Talvez eles tivessem sido mais do que amigos. Eu só assinto e deixo de lado. Hammie faz sinal para nós do outro lado da pista de dança e chama nossa atenção. Ela está apontando

para um amontoado de gente em volta de alguém. Demoro um segundo para perceber que é Hideo, com as mangas da camisa do smoking dobradas até os cotovelos e o blazer jogado por cima do ombro. Kenn caminha ao lado dele, cumprimentando fãs e jogadores com o sorriso enorme e animado. Hideo é mais reservado, a expressão tão séria quanto me lembro, mesmo quando cumprimenta educadamente as pessoas. Hammie abre caminho até nós e agarra o meu braço e o de Roshan. – Vamos dar um oi. Nós acabamos atrás de um grupo de jogadores da Cloud Knights e da Equipe Andromeda, enquanto na nossa frente Max e Tremaine apertam a mão de Hideo. Tremaine está dizendo alguma coisa rapidamente para ele, enquanto Hideo assente pacientemente sem sorrir. Mordo o lábio e puxo o vestido, constrangida, enquanto xingo minha decisão de usar essa coisa. O olhar de Hideo pousa em mim. Minha respiração trava. Ele se despede rapidamente de Tremaine e anda na nossa direção. Um momento depois, ele está aqui, e Roshan está se adiantando para cumprimentá-lo. Hammie bate no meu pulso. – Sossega – diz ela, olhando diretamente para o meu vestido. – Eu estou sossegada – resmungo, e Hideo aparece na minha frente, e minhas mãos ficam paralisadas nas laterais do corpo. – Srta. Chen – diz ele. O olhar permanece no meu rosto. – Parabéns. Você foi responsável por meu status de primeira escolhida no recrutamento?, tenho vontade de perguntar, mas só sorrio para ele e aperto sua mão com educação. – Acredite, fiquei tão chocada quanto todo mundo – respondo. Atrás dele, Tremaine e Max nos encaram. Se Tremaine pudesse me perfurar com o olhar, ele faria agora. – Todo recrutamento tem pelo menos uma surpresa – responde Hideo. – Você está dizendo que não esperava que eu fosse escolhida tão rapidamente? Um leve sorriso aparece nos lábios de Hideo. – Aquela era você? Não tinha reparado. – Ele se inclina para mais perto. – Você está linda hoje – continua ele em voz baixa, para mais ninguém ouvir. Em seguida, se despede, passando por nós com seu grupo, guarda-costas e um séquito de fãs escandalosos. – Caramba – diz Hammie no meu ouvido, os olhos ainda grudados em Hideo. – Ele é ainda mais bonito em pessoa do que no noticiário. Roshan está olhando diretamente para mim. – Foi impressão minha ou ele te zoou por ter sido a primeira escolhida? – diz. – Acho que ele não gosta muito de mim. – É o suficiente para botar você nos tabloides – diz Hammie. – Você sabe disso, né? Hideo não fala assim com os jogadores. É sempre profissional. – Ela me cutuca com força suficiente para eu soltar um grunhido. – Não é nada de mais. Hammie ri uma vez, o que faz seus cachos balançarem. – Eu não ligo – diz ela. – O jeito como Tremaine estava furioso ali atrás vai me alimentar pelo resto do campeonato. Enquanto vários fãs fazem fila para pegar autógrafos com ela e Roshan, olho para o local onde Hideo desapareceu na multidão. Ele ficou me observando com atenção durante o Wardraft. Penso nele de pé no camarote enquanto o apresentador anuncia que a primeira escolhida sou eu. Ele não fala assim com os jogadores. Como ele fala, então? Ele não trocou algumas palavras com todo mundo que encontrou hoje? Na multidão, tenho um vislumbre final dele enquanto os guarda-costas o levam até um corredor. Um nome aparece no meu visor, e levanto o rosto instintivamente. Eu tinha chegado perto do DJ Ren,

atrás da montanha de instrumentos, girando uma batida rápida, as asas douradas dos fones de ouvido refletindo as luzes estroboscópicas de cores néon. Quase tinha esquecido que ele também é um jogador oficial, mas agora estou próxima o suficiente para baixar os dados dele. Procuro discretamente e abro as informações sobre o DJ Ren. Na mesma hora, congelo. As informações particulares dele estão protegidas por um monte de escudos; não só um, mas dezenas. Tudo que consegui baixar a seu respeito está codificado. Seja qual for o motivo, Ren não é amador na hora de lidar com sua segurança e sabe se proteger de formas que vão além do jogador comum. De formas demais. Olho para ele, pensando. A figura que vi no Tokyo Dome é um dos coringas oficiais. E só tem um coringa que não estava em seu lugar durante o Wardraft.

12 Na manhã seguinte, ouço a voz de Asher vinda do átrio quando saio do quarto, bocejando, o cabelo preso em um coque desgrenhado. Ao prosseguir, dou de cara com Hammie. Ela grunhe com uma voz meio sonolenta. – Lá embaixo – murmura ela. – O que está acontecendo? – É hora de saber como vai ficar a escalação das partidas. A escalação. Hoje descobrimos quem vai jogar contra quem. O pensamento me desperta rapidamente. Escovo os dentes, jogo água no rosto e coloco um par novo das minhas lentes de contato de Warcross. Em seguida, vou para o átrio. Asher já está lá, conversando em voz baixa com Roshan no sofá. Círculos escuros contornam os olhos do nosso capitão esta manhã, mas, fora isso, ele parece alerta e pronto. Olho para a mesa de centro. A revista em cima de uma pilha mostra uma foto de Hideo em um banquete, sentado ao lado de uma loura totalmente hipnotizada sussurrando alguma coisa com intimidade no ouvido dele. A PRINCESA ADELE ENCONTROU SEU PRÍNCIPE?, grita a manchete. Hammie chega um momento depois, seguida pelo DJ Ren. Ele é o que mais parece exausto, com o cabelo castanho curto espetado em todas as direções e os olhos escondidos por trás de óculos escuros de armação branca. Os fones de ouvido com asas douradas ainda estão na cabeça, um lado no lugar e o outro um pouco fora do ouvido, para poder ouvir o que está acontecendo. Ele se senta no sofá mais distante de mim, se encosta e faz um gesto preguiçoso para cumprimentar todo mundo. O único que não estava em seu assento durante o Wardraft. Talvez porque estivesse escondido em outro lugar, empoleirado virtualmente nas vigas para espiar tudo. Talvez ele seja Zero. Não. Zero deve ser melhor em se esconder do que isso. E com certeza Zero não seria brega a ponto de usar óculos de sol dentro de casa. Hammie estica um braço na frente do rosto de Ren e estala os dedos duas vezes. – Ei – diz ela. – Astro do rock. Você não está mais na boate. Ren só afasta a mão dela. – Tenho sensibilidade à luz de manhã – diz ele em francês enquanto leio a tradução. Roshan ergue uma sobrancelha ao ouvir isso, enquanto Hammie revira os olhos. – É, também sou alérgica a manhãs, coringa – responde ela. Enquanto Hammie fala, começo a repassar silenciosamente os dados dos meus colegas de equipe. Parece que Roshan mandou vários e-mails na noite de ontem, enquanto que a quantidade de notas de Hammie diminuiu vertiginosamente, o que indica que ela fez uma compra grande. Eu me viro para Ren. Assim como ontem, ele tem uma parede de escudos envolvendo seus dados, erguidos de modo que qualquer um que tente invadir seja automaticamente redirecionado para um escudo em vez de para os dados em si. Começo a rodar um programa para derrubá-los. Roshan suspira. – Ash, manda ele tirar os fones de ouvido – diz, com seu jeito paciente. Asher cruza os braços. – Tira logo, coringa. Não estou com humor para isso hoje.

Ren não faz nada por um momento. Finalmente, tira os fones e os posiciona no pescoço, em seguida levanta a mão e remove os óculos escuros. Seus olhos são de um castanho tão claro que parecem dourados. Quando estamos prontos, Asher diz: – Wikki, ligue a apresentação. O drone da nossa equipe pisca em um canto e, quando faz isso, uma transmissão ao vivo aparece na parede do átrio. Hideo está na frente de um púlpito, virado para uma barreira de flashes. – Chegou a hora da escalação das partidas – diz Asher, confirmado o que Hammie tinha me dito. – E nós vamos participar da primeira rodada do campeonato. Hideo não perdeu tempo para garantir que eu esteja no primeiro jogo. – Contra quem vamos jogar? – pergunto. Asher puxa um par de imagens virtuais para nós vermos. É o brasão da nossa equipe, nossa fênix vermelha e dourada, pairando no ar ao lado de uma imagem preta e prateada de esqueletos encapuzados montados a cavalo. Acima dos brasões estão as palavras: Primeira rodada PHOENIX RIDERS contra DEMON BRIGADE Hammie solta um “uhul”, e Asher bate palmas alto. – Nós perdemos para eles ano passado – diz Asher, olhando para mim e para Ren – e depois fomos rebaixados. Todo mundo vai pensar que os Demons vão arrasar com a gente. Mas nós vamos provar que eles estão errados, não vamos? – Ele mostra seu sorriso canino. – Agora só temos que prever qual vai ser a primeira fase. – Sempre que o comitê nos pareia com os Demons – diz Hammie –, costumam nos botar em uma fase que envolve velocidade. Como o Mundo de Oito Bits, de dois anos atrás. – Ela cutuca Asher. – Você se lembra do Mundo de Oito Bits, né? Asher grunhe. – Ugh. Tantas escadas. – Ou espaço – acrescenta Hammie. – Eles levam jeito para manipular espaço tridimensional. Então, se nossa fase envolver estar muito no ar, eles podem ter vantagem. Mas nós treinamos para ter velocidade. Os Demons gostam de treinar força e defesa. – Na verdade, todos os integrantes da equipe treinam para defesa, não só o Guerreiro e o Escudo – conclui Asher. – É só assistir a qualquer jogo em que eles fazem mergulhos coordenados, principalmente quando estão duplamente armados, que vocês vão ver como eles trocam de papel com a maior facilidade. – O Mundo do Fogo de Dragão, por exemplo – diz Hammie. Todo mundo assente, menos eu. – Pensem em como eles mergulharam na formação dos penhascos. Odeio esses caras até a alma, mas não dá pra negar que a alma deles pode ser uma obra de arte. Não faço a menor ideia do que eles estão falando. Mas um coral de concordância soa em resposta a Hammie, e mais mundos de fases de dificuldade elevada são citados em rápida sucessão. Mais falação sobre movimentos e formações com apelidos dos quais nunca ouvi antes. Fico quieta, tentando absorver o máximo que posso, mas pela primeira vez desde o Wardraft, passa pela minha cabeça o quanto estou deslocada nesse campeonato. Ren é coringa, mas também é um jogador experiente que desbloqueou e jogou em todos esses mundos de nível alto. Eu não joguei em nenhum. Estou aqui pela caçada, claro, mas também estou aqui pelo jogo… e agora, sinto que Hideo me incluiu para me fazer passar uma certa humilhação. – Não quer dizer que não existam desvantagens, claro – diz Asher, voltando o olhar para mim. – Os Demons são competentes em tudo e incríveis em nada. Concentre-se em ser uma ótima Arquiteta, Emi, e

você vai ganhar o jogo para nós. Vamos cuidar para que você esteja à altura do desafio rapidamente. Abro um sorriso para ele, grata por ter me incluído novamente na conversa. – Algum conselho para mim que seja específico sobre jogar contra os Demons? – pergunto. – Muitos. Eles vão visar você logo de cara. Seja qual for a fase, é melhor conseguir desaparecer da frente deles e chegar a terreno seguro. Penso na expressão de desprezo de Tremaine e nos insultos de Max, depois no primeiro aviso que Roshan me deu. – Pode deixar – respondo. Asher olha para Ren. – Nunca vi nenhum Guerreiro atacar tão rápido quanto você, mas a ofensiva de Max Martin é incrivelmente forte. Você tem uma tarefa difícil à frente. Ren o saúda com dois dedos na têmpora. – Sim, capitão – responde. À minha frente, Roshan é o único que parece solene com o anúncio da escalação. Asher olha para ele com cautela e assente uma vez. – Tem algum conselho para Emi sobre como lidar com Tremaine em uma partida? – pergunta ele. – Ash – avisa Hammie. Roshan olha para ele de cara feia. – Ele era seu Rider antes de se tornar um Demon. Diga você pra ela. Asher só dá de ombros. – Não tenho culpa se você ficou com ele – diz. – Você conhece Tremaine melhor do que qualquer um de nós. Portanto, deixe seus problemas pessoais fora disso e ajude nossa coringa, tá? Roshan encara Asher por mais um longo momento. Em seguida, suspira e olha para mim. – Tremaine é um Arquiteto que treinou em todas as posições. É o melhor dos Demons na troca de papéis e é muito bom tanto como Ladrão quanto como Guerreiro. Por isso, às vezes, nos jogos, os colegas dão para ele seus power-ups ou suas armas, para que ele possa usá-los apesar de tecnicamente ser o Arquiteto. Quando você o enfrentar, lembre-se de que ele pode ter muitas caras e que é fluido o bastante para fazer uma jogada pouco usual contra você. Vou mostrar no treinamento. Asher parece satisfeito com a resposta, e quando Roshan se inclina para trás e cruza os braços, ele o deixa em paz. – Como ficou o restante da escalação? – pergunta Ren. Asher continua a mover a tela no ar para a esquerda. Nossos brasões somem e são substituídos por outros dois. WINTER DRAGONS contra TITANS.

Ele continua movendo a tela. ROYAL BASTARDS contra STORMCHASERS. CASTLE RAIDERS contra WINDWALKERS. GYRFALCONS contra PHANTOMS. CLOUD KNIGHTS contra SORCERERS. ZOMBIE VIKINGS contra SHARPSHOOTERS. Segue assim até chegarmos ao último dos dezesseis confrontos: ANDROMEDA contra BLOODHOUNDS. Minha atenção voltou para onde Hideo ainda está, na frente de um palanque, com Kenn de um lado e Mari do outro, respondendo a várias perguntas. – Podemos ouvir o que ele está dizendo? – peço a Asher. Ele aumenta o som da transmissão ao vivo. O zumbido de uma sala barulhenta se espalha pelo átrio. Hideo olha para os presentes, para um repórter gritando uma pergunta em meio ao barulho. – Sr. Tanaka – diz o repórter –, você também está lançando hoje os mais recentes óculos de Warcross, ou melhor, lentes, para o público? Hideo assente. – Estou. As lentes estão sendo distribuídas pelo mundo neste momento. – Sr. Tanaka – diz outro repórter –, nós já vimos imagens de longas filas nas lojas, e também ouvimos

boatos de carregamentos sendo roubados de caminhões. Você receia que a Henka Games veja seus lucros despencarem porque você está distribuindo essas novas lentes de graça? Hideo olha para o repórter com frieza. – Os benefícios da realidade alternativa merecem ser dados a todos. O volume do nosso lucro vem dos mundos em si, e não dos equipamentos. Os repórteres começam a falar ao mesmo tempo novamente. Hideo vira a cabeça para outra pergunta. – Sr. Tanaka – diz esse jornalista –, algum motivo para você ter se interessado por Emika Chen? Meus colegas de equipe olham para mim ao mesmo tempo, na hora que meu rosto explode em tons de vermelho. Limpo a garganta e pigarreio. Mas na tela, Hideo nem pisca. – Você pode ser mais específico? – diz ele. O repórter, ansioso para obter uma reação, segue em frente. – Uma coringa de ranking baixo? – pergunta. – A primeira escolha do recrutamento? Os Phoenix Riders, a equipe dela, participando do primeiro jogo da temporada? Consigo sentir os olhares dos meus parceiros abrindo buracos em mim. Só Asher solta uma risada irritada e murmura: – Equipe dela? Eu sou o capitão! A expressão de Hideo permanece perfeitamente calma, até desinteressada. Nada de novo, lembro a mim mesma com insistência. Repórteres questionam toda interação dele com qualquer garota. Estão o juntando com a princesa da Noruega na revista da nossa mesa de centro, caramba. A única reação de qualquer tipo que vejo, na verdade, não vem de Hideo, mas sim de Kenn, que está escondendo um leve sorriso no rosto. – Eu não controlo as escolhas do recrutamento – responde Hideo. – E a ordem dos jogos foi decidida por um comitê meses atrás. – Ele afasta o olhar para chamar outro repórter. Hammie assobia para a tela. – Que tal isso, Emi? – diz ela para mim com uma sobrancelha erguida. – Agora os tabloides vão juntar você com Hideo nas capas da semana que vem. O pensamento faz meu coração disparar. Estamos só na primeira manhã do nosso primeiro dia de treino, mas meus papéis de coringa e de caçadora de recompensas já estão entrando em conflito. Vai ser um milagre se eu não acabar me revelando depois de uma semana. Finalmente, Hideo desce do palanque, e a transmissão termina. Asher pede a Wikki para desligar as notícias. Ele olha para todos nós. – Bom – diz ele –, nós temos um mês para deixar os dois coringas a par de tudo. Olho para o programa que estou rodando para suplantar os escudos de Ren. E, realmente, já estou quase lá. – Estão de lentes? – pergunta Asher. Nós fazemos que sim ao mesmo tempo. – Muito bem, Riders. O treino começa agora.

13 Asher se inclina para a frente e aperta alguma coisa que flutua no display dele. Todos vemos um menu de Warcross aparecer na nossa frente. Se Asher pode mostrar a mesma coisa para todos nós, então estamos todos ligados na mesma rede durante o treino. Ren ficou protegido atrás dos escudos durante a festa, mas talvez agora, se estamos todos conectados à mesma rede, eu consiga encontrar um jeito de obter alguns dados pessoais dele. Dele e de todo mundo. Enquanto reflito sobre isso, Asher clica na opção que diz Campo de Treino. O mundo ao nosso redor fica preto, como se tivesse fechado os olhos. Pisco várias vezes. Em seguida, um novo mundo se materializa ao nosso redor. É uma fase que nunca vi. Deve ser exclusiva dos times profissionais. Parece um mundo caiado de branco, como se tivesse sido criado só pela metade, a superfície sem pintura e sem textura. Nós estamos no meio de uma calçada branca, ao lado de uma rua branca cheia de carros brancos, com prédios colunados brancos bem altos à nossa volta. Quando olho mais à frente na rua, tenho um vislumbre de uma floresta branca, as árvores e os troncos da cor de marfim, a grama branca crescendo nas beiradas das ruas da cidade. A única cor nesse mundo vem do céu acima, que é azul-claro. Por um momento, me permito esquecer a caçada. Estou em uma fase que poucos vão poder ver na vida, com alguns dos jogadores mais famosos do mundo. – Bem-vindos ao campo de treinamento – diz Asher ao meu lado. Ele, como o resto de nós, está agora usando um traje padrão ajustado de armadura vermelha que contrasta vividamente com o mundo à nossa volta. A armadura faz com que seja incrivelmente fácil nos detectarmos mutuamente. – Essa é uma simulação vazia que contém mundos em miniatura todos condensados em um. – Ele indica a rua na direção da floresta. – Existem florestas aqui, assim como o quarteirão urbano em que estamos. Alguns quarteirões para o leste, a cidade termina e um oceano começa. A oeste, há escadarias estreitas que levam ao céu. Os bueiros nas ruas da cidade vão jogá-los em uma rede subterrânea de cavernas. Aqui podemos encontrar amostras da maioria dos obstáculos que enfrentaremos nas fases deste ano. Olho com mais atenção para nossos trajes. Apesar de estarmos todos de armaduras vermelhas, há diferenças sutis entre as roupas. O traje de Guerreiro de Ren é aerodinâmico, cheio de placas lisas reforçadas por uma armadura externa de combate. As braçadeiras dele têm espetos. O traje de Ladra de Hammie é cheio de bolsos, cantinhos e fissuras, onde ela pode guardar coisas. Asher parece o capitão que é, enquanto Roshan, nosso Escudo, possui braçadeiras maiores do que as nossas, o cinto equipado com poções e elixires que ele pode usar para proteger o resto de nós. E tem o meu, a armadura da Arquiteta. Na minha cintura está um cinto de utilidades, equipado com uma variedade de ferramentas com as quais estou bem familiarizada. Um martelo. Uma chave de fenda. Uma caixa de pregos. Dois rolos de fita adesiva. Uma serra pequena. Um pedaço de corda. Há ferramentas acondicionadas na parte de cima das minhas botas também, bananas de dinamite, arrombadores de fechaduras, e uma variedade de facas está presa à minha coxa direita. – Hammie – diz Asher. – Você vem comigo. – Ele assente na minha direção. – Emika, Ren e Roshan. Vocês são uma equipe. Roshan vai ser seu capitão. – Ele clica em alguma coisa no ar, e uma joia cintilante aparece acima da cabeça de Roshan. – Lembrem-se, seu objetivo sempre é alcançar a joia. Como vocês vão fazer isso é problema de vocês. Vamos trabalhar nos nossos pontos fracos. – Ele olha de

uma equipe para outra. Em seguida, empurra uma coisa no ar. Power-ups coloridos aparecem à nossa volta, as cores fortes elétricas contra o fundo branco. Alguns estão expostos em vitrines de lojas. Outros estão no alto de postes de luz, e ainda há aqueles acima de prédios. Meus olhos seguem os power-ups espalhados pela fase de treinamento, reparando nos fáceis de obter e nos difíceis. Só joguei em fases iniciantes ou treinei sozinha em mundos acessíveis a todo mundo. Como vai ser ter uma equipe oficial avaliando minhas jogadas? – Os power-ups nos torneios do campeonato são diferentes dos que aparecem nos jogos comuns – diz Asher para mim e para Ren. – Todos os anos, o Comitê de Warcross vota em doze novos power-ups exclusivos para os campeonatos, depois os removem no final da temporada. Hoje, quero que nosso treinamento seja focado em obter esses power-ups. Ele aperta outro botão no ar. Todos os power-ups somem, menos um, na beirada de uma ponte que une dois prédios. Parece fofo, coberto com azul com listras douradas e prateadas, e vibra de leve. – Especificamente, quero que nos foquemos em ir atrás daquele – acrescenta Asher. – O que ele faz? – pergunta Ren. – Mutação – responde Asher. – Dá ao usuário o poder de transformar uma coisa em outra. Enquanto Ren assente, a atenção no power-up, o observo e bato silenciosamente com os dedos na perna. Uma pequena barra de progresso pisca no canto da minha visão enquanto tento hackeá-lo. Depois de alguns minutos, os únicos dados que consigo acessar são o nome completo, Renoir Thomas, junto com a foto. Eu franzo a testa. Meu hack consegue acessar algumas das suas informações mais públicas e até certas mensagens… mas todo o resto ainda está protegido atrás de um muro de escudos que nunca vi antes. – Emi – diz Roshan, me tirando dos pensamentos. – Se aproxime. Faço o que ele diz. – Esse power-up foi colocado no campeonato deste ano para os Arquitetos, porque vocês provavelmente vão usar melhor. Quero que você o pegue para seu capitão temporário, Roshan. – Asher olha para o lado. – Você vai enfrentar Hamilton, que fará tudo no poder dela para pegá-lo para mim antes. Roshan se aproxima de Hammie e murmura alguma coisa em seu ouvido. Ele deve estar dizendo para ela usar algumas estratégias típicas de Tremaine, imagino, enquanto me lembro do que Roshan falou momentos antes. Hammie assente algumas vezes, o olhar se desviando para mim enquanto escuta. Quando Roshan termina, ela me oferece um sorriso sombrio. Tento sorrir casualmente em resposta. Um temporizador vermelho aparece sobre o power-up. Asher bate no pulso. – Os Phoenix Riders são famosos pela velocidade – acrescenta ele. – Por isso, cronometro cada uma das nossas sessões de treinamento, por menor ou mais trivial que possa parecer. Entendido, coringa? Eu faço que sim. – Entendido. – Vocês duas têm cinco minutos. – Ele levanta o olhar. – Vão! Uma onda de adrenalina se espalha por mim. Não penso; só saio em disparada. Hammie faz o mesmo. Ela corre na direção do prédio, mas decido atravessar a rua. Quando Hammie começa a escalar a lateral do edifício, segurando um tijolo após o outro e percorrendo a parede, corro na direção de um dos postes de luz altos que ladeiam o quarteirão em frente. Tiro uma das bananas de dinamite da bota. Coloco na base do poste, tomando o cuidado de posicioná-la de forma que a explosão quebre o poste na direção certa. Acendo a dinamite. Em seguida, dou vários passos para longe para ficar fora da zona de explosão. Bam! O chão treme quando a base do poste explode. Ele se inclina para a frente e cai em certo ângulo na lateral do prédio. – Legal! – grita Roshan com aprovação.

Estou concentrada demais para olhar para eles. Toda a minha energia está voltada para a minha tarefa. Pulo no poste, respiro fundo e saio correndo sobre ele na direção do edifício. O tempo que perdi colocando a dinamite é agora recompensado quando chego cada vez mais alto com rapidez, até alcançar a parede do prédio. Hammie ainda está escalando, mais de três metros abaixo de onde estou. Dois andares acima, o power-up flutua junto da ponte. Aperto as mãos contra a parede e pego a corda na cintura. Se conseguir jogá-la e prendê-la em um dos holofotes da ponte, posso me erguer rápido o bastante para chegar lá primeiro. De repente, uma coisa puxa minha cintura. Quase perco o equilíbrio e caio. Olho para baixo. A corda na minha cintura sumiu. Abaixo de mim, Hammie abre um sorriso e mostra a corda. Como ela pegou tão rápido? Como ela soube que eu usaria? – Você não é a única com ferramentas, coringa – diz ela para mim. Aponta a arma de choque na minha direção, as beiradas cintilando na luz, e joga minha corda até o canto protuberante do andar seguinte. Ela se ergue mais alto. Hammie disparou na corda ainda na minha cintura e a pegou. Mas não há tempo para ficar com raiva dela. Volto minha atenção para a tarefa e subo pela parede, me agarrando aos tijolos. Nós duas subimos em um ritmo febril. Hammie é mais rápida do que eu. Ela me ultrapassa rapidamente, e, segundos depois, estou atrás dela quase dois metros. Eu me obrigo a escalar mais rápido. Quando Hammie chega na beirada da ponte, cores brilham à nossa volta. Outras esferas e cubos aparecem de repente, espalhados na ponte e nas paredes. Asher deve ter acionado o resto dos power-ups de volta. Meus olhos se desviam para um power-up ao meu alcance. É uma esfera amarela, pairando junto à parede onde estou. Explosão de velocidade. Eu o pego e aperto com a mão. A esfera some e me envolve em um brilho amarelo-néon. O mundo ao meu redor parece ficar mais lento, Hammie inclusive. Subo rapidamente, escalando com o dobro da velocidade de momentos antes. Passo por Hammie e pulo na ponte na hora que meu power-up acaba. O mundo volta ao seu ritmo normal. O temporizador acima do power-up de Mutação continua contando o tempo. Faltam trinta segundos. Em vez de percorrer a ponte o mais rápido que consigo, abro mão de vários segundos preciosos e preparo uma armadilha rápida para Hammie. Puxo o martelo do cinto e quebro cada apoio de mãos e pés que estou usando conforme percorro a beirada da ponte. Hammie não vai poder usá-los para ir logo atrás de mim. Eu me viro de volta e sigo em frente. Estou muito perto do power-up agora. Quando olho para trás, Hammie sumiu de novo. Eu pisco. O quê? – Aqui em cima – chama a voz dela do alto. Levanto o rosto e a vejo pairando sobre mim, como se ela soubesse exatamente o que eu ia fazer para atrasá-la. Ela conseguiu pegar um power-up: Asas (voo temporário), pelo brilho laranja em torno dela. Ela sorri e mergulha para pegar o power-up de Mutação. Disparo pela beirada da ponte e pulo em cima dela. Minhas mãos seguram suas pernas. Eu a desequilibro antes que ela consiga alcançar o power-up de Mutação. Ela solta um grito surpreso e irritado. Por um instante, com o power-up de voo dela ainda em ação, nós balançamos no mesmo lugar enquanto tenta se soltar de mim. E então, para o meu espanto, ela me ataca com os punhos levantados. Eu mal consigo desviar do primeiro golpe. O segundo me acerta no queixo, e acabo me soltando dela. Para a minha surpresa de novo, ela não para de me atacar. Um Ladrão normal já teria parado, mas Hammie me segura com força e continua a lutar comigo no ar. – Cuidado com as mãos dela! – grita Roshan na hora que vejo uma coisa brilhar no punho de Hammie. É uma adaga. Uma adaga? Ladrões não deviam ter adagas. De repente, percebo que isso deve ter sido

planejado por Roshan. Tremaine deve jogar assim, mudando com facilidade de um papel para outro. Então Roshan provavelmente deu a adaga a ela para testar como eu reagiria em uma situação dessas. Hammie me ataca com velocidade ofuscante. A maioria dos jogadores não teria conseguido desviar. Mas meus reflexos foram aprimorados nas ruas, como caçadora de recompensas. A lembrança de quando corri por Nova York atrás do apostador volta com tudo. Ele me atacou com uma faca, uma faca de verdade. Quando a faca virtual de Hammie se aproxima de mim, me vejo me movendo por puro instinto – eu a solto completamente com um empurrão, caio um pouco e estico as mãos no último segundo para segurar os tornozelos dela. Hammie arregala os olhos. E o power-up de voo dela acaba. Uso o resto de impulso no ar para me balançar para cima. Quando ela começa a cair, eu a solto. O impulso é suficiente na medida certa. Estico as mãos o mais alto que consigo. As pontas dos meus dedos roçam no power-up de Mutação. Está comigo. Um formigamento sobe pelo meu braço com a aquisição. Solto um grito de triunfo. Em seguida, despenco em direção ao chão. Caio de costas com força e apago meu avatar por vários segundos. Fico deitada ali, ofegando e rindo. Quando meu avatar se recupera, rolo e verifico meu inventário, ansiosa para ver o power-up de Mutação na minha conta. Não está lá. Hammie passa por cima de mim quando consigo me sentar. Ela mostra o power-up de Mutação na mão e sorri. – Peguei de você na hora que você caiu no chão – diz ela. – Como…? – Hesito e balanço a cabeça. Ela foi tão rápida que nem a senti pegando o power-up das minhas mãos enquanto caía. Olho para a direção da qual Asher e os outros se aproximam. – Mas… não venci o exercício? Eu peguei primeiro. – Você tem muitos pontos fortes, Emi – diz Asher. Hammie me oferece a mão e me ajuda a levantar. – É muito versátil. O jeito como você joga como Arquiteta… essas não são jogadas de uma amadora. Você é rápida. Precisa. É bem mais talentosa do que sua fase 28 sugere. Como eu pensei. – Ele assente para Hammie. – Mas você tem algumas fraquezas clássicas de coringa. Um. – Ele levanta um dedo. – Você tem visão limitada, afunilada. Hammie é uma Ladra de primeira classe. Ela deve ser mais rápida e ágil do que qualquer Ladrão contra quem você tenha jogado. Eu tive que te ajudar liberando os outros powerups. Apoio a mão no quadril e olho para Hammie. – Como você sempre soube o que eu faria em seguida? – pergunto. Ela bate com o dedo na têmpora uma vez. – Não me deixe convencer você a jogar xadrez – diz ela, repetindo o aviso de Asher, dado quando a conheci. – Hammie é capaz de estruturar seus atos mais de dez passos à frente – explica Asher. – Como qualquer jogador de xadrez excelente. Ela consegue mentalmente avaliar seus caminhos em potencial e, julgando sua linguagem corporal, concluir o que você tem mais probabilidade de fazer, isso enquanto age. Não diga que não avisei. – Mas eu não sabia que você se jogaria em mim naqueles momentos finais – acrescenta Hammie. – Essa é a graça de jogar contra um coringa, não é? Nós nunca sabemos que tipo de jogador ele vai ser. Mais de dez passos à frente. Ela devia ter adivinhado minhas escolhas desde que começamos, talvez do momento em que comecei a correr na direção do poste. Eu suspiro. – E então? – digo. – Que outras fraquezas clássicas eu tenho? Asher levanta dois dedos agora. – Você não ouviu minhas instruções. – Eu peguei o power-up de Mutação.

– Suas instruções foram de pegar o power-up de Mutação para mim – interrompe Roshan. – O capitão da sua equipe. O exercício não terminou quando você pegou o power-up primeiro. Terminaria quando você entregasse para mim. Esse jogo não é individual, Emika, e você não pode jogar como se só você quisesse vencer. – Quando ele diz isso, Hammie vai até Asher e entrega-lhe o power-up. Ele o pega sem olhar. – Muito bem – diz Asher. Ela abre um sorriso enorme. – Obrigada, capitão. Fico feliz de estar dentro de Warcross, e assim os outros não conseguirem ver minhas bochechas ficando vermelhas de constrangimento. Hackers e caçadores de recompensas não são conhecidos por serem bons em trabalhar em equipe. Não lido bem com instruções. Mas engulo esses pensamentos e assinto para Roshan. – Desculpe – digo. Ele balança a cabeça. – Não se preocupe, querida. Ladrões não deveriam carregar adagas, só os Guerreiros. Mas é assim que Tremaine pode agir durante um jogo, e você acabou de enfrentá-lo e se saiu bem. Acho que nunca vi ninguém reagir tão rápido a um ataque surpresa. Foi um primeiro exercício brilhante, de verdade, principalmente para uma coringa. – É. – Hammie também assente para mim. – Não foi nada mau. Você me deu um belo trabalho, Emi. Só vai ter que trabalhar um pouquinho mais para me vencer. – Ela dá uma piscadinha. – Não se preocupe, você já é melhor do que o Roshan quando ele era coringa. Roshan olha para ela com uma exasperação que a faz rir. E, apesar de tudo, também abro um sorriso. – Próximos! – diz Asher. – Roshan e Ren. Subam lá. – Os power-ups reaparecem, e desta vez o powerup de Mutação está dentro de um dos prédios. Observo enquanto os outros se afastam. Minha atenção se volta para Ren. A barra de progresso na parte de baixo da minha visão está completa, e meu programa agora está investigando meus outros colegas de equipe, mas com o número ridículo de arquivos criptografados de Ren que consegui capturar, daria na mesma se eu não o tivesse hackeado.

O SOL JÁ COM EÇOU A SE PÔR quando terminamos o treinamento. Assim que volto para o quarto e fecho a porta, acesso todas as informações sobre os jogadores e as exibo na parede. Uma lista longa de dados aparece: data de nascimento, endereço residencial, número de telefone, informações de cartão de crédito, agenda. Deslizo pela lista, procurando. As informações de Hammie aparecem primeiro, detalhando algumas passagens de avião que ela comprou recentemente e os hotéis que reservou. Dou uma olhada em partes das Lembranças arquivadas. Em uma, ela está rindo com pessoas que parecem ser a mãe e a irmã enquanto elas tentam posar para uma boa foto na frente do Grand Canyon. Em outra, está em um torneio de xadrez, olhando para o tabuleiro. É xadrez rápido: cada jogador leva uma fração de segundo para fazer sua jogada. Sem me dar conta, acabo parando para observar, impressionada com os dedos dela voando sobre o tabuleiro. Mal consigo acompanhar os movimentos, e menos ainda entender por que ela os está fazendo. Em sessenta segundos, ela dá xeque-mate no rei do adversário. A plateia grita, e o oponente aperta a mão dela com ressentimento. Na última Lembrança, ela está olhando por trás de uma barricada enquanto um homem de uniforme caminha até um helicóptero parado. Não há nada de incomum: muitas pessoas registram Lembranças em que cumprimentam ou se despedem de pessoas amadas. O homem olha para trás e acena. Ela também acena e continua gravando a mesma imagem bem depois que o helicóptero decolou.

Mudo para Asher. Não há nada de incriminador nem de interessante nos dados dele, além de algumas mensagens de texto sobre horários de chegadas e partidas de voos. A Lembrança mais recente, fora o recrutamento e a festa, é dele na pista do jato particular no aeroporto, esperando ao lado de um garoto mais velho de óculos escuros que reconheço na mesma hora como o seu irmão, Daniel. Há guarda-costas perto dos dois, mas Daniel carrega as malas com o nome de Asher em vez de deixar que os carregadores façam isso. Os irmãos não falam nada um com o outro. E quando chega a hora de Daniel finalmente entregar as malas de Asher para um funcionário, Asher segue para a escada do jato sem se despedir. Tento deixar de lado a sensação familiar de culpa que sinto sempre que reviro os dados particulares dos outros. É seu trabalho, lembro a mim mesma. Não há espaço para me sentir mal. Mesmo assim, apago as Lembranças de Hammie e de Asher dos meus registros, para não poder assistir a elas de novo. Algumas das mensagens de Roshan são para os pais, uma para a irmã e uma é um recibo de entrega de algum tipo de presente. Não há Lembranças gravadas, mas, para minha surpresa, o recibo de presente me diz que foi enviado por Tremaine, com uma única frase escrita no cartão. Recebeu minha carta? T. Procuro no resto dos dados, mas não há indicação da carta em questão, nem que Roshan tenha respondido ao presente de Tremaine. Nada terrivelmente suspeito, mas marco a informação para futura referência. Finalmente, chego nas escassas informações que tenho sobre Ren. A maioria é irrelevante: planos de montagem de equipamento na festa de abertura; cartas de fãs. Tem uma Lembrança, gravada na festa do ano passado, na qual ele está beijando uma garota nos bastidores enquanto alguém no palco anuncia o nome dele. Limpo a garganta e afasto o olhar. Felizmente, a Lembrança muda para Ren indo em direção aos instrumentos no meio do palco. Os demais dados nos arquivos de Ren estão criptografados, inclusive alguns e-mails que consegui tirar da lixeira. Avalio cada um. Independentemente dos programas que faço rodar para descriptografá-los, os e-mails continuam parecendo cubos de baboseira flutuando na minha frente, trancados atrás de um escudo. É nessa hora que finalmente encontro uma coisa que me faz parar. É um e-mail deletado escondido atrás do amontoado de escudos, pairando na minha visão como um cubo trancado. Eu o giro no ar. Quando faço isso, reparo em uma marca pequena e recorrente na beirada de cada face do cubo. – Ora, ora – sussurro, me empertigando. Qualquer sentimento de culpa que eu tinha some de imediato da minha cabeça. – O que é isso? A marca é um ponto vermelho, quase imperceptível, parte da criptografia da mensagem. E logo ao lado, em letras mínimas, está a inscrição WC0. Então Ren era a silhueta no Wardraft. Com base no ponto vermelho, essa mensagem foi enviada para ele de dentro do Dark World, o Mundo Sombrio. Eu me encosto na cama e franzo a testa. Isso quer dizer que, além de Ren ser a pessoa que eu estava rastreando no Wardraft, além de ele ter entrado no Dark World recentemente, ele também está conversando com outros lá. E ninguém entra no Dark World se não estiver fazendo alguma coisa ilegal.

14 A primeira vez que botei o pé no Dark World foi durante minha primeira caçada. Eu tinha 16 anos e estava sozinha. O chefe de uma gangue de rua de Nova York tinha oferecido uma recompensa de 2.500 dólares por um dos seus integrantes, e encontrei este anúncio como uma breve menção em um fórum online. Havia lido sobre outros jovens como eu que tentavam a sorte no ramo competitivo de caça a recompensas. Não aparentavam ter qualquer habilidade em especial que eu não tivesse, e esta parecia uma forma (para quem era bom) de se arranjar uma renda confortável. Os melhores caçadores de recompensa ganhavam até seis dígitos por ano. Eu tinha outro motivo para ir atrás dessa recompensa. Meu pai possuía uma dívida de aposta de 2 mil dólares. Depois que ele morreu, fiz uma promessa para mim mesma de nunca me permitir trabalhar para alguém no mundo do crime; mas, para cumpri-la, precisava me libertar daquela dívida. Senão, as pessoas para quem meu pai devia dinheiro começariam a me procurar assim que eu fizesse 18 anos. Portanto, fiz o máximo de pesquisas possíveis sobre como entrar no Dark World. Achava mesmo que, só seguindo alguns guias online, conseguiria navegar por aquele antro de crimes e sair ilesa. O Dark World funciona sem nenhuma regra, exceto uma: permaneça anônimo. Sua segurança só existe enquanto seu disfarce existir. Aprendi isso da pior forma depois que entrei ali, encontrei meu alvo e o rastreei na vida real. Só então percebi que tinha exposto acidentalmente uma parte da minha identidade. Em um piscar de olhos, minhas informações pessoais (idade, histórico, localização) foram transmitidas por todo o Dark World, e meu equipamento foi comprometido. Peguei o dinheiro, paguei a dívida do meu pai. Mas, nos meses seguintes, removi todas as peças do meu laptop e do meu celular, fiquei off-line e escondida, fui o mais discreta que consegui. Mesmo assim, recebia ligações estranhas no meio da noite, cartas esquisitas entregues pelo carteiro. Uma ameaça ocasional deixada na porta da minha casa. Acabei precisando me mudar. Nunca mais trabalhei para gangues. Levei meses até ter coragem de ficar online novamente. Essa é a questão do Dark World: você pode se preparar o quanto quiser, mas o único jeito de entendêlo de verdade é entrando.

– SRTA. CHEN – diz Hideo quando nossa ligação é completada. – É bom falar com você. É a manhã seguinte, antes do treino recomeçar de verdade, e a imagem virtual de Hideo aparece no meu quarto, ele inclinado para a frente na cadeira do escritório, com os cotovelos apoiados na mesa. A única mecha grisalha no cabelo reflete um pouco da luz que entra pelas janelas. Ao lado, Kenn está perto da mesa com as mãos no bolso, de uma forma que me diz que interrompi uma conversa que estavam tendo. Ele olha para mim por cima do ombro. Dois guarda-costas estão em posição de sentido atrás deles. – Ligando tão rápido com uma atualização? – comenta Kenn. Ele olha para Hideo. – Talvez você tenha mesmo encontrado sua caçadora de recompensas perfeita. Tento parecer profissional, de pés descalços e calça jeans rasgada. – Você deve ter estado ocupado desde a festa da cerimônia de abertura – digo para Hideo. Meu olhar

se dirige brevemente para Kenn. – Estou interrompendo algum assunto? – Você é o assunto – responde Kenn. – Nós estávamos falando de você. – Ah. – Limpo a garganta. – Coisas boas, espero. Kenn sorri. – Eu diria que sim. – Ele se afasta da mesa de Hideo sem explicar mais o que quis dizer. – Vou deixar vocês dois conversando. Divirtam-se. Hideo troca um olhar com Kenn. – Nós recomeçamos daqui a pouco. Kenn desaparece. Hideo o vê se afastar e faz um sinal breve para a porta com uma das mãos. Sem dizer nada, os dois guarda-costas inclinam a cabeça e saem da sala, deixando Hideo sozinho. Quando eles saem, ele se vira para mim de novo. – Espero que a vida esteja sendo agradável desde que você recebeu toda a atenção no Wardraft – diz. – Percebi que você instruiu os Phoenix Riders a me escolherem primeiro. – Eu não mandei ninguém fazer de você a primeira escolha. Asher Wing fez aquilo por conta própria. Você é uma aquisição importante. Então Hideo não estava envolvido nisso, afinal. – Bem – digo –, o Wardraft foi interessante de várias maneiras. Olha o que eu encontrei. – Abro a captura de tela do Wardraft e coloco entre nós. Ela gira lentamente, nos dando visão total do domo. A sombra inconfundível da silhueta da pessoa está empoleirada no emaranhado de metais do domo. Acima da cabeça dele há a palavra [inválido]. – No dia do Wardraft, eu vi um cara observando das vigas do Tokyo Dome. Isso captura o interesse de Hideo. Ele observa a captura de tela, os olhos se apertando para a silhueta escura no labirinto de vigas do domo. – Como você sabe que é homem? – Ah, sei mais do que isso. É o Ren. O olhar de Hideo se desvia da captura de tela para mim. – Renoir Thomas? Faço que sim. – DJ Ren. Uma marca no código da captura de tela apontou para ele. Desde então, conectei todos os jogadores oficiais ao meu perfil de Warcross. – Abro as contas de todo mundo. – Talvez eu precise ver algumas das Lembranças deles, procurar quem mais pode estar envolvido. O olhar de Hideo se desvia para o mapa digital que criei e que mostra onde cada jogador de Warcross está agora. A maioria está nos alojamentos. Um grupo de jogadores da Andromeda está na cidade, enquanto Asher saiu do alojamento dos Riders. Ren ainda está no quarto dele. – Você é mais perigosa do que pensei – reflete Hideo, admirando meu trabalho. Ofereço um sorriso a ele. – Prometo ser legal com você. Desta vez, consigo arrancar uma gargalhada de Hideo. – Devo ficar ainda mais preocupado? – diz ele. Deixo a pergunta dele no ar e abro o e-mail de Ren. – Estou usando um hack nas informações de Ren – respondo, abrindo o e-mail entre nós, um cubo escuro e criptografado de dados. – Encontrei isso ontem, mas não consigo destravar. Hideo olha o arquivo uma vez. Como eu, seus olhos vão imediatamente para a marca vermelha na beirada do cubo. – Isso foi enviado do Dark World – diz ele. Faço que sim. – E está protegido por um escudo que não reconheço.

