Stephen King vai ao cinema – Stephen King

O livro reúne cinco contos já publicados em outros livros de King (1408; A Máquina de Passar Roupas; Low Men in Yellow Coats; Rita Hayworth e a Redenç...
Category: Contos e Crônicas| Terror e Suspense

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© 2009 by Stephen King Tradução amadora

Título Original Stephen King Goes to the Movies

Todos os direitos reservados à EDITORA SCRIBNER Avenue of the Americas, 1230 Nova York - NY – 10020 http://www.barnesandnoble.com

Tradução e Revisão Boni

Formatação e conversão para e-Pub e Mobi: Susane Paz

K76p King, Stephen Stephen King Vai ao Cinema / Stephen King, tradução: Boni – KoM: 2015

400p. ISBN: 978-1-416-59236-5

Tradução de: Stephen King Goes to the Movies

1. Literatura americana – Contos. I. Título CDD 106

SUMÁRIO

1408 A Máquina de Passar Roupas

Homens Baixos em Casacos Amarelos

Rita Hayworth e a Redenção de Shawshank

As Crianças do Milharal

“Minhas Dez Adaptações Favoritas”



1408

(do livro Tudo é Eventual)

Introdução de Stephen King

É um milagre que esta história exista em qualquer forma que seja, impressa ou filmada. As primeiras mil palavras foram escritas à mão na sala de estar de um quarto de hotel alugado na Ilha de Sanibel, quando pesados trovões mantiveram a mim e à minha família longe da praia. A história foi planejada como um exemplo (para o livro Sobre a Escrita) de como meu processo de reescrita funciona. Eu já havia escrito minha história sobre um hotel assombrado (O Iluminado) e ordinariamente não sentia qualquer vontade de mastigar meu repolho duas vezes. O motivo pelo qual eu terminei a história foi porque o protagonista, um cínico desempregado (que poderia ter sido um competidor no mercado) que escreve livros que desmascaram lugares supostamente assombrados, começou a me interessar. O que, me perguntei, aconteceria se tal camarada tivesse que enfrentar uma assombração real? Atores sérios raramente aceitam papéis em filmes de horror com orçamentos modestos, mas John Cusack pegou o papel de Mike Enslin, e embora eu não possa dizer o porquê (ele pode ter justificado em alguma entrevista de pré-estreia, mas nunca o ouvi falar do assunto diretamente), acho que a personagem também pode ter capturado a imaginação dele. Ele brilha no papel e realiza algo que é quase um monólogo. Eu soube que este seria um bom filme quando o produtor Bob Weinstein me mandou um pré-trailer. Ele possuía a perfeição claustrofóbica que refletia exatamente o tom da história. Eu imaginei uma assombração que literalmente enlouqueceria os ocupantes do quarto 1408, ao colocá-los sob toda a sorte de sensações alienígenas e tormentos mentais que as pessoas experimentam apenas em sonhos febris ou sob influência de LSD ou mescalina. Os cineastas “entenderam” isto, e como resultado, eles produziram uma raridade: um filme de horror que realmente horroriza. Eu pedi uma censura de 14 anos (que o filme eventualmente recebeu), porque quase não há sangue ou tripas. Como um dos velhos e ótimos filmes de Val Lewton, este bebê trabalha nos seus nervos, não no seu reflexo estomacal. Uma palavra final: os roteiristas adicionaram um passado a Mike que não existe na história que se segue. Este é um velho truque de Hollywood, sempre perigoso e raramente bem sucedido. Aqui ele funciona, embora eu creia que foi necessária uma regravação do final para fazer isso acontecer.

I

MIKE ENSLIN ESTAVA ainda à porta giratória quando viu Olin, o gerente do Hotel Dolphin, sentado numa das superestofadas poltronas da sala de estar. O coração de Mike afundou. Talvez eu devesse ter trazido o advogado novamente, pensou. Bem, agora era tarde demais. E mesmo se Olin tivesse resolvido colocar mais um ou dois obstáculos entre Mike e o quarto 1408, isso não era de todo mau; havia compensações. Olin estava cruzando a sala com uma rechonchuda mão estendida quando Mike deixou para trás a porta giratória. O Dolphin situava-se na Rua Sessenta e Um, perto da esquina da Quinta Avenida, pequeno mas elegante. Um casal vestido a rigor passou por Mike quando ele alcançou a mão de Olin, mudando para mão esquerda a pequena bolsa com roupas e alguns objetos. A mulher era loura e usava um vestido preto, claro, e seu perfume leve e florido parecia sintetizar Nova York. No bar do mezanino, alguém tocava “Night and Day” com se sublinhasse tal sintetização. — Sr. Enslin. Boa noite. — Sr. Olin. Algum problema? Olin parecia magoado. Por um momento, ele relanceou os olhos pelo saguão pequeno saguão pequeno elegante, como se buscasse ajuda. No balcão da recepção, um homem discutia sobre entradas de teatro com a mulher, enquanto o próprio recepcionista os observava com um leve sorriso paciente. À mesa da frente, um homem, com uma aparência que só se tem após longas horas de Classe Executiva, discutia sua reserva com uma mulher num elegante terninho preto que poderia ser usado também como traje de noite. Os negócios corriam como sempre no Hotel Dolphin. Havia ajuda para todos, exceto para o pobre Sr. Olin, que caíra nas garras do escritor. — Sr. Olin? — repetiu Mike. — Sr. Enslin... posso lhe falar um momento no meu escritório? Bem, por que não? Isso ajudaria na parte sobre o quarto 1408, aumentaria o tom agourento pelo qual os leitores de seus livros pareciam ansiar, e não era tudo. Mike Enslin não tivera certeza até agora, apesar de todas as informações coletadas; agora tinha. Olin estava realmente com medo do quarto 1408, e do que pudesse acontecer a Mike ali, naquela noite. — Claro, Sr. Olin. Olin, o bom hospedeiro, estendeu a mão para a valise de Mike. — Permita-me. — Não se preocupe — disse Mike. — Aqui tem apenas uma muda de roupa e uma escova de dente. — Tem certeza? — Tenho — disse Mike. — Já estou usando minha camisa havaiana da sorte. — Sorriu. — É a que tem repelente contra fantasma. Olin não sorriu. Em vez disso, suspirou, um homenzinho redondo de fraque e uma gravata com um laço cuidadoso. — Muito bem, Sr. Enslin. Então vamos. O gerente do hotel parecera hesitante no saguão, quase derrotado. Em seu escritório com painéis de carvalho, com as fotos do hotel pelas paredes (o Dolphin fora inaugurado em 1910 — Mike podia publicar sem o benefício das resenhas nos diários ou jornais da cidade grande, mas fazia um dever de casa), Olin parecia ganhar segurança novamente. Um tapete persa cobria o chão do escritório, e dois abajures de pé emitiam uma suave luz amarela no ambiente. Uma lâmpada com quebra-luz verde em forma de losango ocupava o meio da mesa, junto com um umedecedor. E junto a este estavam os últimos três livros de Mike Enslin. Edições populares, claro: nenhum livro tivera uma edição em capa dura. Meu

anfitrião também vem fazendo um pouco de pesquisa, pensou Mike. Mike sentou-se em frente à mesa. Esperava que Olin sentasse atrás dela, mas o gerente o surpreendeu. Instalou-se na cadeira ao lado de Mike, cruzou as pernas e inclinou-se para frente por cima de seu comportado ventrezinho para tocar o umedecedor. — Charuto, Sr. Enslin? — Não fumo, obrigado. Os olhos de Olin deslocaram-se para o cigarro atrás da orelha direita de Mike — uma ponta elegante guardada ali como um repórter dos velhos tempos guardaria o próximo cigarro, logo abaixo da etiqueta IMPRENSA enfiada na fita de seu chapéu. O cigarro tornara-se tão parte dele que por um momento Mike honestamente não sabia o que Olin estava olhando. Então riu, tirou o cigarro, olhou-o e fitou Olin novamente. — Há nove anos que não fumo — disse. — Tive um irmão mais velho que morreu de câncer no pulmão. Larguei o hábito depois que ele morreu. O cigarro atrás da orelha... — Sacudiu os ombros. — Parte afetação, parte superstição, acho eu. Como a camisa havaiana. Ou os cigarros que a gente vê nas mesas e paredes, dentro de uma pequena caixa com um aviso dizendo QUEBRE O VIDRO EM CASO DE EMERGÊNCIA. O quarto 1408 é um quarto de fumantes Sr. Olin? Só para o caso de estourar uma guerra nuclear. — Na verdade, é. — Bem — disse Mike entusiasticamente — isso é menos uma preocupação na vigilância noturna. O Sr. Olin suspirou de novo, mas sem o tom desconsolado de seu suspiro do saguão. Sim era o escritório, concluiu Mike. O escritório de Olin, seu lugar especial. Mesmo naquela tarde, quando Mike viera acompanhado por Robertson, o advogado, Olin parecera menos agitado depois de entrarem ali. E por que não? Em que outro lugar a pessoa se sente no controle das coisas senão em seu lugar especial? O escritório de Olin era um aposento com bons quadros nas paredes, um bom tapete no chão e bons charutos no umedecedor. Sem dúvida, muitos gerentes tinham administrado inúmeros negócios ali desde 1910; a seu próprio modo, o local era tão Nova York quanto a loura com seu vestido preto sem alças, seu perfume e sua inarticulada promessa de nova-iorquino sexo suave pelas madrugadas. — Continua achando que não posso fazê-lo desistir da ideia, não é? — perguntou Olin. — Sei que não pode — disse Mike, recolocando o cigarro atrás da orelha. Ele não alisava o cabelo para trás com Vitalis ou Wildroot Cream Oil, como os jornalistas de outrora com seus vistosos chapéus, mas ainda mudava o cigarro todos os dias, exatamente como a roupa de baixo. A pessoa transpira atrás da orelha; se ele examinasse o cigarro no final do dia antes de jogá-lo, não fumado, no toalete, poderia ver o tênue resíduo desse suor no fino papel branco. Isso não aumentava a tentação de acendê-lo. Agora já não conseguia entender como fumara por quase 20 anos — 30 guimbas por dia, às vezes 40. Por que fizera aquilo era uma pergunta ainda melhor. Olin recolheu a pequena pilha de livros em cima do mata-borrão. — Espero sinceramente que o senhor esteja errado. Mike Abriu o zíper do bolso lateral da bolsa e tirou de lá um minigravador Sony. — Não se importa se eu gravar a conversa, não é, Sr. Olin Olin fez um gesto com mão. Mike apertou o botão de GRAVAR e a pequena luz vermelha acendeu. A fita começou a girar. Enquanto isso, Olin examinava lentamente a pilha de livros, lendo seus títulos. Como sempre quando via seus livros na mão de alguém, Mike Enslin sentia uma esquisita mistura de emoções: orgulho, desconforto, divertimento, desafio e vergonha. Não tinha por que sentir vergonha deles quando o vinham sustentando muito bem nos últimos cinco anos, e não tinha que dividir seus lucros com os livreiros (“putas de livros”, era como seu agente os chamava, talvez em parte com inveja), porque

criara o próprio conceito. Apesar de que, após ter vendido o primeiro livro tão bem, só um idiota não teria percebido o conceito. O que havia para fazer depois de Frankenstein senão A noiva de Frankenstein? Mesmo assim, ele havia ido para Iowa. Estudara com Jane Smiley. Participara certa vez de uma mesa-redonda com Stanley Elkin. Aspirara outrora (absolutamente ninguém em seu atual circulo de amigos e conhecidos tinham a mínima pista disso) a ser publicado como um jovem poeta de Yale. E quando o gerente do hotel começou a dizer o nome dos títulos, Mike descobriu que desejava não ter desafiado Olin com o gravador. Mais tarde, escutaria o tom comedido de Olin e imaginaria sentir neles um certo desprezo. Tocou o cigarro por trás da orelha sem notar. — Dez noites em dez casas mal-assombradas — leu Olin — Dez noites em dez cemitérios malassombrados. Dez noites em dez castelos mal-assombrados — Olhou para Mike com um tênue sorriso nos cantos da boca. — Foi para a Escócia por causa desse. Sem falar nos bosques de Viena. E tudo deduzido do imposto de renda, certo? Assombração é a sua profissão, afinal de contas. — O que está querendo dizer? — O senhor é sensível em relação ao assunto, não? — perguntou Olin. — Sensível sim, vulnerável não. Se está esperando me convencer a sair do seu hotel criticando meus livros... — Não, de modo nenhum. Eu só estava curioso. Mandei Marcel... é o porteiro do turno da manhã... comprar seus livros há dois dias, logo que o senhor apareceu com a sua... solicitação. — Foi uma exigência, não uma solicitação. Ainda é. O senhor escutou o Sr. Robertson; a lei do Estado de Nova York, sem falar nas duas leis federais sobre direitos civis, proíbe que o senhor me negue hospedagem num determinado quarto, se eu pedir esse quarto e ele estiver vago. E o 1408 está vago. Está sempre vago atualmente. Mas o Sr. Olin não ia deixar de lado os últimos três livros de Mike — todos na lista dos mais vendidos do New York Times — ainda não. Simplesmente folheou-se uma terceira vez. A lâmpada suave refletia-se nas capas brilhantes, com grande quantidade de cor púrpura. A púrpura vendia livros de terror melhor do que qualquer outra cor, Mike soubera. — Não tive chance de começar a lê-los até o principio da noite — disse Olin. — Ando muito ocupado. O Dolphin é pequeno para os padrões de Nova York, mas funcionamos com uma ocupação de 90%. E geralmente um problema entra pela porta com cada hospede. — Como eu. Olin Sorriu ligeiramente. — O senhor é um problema especial, Sr. Enslin. O senhor, o Sr. Robertson e todas as suas ameaças. Mike se sentiu irritado de novo. Não fizera ameaça nenhuma, a não ser que o próprio Robertson fosse uma ameaça. E fora forçado a usar o advogado como alguém pode se ver obrigado a usar um pé-decabra na fechadura enferrujada e inutilizada de um cofre. O cofre não é seu, disse uma voz dentro dele, mas as leis do estado e do país diziam o contrário. Elas afirmavam que o quarto 1408 do Hotel Dolphin era seu se ele quisesse, na medida em que ninguém o tivesse alugado primeiro. Teve consciência de que Olin o observava, ainda com o tênue sorriso. Como se estivesse acompanhando o diálogo interior de Mike quase palavra por palavra. Para Mike, era uma sensação desconfortável, da mesma forma como aquela reunião se tornara inesperadamente desconfortável. Parecia estar na defensiva desde que pegara o gravador (o que era geralmente intimidante) e o ligara. — Se o que estamos fazendo aqui tem uma razão de ser, Sr. Olin, acho que a perdi de vista. E tive um dia longo. Portanto, se sua argumentação sobre o quarto 1408 terminou, eu gostaria de subir e...

— Li um... ahh, como o senhor chama? Ensaios? Histórias? Bill chamava-os de pagadores-de-contas, mas não ia dizer isso com a fita girando. Mesmo a fita sendo sua. — Contos — decidira Olin. — Li um conto de cada livro. Aquele sobre a casa Rilsby em Kansas, do livro Casas mal-assombradas... — Ah, sim. Os assassinatos a machado — O camarada que esquartejara seis membros da família Eugene Rilbsy nunca fora capturado. — Exatamente. E o da noite em que o senhor passou acampado nos túmulos dos amantes que se suicidaram, no Alasca... aqueles que as pessoas dizem aparecer por Sitka... e o relato de sua noite no Castelo Gartsby. Aquele foi realmente muito divertido. Fiquei surpreso. O ouvido de Mike estava cuidadosamente sintonizado para apreender as notas invisíveis de desprezo até nos comentários mais suaves sobre sua série Dez noites, e não tinha dúvida de ouvir, às vezes, um desprezo que não existia — poucas criaturas na Terra são tão paranoicas quanto o escritor que acredita, no fundo do coração que está ficando pior no que faz, descobrira Mike — mas não acreditava haver nenhum desprezo ali. — Obrigado. Acho eu — disse ele. Deu uma olhadela no gravador. Geralmente o pequeno olho vermelho do objeto parecia observar o outro sujeito, desafiando-o a dizer a coisa errada. Naquela noite, parecia estar olhando para o próprio Mike. — Ah, sim, eu disse isso como um cumprimento. — Olin tamborilou nos livros. — Espero terminar esses... mais pela maneira de escrever. É a maneira de escrever que eu gosto. Fiquei surpreso em achar graça nas suas aventuras muito pouco sobrenaturais no Castelo Garsby, e fiquei surpreso também em ver como o senhor é bom. Como é sutil. Esperava mais machadadas e mais cortes. Mike juntou as forças contra o que certamente viria a seguir, a variação de Olin para O que uma boa moça como você está fazendo num lugar como este. Olin, o hoteleiro urbano, anfitrião de louras que saíam de vestido preto pela noite, que contratava homens magros e prestes a se aposentarem que dedilhavam, de smoking, velhos clássicos como “Night and Day” no bar do hotel. Olin que provavelmente lia Proust em suas noites de folga. — Mas seus livros são perturbadores também. Se eu não tivesse dado uma olhada neles, acho que não teria me dado ao trabalho de esperar o senhor esta noite. Quando vi aquele advogado com a pasta, soube que o senhor pretendia ficas naquele quarto desgraçado, e que nada do que eu dissesse o faria desistir. Mas os livros... Mike estendeu a mão e desligou o gravador — aquele pequeno olho fixo estava começando a deixá-lo nervoso. — Quer saber por que estou apelando? É isso? — Imagino que o faça pelo dinheiro — disse Olin suavemente — Embora seja interessante que o senhor tenha interpretado dessa maneira o que eu disse. Mike sentiu um calor no rosto. Não aquilo não estava absolutamente correndo como ele imaginara; nunca havia desligado o gravador no meio de uma conversa. Mas Olin não era o que ele esperava. Fui desviado do caminho pelas mãos dele, pensou Mike. Essas mãozinhas gorduchas de gerente de hotel com suas nítidas meias-luas brancas de unha manicurada. — O que me preocupou... o que me assustou... dói perceber que estava lendo o trabalho de um homem inteligente e talentoso que não acredita numa única coisa que escreveu. Não era exatamente verdade, pensou Mike. Escreva talvez umas duas dúzias de contos em que acreditava, publicara alguns. Escrevera resmas de poesia em que acreditara durante seus primeiros 18 meses em Nova York, quando passara fome na folha de pagamento de The Village Voice. Mas acreditava

que o fantasma sem cabeça de Eugene Rilsby caminhava pela fazenda abandonada de Kansas ao luar? Não. Mike passara a noite aquela fazenda, acampado nas ondulações de linóleo sujo do chão da cozinha, e não vira nada mais assustador do que dois camundongos passeando pelo rodapé. Passara uma quente noite de verão nas ruínas do castelo da Transilvânia onde Vlad Tepes supostamente ainda reinava; os únicos vampiros a aparecerem foram uma nuvem de mosquitos europeus. Durante a noite em que acampara junto ao túmulo de Jeffrey Dhamer, o assassino serial, uma figura branca manchada de sangue e com uma faca na mão realmente aparecera na escuridão às duas da madrugada, mas as risadinhas dos amigos da aparição entregaram o embuste; de qualquer modo, Mike Enslin não ficara muito impressionado — reconhecia um fantasma adolescente brandindo uma faca de borracha quando via um. Mas não tinha intenção de contar isso a Olin. Ele não poderia arcar com as... Mas podia sim. O gravador (um equívoco desde o inicio, compreendia agora) fora novamente posto de lado, tornando aquela reunião tão pouco gravada quanto se podia querer. Além disso, passara a admirar Olin de um modo esquisito. E, quando você admira um homem, tem vontade de lhe dizer a verdade. — Não — disse ele. — Não acredito em espiritozinhos maus, fantasminhas e bestazinhas de pernas compridas. Acho bom que não existam, porque também não acredito que haja qualquer Deus para nos proteger deles. É nisso que acredito, mas mantive a mente aberta desde o inicio. Posso jamais vir a ganhar o Prêmio Pulitzer por investigar o Fantasma que Assombra o Cemitério Esperança, mas teria escrito sobre ele com justiça se ele tivesse aparecido. Olin disse algo, apenas uma palavra, mas baixo demais para Mike entendê-la. — Como? — Eu disse que não. — Olin olhou-o quase pedindo desculpas. Mike suspirou. Olin o considerava mentiroso. Quando se chega a esse ponto, as únicas escolhas são puxar seus trunfos ou abandonar totalmente a discussão. — Por que não deixamos isso para outro dia, Sr. Olin? Vou subir e escovar os dentes. Talvez eu veja Kevin O’Malley se materializar atrás de mim no espelho do banheiro. Mike começou a levantar da cadeira, mas Olin estendeu uma das mãos gorduchas e cuidadosamente manicuradas para detê-lo. — Não estou chamando o senhor de mentiroso — disse —, mas, Sr. Enslin, o senhor não acredita. Fantasmas raramente aparecem para os que não acreditam neles. E quando o fazem, raramente são vistos. Ora, Eugene Rilsby poderia ter jogado boliche com sua cabeça decepada no saguão da frente da casa dele que o senhor não teria ouvido coisa alguma! Mike levantou e curvou-se para pegar a pequena valise. — Se é assim, não preciso me preocupar com o quarto 1408, não é? — Precisa sim — disse Olin. — Precisa sim. Porque não há fantasma nenhum no quarto 1408 e nunca houve. Há algo lá... eu mesmo o senti... mas não é a presença de um espírito. Numa casa abandonada ou num velho castelo, sua falta de crença pode servir de proteção. No quarto 1408 só o tornará vulnerável. Não faça isso, Sr. Enslin. É por isso que esperei o senhor esta noite, para lhe pedir, para lhe implorar... que não faça isso. De todas as pessoas na Terra que não devem entrar naquele quarto, o autor desses animados e exploradores livros sobre fantasmas verdadeiros está no alto da lista. Mike ouviu e não ouviu ao mesmo tempo. E você desligou o gravador! Fumegou ele. Olin me constrange a ponto de eu desligar o gravador e então se transforma em Boris Karloff! Foda-se. Vou citá-lo, de qualquer maneira. Se não gostar, que me processe. De repente, estava morrendo de vontade de subir, não só porque assim poderia liquidar logo sua longa noite num quarto de hotel, mas porque queria transcrever o que Olin dissera enquanto ainda estava

fresco na memória. — Tome um drinque, Sr. Enslin. — Não, eu... O Sr. Olin tirou do bolso do casaco uma chave em um chaveiro que era uma comprida chapa de metal. O metal parecia velho, arranhado e machado, tendo gravado nele o número 1408. — Por favor — disse Olin. — Faça a minha vontade. Dê-me mais dez minutos do seu tempo, o suficiente para tomar uma pequena dose de Scotch, e eu lhe entrego esta chave. Eu daria tudo para poder fazê-lo mudar de opinião, mas gosto de pensar que reconheço o inevitável quando o vejo. — Vocês ainda usam chaves aqui? — perguntou Mike. — É um toque simpático. Uma antiguidade. — O Dolphin entrou no sistema de cartões magnéticos em 1979, Sr. Enslin, no ano em que assumi como gerente. O 1408 é o único quarto da casa que ainda abre com chave. Não havia necessidade de colocar uma fechadura com cartão magnético naquela porta, porque nunca há ninguém ali: a última vez que a sala foi ocupada por um hóspede pagante foi em 1978. — Está me sacaneando! — Mike sentou novamente e mais uma vez destravou o gravador. Apertou o botão RECORD e disse: “Olin, o gerente da casa, afirma que há mais de 20 anos o quarto 1408 não é alugado a um hóspede pagante!”. — Mas ainda bem que o 1408 nunca precisou de fechadura com cartão magnético, porque relógios de pulso digitais não funcionam naquele quarto. Às vezes andam para trás às vezes param, mas não se pode confiar nas horas que marcam. Não no quarto 1408. O mesmo acontece com calculadoras de bolso e telefones celulares. Se estiver usando um bipe, Sr. Enslin, aconselho-o a desligá-lo, porque, quando estiver lá, ele vai começar a tocar direto — Fez uma pausa — E desligá- lo também não garante que dê certo; ele pode se ligar sozinho. A única providência segura é tirar as baterias dele. — Apertou o botão STOP do gravador sem examinar os botões; Mike imaginou que Olin deveria usar um modelo semelhante para ditar memorandos. — Na verdade, Sr. Enslin, a única providencia segura é ficar fora da droga daquele quarto. — Não posso fazer isso — disse Mike, pegando seu gravador novamente e guardando-o de volta —, mas acho que tenho tempo para uma bebida. Enquanto Olin servia as bebidas no bar revestido de painéis de carvalho sob uma velha pintura da Quinta Avenida na virada do século XIX para o XX, Mike perguntou-lhe como sabia que dispositivos de alta tecnologia não funcionavam dentro do quarto se este não era ocupado desde 1978. — Não quero lhe dar a impressão de que ninguém pôs os pés no 1408 desde 1978 — respondeu Olin. — Temos arrumadeiras que fazer uma limpeza leve no quarto uma vez por mês. Isso significa... Mike, que já vinha trabalhando em Dez quartos de hotel mal-assombrados há uns quatro meses, disse: — Sei o que significa. — Limpeza leve num quarto desocupado incluía abrir as janelas para arejar o cômodo, espanar, jogar um desinfetante especial no vaso para deixar a água levemente azul, mudar as toalhas. Provavelmente a roupa de cama não seria mudada, não numa limpeza leve. Cogitou se deveria ter trazido seu saco de dormir. Palmilhando o tapete persa, vindo do bar com dois drinques nas mãos, Olin pareceu ler o pensamento de Mike: — Os lençóis foram mudados esta tarde, Sr. Enslin. — Por que não deixa isso de lado? Me chame de Mike. — Acho que não vou me sentir à vontade — disse Olin, entregando a bebida a Mike. — Ao senhor. — E ao senhor. — Mike ergueu o copo querendo brindar ao anfitrião, mas Olin recuou. — Não, ao senhor, Sr. Enslin. Eu insisto. Hoje devemos ambos beber ao senhor. Vai precisar disso. Mike suspirou, tocou a borda do copo contra a borda do copo de Olin e disse:

— A mim. O senhor estaria em casa num filme de horror, Sr. Olin. Poderia representar o mordomo sinistro que tenta aconselhar o jovem casal a ir embora do Castelo da Danação. Olin sentou-se. — É um papel que não tenho representado com frequência, graças a Deus. O quarto 1408 não está na lista de nenhum dos sites sobre locais paranormais ou “quentes” para sensitivos... Isso vai mudar depois do meu livro, pensou Mike bebericando. — ...e não há nenhuma turnê sobre fantasmas que pare no Hotel Dolphin, embora façam essa turnê no Sherry-Neterland, no Plaza e no Park Lane. Temos mantido o 1408 tão quieto quanto possível... embora a história tenho estado sempre aí para um pesquisador tenaz e com sorte ao mesmo tempo. Mike permitiu-se um leve sorriso. — Veronique mudou os lençóis — disse Olin. — Eu acompanhei-a. O senhor deve se sentir lisonjeado, Sr. Enslin; é quase como ter a cama arrumada pela realeza. Veronique e sua irmã vieram para o Dolphin como camareiras em 1971 ou 72. Vee, como nós a chamamos, é a empregada mais antiga do Dolphin, com pelo menos seis anos mais de casa do que eu. Desde então ela passou a governantachefe da casa. Acho que não muda um lençol há seis anos, mas costumava fazer todos os turnos do 1408... ela e a irmã... até por volta de 1992. Veronique e Celeste eram gêmeas, e o vínculo entre elas parecia torná-las... como posso dizer? Não imunes ao 1408, mas em igualdade de condições com ele... pelo menos no curto período que é preciso para se fazer uma limpeza leve no quarto. — Não vai me dizer que essa irmã de Veronique morreu lá, vai? — Não, de modo nenhum — disse Olin. — Ela foi embora daqui por volta de 1988, por não estar bem de saúde. Mas não descarto a possibilidade de o 1408 ter desempenhado um papel na piora de suas condições físicas e mentais. — Parece que construímos uma relação, Sr. Olin. Espero que não se encrespe se eu lhe disser que acho o que está me dizendo ridículo. Olin riu. — Tão cabeça-dura para um estudioso do mundo invisível. — Devo isso a meus leitores — disse Mike suavemente. — Acho que eu poderia ter deixado o 1408 como ele é, de qualquer forma, durante a maior parte de seus dias e noites — refletiu o gerente do hotel. — Porta trancada, luzes apagadas, persianas para impedir o sol de desbotar o tapete, as capas no lugar, o cardápio do café da manhã em cima da cama... mas não posso pensar no ar ali cada vez mais sufocante e velho, como o ar de um sótão. Não posso pensar na poeira se acumulando até ficar espessa e fofa. Isso faz de mim o quê, um meticuloso ou simplesmente um obsessivo? — Faz do senhor um gerente de hotel. — Acho que sim. De qualquer modo, Vee e Cee lidaram com aquele quarto... muito rapidamente entravam e saíam... até que Cee se aposentou e Vee teve sua primeira grande promoção. Depois disso, arranjei outras arrumadeiras para limpar o quarto aos pares, sempre escolhendo as que se davam bem uma com a outra... — Esperando que esse vínculo resistisse aos bichos-papões? — Esperando isso, sim. E pode zombar quanto quiser dos papões do quarto 1408 Sr. Enslin, mas vai senti-los quase imediatamente, tenho certeza. Seja lá o que houver naquele quarto, não é algo tímido. Eram muitas ocasiões... todas que pude... fui lá com as arrumadeiras, para supervisioná-las. — Fez uma pausa e acrescentou quase relutantemente: — Para tirá-las de lá, acho eu, se algo realmente horrível começasse a acontecer. Nada aconteceu. Várias tiveram acessos de espirro, uma teve um acesso de riso... não sei por que alguém rindo fora de controle deva ser mais assustador do que alguém soluçando, mas é...

e algumas desmaiaram. Nada terrível demais, porém. Tive tempo suficiente nesses anos para realizar algumas experiências primitivas... bipes, telefones celulares, coisas assim... mas nada terrível demais. Graças a Deus. — Fez uma pausa de novo e acrescentou num tom esquisito, átono — Uma delas ficou cega. — O quê? — Chamava-se Rommie Van Gelder. Estava espanando a parte de cima da televisão quando imediatamente começou a gritar. Perguntei o que tinha acontecido. Ela deixou cair o pano de pó, pôs as mãos nos olhos e gritou que estava cega... mas que podia ver as cores mais horríveis. Elas desapareceram quase na mesma rapidez com que eu a retirei do quarto, e quando a levei pelo corredor até o elevado, a visão dela começou a voltar. — Está me contando tudo isso só para me assustar, não é Sr. Olin? Para me afastar daqui. — Na verdade, não. O senhor conhece a história do quarto, começando com o suicídio do seu primeiro ocupante. Mike conhecia. Kevin O’Malley, um vendedor de máquinas de costura, suicidara- se a 13 de outubro de 1910. Um fujão que deixara para trás esposa e sete filhos. — Cinco homens e uma mulher pularam da única janela do 1408, Sr. Enslin. Três mulheres e um homem tomaram uma dose excessiva de pílulas naquele quarto, dois foram encontrados na cama, dois no banheiro, um na banheira e um caído no vaso. Um homem se enforcou no closet em 1970... — Henry Storkin — disse Mike. — Aquele foi provavelmente acidental... asfixia erótica. — Talvez. Houve também o caso de Randolph Hyde, que cortou os pulsos e a seguir os órgãos genitais, por via das dúvidas, enquanto sangrava até a morte. Isso não foi asfixia erótica. A questão, Sr. Enslin, é que se o senhor não pode ser demovido de sua intenção por um registro de 12 suicídios em 68 anos, duvido que os arquejos e fibrilações de algumas camareiras o detenham. Arquejos e fibrilações, essa é boa, pensou Mike, e cogitou se poderia roubar a frase para o livro. — Poucas duplas que limparam o 1408 nesses anos quiseram voltar lá mais de algumas vezes — disse Olin e terminou sua bebida com um cuidadoso golinho. — Exceto as gêmeas francesas. — Vee e Cee, é verdade — Olin concordou com a cabeça. Mike não se importava muito com as empregadas e seus... como Olin os chamara? Arquejos e fibrilações. Sentia-se suavemente exasperado pela enumeração dos suicídios feita por Olin... como se Mike fosse tão tosco que tivesse deixado escapar não a existência deles, mas seu grande significado. Só que não havia significado nenhum. Abraham Lincoln e John Kennedy tinha, vice-presidentes que se chamavam Johnson; os nomes Lincoln e Kennedy tinham sete letras; tanto Lincoln como Kennedy tinham sido eleitos em anos terminando em 60. O que provavam todas essas coincidências? Coisa alguma, droga. — Os suicídios formarão um maravilhoso segmento para o meu livro — disse Mike —, mas já que o gravador está desligado, posso lhe dizer que eles se resumem ao que um estatístico conhecido meu chama de “efeito cumulativo”. — Charles Dickens chamava-o de “efeito batata” — disse Olin. — Como? — Quando o fantasma de Jacob Marley apareceu pela primeira vez a Scrooge, disse-lhe que ele só poderia ser uma bolha de mostarda ou um pedacinho de batata malpassada. — Isso era pra ser engraçado? — perguntou Mike, friamente. — Não considero nada a respeito disso engraçado, Sr, Enslin. Absolutamente nada. Ouça atentamente, por favor. A irmã de Vee, Celeste, morreu de um ataque do coração. Naquela época, ela

sofria de Alzheimer num estágio médio, uma doença que a atingiu muito cedo na vida. — Mesmo assim, a irmã dela está bem, pelo o que o senhor disse antes. Uma história americana de sucesso, na verdade. Da mesma forma que o senhor, Sr. Olin, a julgar pela aparência. E quantas vezes o senhor entrou e saiu do quarto 1408? Cem? Duzentas? — Por períodos muito curtos — disse Olin. — Talvez seja como entrar num aposento cheio de gás venenoso. Se a pessoa prende a respiração, pode se sair bem. Vejo que não gosta dessa comparação. Sem duvida a considera muito elaborada, talvez ridícula. Mas eu acho que é boa. Ele cruzou os dedos sob o queixo. — É possível também que algumas pessoas reajam mais rapidamente e mais violentamente ao seja lá o que viva no quarto, exatamente como alguns esportistas que praticam o mergulho são mais propensos ao mal-estar da descompressão que outros. Em quase um século de existência do Dolphin, a equipe do hotel torna-se cada vez mais consciente de que o 1408 é um quarto envenenado. Tornou-se parte da história da casa, Sr. Enslin. Ninguém fala disso, exatamente como ninguém menciona o fato de que aqui, como na maioria dos hotéis, o 14º andar é na verdade o 13º... mas eles sabem. Se todos os fatos e registros sobre aquele quarto estivessem disponíveis, eles contariam uma história surpreendente... mais desconfortável do que seus leitores pudessem usufruir. Por exemplo, acho que todo hotel de Nova York tem seus suicídios, mas eu apostaria minha vida que apenas no Dolphin houve uma dúzia deles num único quarto. E deixando Celeste Romandeau de lado, o que me diz das mortes naturais no 1408? As chamadas mortes naturais? — Quantas já ocorreram? — A ideia das chamadas mortes naturais no 1408 não lhe ocorrera. — Trinta — respondeu Olin. — Pelo menos 30. Trinta, que eu saiba. — O senhor está mentindo! — As palavras saíram da boca de Mike antes que ele pudesse impedir. — Não, Sr. Enslin, asseguro-lhe. O senhor realmente pensou que mantemos aquele quarto fechado por causa da tola superstição de velhas viúvas malucas ou de uma ridícula tradição de Nova York?... Pela ideia de que todo bom hotel antigo deve ter pelo menos um espírito inquieto, arrastando-se pela Suíte das Correntes Invisíveis? Mike Enslin percebeu que essa ideia — não articulada, mas presente mesmo assim — pairava por seu novo livro da série Dez Noites. Ouvir Olin censurá-la no tom irritado de um cientista ante os passes de bruxaria de um nativo não ajudou a acalmar sua ansiedade. — Temos nossas superstições e tradições no ramo hoteleiro, mas não deixamos que elas atrapalhem os negócios, Sr. Enslin. Há um velho ditado no Meio Oeste, onde comecei na minha profissão: “Não há nenhum quarto vazio, quando os homens do gado estão na cidade.” Se temos vagas, nós as preenchemos. A única exceção à regra que já fiz algum dia... e a única conversa que já tive sobre isso... foi com relação ao quarto 1408, um quarto do 13º andar cuja soma dos números é 13. Olin olhou Mike Enslin nos olhos. — É um quarto não apenas de suicídios, mas de derrames, infartos e acessos epilépticos. Um homem que ficou no quarto... foi em 1973... aparentemente afogou- se num prato de sopa. O senhor sem dúvida vai dizer que isso é ridículo, mas falei com o homem que era chefe da segurança do hotel na época, e ele viu o atestado de óbito. O poder de seja lá o que for que habita o quarto parece ser menor por volta do meio-dia, que é quando a arrumação dos quartos sempre ocorre, e mesmo assim sei de várias camareiras que trabalharam lá e que agora sofrem do coração, tem enfisema, diabete. Houve um problema de aquecimento naquele andar há três anos, e o Sr. Neal, o engenheiro-chefe da manutenção à época, entrou em vários quartos para verificar as unidades de aquecimento. O 1408 foi um deles. O engenheiro parecia bem então... tanto no quarto quanto depois... mas morreu na tarde seguinte de uma hemorragia generalizada.

— Coincidência — disse Mike. Mesmo assim, não podia negar que Olin era bom. Se o homem fosse um conselheiro de acampamento, deixaria 90% dos garotos tão assustados que eles voltariam para casa após a primeira rodada de histórias de fantasma em torno da fogueira. — Coincidência — repetiu Olin, suavemente, não exatamente com desprezo. Estendeu a chave fora de moda no antigo chaveiro de metal fora de moda. — Como está o seu coração, Sr. Enslin? Sem falar em sua pressão sanguínea e condições psicológicas? Mike descobriu precisar de um esforço real e consciente para levantar a mão... mas, uma vez que a pôs em movimento, tudo bem. Ela se ergueu até a chave sem o mínimo tremor nos dedos, tanto quanto pôde notar. — Está tudo bem — disse ele, pegando o gasto chaveiro de metal. — Além disso, estou usando minha camisa havaiana da sorte. Olin insistiu em acompanhar Mike ao 14º andar no elevador, e Mike não objetou. Estava curioso para ver se, quando estivessem fora do escritório e no corredor que levava aos elevadores, o gerente voltaria ao seu eu menos consequente; se ele se tornaria mais uma vez o pobre Sr. Olin, o obsequioso funcionário que caíra nas garras do escritor. Um homem de smoking — o palpite de Mike é que era o gerente ou o maître do restaurante — os deteve, estendeu a Olin um maço fino de papéis e murmurou algo em francês para ele. Olin respondeu com um murmúrio, concordando com a cabeça, e rapidamente rabiscou sua assinatura nas folhas. O sujeito no bar tocava “Autumn in New York”. Daquela distância, soava como um eco, o tipo de música ouvida num sonho. O homem de smoking disse Merci bien e continuou o seu caminho. Mike e o gerente do hotel continuaram andando. Olin novamente perguntou se podia carregar a pequena valise de Mike, e este novamente recusou. No elevador, os olhos dele foram atraídos para a tripla fila de botões. Tudo estava onde devia estar, não havia falhas... e mesmo assim, olhando-se mais atentamente, via-se que havia. O botão que marcava o 12º era seguido por outro que marcava 14º. Como se pudessem fazer o número 13 não existir omitindo-o do painel de controle do elevador. Tolice... e mesmo assim Olin estava certo: isso era feito em toda parte do mundo. Enquanto o elevador subia, Mike disse: — Uma coisa me dá curiosidade. Por que o senhor não cria um residente fictício para o quarto 1408, se ele o assusta tanto como o senhor diz que assusta? Ou melhor, Sr. Olin, por que não o declara sua própria residência? — Acho que tive medo de ser acusado de fraude pela pessoa que aplica os estatutos estaduais e federais... para o pessoal hoteleiro, as leis dos direitos civis é como o arrastar de correntes à noite para muitos de seus leitores... ou então por meus patrões, caso soubessem disso. Se não consegui convencê-lo a desistir do quarto 1408 duvido que tivesse mais sorte em convencer o conselho de diretores da Stanley Corporation de que retirei do mercado um quarto em perfeitas condições porque tenho medo que fantasmas obriguem um caixeiro-viajante ou outro a pular pela janela e se esborrachar na Rua Sessenta e Um. Mike considerou isso a coisa mais perturbadora que Olin já dissera. Porque ele não está tentando mais me convencer, pensou. Sejam quais forem os poderes de venda do gerente em seu escritório — talvez alguma vibração que venha do tapete persa —, ele os perde aqui fora. Competência sim, podiase ver isso quando ele assinava as folhas do maître, mas não venda. Não magnetismo pessoal. Não aqui fora. Mas ele acredita no que diz. Acredita naquilo tudo. Acima da porta, o 12 se apagou e deu lugar ao 14. O elevador se deteve. A porta abriu-se revelando um corredor de hotel totalmente comum, de carpete vermelho- e-ouro (definitivamente não persa) e instalações elétricas que pareciam lâmpadas a gás do século XIX.

— Aqui estamos — disse Olin. — O seu andar. Vai me desculpar se eu o deixar aqui? O 1408 é à sua esquerda, no final do corredor. A não ser que seja absolutamente necessário, não passo daqui. Mike Enslin saiu do elevador com pernas mais pesadas do que de costume. Virou-se para Olin, um homenzinho gorducho de terno escuro e gravata cor de vinho com um laço cuidadoso. O gerente entrelaçava as mãos manicuradas às costas, e Mike viu que o rosto dele se mostrava de uma palidez cremosa. Na testa alta e sem rugas, despontavam gotas de transpiração. — Há um telefone no quarto, claro — disse Olin. — O senhor pode tentar, se tiver problemas... mas duvido que ele funcione. Não se o quarto não quiser. Mike pensou numa resposta leviana, tipo pelo menos isso o faria economizar no serviço de quarto, mas sua língua parecia ainda mais pesada do que as pernas e continuou imóvel dentro da boca. Olin retirou uma das mãos de trás das costas e Mike viu que ela tremia. — Sr. Enslin, Mike. Não faça isso. Pelo amor de Deus... Antes de poder terminar, a porta do elevador se fechou, silenciando-o. Mike ficou onde estava por um momento, no perfeito silêncio do hotel nova-iorquino, no andar que ninguém da equipe admitiria ser o 13º. Pensou em estende a mão e apertar o botão para chamar o elevador. No entanto, se fizesse isso, Olin venceria. E haveria um grande buraco escancarado no lugar do melhor capitulo do seu novo livro. Os leitores poderiam não saber disso, assim como seu editor, seu agente e Robertson, o advogado... mas ele saberia. Em vez de apertar o botão do elevador, Mike tocou no cigarro atrás da orelha — aquele gesto antigo e distraído que nem ele sabia mais que fazia —, alisando também o colarinho da sua camisa da sorte. Então começou a seguir pelo corredor na direção do 1408, balançando a pequena valise a seu lado.

II

O ARTEFATO MAIS INTERESSANTE deixado na esteira da breve estada de Mike Enslin (que durou cerca de 70 minutos) no quarto 1408 foram os 11 minutos de fita registrados no gravador, um pouco escurecido pelo fogo, mas de longe de estar destruído. O fascinante da narração era haver pouquíssima narração. E como era esquisita. O gravador fora um presente de sua ex-mulher, de quem ficara amigo, há cinco anos. Em sua primeira “expedição sobre um caso” (a fazenda Rilbsy, em Kansas), levara-o quase como se tivesse lembrado dele no último minuto, juntamente com cinco grandes blocos amarelos e um estojo de couro com lápis apontados. Ao chegar à porta do quarto 1408 do Hotel Dolphin, três livros depois, Mike trazia consigo apenas uma caneta e um caderno de notas, assim como cinco fitas cassete virgens de 90 minutos, além da que já colocara no gravador antes de deixar seu apartamento. Descobrira que falar ao gravador lhe era mais útil do que tomar notas; podia recolher anedotas, algumas fantásticas, enquanto aconteciam — os morcegos que haviam mergulhado sobre ele na torre supostamente mal-assombrada do Castelo Gartsby, por exemplo. Ele guinchara como uma garota em sua primeira viagem a uma ardilosa casa mal-assombrada. Além disso, o pequeno gravador era mais prático do que notas escritas, especialmente quando se está num gélido cemitério de New Brunswick e uma pancada de chuva e vento derrubam sua tenda às três da manhã. Não se podia tomar notas muito bem nessas circunstâncias, mas se podia falar... e fora o que Mike fizera, continuara falando enquanto lutava contra a lona molhada e ondulante da tenda, sem perder de vista o confortador olho vermelho do gravador. Ao longo dos anos e das “expedições sobre casos”, o gravador da Sony tornara-se um amigo. Mike jamais registrara uma narrativa em primeira mão de um

verdadeiro acontecimento sobrenatural na fita de filamentos finos movendo-se entre os carretéis, e isso incluía os comentários entrecortados feitos no gravador. Caminhoneiros de longo curso passam a amar seus Kenworths e Jimmy-Petes. Escritores tratam como algo precioso determinada caneta, ou uma velha e gasta máquina de escrever; senhoras encarregadas da limpeza detestam desistir da velha Eletroluz. Mike jamais tivera que enfrentar um fantasma rela ou um evento psicocinético apenas com o gravador — sua versão da cruz e da réstia de alho — para protegê-lo, mas passara com ele inúmeras noites geladas e desconfortáveis. Era cabeça-dura, mas isso não o tornava inumano. Seus problemas com o 1408 começaram antes de entrar no quarto. A porta estava torta. Não muito, mas estava torta sem dúvida, ligeiramente para a esquerda. Isso o fez pensar primeiro em filmes de terror em que o diretor tentava indicar a tensão mental de um dos personagens inclinando a câmera em tomadas subjetivas. Essa associação foi seguida por outra — a aparência das portas quando se estava num barco e o tempo um tanto ruim. Elas iam para a frente e para trás, direita e esquerda, tique e taque, até que você começava a sentir a cabeça e o estômago meio revirados. Não que ele próprio se sentisse assim, de modo nenhum mas.. Sim, eu me sinto. Só um pouco. E ele diria isso também, ainda que fosse apenas pela insinuação de Olin de que sua atitude tornava impossível para ele ser justo no campo indubitavelmente subjetivo do jornalismo fantasmagórico. Inclinou-se (consciente de que a leve sensação no estômago sumira quando ele parara de olhar para a porta sutilmente desenquadrada), abriu o zíper da bolsa e retirou o gravador. Apertou o botão RECORD enquanto se endireitava, e viu o pequeno olho vermelho se iluminar. Então abriu a boca para dizer “A porta do quarto 1408 oferece sua própria saudação original; parece colocada torta, levemente para a esquerda”. Ele disse A porta, e isso foi tudo. Ouvindo-se a fita podem-se escutar as duas palavras claramente, A porta, e então o clique do botão STOP. Porque a porta não estava torta, estava perfeitamente direita. Mike virou, olhou para a porta do 1409 do outro lado do corredor e então novamente para a porta do 1408. Ambas eram iguais, brancas, com placas com números dourados e maçanetas douradas. Ambas totalmente retas. Ele se curvou, pegou a valise com a mão que segurava o gravador, com a outra mão colocou a chave na fechadura e parou. A porta estava novamente torta. Dessa vez inclinada ligeiramente para a direita. — Isso é ridículo — murmurou ele, mas a sensação de náusea já retornara a seu estômago. Não era apenas uma espécie de enjoo marítimo; era enjoo marítimo. Ele fora à Inglaterra no Queen Elizabeth II havia uns dois anos, e certa noite o mar ficou extremamente agitado. Mike lembrava mais claramente de ficar deitado na cama de sua cabine, sempre à beira de vomitar, mas em conseguir. E como a sensação de vertigem nauseada piorava quando ele olhava para uma porta, uma mesa ou cadeira... como ima para a frente e para trás... para a esquerda e para a direita... tique e taque.. Isso é culpa sua Olin, pensou. É exatamente o que ele quer. Ele o induziu a isso, companheiro. Ele armou isso. Cara, como ele ia rir se pudesse vê-lo. Como... Mike parou um instante quando percebeu que provavelmente Olin podia vê-lo. Olhou para trás, para o corredor até o elevador, mal notando que a sensação ligeiramente nauseada em seu estômago sumira no momento em que parara de fixar a porta. Acima e à esquerda dos elevadores, viu o que esperava: uma câmera de circuito fechado. Um dos detetives da casa poderia estar olhando para lá naquele exato momento, e Mike apostava que Olin estava com ele, ambos sorrindo como macacos. Vai ensiná-lo a vir aqui de advogado em punho e fazendo exigências, diria Olin. Olhe só para ele!, responderia o segurança, sorrindo mais amplamente ainda. Branco como um fantasma, e ainda nem pôs

a chave na fechadura. O senhor pegou ele, chefe! Pegou ele com caniço, linha e anzol! Uma ova que pegou, pensou Mike. Fiquei na casa Rilsby, dormi na sala onde pelo menos dois deles foram mortos — e dormi mesmo, acredite ou não. Passei uma noite junto ao túmulo de Jeffrey Dahmer e as duas lápides de distância de H.P. Lovercraft; escovei os dentes junto à banheira onde Sir David Smythe supostamente afogou as duas esposas. Há muito tempo parei de me assustar com histórias contadas em torno da fogueira. Uma ova que me pegou! Olhou para trás e a porta estava reta. Mike deu um grunhido, empurrou a chave na fechadura e girou-a. A porta se abriu e ele entrou. A porta não se fechou lentamente atrás dele quando ele apalpou a parede em busca do comutador, deixando- o em total escuridão (além disso, as luzes dos apartamentos do edifício vizinho brilhavam através da janela). Mike achou o comutador. Quando acionou, a luz de cima, encerrada numa coleção de ornamentos de cristal, acendeu-se. Da mesma forma que o abajur de pé junto à escrivaninha na outra extremidade do quarto. A janela ficava acima dessa escrivaninha, para alguém que escrevesse sentado ali pudesse fazer uma pausa no trabalho e olhar a Rua Sessenta e Um lá embaixo... ou pular para lá, se o impulso o levasse a isso. Exceto... Mike colocou a valise dentro do quarto, fechou a porta e ligou o gravador de novo. A pequena luz vermelha se acendeu. “Segundo Olin, seis pessoas pularam da janela que estou olhando, mas não vou dar nenhum mergulho do 14º, disse ele, desculpe, do 13º andar do Hotel Dolphin esta noite. Há uma malha de ferro ou aço protegendo a janela do lado de fora. Seguro morreu de velho. O 1408 é o que se chama de uma suíte júnior, acho eu. O quarto tem duas cadeiras, um sofá, uma escrivaninha, um armário que provavelmente contém a tevê e talvez um minibar. O carpete no chão não é digno de nota... não faz sombra ao de Olin, podem acreditar. O papel de parede idem. Ele... um momento...”. Nesse ponto, ouve-se outro clique na fita, quando Mike aperta o STOP novamente. Toda a parca narrativa da fita gravada tem esse aspecto fragmentado, totalmente diferente das outras cerca de 150 fitas de posse do agente literário do autor... Além disso, a voz se torna continuamente mais perturbada; não é a voz de um homem trabalhando e sim a de um indivíduo perplexo que começou a falar sozinho sem perceber. A natureza elíptica das fitas e aquela crescente perturbação verbal combinam-se para dar à maioria dos ouvintes uma nítida sensação de desconforto. Muitos pedem que a fita seja desligada bem antes de ela chegar ao fim. Meras palavras escritas não podem transmitir adequadamente a crescente certeza do ouvinte de estar escutando um homem perder, se não a razão, pelo menos o controle da realidade convencional, mas mesmo palavras sem relevo sugerem que algo estava acontecendo. Naquele momento, Mike notara os quadros nas paredes. Havia três deles: uma senhora numa escada, com traje de noite estilo dos anos 1920; um veleiro feito à maneira de Currier E Ives; e uma natureza-morta com frutas, esse último com maçãs, laranjas e bananas pintadas num desagradável tom amarelo-laranja. Os três quadros tinham molduras de vidro e os três estavam tortos. Mike quase mencionara isso na fita, mas o que havia de tão diferente, tão digno de ser comentado em três quadros desalinhados? Que uma porta estivesse torta... bem, isso tinha um pouco de encanto daquele velho Gabinete do Dr. Cagilari. Mas a porta não estava torta; seus olhos o tinham enganado por um momento, só isso. A senhora na escada inclinava-se para a esquerda. Da mesma forma que o veleiro, que mostrava marinheiros britânicos em calças de boca-de-sino à amurada, observando um cardume de peixes voadores. As frutas amarelo-laranjadas da tigela pareciam a Mike pintadas à luz sufocante de um sol equatorial, um sol de deserto tipo Paul Bowles, e inclinavam-se para a direita. Embora Mike não fosse detalhista, andou pelo quarto endireitando os quadros. Vê-los tortos assim o deixava um pouco nauseado

de novo, o que não lhe causava muita surpresa. Fica-se suscetível a essa sensação; descobrira aquilo no Queen Elizabeth II. Tinham-lhe dito que se a pessoa aguentasse aquele período de crescente suscetibilidade, geralmente se adaptava... “passa a ter pernas de mar”, como ainda dizem os velhos tripulantes. Mike ainda não viajara de barco o suficiente para conseguir pernas de mar, nem ligava para isso. Nesses dias, continuava com suas pernas de terra, e se o ato de endireitar os três quadros na sala de estar comum do 1408 aquietasse suas vísceras, ótimo para ele. Havia poeira na cobertura de vidro dos quadros. Ele passou os dedos pela natureza-morta e deixou dois sulcos paralelos. A poeira parecia gordurosa e escorregadia ao toque. Como seda antes de apodrecer, foi o que lhe veio à cabeça, mas queria ser mico de circo se ia colocar isso na fita. Como é que ele ia saber que sensação dava tocar a seda antes de ela apodrecer? Era um pensamento de bêbado. Os quadros foram endireitados, ele recuou e supervisionou-os por turnos: a senhora com traje de noite junto à porta que levava ao quarto, o veleiro navegando por um dos sete mares à esquerda da escrivaninha e finalmente as desagradáveis (e pessimamente pintadas) frutas junto ao armário de tevê. Em parte, Mike esperava que ficassem tortos novamente, ou entortassem quando ele os fitasse — era assim que as coisas aconteciam em filmes como A casa na colina e em velhos episódios de Além da imaginação — mas os quadros continuaram perfeitamente retos, como ele os colocara. Não que fosse achar algo de sobrenatural ou paranormal se os quadros voltassem a seu antigo estado torto; em sua experiência, a reversão era da natureza das coisas — gente que desistira de fumar (ele tocou cigarro atrás da orelha sem notar que o fazia) queria continuar fumando, e quadros que estavam tortos desde a era Nixon queriam continuar tortos. E eles estavam ali há muito tempo, sem dúvida, pensou Mike. Se eu os retirasse do lugar, veria uma marca mais clara no papel da parede. Ou insetos enxameando dali para fora, como acontece quando se levanta uma rocha. Havia algo chocante e horrível nessa ideia; surgia com uma vívida imagem de insetos brancos e cegos brotando como pus vivo do papel de parede e anteriormente protegido. Mike pegou o gravador, ligou-o e disse: “Olin certamente iniciou uma vertente de pensamento na minha cabeça. Ou uma corrente de pensamentos? Ele quis me levar a ter um chilique nervoso e foi bem-sucedido. Não pretendo...” Não pretendia o quê? Nesse ponto da fita, Mike Enslin declara de modo perfeitamente articulado e sem vibração: “Tenho que me controlar. Imediatamente.” Isso é seguido por outro clique, quando ele desliga a fita de novo. Fechou os olhos e respirou profundamente quatro vezes, a cada vez prendendo a respiração e contando até cinco antes de expeli-la de novo. Nunca acontecera com ele nada semelhante — não nas casas, nos cemitérios ou nos castelos supostamente assombrados. Isso não era como ser assombrado, ou como ele imaginara que devia ser; isso era como estar completamente chapado com droga ruim, ordinária. Foi Olin que fez isso. Olin hipnotizou-o, mas você vai escapar. Vai passar a porcaria da noite neste quarto, e não só porque é o melhor local em que já esteve na vida — deixando de lado Olin, você está perto de conseguir a melhor história de fantasma da década — mas porque Olin não vai conseguir vencer. Ele e a besteira da história das 30 pessoas que morreram não vão vencer. O único encarregado das besteiras por aqui sou eu, portanto trate só de inspirar... e expirar. Inspirar... e expirar. Inspirar... e expirar. Continuou assim por uns 90 segundos e, quando abriu os olhos de novo, sentiu-se normal. Os quadros na parede? Ainda retos. A tigela de frutas? Ainda amarelo- alaranjadas e mais feias do que nunca. Frutas do deserto, nem há dúvida. Como uma pedaço delas e você vai cagar até doer. Ele ligou o gravador. O olho vermelho se acendeu.

“Tive uma pequena vertigem por um ou dois minutos”, disse Mike, atravessando o quarto até a escrivaninha e a janela, com sua rede protetora do lado de fora. “Pode ter sido uma ressaca das lorotas de Olin, mas eu acho que sinto uma presença aqui.” Não sentia nada disse, claro, mas uma vez que estivesse na fita ele poderia escrever praticamente qualquer coisa que quisesse. “O ar é viciado. Nenhum bolor ou mau cheiro, Olin diz que o lugar é arejado cada vez que é limpo, mas as limpezas são rápidas e... sim é viciado. Ei, olhe só isso.” Na escrivaninha havia um cinzeiro, um daqueles pequenos objetos de vidro espesso que se viam em hotéis por toda parte, e dentro dele uma caixa de fósforos com o retrato do Hotel Dolphin. Na frente do hotel, via-se um porteiro sorridente com um uniforme bem fora da moda, com dragonas, alamares dourados e um quepe que parecia saído de uma boate gay na cabeça de um motociclista machão usando apenas alguns piercings de prata pelo corpo. Carros de outra época passavam pela Quinta Avenida em frente ao hotel — Packards, Hudsons, Studebakers e Chrysler New Yorkers com grandes caudas salientes. “Acho que a caixa de fósforos no cinzeiro é de 1955”, disse Mike, colocando- a no bolso da camisa havaiana. “Vou guardá-la como lembrança. Agora é hora de um pouco de ar fresco.” Há um clique quando ele deposita o gravador possivelmente na escrivaninha. Ouve-se uma pausa seguida por sons vagos e uns dois grunhidos de esforço. Depois disso vem uma segunda pausa e então um som guinchado. “Sucesso!”, diz Mike. Isso está um pouco fora do microfone, mas o que se segue é mais próximo. “Sucesso!”, repete Mike, pegando o gravador da escrivaninha. “A metade de baixo não se mexe... parece pregada... mas a parte de cima desceu muito bem. Posso ouvir o tráfego na Quinta Avenida, e todas as buzinas têm um tom reconfortante. Alguém está tocando um saxofone, talvez na frente do Plaza, que fica do outro lado da rua, dois quarteirões adiante. Ele me lembra meu irmão.” Mike parou abruptamente, olhando o pequeno olho vermelho, que parecia acusá-lo. Irmão? Seu irmão estava morto, outro soldado derrubado nas guerras do fumo. Então relaxou. E daí? A guerra atual era a guerra dos fantasmas, onde Michael Enslin sempre fora vencedor. Quanto a Donald Enslin... “Meu irmão, na verdade, foi comido por lobos num inverno, no pedágio de Connecticut”, disse ele. Depois riu e desligou o gravador. Há mais na fita... um pouco mais... mas essa é a última declaração com certa coerência... isto é, a última declaração a que se pode atribuir alguma coerência. Ele virou-se e olhou os quadros. Ainda estavam perfeitamente retos, como bons quadrinhos que eram. Mas aquela natureza-morta ali — como era feia, porra! Ligou o gravador e disse duas palavras — laranjas fumegantes — no gravador. Então desligou-o de novo e foi da sala de estar até a porta que levava ao quarto. Fez uma pausa junto à senhora em traje de noite e tateou a escuridão buscando o comutador da luz. Teve apenas um momento para registrar (dá a impressão de pele, de velha pele morta) algo estranho com o papel de parede sob a palma deslizante de Mike. Então seus dedos encontraram o comutador. O quarto inundou-se da luz amarela de um daqueles dispositivos de um daqueles dispositivos de teto enterrados em pingentes de vidro. A cama de casal escondia-se sob uma colcha amarelo-laranja. “Por que dizer escondia-se?”, perguntou Mike ao gravador e a seguir desligou- o de novo. Entrou, fascinado pelo fumegante deserto da colcha, pelos volumes tumorosos dos travesseiros sob ela. Dormir ali? De modo nenhum, companheiro! Seria o mesmo que dormir naquela natureza-morta desgraçada, naquele quente e horrível quarto Paul Bowles que não se podia ver direito, um quarto para expatriados ingleses lunáticos e cegos pela sífilis que tinha pego ao foderem com as mães, a versão para cinema estrelada por Laurence Harvey ou Jeremy Irons, um desses atores que naturalmente associamos a atos pouco naturais...

Mike ligou o gravador e o olho vermelho surgiu. Então ele disse “Testando um, dois, três, testando!” ao microfone, depois apertou STOP de novo. Aproximou- se da cama cuja colcha cintilava num amarelo-laranja. O papel de parede, talvez creme à luz do dia, refletia o amarelo-laranja. Duas pequenas mesas-de-cabeceira ladeavam a cama. Numa delas estava o telefone — preto, grande e a disco. Os buracos para discar pareciam surpresos olhos brancos. A outra mesa continha um prato com uma ameixa. Mike ligou o gravador e disse: “Isso não é uma ameixa de verdade, é de plástico.” Apertou STOP de novo. Sobre a cama havia um cardápio. Mike abordou a cama com muito cuidado para não tocar nela ou na parede, e pegou o cardápio. Estava escrito em francês e, embora já houvesse passado muito tempo na desde que Mike aprendera aquela língua, um dos itens do café da manhã eram pássaros assados na merda. Pelo menos parece algo que os franceses poderiam comer; pensou, dando uma risada alucinada e perturbada. Então fechou e abriu os olhos. O cardápio agora estava escrito em russo. Fechou e abriu os olhos. O cardápio agora estava escrito em italiano. Fechou e abriu os olhos. Não havia nenhum cardápio. Havia a xilogravura de um garotinho gritando e olhando por cima do ombro para um lobo de xilogravura que engolira sua perna esquerda até o joelho. As orelhas do lobo apontavam para trás e ele parecia um terrier com seu brinquedo favorito. Eu não estou vendo isso, pensou Mike, e claro que não estava. Sem fechar os olhos, viu nítidas linhas de inglês, cada qual consistindo em uma tentação diferente do desjejum. Ovos, waffles, frutinhas silvestres frescas, nada de pássaros assados na merda. Mesmo assim... Virou-se e muito lentamente saiu do pequeno espaço entre a parede e a cama, espaço que agora parecia estreito como um túmulo. Seu coração batia com tanta força que Mike podia sentir a pulsação no pescoço e nos pulsos, assim como no peito. Seus olhos latejavam nas órbitas. O 1408 era estranho sim, o 1408 era muito estranho. Olin dissera algo sobre gás envenenado, e era assim que Mike se sentia: como alguém que tivesse cheirado o gás ou fora forçado a fumar um haxixe forte misturado com inseticida. Olin provocara isso, claro, provavelmente com a adesão ativa e risonha do pessoal da segurança. Bombeara seu gás envenenado especial através dos respiradouros. Só porque Mike não podia ver nenhum respiradouro, não significava que não estivessem lá. Fitou o quarto com olhos assustados e arregalados. Não havia ameixa nenhuma na mesinha à esquerda da cama. E também nenhum prato. A mesa estava vazia. Mike virou-se, começou a andar para a porta que dava para a sala de estar e parou. Havia um retrato na parede. Não tinha absoluta certeza — em seu presente estado, não podia ter certeza nem do próprio nome —, mas estava razoavelmente certo de que não havia nenhum quadro quando chegara. Era uma natureza-morta. Uma única ameixa num prato de metal sobre uma velha mesa de madeira. A luz que incidia sobre a ameixa e o prato era de um febril amarelo-alaranjado. Luz de tango, pensou ele. O tipo de luz que faz os mortos levantarem dos túmulos e dançarem tango. O tipo de luz... — Tenho que sair daqui — murmurou, voltando aos tropeções para a sala de estar. Seus sapatos tinham começado a fazer estranhos sons de beijo, como se o chão por baixo deles tivesse ficado mole. Os quadros na parede da sala estavam tortos de novo e havia também outras mudanças. A senhora na escada abaixara a parte de cima de sua roupa, deixando os seios à mostra, e segurava um em cada mão. Uma gota de sangue pendia de cada mamilo. Ela fixava diretamente os olhos de Mike e sorria

ferozmente. Tinha dentes afiados em pontas como um canibal. Na amurada do veleiro, os marinheiros haviam sido substituídos por uma fileira de homens e mulheres pálidos. O homem da extrema esquerda, o mais perto da proa do navio, usava um terno de lã marrom e segurava um chapéu-coco na mão. Tinha o cabelo penteado para a testa e partido ao meio acima do rosto aturdido e vazio. Mike sabia que seu nome era Kevin O’Malley, o primeiro ocupante do 1408, um vendedor de máquinas de costura que pulara daquele quarto em outubro de 1910. À esquerda de O’Malley, havia outros que tinham morrido ali, todos com a expressão aturdida e vazia. Isso fazia com que todos parecessem parentes, membros da mesma família endogâmica e cataclismicamente retardada. No quadro onde as frutas tinham estado, havia agora uma cabeça humana decepada. Uma luz amarelo-laranja nadava nas faces encovadas, nos lábios afundados, nos olhos vidrados e virados para cima, no cigarro atrás da orelha direita. Mike cambaleou para a porta, os pés dando estalos de beijo e agora parecendo de fato grudar um pouco no chão a cada passo. A porta não se abriu, é claro. A corrente pendia solta, mas a porta não abria. Ofegando, Mike afastou-se dela e avançou com dificuldade — a sensação era essa — pelo aposento até a escrivaninha. Via as cortinas ao lado da janela que ele escancarara balançando erraticamente, mas não conseguia sentir nenhum ar fresco no rosto. Era como se o lugar estivesse engolindo o ar. Mike ainda podia ouvir as buzinas da Quinta Avenida, mas elas estavam agora muito distantes. Inda ouvia o saxofone? Em caso positivo, o lugar roubara sua doçura e melodia, deixando apenas um fraco zumbido atonal, como o vento soprando por um buraco no pescoço de um morto ou uma garrafa de refrigerante cheia de dedos cortados ou... Pare, Mike tentou dizer, mas não conseguia mais falar. Seu coração martelava num ritmo terrível; se fosse mais rápido, explodiria. O gravador, fiel companheiro de muitas “expedições sobre casos”, não estava mais em sua mão. Deixara-o em algum lugar. Se tivesse sido no quarto, provavelmente já teria desaparecido agora, engolido pelo aposento; e depois de digerido, seria excretado num dos quadros. Arquejando por ar como um corredor no fim de uma longa corrida, Mike pôs a mão no peito como se quisesse acalmar o coração. O que tateou n bolso esquerdo da alegre camisa foi a pequena forma quadrada do gravador. Apalpar seu volume tão sólido e conhecido acalmou-o um pouco, de certo modo trazendo-o de volta. Teve consciência de que estava cantarolando de boca fechada... e de que o lugar parecia cantarolar com ele, como se milhares de boas se escondessem por debaixo do papel de parede suavemente desagradável. Notou que seu estômago estava agora tão nauseado que parecia oscilar na própria rede gordurenta, e sentiu o ar pressionando seus ouvidos em coágulos macios. Mas voltara um pouco a si, o suficiente para ter certeza de que precisava pedir ajuda enquanto ainda era tempo. O pensamento de Olin sorrindo afetadamente (em seu modo atencioso de gerente de hotel nova-iorquino) e dizendo Bem que eu lhe disse não o aborrecia, e a ideia de Olin ter de algum modo lhe introduzido as estranhas percepções e um terrível medo por meios químicos saíra completamente de sua cabeça. Era aquele cômodo. Era o desgraçado do cômodo. Quis esticar a mão para o telefone antigo — gêmeo do que estava no quarto — e pegá-lo. Em vez disso, viu seu braço descer à mesa num delirante movimento em câmera lenta, tão parecido com o braço de um mergulhador que quase esperou ver bolhas saindo do membro. Agarrou o receptor e levantou-o. Sua outra mão, tão decidida quanto a primeira mergulhou e discou 0. Enquanto levava o receptor ao ouvido, escutou uma série de cliques como se o disco girasse novamente para sua posição original. Parecia soar como a Roda da Fortuna: quer girar a roda ou resolver o enigma? Lembre-se de que se tentar resolver o enigma e falhar, será colocado na neve ao lado do Pedágio Connecticut e os lobos comerão você. Não escutou nenhuma campainha. Em vez disso, uma voz áspera começou a falar “Eu disse nove!

Nove! Eu disse nove! Nove! Eu disse dez! Dez! Matamos seus amigos! Cada amigo seu agora está morto! Eu disse seis! Seis!”. Mike ouvia com um horror crescente não ao que a voz dizia, mas a seu áspero vazio. Embora não fosse uma voz gerada por máquina também não era uma voz humana. Era a voz do aposento. A presença derramando-se das paredes e do chão, a presença falando com ele do telefone não tinha nada em comum com qualquer evento assombrado ou paranormal sobre o qual lera algum dia. Havia algo diferente ali. Não, não está ali ainda... mas está chegando. Está faminto, e você é o jantar. O telefone caiu de seus dedos abertos e Mike se virou. O aparelho ficou pendurado pelo fio do mesmo modo que o estômago de Mike oscilava para a frente e para trás dentro dele, que ainda podia ouvir a voz áspera saindo do escuro: “Dezoito! Agora é o dezoito! Assuma o controle quando a sirene tocar! É o quatro! Eu disse quatro!”. Não notou que tirara o cigarro de trás da orelha e colocara-o na boca, ou que retirara do bolso da camisa berrante a caixa de fósforos com o porteiro de alamares dourados à antiga, assim como não notou que após nove anos finalmente tinha resolvido fumar. Diante dele, o aposento começava a derreter. Estava cedendo em seus ângulos e linhas retas, não em curvas mas em estranhos arcos mouriscos que feriam os olhos de Mike. O candelabro de vidro no centro do teto começou a decair como uma espessa bola de cuspe. Os quadros curvavam- se, tornando-se formas como Para-brisas de velhos carros antigos. Vinda de trás do vidro do quadro junto à porta que dava para o quarto, a mulher dos anos 20 com os mamilos sangrando sorria com dentes de canibal. Então deu meia-volta e subiu correndo a escada novamente, movendo-se com o delirante andar abrupto e sinuoso de uma vampira num filme mudo, levantando os joelhos. O telefone continuava a emitir um som áspero e a cuspir numa voz que era agora de uma máquina de cortar cabelo elétrica que tivesse aprendido a falar: “Cinco! Eu disse cinco! Ignore a sirene! Mesmo se você for embora deste quarto, jamais poderá deixá-lo! Oito! Eu disse oito!” A porta para o quarto e a porta para o corredor tinham começado a desmoronar alargando-se no meio e se tornando portais para seres possuídos de formas profanas. A luz tornou-se brilhante e quente, enchendo o lugar com um fulgor amarelo- laranja. Agora Mike podia ver rasgões no papel de parede, poros pretos que rapidamente cresciam até se transformar em bocas. O chão afundou num arco côncavo e então Mike pôde ouvir o habitante do quarto atrás do quarto chegando, a coisa nas paredes, o dono da voz que zumbia. “Seis!” o telefone gritou. “Seis, eu disse seis, é a droga do SEIS, porra!” Mike olhou para a caixa de fósforos em sua mão, a que retirara do cinzeiro do quarto. Que porteiro engraçado, que carros antigos engraçados com suas grandes grades cromadas... e palavras escritas no fundo que ele não via havia muito tempo, porque agora a fia abrasiva era sempre atrás. FECHE A TAMPA ANTES DE RISCAR. Sem pensar — não conseguia mais pensar —, Mike Enslin riscou um único fósforo, deixando o cigarro cair de sua boca ao mesmo tempo. Riscou o fósforo e imediatamente tocou com ele os outros da caixa. Houve um som de fffhut!, um forte sopro de enxofre ardente entrou na cabeça de Mike como uma baforada de sais de cheiro, e uma chama brilhante de fósforos. E mais uma vez sem pensar, Mike segurou o buquê chamejante de fogo contra a frente da camisa. Era uma camisa barata feita na Coreia, no Camboja ou em Bornéu, agora já velha; ela pegou fogo imediatamente. Antes que as chamas subissem à frente de seus olhos, tornando o cômodo mais uma vez instável. Mike viu-o clara e nitidamente, como uma pessoa que acorda de um pesadelo, mas encontra o pesadelo girando em torno de si mesma. Sua cabeça estava clara — a forte baforada de enxofre e o calor que se ergueu subitamente da camisa havaiana provocaram isso —, mas o lugar mantinha o aspecto insanamente pantanoso. Pantanoso não era a palavra, não chegava nem perto, mas era a única que parecia tangenciar o que acontecera ali... o

que ainda acontecia. Mike estava numa caverna que derretia e apodrecia, cheia de movimentos bruscos e inclinações loucas. A porta que dava para o quarto tornara-se a entrada para a câmara interna de um sarcófago. E à esquerda, onde estivera pendurado o quadro das frutas, a parede avolumava-se na direção de Mike, abrindo-se em longas rachaduras que se escancaravam como bocas, abrindo-se para um mundo de onde algo se aproximava agora. Mike Enslin ouvia a respiração ávida e molhada da coisa e sentia o cheiro de algo vivo e perigoso. Cheirava um pouco como a jaula do leão no... Então as chamas lamberam a parte de baixo do seu queixo, banindo seus pensamentos. O calor que subia da camisa flamejante pôs aquela oscilação novamente no mundo e, quando Mike sentiu o cheiro quebradiço dos pelos de seu peito começando a torrar, correu de novo pelo tapete esfiapado com direção à saída. As paredes passaram a emitir um zumbido. A luz amarelo-laranja tornava-se mais firme e brilhante, como se uma mão tivesse ligado um termostato invisível. Dessa vez, quando Mike chegou à porta e girou a maçaneta, a porta se abriu. Era como se a coisa atrás da parede que se avolumava não visse nenhuma utilidade num homem ardendo; talvez não apreciasse muito carne cozida.

III

UMA CANÇÃO POPULAR dos anos 50 sugere que o amor faz o mundo girar, mas é provável que a coincidência seja uma aposta melhor. Rufus Dearborn, que estava naquela noite no quarto 1414, perto dos elevadores, era um vendedor da Companhia de Máquinas de Costuras Singer vindo do Texas para falar sobre a ascensão à posição de executivo. Assim, aconteceu que aproximadamente 90 anos depois que o primeiro ocupante do 1408 pulou para a morte, outro vendedor de máquinas de costuras salvou a vida do homem que pretendia escrever sobre o quarto supostamente assombrado. Ou talvez isso fosse um exagero; Mike Enslin poderia ter vivido mesmo que ninguém — especialmente um sujeito voltando de uma ida a máquina de gelo — estivesse no corredor naquele momento. Mas ter a camisa pegando fogo não é brincadeira, e Mike certamente se queimaria com muito mais gravidade se não fosse por Dearborn, que pensou rápido e se mexeu mais rápido ainda. Não que Dearborn lembrasse com exatidão do que aconteceu. Ele constituiu uma história coerente o bastante para os jornais e as câmeras de tevê (gostava muito da ideia de ser herói, o que certamente não prejudicava suas aspirações executivas), e lembrava nitidamente de ver o homem pegando fogo investir para o corredor, mas, depois disso, era tudo um borrão. Reconstruir aquilo era como tentar reconstruir o que você faz durante a pior e mais profunda bebedeira se sua vida. De uma coisa ele tinha certeza, mas não contou aos repórteres porque não fazia sentido: o grito do homem pegando fogo parecia subir de volume como um estéreo sendo aumentado. Ele estava bem ali à frente de Dearborn, e o tom mais agudo do grito não mudou, mas o volume sim. Era como se o homem fosse um objeto incrivelmente barulhento que acabara de chegar. Dearborn correu pelo corredor com o balde cheio de gelo na mão. O homem pegando fogo — “Vi logo que só a camisa dele estava pegando fogo”, disse aos repórteres — chegou à porta oposta ao quarto de onde tinha vindo, ricocheteou nela, cambaleou e caiu de joelhos. Foi quando Dearborn o alcançou, pôs o pé no ombro ardente do homem que gritava e abaixou-o carpete do corredor. Então despejou nele o conteúdo do balde de gelo. Essas coisas ficaram borradas em suma memória, mas acessíveis. Tinha noção de que a camisa ardendo parecia emitir luz demais — uma luz amarelo— alaranjado que o fazia pensar numa viajem que ele e o irmão haviam feito à Austrália dois anos antes. Haviam alugado um veiculo com tração nas quatro

e partido para atravessar o Grande Deserto Australiano (alguns nativos o chamavam de o Grande Deserto Australiano Fode com Todos, descobriram os irmãos Dearborn), uma viagem infernal, fantástica mas fantasmagórica. Especialmente a grande rocha no meio, Ayers Rock. Eles tinham alcançado ao pôr do sol e a luz em seus rostos masculinos era como aquela... quente e estranha... de modo nenhum parecida com aquela luz terrena... Deixou cair ao lado do homem ardente que agora era o homem fumegante, o homem coberto de cubos de gelo, e rolou-o para abafar as chamas que alcançavam a parte de trás da camisa. Quando o fez, viu que a pele do lado esquerdo do pescoço do homem passara a um vermelho defumado e estava coberta de bolhas, e o lobo da orelha daquele lado derretera. Mas fora isso... fora isso... Dearborn ergueu os olhos e teve a impressão — era loucura, mas teve a impressão de que a porta do quarto de onde o homem saíra estava cheia de luz ardente de um pôr do sol australiano, a quente luz de um lugar vazio onde viviam coisas que nenhum homem já viu algum dia. A luz era terrível (assim como o zumbido baixo, semelhante ao de uma máquina de corta cabelo elétrica que tentasse desesperadamente falar), mas era também fascinante. Quis entrar no quarto, ver o que estava por trás dele. Talvez Mike também tenha salvo a vida de Dearborn. Certamente que sim, ao ver que Dearborn se levantara — como se Mike não tivesse mais nenhum interesse para ele — e que seu rosto estava cheio de luz fulgurante e pulsante que saía do 1408. Lembrava-se disso melhor do que próprio Dearborn, posteriormente, mas claro que Rufus Dearborn não fora obrigado a atear fogo em sim mesmo para sobreviver. Mike agarrou a bainha da calça de Dearborn. — Não entre ali — disse numa voz rouca e quebrada. — Você nunca sairia. Dearborn parou, olhando o rosto avermelhado e cheio de bolhas do homem no carpete. — É assombrado! — disse Mike, e, como se as palavras fossem um talismã, a porta do 1408 bateu furiosamente fazendo desaparecer a luz e o terrível zumbido que quase falava. Rufus Dearborn, um dos melhores vendedores das Máquinas de Costura Singer que havia, correu até os elevadores e apertou o alarme de incêndio.

IV

HÁ UMA FOTO interessante de Mike Enslin em Tratando a vítima de queimadura: Uma abordagem diagnóstica, cuja 16ª edição apareceu uns 16 meses depois da curta permanência de Mike no quarto 1408 do Hotel Dolphin. A foto mostra apenas seu torso, mas não há duvida de que é Mike. Podese dizer isso pelo quadrado branco em seu peito. A carne ali é de um vermelho raivoso, na realidade empolado em queimaduras de segundo grau em certos lugares. O quadrado branco marca o bolso esquerdo do peito da camisa que ele usava naquela noite, a camisa da sorte com o gravador no bolso. O próprio gravador derretera nos cantos, mas ainda funciona, e sua fita sobreviveu nele. As coisas dentro dela é que não estão bem. Depois de escutá-la três ou quatro vezes, Sam Farrel, o agente de Mike, guardou-a no cofre da parede, recusando- se a registrar que seus braços magricelas e bronzeados estavam arrepiados. E naquele cofre ficou a fita desde então. Farrel não tem nenhum impulso de escutá-la de novo, nem de mostrá-la a amigos curiosos, entre eles alguns dariam a vida para ouvi-la; o ramo editorial de Nova York é uma comunidade pequena e as notícias correm. Sam Farrel não gosta da voz de Mike na fita, e não gosta do que diz a voz (Meu irmão na verdade foi comido por lobos num inverno no Pedágio de Connecticut... que diabo isso significa?), e não gosta principalmente dos sons ao fundo, um ruído liquido que às vezes parece roupa muito ensaboada sacudida

numa máquina de lavar, às vezes uma daquelas velhas máquinas de cortar cabelo... e às vezes, uma voz esquisita. Enquanto Mike ainda estava no hospital, um homem chamado Olin — o gerente da droga do hotel — procurou Sam Farrel e perguntou-lhe se podia escutar a fita. Farrel respondeu-lhe que não podia, não; o que Olin podia fazer era ir embora daquele escritório o mais rápido possível, e agradecer a Deus, ao voltar para o pulgueiro onde trabalhava, por Mike Enslin não processar o hotel ou Olin por negligência. — Tentei convencê-lo a não ficar lá — disse Olin calmamente. Sendo um homem que passava a maior parte dos dias ouvindo viajantes cansados e hóspedes petulantes implicarem com tudo, dos quartos à seleção de revistas no suporte de publicações, ele não ficou muito perturbado com o rancor de Farrel. — Tentei tudo o que podia. Se alguém foi negligente naquela noite, Sr. Farrel, foi seu cliente. Ele acreditava demais em coisa alguma. Um comportamento muito pouco sábio, muito imprudente. Imagino que ele tenha reconsiderado seu ponto de vista. Apesar do desagrado de Farrel com a fita, ele gostaria que Mike a ouvisse, a registrasse, e quem sabe a usasse como um trampolim do qual lançar um outro livro. Porque há um livro no que acontecer a Mike, Farrel sabe disso — não apenas um capítulo, um caso de 40 páginas, mas um livro inteiro. Um livro que poderia vender mais do que todos os três Dez Noites juntos. E claro que ele não acredita quando Mike declara que não escreverá mais histórias de fantasmas nem qualquer outra história. Os escritores dizem isso de tempos em tempos, é só. Uma explosão ocasional de prima donna é parte integrante do comportamento dos autores. Considerando-se tudo, Mike Enslin teve sorte, e sabe disso. Poderia ter-se queimado muito mais; se não fosse por Dearborn e seu balde de gelo, ele poderia ter tido 20 ou mesmo 30 diferentes enxertos de pele em vez de apenas quatro. Tem cicatrizes no lado esquerdo do pescoço, apesar dos enxertos, mas os médicos do Boston Burn Institute disseram-lhe que as cicatrizes diminuirão sozinhas. Mike também sabe que as queimaduras, dolorosas nas semanas e meses depois daquela noite, tinham sido necessárias. Se não fosse pelos fósforos com FECHE A TAMPA ANTES DE RISCAR escrito na frente, ele teria morrido no 1408, e seu fim teria sido inominável. Para um legista, poderia parecer um derrame ou um infarto, mas a causa da morte teria sido muito mais maligna. Muito mais maligna. Mike também teve sorte em ter escrito três livros populares sobre fantasma e assombrações antes de sair correndo de um lugar realmente assombrado — ele sabia disso também. Sam Farrel pode não acreditar que a vida de Mike como escritor esteja encerrada, mas Sam não precisa acreditar; Mike sabe disso pelos dois. Ele não consegue escrever em um cartão-postal sem sentir toda a pele gelada e uma profunda náusea na boca do estômago. Às vezes só de olhar uma caneta (ou um gravador) o faz pensar: Os quadros estavam tortos. Tentei endireitá-los. Ele não sabe o que isso significa. Não consegue lembrar dos quadros ou de coisa alguma do quarto 1408, e está contente. Isso é uma benção. Sua pressão sanguínea não anda tão boa por esses dias (seu médico disse que as vítimas de queimaduras geralmente passam a ter problemas de pressão e o fez tomar remédio), seus olhos ainda o incomodam (o oftalmologista disse para ele começar a usar remédio), ele tem frequentes problemas de coluna, sua próstata está grande demais... mas ele pode lidar com essas coisas. Mike sabe que não é a primeira pessoa a escapar do 1408 sem escapar realmente — Olin tentou lhe dizer —, mas não é tão ruim assim. Pelo menos, ele não se lembra. Às vezes tem pesadelos; ou com muita frequência (quase todas as malditas noites, na verdade), mas raramente lembra deles quando acorda. Principalmente uma sensação de que as coisas estão se arredondando nos cantos — derretendo-se como os cantos do gravador. Mike mora em Long Island atualmente e, quando o tempo está bom, ele dá longos passeios na praia. O mais perto que chegou de articular as lembranças dos esquisitos (muito esquisitos) 70 minutos no 1408

ocorreu numa dessas caminhadas. “Aquilo nunca foi humano”, disse ele as ondas com voz sufocada, entrecortada. “Fantasmas... pelo menos os fantasmas foram humanos no passado. Mas a coisa na parede... aquela coisa...”. O tempo pode trazer melhoras para Mike. Ele espera por isso e tem razão em fazê-lo. O tempo pode desbotar as lembranças de Mike, assim como pode esmaecer as cicatrizes em seu pescoço. Mas enquanto isso, ele dorme com a luz acessa para saber onde está quando acorda de um pesadelo. Mandou retirar todos os telefones da casa sob o local em que sua mente consciente opera, ele tem medo de pegar o telefone e ouvir uma voz inumana zumbir “É nove! Eu disse nove! Matamos seus amigos! Cada amigo seu está morto!”. E quando o sol se põe nas noites claras, Mike fecha todas as persianas, venezianas e cortina da casa. Fica mergulhado na escuridão até que o relógio lhe diga que a luz — mesmo o último fulgor no horizonte — se foi. Ele não suporta a luz que chega ao pôr do sol. Aquele amarelo se aprofundando, tornando-se laranja, como a luz do deserto australiano.