Hideo separa um pouco as mãos e gira o cubo uma vez. – Eu conheço – murmura. Ele abre mais as mãos. O cubo fica maior, e no processo, ele puxa um lado para que eu consiga ver a superfície em detalhes. Aperto os olhos. A superfície está coberta com uma série elaborada e sinuosa de padrões que se repetem infinitamente. – Chama-se escudo fractal – explica Hideo. – Uma nova variação dos escudos em camadas de cebola que vimos ultimamente, só que as camadas do escudo fractal se entrelaçam infinitamente, multiplicandose cada vez que você penetra por uma camada externa. Quanto mais você tenta abrir, mais seguro ele fica. Seus hacks vão rodar para sempre sem chegar a lugar algum. Não era surpreendente eu não conseguir abrir caminho. – Nunca vi isso antes. – Eu não esperaria que tivesse visto. É uma mutação da segurança que desenvolvemos dentro da Henka Games. Eu me inclino para a frente, meu olhar percorrendo a superfície do cubo. – Você consegue rompê-lo? Hideo coloca as mãos em duas superfícies do cubo. Quando tira as mãos, uma cópia do escudo fractal externo flutua acima do cubo. – Um escudo infinito exige uma chave infinita – diz ele. – Algo que se multiplique na mesma proporção e da mesma forma que o escudo em si. – Toda porta trancada tem uma chave. Ao ouvir minhas palavras, Hideo olha para mim. Sorri. Ele digita vários comandos que não consigo enxergar, então os faz rodar em um programa da Henka Games. Uma chave se forma nas mãos dele, escura e em constante mutação, a superfície coberta pelos mesmos padrões infinitos. Continuo olhando enquanto ele pega a chave e a encosta no cubo. A superfície do cubo para de se mover de repente. Os fractais de repetição infinita que a cobrem desaparecem. Em seguida, em um piscar de olhos, o cubo desaparece e é substituído por uma mensagem. Diz apenas uma coisa. 1300CP Meu olhar gruda na mensagem na mesma hora que o de Hideo. – Covil dos Piratas – dizemos ao mesmo tempo. Para uma pessoa normal, 1300CP não significaria nada. Mas, para mim, é um evento marcado. O 1300 é o horário, 13 horas ou 1 da tarde, e CP é a sigla de “Covil dos Piratas”, uma abreviação que conheço bem. É um famoso local de reuniões no Dark World. O evento está marcado para o dia 20 de março. – Bom – digo. – Acho que sei aonde vou esta semana. Hideo pensa na mensagem por um momento antes de me olhar com dúvida. – Você vai sozinha? – Você rompe os escudos fractais. – Eu me encosto na cama e cruzo os braços. – É meu trabalho andar com os criminosos, sr. Tanaka. Ao ouvir isso, ele sorri um pouco. – Hideo, por favor. Inclino a cabeça para ele. – Você insiste em me chamar de srta. Chen em público. Tenho que tratá-lo da mesma forma. Ele ergue uma sobrancelha. Responde: – Tento não dar mais material de fofoca aos tabloides do que eles podem aguentar. Eles são particularmente agressivos nessa época do ano.

– Ah é? E que fofocas são essas? Que nos tratamos pelo primeiro nome? Escandaloso. Parece que os tabloides já estão inventando fofocas sobre mim, de qualquer forma. – Você prefere que eu a chame de Emika? – Prefiro – respondo. – Certo – ele assente. – Emika, então. Emika. Ouvi-lo dizer meu nome gera um arrepio agradável na minha espinha. – Vou mantê-lo atualizado – decido dizer, mudando para sinalizar o final da nossa conversa. – Deve ser interessante. – Espere. Antes de você ir. Faço uma pausa. – Sim? – Me conte sobre sua passagem pela polícia alguns anos atrás. Ele tem pesquisado meus registros. Limpo a garganta, irritada de repente por ele ter tocado no assunto. Não falo sobre minha detenção há anos. – É coisa antiga – murmuro, e começo a contar um resumo do que aconteceu com Annie e como invadi o sistema da escola. Hideo balança a cabeça para me fazer parar. – Eu já sei o que você fez. Me conte como a polícia soube que foi você. Hesito. – Você é habilidosa demais para eles – continua Hideo. Ele me observa com atenção, a mesma expressão de quando ele me testou durante nossa primeira reunião. – Não pegaram você, não foi? Eu sustento o olhar dele. – Eu confessei – digo. Hideo fica em silêncio. – Acharam que a culpada era Annie – continuo. Lembro das sirenes, eu entrando na sala do diretor, onde os policiais estavam. Os pulsos algemados de Annie. Seu rosto manchado de lágrimas enquanto me olhava, chocada. Tudo me volta agora. – Iam prendê-la. Por isso, me entreguei. – Você se entregou. – Há um tom de fascinação na voz dele. – E você sabia o que estaria sacrificando ao fazer isso? Eu dou de ombros. – Não tive tempo de pensar muito. Só pareceu a coisa certa a fazer. Hideo fica em silêncio. A atenção dele está agora completamente grudada em mim. – Acho que a cortesia não está morta – diz ele por fim. Não sei bem como responder. Só consigo retribuir o olhar, sentir outro muro desmoronar em volta dele, ver o brilho nos seus olhos mudar. O que quer que tenha achado do que falei, fez com que ele baixasse a guarda. O momento passa. Ele se empertiga na cadeira e rompe o contato visual comigo. – Até a próxima, Emika – diz ele. Eu murmuro minha despedida e encerro a ligação. A imagem virtual dele desaparece do meu quarto, me deixando sozinha de novo. Lentamente, expiro e relaxo os ombros. Hideo não mencionou nada sobre os outros caçadores de recompensas, o que quer dizer que devo estar à frente deles no serviço. Até o momento, tudo bem. Demoro um momento para perceber que esqueci de desligar meu hack enquanto conversava com Hideo. Isso quer dizer que eu estava xeretando o perfil dele também em busca de dados. Hideo tem seus escudos de proteção nas informações, mas, mesmo assim, consegui pegar um arquivo não criptografado na conta dele, criado hoje mesmo. Agora está na minha pasta de downloads, piscando para mim. Observo-o por tempo suficiente para que o programa abra, a máquina entendendo que eu queria dar uma

olhada lá dentro. Meu quarto some. Eu me vejo em algum tipo de academia, equipada com sacos de areia grandes, estantes cheias de pesos, tapetes e espelhos compridos. É um dos arquivos de Lembrança de Hideo. Eu não devia estar xeretando os dados dele. Já estou de saída, mas na mesma hora a Lembrança começa a rodar. Hideo está socando um saco de pancadas em ritmo furioso, cada impacto tremendo na minha visão. Kickboxing? Eu giro no mundo de Lembranças… e paro quando vejo o reflexo nos espelhos. Ele está sem camisa, e o peito e as costas estão molhados de suor, os músculos contraídos. O cabelo úmido balança a cada golpe que ele dá. As mãos estão enroladas em esparadrapo branco, e enquanto ele continua seu ataque feroz ao saco de areia, vejo pontos de sangue manchando o esparadrapo que cobre os dedos. As cicatrizes que sempre vejo. Com que força ele anda batendo naquele saco? Mas o que me choca é a expressão dele. Seus olhos estão escuros e ferozes, um semblante tão cheio de raiva concentrada que me afasto fisicamente. Penso na intensidade que vi no rosto dele durante nossa primeira reunião, quando ele estava falando sobre sua nova criação, sobre suas paixões. Consigo ver uma luz similar nos olhos dele aqui, na forma como ele distribui os socos… mas é uma intensidade mais sombria. Uma fúria profunda. Os guarda-costas de Hideo esperam pacientemente em volta do aposento, e ao lado dele há uma pessoa que deve ser seu treinador, vestido da cabeça aos pés de equipamento acolchoado. – Chega – diz ele agora, e em resposta, Hideo faz uma pausa para se virar em sua direção. Se eu não soubesse, diria que o olhar que o treinador me lança, lança para Hideo, é de cautela, até de um pouco de medo. O treinador começa a rodeá-lo, e Hideo faz o mesmo. Os movimentos dele são fluidos e precisos, mortais. O cabelo cai no rosto, obscurecendo os olhos momentaneamente. O treinador gira uma vara comprida de madeira na mão, arrasta no chão e a levanta. Ele vai para cima de Hideo, balançando a arma com velocidade ofuscante. Minha visão fica embaçada. Hideo desvia do golpe com facilidade. Ele dá um passo para o lado de novo, e uma terceira vez. No quarto golpe, Hideo pula. E levanta um braço com o punho fechado na hora que a vara cai sobre sua cabeça. A vara se quebra com um estalo alto no antebraço. Hideo avança. Seu punho atinge o acolchoamento do braço do treinador com tanta força que o mesmo faz uma careta com o impacto. Hideo não para. Dispara golpes no acolchoamento do braço do homem em uma série de movimentos velozes. O golpe final o acerta com tanta força que o treinador cambaleia para trás e cai. Hideo fica ali parado por um momento, respirando pesadamente, a expressão dura. Como se estivesse vendo outra pessoa caída ali. Em seguida, a fúria nos olhos dele some, e por um momento, parece voltar ao normal. Ele oferece a mão para o treinador e o puxa para que fique de pé. A sessão termina. Observo em silêncio estupefato Hideo se despedir do treinador e sair pela porta dupla da sala com os guarda-costas de cada lado, as mãos ainda enroladas nos esparadrapos ensanguentados. A Lembrança termina, e me vejo no meu quarto de novo, trazida de volta ao silêncio pacífico. Eu expiro e percebo que estava prendendo o ar. Então é assim que Hideo fica com os dedos machucados. Por que ele treina como se fosse um demônio possuído? Por que golpeia como se quisesse matar? Estremeço com a lembrança da expressão dele, dos olhos cruéis e escuros, sem qualquer sinal da versão brincalhona, educada e carismática que achava que conhecia. Eu balanço a cabeça. Melhor não mencionar que vi essa Lembrança para ninguém. Fora os guarda-costas, Hideo não deve querer que ninguém veja isso. A luz muda no meu quarto, um reflexo da piscina lá fora na minha varanda, e o brilho me traz de volta para a realidade. Estou aqui para trabalhar, não para espionar o treinamento particular de Hideo. Saio da minha conta e me lembro de concentrar meus pensamentos em Ren. Mas, lá no fundo, a conversa que tive com Hideo fica se repetindo. E quando finalmente saio do quarto para me juntar aos

meus colegas de equipe no treinamento do dia, é a lembrança dos olhos escuros que segue comigo, o mistério por trás dos dedos ensanguentados e do olhar furioso.

15 Três dias se passam em uma agitação de atividades de treinamento. Os Phoenix Riders fazem simulações de todas as combinações possíveis. Faço par com Hammie, depois com Ren, com Asher e com Roshan. Formo um grupo com dois deles. Faço um grupo contra eles. Nossos ambientes mudam de selva para cidade para penhascos enormes. Nós praticamos em fases de campeonatos passados, e em todas as suas variações intermediárias. Asher nos treina com uma intensidade que nunca vi. Eu me esforço para acompanhar. Cada novo mundo em que jogo é um mundo no qual todos os outros já jogaram, cada manobra nova é familiar para o resto da minha equipe. Quando penso que estou pegando o jeito de alguma coisa, Asher nos obriga a reduzir pela metade o tempo exigido para fazermos certas missões ou executarmos certas ações. Quando começo a me acostumar com um mundo, Asher nos leva para o seguinte. Termino os dias exausta, caída no sofá com meus colegas de equipe, a mente cheia de novas informações enquanto Asher repassa conosco como vai ser o dia seguinte. Meus sonhos são lotados dos nossos exercícios. Embora Hideo tivesse providenciado para que eu entrasse em alguma equipe, ele não pode ajudar os Phoenix Riders a vencerem. Se perdermos, meus colegas de time vão embora, e vai ser bem mais difícil seguir Ren. Hideo está contando comigo para cumprir essa parte da barganha. Se eu não conseguir, posso acabar perdendo a recompensa para algum outro caçador que seja capaz de se manter no Campeonato. – Você é nova nisso. – Roshan tenta me tranquilizar uma noite enquanto nos apoiamos uns nos outros nos sofás. Wikki segue cada um de nós, entregando pratos de jantar quente. – É normal que demore um tempo para se acostumar com tudo. Do meu outro lado, Hammie enfia o garfo na comida. – Qualquer dia desses, Roshan, seu coração molenga vai virar uma gosma nojenta e esse vai ser o fim de todos nós. – Os olhos dela se desviam para mim antes de ela levar o garfo cheio à boca. – Nós não podemos nos dar ao luxo de deixá-la fazer corpo mole. – Ela não devia estar no recrutamento – interrompe Ren. Hammie faz cara feia para ele. – Calma aí, coringa. – Só estou falando. – Ren levanta a faca e o garfo em defesa. – Eu não fui DJ de eventos internacionais na minha primeira tentativa. Não é saudável. – Ele olha para mim. – Não a forcem a situações para as quais ela não está pronta. Vocês podem matá-la. Afasto o olhar dele, mas as palavras deixam meu sexto sentido em alerta. Ele desconfia de mim? Está de olho? Roshan assente em uma concordância relutante. – Nós não podemos permitir que ela fique esgotada. Essas coisas existem. Mas você já sabe disso, Hams. – Aquilo só aconteceu porque eu era uma Titan naquele ano, e o Oliver era um capitão ridículo em comparação ao Ash. – Agradeço a lisonja – diz Asher enquanto coloca uma batata na boca e olha para mim. – Você anda perdendo as deixas no treinamento, Emi.

– Ela não dormiu uma noite inteira a semana toda – interrompe Roshan. – Vejo no rosto dela. – Eu estou bem – murmuro, tentando esfregar o rosto para esconder os círculos escuros embaixo dos meus olhos. Preciso me afastar. Se meus colegas de equipe começarem a cutucar demais, eles vão descobrir que há mais do que apenas exercícios provocando minhas noites insones. Asher limpa a garganta, e os outros sossegam. Ele assente para todos nós. – Não tem treinamento amanhã. Durmam até tarde, tomem café com calma. Vamos recomeçar depois de amanhã. Dou um cutucada de gratidão em Roshan enquanto Hammie olha de cara feia para Asher. Sou lembrada da forma implacável com que ela jogou xadrez na Lembrança. – Sabe quem não vai tirar folga amanhã? – pergunta ela. – A Demon Brigade. – Sabe o que é inútil para mim? Uma Arquiteta exausta. Emika passou o dia cometendo erros. – Asher assente para o local onde Ren está comendo em silêncio, ao seu lado. – Ren tem um compromisso com a gravadora amanhã, de qualquer modo. Um dia de folga vai nos fazer bem. Observo Ren em silêncio enquanto terminamos o jantar e vamos para nossos quartos. Eu o analiso todos os dias, procurando um sinal adicional, alguma outra pista. Cada noite reviro os dados dele com a nova chave que Hideo me deu. Nada. Ele vai ao Dark World amanhã, e ainda não tenho resposta sobre o motivo. E, até onde eu sei, ele também está me observando. – Em – chama Hammie quando sigo para a minha porta. Eu me viro e a vejo se apressando na minha direção, um pacote debaixo do braço. Ela o entrega para mim. – Use isto em volta da cabeça quando dormir. Me derruba bem rápido. Aperto o tecido macio. – Obrigada – digo. Ela dá de ombros uma vez. – Não é minha intenção ficar pressionando você. – Ela enfia as mãos nos bolsos. – Pode me contar, sabe, se estiver tendo problema com alguma coisa. Posso treinar sozinha com você. Consigo ver a mente de enxadrista de Hammie avaliando as minhas palavras como se fossem peças, sem acreditar nas minhas desculpas, parecendo dez passos à frente do que posso fazer em seguida. Ela sente que tem alguma coisa me incomodando. – Eu sei – respondo, sorrindo para ela. – Amanhã, talvez. – Combinado. – Ela sorri, e sinto uma pontada de culpa. Nunca fui parte de algo assim, um grupo de amigos unido que faz tudo juntos. Nós poderíamos ser mais próximas se eu permitir. Mas só lhe dou boa-noite. Ela faz o mesmo, mas consigo ver dúvida nos olhos de Hammie quando se vira e segue para o próprio quarto. Eu a vejo se afastar antes de fechar a porta do meu. Naquela noite, enquanto estou nadando na piscina da minha varanda em uma tentativa de espairecer, recebo uma mensagem de Hideo. Você está frustrada. Dou uma parada nas braçadas, pisco para tirar água quente dos olhos e clico na mensagem flutuante de Hideo no meu visor sem pensar duas vezes. Meu pedido de conversa é enviado, e um momento depois Hideo o aceita, aparecendo na beirada da piscina como uma imagem virtual. Ele está em uma sala pouco iluminada por uma luz calorosa, soltando a gravata. Sem ela, parece mais com alguém de sua idade, impossivelmente jovem e menos autoritário. Para minha irritação, meu coração pula quando o vejo. Os dedos dele não parecem machucados hoje. Acho que não andou treinando nos últimos dias. Levanto os braços para fora da água e os cruzo na beirada azulejada da piscina. As gotas que cobrem a minha pele tatuada refletem o luar. – Como você percebeu? – digo em resposta. – Não tenho notícias suas há dias.

Não estou com vontade de compartilhar minhas inseguranças de treino com ele. – E se eu só estiver guardando informações para a próxima vez que falar com você? – digo. – Ainda nem fui ao Dark World. Hideo se vira por um momento para guardar as abotoaduras. – E foi por isso que não tive notícias suas? – pergunta por cima do ombro. – Essa é sua forma de me dizer que eu devia estar fazendo progresso mais rápido? Ele olha para mim, a expressão parcialmente escondida nas sombras. – É meu jeito de perguntar se posso ajudar você. – Achei que fosse eu quem estava ajudando você. Ele faz outra pausa, mas na luz fraca vira a cabeça um pouco na minha direção, revelando um leve sorriso nos lábios. O olhar sustenta o meu por um momento. Fico feliz pela escuridão que esconde minhas bochechas coradas. – Eu sei que você está exausta – diz por fim. Afasto o olhar e tiro gotas de água do braço. – Não preciso de pena. – Não estou sentindo pena. Não a teria colocado aí se você não fosse capaz de aguentar. Sempre com a atitude sabe-tudo. – Se quer me ajudar – digo enquanto afundo na água –, você sempre pode oferecer apoio moral. – Apoio moral. – Ele se vira para me olhar, o sorriso ficando brincalhão. – E de que tipo de apoio moral você gostaria? – Não sei. Palavras encorajadoras? Hideo ergue a sobrancelha para mim, achando graça. – Muito bem. – Ele dá um passo para mais perto. – Estou fazendo contato porque sinto falta de ter notícias suas – diz ele. – Isso ajuda? Fico paralisada, boquiaberta, minha bravata momentânea desaparecendo. Antes que eu possa responder, ele me dá boa-noite e se desconecta da conversa. A imagem de Hideo desaparece e é substituída por ar vazio, mas não antes de eu dar uma última olhada no rosto dele, os olhos ainda em mim.

NAQUELA NOITE, sonho que Hideo e eu estamos de volta ao Sound Museum Vision, só que não no meio da pista de dança. Em vez disso, estamos no andar de cima, escondidos em um canto escuro da sacada que dá vista ao local, e ele me empurra contra a parede. Está me beijando intensamente. Acordo do sonho assustada, afobada e irritada comigo mesma. As palavras dele ainda estão ressoando nos meus pensamentos quando chega o dia em que Ren vai ao Dark World. Enquanto os outros se preparam para almoçar, tranco a porta e entro em Warcross. Em vez de ir para o jogo de sempre, aciono um teclado flutuante e digito uma série de comandos extras, meus dedos batendo no chão. O quarto treme e de repente fica escuro, me deixando suspensa na escuridão total. Eu prendo a respiração. Visito o Dark World com frequência, mas, independentemente da quantidade de vezes, nunca vou me acostumar com a escuridão sufocante que desce sobre meus olhos antes que eu possa entrar. Finalmente, linhas vermelhas horizontais aparecem no meu visor, linhas que, quando dou zoom, viram código. Elas preenchem minha visão, página depois de página, até finalmente chegar ao fundo e me oferecer um cursor piscando. Eu digito mais alguns comandos, e uma série de novos códigos aparece. De repente, os códigos vermelhos somem, e me vejo no meio de ruas de uma cidade poeirenta, meu nome típico [inválido] pairando acima da minha cabeça. Outras figuras escuras passam, nenhuma delas

prestando atenção a mim. Fico embaixo de uma série de letreiros luminosos de néon no alto dos prédios acima. Eles me iluminam com cores diferentes. Sorrio. Passei dos escudos que protegem o nível superficial de Warcross e mergulhei no subterrâneo amplo, criptografado e anônimo da realidade virtual que surgiu bem debaixo da plataforma do jogo. É um segundo lar, esse lugar em que todo mundo fala a minha língua, e onde os que poderiam ser impotentes na vida real podem ser agora incrivelmente poderosos. A maioria das pessoas que frequentam o Dark World nem se dá ao trabalho de nomeá-lo. Se você está aqui, está “embaixo”, e qualquer um que saiba o que está fazendo também entende que não estamos falando da Patagônia. O mundo pelo qual caminho agora não tem sentido lógico, pelo menos não da forma habitual. Há prédios estreitos e maltratados bem no meio da rua, enquanto algumas portas estão de cabeça para baixo, de acesso aparentemente impossível. A rua principal cruza com outras ruas em pleno ar, criando caminhos de um peitoril de janela a outro, conectando o impossível. Como uma pintura gigante de Escher. Quando olho para cima, uma série de trens escuros corre em paralelo uns aos outros, desaparecendo nos dois horizontes. Parecem estranhos, esticados, como se distorcidos por alguma espécie de espelho de circo. Água pinga perto de mim, onde escorre até os bueiros e empoça em buracos. Observo os letreiros néon. Olhando bem, dá para perceber que não são letreiros, mas listas de nomes iluminados. Quem for idiota o bastante para visitar o Dark World sem proteger a identidade direito, logo vai ver o nome e as informações pessoais (número de seguro social, endereço residencial, números de telefone particulares) listados nos letreiros. É isso que os nomes são: uma lista de todos os usuários que ousaram ir despreparados, transmitida para o resto do Dark World e deixando-os à mercê de quem percorre aquelas ruas. Foi lá onde eu apareci na primeira vez que visitei esse lugar. Passo por uma placa indicando a rua principal. Silk Road, a Rota da Seda. Sob as listas, vejo fileiras de lojas com seus próprios letreiros de néon. Algumas vendem bens ilegais, em geral, drogas. Outras possuem uma lanterninha vermelha pendurada do lado de fora da porta, oferecendo sexo virtual. E outras exibem um ícone de vídeo na fachada, sinalizando voyeurismo virtual ao vivo. Afasto o olhar e sigo em frente. Posso estar escondida atrás de um traje preto e de um rosto gerado aleatoriamente, mas não é porque frequento esse mundo que fico à vontade nele. Agora, abro um mecanismo de busca e clico em Covil dos Piratas quando os resultados aparecem. O mundo fica borrado à minha volta, e um instante depois, estou em uma parte da rua onde os prédios dão lugar a um píer. Um navio pirata surge na margem, iluminado com fios cheios de lanternas penduradas em intervalos regulares até o alto do mastro, as luzes refletindo na água em uma superfície de purpurina. O Covil dos Piratas é um dos locais mais populares por aqui. O casco do navio exibe entalhes decorados de madeira que parece um símbolo de copyright invertido. A informação quer ser livre, digo o slogan do Covil, apenas movendo os lábios. Uma faixa vermelha está pendurada sobre a prancha que leva ao convés principal, onde um fluxo regular de avatares anônimos está andando. Hoje, a faixa anuncia apostas em um jogo de Warcross que está acontecendo lá dentro. São partidas com regras confusas organizadas por gângsteres, as partidas onde encontro e pego apostadores que se encrencam com a lei. Jogos de Darkcross, é como todo mundo chama de brincadeira. Só posso imaginar quantos apostadores de Warcross endividados virão ao jogo de hoje. Ren deve estar aqui para isso, digo a mim mesma enquanto subo a prancha. A bordo do navio, os alto-falantes estão tocando uma música eletrônica pirateada de um álbum ainda não lançado de Frankie Dena. Há um cilindro de vidro no meio do convés, no qual uma lista de nomes e números muda e atualiza constantemente. São nomes de famosos, de primeiros-ministros, presidentes, artistas pop, e ao lado de cada nome há uma quantidade de notas oferecidas. A loteria do assassinato. As pessoas fazem bolões a respeito de quem gostariam de ver mortos. Quando um dos valores chega a um número elevado o suficiente, é possível que um assassino do Dark World fique motivado a matar a

pessoa correspondente para levar o bolão. Raramente acontece, claro. Mas o Covil dos Piratas existe de uma forma ou de outra há quase tanto tempo quanto a internet, e mais ou menos a cada dez anos um assassinato é levado adiante. Na verdade, Ronald Tiller, um diplomata universalmente odiado que foi absolvido de uma acusação de estupro, morreu anos atrás em uma explosão de carro misteriosa. Eu tinha visto o nome dele no topo da loteria de assassinatos uma semana antes de acontecer. Olho para a varanda com vista para o cilindro de nomes. Tem alguns avatares lá, observando. Um deles está inclinado para a frente, com os cotovelos apoiados nos joelhos, fitando a lista silenciosamente. Assassinos em potencial, esperando a quantia certa de dinheiro. Estremeço e afasto o olhar. Nas outras paredes há listas de estatísticas sobre cada equipe oficial de Warcross. As estatísticas para os Phoenix Riders e para a Demon Brigade ocupam uma parede inteira. Embaixo vejo uma lista com as chances de aposta em cada equipe. A Demon Brigade está em uma posição descaradamente mais favorável. Há grupos de avatares anônimos aqui e ali, absortos em conversa. Muitos têm aparência brutal, até monstruosa, com braços enormes e garras compridas, poças pretas no lugar de olhos. Algumas pessoas do Dark World gostam mesmo de assumir a aparência do seu papel. Procuro por Ren. Ele poderia ser qualquer um desses avatares, disfarçado como todos nós. Olho a hora. Quase uma. Eu estico o pescoço e observo a multidão enquanto digito comandos, procurando qualquer sinal da assinatura de Ren aqui. Nada. E então… O ponto dourado reaparece no meu mapa. Enquanto sigo pela multidão, vejo de repente um alerta me dizendo que Ren está no ambiente. Quando verifico os dados dele, vejo o marcador WC0 aparecer nas suas informações. Meu coração começa a bater mais rápido. Ele é a silhueta que vi na arena. Pelo que – ou por quem – ele procura? Olho ao redor enquanto as pessoas ficam quietas e um silêncio de expectativa se espalha no ar. De repente, a lista de assassinatos no cilindro desaparece temporariamente. É substituída pelo seguinte: OBSIDIAN KINGS contra WHITE SHARKS O Dark World tem suas equipes famosas também, só que os jogadores permanecem anônimos e jogam muito, muito sujo. As equipes regulares de Warcross são mantidas por patrocinadores abastados; as equipes do Dark World pertencem a gângsteres. Quem vence, ganha dinheiro para a gangue que é sua dona. Quem perde pode acabar sendo mandado para a loteria de assassinatos pela plateia. Perca muitas vezes e você vai parar no topo da loteria. E aí o seu próprio patrocinador pode ser a pessoa que vai te matar. Todo mundo que observa o cilindro vê um botão de entrar pairando na frente dos olhos. Eu clico nele. Uma janela aparece perguntando quantas notas quero apostar. Olho ao redor, prestando atenção nos números acima de cada um dos demais jogadores: N1.000. N5.000.N10.000. Até vejo alguns que fizeram apostas bem acima de N100.000. Faço uma aposta de N100. Não preciso chamar atenção aqui. O mundo à nossa volta muda, e de repente não estamos mais no convés do Covil dos Piratas, mas no alto de um arranha-céu, iluminados por um céu vermelho-sangue. Jogadores branco-néon aparecem no mundo, brilhando junto a power-ups. A vista do Covil dos Piratas é minimizada para uma tela menor no canto da minha visão, que vai ser centralizada sempre que eu olhar para ela ali embaixo. Agora, a uso para procurar o ponto dourado de Ren. Ali está ele, a poucos metros de mim. Acima da cabeça dele há um número verde-claro de notas: 100.

Levanto uma sobrancelha. Ele também não é apostador alto. Que estranho. Normalmente, quando sigo alguém ali embaixo, o jogador tende a apostar números impressionantes de notas. Mas Ren está arriscando sua reputação como jogador profissional só para apostar umas míseras notas aqui em um jogo ilegal. Não faz sentido. Ele não veio pelo jogo. Está fazendo hora, provavelmente sendo discreto enquanto espera. Estou disposta a apostar que ele veio fazer contato com alguém. O apresentador aparece, apresenta os dez jogadores e começa a partida. Diferentemente dos jogos regulares, esse jogo tem dois números sendo exibidos na parte inferior da minha visão. Cada número é o total de notas apostadas em cada equipe. Ouço o barulho da plateia quando eles começam a jogar. Dois jogadores adversários chegam um no outro, e os dois puxam os braços para atacar. Quando fazem isso, um deles some de repente, como se houvesse um bug. Aparece novamente atrás do outro jogador, e antes que este possa reagir, o primeiro o chuta do telhado do prédio. A multidão vibra. Eu fico quieta, observando. Em um jogo real, uma jogada assim seria proibida. Mas aqui, sem nenhum funcionário oficial da Henka Games supervisionando, tudo é possível. Conforme o jogo continua, as apostas de notas em cada equipe mudam na minha visão em uma exibição ao vivo. Os Obsidian Kings, que começaram com mais apostas do que os White Sharks, estão agora ficando para trás. Quando o Arquiteto é derrubado por um power-up de Estalactite (paralisia temporária), os Sharks sobem ainda mais. Eu suspiro. Nada de estranho aconteceu além da aposta curiosamente baixa de Ren. E se eu estiver desperdiçando tempo aqui e Ren não passar de uma pista falsa? É nessa hora que reparo em um novo jogador entrando no Covil dos Piratas. Não teria percebido se não fosse pelo meu hack. A maioria das pessoas em volta não parece notar a presença dele, só algumas. Como Ren, que também se vira para olhar para ele. No meio de tantos avatares enormes, o recém-chegado é inconspícuo, uma sombra magra. O rosto está totalmente escondido por trás de um elmo escuro e opaco, e ele usa um traje bem ajustado de armadura preta completa. Músculos se movem conforme ele caminha, contornados pelas luzes néon do Covil. E, apesar de eu não ter informação nenhuma sobre ele, nada que me diga quem essa pessoa pode ser, um arrepio me percorre da cabeça aos pés, um sexto sentido que é uma certeza. É ele quem Ren estava esperando para ver. É ele quem Ren veio encontrar. É Zero.

16 Você não tem certeza disso, lembro a mim mesma. Pode ser qualquer um. Mas tudo nele, sua postura autoritária, uma confiança que trai a frequência com que ele vem aqui, o fato de não haver nada, nada que eu consiga ler sobre ele, tudo isso faz meu coração disparar. Não devia ficar tão surpresa de vê-lo aqui. Ainda assim… dar de cara com Zero me deixa perdida por um momento. Eu mal reajo rápido o bastante para sair do caminho enquanto ele percorre a multidão. Abruptamente, Zero para. A cabeça se vira na minha direção, mas, mais especificamente, ele me vê. Eu não deveria ser capaz de vê-lo, percebo. É por isso que ninguém na multidão parece reparar. Na verdade, ele devia estar invisível exceto para as pessoas que já sabiam que ele estava vindo, as pessoas que ele sabe que o apoiam. Zero reparou em mim tentando sair do caminho. Ele sabe que consigo vê-lo. Ele consegue perceber quem eu sou? E se estiver me vendo através de um hack próprio, fazendo download de todas as minhas informações? Perguntas voam pela minha cabeça. Se eu sair agora, vai ficar óbvio que o vi. Ignore-o. Fique quieta e observe o jogo. Ele não está aqui. Zero me olha silenciosamente e chega mais perto. O elmo preto é completamente opaco, e nele só vejo o reflexo do meu avatar genérico. Apesar de todo mundo aqui estar criptografado, Zero não tem informação nenhuma. Não possui identidade falsa, nem nome de usuário aleatório, nada. Ele é um buraco negro. Caminha em volta de mim em um círculo lento e deliberado, me observando, silencioso como um predador, os passos ecoando no covil. Fico o mais imóvel que consigo, prendendo o ar, tomando o cuidado de permanecer calma. Na vida real, estou digitando furiosamente, interrompendo todos os processos que estava realizando e me focando em me proteger. Sem dúvidas o Zero da vida real está fazendo o mesmo agora. Apesar de minha identidade supostamente estar criptografada e indetectável, sinto que o olhar dele está me despindo. Meu coração bate com firmeza no peito. Eu já lidei com gângsteres. Se conseguia ficar calma com eles, lembro a mim mesma, isso não devia ser nada. Uma garota que o segue bem de perto anota alguma coisa em uma prancheta. Ela tem cabelo chanel azul e usa um blazer preto com calça jeans, mas os olhos são o que me assusta. São completamente brancos. Primeiro, acho que ela é uma dentre outros apostadores. Mas quando ela e Zero viram a cabeça simultaneamente, percebo que é uma proxy, um escudo de segurança atrás do qual Zero pode esconder completamente sua identidade. Se alguém conseguir registrar essa sessão no Covil dos Piratas e acabar reparando em Zero, a única informação que vai obter é da garota, cujos dados não vão levar a lugar algum. O que ela escreveu na prancheta? Informações sobre nós? Zero olha por mais um momento para mim. Em seguida, milagrosamente, ele afasta a atenção. A proxy faz o mesmo. Minhas mãos estão tão apertadas que sinto as unhas afundando nas palmas. Enquanto olho, Zero faz uma aposta de 34,05 notas nos Obsidian Kings. Franzo a testa. Que número estranho de se apostar. Espero em silêncio, até exatamente um minuto se passar. Em seguida, Zero faz outra aposta, essa a favor dos White Sharks. 118,25 notas. Agora ele está apostando na equipe adversária? O que está fazendo? Outro apostador do outro lado do covil também faz uma aposta de 34,05 notas. Um minuto depois, faz uma aposta de 118,25 notas a favor dos White Sharks. O mesmo par de apostas que Zero fez. A proxy de

Zero anota alguma coisa na prancheta. Ele não está apostando. Está se comunicando com o outro apostador. Claro que está. Registre os números, digo para mim mesma. Continuo olhando enquanto Zero espera alguns minutos e faz uma nova aposta. Desta vez, são 55,75 notas nos Obsidian Kings e 37,62 notas nos Sharks. E logo em seguida, do outro lado, um outro apostador agora faz as mesmas apostas, na mesma ordem. Mais uma vez, a proxy anota alguma coisa. Fico olhando em um silêncio perplexo enquanto isso continua sem parar, com todo mundo à minha volta ainda torcendo e vendo o jogo. Mais ninguém parece perceber essas apostas; ninguém tem motivo para perceber, porque só as apostas altas são destacadas e mudam significativamente os valores dos dois lados. Por que alguém se incomodaria com esses valores estranhos e baixos? Em seguida, Zero faz duas apostas… e Ren é a pessoa que responde. Finalmente, quando a partida termina, Zero se levanta com sua proxy e se afasta do cilindro de vidro sem dizer nada. Ao seu lado, a garota assente uma vez para a multidão, e os que responderam em código assentem de volta. Acima, a trilha eletrônica muda momentaneamente para uma melodia diferente, como se estivesse bugando. Sair de forma explosiva, canta a vocalista dessa nova música. É, vamos sair de forma explosiva. A música volta para a batida anterior. Os Obsidian Kings vencem a partida, e o valor apostado nos White Sharks desaparece, sendo dividido e distribuído proporcionalmente aos apostadores que venceram. Olho para a lista que anotei, com os números que Zero apostou. Cinquenta pares de números. Todos apostas pequenas. As mais altas chegam a 153, as mais baixas a 0. Enquanto observo, uma possibilidade me ocorre. É um pensamento tão estranho que não dou atenção no começo. Mas, quanto mais olho para os números, mais eles parecem se encaixar. São locais. Longitudes e latitudes. E se forem localizações de cidades? Minha mente fica febril de horror, as peças de alguma coisa grande se encaixando, a possibilidade de finalmente topar com uma pista relevante. Por que exatamente Zero está designando uma série de lugares para os outros? O que está planejando? Atordoada, começo a me desconectar do Dark World. Neste momento, olho de soslaio para Zero do outro lado do aposento uma última vez. Ele está olhando diretamente para mim.

17 Não sei se ele me reconheceu. Talvez não estivesse prestando atenção em mim, e o olhar tenha sido coincidência. Mas a lembrança da cabeça dele virada na minha direção gera um tremor em mim agora que estou no meu quarto, olhando pela varanda de novo. Solto o ar devagar. A serenidade do mundo real parece incômoda depois da minha incursão ao Dark World. E se Zero estiver atrás de mim? Abro um mapa, que paira com fundo transparente à minha frente, junto com a lista de coordenadas que anotei no Covil dos Piratas. Volto a atenção para as longitudes e latitudes nas laterais. – Trinta e um vírgula dois – murmuro em voz alta, passando o dedo pela projeção. – Cento e vinte e um vírgula cinco. Meu dedo para bem em cima de Xangai. Pego outro par de números. – Trinta e quatro vírgula zero cinco. Cento e dezoito vírgula vinte e cinco. Los Angeles. 40,71. 74,01. Nova York. 55,75. 37,62. Moscou. E assim por diante. Comparo cada par de números, às vezes acrescentando um sinal de menos na frente de um número quando ele dá no meio do nada ou no mar. E realmente, todos os pares de coordenadas batem com alguma cidade grande. Na verdade, Zero listou as cinquenta maiores cidades do mundo, cada uma repetida para ele por outra pessoa no meio da multidão do Covil dos Piratas. O que quer que Zero esteja fazendo, é uma operação global. E, de alguma forma, tenho uma sensação agourenta de que o objetivo final envolve bem mais do que só atrapalhar alguns torneios de Warcross. E se houver vidas em perigo? Uma batida na minha porta me arranca dos pensamentos. – Sim? – grito. Não há resposta. Fico onde estou por um momento, depois me levanto e caminho até a entrada. Aperto o botão que abre a porta. É Ren, encostado na lateral, os fones de ouvido em volta do pescoço. Um sorriso aparece no rosto dele, mas não alcança os olhos. – Soube que você não foi almoçar – diz. Ele inclina a cabeça para mim. – Dor de cabeça? Meu sangue gela. Ainda assim, lembro a mim mesma de ficar calma, e aperto os olhos para ele e apoio as mãos nos quadris. – Eu soube que você não almoçou para fazer música – respondo. Ele dá de ombros. – Eu tenho um contrato com meu estúdio a cumprir, com ou sem Warcross. Os outros me mandaram vir aqui buscar você. Estão começando uma rodada de jogos lá embaixo, caso você queira participar. – Ele indica a escada. O que você foi fazer no Dark World, Ren?, penso enquanto observo o rosto dele. O que sua ligação com Zero quer dizer? O que está planejando? – Hoje não posso – minto, indicando a cama. – Tenho horário para tirar licença para meu novo skate.

Ren me olha por um momento que é um pouco longo demais. Em seguida, se afasta da porta e vira para a escada. – Coringazinha ocupada – diz ele em francês, as palavras traduzidas no meu visor. Coringazinha ocupada. Eu me pergunto por um momento se ele desconfia de que o estou seguindo. Quando ele desce a escada e desaparece do meu campo de visão, fecho a porta e faço uma ligação silenciosa para Hideo. Quando ele atende, uma versão virtual de Hideo aparece na minha frente. – Emika – diz ele. Gera um arrepio pelo meu corpo, tanto de excitação quanto de urgência. – Oi – sussurro. – Podemos nos encontrar?

QUANDO SAIO DO QUARTO, Asher, Roshan e Hammie estão reunidos nos sofás, enfiando fatias de pizza na boca enquanto jogam Mario Kart. Ren está reclinado em uma poltrona ali perto, assistindo-os. Os carrinhos disparam por uma estrada da cor do arco-íris pelo centro de uma galáxia. – Isso! – grita Hammie quando o kart dela vai para a primeira colocação. – Essa é minha, garotos. – Está comemorando cedo demais, Hams – responde Roshan. – É seu aviso final. – Não pegue tão leve comigo, então. – Eu não entrego o jogo. Olho para Ren. Parece calmo e tranquilo, os fones de ouvido com asas douradas em volta do pescoço. Ele repara em mim e dá um sorriso preguiçoso, como se nunca tivesse saído dali, como se não estivesse fazendo apostas no Dark World uma hora antes. Hammie grita: – Não! – Um casco azul vem voando do nada e bate no carrinho dela bem na hora em que vai cruzar a linha de chegada. Enquanto Hammie luta para botar o kart em movimento, os outros a ultrapassam. A posição dela despenca de primeiro para oitavo lugar e ela finalmente cruza a linha. Asher cai na gargalhada e Hammie pula do sofá e joga as mãos para o alto. Faz cara feia para Roshan, que abre seu sorriso gentil. – Desculpe, querida. Como falei, eu não entrego o jogo. – Desculpe é o cacete! – exclama ela. – Quero revanche. – Cara, Roshan – responde Asher, batendo nas costas dele. – Um anjo na vida real, um demônio no kart. Ren olha para mim. – Ei, Emika – diz ele. – Quer entrar? Vou jogar na próxima rodada. Por que você estava no Covil dos Piratas, Ren? O que estava fazendo com Zero? Você é um perigo para todos nesta sala? Mas, por fora, dou um sorriso e apoio o skate elétrico no ombro. – Eu ia experimentar meu skate novo na cidade. Ao lado de Ren, Hammie grunhe. – Para com isso, Em – diz ela. – Eu só quero um pouco de ar fresco hoje – respondo. Olho para ela com expressão de desculpas. – Como falei. Amanhã, prometo. Quando me viro para sair, Asher me chama. – Ei, coringa. – Eu me viro e o vejo me olhando com seriedade. – É a última vez que você dá o cano na sua equipe. Entendeu? Faço que sim sem dizer nada. Asher se vira, mas antes que eu possa sair, vejo Ren abrindo um sorriso rápido. – Divirta-se – diz ele antes de se virar também. Eu sigo pelo corredor, saio pela porta, coloco os sapatos e vou na direção de um sedã preto parado na

entrada. Vou ter que mudar a frequência com que vejo Hideo à noite assim. Esse é um sedã usado pelos jogadores das equipes para transporte pela cidade… mas, mesmo assim, é melhor não despertar desconfianças. Asher vai querer que eu fique em casa nas próximas confraternizações da equipe, principalmente nas semanas próximas do primeiro jogo oficial. Quando chego na sede principal da Henka Games, a noite já caiu completamente, e o coração de Tóquio virou um país das maravilhas de luzes néon. A sede em si até parece diferente, e com as lentes nos olhos, as paredes são cobertas de espirais de cor e rendições artísticas do logo da empresa. Quando o carro para na frente do prédio, sou recebida por dois guarda-costas de Hideo, ambos de terno escuro. Eles inclinam a cabeça para mim ao mesmo tempo. – Por aqui, srta. Chen – diz um. Faço uma inclinação desajeitada de cabeça para eles em resposta e os sigo para dentro do prédio. Andamos em silêncio até chegarmos à sala de Hideo. Hideo está inclinado por cima da mesa, a cabeça abaixada em concentração, o cabelo escuro desgrenhado. Está usando a camisa com calça escura de sempre, mas a camisa é preta desta vez, com listras cinzas finíssimas. Meu olhar desce até os sapatos. São sapatos oxford azuis e cinza, enfeitados com linhas pretas. As abotoaduras são diferentes de propósito, uma lua crescente e uma estrela. Como ele sempre parece tão arrumado? Meu pai ficaria impressionado. Ele levanta o olhar quando entramos. Lembro que devo inclinar a cabeça em cumprimento e faço um movimento rápido. – Emika – diz ele, se empertigando. A expressão séria se suaviza quando me vê. – Boa noite. – Ele troca um olhar breve com cada um dos guarda-costas. Um deles abre a boca para protestar, mas quando Hideo inclina a cabeça uma vez na direção da porta, o homem suspira e guia o outro para fora da sala. – Eles estão comigo desde meus 15 anos – diz Hideo enquanto contorna a mesa em minha direção. – Perdoe-os se às vezes parecerem superprotetores. – Talvez eles achem que ofereço perigo a você. Ele sorri quando chega onde estou. – E você oferece algum? – Eu tento me controlar – respondo, retribuindo o sorriso. – Por enquanto, só vim contar o que descobri. – Estou supondo que você descobriu alguma coisa interessante no Dark World. – Interessante não chega nem perto. – Olho ao redor. – Espero que você esteja pronto para fazer uma pausa. Tenho muitas informações para você. – Que bom, porque eu estava pensando em tentarmos alguma coisa diferente para nossa reunião de hoje. – O olhar dele permanece em mim um momento mais. – Você já comeu? Ele está me convidando para jantar? – Não – digo, tentando permanecer casual. Ele tira um jaquetão cinza-escuro das costas da cadeira e veste. E inclina a cabeça na direção da porta. – Venha comigo.