A Máquina de Passar Roupas

(do livro Sombras da Noite)

Introdução de Stephen King

Quando meu irmão David e eu éramos crianças, nossa mãe trabalhava na máquina de passar roupas da Lavanderia Stratford, em Stratford, Connecticut. Ela nos contou que a máquina, que os trabalhadores chamavam de estraçalhadora, era perigosa. Lembro-me de pensar, “Com um nome desses, como não poderia ser?”. Mamãe trabalhou quase até morrer — lá, e em outros trabalhos suados pagos com salário mínimo — para garantir aos seus meninos educação universitária, e meu primeiro emprego ao me formar foi... em uma lavanderia! Eu era o cara dos lençóis de motéis — uma especialidade corajosa, meus amigos — mas eu pude ver a estraçalhadora todo dia; a ponta ficava a menos de nove metros da minha grande máquina de lavar automática. Ela era, de fato, perigosa. Um dos trabalhadores do térreo, Harry Cross, tinha ganchos no lugar das mãos para provar. Num certo sábado, na época da Segunda Guerra Mundial, ele caiu na máquina enquanto ela funcionava. Por isso os ganchos, que ele ocasionalmente pendurava nas torneiras do banheiro masculino (gancho esquerdo equivale a QUENTE, gancho direito equivale a FRIO) e usava-os para tocar nas nucas das inocentes moças que trabalhavam na estraçalhadora. Hoje em dia esse tipo de coisa é chamado de “assédio sexual”; Harry chamava de “brincadeira”. Eu não dei opinião; simplesmente me perguntei como ele dava o nó na gravata toda manhã (às vezes, eu me perguntava sobre como ele fazia outras coisas também, mas vamos deixar para lá). Dado ao meu hábito de imaginar o pior, não é surpresa que eu tenha imaginado uma estraçalhadora vampira. E talvez também não seja surpresa que a história resultante foi transformada num filme. Tobe Hooper, que o dirigiu, é um tipo de gênio... O Massacre da Serra Elétrica prova isso. Mas quando o gênio pensa errado, cara, sai de baixo. O filme que adaptou “A Máquina de Lavar Roupas” (Mangler: O Grito do Terror) é enérgico e colorido, mas também é uma bagunça com Robert (Freddy Krueger) Englund perambulando por razões que permanecem estranhas a mim até hoje. Eu acho que ele era caolho e mancava, mas eu poderia estar errado. O visual do filme é surreal e os sets são de estourar os olhos, mas em algum lugar pelo caminho (talvez na abundante quantidade de vapor gerada pela estrela mecânica do filme) a história se perdeu. Foi uma pena, porque Hooper fez maravilhas com A Mansão Marsten em sua primeira encarnação como minissérie. Quando as pessoas falam sobre coisas minhas que as assustaram nas telonas, elas normalmente falam sobre o Palhaço Pennywise primeiro, então sobre Kathy Bates como Annie Wilkes, e depois os garotos-vampiros de Marsten. Não há tais imagens memoráveis em Mangler, mas continuo dizendo que é o melhor conto que você lerá sobre uma máquina de passar ambulante, heh-heh-heh. O Oficial Hunton chegou à lavanderia quando a ambulância já partia devagar, sem sirenes ou luzes piscando. Mau presságio. Lá dentro, o escritório estava abarrotado de pessoas inquietas e caladas, algumas das quais choravam. A lavanderia propriamente dita estava vazia; as grandes lavadoras automáticas na extremidade oposta nem mesmo tinham sido fechadas. Aquilo fez Hunton ficar muito atento. A multidão devia estar no local do acidente, não no escritório. Era o que costumava acontecer: o animal humano possuía uma compulsão inata para ver os restos mortais. Então, fora coisa muitíssimo séria. Hunton sentiu um aperto no estômago, como sempre acontecia quando o acidente era muito grave. Quatorze anos de remover restos humanos de rodovias, ruas, sarjetas em frente a arranha-céus altíssimos não haviam conseguido eliminar aquela leve contração na barriga, como se alguma coisa maléfica se tivesse coagulado ali. Um homem de camisa branca avistou Hunton e se encaminhou para ele com relutância. Era um touro de um homem, com a cabeça atirada para frente entre os ombros, nariz e bochechas

riscadas por vasos sanguíneos dilatados pela pressão alta por demasiada intimidade com a garrafa. Tentou articular palavras, mas, após a segunda tentativa, Hunton interrompeu-o vigorosamente: — É o proprietário? É o Sr. Gartley? — Não... não. Sou Stanner. O capataz. Oh, Deus, este... Hunton tirou do bolso a caderneta de anotações. — Por favor, mostre-me a cena do acidente, Sr. Stanner. E conte-me o que aconteceu. Stanner pareceu empalidecer ainda mais; as manchas no nariz e bochechas destacavam-se como marcas de nascença. — E... é preciso? Hunton ergueu as sobrancelhas. — Temo que sim. O chamado que recebi disse que era grave. — Grave... Stanner deu a impressão de lutar contra a própria garganta; por um instante, seu pomo-de-adão subiu e desceu como um macaco num poste. — A Sra. Frawley morreu. Jesus Cristo! Como eu gostaria que Bill Gartley estivesse aqui. — O que aconteceu? Stanner disse: — Acho melhor o senhor vir até aqui. Conduziu Hunton ao longo de uma fila de passadeiras manuais, uma máquina de dobrar camisas e parou junto a uma máquina de marcar roupas. Passou a mão trêmula pela testa. — Terá que ir sozinho, oficial. Não posso olhar outra vez. Fico... Não posso. Sinto muito. Hunton rodeou a máquina de marcar com um leve sentimento de desprezo pelo homem. Trabalham sem maiores precauções, cortam caminho, fazem passar vapor fervente por canos soldados à moda doméstica, manipulam produtos químicos perigosos sem a proteção adequada e, afinal, alguém se machuca. Ou morre. Então, não suportam olhar. Não podem... Hunton viu. A máquina ainda funcionava. Ninguém a desligara. A máquina que ele posteriormente passou a conhecer intimamente: a Passadeira e Dobradeira de Alta Velocidade Hadley-Watson Modelo-6. Um nome comprido e desajeitado. O pessoal que trabalhava ali, no calor e umidade, tinha um nome mais apropriado para ela: a estraçalhadora. Hunton lançou à máquina um olhar prolongado e frio. Então, pela primeira vez em seus quatorze anos de guardião da lei, virou-se, levou convulsivamente a mão à boca e vomitou.

***

— Você não comeu muito — disse Jackson. As mulheres estavam lá dentro, lavando a louça e conversando sobre crianças enquanto John Hunton e Mark Jackson sentavam-se nas cadeiras de jardim perto da aromática churrasqueira. Hunton sorriu levemente ao escutar o eufemismo. Ele não comera nada. — Houve um ruim hoje — disse ele. — O pior. — Acidente de automóvel? — Não. Industrial. — Sujo? Hunton não respondeu de imediato, mas fez uma careta involuntária de repulsa. Tirou uma cerveja da geladeira portátil colocada entre as duas cadeiras, abriu-a e tomou a metade.

— Suponho que vocês, professores universitários, nada saibam a respeito de lavanderias industriais, não é mesmo? Jackson soltou uma risadinha. — Este aqui conhece. Passei um verão trabalhando numa delas, quando era estudante. — Então, conhece a máquina que chamam passadeira de alta velocidade? Jackson meneou a cabeça em afirmativa. — Claro. Servem para passar roupas lisas úmidas, principalmente lençóis e roupas de cama e mesa. Uma máquina grande e comprida. — Isso mesmo — disse Hunton. — Uma mulher chamada Adelle Frawley foi apanhada pela máquina na Lavanderia Faixa Azul, no outro lado da cidade. A máquina sugou-a. Jackson pareceu repentinamente enjoado. — Mas... isso não pode acontecer, Johnny. Existe uma barra de segurança. Se uma das mulheres que colocam roupas na máquina enfiar inadvertidamente a mão nela, a barra sobe e para a máquina. Pelo menos, é assim que me recordo. Hunton meneou a cabeça, concordando. — É uma lei estadual. Mas aconteceu. Hunton fechou os olhos e, no escuro, viu novamente a passadeira de alta velocidade HadleyWatson, como acontecera naquela tarde. A máquina formava uma grande caixa retangular, com dez metros por dois. Na extremidade de alimentação, uma correia transportadora de lona corria sob a barra de segurança, subindo ligeiramente e depois descendo. A correia transportava lençóis úmidos e amarrotados, num ciclo contínuo, por cima e por baixo de dezesseis enormes cilindros rotativos que constituíam o corpo principal da máquina. Por cima de oito e por baixo de oito, comprimidos contra eles como fatias finas de presunto entre camadas de pão superaquecido. O calor do vapor nos cilindros podia ser regulado até 300 graus, para secamento máximo. A pressão sobre os lençóis transportados pela correia era de 800 libras por polegada quadrada, a fim de eliminar qualquer ruga. E, de algum modo, a Sra. Frawley fora apanhada e arrastada para o interior da máquina. O aço, os cilindros de passar recobertos de asbestos estavam vermelhos como tinta de celeiro e o vapor que se erguia da máquina trazia consigo o enjoativo cheiro de sangue aquecido. Pedaços de sua blusa branca e calças azuis, até mesmo fragmentos rasgados do sutiã e das calcinhas, tinham sido arrancados e ejetados pela extremidade oposta da máquina, a dez metros de distância, os pedaços maiores de tecido dobrados com grotesca e sanguinolenta perfeição pela dobradeira automática. Contudo, nem mesmo isto fora o pior. — Tentei dobrar tudo — disse ele a Jackson, sentindo gosto de bile na garganta. — Mas uma pessoa não é um lençol, Mark. O que eu vi... o que restava dela... Como Stanner, o desaventurado capataz, ele não pôde terminar. — Levaram-na numa cesta — disse em voz baixa. Jackson assoviou. — Quem vai ser degolado? A lavanderia ou os fiscais estaduais? — Ainda não sei — replicou Hunton. A imagem maligna ainda lhe pairava na mente, a imagem da estraçalhadora assoviando, batendo, vibrando, o sangue escorrendo em filetes pelos lados verdes da comprida caixa, o cheiro de queimado da mulher... — Depende de quem aprovou aquela maldita barra de segurança e em que circunstâncias o fez. — Se for a gerência, conseguirão escapar desta? Hunton sorriu sem humor.

— A mulher morreu, Mark. Se Gartley e Stanner estavam fazendo economia na manutenção da passadeira de alta velocidade, irão para a cadeia. Não interessa se conhecem alguém na câmara municipal. — Acha que eles faziam isso? Hunton lembrou-se da Lavanderia Faixa Azul, mal iluminada, o chão molhado e escorregadio, algumas das máquinas incrivelmente antigas e barulhentas. — Creio que é provável — respondeu em voz baixa. Levantaram-se para entrar juntos na casa. — Conte-me o resultado, Johnny — disse Jackson. — Estou interessado. Hunton estava enganado a respeito da estraçalhadora: a máquina se encontrava em perfeito estado. Seis inspetores estaduais a examinaram, peça por peça, antes do inquérito. O resultado foi absolutamente negativo. O veredicto do inquérito foi morte acidental. Perplexo, Hunton procurou Roger Martin, um dos inspetores, após a audiência. Martin parecia um copo grande de água, com óculos tão grossos como o fundo de copos de dose pequena. Sob o interrogatório de Hunton, brincou com uma caneta esferográfica. — Nada? Absolutamente nada de errado com a máquina? — Nada — respondeu Martin. — Naturalmente, a barra de segurança foi o âmago da questão. Está em perfeita ordem de funcionamento. Você ouviu o depoimento daquela Sra. Gilhan. A Sra. Frawley deve ter avançado demais a mão. Ninguém viu; cada um cuidava de seu trabalho. Ela começou a gritar. A mão já se fora e a máquina estava puxando o braço. Tentaram puxá-la para fora, em lugar de desligarem a máquina — puro pânico. Outra mulher, a Sra. Keene, afirmou haver tentado desligá-la, mas é uma suposição razoável que tenha apertado o botão de partida e não o de parada, em meio à confusão. A essa altura, já era tarde demais. — Então, a barra de segurança funcionou mal — declarou peremptoriamente Hunton. — A menos que ela tenha passado a mão por cima da barra e não por baixo? — É impossível. Existe uma placa de aço inoxidável acima da barra de segurança. E a barra propriamente dita não funcionou mal. Está ligada em circuito com a própria máquina. Se a barra de segurança entrar em pane, a máquina para. — Então, pelo amor de Deus, como aconteceu? — Não sabemos. Meus colegas e eu somos de opinião que a única maneira pela qual a passadeira de alta velocidade poderia ter matado a Sra. Frawley foi que esta caísse na máquina, vindo de cima. E estava com ambos os pés no chão quando o acidente ocorreu. Uma dúzia de testemunhas confirmam isso. — Você está descrevendo um acidente impossível — disse Hunton. — Não. Apenas um acidente que nós não compreendemos. Fez uma pausa, hesitou e depois acrescentou: — Já que você parece levar o caso tão a sério, vou lhe contar uma coisa, Hunton. Mas se você comentar com alguém, negarei ter dito qualquer coisa. Mas não gostei daquela máquina. Parecia... quase zombar de nós. Tenho inspecionado mais de uma dúzia de máquinas passadeiras de alta velocidade nos últimos cinco anos, a intervalos regulares. Algumas delas se encontram em estado tão deplorável que eu não permitiria nem a um cão aproximar-se delas — a lei estadual é lamentavelmente frouxa, Apesar disso, eram apenas máquinas. Mas esta... é uma fantasma. Não sei por que, mas é. Acho que se eu encontrasse uma única coisa, o menor detalhe técnico fora de ordem, mandaria interditá-la. Loucura, não acha? — Sinto a mesma coisa — declarou Hunton.

— Deixe-me contar-lhe uma coisa que aconteceu há dois anos, em Milton — disse o inspetor, tirando os óculos e começando a poli-los vagarosamente no colete. — Um sujeito largou uma velha geladeira nos fundos do quintal. A mulher que nos chamou disse que seu cão foi apanhado pela geladeira e morreu sufocado. Pedimos à polícia estadual daquela área que informasse o homem de que a geladeira tinha que ir para o depósito de lixo municipal. Era um sujeito bastante educado, disse que sentia muito a morte do cão. Embarcou a geladeira em sua camioneta na manhã seguinte e a levou para o depósito de lixo. Naquela tarde, uma mulher da vizinhança deu queixa de que seu filho desaparecera. — Meu Deus — disse Hunton. — A geladeira estava no depósito e o menino dentro dela, morto. Um menino esperto, segundo a mãe. Esta declarou que o filho jamais brincaria numa geladeira vazia, da mesma forma que nunca aceitaria carona de um estranho. Pois bem, ele brincou dentro da geladeira. Deixamos tudo de lado. Caso encerrado? — Creio que sim. — respondeu Hunton. — Não. No dia seguinte, o vigia do depósito foi retirar a porta da geladeira. Portaria Municipal n° 58, relativa à manutenção de depósitos públicos de lixo — disse Martin, olhando inexpressivamente para Hunton. — Encontrou dentro dela seis aves mortas. Gaivotas, pardais, um tordo. E contou que a porta da geladeira se fechou sobre seu braço quando ele varria as aves mortas. Deu-lhe um susto dos diabos. A estraçalhadora da Lavanderia Faixa Azul me causa essa impressão, Hunton. Não gosto dela. Fitaram-se calados na sala de audiências deserta, a cerca de seis quarteirões do local onde a Passadeira e Dobradeira de Alta Velocidade Hadley-Watson Modelo- 6 funcionava na movimentada lavanderia, fumegando vapor sobre os lençóis. Em uma semana o caso foi afastado da mente de Hunton por tarefas policiais mais prosaicas. Só voltou quando ele e a esposa foram à casa de Mark Jackson para uma noitada de bisca e cerveja. Jackson o cumprimentou com: — Já lhe passou pela cabeça que a máquina da lavanderia de que me falou seja assombrada, Johnny? Hunton piscou, confuso. — O quê? — Aquela passadeira de alta velocidade da Lavanderia Faixa Azul. Creio que não foi você quem atendeu ao chamado desta vez. — Que chamado? — quis saber Hunton, interessado. Jackson passou-lhe o jornal vespertino e apontou para uma notícia no final da segunda página. O jornal dizia que se rompera um tubo de vapor da grande máquina passadeira de alta velocidade na Lavanderia Faixa Azul, queimando três das seis mulheres que trabalhavam na extremidade de alimentação da máquina. O acidente ocorrera às 3:45 da tarde e fora atribuído a uma elevação de pressão na caldeira da lavanderia. Uma das mulheres, a Sra. Anette Gillian, estava internada no Hospital Municipal com queimaduras de segundo grau. — Estranha coincidência — comentou ele, mas a lembrança das palavras do Inspetor Martin na sala de audiências vazia voltou-lhe de imediato à mente: É um fantasma... E a estória sobre o cão, o menino e as aves apanhados pela velha geladeira. Naquela noite, ele jogou cartas muito mal.

***

A Sra. Gillian estava recostada na cabeceira da cama, lendo Screen Secrets, quando Hunton entrou na enfermaria de quatro camas. Uma enorme bandagem cobria-lhe um braço e o lado do pescoço. A outra ocupante da enfermaria, uma jovem pálida, estava adormecida. A Sra. Gillian piscou ao ver o uniforme azul e, em seguida, sorriu com certa hesitação. — Se for com a Sra. Cherinikov, o senhor terá que voltar mais tarde. Acabaram de dar-lhe a medicação. — Não, é com a senhora mesmo, Sra. Gillian. O sorriso diminuiu. — Estou aqui não oficialmente — o que significa que me sinto curioso quanto ao acidente na lavanderia. Sou John Hunton. Ele estendeu a mão. Foi a atitude adequada. O sorriso da Sra. Gillian tornou-se brilhante e ela apertou desajeitadamente a mão de Hunton com sua mão ilesa. — Estou às suas ordens, Sr. Hunton. Meu Deus, pensei que o meu Andy estivesse metido em encrencas na escola novamente. — O que aconteceu? — Estávamos colocando lençóis na máquina quando ela simplesmente explodiu... ou algo semelhante. Eu pensava em ir para casa passear com os cães, quando houve um grande estouro, como uma bomba. Vapor por toda parte e aquele barulho de assovio... Horrível — respondeu ela, o sorriso trémulo prestes a apagar- se. — Era como se a máquina respirasse. Como um dragão, na verdade. E Alberta... isto é, Alberta Keene... gritou que alguma coisa estava explodindo; todo mundo corria e gritava; Ginny Jason começou a gritar que estava queimada. Comecei a correr e caí. Até então, eu não sabia que fora a mais atingida. Graças a Deus não foi pior. Aquele vapor passa nos tubos a 300 graus. — O jornal disse que um tubo de vapor se rompeu. O que significa isso? — O tubo do teto desce até uma espécie de tubo flexível que alimenta a máquina. George... isto é, o Sr. Stanner... disse que deve ter havido excesso de pressão na caldeira, ou algo assim. O tubo flexível estourou. Hunton não conseguiu pensar em outras perguntas a fazer. Estava prestes a sair quando ela disse, pensativa: — Não costumávamos ter problemas com aquela máquina. Só recentemente. O rompimento do tubo flexível. Aquele horrível, horrível acidente com a Sra. Frawley, que Deus a tenha. E algumas coisinhas, como o dia em que o vestido de Essie se prendeu numa das correntes de transmissão. Poderia ter sido perigoso, se ela não rasgasse a saia imediatamente. E parafusos e porcas que se soltam. Oh, Herb Diment — é o mecânico da lavanderia — tem passado maus bocados com a máquina. Os lençóis ficam presos na dobradeira. George afirma que isso acontece porque estão usando branqueador demais nas máquinas de lavar, mas não costumava acontecer. Agora as garotas detestam trabalhar na máquina. Essie diz até mesmo que ainda tem pedaços de Adelle Frawley lá dentro e isso é sacrilégio, ou algo assim. Como se existisse uma maldição. Tem sido assim desde que Sherry cortou a mão num dos grampos. — Sherry? — repetiu Hunton. — Sherry Ouelette. Uma belezinha, mal saída do ginásio. Boa trabalhadora. Mas desajeitada, às vezes. O senhor sabe como são as jovens. — Ela cortou a mão em alguma coisa? — Nada de estranho nisso. Existem grampos que apertam a correia de alimentação, compreende? Sherry estava ajustando os grampos para podermos passar uma carga mais pesada de roupas e, provavelmente, sonhando com algum rapaz. Cortou o dedo e sangrou por todos os lados.

A Sra. Gillian pareceu intrigada. — Só depois disso os parafusos começaram a soltar-se. Adelle foi... o senhor sabe... uma semana depois. Como se a máquina tivesse experimentado o gosto do sangue e tivesse gostado dele. As mulheres às vezes têm ideias engraçadas, não acha, Sr. Hinton? — Hunton — corrigiu ele distraidamente, olhando por cima da cabeça dela para o espaço. Ironicamente, Hunton conhecera Jackson numa lavanderia automática com lanchonete anexa, situada no quarteirão que separava suas casas, e ainda era lá que o oficial e o professor de inglês tinham suas conversas mais interessantes. Agora, sentavam-se lado a lado em cadeiras de plásticos, suas roupas girando por detrás das portinholas de vidro das máquinas de lavar que funcionavam com moedas. A brochura contendo a coleção das obras de Milton, pertencente a Jackson, ficara largada de lado enquanto ele escutava Hunton relatar a estória da Sra. Gillian. Quando Hunton terminou, Jackson disse: — Eu lhe perguntei, certa vez, se você julgava que a estraçalhadora poderia ser assombrada. Naquela ocasião, foi brincadeira. Agora, torno a perguntar. — Não — respondeu Hunton. — Não seja estúpido. Jackson observou pensativamente as roupas que giravam nas máquinas. — Assombrada é um termo inadequado. Digamos possessa. Existem quase tantos encantamentos para chamar os demônios quanto para expulsá-los. O Galho Dourado, de Frazier, está cheio deles. Os folclores asteca e druídico contêm outros. E existem ainda mais antigos, que remontam ao Egito. Quase todos eles podem ser reduzidos a denominadores espantosamente comuns. O mais comum, naturalmente, é o sangue de uma virgem. Olhou para Hunton, acrescentando: — A Sra. Gillian disse que tudo começou depois que a tal Sherry Ouelette cortou-se acidentalmente. — Ora, deixe disso — replicou Hunton. — Você tem que admitir que ela parece ser o tipo exato — insistiu Jackson. — Irei diretamente à casa dela — disse Hunton com um leve sorriso Posso até imaginar: "Srta. Ouelette, sou o Oficial John Hunton. Estou investigando uma passadeira de alta velocidade possuída pelo demônio e gostaria de saber se a senhorita é virgem." Acha que terei oportunidade para despedir-me de Sandra e das crianças antes que me levem para o manicômio? — Estou disposto a apostar que você acabará dizendo algo bem semelhante — disse Jackson, sem sorrir. — Estou falando sério, Johnny. Aquela máquina me deixa morto de medo e eu nem sequer a vi. — Apenas para podermos argumentar — disse Hunton —, quais são alguns dos outros supostos denominadores comuns? Jackson sacudiu os ombros. — É difícil dizer sem estudar o assunto. A maioria das fórmulas de magia anglo-saxônicas especificam terra de cemitério ou um olho de sapo. Os encantamentos e feitiços europeus mencionam frequentemente a mão da glória, que pode ser interpretada como a mão de um defunto ou uma das drogas alucinógenas usada em conexão com o Sabá dos Bruxos geralmente a beladona ou um derivado da psilocibina. Devem existir outros. — E você acha que tudo isso entrou na passadeira da Lavanderia Faixa Azul? Por Deus, Mark, sou capaz de apostar que não existe beladona num raio de oitocentos quilômetros daqui. Ou julga que alguém decepou a mão de seu falecido Tio Fred e a largou na dobradeira? — Se sete macacos datilografassem durante setecentos anos...

— Um deles escreveria as obras de Shakespeare — concluiu Hunton em tom azedo. — Vá para o inferno. É sua vez de ir à farmácia conseguir troco para colocarmos moedas nas máquinas de secar. Foi muito esquisito como George Stanner perdeu o braço na estraçalhadora. Às sete horas da manhã de segunda-feira a lavanderia estava deserta a não ser por Stanner e Herb Diment, o mecânico de manutenção. Estavam cumprindo a tarefa semestral de lubrificar os rolamentos da estraçalhadora antes que o expediente normal da lavanderia começasse às sete e meia. Diment se encontrava na extremidade oposta, lubrificando os quatro rolamentos secundários e refletindo sobre o quanto aquela máquina fazia-o sentir-se mal naquelas últimas semanas, quando a estraçalhadora começou repentinamente a funcionar ruidosamente: Diment estivera erguendo quatro das correias de lona da saída da máquina, a fim de poder alcançar o motor sob elas, quando, de repente, as correias começaram a passar em suas mãos, rasgando a pele e carne das palmas e arrastando-o consigo. Livrou-se com um arranco convulsivo segundos antes que as correias arrastassem suas mãos para o interior da dobradeira. — Que diabo, Herb! — berrou. — Desligue essa maldita máquina! George Stanner começou a berrar. Um som agudo, lamentoso, enlouquecido de sangue, que encheu a lavanderia, ecoando nas caixas de aço das máquinas de lavar, nas bocas escancaradas das máquinas de passar a vapor, nos olhos vazios das grandes máquinas de secar. Stanner inspirou uma grande quantidade de ar e tornou a gritar: — Oh, meu Jesus Cristo, fui apanhado! FUI APANHADO! Os rolos começaram a emitir vapor fervente. A dobradeira rangia e vibrava. Rolamentos e motores pareciam gritar com uma oculta vida própria. Diment correu para a outra extremidade da máquina. O primeiro rolo já assumia uma sinistra coloração vermelha. Diment emitiu um gemido gorgolejante. A estraçalhadora uivava, silvava e vibrava. Um observador surdo julgaria, a princípio, que Stanner estava apenas debruçado sobre a máquina num ângulo esquisito. Depois, até mesmo um surdo veria o ricto pálido no rosto de olhos esbugalhados, a boca contorcida abrindo-se em um grito contínuo. O braço desaparecia sob a barra de segurança e por baixo do primeiro cilindro; o tecido da camisa fora arrancado na costura do ombro e o antebraço inchava grotescamente à medida que o sangue era impelido de volta. — Desligue! — berrou Stanner. Seu cotovelo se partiu com um estalo. Diment apertou o botão de desligar. A estraçalhadora continuou a zumbir, grunhir, girar. Incrédulo, Diment tornou a apertar repetidamente o botão. E, novamente nada. A pele do braço de Stanner estava brilhante e esticada. Logo se romperia sob a pressão exercida pelo cilindro; ainda assim, ele continuava consciente, gritando. Diment viu a imagem de uma caricatura de pesadelo: um homem esmagado por um rolo compressor, deixando apenas uma sombra. — Os fusíveis...! — guinchou Stanner. Sua cabeça estava sendo puxada para baixo, à medida que ele era arrastado para frente. Diment girou nos calcanhares e correu à sala da caldeira, os gritos de Stanner a persegui-lo como fantasmas lunáticos. Na parede esquerda existiam três pesadas caixas cinzentas contendo todos os fusíveis do sistema elétrico da lavanderia. Diment abriu-as e, como um louco, começou a arrancar os compridos fusíveis cilíndricos, atirando-os por cima dos ombros. As luzes se apagaram; depois o compressor de ar; então, a

própria caldeira, com uma forte lamúria que morreu aos poucos. E a estraçalhadora continuava funcionando. Os gritos de Stanner reduziram- se a gemidos borbulhantes. Por acaso, o olhar de Diment pousou no machado de incêndio em sua caixa com porta de vidro. Agarrou-o com um gemido engasgado e correu de volta à máquina. O braço de Stanner já se fora quase até o ombro. Dentro de alguns segundos seu pescoço retesado se quebraria de encontro à barra de segurança. — Não posso — balbuciou Diment, empunhando o machado. — Meu Deus, George, eu não posso... Agora, a máquina era um abatedouro. A dobradeira cuspia pedaços de manga de camisa, tiras de carne, um dedo. Stanner soltou um forte grito de desespero e Diment ergueu o machado, golpeando no interior obscuro e sombrio da lavanderia. Duas vezes. Outra mais. Stanner tombou ao chão, inconsciente e azulado, o sangue jorrando do coto de braço abaixo do ombro. A estraçalhadora tragou o que ainda restava do braço... e parou. Chorando, Diment tirou o cinto das calças e começou a fazer um torniquete. Hunton falava ao telefone com Roger Martin, o inspetor. Jackson o observava, rolando pacientemente uma bola para Patty Hunton, de três anos de idade, brincar. — Ele retirou todos os fusíveis? — perguntou Hunton. — E o botão de parada simplesmente não funcionou, hem? ... A máquina foi interditada? ... Muito bem. Ótimo. Hem? ... Não, não é oficial. Hunton franziu a testa e lançou um olhar de esguelha a Jackson. — Ainda se recorda daquela geladeira velha, Roger? ... Sim. Para mim também. Até logo. Desligou e olhou para Jackson. — Vamos falar com a garota, Mark. Ela morava em seu próprio apartamento (a maneira hesitante, porém possessiva, pela qual convidou-os a entrar depois que Hunton lhe exibiu o distintivo da polícia levou-o a suspeitar que ela não o possuía há muito tempo) e sentou-se nervosamente em frente a eles na minúscula sala cuidadosamente decorada. — Sou o Oficial Hunton e esse é meu parceiro, Sr. Jackson. É a respeito do acidente na lavanderia. Sentia-se imensamente pouco à vontade com aquela moça morena, tímida e bonita. — Terrível — murmurou Sherry Ouelette. — Foi o único lugar onde trabalhei. O Sr. Gartley é meu tio. Gostei porque ele me permitiu morar aqui e ter meus próprios amigos. Mas agora... é tão assombroso... — A Junta Estadual de Segurança Industrial interditou a máquina até o final de uma investigação minuciosa — disse Hunton. — A senhorita já sabia? — Claro — suspirou ela, inquieta. — Não sei o que vou fazer... — Srta. Ouelette — interrompeu Jackson — , sofreu um acidente naquela máquina, não é mesmo? Cortou a mão num grampo, creio? — Sim, cortei o dedo. De repente, seu rosto se anuviou. — Aquilo foi a primeira coisa — disse ela, fitando-os com ar triste. Às vezes, sinto que as garotas já não gostam tanto de mim como antes... como se eu fosse a culpada. — Preciso fazer-lhe uma pergunta grosseira — disse vagarosamente Jackson. — Uma pergunta que não lhe agradará. Parece absurdamente pessoal e sem qualquer relação com o assunto, mas só lhe posso dizer que não é assim. Suas respostas nem mesmo serão anotadas numa ficha ou registro. Ela pareceu assustada: — Eu... fiz alguma coisa errada?

Jackson sorriu e meneou negativamente a cabeça; ela se derreteu. Graças a Deus pela presença de Mark, pensou Hunton. — Todavia, acrescentarei o seguinte: a resposta poderá ajudá-la a manter este belo apartamento, a voltar ao emprego, a tornar as coisas na lavanderia como eram antes. — Eu responderia qualquer pergunta para conseguir isso — declarou a moça. — Sherry, você é virgem? Ela ficou totalmente perplexa, chocada, como se um sacerdote lhe desse a comunhão e, em seguida, a esbofeteasse. Então, ergueu a cabeça, fez um gesto indicando o pequeno apartamento bem arrumado, como se perguntasse a eles como podiam acreditar que fosse um local de encontros amorosos. — Estou me guardando para meu marido — replicou simplesmente. Hunton e Jackson entreolharam-se calmamente e, naquela fração de segundo, Hunton compreendeu que tudo era verdade: um demônio se apoderara do aço inanimado das engrenagens da estraçalhadora, transformando-a em algo com vida própria. — Muito obrigado — disse Jackson em voz baixa. — E agora? — indagou Hunton, desanimado, no caminho de volta. Procuramos um padre para exorcizar a máquina? Jackson grunhiu. — Você teria que ir muito longe até encontrar algum padre que não lhe desse as Escrituras para ler enquanto ele telefonasse para o manicômio. O problema é seu, Johnny. — Podemos fazer isso? — Talvez. O problema é o seguinte: sabemos que existe algo na máquina. Não sabemos o quê. Hunton sentiu um calafrio, como se tocado por um dedo descarnado. Jackson prosseguiu: — Existem muitos demônios. O que estamos enfrentando pertence ao círculo de Bubastis ou Pan? Baal? Ou ao demônio cristão que, chamamos de Satã? Não sabemos. Se o demônio resultasse de um feitiço proposital, teríamos melhores possibilidades. Todavia, parece tratar-se de um caso de possessão aleatória. Jackson passou os dedos pelos cabelos e acrescentou: — O sangue de uma virgem, sim. Mas isso não estreita nosso campo. Precisamos ter certeza, muita certeza. — Por quê? — perguntou bruscamente Hunton. — Por que simplesmente não reunimos uma série de fórmulas de exorcismo e as experimentamos? O rosto de Jackson assumiu uma expressão fria. — Não se trata de polícia e bandidos, Johnny. Pelo amor de Deus, nem pense nisso. O ritual de exorcismo é horrivelmente perigoso. De certo modo, é como fissão nuclear controlada. Podemos cometer um erro e nos destruirmos. O demônio está preso naquela máquina. Contudo, se lhe dermos uma oportunidade... — Ele poderia sair? — Ele adoraria sair. — replicou sombriamente Jackson. — E gosta de matar. Quando Jackson chegou na tarde seguinte, Hunton mandara a mulher e a filha ao cinema. Tinham a sala à sua disposição e Hunton se sentia aliviado por isso. Ainda mal podia acreditar no que se envolvera. — Cancelei minhas aulas — informou Jackson. — E passei o dia com alguns dos livros mais horríveis que se possa imaginar. Esta tarde, alimentei o computador com mais de trinta receitas para invocar demônios. Consegui vários elementos comuns. Surpreendentemente poucos.

Mostrou a lista a Hunton: sangue de virgem, terra de cemitério, mão de glória, sangue de morcego, musgo noturno, casco de cavalo, olho de sapo. Havia outros, todos assinalados como secundários. — Casco de cavalo — disse Hunton, pensativo. — Engraçado... — É muito comum. Na verdade... Hunton interrompeu: — Poderiam essas coisas— qualquer uma delas— ser interpretadas flexivelmente? — Se liquens colhidos à noite pudessem substituir musgo noturno, por exemplo? — Sim. — É muito provável — replicou Jackson. — As fórmulas mágicas são frequentemente ambíguas e elásticas. A magia negra sempre deixou bastante espaço para a criatividade. — Substitua casco de cavalo por gelatina, por exemplo — disse Hunton. — Muito popular nos almoços de marmita. Notei um pequeno recipiente de gelatina sob a plataforma da máquina no dia em que a Sra. Frawley morreu. Gelatina é feita com cascos de cavalo. Jackson assentiu. — Mais alguma coisa? — Sangue de morcego... bem, é um lugar amplo, com muitos cantos e nichos não iluminados. A presença de morcegos parece provável, embora eu duvide que a administração admitisse que eles existam lá. É concebível que um dos morcegos ficasse acidentalmente preso na máquina. Jackson inclinou a cabeça para trás e esfregou os olhos injetados de sangue. — Ajusta-se... tudo se ajusta. — É mesmo? — Sim. E creio que podemos eliminar com segurança a mão de glória. Certamente ninguém largou uma mão na máquina antes da morte da Sra. Frawley e a beladona decididamente não é uma planta nativa desta região. — Terra de cemitério? — O que acha? — Teria que ser urna coincidência dos diabos — replicou Hunton. O cemitério mais próximo é Pleasant Hill, que fica a oito quilômetros da Lavanderia Faixa Azul. — Muito bem — disse Jackson. — Consegui que o operador do computador — que pensou que eu me preparava para a Noite das Bruxas fizesse um breakdown positivo de todos os elementos primários e secundários constantes da lista. Todas as combinações possíveis. Eliminei cerca de duas dúzias que não faziam o menor sentido. Os outros se agrupam em categorias razoavelmente bem definidas. Os elementos que isolamos pertencem a uma delas. — Qual é? Jackson sorriu. — Uma bem fácil. Os centros de mitos na América do Sul com ramificações no Caribe. Relacionados com o vodu. A literatura que consultei considera as divindades estritamente de somenos importância quando comparadas à turma da pesada, como Saddath ou Aquele-Cujo-Nome-Não-SePronuncia. A coisa naquela máquina vai fugir como o valentão do bairro. — Como faremos? — Água benta e um fragmento da Sagrada Eucaristia devem ser suficientes. E também podemos ler parte do Levítico para a máquina. Pura magia branca cristã. — Tem certeza de que não é pior? — Não vejo como poderia ser — disse Jackson, pensativo. — Não me importo de lhe confessar

que aquela mão de glória me preocupava. É magia muito negra. Forte pra valer. — Água benta não a deteria? — Um demônio invocado com conjunção com a mão de glória poderia devorar uma pilha inteira de bíblias como café da manhã. Estaríamos seriamente encrencados se nos metêssemos com algo assim. Seria melhor desmontar a maldita máquina. — Bem, se tem tanta certeza... — Não, tenho apenas uma certeza razoável — disse Jackson. — Tudo se ajusta perfeitamente. — Quando? — Quanto mais cedo melhor — replicou Jackson. — Como entramos lá? Quebramos uma vidraça? Hunton sorriu, enfiou a mão no bolso e balançou uma chave diante do nariz de Jackson. — Quem lhe arranjou isso? Gartley? — Não — respondeu Hunton. — Um inspetor estadual chamado Martin. — Ele sabe que vamos? — Creio que desconfia. Contou-me uma estória curiosa há duas semanas. — A respeito da estraçalhadora? — Não. — disse Hunton. — A respeito de uma geladeira. Vamos. Adelle Frawley estava morta; recosturada por um paciente embalsamador, jazia em seu caixão. Não obstante, parte de seu espírito talvez permanecesse na máquina e, se assim era, gritava. Ela saberia, poderia tê-los prevenido. Tinha tendência a indigestão e, por causa de um mal tão comum, ingeria pastilhas estomacais chamadas E-Z Gel, que podiam ser adquiridas em qualquer farmácia por noventa e nove centavos. No lado externo da caixa está impressa uma advertência: portadores de glaucoma não devem ingerir E-Z Gel porque o ingrediente ativo agrava essa condição. Infelizmente, Adelle Frawley não sofria de glaucoma. Poderia ter-se lembrado do dia, pouco antes de Sherry Ouelette cortar a mão, em que ela deixara cair uma caixa cheia de pastilhas de E-Z Gel na máquina, por acidente. Todavia, ela estava morta, sem se dar conta de que o ingrediente ativo que lhe aliviava a azia era um derivado químico da beladona, conhecida curiosamente em alguns países da Europa pelo nome "mão de glória". Houve um repentino e desagradável som de arroto no silêncio espectral da Lavanderia Faixa Azul, um morcego voou cegamente para sua toca na camada de isolamento acima das secadoras, onde fizera seu ninho, fechando as asas sobre a cara cega. O barulho quase se assemelhava a uma risadinha. A estraçalhadora começou a funcionar com um rangido repentino correias passando velozmente na escuridão, engrenagens rolavam ruidosamente, os pesados cilindros pulverizadores rodavam continuamente. Estava pronta para eles. Passava um pouco de meia-noite quando Hunton parou o carro no estacionamento e a lua se ocultou por detrás de um grupo de nuvens que se movimentava no céu. Num só movimento, Hunton pisou no freio e apagou os faróis; a testa de Jackson quase se chocou contra o painel acolchoado. Desligou a ignição e o contínuo barulho de engrenagem e jatos de vapor ficou mais audível. — É a estraçalhadora — disse ele. — É a estraçalhadora. Funcionando sozinha. Em plena noite. Ficaram sentados no carro por um momento, calados, sentindo o medo subir-lhes pelas pernas. Afinal, Hunton disse: — Muito bem, vamos lá. Saltaram e caminharam até o prédio, ouvindo o barulho da estraçalhadora tornar-se mais alto. Quando Hunton enfiou a chave na fechadura da porta de serviço, refletiu que a máquina soava como se estivesse viva como se respirasse em enormes inalações quentes e falasse consigo mesma em sardônicos sussurros sibilantes.

— De repente, sinto-me satisfeito por estar com um tira. — declarou Jackson. Passou o saco pardo que carregava de um braço para outro. O saco continha um vidrinho de geleia cheio de água benta, envolto em papel impermeável, e uma Bíblia Sagrada. Entraram e Hunton acionou os interruptores de luz situados junto à porta. As lâmpadas fluorescentes piscaram e produziram luz fria. No mesmo instante, a estraçalhadora parou. Uma membrana de vapor cobria os cilindros. A máquina esperava por eles em seu novo e ameaçador silêncio. — Deus, como é feia! — murmurou Jackson. — Vamos — disse Hunton. — Antes de perdermos a coragem. Andaram até a máquina. A barra de segurança estava na posição baixa, acima da correia que alimentava a máquina. Hunton estendeu a mão. — Aqui já basta, Mark. Passe-me as coisas e diga-me o que fazer. — Mas... — Não discuta. Jackson passou-lhe o saco e Huntou o colocou na mesa dos lençóis, em frente à máquina. Entregou a Bíblia a Jackson. — Vou ler — disse Jackson. — Quando eu apontar para você, use os dedos para espargir água benta na máquina, dizendo: "Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, vai-te daqui, impuro." Entendeu? — Sim. — Na segunda vez que eu apontar para você, quebre a hóstia e repita a invocação. — Como saberemos se está dando certo? — Você saberá. A coisa é capaz de quebrar todas as vidraças do prédio, ao' sair. Se não der resultado na primeira vez, continuaremos a repetir até que dê. — Estou verde de medo. — disse Hunton. — Para dizer a verdade, eu também estou. — Se nos enganamos a respeito da mão de glória... — Não nos enganamos — replicou Jackson. — Lá vamos nós. Começou a ler. Sua voz encheu a lavanderia deserta com ecos espectrais: — "Não vos volvais para os ídolos, nem façais para vós deuses fundidos. Eu sou o Senhor vosso Deus..." As palavras caíam como pedras num silêncio que de repente se enchia de um frio insidioso, tumular. A estraçalhadora permanecia silenciosa e imóvel sob as lâmpadas fluorescentes. Para Hunton, ela ainda parecia sorrir malevolamente. — "...e a terra vos vomitará de seu seio por tê-la contaminado, como vomitou outros povos antes de vós..." Jackson ergueu os olhos, com o rosto tenso, e apontou. Hunton respingou água benta na correia transportadora. Houve um súbito grito rangente de metal torturado. A fumaça subia das correias nos pontos onde a água benta pingara, assumindo formas contorcidas e tingidas de vermelho. A estraçalhadora começou a funcionar repentinamente. — Nós o apanhamos! — gritou Jackson acima do crescente barulho. — Está fugindo! Recomeçou a ler, erguendo a voz para vencer o ruído da maquinaria. Apontou outra vez para Hunton e este jogou alguns fragmentos de hóstia. Quando ele o fez, foi bruscamente dominado por um terror de gelar os ossos até a medula, a repentina e vívida sensação de que não dera certo, de que a

máquina não se amedrontara com o blefe, e era mais forte que eles. A voz de Jackson continuava a elevar-se, aproximando-se do clímax. Centelhas começaram a saltar através do arco entre o motor principal e o secundário; o cheiro de ozônio enchia o ambiente, como o cheiro de cobra do sangue quente. Agora, o motor principal passou a emitir fumaça; a estraçalhadora funcionava numa velocidade louca, inacreditável: bastaria tocar a ponta de um dedo na correia central para que o corpo inteiro fosse tragado pela máquina e reduzido a trapos sangrentos no espaço de cinco segundos. O chão de concreto vibrava e tremia sob os pés deles. Um rolamento principal estourou com uma esfusiante explosão de luz roxa, enchendo o ar gelado com o cheiro de tempestades elétricas; ainda assim, a estraçalhadora funcionava cada vez mais depressa, correias, cilindros e engrenagens girando numa velocidade que os fazia parecer se mesclarem, mudarem, derreterem, transmudarem... Hunton, que ficara imóvel, quase hipnotizado, deu um súbito passo à retaguarda. — Afaste-se! — berrou acima da barulheira infernal. — Estamos quase o pegando! — gritou Jackson em resposta. — Por que... De repente, um barulho indescritível de algo que se rasgava. Uma fissura no chão de concreto correu em direção a eles e passou, alargando-se. Pedaços de cimento velho voaram como numa explosão de estrelas. Jackson olhou para a estraçalhadora e gritou. A máquina tentava erguer-se do concreto, como um dinossauro tentando escapar de uma poça de piche. E já não era mais uma máquina passadeira e dobradeira. Continuava a mudar, a derreter-se. O cabo de 550 volts caiu, cuspindo centelhas azuis, e foi tragado pelos cilindros. Por um instante, duas bolas de fogo olharam para eles como olhos em chamas, dominados por uma fome fria e enorme. Outra fenda se abriu no chão. A estraçalhadora inclinou-se para eles, quase totalmente livre do concreto que a ancorava. Zombava deles com um sorriso diabólico; a barra de segurança se ergueu e o que Hunton viu foi uma boca escancarada e faminta, cheia de vapor. Voltaram-se para fugir e outra fenda se abriu a seus pés. Por trás deles, um rugido monstruoso quando a coisa se libertou. Hunton saltou sobre a fenda, mas Jackson escorregou e caiu. Hunton virou-se para ajuda-lo, mas uma imensa sombra amorfa caiu sobre ele, bloqueando a luz das lâmpadas fluorescentes. A máquina ergueu-se acima de Jackson, que estava caído de costas com os olhos esbugalhados e o rosto contraído num ricto de pavor— o sacrifício perfeito. Hunton teve apenas a impressão confusa de algo negro e móvel que assumia proporções gigantescas diante dos dois. Algo com brilhantes olhos elétricos do tamanho de bolas de futebol, uma boca escancarada com uma língua de lona que não parava de correr. Fugiu. O grito de morte de Jackson o acompanhou. Quando Roger Martin finalmente se levantou da cama para atender a campainha da porta, estava apenas um terço acordado; mas quando Hunton cambaleou para o interior da sala, ele foi despertado pelo choque que o trouxe de volta à realidade do mundo como uma bofetada de mão rude. Os olhos de Hunton pareciam querer saltar loucamente das órbitas e suas mãos eram garras que arranhavam o peito do roupão de Martin. Um filete de sangue escorria de um pequeno corte no rosto, que estava manchado de cinza por cimento pulverizado. Seus cabelos se haviam tornado totalmente brancos. — Ajude-me... pelo amor de Deus, ajude-me. Mark está morto. Jackson está morto. — Acalme-se. — disse Martin. — Venha sentar-se.