18 Acabamos em Shibuya, bem na frente de um arranha-céu com o nome Rossella Osteria flutuando no alto. Pegamos um elevador até o terraço do prédio, onde um par de portas duplas de vidro desliza para nós. Entro em um espaço que faz meu queixo cair. Um segmento do chão é feito de vidro, vidro de verdade, não uma simulação virtual, e embaixo dele há um fluxo de carpas douradas e vermelhas nadando. Vasos de flores adornam pedestais de mármore em torno do restaurante. O local todo está vazio. O recepcionista corre para cumprimentar Hideo. – Tanaka-sama! – exclama ele em japonês, inclinando muito a cabeça. Em seus gestos nervosos, me vejo no meu primeiro encontro com Hideo, ficando perdida sob o olhar sério dele. – Mil desculpas… nós não sabíamos que você tinha marcado companhia para hoje. Ele lança um olhar ansioso para mim. De repente, percebo que deve achar que estou acompanhando Hideo em um encontro romântico. Talvez eu esteja. Mexo os pés com constrangimento. Hideo assente para ele. – Não precisa pedir desculpas – responde em japonês, e olha para mim. – Essa é a srta. Emika Chen, minha colega. – Ele estica a mão para eu entrar na frente dele. – Por favor. Sigo o recepcionista, perplexa e extremamente ciente de que Hideo está atrás de mim, até chegarmos a um pátio externo emoldurado por pilares decorados e iluminado por filas de luzinhas. Lâmpadas de aquecimento brilham em intervalos regulares, as chamas acrescentando um calor dourado à nossa pele, e a luz da cidade cintila embaixo. Quando nos sentamos, o garçom nos entrega cardápios e sai rapidamente, e nós (e os guarda-costas) passamos a ser as únicas pessoas no local. – Por que esse restaurante está completamente vazio? – pergunto. Hideo nem toca no cardápio. – É meu – responde ele. – Uma vez por mês aqui é reservado para mim e qualquer reunião de negócios em potencial que eu tenha. Achei que você poderia preferir comida ocidental, de qualquer modo. Meu estômago ronca alto em resposta, e tusso em uma tentativa de disfarçar o som. Eu não ficaria surpresa se Hideo fosse dono de metade de Tóquio. – Italiana está ótimo – digo. Nós pedimos a comida, e em pouco tempo os pratos chegam, enchendo o ar do aroma agradável de manjericão e tomate. Enquanto comemos, abro minha conta e mando um convite para Hideo se juntar a mim. – Eu segui Ren até o Covil dos Piratas – anuncio. – E então? O que você viu? – E ele estava com esse cara. – Coloco o garfo na mesa e abro uma Lembrança do que vi no Covil: a figura de armadura escura, acompanhada da proxy, fazendo apostas no jogo ilegal de Warcross. Hideo se inclina para a frente quando vê. – É Zero? Assinto e bato duas vezes na mesa. – Tenho quase certeza de que era. Ele se escondia atrás de um avatar de armadura e de uma proxy, e estava passando muitas informações para o que pareciam ser seus seguidores no Covil dos Piratas.

Dezenas de seguidores. Não é uma operação solitária. – Que tipo de informação ele estava passando? – Coordenadas de cidades. Olhe. – Abro a lista de números que registrei e explico o sistema de pequenas apostas que Zero usou para passá-los para seus seguidores. Em seguida, abro um mapa virtual entre nós e destaco as coordenadas nele. Meu dedo para nas coordenadas 35,68 e 139,68. – E essa, Tóquio, foi a cidade à qual Ren respondeu. Talvez todas as outras pessoas tenham respondido de acordo com a cidade em que estão fisicamente localizadas. Hideo aperta os olhos e analisa os locais. – Essas cidades são onde os maiores eventos em domos do campeonato acontecem. – Ele olha para mim. – Alguma ideia de quantas reuniões ele já fez antes? Eu balanço a cabeça. – Não. Mas ele parece ter um grupo grande. Preciso de outro encontro com Zero para ter uma ideia melhor do que isso tudo quer dizer, mas as chances de eu conseguir mais informações como essas dele antes dos jogos começarem são poucas. Hideo balança a cabeça uma vez. – Você não vai precisar. Nós vamos trazê-lo até nós. O primeiro jogo oficial acontece no dia 5 de abril. Nós já sabemos que ele e os seguidores dele vão estar assistindo, e que Ren vai ser o designado para o evento no domo de Tóquio. É provável que ele esteja em comunicação direta e criptografada com Zero durante o jogo. – Você quer que eu hackeie o sistema de Ren durante nossa partida? – Quero. Vamos colocar uma coisa em você no primeiro jogo oficial. Faça com que Ren interaja com você no meio da partida, e isso vai desabilitar os escudos que o protegem. Vai expor qualquer dado entre ele e Zero. Parece um bom plano. – O que você vai colocar em mim? Hideo abre um sorrisinho. A mão dele roça no meu pulso, virando-o, e o polegar aperta delicadamente minha pulsação. Um formigar percorre meu corpo ao sentir o toque quente. Ele afasta a mão da minha e faz um gesto rápido no ar. Meus dados aparecem entre nós, o texto iluminado em azul-claro. Eu olho com fascinação enquanto ele mistura meus dados com o que já temos sobre Ren, um algoritmo surgindo diante dos meus olhos, feito para parecer um laço. – O que é? – pergunto. – Uma armadilha. Segure o pulso dele em qualquer momento durante o jogo. Vai atravessar a segurança dele e expor os dados para você. – Ele pega minha mão de novo e enrola a armadilha no meu pulso como uma pulseira, a teia de dados cintilando na minha pele por um momento antes de ficar invisível. Algo no gesto parece nostálgico, e de repente vejo meu pai curvado sobre a mesa de jantar, cantarolando alegremente enquanto mede tiras de tecido no pulso, uma garrafa de vinho pela metade ali perto, o chão ao redor cheio de lantejoulas e retalhos. Eu puxo a mão para o colo, sentindo-me momentaneamente vulnerável. – Pode deixar – digo. A expressão de Hideo oscila. Ele me observa. – Você está bem? – Estou. – Eu balanço a cabeça, irritada comigo mesma por ser tão óbvia. É só uma lembrança, só isso. E estou prestes a dizer isso para afastar o momento… mas olho para ele, encontro seu olhar e, desta vez, sinto meus muros ruindo. – Eu estava me lembrando do meu pai – digo, indicando o meu pulso. – Ele media pedaços curtos de tecido enrolando no pulso. Hideo deve ter sentido a mudança no meu tom. – Media? – diz baixinho.

Eu baixo os olhos e me concentro na mesa. – Já tem um tempo que ele faleceu. Hideo fica em silêncio por um longo momento. Há uma familiaridade no olhar dele, um momento de silêncio compartilhado por todo mundo que vivenciou uma perda. Uma das mãos dele se fecha e se abre. Vejo as marcas nos dedos se moverem. – Seu pai era artista – diz ele. Faço que sim. – Meu pai balançava a cabeça e se perguntava de onde eu tirei o amor pelos números – respondo. – E sua mãe? O que ela faz? Minha mãe. Uma lembrança fraca surge na minha mente, meu pai segurando minha mão gordinha, nós dois olhando impotentes enquanto ela amarrava as botas e ajustava o lenço de seda. Enquanto meu pai falava com ela com voz baixa e triste, eu olhava impressionada para a alça prateada da mala dela, para a perfeição das unhas, para o negrume sedoso do cabelo. Ainda sinto a mão macia e fria na minha bochecha, dando um tapinha, dois, e se afastando sem relutância. Ela é tão bonita, me lembro de ter pensado. A porta se fechou quando ela saiu sem emitir som. Pouco tempo depois, meu pai começou a ficar viciado em apostas. – Ela foi embora – respondo. Consigo ver que Hideo está juntando informações sobre mim. – Sinto muito – diz ele delicadamente. Olho para baixo, irritada com a dor no peito. – Depois que meu pai faleceu, me ocupei no orfanato revirando obsessivamente seu API. Me ajudou, sabe… a esquecer. Aí está de novo, o breve momento de compreensão no rosto de Hideo, de dor antiga e história sombria. – E você consegue esquecer? – diz ele depois de um tempo. Eu busco o seu olhar. – Seus dedos machucados te dão algum alívio? – rebato em voz baixa. Hideo olha para a cidade. Ele não comenta sobre o motivo de eu ter perguntado sobre os machucados, nem há quanto tempo penso neles. – Acho que sabemos a resposta para ambas as perguntas – murmura ele. E me vejo sufocada por outra série de pensamentos lotando minha cabeça, conjecturas do que pode ter acontecido com Hideo no passado. Ficamos em um silêncio confortável enquanto admiramos as luzes cintilantes da cidade. O céu ficou totalmente escuro agora, as estrelas apagadas pelas ruas de néon de Tóquio abaixo. Meus olhos se viram para o alto instintivamente, procurando qualquer sinal de alguma constelação. Não há nada. Estamos muito no centro da cidade para vermos qualquer outra coisa além de um ou dois pontinhos no céu. Demoro um momento para reparar que Hideo se encostou na cadeira e está me observando de novo, um sorrisinho nos cantos dos lábios. A escuridão dos olhos dele muda na penumbra, captando toques das luzinhas assim como o calor das lâmpadas de aquecimento. – Você procura pelas estrelas – diz ele. Deixo o meu olhar cair e dou uma risada. – É só um hábito. Só vi o céu cheio de estrelas quando meu pai me levava em viagens de carro pelo campo. Procuro constelações sempre desde aquela época. Hideo levanta o olhar e move o dedo em um gesto único e sutil. Uma caixa clara aparece, me pedindo para aceitar a visão compartilhada. Eu aceito. As camadas virtuais na minha visão se ajustam… e, de repente, o céu noturno de verdade aparece acima, uma superfície de constelações com um incontável número de estrelas, prateadas e douradas e safira e escarlate, tão intensas que a Via Láctea fica visível. Nesse momento, parece totalmente possível que a luz das estrelas chova sobre nós, nos polvilhando de

purpurina. – Uma das primeiras coisas que coloquei na minha visão pessoal e aumentada foi o céu noturno sem obstrução – diz Hideo. Ele olha para mim. – Gostou? Faço que sim sem dizer nada, a respiração ainda presa na garganta. Hideo sorri, sorri de verdade, de uma forma que ilumina seus olhos. Seu olhar percorre meu rosto. Ele está tão perto agora que, se quisesse, ele poderia se inclinar e me beijar… e me vejo me inclinando na direção dele, torcendo para ele diminuir a distância entre nós. – Tanaka-san. Um dos guarda-costas se aproxima de nós, inclinando a cabeça de forma respeitosa. – Ligação para você – diz ele. O olhar de Hideo permanece em mim por um momento final. Ele se vira, e sua presença é substituída por ar frio. Eu quase escorrego pela cadeira, de decepção. Hideo se vira para longe de mim e olha para cima. Quando vê a expressão do guarda-costas, ele assente. – Com licença – diz para mim, se levanta e vai para dentro do restaurante. Eu suspiro. Uma brisa fria sopra, me fazendo tremer, e volto o olhar para o céu, onde as estrelas continuam na minha visão. Eu o imagino criando isso, o rosto também virado para o céu, desejando ver as estrelas. Talvez nós dois precisemos do ar frio para pensar direito. Eu trabalho para ele. Ele é meu cliente. Isso é uma caçada, como todas as outras que já fiz. Quando terminar, quando eu vencer, vou voltar para Nova York e nunca mais vou precisar caçar de novo. Mas aqui estou eu, compartilhando coisas sobre minha mãe em que eu não pensava havia anos. Penso na expressão nos olhos dele. Quem ele perdeu na vida? Estou começando a achar que não vou mais ver Hideo hoje quando uma coisa quente é colocada sobre meus ombros. É o jaquetão cinza de Hideo. Levanto o olhar e o vejo passar por mim. – Você pareceu com frio – diz ele quando se senta novamente. Puxo o casaco sobre os ombros. – Obrigada – respondo. Ele balança a cabeça como quem pede desculpas. Espero que diga alguma coisa em relação à fagulha que dançou entre nós, mas ele só diz: – Infelizmente, vou ter que ir embora. Meus seguranças vão acompanhá-la por uma saída escondida, para proteger a sua privacidade. – Ah, claro – respondo, tentando esconder minha decepção atrás de um tom que espero que pareça animado. – Quando posso vê-la novamente? Olho rapidamente para ele. Sinto um frio na barriga, e meu coração dispara novamente. – Bem – começo a dizer –, fora o que já discutimos, não sei se vou ter muita coisa a relatar até… Hideo balança a cabeça uma vez. – Não para relatórios. Só sua companhia. Só minha companhia. O olhar dele está calmo, mas reparo no jeito como está virado para mim, na luz nos olhos dele. – Depois do primeiro jogo. – Ouço as palavras jorrarem da minha boca. Hideo sorri, e desta vez é um sorriso secreto. – Mal posso esperar.

19 A manhã do nosso primeiro jogo oficial começa com Asher batendo com a cadeira de rodas repetidamente na minha porta. Acordo com um susto, apertando os olhos e resmungando, sem conseguir entender direito as palavras dele. – Já temos a fase! – grita enquanto vai bater na porta de Hammie. – Acordem! Acordem! Já temos a fase. Meus olhos se abrem, e me sento na cama. Hoje é o primeiro dia. Mexo no cobertor até encontrar meu celular e olho rapidamente as mensagens. Só tem uma nova, e é de Hideo. Boa sorte hoje. Você nem vai precisar.

Não consigo saber se o embrulho no estômago é de ansiedade pelo primeiro jogo ou pelas palavras dele. Nas duas últimas semanas desde o jantar, falei com Hideo quase todos os dias. A maioria das nossas conversas é inocente, estritamente profissional, mas às vezes, quando acontecem tarde da noite, sinto o puxão que me lembra o momento durante o jantar quando ele se inclinou para mais perto. Nos vemos no domo. E obrigada… Acredite, a sorte seria útil.

Acho que não acredito nem um pouco em você, srta. Chen.

Agora você está tirando sarro da minha cara, sr. Tanaka.

Ah. É assim que você está chamando isso?

De que eu devia chamar?

Apoio moral, talvez.

Abro um sorriso. S eu apoio moral vai me distrair na arena.

Então peço desculpas adiantado.

Balanço a cabeça.

Você é tão lisonjeiro.

Não sou nada disso. Nos vemos no domo, Emika.

Isso é tudo que ele diz. Espero outra mensagem, mas como não chega nenhuma, afasto os pensamentos e tiro as pernas da cama. Visto roupas apressadamente, escovo os dentes, prendo o cabelo colorido em um coque desajeitado e coloco minhas lentes NeuroLink. Por um momento, olho meu reflexo. Minha pulsação bate alto nos meus ouvidos. Imagino Keira em Nova York, me vendo no jogo, encolhida no sofá. Imagino o sr. Alsole fazendo o mesmo, apertando os olhos incrédulo. Hora de ir. Solto o ar com tremor, me afasto do espelho e dou no pé. Todos já estão prontos no átrio, amontoados em volta de Asher, que está abrindo a transmissão matinal para nós. Hammie assente para mim quando chego. Ali perto, Wikki vai servindo o café da manhã favorito de cada um de nós. O de Hammie é uma pilha de waffles com xarope, frutas e chantilly, enquanto o meu é um taco com guacamole. Ren, da forma habitual, está com um prato de clara de ovos e espinafre cozido, enquanto Roshan segura uma xícara de chai com especiarias e faz uma careta para o prato que Wikki lhe oferece. – Hoje não – reclama. Wikki pisca para ele com a expressão mais triste que um drone é capaz de fazer. – Não gostaria de reconsiderar? Ovos mexidos com queijo de cabra é seu fav… A descrição deixa Roshan verde. – Hoje não – repete ele, dando um tapinha na cabeça de Wikki. – Não é pessoal. – Coma – diz Asher para ele por cima do prato de ovos mexidos. – Você precisa de alguma coisa hoje se quer que seu cérebro esteja funcionando direito. Tento seguir o conselho dele, mas só consigo comer três pedaços de taco e afasto o prato, com tantos pensamentos na cabeça que a impressão é que até a minha barriga está cheia. Hammie balança um pedaço de waffle no garfo e indica a imagem que aparece no ar à nossa frente. – Parece que nosso primeiro jogo vai ser dos rápidos – diz ela. A primeira fase que o comitê de Hideo criou para nosso jogo é um mundo de gelo cintilante e geleiras enormes. Enquanto olho, a paisagem gira para nós no ar, mostrando um pouco como vai ser. Abaixo estão listadas uma série de regras. Roshan as lê para nós com a testa franzida de concentração. – Vai ser uma fase de corrida – diz ele, pegando um pedaço de tâmara no meio dos ovos e colocando na boca. – Todo mundo vai estar em movimento o tempo todo, em hoverboards individuais. Se um jogador for derrubado do hoverboard, vai ressuscitar um pouco atrás dos outros, na menor altitude possível perto do chão. Observo a paisagem que gira, guardando o relevo na memória. Asher se encosta no apoio de cabeça e nos encara. Seu olhar pousa primeiro em Ren, quando fala: – Hora de testar suas habilidades de Guerreiro. Você fica do meu lado, coringa. – Ele olha para mim. – Ems… – Ele indica o mapa em rotação. – Você vai começar do meu outro lado. Hammie, fique um pouco à frente dela. Pegue o máximo de power-ups que puder e passe para ela. Roshan, cuide dos coringas e faça com que não fiquem para trás se forem mortos logo no começo. Vamos vencer essa. Olho para Ren. Ele assente uma vez para Asher, como se estivesse aqui apenas para vencer, como se não tivesse acabado de visitar o Dark World para ajudar a derrubar o jogo todo. Minha mão massageia inconscientemente o pulso, onde Hideo enrolou a armadilha invisível. Dois podem fazer esse joguinho.

HOJE, O TOKYO DOM E está completamente coberto pelas cores e símbolos que nos representam e também representam a Demon Brigade. Pelas nossas lentes, vemos a imagem de uma fênix escarlate acima da arena, junto de uma horda de demônios pretos e prateados de capuz. Olhar na direção do domo faz aparecer as estatísticas das duas equipes. Os Demons venceram dois campeonatos. Nós só vencemos um, mas foi com uma vitória contra eles. Penso novamente nos insultos que Tremaine e Max disseram para mim. Hoje vai ser uma partida interessante. A parte de dentro da arena está ainda mais espetacular. Durante o Wardraft, a parte mais baixa estava ocupada por círculos de coringas, que aguardavam em seus assentos para saber onde seriam escalados. Hoje, tudo isso sumiu e foi substituído por um piso liso que agora exibe uma rotação de uma fênix vermelha e dourada planando na frente do sol, que depois some e vira uma horda de demônios cheia de crânios sorridentes e capuzes escuros. Dez cabines de vidro estão arrumadas em círculo nesse nível, cinco para nós, cinco para os Demons. Em jogos oficiais, os jogadores entram nessas cabines para garantir que tudo seja perfeitamente justo para as duas equipes: temperatura igual; pressão igual; calibrações do Link; conexão com o Warcross; e assim por diante. Também impede que os jogadores escutem as ordens dadas pelos oponentes. O estádio está totalmente lotado. Uma voz onisciente anuncia nossos nomes quando entramos na arena, a voz é grave e reverberante, e quando fala, cada nome gira em chamas no meio do campo. Os gritos provocam tremores em mim quando chegamos ao centro do estádio e esperamos sermos conduzidos para nossas cabines. Do outro lado, os Demons também aparecem. – Jena MacNeil, da Irlanda, a capitã mais jovem de jogos oficiais! – diz a voz. – Tremaine Blackbourne, da Inglaterra, o Arquiteto dela! Max Martin, dos Estados Unidos, Guerreiro dos Demons! – Eles entram em fila. Darren Kinney, Escudo. Ziggy Frost, Ladra. Ela me encara brevemente, como se pedindo desculpas, mas logo se empertiga e dá um aceno determinado. Olho com calma para ela. Podemos ter sido simpáticas uma com a outra no Wardraft, mas agora, somos rivais. Minha atenção se volta para Tremaine. Ele está me olhando de cara feia, então decido abrir um sorriso deslumbrante em resposta. A voz do estádio anuncia meu nome. Fico ensurdecida pelo coral de gritos que vem da plateia. Há faixas com meu nome, sendo balançadas freneticamente nos assentos lotados. EM IKA CHEN!, algumas dizem. TIM E EUA! EQUIPE PHOENIX RIDERS! Olho para essas faixas, atordoada de ver essa demonstração. Em algum lugar no alto da arena, as vozes dos comentaristas discutem a partida de hoje. – Para todos os efeitos – diz um, a voz ensurdecedora na arena –, devemos ver a Demon Brigade massacrar os Phoenix Riders, no momento a equipe de posição mais baixa nos campeonatos. – Mas Asher Wing é um dos capitães mais talentosos dos jogos – diz outro. – Ele fez escolhas surpreendentes e misteriosas de coringa. Por que os escolheu? Só assistindo para saber. Mas não descarte os Phoenix Riders ainda! Eu entro na minha cabine e deixo que me isolem lá dentro. De repente, o mundo fica silencioso, e o grito da plateia e as vozes dos comentaristas viram um murmúrio abafado. – Bem-vinda, Emika Chen – diz uma voz na cabine. Uma esfera vermelha aparece e paira na minha frente. – Por favor, olhe para a frente. É a mesma calibragem que fiz quando entrei no jato de Hideo. Estão verificando que as calibragens de todos os jogadores estejam sincronizadas. Faço o que a voz manda, a calibragem completa. Quando termino, olho pelo vidro dos dois lados e vejo cada um dos meus colegas de equipe em suas cabines. O batuque do meu coração soa nos meus ouvidos. No centro da arena, a luz é diminuída. A voz do apresentador soa nos meus fones de ouvido. – Senhoras e senhores – exclama ele –, vamos… começar!

A arena ao nosso redor some, e somos transportados para um mundo alternativo. Uma luz solar fria me faz apertar os olhos. Levanto a mão virtual para proteger o rosto. Gradualmente, o brilho diminui, e me vejo suspensa no ar, olhando para uma área ampla de gelo azul e geleiras cobertas de neve, tudo se movendo e estalando com o próprio peso. Sob um sol estranho, a neve cintila em um milhão de pontos de luz. O céu é uma amplidão roxa e rosa e dourada, e há planetas gigantes suspensos nele, os anéis se curvando além do horizonte. Monumentos enormes de gelo sobem por toda a paisagem, explodindo da geleira em intervalos aleatórios. Os monumentos parecem esculpidos pelo vento, inclinados, esburacados, gastos, transparentes, e vão até onde a visão alcança. Até a música tocando ao nosso redor soa fria: sinos sintéticos, ecos, um vento de fundo e uma batida rítmica grave e regular. Mas o que realmente chama minha atenção são os penhascos enormes de gelo azul que nos ladeiam, formando nosso caminho. Há feras enormes congeladas dentro desse gelo azul. Um urso-polar grande como um arranha-céu. Um lobo branco sem um dos olhos, o maxilar congelado em um rosnado. Um dragão que se assemelha a uma cobra. Um tigre-dentes-de-sabre. Um mamute peludo. Estremeço de admiração pelo tamanho deles. Parecem capazes de explodir do gelo a qualquer momento. Meu estômago despenca quando ouso olhar para baixo. Estou usando um traje vermelho de Arquiteta, as botas e o capuz grosso com pelo escarlate, e me vejo de pé no que parece ser um skate flutuante preso às minhas botas. Chamas azuis saem de dois cilindros presos na base. À minha esquerda, Asher e Ren estão usando roupas vermelhas de neve similares, cada um também flutuando no ar em hoverboards. Vai ser uma corrida. À minha direita, nossos adversários aparecem. A Demon Brigade está vestindo prateado. Jena dirige um sorrisinho superior para Asher, seguido de uma saudação debochada. Ele só cruza os braços e a ignora. O olhar de Max Martin nos percorre friamente. Mas é Tremaine quem está com a atenção total voltada para mim, os olhos azul-gelo ilegíveis. Ele vai ficar na minha cola, e me lembro de como treinei com o meu time para lidar com ele, como Roshan me avisou da natureza adaptável de Tremaine. Ali perto, o maxilar de Roshan está firme. Os dois se recusam a se olhar. – Bem-vindos ao primeiro jogo oficial do campeonato! – Nós ouvimos pelos fones de ouvido. – Hoje, a Demon Brigade enfrenta os Phoenix Riders no Mundo Branco, uma paisagem de velocidade, furtividade e raciocínio rápido. Não vai haver tempo para hesitar! O Artefato da nossa equipe aparece acima da cabeça de Asher, um diamante vermelho cintilante. Um diamante prateado aparece sobre a cabeça de Jena. Dezenas de power-ups coloridos surgem pela fase, suspensos no ar e acima de monumentos e perto do chão. Olho para eles, procurando algum ao meu alcance que possa valer a pena pegar. – Emi. – A voz de Asher soa nos meus ouvidos, pelo circuito de comunicação da minha equipe. – O monumento mais próximo de você. Está vendo o power-up de Raio? Bote as mãos nele. Vejo uma esfera azul-esbranquiçada suspensa no centro de um buraco na primeira estrutura de gelo. Mentalmente, conjuro a paisagem rotativa em 3D que nos mostraram antes do jogo, clara e detalhada como se ainda estivesse na minha frente. Permito-me um sorriso breve. – Pode deixar – respondo. – E que escolha interessante para o Capitão Asher! – dizem agora os comentaristas. – Ladeado não por um, mas por dois coringas na primeira partida dos Phoenix Riders da temporada. Emika Chen e Renoir Thomas devem tê-lo impressionado durante o treinamento. – Boa sorte – diz Ren enquanto o apresentador lê as regras familiares do jogo. Sei que é para mim e, como sempre, não consigo determinar se ele está falando com sinceridade ou com malícia. Dou um sorriso tenso para ele. – Pra você também – respondo. Silenciosamente, lembro a mim mesma de ficar atenta à primeira oportunidade de segurar o pulso dele.

Nós todos batemos no peito duas vezes com o punho quando o apresentador termina. O mundo fica imóvel. Só ouço silêncio. Em seguida, o toque de início soa. – Jogo! Preparar! Lutem! O mundo ao nosso redor ganha vida. Rajadas de vento jogam neve alto no céu. As chamas no meu hoverboard viram em noventa graus, e disparo adiante como uma bala. Na mesma hora, meus instintos de skate entram em ação; enquanto os outros balançam à minha volta sem equilíbrio, me agacho em posição, perfeitamente equilibrada. Asher olha para mim com surpresa. Neve bate na minha cara, obscurecendo minha visão. Pisco para afastá-la. Meu hoverboard já está disparado. A paisagem branca passa voando por mim, e os monumentos de gelo chegam mais perto. Ao meu lado estão Asher e Ren. Asher passou um pouco à nossa frente. Testo com cuidado meu hoverboard e percebo que tenho um botão sob cada calcanhar. Quando aperto o calcanhar da frente, acelero. Quando aperto o de trás, freio. Vou ter que tomar cuidado; se eu frear com força demais, vou parar de repente e cair. Ao meu lado, Ren se afasta de mim e segue no encalço de Asher. Eu trinco os dentes e decido não ir atrás dele agora. Ren ouviu as instruções de Asher para mim. Se eu for óbvia demais e segui-lo em vez de obedecer nosso capitão, ele vai saber que estou tramando alguma coisa. O diamante brilha intensamente acima da cabeça de Asher. No centro da minha visão há um mapa transparente e circular, mostrando dez pontinhos onde cada jogador está. Quase perco o equilíbrio quando outra rajada de vento nos atinge. O primeiro monumento de gelo se aproxima. – Agora, Emi! – diz Asher no nosso comunicador. Olho para o power-up de Raio pairando no meio do buraco gigantesco na estrutura. Jogo o peso para a perna de trás. Meu hoverboard dispara para cima. Eu me agacho até ficar o mais encolhida possível contra o skate; a mudança me acelera, e disparo na direção da esfera. Eu a pego no ar e passo pelo buraco. A lembrança da paisagem 3D surge na minha mente. Vejo como a estrutura é por todos os lados, todas as fendas perto dela e a forma como o terreno se inclina. Em uma fração de segundo, faço um cálculo de como essa estrutura de gelo pode despencar se eu fizer alguma coisa com ela agora. Faça, digo para mim mesma. Tiro uma banana de dinamite do cinto e grudo na lateral da estrutura quando passo. Em seguida, disparo para baixo. – Saiam da frente! – grito pela nossa linha particular. Atrás de mim, uma explosão sacode a fase. Neve e estilhaços de gelo passam voando ao meu lado. Faço uma careta e me encolho no hoverboard. A estrutura que explodi geme, o som ecoa pela paisagem, e olho por cima do ombro e a vejo caindo para a frente, na direção de todos nós. Os outros Phoenix Riders se espalham graças ao meu aviso. Eu também disparo para o lado, tão de repente que quase perco o controle. Ao mesmo tempo, miro o power-up de Raio na direção de onde os Demons estão amontoados. Eu o arremesso. Um raio acerta todos eles, exceto a capitã, Jena, iluminando o espaço em um brilho dourado forte. Por um único e precioso segundo, todos os Demons ficam paralisados. Jena só tem uma chance de olhar para a sombra gigante em queda antes de gritar um aviso para os colegas de equipe: – Saiam! Saiam! Mas o ataque do Raio abalou os Demons. Os jogadores se espalham para a esquerda e para a direita quando a estrutura desaba em uma explosão de gelo rachado. Conseguem fugir por pouco… menos Darren Kinney, o Escudo deles. O pilar em queda bate em seu ombro com força, e ele sai girando loucamente fora de controle e desaparece na nuvem branca. A barra de energia dele encolhe para zero por cento.

Darren Kinney | Equipe Demon Brigade Energia: -100% | NOCAUTE! EMIKA CHEN nocauteia DARREN KINNEY! Ele se regenera uns cinquenta metros atrás de mim, com uma nova barra de energia. – Primeiro nocaute! – grita o apresentador sem acreditar enquanto a plateia enlouquece aos gritos. – É de Emika Chen! Hammie comemora no comunicador, enquanto Ren solta um palavrão e Roshan parece surpreso. A voz de Asher finalmente soa para mim. – Da próxima vez… me avise – grita ele, mas o tom é de admiração. Estou tentando me concentrar na paisagem atordoante que passa por nós. O Artefato de Jena paira cintilante e prateado acima da cabeça dela. – De nada! – grito em resposta. Ao nosso redor soam gritos e comemorações de nossa plateia invisível. – Não acredito! – grita um dos comentaristas. – Mais uma jogada precoce de uma coringa no primeiro jogo da temporada, e que jogada! Ela não podia ter escolhido um jeito mais preciso de derrubar aquela estrutura na direção dos Demons. Estávamos subestimando Emika Chen. Isso vai ser divertido, pessoal! De repente, um dos Demons aparece ao meu lado, gira no hoverboard e fica de frente para mim. É Tremaine. Meu sorriso some quando ele vem para cima de mim e me acerta com força no peito com a lâmina embutida na braçadeira dele. Minha visão fica vermelha. Emika Chen | Equipe Phoenix Riders Energia: -40%

Meu hoverboard balança, eu recuo e quase perco o equilíbrio. Tremaine ataca de novo. Ele é tão rápido que os membros parecem uma mancha. Se ele me derrubar do hoverboard, vou cair no nada e me regenerar atrás de todo mundo. Vou ficar inútil por muito tempo. Minhas mãos procuram o martelo no cinto. Do nada, Roshan aparece do meu outro lado, bem na hora que Tremaine tenta me acertar outra vez. Roshan aperta os olhos e cruza os antebraços. O gesto ativa as braçadeiras dele, e um escudo enorme e azul surge dali, formando um círculo que protege nós dois. O ataque de Tremaine acerta o escudo e faz fagulhas voarem para todos os lados. – Está servindo de babá para a sua nova Arquiteta? – diz ele, provocando Roshan. – Não fique com ciúmes – diz Roshan. Ele descruza os braços, baixa o escudo por um instante e parte para cima de Tremaine com o punho. Um escudo azul menor brilha em torno do braço em movimento. Acerta Tremaine com força suficiente para jogá-lo para trás, diminuindo a barra de energia dele em 15 %. Nós três seguimos para um vale de pedras cobertas de neve e desviamos para evitar uma formação rochosa afiada. Eu mudo de direção radicalmente enquanto Roshan continua lutando com Tremaine. Mas Tremaine me segue, determinado a me derrubar. A memória da paisagem passa pela minha cabeça. Uso o que lembro para evitar um choque em um penhasco. O comentarista está falando tão rápido agora que mal consegue recuperar o fôlego: – E os Demons mandam seu Arquiteto atrás de Emika! Roshan vai ajudá-la! Se Tremaine pegar Emika nessa formação rochosa… e ela evita! Por pouco! É como se conhecesse o terreno! Roshan nos mostra por que é um dos melhores Escudos dos jogos! Ele não vai deixar sua Arquiteta cair, pessoal, não se puder evitar!

Power-ups passam por nós. Olho para eles até encontrar o que estou procurando: Explosão de Velocidade. Está brilhando em amarelo e se movendo perto de mim. Faço um desvio radical na direção dele. Estico a mão. Pego por pouco. Uso na mesma hora. O mundo ao meu redor fica lento enquanto eu disparo. A luz da fase está mudando; os monumentos de gelo são iluminados com raios dourados e geram sombras longas nas geleiras. Os penhascos de gelo azul ladeando nosso caminho assumem uma cor mais escura e sinistra, e os monstros congelados dentro começam a parecer vivos. Com o canto da visão, vejo que parecem despertar. Demoro um momento para perceber que o sol está se pondo. Se continuar assim, vamos precisar de power-ups para iluminar o caminho. Olho para a frente e procuro Ren. Asher entregou nosso Artefato para Hammie, que dispara na frente de todos nós. Agora, Asher e Ren se juntam e vão na direção de Jena, que está ladeada por Tremaine e Ziggy. – Parece que estamos a caminho do primeiro embate entre capitães! – anuncia o apresentador. Jena vê a jogada de Asher. Ela se agacha no hoverboard e mergulha. Os colegas de equipe mergulham com ela. Eles despencam até parecer que vão bater no chão… e de repente sobem e deslizam logo acima da geleira. Asher e Ren imitam o movimento. Plumas de neve sobem quando eles passam a toda. Viro meu hoverboard para o alto e tento me proteger de toda essa neve voando. À minha frente, Hammie vira o dela com intensidade suficiente para desviar para a direita. Os movimentos são tão rápidos que mal consigo acompanhá-la. Ela pega outro power-up, um azul intenso, e dá uma virada vertiginosa para pegar um terceiro. Ela está se aproximando de Tremaine. Olho para os jogadores deslizando acima da superfície das geleiras. Há formações suficientes entre onde estamos e o horizonte para que eu os encurrale se agir direito. Tremaine deve estar pensando a mesma coisa. Viro o hoverboard para baixo e os sigo, agachada. – Emi – diz Asher no nosso comunicador. – Arco à frente. Exploda. – Pode deixar. – Ren e eu vamos desviar no último segundo, para contornar atrás de Jena. Quando ela e a equipe tentarem evitar os destroços à frente, nós vamos pegá-los por trás e tomar o Artefato dela. Faço que sim, apesar de saber que Asher não consegue me ver. – Vou derrubar antes que eles possam dizer… Minhas palavras morrem quando uma forma enorme explode de dentro dos penhascos de gelo no nosso caminho. Parece um urso-polar pré-histórico, só que alto como um arranha-céu. A bocarra está bem aberta, revelando uma fileira de dentes afiados, cada um tão comprido quanto a estrutura de gelo mais próxima. Os olhos brilham em escarlate. A criatura solta um rugido de sacudir o chão e pula na direção do jogador mais próximo. O jogador mais próximo sou eu. Meus membros entram em piloto automático. Bato com o pé de trás no botão. Ao mesmo tempo, viro o hoverboard tão radicalmente para a esquerda que giro 180 graus. Sou jogada de volta na direção de onde vim. A boca aberta do urso surge de ambos os meus lados… e os maxilares começam a se fechar. Só um pouco mais. Eu disparo para fora da boca do animal na hora que se fecha, e a rajada de vento que se segue me joga para a frente aos tropeços. As patas dianteiras do urso caem pesadamente, sacudindo o mundo. Pela poeira, Roshan aparece e dispara para perto de mim… como se fosse se chocar comigo. Levanto os braços por instinto. Em seguida, desvio para o lado em uma tentativa desesperada de me salvar. Evitamos uma colisão por pouco. Quando passa por mim, ele segura meu braço e dispara para cima na hora que o urso nos ataca de novo. Antes que eu possa protestar, ele coloca toda a sua força em me jogar alto… e me vejo disparando na direção do arco ainda inteiro à frente. Abaixo de mim, a boca do urso se fecha em Roshan.

Roshan Ahmadi | Equipe Phoenix Riders Energia: -100% | NOCAUTE!

Ali perto, outro animal enorme explode do penhasco de gelo. Um lobo branco caolho. Os jogadores se espalham para a esquerda e para a direita enquanto a criatura vira a cabeça, a boca se abrindo e fechando. Pega Ziggy. Ela desaparece na boca do animal e se regenera a cinquenta metros com Roshan. Ren balança no hoverboard e gira fora de controle enquanto tenta evitar a boca aberta do lobo. É minha chance de botar as mãos nele. Viro o hoverboard em um arco fechado e vou na direção de Ren. Ele me vê chegando uma fração de segundo antes de eu me chocar contra ele, jogando nós dois para longe do lobo. Eu seguro o pulso de Ren até minha mão envolvê-lo completamente. A armadilha é ativada. Vejo-a brilhar na minha visão e desaparecer. Um brilho azul pisca em volta de Ren e some. Um instante depois, um arquivo dele surge na minha visão. Abro um sorriso. Entrei. – Me solta – diz Ren, tentando libertar o braço. O gesto dele faz nós dois cairmos do hoverboard na paisagem branca abaixo… e, um instante depois, me regenero um pouco atrás dos outros. – E os dois coringas dos Riders são derrubados por um erro amador! – grita o comentarista. Ren olha para mim de cara feia no local onde se regenerou, a vários metros de mim. Asher me repreende pelo nosso comunicador. Mas não ligo. Usei a armadilha de Hideo. Meu foco se desvia de Ren e volta para o jogo. Procuro loucamente meus colegas de equipe no mapa. Finalmente, vejo Asher e Hammie pairando perto do centro do arco, voando em círculos apertados e encurralados por dois outros monstros. Alguns Demons estão indo na direção deles também. Pego a dinamite e sigo para a parte de cima do arco. Quando chego lá, grudo a dinamite no alto da estrutura de gelo. Viro para baixo e me afasto assim que explode. Outra explosão de sacudir a terra; o impacto chacoalha meu hoverboard violentamente, e voa neve ao meu redor, me fazendo apertar os olhos. Só tenho uma banana de dinamite agora. Atrás de mim, em meio à poeira, Ren se materializa, com Asher e Hammie atrás. Nosso Artefato continua pairando sobre a cabeça de Hammie. Eu a chamo e jogo meu martelo do cinto de utilidades. Ela estica a mão e o pega sem nem se virar, e pisca para mim em agradecimento por cima do ombro. Quando desvia do animal mais próximo, ela atira o martelo no olho dele com o máximo de força que consegue. Acerta na mosca, fazendo o monstro se encolher com um rugido. Os Demons estão acima de nós, e nos observam. Estão com vantagem agora e sabem disso; mesmo daqui, vejo que Jena tem um sorriso na cara. Ela ainda está com o Artefato, que flutua sobre a cabeça dela, prateado e brilhante. Seus lábios se movem quando ela dá instruções para a equipe. – Hams – diz Asher pelo nosso comunicador enquanto seguimos pela paisagem cada vez mais escura. – Me dê o Artefato. Apague as luzes do seu hoverboard. – O olhar dele está grudado em Jena. – E pegue o dela. Hammie dá uma piscadela para Asher quando transfere o Artefato para ele. No crepúsculo, tanto o nosso Artefato quanto o do adversário brilham com uma aura azul que se destaca. – Sim, senhor. – Roshan, dê apoio a ela. Ren, interrompa e separe os Demons. E Emi… Mas não chego a ouvir o que Asher quer que eu faça. Há uma explosão logo acima de um monumento próximo, nos fazendo voar para longe um dos outros. Tremaine jogou uma banana de dinamite perto de nós. Um borrão de luz nos ultrapassa e atinge Ren, arremessando ambos aos tropeços. É Max. Ren solta um rosnado furioso e afasta o outro Guerreiro. Ao mesmo tempo, Hammie desaparece de vista, o hoverboard resumido a nada além das fagulhas vermelhas do motor que a empurram para a frente. Não tenho tempo de me perguntar aonde ela está indo, porque, no instante seguinte, Jena vem disparada na

nossa direção, com Darren e Ziggy ao lado. Ela está indo direto para cima de Asher. Asher mostra os dentes e ri, depois se apressa em encontrar-se com ela. Meu olhar se desvia para o gelo da geleira abaixo de nós. Nos penhascos, um dragão branco está despertando, seus movimentos rachando o gelo que o envolve. Aperto os olhos. Se eu conseguir controlar aquele dragão… Minhas mãos vão até a corda que tenho na cintura, e quando Asher e Ren atacam os Demons, disparo para a superfície e diminuo a velocidade do hoverboard perto do dragão. Quando mergulho, reparo em luzes logo atrás de mim: o hoverboard de alguém flutuando na escuridão. É Tremaine. E está se aproximando rápido. Só tenho tempo de olhar para cima uma vez antes de ele se chocar contra mim. Nós dois caímos na superfície da geleira. O impacto nos derruba dos hoverboards. O mundo ao meu redor gira, e só vejo neve voando e o céu da noite. De repente, tudo se apaga; no instante seguinte, Tremaine e eu aparecemos regenerados um pouco atrás dos outros. Tremaine vira um olhar assassino na minha direção. O power-up de Explosão de Velocidade ainda está no meu inventário, e agora o uso. Desaparece da minha mão em um brilho de luz. O mundo dispara para a frente, e quase consigo sentir o sopro de vento na pele. Na hora que pego a corda, o dragão finalmente se solta do gelo. A boca aberta ruge para a superfície. Lanço a corda com a intenção de laçar a ponta do nariz. Uma tentativa. E outra. Na terceira, consigo passar a corda pelo focinho da criatura. O dragão vira a cabeça na minha direção e solta um berro furioso. Uma coluna de fogo sai pelos maxilares abertos. Uso o impulso da corda para pular nas costas dele. Minha amarra se torna uma rédea improvisada. Abaixo de mim, Asher e Max engajados em uma luta. – Para trás! – digo pelo comunicador. O olhar de Asher se desvia brevemente para mim. É o único aviso de que ele precisa. Puxo a cabeça do dragão para baixo bem na hora que Asher repentinamente desiste do combate e se afasta. A criatura ruge de raiva e parte para cima de Jena, a jogadora mais próxima; ela só consegue levantar as mãos antes do dragão engoli-la de uma vez só. Jena MacNeil | Equipe Demon Brigade Energia: -100% | NOCAUTE!

A plateia explode em um caos animado. Mal consigo ouvir a voz do apresentador. Um pouco atrás de nós, Jena reaparece. Asher já a está esperando. Em um piscar de olhos, ele ataca na hora que Jena se materializa. Antes que ela consiga entender o que está acontecendo, a mão de Asher se fecha no Artefato sobre a cabeça dela. Fim de jogo. O mundo é engolfado em escarlate e dourado e uma fênix enorme se acende em chamas no céu. A plateia explode em gritos alucinados. – Não acredito! – gritam os comentaristas em meio ao caos, suas vozes falhando de tanta empolgação. – Acabou! Jena MacNeil e a imbatível Demon Brigade… vencidos pelos Phoenix Riders na virada mais impressionante que já vimos! Ah, meu Deus! Os Phoenix Riders venceram! Asher atira a cabeça para trás, solta um grito alto e levanta o punho no ar. É nessa hora que vejo a figura escura de novo. Está no alto do monumento de gelo, trajando a mesma armadura preta que a vi vestindo no Dark World. Zero. Um arrepio percorre meu corpo. Por que eu consigo enxergá-lo? Por que ele está aqui? O mundo à nossa volta para. O dragão que estou lutando para controlar de repente entra em suspensão, congelado, e some de vista. A paisagem escurece e fica negra. Pisco quando o Tokyo Dome volta a aparecer, assim como cinquenta mil espectadores gritando como loucos o mais alto que conseguem. Dos

meus dois lados, meus colegas de equipe saem das cabines. – Foi a jogada mais ousada que eu já vi! – exclama Roshan, me alcançando primeiro e batendo nas minhas costas com força. Abro a boca para agradecer a ele por me proteger, mas Hammie se joga em mim, esmagando a mim e Roshan em um abraço. Sou afogada pelo resto da equipe pulando em cima de nós. Eles me espremem, emaranhados e risonhos. Sangue lateja nos meus ouvidos. Do outro lado da arena, os Demons gritam uns com os outros, e Tremaine está se afastando de Jena sem nem olhar para a plateia. Minha primeira vitória oficial em um jogo de campeonato. Mas só consigo pensar que Zero estava lá. Eu o vi. Procuro Ren. Ele está sorrindo e gargalhando também, mas a expressão é estranha, forçada. O sorriso não chega aos olhos. Ele olha para trás, como se tivesse visto alguma coisa que os demais não viram. A tensão se dissipa, e ele volta a sorrir e a abraçar os outros. Ele também enxergou a figura. Enquanto continuo comemorando, abro o arquivo que consegui obter pelos escudos derrubados de Ren. Tem pouca coisa ali, como se eu tivesse quebrado a conexão antes de poder pegar os dados direito. Mas consegui alguma coisa, possivelmente algo que Zero estava passando para Ren. O nome de um programa. proj_gelo_HT1.0 O quê? Eu franzo a testa, os pensamentos em disparada, tentando entender o nome. proj_gelo. Projeto gelo? Tem alguma coisa a ver com a fase Mundo Branco? HT. HT? Hideo Tanaka. Projeto gelo Hideo Tanaka. Poderia ser um arquivo ligando Hideo à fase do jogo de abertura. Certo? Ou… Meu coração despenca de pavor quando conecto outro significado à palavra gelo. Ah, meu Deus. Zero quer assassinar Hideo. E, naquele momento, todas as luzes no estádio se apagam.

20 O estádio mergulha em escuridão. Gritos surpresos soam na plateia. Em meio ao caos, os comentaristas tentam manter algo que se assemelha à ordem. – Todos nos seus lugares – diz um, ainda alegre. – Parece que temos um problema técnico temporário, mas vai ser consertado logo. Olho através do breu para a mensagem vermelha de erro que pisca na minha visão. Acesso Incorreto de Usuário O arquivo que tinha sido ativado pisca uma vez e se autodestrói. Fico olhando para uma casca vazia, tudo o que restou da armadilha que plantei durante o jogo. O arquivo foi feito para se autodestruir se o usuário errado botasse as mãos nele. O motivo para Zero sempre mexer nas fases de Warcross seria porque ele está passando informações para seus seguidores assim? E, se isso for verdade… quem mais no jogo trabalha para Zero? Mas nada disso importa no momento. Enquanto Hideo e eu nos apressávamos para destravar dados de Ren, Zero estava ocupado também… fazendo alterações na arena. Ele cortou a energia. As portas de segurança dos assentos dos camarotes não estão funcionando direito agora. A percepção me atinge tão intensamente que mal consigo respirar. Faço uma ligação para Hideo imediatamente. – Saia daí – digo correndo assim que a ligação é atendida. – Sua vida está em perigo. Agora. Saia… Eu nem termino a frase e vejo uma fagulha de luz nos assentos do camarote. Pisca uma vez, duas, e a escuridão volta. As pessoas na plateia olham para lá sem entender, mas sei o que deve ter sido. Tiros. – Hideo? Hideo? – digo enquanto tento refazer a ligação, mas não é completada. Solto um palavrão enquanto tateio o meu caminho pela escuridão. As equipes de segurança estão com lanternas, e raios estreitos de luz surgem por toda arena, cortando o breu. A conexão do NeuroLink também parece ter caído, fazendo com que ninguém consiga abrir um mapa virtual no visor e ver o caminho. Relembro a disposição do estádio de memória… e antes que qualquer um possa aparecer para me impedir, saio correndo da minha estação pela escuridão, contando com o que lembro para navegar pelo local. As pessoas protestam quando esbarro nelas. Parece se passar uma eternidade até eu conseguir chegar à escada. Subo dois degraus de cada vez, cegamente. No caminho, tento mandar mensagem para Hideo. Não há resposta. Quando chego ao segundo patamar, luzes vermelhas de emergência inundam a arena. Apesar de serem tecnicamente fracas, incomodam os olhos após o breu total. Câmeras de segurança piscam acima. O NeuroLink volta a ficar online, e meu perfil é reiniciado no canto do meu visor. As vozes dos comentaristas soam tranquilizadoras enquanto eles tentam organizar a plateia. – Cuidado onde pisam, pessoal! – Os espectadores não parecem perceber que havia um atirador aqui. Chego ao camarote na mesma hora que vejo os guarda-costas de Hideo amontoados em volta do local. Meus olhos procuram freneticamente pelo rosto familiar de Hideo. Quase desabo de alívio quando vejo Hideo agachado em um dos camarotes, cercado de guarda-costas e colegas. Ele não parece ferido. Ao lado dele, Kenn está falando rapidamente com vários dos guardas,

com voz baixa e furiosa. – O que aconteceu? – digo enquanto me aproximo correndo. – Onde está o atirador? Kenn me reconhece e me olha com expressão séria. – As câmeras de segurança daqui estavam passando imagens antigas. A segurança está espalhada tentando pegar o atirador. Volto a atenção para o que Hideo está fazendo. Um dos guarda-costas dele está no chão, com a mão no ombro, fazendo careta. A mão está manchada de sangue. Reconheço-o como uma das sombras fiéis e sempre presentes de Hideo que vi seguindo-o a toda. O rosto de Hideo está tomado de preocupação, os olhos opacos com aquela fúria profunda e sombria que já vi na Lembrança dele. Está dizendo alguma coisa em voz baixa para o segurança ferido, que balança a cabeça e tenta se levantar para se sentar. Ao lado dele, um dos outros guarda-costas balança a cabeça enquanto ouve alguma coisa em um fone de ouvido. – A polícia lá fora não conseguiu acompanhá-lo, senhor – diz ele. Hideo não afasta o olhar do homem ferido. – Continuem procurando. – A voz dele soa assustadoramente baixa. O guarda-costas se mexe. – Estão dizendo que o perderam no prédio vazio de estacionamento… – Então que revirem o local até o encontrar – corta Hideo. O guarda-costas não hesita desta vez. Quando Hideo olha para ele com a sobrancelha erguida, o homem baixa a cabeça rapidamente. – Sim, senhor. – Ele sai com dois outros. – Você não devia estar aqui – diz Kenn para Hideo com voz baixa. – Pela última vez: eu cuido das coisas na arena. Vá para casa. – Posso muito bem lidar com isso. – Você percebe que alguém tentou matar você, não é? – diz Kenn com rispidez. – Não é uma falha no jogo. É da sua vida que estamos falando. – E continuo tão vivo agora quanto antes do ataque. – Hideo olha com firmeza para o amigo. – Eu vou ficar bem. Vamos conversar amanhã. Parece uma discussão antiga que Kenn nunca conseguiu vencer, e me ocorre que não deve ser a primeira vez que alguém ameaça a vida de Hideo. Kenn faz um som de irritação e levanta as mãos. – Você também não me ouvia na faculdade. Hideo se empertiga quando me vê. – Se não fosse pela sua ligação momentos atrás – diz ele –, seria eu caído no chão. Um arrepio me percorre. Em um piscar de olhos, meu trabalho se transformou de uma caçada emocionante para uma coisa muito mais terrível. Achei que estava chegando perto, fazendo progresso… mas tropecei em algo bem pior. Algum dos outros caçadores de recompensas viu o que tinha acabado de acontecer? Eu olho para o sangue no ombro do guarda-costas. Há um leve odor metálico no ar. Sinais do meu antigo pânico, do desespero familiar para resolver esse problema, crescem nas minhas entranhas. Tudo tem solução. Por que não consigo encontrar essa? Hideo ajuda o guarda-costas ferido a se sentar e fala com ele com voz baixa enquanto outro homem coloca um blazer preto no ombro ensanguentado, escondendo-o. O que Hideo murmurou foi baixo demais para meu tradutor captar, mas faz o homem ferido lançar um olhar de gratidão a ele. – Mantenham isso em segredo – diz Hideo, olhando para todos nós. – O ataque fracassou. Estamos atrás do suspeito. Não há necessidade de deixar a plateia em pânico. – Hideo… – começo a dizer, mas paro ao ver a expressão no rosto dele. – Vá para sua equipe – diz ele delicadamente. – Continue sua comemoração. Vamos nos falar mais tarde.

– E você vai para um lugar seguro? Ele assente quando os guarda-costas assumem os cuidados do amigo ferido e os vê levá-lo para uma escada particular. Tudo o que posso fazer é observar. Os ombros de Hideo estão eretos, e a postura dele parece calma, mas os olhos estão tensos e distantes. As mãos se fecham e abrem nas laterais do corpo. Mesmo que não demonstre abertamente, consigo ver que está abalado. Kenn encontra meu olhar e o sustenta por um momento. Fale com ele, parece dizer. Consigo sentir uma súplica silenciosa da parte de Kenn, um amigo que conhece Hideo bem o suficiente para saber o quanto ele pode ser difícil. – Hideo – digo baixinho. – Você precisa sair daqui. Sair de Tóquio. Ir para um lugar onde consiga ser discreto. As luzes no estádio finalmente se acendem, iluminando o espaço com intensidade ofuscante. Eu pisco com o súbito incômodo. Abaixo, a plateia murmura em confusão enquanto continua andando para a saída, mas os murmúrios são rapidamente substituídos por gritos em comemoração ao jogo. Ninguém sabe o que acabou de acontecer. Pelos alto-falantes, a segurança está tranquilizando a multidão, dizendo: – Um transistor queimou nos níveis superiores do domo, mas tudo está sob controle agora. Caminhem com atenção e sigam a sinalização de saída. Enquanto as pessoas deixam a arena, Hideo se vira para me olhar. Seus olhos continuam naquele tom escuro, e a expressão neles é furiosa, fria, determinada. – Eu não vou a lugar nenhum – diz ele. E me dá as costas, com seus guarda-costas no encalço.

21 Se eu já achava sufocante a publicidade que eu havia recebido até o momento, isso não era nada em comparação a depois da nossa primeira vitória. Nós mal tínhamos saído do Tokyo Dome quando as primeiras transmissões gigantescas apareceram nas laterais dos prédios em volta da arena, as manchetes em letras enormes e berrantes. ASHER WING E A PRIMEIRA ESCOLHIDA EMIKA CHEN CONDUZEM OS PHOENIX RIDERS A UMA VIRADA IMPRESSIONANTE Uma recapitulação minha é exibida sem parar embaixo dessas manchetes, meu cabelo colorido voando ao vento, meu corpo encolhido em cima da criatura, enlaçando a cabeça enorme, forçando-a na direção de Jena. Sobre o domo, os dois símbolos suspensos, a fênix e os demônios encapuzados, agora transformaram-se só na nossa fênix, as asas em chamas abertas tão grandes quanto a arena, a cabeça virada para o céu em triunfo. Minha fase disparou de 28 para 49. Mas só consigo pensar que Hideo podia ter morrido hoje. E que ninguém sabe. Meus pensamentos continuam agitados, repetindo o apelo de Kenn. Ele vai ouvir você. Por favor. O que Hideo anda dizendo sobre mim para fazer Kenn pensar isso? Uma multidão de repórteres ataca nossos guarda-costas quando saímos da arena a caminho dos carros, e de repente não consigo ver nada além de um campo de flashes e microfones. – Nada de treinamento hoje! – exclama Asher quando finalmente chegamos à limusine que nos aguarda e entramos. Os outros comemoram quando ele dá ao carro a instrução de nos levar a Shibuya em vez de para o alojamento. Atrás do nosso automóvel, um grupo de guarda-costas entra em um segundo veículo e vem atrás de nós. Repórteres em vans esperam no tráfego próximo, nos seguindo. Minha mente permanece em Ren, e em vez de levantar o rosto e sorrir para os repórteres pela janela, como Asher está fazendo, fico olhando Ren dar tapinhas no ombro de Roshan. Uma mensagem pisca no meu visor. É Kenn. Você consegue escapar hoje? Ir até Hideo?

Ele não está ouvindo nem você.

Ele nunca me ouve, não quando está com uma ideia enfiada na cabeça. Mas não sou a caçadora de recompensas dele, e, mais especificamente, eu não sou você.

Por que ele me ouviria?

Quase consigo sentir a frustração de Kenn quando ele responde. Posso contar na mão o número de pessoas em que ele confia completamente. Mas ele fala sobre você com frequência. Leva você para jantar sem avisar.

Eu não sou guarda-costas dele. Não posso obrigá-lo a se proteger.

Você é a caçadora dele. Ele te contratou para informá-lo do que ele precisa saber. Você tem o direito de insistir na segurança dele. Hideo não vai bater a porta na sua cara.

Afasto o olhar da nossa conversa quando meus companheiros de equipe caem na gargalhada por causa de alguma coisa. Esta é a noite da nossa comemoração, e meu time espera que eu esteja animada com a vitória. Se eu sair cedo demais, vão começar a xeretar, e Ren vai desconfiar de que tem alguma coisa acontecendo. – Ei – diz Hammie para mim, e vejo a expressão curiosa dela, as bochechas ainda coradas com a vitória. – Você está bem? É estranho para mim que mais ninguém no estádio saiba o que aconteceu, que as pessoas provavelmente pensam que os dois brilhos de luz nos camarotes foram transistores queimados e não tiros. Eu devo estar exibindo a ansiedade no rosto agora. Abro um sorriso largo que espero que pareça convincente e balanço a cabeça. – Estou ótima. Só meio chocada ainda. Hammie sorri e levanta o punho no ar. Quase bate no teto da limusine. – Karaokê, baby! – grita ela, e os outros gritam junto. Eu também comemoro o mais alto que consigo para sufocar a tempestade de pensamentos na minha cabeça. Faço isso tão intensamente que quase acredito. Em pouco tempo, estamos em um karaokê no coração do bairro Roppongi, com homens de ternos pretos protegendo todas as entradas e saídas. Os corredores têm espelhos do chão ao teto, refletindo a luz dos candelabros que decoram os tetos, enquanto as portas que levam a cada sala particular de karaokê são pintadas de ouro cintilante. Do lado de fora de cada porta há figuras virtuais de supermodelos sorridentes, nos parabenizando pelo nome quando passamos. Olho para o corredor para decorar o caminho antes de entrarmos na nossa sala particular. Aqui, a música já está em um volume ensurdecedor. Ren ri enquanto olha a lista de canções com Roshan. Cada vez que ele muda a faixa, nossa sala se transforma para combinar. “My Heart Will Go On” muda a sala para a proa do Titanic, enquanto “Thriller” nos cerca de zumbis dançarinos de roupas de couro em uma rua escura. Roshan, que costuma ser reservado, não consegue segurar a gargalhada quando Ren diz alguma coisa em francês enquanto imita um passo de “Thriller”. Observo Ren com o canto dos olhos enquanto fico sentada entre Hammie e Asher. Ninguém mais reparou na expressão dele quando o jogo terminou? Mesmo agora, tem algo tenso na postura dele, como se as coisas hoje não tivessem ido tão bem para ele quanto para o resto da equipe. – A Roshan! – grita Hammie, me arrancando dos meus pensamentos. – Melhor jogador a dar um sacode em Tremaine! Roshan fica um pouco sério ao ouvir o nome de Tremaine, mas esconde por trás de um sorriso. – A Hams – responde ele – Ladra de Mil Power-Ups. – A Emika! – exclama Asher. As bochechas dele estão vermelhas, repuxadas em um sorriso largo. Ele

balança a cabeça. – Garota, você é uma coringa selvagem. – A Emika! – A Emika! As comemorações se desenvolvem rapidamente. Preciso sair daqui, penso enquanto gargalho com eles. Pode ser minha imaginação hiperativa, mas o sorriso de Ren parece mais tenso do que o de todo mundo, a felicidade forçada por mim. Não demora para que o caos na sala chegue a um pico. Asher se apoia pesadamente em Hammie e fica repetindo que a ama. Ela está sussurrando no ouvido dele. O microfone do karaokê berra em protesto quando Ren grita uma nota desafinada. Roshan faz uma careta. Quando todo mundo cai na gargalhada, pego o celular e mando uma mensagem para Hideo. Onde você está agora?

Alguns segundos se passam sem resposta. Talvez Kenn tenha botado fé demais em mim, ou fé de menos na teimosia de Hideo. Eu mordo o lábio e envio uma segunda mensagem. Tenho mais informações pra você. Melhor falar pessoalmente. É uma emergência.

Informações da caçadora dele, a única coisa em que consigo pensar para fazê-lo me dar atenção. Mais tempo passa. Quando estou começando a achar que Kenn se enganou sobre mim, uma mensagem criptografada aparece. Confirmo minha identidade para abri-la, e, em troca, um endereço aparece no meu visor. O endereço de Hideo. Eu quase suspiro de alívio. Em seguida, guardo o local no meu GPS e apago a mensagem. Ao meu lado, Asher ergue a voz: – Alguém quer tomar uns shots? Precisamos que o garçom volte. Fico de pé. – Vou atrás dele! – digo, e sigo direto para a porta. Perfeito. Quando o garçom chegar, eles vão estar tão ocupados se divertindo que ninguém vai reparar que saí. Vou ter tempo suficiente para bolar uma boa desculpa. Saio da sala e disparo pelo corredor. No caminho, abro um mapa com o paradeiro de Hideo. O pontinho dourado aparece em algum lugar na área norte da cidade. Sigo por um corredor lateral. Momentos depois, o corredor me leva até uma viela estreita atrás do prédio, perto das latas de lixo. Uma garoa fria umedeceu a calçada, e quando saio, sou atingida por uma rajada de ar frio noturno. Luzes néon são refletidas na umidade, pintando o chão de uma confusão de dourado, verde e azul manchados. O número do quarteirão da cidade, 16, paira em algarismos amarelos acima da calçada, enquanto uma linha pontilhada dourada leva de onde estou até a esquina, onde vira para a direita e desaparece de vista. Uma mensagem alegre de Iniciar! e o tempo estimado de chegada aparecem no centro do meu visor, esperando que eu siga o mapa. Trinta minutos. Eu tremo, puxo o capuz para que cubra todo o meu cabelo e coloco uma máscara preta no rosto. Também baixo um rosto virtual para me disfarçar. Qualquer um na rua conectado ao NeuroLink deve me enxergar agora como uma estranha em vez do rosto que reconheceriam dos noticiários. Melhor do que disfarce nenhum. Boto o skate elétrico no chão e pulo nele. Ele dispara adiante, seguindo a linha dourada. Meia hora depois, saio em um bairro tranquilo de classe alta, em uma colina com vista para a cidade. O tempo de trajeto muda no meu visor com meu progresso, uma contagem regressiva dos minutos que vou levar para chegar. O chuvisco virou uma chuva constante agora e encharca meu casaco e meu cabelo. Tento parar de tremer. Finalmente, cheguei. A linha pontilhada dourada para na frente do portão de uma propriedade calorosa

e iluminada com muros curvos e leões entalhados do lado de fora. Não sei quanta segurança Hideo costuma ter nas residências dele, mas hoje, pelo menos cinco carros estão estacionados aqui, e há dois guarda-costas no portão da frente, esperando para me receber. Os outros parecem estar espalhados pela propriedade. Um deles se aproxima de mim e me diz para esticar os braços. Eu desligo o rosto virtual e faço o que ele pede. O homem me revista com cuidado, dando atenção especial ao meu skate. Quando está satisfeito, abre um guarda-chuva para mim, enquanto me apresso para a entrada. – Está tudo bem, não preciso mais do guarda-chuva – digo. Quando ele me olha desconfiado, como se nunca recebesse essa ordem, eu mostro as roupas encharcadas. – É sério. Ele fecha o guarda-chuva com relutância, e andamos em silêncio por um momento até chegarmos à entrada principal. Dentro de casa, ouço um cachorro latindo. Hideo atende a porta. O guarda-costas pisca de surpresa, como se isso não fosse uma coisa que Hideo fizesse com frequência. Ele ainda está com as mesmas roupas de antes, mas uma manga da camisa está puxada até o cotovelo, enquanto ele abre a abotoadura da outra manga. A gola está virada para cima, os botões do alto estão abertos, e a gravata preta está jogada sobre os ombros, desamarrada. O cabelo está úmido de algumas gotas de chuva, a mecha grisalha brilhando em branco. Ele parece preocupado e confuso, um lembrete repentino e surpreendente do quanto é jovem. É tão fácil esquecer. – Você está encharcada – diz ele. – E você está vivo – respondo. – Isso é bom. O guarda-costas nos deixa sozinhos. Hideo abre a porta e me convida a entrar. Ao lado dele aparece um cachorro laranja e branco gordo com pernas curtas e enormes orelhas de raposa. Para na minha frente, balança o cotoco de rabo e olha para mim com um sorriso ofegante. Faço carinho com vigor, depois tiro os sapatos molhados perto da porta e entro. A casa é impecavelmente limpa, com tetos altos e mobília linda e moderna. Uma música suave toca em algum tipo de sistema de som embutido. Para minha surpresa, não vejo letras, cores ou números virtuais na casa. Tudo é real. O quanto um imóvel lindo assim custa em uma cidade cara como Tóquio? – Você está tremendo – diz ele agora. Eu dou de ombros. – É só tirar essas minhas roupas. – Percebo o que disse e minhas bochechas ficam quentes. – Quer dizer, bom, não isso… Os cantos dos lábios de Hideo tremem em um sorriso, um descanso breve da expressão séria, e ele assente para que eu o siga. – Vou arrumar roupas secas pra você. – Tive um vislumbre de um único arquivo de Ren – digo para Hideo conforme seguimos pelo corredor. Em seguida, menciono o nome. – Está óbvio que Zero queria, bem… tentar um assassinato hoje. Como seu guarda-costas está? – Ele vai viver. Já houve ataques piores do que o de hoje. Ataques piores. – Alguma notícia do culpado? – pergunto. Hideo balança a cabeça enquanto dobra a segunda manga até o cotovelo. Ele está cansado, e o humor sombrio não melhorou. – Kenn diz que a energia foi cortada. No meio da confusão, quem fez isso conseguiu escapar e se misturar na plateia. Vamos revirar cada canto e cada espaço do domo em busca de provas, mas não vou mentir: eles estavam preparados. O culpado ainda está por aí. Tento engolir o medo. – Não é porque não aconteceu nada hoje que Zero não está esperando nos bastidores para agir. Pode ser parte do grande plano dele. – Respiro fundo. – Vão tentar de novo. Podem até ter tentado antes disso.

E vai haver muitas outras ocasiões em que você não vai estar tão protegido quanto estava no domo. Hideo aperta os lábios de leve, mas é a única resposta que oferece sobre sua segurança. Ele para por um momento para me observar. – O arquivo vazou algum dado sobre você? – pergunta. Eu hesito. Não tinha pensado na possibilidade de Zero pegar informação minha no objeto… e a ideia me provoca calafrios, mesmo sob o calor agradável que a preocupação óbvia de Hideo produz em mim. – Não deve ser possível – respondo. – Eu estou bem. Além do mais, não é comigo que temos que nos preocupar. Quanto mais peças disso encontro, mais sinistro parece. – Minha equipe de segurança está acostumada a tomar cuidado. Depois do seu aviso, nós fizemos uma revista total na minha casa. Eles vão ficar alertas. – Não foi isso que eu quis dizer. Hideo, você quase morreu hoje. Você percebe isso, não percebe? – Eu estou bem protegido aqui. Tem oito guarda-costas no local. – Ele indica o resto da casa. – Parece que você está chegando perto de resolver o caso, de qualquer modo. – Não entendo como você pode ficar tão calmo sobre isso – digo, minha frustração aumentando. Era por isso que Kenn estava tão exasperado. – Você precisa sair de Tóquio. Não é seguro aqui pra você. Cada momento que você fica representa perigo. Hideo olha para mim com seriedade. – Eu não vou ser expulso da minha cidade por uma ameaça vaga – responde. Pela primeira vez desde que o conheci, uma nota de raiva surge na voz dele. – Não é a primeira vez que alguém me tem na mira e não vai ser a última. Estou prestes a elevar a voz, mas espirro. O ar frio da casa está penetrando nas minhas roupas encharcadas, e percebo que estou batendo os dentes. Hideo aperta os lábios. – Vamos continuar essa conversa depois que você estiver aquecida. Venha comigo. Nós entramos em um quarto espaçoso, as paredes de vidro levando a um sereno jardim zen adornado com luzes douradas penduradas. Há um banheiro grande adjacente ao quarto. – Leve o tempo que precisar – diz Hideo, indicando o banheiro. – Quando estiver pronta, podemos conversar mais. Quer um chá? Uma boa xícara de chá depois da tentativa do seu assassinato. Claro. Faço que sim, com frio demais para discutir. – Eu adoraria. Hideo fecha a porta do quarto e me deixa sozinha. Solto o ar lentamente. Até o momento, não estou me saindo muito bem em convencê-lo do verdadeiro perigo em que se encontra. Dou um suspiro e tiro o moletom, a calça jeans e a roupa de baixo, colocando tudo na lateral da banheira para secar. Meu reflexo no espelho chama minha atenção: a maquiagem que usei no torneio está borrada e esfumada, molhada da chuva, e meu cabelo cai em mechas coloridas encharcadas. Não me admira Hideo não estar ouvindo meu conselho: eu pareço meio maluca. Meu olhar vai de mim para o resto do banheiro. O boxe é enorme, com um chuveiro amplo instalado direto no teto. Giro a torneira e deixo a água esquentar um pouco, depois entro. A água leva embora alguns dos meus pensamentos confusos, e quando saio, estou um pouco mais calma por estar aqui. Eu me seco e faço duas tranças laterais desajeitadas no cabelo, depois saio do banheiro. Roupas limpas foram deixadas para mim. Um suéter branco gelo. Uma calça larga de pijama. Eu visto o suéter; tem cheiro de Hideo e fica tão grande que vai quase até meus joelhos. A gola escorrega para o lado, exibindo um dos meus ombros. Nem tento vestir a calça. É comprida demais. Vou até a porta do quarto, abro e ponho metade do corpo para fora para dizer que preciso de alguma coisa mais curta. Mas ele já está aqui, segurando uma xícara de chá em uma das mãos e pronto para bater na porta com a

outra. – Emi… – ele começa a dizer quando me vê. Nós dois paramos. Hideo pisca. Os olhos se desviam para o suéter branco frouxo que estou usando e rapidamente se afastam. – Eu queria perguntar se você tem alguma preferência de chá – diz ele. Meu ombro e minhas pernas de repente parecem expostos, e minhas bochechas ruborizadas ficam quentes como magma. Eu começo a balbuciar palavras. – Desculpe, eu… eu ia perguntar se você, hã, tem uma calça menor. – Outra frase esquisita. – Quer dizer, não que você tenha calças menores que fossem caber em mim – cavando um buraco para me enfiar –, quer dizer, a calça de pijama fica caindo… – Sou uma ótima escavadora. Faço uma careta, balanço a cabeça e paro de falar, deixando minhas mãos se balançarem em círculos como se pudessem expressar o que quero dizer. Hideo ri um pouco. A não ser que minha imaginação esteja pregando peças em mim, um leve rubor surge nas bochechas dele também. Saio do meu devaneio e bato a porta na cara dele. Há uma pausa seguida da voz familiar de Hideo. – Me desculpe – diz ele. – Vou arrumar alguma coisa melhor para você. – Os passos dele ecoam pelo corredor. Vou até a cama, enfio o rosto no lençol e solto um grunhido. Momentos depois, Hideo abre uma fresta da porta e balança um short por ela sem entrar. Eu o pego. Ainda fica largo, mas pelo menos não cai. Saio para o corredor e vou até a sala, onde Hideo está lendo junto à lareira acesa. O cachorro está deitado a seus pés, roncando de leve. As janelas dão para o jardim, e o som da chuva pode ser ouvido no vidro. As paredes estão cheias de retratos e estantes de livros, primeiras edições impecáveis, organizadas e arrumadas. Há prateleiras com jogos e consoles de videogames vintage, assim como protótipos do que parecem ser as primeiras versões dos óculos NeuroLink. Alguns são grandes como tijolos, mas a cada geração eles vão ficando menores e mais leves, até eu ver a primeira edição dos óculos oficiais na ponta da prateleira. Hideo levanta o olhar do livro quando ouve me aproximar e repara que estou observando as estantes. – Minha mãe cuidou bem dos meus primeiros protótipos do NeuroLink – diz ele. – Ela e meu pai tiveram o cuidado de guardar tudo. A mãe neurocientista e o pai técnico de computadores. – Em perfeitas condições – respondo, admirando os protótipos. – Eles acreditam que os objetos têm alma. Quanto mais amor se dá a um, mais bonito ele fica. Dou um sorriso pelo afeto que ouço na voz dele. – Eles devem ter muito orgulho do que você criou. Hideo só dá de ombros, mas parece satisfeito com as minhas palavras. – Você não tem realidade aumentada sobreposta na sua casa – digo quando me sento. Hideo balança a cabeça. – Gosto de manter minha casa real. É fácil demais se perder em uma ilusão – responde ele, assentindo para o livro físico. Estou muito ciente da nossa proximidade, como se conseguisse sentir o fantasma da presença dele na minha pele. Eu respiro fundo. – Você tem inimigos em que consiga pensar? – digo. – Alguém que poderia querer fazer mal a você assim? Talvez um antigo funcionário? Um antigo sócio? Hideo afasta o olhar. Depois de um tempo, responde:

– Há muita gente que não gosta de Warcross e do NeuroLink. Nem todo mundo aprecia o novo. Muitos têm medo. – É irônico que Zero tenha tanto medo, então – respondo –, mas use seu próprio conhecimento de tecnologia para tentar impedir você. – Ele não parece alguém que se incomoda com lógica. – E Ren? Você devia desclassificá-lo do jogo imediatamente. Está bem claro que ele está envolvido com esse plano. Ele pode até estar envolvido no ataque a você. E se o arquivo que eu vi hoje fosse para ele? E se ele tivesse mandado um sinal de dentro do jogo para a pessoa que tentou atacar você? Hideo pausa por um momento ao ouvir isso e finalmente balança a cabeça. – Ele tem sido uma fonte confiável de informações, e talvez leve a mais pistas. Se eu o retirar agora, vai ficar óbvio para Zero que sabemos sobre ele. Podem desconfiar de você. Dou um suspiro, desejando poder argumentar com essa lógica. – Por que você não quer sair de Tóquio? Você podia ter morrido hoje. Hideo olha para mim. Seus olhos refletem a luz do fogo. – E sinalizar para Zero que ele venceu? Não. Se o plano dele for uma ameaça apenas para mim, vou ficar aliviado. Nossa conversa vira silêncio. Me esforço para pensar em alguma coisa para dizer, mas nada que surge na minha mente parece apropriado, então acabo ficando quieta e prolongando o constrangimento. Meus olhos voltam para as prateleiras e para os retratos nas paredes. Tem fotos de Hideo quando criança e adolescente: ajudando o pai na loja, lendo perto da janela, jogando, posando com várias medalhas no pescoço, sorrindo para as primeiras fotos da imprensa quando chegou ao noticiário. Curioso. Quando criança, Hideo não tinha a mecha prateada no cabelo e nem os poucos fios prateados misturados nos cílios pretos. Meu olhar para em uma foto em particular. Há dois garotos nela. – Você tem irmão? – digo sem pensar. Hideo fica em silêncio. Na mesma hora, me lembro do aviso que recebi logo antes de conhecê-lo. O sr. Tanaka nunca responde a perguntas sobre questões pessoais da família. Devo pedir que você nunca mencione nada desse assunto. Começo a pedir desculpas, mas minhas palavras somem quando percebo que é mais do que isso. A expressão de Hideo está estranha agora. Ele está com medo. Mexi em uma ferida antiga, um abismo enorme com uma cicatriz fina. Depois de um longo momento, Hideo baixa os olhos e os vira para as janelas sarapintadas de chuva. – Eu tive um irmão – responde. O sr. Tanaka nunca responde a perguntas sobre a família. Mas ele respondeu agora, se abriu comigo, ainda que brevemente. Consigo ouvir como as palavras soam estranhas nos lábios dele, consigo ver o desconforto que sente só de dizê-las. Isso quer dizer que ele nunca convida ninguém para vir à sua casa, onde a vulnerabilidade está pendurada na parede? Eu o observo, esperando que diga mais. Como não diz, falo a única coisa que posso: – Sinto muito. Hideo me poupa ao se inclinar na direção da mesa. – Você falou que queria chá – diz, evitando minhas palavras da mesma forma que na noite em que o conheci no escritório. O momento de fraqueza que ele me ofereceu já passou, sumiu atrás do escudo. É essa a parte da história dele que o assombra, penso, relembrando o momento de dor que compartilhamos quando falei do meu pai. O que quer que tenha acontecido, ele ainda não superou o fato. Pode até explicar a recusa teimosa de ficar em segurança. Faço que sim em silêncio e o observo servir uma xícara para mim e outra para ele. Ele me entrega uma, que seguro com ambas as mãos, saboreando o calor e o aroma límpido. – Hideo – digo suavemente, tentando mais uma vez. Tomo o cuidado de ficar longe do mistério que

enevoa o passado dele. Meus olhos permanecem nas cicatrizes claras nos dedos. – Não quero ver você ferido. Você não estava comigo no Covil dos Piratas e não sentiu a presença ameaçadora daquele cara. Ainda não sei o que ele está tramando, mas ele é perigoso. Você não pode brincar com sua vida assim. Hideo sorri um pouco. – Você veio até aqui hoje só para me persuadir a ir embora de Tóquio, não foi? A provocação dele me faz corar de novo, o que me deixa irritada comigo mesma. Coloco a xícara na mesa e dou de ombros. – Bom, eu achei que era uma coisa que não podia ser discutida direito sem estar aqui em pessoa. E queria avisar você sem ser ouvida pelos meus companheiros de equipe. – Emika – diz ele. – Você não precisa me dar um motivo para vir aqui. Agradeço seu cuidado comigo. Você salvou minha vida hoje, sabe. – O que eu ia dizer em seguida some com a expressão nos olhos de Hideo. Ele coloca a xícara na mesa também e se inclina para perto de mim. O movimento produz uma faísca que percorre minha espinha. – Estou feliz de você estar aqui. Eu observo os olhos dele, me esforçando para tranquilizar meus batimentos. – Está? – Talvez eu esteja sendo sutil demais. Até o momento, supus que todas as minhas interpretações das palavras de Hideo foram exageradas da minha parte, mas é bem difícil entender errado essa declaração. Ele fala sobre você com frequência, disse Kenn. Engulo em seco, mas não recuo. – Sobre o quê? – sussurro. Os cílios de Hideo estão entreabertos, e há algo doce e incerto no olhar dele. Ele hesita. Em seguida, balança uma das mãos em um gesto sutil, e uma tela transparente aparece no meu visor de novo. Link com Hideo?, pergunta. – Quero mostrar uma coisa – diz ele. – É um novo sistema de comunicação no qual estou trabalhando. Um jeito seguro de você me contatar. Olho para a janela flutuante por um momento, então aceito. As beiradas da minha visão brilham em azul-claro. – O que faz? – pergunto. Envie um pensamento para mim, Emika. É a voz de Hideo, suave e calorosa e grave, ecoando na minha mente. Um formigar de surpresa percorre meu corpo. Quando olho para ele, vejo que não abriu a boca, nem fez nenhum gesto de digitação. É telepatia pelo NeuroLink, a evolução seguinte às mensagens de texto, um laço íntimo e secreto que nos une. Eu me assusto com a novidade e envio um pensamento hesitante para ele. Você está na minha mente? Só se você permitir. Você tem liberdade de desabilitar nosso Link sempre que desejar. Não consigo segurar um sorriso, capturada entre um sentimento de perturbação e de empolgação. Faz quase uma década que Hideo criou uma coisa que mudou o mundo, e aqui está ele, ainda fazendo isso, ano após ano. Balanço a cabeça em descrença. Isso é incrível. Hideo sorri, o humor sombrio some por um momento. Acho que você não se deu conta do quanto gosto da sua companhia. Por isso, quero contar um segredo para você. De repente, percebo que não só consigo ouvir as palavras dele em pensamento pelo nosso novo Link… mas consigo sentir algo. Consigo sentir uma indicação de suas emoções pela conexão. Ah, penso sem nem perceber, minha respiração fica ofegante. Consigo sentir o desejo dele, um calor denso e ardente. Por mim. Eu quero beijar você, pensa Hideo, se inclinando mais para perto, desde a noite em que vi você com aquele vestido branco.

Desde a festa no Sound Museum Vision. De repente, fico muito ciente do meu ombro exposto. A corrente firme das emoções dele pelo nosso Link me deixa tonta, e me pergunto se ele consegue sentir o mesmo vindo de mim, as batidas rápidas e irregulares do meu coração, o calor correndo nas minhas veias. Deve perceber, porque um lado do sorriso dele sobe mais um pouco. De repente, sinto-me ousada nessa penumbra e com essa nova ligação, nesse espaço que ficou quente demais. E então?, pergunto a ele. E então. O olhar dele pousa nos meus lábios. Talvez a gente devesse fazer alguma coisa a respeito disso. Só consigo pensar na proximidade dele, nos olhos escuros, no hálito roçando minha pele. Há um brilho no olhar dele agora, aquela escuridão nos olhos, uma coisa quente e faminta, uma coisa que quer. Ele hesita por um segundo agonizante. Em seguida, vira a cabeça na minha direção. A pele macia dos seus lábios pressiona os meus, e antes mesmo que eu consiga registrar, ele está me beijando. Meus olhos se fecham. Ele é delicado no começo, as emoções controladas e exploratórias, uma das mãos subindo para aninhar meu rosto. Eu me inclino para o toque dele, sinalizando que quero mais, fantasiando com o que ele pode fazer em seguida. Você consegue sentir o que eu quero? Como se em resposta, um gemido baixo de prazer soa no fundo da garganta dele. Hideo chega mais perto, me prende no sofá e me beija mais intensamente. O Link entre nós amplifica nossas emoções por dez, e luto para respirar, sufocada com o calor do desejo dele correndo entre nós… e com minha paixão em resposta a ele. Consigo sentir os pensamentos dele, vislumbres e lampejos das mãos na minha pele, percorrendo minhas coxas. Meu corpo todo formiga. Uma das mãos afunda no meu cabelo, inclinando minha cabeça para cima, na direção dele. Pela névoa dos meus pensamentos, percebo que passei os braços pelo pescoço dele e o puxei para perto, até cada centímetro do meu corpo estar encostado nele. Ele está tão quente, os músculos dos braços e do peito firmes sob as roupas. O som da chuva no vidro continua ao fundo. Hideo se afasta por um breve segundo, os lábios pairando logo acima dos meus. Sua respiração está leve e sôfrega, a testa franzida, o fogo ainda ardendo no olhar. As emoções dele se chocam com as minhas, se embolam e viram uma só, e ele se desfaz nesse momento, a versão reservada, distante e austera de Hideo removida, revelando a parte irracional e selvagem. Estou tremendo devido a uma tempestade de sensações, sem saber em que me concentrar, desejando absorver tudo ao mesmo tempo, me esforçando para encontrar as palavras perfeitas. Era verdade, penso, ofegante. Você estava sendo sutil demais. O sorriso secreto dele volta. – Vou compensar – murmura ele no meu ouvido, e me beija de novo. Meus dentes apertam uma vez, de forma provocadora, o lábio inferior dele. Hideo geme de surpresa e se afasta da minha boca para beijar o contorno do meu maxilar. Seus lábios percorrem meu pescoço, gerando arrepios pelas minhas costas. A mão quente entrou no meu suéter e sobe pelas minhas costas nuas, acompanhando a minha coluna. Consigo sentir os calos na base dos dedos, ásperos na minha pele. Um milhão de pensamentos surgem na minha mente. Eu me arqueio em sua direção. Vagamente, percebo que deslizei pelo sofá e estou com a cabeça agora no braço, e o corpo de Hideo pesa sobre o meu, me empurrando para baixo. Os lábios dele vão do meu pescoço até minha clavícula, beijando minha tatuagem até meu ombro exposto. Abruptamente, uma pontada de emoção estranha percorre nossa tormenta violenta, um fio de preocupação partindo dele. Para a minha decepção, Hideo deixa um último beijo na minha pele. Ele suspira, pragueja baixinho no meu ouvido e se afasta. Fico com frio de repente, ainda tonta com tudo que acabou de acontecer. Lentamente, me apoio nos cotovelos e olho para ele. Hideo me ajuda a me levantar e deixa as mãos nas minhas por um momento. O Link entre nós treme até ficar calmo e silencioso novamente. – Estou metendo você em mais do que você aceitou – diz ele por fim.

Eu franzo a testa, ainda sem ar. – Bom, eu não estou reclamando. – Eu me inclino para perto dele. – Eu vou encontrar Zero. Vou terminar o trabalho para o qual você me contratou. Hideo olha para mim por mais um momento, balança a cabeça e sorri. O escudo cuidadoso que ele sempre mantém erguido à sua volta caiu, deixando uma camada mais interna dele exposta. Tem alguma coisa que ele quer me contar. Consigo ver a guerra no rosto dele. – Não vou segurar mais você aqui hoje – diz ele. Seu coração se esconde atrás do escudo novamente. – Seus companheiros de equipe devem querer comemorar com você. – E, com isso, ele levanta a mão e desconecta nosso Link. A ausência repentina da corrente sutil de emoções e do eco da voz de Hideo na minha mente me deixa mais vazia. Um botãozinho permanece no canto da minha visão, em que posso clicar para nos reconectar. Tento assentir de forma casual para ele não ver a decepção no meu rosto. – Certo – murmuro. – Comemorar. É melhor eu voltar. Ele beija minha bochecha. – Nos falamos amanhã – diz. Mas, na hora que ele se afasta, sei que o espaço entre nós mudou permanentemente. Aceno com a cabeça como se estivesse em um sonho, como se não conseguisse parar de usar essa droga. – Sim.

22 Nos dias seguintes, as demais equipes oficiais jogam suas primeiras partidas. A Andromeda vence os Bloodhounds em tempo recorde, após jogarem em uma fase feita para parecer um labirinto de catacumbas flamejantes. Os Winter Dragons vencem os Titans em uma selva cheia de armadilhas. Os Stormchasers derrotam os Royal Bastards nas ruas néon de um espaçoporto futurista. Os Gyrfalcons triunfam contra os Phantoms, os Castle Raiders vencem os Windwalkers, os Cloud Knights destroem os Sorcerers e, para a surpresa de todos, os Zombie Vikings derrotam os Sharp-shooters. Assisto e analiso cada jogo junto com meus companheiros de equipe. Treino com eles, e a segunda rodada de jogos começa. Nós vencemos os Stormchasers em uma partida surpreendente, em que Asher e o capitão dos Stormchasers, Malakai, se enfrentaram no topo de uma torre isolada enquanto o resto da equipe lutava para subir pelas laterais. Todos os dias reviro vários dados dos outros jogadores. Procuro mais sinais de Ren conforme ele anda pelo alojamento. Ele não faz contato visual comigo. Me pergunto se ele sabe. À noite, sonho que estou na cama de Hideo, enrolada nos lençóis dele, as mãos percorrendo suas costas nuas, as mãos dele segurando meus quadris. Sonho que alguém invade a casa enquanto estamos dormindo, que desperto ao lado dele e vejo uma figura sem face de armadura escura ao lado da cama. Imagino o noticiário na manhã seguinte, transmitindo a morte de Hideo. Acordo sobressaltada e ofegante.

Bom dia, linda.

Eu acordo em um dia escuro e tempestuoso lá fora com a mensagem de Hideo no celular. A luz no meu quarto parece azul-acinzentada, e meu coração está disparado por causa de outra noite de sonhos inquietos. Leio a mensagem dele várias vezes para ter certeza de que está vivo e bem, e deixo a cabeça cair no travesseiro e suspiro, fraca de alívio. Um pequeno sorriso surge nos cantos dos meus lábios por causa das palavras dele. Bom dia.