Hunton o acompanhou, produzindo um grosso som lamurioso na garganta, como um cão. Martin serviu-lhe uma dose dupla de aguardente e Hunton segurou o copo com ambas as mãos, engolindo a forte bebida de um só gole. O copo rolou pelo tapete e as mãos de Hunton, como fantasmas errantes, procuraram novamente as lapelas do roupão de Martin. — A estraçalhadora matou Mark Jackson. Ela... ela... oh, Deus... ela é capaz de escapar! Não podemos permitir que escape! Não podemos... nós... oh!... Começou a berrar, um som louco e agudo que se elevava e baixava em ciclos irregulares. Martin tentou dar-lhe outro drinque, mas Hunton derrubou o copo com um tapa. — Precisamos queimá-la — disse ele. — Queimá-la antes que escape. Oh, e se ela escapar? Oh, Deus, e se ela... Seus olhos faiscaram, vidraram-se, rolaram para cima deixando o branco à mostra e ele tombou no tapete totalmente desmaiado. A Sra. Martin estava à porta, segurando a gola do roupão na garganta. — Quem é ele, Rog? É maluco? Pensei que... Ela estremeceu. — Não creio que ele esteja louco. — disse Martin. A mulher ficou subitamente assustada pela doentia sombra de medo no rosto do marido. — Meu Deus, espero que ele tenha chegado aqui a tempo... Martin pegou o telefone e ficou imóvel. À leste da casa, na direção de onde viera Hunton, havia um leve barulho que crescia aos poucos. Um constante rangido metálico que se tornava mais alto. A janela da sala estava meio aberta e Martin captou na brisa um cheiro estranho. O odor de ozônio... ou de sangue. Ficou parado, com o telefone inútil na mão, enquanto o barulho aumentava, rangendo e fumegando — algo nas ruas que era quente e emitia vapor. O fedor de sangue encheu a sala. Martin largou o telefone. A coisa já havia escapado.



Homens Baixos em Casacos Amarelos

(do livro Corações na Atlântida)

Introdução de Stephen King

Autobiográfica em locações, senão em eventos (também cresci nos subúrbios de Connecticut, e eu, minha mãe e irmão moramos num apartamento bastante similar ao que existe nesta história), “Homens Baixos em Casacos Amarelos” é uma história sobre um menino despertando para o fato de que adultos são falíveis e às vezes inacreditavelmente cruéis. Com elementos de clarividência, primeiro amor, e a amizade crescente entre a criança protagonista e o misterioso velho do andar de cima, a história quase gritava para ser adaptada em filme. Ele seria uma boa aposta, especialmente sob a luz da excelente atuação de Anthony Hopkins, como um tipo de anti-Hannibal Lecter. Mas havia bancos de areia, e o filme acaba encalhando neles. O primeiro é o fato de que “Homens Baixos” é apenas a primeira parte de um romance fracionado, que ainda não foi finalizado (‘The House on Benefit Street”, a história do que acontece a Carol, namorada de infância de Bobby, ainda está para ser escrita). O segundo é a conexão de “Homens Baixos” com os livros d’A Torre Negra. Embora eu soubesse que a aparição de Ted Brautigan em Corações seria relativamente breve, eu também sabia que ele teria mais trabalho a fazer no volume final da saga de Roland Deschain. Sem o motivo subjacente do estado de fuga de Ted em Harwich (que eu não mencionarei aqui, ou serei julgado e culpado por cometer um horrível SPOILER), a motivação do filme foi ficando fraca... e então simplesmente desapareceu. Muitas das cenas individuais são ótimas, e eu amo o espírito da coisa, mas a história escrita funciona melhor, e no fim o que conta é o que funciona melhor. Nunca deixe que lhe digam diferente.

1 Um Menino e Sua Mãe. O Aniversário de Bobby. O Novo Inquilino. Sobre Tempo e Estranhos.

O PAI DE BOBBY GARFIELD foi uma destas pessoas que começam a perder cabelo por volta dos vinte anos, e ficam completamente carecas aos quarenta e cinco, mais ou menos. Randall Garfield foi poupado deste extremo ao morrer de um ataque do coração aos trinta e seis. Ele era um corretor de imóveis, e deu seu último suspiro na cozinha da casa de alguma pessoa qualquer. O comprador em potencial estava na sala de estar, tentando chamar uma ambulância por um telefone desconectado, quando o pai de Bobby faleceu. Na época, Bobby tinha três anos. Ele tinha vagas memórias de um homem lhe fazendo cócegas e beijando suas bochechas e testa. Ele tinha total certeza de que aquele homem fora seu pai. SUA FALTA SERÁ SENTIDA, era o que estava escrito na lápide de Randall Garfield, mas sua mãe nunca pareceu muito triste, e quanto ao próprio Bobby... ora, como você pode sentir falta de um cara de quem você mal se recorda? Oito anos após a morte de seu pai, Bobby se apaixonou loucamente pela Schwinn de sessenta e seis centímetros, ao vê-la na vitrine da Harwich Autoeste. Ele deu dicas à mãe de que queria a Schwinn de todos os modos que conhecia, e finalmente apontou para ela certa noite, enquanto voltavam para casa depois do cinema (o filme havia sido Sombras no Fim da Escada, que Bobby não entendeu muito bem, mas gostou mesmo assim, especialmente da parte onde Dorothy McGuire caía pesadamente em uma cadeira e exibia suas longas pernas). Enquanto passavam pela loja de materiais de construção, Bobby mencionou casualmente que a bicicleta na vitrine com certeza seria um belo presente de aniversário de onze anos para alguma criança sortuda. — Nem pense nisso. — ela disse. — Eu não posso pagar por uma bicicleta para o seu aniversário. Seu pai não nos deixou exatamente bens de vida, entende. Embora Randall estivesse morto desde que Truman fora presidente, e continuasse assim agora que Eisenhower estava quase terminando seu mandato de oito anos, “seu pai não nos deixou exatamente bens de vida” era a resposta mais comum de sua mãe para qualquer coisa que Bobby sugerisse implicar num custo maior do que um dólar. Geralmente o comentário vinha acompanhado de um olhar reprovador, como se o homem houvesse fugido, em vez de ter morrido. Nada de bicicletas em seu aniversário. Mal-humorado, Bobby ponderou sobre isto enquanto voltavam para casa, o prazer do estranho e confuso filme que O haviam visto agora quase desaparecido. Ele não discutiu com sua mãe, ou tentou persuadi-la (isto resultaria num contra-ataque, e quando Liz Garfield contraatacava, ela não fazia prisioneiros), mas meditou sobre a bicicleta... e o pai perdido. Algumas vezes, ele quase odiava seu pai. Algumas vezes, tudo o que o impedia de fazê-lo era o senso inexato, mas muito forte, de que sua mãe queria que ele o odiasse. Enquanto alcançavam o Parque Commonwealth, e caminhavam por sua lateral (dois blocos acima, eles virariam à esquerda, entrando na Rua Broad, onde moravam), ele foi contra suas dúvidas comuns e fez uma pergunta sobre Randall Garfield. — Ele não nos deixou nada, mãe? Nada mesmo? Uma ou duas semanas antes, ele havia lido um romance de mistério de Nancy Drew, onde a herança de algumas crianças pobres havia sido escondida atrás de um velho relógio, em uma mansão abandonada. Bobby não achava realmente que seu pai houvesse deixado moedas de ouro ou selos raros escondidos em algum lugar, mas se houvesse algo, talvez eles pudessem vender esse algo em Bridgeport. Possivelmente

em uma loja de penhores. Bobby não sabia exatamente como funcionava esse negócio de empenhar, mas sabia como eram as lojas (elas tinham três sininhos dourados pendurados na entrada). E ele tinha certeza de que os atendentes da loja de penhores ficariam felizes em ajudá-los. É claro que isso era apenas um sonho de criança, mas Carol Gerber, que morava na rua acima, tinha uma coleção inteira de bonecas que seu pai, que estava na Marinha, havia lhe mandado de onde estava. Se pais davam coisas, o que de fato faziam, era de se imaginar que pais, às vezes, deixavam coisas. Quando Bobby fez a pergunta, eles estavam passando por um dos postes que corriam por aquele lado do Parque Commonwealth, e Bobby viu a boca de sua mãe mudar, como sempre fazia quando ele se aventurava a fazer uma pergunta sobre seu falecido pai. A mudança o fez pensar em uma bolsa que ela tinha: quando você puxava o zíper, o buraco em seu topo aumentava. — Eu lhe direi o que ele nos deixou. — ela disse, enquanto começavam a subir a Colina da Rua Broad. Bobby já desejava não ter feito a pergunta, mas é claro que agora era tarde demais. Uma vez que você a fazia começar, não dava para parála, e isso era um fato. — Ele nos deixou uma apólice de seguro de vida, que prescreveu no ano anterior de sua morte. Pouco eu sabia que assim que ele morresse, todos, incluindo o agente funerário, iriam querer suas partes daquilo que eu não tinha. Ele também deixou uma grande pilha de contas para pagar, das quais eu já cuidei. As pessoas têm sido muito compreensivas sobre minha situação — o Sr. Biderman em particular — e nunca direi que nunca foram. Tudo isto era coisa velha, tão entediante quanto amarga, mas então ela disse a Bobby uma coisa nova. — Seu pai... — ela disse, enquanto se aproximavam do apartamento, que ficava na metade da 1

subida na Colina da Rua Broad. — Nunca conheceu uma sequência interior de que não gostasse. — O que é uma sequência interior, mãe? — Esqueça. Mas eu lhe direi uma coisa, Bobby-O: nunca me deixe pegá-lo jogando cartas por dinheiro. Eu já tive o bastante disso para uma vida inteira. Bobby queria perguntar mais, mas sabia que era melhor não fazê-lo; mais perguntas poderiam provocar um grande discurso. Ocorreu-lhe que talvez o filme, que falava sobre maridos e esposas infelizes, a havia chateado de algum modo, que ele, como uma mera criança, não entendia. Ele perguntaria a seu amigo, John Sullivan, segunda-feira na escola, sobre as sequências interiores. Bobby achou que tinha a ver com pôquer, mas não tinha certeza absoluta. — Há lugares em Bridgeport que tomam o dinheiro dos homens. — ela disse, enquanto chegavam perto do apartamento onde viviam. — Homens tolos vão para lá. Homens tolos fazem bagunças, e normalmente são as mulheres do mundo que têm de limpá-las mais tarde. Ora... Bobby sabia o que vinha a seguir; era a reclamação favorita de todos os tempos de sua mãe. — A vida não é justa. — disse Liz Garfield, enquanto tirava a chave, e abria a porta do número 149 da Rua Broad, na cidade de Harwich, Connecticut. Era abril de 1960, a noite exalou o perfume de primavera, e parado ao seu lado estava um menino magricela com os rebeldes cabelos ruivos de seu falecido pai. Ela dificilmente tocava em seu cabelo; nas raras ocasiões em que ela lhe fazia carinho, era normalmente em seu braço ou bochecha que ela tocava. — A vida não é justa. — repetiu. Ela abriu a porta, e eles entraram.

***

Era verdade que sua mãe não havia sido tratada como princesa, e certamente era terrível que a vida de seu marido houvesse se extinguido no chão de linóleo de uma casa vazia, aos trinta e seis anos, mas Bobby pensava às vezes que as coisas poderiam ter sido piores. Poderia haver dois filhos, ao invés de

apenas um, por exemplo. Ou três. Diabos, até mesmo quatro. Ou suponha que ela tivesse de trabalhar em um emprego difícil para sustentar os dois. A mãe de Sully trabalhava na padaria Crista, no centro da cidade, e durante as semanas em que ela teve de acender as fornalhas, Sully-John e seus dois irmãos mais velhos raramente a viram. Bobby também observou as mulheres que saiam da Inigualável Companhia de Sapatos, quando o apito das três horas era soprado (ele mesmo havia saído da escola às duas e meia): mulheres que pareciam magras demais, ou gordas demais, mulheres de rostos pálidos e dedos manchados, com uma terrível coloração de sangue velho, mulheres com olhares abatidos, que carregavam seus sapatos e roupas de trabalho em sacos de compras da Mercearia Total. No outono anterior, ele havia visto homens e mulheres catando maçãs fora da cidade, quando havia ido a uma feira de igreja com a Sra. Gerber, Carol, e o pequeno Ian (a quem Carol chamava de Ian Ranhoso). Quando ele perguntou à Sra. Gerber sobre tais pessoas, ela lhe disse que eram migrantes, exatamente como alguns tipo de aves (sempre em movimento, catando o que quer que já estivesse maduro). A mãe de Bobby poderia ser uma destas pessoas, mas não era. O que ela fazia, era um trabalho como secretária do Sr. Donald Biderman, no Escritório de Corretagem Cidade Natal, a companhia em que o pai de Bobby trabalhava quando teve seu ataque do coração. Bobby achou que ela havia conquistado o emprego porque Donald Biderman gostava de Randall e sentiu pena dela (viúva, com um filho que mal havia saído das fraldas), mas ela era boa nisso, e trabalhava duro. Na maioria das vezes, ela trabalhava até tarde. Bobby estivera com sua mãe e o Sr. Biderman em poucas ocasiões (o piquenique da companhia era uma das quais ele se lembrava mais claramente), mas também houve a vez em que o Sr. Biderman os levou até o dentista em Bridgeport, quando Bobby quebrou o dente durante uma brincadeira no recreio (e os dois adultos tinham um jeito de se olharem). Às vezes o Sr. Biderman ligava para ela de noite, e durante tais conversas, ela o chamava de Don. Mas “Don” era velho, e Bobby não pensava muito nele. Bobby não tinha tanta certeza do que sua mãe fazia durante seus dias (e noites) no escritório, mas ele apostava que era melhor do que fazer sapatos, ou catar maçãs, ou acender fornalhas da padaria Crista às quatro e meia da manhã. Bobby apostava que era melhor pra dedéu. E, também, quando se tratava da sua mãe, se você perguntasse sobre certas coisas, estaria pedindo para ter problemas. Se você perguntasse, por exemplo, como ela tinha condições de pagar por três novos vestidos da Sears, um deles de seda, mas não tinha para três prestações de $11.50 de uma Schwinn na vitrine da Autoeste (era vermelha e prateada, e só de olhá-la, as tripas de Bobby davam cãibras de cobiça). Pergunte coisas deste tipo, e você estará pedindo para ter problemas sérios. Bobby não o fez. Ele simplesmente começou a batalhar para ter o dinheiro para comprá-la por si mesmo. Demoraria até o outono, talvez até mesmo até o inverno, e este modelo em particular poderia desaparecer da vitrine da Autoeste até lá, mas ele continuaria. Você tinha de trabalhar duro para conseguir suas recompensas. A vida não era fácil, e a vida não era justa.

***

Quando o décimo primeiro aniversário de Bobby chegou, na última terçafeira de abril, sua mãe lhe deu um pequeno pacote plano, enrolado em papel prateado. Dentro, havia um cartão de biblioteca laranja. Um cartão de biblioteca para adultos. Adeus Nancy Drew, Hardy Boys, e Don Winslow da 2

Marinha . Olá para todo o resto, histórias com paixões tão confusas quanto Sombras no Fim da Escada. Sem mencionar adagas sangrentas em quartos de torres. (Havia mistérios e quartos de torres nas histórias sobre Nancy Drew, e os Hardy Boys, mas pouco sangue e nenhuma paixão). — Apenas lembre-se de que a Sra. Kelton, que fica na mesa, é minha amiga. — disse a mãe. Falou

em seu costumeiro tom seco de advertência, mas ela estava feliz por seu prazer—ela podia vê-lo. — Se tentar pegar emprestado qualquer coisa picante como A Cadeira do Diabo ou Em Cada Coração um Pecado, vou descobrir. Bobby sorriu. Ele sabia que ela descobriria. — Se quem estiver lá for a outra, a Srta. Busybody, e ela perguntar o que você está fazendo com um cartão laranja, diga-lhe que ela o vire. Eu coloquei uma permissão escrita, acima de minha assinatura. — Obrigado, mãe. Isto é tão legal. Ela deu um sorriso torto, e lhe deu um beijo seco na bochecha, que sumiu quase antes de ter estado lá. — Fico contente por você ter ficado feliz. Se eu chegar em casa mais cedo, vamos até a Colônia comer uns mariscos fritos e tomar sorvete. Vai ter que esperar até o fim de semana por seu bolo; eu não terei tempo de cozinhá-lo até lá. Agora ponha seu casaco e vá andando, filhote. Você vai se atrasar para a escola. Eles desceram as escadas e saíram juntos para a varanda. Havia um táxi da cidade no meio-fio. Um homem de jaqueta de popelina se debruçava na janela do passageiro, pagando o motorista. Atrás dele havia um pequeno aglomerado de bagagens e sacolas de papel, do tipo que possuem alças. — Este deve ser o moço que alugou o quarto do terceiro andar. — disse Liz. Sua boca fez aquele truque de se encolher, novamente. Ela ficou no degrau mais alto da varanda, analisando o jeito engraçado do homem, que se atirou em direção a eles assim que terminou seu assunto com o taxista. — Eu não confio em pessoas que se mudam com suas coisas em sacolas de papel. Para mim os pertences de alguém dentro de uma sacola de papel é algo obsceno. — Ele tem malas também. — Bobby disse, mas não precisou que sua mãe apontasse que as três maletas do novo inquilino não eram lá grande coisa. Nenhuma combinava. Todas pareciam ter sido chutadas daqui até a Califórnia por alguém de mau humor. Bobby e sua mãe desceram o caminho cimentado. O táxi da cidade arrancou. O homem de jaqueta de popelina se virou. Para Bobby, as pessoas eram divididas em três principais categorias: crianças, adultos, e pessoas idosas. Pessoas idosas eram adultos com os cabelos grisalhos. O novo inquilino era do terceiro tipo. Seu rosto era magro, e tinha um semblante cansado, não exageradamente enrugado (exceto ao redor de seus olhos azuis desbotados), mas tinha algumas linhas profundas. Seu cabelo branco era liso como o de um bebê, e se afastava de uma testa pintada de manchas de sol. Ele era alto e caminhava de um modo que fez Bobby pensar em Boris Karloff nos filmes que eram exibidos na Seção Choque, nas noites de sextafeira, de onze e meia, no canal WPIX. Por baixo da jaqueta de popelina, havia roupas baratas de trabalho, que pareciam grandes demais para ele. Em seus pés, usava sapatos de cordovão arranhados. — Olá, pessoal. — ele disse, e sorriu com esforço. — Meu nome é Theodore Brautigan. Eu creio que vou morar aqui por uns tempos. Ele estendeu a mão para a mãe de Bobby, que a apertou brevemente. — Sou Elizabeth Garfield. Este é meu filho, Robert. Você terá que nos perdoar, Sr. Brattigan... — É Brautigan, madame, mas eu ficaria feliz se a senhora e seu menino me chamassem apenas de Ted. — Sim, muito bem, Robert está atrasado para a escola, e eu para o meu trabalho. Foi bom conhecê3

lo, Sr. Brattigan. Apresse-se, Bobby. Tempus fugit . Ela começou a descer a rua em direção à cidade; Bobby começou a subir (e em ritmo lento) em direção à Escola Primária de Harwich, na Avenida Asher. Dado três ou quatro passos em sua jornada,

ele parou e olhou para trás. Ele sentia que sua mãe havia sido rude com o Sr. Brautigan, que ela havia agido como uma arrogante. Ser arrogante era a pior das fraquezas em seu pequeno círculo de amigos. Carol detestava pessoas arrogantes; assim como Sully-John. O Sr. Brautigan provavelmente já estaria na metade da varanda, mas se não estivesse, Bobby queria lhe dar um sorriso, para que ele soubesse que ao menos um membro da família Garfield não era arrogante. Sua mãe também havia parado, e também olhava para trás. Não porque ela quisesse dar outra olhada no Sr. Brautigan; essa ideia nunca cruzou a mente de Bobby. Não, era para seu filho que ela olhava. Ela sabia que ele iria se virar antes que o próprio Bobby soubesse disso, e nisto ele sentiu um súbito escurecimento em sua natureza normalmente brilhante. Às vezes ela dizia que nevaria em Sarasota antes que Bobby pudesse fazê-la de boba, e ele supôs que ela tivesse razão nisto. De qualquer forma, o quão velho você precisaria ser para fazer sua mãe de boba? Vinte? Trinta? Ou talvez você tivesse de esperar que ela envelhecesse e ficasse um pouco caduca. O Sr. Brautigan não havia começado a andar. Ele ficou parado na ponta da calçada, com uma mala em cada mão, e a terceira sob seu braço direito (ele havia movido as três sacolas de papel para o gramado do número 149 da Broad), mais curvado do que nunca sob este peso. Ele estava bem no meio deles, como um pedágio, ou coisa parecida. Os olhos de Liz Garfield voaram dos dele para os de seu filho. Vá, eles diziam. Não diga uma palavra. Ele é novo aqui, um homem de qualquer ou nenhum lugar, e ele chegou com metade de suas coisas dentro de uma sacola de compras. Não diga uma palavra, Bobby, apenas vá. Mas ele não iria. Talvez porque houvesse recebido um cartão de biblioteca, em vez de uma bicicleta em seu aniversário. — Foi um prazer conhecê-lo, Sr. Brautigan. — disse Bobby. — Espero que goste daqui. Adeus. — Tenha um bom dia na escola, filho. — disse Brautigan. — Aprenda muito. Sua mãe está certa... tempus fugit. Bobby olhou para sua mãe, para ver se sua pequena rebelião poderia ter sido perdoada à luz desta adulação igualmente pequena, mas a boca de sua mãe estava inflexível. Ela se virou e começou a descer a ladeira sem dizer outra palavra. Bobby seguiu seu próprio caminho, feliz por ter falado com o estranho, mesmo que sua mãe mais tarde o fizesse se arrepender disto. Enquanto se aproximava da casa de Carol Gerber, ele sacou seu cartão laranja da biblioteca e olhou para ele. Não era uma Schwinn de sessenta centímetros, mas ainda assim era bem legal. Muito legal, para falar a verdade. Um mundo inteiro de livros para explorar, e daí se tivesse custado apenas duas ou três pratas. Não diziam que o que importa é a intenção? Bem... era o que sua mãe dizia, pelo menos. Ele virou o cartão. Escrito na traseira, em sua caligrafia forte, estava esta mensagem: “A quem interessar: este é o cartão da biblioteca de meu filho. Ele tem minha permissão para levar três livros por semana da seção de adultos da Biblioteca Pública de Harwich”. Estava assinado Elizabeth Penrose Garfield. Abaixo de seu nome, como num post-scriptum, ela havia adicionado isto: Robert será o responsável por suas próprias multas atrasadas. — Aniversariante! — Carol gritou, o assustando, e correu de trás de uma árvore, de onde estivera deitada, esperando. Ela jogou seus braços ao redor de seu pescoço, e o beijou forte na bochecha. Bobby corou, olhando em volta para ver se alguém estava vendo (Deus, já era difícil o bastante ser amigo de uma garota sem beijos surpresas), mas estava tudo bem. A multidão matinal de estudantes movia-se em direção à escola ao longo da Avenida Asher, no topo da ladeira, mas aqui embaixo eles estavam sozinhos.

Bobby esfregou a bochecha. — Ora, vamos, você gostou. — ela disse, rindo. — Não gostei. — disse Bobby, apesar de ter gostado. — O que ganhou de aniversário? — Um cartão de biblioteca. — Bobby disse, e mostrou a ela. — Um cartão de biblioteca para adultos. — Legal! — teria sido compaixão que ele havia visto em seus olhos? Provavelmente não. E daí se fosse? — Aqui. Para você. — ela lhe entregou um envelope marcado com seu nome na frente. Ela também havia posto alguns coraçõezinhos e ursinhos de pelúcia. Bobby abriu o envelope com suave trepidação, lembrando-se de que poderia esconder o cartão no bolso traseiro se fosse algo exageradamente sentimental. Não era. Talvez um pouco infantil demais (um menino de chapéu de caubói montado num cavalinho, FELIZ ANIVERSÁRIO, VAQUEIRO, em letras que deveriam parecer feitas de madeira no interior), mas não sentimental demais. Com amor, Carol, era um pouco sentimental, mas é claro que ela era uma garota, o que se poderia fazer? — Valeu. — É um cartão para bebês, eu sei, mas os outros eram piores ainda. — Carol disse, efetivamente. Um pouco mais acima na ladeira, Sully-John esperava por eles, batendo sua raquete fortemente em uma bolinha amarrada a ela, fazendo manobras abaixo de seu braço direito, do esquerdo, atrás das costas. Ele já não mais tentava fazê-las entre as pernas; tentou uma vez no pátio da escola e acertou em cheio suas próprias bolas. Sully gritou. Bobby e algumas outras crianças riram até chorar. Carol e três de suas amigas correram para perguntar o que estava errado, e os meninos disseram que nada estava errado. Sully-John disse a mesma coisa, embora estivesse pálido e a ponto de chorar. Meninos são esquisitos, Carol dissera na ocasião, mas Bobby não acreditava que ela realmente achasse isso. Se achasse, não teria pulado em cima dele e lhe dado um beijo, e havia sido um bom beijo, um beijocão. Melhor do que o que sua mãe havia lhe dado. — Não é um cartão de bebê. — ele disse. — Não, mas quase é. — ela disse. — Eu pensei em te dar um cartão de adulto, mas cara, eles são tão melosos. — Eu sei. — Bobby disse. — Você vai ser um adulto meloso, Bobby? — Espero que não. — ele disse. — E você? — Não. Eu vou ser como a amiga de minha mãe, a Rionda. — Rionda é bem gorda. — Bobby disse, incerto. — É, mas ela é legal. Eu quero ser a parte legal, não a gorda. — Tem um cara novo se mudando para nosso prédio. O quarto no terceiro andar. Minha mãe diz que é realmente um forno lá em cima. — É? Como ele é? — ela deu risadinhas. — Ele é um bobo meloso? — Ele é velho. — Bobby disse, então parou para pensar. — Mas ele tinha uma cara interessante. Minha mãe não gostou dele logo de cara porque ele tinha trazido algumas de suas coisas em sacolas de compras. Sully-John juntou-se a eles. — Feliz aniversário, seu bastardo. — ele disse, e deu um tapinha nas costas de Bobby. Bastardo era a palavra favorita de Sully-John atualmente; a de Carol era legal; Bobby não conseguia se decidir, embora achasse que puto soava bem legal.

— Se ficar xingando, eu não ando com você. — Carol disse. — Está bem. — disse John, amistosamente. Carol era uma loirinha fofinha, que parecia uma das 4

Gêmeas Bobbsey depois de crescida. John Sullivan era alto, cabelos negros, e olhos verdes. Um menino do tipo Joe Hardy. Bobby Garfield andava entre eles, sua tristeza encontrava-se momentaneamente esquecida. Era seu aniversário, ele estava com seus amigos, e a vida era boa. Ele colocou o cartão de aniversário de Carol no bolso traseiro e o da biblioteca no fundo do bolso dianteiro, onde não poderia cair ou ser roubado. Carol começou a pular. Sully-John pediu para ela parar. — Por quê? — Carol perguntou. — Eu gosto de pular. — Eu gosto de dizer bastardo, mas não digo se você me pede. — Sully-John respondeu, racionalmente. Carol olhou para Bobby. — Pular, ao menos sem uma corda, é coisa de bebê, Carol. — disse Bobby, apologeticamente, e então deu de ombros. — Mas você pode se quiser. Não nos importamos, não é, S-J? — Não. — Sully-John disse, e começou a brincar com sua raquete novamente. Para frente, para trás, paf, paf, paf. Carol não pulou. Ela andou entre eles e fingiu que era a namorada de Bobby Garfield, que Bobby tinha carteira de motorista e um Buick, e que eles iriam para Bridgeport ver o show WKBW da Rock ‘n Roll Extravaganza. Ela achava que Bobby era extremamente legal. A coisa mais legal sobre ele era que ele não sabia disto.

***

Bobby saiu da escola às três da tarde. Ele poderia ter chegado mais cedo, mas catar garrafas para reciclagem era parte de sua campanha “Ganhe uma bicicleta com recompensas”, e desviou-se para a área coberta de mato, pouco depois da Avenida Asher, procurando por elas. Ele achou três Rhenigolds e uma Nehi. Não era muito, mas, ora bolas, oito centavos eram oito centavos. Tudo vai aumentando, era outro dos ditados de sua mãe. Bobby lavou as mãos (duas das garrafas estavam imundas), pegou um lanche da geladeira, leu algumas revistinhas antigas do Super-Homem, pegou mais um lanche da geladeira, e então assistiu American Bandstand. Ele ligou para Carol para contar que Bobby Darin iria aparecer (ela achava Bobby Darin profundamente legal. Especialmente quando ele estalava os dedos enquanto cantava “Queen of the Hop”), mas ela já sabia. Ela estava assistindo com três ou quatro de suas amigas cabeças de vento; elas davam risadinhas sem parar do outro lado do telefone. O som fez Bobby pensar em passarinhos numa loja de animais. Na TV, Dick Clark mostrava quantas acnes poderiam sumir usando apenas um Stri-Dex. Mamãe ligou às quatro horas. O Sr. Biderman precisaria que ela trabalhasse até mais tarde, ela disse. Ela sentia muito, mas a sopa de aniversário na Colônia teria de ser cancelada. Havia sobras de carne moída na geladeira; ele poderia comer isso, e ela chegaria em casa às oito para botá-lo para dormir. E, pelos céus, Bobby, lembre-se de desligar o registro do gás quando terminar de usar o fogão. Bobby voltou para a televisão sentindo-se desapontado, mas não realmente surpreso. Em Bandstand, Dick agora anunciava o painel do “Que Nota Você Dá”. Bobby achou que o cara do meio deveria usar um suprimento eterno de Stri-Dex. Ele pôs a mão dentro do bolso dianteiro e tirou o novo cartão alaranjado da biblioteca. Seu humor começou a melhorar de novo. Ele não precisava ficar sentado aqui na frente da TV com uma pilha de velhos gibis se não quisesse. Ele poderia descer até a biblioteca, e usar seu novo cartão, seu novo cartão

de adulto. A Srta. Busybody estaria na mesa, só que seu nome de verdade era Srta. Harrington e Bobby a achava linda. Ela usava perfume, e ele sempre podia senti-lo em sua pele, ou em seu cabelo, como se fosse uma boa memória. E, embora neste instante Sully- John ainda estivesse em sua aula de trombone, Bobby poderia ir até a sua casa, depois da biblioteca, e talvez jogassem bola. E também, ele pensou, eu poderia levar estas garrafas para a loja do Spicer, eu tenho uma bicicleta para ganhar neste verão: De uma vez só, a vida pareceu muito completa.

***

A mãe de Sully convidou Bobby para ficar para o jantar, mas ele disse “não, obrigado, é melhor eu ir para casa”. De longe ele teria preferido a carne assada e as batatas-fritas crocantes da Sra. Sullivan ao que lhe esperava em casa, mas ele sabia que uma das primeiras coisas que sua mãe faria quando voltasse do escritório seria checar a geladeira, para ver se o potinho de plástico com as sobras de carne moída havia desaparecido. Se não houvesse, ela perguntaria o que Bobby havia comido no jantar. Nesta hora, ela estaria calma, até mesmo espontânea. Se ele contasse que havia jantado na casa de Sully-John, ela assentiria, perguntaria o que eles haviam preparado, se houvera sobremesa, e se ele havia agradecido à Sra. Sullivan também; ela poderia até sentar no sofá com ele e dividir uma bola de sorvete enquanto assistiriam ao seriado de faroeste na TV. Tudo ficaria bem... exceto que não seria assim. Eventualmente haveria o troco. Talvez não chegasse em um ou dois dias, ou até mesmo em uma semana, mas ele chegaria. Bobby sabia disso sem quase saber que sabia. Ela sem dúvidas teve de trabalhar até tarde, mas comer sobras de carne moída em seu aniversário também era uma punição por falar com o novo inquilino, quando ele não deveria tê-lo feito. Se ele tentasse evitar tal punição, ela aumentaria igual a dinheiro numa poupança. Quando Bobby voltou da casa de Sully-John, já havia se passado vinte e cinco minutos das seis horas e estava ficando escuro. Ele tinha dois novos livros para ler, um de Perry Mason chamado O Caso das Garras de Veludo, e um romance de ficção- científica de Clifford Simak, intitulado O Anel ao Redor do Sol. Todos pareciam ser puta legais, e a Srta. Harrington não havia pegado no pé dele tanto assim. Ao contrário: ela disse que ele estava lendo livros acima de seu nível, e que era para ele continuar a progredir. Ao vir caminhando de volta da casa de S-J, Bobby inventou uma história onde ele e a Srta. Harrington estariam em um cruzeiro que afundava. Eles eram os únicos dois sobreviventes, salvos de se afogar, ao acharem um salva-vidas com a marca do S.S. LUSITANIC. Eles nadavam até uma ilhota com palmeiras, selva, e um vulcão, e enquanto descansavam deitados na praia, a Srta. Harrington tremeria e diria que estava com frio, com tanto frio... será que ele não poderia abraçá-la e aquecê-la? O que ele, é claro, poderia, e fez, o prazer é meu, Srta. Harrington, e então os nativos sairiam da selva, e no começo pareceriam amigáveis, mas no fim das contas seriam canibais que viviam na encosta do vulcão, e matavam suas vítimas em uma clareira rodeada por caveiras; então as coisas pareceriam ruins, mas justamente quando ele e a Srta. Harrington estariam prestes a ser tragados pela bandeja fumegante do vulcão, que começava a ribombar... — Olá, Robert. Bobby olhou para cima, assustando-se mais do que quando Carol Gerber havia corrido de trás da árvore para tascar um beijocão em sua bochecha. Era o novo vizinho. Ele estava sentado na varanda e fumava um cigarro. Havia trocado seus velhos sapatos arranhados por um par de velhos chinelos arranhados, e havia tirado sua jaqueta de popelina — a noite estava quente. Ele parecia à vontade, Bobby

pensou. — Oh, Sr. Brautigan. Olá. — Eu não quis assustá-lo. — Você não... — Eu acho que te assustei sim. Você estava andando nas nuvens. E é Ted. Por favor. — Tudo bem. — mas Bobby não sabia se poderia se acostumar com “Ted”. Chamar um adulto (especialmente um adulto idoso) por seu primeiro nome não só ia contra os ensinamentos de sua mãe, como também contra sua própria propensão. — A escola foi boa? Aprendeu coisas novas? — Sim, foi legal. — Bobby trocava apoio de um pé para o outro; passava seus novos livros de uma mão para outra. — Poderia sentar comigo por um minuto? — Claro, mas não posso me demorar. Tenho coisas a fazer, sabe. Tenho que fazer o jantar. — as sobras de carne moída agora pareciam bem atraentes em sua cabeça. — Absolutamente. Coisas para fazer e tempus fugit. Enquanto Bobby se sentava próximo ao Sr. Brautigan (Ted) no comprido degrau da varanda, inalando o aroma de seu Chesterfield, ele achou que jamais havia visto um homem que parecia tão cansado como este. Não poderia ser culpa da mudança, poderia? O quão esgotado você poderia ficar quando tudo o que se trazia eram três pequenas malas e três sacolas de compras? Bobby supôs que poderia haver homens que chegariam mais tarde, com outros pertences em caminhões, mas, de fato, ele duvidava. Era só um quarto (um grande, mas, ainda assim, só um simples quarto com uma cozinha de um lado, e todo o resto do outro). Ele e Sully- John haviam subido lá e bisbilhotado depois que a velha Srta. Sidley sofrera seu derrame, e fora viver com sua filha. — Tempus fugit significa “o tempo voa”. — Bobby disse. — Mamãe diz muito isso. Ela também diz que o tempo e a maré não esperam por ninguém, e que o tempo cura todas as feridas. — Sua mãe é uma mulher de muitos ditados, não é? — É. — Bobby disse, e de repente a ideia de todos aqueles ditados o deixou cansado. — Muitos ditados. — Ben Johnson chamou o tempo de “velho careca e trapaceiro”. — disse Ted Brautigan, enquanto tragava profundamente seu cigarro, para logo exalar rastros idênticos de fumaça através de seu nariz. — E Boris Pasternak disse que somos escravos do tempo, reféns da eternidade. Bobby o fitou fascinado, seu estômago vazio fora momentaneamente esquecido. Ele adorou a ideia de o tempo ser um velho careca e trapaceiro (estava absoluta e completamente certo, embora ele não pudesse explicar o porquê... e por acaso aquela incapacidade de responder o porquê não tornava a coisa mais legal ainda?). Era como uma coisa dentro de um ovo, ou uma sombra atrás de um vidro cristalizado. — Quem é Ben Johnson? — Um inglês, morto há muitos anos. — Sr. Brautigan disse. — Egocêntrico e tolo quando o assunto era dinheiro; também tinha um caso de flatulência. Mas... — O que é isso? Flatulência? Ted pôs a língua entre os lábios e fez um breve, mas muito realístico, som de um peido. Bobby cobriu a boca com as mãos e riu entre seus dedos entrelaçados. — Crianças acham que peidos são engraçados. — Ted Brautigan disse, assentindo com a cabeça. — É. Para um homem de minha idade, eles são apenas parte do estranho processo crescente da vida. A propósito, Ben Johnson disse várias coisas boas e sábias nos intervalos entre seus peidos. Não tantas quanto o Dr. Johnson (este seria Samuel Johnson), mas, ainda assim, muito boas.

— E Boris... — Pasternak. Um russo. — disse o Sr. Brautigan, incomodado. — Não era importante, eu acho. Posso ver seus livros? Bobby os passou para o Sr. Brautigan (Ted, ele se lembrou, você deveria chamá-lo de Ted), que devolveu o de Perry Mason após uma rápida olhada no título. O romance de Clifford Simak ele segurou por mais tempo, a princípio concedendo uma olhada furtiva para a capa, através dos anéis de fumaça de seu cigarro, que subiam até seus olhos. Então ele começou a folhear. Ele assentia enquanto o fazia. — Já li este. — ele disse. — Eu tive muito tempo para ler antes de vir para cá. — Mesmo? — Bobby estava entusiasmado. — E é bom? — Um de seus melhores. — Sr. Brautigan, Ted, respondeu. Ele olhou de relance para Bobby, um olho aberto, o outro ainda fechado por conta da fumaça. Isto lhe deu um semblante sábio e misterioso, como uma personagem não exatamente confiável de um filme de detetive. — Mas tem certeza de que pode ler isto? Você não pode ter mais do que doze anos. — Eu tenho onze. — Bobby disse. Ele estava radiante, porque Ted achou que ele poderia ser velho o bastante a ponto de ter doze. — Faço onze hoje. Eu posso lê-lo. Não vou entendê-lo totalmente, mas se for uma boa história, vou gostar dela. — Seu aniversário! — Ted disse, parecendo impressionado. Ele deu uma última tragada em seu cigarro, e então o jogou fora. O cigarro chocou-se contra o pavimento, e faíscas voaram. — Feliz aniversário, querido Robert, parabéns para você! — Valeu. É só que eu gosto mais de Bobby. — Bobby, então. Você vai sair para celebrar? — Não, minha mãe tem que trabalhar até tarde. — Gostaria de subir ao meu quartinho? Eu não tenho muito, mas sei como abrir uma lata. Eu também acho que tenho alguns doces... — Valeu, mas mamãe me deixou algo para comer. Eu devia comer isto. — Entendo. — e por incrível que pareça, ele, de fato, parecia entender. Ted devolveu a cópia de O Anel ao Redor do Sol de Bobby. — Neste livro... — ele disse. — O Sr. Simak postula a ideia de que há um número de mundos como o nosso. Não outros planetas, mas outras Terras, Terras paralelas, em um tipo de anel ao redor do sol. Uma ideia fascinante. — É. — Bobby disse. Ele sabia sobre mundos paralelos por causa de outros livros. E por causa dos gibis também. Ted Brautigan agora o fitava pensativamente, de um jeito especulativo. — O que foi? — Bobby perguntou, subitamente sentindo-se constrangido. Está vendo alguma coisa verde? Sua mãe teria perguntado. Por um momento, achou que Ted iria responder (ele parecia ter embarcado em algum profundo e confuso trem de pensamentos). Então ele se sacudiu, e sentou- se ereto. — Não é nada. — ele disse. — Eu tenho uma pequena ideia. Talvez você queira ganhar um dinheiro extra. Não que eu tenha muito, mas... — Sim! Pode apostar que sim! — Tem uma bicicleta, ele quase falou, então parou. Em boca calada não entra mosca, era outro dos ditados de sua mãe. — Eu faria qualquer coisa que o senhor quisesse! Ted Brautigan pareceu simultaneamente alarmado e maravilhado. De algum modo, isto pareceu abrir a porta para um rosto diferente, e Bobby pôde ver isto, sim, o velhinho já havia sido um jovenzinho. Talvez do tipo rebelde. — Isso é uma coisa ruim para se dizer a um estranho. — ele disse. — E embora nós tenhamos

progredido para Bobby e Ted — um bom começo — ainda somos estranhos um para o outro. — Alguns desses caras, Johnson, disse alguma coisa sobre estranhos? — Não que eu me lembre, mas aqui vai algo retirado da Bíblia: “Pois sou contigo como um estranho. Sou como um viajante. Poupa-me, ajuda-me a recuperar forças, antes que venha a morte...” — Ted divagou por um momento. A diversão havia sumido de seu rosto, e ele pareceu velho novamente. Então sua voz recuperou a firmeza, e ele terminou. — ...antes que venha a morte e eu deixe de existir”. Livro dos Salmos. Não consigo me lembrar qual é. — Bem... — disse Bobby. — Eu não mataria ou roubaria ninguém, não se preocupe, mas eu com certeza gostaria de ganhar algum dinheiro. — Deixe-me pensar. — Ted disse. — Deixe-me pensar um pouco. — Claro. Mas se você tiver tarefas ou coisas assim, eu sou o cara com quem você deve falar. Posso te dizer isso agora mesmo. — Tarefas? Talvez. Embora esta não seja a palavra que eu escolheria. — Ted abraçou, com seus braços ossudos, seus joelhos ainda mais ossudos, e olhou fixamente para a grama da Rua Broad. Estava escurecendo agora; a parte favorita de Bobby da noite havia chegado. Os carros que passavam estavam com seus faróis acesos, e em algum lugar na Avenida Asher, a Sra. Sigsby chamava suas gêmeas para entrarem e comerem o jantar. Nesta hora do dia, e de madrugada, enquanto estava no banheiro, urinando na privada, com o brilho do sol fraco passando através da janelinha, direto para seus olhos semicerrados, Bobby sentia-se dentro de um sonho na cabeça de outra pessoa. — Onde você morava antes de vir para cá, senhor... Ted? — Em um lugar que não era bom. — ele disse. — Nem um pouco perto de ser bom. Há quanto tempo você mora aqui, Bobby? — Desde que me lembro. Desde que meu pai morreu, quando eu tinha três anos. — E você conhece todos na rua? Neste bloco da rua, em todo caso? — A maioria, sim. — Você reconheceria estranhos. Viajantes. Rostos desses desconhecidos. Bobby sorriu e assentiu. — Aham, acho que sim. Ele esperou para ver aonde isso chegaria, era interessante, mas, aparentemente, isso seria o mais longe que a coisa iria. Ted levantou-se, devagar e cautelosamente. Bobby pôde ouvir pequenos ossos estalarem em suas costas quando ele pôs as mãos lá ao se esticar, produzindo uma careta. — Vamos. — disse ele. — Está ficando frio. Vou entrar com você. Sua chave ou a minha? Bobby sorriu. — É melhor começar a usar a sua própria, não acha? Ted (estava ficando mais fácil de imaginá-lo como “Ted”) puxou um chaveiro do bolso. As únicas chaves dele eram as que abriam a grande porta da frente, e a do seu quarto. Ambas eram brilhantes e novas, a açor do ouro do bandido. As chaves de Bobby estavam arranhadas e desbotadas. “O quão velho era Ted?”, ele se perguntou novamente. Sessenta, pelo menos. Um homem de sessenta anos com apenas duas chaves no bolso. Isso era esquisito. Ted abriu a porta da frente e eles adentraram a grande e escura entrada, onde havia uma cestinha para colocar guarda-chuvas, e uma velha pintura de Lewis e Clark olhando através do Oeste Americano. Bobby seguiu para a porta do apartamento dos Garfield, e Ted subiu as escadas. Ele parou lá por um momento, com a mão no corrimão. — O livro de Simak é uma grande história. — ele disse. — Não é uma escrita tão boa. Não é má, eu não quis dizer isso, mas confie em mim, há melhores.