Eu me sento, visto a blusa e vou ao banheiro para colocar minha lente. Quando volto, tem um pedido piscando no meu visor, perguntando se aceito um Link com Hideo. Aceito, e um momento depois há um Hideo virtual no meu quarto, de peito exposto, vestindo a camisa. Dou um sorriso, tentada a dizer para ele continuar sem. Ele se serve de uma xícara de café enquanto o cachorro anda em volta das pernas dele em um círculo feliz. É agradavelmente estranho ver Hideo de um jeito que mais ninguém vê: garotão, relaxado, vulnerável, o cabelo desgrenhado e molhado do banho, a calça de moletom baixa nos quadris. A luz clara que entra pelas janelas acentua o cabelo e o rosto dele. Ele sorri quando me vê. – Antes que você pergunte – diz ele, indicando a lateral, onde não consigo ver –, meu guarda-costas está de pé junto à porta.

Também dou um sorriso e balanço a cabeça. – Fico feliz de você estar finalmente levando sua segurança a sério. – Em seguida, fico austera. – Imagino que você não tenha considerado muito a ideia de sair de Tóquio, não é? Hideo toma um gole de café. – A segunda rodada mal começou. Se eu não estiver por aqui, as pessoas vão questionar o porquê da minha ausência. Eu dou um suspiro. – Só… pense no assunto. Por favor. Um guarda-costas o chama. Hideo vira a cabeça de leve. – Sr. Tanaka – diz minha tradução. – Os repórteres estão prontos para a sua entrevista. Hideo dá um aceno sutil de cabeça para o guarda-costas. – Em um momento – diz. Ele anda na minha direção, até estarmos separados por centímetros, e se inclina para perto. Se estivéssemos juntos no meu quarto agora, eu sentiria o hálito dele no meu pescoço. – Prometo que vou pensar – murmura ele. – Mas entenda que é difícil fazer isso com você ainda aqui na cidade. Meus dedos dos pés se dobram, e eu estremeço de prazer. Pelo nosso Link, consigo perceber que minhas emoções estão chegando nele em pequenas ondas. Você não vale nada, penso para ele. Só de manhã. Eu me lembro de você não valer nada naquela noite também. Ele baixa o olhar, e os cílios captam luz. Um sorriso surge nos lábios. Eu gostaria de beijar você agora. E se eu não deixasse?, provoco. Você me magoa, Emika. Dou uma gargalhada. Pode ser que eu queira beijar outra pessoa. Ciúme atravessa o rosto de Hideo rapidamente, e seus olhos escurecem. Mesmo com a distância física entre nós, consigo sentir as emoções dele pelo nosso Link, aquele desejo deliciosamente quente. Venha aqui. Hoje à noite. Sinto um frio no estômago. Mas meus companheiros… Vou fazer valer a pena. O frio vira gelo. – Na sua casa? – sussurro, sem conseguir esconder meu sorriso. Ele hesita. A incerteza volta ao rosto dele, e por um momento acho que ele vai balançar a cabeça e mudar de ideia novamente. Mas depois de uma pausa, ele me surpreende com um aceno. Venha comigo hoje. Vou mostrar minha antiga casa. Meus batimentos se aceleram. Esse é outro segredo do passado; consigo ouvir na voz dele, sentir pelo nosso Link. Eu me vejo assentindo. Tudo bem, respondo. Nós dois nos desconectamos do Link e eu expiro, depois me levanto e saio do quarto. Quando chego lá embaixo, está chovendo forte do lado de fora. Hammie e Asher estão nos sofás da sala, absortos em um debate tranquilo sobre como derrubar a defesa da Cloud Knights. O braço de Asher está apoiado nas costas do sofá, a mão tocando levemente o ombro de Hammie, e ela não se afasta. Roshan está jogando e transmitindo ao vivo nos canais de redes sociais. Ren não está por perto. O alojamento parece calmo, exceto pela chuva batendo no teto de vidro do átrio. – Emika. Eu quase pulo quando ouço a voz de Ren. Meu punho sobe instintivamente, e me viro e o vejo de pé atrás de mim no corredor, virado como se indo para o quarto. Solto o ar e abaixo o punho. Devia ter sentido que ele estava ali; era para eu ser boa em perceber um ambiente. – Você me matou de susto – digo.

Ele só levanta a sobrancelha para a minha reação e responde em francês. Um texto branco transparente aparece no meu visor: a tradução. – Você está sempre pronta para dar um soco nas pessoas que te surpreendem? Todas as minhas desconfianças sobre Ren depois de o rastrear pelas últimas duas semanas devem ter me deixado tensa quando estou perto dele. – Só as que se esgueiram em corredores escuros. – Você tem um minuto? – diz ele, assentindo para mim. – Quero perguntar uma coisa. – Sobre o quê? Ren me observa em silêncio. – Sobre Hideo – diz finalmente. Eu pisco, momentaneamente sem resposta, e meus olhos se desviam rapidamente para os de Ren. Ele está me observando com atenção. O que reparou no meu semblante? Tentou propositalmente me pegar desprevenida e ver como seria minha reação? Rapidamente, me recomponho e dou uma gargalhada confusa. – Por quê? Finalmente apareci em algum tabloide? – digo, exagerando a voz de provocação. Ren sorri para mim. – Algo assim – responde ele. As palavras geram um arrepio pela minha espinha. – Venha. A gente pode conversar no meu quarto. Se eu não for com ele, vai ser estranho. Por isso, sigo Ren pelo corredor que leva a seus aposentos. Não é nada, digo para mim mesma. Além do mais, eu talvez consiga uma oportunidade de caçada que normalmente não tenho: falar diretamente com um dos meus alvos em potencial. Nunca tinha ido ali, mas é impossível errar qual é o quarto dele – do corredor, consigo escutar o som abafado e grave de uma batida, só o suficiente para ser ouvida. A porta se abre quando Ren para na frente dela, e revela uma suíte grande mergulhada em um brilho fraco azul-néon. Ele entra. Eu hesito por um momento, então me junto a ele. O quarto de Ren é completamente diferente do meu, como se ele o tivesse customizado de acordo com seu gosto. Quadrados de espuma cobrem as paredes, enquanto no centro do quarto há uma mesa em forma de arco acima da qual paira um sistema de telas flutuantes, algumas exibindo o que parecem ser medidores de som, outras com métricas e barras que não consigo decifrar. Um teclado musical e um painel de botões deslizantes também estão ligados à mesa em arco. Os fones de ouvido dourados com asas estão sobre a mesa. O quarto pulsa com uma batida grave e rítmica que faz o chão vibrar e meu coração bater junto. Meus olhos percorrem o cômodo com surpresa, ao mesmo tempo que procuro por pistas. Abro silenciosamente o perfil hackeado de Ren, e as informações surgem em texto transparente em volta dele. – Você queria conversar sobre Hideo? – pergunto. Ele assente, se senta e gira uma vez na cadeira. Coloca os fones dourados no pescoço. – É. Quando nos conhecemos, você mencionou que já tinha ouvido minha música antes, não foi? Faço que sim. – Eu já era fã da sua música quando você começou a se destacar na França. – Uau. – Ele me dá um sorriso, que não consigo identificar se é genuíno, e brinca com algumas barras na mesa. – Eu não sabia que você sabia sobre mim há tanto tempo. Eu não sabia que você sabia sobre mim há tanto tempo. Imediatamente, um alarme toca na minha cabeça. – Você ficava no seu nicho – respondo com cuidado agora. – Como se ainda não quisesse ser descoberto. Ren se encosta na cadeira e apoia os pés na mesa. – Todo meu trabalho inicial foi em francês. Eu não sabia que você falava a minha língua

Eu o vejo botar os fones de ouvido, e meu coração começa a bater mais rápido. Eu não sabia que você falava a minha língua. Ele está se referindo ao francês ou à linguagem dos hackers? – O que isso tem a ver com Hideo? – pergunto, tentando trazer a conversa para o assunto original. – Ele também é seu fã? – Estou compondo uma canção para ele como presente depois que tudo acabar – diz Ren, a voz casual. – Para agradecer por me colocar no Wardraft. Eu queria a opinião de alguém que conhece Hideo bem e que também conhece minha música. Sabe como é, para ver se ele vai curtir. – E, ao dizer isso, ele olha para mim com expectativa. – Você parece bem próxima dele. Ele sabe. Sabe mesmo? Eu forço meu sorriso a permanecer intacto e dou de ombros. – Pareço? – digo, com a mesma casualidade. – Pelo menos é o que os tabloides andam dizendo. – Bom – respondo, sustentando o seu olhar. – Todos temos um ou outro amigo importante, não temos? Ren devolve o olhar por um momento, implacável, e finalmente muda o foco. – Aqui – fala. – Escute. Uma ajudinha seria legal. Ren disse certa vez em uma entrevista que não gosta de opiniões externas sobre o trabalho dele. Agora, aqui está ele, oferecendo os fones de ouvido, e não sei como interpretar isso. Quando ele me dá um sorriso encorajador, estico a mão e aceito os fones, em seguida os coloco. É um baixo grave, junto com um violino leve e lindo e uma coisa que soa como um repique. Um vocal feminino começa a cantar: “Vamos percorrer Tóquio de zero a sessenta / como se nosso tempo estivesse acabando nessa cidade”, canta ela. Enquanto escuto, olho para Ren. Uma música sobre Tóquio. De repente, escuto um verso que me provoca um arrepio. “Vamos sair de forma explosiva / é, vamos sair de forma explosiva.” É a mesma música que tocou por um segundo no Covil dos Piratas. Ele preparou uma armadilha para mim. Olho rapidamente para Ren e reparo que observa meu rosto com expressão pensativa. Ele compôs a trilha que tocou durante o jogo de Darkcross, e agora está me fazendo ouvir para ver se acho familiar. A julgar pela forma como está me olhando agora, ele percebeu que já escutei essa música antes. E isso quer dizer que ele sabe que devo ter estado lá no Covil dos Piratas na mesma hora que ele. Ele sabe que o estou seguindo. Sabe que estou vigiando Zero. Ren pega os fones de volta. Seus olhos nunca se afastam de mim. – Você acha que Hideo vai gostar? As palavras dele soam ameaçadoras agora, e luto para não parecer afetada. – É boa. Talvez ele até acrescente aos torneios do ano que vem. – Talvez ele até acrescente ao torneio deste ano – diz Ren, abrindo um sorriso. Ele se inclina para a frente, apoia os cotovelos nos joelhos e me prende em um olhar sem piscar. – Nós temos que sair de forma explosiva, não é? Eu sorrio e assinto para a declaração dele, mas parece uma ameaça mal disfarçada. Meu coração bate mais rápido. Vamos sair de forma explosiva. Ren repetiu o mesmo verso do Covil dos Piratas, e apesar de ainda poder não significar nada, minha mente chega a uma conclusão diferente. O que quer que o grupo de Zero esteja tentando fazer – envolvendo tantas cidades no mundo, envolvendo a vida de Hideo –, vai acontecer no dia do jogo final. E agora ele sabe que estou envolvida.

23 Duas horas depois, quando me encontro com Hideo em um carro particular, eu ainda não me esqueci de minha conversa com Ren. Talvez ele estivesse sendo literal. Mas aquela música não foi acidente. Ele sabe que eu estava no Dark World atrás dele, ou, no mínimo, sabe que eu também estava no Covil dos Piratas na mesma hora. Se Hideo repara nos meus pensamentos perturbados, não comenta. Ele também parece distraído. Mesmo sem nossos Links conectados, sinto uma certa inquietação nele, algo que deixa seus olhos distantes, a mesma coisa que o fez se afastar de mim naquela noite na casa dele. Penso em contar para ele minha conversa com Ren, mas decido não fazer isso. É vaga demais. Preciso ir mais fundo. O trajeto é lento pela chuva. Duas horas depois, chegamos aos arredores arborizados de Tóquio, onde a cidade abre espaço para colinas suaves e ruas estreitas com prédios limpos de três andares, os telhados curvos e elegantes pintados de preto e vermelho. Pinheiros ladeiam a rua. Um único pedestre anda pela calçada, e um jardineiro corta com cuidado uma cerca-viva próxima, mas fora o estalo da tesoura, tudo está silencioso. O carro finalmente para na frente de uma casa no final de uma rua, onde arbustos arredondados e pedras decoram o caminho de entrada. Vasos de plantas ladeiam o acesso em fileiras arrumadas. A luz da varanda está acesa, apesar de ainda ser final da tarde. Hideo toca a campainha. A voz de alguém soa do outro lado, abafada e feminina. Um momento depois, a porta se abre e revela uma mulher usando um suéter bonito, uma calça e chinelos. Ela pisca para nós por trás de óculos que ampliam seus olhos. O rosto dela se enruga de prazer ao ver Hideo; ela dá uma gargalhada baixa, chama alguém em japonês e estica os braços para ele. Hideo se curva mais do que já o vi se curvar para qualquer pessoa. – Oka-san – diz ele, e a envolve em um abraço caloroso. Ele me dá um sorriso tímido e ela puxa as bochechas de Hideo como se ele fosse um garotinho. – Essa é minha mãe. A mãe dele! Um sentimento caloroso toma conta de mim, trazendo junto uma série de emoções. Fico vermelha e sigo o exemplo de Hideo, fazendo a reverência mais profunda que consigo. Hideo assente para mim. – Oka-san – diz ele para a mãe. – Kochira wa Emika-san desu. “Essa é Emika”, diz minha tradução. Murmuro um oi acanhado e inclino a cabeça respeitosamente. Ela sorri calorosamente para mim, dá tapinhas nas minhas bochechas também e exclama alguma coisa sobre o meu cabelo. Em seguida, nos convida a entrar, afastando-nos do mundo lá fora. Nós tiramos os sapatos junto à porta e colocamos chinelos que a mãe de Hideo nos oferece. Dentro, a casa é ensolarada, aconchegante e imaculada, cheia de fotos em porta-retratos e plantas em vasos, objetos de cerâmica e esculturas metálicas estranhas. Uma esteira de bambu e um tapete cobrem o chão da sala, amortecendo uma mesa baixa com um bule e algumas xícaras. Uma porta de correr aberta revela um jardim zen verdejante. Agora entendo por que Hideo decorou a casa de Tóquio daquele jeito: deve lembrar a ele daqui, seu verdadeiro lar. Estou prestes a comentar como a casa é linda quando uma voz automatizada soa em alto-falantes em algum lugar do teto. – Bem-vindo, Hideo-san – diz a voz. Na cozinha, uma das bocas do fogão se acende sob uma chaleira sem ninguém ter tocado nele.

O pai de Hideo aparece para nos cumprimentar momentos depois. Eu observo e tento sufocar uma onda de inveja, ao ver o casal fazendo festa com todo o entusiasmo de pais que não têm oportunidade de ver os filhos com a frequência que gostariam. A mãe de Hideo exclama alguma coisa sobre preparar um lanche e se afasta, deixando os óculos sobre a mesa. Sem perder um minuto, Hideo pega os óculos, vai atrás da mãe na cozinha e a lembra gentilmente de colocá-los. Em seguida, abre a porta da geladeira e vê que não tem nada lá dentro para fazer um lanche. A mãe de Hideo franze a testa com confusão e diz para ele que tinha certeza de que havia alguma coisa. Hideo fala com ela com voz baixa e afetuosa, as mãos nos ombros dela, garantindo que vai mandar alguém fazer compras imediatamente. O pai olha do corredor, tossindo um pouco, o som indicando alguma coisa crônica. Eu me inquieto ao ouvir. Nem o pai e nem a mãe dele são velhos, mas os dois parecem mais frágeis do que deviam ser na idade que têm. Isso desperta lembranças desagradáveis em mim. Quando Hideo volta para o meu lado e me vê o observando, só dá de ombros. – Se eu não lembrar a ela, o sistema da casa lembra – diz ele. – O sistema cuida deles quando não estou aqui. Eles se recusam a aceitar um empregado. – A voz de Hideo soa casual, mas já o ouvi vezes suficientes para agora detectar uma tristeza profunda por baixo. – Seus pais sempre moraram aqui? – decido perguntar. – Desde que nos mudamos de Londres. – Hideo aponta para as decorações nas mesas laterais. – Minha mãe está aprendendo a fazer cerâmica desde que se aposentou do trabalho com neurociências. As esculturas metálicas são do meu pai, soldadas com partes de computadores que sobraram da loja de consertos. Eu paro e admiro uma escultura. Só agora vejo que cada peça, embora geométrica e abstrata, parece representativa da vida pessoal deles. Um casal andando de braços dados. Cenas familiares. Algumas das esculturas exibem os pais com dois meninos. Penso no retrato que vi na casa de Hideo. – São lindas. Hideo parece satisfeito, mas consigo ver o lado quieto e sombrio dele emergindo conforme nosso tempo ali vai se prolongando, como se voltar para casa tivesse dado àquele lado dele o combustível de que precisa para existir. Ele olha pela janela por um momento. Depois assente para mim. – E então, Emika – diz ele, abrindo um sorrisinho. – Você já experimentou um onsen desde que chegou ao Japão? – Onsen? – Uma fonte termal. – Ah. – Eu limpo a garganta, as bochechas ficando vermelhas. – Ainda não. Hideo indica a porta. – Quer experimentar?

QUANDO O SOL começa a se pôr, Hideo me leva para um lugar com vista para uma cadeia de montanhas, onde há uma casa de banho cercada por cerejeiras em flor. Eu o observo com atenção. O humor dele melhorou desde a nossa chegada, mas não voltou completamente ao normal. Agora, ando silenciosamente ao lado dele conforme nos aproximamos da entrada da casa de banho, me perguntando como posso animá-lo. – Você vem sempre aqui? – pergunto quando nos aproximamos da entrada da casa de banho. Hideo assente. – É meu onsen particular. As águas da fonte termal estão paradas e calmas, com uma nuvem de vapor pairando acima. Pedras

lisas envolvem a beirada da fonte e flores de cerejeira caem das árvores na superfície da água. Um lado da fonte tem vista para uma cadeia de montanhas, cujos picos estão recebendo os últimos raios de sol. O outro lado tem vista para um rio. Quando ando na direção da fonte com um roupão, Hideo já está na água. Fico satisfeita com o calor: talvez consiga esconder um pouco do meu rubor, que já está ameaçando queimar meu rosto enquanto observo o cabelo úmido e os músculos dele à mostra. Limpo a garganta, e Hideo afasta educadamente o olhar, me dando tempo de tirar o roupão e entrar na água quente. Fecho os olhos e solto um pequeno gemido de alívio. – Não vou sair daqui nunca – murmuro enquanto Hideo vem se juntar a mim. Ele puxa mechas úmidas do meu cabelo para trás dos ombros e nos leva até um canto, onde apoia as mãos na beirada da fonte, dos meus dois lados. Meu rosto parece tão quente quanto a água agora, e fico ciente da nossa pele nua roçando. – O que querem dizer? – murmura Hideo, passando as mãos pelo meu braço tatuado. Os dedos fazem linhas molhadas na minha pele. Em um atordoamento feliz, abaixo o olhar e estico o braço para que ele possa ver minhas tatuagens inteiras. – Bem – sussurro –, a flor é uma peônia, a favorita do meu pai. – Meus dedos se afastam do meu pulso, e os de Hideo acompanham. – A onda do mar me lembra a Califórnia, porque nasci em San Francisco. A mão de Hideo para perto do meu ombro, em uma escultura geométrica elaborada saindo das ondas. – E essa? – Uma estrutura Escher – respondo. – Sou fã dele. Hideo sorri. – Boa escolha. Eu também dou um sorriso, sentindo intensamente o toque quente no meu braço. Minha mão sobe mais pela minha tatuagem e para brevemente em uma série de penas estilizadas que voam para o céu e depois, nesse céu, transformam-se em um campo de planetas, os anéis inclinados como discos antigos de vinil, que depois se metamorfoseiam em pautas de música, nas quais há uma melodia escrita. – A ária “Rainha da noite”, de Mozart – termino. – Porque, bom, eu me enxergava como uma. – Humm. – Hideo se inclina e dá beijos no meu pescoço, e eu estremeço. – Uma caçadora de recompensas vagando pelo Dark World – murmura ele. – Muito apropriado. Fecho os olhos com os lábios entreabertos e mergulho no calor dos braços dele em volta de mim, os beijos percorrendo minha pele úmida. As cicatrizes ásperas dos nós dos dedos de Hideo roçam pela minha cintura quando ele me puxa para perto. Há uma certa timidez nos olhos dele agora que o faz parecer tão novo, uma expressão que puxa meu coração para mais perto. Não consigo lembrar quando começamos a nos beijar e nem quando paramos, nem quando ele se apoia em mim, debilitado, sussurrando meu nome. Nós parecemos existir em uma névoa de calor e penumbra, e não sei onde o tempo vai parar, mas parece que a noite cai em um piscar de olhos que logo nos engole. Estamos em silêncio agora, apoiando a cabeça nas pedras que envolvem a fonte e vendo as lanternas penduradas iluminarem a água de dourado. Acima, as estrelas piscam e surgem uma a uma; estrelas de verdade, não uma simulação virtual. Mal passou do crepúsculo, mas já consigo ver mais estrelas do que já vi na vida, cobrindo o céu com uma camada de luz. Hideo também tem o rosto virado para as estrelas. – Sasuke estava brincando no parque – diz ele por fim, as palavras silenciosas no espaço vazio. Eu viro a cabeça na pedra para ouvi-lo melhor. Ele parece pensativo agora, a mente em algum lugar distante. Foi por isso que viemos para cá. Esse é o segredo que pesa sobre seus ombros. Viro a cabeça de leve na direção dele, esperando que continue. Hideo parece lutar em silêncio, se perguntando se me deixar entrar em seu mundo particular vai ser um grande erro.

– O que aconteceu? – sussurro. Ele suspira, fecha os olhos por um momento e faz um gesto sutil com uma das mãos. Uma tela aparece entre nós. Hideo está compartilhando uma Lembrança comigo. Eu aceito sem dizer nada. No instante seguinte, o onsen, a noite e a vista à nossa voltam somem, e Hideo e eu estamos na extremidade de um parque, cercados de uma tarde dourada de outono, onde o sol delineia as árvores em uma névoa de luz. Alguns autocarros estão parados ao longo da calçada. Folhas vermelhas e laranja caem preguiçosamente até o chão, pontilhando a grama verde com cores quentes. A uma pequena distância de nós, dois garotinhos caminham em direção ao parque. Reconheço na mesma hora um deles como um pequeno Hideo; o outro deve ser o irmão dele. – Você ainda não tinha inventado o NeuroLink quando isso aconteceu, tinha? – digo enquanto olhamos os garotos entrarem no parque. – Como criou essa Lembrança? – Eu me lembro de cada detalhe desse dia – responde Hideo. – Eu tinha 9 anos. Sasuke tinha 7. – Ele indica a imagem dos irmãos. – O mapa do parque, a localização de cada árvore, as folhas douradas, a temperatura, a inclinação da luz… Eu me lembro de tudo como se tivesse acontecido minutos atrás. Assim, reconstruí esse momento para mim como uma Lembrança, tudo que aconteceu, e acrescento novos detalhes todos os anos. Nós agora seguimos o ponto de vista do pequeno Hideo andando calmamente, as folhas esmagadas embaixo das botas, a gola do casaco puxada para o proteger do dia frio. Ele está tirando um cachecol azul da mochila. Sasuke corre um pouco mais à frente, claramente o mais novo dos dois, todo sorrisos e gargalhadas, as botas esmagando as folhas enquanto ele dispara. Quando os meninos falam, é em japonês. – Yukkuri, Sasuke-kun! – grita o pequeno Hideo para o irmão, balançando o cachecol azul no ar. Leio as traduções no meu visor enquanto ele continua. – Devagar, Sasuke! Coloque seu cachecol. Mamãe vai me matar se você não colocar. Sasuke o ignora. Ele está carregando um cesto cheio de ovos de plástico, todos pintados de azul. – Tudo bem, desta vez você é o vermelho! – grita ele para Hideo. – Eu sou o azul. Se eu pegar todos os seus antes do sol chegar naquela árvore ali – ele para e aponta –, vou ficar com seu carrinho de brinquedo favorito. Hideo revira os olhos e solta um suspiro irritado quando eles chegam na clareira central do parque. – Mas é parte de um conjunto! – argumenta ele, mas não objeta. Ele finalmente alcança o irmão. Apesar dos protestos de Sasuke, Hideo o obriga a ficar parado enquanto enrola o cachecol azul no seu pescoço e puxa a gola. – Nós não podemos ficar muito tempo. Papai precisa da nossa ajuda na loja antes do jantar, e mamãe vai ter que ficar no laboratório até tarde. Sasuke faz beicinho, bem como um irmãozinho faria mesmo. – Tudo bem – murmura ele. Os garotos se separam e vão para lados opostos do parque. Enquanto caminha, Hideo pega um saco de ovos vermelhos de plástico na mochila. Os dois começam a atirar ovos para todo lado, cada um se esforçando para esconder bem os seus. Um ovo azul aparece rolando, e Hideo levanta o rosto e vê Sasuke com um sorriso bobo. – Joguei forte demais! – grita ele. – Você pode jogar de volta? Hideo pega o ovo e o atira para o irmão. O ovo voa para depois da clareira e desaparece na parte mais densa de árvores do parque, onde contornam a margem de um riacho cheio de bambus. Ele ri quando o sorriso de Sasuke vira uma expressão exasperada. – Espere por mim, Hideo! – grita ele por cima do ombro, e entra no meio das árvores para pegar o ovo. Hideo vira as costas e continua espalhando ovos. Alguns minutos depois, olha para trás. – Já acabou? – grita ele. Não há resposta. Hideo se levanta e se alonga, saboreando o brilho quente do sol da tarde.

– Sasuke! – chama de novo na direção das árvores. O único som que tem em resposta é o do movimento da água do riacho e o ruído das folhas douradas balançando no ar. A brisa sussurra pelos cabos oscilantes de bambu. Alguns segundos se passam até Hideo soltar um suspiro e sair andando na direção do lado do parque onde estava seu irmão. – Vamos logo. Nós não temos o dia todo – diz ele. – Sasuke! Anda logo! Eu continuo observando, e o seguimos pelas árvores até a grama alta, parando quando a folhagem fica densa demais. – Sasuke? – chama Hideo novamente. A voz dele soa diferente agora; a exasperação sumiu e foi substituída por um toque de confusão. Ele para entre as árvores e olha ao redor, como se não conseguisse acreditar que havia outra pessoa ali pouco tempo antes. Longos minutos se arrastam enquanto ele faz uma caçada exaustiva pela área arborizada. Ele chama de novo. Agora, tem um tom de preocupação na voz. Em seguida, de medo. Não há sinal do outro garoto. Parece que ele simplesmente deixou de existir. – Sasuke? – A voz de Hideo fica urgente, frenética. Seus passos viram uma corrida. Ele vai até o bosque e volta para a clareira, torcendo para o irmão ter retornado para lá sem tê-lo ouvido. Mas o resto do parque continua vazio, os ovos azuis e vermelhos dos meninos ainda espalhados pela grama, esperando o começo da brincadeira. Hideo para no meio da clareira. A Lembrança mostra pânico agora, o mundo ao nosso redor borrado quando Hideo gira no mesmo lugar, olhando para um lado, depois para outro, e disparando para outra parte do parque. A vista balança muito conforme ele corre. Sua respiração sai em ofegos curtos, gerando nuvens de névoa no ar gelado. Quando tenho um vislumbre do rosto dele refletido na lataria de um carro estacionado, os olhos estão arregalados e sombrios, as pupilas dilatadas de pavor. – Sasuke! Sasuke! – Cada grito soa mais desesperado que o anterior. Hideo chama e chama até sua voz começar a falhar. Ele para abruptamente, arfando, e segura a cabeça entre as duas mãos. – Calma. Sasuke foi para casa – sussurra ele. Assente para si mesmo, acreditando nisso. – Ele foi cedo para casa sem me avisar. É lá que ele está. – Sem hesitar mais, Hideo corre para casa, olhando as calçadas como louco, procurando as costas de um garotinho de cachecol azul. – Por favor, por favor. – Eu percebo que ele está sussurrando para si mesmo conforme corre. O mundo passa em uma linha repetida, ralo como um fantasma. Ele só para de correr quando chega em casa, uma residência que agora reconheço. Bate na porta até o pai abrir, o rosto surpreso. – Hideo, o que você está fazendo aqui? – Ele inclina o pescoço e olha atrás de Hideo na calçada. – Onde está seu irmão? Ao ouvir a pergunta, Hideo parece oscilar, e consigo ver que nesse instante ele sabe que o irmão não voltou para casa, ele sabe que alguma coisa terrível aconteceu. Atrás dele, o sol já começou a descer, cobrindo a paisagem de dourado e rosa. Só consigo pensar que é um dia lindo demais. A Lembrança termina. Levo um susto quando o onsen reaparece em torno de mim e de Hideo, com a névoa pacífica da água quente e o brilho das lanternas nas pedras. Eu olho para ele. Hideo não diz nada; não olha para mim. Nem parece mais estar aqui, pois a expressão no rosto dele está distante e sombria. Assustada. Depois de uma pausa, ele mostra outra Lembrança. É a mesma sequência a que acabamos de assistir, só que ele alterou a paisagem do parque, mudando o riacho um pouco para cá, um pouco para lá. Ele abre outra Lembrança. A mesma sequência, mas com os irmãos em posições um pouco diferentes. – Não sei dizer quantas vezes repassei essa cena na cabeça – diz ele por fim, em voz baixa. Ele muda para outra e para outra, cada uma com detalhes sutis modificados. Desta vez, a cena mostra Hideo se

virando alguns segundos antes e chamando Sasuke antes que ele entre no bosque. Outra mostra Hideo tirando Sasuke do parque e o levando para casa antes que eles comecem a brincar. E outra mostra Hideo indo com Sasuke pegar o ovo de plástico em vez de deixá-lo ir sozinho. Meu coração se parte mais e mais a cada nova variação. É um inferno infinito. – Eu me lembro de cada detalhe daquele dia… menos os que importam. Aonde ele foi. Quando eu parei de ouvir os passos nas folhas. Quem o levou. Penso no que poderia ter acontecido se eu não tivesse feito isso. Ou aquilo. Se as coisas mudassem ainda que só um pouco. – Ele balança a cabeça. O maxilar está tão contraído que tenho medo de ele o quebrar. – Não sei. Então, eu sigo construindo. Ele está se torturando. Eu o observo com um nó na garganta quando ele abre outra Lembrança forjada, desta vez da mesma noite, com lanternas dançando pelo parque. As vozes da mãe e do pai dele estão altas e frenéticas, falhando. A cena muda para um pequeno Hideo de joelhos na frente dos pais, chorando, implorando perdão, histérico, inconsolável, enquanto eles tentam fazê-lo se levantar. A cena muda de novo para Hideo deitado na cama, encolhido, em silêncio, ouvindo o choro baixo da mãe vindo do quarto dos pais. Muda para ele acordando todas as manhãs e se olhando no espelho… e vendo uma pequena mecha branca crescendo aos poucos no cabelo preto. Eu faço uma careta. Foi o trauma que o tingiu de branco. E apesar de não ser ele, eu o entendo; mesmo sem o Link conectando nossas emoções agora, consigo sentir a vergonha cruel e permanente que cobre seu coração. Tento imaginar meu pai desaparecendo um dia e nunca voltando, como deve ser passar pelo luto da perda sem ter um encerramento, viver um mistério aberto que gira uma faca para sempre no meu coração. Penso na luz da varanda na entrada da casa dos pais, acesa mesmo de tarde. Imagino essa dor e, mesmo na imaginação, sinto meu coração sangrar. Um longo momento passa depois que a Lembrança termina, preenchido apenas com o som de água batendo em pedra. Quando Hideo fala novamente, a voz dele soa baixa, com o peso de uma culpa que o assombra e consome: – Eles nunca mais falaram sobre Sasuke depois do desaparecimento dele. Culparam a si mesmos, botando a vergonha sobre os próprios ombros, e a carregaram em silêncio. Nossos vizinhos e a polícia também pararam de falar sobre Sasuke, por respeito aos meus pais. Eles não conseguem olhar fotos dele; só consegui salvar o que eu tinha. Ele agora só existe nas esculturas. Minha mãe envelheceu da noite para o dia. Ela se lembrava de tudo; era líder da equipe de neurologia. Agora, põe as coisas no lugar errado e esquece o que estava fazendo. Meu pai desenvolveu uma tosse que nunca passou. Ele fica doente com frequência. – O olhar de Hideo acompanha o caminho da constelação de Gêmeos lá no céu. – Quanto a mim… bem, Sasuke amava jogos. Nós jogávamos todos os dias, inventávamos todo o tipo de brincadeira juntos. Ele era mais inteligente do que eu, gabaritava todas as provas, seria capaz de entrar sem esforço em qualquer academia de elite em que você possa pensar. Eu entendo agora. – Você inventou o NeuroLink por causa do seu irmão – digo. – Warcross foi inspirado no jogo que Sasuke fazia no parque. Você criou Warcross para ele. Hideo faz uma pausa, e a água ondula quando ele se vira para mim. – Tudo que eu faço é para ele. Passo a mão no braço dele. Nada que eu diga pode ser certo nesse momento, então eu não digo nada. Só escuto. – Eu não falo sobre ele, Emika – diz Hideo depois de outro longo silêncio. Ele afasta o olhar de novo. – Não falava dele havia anos. Esse é Hideo, despido de sua fortuna, de sua fama e de sua genialidade. Esse é ele quando garoto, esperando todos os dias pelo retorno do irmão, adormecendo todas as noites com o mesmo pesadelo, aprisionado para sempre em um ciclo de se perguntar o que teria acontecido se tivesse feito alguma coisa, qualquer coisa diferente. É difícil descrever a sensação de perda para alguém que nunca a

vivenciou, impossível explicar todas as formas como ela muda você. Mas, para quem já passou por isso, nenhuma palavra é necessária. Hideo se afasta da beirada da fonte e indica os degraus que levam de volta à casa de banho. Ele me oferece a mão. Eu a seguro, meu olhar desviando como sempre para as cicatrizes nos dedos dele. – Está ficando tarde – diz, delicadamente.

24 Nós jantamos naquela noite com os pais de Hideo. Eu observo o cuidado com que Hideo frita a carne, pica os legumes e coloca arroz no vapor. Enquanto faz isso, a mãe dele fica falando do meu corpo. – Que menina magrinha – diz ela com repreensão gentil, sorrindo para mim. – Hideo, por que você não a alimenta direito? Prepare uma tigela grande para ela. Vai deixar as bochechas dela mais rosadas. – Oka-san – diz ele com um suspiro. – Por favor. Ela dá de ombros. – Estou dizendo, ela precisa estar bem nutrida se quer que a mente trabalhe da melhor forma possível. Lembra o que falei sobre os neurônios usarem a energia transportada pelo sangue? – Troco um sorriso tímido com Hideo enquanto ela inicia uma explicação sobre sangue. É Hideo quem põe a mesa, quem serve a comida para nós e chá para todo mundo. O jantar está tão delicioso que eu gostaria que pudesse durar para sempre: pedaços suculentos e macios de frango fritos com perfeição; arroz brilhante com um ovo frito em cima; legumes levemente temperados como acompanhamento; bolinhos de arroz japonês feitos de farinha de arroz para a sobremesa, recheados com morangos e feijão-vermelho doce; xícaras deliciosas de chá verde quente. Enquanto comemos, os pais de Hideo falam em japonês um com o outro em voz baixa, lançando sorrisos ocasionais para mim, como se achassem que seus movimentos eram furtivos o suficiente para eu não perceber. Cutuco Hideo, ao meu lado. – O que eles estão dizendo? – sussurro. – Nada – responde ele, mas vejo um leve ruborizar em suas bochechas. – Não costumo ter tempo para cozinhar, só isso. Eles estão comentando sobre isso. Eu abro um sorriso. – Mas você preparou o jantar para mim? O sorriso que recebo em troca do criador de Warcross é, dentre todas as coisas, tímido. – Bom – diz ele –, eu queria fazer alguma coisa por você, para variar. – Ele olha para mim com expectativa. – Gostou? Uma caixa de presente de camurça com um skate elétrico de 15 mil dólares. Um voo em um jato particular. Um armário cheio de roupas caras. Um jantar em um restaurante que pertence a ele. Mas nada disso fez meu coração pular como a expressão sincera e esperançosa no rosto de Hideo enquanto ele aguardava para saber se gostei da comida que preparou para mim. Eu encosto o ombro no dele enquanto seguro minha tigela. – Razoável – respondo. Ele pisca de surpresa, mas parece lembrar o que disse para mim no nosso primeiro encontro. Uma gargalhada escapa pelos lábios dele. – Aceito o elogio – diz ele, se encostando na cadeira. Mas há mais alguma coisa. Mesmo enquanto ele conversa tranquilamente com a mãe e o pai, não consigo deixar de pensar nas palavras dele de antes, que Sasuke é um assunto nunca discutido ali, que a dor e a vergonha deles são tão profundas que não suportam ter o retrato do segundo filho em casa. Não me admira nunca ter ouvido sobre isso em todos os documentários a que assisti sobre Hideo. Não me admira ele ter uma política tão rigorosa na empresa de não falar sobre a família. – Eles não querem se mudar – me diz Hideo, na volta para Tóquio. – Já tentei convencê-los mil vezes,

mas eles não querem sair da nossa antiga casa. Então, faço o que posso para garantir a segurança deles aqui. – Segurança? – pergunto. – Tem guarda-costas vigiando a casa deles o tempo todo. Claro que tem. Eu nem reparei, mas agora penso no pedestre na calçada, no jardineiro trabalhando na cerca-viva. Quando o carro dele para nos fundos do alojamento dos Phoenix Riders, é quase meia-noite. Olho para as imagens nas janelas escuras, exibindo agora um interior vazio de carro, para que ninguém nos veja dentro. – Nos encontramos em breve – sussurro para ele, relutante em ir embora. Ele chega mais perto, toca no meu queixo com uma das mãos e me guia a um beijo. Eu fecho os olhos e me inclino. Finalmente, rápido demais, ele recua. – Boa noite – murmura. Tenho que me obrigar a não olhar para trás quando saio do carro e vou para o alojamento. Mas mesmo bem depois que o carro se afasta e me deixa sozinha, a presença de Hideo permanece comigo. Havia uma expressão nova nos olhos dele hoje, do tipo que é aberta para poucos… mas ainda há segredos por trás. Eu me pergunto o que será necessário para revelar mais um.

O RESTO DA SEM ANA passa voando. Na manhã de sexta, o som familiar de Asher batendo com a cadeira de rodas na porta me arranca do meu sono inquieto no quarto do alojamento. – Terceiro jogo! – grita ele, a empolgação óbvia na voz, que se afasta pelo corredor. – Vamos nessa! Vamos acabar com os Cloud Knights em tempo recorde! Eu passo a mão pelo rosto. Estou meio grogue hoje, minha mente sufocada e meu coração ainda disparado por outra rodada de pesadelos, e meus membros estão pesados quando saio da cama. Enquanto me visto, uma mensagem de Hideo surge no meu visor. Boa sorte hoje. Vou estar assistindo do camarote.

Eu balanço a cabeça. Agora ele só está se exibindo para os agressores. Achei que você ia ficar longe dos camarotes.

Nós mudamos as câmeras de segurança, incrementamos o sistema do estádio, e a equipe de seguranças foi dobrada. Eles seriam tolos de atacar no mesmo lugar de novo. Eu vou ficar bem.

Já sei que não há nada que eu possa fazer para convencê-lo de não ir. Bom, tome cuidado, tá? Fique de olhos abertos.

Meus olhos vão estar em você, na verdade.

Uma preocupação chata não sai da minha cabeça, mas as palavras dele ainda arrancam um sorriso de mim. Desço a escada. Os demais Phoenix Riders conversam animadamente a caminho do estádio esta manhã. Sinto-me estranhamente desconectada de tudo. Ren não parece agir comigo de um jeito estranho, mas a indiferença dele me incomoda ainda mais. Talvez eu devesse ter contado para Hideo sobre ele, afinal. Talvez ele tivesse sido desclassificado do jogo de hoje. Eu aperto os olhos e vejo Ren fazer uma piada com Asher. Não. Ele não vai me obrigar a sair da minha zona de conforto. Vou continuar usando-o para chegar ao fundo disso. O estádio parece uma mancha indistinta hoje, e quando entramos na arena e vamos para nossos terminais individuais, sinto como se estivesse caminhando em uma névoa. O apresentador parece distante, e os gritos da plateia viram uma confusão de ruído de fundo. Mantenho a cabeça virada para os camarotes. Realmente, Hideo está lá, cercado de guarda-costas. O mundo fica escuro de repente, e me vejo transportada para outro plano. – Bem-vindos à Fase da Cidade Perdida! O eco da voz do apresentador some quando o mundo virtual se materializa ao nosso redor. Uma luz fraca entra pela superfície do mar acima. Eu me vejo flutuando sobre uma cidade espetacular e arruinada, cercada de todos os lados por paredes de coral colorido. Pilares rochosos se empilham na direção da superfície. Há montes de pedra para todo lado, parecendo outrora grandiosos teatros e casas de banho. Uma luz turquesa brilha de dentro de algumas fendas, formando linhas cintilantes que parecem apontar para o caminho a seguir. As ruínas se prolongam até onde a vista alcança, com pontilhados de sol dançando nas superfícies, e vagando acima há um campo de power-ups brilhando como pedras preciosas. A única coisa que nos impede de nos sentirmos totalmente imersos é o som dos gritos da plateia à nossa volta. Olho para os lados. Meus colegas de equipe estão todos aqui, usando roupas brancas com nadadeiras nos pés e barbatanas nos braços. Eu observo as minhas mãos. Estão equipadas com botões nas palmas. Quando experimento apertar um, meu avatar vai um pouco para a frente. Vai ser assim que vamos nos deslocar. Do outro lado das ruínas, nossos adversários aparecem. Os Cloud Knights. Eles vestem trajes amarelos, se destacando contra os tons azuis do local. Todos os nossos olhos estão voltados para eles… menos os de Ren. Eu o vejo já observando as ruínas, como se procurando alguma coisa. Meu maxilar se contrai. Vá atrás dele. – Jogo! Preparar! Lutem! O jogo começa. Asher grita ordens pelo comunicador, e nos separamos na mesma hora. Do outro lado, os Cloud Knights mergulham para as ruínas, sem dúvida prontos para se perderem no labirinto da estrutura desmoronada. Nós também mergulhamos. Aperto os punhos nos botões das palmas das mãos e sigo para a frente pela água em um movimento veloz, deixando um rastro para trás. Uma barra aparece no centro do meu visor, mostrando quanto oxigênio ainda tenho. Quando chegamos no ponto em que começamos a nos separar, meus colegas reaparecem como pontinhos em um pequeno mapa no meu visor. Mas a única pessoa em quem estou prestando atenção é Ren. Ele nada para longe dos demais, na direção de uma série de colunas desmoronadas que formam uma caverna. Considerando o que aconteceu depois do nosso primeiro jogo, mudo o itinerário de onde Asher me manda ir e vou atrás de Ren. – Emi – diz Asher pelo comunicador. Ele suspira. – Você consegue seguir minhas ordens ao menos uma vez? Eu falei para ir para o centro, na direção do anfiteatro desabado. – Estou vendo uma rota melhor – minto, continuando na minha direção. – Não se preocupe. Asher faz um ruído de quem vai discutir, mas para, como se tivesse se lembrado da minha jogada de sucesso no nosso último jogo.

– Sua única jogada solo – diz ele. – Está ouvindo? – Estou, capitão. Ele desliga. A luz fica fraca ao nosso redor, apenas com raios leves de azul e prateado dançando nas formações de pedra. Eu mantenho o olhar em Ren. Ele segue a um bom ritmo na minha frente e acabou de dobrar uma esquina. Aonde está indo? – E parece que os Cloud Knights garantiram o primeiro power-up raro do jogo! – soa a voz do apresentador à nossa volta. – A Invisibilidade prateada e dourada! Eu devia estar me concentrando no jogo agora. Mas me vejo prosseguindo com a caçada. Meu nível de oxigênio começa a cair. Aviso: restam 25% pisca no meu visor. À frente, vejo um ponto entre as pedras de onde saem bolhas de ar em um fluxo regular… mas, se eu parar agora, talvez não consiga alcançar Ren. Assim, passo direto e sigo em frente. Estou tão perto. De repente, tudo à minha volta muda. As ruínas submarinas somem. Não estou mais flutuando no mar, mas de pé em uma caverna que me envolve, me prende. Uma luz fraca escarlate ilumina o espaço. O som dos gritos da plateia some abruptamente. Eu pisco. O que aconteceu? Na vida real, levanto a mão para ajeitar os fones de ouvido. Tiveram problema? Parece que de repente fui tirada do jogo. Nem consigo mais ver meus companheiros de equipe no mapa. – Olá – digo, girando. Minha voz ecoa. Se meu jogo foi hackeado, eu devia tirar as lentes agora e alertar as autoridades. O jogo teria que ser pausado enquanto o consertam. Mas continuo olhando ao redor, o coração disparado agora. Não. Isso não é acidente. O tom avermelhado do ambiente é parecido demais com o Dark World. Quando pisco novamente, há uma figura alta na minha frente. Ele está com a armadura preta ajustada ao corpo que já me acostumei a ver, e o rosto completamente escondido atrás de um elmo escuro e opaco. A cabeça está virada diretamente para mim. Por um momento, apenas nos observamos em silêncio. A proxy de Zero. Ou um seguidor. Ou talvez ele mesmo. Eu encontro minha voz. – Você é quem Hideo está procurando – digo, dando um passo à frente. – E você é quem anda me seguindo. A lacaia de Hideo. – A voz dele soa grave e distorcida na caverna. É ele mesmo. E sabe quem eu sou. Sabe o que estou fazendo. Na mesma hora, penso no momento em que o vi aparecer no último jogo. Ele preparou uma armadilha para testar se eu conseguia ou não vê-lo? E agora, ele sabotou esse jogo para falar diretamente comigo. – Meus companheiros de equipe vão ver que estou aprisionada – digo para ele. Minhas palavras saem forçadas e frustradas enquanto lembranças do quase assassinato de Hideo surgem na minha mente. – Você não pode ficar interferindo em todos os mundos. Zero chega mais perto, os músculos se movendo embaixo da armadura preta, até estarmos separados por trinta centímetros. Ele olha para mim de cima. – É isso que seus companheiros de equipe estão vendo – diz. Uma janela aparece no centro do meu visor, e observo as ruínas submarinas. Eu me vejo ignorando ordem após ordem de Asher, enquanto preguiçosamente coleto power-ups simples em uma área distante dos demais. Eu me vejo ficando presa em um bolsão sem oxigênio. – Nesse momento, seus colegas acreditam que você conseguiu se isolar em uma caverna submarina nas ruínas – prossegue Zero. – E está ficando sem ar rapidamente. – Por que você está aqui? – pergunto. – O que você quer? – Estou aqui para fazer uma proposta justa – responde ele. A voz ecoa à minha volta. – Uma proposta justa? – De que outra forma eu poderia dizer? Um acordo. Um oferecimento. Uma sugestão. Pode escolher. Minha raiva cresce.

– Eu ando causando problemas para você, não é? Você foi obrigado a falar comigo diretamente? O que é isso, você está com raiva por uma pessoa ter finalmente chegado perto de o expor? – Eu pareço com raiva? – Minhas palavras o fazem rir uma vez. É um som baixo e grave. – Você é boa demais para estar trabalhando para ele. Quanto Hideo lhe paga para mantê-la ao lado dele de forma tão leal? Para ir correndo quando ele assobia? Ou tem mais alguma coisa que a atrai até ele? – Seu charme me encanta – digo com minha voz mais seca. – E se eu superar o valor dele? Eu aperto os olhos. – Você está mesmo me oferecendo um trabalho? – Todo mundo tem um preço. Diga o seu. – Não. Zero balança a cabeça para mim. – Escolha com cuidado. – Eu tomo cuidado. – Toma? – Ele olha para mim, e consigo ver meu avatar refletido no capacete dele. – Porque, até onde eu sei, você andou vivendo uma vida arriscada em Nova York. Porque é incauta na hora de escolher seus… relacionamentos. Um tremor me percorre. Ele andou pesquisando meu passado? Andou me observando? Sabe sobre mim e Hideo? – E você está se metendo com a pessoa errada – digo entredentes. – Eu estava fazendo um elogio. – Essa é sua ideia de elogio? – Não sou famoso por fazer propostas, Emika. Interprete isso como quiser. Eu aperto as mãos em punhos. – Bom, pode pegar sua proposta generosa – digo com voz baixa enquanto me aproximo dele – e enfiar na sua bunda virtual. Ele se inclina para perto de mim. – Todo mundo sempre se acha tão corajoso – comenta. E quando olho para baixo, reparo com horror que o braço da minha roupa, originalmente branco como dos meus companheiros, está ficando preto. Placas de armadura preta envolvem meus pulsos, cobrem meus antebraços e sobem pelos meus ombros. Alinham-se no meu peito e no pescoço, na cintura e nas pernas. Eu sufoco e ofego enquanto me afasto dele, como se a distância pudesse fazer isso parar. Mas, nesse momento, não pareço mais uma Arquiteta. Pareço a caçadora dele, toda vestida de preto. – Fique longe de mim – rosno. – Antes que eu mate você. – Foi você – responde ele – quem veio até mim. As palavras dele só me deixam com mais raiva. – Vou dar mais uma chance de você se entregar – digo. – Vai tornar a vida de todo mundo mais fácil. Ele só fica me observando, a calma silenciosa irritante. Finalmente, ele começa a me dar as costas. – Você vai lamentar isso – diz ele. E então, antes que eu possa gritar qualquer outra coisa, ele some. E a caverna escarlate também. De repente, sou lançada de volta ao jogo. O grito da plateia retorna abruptamente, seguido pela voz chocada do apresentador e do vozerio dos meus companheiros nos meus ouvidos. Olho freneticamente para baixo, esperando me ver ainda presa na armadura preta que parece a de Zero… mas sumiu, como se tivesse sido alucinação. Meu traje branco do jogo está intacto novamente. – Emi? Ems! – grita Asher. – Que merda você está fazendo? – Esquece ela… – soa a voz de Hammie, frenética. – Ela já era. Vou pegar o Artefato agora! Percebo que estou flutuando paralisada, presa em uma área de ruínas com apenas um buraco pelo qual

posso enxergar o resto do jogo acontecer. Asher está tentando em vão afastar três Cloud Knights. Ele vai perder o Artefato. Tento me jogar contra a jaula submarina, mas não consigo… e percebo que é porque não tenho mais oxigênio. Minhas reservas estão em vermelho. Era isso que Hammie queria dizer. Estou morta, fora do jogo até me regenerar. O que aconteceu? – Não acredito! – grita o apresentador agora. – Depois da primeira vitória incrível, os Phoenix Riders podem ser desclassificados cedo este ano se não fizerem alguma coisa logo… Hammie aparece no último segundo, tremeluzindo como um fantasma na água. Ela dispara para cima do Artefato dos Cloud Knights antes que consigam registrar a presença dela, bem na mesma hora que os Knights tentam apanhar o de Asher. As duas equipes pegam o Artefato da outra quase ao mesmo tempo. A plateia grita. Alguns segundos passam antes do placar final aparecer em nossos visores. – Os Phoenix Riders conseguem a vitória por um milissegundo! – grita o apresentador. Quando o mundo some à minha volta e o mundo real, a arena e a plateia gritando, voltam a aparecer, vejo Asher sair da estação dele, furioso. O rosto está contorcido de raiva. Ele olha para mim. Meus outros companheiros também. Eu observo os enormes hologramas do estádio, que estão reprisando segmentos do jogo e me vejo ignorando os demais e sabotando as jogadas deles. Na plateia, vaias misturam-se com aplausos. Alguns pedem replay, dizendo que não vencemos esse jogo. – Que merda foi essa que aconteceu? – pergunta Asher quando se aproxima de mim. – Foi a exibição mais constrangedora e vergonhosa que já vi de um jogador profissional. Você tentou entregar o jogo de propósito. O que eu posso dizer? A figura de Zero ainda está na minha mente, ameaçadora e silenciosa. – Me desculpe – começo a dizer. – Eu… Asher vira a cabeça com repulsa. – Vamos conversar no alojamento. – Com o canto do olho, vejo Roshan balançar a cabeça para mim sem entender, enquanto Hammie afasta o olhar cheia de decepção. Nós vencemos, mas não parece. Meu olhar vai para Ren, que está me observando. Os cantos dos lábios dele se inclinam para cima de leve. Meu maxilar se contrai. Ele sabe. De repente, os hologramas na arena mudam. A plateia fica em silêncio por um momento. Eu fico em silêncio. Meus companheiros todos param ao mesmo tempo. Subitamente, todos explodem em gritos e ofegos. Nesse momento, só consigo arranjar força suficiente para olhar em silêncio perplexo para a imagem granulada que agora está sendo transmitida publicamente para todo mundo na arena e, provavelmente, para todo mundo assistindo ao jogo. Todo mundo no mundo. Não sei quem fez isso e nem como. Mas, de alguma forma, sei que Zero está envolvido. Esse é o começo do ataque dele contra mim. Os hologramas exibem uma foto enorme minha saindo da casa de Hideo à noite, ele se inclinando para me beijar, a mão dele ainda segurando a minha. É inconfundível. A notícia foi divulgada.

25 JOGADORA DO PHOENIX RIDERS CONQUISTA BILIONÁRIO COBIÇADO!

HIDEO TANAKA JOGA COM SUA CORINGA CORINGA ARRUMA NAMORADO BILIONÁRIO

EXCLUSIVO: PRIMEIRAS FOTOS VAZADAS DE HIDEO E EMIKA Quando chegamos ao alojamento, vou direto para o quarto sem dizer nada para ninguém. Estou com medo demais de olhar o celular. Já desliguei minhas mensagens. Mesmo assim, foi impossível não ver as manchetes exibidas nas marquises perto do Tokyo Dome, transmitindo as notícias para o público. Agora, me encolho na cama, o coração disparado pelo ataque. Pela imagem granulada, deve ter sido tirada com uma teleobjetiva absurda de poderosa, de alguma colina remota. Depois de alguns momentos, ligo com hesitação a função de receber mensagens e permito as de Hideo. Uma mensagem dele aparece na mesma hora. Fique em casa. Estou enviando segurança extra para o alojamento.

Estou prestes a responder quando soa uma batida na minha porta. A voz de Hammie chega até mim. – Você vai ficar aí dentro pra sempre? – pergunta ela. – Ou vai nos oferecer algum tipo de explicação? Eu fico um tempo na cama, a cabeça baixa, reunindo forças. Em seguida, suspiro e me levanto. – Estou indo – respondo conforme caminho até a porta. Quando a abro, me vejo de cara para os olhos apertados de Hammie. Ela faz uma capa de tabloide flutuar entre nós. Esse publicou a imagem granulada minha com Hideo, junto com a manchete: AM OR OU TRAPAÇA? – Lá embaixo – diz ela, balançando os dedos uma vez e apagando a capa do visor. Ela se vira para a escada antes que eu possa responder. Hesito e vou atrás. No átrio, Roshan está ativando escudos pretos nas janelas do chão ao teto, em uma tentativa de manter os jornalistas longe, mas ainda consigo ouvir os fotógrafos clicando loucamente, os flashes das câmeras se refletindo no vidro. Antes de as janelas ficarem completamente escuras, tenho um vislumbre do pátio que leva ao portão. Uma multidão de paparazzi se aglomerou ali, alguns tentando passar pela segurança. Dois guardas expulsam um repórter e um câmera que estão correndo para o alojamento. É um frenesi de notícias. Roshan afasta o olhar temporariamente da multidão lá fora para me observar. Sua expressão normalmente gentil foi substituída por desconfiança. Asher me contempla com cara feia. Eu me sento no sofá com Hammie, tentando evitar o olhar de Ren… mas, mesmo assim, sinto a arrogância emanando dele. – Quando você ia contar pra gente? – pergunta Roshan.

– Eu… – Balanço a cabeça. – É complicado. – É? – responde Hammie, olhando com desdém para as janelas escurecidas. – Todas aquelas vezes que você não quis ficar com a gente foi porque estava saindo para ver Hideo Tanaka? Nós devíamos ser uma equipe, Emi. Mas obviamente você achava que não éramos capazes de lidar com seu relacionamento. Olho para ela de cara amarrada. – O que está acontecendo entre mim e Hideo não tem nada a ver com o que eu sinto por vocês e pela equipe. Asher me encara com expressão dura. – Tem tudo a ver com a gente. Nós entramos na rodada final do campeonato, mas agora as pessoas acham que vencemos injustamente. Elas acreditam que o favoritismo de Hideo por você fez os juízes entregarem a vitória para os Phoenix Riders. – Não, ficou claro que nós vencemos – interrompe Roshan. Ele está me observando, me dizendo silenciosamente para me defender. – E deve ser difícil falar sobre um relacionamento que chama tanta atenção. Não é? Nós estamos ouvindo, Em, mas você tem que nos dar alguma coisa. Se você soubesse metade da história. – Como eu poderia tocar no assunto? Era uma coisa da minha vida pessoal. Eu não achava que tinha que misturar com os nossos treinos. – Só que misturou – diz Hammie. – Você sempre estava pronta para pular fora de qualquer momento conosco ou sair mais cedo do treino. E que exibição ridícula foi aquela hoje? Asher assente para as palavras de Hammie enquanto continua olhando para mim. – Você ignorou tudo que eu disse. Você me falou que sabia o que estava fazendo. Dei o benefício da dúvida porque tinha fé em você, porque você já tinha se provado antes, mas… – Ele faz uma pausa frustrada. – Eu sou seu capitão. Escolhi você como a primeira coringa. Me esforcei muito para construir uma equipe desse calibre. Mesmo que a gente consiga vencer o campeonato este ano, quem vai acreditar que merecemos? Já consigo ver as manchetes. Phoenix Riders chegam ao topo na base da trapaça. – Ah, pare com isso – respondo, elevando a voz agora de frustração. – É só um jogo. Eu… – É só um jogo? – interrompe Hammie. Todo mundo ao meu redor fica tenso, e sei que eu disse a coisa erada. É exatamente o que sempre odiei ouvir dos outros. Começo a me corrigir, mas ela se inclina para a frente e me olha com irritação. – Então por que você está aqui? Por que está competindo em Warcross se está tão abaixo de você? Você não morava nos esgotos de Nova York antes de vir para cá? – Você sabe que não foi isso que eu quis dizer. – Então você devia parar com a mania de falar coisas que não quer dizer. Eu sou muito boa em Warcross. Ser boa em Warcross permitiu que eu comprasse uma casa para a minha mãe, que enviasse minha irmã para uma boa faculdade. – Ela faz uma pausa para esticar as mãos na direção do alojamento. – É por isso que todo mundo ama Warcross, não é? É por isso que somos todos loucos pelo NeuroLink… por que você usa? Não é porque torna as coisas possíveis? – Não foi isso que eu quis dizer – repito. – Tem muita coisa que vocês não entendem. Quando há muito mais em jogo do que um campeonato, então, sim… é só um jogo. Eu não planejei minha explosão corretamente, e me arrependo de algumas coisas na mesma hora. Hammie faz expressão de incredulidade. Depois, de ceticismo. Ali perto, Ren me observa, curioso. Ele está me desafiando a dizer mais. – Espere – diz Roshan, fazendo um gesto de giro com um dedo. – Então isso não é só um casinho. O que você quer dizer com tem muito mais em jogo? Eu respiro fundo. Tudo está na ponta da minha língua agora, pronto para ser despejado… mas paro antes de dizer demais. Ren ainda está aqui, sentado conosco. Zero me ameaçou. Não vale a pena botar os outros em risco. Eu resmungo um palavrão e me levanto. – Me desculpem.

Hammie apoia os cotovelos nos joelhos. – Você está escondendo mais coisa de nós. E não consigo entender por quê. – O que você não está nos contando, Em? – pergunta Asher, a voz muito baixa agora. – Eu tenho meus motivos. Uma certa solidariedade aparece nos olhos de Roshan. O canto do lábio de Ren se levanta novamente, um movimento tão sutil que mais ninguém nota, e seus olhos me observam com mais dureza. Eu o encaro de frente, me recusando a dar a ele a satisfação de me intimidar. Em seguida, me viro e volto para o meu quarto. Asher chama meu nome, mas eu não respondo. Cuidado, Emika. A voz ecoa nos meus ouvidos. Paro na mesma hora. Ali, no meu visor virtual, está Zero, no final do corredor que leva para o segundo andar, a silhueta envolvida na armadura preta e o elmo opaco virado para mim. Minha boca fica seca quando o vejo. Eu avisei, diz ele. – O que você está fazendo aqui? – digo, com voz rouca e falhada. Atrás de mim, ouço a voz de Hammie se aproximando. – Emi – diz ela –, com quem você está falando? Ele só me olha calmamente. Verifique suas Lembranças. Meus Mundos de Lembrança. De repente, meu coração se contrai. Digito um comando rápido e abro uma janela para procurar meus Mundos de Lembrança, todas as partes cuidadosamente compartimentalizadas do meu pai que passei tanto tempo revisitando. Não. Por favor. Quando o resultado aparece, eu fico paralisada. Os arquivos estão vazios. A opção Novo Mundo de Lembrança paira acima deles. Eu tremo. Impossível. Coloquei todos os tipos de proteção de segurança neles, enterrei fundo nas minhas contas para que nada pudesse acontecer com eles, protegi-os na nuvem, clonei-os múltiplas vezes em uma abundância de cautela. Procuro freneticamente minhas versões clonadas agora. Mas também sumiram. Meu pai cantarolando alegremente à mesa de jantar enquanto corta tecidos. Meu pai elaborando decorações de Natal à mão comigo. Meu pai me mostrando como misturava tintas. Meu pai dividindo amendoim torrado comigo no Central Park; andando por corredores de museu; comemorando meu aniversário. Zero apagou tudo. Estou atordoada, tonta de dor. Fique fora do meu caminho e eu talvez devolva tudo para você. Continue e isso vai ser só o começo. Meus dedos se fecham com força ao lado do corpo. Minha raiva se afia como uma lâmina na direção da silhueta de armadura à frente. Demoro um segundo para perceber que as lágrimas estão deixando minha visão borrada. Atrás de mim, Hammie finalmente se aproxima. – Emi, o que está acontecendo com você? – diz ela. A cabeça de Zero se inclina de leve. Como se estivesse debochando de mim. Tarde demais. Nesse momento, uma explosão irrompe no nosso alojamento.

26 Uma tubulação de gás com defeito. Essa é a explicação pública dada para a explosão. Só entendo direito o que aconteceu quando vejo transmitido na pequena televisão do meu quarto de hospital. De fora, parece horrendo: em um momento, o alojamento da Phoenix Riders ainda está de pé e no seguinte, uma explosão ensurdecedora e uma bola de fogo laranja surgem do teto do átrio. Janelas se estilhaçam e lançam vidro para todo lado. Enquanto o fogo se espalha fora de controle, despejando fumaça preta no ar, as luzes dos alojamentos próximos são acesas e os jogadores das outras equipes se aproximam correndo. Alguns gritam. Outros ficam parados com as mãos na cabeça, sem saber o que dizer. Mas a maioria se aproxima das nossas janelas, chamando por nossos nomes. Até Tremaine, o intimidador e odioso Tremaine, está lá, ajudando Roshan a puxar Asher por uma janela. Os carros de bombeiro chegam, junto com as ambulâncias. Luzes piscam e enchem a tela da TV. Há um repórter falando na frente do nosso alojamento, depois entrevistando Hammie, parecendo desperta e atordoada enquanto aperta um cobertor em torno do corpo. Asher sofreu cortes e hematomas por causa do vidro quebrado, assim como Roshan, mas, milagrosamente, todos nós saímos vivos. Mas isso não quer dizer que não estamos todos abalados. – Srta. Chen – diz uma enfermeira quando espia pela minha porta, inclinando a cabeça uma vez. – Você tem visita. Eu me sento, abraçando as minhas pernas, e assinto silenciosamente. Meus membros parecem dormentes. – Tudo bem – respondo. Ela sai, e um momento depois volta com duas pessoas. É Roshan, segurando uma caixa, seguido de Hammie. Parecem não dormir há dias. Eu abro a boca para dizer oi, mas Hammie só balança a cabeça e estica os braços para me puxar para um abraço. Eu faço uma careta; meus braços ainda estão ardendo dos arranhões que sofri, enquanto minhas costas doem porque a explosão me jogou longe. – Ai – digo, mas a sensação boa do abraço supera a dor, e eu me apoio nela. – Ash mandou um beijo – diz ela, encostada no meu ombro. – O irmão e os pais estão com ele no quarto do hospital. – Me desculpa – sussurro para ela, meus olhos se enchendo de lágrimas. A explosão me abalou demais. – Me desculpa, Ham… – Você não se lembra de nada, não é? – diz ela, se afastando um pouco para me olhar. – Você meio que me carregou até a porta dos fundos antes de desmaiar. Pare de pedir desculpas. A explosão, o fogo, a fumaça, uma remota lembrança de gritar o nome de Hammie enquanto estamos encostadas uma na outra. Eu balanço a cabeça repetidamente. Roshan se aproxima com a caixa, fazendo uma careta. – Nós salvamos o que conseguimos – diz ele. Quando abro a caixa, vejo os cacos da minha decoração de Natal, junto com pedaços chamuscados do que devia ser a pintura do meu pai. Passo a mão pelos restos. O nó na minha garganta aumenta até eu não conseguir mais engolir. Eu seco os olhos com a mão. – Obrigada – respondo enquanto coloco a caixa com cuidado ao meu lado.

Roshan se inclina para perto. – Com base no pouco que sabemos, Ren está sendo interrogado pela polícia agora. Não caio nesse papo de vazamento de gás. – Mas você sabe mais sobre isso do que nós, não é, Emi? – acrescenta Hammie, observando meu olhar. – Você tem que nos contar o que está acontecendo. Nós merecemos saber. Suas vidas foram ameaçadas também. Mas mesmo assim hesito. Se eu contar tudo para eles, posso acabar só os colocando mais em perigo. Eles podem cair no radar de Zero. Eles nunca pediram para serem envolvidos em nada disso, não entraram no campeonato para caçar um criminoso, não receberam dinheiro para se botarem em risco. Hammie me observa como se eu fosse um tabuleiro de xadrez. – Você me lembra como eu era anos atrás – diz ela. – Sempre ofereci ajuda aos outros… mas me recusava a aceitá-la. Minha mãe me repreendia por causa disso. Sabe o que ela me disse? Que quando você se recusa a pedir ajuda, está dizendo aos outros que eles também não devem pedir ajuda a você. Que você os despreza por precisarem da sua ajuda. Que você se sente superior a eles. É um insulto, Emi, aos seus amigos e colegas. Então, não seja assim. Nos deixe ajudar. As palavras de Hammie me acertam no meio do peito. Apesar de eu ter mentido antes, sei que os dois conseguem ver a verdade na minha cara, que estou envolvida em uma coisa que vai além da minha capacidade. Uma coisa que poderia tê-los matado. Estou acostumada a trabalhar sozinha. Mesmo que contasse tudo a eles, em que ajudaria de verdade? Vou mesmo arrastar os dois nessa caçada comigo? Mas não é uma caçada comum, e Hideo não é um cliente comum. Se nossas vidas estão todas em perigo, temos problemas maiores para enfrentar do que se confio ou não nos meus companheiros de equipe. A menção ao meu nome na TV nos faz virar para a tela ao mesmo tempo. O âncora está falando ao lado de uma foto minha, tirada quando eu estava comemorando nossa primeira vitória com os outros Riders. – … que hoje de manhã, Hideo Tanaka anunciou que dois jogadores foram removidos dos Phoenix Riders, atualmente uma das equipes com melhor pontuação em Warcross: o Guerreiro, Renoir Thomas, e a Arquiteta, Emika Chen. Nada foi dito sobre os motivos por trás da decisão, embora especulações… Remoção da equipe. Todo o ar some dos meus pulmões. Roshan e Hammie se viram para mim. – Removidos? – sussurra Hammie, ríspida. Roshan fica quieto e observa meu olhar. Ele parece prestes a dizer alguma coisa, mas decide ficar quieto. Só hesito mais uma vez. Então puxo Roshan e Hammie para outro abraço. – Hoje à noite – sussurro no ouvido deles. – Prometo. Não posso falar em voz alta agora. – Eu me separo deles e digo: – O fato de vocês terem trazido essa caixa para mim é ajuda suficiente. Roshan franze a testa, mas Hammie dá um aceno imperceptível. Ela tenta sorrir. – Tudo bem – responde ela. Parece a resposta certa ao que falei, mas sei também que significa que ela entendeu o que eu quis dizer. – Srta. Chen – diz a enfermeira ao entrar novamente. – Você tem outra visita. Roshan e Hammie trocam outro olhar comigo. Em seguida, se levantam e saem do quarto. Um momento depois, a enfermeira abre mais a porta para o novo visitante. Hideo entra no quarto, o rosto uma máscara de raiva e preocupação. Ele gruda o olhar no meu, e parte da expressão se dissolve em alívio. – Você está acordada – diz ele enquanto se senta na lateral da cama. – Você não pode fazer isso – digo, apontando para a televisão. Minha mente ainda está girando. –

Removida? De verdade? Por que você não me contou? – Você queria que eu deixasse os dois e botasse a vida de todos em risco? – diz Hideo. – Nós não sabíamos quanto tempo você demoraria para acordar. Eu tinha que tomar uma decisão. – Seus olhos estão escuros de fúria, mas parece ser direcionada para dentro; sua expressão me lembra como ele ficou enquanto falava sobre o irmão. – E aquela história de não ceder a intimidações? – pergunto. – Isso foi antes de Zero ameaçar você e os outros jogadores. – Como me tirar do torneio impede o que Zero está planejando fazer no jogo final? – Não impede. – Hideo contrai o maxilar. – Mas eu prefiro não vê-la envolvida nisso. O motivo para botar você no jogo foi para que tivesse melhor acesso a informações, mas acho que você já coletou tudo que era possível como uma integrante oficial de equipe. – Ele suspira. – É minha culpa. Eu devia ter tirado você do time há muito tempo. A ideia de abandonar minha equipe e sabotar as chances deles de vencer… Fecho os olhos e baixo a cabeça. Respire. – Eu ouvi que Ren está conversando com a polícia. – Ele está sob custódia, sim, sendo interrogado. Eu começo a balançar a cabeça. – Você não vai tirar nada dele assim. A detenção de Ren só vai alertar Zero de que você está na cola dele, e ele vai mudar suas operações mais para o subterrâneo. Hideo, pense bem. Na próxima vez que eu for a um jogo patrocinado no Dark World, eu não vou ter… – Você não vai fazer isso – interrompe Hideo. Seu olhar procura o meu, escuro e decidido. – Estou tirando você do serviço. Eu pisco. – Você está me demitindo? – Eu ainda vou pagar a recompensa – responde Hideo. Por que ele parece tão distante? A tensão o faz parecer frio, até hostil. Minha cabeça está girando. Mas… toda porta trancada tem uma chave. Eu ainda não encontrei a chave. Não posso ir embora agora. – Não é pela recompensa – digo. – Você merece. O dinheiro já está na sua conta. Os dez milhões. Eu começo a balançar a cabeça de repulsa. – Você tem que parar de fazer isso. Por que você sempre acha que pode jogar dinheiro nas pessoas e fazer com que elas simplesmente te obedeçam? – Porque foi o motivo que a trouxe até aqui – diz Hideo, a voz tensa. – Estou te dando o que você queria. – O que você sabe sobre o que eu queria? – Minha voz se ergue. Sinto o calor das bochechas. Vislumbres do meu pai aparecem nos meus pensamentos… depois de mim mesma encolhida na cama do orfanato, lutando para encontrar um motivo para viver. Todos os meus Mundos de Lembrança sumiram, foram apagados, roubados por Zero. Não posso olhar as lembranças do meu pai se quiser. – Você acha que estou aqui só pelo dinheiro? Acha que pode resolver tudo preenchendo um cheque? Os olhos de Hideo parecem se fechar. – Então nos entendemos menos do que eu pensava. – Ou talvez você não esteja me entendendo. – Aperto os olhos para ele. – Eu vi Zero no alojamento antes da bomba explodir. Escute: ele não apareceu lá para me ameaçar por mero impulso, nem simplesmente porque agora sabe quem eu sou. Nós rastreamos Ren e temos prova de que ele está ligado à missão de Zero. Você até o tem sob custódia agora. Isso quer dizer que Zero se sente ameaçado. Ele acha que estamos chegando perto, e é por isso que está atacando. Plantar uma bomba significa que ele está

correndo o risco de alertar as autoridades em uma tentativa de me tirar do rastro dele. Nós o encurralamos em um canto. Toda a vantagem está do nosso lado. – E isso quer dizer que ele está mais imprevisível – conclui Hideo. – Ele é uma pessoa sobre quem ainda não sabemos nada, e não vou esperar outra bomba explodir só porque quero que você o pegue para nós. – Só porque você me tirou do trabalho isso não significa que ele não vai mais atacar. – Eu sei. Foi por isso que cancelei todos os eventos em domos. – Todos os eventos em domos? No mundo todo? – Eu não vou permitir que pessoas se reúnam aos milhares em estádios do mundo todo, não se houver risco para elas. Elas podem apreciar o resto do torneio do conforto de seus lares. Não, eu não posso desistir agora. Meu pânico antigo e familiar está crescendo novamente, o pavor de ver um muro subir entre o problema e a solução. De ficar observando com impotência enquanto o perigo envolve alguém que eu amo. Tem algo faltando aqui, como se um novo desenvolvimento tivesse mudado a opinião de Hideo sobre tudo de repente. – Você sempre soube que o trabalho envolvia riscos. Por que está me retirando agora? Está com tanto medo assim de me ver ferida? – Estou com medo é de envolvê-la em uma coisa bem maior do que você, uma coisa da qual você nem escolheu participar. – É isso que eu faço – insisto. – E sei o que estou fazendo. – Não estou questionando seu talento – responde Hideo, demonstrando irritação agora. Ele parece querer dizer mais alguma coisa, mas para e balança a cabeça. – Agora, só quero minimizar qualquer risco e garantir que ninguém saia ferido. – Ele olha para mim. – Você já fez seu trabalho, Emika. Nos deu informações suficientes para saber quando as operações de Zero vão acontecer, e rastreou uma pessoa envolvida nos planos dele. É suficiente para mantermos o público protegido. Já dispensei os outros caçadores também. A polícia vai assumir a partir daqui. – Mas você ainda não capturou Zero. Isso não é terminar meu trabalho. Se você tiver uma explicação melhor do que essa, eu gostaria de ouvir. – Eu já dei para você. – Não deu, não. – Você quer uma explicação melhor? – Quero – respondo, elevando a voz. – Acho que mereço uma. A raiva brilha quente nos olhos de Hideo agora. – Estou mandando você ir embora, Emika. – Eu não aceito ordens de um ex-chefe – digo com rispidez. Hideo aperta os olhos. De repente, ele se inclina para a frente, coloca a mão na minha nuca e me puxa para perto. Ele me dá um beijo intenso. Minha enxurrada de palavras para de repente. Uma faca corta minha raiva crescente. Ele se afasta, a respiração entrecortada. Estou surpresa demais para fazer qualquer coisa além de ofegar e tentar respirar. Hideo encosta a testa na minha e fecha os olhos. – Vá embora. – A voz dele está rouca, desesperada, furiosa. – Por favor. – O que você não está me contando? – murmuro. – Eu não posso em sã consciência deixar você nesse trabalho. – A voz dele fica mais baixa. – Se não acredita em todos os meus outros motivos, ao menos acredite neste. Antes disso tudo acontecer, eu me sentava na cama e lia um artigo atrás do outro sobre Hideo, querendo saber como seria conhecê-lo um dia, ser tão bem-sucedida quanto ele, trabalhar com ele, e falar com ele e ser como ele. Mas agora Hideo está à minha frente, expondo um mecanismo interno e frágil do seu coração, e me vejo sentada aqui observando-o, nervosa e confusa.

Está faltando algo. Tem algo que ele não está me contando. Será que Zero o ameaçou de alguma forma também? Será que me ameaçou na frente de Hideo, instigando-o a me remover deste trabalho? Eu balanço a cabeça e abraço mais os joelhos. Minha mente gira. Ele me observa por um momento. – Você e seus companheiros de equipe vão ser levados para um lugar seguro. Nos vemos depois que o torneio acabar. – Ele se levanta e sai do meu quarto.

27 Naquela noite, durmo mal. A cama de hospital não reclina direito, e o que quer que eu faça, não consigo ficar confortável nela. Quando finalmente adormeço, lembranças antigas se misturam com meus sonhos, cenas de quando eu tinha 8 anos, quando minha vida ainda era em Nova York. Voltei para casa um dia com meu anuário nos braços. – Papai, chegou! – gritei, assim que fechei a porta. A escola tinha deixado minha turma de terceiro ano decorar a capa do anuário, e passei a semana inteira desenhando com capricho espirais elaboradas nos cantos da capa. Demorei um segundo para perceber que nossa casa estava totalmente desarrumada: havia tiras de papel para aquarela pra todo lado, roupas cortadas em pequenas pilhas no chão, pincéis e potes espalhados pela mesa de jantar. Em um canto da sala estava um vestido casual no qual meu pai estava trabalhando, preso em um busto de manequim em mais de dez lugares. Joguei a mochila junto à porta e vi meu pai passar correndo por mim, com alguns alfinetes entre os lábios. – Pai – falei. Como ele não respondeu, eu elevei a voz. – Pai! – Você está atrasada. – Ele me olhou de cara feia e voltou ao ritmo de trabalho. – Me ajude e tire as ervilhas do freezer para descongelar. – Desculpa… eu estava terminando o dever na biblioteca. Mas, olha! – Eu mostrei o anuário com um sorriso. – Chegou. Eu tinha certeza de que os olhos dele saltariam para as espirais na capa, que ele abriria o sorriso familiar e se aproximaria correndo para olhar melhor. Ah, Emi, ele diria. Veja só como o seu delineado saiu bonito! Em vez disso, ele me ignorou e começou a prender outra parte do vestido com alfinetes. Ele estava cantarolando sozinho, uma melodia que eu conhecia, mas não consegui identificar, e as mãos tremiam de leve enquanto ele trabalhava. Eu estava encrencada? Pensei em uma lista de coisas possíveis que eu podia ter feito errado, mas não cheguei a lugar nenhum. – O que você vai fazer para jantar? – perguntei, tentando atraí-lo para uma conversa enquanto colocava o anuário na bancada da cozinha. Ele não respondeu. Peguei os pincéis espalhados pela mesa de jantar e os coloquei de volta no pote com um estalo, depois limpei a mesa com um pano úmido. O laptop dele estava aberto na mesa, e tive um vislumbre de um site com números vermelhos em negrito, junto com imagens de dados e cartas e um símbolo que eu ainda não sabia que pertencia a uma gangue. Dizia: -U$3.290. – Pai – disse. – O que é isso? – Não é nada – respondeu ele sem se virar. Eu ainda não entendia que era um site de apostas que pertencia a um grupo criminoso, mas sabia o que significava um sinal de menos na frente de números vermelhos. Suspirei alto. – Pai. Você disse que não devia ficar gastando dinheiro assim. – Sei o que eu disse. – Você disse que ia parar. – Emika. Eu não percebi o aviso na voz ele.

– Você prometeu – insisti, mais alto. – Agora você não vai ter dinheiro de novo. Você disse… – Pare de falar. A voz dele estalou como um chicote. Eu parei, minhas palavras murchando na língua, meu rosto virado em choque para a expressão do meu pai. Os olhos dele tinham finalmente encontrado os meus, e a luz neles brilhava febrilmente com fúria, vermelhos de tanto chorar. Em um segundo, entendi o que tinha acontecido. Só havia uma coisa capaz de transformar meu pai de um homem gentil e alegre em uma pessoa raivosa e cruel. Ele tinha tido notícias da minha mãe. A luz furiosa já tinha começado a sumir do rosto dele. – Eu não pretendia falar assim – disse ele, balançando a cabeça, como se confuso. – Emi… Mas minha raiva tinha emergido agora. Antes que meu pai pudesse dizer qualquer coisa, recuei um passo e apertei os lábios. – Ela mandou mensagem, não foi? O que disse desta vez? Que sente sua falta? – Emika. – Ele esticou a mão para pegar meu braço, mas eu já tinha me afastado e estava correndo para o quarto. Um zumbido ecoava nos meus ouvidos. A última coisa que vi antes de bater a porta foi meu pai parado na frente da sua criação parcial, sozinho, os ombros murchos, virado na minha direção. Em seguida, subi na cama e comecei a chorar. Horas se passaram. Mais tarde, minha porta foi aberta dois centímetros, e vi meu pai espiar dentro do quarto, segurando um prato cheio de fatias de pizza. – Posso? – disse ele baixinho. Fiz cara feia embaixo do cobertor quando ele entrou e fechou a porta. Havia círculos escuros em volta dos olhos dele. Pela primeira vez, me dei conta do quanto meu pai parecia exausto, que não devia dormir havia dias. Ele se sentou na beirada da minha cama e esticou o prato para mim. Eu queria ser teimosa, ficar com raiva, mas meu estômago roncou com o cheiro do tomate e do queijo derretido, e eu me sentei e peguei uma fatia. – Seu anuário está lindo, Emi – disse ele depois de eu ter engolido uma fatia inteira. Me ofereceu um sorriso cansado. – Dá para perceber como você se dedicou. Dei de ombros, ainda não preparada para deixar a gafe dele passar batida, e peguei uma segunda fatia de pizza. – O que aconteceu com você hoje? – resmunguei. Ele ficou em silêncio por um longo momento. – O que ela queria desta vez? – perguntei. Mas eu já sabia. A cada seis meses, mais ou menos, minha mãe fazia contato com ele porque sentia saudades, mas acabava desaparecendo de novo. Ela nunca me mencionava. Nem uma vez. Quando perguntei de novo, meu pai finalmente pegou o celular. Ele o entregou para mim sem dizer nada. Eu olhei a tela. Minha mãe mandou para ele uma foto da mão. No dedo havia um anel de diamante bem grande, cortado em um quadrado brilhante. Fitei os olhos cansados do meu pai. Ela era tão linda. Mas a beleza pode fazer as pessoas perdoarem mil crueldades. Nós ficamos sentados por um tempo sem dizer nada. Em seguida, toquei na mão do meu pai em silêncio. Ele olhou para baixo, para longe de mim, com vergonha de encarar meus olhos. – Me desculpe, Emi – disse ele com voz baixa. – Me desculpe. Eu sou um idiota. Eu só balancei a cabeça. E quando passei os braços pelo pescoço de meu pai, ele me abraçou com força, tentando juntar os cacos das vidas que minha mãe deixou para trás.

EU DESPERTO DO SONHO, as mãos apertadas em punhos. O horário no meu celular indica que são 3h34 da madrugada, e a televisão do meu quarto ainda está ligada, transmitindo notícias. Fico parada no silêncio. Demoro para finalmente abrir as mãos e me permitir relaxar na cama. Vejo o noticiário sem prestar muita atenção. O repórter já começou a discutir os coringas substitutos que vão entrar no meu lugar e no de Ren. – … Brennar Lyons, fase 72, um coringa da Escócia que agora vai representar os Phoenix Riders como novo Arquiteto. E Jackie Nguyen, Guerreira… A voz do repórter vira um ruído indecifrável quando começo a lembrar dos meus colegas de equipe. O que eles estão pensando agora? A explicação pública para a remoção de Ren foi que ele foi pego apostando. A explicação no meu caso foi que recebi ameaças de morte após as notícias do meu relacionamento com Hideo terem sido divulgadas. Hideo. A declaração dele se repete na minha mente, com a clareza e a precisão de uma gravação de Lembrança. Meus olhos se desviam para a caixa que Roshan e Hammie me deram antes de irem embora, e a pego de novo e abro, para passar os dedos na decoração quebrada e nos pedaços de tela. Meus batimentos ainda parecem elevados; meu peito ainda dói. Dou um soco na cama. Zero vai escapar. Meus pensamentos repassam o que conseguimos descobrir até o momento. Coordenadas de todas as grandes cidades onde torneios de Warcross aconteceriam. Áreas adulteradas dentro de cada mundo de Warcross no campeonato. Um arquivo que se autodestruiu; uma tentativa de assassinato. E uma trilha sonora que Ren criou, potencialmente para ser tocada durante o jogo final de Warcross. Tantas peças. Eu as repito na cabeça até as notícias na TV terem terminado e voltarem para o começo. De repente, uma mensagem aparece no meu visor. Meus pensamentos se perdem por um momento, e olho para o recado para lê-lo. Como essa mensagem chegou? Não é de alguém aprovado. Na verdade, não tem indicador de remetente. Eu hesito… mas levanto a mão e clico nela. Para você, de um caçador para outro. Só diz isso. Eu solto o ar que não sabia que estava segurando. De outro caçador? De alguma forma, um dos outros caçadores de recompensa descobriu uma forma de invadir meus escudos. Ele sabe quem sou. Viro a cabeça para a câmera de segurança no canto do teto do meu quarto, me perguntando se está hackeada para me observar, e minha atenção volta para a mensagem. Há um botão de Aceitar convite? Eu me sento mais ereta. E, com dedos trêmulos, decido aceitar. Uma figura virtual se materializa a poucos metros de distância, as mãos e os braços escondidos em braçadeiras e luvas. Os olhos azuis são incrivelmente brilhantes. Levo um susto quando vejo o rosto dele. É Tremaine. Ele levanta uma sobrancelha quando vê minha expressão de choque. – Oi, Princesa Peach – diz, um sorrisinho se abrindo no rosto. – Que honra. – Eu… – começo a dizer, mas paro de repente. – Você é um dos outros caçadores de Hideo? Ele me oferece uma reverência debochada. – Fiquei tão surpreso quanto você está agora quando descobri sobre você. – Como foi capaz de enviar uma mensagem através dos meus escudos? – Você não é a única com alguns truques na manga. – Por que está me contatando? Por que está mostrando o rosto? – Relaxe, Emika. Eu descobri uma coisa na qual você talvez esteja interessada. – Antes que eu possa

perguntar o que é, ele levanta a mão e faz um movimento giratório. Um arquivo se materializa entre nós e paira no ar como um cubo azul luminoso. – Você tem a outra parte desse arquivo – diz ele. Eu franzo a testa para o cubo luminoso por um segundo até me dar conta de que estou olhando para a outra peça do proj_gelo_HT1.0. O mesmo arquivo que peguei de Ren antes da tentativa de assassinato de Hideo. – Como vou saber que você não está só tentando me enviar um vírus? Ele parece ofendido de verdade pela minha pergunta. – Você não acha que eu conseguiria encontrar uma forma mais sutil de fazer isso? Estou tentando te ajudar, sua idiota. Faço cara feia e trinco os dentes. – Por quê? Nós somos rivais. Ele sorri de novo, leva dois dedos casualmente à testa e faz uma saudação. – Não mais, pois Hideo nos tirou do serviço. Já recebi um pagamento de compensação, então não tenho muito incentivo para permanecer na caçada. Estou com trabalhos maiores em que me concentrar agora. – Ele inclina a cabeça para mim. – Mas aposto que você ainda quer proteger Hideo, não quer? Eu coro, irritada. Ele indica o arquivo. – Achei que não fosse fazer diferença se eu transferisse para você o que peguei. Um presente de um caçador para outro. Assim, se você encontrar Zero, vai saber quem é responsável pela sua vitória. Eu balanço a cabeça, indisposta a tocar no arquivo. – Não confio em você. – E eu também não gosto de você. Mas não temos tempo para isso agora, temos? Nós nos encaramos por mais um momento antes de eu finalmente esticar a mão e aceitar o arquivo. Por uns instantes, espero que algo no meu visor dê horrivelmente errado, da forma como aconteceria se eu tivesse baixado um vírus. Mas nada acontece. O arquivo parece limpo. Talvez ele esteja sendo sincero. Eu olho para Tremaine. – Você ajudou Roshan a tirar Ash do nosso alojamento – digo. Ao ouvir isso, a expressão dele oscila. Eu me pergunto se a mudança dele teve alguma coisa a ver com aquele momento; se ele, como outro caçador, também entende o que realmente aconteceu. Tremaine dá de ombros e se vira. – Só diga para Roshan que eu dei uma passadinha – murmura ele. Antes que eu possa falar qualquer outra coisa, ele some, me deixando sozinha de novo no quarto, olhando entorpecida para o local onde a forma virtual dele estava um momento antes. Como isso é possível? Penso na festa da cerimônia de abertura, quando o confrontei junto com Max Martin, quando ele me desprezou. Os dados dele pareceram perfeitamente normais, disfarçados para serem indistinguíveis dos de um jogador comum; eu nem vi escudos instalados para protegerem as informações. Ele provavelmente montou um sistema elaborado de informações falsas para enganar qualquer um que tentasse examiná-lo. Também devia estar me investigando. Tremaine estava na minha cara e eu deixei passar. Seu filho da mãe ardiloso, penso. Aperto os olhos para o arquivo, tentando entender. Está todo picotado e ilegível, como a parte que eu tenho. Meu olhar se desvia para o conteúdo da minha caixa. Minha decoração de Natal e o quadro do meu pai foram destruídos, mas não é porque foram destruídos que algumas partes deles, ainda que pequenas e quebradas, não ficaram para trás. E se há peças suficientes, dá para ver como o objeto original devia ser.