Bobby esperou. — Existem também livros cheios de excelente escrita, que não tem histórias tão boas. Às vezes leia pela história, Bobby. Não seja como os grandes esnobes literários que não o fariam. Às vezes leia pelas palavras, a linguagem. Não seja como os super-prudentes que não o fariam. Mas quando você achar um livro que tem tanto boa escrita como boa história, guarde-o como um tesouro. — Você acha que existem muitos desses? — Bobby perguntou. — Mais do que esnobes literários e super-prudentes pensam. Muito mais. Talvez eu lhe dê um. Um presente de aniversário atrasado. — Você não precisa fazer isso. — Não, mas talvez eu faça. E tenha um feliz aniversário. — Valeu. Ele está sendo ótimo. — então, Bobby entrou em seu apartamento, aqueceu a carne moída (lembrando-se de desligar o registro de gás depois que a comida começou a borbulhar, também se lembrando de pôr a frigideira na pia para esfriar), e comeu o jantar sozinho, lendo O Anel ao Redor do Sol, com a TV ligada como companhia. Ele quase não ouviu Chet Huntley e David Brinkley tagarelando as notícias da noite. Ted estava certo sobre o livro; era formidável. As palavras pareceram leves para ele também, embora achasse que não tinha tanta experiência ainda. Eu gostaria de escrever histórias assim, ele pensou, enquanto finalmente fechava o livro e deitava 5

no sofá para assistir a “Sugarfoot ”. Imagino se um dia poderei fazer isso. Talvez. Talvez sim. Alguém tinha de escrever histórias, afinal de contas, exatamente como alguém tinha de consertar os canos quando eles congelavam, ou mudar as luzes dos postes do Parque Commonwealth quando queimavam. Mais ou menos uma hora depois, após Bobby pegar O Anel ao Redor do Sol e começar a ler de novo, sua mãe chegou. Seu batom estava um pouco borrado no canto, e seu vestido estava um pouco solto. Bobby pensou em avisá-la sobre isso, e então se lembrou de como ela detestava quando alguém lhe dizia que “nevava no sul”. Além disso, o que importava? Seu dia de trabalho estava terminado e, como ela às vezes dizia, não havia ninguém aqui, exceto nós, os frangos. Ela checou a geladeira para se certificar de que as sobras de carne moída haviam sumido, checou o fogão para se certificar de que o registro do gás havia sido desligado, checou a pia para se certificar de que o pote estava boiando na água espumante. Então ela o beijou na têmpora rapidamente, e foi para o quarto trocar seu vestido do escritório. Ela pareceu distante, preocupada. Não perguntou se ele tivera um feliz aniversário. Mais tarde, ele mostrou a ela o cartão de Carol. Sua mãe olhou de relance para ele, não o vendo realmente, dizendo que era “bonitinho”, e o devolveu. Então, ela falou para ele ir se lavar, escovar os dentes, e ir para cama. Bobby assim o fez, sem mencionar sua interessante conversa com Ted. Em seu estado atual de humor, isso a deixaria zangada. A melhor coisa a se fazer era deixá-la ficar distante, deixá-la em paz o quanto precisasse ficar, dar-lhe tempo para voltar ao normal. Assim, ele sentiu aquele triste humor o tomando novamente, enquanto terminava de escovar os dentes e subia na cama. Às vezes se sentia quase ávido por ela, e ela não sabia. Ele saiu da sala e fechou a porta, bloqueando o som de um filme antigo. Desligou a luz. E, então, quando estava quase adormecendo, ela entrou, sentou-se ao seu lado, e pediu desculpas por estar tão distante hoje à noite, mas havia sido muito trabalhoso no escritório, e ela estava cansada. Algumas vezes era como um hospício, ela disse. Ela fez um carinho em sua testa com um dedo, e o beijou lá, fazendo-o sentir um arrepio. Ele sentou-se e a abraçou. Ela enrijeceu momentaneamente ao seu toque, então relaxou. Ela até mesmo retribuiu o abraço, rapidamente. Ele achou que estaria tudo bem em contar sobre Ted agora. Ou pelo menos um pouco.

— Eu falei com o Sr. Brautigan quando voltei para casa da biblioteca. — ele disse. — Quem? — O novo homem no terceiro andar. Ele pediu para chamá-lo de Ted. — Você não o fez, eu deveria tê-lo proibido! Você nem o conhece direito! — Ele disse que dar a uma criança um cartão da biblioteca de adulto era um grande presente. — Ted não dissera tal coisa, mas Bobby vivera com sua mãe por tempo o bastante para saber o que funcionava, e o que não funcionava. Ela relaxou um pouco. — Ele disse de onde veio? — Acho que ele disse que de um lugar não tão bom quanto aqui. — Bem, isso não nos diz muito, diz? — Bobby ainda a abraçava. Ele facilmente poderia ficar ali, abraçando-a por mais uma hora, sentindo o cheiro de seu xampu, de seu desodorante, e de seu prazeroso odor de tabaco em seu hálito, mas ela soltou-se dele e o deitou. — Eu acho que se ele vai se tornar seu amigo, seu amigo adulto, eu terei de conhecê-lo um pouco. — Bem... — Talvez eu goste mais dele quando ele não tiver mais sacolas de compras espalhadas por toda a grama. — quando se tratava de Liz Garfield, isto era sinceramente apaziguador, e Bobby estava satisfeito. O dia havia chegado a um fim bastante aceitável, apesar de tudo. — Boa noite, aniversariante. — Boa noite, mãe. Ela saiu, e fechou a porta. Mais tarde, naquela noite, bem mais tarde, ele achou que a ouvia chorar em seu quarto, mas talvez fosse apenas um sonho.

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Dúvidas Sobre Ted. Livros são como Bombas. Nem Pense Nisso. Sully Ganha um Prêmio. Bobby Arranja um Emprego. Sinais dos Homens Baixos.

DURANTE AS SEMANAS SEGUINTES, enquanto o clima esquentava com o verão, Ted normalmente se encontrava na varanda, fumando, quando Liz voltava para casa do trabalho. Às vezes ele estava só, e, às vezes, Bobby estava sentado com ele, falando sobre livros. Às vezes Carol e Sully-John também estavam lá, as três crianças brincando de bola no gramado, enquanto Ted fumava e os observava jogar. Às vezes outras crianças apareciam: Denny Rivers, com seu planador de brinquedo, o cabeça-mole do Francis Utterson, sempre andando em seu patinete com uma perna super desenvolvida, Angela Avery e Yvone Loving, para perguntarem a Carol se ela gostaria de ir para a casa de Yvonne brincar de bonecas, ou de um jogo chamado Hospital de Enfermeiras—mas, na maioria das vezes, era apenas S-J e Carol, os amigos especiais de Bobby. Todas as crianças chamavam o Sr. Brautigan de “Ted”, mas quando Bobby explicou a razão pela qual seria melhor que o chamassem de Sr. Brautigan enquanto sua mãe estivesse por perto, Ted concordou na hora. Quanto à sua mãe, ela parecia não ser capaz de expelir o nome Brautigan da boca. O que saía era sempre Brattigan. Isso, porém, talvez não fosse algo que ela fizesse propositalmente; Bobby começava a sentir um alívio cauteloso sobre a opinião que sua mãe tinha sobre Ted. Ele temia que ela pensasse de Ted o mesmo que pensava da Sra. Evers, sua professora da segunda série. Mamãe havia detestado a Sra. Evers logo de cara, detestava-a profundamente, por nenhuma razão aparente que Bobby pudesse ver, ou entender, e não teve uma única boa palavra para dizer sobre ela durante o ano todo — a Sra. Evers se vestia como uma pessoa careta, a Sra. Evers pintava o cabelo, a Sra. Evers usava maquiagem demais, era melhor Bobby dizer a sua mãe se a Sra. Evers havia lhe tocado em um único fio de cabelo, porque ela parecia o tipo de mulher que gostasse de beliscar e empurrar. Tudo isto aconteceu após uma única reunião de pais e professores em que a Sra. Evers contou à Liz que Bobby estava se saindo bem em todas as matérias. Houve outras quatro reuniões de pais e professores naquele ano, e a mãe de Bobby encontrou motivos para evitar cada uma delas. As opiniões de Liz sobre as pessoas haviam piorado drasticamente; quando ela legendava uma imagem mental de você com uma “MÁ PESSOA”, ela quase sempre o fazia com tinta. Se a Sra. Evers houvesse salvado seis crianças de um ônibus escolar em chamas, Liz Garfield provavelmente diria que elas tinham uma dívida monetária de duas semanas de leite com a velha vaca de olhos esbugalhados. Ted fez todo o esforço para ser gentil com ela sem ser um puxa-saco (as pessoas puxavam o saco de sua mãe, Bobby sabia; diabos, às vezes ele mesmo o fazia), e funcionou... mas até certo ponto. Em uma ocasião, Ted e a mãe de Bobby conversaram por quase dez minutos, sobre o quão terrível era o fato dos Dodgers terem se mudado para o outro lado do país sem dar nada mais do que um adeus, mas nem que ambos fossem fãs do estádio dos Dodgers isso poderia aproximá-los. Eles nunca seriam amigos. Mamãe não desgostava de Ted do jeito que o fazia com a Sra. Evers, mas, ainda assim, havia algo de errado. Bobby supôs que sabia o que era; ele havia visto nos olhos dela na manhã em que o novo inquilino chegara. Liz não confiava nele. Nem, como se descobriu, Carol Gerber. — Às vezes me pergunto se ele está fugindo de alguma coisa. — ela disse, certa tarde, enquanto

ela, Bobby e S-J subiam a ladeira em direção à Avenida Asher. Eles ficaram jogando bola por uma hora, mais ou menos, falando com Ted, aqui e acolá, enquanto jogavam, e agora se dirigiam para a Sorveteria Felicidade À Beira da Estrada, para comer uma casquinha. S-J tinha trinta centavos e estava se divertindo. Ele também tinha levado sua raquete, que agora tirava do bolso traseiro. Daqui a pouco, ele estaria batendo a bola para cima, para baixo, para todo o lado, paf-paf-paf. — Fugindo? Está brincando? — Bobby ficou pasmo com a ideia. Ainda assim, Carol tinha os dois pés atrás quando se tratava de pessoas; até sua mãe já havia percebido isto. Essa menina não é bonita, mas ela não deixa escapar uma, ela disse, certa noite. — Não os deixe escapar, McGarrigle! — Sully-John gritou. Ele colocou a raquete sob o braço e caiu agachado, atirando com uma pistola invisível, repuxando o canto direito de sua boca para produzir o som apropriado, uma espécie de ih-ihih, que vinha do fundo de sua garganta. — Vocês nunca me pegarão vivo, seus babacas! Acabe com eles, Mugsy! Ninguém passa o Rico para trás! Ah, caramba, eles me acertaram! — S-J apertou o peito, começou a girar, e caiu morto no gramado da Sra. Conlan. Tal senhora, uma velha rabugenta—e aquilo que rima com “luta”—de setenta e cinco anos, mais ou menos, berrou: “Garoto! Chispa, garoto! Saia daí! Vai amassar minhas flores!”. Não havia uma única flor no raio de três metros de onde Sully-John havia caído, mas ele se levantou imediatamente. — Desculpe, Sra. Conlan. Ela agitou uma mão para ele, isentando-o do pedido de desculpas, sem dizer uma palavra, e vigiou atentamente, enquanto as crianças seguiam seu caminho. — Você não está falando sério, está? — Bobby perguntou a Carol. — Sobre Ted? — Não. — ela disse. — Acho que não. Mas... você já viu que ele fica vigiando a rua? — Sim. Parece que ele está esperando que alguém apareça, não é? — Ou esperando que alguém não apareça. — Carol respondeu. Sully-John voltou a brincar com sua raquete. Não demorou muito para que a bolinha vermelha começasse a quicar, para frente e para trás, novamente. Sully só parou quando passaram pelo Império Asher, onde dois filmes da Brigitte Bardot eram exibidos, “Apenas para Adultos. É Obrigatório Carteira de Motorista, ou Certidão de Nascimento, Sem Exceções”. Um dos filmes era novo; o outro era um velho, E Deus Criou a Mulher, que parecia sempre voltar ao Império como uma crise de tosse. Nos cartazes, Brigitte estava vestida com nada mais do que uma toalha e um sorriso. — Minha mãe disse que ela é um lixo desprezível. — Carol disse. — Se ela é um lixo, eu adoraria ser o lixeiro. — S-J disse, e movimentou as sobrancelhas como 6

Groucho Marx . — Você acha que ela é desprezível? — Bobby perguntou a Carol. — Eu nem mesmo tenho certeza do que isto significa. Enquanto passavam pela marquise (de onde, em seu interior, na cabine de vidro de venda de ingressos, ao lado das portas, a Sra. Godlow, conhecida pelas crianças da vizinhança como a Sra. Godzilla, os vigiava com suspeitas). Carol olhou para trás, por cima de seus ombros, para ver Brigitte Bardot em sua toalha. Sua expressão era difícil de ler. Curiosidade? Bobby não saberia dizer. — Mas ela é bonita, não é? — É, eu acho. — E você tem que ser corajoso para deixar as pessoas te olharem vestindo apenas uma toalha. É o que eu penso, de qualquer forma. Sully-John já não mais tinha interesse em la femme Brigitte agora que ela ficara para trás.

— De onde veio o Ted, Bobby? — Eu não sei. Ele nunca fala sobre isso. Sully-John assentiu, como se esperasse essa resposta, e, então, novamente pôs sua raquete em ação. Para cima e para baixo, e para todo lado, paf-paf-paf.

***

Em maio, os pensamentos de Bobby passaram a versar sobre as férias de verão. Não havia nada realmente melhor do que o que Sully chamava de “A Grande Folga”. Ele iria passar várias horas curtindo com seus amigos, tanto na Rua Broad quanto lá embaixo, no Clube Sterling, do outro lado do parque (eles tinham várias coisas legais para fazer durante o verão no Clube Sterling, incluindo beisebol e viagens semanais para Praia Patagonia, em West Haven), e ele também teria bastante tempo para si mesmo. Tempo para ler, é claro, mas o que ele realmente queria fazer com um pouco deste tempo, era conseguir um trabalho temporário. Ele tinha pouco mais do que sete pratas em um pote onde se lia “FUNDOS PARA A BICICLETA”, e sete pratas era um começo... mas não o que você chamaria de um grande começo. Neste ritmo, Nixon já seria Presidente dois anos antes que ele começasse a pedalar para a escola. Num destes dias que antecederam as férias, Ted lhe deu uma brochura. — Lembra-se de que eu lhe disse sobre alguns livros terem tanto boas histórias como boa escrita? — ele perguntou. — Este aqui é um deles. Um presente de aniversário atrasado de um novo amigo. Ao menos espero que eu seja seu amigo. — Você é. Muito obrigado! — apesar do entusiasmo em sua voz, Bobby pegou o livro desconfiado. Ele estava acostumado com livros de bolso de capas brilhantes e ásperas, com slogans sensuais (“Ela caiu na sarjeta... E DESCEU MAIS AINDA!”); este não tinha nada disso. A capa era, em sua maior parte, branca. Num dos cantos estava desenhado, quase apagado, um grupo de meninos em um círculo. O nome do livro era Senhor das Moscas. Não havia slogan acima do título, nem mesmo um do tipo discreto como “Uma história que você nunca irá esquecer”. Não obstante, ele tinha uma aparência medonha e desagradável, sugerindo que a história por trás da capa seria difícil. Bobby não tinha nada contra livros difíceis, contanto que fizessem parte do dever da escola. Sua opinião sobre ler por prazer, no entanto, era de que as histórias deveriam ser fáceis, que o escritor deveria fazer de tudo, exceto controlar seus olhos por você. Se não fosse assim, que prazer poderia haver nisto? Ele tentou devolver o livro. Ted colocou gentilmente sua mão em cima da de Bobby, parando-o. — Não faça isso. — ele disse. — Como um favor pessoal, não faça isso. Bobby o fitou sem entender. — Entre no livro como se você estivesse entrando em uma terra inexplorada. Entre sem um mapa. Explore-o, e desenhe seu próprio mapa. — Mas, e se eu não gostar dele? Ted deu de ombros. — Então não termine. Um livro é como uma bomba. Não lhe dá nada, a não ser que você lhe dê algo primeiro. Você enche uma bomba com sua própria água, você opera a manivela com sua própria força. Você faz isso porque espera receber mais do que deu... eventualmente. Entendeu isso? Bobby assentiu. — Por quanto tempo você continuaria a operar a manivela da bomba se nada saísse de lá? — Não por muito tempo, eu acho. — Este livro tem duzentas páginas, mais ou menos. Leia os primeiros dez por cento — vinte

páginas, no caso; eu já sei que sua matemática não é tão boa quanto sua leitura — e se até lá você não gostar, se ele não lhe der mais do que você está lhe dando, deixe-o pra lá. — Eu gostaria que deixassem você fazer isso na escola. — Bobby disse. Ele estava pensando no poema de Ralph Waldo Emerson que deveriam memorizar. “Pela rude ponte que arqueava a enchente”, era assim que começava. S-J chamou o poeta de “Ralph Waldo Emersonífero”. — A escola é diferente. — estavam sentados à mesa da cozinha de Ted, olhando para o quintal, onde tudo estava florescido. Na Rua Colônia, que seria a próxima rua, o cachorro da Sra. O’Hara latia seu interminável uou-uou-uou ao suave vento da primavera. Ted fumava um Chesterfield. — E falando em escola, não levo o livro para lá com você. Há coisas nele que seu professor pode 7

não querer que você leia. Poderia haver uma brouhaha . — Uma o quê? — Uma confusão. E se você tiver problemas na escola, você terá problemas em casa, isso eu tenho certeza de que não preciso lhe dizer. E sua mãe... — a mão que segurava o cigarro fez um gesto de gangorra que Bobby entendeu imediatamente. Sua mãe não confia em mim. Bobby pensou em Carol dizendo que talvez Ted estivesse fugindo de alguma coisa, e lembrou-se de sua mãe, dizendo que Carol não deixava escapar uma. — O que há nele que poderia me meter em problemas? — ele olhou para Senhor das Moscas com nova fascinação. — Nada que te faça espumar pela boca. — Ted disse, secamente. Ele esmagou seu cigarro em um cinzeiro de latão, foi até sua pequena geladeira, e tirou duas garrafas de refresco. Não havia cerveja ou vinho lá, apenas refresco, e uma garrafa de vidro de creme. — Alguém fala sobre enfiar uma lança na bunda de um porco selvagem, acho que isso é o pior. Ainda assim, há um certo grupo de adultos que consegue ver apenas árvores, e nunca a floresta. Leia as primeiras vinte páginas, Bobby. Você nunca olhará para trás. Isto eu te prometo. Ted pôs as garrafas na mesa, e tirou as tampinhas com um abridor. Então ele levantou sua garrafa, e a bateu contra a de Bobby. — Aos seus novos amigos da ilha. — Que ilha? Ted Brautigan sorriu, e acendeu o último cigarro da embalagem amassada. — Você vai descobrir. — ele disse.

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Bobby, de fato, descobriu, e não foi necessário chegar a vinte páginas para que ele também achasse que Senhor das Moscas era um livro bom pra caramba, talvez o melhor que já havia lido. Dez páginas lidas, e ele já estava capturado; vinte páginas, e ele já estava perdido. Ele viveu na ilha com Ralph, Jack, Porquinho, e seus amigos; ele tremeu com a Fera, que no fim das contas era o piloto do avião que já estava apodrecendo, preso ao paraquedas, ele assistiu, a princípio com receio, então com horror, enquanto um grupo de inofensivos colegas de escola regredia à selvageria, finalmente pondo em ação uma caçada contra o único deles que ainda conseguia se manter meio humano. Ele terminou o livro num sábado, uma semana antes das últimas aulas do ano. Quando o meio-dia chegou, e Bobby ainda estava em seu quarto, sem amigos para brincar, sem desenhos matinais para ver, nem mesmo os do Pernalonga e sua turma, sua mãe olhou para ele e lhe disse para sair da cama, que tirasse o nariz daquele livro, e descesse para o parque, ou coisa assim. — Onde está Sully? — ela perguntou.

— Na Praça Dalhouse. Está acontecendo um concerto de bandas escolares. — Bobby olhou para sua mãe à porta, e para as coisas ordinárias ao seu redor, com um olhar confuso e perplexo. O mundo da história se tornara tão vívido, que ver o mundo real agora parecia algo falso e entediante. — E quanto à sua namorada? Leve-a ao parque com você. — Carol não é minha namorada, mãe. — Bem, tanto faz o que ela seja. Pelo amor de Deus, Bobby, eu não estava sugerindo que vocês dois fugissem. — Ela foi dormir com algumas amigas ontem à noite na casa de Angie. Carol diz que quando dormem por lá, elas ficam acordadas e brincam a noite toda. Aposto que ainda estão na cama, ou tomando café da manhã. — Então vá ao parque sozinho. Você já está me deixando nervosa. Com a TV desligada no sábado de manhã eu continuo a pensar que você morreu. — ela entrou no quarto e tirou o livro de suas mãos. Bobby assistiu paralisado, enquanto ela folheava algumas páginas, lendo algumas passagens aleatoriamente, aqui e acolá. E se ela lesse a parte em que os meninos confabulam sobre enfiar uma lança no traseiro do porco (só que eles eram ingleses, e diziam “bunda”, o que soava ainda mais obsceno para Bobby)? O que ela faria? Ele não sabia. Durante toda a sua vida, eles haviam morado juntos, na maior parte do tempo fora apenas eles dois, e, ainda assim, ele não conseguia prever como ela regaria a qualquer situação. — Este é o presente que Brattigan te deu? — É. — De aniversário? — É. — Sobre o que é? — Sobre meninos perdidos em uma ilha. O avião deles caiu. Acho que a história se passa depois da Segunda Guerra Mundial, ou coisa assim. O cara que o escreveu nunca dá certeza. — Então é ficção-científica? — Sim. — Bobby disse. Ele se sentiu um pouco tonto. Ele achou que Senhor das Moscas não se parecia nem um pouco com O Anel ao Redor do Sol, mas sua mãe odiava ficção-científica, e se havia alguma coisa em potencial que poderia fazê-la parar de folheá-lo, seria isto. Ela devolveu o livro, e andou até sua janela. — Bobby? Não o olhou, ao menos não a princípio. Ela vestia uma blusa vermelha e suas calças de sábado. A luz do meio-dia brilhou em sua blusa; ele podia ver seu perfil, e notou, pela primeira vez, como ela estava magra, como se houvesse se esquecido de comer, ou coisa assim. — O que é, mãe? — O Sr. Brattigan lhe deu algum outro presente? — É Brautigan, mãe. Ela franziu o cenho ante seu reflexo na janela... ou provavelmente era para o reflexo dele que ela franzia. — Não me corrija, Bobby-O. Ele deu? Bobby pensou. Alguns refrescos, às vezes um sanduíche de atum, ou churros da padaria, onde a mãe de Sully trabalhava, mas nada de presentes. Apenas o livro, que fora um dos melhores presentes que ele já havia ganhado. — Caramba, não, por que ele faria isso? — Eu não sei. Mas não sei por que um homem que você acabou de conhecer lhe daria um presente de aniversário logo de cara. — ela suspirou, cruzou os braços sob seus pequenos seios pontudos, e

continuou a olhar pela janela de Bobby. — Ele me disse que tinha um emprego de funcionário público em Hartford, mas que agora está aposentado. Foi isso o que ele te disse? — Alguma coisa assim. — na verdade, Ted nunca lhe contara nada sobre empregos, e perguntar nunca passou pela cabeça de Bobby. — Que tipo de emprego? Em que área? Saúde? Transporte? Fiscal de contas públicas? Bobby balançou a cabeça. Que diabos eram contas públicas? — Aposto que é da área de educação. — ela disse, meditando. — Ele fala como se costumasse ser um professor. Não é? — É, até que parece. — Ele tem algum passatempo? — Eu não sei. — havia leitura, é claro; duas das três sacolas que haviam ofendido sua mãe estavam cheias de brochuras, a maioria delas parecia ser difícil de ler. O fato de que Bobby não sabia nada sobre os passatempos do novo homem, pareceu, por alguma razão, tranquilizar a mente dela. Ela deu de ombros, e quando falou novamente, parecia falar mais para si mesma do que para Bobby. — Puxa, é só um livro. E uma brochura, afinal de contas. — Ele disse que pode ter um trabalho para mim, mas até agora não me disse nada. Ela se virou rapidamente. — Qualquer trabalho que ele te oferecer, qualquer tarefa que ele te pedir para fazer, você vem falar comigo primeiro. Entendeu? — Claro, entendi. — a intensidade dela o surpreendeu e o deixou nervoso. — Prometa. — Eu prometo. — Prometa sério, Bobby. Ele obedientemente jurou de pé junto, e disse: — Eu prometo à minha mãe, em nome de Deus. Isto geralmente colocava uma pedra no assunto, mas desta vez ela não parecia satisfeita. — Ele já... ele já te... — aí ela parou, parecendo estranhamente nervosa. As crianças, às vezes, pareciam assim, quando a Sra. Bramwell as mandava à lousa para destacar os substantivos e verbos, e não conseguiam. — Ele já o quê, mãe? — Deixa pra lá. — ela disse, irritada. — Saia daqui, Bobby, vá para o parque ou para o Clube Sterling. Eu estou cansada de olhar para você. Então por que você veio até aqui?, ele pensou (mas claro que não disse). Eu não estava te incomodando, mãe. Eu não estava te incomodando. Bobby enfiou Senhor das Moscas no bolso traseiro e foi até a porta. Ele se virou ao chegar lá. Ela ainda estava na janela, mas agora o observava novamente. Ele nunca a viu com um semblante amoroso em tais momentos; na melhor das hipóteses, ele via uma espécie de especulação, às vezes (nem sempre), carinhosa. — Ei, mãe? — ele estava pensando em pedir cinquenta centavos, meio mango. Com isso ele poderia comprar um refresco e dois cachorros-quentes no Café Colônia, que vinham em pães de forma, com pedacinhos de batatas e picles nas laterais. A boca dela fez aquele truque de se contrair, e ele entendeu que não era dia para cachorros-quentes. — Não peça, Bobby, nem pense nisso. — “Nem pense nisso”. Esse era um dos seus favoritos. — Eu tenho toneladas de contas para pagar esta semana, então trate de tirar essas cifras dos seus olhos.

Ela não tinha toneladas de contas, isto era fato. Não nesta semana. Bobby havia visto ambas as contas de luz e o cheque do aluguel, dentro do envelope em que estava escrito “Sr. Moneleone”, na quarta-feira passada. E ela não poderia dizer que ele precisava de roupas novas tão cedo, porque o ano letivo estava quase no fim, não no começo. O único dinheiro que ele havia pedido ultimamente havia sido cinco pratas para ir ao Clube Sterling (taxas trimestrais), e até sobre isso ela havia reclamado, embora soubesse que isso cobria natação e beisebol dos Lobos e Leões, além do seguro. Se houvesse sido outra pessoa que não sua mãe, ele teria achado que este era um pensamento sovina. Ele não podia dizer nada sobre isso com ela; falar com ela sobre dinheiro quase sempre resultava em uma discussão, e disputar qualquer ponto de vista sobre assuntos monetários, mesmo os mais insignificantes, poderia levá-la à histeria. Quando chegava a este ponto, ela ficava assustadora. Bobby sorriu. — Tudo bem, mamãe. Ela sorriu de volta, e então apontou para o potinho em que estava escrito FUNDOS PARA A BICICLETA. — Por que não pega emprestado dali? Vá se divertir. Eu não vou contar pra ninguém, e você sempre poderá recuperar o dinheiro. Com esforço, ele segurou um sorriso. Como tinha sido fácil ela dizer aquilo, nunca pensando no quão furiosa ficaria se Bobby sugerisse que ela pegasse emprestado do dinheiro das contas de luz, ou do telefone, ou do que ela poupava para usar em seus “assuntos de roupas”, para que ele pudesse comprar uma dupla de cachorros- quentes e uma torta com sorvete no Colônia, dizendo animadamente que nunca contaria para ninguém, e que ela sempre ela sempre poderia recuperar o dinheiro. É, pode apostar, ele até mesmo ganharia um beijo no rosto por essa.

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Quando chegou ao Parque Commonwealth, o ressentimento de Bobby havia desaparecido, e a palavra sovina havia abandonado seu cérebro. Fazia um belo dia, e ele tinha um incrível livro para terminar; como você poderia ficar ressentido e irritado com coisas assim? Ele achou um banco afastado e reabriu Senhor das Moscas. Ele tinha de terminá-lo hoje, tinha de descobrir o que ia acontecer. As últimas quarenta páginas lhe tomaram uma hora, e durante todo este tempo ele ficou absorto de tudo ao seu redor. Quando finalmente fechou o livro, descobriu que estava coberto de flores brancas. Seus cabelos estavam cheios delas também, e que ele estivera sentado, sem perceber, sob uma tempestade de pétalas. Ele as removeu, olhando em direção ao playground. Crianças em gangorras, e jogando peteca. Rindo, perseguindo umas às outras, rolando na grama. Será que estas crianças poderiam acabar ficando nuas, venerando uma cabeça podre de porco? Era tentador dispensar tais ideias, como a imaginação de um adulto que detesta crianças (havia muitos que não detestavam, Bobby sabia), mas então Bobby olhou para a caixa de areia e viu um menininho sentado lá, chorando como se seu coração fosse partir, enquanto outro maior, sentado ao seu lado, brincava despreocupadamente com um caminhão, que tomara das mãos de seu coleguinha. E o final do livro, feliz ou não? O quão insano uma coisa dessas poderia parecer a um mês atrás, Bobby não saberia dizer. Nunca em sua vida ele havia lido um livro em que não soubesse se o final havia sido feliz ou não. Mas Ted saberia. Ele perguntaria a Ted.

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Bobby ainda estava no banco, quinze minutos depois, quando Sully entrou no parque e o viu. — Diga lá, seu velho bastardo! — Sully exclamou. — Eu fui até sua casa e sua mãe disse que você estaria aqui, ou talvez no Clube Sterling. Finalmente terminou o livro? — Sim. — Foi bom? — Sim. S-J balançou a cabeça. — Nunca conheci um livro de que eu realmente tenha gostado, mas vou acreditar em você. — Como foi o concerto? Sully deu de ombros. — Nós sopramos até as pessoas irem embora, então acho que foi para nós, de qualquer forma. E adivinhe quem ganhou uma semana no Acampamento Winiwinaia. — o Acampamento Winnie era o acampamento juvenil da Associação Cristã de Moços, no Lago 8

George , que ficava nas florestas ao norte de Storrs. A cada ano, o CAH (Comitê de Atividades de Harwich) fazia um sorteio para presentear alguém com uma semana de férias lá. Bobby sentiu uma pontada de inveja. — Não me conte. — Isso aí, cara. Setenta nomes naquele chapéu, setenta pelo menos, e aquele que o velho careca e bastardo do Sr. Coughlin tirou foi John L. Sullivan, Junior, da Rua Broad, número 93. Minha mãe quase fez xixi nas calças. — Quando você vai? — Duas semanas depois do fim das aulas. Mamãe vai tentar conseguir uma folga de uma semana na padaria ao mesmo tempo, para que ela possa ver Vovó e Vovô em Wisconsin. Ela vai tomar o Grande Cão 9

Cinzento. — A Grande Folga era as férias de verão; O Grande Exibido era Ed Sullivan nas noites de domingo; O Grande Cão Cinzento era, é claro, um ônibus Greyhound. O terminal de ônibus ficava na subida da rua do Império Asher e do Café Colônia. — Não gostaria de ir para Wisconsin com ela? — Bobby perguntou, sentindo um perverso desejo de estragar a felicidade do amigo, enquanto sua sorte era tão pouca. — Mais ou menos, mas prefiro ir acampar e atirar flechas. — ele pôs um braço em volta dos ombros de Bobby. — Só queria que você pudesse vir comigo, seu leitor bastardo. Isso fez Bobby sentir-se desprezível. Ele olhou para baixo, para Senhor das Moscas novamente, e soube que o leria de novo em breve. Talvez no começo de agosto, se as coisas estivessem entediantes (em agosto, elas normalmente ficavam, por mais difícil que fosse acreditar nisso em maio). Então, ele olhou para Sully- John, sorriu, e pôs o braço ao redor dos ombros dele. — Bem, você é um pato sortudo. — ele disse. — Só não me chame de Donald. — concordou Sully-John. Eles ficaram ali, sentados no banco por um tempo, com os braços em volta dos ombros, naquela iminente tempestade de pétalas, observando as crianças menores brincarem. Então, Sully disse que iria para a matinê de sábado no Império, e que era melhor ele correr se não quisesse perder a pré-estreia. — Por que você não vem, Bobborino? Está passando O Escorpião Negro. Uma overdose de monstros. — Não posso, estou falido. — disse Bobby. E era verdade (se você excluísse os sete dólares no pote de Fundos para a Bicicleta), mas mesmo assim ele não estava a fim de ir ao cinema naquele dia, mesmo tendo ouvido um garoto dizer na escola que O Escorpião Negro era realmente muito bom, e que

os escorpiões atravessavam as pessoas com seus ferrões ao matá-las, enquanto também destruíam a Cidade do México. Bobby queria ir para casa e conversar com Ted sobre Senhor das Moscas. — Falido. — Sully disse, tristemente. — É um fato triste, xará. Eu pagaria sua entrada, mas só tenho trinta e cinco centavos. — Não se preocupe. Ei, onde está sua raquete. Sully pareceu mais triste do que nunca. — O elástico arrebentou. Foi para o céu das raquetes, eu acho. Bobby riu. Céu das raquetes, essa era uma ideia bem engraçada. — Vai comprar uma nova? — Duvido. Tem um estojo de mágica na Woolworth que eu quero. Sessenta mágicas diferentes. Eu não me importaria de ser um mágico quando crescer, sabia, Bobby? Viajar por aí, com um parque de diversões ou um circo, usar uma capa preta e uma cartola. Eu tiraria coelhos e outras merdas da cartola. — Provavelmente seria merda de coelho que você tiraria de dentro da sua cartola. — disse Bobby. Sully sorriu. — Mas eu seria um bastardo danado de legal! Eu adoraria ser! Custe o que custar. — ele se levantou. — Tem certeza de que não quer vir junto? Você provavelmente poderia entrar escondido, debaixo do nariz da Godzilla. Centenas de crianças apareciam para os filmes de sábado no Império, que normalmente consistiam em filmes sobre criaturas, oito ou nove desenhos, trailers de filmes que ainda iriam estrear, e as novidades das maratonas de filmes. A Sra. Godlow enlouquecia tentando mantê-los em fila e calados, não entendendo que nas manhãs de sábado você nunca poderia fazer crianças bem comportadas agirem como se estivessem na escola. Ela também era obcecada pela certeza de que dúzias de garotos maiores de doze anos tentavam entrar pagando o preço dos garotos menores; a Sra. G. exigia um certificado de nascimento para as matinês de sábado, como também nas seções duplas de Brigitte Bardot, se pudesse. Faltando autoridade para tal, ela optava por berrar um “EMQUEANOVOCÊNASCEU?” para qualquer criança acima de um metro e sessenta. Com tudo isso acontecendo, às vezes você conseguia passar por ela bem facilmente, e não havia aquele cara que rasgava os ingressos na manhã de sábado. Mas Bobby não queria escorpiões gigantes naquele dia; ele passara a semana anterior com monstros mais realistas, muitos dos quais, provavelmente, eram bastante semelhantes a ele. — Não, acho que vou só passear. — Bobby disse. — Está bem. — Sully-John tirou as pétalas de seus cabelos negros, então olhou solenemente para Bobby. —— Me chame de bastardo legal, Grande Bob. — Sully, você é um bastardo danado de legal. — Sim! — Sully-John pulou, socando o ar e rindo. — Sim, eu sou! Um bastardo legal hoje! Um grande bastardo legal e mágico amanhã! Pou! Bobby se deixou cair no banco, com as pernas abertas e os sapatos para cima, rindo histericamente. S-J era tão engraçado quando se despedia. Sully começou a andar, e então se virou. — Cara, sabe de uma coisa? Eu vi uma dupla de caras estranhos quando cheguei ao parque. — O que tinha de estranho neles? Sully-John balançou a cabeça, parecendo intrigado. — Não sei. — ele disse. — Realmente não sei. Então, ele foi embora, cantando “At the Hop”. Era uma de suas favoritas. Bobby também gostava dela. Danny and the Juniors era uma ótima banda. Bobby abriu o livro que Ted havia lhe dado (parecendo agora bastante usado), e leu as últimas

duas páginas de novo, a parte onde os adultos finalmente apareciam. Ele começou a ponderar novamente... final feliz ou triste? Assim, Sully- John deslizou de sua mente. Ocorreu-lhe mais tarde que se S-J houvesse mencionado que os caras estranhos que havia visto usavam casacos amarelos, as coisas poderiam ter acabado de uma maneira bem diferente.

***

— William Golding escreveu uma coisa interessante sobre este livro, uma que fala sobre sua preocupação com o final... quer outro refresco, Bobby? Bobby balançou a cabeça e disse “não, obrigado”. Ele não gostava tanto do sabor daquele refresco; quase sempre bebia por educação quando estava com Ted. Eles estavam sentados à mesa da cozinha de Ted novamente, o cão da Sra. O’Hara continuava a latir (até onde Bobby sabia, Bowser nunca parava de latir), e Ted ainda fumava um Chesterfield. Bobby foi ver sua mãe, pé ante pé, quando voltou do parque, e a viu tirando um cochilo em sua cama, então ele correu para o terceiro andar para perguntar a Ted sobre o fim de Senhor das Moscas. Ted foi até a geladeira... e então parou, ficando ali, com a mão na maçaneta da geladeira, olhando para o nada. Bobby entenderia mais tarde que este era o primeiro sinal claro de que algo sobre Ted não estava certo; que de fato estava errado, e piorando cada vez mais. — A princípio a pessoa os sente na parte de trás de seus olhos. — disse ele, em tom de conversa. Ele falou claramente; Bobby ouviu cada palavra. — Sente o quê? — A princípio a pessoa os sente na parte de trás de seus olhos. — ainda olhava para o vazio, com uma mão fechada sobre a maçaneta da geladeira, Bobby começou a ficar assustado. Parecia haver algo no ar, algo como pólen, isso fez os cabelinhos dentro de seu nariz formigarem, fez as costas de sua mão coçarem. Então, Ted abriu a porta da geladeira, e se inclinou. — Certeza de que não quer um? — ele perguntou. — Está bom e gelado. — Não.... não, está tudo bem. Ted voltou para a mesa, e Bobby entendeu que ele ou decidira ignorar o que acabara de acontecer, ou não se lembrava. Ele também entendeu que Ted estava bem agora, e isso era o bastante para Bobby. Adultos eram estranhos, isto era fato. Algumas vezes, vocês tinha que ignorar as coisas que eles faziam. — Diga-me o que ele disse sobre o final. O Sr. Golding. — Pelo que consigo me lembrar, foi algo assim: “Os meninos foram resgatados pela tripulação de um Cruzador, e isso é muito bom para eles, mas quem irá resgatar a tripulação?”. Ted derramou refresco no copo para si, esperou a espuma baixar, e então pôs um pouco mais. — Isso ajuda? Bobby ponderou como se isso fosse um enigma. Diabos, era um enigma. — Não. — ele disse, finalmente. — Ainda não entendo. Eles não precisam ser resgatados, a tripulação do navio, eu quero dizer, porque eles não estavam na ilha. E também... — ele pensou nas crianças na caixa de areia, uma delas revirando os olhos enquanto a outra brincava placidamente com o brinquedo roubado. — Os caras no Cruzador são adultos. Adultos não precisam ser resgatados. — Não? — Não. — Nunca? Bobby pensou, subitamente, em sua mãe, e em como ela era quando o assunto era dinheiro. Então, ele se lembrou da noite em que havia acordado e pensado que a ouvira chorar. Ele não respondeu.