Abro um menu principal e bato os dedos rapidamente nas coxas. Uma lista aparece. Eu a examino de trás para a frente até chegar ao dia do nosso primeiro jogo de Warcross. E faço uma pausa. proj_gelo_HT1.0 Eu clico no arquivo. Como esperado, uma mensagem de erro aparece, me dizendo que ele não existe mais. Mas, desta vez, passo um hack que força o arquivo a abrir mesmo assim. O quarto de hospital à minha volta desaparece, e estou imersa em um campo de código fantasma emaranhado. Não faz sentido nenhum, está parcialmente corrompido, assim como o arquivo que Tremaine enviou. Pego-o e rodo os dois arquivos juntos, unindo-os em um só. De repente, há informação suficiente para o arquivo abrir. É uma Lembrança. Estou na Lembrança gravada de outra pessoa, dentro de um espaço enorme e mal-iluminado. Uma estação de trem? Seja o que for, é um local real, físico. Teias decoram o espaço entre arcos, enquanto raios estreitos de luz cortam a escuridão e pontilham o chão. Há pessoas reunidas em um círculo irregular, mas elas estão em silêncio, os rostos escondidos nas sombras. Outros aparecem como figuras virtuais, como se estivessem logadas em locais distantes para comparecerem. – A música está pronta – diz alguém. Levo um susto ao perceber que as palavras são da pessoa através da qual assisto a tudo. É a voz de Ren. É uma das Lembranças de Ren. Uma das figuras na escuridão assente tão de leve que mal reparo. – Está conectada? – diz. As palavras saem em um sussurro, mas pela forma como os arcos do túnel se curvam no teto, consigo ouvir tudo tão claramente quanto se ele estivesse do meu lado. Meu ponto de vista, Ren, assente. – Vai tocar assim que o mundo final do campeonato carregar. – Me mostre. A autoridade na voz da figura misteriosa me deixa arrepiada. É Zero na vida real, em carne e osso. Ren obedece. Um segundo depois, tem música tocando pelos meus fones de ouvido, a batida familiar da canção dele. Quando chega ao refrão, ele faz uma pausa e exibe uma série de códigos iluminados para todo mundo ver. – Isso vai iniciar a contagem regressiva nos Artefatos adulterados – diz. Eu inspiro com força. Artefatos adulterados? As equipes da final vão ter Artefatos adulterados? Adulterados para fazerem o quê? – Que bom – diz Zero. Ele olha ao redor, para cada pessoa presente. Enquanto faz isso, cada um pega uma cópia de uma tarefa e a sincroniza com as demais, verificando o progresso. No meu visor, Ren também apanha uma cópia. Meus olhos se arregalam quando leio. É o que estive procurando. Detalha o que Zero vai fazer. Durante a final, Zero vai trocar os Artefatos por outros, adulterados. Corrompidos. Contendo um vírus que vai atingir todos os usuários ativos do NeuroLink. É por isso que Zero estava reunindo tantos dados dentro de cada mundo de Warcross. Por isso designou locais para seus seguidores. Eles estão cuidando para que o vírus seja acionado em cada lugar, para que nenhuma proteção possa impedi-los. Minha respiração fica curta e rápida, meus olhos percorrendo freneticamente o texto. O que o vírus vai fazer? Destruir o NeuroLink? O que ele quer ao destruí-lo? O que isso vai causar às pessoas conectadas durante o jogo final? O jogo final. Não é coincidência ele escolher esse momento para liberar um vírus. No auge da final, uma quantidade imensa de usuários estará conectada ao NeuroLink no mundo todo. Por que Zero, uma pessoa claramente habilidosa em tecnologia, desejaria destruir essa tecnologia?

Na Lembrança, Ren fala de novo: – Tem mais alguém que você devia verificar: Emika Chen. A outra coringa. Zero se vira para ele. – Você descobriu alguma coisa? – Ela está ligada a Hideo fora do campeonato, de uma forma ou de outra. Tem farejado nossa trilha. Se descobrir alguma coisa importante e alertá-lo, ele vai dar um jeito de nos impedir. Um arrepio me percorre ao ouvir aquelas palavras. Ren me descobriu primeiro; ele alertou Zero sobre mim, possivelmente ao mesmo tempo que alertei Hideo sobre ele. – Vou dar uma olhada nela. – A voz de Zero soa calma. – Vamos ficar de olho na movimentação dos dois, e se ela tentar alertá-lo, eu vou saber. Nós sempre podemos transformar isso em um assassinato duplo. A Lembrança termina. Some ao meu redor até eu estar de volta no quarto de hospital. Fico sentada com o coração disparado, a cabeça girando, me sentindo mais sozinha do que nunca. Assassinato duplo. Essa reunião provavelmente aconteceu antes da primeira tentativa de tirar a vida de Hideo; eu compartilhei informações com ele e, em troca, eles tentaram matá-lo. Em seguida, Zero apareceu para mim, me avisando para ficar de fora, propondo que eu me juntasse a ele. A bomba na casa. Zero não tem escrúpulos de vir atrás de mim também. Instintivamente, busco o celular para contatar Hideo. Eu devia mandar tudo isso para ele agora, contar para ele sobre o vírus planejado por Zero, sobre os Artefatos adulterados. Mas, se eu o fizer, Zero talvez descubra. E se ele vir Hideo fazendo alguma coisa no jogo final para impedir o plano dele, Zero vai saber que andei me comunicando com Hideo. Ele pode mudar o plano, e tudo que já descobri vai ser inútil. Preciso impedir isso sem dar dicas para Zero, sem o envolvimento de Hideo. E isso quer dizer que preciso encontrar um jeito de entrar na partida final e impedir Zero de plantar os Artefatos adulterados. Solto um longo suspiro trêmulo. Talvez isso esteja fora da minha alçada. E uma parte pequena e assustada da minha mente fica me lembrando que, se eu parar agora, se for embora, como Hideo insistiu, Zero talvez devolva minhas Lembranças. Mas não consigo suportar a ideia de ir embora. Se eu fizer isso, o que vai acontecer? Meu olhar retorna para a caixa ao meu lado. Só consigo me concentrar nos restos das minhas coisas preciosas. Só consigo pensar em Zero escondido atrás da máscara insuportável, frustrantemente opaca, me dizendo o que fazer. Minha raiva cresce e meus punhos se fecham. Hideo quer que eu fique fora dos jogos oficiais e da caçada. Zero me avisou para ficar longe. Mas eu nunca fui boa em seguir instruções. Eu sou uma caçadora de recompensas. E se minha caça ainda está por aí, tenho que terminar isso. Eu saio da cama, ando até o canto do quarto sob a câmera de segurança, estico a mão e puxo os fios. A câmera escurece. Em seguida, ligo para Roshan e Hammie. Quando eles atendem, minha voz sai sussurrada. – Prontos para ouvir a verdade? – pergunto. – Prontos – responde Roshan. – Que bom. Porque estou precisando muito de ajuda.

28 O bom senso me diria que esse é o pior momento possível para voltar ao Dark World. Eu quase morri em uma explosão, não estou mais no serviço, e um hacker e o grupo dele estão atrás de mim, me transformando de caçadora em caça, prontos para acabarem comigo assim que eu der qualquer sinal de que continuo atrás deles. Pode até haver assassinos no meu encalço agora. Devo figurar na lista da loteria de assassinatos no Covil dos Piratas. Mas o meu tempo está acabando. Agora, minhas botas virtuais pisam em poças nos buracos da Rota da Seda quando passo por rua após rua de letreiros vermelhos de néon, todos listando os nomes e informações de pessoas que foram expostas no Dark World. Essa parte da Rota da Seda é mais movimentada, um amontoado de usuários anônimos em vielas e na frente de portas, criando a sensação de um mercado noturno. Há fios irregulares com lâmpadas pendurados acima, além dos quais consigo ver a versão espelhada e invertida da cidade acima de nós, no céu. Olho com cautela para as barracas pelas quais passo. Algumas vendem itens virtuais de Warcross espalhados em mesas, tudo desde anéis de ouro a capas cintilantes, botas de couro e armaduras de platina, elixires de cura e baús do tesouro. Outras vendem objetos ilegais do mundo real. Uma oferece armas e balas proibidas, prometendo entrega no dia seguinte para caixas de trinta ou mais. Outras vendem drogas; a barraca é arrumada tão profissionalmente quanto qualquer site de vendas online, onde você acrescenta gramas de cocaína e metanfetamina ao seu carrinho de compras, recebe o pacote em casa dois dias depois e deixa opinião de cliente para o vendedor sem pôr em risco sua identidade. Uma terceira barraca vende comprimidos de dieta não aprovados por departamentos de saúde, enquanto outra oferece descontos para assistir a uma transmissão erótica famosa de garotas do Dark World. Eu faço uma careta e afasto o olhar. Há barracas de obras de arte roubadas, de marfim contrabandeado, de troca de moeda entre notas virtuais e bitcoin e ienes japoneses, e, claro, de apostas tanto nos jogos de Warcross quanto nos de Darkcross. Vejo apostas sendo feitas agora para o jogo final, e as quantias são astronômicas. Há um número acima de cada barraca, me dizendo quantas pessoas estão considerando comprar com aquele vendedor. O número acima da barraca de apostas diz 10.254. Dez mil pessoas fazendo fila para apostar, isso só nessa única barraquinha. Só posso imaginar quantas apostas estão sendo feitas agora em locais mais proeminentes, como o Covil dos Piratas. É outro lembrete de quantas pessoas estarão usando o NeuroLink durante o jogo final, e isso me faz andar mais rápido. Paro em uma barraca de câmbio para trocar uma boa quantidade do meu dinheiro por notas. Mesmo agora, converter tanto dinheiro me dói fisicamente: o que eu não daria apenas poucos meses atrás para ter essa quantia pelo resto da vida. Mas troco mesmo assim, e continuo olhando conforme os números no meu visor mudam de um tipo para o outro. Sigo em frente. Finalmente, chego ao cruzamento da Rota da Seda com a travessa Big Top. Quando olho para a travessa, vejo o vendedor que estou procurando: O Empório das Esmeraldas, que vende power-ups caros, valiosos e muito, muito raros. A parte de fora parece uma enorme tenda de circo, pintada com listras grossas pretas e douradas que cintilam sob as luzes. As abas da entrada da tenda se curvam para os dois lados, revelando um buraco preto bocejante do qual sai um tapete de veludo. Um medo imediato e instintivo acerta o fundo do meu

estômago ao ver isso. Meu pai e eu uma vez fomos caminhar na floresta à meia-noite, e quando tivemos que passar por uma área negra em um tronco retorcido de árvore, eu quase tive um ataque de pânico. Tudo na escuridão parece fragmentos de monstros. Essa entrada do circo dispara o mesmo tipo de medo, de entrar na escuridão desconhecida, além da qual espreita algo perigoso. E, de fato, essa entrada intimidante faz parte do sistema de segurança do vendedor, para impedir a entrada de quem só quer dar uma olhada. Se você tem medo de entrar, deve ter medo de fazer compras. Gêmeos de pernas de pau ladeiam a entrada. Eles se inclinam na minha direção quando me aproximo, os rostos pintados de branco e os olhos completamente pretos. – Senha – dizem ao mesmo tempo, as testas franzidas de forma idêntica. Na hora, uma janela transparente aparece no centro do meu visor. Eu digito a senha do dia, uma série de trinta e cinco letras misturadas com números e símbolos. Os gêmeos refletem por um momento… e chegam para o lado, esticando os braços em silêncio para que eu entre no Empório. Respiro fundo e avanço. Dentro está completamente escuro. Sigo andando, contando os passos com atenção. Quando termino de dar dez passos, eu paro e viro para a direita. Dou mais oito passos. Paro, viro para a esquerda. Quinze passos. Continuo andando em uma combinação longa e elaborada assim até finalmente dar vinte passos à frente e parar completamente. Os usuários que não souberem atravessar essa segunda proteção vão ficar totalmente presos na escuridão. Semanas vão se passar antes de conseguirem recuperar o avatar e a conta perdidos. Eu estico a mão e bato. Para o meu alívio, um som de toc-toc-toc acompanha meu gesto, como se eu estivesse batendo em madeira. Um portão desliza para cima, e entro na enorme arena de um circo, o espaço iluminado por centenas de lâmpadas penduradas. Há prateleiras e pedestais por toda parte, exibindo potes de vidro dentro dos quais há todos os tipos de power-ups: pedras preciosas escarlates e bolas brancas, bolas peludas em tons de arco-íris e cubos com listras azuis, esferas quadriculadas pretas e brancas e bolhas transparentes como se fossem de sabão. Alguns desses power-ups só foram vistos em jogos uma vez e nunca mais foram oferecidos, enquanto outros são protótipos, ainda em desenvolvimento na Henka Games, mas que foram parar nas mãos de hackers, que agora os vendem. Acima de cada um paira o nome em letras douradas, além do preço de lance inicial. Morte Súbita: N46.550. Ataque Alienígena: -N150.000. Avatares se amontoam na frente dos raros, tagarelando com animação. Bots de segurança deslizam pelo chão, parecidos com moças com maxilares mecânicos e máscaras de nariz comprido e sombrinhas pretas. Eu observo o movimento. Sempre há um padrão na forma como se movem, por mais aleatórios que pareçam. Um ícone de carrinho de compras surge no meu visor, assim como um campo no qual posso digitar uma quantia. Olho ao redor, admirando cada pote de vidro exibido, antes de finalmente encontrar um em um pedestal, dentro do qual há uma esfera que parece uma bola de cristal congelada, a superfície adornada com lindas penas de gelo. Congelamento de Equipe: -N 201.000. De acordo com a descrição, esse power-up vai imobilizar toda a equipe adversária por cinco minutos inteiros. As pessoas reunidas em torno desse pote de vidro estão com plaquinhas de lances, e percebo que há um leilão em andamento. Entro nele e pego uma plaquinha com a moça-bot segurança mais próxima. Há cinco bots patrulhando aquele leilão, dois vindo de um outro que terminou momentos antes. Ao lado do pote de vidro há uma garotinha, a leiloeira, usando uma cartola quase do tamanho dela. – Duzentas e cinquenta e uma mil notas! – diz ela em tom alto e rápido. – Estou ouvindo duzentas e cinquenta e duas? – Alguém levanta a plaquinha. – Duzentas e cinquenta e duas! Estou ouvindo duzentas e cinquenta e três? Os lances continuam, até se reduzirem a uma batalha entre dois usuários. Eu os observo com atenção. O lance mais alto agora é de 295 mil notas, e o segundo usuário está hesitante em aumentar o lance para

300 mil. A garotinha continua gritando o número, esperando que alguém aceite. Ninguém fala nada. O avatar com lance maior se empertiga e estufa o peito de empolgação. – Ninguém oferece trezentas mil? – diz a garotinha, olhando ao redor. – Duzentas e noventa e cinco, dou-lhe uma, dou-lhe duas… Eu levanto a plaquinha e grito: – Quatrocentas mil. Todos os olhares se voltam para mim, chocados. Murmúrios se espalham pela multidão. A garotinha aponta para mim e sorri. – Quatrocentas! – exclama ela. – Agora sim! Estou ouvindo quatrocentas e uma? Ela olha ao redor, mas ninguém se mexe. O outro avatar me observa com sangue nos olhos, mas tenho o cuidado de não olhar para ele. – Vendido! – A garotinha aplaude na minha direção. Meu ícone de carrinho de compras de repente é atualizado, o número 1 aparecendo, e meu número de notas cai em 400 mil. Ao mesmo tempo, o power-up de Congelamento de Equipe desaparece do pote de vidro no pedestal, e os outros avatares saem andando, resmungando. O apostador que perdeu continua lá, o olhar grudado em mim – tal qual os olhos dos bots de segurança. Agradeço à leiloeira e vou olhar os outros potes. Ainda posso gastar um milhão de notas, e preciso reunir o máximo de ajuda que puder. Entro em um segundo leilão, de um power-up que parece uma criatura preta, redonda e peluda que rosna, com duas patas grandes. Rei dos Artefatos. Se o Artefato do seu inimigo estiver na sua linha de visão, usar esse power-up vai teletransportar automaticamente esse Artefato direto para as suas mãos, fazendo sua equipe vencer o jogo. Desta vez, o lance inicial é de 500 mil notas. Mais uma vez, a leiloeira repete os lances, que sobem rapidamente. Mais uma vez, fica apenas entre algumas pessoas. Eu sou uma delas. O lance sobe para 720 mil, enquanto enfrento outro adversário, mas ele não recua. Finalmente, com frustração, ofereço uma quantia que sei que é bem mais do que o powerup vale. – Vendido… por oitocentas e oitenta! – exclama a leiloeira. Oitocentas e oitenta mil notas. Faço uma careta pelo buraco que isso deixa nos meus fundos e verifico minha mochila para confirmar se os dois itens estão lá. Na vida real, verifico se tem alguém tentando invadir meu inventário. Usuários ricos às vezes vêm aqui e levam vários itens importantes. Outros usuários ficam só esperando que esse usuário rico vire as costas para invadir o inventário dele e roubar os power-ups. Dois avatares já voltaram a atenção para mim depois das minhas compras, e o interesse deles faz os pelos da minha nuca se arrepiarem. Tenho menos de 200 mil notas agora, que não compram nada grande o suficiente para valer ser usado no jogo final. Então, só olho ao redor, me perguntando quem posso escolher para roubar, depois de a pessoa ter adquirido um power-up valioso. Finalmente, escolho um leilão em andamento, de um item que me deixa animada. Eu nunca tinha ouvido falar dele, o que me leva a acreditar que seja protótipo ou até um item ilegal criado por usuário. Bancar Deus: -N 751.000. 14 lances. Esse power-up oferece poder temporário de manipular tudo e qualquer coisa em uma fase de Warcross. Perfeito. O leilão está quase acabando e reduz-se a duas pessoas, mas desta vez fico só como observadora, assistindo atrás dos bots de segurança enquanto o preço continua a subir. Acaba parando e fica em quase um milhão de notas quando um dos usuários hesita.

– Estou ouvindo um milhão? – grita o leiloeiro. – Um milhão redondo? Não? – Ele faz a contagem… e quando parece que mais ninguém vai aceitar, ele aponta para o vencedor. – Vendido, por novecentas e noventa! O vencedor é um homem alto de casaco quadriculado. Quando ele guarda o power-up e se vira, chego mais perto sem chamar a atenção dos bots de segurança. Na vida real, estou digitando furiosamente, tentando encontrar um momento em que o homem esteja sozinho e vulnerável. Os bots de segurança continuam as rondas aleatórias; alguns usados para proteger aquele leilão agora saem para patrulhar outro que acabou de começar. Finalmente, vejo minha janela, uma abertura quando dois bots de segurança se viram e deixam um caminho estreito e livre até o homem. Sigo na direção dele, acelerando conforme me aproximo. Quando ele está prestes a se virar, pulo e pego a mala dele. Um avatar comum não teria força para fazer uma coisa dessas. Mas construí anos de código no meu avatar e me programei exatamente para esse tipo de roubo. Então, quando minha mão se fecha na alça da mala, eu puxo com força… e a mala vem comigo. Mas o homem não é bobo. Ninguém que gasta um milhão de notas em um power-up pode ser. Na mesma hora, dois outros avatares perto de nós se viram para mim. Ele tem seguranças escondidos aqui. Mal escapo deles e corro para a saída. Se eu conseguir entrar no túnel escuro, onde os bots de segurança não podem ir, serei capaz de sair com meus itens intactos. Um dos avatares puxa uma adaga e parte pra cima de mim, pronto para me cortar. Eu pulo para o lado, mas o segundo avatar me pega pela perna e me desequilibra. O mundo gira ao meu redor, e de repente estou vendo o aposento do chão. Dou um chute… enquanto, ao mesmo tempo, digito freneticamente. Mas nada que eu possa fazer agora vai aumentar minha segurança além do que já tenho; simplesmente não há tempo. À nossa volta, os bots de segurança repararam na briga e se reúnem perto da entrada, selando a tenda. Outros correm até mim, os olhos das mulheres mecânicas brilhando, as sombrinhas pretas girando como lâminas afiadas. As mãos delas se fecham nos meus braços. Eu chuto quando o homem se inclina para segurar a alça da mala. Os dois ajudantes dele pegam a minha mochila. De repente, um dos bots de segurança que me imobiliza ataca o homem com a beirada da sombrinha. Dou um grito quando corta o braço dele. São pixels, claro, mas o homem cai para trás, a mão esquerda agora separada do resto do corpo, inútil. Olho para o bot com surpresa, mas ele me ignora e ataca os outros dois avatares antes de se virar para os demais bots. – Vai, Em! – grita para mim. Meu coração salta. Não é um bot. É a voz de Roshan. Eu me levanto e corro para a saída. Outro bot ajuda na minha fuga. É Hammie. E um terceiro. Asher! A proteção deles afasta o ataque dos outros bots, que não parecem preparados para contra-atacar sua própria espécie. Eu passo entre duas moças-bots que se meteram na confusão, mas ainda não sabem como lidar com os bots hackeados. Logo estou na entrada, e o som de tudo atrás de mim some. Sigo o número de passos e viradas até a entrada, e saio pelas abas da tenda, me vendo novamente na viela estreita. Os gêmeos de pé na entrada não prestam atenção em mim. Rapidamente, abro uma caixa de diálogo e desconecto do Dark World. Tudo à minha volta fica preto… e, um instante depois, estou de volta ao meu quarto virtual particular. Ainda estou com a mala. Ainda estou com minha mochila. Meus itens estão aqui. Começo a trabalhar para destrancar a mala. Não posso ficar com ela por muito tempo sem atrair mais suspeitas. Depois de várias tentativas, a mala finalmente se abre. Dentro está o power-up de Bancar Deus, azul e lindo, as nuvens em movimento borrando embaixo dos meus dedos. Fico olhando com o coração disparado. Guardo com cuidado os meus três power-ups novos no inventário, trancado atrás de múltiplas camadas de proteção. Em seguida, espero no meu quarto virtual, enviando alertas e convites em intervalos de segundos para as contas dos meus companheiros de equipe.

Por um tempo, ninguém aparece. Será que ainda estão presos no tumulto? Eles foram pegos? Roshan se materializa, seguido de Hammie. E, por fim, Asher. Eles não parecem mais com bots de segurança, já tiraram o disfarce. Eu abro um sorriso. Nunca trabalhei com ninguém em uma caçada. Mas agora, com meus companheiros de equipe ao meu lado, parece muito mais fácil. Asher fala primeiro. – E então? – Ele me olha com a sobrancelha erguida. – Espero que você tenha conseguido alguma coisa útil depois de todo aquele trabalho. Eu faço que sim e abro meu inventário para mostrar o que arranjei. Os olhos de Asher se arregalam, enquanto Roshan murmura um xingamento. – É bom que Tremaine tenha dito a verdade sobre o arquivo que enviou para você – diz ele. – Verdade ou não – acrescenta Hammie –, a final vai ser interessante com esses power-ups no meio. – Se eles não nos ajudarem a vencer Zero – digo –, então nada vai.

29 Com todos os escândalos acontecendo, a final entre os Phoenix Riders e a Andromeda já está certa de ser o jogo mais assistido na história de Warcross. O noticiário não relata mais nada hoje além de imagens e sequências dos jogos, cada estação tentando freneticamente superar a outra, canais em todas as línguas e países. Parece que o mundo todo parou para assistir. Por toda Tóquio, lojas e restaurantes fecham como se fosse feriado nacional. As pessoas que não conseguem logar com facilidade de casa agora se reúnem em cybercafés e bares, as lentes nos olhos. A cidade está toda iluminada de ícones, os símbolos se amontoando nas áreas onde há mais gente reunida. Eu me afasto da janela do quarto de hotel e volto a me sentar no sofá. Estou escondida em um dos vários centros de Tóquio, usando nome falso no hotel. Até onde eu sei, Hideo acha que voltei a Nova York. Desde a nossa conversa no hospital, ele só me enviou uma mensagem. Fique longe, Emika. Por favor, acredite em mim. Agora, olho para o relógio transparente perto do centro do meu visor, fazendo contagem regressiva. Algumas poucas semanas atrás, eu invadi o jogo da cerimônia de abertura do torneio deste ano. Agora, só faltam cinco minutos para a final começar. Cinco minutos para eu invadir o jogo, só que, desta vez, vai ser de propósito. Verifico tudo, confiro se liguei minha função de gravação. Estou arquivando o jogo de hoje como um novo Mundo de Lembrança na minha conta. Se as coisas derem errado hoje por causa de Zero, pelo menos vou ter uma gravação para estudar. Isso se o vírus dele não me atingir primeiro. Finalmente, as palavras aparecem no meu visor. VIII Campeonato de Warcross Final PHOENIX RIDERS contra ANDROMEDA Eu respiro fundo. – Lá vamos nós – murmuro. Estico a mão, clico nas palavras com um dedo, e o mundo ao meu redor fica escuro. Ouço o assovio do vento antes de enxergar qualquer coisa. O mundo aparece, e estou em uma elevação, olhando para um lago perfeitamente circular cercado de todos os lados por muros de metal de centenas de metros de altura. Quando olho para trás, percebo que do outro lado dos muros só há oceano aberto. No centro do lago circular, dez pontes de aço, nenhuma interligada, se estendem até as paredes como uma estrela. Cada uma leva a uma porta alta de metal como de hangar embutida no muro, espaçadas regularmente entre si. Há bots de segurança ladeando cada porta enorme. Enquanto observo, power-ups se materializam acima dos muros de aço e ao longo das beiradas do lago, as esferas coloridas se alinhando em cima e embaixo das pontes. Verifico novamente os power-ups no meu inventário. Todos lá. Vamos percorrer Tóquio de zero a sessenta / como se nosso tempo estivesse acabando nessa cidade. A música tocando à nossa volta arrepia os pelos da minha nuca. A canção nova de Ren, para ativar os Artefatos adulterados. Vamos sair de forma explosiva / é, está na hora de sair de forma explosiva.

Demoro um pouco para perceber o barulho dos gritos da plateia por todo o lado. As onipresentes vozes dos comentaristas ecoam, animadas como sempre. – Senhoras e senhores – declaram eles. – Bem-vindos ao Círculo Prateado! Abaixo, os jogadores finalmente aparecem. Cada um surge em uma ponte, perto do centro do lago, onde elas não se tocam. Os jogadores da Andromeda estão inconfundíveis em seus trajes escarlate; a capitã, Shahira, mantém o lenço bem preso, e o Artefato cor de rubi paira acima da sua cabeça, enquanto o Guerreiro da equipe, Ivo Erikkson, exibe um cabelo penteado para trás e uma cara de desprezo. Meu coração vai para a garganta quando olho para meus companheiros de equipe. Os trajes deles são azuis, um contraste intenso com os muros de aço ao redor. Asher (carregando o Artefato azul-diamante acima da cabeça), Hammie, Roshan. E os dois novos. Jackie Nguyen substituindo Ren. E meu substituto: Brennar Lyons, o novo Arquiteto. Pronta? É Asher, fazendo contato comigo por um canal criptografado que preparei para ele. A mensagem aparece como texto branco transparente na parte de baixo do meu visor. Eu faço que sim, apesar de não ter certeza se estou. Espero que sim, respondo. Abro meu inventário de power-ups preciosos. Quando eu entrar, me passe seu Artefato. Pode deixar. Em seguida, me concentro em Brennar e avalio os dados dele. Se vou substituí-lo por meio de hack, é melhor ter certeza de que consigo fazer isso na primeira tentativa. O que vai acontecer hoje se os Phoenix Riders não vencerem o jogo? O que vai acontecer se Zero engatilhar seus planos? Os comentaristas estão apresentando os jogadores agora. Reviro os dados de Brennar e faço um som frustrado. Só posso entrar quando o jogo começar, digo para Asher. Ele ainda não está ativo. Vou ficar de olho, responde ele. Aviso você se vir qualquer coisa. Respiro fundo e observo a cena. Cada jogador está na beirada da sua ponte, encarando a água abaixo, e estão fuzilando uns aos outros com o olhar. Nenhum consegue alcançar os demais, todos estão separados por uns quinze metros de espaço da abertura central. Consigo ver os lábios de Asher se movendo, dando instruções a cada um dos Riders. Minha atenção se desvia para as portas enormes de metal na parte interna do círculo de aço. Luzes vermelhas começam a piscar no alto de cada porta. O que há lá dentro? E onde está Zero? Minha pele formiga na vida real por saber que Zero está assistindo a esse jogo agora, talvez assistindo do mesmo jeito que eu. Esperando para interrompê-lo. – Jogo! Preparar! Lutem! – grita o apresentador. A plateia invisível solta um grito trovejante. Ao mesmo tempo, um alarme altíssimo toca, ecoando em todo o mundo. Vem das luzes vermelhas que piscam no alto de cada uma das dez portas de aço. Os jogadores se viram. Hammie é a primeira a correr para a porta na ponte onde está. Eu desço para ver melhor, até estar pairando sobre as pontes. As portas tremem ao mesmo tempo e começam a subir, o som de arrastar forte devido ao peso. A corrida de Hammie vira uma disparada. Ela grita alguma coisa para os outros Riders. Os jogadores da Andromeda seguem por suas pontes também, e quando a porta se ergue mais um pouco, tenho um vislumbre do que tem lá dentro. Pernas de metal, grossas como prédios. Juntas cromadas circulares, tendões de aço. Quando as portas sobem mais, um peito de barril, cada um com um desenho diferente, com braços poderosos pendurados dos dois lados. No alto, vidro transparente nas cabeças de metal. Meu queixo cai à medida que meu olhar sobe. Dez robôs mecha, cada um esperando ser ocupado. As águas do lago e do oceano aberto se agitam furiosamente agora, ficando mais violentas conforme uma tempestade se aproxima no horizonte, negra e ameaçadora. Clico duas vezes na área do visor onde vejo Brennar correndo para o mecha dele. O mundo dá zoom ao meu redor, e de repente estou diretamente acima dele, vendo-o se aproximar da porta de aço. Ele começa a subir a escada pela lateral do robô.

Na ponte ao lado, Hammie chega ao topo do seu mecha e está agora na cabeça dele. Ela procura a entrada, encontra, abre alguma coisa… e entra, desaparecendo de vista. Segundos depois, o interior dos olhos do mecha se acende, banhando o metal ao redor com um brilho verde. Um som de rotação é ouvido, como o de algum tipo de motor turbo, e se eleva a um tom agudo febril. O mecha dela ganha vida, as juntas se movendo com a fluidez que teriam se Hammie fosse o robô. Ele levanta uma perna. Depois, outra. A ponte treme a cada passo. Asher chega a seu mecha em seguida. Quando entra no robô, seu Artefato some de vista. Solto um suspiro decepcionado. O mesmo provavelmente vai acontecer com Shahira, o que quer dizer que, se eu quiser usar meu power-up de Rei dos Artefatos para roubar o dela, vou ter que tirá-la do mecha primeiro. Shahira sobe no robô um momento depois de Asher, e em seguida vai Franco, o Arquiteto da Andromeda. Olho para Brennar. Ele está quase lá, mas não há dúvida de que é mais lento do que os outros, uma vez que foi enfiado na final sem ter qualquer tempo de treinar. Mesmo assim, não foi escolhido como coringa por nada. Ele chega ao topo do mecha, entra e inicia o robô. Seus olhos se acendem e brilham em azul. Abro uma grade sobre Brennar e seu mecha, e uma caixa de dados a respeito deles surge em um bloco verde e giratório de códigos no meu visor. Eu tenho que calcular o momento corretamente. Se errar, posso aparecer do lado fora, e ficaria exposta para toda a plateia. Zero saberia na hora onde estou e o que estou fazendo. E quando eu estiver dentro como jogadora, vou ter que agir rapidamente. Na vida real, Brennar vai saber imediatamente quando não conseguir mais controlar seu avatar. Ele vai alertar a segurança, e vão pausar o jogo. Vão me encontrar e me tirar de lá. – Shahira está indo para o ataque! – exclama o apresentador, e minha atenção se desvia momentaneamente para onde está o mecha de Shahira, correndo pela ponte para o vão central. Quando ela chega no final da ponte, o mecha dela se agacha como um leopardo pronto para atacar. Em seguida, dá um salto alto no ar, e asas como lâminas se abrem das laterais, se desdobrando em uma exibição magnífica. Ela voa pelo ar com um único mergulho. No processo, pega um power-up de velocidade e, em uma explosão de energia temporária, pula o vão e vai para a ponte onde está o mecha de Asher. A ponte sacode com o impacto, e o som reverbera pelo espaço virtual. Eu digito mais rápido. Tenho que entrar nesse jogo. Quando o mecha de Brennar dá um passo, eu gero uma imagem reticulada dele lá dentro. Em seguida, voo para chegar o mais perto possível do mecha. Pairo bem na frente dos olhos do robô. Por eles, consigo ver o contorno de Brennar dentro. Pronta, digo para mim mesma com movimentos labiais. Em seguida, digito um comando. Por uma fração de segundo, Brennar me vê pairando na frente do mecha dele. Ele pisca em choque com a visão. O mundo dispara ao meu redor, e quando abro os olhos, estou dentro do cockpit do mecha. Mais importante, estou dentro do corpo de Brennar, com controle total do avatar dele. Oi, Capitão, eu digo para Asher. Bem-vinda de volta, responde ele. Um segundo depois, ele se vira para olhar para o mecha de Hammie, pronto para passar o Artefato da equipe para ela. Hammie está preparada, já esperando a jogada. Em poucos passos, ela está ao lado de Asher e segura a grande mão de metal dele com a dela. Um brilho ilumina os dois por um instante, e todos os jogadores são alertados de que nosso Artefato está agora com Hammie. Ela não desperdiça um segundo. Conforme Shahira corre para cima de Asher, Hammie estica o braço para mim. Eu seguro a mão do mecha. Outro brilho de luz, e nosso Artefato está agora comigo. A plateia grita de empolgação. Abro meu hack de desativação, respiro fundo e o rodo com o Artefato na mão. Demora alguns segundos. Por um momento, acho que não vai funcionar. De repente, o Artefato cintila com eletricidade. Uma série de códigos embaralhados aparece no meu visor. O Artefato fica preto. Rodo outra análise dele… e sorrio quando não reage. Desativado.

Agora, a contagem regressiva começa. Só tenho um ou dois minutos no máximo até Brennar alertar todo mundo sobre o que aconteceu com ele e a segurança me reiniciar para fora do jogo. Não sei quando e nem se Zero vai saber o que fiz com nosso Artefato, mas não tenho tempo para ficar pensando nisso. Volto minha atenção para o interior do meu mecha. Os controles dentro do robô são lindamente simples, elaborados para cada um de nós entendê-los instantaneamente. Há armas embutidas nos braços e nos ombros, e quando mexo meus braços e pernas, o robô move os braços e as pernas. Eu procuro Shahira. Ela está em combate físico com Asher, os dois voando acima do lago, enquanto Franco vai na direção de Asher em uma tentativa de sobrepujá-lo. Os outros estão voltando a atenção para mim. Eu tenho que tirar Shahira do mecha dela. Congelamento de Equipe para desabilitar a equipe adversária. Rei dos Artefatos para roubar o Artefato de Shahira. E Bancar Deus para alterar permanentemente a paisagem. Eu corro com meu mecha pela ponte, olho a cena e me preparo para ativar meu power-up de congelamento. – À sua esquerda! – grita Asher de repente para mim. – Ele está indo na sua direção… Com um sobressalto, viro a cabeça do mecha a tempo de ver o mecha de Ivo Erikkson voando na minha direção, o maxilar aberto como se para dar uma mordida. Só tenho tempo de me preparar para o impacto. Ele colide comigo. Metal bate em metal, e nós dois caímos da ponte no lago. O impacto me abala com força; por um instante, só consigo ver um borrão de água pelo visor de vidro. Use o power-up, dizem meus instintos, mas eu sufoco o pensamento. Se fizer isso agora, Shahira vai cair na água e afundar, e vai reaparecer na ponte. Então aponto o braço na direção da cabeça de Ivo. E bato com o punho em um botão de propulsão. Um foguete dispara no mecha de Ivo e joga a cabeça dele para trás. Ele me solta. Meu mecha de repente está flutuando livremente na água. Não tenho tempo a perder. Pego meu power-up de Bancar Deus e o ativo. O mundo para de repente, como se pausado no meio de uma cena de filme. No meu visor, um número transparente agora faz a contagem regressiva dos segundos que tenho para alterar a paisagem. Meus dedos voam. Eu saio da água e pouso em uma ponte… então uno as pontes, para que cubram o vão no centro. O metal geme conforme elas se soltam das colunas e eu as arrasto para perto. Meu olhar vai para onde Shahira e Asher ainda estão, engajados em um combate em pleno ar. Junto as mãos e os separo. O mecha de Shahira sai voando para longe do de Asher, libertando-o. Ao mesmo tempo, eu a puxo para perto de mim, forçando o mecha dela a pousar na ponte agora conectada entre nós. Ao nosso redor, os ofegos da plateia ecoam. A voz do apresentador soa confusa: – Um power-up foi ativado… nós não sabemos onde Brennar conseguiu isso, mas ele usou um item que nunca apareceu em jogos, desde o nascimento do campeonato! Estamos aguardando maiores informações… A segurança sabe que tem alguma coisa errada agora. Hideo sabe. E isso quer dizer que Zero também deve saber. A contagem regressiva do power-up acaba. O mundo entra em movimento novamente. O mecha de Shahira se agacha e balança a cabeça por um momento enquanto tenta se reorientar. Eu ativo na mesma hora meu segundo power-up. Congelamento de Equipe. O mecha dela fica paralisado no meio do movimento. Ao nosso redor, os outros jogadores da Andromeda também ficam paralisados. Pelo comunicador de Brennar, a voz de Asher soa. – Vai! – grita. Mas não tenho tempo para explicar. Pulo do assento dentro do mecha e seguro a cobertura da cabeça. Eu a abro. A chuva me atinge, embaçando minha visão, e percebo que a tempestade no horizonte agora chegou a nós, uma coisa que não mudei durante meu controle do ambiente. Eu saio do mecha. Os outros Phoenix Riders estão em volta de mim, as costas dos mechas viradas para me proteger.

Eu me agacho no alto do meu robô e volto a atenção para o paralisado de Shahira. Pelos olhos dele, consigo vê-la me observando, os olhos arregalados, sem conseguir se mexer. Eu pulo no ombro do meu mecha e saio correndo pelo braço esticado. Acima, a voz do apresentador ecoa na tempestade. – Brennar se separou do grupo e usou um segundo power-up! Estamos tentando entender… Vão interromper o jogo a qualquer momento agora. Estou surpresa de ainda não terem interrompido. O que Hideo está fazendo? Só se concentre. Chego à mão do meu mecha e dou um pulo até o braço do mecha de Shahira. A chuva transformou o metal em uma área escorregadia, e eu quase deslizo para fora quando aterrisso no robô. Tento me agarrar a alguma coisa. Consigo ficar de pé e continuo correndo pelo braço. Subo na lateral da cabeça do mecha. Enquanto a plateia explode em uma barulheira de incompreensão e surpresa, abro o hangar na mesma hora que o Congelamento de Equipe acaba. Olho pela abertura para Shahira, que descongelou o suficiente para virar a cabeça para mim. O Artefato cintila bem acima dela, vermelho-escarlate. Eu pego meu terceiro power-up. Rei dos Artefatos. Faço menção de ativá-lo. Mas não consigo. Pisco sem entender, em estado de choque. Meus membros estão paralisados, da cabeça aos pés, e fico estática com meu power-up na mão, sem conseguir me mexer um centímetro. Abaixo de mim, Shahira aperta os olhos e pula para sair do mecha. Ela para na minha frente. Percebo que usou um power-up em mim, uma coisa que me deixou paralisada. – Eu avisei, Emika – diz ela. E apesar de as palavras saírem com a voz de Shahira, eu sei. Sei que não é ela que está falando comigo. É Zero, habitando o corpo dela. Luto em vão conforme Shahira se aproxima de mim, o andar agora com o mesmo gingado predatório de Zero. O Artefato rubi dela brilha acima da cabeça. Tão perto. Ela caminha em volta de mim uma vez, como Zero tinha feito no Covil dos Piratas, e estica a mão e pega meu power-up. Não!, quero gritar, mas não consigo. Shahira ergue o power-up na minha frente como se fôssemos brindar. – Duas pessoas podem fazer esse jogo – diz ela. Vira as costas e começa a correr na direção do mecha de Asher. Por que Hideo não está parando o jogo? A essas alturas, todo mundo deve poder ver que algo deu errado. Enquanto a plateia grita em uma cacofonia de incompreensão, gritos, vaias e berros de incredulidade, o power-up finalmente perde o efeito em mim. Eu cambaleio para a frente, ofego e saio correndo atrás de Shahira. O que quer que aconteça, eu não posso deixar que ela use o power-up em Asher. Não posso deixar que os Artefatos de Zero sejam ativados. Minhas mãos procuram a corda na minha cintura. – Ei! Todas as cabeças se viram e veem o mecha de Hammie correndo na nossa direção. Ela bate com as pernas na água com força, gerando ondas que atingem as pontes. O hangar na cabeça do mecha dela se abre, e Hammie sai voando em um movimento indistinto, suspensa na chuva em um salto. Ela está segurando um power-up verde que tinha obtido antes. Ela o joga em Shahira. Uma explosão ilumina a ponta do braço do meu mecha, bem perto de onde Shahira está correndo. Ela para de repente, mas o impacto é suficiente para atirá-la no ar. Do nosso outro lado, o mecha de Franco dispara pela água, inclinado contra o vento forte. – Hammie! – grito, mas é tarde demais. Franco segura Hammie com um braço de mecha, fecha a mão e a joga longe. Ela sai voando pelo ar e cai com um splash no mar agitado atrás do muro. Com a outra mão, Franco pega Shahira e a salva da queda. O mecha de Asher vem a toda agora, o punho erguido na direção de Franco. Eu paro de correr por um segundo para me abaixar. Vejo Asher voar alto por cima de mim, o olho do mecha um ponto escarlate

vermelho no céu. Ele bate com força na lateral de Franco, e o impacto me faz cair de joelhos. A água me atinge quando as ondas do pulo de Asher batem no braço destruído do meu mecha. Eu tiro a água dos olhos e levanto o rosto. Franco ataca Asher, e cada golpe é um som ensurdecedor de metal. No meio de tudo, encontro Shahira. Ela está correndo pelo braço de Franco na direção do mecha de Asher. Eu disparo atrás dela. – Precisa de carona? – A voz de Roshan soa no meu comunicador. Eu me viro o suficiente para ver o punho dele aparecer do nada, me pegar e se fechar em volta de mim. O mecha dele está voando, as asas de metal batendo com tanta força que formam um rodamoinho na água do lago. Eu voo pelo ar até onde Franco e Asher estão, agarrados em um abraço mortal. Ali perto, o mecha de Ivo vem na nossa direção, mirando diretamente em Roshan. Estamos quase lá. – Me solta! – grito para Roshan, e bato com o punho na parte de dentro da palma da mão do mecha. Ele faz o que eu peço e me solta. Caio na direção do ombro de Asher. Ao mesmo tempo, Shahira chega no ombro oposto. Nós duas subimos. A chuva bate em mim, ameaçando me jogar na água. Eu me agarro com toda força que consigo e tento subir mais rápido. Franco dá outro golpe forte no peito de Asher, me jogando de lado, e fico pendurada só por um braço. Eu me obrigo a me balançar de volta. Continue. Chego à cabeça do mecha na hora que Shahira se levanta. Ela corre na direção da cobertura do cockpit. Se a abrir e vir o Artefato de Asher, ela vai poder usar o power-up nele, e nós vamos perder. Eu trinco o maxilar e me obrigo a ficar de pé. Corro na direção dela. Tudo parece acontecer em câmera lenta. Shahira puxa a cobertura. Levanta a mão para usar o power-up. Eu a alcanço e me jogo nela com toda a força que tenho. Meus dedos se fecham no power-up. Eu o arranco da mão dela, de Zero, quando está prestes a usá-lo. Use, agora. Eu volto o foco do visor para o Artefato de Shahira. Antes que ela possa me impedir, miro o power-up nela e arremesso. Os olhos dela se arregalam. O power-up explode em uma bola de fumaça preta, envolvendo nós duas. Na escuridão, o Artefato rubi de Shahira aparece na minha mão. Meus dedos se fecham em torno dele ao mesmo tempo em que rodo meu hack de desativação. O Artefato cintila loucamente, e filetes de eletricidade voam em todas as direções. Uma fração de segundo depois, fica preto. Meu. Fim de jogo. A plateia explode em ruído caótico à nossa volta. O som é ensurdecedor e encobre tudo. – Acabou! – grita a voz do apresentador, cheia de confusão. – Mas esperem, pessoal, o que aconteceu na arena hoje? Foi um hack sem precedentes no jogo final! Estamos esperando mais… Está feito. Aperto o Artefato como se minha vida dependesse dele. Acabou. Acabou? Deixo escapar uma gargalhada engasgada, e toda a energia some do meu peito. A voz de Asher soa no meu comunicador, e ele está gritando alguma coisa com euforia, mas não entendo o que diz. Não consigo me concentrar em nada além do fato de que o jogo acabou. De repente, uma coisa estranha acontece. Uma onda de eletricidade me percorre. Como um choque estático. Eu pulo. Um ofego unificado percorre a plateia também, como se todo mundo tivesse tido a mesma sensação ao mesmo tempo. Números e dados piscam acima de cada jogador, somem e desaparecem. O que foi aquilo? Eu fico ali parada, piscando por um instante, sem saber o que acabou de acontecer. Sou acometida de uma sensação de medo. Na minha frente, o avatar de Shahira some e é substituído por Zero, a armadura escura e o elmo opaco negro sob o céu tempestuoso. Ele olha para mim. – Você ativou – diz ele. A voz soa baixa e furiosa. – Ativei o quê? Acabou pra você! – grito para ele. – E para o seu plano também.