— Pense nisso. — Ted disse. Ele tragou seu cigarro fortemente, e, então, soprou uma pluma de fumaça. — Bons livros também geram ponderações posteriores. — Certo. — Senhor das Moscas não se pareceu muito com os Hardy Boys, não é? Bobby teve uma imagem momentânea, e muito clara, de Frank e Joe Hardy correndo pela selva, com lanças caseiras, gritando que iriam matar o porco e enfiar a lança em sua bunda. Ele explodiu em uma gargalhada, e, enquanto Ted se juntava a ele, percebeu que os Hardy Boys, Tom Swift, Rick Brant, e Bomba, o Garoto da Selva, estavam acabados. Senhor das Moscas havia acabado com eles. Ele ficou muito feliz por ter um cartão de biblioteca para adultos. — Não. — ele disse. — Com certeza não parece. — E bons livros não revelam todos os seus segredos de uma vez só. Vai se lembrar disso? — Sim. — Maravilha. Agora me diga, gostaria de ganhar um dólar por semana? A mudança de direção foi tão abrupta, que por um momento Bobby não a seguiu. Então, ele sorriu. — Pode apostar que sim! — imagens voaram descontroladamente em sua mente; Bobby era bom o bastante em matemática para saber que um dólar por semana adicionaria pelo menos quinze pratas até setembro. Some-se isso ao que ele já tinha, mais a razoável colheita de garrafas para reciclagem, e alguns trabalhinhos na rua com o cortador de grama e... puxa, ele poderia já estar pedalando sua Schwinn quando chegasse o Dia do Trabalho. — O que você quer que eu faça? — Temos que ter cuidado com isso. Muito cuidado. — Ted meditou quietamente por tanto tempo, que Bobby começou a temer que ele recomeçasse a falar sobre sensações na parte de trás dos olhos. Mas, quando Ted olhou para cima, não havia sinal daquele estranho vazio em seu olhar. Seus olhos eram penetrantes, se não um pouco pesarosos. — Eu nunca pediria a um amigo meu, especialmente um jovem amigo, para mentir para seus pais, Bobby, mas neste caso eu vou pedir que você se junte a mim em uma pequena ilusão. Sabe o que é isso? — Claro. — Bobby pensou em Sully, e em sua nova ambição de viajar o mundo com um circo, usando uma capa preta e tirando coelhos da cartola. — É o que os mágicos fazem para te enganar. — Não soa muito gentil quando você põe a coisa dessa forma, não é? Bobby balançou a cabeça. Não, tire as lantejoulas e os holofotes, e não soaria nem um pouco gentil. Ted bebeu um pouco e lambeu a espuma de seu lábio superior. — Sua mãe, Bobby. Ela não me detesta, exatamente, eu não acho que seria justo dizer isso... mas eu acho que ela quase me detesta. Você concorda? — Acho que sim. Quando eu disse que você poderia ter um trabalho para mim, ela ficou esquisita. Disse que eu tinha que contar tudo o que você me pedisse para fazer, antes de fazer. Ted Brautigan assentiu. — Eu acho que isso acontece por causa das sacolas de papel que você trouxe quando se mudou para cá. Eu sei que parece loucura, mas é tudo o que posso imaginar. Ele achou que Ted poderia rir, mas ele apenas assentiu novamente. — Talvez isso seja tudo. Em todo caso, Bobby, eu não iria querer que você fosse contra os desejos de sua mãe. Isso pareceu sincero, mas Bobby Garfield não acreditou nisso completamente. Se fosse verdade, não precisaria haver uma ilusão. — Diga a sua mãe que meus olhos ficam cansados facilmente. É a verdade. — e, como se para provar isso, Ted levou sua mão direita até os olhos, e massageou os cantos com o polegar e o indicador. — Diga-lhe que eu gostaria de te contratar para ler o jornal para mim todo dia, e por isso eu te pagaria

um dólar por semana, o que seu amigo Sully chamaria de “mango”, não? Bobby assentiu.... mas um mango por semana para ler como Kennedy estava se saindo nas primárias, e se Floyd Patterson venceria ou não em junho? Ler algumas tirinhas de Blondie ou Dick Tracy por diversão extra? Sua mãe ou o Sr. Biderman no escritório de corretagem poderiam acreditar nisso, mas Bobby não. Ted ainda massageava os olhos, sua mão passando por seu nariz, como se fosse uma aranha. — O quê mais? — Bobby perguntou. Sua voz soou estranhamente monótona, como a voz de sua mãe, quando ele prometia limpar o quarto e ela voltava ao fim do dia para descobrir que o trabalho estava incompleto. — Qual é o trabalho de verdade? — Quero que mantenha os olhos abertos, é só isso. — disse Ted. — Para quê? — Homens baixos em casacos amarelos. — os dedos de Ted ainda trabalhavam no canto de seus olhos. Bobby desejou que ele parasse; havia algo de arrepiante nisso. Ele sentia algo atrás deles, era por isso que continuava a esfregar e massagear daquele jeito? Algo que quebrara sua atenção, que interferira com seu modo geralmente são e bem-ordenado de pensar? 10

— Lo-mein ? — era o que sua mãe pedia nas ocasiões em que iam ao Sing Lu, na Avenida Barnum. Lo-mein em casacos amarelos não fazia sentido, mas isso era tudo em que ele podia pensar. Ted riu, foi uma risada radiante e genuína, que fez Bobby perceber o quão receoso estivera. — Homens baixos. — Ted disse. — Eu digo “baixo” no sentido Dickensiano da palavra, significa que, ao mesmo tempo, parecem estúpidos... e perigosos. Os tipos de homens que defecariam em uma viela, digamos, e passariam uma garrafa de licor em um saco de papel entre si durante o jogo. Do tipo que se apoiariam em postes telefônicos, e assobiariam para as mulheres do outro lado da rua, enquanto esfregariam as nucas com um lenço que nunca estaria limpo. Homens que pensam que chapéus com penas em suas abas é uma coisa sofisticada. Homens que parecem saber todas as respostas certas para todas as perguntas idiotas da vida. Eu não estou sendo terrivelmente claro, estou? Está entendendo alguma coisa disso, está fazendo você perceber algo? Sim, estava. De certo modo, era semelhante a ouvir a descrição do tempo como um velho careca e trapaceiro: uma sensação de que a palavra ou frase estava exatamente certa, embora você não pudesse justificar o porquê. Isso o lembrou de como o Sr. Biderman parecia não fazer a barba, mesmo quando você podia sentir o cheiro doce da loção secando em suas bochechas; do modo como você sabia que o Sr. Biderman enfiaria o dedo no nariz quando estivesse sozinho, ou checaria para ver se havia moedas perdidas ao redor de algum telefone público, enquanto caminhava, sem sequer pensar a respeito. — Eu te entendo. — Bom. Eu nunca, em uma centena de anos, te pediria para falar com uma dessas pessoas, ou mesmo se aproximar delas. Mas eu poderia te pedir para manter os olhos abertos, fazer um circuito no bloco um dia desses — Rua Broad, Parque Commonwealth, Rua Colônia, Avenida Asher, e de volta para cá, no número 149 — e simplesmente ver o que você vê. As coisas estavam começando a se encaixar na mente de Bobby. Em seu aniversário, que também havia sido o primeiro dia de Ted no nº 149, Ted havia lhe perguntado se ele conhecia todos na rua, e se ele poderia reconhecer (Viajantes. Rostos desses desconhecidos) estranhos, se algum aparecesse. Quase três semanas após Carol Gerber fazer seu comentário sobre como às vezes Ted parecia estar fugindo de algo. — Quantos desses caras estão lá fora? — ele perguntou. — Três, cinco, talvez mais agora. — Ted deu de ombros. — Você os reconhecerá por seus longos

casacos amarelos, e pela pele cor de azeitona... embora a pele escura seja apenas um disfarce. — O quê... quer dizer como um bronzeado, ou coisa assim? — Suponho que sim. Se estiverem dirigindo, você os reconhecerá por seus carros. — Qual marca? Qual modelo? — Bobby se sentiu como Barren McGavin, interpretando um detetive durão no seriado Mike Hammer, e aconselhou a si mesmo a não se deixar levar. Isto não era televisão. Mas ainda assim era excitante. Ted balançou a cabeça. — Eu não tenho ideia. Mas você os reconhecerá assim mesmo, porque seus carros serão como seus casacos amarelos e sapatos pontudos, e como o gel perfumado que usam para pentear seus cabelos para trás: gritante e vulgar. — Mau. — disse Bobby, e não era uma pergunta. — Mau. — Ted repetiu, assentindo enfaticamente. Ele sorveu o refresco, olhou em direção ao som dos eternos latidos de Bowser... e permaneceu assim por muito tempo, como um brinquedo com uma mola quebrada, ou uma máquina sem combustível. — Eles me sentem. — ele disse. — E eu os sinto também. Ah, mas que mundo. — O que eles querem? Ted se virou para ele, parecendo assustado. Era como houvesse se esquecido de que Bobby estava ali... ou esquecido por um momento quem Bobby era. Então ele sorriu, inclinou-se, e pegou na mão de Bobby. Era grande, quente, e confortante; a mão de um homem. Ao senti-la, suas opiniões hesitantes desapareceram. — Certa coisa que por acaso eu tenho. — disse Ted. — Vamos deixar assim. — Eles não são policiais, são? Ou caras do governo? Ou... — Está perguntando se sou um dos dez mais procurados do FBI, ou um agente comunista, como naquele seriado I Led Three Lives? Um cara mau? — Eu sei que você não é um cara mau. — Bobby disse, mas o rubor crescendo em suas bochechas dizia o contrário. Não que o que ele pensasse mudasse muita coisa. Você poderia gostar ou até amar um cara mau; até Hitler tinha uma mãe, sua própria mãe gostava de dizer. — Eu não sou um cara mau. Nunca roubei um banco ou segredo militar. Gastei a maior parte de minha vida lendo livros, dando calote na hora de pagar as multas, e se houvesse uma Polícia da Biblioteca, temo que estivesse atrás de mim, mas não sou um cara mau como aqueles que você vê na televisão. — Como os homens baixos em casacos amarelos. Ted assentiu. — E põe maus nisso. E, como eu disse, perigosos. — Você já os viu? — Muitas vezes, mas não aqui. E as chances são de noventa e nove em cem de que você não os veja. Tudo o que eu peço é que fique atento a eles. Poderia fazer isso? — Sim. — Bobby? Há algum problema? — Não. — mas alguma coisa o deixou incomodado por um momento, não era uma conexão, apenas a sensação breve de estar indo em direção a uma. — Tem certeza? — Aham. — Está bem. Agora, aqui vai uma pergunta: com a consciência limpa, ou ao menos com a consciência neutra, você poderia não mencionar esta parte de seu trabalho a sua mãe?

— Sim. — disse Bobby imediatamente, embora entendesse que se fizesse tal coisa, isso representaria uma grande mudança em sua vida... e seria arriscado. Ele estava com mais do que um medinho de sua mãe, e este medo era parcialmente causado pela fúria que ela poderia ter, e por quanto tempo poderia ficar zangada. A maior parte dele vinha da sensação infeliz se ser amado tão pouco, e precisar proteger o amor que restava. Mas ele gostava de Ted... ele tinha gostado da sensação da mão de Ted sobre a sua, a aspereza quente da grande palma, o toque dos dedos, tão grossos quanto os nós nas juntas. E isto não seria mentir, não de verdade. Seria omitir. Se você quer aprender a mentir, Bobby-O, suponho que omitir coisas seja um bom lugar para se começar como qualquer outro, uma voz interior sussurrou. Bobby a ignorou. — Sim. — ele disse. — Certeza. Ted... esses caras são perigosos apenas para você, ou para qualquer um? — ele estava pensando em sua mãe, mas também pensava em si mesmo. — Para mim eles poderiam ser muito perigosos, sim. Para as outras pessoas, a maioria das pessoas, provavelmente não. Quer saber de uma coisa engraçada? — Claro. — A maioria das pessoas não os vê, a não ser que eles estejam muito, muito próximos. É quase como se tivessem o poder de cegar a mente dos homens, como O Sombra naquele velho programa de rádio. — Quer dizer que eles são... bem... — ele supôs que sobrenatural fosse a palavra que não estava conseguindo dizer. — Não, não, não chega a tanto. — ele disse, expulsando sua pergunta antes que pudesse ser mais bem articulada. Naquela noite, deitado em sua cama, mais insone do que o normal, Bobby achou que Ted quase teve medo de que aquilo fosse dito em voz alta. — Há várias pessoas, umas bem ordinárias, que não vemos. A garçonete que caminha de volta para casa depois do trabalho, com a cabeça baixa e com seus sapatos do restaurante em uma sacola de papel. Pessoas velhas que saem para caminhadas vespertinas no parque. Meninas com cabelos enrolados e rádios tocando as músicas mais pedidas. Mas as crianças os veem. As crianças veem todos eles. E Bobby, você ainda é uma criança. — Estes caras não parecem ser difíceis de notar. — Os casacos, você quer dizer. Os sapatos. Os carros gritantes. Mas estas são exatamente as coisas que fazem as pessoas, a maioria delas, na verdade, ignorá-los. Elas erguem pequenos bloqueios entre seus olhos e cérebros. Em todo caso, eu não vou arriscar você. Se você vir os homens em casacos amarelos, não se aproxime deles. Não fale com eles, mesmo que eles falem com você. Eu não poderia imaginar o porquê de fazerem isso, eu não acredito que eles te veriam, como a maioria das pessoas que não os veem, mas há várias coisas sobre eles das quais eu não tenho conhecimento. Agora diga o que eu acabei de dizer. Repita desde o começo. É importante. — Não se aproxime deles, não fale com eles. — Mesmo que eles falem com você. — disse, impacientemente. — Mesmo que eles falem comigo, certo. E o que eu devo fazer? — Voltar pra cá, e me contar que eles estão aqui e onde você os viu. Ande até ter certeza de que eles estão fora de vista, então corra. Corra como o vento. Corra como se o inferno estivesse atrás de você. — E o que você fará? — Bobby perguntou, mas é claro que ele sabia. Talvez não fosse tão inteligente quanto Carol, mas ele não era um completo idiota. — Você irá embora, não é? Ted Brautigan deu de ombros e terminou seu copo de refresco sem olhar nos olhos de Bobby. — Eu vou decidir quando a hora chegar. Se chegar. Se eu tiver sorte, as sensações que tive durante

os últimos dias, meu sentido destes homens, irão desaparecer. — Já aconteceu antes? — Sim, aconteceu. Agora, por que não falamos de coisas mais agradáveis? Pela meia-hora seguinte, eles discutiram beisebol, e depois música (Bobby ficou surpreso em descobrir que Ted não só conhecia a música de Elvis Presley, como também realmente gostava de algumas delas), e, então, sobre os medos e esperanças de Bobby a respeito da sétima série, que começaria em setembro. Tudo isto era bem agradável, mas por trás de cada assunto, Bobby sentiu os homens baixos à espreita. Os homens baixos estavam aqui no quarto de Ted no terceiro andar, como sombras peculiares que não se podem realmente ver. Não foi até Bobby estar quase indo embora que Ted tocou no assunto novamente. — Há coisas que você deve procurar. — ele disse. — Sinais de que meus... meus velhos amigos estão por perto. — Quais? — Em seus passeios pela cidade, mantenha os olhos abertos para cartazes de animais perdidos, nas paredes, vitrines de lojas, ou pregados em postes telefônicos em ruas residenciais. “Perdido — um gato malhado e cinza, com orelhas pretas, peito branco, e cauda torta. Ligue para IRoquois, 7-7661”. “Perdido — uma cadelinha mestiça, meio beagle, responde pelo nome de Trixie, adora crianças, nós a queremos de volta em casa. Ligue para IRoquois, 7-0984, ou traga-a para o número 77 da Rua Peabody”. Esse tipo de coisa. — O que está dizendo? Caramba, quer dizer que eles matam os animais das pessoas? Você acha que... — Eu acho que a maioria desses animais nem existem. — disse Ted. Ele soava cansado e triste. — Mesmo quando há uma pequena fotografia pobremente reproduzida, acho que é pura ficção. Eu acho que tais cartazes são uma forma de comunicação, embora eu não saiba por que os homens que os colocam simplesmente não vão até o Café Colônia, e fazem suas comunicações lá, juntamente com uma torrada e purê de batata. Aonde sua mãe faz compras, Bobby? — Mercearia Total. Do lado do escritório de corretagem do Sr. Biderman. — E você vai junto com ela? — Às vezes. — quando era mais jovem, ele ia para lá toda sexta-feira, onde ficaria lendo o Guia da TV de uma estante de revistas até que ela aparecesse, adorando as tardes das sextas-feiras, porque era o começo da semana, porque a mãe o deixava empurrar o carrinho, e ele sempre fingia que estava numa corrida, e porque ele a amava. Mas ele não contou a Ted nada disso. Era uma história antiga. Diabos, ele tinha oito anos na época. — Olhe no quadro de avisos que todos os caixas de supermercado colocam. — Ted disse. — Nele, você verá um número de notinhas escritas à mão que dirão coisas como CARRO À VENDA PELO PROPRIETÁRIO. Procure por qualquer nota assim, pregada de cabeça para baixo. Há outro supermercado na cidade? — Tem o A&P, descendo a travessa ferroviária. Minha mãe não vai lá. Ela diz que o açougueiro sempre fica olhando estranho para ela. — Pode checar o quadro de avisos de lá também? — Claro. — Muito bom. Agora, sabe a amarelinha que as crianças fazem na calçada? Bobby assentiu. — Procure pelos que têm estrelas ou luas, ou ambas, desenhadas próximas deles, normalmente com giz de outra cor. Procure por fios de pipas pendurados em linhas telefônicas. Não as pipas, apenas seus

fios. E... Ted fez uma pausa, carrancudo, pensativo. Enquanto tirava um Chesterfield do pacotinho na mesa, e o acendia, Bobby teve um pensamento bastante claro e razoável, e sem o menor traço de medo: Ele é maluco, sabia? Maluco de pedra. Sim, é claro, como poderia duvidar disto? Ele apenas esperava que Ted pudesse ser tão cuidadoso quanto doido. Porque se sua mãe ouvisse Ted falando coisas deste tipo, ela nunca mais deixaria Bobby se aproximar dele. Na verdade, ela provavelmente chamaria os caras com as camisas de força... ou pediria que o bom e velho Don Biderman o fizesse por ela. — Sabe o relógio na praça da cidade, Bobby? — Sim, claro. — Pode ser que ele comece a badalar nas horas erradas, ou no meio delas. Procure também por reportagens em jornais sobre pequenos atos de vandalismo em igrejas. Meus amigos detestam igrejas, mas nunca fazem nada tão ultrajante; eles gostam de se manter sob o radar. Há outros sinais de que estão por perto, mas não há para quê sobrecarregá-lo. Acredito que os cartazes são pistas mais seguras. — “Se você vir Ginger, por favor, traga-a para casa”. — Exatamente isso que... — Bobby? — era a voz de sua mãe, seguida do roçado de seus tênis de sábado. — Bobby, você está aqui em cima?

3

O Poder de uma Mãe. Bobby Cumpre seu Dever. “Ele Está te Tocando?”. O Último Dia Letivo.

BOBBY E TED TROCARAM OLHARES DE CULPA. Ambos estavam sentados em seus respectivos lados da mesa, como se houvessem feito alguma coisa louca, em vez de apenas falarem sobre coisas loucas. Ela vai perceber que estamos tramando algo, Bobby pensou, com medo. Está por toda minha cara. — Não. — Ted lhe disse. — Não está. Esse é o poder dela sobre você: que você acredite nisso. É o poder de uma mãe. Bobby olhou para ele, atônito. Você leu a minha mente? Você acabou de ler a minha mente? Agora sua mãe estava quase no corredor do terceiro andar e não havia tempo para resposta, mesmo se Ted quisesse dar uma. Mas não havia mostras em seu rosto de que ele teria respondido, mesmo se houvesse tempo. E, então, Bobby começou a duvidar do que havia ouvido. Então, sua mãe abriu a porta, olhando de seu filho para Ted, e de volta para seu filho, seus olhos eram avaliadores. — Então aqui está você, afinal. — ela disse. — Meu Deus, Bobby, você não me ouviu te chamar? — Você chegou aqui antes que eu tivesse a chance de dizer qualquer coisa, mãe. Ela bufou. Ela deu um pequeno e inexpressivo sorriso: seu automático sorriso social. Seus olhos foram e voltaram entre eles, foram e voltaram, procurando por algo fora do lugar, algo que ela não gostasse, algo errado. — Eu não ouvi você chegar. — Você estava adormecida na cama. — Como está passando hoje, Sra. Garfield? — Ted perguntou. — Bem como sempre. Seus olhos continuaram indo e vindo. Bobby não tinha ideia do que ela procurava, mas aquela expressão de culpa devia ter sumido de sua cara. Se ela a houvesse visto, ele já saberia; ele saberia que ela sabia. — Gostaria de uma garrafa de refresco? — Ted perguntou. — Não é muito, mas está gelada. — Isso seria bom. — Liz disse. — Obrigada. — ela veio até eles e sentou-se ao lado de Bobby à mesa da cozinha. Ela o afagou distraidamente na perna, observando Ted, enquanto ele abria sua pequena geladeira e retirava um refresco. — Ainda não está quente aqui, Sr. Brattigan, mas lhe garanto que ficará em um mês. É melhor arranjar um ventilador. — É uma boa ideia. — Ted derramou o líquido em um copo de vidro limpo, então esperou em frente à geladeira, segurando o copo contra a luz, esperando a espuma baixar. Para Bobby, ele parecia um cientista num comercial de TV, um daqueles caras obcecado com Marca X e Marca Y, e com antiácidos Rol-aids que consumiam cinquenta e sente vezes mais o ácido estomacal em excesso, incrível, mas verdade. — Não preciso de um copo cheio, assim está bem. — ela disse, um pouco impaciente. Ted lhe trouxe o copo e ela o ergueu. — Aqui vai. — ela tomou um gole e fez uma careta como se tivesse bebido cachaça, em vez de refresco. Então, observou por cima do copo enquanto Ted sentava, tirava as cinzas de

seu cigarro, e enfiava-o de novo no canto de sua boca. — Vocês estão se comportando que nem gatunos. — ela observou. — Sentados aqui, à mesa da cozinha, bebendo refresco. Estranho, penso eu. Sobre o que conversaram hoje? — Sobre o livro que o Sr. Brautigan me deu. — Bobby disse. Sua voz soou natural e calma, uma voz sem segredos escondidos. — Senhor das Moscas. Eu não pude entender se o final era triste ou feliz, então eu pensei em vir aqui para perguntá- lo. — Mesmo? E o que ele disse? — Que eram ambos. Então me disse para pensar a respeito. Liz riu sem muito humor. — Eu leio mistérios, Sr. Brattigan, e salvo meus pensamentos para a vida real. Mas é claro que ainda não estou aposentada. — Não. — Ted disse. — Você obviamente está no apogeu da vida. Ela lhe lançou aquele olhar de “elogiar não vai te levar a lugar algum”. Bobby o conhecia bem. — Eu também ofereci a Bobby um pequeno trabalho. — Ted contou. — Ele concordou em aceitálo... com sua permissão, é claro. As sobrancelhas dela franziram à menção de “trabalho”, e suavizaram à menção de “permissão”. Ela voltou-se para Bobby e lhe fez um breve carinho em seus cabelos ruivos, um gesto tão incomum para Bobby que seus olhos se esbugalharam um pouco. Os olhos dela nunca abandonaram Ted enquanto o fazia. Ela não só não confiava no homem, Bobby percebeu, como provavelmente também nunca iria confiar. — Que tipo de trabalho você tem em mente? — Ele quer que eu... — Silêncio. — ela disse, e ainda mantinha seus olhos espreitando por sobre o copo, nunca perdendo Ted de vista. — Eu gostaria que ele lesse o jornal para mim, talvez às tardes. — Ted disse, e explicou como seus olhos já não eram mais os mesmos, e como o problema parecia piorar todos os dias quando usava uma lupa. Mas ele gostava de estar atualizado— estes eram tempos muito interessantes, a Sra. Garfield não achava?—e ele gostaria de estar atualizado com as colunas também, Stewart Alsop, Walter Winchell, e coisas do tipo. Winchell era um fofoqueiro, é claro, mas um fofoqueiro interessante, a Sra. Garfield não concordava? Bobby ouviu, ficando cada vez mais tenso, mesmo sabendo pelo rosto de sua mãe e por sua postura, e mesmo pelo jeito como bebia o refresco, que ela acreditava no que Ted dizia. Até aí tudo bem, mas e se Ted apagasse de novo? Apagasse e começasse a tagarelar sobre homens baixos em casacos amarelos, ou fios de pipas pendurados em postes telefônicos, o tempo todo olhando para o vazio? Mas nada disso aconteceu. Ted terminou dizendo que gostava de saber como os Dodgers estavam indo (Maury Wills, especialmente), mesmo após terem ido para Los Angeles. Ele disse isto como alguém que está determinado a falar a verdade, mesmo que ela seja um pouco embaraçosa. Bobby achou que havia sido um belo toque. — Acho que está tudo bem. — sua mãe disse (quase de má vontade, Bobby pensou). — De fato, parece ser bom. Gostaria de poder ter um trabalho bom assim. — Aposto que você é excelente em seu emprego, Sra. Garfield. Ela lhe lançou aquele olhar seco de “elogios não funcionarão”, outra vez. — Vai ter que lhe pagar um extra se quiser que ele faça as palavras cruzadas para você. — ela disse, se levantando, e, embora Bobby não houvesse entendido a observação, ele ficou atônito pela crueldade que sentira nela, como um pedaço de vidro dentro de um marshmallow. Era como se ela

quisesse fazer piada da visão problemática de Ted e de seu intelecto, ao mesmo tempo; como se ela quisesse machucá-lo por ser bom com seu filho. Bobby continuava envergonhado por enganá-la, e aterrorizado com o fato de que ela poderia descobrir, mas agora ele estava satisfeito... quase radiante. Ela merecia. — Ele é bom em palavras cruzadas, meu Bobby. Ted sorriu. — Tenho certeza que sim. — Vamos descer, Bob. É hora de dar descanso ao Sr. Brattigan. — Mas... — Eu acho que gostaria de me deitar um pouco, Bobby. Estou com um pouco de dor de cabeça. Fico satisfeito que tenha gostado de Senhor das Moscas. Você pode começar seu trabalho amanhã, se preferir, com a página principal do jornal de domingo. Já vou lhe avisando que vai ser uma prova de fogo. — Está bem. Mamãe já estava do lado de fora do quarto de Ted. Bobby estava vindo atrás dela. Então, ela se virou e olhou para Ted por cima da cabeça de Bobby. — Por que não vão para a varanda. — ela perguntou. — O ar fresco vai fazer bem para ambos. Melhor do que este quarto abafado. E eu também poderei ouvi-los da sala de estar. Bobby achou que alguma mensagem estava sendo passada entre eles. Não através de telepatia, exatamente... só que era telepatia, de certo modo. Do tipo que só os adultos tinham. — É uma boa ideia. — Ted disse. — A varada seria adorável. Boa tarde, Bobby. Boa tarde, Sra. Garfield. Bobby chegou perto de dizer ‘té mais, Ted, e trocou por “Até logo, Sr. Brautigan” no último segundo. Ele seguiu para as escadas, sorrindo vagamente, com uma transpirante sensação de alguém que acaba de evitar um horrível acidente. Sua mãe hesitou. — Há quanto tempo está aposentado? Se é que posso perguntar. Bobby havia quase decidido que ela não errava o nome de Ted de propósito; agora ele pensava de outro modo. Ela fazia de propósito. Claro que fazia. — Três anos. — ele esmagou o cigarro no cinzeiro de latão lotado, e imediatamente acendeu outro. — O que te faria ter... sessenta e oito? — Sessenta e seis, para falar a verdade. — sua voz continuou suave e aberta, mas Bobby tinha uma noção de que ele não se importava com tais perguntas. — Fui premiado com a aposentadoria com totais benefícios há dois anos. Por razões médicas. Não pergunte o que ele tem de errado, mãe, Bobby gemeu em sua própria cabeça. Não se atreva. Ela não fez isso. Ao invés, perguntou o que ele havia feito em Hartford. — Contabilidade. Eu costumava trabalhar como fiscal de contas públicas. — Bobby e eu achávamos que tinha algo a ver com educação. Contabilidade! Parece algo de muita responsabilidade. Ted sorriu. Bobby achou que havia algo de horrível nisso. — Em vinte anos eu usei três calculadoras. Se isso é responsabilidade, Sra. Garfield, ora, é — eu 11

era responsável. Sweeneypanzé estica os joelhos ; a datilógrafa põe um disco na vitrola com uma mão 12

automática . — Eu não entendi. — É só meu modo de dizer que trabalhei durante anos num emprego que nunca pareceu significar

muito. — Poderia ter significado se você tivesse uma criança para alimentar, abrigar, e criar. — ela olhou para ele com seu queixo levemente empinado, o olhar significava que se Ted quisesse discutir sobre isso, ela estava pronta. E ela o faria. Ted, Bobby ficou aliviado em descobrir, não queria brigar. — Imagino que a senhora esteja certa, Sra. Garfield. Inteiramente. Ela manteve o queixo empinado por mais um momento, como se perguntasse se ele tinha certeza, dando-lhe tempo para mudar de ideia. Quando Ted não disse mais nada, ela sorriu. Era seu sorriso da vitória. Bobby a amava, mas subitamente também se sentiu cansado dela. Cansado de seus olhares, de seus ditados, de suas ideias inflexíveis. — Obrigada pela bebida, Sr. Brattigan. Estava muito gostosa. — e com isso, ela levou o filho até as escadas. Quando desceram até o segundo andar, ela largou sua mão e foi pelo resto do caminho na frente. Bobby pensou que eles iriam discutir seu novo trabalho até a hora do jantar, mas não aconteceu. Sua mãe parecia longe, seus olhos estavam distantes. Ele teve que pedir duas vezes por um pedaço de almôndega, e mais tarde, naquela noite, quando o telefone tocou, ela pulou do sofá de onde estavam vendo TV, e o atendeu. Ela voou para ele como Ricky Nelson fez, quando o seu tocou em Ozzie & Harriet. Ela ficou ouvindo, disse alguma coisa, então retornou para o sofá, e lá se sentou. — Quem era? — Bobby perguntou. — Ligação errada. — disse Liz.

***

Naquele ano de sua vida, Bobby Garfield ainda esperava pelo sono com a confiança acolhedora de uma criança; atrás dele, as pernas estavam espalhadas até os cantos da cama, as mãos estavam enfiadas sob o frescor do travesseiro, de modo que seus cotovelos ficaram soterrados. Na noite seguinte em que Ted falou com ele sobre os homens baixos (e não se esqueça dos carros deles, seus grandes carros com pinturas extravagantes), Bobby ficou deitado em tal posição com o lençol até a cintura. O luar recaiu em seu pequeno peito de criança, repartido em quatro pelas sombras que fazia a travessa da janela. Se houvesse pensado nisto (e não havia), ele teria esperado que os homens baixos de Ted se tornassem mais reais assim que estivesse sozinho no escuro, com apenas o tique-taque de seu relógio e os murmúrios do noticiário televisivo da madrugada para lhe fazer companhia. Isso sempre acontecia com ele—era fácil rir do Frankenstein na Seção Choque, fingir que estava para desmaiar e gritar “Ohh, Frankie!”, quando o monstro aparecesse, principalmente se Sully-John estivesse cochilando. Mas no escuro, depois que S-J começasse a roncar (pior, se Bobby estivesse sozinho), a criatura do Dr. Frankenstein parecia bem... não real, mas... possível. Essa sensação de possibilidade não se aplicou aos homens baixos de Ted. Se muito, a ideia de que pessoas pudessem se comunicar umas com as outras através de cartazes de animais perdidos parecia mais louca no escuro. Mas não uma loucura perigosa. De qualquer forma, Bobby não achava que Ted estivesse realmente louco; só era um pouquinho esperto demais para seu próprio bem, especialmente porque ele tinha tantas poucas coisas com que ocupar o tempo. Ted era um pouco... bem... puxa, um pouco o quê? Bobby não conseguia pensar na palavra correta. Se a palavra excêntrico houvesse passado pela sua cabeça, ele a teria agarrado com prazer e alívio. Mas... parecia que ele estava lendo minha mente. O que mais se poderia dizer sobre isso? Oh, ele havia se enganado, era tudo, enganou-se com o que pensou ouvir. Ou talvez Ted houvesse

lido sua mente, lido com aquela percepção extrassensorial essencialmente desinteressante dos adultos, descascando a culpa de sua cara como decalque úmido de um pedaço de vidro. Deus sabe que sua mãe sempre podia fazer isso... ou pelo menos até ontem. Mas... Mas nada. Ted era um cara legal e sabia muito sobre livros, mas ele era leitor de mentes tanto quanto Sully-John Sullivan era um mágico, ou seria algum dia. — É tudo ilusão. — Bobby murmurou. Ele tirou as mãos de debaixo do travesseiro, as cruzou na altura dos punhos, e as abanou. A sombra de um pombo voou através do luar em seu peito. Bobby sorriu, fechou os olhos, e foi dormir.

***

Na manhã seguinte, ele sentou-se na varanda e leu vários artigos da Tribuna de Harwich em voz alta. Ted encarrapitou-se no banco de madeira que lá havia, escutando em silêncio e fumando Chesterfields. Atrás dele e à sua esquerda, as cortinas se agitavam para fora das janelas abertas da sala frontal dos Garfield. Bobby imaginou sua mãe sentada em uma cadeira, onde era mais bem iluminado, com uma cesta de costura ao seu lado, escutando, e abainhando saias (bainhas estavam novamente saindo de moda, ela lhe contara uma ou duas semanas antes; num ano costure- as, arranque os pontos na primavera seguinte, e tire-as de novo, tudo porque um bando de almofadinhas em Nova York e Londres assim diziam, e por que importava, ela não saberia dizer). Bobby não fazia ideia se ela estava realmente lá ou não, as janelas abertas e as cortinas ao vento não significavam nada, mas ele imaginou mesmo assim. Quando fosse um pouco mais velho, ocorrer-lhe-ia que ele sempre a imaginara lá — do outro lado da porta, naquela parte dos bancos onde as sombras era muito espessas para se ver devidamente, na escuridão do topo das escadas, ele sempre imaginava que ela estaria lá. Os artigos esportivos que ele lia eram interessantes (Maury Wills estava arrebentando), mas não gostou tanto assim dos informativos, as colunas de opiniões eram chatas e incompreensíveis, cheias de frases como “responsabilidade fiscal” e “indicadores econômicos de uma natureza recessiva”. Mesmo assim, Bobby não se importava em lê-las. Ele estava cumprindo seu trabalho, afinal de contas, ganhando dinheiro, e um bocado de empregos era chato, ou ao menos por algum tempo. “Você tem que trabalhar para comprar seus cereais”, sua mãe lhe dissera, após ter ficado até tarde no escritório do Sr. Biderman. Bobby estava orgulhoso só de poder fazer sua boca soltar uma frase como “indicadores econômicos de uma natureza recessiva”. Além disso, o outro trabalho — o trabalho secreto — surgira da ideia louca de Ted de que havia alguns homens em seu encalço, e Bobby teria se sentido estranho ao receber dinheiro por cumprir só esse trabalho; seria com se, de alguma forma, ele estivesse fazendo Ted de bobo, mesmo que isso houvesse sido ideia do próprio Ted, pra começar. Isso ainda era parte de seu trabalho, fosse loucura ou não, e ele começou a cumpri-lo na manhã de domingo. Bobby andou pelo bloco enquanto sua mãe dormia, procurando por homens baixos em casacos amarelos, ou sinais deles. Ele viu um número de coisas interessantes: na Rua Colônia, uma mulher discutia com seu marido sobre algo, os dois estavam cara a cara, como Gorgeous George e Haystacks 13

Calhoun antes do começo de uma luta explosiva; uma criança na Avenida Asher jogava pedras; adolescentes com seus lábios grudados um no outro do lado de fora da loja de variedades do Spicer, na esquina da Commonwealth com a Broad; um furgão com o interessante slogan “GOSTOSO PARA SUA BARRIGUINHA”, escrito em uma das laterais—mas ele não viu casacos amarelos ou anúncios de animais perdidos em postes telefônicos; nem um único fio de pipa preso em um único fio telefônico. Ele parou na loja do Spicer para comprar uma bala, e espiou o quadro de avisos, que era dominado

por fotos das candidatas a Miss Rhenigold deste ano. Ele viu dois cartões anunciando carros para venda, mas nenhum deles estava de cabeça para baixo. Havia outro que dizia “VENDE-SE PISCINA DE QUINTAL, BEM PRESERVADA, SUAS CRIANÇAS VÃO ADORAR”, e esta estava entortada, mas Bobby achou que se estava apenas entortada, então não contava. Na Avenida Asher, ele viu um grande Buick estacionado ao lado do hidrante, sua cor era verdegarrafa, e Bobby não achou que ele se qualificaria como gritante e vulgar, à exceção das vigias nas laterais do capô e do gradeado, que pareciam formar uma boca cromada e zombeteira de bagre. Na segunda-feira, ele continuou a procurar por homens baixos em seu caminho para a escola. Ele não viu nada... mas Carol Gerber, que estava andando com ele e S-J, o percebeu. Sua mãe tinha razão, Carol era muito esperta. — Tem algum agente comunista atrás de nós? — ela perguntou. — Como é? — Você não para de olhar pra todo canto. Até atrás de você. Por um momento, Bobby pensou em contar sobre o trabalho que Ted havia lhe dado, mas acabou decidindo que seria má ideia. Poderia ser uma boa se ele acreditasse que realmente havia algo a se procurar, haveria três pares de olhos em vez de um, incluindo os afiadíssimos de Carol, mas ele não o fez. Carol e Sully-John sabiam que seu trabalho era ler o jornal para Ted todo dia, e era melhor assim. Era o bastante. Se contasse sobre os homens baixos, poderia parecer, de algum modo, que ele estava fazendo piada sobre o assunto. Uma traição. — Comunistas? — Sully perguntou, olhando em volta. — É, eu os vejo, eu os vejo! — ele fez novamente aquele barulho esquisito com a boca (era seu favorito). Então cambaleou, largou sua pistola invisível, e apertou o peito. — Me pegaram! Atingiram-me feio! Vão sem mim! Diga a Rose que eu a amo! — Vou dizer isso pra minha tia gorda. — Carol disse, dando-lhe uma cotovelada. — Estou vigiando os garotos do St. Gabe, é só. — Bobby disse. Isto era plausível; os garotos do St. Gabe viviam pegando no pé das crianças do primário enquanto iam para a escola, assustando-os com a bicicleta, gritando que os meninos eram maricas, que as meninas eram “saidinhas”... o que Bobby tinha certeza que significavam meninas que beijavam de língua e deixavam que tocassem em seus peitos. — Não, os palermas só aparecem mais tarde. — disse Sully-John. — No momento, eles estão todos em casa, colocando suas correntes e penteando os cabelos para trás como Bobby Rydell. — Não xingue. — Carol disse, e deu-lhe uma nova cotovelada. Sully-John pareceu ficar magoado. — Quem xingou? Eu não xinguei. — Sim, você xingou. — Eu não, Carol. — Você sim. — Não senhora, eu não. — Sim senhor, você xingou, você disse “palerma”. — Isso não é palavrão! Palerma significa bobo! — S-J olhou para Bobby como se pedisse ajuda, mas Bobby estava olhando para a Avenida Asher, onde um Cadillac cruzava lentamente. Era grande, e ele supôs que fosse um pouco brilhante, mas não era como qualquer outro Cadillac? Este era pintado de marrom claro conservativo, e não pareceu mau para ele. Além disso, a pessoa atrás do volante era uma mulher. — É? Mostre-me uma foto de um palerma na enciclopédia e talvez eu acredite em você.

— Eu deveria te dar um empurrão. — Sully disse, carinhosamente. — Te mostrar quem é o chefe. Eu Tarzan, você Jane. — Eu Carol, você Cabeça-Dura. Pega. — Carol passou três livros, aritmética, Aventuras na Leitura, e Uma Casa na Pradaria, para as mãos de S-J. — Carregue meus livros porque você xingou. Sully-John pareceu mais magoado do que nunca. — Por que eu deveria carregar seus livros estúpidos mesmo que tivesse xingado, o que eu não fiz? — É uma penitência. — Carol disse. — O que bulhufas é uma penitência? — Compensar por alguma coisa que você fez de errado. Se você xingar ou mentir, você tem que cumprir uma penitência. Um dos meninos do St. Gabe me disse isso. Willie é o nome dele. — Você não devia falar com eles. — Bobby disse. — Eles podem ser malvados. — ele sabia disso por experiência própria. Logo após as férias de Natal terminarem, três meninos do St. Gabe o perseguiram Rua Broad abaixo, ameaçando que iriam bater nele porque ele havia “olhado torto” para eles. Eles realmente o teriam feito, Bobby achou, se o líder não houvesse escorregado na lama de neve derretida e caído de joelhos. Os outros tropeçaram nele, dando a Bobby tempo o suficiente para voar pela grande porta do nº 149 e trancá-la. Os meninos do St. Gabe ficaram vigiando do lado de fora por um tempo, então se foram, após prometerem a Bobby que o “veriam mais tarde”. — Eles não são todos assim, alguns deles são legais. — Carol disse. Ela olhou para Sully-John, que carregava seus livros, e escondeu uma risadinha com uma das mãos. Você poderia conseguir que Sully-John fizesse qualquer coisa se falasse rápido e soasse seguro de si. Seria mais gentil se Bobby carregasse os livros para ela, mas não adiantaria nada se ele não pedisse. Talvez algum dia ele pedisse; ela era otimista. Por ora, era bom andar entre eles numa manhã ensolarada. Ela olhou de relance para Bobby, que olhava para uma amarelinha desenhada na calçada. Ele era tão fofinho, e nem mesmo sabia disso. De certa forma, essa era a coisa mais fofa de todas.