Alguma coisa nas minhas palavras parece surpreender Zero. – Você não sabe. Não sei? Não sei o quê? Ele se empertiga. – Meu plano – diz ele – era impedir Hideo.

30 O quê? Eu balanço a cabeça sem entender. Mas, antes que possa responder, Zero desaparece quando o mundo Círculo Prateado à nossa volta congela e fica preto. Quando pisco de novo, estou no meu quarto de hotel e o jogo terminou. Fico sentada por um momento, sobressaltada pelo silêncio. Acabou tão de repente. Eu consegui. E apesar de ainda não ter descoberto quem é Zero, sei que impedi os planos dele, fossem quais fossem. Você não sabe. Meu plano era impedir Hideo. Que diabos ele quis dizer com isso? O que eu não sei? Alguma coisa se agita no fundo da minha mente, uma preocupação irritante. Como se combinado, uma mensagem aparece no meu visor. É Asher. Eu a aceito, e o rosto familiar aparece como se ele estivesse no quarto comigo, a expressão eufórica. – Emi! – exclama ele. – Você conseguiu! Nós vencemos! Consigo exibir um sorriso e murmuro alguma coisa, mas as palavras de Zero se repetem na minha cabeça. Onde você está?

É uma mensagem de Hideo. – Eu te ligo daqui a pouco, Ash – digo. Encerro a ligação e digito para Hideo, ainda atordoada. Eu só preciso encontrá-lo pessoalmente, e aí ele vai poder explicar as palavras de Zero. Vou contar tudo para ele, e ele vai saber a que Zero estava se referindo. Menos de meia hora depois, a porta se abre, e vejo Hideo entrar no meu quarto, ladeado pelos guardacostas. Ele balança a cabeça uma vez para os seguranças, e eles param na mesma hora, obedecendo tão rápido que parece que foram programados. Dão meia-volta e saem, nos deixando sozinhos. Eu não vejo Hideo há dias, não em pessoa, e meu coração dá um pulo em reação à presença dele. Eu salto e fico de pé. Ele pode explicar o que está acontecendo. Hideo para a uns trinta centímetros de mim e franze a testa de uma forma estranha e solene. – Eu mandei você ir embora. Alguma coisa no olhar dele me faz parar. As palavras de Zero voltam a mim, suspensas no ar entre nós. – Zero estava no jogo – digo. – Ele tinha adulterado os Artefatos com um vírus. Me falou uma coisa antes de desaparecer, que estava aqui para impedir os seus planos. – Eu franzo a testa. – Não entendi o que isso significa. Hideo fica em silêncio. – Quer dizer – continuo, agora com medo de parar de falar –, eu achei que os planos de Zero eram desencadear uma destruição do NeuroLink, talvez ferir todo mundo conectado, mas eu não sabia por que ele queria isso. – Olho para Hideo, apavorada com a resposta dele de repente. – Você sabe? Hideo inclina a cabeça. A testa dele está franzida, e tudo na sua postura indica relutância em responder. Zero não pode estar certo, pode? O que eu não sei?

– De que ele está falando? – pergunto, a voz baixa agora. Hideo finalmente me olha de novo. É uma expressão assombrada, o garoto cheio de curiosidade e brincadeiras agora escondido embaixo de um véu. É a mesma seriedade que sempre vejo no rosto dele, mas é a primeira vez que me evoca uma sensação de mau presságio, como se fosse mais do que a mera expressão de um criador silencioso. Depois de um tempo, ele suspira e passa a mão pelo cabelo. Uma tela familiar aparece entre nós. Link com Hideo? – Me deixe mostrar a você – diz ele. Eu hesito. Mas clico para aceitar o convite. Uma série das emoções de Hideo se abre para mim quando nosso Link é estabelecido. Ele está cauteloso, incomodado com alguma coisa. Mas também otimista. Otimista com o quê? – Nós sempre procuramos um jeito de melhorar a vida com máquinas – diz Hideo. – Com dados. Há algum tempo, estou trabalhando para desenvolver a inteligência artificial perfeita, um algoritmo que, quando implementado pelo NeuroLink, poderá consertar nossos defeitos melhor do que qualquer força policial humana. Franzo a testa para ele. – Consertar nossos defeitos? De que você está falando? Hideo abre uma nova tela entre nós com um movimento sutil da mão. Parece uma forma oval de cores, verdes e azuis, amarelos e roxos, tudo mudando constantemente. – Você está olhando dentro da mente de um usuário do NeuroLink – explica ele. E move a mão de novo. A forma oval é substituída por outra, com cores em movimento. – E de outro usuário. – Ele mexe a mão de novo. – E de outro. Observo com incredulidade. – Isso aí são as mentes dos seus usuários? Você consegue ver os pensamentos deles? Os cérebros? – Posso fazer mais do que apenas ver. O NeuroLink sempre teve interface com o cérebro humano – continua Hideo. – É isso que torna a realidade virtual tão eficiente e realista. É o que torna os óculos especiais. Você sabia disso. Até agora, usei essa interface como um sistema de informações de uma via só: o código simplesmente criava e exibia o que seu cérebro desejasse. Você mexe o braço; o código mexe seu braço virtual. Seu cérebro é que está no controle. – Ele me olha diretamente. – Mas a informação viaja por duas vias. Eu me esforço para entender a verdade do que ele está dizendo. A invenção de Hideo usa o melhor gerador de efeitos 3D do mundo, seu próprio cérebro, para criar para você a ilusão mais incrível de realidade possível. A melhor interface cérebro-computador do mundo. Eu balanço a cabeça, sem querer acreditar nas palavras dele. – O que você está tentando dizer? Hideo me olha por um longo momento antes de responder. – O fim da partida – diz ele – ativou a capacidade do NeuroLink de controlar as mentes dos usuários. O NeuroLink pode controlar os usuários. A compreensão me atinge com tanta força e rapidez que mal consigo respirar. Os usuários deviam poder controlar o NeuroLink com a mente. Mas isso também pode ser usado no sentido contrário: digitar um comando e usar isso para dizer ao cérebro o que fazer. Se você digitar comandos suficientes, o cérebro pode ser controlado permanentemente. E Hideo criou um algoritmo inteiro para fazer isso. Recuo um passo e me apoio na mesa lateral. – Você está controlando o que as pessoas pensam – digo – com programação?

– Aquelas lentes de Warcross foram de graça – lembra Hideo. – Foram enviadas para quase todas as pessoas do mundo, em quase todos os cantos do globo. As notícias de filas enormes, de carregamentos de lentes roubadas. Agora eu entendo por que Hideo não ficou preocupado com carregamentos roubados. Quanto mais fossem distribuídas, melhor. Hideo abre outra imagem do interior da mente de um usuário. Desta vez, as cores da forma oval são vinho e roxas. – O NeuroLink consegue perceber quando as emoções de um usuário viram raiva – diz ele. – Consegue perceber quando estão planejando algo violento, e sabe disso com uma precisão incrível. – Ele muda o visor para a pessoa por trás dessa mente específica. É um homem tentando tirar uma arma do casaco, a testa coberta de suor enquanto ele se prepara para assaltar uma loja de conveniência. – Isso está acontecendo agora? – consigo perguntar. Hideo assente uma vez. – No centro de Los Angeles. Na hora que a pessoa chega na entrada da loja de conveniência, a forma oval vinho que representa a mente dele de repente se acende em cores fortes. Enquanto olho, o novo algoritmo do NeuroLink reinicia as cores. O vinho se transforma em uma mistura de azuis, verdes e amarelos. No visor ao vivo, o homem para. Interrompe o gesto de puxar a arma. Há um vácuo estranho no rosto dele que gera um arrepio em mim. Quando o rosto se acalma, ele pisca para sair daquele estado e prossegue seu caminho pela rua, a loja de conveniência esquecida. Hideo me mostra outros vídeos, de eventos acontecendo simultaneamente em todo o mundo. Os mapas de cores de bilhões de mentes, todas controladas por um algoritmo. – Com o passar do tempo – diz Hideo –, o código vai se adaptar à mente de cada pessoa. Vai fazer se sintonizar, vai se aperfeiçoar, acrescentando às reações automáticas todos os detalhes específicos sobre o que uma pessoa pode fazer. Vai se transformar em um sistema de segurança perfeito. A julgar pelas imagens, as pessoas nem sabem o que as atingiu… e, mesmo que soubessem, o código as impediria de pensar nisso agora. – E se as pessoas não quiserem isso? E se pararem de usar o NeuroLink e as lentes? – Lembra o que eu falei quando dei a você um par? Eu relembro as palavras na mesma hora. As lentes deixam uma camada inofensiva sobre a superfície do olho, de apenas um átomo de grossura. Essa camada age como condutora entre as lentes e seu corpo. Aquela camada que fica nos olhos mantém a pessoa conectada ao NeuroLink, mesmo que ela remova a lente. Eu entendi os planos de Zero errado. Ele queria destruir isso com o vírus nos Artefatos adulterados. Queria assassinar Hideo para impedir que ele seguisse em frente com seu plano. Botou uma bomba no alojamento em uma tentativa de me manter fora do jogo e de executar o objetivo final de Hideo. E talvez tenha sido por isso que Hideo não parou a partida final quando viu que as coisas estavam erradas. Ele queria que eu impedisse Zero para que eu colocasse os planos dele em ação. Ele está fazendo isso por causa de Sasuke. Ele criou tudo isso para que ninguém tivesse que sofrer o mesmo destino que o irmão dele, e nenhuma família tivesse que passar pelo que a dele passou. Nossa conversa volta a mim em um flash. Você criou Warcross para ele, eu dissera. E ele havia respondido: Tudo que eu faço é para ele. Kenn sabe sobre esse plano? Todos sempre estiveram de acordo com ele? – Você não pode fazer isso – finalmente digo, com voz rouca. Minha declaração não o abala. – Por que não? – pergunta Hideo. – Você não pode estar falando sério. – Solto uma única gargalhada, desesperada e sem humor. – Você

quer ser um… ditador? Quer controlar todo mundo no mundo? – Não eu. – Hideo me olha do mesmo jeito penetrante de que me lembro da nossa primeira reunião. – E se o ditador for um algoritmo? Um código? E se esse código puder forçar o mundo a ser um lugar melhor, puder impedir guerras com uma única linha de texto, puder salvar vidas com um sistema automatizado? O algoritmo não tem ego. Não deseja poder. É programado só para fazer o certo, para ser justo. É o mesmo que as leis que governam nossa sociedade, só que também pode executar essas leis imediatamente, em toda parte, o tempo todo. – Mas você controla o algoritmo. Ele aperta os olhos de leve. – Controlo. – Ninguém escolheu você – digo, ríspida. – E as pessoas têm sido ótimas assim em escolher líderes? – ele devolve a minha rispidez. – Mas você não pode fazer isso! Você está tirando uma coisa que nos torna fundamentalmente humanos! Hideo se aproxima. – E o que é que nos torna humanos, exatamente? A escolha de matar e estuprar? De fazer guerras e jogar bombas e destruir? De sequestrar crianças? De atirar em inocentes? É essa parte da humanidade que não deve ser retirada? A democracia conseguiu impedir alguma dessas coisas? Nós já tentamos reagir com as leis, mas os executores das leis não podem estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Eles não podem ver tudo. E se eu puder? Eu poderia ter impedido a pessoa que sequestrou Sasuke. O NeuroLink pode impedir qualquer um que queira fazer o mesmo agora com outra criança. Posso tornar 90% da população livre de crimes, permitindo que os executores das leis se concentrem só nos 10% restantes. – Você está dizendo que vai controlar 90% da população. – As pessoas ainda podem viver suas vidas, ir atrás de seus sonhos, apreciar seus mundos de fantasia, fazer tudo que sempre quiseram fazer. Eu não vou atrapalhar nada disso. Elas podem fazer qualquer coisa que queiram, desde que não seja crime. Nada na vida delas muda exceto isso. Então, por que não? Tudo nas palavras de Hideo parece contraditório, e me vejo perdida no meio, sem saber em que acreditar. Penso na minha cidade, no fato de que tenho emprego como caçadora de recompensas só porque a polícia não consegue mais acompanhar a onda de crimes crescente em Nova York. Penso em como o mesmo está acontecendo em toda parte. Elas podem fazer qualquer coisa que queiram, desde que não seja crime. Nada na vida delas muda exceto isso. Exceto por abrir mão da liberdade. Exceto a coisa que muda tudo. – É uma parte essencial da vida diária, o NeuroLink – diz Hideo. – As pessoas trabalham dentro dele, constroem negócios sobre ele e estão mergulhadas na diversão que oferece. Elas querem usar. E percebo que é claro que ele está certo. Por que alguém abriria mão da realidade perfeita de fantasia só porque precisa abrir mão da liberdade? Qual é o sentido da liberdade se você está vivendo uma realidade infeliz? Seria como dizer para todo mundo parar de usar a internet. E enquanto minha pele se arrepia pelo conhecimento de que usei lentes NeuroLink, de que ainda estou usando, sinto uma pontada de dor com a ideia de nunca mais entrar no Link, uma relutância de abandoná-lo. Mesmo sem a película sobre os olhos, as pessoas nunca deixariam de usá-lo. Elas sequer acreditariam que está fazendo isso com elas. E mesmo que começassem a discutir sobre as implicações da manipulação do NeuroLink, as vidas delas agora giram em torno dele. Qualquer um que não esteja conectado no NeuroLink agora vai usá-lo em pouco tempo, desencadeando esse novo algoritmo assim que começar. Em um futuro próximo, todo mundo vai tê-lo instalado na mente. E isso dará a Hideo o controle da vida de cada pessoa. Talvez ninguém se importe. – E manifestantes? – insisto. – E lutar pelo que é certo e cometer erros ou até simplesmente respeitar

as pessoas que não concordam com você? O NeuroLink vai impedir que leis injustas sejam aprovadas? Quais leis ele vai ajudar a aplicar, exatamente? – Eu fecho os punhos. – Como sua inteligência artificial é capaz de julgar todo mundo no mundo, ou de entender por que as pessoas fazem o que fazem? Como você garante que não vai abusar desse poder? Você não vai gerar a paz mundial sozinho. – Todo mundo fala com hipocrisia sobre a paz mundial – diz Hideo. – As pessoas a usam como uma resposta bonita para uma pergunta sem sentido, para se fazerem de boazinhas. – Os olhos dele queimam. – Estou cansado do horror no mundo. Então, vou acabar com ele à força. Penso nas vezes, depois da morte do meu pai, em que arrumei brigas na escola ou gritei coisas das quais depois me arrependi. Penso no que fiz para defender Annie Pattridge. O código de Hideo poderia ter me impedido. Isso teria sido bom? Por que eu sinto como se alguém estivesse torcendo uma faca no meu peito, agora que sei que esse foi o motivo pelo qual Hideo me trouxe para Tóquio? Tantos avisos dele para eu ir embora. – Você mentiu para mim – digo, com voz firme. – Não fui eu que ataquei você. – O olhar de Hideo é suave e firme. – Não fui eu que destruí o que era precioso para você. Há um mal verdadeiro no mundo, e não sou eu. Zero destruiu as coisas que mais importavam para mim, meus pedaços do passado, minha decoração de Natal e o quadro do meu pai. Minhas lembranças. Hideo foi quem me deu um jeito de guardar essas lembranças, quem me salvou de ser jogada nas ruas, quem sente a falta do irmão e ama a família e cria coisas lindas. Zero usa violência para promover sua causa. Hideo promove a dele impedindo violência. Uma parte de mim, uma parte maluca e calma, vê sentido nesse plano, mesmo enquanto me encolho de repulsa. Hideo suspira e afasta o olhar. – Quando contratei você, eu só queria deter um hacker que eu sabia que estava tentando me deter. Eu não sabia que… – Ele hesita e abandona a frase. – Eu não queria que você continuasse trabalhando para mim sem entender verdadeiramente o peso do que estava fazendo. – Ah, bom, mas eu continuei trabalhando para você. E você me permitiu, sem dizer por quê. As vezes em que ele hesitou na minha presença, relutante em ir mais longe. O momento em que ele decidiu me tirar do serviço. Minha remoção dos Phoenix Riders. Ele estava tentando do jeito dele seguir com o plano sozinho. As lentes que estou usando parecem frias, como se fossem algo estranho e hostil. Penso na versão hackeada de Warcross que eu uso. Estou em segurança? Hideo se inclina para perto o suficiente para nossos lábios se tocarem. A parte de mim que é feita de puro instinto é despertada, querendo desesperadamente diminuir essa distância entre nós. Os olhos dele estão tão escuros agora, quase pretos, a expressão assombrada. Todo problema tem uma solução, não tem? Quero provar para você o sentido dos meus planos. Ele franze a testa. Posso mostrar a parte boa disso se você me permitir. Por favor. E pelo Link consigo sentir a sinceridade dele, a ambição ardente de fazer o certo, o desejo de provar para mim. Quando observo seu olhar, reconheço o homem curioso, apaixonado e inteligente que vi pela primeira vez na sala dele, me mostrando sua mais nova criação. É a mesma pessoa. Como pode ser a mesma pessoa? A expressão dele permanece incerta, insegura. Não vá embora, Emika, diz ele. Engulo em seco. Quando respondo, é com minha voz real. Está calma agora, até fria. – Não posso apoiar você nisso. Quase consigo sentir o coração de Hideo se partindo, esfaqueado bem onde ele arriscou abri-lo para mim, onde me deixou ver o ferimento latejante dentro. Hideo confiou em mim, achando que talvez eu fosse a pessoa que ficaria ao lado dele. Por que não ficaria?, deve ter pensado. Eu entendia a perda dele e ele entendia a minha. Nós nos entendíamos… ou era o que achávamos. Ele parece sozinho de repente, vulnerável mesmo em sua determinação.

– Emika – diz ele, em uma última tentativa de me convencer. Respiro fundo e corto o Link entre nós. O fluxo sutil das emoções de Hideo é interrompido abruptamente. – Eu vou impedir você, Hideo. Os olhos dele ficam distantes, os muros familiares se erguendo até ele estar me fitando da mesma forma como o fez durante nossa primeira reunião. Ele se inclina para longe de mim. Observa meu rosto, como se vendo pela última vez. – Não quero ser seu inimigo – diz ele baixinho. – Mas vou fazer isso, com ou sem você. Consigo sentir meu coração se partindo, mas fico firme. Ele não cede, e nem eu, e continuamos em lados opostos de uma ravina. – Então você vai ter que fazer sozinho.

31 As ruas de Tóquio ainda estão mais vazias do que jamais vi. Sigo no meu skate, o cabelo voando, o vento fazendo meus olhos lacrimejarem. Como tudo ficou complicado. Pouco tempo atrás, eu deslizava pelo centro lotado de Nova York só querendo ganhar dinheiro suficiente para não ir parar na rua. Hideo era uma capa de revista na época, um vislumbre em um artigo, uma foto em uma transmissão televisiva, uma manchete em um tabloide. Agora, ele é uma pessoa que eu me esforço para entender, uma pessoa com mil versões diferentes de si que estou tentando decifrar. Ao meu redor, a única manchete gritante parece ser de acusações de que o resultado da final foi injusto, que a partida foi comprometida por power-ups ilegais. Os fãs estão pedindo um novo jogo. Teorias da conspiração já surgiram em todas as comunidades de fãs, alegando que algum funcionário plantou os power-ups como brincadeira ou que a Henka Games queria aumentar a audiência, ou que os jogadores encontraram sem querer segredos escondidos no mundo final. Se a verdade estivesse no meio dos boatos, ninguém saberia identificar. Todo mundo segue a vida sem se dar conta da mudança sutil e significativa no NeuroLink, que agora pode controlar as vidas de todos. E tem alguma coisa realmente diferente? Nós não estamos todos conectados há anos, completamente viciados nesse mundo que vai além da realidade? E estamos tão dispostos a abrir mão dele? Eu me obrigo a afastar o olhar quando passo por um carro de polícia. Hideo pode ir atrás de mim apenas mandando a polícia me prender? Ele faria isso comigo? Quando a paciência dele vai acabar? Quando vai se virar completamente contra mim? Eu tenho que encontrar um jeito de impedi-lo primeiro. Antes que ele me impeça. Estou com meu celular velho na mão, meu hack permitindo que eu rastreie os demais Phoenix Riders sem me sujeitar ao novo algoritmo do NeuroLink. Eles estão em um apartamento, que só posso supor que pertença a Asher, nos arredores da cidade. Uma mensagem chega ao meu celular. É de uma fonte criptografada e desconhecida. Hideo, provavelmente. Eu me obrigo a ignorá-la, e pisco para tirar a umidade dos olhos enquanto levo o skate à velocidade máxima por um trecho vazio de rodovia. Quando o sol começa a se pôr, lavando a cidade em tons de dourado, paro em um cruzamento tranquilo nos arredores de Tóquio, onde a cidade abre espaço para colinas e poucas ruas. Eu me vejo olhando para uma casa de três andares com portão, decorada simplesmente com madeira escura e clara. Asher me recebe na porta. Ele me leva para dentro rapidamente e me guia até a sala, onde Hammie e Roshan já estão. Eles se levantam quando me veem. Hammie me abraça. Um segundo depois, vejo mais pessoas no sofá, de algumas outras equipes. Ziggy Frost. Abeni Lea, dos Cloud Knights. Tremaine também está aqui, sentando evidentemente longe de Roshan… mas os dois estão virados um para o outro, como se estivessem conversando um momento atrás. A tensão que sempre senti entre eles parece menor agora, embora não seja completamente ausente. – O que a gente faz agora? – pergunta Hammie quando nos acomodamos. A resposta é um longo silêncio. Eu também me sento. – Eu tenho uma versão hackeada de Warcross – respondo. – Acho que não sou afetada da mesma

forma. Talvez eu consiga pensar em um jeito de vocês usarem também. Conto para eles o que aconteceu desde o começo, quando Hideo me contratou depois da minha primeira invasão, sobre meus encontros frequentes com ele, e como percebi o que realmente tinha acontecido quando Zero apareceu no jogo final. Falo até os postes estarem iluminados lá fora e Asher ter que acender as luzes da sala. – Eu o vi aparecer de repente – termino – durante aquele momento final em que todos sentimos o choque estático. Foi a primeira vez que vi dados sobre ele. Tremaine me olha. – Você também viu Zero? Não fui só eu? Os outros também falam. – Eu o vi – acrescenta Asher. – Ele estava com um elmo opaco e o nome [inválido] acima da cabeça. Com armadura preta. Hammie repete o mesmo, assim como Roshan. Todo mundo viu Zero naquele instante. Isso quer dizer que ele foi exposto fora do meu hack, que, naquele instante, todos os dados dele foram expostos. Todos os dados dele foram expostos. De repente, me empertigo e começo a digitar. Abro minha conta de Warcross e meus Mundos de Lembrança. Há uma lembrança lá agora, a minha Lembrança do jogo final. – Eu preciso ver uma coisa – murmuro enquanto os outros se reúnem à minha volta. Acesso a Lembrança e a compartilho com os demais, para que vejam o que eu vejo. O mundo some momentaneamente e me coloca de volta no que gravei. Vejo o começo do jogo, as pontes, os robôs saindo dos hangares, a batalha que aconteceu depois. Acelero a gravação, até o final. Deixo passar até o momento em que o choque elétrico aconteceu, quando Zero apareceu de repente na minha frente. Eu faço uma pausa. Os dados de Zero. Eu gravei tudo. Consigo ver a verdadeira conta dele. – Ems – diz Asher ao meu lado enquanto assiste à Lembrança. – Você consegue descobrir quem ele é agora? Com dedos trêmulos, vou até a conta pessoal de Zero. E ali está ele. O gatilho o expôs, ainda que só por uma fração de segundo, mas é todo o tempo de que eu preciso. Olho com expressão atordoada para a informação de conta que aparece à nossa frente, pairando no centro da sala. Tem um nome, um nome real, flutuando ao lado de uma foto do usuário real que é Zero. Nem preciso ler para saber quem é. A pessoa na fotografia é alguém que se parece com uma versão mais jovem de Hideo, um garoto que parece o Hideo de alguns anos atrás. Um garoto da minha idade. Meu olhar vai até o nome, sem conseguir acreditar no que estou vendo. Sasuke Tanaka

À noite, saio do apartamento e vou para o jardim da frente. Preciso de ar. Os postes em frente à casa de Asher geram uma estampa de luzes nas calçadas, e decido me concentrar nisso, me obrigando a limpar a mente e encontrar um momento de paz. Em seguida, levanto o rosto e procuro as estrelas. Há poucas a serem vistas dali, pontos espalhados representando o resto da Via Láctea, invisível sem uma camada virtual. Não ligo. Pela primeira vez, é reconfortante ver o mundo real como é em vez de uma versão melhorada pelo NeuroLink. Sasuke. Sasuke.

Um sem fim de perguntas gira na minha mente. Não tem como Hideo saber sobre isso. Ele teria mencionado se soubesse… talvez até tivesse interrompido os planos. Mas como é possível? Sasuke sumiu tantos anos atrás, foi levado por um sequestrador anônimo. Por que reapareceu como hacker, tentando impedir Hideo? Por que não reapareceu para o próprio Hideo para revelar quem é realmente? Ele se lembra de sua vida anterior, sabe que Hideo é seu irmão? Quem o controla? Para quem ele trabalha? E por que mantém sua identidade em segredo? Ele sequer é real? Sento-me no meio-fio e puxo os joelhos até o queixo. O que isso vai causar a Hideo quando ele descobrir? Ele pararia se soubesse? Eu quero que ele pare? E o que é pior, um mundo em que Hideo luta contra a violência ou um mundo em que Zero luta usando-a? Eu me pergunto que pensamentos estão passando pela cabeça de Hideo agora, e preciso de toda a minha força de vontade para não me Linkar a ele, e sentir o que está sentindo… Para não mandar uma mensagem e poder ouvir a sua voz. Uma mensagem. Olho para o celular e me lembro da mensagem criptografada que recebi mais cedo. Uma vozinha no fundo da minha mente me manda não abrir, não me permitir ver o que Hideo deve estar dizendo para me convencer. Mas meus dedos pairam sobre a mensagem, e depois de um longo momento, decido abri-la. Não é de Hideo. É de Zero. Minha proposta continua de pé.

Um ding baixo soa, me alertando que fiz um download para minha conta. Minha mão congela sobre os novos arquivos. São as minhas Lembranças. Meus Mundos de Lembrança. Solto um pequeno ofego quando vejo uma atrás da outra, as Lembranças do meu pai que Zero tinha roubado, agora voltando a existir como se nunca tivessem desaparecido. Ele as devolveu. Minhas mãos começam a tremer. Fecho os olhos e aperto os braços com força em volta das pernas, abraçando-as como se minha vida tivesse sido devolvida. Quando abro os olhos de novo, estão molhados. Minha proposta continua de pé. A proposta dele. Por que ele está me devolvendo o que tinha retirado? Como ele ousa fingir que está devolvendo como se fossem um presente, como se estivesse me fazendo algum tipo de favor? Imagino a figura escura naquela caverna vermelha, a voz baixa e grave. Imagino as placas de armadura preta envolvendo meus braços, pernas e tronco, me transformando em outra pessoa. – Oi. Perco o fio dos pensamentos ao ouvir o cumprimento. Seco os olhos apressadamente e viro a cabeça o suficiente para ver que Tremaine está ao meu lado. – Oi – murmuro em resposta, escondendo meu celular. Tremaine repara no movimento, mas apesar de me lançar um olhar rápido de soslaio, não comenta nada. Segredos suficientes já foram compartilhados hoje. – Um outro caçador de recompensas fez contato comigo – diz por fim, esticando os braços acima da cabeça. Os postes de luz iluminam sua pele pálida. Eu o encaro. – Um dos caçadores de Hideo? Ele faz que sim. – Acho que cruzei o caminho dele lá embaixo. Ele estava sentado com os avatares assistindo à loteria

de assassinatos. Se nós trabalharmos juntos, acho que conseguiremos encontrar o rastro dele, e ele pode nos ajudar. Somos algumas das únicas pessoas no mundo que entendem o funcionamento de Warcross e que trabalharam para Hideo ao mesmo tempo. A mensagem de Zero ecoa nos meus pensamentos. Eu me viro novamente e assinto. – Então, vamos ao Dark World. Vamos encontrar uma forma de fazer contato com ele. Podemos encontrar uma solução para isso. – Para deter Hideo? – pergunta Tremaine. – Ou Zero? Penso no olhar intenso de Hideo, na sua genialidade obstinada. Penso em como ele encostou a cabeça na minha com fraqueza e sussurrou meu nome. Penso em como ele observava as estrelas, procurando um jeito de seguir em frente e deixar o passado para trás. Penso nas palavras finais que trocamos. E penso na voz surpresa de Zero, na raiva quando ele me encarou no jogo final, no jeito como roubou minhas Lembranças. E as devolveu. Todo mundo tem um preço, dissera ele. Diga o seu. Tremaine me oferece a mão, e depois de um tempo, eu a seguro e deixo que ele me ajude a levantar. Continuamos parados ali, sem nos mover, olhando para o brilho cintilante de Tóquio, minhas botas apontadas para longe da casa e na direção da cidade, meu coração suspenso em algum lugar entre uma escolha e outra, sem saber para onde ir.

Agradecimentos

Todos os meus livros têm um pouco de mim, mas Warcross é particularmente eu. (Tipo, um dos meus corgis aparece na história. Era a bundinha gorda dele andando no corredor de Hideo. Amo você, Koa.) Mas eu não poderia ter escrito essa história sem a ajuda das melhores mentes que conheço. À minha agente rainha, Kristin Nelson – obrigada pelo seu entusiasmo por Warcross desde o primeiro dia, pelos comentários, ideias e feedbacks brilhantes, por todo seu trabalho incrível defendendo este livro assim como nossos livros anteriores. Eu realmente não sei o que faria sem você. Às minhas editoras brilhantes e inimitáveis, Jen Besser e Kate Meltzer, por me forçarem a seguir em frente com todas as novas rodadas de edições e por cuidarem para que este livro fosse o melhor que pudesse ser. A Anne Heausler, gênia do copidesque – fico maravilhada com seu cérebro. Obrigada por tudo. Este é meu sétimo livro com a incrível equipe da Putnam, Puffin, e Penguin Young Readers, e a cada vez eu fico mais impressionada e me sinto mais humilde perto do que vocês todos fazem: Marisa Russell, Paul Crichton, Theresa Evangelista, Eileen Savage, Katherine Perkins, Rachel Cone-Gorham, Anna Jarzab, Laura Flavin, Carmela Iaria, Venessa Carson, Alexis B. Watts, Chelsea Fought, Eileen Kreit, Dana Leydig, Shanta Newlin, Elyse Marshall, Emily Romero, Erin Berger, Brianna Lockhart e Kara Brammer. Como fui ter a sorte de trabalhar com vocês? Ainda não sei, mas sinto gratidão todos os dias. Um agradecimento especial vai para Wes (Cream Design) pela arte espetacular em 3D da capa de Warcross. A Kassie Evashevski, minha extraordinária agente cinematográfica – é tão importante para mim que este livro esteja com você. Sou eternamente grata. A Addison Duffy: Como foi bom conhecer você em pessoa! Obrigada por sempre ser prestativa e maravilhosa. Às minhas queridas, amadas, corajosas Amie Kaufman, Leigh Bardugo, Sabaa Tahir e Kami Garcia: Obrigada por me ouvirem falar sobre Warcross mesmo quando ainda era um bebê, por me ajudarem a dar forma à história, por suas palavras gentis sobre o livro, que sempre me fazem sorrir, e por sua amizade e corações corajosos. Aos meus maravilhosos amigos que me ofereceram feedback valiosíssimo: JJ (S. Jae-Jones), uma das primeiras pessoas a ler Warcross; Tahereh Mafi, por responder com generosidade a todas as minhas perguntas (qualquer coisa elegante neste livro foi inspirada em você!); Julio Zhuo, por sua profunda sabedoria e dicas de tecnologia, e também por sua amizade (vinte e oito anos e contando!); Yulin e Yuki Zhuang, por me levarem junto com Amie para conhecer Tóquio e por saberem tudo sobre a cidade, e por serem duas das pessoas mais legais que tive a sorte de conhecer; Mike Sellers, por seu conhecimento infinito sobre todas as coisas e sua ajuda generosa; Sum-yan Ng e David Baser, por fazerem brainstorm comigo de madrugada na rua e por oferecerem tantos conselhos úteis; e Adam Silvera, por todo o seu conhecimento de Nova York e por ser um cara incrível. Um agradecimento especial a Ryh-Ming Poon pela visão da indústria (e amor pela boa comida!). O Think Tank, o grupo de oito estagiários do qual fiz parte quando era novata no trabalho com videogames, merece uma menção especial: aqueles seis meses continuam sendo uma das minhas

lembranças favoritas da vida. Praticamente tudo que sei sobre jogos eu aprendi com vocês. (Observação: aquela partida de Mario Kart mencionada no livro, com o casco azul épico atirado na linha de chegada? Foi um jogo real. Brutal.) Ao meu marido, ex-integrante do Think Thank e melhor ser humano do mundo, Primo Gallanosa: obrigada por ler 120.582.015 versões de Warcross, por todas as ideias divertidas de jogo e por sempre saber exatamente como me fazer rir. À minha mãe, que não é nem um pouco parecida com a mãe de Emika: a resiliência, o ardor e o cérebro de Emika são totalmente baseados em você. Você é a pessoa mais capaz, altruísta e inspiradora que eu conheço. (O talento de Hideo na cozinha também é baseado no seu. Obviamente.) Aos bibliotecários, professores, livreiros, leitores e divulgadores de livros em todo o mundo: obrigada, obrigada, obrigada por tudo que vocês fazem. Compartilhar histórias com vocês é minha maior honra. Finalmente, a todas vocês, garotas gamers do mundo. Vocês inspiraram isso.

Título original WARCROSS, PLAYER, HUNTER, HACKER, PAWN Copyright © 2017 by Xiwei Lu Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida no todo ou em parte sob qualquer forma. Direitos para a língua portuguesa reservados com exclusividade para o Brasil à EDITORA ROCCO LTDA. Av. Presidente Wilson, 231 – 8o andar 20030-021 – Rio de Janeiro – RJ Tel.: (21) 3525-2000 – Fax: (21) 3525-2001 [email protected] / www.rocco.com.br Preparação de originais: VANESSA RAPOSO Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e incidentes são produtos da imaginação da autora ou foram usados de forma ficcional, e qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou não, empresas comerciais, eventos, ou locais é mera coincidência. Coordenação digital MARIANA MELLO E SOUZA Assistente de produção digital MARIANA CALIL Revisão de arquivo ePub ANA CHRYSOSTOMO Edição digital: abril, 2018.

CIP-Brasil. Catalogação na Publicação. Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ L96w Lu, Marie Warcross [recurso eletrônico]: jogador, caçador, hacker e devedor / Marie Lu; tradução Regiane Winarski. - 1. ed. - Rio de Janeiro: Fantástica Rocco, 2018. recurso digital (Warcross ; 1) Tradução de: Warcross: player, hunter, hacker, pawn ISBN 978-85-68263-67-9 (recurso eletrônico) 1. Ficção americana. 2. Livros americanos. I. Winarski, Regiane. II. Título. III. Série. 17-46927 CDD: 813 CDU: 821.111(73)-3

O texto deste livro obedece às normas do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

A Autora

Marie Lu é autora das trilogias Legend e Jovens de Elite. É formada pela University of Southern California e logo começou a trabalhar na indústria de videogames, na Disney Interactive Studios. Agora, é escritora em tempo integral e quando não está trabalhando ela lê, desenha e joga games. Ela mora em Los Angeles, Califórnia, com o marido, um chihuahua e dois corgis.

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Compre agora e leia Coleção PhobosJACK, O ESTRIPADOR, ESTÁ DE VOLTA...No mesmo dia em que o primeiro de uma série de assassinatos brutais acontece em Londres, a norte-americana Rory Deveaux chega à cidade para começar uma nova vida em um colégio interno. Os crimes hediondos parecem imitar as atrocidades de Jack, o Estripador, praticadas há mais de um século.Logo a febre do Estripador toma conta das ruas de Londres, e a polícia fica desconcertada com as poucas pistas e a ausência de testemunhas. Exceto uma. Rory viu o principal suspeito no terreno da escola. Mas ela é a única pessoa que o viu - a única que consegue vê-lo. E agora, Rory se tornou seu próximo alvo.Neste thriller envolvente, cheio de suspense e romance, Rory descobre a verdade sobre suas novas e chocantes habilidades e os segredos das Sombras de Londres. Indicado ao Edgar, prêmio máximo da literatura de mistério nos EUA, O nome da estrela é o primeiro livro da série Sombras de Londres."As ruas de Londres nunca foram tão sinistras e românticas."- CASSANDRA CLARE, autora da série best-seller Os instrumentos mortais"Depois deste livro, você vai querer se mudar para Londres e combater fantasmas."- HOLLY BLACK, autora da série best-seller Mestres da maldição Compre agora e leia

No limite da loucura Johnson, Maureen 9788568263396 304 páginas

Compre agora e leia Coleção PhobosUMA NOVA AMEAÇA ASSOMBRA LONDRESDepois de quase se tornar uma das vítimas de uma série de terríveis assassinatos, tudo o que Rory deseja é retomar a rotina. Contudo, sua vida talvez nunca mais possa voltar ao que era antes. Como se a recém-descoberta habilidade de ver fantasmas já não fosse complicada o bastante, ela descobre que sua experiência quase fatal lhe deixou um poder ainda mais intenso e raro. Agora, Rory é a única que pode ajudar as Sombras de Londres a investigar as novas mortes que vêm acontecendo perto do campus de Wexford, e talvez apenas ela seja capaz de identificar o tipo de força maligna que se move no subterrâneo, causando morte e destruição...No segundo livro da série Sombras de Londres, Rory Deveaux precisa enfrentar seus próprios medos e agir rápido, antes que seja tarde demais."Leitores em busca de uma fonte inesgotável de entretenimento, ação e um pouco de sangue: vocês vieram ao lugar certo."- PUBLISHERS WEEKLY Compre agora e leia

Por um toque de ouro Munhóz, Carolina 9788568263228 272 páginas

Compre agora e leia Ruiva, olhos verdes, corpo esbelto e um toque de sorte que parece inesgotável. Assim é a jovem Emily O'Connell, futura herdeira da luxuosa marca de sapatos e bolsas O'C. Integrante de uma das famílias da alta sociedade irlandesa, ela é uma espécie de ícone da cultura pop no país, venerada por milhões de garotas e cortejada pelos rapazes mais bem-sucedidos e famosos da Europa. Para completar, tem um ótimo relacionamento com os pais, que a adoram. O que Emily não sabe é que sua vida quase perfeita está por um fio. Ao lado de Darren, seu melhor amigo, Emily frequenta festas e pubs. Embora os dois estejam matriculados na mesma universidade, a prestigiada Trinity College, ela acumula faltas no curso de Dramaturgia. Quando decide voltar às aulas após um estranho incidente com um rapaz na comemoração do dia de St. Patrick, a jovem fica em dúvida se sua sorte chegou ao fim: começa o dia discutindo com um renomado professor de teatro e termina com um esbarrão em um garoto, que a trata de forma grosseira, ao entrar na festa de casamento de uma amiga da família. Para a surpresa de Emily, o garoto se aproxima e puxa conversa. Embora sinta-se atraída por ele, Emily fica irritada com seu jeito arrogante e decide sair de perto. Quando achou que havia se livrado do garoto, a noiva decide apresentálos. Trata-se de Aaron Locky, herdeiro de uma das famílias mais ricas de São Francisco, nos Estados Unidos. A partir daí, os caminhos de Emily e Aaron voltam a se cruzar, e a curiosidade da ruiva aumenta na mesma proporção da atração que sente por ele. Afinal, que segredos ele esconde por trás de seus cabelos compridos e de sua risada irônica? De algum modo, Aaron exerce sobre ela uma atração irresistível, como se uma aura de poder os cercasse e os unisse. Ele tem muito a ensinar a Emily, mas, entre todas as coisas, ela nunca imaginaria que poderia estar envolvida com uma tradição secular lendária. Por um toque de ouro é o primeiro livro da Trindade Leprechaun. Compre agora e leia

Doctor Who: 12 Doutores, 12 histórias Colfer, Eoin 9788568263051 480 páginas

Compre agora e leia Doze Doutores, doze contos, doze autores. Não é qualquer universo que pode receber doze visitantes tão ilustres e acolher doze interpretações tão radicalmente diferentes do mesmo herói. Doctor Who, o fenômeno cultural britânico que conquistou o mundo, a série de ficção científica mais antiga da televisão, conta as aventuras do Doutor, um alienígena de aparência humana que trafega livremente pelo tempo e pelo espaço. Fascinado pelo planeta Terra e a humanidade, o Doutor está sempre acompanhado de um terráqueo enquanto viaja na sua máquina do tempo, a TARDIS, por todos os cantos do universo e da história. Nesse cinquentenário, o Doutor foi interpretado por doze atores, cada um deles uma encarnação diferente do personagem, com personalidades e trejeitos peculiares. As muitas faces do Doutor e suas jornadas infinitas ofereceram aos criadores da série a liberdade de explorar não só as galáxias e profundezas do tempo, mas também temas que vão do lírico ao terror, numa verdadeira investigação do coração e mente do ser humano. É essa mesma liberdade de imaginação que agora vemos nas mãos de doze dos autores de ficção mais queridos da atualidade, incluindo nomes como Eoin Colfer, Derek Landy, Neil Gaiman e Holly Black. Doze autores que foram conquistados pelas peripécias do Doutor, alguns desde que eram crianças, e que agora compartilham com os fãs doze visões muito particulares do personagem mais cativante deste lado da galáxia. Compre agora e leia

O Reino das vozes que não se calam Munhóz, Carolina 9788568263020 288 páginas

Compre agora e leia Se você encontrasse um lugar onde todos o aceitassem... Seria capaz de abandoná-lo? Sophie se esconde de todos e de si mesma: insegura, não consegue enxergar sua beleza e talento, e sente dificuldade em se relacionar com os outros. Seu dia a dia se perde entre os caminhos tortuosos dos que convivem com a depressão e o bullying, e a jovem aos poucos vai se fechando na escuridão de seus pensamentos. Desamparada e sem coragem de lidar com seus problemas, ela acaba descobrindo um lugar mágico: um Reino onde as vozes não se calam e as criaturas encantadas se tornam reais. Um local colorido onde ela finalmente poderá se encontrar. Dividida entre a realidade e a fantasia, Sophie contará com a ajuda preciosa de um rapaz comum e uma guardiã encantada, que lhe mostrarão os segredos da alma e a farão decidir se vale a pena enfrentar seus medos ou viver em um eterno conto de fadas. Em sua estreia na Rocco, a escritora Carolina Munhóz, ganhadora do Prêmio Jovem Brasileiro por seu primeiro livro, A fada, apresenta um romance escrito em parceria com a atriz e cantora Sophia Abrahão. O Reino das vozes que não se calam marca também a estreia do Fantástica Rocco, novo selo de fantasia da editora que se tornou referência no segmento com a publicação de Harry Potter e outras séries de sucesso. Compre agora e leia

Table of Contents Folha de rosto Dedicatória Sumário Epígrafe Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Capítulo 8 Capítulo 9 Capítulo 10 Capítulo 11 Capítulo 12 Capítulo 13 Capítulo 14 Capítulo 15 Capítulo 16 Capítulo 17 Capítulo 18 Capítulo 19 Capítulo 20 Capítulo 21 Capítulo 22 Capítulo 23 Capítulo 24 Capítulo 25 Capítulo 26 Capítulo 27 Capítulo 28 Capítulo 29 Capítulo 30 Capítulo 31 Agradecimentos Créditos A Autora

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