***

A última semana de aula passou como sempre passou, com uma lentidão enlouquecedora. Naqueles primeiros dias de junho, Bobby achou que o cheiro de cola na biblioteca estava quase forte o bastante para enjoar uma minhoca, e as aulas de geografia pareciam durar dez mil anos. Quem se importava com o quanto de tinta havia no Paraguai? Na hora do recreio, Carol contou sobre como ela iria passar uma semana de julho na fazenda de seus tios, Cora e Ray, na Pensilvânia; S-J falou da semana no acampamento que havia ganhado, e como ele iria atirar flechas em alvos e passear de canoa todos os dias em que estivesse lá. Bobby, por sua vez, contou a eles sobre o grande Maury Wills, que poderia atingir um recorde por roubar bases que nunca seria quebrado enquanto vivessem. Sua mãe estava cada vez mais preocupada, pulando quando o telefone tocava e correndo para ele, ficando acordada até o noticiário da madrugada (e, às vezes, Bobby suspeitava, até que o filme do Corujão terminasse), e apenas beliscando a comida. Às vezes ela tinha longas e intensas conversas no telefone, com as costas curvadas e a voz baixa (como se Bobby quisesse bisbilhotar suas conversas). Às vezes ela ia até o telefone, começava a discar um número, e, então, o colocava de volta no gancho e voltava para o sofá. Em uma destas ocasiões, Bobby perguntou-lhe se ela havia se esquecido do número para qual estava tentando ligar. — Parece que eu tenho me esquecido de muitas coisas. — ela murmurou. — Deixe de ser

abelhudo, Bobby-O. Ele teria percebido mais e se preocupado mais ainda—ela estava emagrecendo, e tinha novamente voltado ao hábito do cigarro, depois de parar por dois anos— se não tivesse várias coisas para ocupar sua própria mente e tempo. A melhor coisa era o cartão de biblioteca para adultos, que parecia um presente melhor, um presente mais inspirado, a cada vez que ele usava. Bobby sentia que havia um bilhão de livros de ficção-científica na seção dos adultos que ele queria ler. Tome Isaac Asimov como exemplo. Sob o nome de Paul French, o Sr. Asimov escreveu livros de ficção-científica para crianças sobre um piloto espacial chamado Lucky Starr, e eles eram muito bons. Com seu próprio nome, ele havia escrito outros livros ainda melhores. Ao menos três deles eram sobre robôs. Bobby adorava robôs. Robby, o robô de O Planeta Proibido, era um de seus personagens cinematográficos favoritos de todos os tempos, e, em sua opinião, ele era totalmente puto de legal, e robôs do Sr. Asimov eram quase tão bons quanto. Bobby achou que passaria muito tempo com eles no verão que estava chegando (Sully-John chamava este grande escritor de Isaac Chatomov, mas é claro que Sully era quase totalmente ignorante quando se tratava de livros). No caminho da escola, ele procurou pelos homens em casacos amarelos, ou sinais deles; no caminho da biblioteca, após a escola, ele fez o mesmo. Como a escola e a biblioteca ficavam em direções opostas, Bobby achou que estava cobrindo uma boa parte de Harwich. Ele nunca esperava ver qualquer homem baixo, é claro. Depois do jantar, na extensa luz da tarde, ele lia o jornal para Ted, ou na varanda, ou na cozinha dele. Ted havia seguido o conselho de Liz Garfield e arranjara um ventilador, e a mãe de Bobby não pareceu mais preocupada que Bobby estivesse lendo para o “Sr. Brattigan” lá fora, na varanda. Parte disso era causada por sua crescente preocupação com seus próprios problemas de adulto, Bobby achava, mas talvez ela também estivesse começando a confiar um pouco mais em Ted. Não que confiar fosse o mesmo que gostar. E não que isso fosse ser conquistado com facilidade. Certa noite, enquanto estavam no sofá assistindo Wyatt Earp, sua mãe se virara para Bobby quase que com violência, e disse, “Ele está te tocando?”. Bobby entendera o que ela estava perguntando, mas não o porquê dela parecer tão nervosa. — Ora, claro. — ele disse. — Ele me dá uns tapinhas nas costas de vez em quando, e uma vez, enquanto eu lia o jornal para ele, errei uma palavra realmente longa três vezes seguidas, e ele me deu um cascudinho na cabeça. Mas ele não estava zangado, ou bateu com força. Eu não acho que ele é forte o bastante para isso. Por quê? — Deixe pra lá. — ela disse. — Ele é bom, eu acho. Tem a cabeça nas nuvens, sem dúvida, mas não parece um... — ela desviou de sua linha de pensamento, observando a fumaça de seu cigarro Kool subir com o ar da sala de estar. Ela saiu pela ponta em uma faixa pálida e cinzenta, e então desapareceu, fazendo Bobby pensar no modo como os personagens de O Anel ao Redor do Sol, do Sr. Simak, desapareciam numa espiral para outros mundos. Finalmente, ela virou-se para ele e disse: — Se alguma vez ele te tocar de uma maneira que você não goste, venha aqui e me diga. Imediatamente. Ouviu? — Claro, mãe. — havia algo em seu olhar que o lembrou de uma vez em que perguntara a ela como uma mulher sabia que teria um bebê. Ela sangra todo mês, sua mãe dissera. Se não sangrar, ela sabe, porque o sangue vai se transformar no bebê. Bobby queria ter perguntado por onde este sangue sairia, quando não houvesse um bebê sendo feito (ele se lembrou de um sangramento no nariz que sua mãe tivera uma vez, mas não de qualquer outro exemplo de sangramento materno). O semblante dela, entretanto, o fez deixar o assunto de lado. Ela tinha o mesmo semblante agora. Na verdade, houvera outros toques: Ted passava as mãos em seus cabelos, meio que afagando; algumas vezes amassava o nariz de Bobby gentilmente entre os nós dos dedos, dizendo “Fale

Novamente!”, se Bobby errasse a pronúncia de uma palavra; se falassem ao mesmo tempo, ele engancharia um de seus mindinhos a um dos de Bobby, e diria Boa sorte, boa vida, boa vontade, sem má sina. Logo, Bobby já estava dizendo com ele, com seus mindinhos enganchados, e com as vozes soando como quando se pede para passar o sal, ou quando se cumprimenta. Apenas uma vez Bobby se sentiu desconfortável quando Ted o tocou. Bobby havia acabado de ler o último artigo do jornal que Ted queria ouvir, de algum colunista tagarelando sobre como não havia nada de errado com Cuba que a boa e velha empresa gratuita Americana não pudesse resolver. A noite já estava escurecendo o céu. Na Rua Colônia, o cão Bowser da Sra. O’Hara latia e latia, ou-ou-ou, o som era perdido, e, de certo modo, devaneador, mais parecendo algo relembrado do que algo que acontecia naquele momento. — Bem... — disse Bobby, dobrando o jornal e se levantando. — Eu acho que vou dar uma volta pelo bloco e ver o que eu tenho de ver. — ele não quis dizer isso de supetão, mas queria que Ted soubesse que ele ainda estava procurando pelos homens baixos em casacos amarelos. Ted também se levantou e se aproximou dele. Bobby ficou entristecido ao ver medo no rosto de Ted. Ele não queria que Ted acreditasse tanto nos homens baixos, não queria que Ted fosse tão louco. — Volte antes de escurecer, Bobby. Eu nunca me perdoarei se alguma coisa te acontecer. — Eu terei cuidado. E voltarei antes de escurecer. Ted apoiou-se em um joelho (ele era velho demais para conseguir se ajoelhar completamente, Bobby pensou) e segurou Bobby pelos ombros. Ele aproximou Bobby até que suas testas se encostassem. Bobby podia sentir o hálito de cigarro de Ted e o unguento em sua pele — ele lambuzava suas juntas com Musterole porque elas doíam. Atualmente elas doíam mesmo com o clima quente, ele dissera. Estar tão perto de Ted não era assustador, mas era meio ruim, mesmo assim. Dava pra ver que, se Ted não estava totalmente velho agora, logo estaria. Ele provavelmente adoeceria também. Seus olhos estavam lacrimosos. Os cantos de sua boca tremiam um pouco. Era muito ruim que ele tivesse que ficar sozinho aqui em cima, no terceiro andar, pensou Bobby. Se tivesse uma esposa ou coisa assim, ele poderia nunca ter ficado com essa pulga atrás da orelha sobre os homens baixos. É claro... se ele tivesse uma esposa, Bobby talvez nunca lesse Senhor das Moscas. Um jeito egoísta de se pensar, mas ele não pôde evitar. — Nenhum sinal deles, Bobby? Bobby balançou a cabeça. — E você não sente nada? Nada aqui? — ele tirou sua mão do ombro de Bobby e tocou sua própria testa, onde repousavam duas veias azuladas, pulsando suavemente. Bobby negou com a cabeça. — Ou aqui? — Ted puxou o canto de seu olho direito. Bobby negou novamente. — Ou aqui? — Ted tocou em seu estômago. Pela terceira vez, Bobby balançou a cabeça. — Certo. — Ted disse, e sorriu. Ele deslizou sua mão esquerda para a nuca de Bobby. — Você me diria se sentisse, não é? Você não tentaria... oh, eu não sei... me poupar de emoções? — Não. — Bobby disse. Ele, ao mesmo tempo, gostava e não gostava, da mão de Ted em seu pescoço. Era onde um cara num filme colocava a mão pouco antes de beijar uma garota. — Não, eu falaria, esse é meu trabalho. Ted assentiu. Ele lentamente retirou sua mão e a deixou cair. Ele se levantou fazendo a mesa de apoio, e fez uma careta quando um joelho estalou, produzindo um barulho. — Sim, você me diria, você é um bom garoto. Pode ir, vá fazer seu passeio. Mas vá pela calada, Bobby, e volte antes de escurecer. Você tem que ser cuidadoso. — Eu terei cuidado. — ele disse, e começou a descer os degraus.

— Se você os vir... — Eu correrei. — É. — na luz fraca, a cara de Ted ficou sombria. — Como se o inferno estivesse atrás de você. Não houvera toques, e talvez os medos de sua mãe se justificassem de certo modo, talvez houvesse muitos toques, e alguns deles fossem errados. Não errados do modo como ela pensava, mas, ainda assim, errados. Ainda assim perigosos.

***

Na quarta-feira, antes das férias de verão, Bobby viu um fio vermelho preso à antena de alguém na Rua Colônia. Ele não podia dizer com certeza, mas se parecia notavelmente com uma linha de pipa. Bobby estacou. Ao mesmo tempo, seu coração acelerou até que batesse do mesmo modo quando apostava corrida contra Sully-John de casa até a escola. É uma coincidência se aquilo for uma linha de pipa, ele disse a si mesmo, só uma coincidência desgraçada. Você sabe disso, não sabe? Talvez ele soubesse. Ele quase havia acreditado nisso, até que na sexta-feira a escola o libertou para o verão. Bobby voltou para casa sozinho naquele dia; Sully- John havia se voluntariado para ficar e ajudar a devolver os livros para a estante, e Carol estava indo para a casa de Tina Lebel, para a festa de aniversário de Tina. Pouco antes de cruzar a Avenida Asher e começar a descer a ladeira da Rua Broad, ele viu uma amarelinha na calçada, desenhada em giz púrpuro. Parecia com isso:

— Oh, Cristo, não. — Bobby sussurrou. — Só pode ser brincadeira. Ele se apoiou em um joelho, como um escoteiro da cavalaria num filme de faroeste, sem perceber as crianças passando por ele, algumas indo para suas casas— algumas andando, outras em bicicletas, uns dois em skates, Francis Utterson, com seus dentes podres, em seu patinete vermelho-ferrugem, buzinando alto para o céu enquanto passeava. Eles quase não o percebiam; A Grande Folga havia começado, e quase todos estavam hipnotizados pelas possibilidades. — Oh, não, oh, não. Eu não acredito, só pode ser brincadeira. — ele fitou a estrela e a lua crescente, que estavam desenhadas em giz amarelo, não púrpuro, e quase as tocou, então puxou sua mão de volta. Um pedaço de linha vermelha presa em uma antena de TV não significava nada. Mas quando você adicionava isso, ainda podia ser coincidência? Bobby não sabia. Ele só tinha onze anos e havia zilhões de coisas das quais ele não sabia. Mas ele estava com medo... com medo que... Ele se levantou e olhou em volta, meio que esperando ver uma longa fila de carros brilhantes descendo a Avenida Asher, rodando lentamente do jeito que faziam quando seguiam um carro fúnebre para o cemitério, com seus faróis acessos à luz do dia. Meio que esperando ver homens em casacos

amarelos, parados sob a marquise do Império Asher, ou na frente da Taverna do Sukey, fumando Camels, e o observando. Sem carros. Sem homens. Apenas crianças voltando da escola para casa. Os primeiros do St. Gabe, vistosos em seus uniformes de calças e camisas alaranjadas, eram visíveis entre eles. Bobby virou-se e voltou três blocos acima na Avenida Asher, preocupado demais sobre o que havia visto desenhado na calçada para prestar atenção nos garotos mal-humorados do St. Gabe. Não havia nada nos postes telefônicos da avenida, mas havia alguns cartazes fazendo propaganda da Noite de Bingo no Salão da Paróquia do St. Gabriel, e um no canto da Asher com a Tacoma, anunciando um show de rock ‘n roll em Hartford estrelando Clyde McPhatter e Dwayne Eddye, o Homem da Guitarra Vibrante. Pela hora em que chegou à Banca da Avenida Asher, o que era quase o caminho inteiro de volta para a escola, Bobby já começava a esperar que houvesse exagerado. Ainda assim, ele iria olhar no quadro de avisos deles, então desceria até a Rua Broad e entraria na loja de Spicer, onde compraria outra bala, e checaria o quadro de avisos de lá também. Nada de suspeito nisso. Na Spicer, o cartão anunciando a piscina de quintal se fora, mas e daí? O cara provavelmente a vendera. Pra que mais ele colocaria o cartão, pelo amor de Deus? Bobby saiu e parou na esquina, chupando sua bala, tentando decidir o que fazer em seguida. A maioridade é uma coisa que por natureza chega gradualmente, como uma coisa que chega com vários estágios e sobreposições irregulares. Bobby Garfield tomou sua primeira decisão adulta no dia em que terminou a sexta série, concluindo que seria errado contar a Ted sobre as coisas que vira... ou pelo menos por enquanto. Sua opinião de que os homens baixos não existiam havia sido abalada, mas Bobby não estava pronto para desistir. Não com as evidências que ele tinha até agora. Ted ficaria nervoso se Bobby lhe contasse o que vira, talvez nervoso o bastante para jogar suas coisas de volta em suas malas (e em suas sacolas com alças, que agora estavam atrás de sua pequena geladeira), e dar no pé. Se realmente existissem caras maus atrás dele, fugir faria mais sentido, mas Bobby não queria perder o único amigo adulto que já fizera. Então ele decidiu esperar para ver o que aconteceria em seguida, se é que aconteceria alguma coisa. Naquela noite, Bobby Garfield experimentou outro aspecto da maioridade: ele continuou acordado após seu relógio de corda do Big Ben anunciar que eram duas da manhã, olhando para o teto e imaginando se fizera a coisa certa.

4

Ted Apaga. Bobby Vai à Praia McQuown. O Pressentimento.

NO DIA EM QUE AS AULAS TERMINARAM, a mãe de Carol Gerber entupiu sua Perua com crianças e as levou para Rochedo Feliz, um parque de diversões próximo ao mar, a trinta quilômetros de Harwich. Anita Gerber fazia este passeio há três anos, o que transformou isso numa tradição para Bobby, S-J, Carol, o irmãozinho de Carol, e as amigas de Carol, Yvonne, Angie, e Tina. Nem Sully- John ou Bobby teria ido sozinho a qualquer lugar com três garotas, mas já que estavam juntos, estava tudo bem. Além disso, a tentação do Rochedo Feliz era forte demais para se resistir. Ainda estaria frio demais para dar mais do que uma caminhada à beira do oceano, mas eles poderiam brincar na praia, e todos os brinquedos estariam abertos e as barraquinhas também. No ano anterior, Sully-John derrubara três pirâmides de garrafas de leite com apenas três bolas de beisebol, ganhando para sua mãe um grande urso rosa de pelúcia que tinha o orgulho de ainda estar em cima da TV dos Sullivan. Hoje, S-J queria ganhar outro. Para Bobby, o simples fato de sair de Harwich por um tempo já era uma atração. Ele não vira nada de suspeito desde e a estrela e a lua desenhadas ao lado da amarelinha, mas Ted lhe dera um grande susto enquanto Bobby lia o jornal de sábado; em seguida aconteceu uma discussão feia com sua mãe. A coisa com Ted aconteceu enquanto Bobby lia uma opinião acerca da ideia de que Mickey Mantle nunca quebraria o recorde de home-runs de Babe Ruth. Ele não tinha o fôlego ou a dedicação, o colunista insistia. — “Acima de tudo, o caráter deste homem é ruim”. — Bobby leu. — “O tão chamado Mick está mais interessado em farrear à noite do que...”. Ted apagara novamente. Bobby sabia, sentiu de algum modo, mesmo antes de tirar os olhos do jornal. Ted encarava sua janela, olhando para o vazio, em direção à Rua Colônia, e dos roucos e monótonos latidos do cão da Sra. O’Hara. Era a segunda vez que ele fazia isto nesta manhã, mas o primeiro lapso só durara alguns segundos (Ted se inclinara para abrir a geladeira, os olhos abertos ante a luz gélida, parou de se mover... então deu uma sacudidela, e pegou o suco de laranja). Desta vez, ele estava totalmente apagado. Pirado, cara, como Kookie teria dito em um episódio de 77 Sunset Trip. Bobby chocalhou o jornal para ver se conseguia acordá-lo. Nada. — Ted? Você está b... — com súbito terror, Bobby percebeu que algo estava errado com as pupilas dos olhos de Ted. Elas cresciam e decresciam em seu rosto enquanto Bobby assistia. Era como se Ted estivesse mergulhando e voltando rapidamente de algum lugar abissalmente negro... e, ainda assim, tudo o que ele estava fazendo era sentar ali, no meio dos raios de sol. — Ted? Um cigarro queimava no cinzeiro, só que agora não era nada mais do que um toco e cinzas. Olhando para isso, Bobby percebeu que Ted devia ter apagado desde o começo da leitura do artigo sobre Mantle. E essa coisa que seus olhos faziam, as pupilas inchando e contraindo, inchando e contraindo... Ele está tendo um ataque de epilepsia ou coisa assim. Deus, às vezes as pessoas não engolem a própria língua quando isso acontece? A língua de Ted parecia estar onde devia, mas seus olhos... seus olhos... — Ted! Ted, acorde!

Bobby estava ao lado de Ted na mesa antes mesmo de perceber que havia se movido. Ele agarrou Ted pelos ombros e o sacudiu. Era como sacudir um pedaço de madeira esculpido em forma de homem. Sob sua blusa de algodão, a sensação era de que os ombros de Ted estavam duros e magricelas. — Acorde! Acorde! — Eles se movem à oeste agora. — Ted continuou a olhar pela janela com seus estranhos olhos em movimento. — Isto é bom. Mas eles podem voltar. Eles... Bobby permaneceu com suas mãos nos ombros de Ted, apavorado. As pupilas de Ted incharam-se e contraíram-se como se fossem um palpitar de coração que desse para ver. — Ted, o que há de errado? — Eu devo ficar calmo. Devo ser como uma lembre em um arbusto. Eles podem passar direto por mim. Haverá água se Deus quiser, e eles podem passar direto. Todas as coisas servem... — Servem ao quê? — quase sussurrando agora. — Servem ao quê, Ted? — Todas as coisas servem ao Feixe. — Ted disse, e subitamente suas mãos se fecharam nas de Bobby. Elas estavam muito frias, e por um momento Bobby sentiu que estava dentro de um pesadelo, desmaiando de terror. Era como ser agarrado por um cadáver que só podia mexer suas mãos e as pupilas de seus olhos mortos. Então, Ted estava olhando para ele, e embora seus olhos estivessem aterrorizados, estavam quase normais de novo. Não estavam mortos, afinal. — Bobby? Bobby libertou suas mãos e as colocou em volta do pescoço de Ted. Ele o abraçou, e enquanto o fazia, Bobby ouviu um sino tocar em sua cabeça, foi uma coisa muito rápida, mas muito clara. Ele até mesmo pôde ouvir o barulho da mudança de sinos, do jeito que o apito de um trem soa quando está se movendo rápido demais. Foi como se algo dentro de sua cabeça estivesse passando a toda velocidade. Ele ouviu um chocalho de cascos em uma superfície dura. Madeira? Não, metal. Ele sentiu o cheiro de poeira, aridez e de trovões, com seu nariz. Enquanto isto acontecia, a parte de trás de seus olhos começou a formigar. — Silêncio. — o hálito de Ted em seu ouvido era seco como o cheiro da poeira, e, de algum modo, íntimo. Suas mãos estavam nas costas de Bobby, apertando suas escápulas e abraçando-o com firmeza. — Nenhuma palavra. Exceto... beisebol. Sim, beisebol, se preferir! Bobby pensou em Maury Wills ganhando campo, caminhando como um líder, contando três passos... então quatro... Wills curva-se até a cintura, as mãos pendendo no ar, os pés suavemente levantados do chão; ele pode ir por qualquer uma das saídas, isto dependerá do que o arremessador fizer... e quando o arremessador se dirige para a base, Wills sai correndo numa explosão de velocidade e poeira, e... Desapareceu. Tudo desapareceu. Nada de sinos tocando em sua cabeça, nada de sons de cascos, nada de cheiro de poeira. Nada de formigamento nos olhos. Aquele formigamento realmente havia acontecido? Ou ele só inventou isso porque os olhos de Ted o estavam assustando? — Bobby. — Ted falou, uma vez mais diretamente pelo ouvido do menino. O movimento dos lábios de Ted contra sua pele o fez tremer. — Meu bom Deus, o que estou fazendo? Ele afastou Bobby gentil, mas firmemente. Seu rosto parecia assustado e um pouco pálido demais, mas seus olhos estavam normais de novo, suas pupilas estavam firmes. Por um momento, aquilo foi tudo o que importou para Bobby. Ele se sentiu estranho, meio tonto, como se houvesse acordado de um sono pesado. Ao mesmo tempo, tudo pareceu incrivelmente brilhante, cada linha e cada forma, perfeitamente definidas. — Shazam. — Bobby disse, e riu nervosamente. — O que acabou de acontecer? — Nada que

possa preocupá-lo. — Ted foi pegar seu cigarro e pareceu surpreso ao ver no que ele havia se transformado: um pequeno fragmento ardente. Ele o esmagou no cinzeiro com os nós dos dedos. — Eu apaguei de novo, não foi? — Sim, e que apagão. Eu fiquei assustado. Eu achei que você estava tendo um ataque de epilepsia, ou coisa assim. Seus olhos... — Não é epilepsia. — Ted disse. — E não é perigoso. Mas se acontecer de novo, é melhor que você não me toque. — Por quê? Ted acendeu um novo cigarro. — Porque sim. Você vai me prometer? — Está certo. O que é o Feixe? Ted lhe lançou um olhar penetrante. — Eu falei do Feixe? — Você disse “Todas as coisas servem ao Feixe”. Acho que foi isso. — Talvez eu te conte uma hora dessas, mas não hoje. Hoje você vai para a praia, não vai? — Sim. — ele disse. — É melhor eu começar a me aprontar. Eu poderia terminar de ler seu jornal quando voltar. — Sim, ótimo. É uma boa ideia. Eu tenho algumas cartas para escrever. Não, não tem, você só quer se livrar de mim antes que eu te pergunte algo que você não vai querer responder. Mas se era isso o que Ted estava fazendo, tudo bem. Como Liz Garfield geralmente dizia, Bobby tinha seus próprios peixes para fritar. Ainda assim, quando alcançou a porta do quarto de Ted, ele pensou no pedaço de linha vermelha presa à antena de TV, e na lua crescente e na estrela ao lado da amarelinha, e isso o fez se virar, relutantemente. — Ted, há algo... — Os homens baixos, sim, eu sei. — Ted sorriu. — Por enquanto não se preocupe com eles, Bobby. Por enquanto tudo está bem. Eles não estão se movendo para cá, ou sequer olhando para esta direção. — Eles estão se movendo à oeste. — Bobby disse. Ted olhou para ele através da cortina de fumaça de seu cigarro, seus olhos azuis estavam firmes. — Sim. — ele disse. — E com sorte, eles ficarão por lá. Em Seattle estaria bem por mim. Divirtase no litoral, Bobby. — Mas eu vi... — Talvez você tenha visto apenas sombras. Neste caso, esta não é a hora de falar. Apenas lembrese do que eu disse... se eu apagar novamente, fique apenas sentado e espere passar. Se eu for em sua direção, afaste-se. Se eu levantar, diga-me para sentar. Neste estado eu farei o que você disser. É como estar hipnotizado. — Por que você... — Sem mais perguntas, Bobby. Por favor. — Você está bem? Realmente bem? — Como um macaco numa bananeira. Agora vá. Aproveite seu dia. Bobby desceu as escadas apressadamente, novamente espantado em como as coisas pareciam bem definidas: o brilho da luz penetrando pela janela e caindo no chão do segundo andar, um inseto escalando o gargalo de uma garrafa de leite do lado de fora do apartamento da Sra. Prosky, um alto e doce zumbido em seus ouvidos, que era quase como a voz do dia, o primeiro sábado das férias de verão.



***

Ao voltar ao seu apartamento, Bobby pegou seus carrinhos e caminhões de brinquedo de vários esconderijos abaixo de sua cama e atrás de seu armário. Dois deles — um Matchbox Ford e um caminhão azul-metálico que o Sr. Biderman havia mandado por sua mãe alguns dias após seu aniversário — eram bem legais, mas ele não tinha nada que pudesse rivalizar o caminhão de gasolina ou a escavadeira Tonka amarela de Sully. A escavadeira era particularmente boa para se brincar na areia. Bobby estava ansioso há pelo menos uma hora e via os prédios passando, enquanto as ondas se quebravam em algum lugar próximo, e sua pele corava na luz solar da costa. Ocorreu-lhe que não juntava seus caminhões assim desde o inverno anterior, quando ele e S-J haviam passado uma ótima e nevada manhã de sábado, fazendo estradas com a neve fresca do Parque Commonwealth. Ele estava mais velho agora, onze, quase velho demais para coisas assim. Havia algo de triste sobre tal ideia, mas ele não tinha que ficar triste agora, não se não quisesse. Seus dias de caminhões de brinquedo podiam estar se aproximando do fim, mas esse fim não seria hoje. Não, não hoje. Sua mãe lhe fez almoço para viagem, mas ela não lhe daria dinheiro se ele pedisse, nem mesmo um centavo para os banheiros públicos que ficavam alinhados no lado oceânico da estrada. E quase antes de Bobby percebesse o que estava acontecendo, eles estavam tendo o que ele mais temia: uma discussão sobre dinheiro. — Cinquenta centavos devem dar. — Bobby disse. Ele ouviu sua voz sair como a de um bebê chorão, e a odiou, mas não pôde evitá-la. — Só meio mango. Vamos, mãe, o que me diz? Seja legal. Ela acendeu um Kool, atritando o fósforo com tanta força que produziu um estalo, e olhou para ele através da fumaça com seus olhos semicerrados. — Você está ganhando seu próprio dinheiro agora, Bob. A maioria das pessoas gasta três centavos pelo jornal, e você é pago para lê-lo. Um dólar por semana! Meu Deus! Quando eu era garotinha... — Mãe, esse é o dinheiro da minha bicicleta! Você sabe disso. Ela se virou para o espelho, franzido o cenho e tentando acertar os ombros de sua blusa — o Sr. Biderman havia pedido que ela fosse para lá, passar algumas horas, mesmo sendo sábado. Ela se virou, o cigarro ainda preso entre os lábios, e dobrou sua carranca sobre ele. — Você continua a me pedir para comprar aquela bicicleta, não é? Ainda. Eu já te disse que não posso pagar pelo que você me pede. — Não, eu não estou. Não estou. — os olhos de Bobby estavam esbugalhados de raiva e mágoa. — Só um meio mango de nada... — Meio mango aqui, dois ali... isso tudo acaba crescendo, você sabe. O que você quer é que eu compre aquela bicicleta, lhe dando o dinheiro para pagar as outras coisas, pra você não ter que desistir de nenhuma dessas outras coisas que quer. — Não é justo! Ele sabia o que ela iria dizer antes mesmo de abrir a boca, até deu tempo de refletir que havia corrido em direção das pedras. — A vida não é justa, Bobby-O. — disse, voltando-se para o espelho, para arrancar um último fiapo solto sob o ombro direito da blusa. — Cinco centavos para o banheiro? — Bobby perguntou. — Você não poderia pelo menos... — Sim, provavelmente, eu acho. — ela disse, destacando cada palavra. Ela normalmente colocava rouge nas bochechas antes de ir trabalhar, mas nesta manhã nem todas as cores em seu rosto saíram de uma caixa de pó, e Bobby, furioso como estava, sabia que era melhor ter cuidado. Se perdesse a cabeça

do jeito que ela era capaz de perder a dela, ele ficaria aqui, no quente apartamento, o dia todo, proibido de dar um único passo no corredor. Sua mãe pegou sua bolsa na mesa, ao lado do sofá, amassou seu cigarro com força o bastante para partir o filtro, virou-se, e olhou para ele. — Se eu dissesse, “Puxa, não podemos comer esta semana porque eu vi um par de sapatos na Hunsicker que eu simplesmente tive de comprar”, o que você pensaria? Eu pensaria que você é uma mentirosa, Bobby pensou. E eu diria que, se você estivesse tão quebrada, mãe, o que seria aquele catálogo da Sears em cima do armário? Aquele com as notas de um, cinco, e até mesmo de dez ou vinte dólares, enfiadas no meio das páginas de roupas íntimas? E quanto ao jarro azul no armário de pratos da cozinha, aquele escondido bem no canto, atrás da molheira rachada, o jarro azul onde você põe sua pequena poupança de moedas, onde você as tem colocado desde que meu pai morreu? E aí, quando o jarro está cheio, você pega as moedas e as leva para o banco, para trocá-las por notas, e então as notas vão morar no catálogo, não vão? As notas são colocadas nas páginas de roupas íntimas do seu livro de desejos. Mas ele não disse nada disso, apenas baixou a cabeça, fitando os tênis, com os olhos em chamas. — Eu tenho que fazer escolhas. — ela disse. — E se você está velho o bastante para trabalhar, meu filhinho, você tem de fazê-las também. Você acha que eu gosto de te negar as coisas? Não exatamente, Bobby pensou, olhando para seus tênis e mordendo o lábio que queria se soltar e começar a despejar um monte de sons infantis. Não exatamente, mas eu acho que você tampouco se importa. — Se fôssemos os Gotrocks, eu lhe daria cinco dólares para gastar na praia, diabos, daria dez! Você não teria que pegar do seu pote da bicicleta se quisesse levar sua namorada na montanha-russa... Ela não é minha namorada!, Bobby gritou com sua mãe em sua cabeça. ELA NÃO É MINHA NAMORADA! — ...ou ao trenzinho. Mas é claro que se fôssemos os Gotrocks você não precisaria poupar dinheiro para uma bicicleta, precisaria? — sua voz aumentava cada vez mais. O que quer que fosse que a estivesse perturbando pelos últimos meses, ameaçava explodir, espumante como um refrigerante, e destruidor como ácido. — Eu não sei se você já percebeu isso, mas seu pai não nos deixou exatamente bens de vida, e eu estou fazendo o melhor que posso. Eu te alimento, te visto, pago para você ir ao Clube Sterling no verão jogar beisebol enquanto eu tenho que lidar com papeladas naquele escritório quente. Você foi convidado para ir à praia com as outras crianças, estou muito feliz por você, mas como você trata de seus assuntos financeiros em seu dia de folga é problema seu. Se quiser andar nos brinquedos, leve algum dinheiro que você tem no pote. Se não quiser, apenas brinque na praia ou fique em casa. Não faz diferença para mim. Eu só quero que você pare de choramingar. Eu odeio quando você faz isso. É igual... — ela parou, suspirou, abriu a bolsa e tirou seus cigarros. — Eu odeio quando você faz isso. — ela repetiu. É igual ao seu pai. Era isso o que ela não havia terminado de dizer. — Então, como vai ser, raio de sol? — ela perguntou. — Terminou? Bobby permaneceu em silêncio, as bochechas e olhos em brasa, mirando seus tênis e concentrado em não cair no choro. A esta altura, apenas um soluço engasgado poderia ser o bastante para deixá-lo de castigo pelo restante do dia; ela estava realmente furiosa, só esperava um motivo para fazê-lo. E chorar não era o único perigo. Ele queria gritar que preferia estar com o pai e não com ela, uma velha magricela e pão-dura, que não prestava nem para dar meros cinco centavos... e daí que o não-tão-legal e falecido Randall Garfield não os havia deixado bens de vida? Por que ela sempre fazia isso soar como se fosse culpa dele? Quem havia casado com ele?

— Tem certeza, Bobby-O? Sem mais gracinhas? — o som mais perigoso do mundo havia penetrado em sua voz, um tipo de brilhantismo frágil. Soaria bem-humorado se você não a conhecesse. Bobby olhou para seus tênis e nada disse. Manteve todas as lágrimas e todas as palavras furiosas trancadas em sua garganta, e não disse nada. O silêncio prolongou- se entre eles. Ele podia sentir o cheiro do cigarro dela, e de todos os outros antes desse, da noite anterior, e de todos aqueles fumados nas outras noites, enquanto ela não assistia a TV com atenção, esperando que o telefone tocasse. — Tudo bem, acho que nos entendemos. — ela disse, após lhe dar mais ou menos uns quinze segundos para abrir a boca e enfiar seu grande pé lá dentro. — Tenha um bom dia, Bobby. — ela saiu sem beijá-lo. Bobby foi abrir a janela (lágrimas escorrendo por seu rosto agora, embora não notasse), afastou as cortinas e a assistiu ir em direção ao Commonwealth, os saltos chocando-se contra o chão. Respirou fundo, e então foi até a cozinha. Olhou através dela, na direção do armário de pratos onde o jarro azul se escondia atrás da molheira. Ele poderia pegar algum dinheiro dele, ela não mantinha uma conta exata de quanto tinha lá, e ela nunca sentiria falta de três ou quatro moedas de vinte e cinco centavos, mas ele não faria isso. Gastar o dinheiro não teria graça. Ele não tinha certeza como sabia disso, mas sabia; sabia desde os nove anos, quando descobrira o jarro de moedas. Então, sentindo-se arrependido em vez de honrado, ele foi para seu quarto e mirou o pote de Fundos da Bicicleta. Ocorreu-lhe que ela tinha razão, ele poderia pegar um pouco de seu dinheiro e gastá-lo no Rochedo Feliz. Poderia levar um mês extra para acumular o preço da Schwinn, mas pelo menos gastar este dinheiro o faria se sentir bem. E havia algo mais também. Se ele se recusasse a tirar dinheiro do pote, não fazendo nada, exceto guardá-lo e poupá-lo, ele seria como ela. Isto pôs uma pedra no assunto. Bobby pegou cinquenta centavos dos Fundos da Bicicleta, colocou no bolso, e o tapou com um lencinho para evitar que as moedas voassem e caíssem em algum lugar, por fim terminou de juntar suas coisas de praia. Não muito depois, ele já estava assoviando, e Ted desceu as escadas para ver o que ele estava aprontando. — Já está de saída, Capitão Garfield? Bobby assentiu. — O Rochedo Feliz é um lugar muito legal. Com brinquedos e coisas assim, sabe? — Deveras eu sei. Divirta-se, Bobby, e não vá cair dos brinquedos. Bobby começou a ir em direção à porta, então voltou-se para Ted, que estava no pé da escada, de chinelos. — Por que você não sai e vai se sentar na varanda? — Bobby perguntou. — Aposto que vai ficar quente na casa. Ted sorriu. — Talvez. Mas acho que vou ficar aqui dentro. — Você está bem? — Ótimo, Bobby. Estou ótimo. Enquanto cruzava para o lado dos Gerbers na Rua Broad, Bobby percebeu que sentia pena de Ted, se escondendo em seu quarto quente por nenhum motivo. E tinha que ser por nenhum motivo, não tinha? Com certeza. Mesmo que houvesse homens baixos lá fora, viajando por algum lugar (à oeste, ele pensou, eles se movem à oeste), o que eles poderiam querer com um velho aposentado como Ted Brautigan?

***

A princípio, a briga com sua mãe havia lhe deprimido um pouco (a amiga rechonchuda e bonita da Sra. Gerber, Rionda Hewson, o acusou de estar com “a cabeça nas nuvens”, o que quer que isso

significasse, então, ela começou a lhe fazer cócegas nos lados e nos sovacos até que Bobby risse em legítima defesa), mas depois que passaram um tempo na praia, ele começou a sentir melhor, a se sentir mais ele mesmo. Embora ainda fosse cedo na estação, o Rochedo Feliz funcionava a toda velocidade... o carrossel girava, o Rato Selvagem rugia, as criancinhas gritavam, rock ‘n roll e metal saíam dos alto-faltantes do lado de fora da Casa de Diversões, e os camelôs berravam de suas barraquinhas. Sully-John não conseguiu o ursinho que queria, acertando apenas duas das últimas três garrafas de leite (Rionda disse que algumas tinham pesos especiais em seus fundos que as impediam de tombar a não ser que você as acertasse em cheio), mas, de qualquer forma, o cara da barraquinha lhe deu um prêmio bem legal, um tamanduá amarelo com jeito de pateta. S-J impulsivamente o deu para a mãe de Carol. Anita riu, abraçouo, e lhe disse que ele era a melhor criança do mundo, e que se fosse quinze anos mais velho, ela cometeria bigamia e se casaria com ele. Sully-John corou até ficar roxo. Bobby tentou a barraquinha de argolas, e errou todas as três chances. Na Galeria de Tiros, teve melhor sorte, quebrando dois pratos e ganhando um pequeno ursinho de pelúcia, que ele deu para Ian Ranhoso, que estava sendo legal só para variar (não havia feito nenhuma birra, nem molhado as calças, ou tentado socar Sully ou Bobby no saco). Ian abraçou o ursinho e olhou para Bobby como se Bobby fosse Deus. — É lindo e ele o adorou. — Anita disse. — Mas não que levar para casa, para sua mãe? — Não... ela não gosta muito dessas coisas. Mas eu gostaria de ganhar para ela um vidro de perfume. Ele e Sully-John desafiaram um ao outro a entrar no Rato Selvagem, e finalmente entraram juntos, berrando delirantemente a cada mergulho que o vagão dava, simultaneamente sabendo que viveriam eternamente e morreriam imediatamente. Eles foram ao Bate-Bate e nas Xícaras Malucas. Com apenas quinze centavos sobrando, Bobby entrou na roda gigante com Carol. O vagão deles parou no topo, balançando suavemente, fazendo-o se sentir engraçado no estômago. À sua esquerda, o Atlântico invadia a terra em uma série de ondas de cristas brancas. A praia era tão branca quanto, e o oceano era uma impossível tonalidade de azul profundo. A luz do sol o percorreu como seda. Abaixo deles, estava o meio do caminho do parque. Saindo dos alto-falantes vinha o som de Freddy Cannon: “ela veio do Tallahassee, possuindo um grande chassi”. — Tudo lá embaixo parece tão pequeno. — Carol disse. Sua voz estava estranhamente baixa. — Não tenha medo, estamos totalmente seguros. A roda gigante seria um passeio para bebês se não fosse tão alta. Carol era, de muitos modos, a mais velha dos três, brigona e confiante de si mesma, como no dia em que havia feito S-J carregar os livros por xingar, mas agora seu rosto quase tinha se transformado num rosto de bebê novamente: redondo, um pouco pálido, dominado por um par de olhos alarmados. Sem pensar, Bobby se inclinou, pôs sua boca na dela, e a beijou. Quando ele se afastou, os olhos dela estavam mais esbugalhados do que nunca. — Totalmente seguros. — ele disse, e sorriu. — Faça de novo! — era o primeiro beijo de verdade dela, ela o havia recebido no Rochedo Feliz, no primeiro sábado das férias de verão, e não estivera muito atenta. Era isso o que ela pensava, e era por isso que queria que ele o fizesse de novo. — É melhor não. — Bobby disse. Apesar de que... aqui em cima, quem poderia ver para chamá-lo de maricas? — Eu te desafio, e não diga que você falou primeiro. — Você vai contar? — Não, juro por Deus. Vamos, depressa! Antes que desçamos! Então ele a beijou de novo. Os lábios dela eram macios e se fecharam, quentes como o sol. Então,

a roda começou a se mover e ele parou. Por um momento, Carol repousou sua cabeça contra o peito dele. — Obrigada, Bobby. — ela disse. — Isso foi muito bom. — Eu também achei. Eles se afastaram um do outro um pouquinho, e quando o vagão parou e o atendente tatuado levantou a trava de segurança, Bobby saiu correndo em direção a S-J sem olhar para trás. Mas ele já sabia que beijar Carol no topo da roda gigante seria a melhor parte do dia. Era seu primeiro beijo de verdade também, e Bobby nunca se esqueceu da sensação dos lábios dela pressionando os seus... secos, macios, e aquecidos pelo sol. Seria o beijo pelo qual todos os outros seriam comparados, e deixariam a desejar.

***

Por volta das três horas da tarde, a Sra. Gerber disse para eles começarem a juntar as coisas; era hora de voltar para casa. Carol lhe lançou o clássico “Ah, mãe...”, e eles começaram a pegar as coisas. As amigas dela ajudaram; até mesmo Ian ajudou um pouco (recusando-se a largar o ursinho coberto de areia enquanto juntava e carregava). Bobby meio que esperava que Carol ficasse perto dele pelo resto do dia, e tinha certeza de que ela contaria a elas sobre o beijo na roda gigante (ele perceberia que ela o havia feito quando as encontrasse tentando abafar risadinhas com as mãos, e o olhando de modo divertido), mas ela não havia feito nenhuma dessas coisas. Várias vezes a flagrou olhando para ele, e muitas vezes se flagrou dando umas olhadelas nelas. Ele continuava a se recordar de seus olhos lá em cima. Como estavam esbugalhados e preocupados. E ele a havia beijado, simples assim. Bingo. Bobby e Sully carregaram a maioria das sacolas. “Bom Deus! Carambola!”, Rionda riu, enquanto seguiam da praia até a calçada. Ela estava vermelha como camarão por baixo do hidratante que havia passado em todo o rosto e ombros, e se queixou a Anita Gerber que não conseguiria pregar o olho naquela noite; se as queimaduras do sol não a mantivessem acordada, a comida do parque o faria. — Ora, você não precisava ter comido quatro salsichões e duas rosquinhas. — disse a Sra. Gerber, soando mais irritada do que Bobby já a ouvira ficar, ela estava cansada, ele percebeu. Ele se sentiu um pouco tonto por causa do sol. Suas costas ardiam com as queimaduras, e ele tinha areia dentro das meias. As sacolas de praia com as quais ele havia se encarregado balançavam e chocavam-se umas contra as outras. — Mas as comidas dos parques de diversões são tão booooas. — Rionda protestou, tristonha. Bobby riu. Ele não pôde evitar. Eles caminharam lentamente pela estrada na direção do estacionamento despavimentado, agora não mais prestando atenção nos brinquedos. Os donos das barraquinhas olharam para eles, então desviaram o olhar atrás de sangue fresco. Mais pessoas surgiam, e alcançar o estacionamento era, em geral, uma causa perdida. No fim da estrada, à esquerda, estava um homem magricela usando bermudas azuis, uma camisa de alças, e um chapéu-coco. O chapéu era velho e desgastado, mas ereto em um ângulo boçal. Também havia um girassol preso na aba. Ele era um cara engraçado, e as meninas finalmente tiveram sua chance de encobrir suas risadinhas com as mãos. Ele olhou para eles com o ar de um homem que já foi caçoado por especialistas, e sorriu de volta. Isto fez Carol e suas amigas rirem mais ainda. O homem de chapéu-coco, ainda sorrindo, estendeu as mãos sobre sua banca improvisada—uma tábua larga de madeira em cima de dois cavaletes alaranjados e brilhantes. Na mesinha improvisada, havia três cartas de versos vermelhos de um baralho Bycicle. Ele as virou com gestos rápidos e graciosos. Seus dedos eram longos e perfeitamente brancos, Bobby notou

—nem uma sombra de bronzeado neles. A carta no meio era a Rainha de Copas. O homem de chapéu-coco a levantou e a mostrou para eles, passando com destreza entre os dedos. — Ache a dama de vermelho, cherchez la femme rouge, é só isso que é, e é tudo o que se tem a fazer. É fácil, fácil. Fácil como nadar, fácil como sonhar. — ele disse para Yvonne Loving. — Venha aqui, boneca, e mostre como se faz. Yvonne, ainda dando risadinhas e corando até as raízes de seus cabelos negros, encolheu-se atrás de Rionda e murmurou que não tinha dinheiro para jogos, que havia gasto tudo. — Sem problema. — disse o homem de chapéu-coco. — É só uma demonstração, boneca, eu quero que sua mãe e sua amiga linda vejam como é fácil. — Nenhuma delas é minha mãe. — Yvonne disse, mas foi até ele. — É melhor irmos se quisermos evitar trânsito, Evvie. — disse a Sra. Gerber. — Não, espere um minuto, isto é divertido. — Rionda disse. — É um monte de três cartas. Parece fácil, como ele diz, mas se não tiver cuidado, vai começar a perder e voltar para casa sem nada. O homem de chapéu-coco lhe lançou um olhar reprovador, e então abriu um sorriso largo. Era o sorriso de um homem baixo, Bobby pensou, subitamente. Não aqueles que Ted tinha medo, mas mau, mesmo assim. — É óbvio para mim... — disse o homem de chapéu-coco. — ...que em algum ponto de seu passado, você foi vítima de um trapaceiro. Embora como alguém possa ser tão cruel, a ponto de passar para trás uma dama tão bonita e classuda, está além de minhas habilidades de compreensão. A dama bonita e classuda, de mais ou menos cinquenta e cinco anos, noventa quilos, e ombros e rosto empapados de hidratante, riu feliz. — Corte o papo-furado e diga à criança como isto funciona. E você realmente está querendo me dizer que isto é legal? O homem atrás da mesinha jogou a cabeça para trás e também riu. — No fim da estradinha tudo é legal até que te peguem e te chutem pra fora... como eu acho que você provavelmente bem sabe. Agora... como se chama, bonequinha? — Yvonne. — ela disse, em uma voz que Bobby mal ouviu. Ao seu lado, Sully-John assistia a tudo com grande interesse. — Algumas vezes meus amigos me chamam de Evvie. — Certo, Evvie, olhe bem aqui, lindinha. O que você vê? Diga-me o nome delas, eu sei que você pode dizer, uma criança tão esperta como você, e aponta a certa quando eu disser. Não tenha medo de tocá-las. Não há nada de desonesto por aqui. — Este aqui na ponta é o Valete... este aqui na outra ponta é o Rei... e esta é a Rainha. Ela está no meio. — É isso aí, bonequinha. Nas cartas, como na vida, é comum haver uma mulher entre dois homens. Esse é o poder delas, e em cinco ou seis anos, você vai descobrir por experiência própria. — sua voz decresceu numa entoação baixa e quase hipnótica. — Agora observe atentamente, e nunca tire os olhos das cartas. — ele as virou, mostrando seus versos. — Agora, bonequinha, onde está a rainha? Yvonne Loving apontou para o verso vermelho do meio. — Será que ela acertou? — o homem de chapéu-coco perguntou ao pequeno grupo reunido ao redor de sua mesinha. — Até agora. — Rionda disse, e riu tão forte que sua barriga flácida dançou sob seu vestido de verão. Sorrindo para a mulher que ria, o homem baixo no chapéu-coco virou a carta do meio por uma das pontas, mostrando a Rainha de Copas.

— Cem por cento correta, meu docinho, até agora muito bom. Agora veja! Observe bem! É uma corrida entre seu olho e minha mão! Quem ganhará? Esta é a pergunta do dia! Ele começou a embaralhar as três cartas rapidamente em cima da tábua, rimando enquanto o fazia. — Para cima e para baixo, por todo lugar, será que eu acho onde a carta estará? Veja-as dançar, vamos, me conte, não pare de olhar, onde ela se esconde? Enquanto Yvonne estudava as três cartas, que agora estavam mais uma vez alinhadas lado a lado, Sully disse ao ouvido de Bobby, “Você nem precisa ver ele misturar as cartas. A rainha tem uma das pontas amassadas. Vê?”. Bobby assentiu. Boa garota, pensou, quando Yvonne apontou hesitantemente para a carta da esquerda, a carta com a ponta amassada. O homem de chapéu-coco a virou, revelando a Rainha de Copas. — Bom trabalho! — ele disse. — Você tem um olho afiado, bonequinha, um olho afiado, de fato. — Obrigada. — disse Yvonne, corando e parecendo quase tão feliz quanto Carol, quando Bobby a beijou. — Se você apostar comigo dez centavos e ganhar, eu lhe darei vinte centavos na hora. — o homem de chapéu-coco disse. — Por que, você pergunta? Porque é sábado, eu o proclamo Sábado Dobrado! Agora, por acaso um das senhoras gostaria de arriscar dez centavos em uma corrida entre seus jovens olhos e minhas velhas mãos cansadas? Vocês podem dizer aos seus maridos — senhores de sorte por têlas, eu diria — que o Sr. Herb McQuown, o Homem do Monte do Rochedo Feliz, pagou pelo seu estacionamento. Ou quem sabe vinte e cinco centavos? Aponte onde está a Rainha de Copas, e eu lhe darei cinquenta de volta. — Meio mango, que demais! — Sully-John disse. — Eu tenho vinte e cinco centavos, senhor, e vou apostá-los. — Johnny, isto é jogatina. — disse a mãe de Carol, duvidosamente. — Eu realmente não acho que devia deixar... — Vamos, deixa o garoto aprender uma lição. — Rionda disse. — Além disso, o rapaz é bem capaz de deixá-lo ganhar. Para nos atrair. — ela não fez esforço para abaixar a voz, mas o homem de chapéu-coco, o Sr. McQuown, simplesmente olhou para ela e sorriu. Então, voltou sua atenção para S-J. — Deixe-me ver seu dinheiro, garoto... vamos, ponha-o aqui. Sully-John passou os vinte e cinco centavos. Por um momento, McQuown ergueu o dinheiro na direção da luz do sol vespertina, com um olho fechado. — É, parece uma boa grana pra mim. — ele disse, colocando-a na mesinha, à esquerda da fila de três cartas. Ele olhou em ambas as direções, procurando tiras, talvez, então deu uma piscadela para Rionda, que sorria cinicamente, antes de voltar sua atenção para Sully-John. — Qual é o seu nome, amiguinho? — John Sullivan. McQuown abriu bem os olhos e empurrou seu chapéu para a outra ponta da cabeça, fazendo o girassol de plástico balançar e se inclinar comicamente. — Um nome de respeito. Sabe ao que me refiro? — Claro. Algum dia talvez eu vire um lutador também. — S-J disse. Ele socou o ar à esquerda e à direita da mesa improvisada de McQuown. — Pou, pou! — Pou, pou, de fato. — disse McQuown. — E como estão seus olhos, Mestre Sullivan? — Muito bons. — Então prepare-os, porque a corrida começou! Pode apostar que sim! Seus olhos contra minhas mãos. — McQuown, então, recomeçou a rimar. As cartas, que desta vez haviam sido movidas bem mais

rapidamente, foram diminuindo de velocidade, até pararem. Sully começou a apontar, então recuou a mão, franzindo o cenho. Agora havia duas cartas com as pontas amassadas. Sully olhou para McQuown, cujos braços estavam cruzados em sua camisa desbotada. McQuown sorria. — Não se apresse, filho. — ele disse. — Esta manhã passou rápida como um papa-léguas, mas está sendo uma tarde lenta. Homens que pensam que chapéus com penas em suas abas é uma coisa sofisticada, Bobby lembrou-se de Ted dizendo. Os tipos de homens que defecariam em uma viela, e passariam uma garrafa de licor em um saco de papel entre si durante o jogo. No chapéu de McQuown havia uma flor de plástico engraçada em vez de uma pena, e não havia garrafas em evidência... mas havia uma em seu bolso. Uma bem pequena. Bobby tinha certeza disto. E com o passar do dia, enquanto o marasmo tomava conta do negócio, e a coordenação de seus olhos e mãos se tornava menos do que uma prioridade, McQuown, frequentemente, tomaria uns goles dela. Sully apontou para a carta da direita. Não, S-J, Bobby pensou, e quando Mc- Quown virou a carta, era o Rei de Espadas. McQuown virou a carta da esquerda e mostrou o Valete de Paus. A Rainha havia voltado para o meio. — Desculpe, filho, foi devagar desta vez, não é um crime. Quer tentar novamente, agora que já está aquecido? — Puxa, eu... esse foi meu último centavo. — Sully-John pareceu cabisbaixo. — Bem feito, garoto. — disse Rionda. — Ele poderia lhe tirar tudo, e te deixar só de cuecas. — as meninas soltaram seus risinhos com essa; S-J corou. Rionda não percebeu nenhuma das duas coisas. — Eu trabalhei na Praia Revere por uns tempos, enquanto vivi em Massachusetts. — ela disse. — Deixe-me mostrar a vocês garotos como isso funciona. Quer apostar uma prata, colega? Ou é muito doce pra você? — Em sua presença, tudo seria doce. — McQuown disse, sentimentalmente, e arrebatou o dólar no momento em que ele saiu da bolsa dela. Ele o segurou contra a luz, o examinou com seu olho frio, então o colocou à esquerda das cartas. — Parece bom. — ele disse. — Vamos jogar, querida. Qual é o seu nome? — Espertalhona. — Rionda disse. — Pergunte-me novamente e eu te direi a mesma coisa. — Ri, você não acha... — Anita Gerber começou. — Eu já disse, estou afiada como uma faca. — Rionda disse. — Faça-as correr, meu chapa. — Só se for agora. — McQuown assentiu, e suas mãos colocaram as três cartas de versos vermelhos em movimentos (pra cima e pra baixo, pra todo o lado...), finalmente as organizando em linha reta novamente. E desta vez, Bobby observou, impressionado, todas as três cartas tinham suas pontas amassadas. O sorrisinho de Rionda sumira. Ela olhou da pequena fila de cartas para McQuown, logo voltou a encarar as cartas, e então olhou para a nota de um dólar, repousando em um lado e flutuando levemente com a brisa marítima que soprava. Finalmente, ela olhou de volta para McQuown. — Você me fez de otária, colega. — ela disse. — Não fez? — Não. — McQuown disse. — Eu corri contra você. Agora... que me diz? — Eu acho que deveria dizer que aquele foi um bom dólar que nunca me causou problemas, e sinto por vê-lo ir embora. — Rionda respondeu, e apontou para a carta do meio. McQuown a virou, revelando o Rei, e fez o dólar de Rionda desaparecer para dentro de seu bolso. Desta vez a Rainha estava na esquerda. McQuown, um dólar e vinte e cinco centavos mais rico, sorriu para o pessoal de Harwich. A flor de plástico enfiada na aba de seu chapéu balançou com o salgado vento. — Quem é o próximo? — ele perguntou. — Quem quer apostar uma corrida entre seus olhos e

minha mão? — Acho que todos nós já corremos demais. — a Sra. Gerber disse. Ela deu um sorriso fino ao homem atrás da mesa, e pôs uma mão no ombro de sua filha e a outra em seu filho sonolento, virando-os para outra direção. — Sra. Gerber? — Bobby perguntou. Por um momento ele considerou como sua mãe, uma vez casada com um homem que nunca tivera uma sequência interior de que não gostasse, se sentiria se pudesse ver seu filho ali, parado em frente à mesinha improvisada do Sr. McQuown, com aqueles cabelos ruivos de Randy Garfield refletidos ao sol. O pensamento o fez sorrir um pouco, Bobby sabia o que era uma sequência interior agora; flushes e full houses também. Ele havia feito perguntas. — Posso tentar? — Oh, Bobby, eu acho que já tivemos o bastante, não acha? Bobby enfiou a mão em seu bolso tapado com o lencinho, e tirou seus últimos quinze centavos. — Isto é tudo o que tenho. — ele disse, mostrando primeiro à Sra.Gerber e então ao Sr. McQuown. — É o bastante? — Filho... — McQuown disse. — Eu já apostei neste jogo quantias insignificantes, e gostei. A Sra. Gerber olhou para Rionda. — Ah, diabos. — Rionda disse. — É o preço de um corte de cabelo, pelo amor de Cristo. Deixe-o perder, e então vamos para casa. — Está bem, Bobby. — a Sra. Gerber disse, e suspirou. — Se insiste. — Ponha as moedinhas aqui, Bob, onde todos possamos vê-las. — disse McQuown. — Elas parecem ser das boas, sim, parecem. Está pronto? — Acho que sim. — Então aqui vamos nós. Dois meninos e uma menina se escondem juntos. Os meninos não valem nada. Ache a menina e dobre seu dinheiro. Os dedos pálidos e espertos viraram as três cartas. McQuown começou seu lenga-lenga e as cartas começaram a correr. Bobby as viu se movimentarem em cima da mesinha, mas não fez qualquer esforço real para perseguir a Rainha. Não era necessário. — Aqui vão elas, estão parando, todas belas, descansando. O teste começou! — as três cartas de versos vermelhos estavam enfileiradas novamente. — Diga-me, Bobby, onde ela se esconde? — Ali. — Bobby disse, e apontou para a carta da esquerda. Sully resmungou. — Era a do meio, seu boboca. Desta vez não tirei meus olhos dela. McQuown não deu notícia de Sully. Ele estava olhando para Bobby. Bobby o encarou de volta. Depois de um momento, McQuown se mexeu e virou a carta apontada por Bobby. Era a Rainha de Copas. — Mas que diabos? — Sully choramingou. Carol bateu palmas, excitada, e começou a dar pulinhos. Rionda Hewson guinchou e lhe deu um beijo no cangote. — Você ensinou uma lição a ele desta vez, Bobby! Muito bem! McQuown concedeu um sorriso peculiar e pensativo a Bobbu, então pôs a mão no bolso e puxou o prêmio. — Nada mau, filho. Primeira vez que me bateram hoje. Que me ganharam, quero dizer. — ele pegou uma moeda de vinte e cinco e outra de cinco e as colocou ao lado dos quinze de Bobby. — Gostaria de mantê-las girando? — ele viu que Bobby não entendeu. — Gostaria de jogar novamente? — Posso? — Bobby perguntou a Anita Gerber. — Não prefere sair enquanto está ganhando? — ela perguntou, mas seus olhos brilhavam, e ela

parecia ter esquecido tudo sobre evitar o trânsito a caminho de casa. — Eu vou parar enquanto estou ganhando. — ele disse. McQuown riu. — Garoto durão! Não se verá nenhum pelo crescendo em seu queixo por cinco anos, mas já é um garoto durão. Então, Bobby Durão, o que acha? Podemos jogar? — Claro. — Bobby disse. Se Carol ou Sully-John lhe houvessem acusado de ser durão, ele teria protestado veementemente, todos os seus heróis—de John Wayne à Lucky Starr, da Patrulha Espacial — eram pessoas modestas, do tipo que diziam “ufa” após salvarem o mundo ou um vagão de trem. Mas ele não sentiu a necessidade de se defender contra o Sr. McQuown, que era um homem baixo em calças azuis, e talvez um trapaceiro das cartas também. Ser durão era a última coisa na cabeça de Bobby. Ele não achava que isto era como as sequências interiores de seu pai. Sequências interiores resumiam-se apenas em esperanças e chutes, o “pôquer dos tolos”, de acordo com Charlie Yearman, o zelador da escola primária de Harwich, que ficou feliz em contar a Bobby tudo sobre o jogo, que S-J e Denny Rivers não conheciam. Mas não havia palpites neste aqui. O Sr. McQuown olhou para ele por um momento mais longo; a calma confiança de Bobby pareceu incomodá-lo. Então, ele levantou o braço, ajeitou a posição de seu chapéu, estirou os braços, e esticou os dedos, do mesmo jeito que o Pernalonga fazia antes de tocar piano no Carnegie Hall, em um dos desenhos. — Em sua marca, garoto durão. Vou lhe mostrar o negócio todo desta vez, de cabo a rabo. As cartas correram numa espécie de filme rosa. Detrás dele, Bobby ouviu Sully-John murmurar um “Minha nossa!”. A amiga de Carol, Tina, disse que estava “rápido pra dedéu”, em um maravilhado tom de empertigada desaprovação. Bobby novamente viu as cartas se moverem, mas apenas porque sentiu que era esperado que ele o fizesse. O Sr. McQuown não se preocupou em fazer qualquer rima ou falar qualquer tagarelice desta vez, o que meio que o deixou aliviado. As cartas pararam. McQuown olhou para Bobby com suas sobrancelhas levantadas. Havia um pequeno sorriso no canto de sua boca, mas ele respirava rápido, e havia gotículas de suor acima de seu lábio superior. Bobby apontou imediatamente para a carta da direita. — É ela. — Como sabe disso? — o Sr. McQuown perguntou, seu sorriso desaparecendo. — Como diabos você sabe disso? — Eu apenas sei. — Bobby disse. Em vez de virar a carta, McQuown virou a cabeça levemente e olhou para a estrada. O sorriso havia sido substituído por uma expressão petulante: lábios repuxados e uma ruga entre os olhos. Até mesmo o girassol de plástico em seu chapéu parecia insatisfeito, seu balançar era agora carrancudo, ao invés de radiante. — Ninguém me vence com esse movimento. — ele disse. — Ninguém nunca me venceu com esse movimento. Rionda passou por cima dos ombros de Bobby e virou a carta que ele havia apontado. Era a Rainha de Copas. Desta vez todas as crianças bateram palmas. O som fez a ruga entre os olhos do Sr. McQuown se aprofundar ainda mais. — Parece que você deve ao velho Bobby Durão noventa centavos. — Rionda disse. — Você vai pagar? — E se eu não pagar? — o Sr. McQuown perguntou, virando sua carranca para Rionda. — O que você fará, rolha de poço? Chamar a polícia?

— Talvez fosse melhor irmos. — Anita Gerber disse, soando nervosa. — Chamar a polícia? Eu não. — Rionda disse, ignorando Anita. Ela nunca tirou seus olhos de 14

McQuown. — Noventa centavos fora de seu bolso, e você já começa a parecer o Baby Huey com as fraldas cheias, por Deus! Só que, Bobby sabia, não era por causa do dinheiro. O Sr. McQuown havia perdido muito mais do que isto naquela ocasião. Algumas vezes ele perdia por causa da velocidade; algumas vezes era por causa da sorte. Mas o que o deixava furioso era que desta vez havia sido seu movimento. McQuown não gostava que crianças vencessem seu movimento. — O que eu farei... — Rionda continuou. — É contar a todos no caminho do parque que querem saber se você é um trapaceiro. Noventa-Centavos Mc- Quown, será como eu te chamarei. Acha que isso ajudará nos negócios? — Eu é que quero fazer um negócio com você. — McQuown rosnou, mas colocou a mão no bolso, tirou mais dinheiro, e rapidamente contou as moedas ganhas de Bobby. — Aqui está. — ele disse. — Noventa centavos. Agora vá comprar um martini. — Eu apenas chutei, sabe. — Bobby disse, enquanto pegava as moedas e as depositava em seu bolso, onde caíram pesadamente. A discussão com sua mãe naquela manhã parecia agora extraordinariamente estúpida. Ele agora voltaria para casa com mais dinheiro do que tinha quando saíra, e isso não significava nada. Nada. — Eu chuto bem. O Sr. McQuown relaxou. Ele não teria machucado nenhum deles, de qualquer modo. Ele podia ser um homem baixo, mas não do tipo que machucava as pessoas; ele nunca submeteria aquela mão de longos dedos espertos à indignidade de um punho. Mas Bobby não queria deixá-lo infeliz. Ele queria que o Sr. Mc- Quown achasse que havia perdido por causa daquilo que ele chamava de “sorte”. — É. — McQuown disse. — Você chuta bem mesmo. Quer tentar uma terceira vez, Bobby? A riqueza o espera. — Nós realmente temos de ir. — a Sra. Gerber disse rapidamente. — Se eu tentasse de novo, eu perderia. — Bobby disse. — Obrigado, Sr. McQuown. Foi um bom jogo. — É, claro que foi... agora se manda, garoto. — o Sr. McQuown parecia agora exatamente como todas as outras pessoas em suas barraquinhas, olhando para as filas ao longe. Procurando por sangue fresco.

***

A caminho de casa, Carol e suas amigas continuavam a olhar para ele, impressionadas; Sully-John fazia a mesma coisa, com uma espécie de respeito enigmático. Isto deixou Bobby desconfortável. Em certo momento, Rionda se virou para ele e lhe falou bem de perto. — Não foi apenas um chute. — ela disse. Bobby olhou para ela, cautelosamente, sem falar nada. — Foi um pressentimento. — O que é um pressentimento? — Meu pai não era um homem de apostar muito, mas de vez em quando ele tinha umas premonições com números. Ele chamava isto de pressentimento. Então ele apostava. Uma vez ganhou cinquenta dólares. Fez uma feira que durou um mês. Foi isso que você teve, não foi? — Acho que sim. — Bobby disse. — Talvez eu tenha tido um pressentimento.

***

Quando chegou em casa, sua mãe estava sentada na varanda, com suas pernas cruzadas. Ela havia colocado suas calças de sábado, e olhava indiferente para a rua. Ela acenou para a mãe de Carol rapidamente enquanto se afastavam no carro; observou Anita estacionar em sua própria garagem, e Bobby cruzar a calçada. Ele sabia o que sua mãe estava pensando: que o marido da Sra. Gerber estava na Marinha, mas ao menos ela tinha um marido. Anita Gerber também tinha uma Perua. Liz tinha que pegar ônibus, ou um táxi, se precisasse ir para Bridgeport. Mas Bobby não achou que ela ainda estava com raiva dele, e isto era bom. — Divertiu-se no Rochedo, Bobby? — Muito. — ele disse, e pensou: O que foi, mãe? Não se importa com o que eu fiz na praia? O que realmente está passando pela sua cabeça? Mas ele não disse nada. — Ótimo. Ouça, querido... Desculpe-me pela discussão de hoje. É que eu odeio ter que trabalhar aos sábados. — ela quase cuspiu ao dizer isso. — Está tudo bem, mãe. Ela tocou sua bochecha e balançou a cabeça. — Você e essa sua pele frágil! Você nunca vai pegar um bronzeado, Bobby- O. Não você. Entre, eu vou pôr um pouco de óleo de bebê nestas queimaduras. Ele entrou com ela e tirou a camisa. Ficou de frente para sua mãe enquanto ela se sentava no sofá e passava a fragrância de óleo de bebê em suas costas, braços, pescoço, e até mesmo em suas bochechas. A sensação era boa, e ele pensou novamente em como a amava, em como amava ser tocado por ela. Imaginou o que ela pensaria se soubesse que ele havia beijado Carol na roda gigante. Ela sorriria? Bobby achou que não. E se ela, de algum modo, descobrisse sobre McQuown e as cartas... — Eu não vi seu amigo do outro andar. — ela disse, colocando a tampa de volta no frasco de óleo de bebê. — Eu sei que ele está lá em cima porque consigo ouvir o jogo dos Yankees no rádio dele, mas não acha que o melhor seria se ele saísse para a varanda, onde está mais fresco? — Acho que ele não está com vontade. — Bobby disse. — Mamãe, você está bem? Ela o encarou, assustada. — Estou bem, Bobby. — ela sorriu, e Bobby sorriu de volta. Ele teve que se esforçar, porque não achou que sua mãe estava tão bem assim. Na verdade, ele tinha certeza de que ela não estava. Ele acabara de ter um pressentimento.

***

Naquela noite, Bobby deitou de costas com os pés estirados nas pontas da cama, os olhos estavam abertos, encarando o teto. Sua janela estava aberta também, as cortinas flutuavam para frente e para trás 15

em um sopro da brisa, e de alguma outra janela aberta veio o som dos The Platters : Here, in the 16

afterglow of Day, We keep our rendezvous, beneath the blue . Mais longe ainda, ele ouviu o barulho da turbina de um avião, e uma buzina de carro. O pai de Rionda chamava a coisa de “pressentimento”, e uma vez ele ganhara cinquenta dólares num dia. Bobby concordara com ela — um pressentimento, claro, eu tive um pressentimento — mas ele não teria ganhado na loteria nem que sua alma dependesse disso. A coisa era que... A coisa era que o Sr. McQuown sempre sabia onde a Rainha parava, e eu também. Uma vez que Bobby entendeu isso, outras peças se encaixaram. Coisas óbvias, é claro, mas ele estivera se divertindo, e... bem... não se questionava o que se sabia, não é? Você poderia questionar um

pressentimento — uma sensação que chegava até você do nada — mas você não questionava o saber. Só que, como ele sabia que sua mãe estava guardando dinheiro entre as páginas de roupas íntimas do catálogo da Sears em cima do armário? Como ele sequer sabia que o catálogo estaria lá? Ela nunca lhe contara. Ela nunca havia contado sobre a molheira azul onde ela depositava as moedas, mas é claro que ele sabia disso há anos, ele não era cego, embora às vezes ela pensasse isso. Mas e o catálogo? E quanto a saber que as moedas saiam e eram trocadas por notas, e as notas iam parar no catálogo? Não era possível que ele soubesse de uma coisa dessas, mas enquanto ficava ali, deitado em sua cama, ouvindo Earth Angel substituir Twilight Time, ele soube que o catálogo estava lá. Ele sabia porque ela sabia, e isso havia passado pela cabeça dela. E na roda gigante, ele soubera que Carol queria que ele a beijasse novamente, porque aquele fora seu primeiro beijo de verdade dado por um menino, e ela não estivera prestando muita atenção; terminara antes mesmo dela percebê-lo. Mas não saber desse fato não era a mesma coisa que prever o futuro. — Não, foi apenas leitura de mentes. — ele sussurrou, e então sentiu o corpo tremer, como se suas queimaduras houvessem se transformado em gelo. Cuidado, Bobby-O, se não tiver cuidado acabará tão maluco quanto Ted com seus homens baixos. Ao longe, na praça da cidade, o relógio começou a badalar a décima hora. Bobby virou a cabeça e olhou para o relógio-alarme em seu criado-mundo. O Big Ben mostrou que eram nove e cinquenta e dois. Tudo bem, então o relógio da cidade está um pouco mais rápido, ou o meu está um pouco mais lento. Grande coisa, loira. Vá dormir. Ele não achou que poderia fazer isso, ao menos não por um tempo, mas fora um dia longo — discussões com sua mãe, dinheiro ganho em apostas com cartas, beijos no topo de uma roda gigante — e ele começou a deslizar prazerosamente. Talvez ela seja minha namorada, Bobby pensou. Talvez ela seja minha namorada, afinal de contas. Com a última badalada prematura do relógio da praça ainda ecoando pelo ar, Bobby adormeceu.

5

Bobby Lê o Jornal. Marrom, com o Peito Branco. A Grande Chance de Liz. Acampando na Rua Broad. Uma Semana Difícil. Indo para Providence.

NA SEGUNDA-FEIRA, depois que sua mãe havia saído para trabalhar, Bobby subiu as escadas para ler o jornal para Ted (embora seus olhos estivessem bons o bastante para fazer isto sozinho, Ted dissera que aprendera a gostar do som da voz de Bobby, e do luxo de lerem para ele enquanto se barbeava). Ted estava em seu pequeno banheiro com a porta aberta, limpando a espuma do rosto, enquanto Bobby tentava ler algumas das várias manchetes das várias seções. — “A GUERRA DO VIETNÃ COMEÇA A SE INTENSIFICAR”? — Antes do café da manhã? Obrigado, mas não. — “CARRINHOS SEQUESTRADOS, HOMEM LOCAL PRESO”? — Leia o primeiro parágrafo, Bobby. — “Quando a polícia apareceu em sua residência em Pond Lane ontem à noite, John T. Anderson, de Harwich, contou-lhes sobre seu passatempo, que ele diz ser colecionar carrinhos de supermercado. ‘Ele estava muito interessado no assunto...’, disse o Policial Kirby Malloy, do Distrito de Polícia de Harwich, ‘...mas não estávamos totalmente satisfeitos com sua desculpa de que havia conseguido alguns de seus carrinhos honestamente’. Acontece que Malloy ‘acertara na mosca’. Dos mais de cinquenta carrinhos no quintal do Sr. Anderson, pelo menos vinte haviam sido roubados do A&P de Harwich, e da Mercearia Total. Ainda havia alguns carrinhos do mercado IGA, em Stansbury”. — Basta. — Ted disse, lavando a lâmina sob a água quente, para levá-la ao seu pescoço coberto de espuma. — Humor extravagante de cidade pequena em resposta aos patéticos atos de furtos compulsivos. — Eu não te entendo. — O Sr. Anderson parece ser um homem que sofre de uma neurose, um problema mental, em outras palavras. Você acha que problemas mentais são uma coisa engraçada? — Puxa, não. Eu me sinto mal pelas pessoas que ficam com os parafusos soltos. — Fico feliz por ouvi-lo dizer isto. Eu já conheci pessoas cujos parafusos não tinham apenas se soltado, mas sumido completamente. Boas pessoas, na verdade. Normalmente, eles são patéticos, algumas vezes são inspiradores, e ocasionalmente assustadores, mas eles não são engraçados. “CARRINHOS SEQUESTRADOS”, deveras. O que mais temos? — “ESTRELA MORTA EM ACIDETE NAS ESTRADAS DA EUROPA”? — Credo, não. 17

— “YANKEES ADQUIREM INFIELDER EM TROCA COM SENADORES”? — Nada do que os Yankees fazem com os Senadores me interessa. — “ALBINI SABOREIA RÓTULO DE AZARÃO”? — Sim, por favor, leia essa. Ted ouviu atentamente enquanto barbeava o pescoço meticulosamente. Até mesmo Bobby achou-se fascinado pela história, que não era sobre Floyd Patterson, ou Ingemar Johansson, afinal de contas (Sully chamava o sueco peso-pesado de “Ingemaricas”), mas ele leu cautelosamente, não obstante. A luta de doze assaltos entre Tommy “Furacão” Haywood e Eddie Albini estava marcada para a noite de quarta-

feira da semana seguinte no Madison Square Garden. Ambos lutadores tinham bons recordes, mas a idade era considerada importante, talvez o fator mais eficaz: Haywood, vinte e três anos contra os trinta e seis de Eddie Albini, e um grande favorito. O vencedor poderia ter uma chance ao título de pesos-pesados deste outono, provavelmente a tempo de Richard Nixon ganhar a Presidência (a mãe de Bobby dissera que isso com certeza aconteceria, e que era uma boa coisa — não importava que Kennedy fosse católico, ele era jovem demais, e apto a ser um esquentadinho). No artigo, Albini dizia que entendia a razão de não ser considerado o favorito — ele estava envelhecendo e algumas pessoas achavam que ele era passado por ter perdido por nocaute técnico contra Sugar Boy Masters em sua última luta. E, é claro, ele sabia que Haywood o superava e devia ser considerado mais entendido, mesmo sendo tão jovem. Mas ele estava treinando duro, Albini dissera, pulando corda e lutando com um cara que se movia e lutava como Haywood. O artigo era cheio de palavras como jogo e determinado, Albini era descrito como sendo “cheio de garra”. Bobby podia entender que o jornalista achava que Albini iria sair nocauteado, e sentiu pena dele. Furacão Haywood não estava disponível para falar com o repórter, mas seu agente, um cara chamado I. Kleindienst (Ted ensinou a Bobby como pronunciar o nome), disse que provavelmente seria como a última luta de Eddie Albini. ‘Ele teve seu momento, mas já acabou’, I. Kleindienst dissera. ‘Se Eddie continuar de pé durante o sexto assalto, vou mandar meu garoto direto pra cama e sem jantar’. — Irving Kleindienst é um ka-mai. — Ted disse. — Um o quê? — Bobby perguntou. — Um tolo. — Ted olhava para a janela, em direção ao som do cão da Sra. O’Hara. Não totalmente apagado do jeito que às vezes ficava, mas distante. — Você o conhece? — Bobby perguntou. — Não, não. — Ted disse. Ele pareceu assustado com a ideia, a princípio, e depois estarrecido. — Conheço a laia dele. — Parece que esse Albini vai virar papa. — Nunca se sabe. É isto que faz a coisa ser interessante. — O que quer dizer? — Nada. Leia os quadrinhos, Bobby. Eu quero Flash Gordon. E me diga o que Dale Arden está vestindo. — Por quê? — Porque eu acho que ela é um pedaço de mau caminho. — Ted disse, e Bobby caiu na gargalhada. Ele não pôde evitar. Às vezes, Ted era uma peça rara.

***

No dia seguinte, no caminho de volta do Clube Sterling, onde havia preenchido os restos dos formulários para a temporada de verão de beisebol, Bobby avistou um cartaz impresso, cuidadosamente pregado a um olmo, no Parque Commonwealth.

POR FAVOR, AJUDE-NOS A ACHAR PHIL! PHIL é o nosso WELSH CORGI! PHIL tem 7 ANOS DE IDADE! PHIL é MARROM, com o PEITO BRANCO! Seus OLHOS são BRILHANTES E ESPERTOS! As PONTAS DE SUAS ORELHAS são NEGRAS! Ele lhe trará uma BOLA se você disser RÁPIDO PHIL!

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Não havia fotos de Phil. Bobby ficou olhando para o cartaz por um bom tempo. Parte dele queria correr para casa e contar para Ted — não só sobre isso, mas também sobre a lua crescente e a estrela que havia visto riscadas ao lado da amarelinha na calçada. Outra parte dele o lembrou de que havia várias outras coisas postadas no parque — ele podia ver uma propaganda de um concerto na praça da cidade, postada em outro olmo, logo do outro lado de onde estava — e ele seria louco se contasse a Ted sobre isto. Estes dois pensamentos brigaram entre si até parecerem dois bastões se esfregando um no outro, deixando seu cérebro em risco de pegar fogo. Eu não vou pensar nisto, ele disse a si mesmo, afastando-se do cartaz. E quando uma voz no fundo de sua mente — uma voz perigosamente adulta — protestou que ele estava sendo pago para pensar em coisas como esta, para falar sobre coisas como esta, Bobby mandou a voz se calar. E a voz se calou. Quando chegou em casa, sua mãe estava sentada na cadeira da varanda, novamente, desta vez, remendando as mangas de um vestido. Ela levantou a cabeça e Bobby viu a pele inchada abaixo de seus olhos, as pálpebras avermelhadas. Ela tinha um lenço dobrado em uma das mãos. — Mãe... O que há de errado?, foi como ele pensou em terminar... mas terminar não seria sábio. Provavelmente causaria problemas. Bobby já não tinha mais a percepção que tivera durante a viagem ao Rochedo Feliz, mas ele a conhecia — o jeito que ela olhava para ele quando estava estressada, o jeito como a mão com o lenço ficava tensa, quase se transformando num punho, o jeito como ela inspirava e sentava-se ereta, pronta pra sair no tapa, caso você quisesse desafiá-la. — O que foi? — ela perguntou. — Tem alguma coisa na cabeça além do cabelo? — Não. — ele disse. Sua voz soou envergonhada e estranhamente tímida para seus próprios ouvidos. — Eu estava no Clube Sterling. As inscrições para o beisebol estão abertas. Fiquei no time dos Lobos, novamente, neste verão. Ela assentiu e relaxou um pouco. — Tenho certeza que você entrará para o time dos Leões ano que vem. — ela tirou sua cesta de costura da cadeira, e pouso-a no chão, então deu tapinhas no lugar, agora vazio. — Sente-se aqui ao meu lado por um minuto, Bobby. Eu tenho algo para lhe contar. Bobby sentou com uma sensação de trepidação — ela estivera chorando, afinal, e soava um tanto grave, mas acabou não sendo nada de grave, ao menos não pelo que ele entendeu. — O Sr. Biderman — Don — me convidou para ir com ele, o Sr. Cushman, e o Sr. Dean para um seminário em Providence. É uma grande chance para mim. — O que é um seminário? — É uma espécie de reunião, onde as pessoas se juntam para aprender sobre um assunto e discutilo. A deste é “Corretagem nos Anos Sessenta”. Eu fiquei muito surpresa por Don me convidar. Bill Cushman e Curtin Dean, é claro que eu sabia que eles iriam, eles são corretores. Mas para Don pedir a mim... — ela vagou pelos pensamentos por um instante, então se virou para Bobby e sorriu. Ele achou que era um sorriso genuíno, mas ficava estranho com pálpebras avermelhadas. — Eu tenho querido ser uma corretora há um bom tempo, e agora isto, vindo do nada... é uma grande chance para mim, Bobby, e poderia significar uma grande mudança para nós.

Bobby sabia que sua mãe queria ser corretora. Ela tinha livros sobre o assunto, e lia um pouco deles quase toda noite, principalmente as partes grifadas. Mas se era uma chance tão grande assim, por que tinha de fazê-la chorar? — Ora, isso é bom. — ele disse. — Super legal. Espero que você aprenda muito. Quando vai ser? — Próxima semana. Nós quatro sairemos cedo na manhã de terça-feira, e voltaremos na quinta à noite, por volta das oito. Todos os encontros serão no Hotel Warwick, e é onde ficaremos. Don reservou os quartos. Eu não vou a um hotel há doze anos, eu acho. Estou um pouco nervoso. Estar nervoso fazia você chorar? Bobby pensou a respeito. Talvez, se você fosse um adulto, especialmente uma adulta. — Eu quero que você pergunte a S-J se pode ficar com ele da terça-feira até a noite de quarta. Tenho certeza que a Sra. Sullivan... Bobby balançou a cabeça. — Não vai dar. — E por que não? — Liz o fitou com um olhar irritado. — A Sra. Sullivan nunca se importou de ficar com você antes. Você não fez nada para irritá-la, fez? — Não. É só que S-J ganhou uma semana no Acampamento Winnie. — o som da frase quase o fez sorrir, mas ele segurou. Sua mãe ainda o fitava com aquele olhar irritado... e não havia também um pouco de pânico? Pânico ou coisa parecida? — O que é o Acampamento Winnie? Do que está falando? Bobby explicou sobre o prêmio de S-J e sobre a semana gratuita no Acampemento Winiwinaia, e como a Sra. Sullivan iria visitar seus pais em Wisconsin enquanto isso, planos que agora já estavam concretizados — com direito ao Grande Cão Cinzento e tudo mais. — Droga, esta é minha sorte de sempre. — sua mãe disse. Ela quase nunca xingava. Dizia que xingar e falar o que ela chamava de “papo sujo” eram a linguagem dos ignorantes. Ela fechou a mão e bateu no braço da cadeira. — Mas que droga! Ela permaneceu sentada por um momento, pensando. Bobby também pensou. Sua única outra amiga próxima na rua era Carol, e ele duvidava que sua mãe ligasse para Anita Gerber para perguntar se ele poderia ficar lá. Carol era uma garota, e, de algum modo, isso fazia a diferença quando o assunto era dormir em casas alheias. Uma das amigas ou amigos de sua mãe? A coisa era que ela não tinha nenhum... exceto Don Biderman (e talvez os outros dois que iam ao seminário em Providence). Já era muita intimidade se ela desse “oi” para as pessoas enquanto voltavam do supermercado, ou quando iam ao cinema na sexta à noite; também não havia parentes, ou pelo menos nenhum que Bobby conhecesse. Como pessoas viajando em estradas convergentes, Bobby e sua mãe pensavam gradualmente nas mesmas coisas. Bobby chegava lá primeiro, só por um segundo ou dois. — E quanto a Ted? — ele perguntou, e então quase tapou a boca com a mão. Na verdade, ela já tinha saído de seu bolso. Sua mãe assistiu à sua mão voltar ao lugar, com o retorno de seu velho e cínico meio-sorriso, aquele que usava quando dispensava ditados como Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura, ou Dois homens olharam através das grades da prisão, um viu sujeira, o outro viu as estrelas, e claro, a sua favorita, A vida não é justa. — Acha que eu não sei que você o chama de Ted quando estão juntos? — ela perguntou. — Você deve achar que estou tomando pílulas para idiotas, Bobby-O. — ela olhou para a rua. Um Chrysler de Nova York passou vagarosamente — barbatanas na traseira, pneus revestidos, e realçado em cromo. Bobby assistiu-o sumir de vista. O homem por trás do volante era enrugado e grisalho, e vestia uma jaqueta azul. Bobby achou que ele era provavelmente uma pessoa normal. Velho, mas não mau.

— Talvez dê certo. — Liz disse, enfim. Ela falou pensativamente, mais para si mesma do que para seu filho. — Vamos falar com Brautigan e ver. Seguindo-a escada acima para o terceiro andar, Bobby ficou imaginando há quanto tempo ela havia aprendido a falar o nome de Ted corretamente. Uma semana? Um mês? Desde o começo, Dumbo, ele pensou. Desde o primeiríssimo dia.

***

A ideia inicial de Bobby era que Ted ficaria em seu próprio quarto no terceiro andar, enquanto Bobby ficaria em seu apartamento no primeiro andar; ambos deixariam as portas abertas, e se algum deles precisasse de alguma coisa, chamaria um pelo outro. — Eu não creio que os Kilgallens ou os Proskys gostariam de ouvi-lo gritar pelo Sr. Brautigan às três da manhã porque teve pesadelos. — Liz disse, azedamente. Os Kilgallens e os Proskys tinham dois pequenos apartamentos no segundo andar; Liz e Bobby não tinham amizade com nenhum deles. — Eu não terei pesadelos. — Bobby disse, profundamente humilhado por ser tratado como uma criancinha. — Quero dizer, carambolas. — Poupe-me. — disse sua mãe. Eles estavam sentados na mesa da cozinha de Ted, os dois adultos fumavam, e Bobby tinha um refresco na mão. — Não é uma boa ideia. — Ted lhe disse. — Você é um bom garoto, Bobby, responsável e maduro, mas onze anos é muito pouco para dar conta de si mesmo, eu acho. Bobby achou bem mais fácil ser chamado de “jovem demais” por seu amigo do que por sua mãe. Ele também tinha que admitir que seria bem assustador acordar depois da meia-noite e ir ao banheiro sabendo que era a única pessoa no apartamento. Ele conseguiria fazê-lo, não tinha dúvidas disso, mas sim, seria assustador. — E quanto ao sofá? — ele perguntou. — É só puxá-lo que ele vira uma cama, não é? — eles nunca o haviam usado para isso, mas Bobby tinha certeza de que sua mãe lhe dissera isso uma vez. Ele estava certo, e isso resolveu o problema. Ela provavelmente não queria que Bobby ficasse em sua cama (e deixar “Brattigan” fora de vista), e ela realmente não queria que Bobby ficasse aqui, neste quarto tão quente no terceiro andar — disso ele tinha certeza. Ele percebeu que ela estivera procurando tanto por uma solução, que havia passado batida pela mais óbvia. Então ficou decidido que Ted passaria as noites de terça e quarta-feira da semana seguinte no sofácama da sala de estar dos Garfield. Bobby estava ansioso pela perspectiva: ele teria dois dias só pra ele — três, contando com a quinta-feira — e haveria alguém com ele à noite, quando as coisas ficavam assustadoras. Não uma babá, mas um amigo adulto. Não era a mesma coisa que Sully-John ir ao Acampamento Winnie por uma semana, mas de certo modo era. Acampamento Rua Broad, Bobby pensou, e quase riu alto. — Nós nos divertiremos. — Ted disse. — Eu farei minha famosa caçarola de feijões. — ele se aproximou de Bobby e lhe fez um cafuné no cocuruto. — Se vai cozinhar feijões, seria inteligente usar isso. — sua mãe disse, apontando, com os dedos que seguravam o cigarro, para o ventilador de Ted. Ted e Bobby riram. Liz Garfield deu seu meio-sorriso cínico, finalizou seu cigarro e o colocou no cinzeiro de Ted. Quando ela o fez, Bobby notou o inchado de suas pálpebras, novamente. Enquanto Bobby e sua mãe desciam as escadas de volta ao seu apartamento, Bobby lembrou-se do cartaz visto no parque—o Corgi desaparecido que lhe traria uma BOLA se você dissesse RÁPIDO PHIL. Ele deveria contar a Ted sobre o cartaz. Ele deveria contar a Ted sobre tudo. Mas se ele fizesse isso e

Ted deixasse o nº 149, quem ficaria com ele na próxima semana? O que aconteceria com o Acampamento da Rua Broad, dois camaradas comeriam a famosa caçarola de feijões de Ted no jantar (e, talvez, em frente à TV, o que sua mãe raramente permitia), e depois ficariam acordados até tarde? Bobby fez uma promessa a si mesmo: ele iria contar tudo para Ted na sextafeira seguinte, depois que sua mãe voltasse da conferência, ou seminário, ou o que quer que fosse. Ele faria um relatório completo e Ted faria o que precisasse fazer. Podia ser que mesmo assim ele ficasse. Com esta decisão, a mente de Bobby incrivelmente se clareou, e quando viu, dois dias depois, o cartão de “À VENDA” de cabeça para baixo no quadro de avisos da Mercearia Total (sobre uma máquina que secava e lavava pratos), ele conseguiu tirá-lo do pensamento quase que imediatamente.

***

Não obstante, aquela foi uma semana difícil para Bobby Garfield, muito difícil mesmo. Ele viu mais dois cartazes de animais perdidos, um no centro e o outro na Avenida Asher, meio quilômetro após o Império Asher (o bloco em que vivia já não era mais o bastante; ele viu-se indo cada vez mais longe em suas viagens diárias de vigia). E Ted começou a ter aqueles estranhos apagões mais frequentemente. Eles duravam mais agora. Às vezes, ele falava enquanto estava naquele distante estado da mente, e nem sempre em inglês. Quando falava em inglês, o que ele dizia nem sempre fazia sentido. Na maior parte do tempo, Bobby achava que Ted era um dos caras mais sãos, espertos e agradáveis que já havia conhecido. Mas quando ele apagava, era assustador. Pelo menos sua mãe não sabia disso. Bobby não achou que ela ficaria feliz com a ideia de deixá-lo com um cara que, às vezes, capotava na realidade e começava a falar coisas sem sentido, fosse em inglês ou outra em língua qualquer. Em um destes lapsos, quando Ted não fez nada por quase um minuto e meio, a não ser olhar para o vazio, sem dar respostas às questões cada vez mais agitadas de Bobby, ocorreu a Bobby que talvez Ted não estivesse dentro de sua própria cabeça, mas em algum outro mundo — que ele havia saído da Terra, do mesmo modo como as pessoas em O Anel ao Redor do Sol, que descobriram que podiam seguir as espirais nas cabeças das crianças para ir aonde quisessem. Ted segurava um Chesterfield entre os dedos quando apagara; as cinzas aumentaram e eventualmente caíram na mesa. Quando a brasa começou a se aproximar das juntas curvadas de Ted, Bobby tirou-o gentilmente e o amassou no transbordante cinzeiro, quando Ted finalmente voltou. — Fumando? — ele perguntou com uma careta. — Diabos, Bobby, você é jovem demais para fumar. — Eu só o estava apagando para você. Eu achei que... — Bobby deu de ombros, subitamente envergonhado. Ted olhou para os dois primeiros dedos de sua mão direita, onde havia uma permanente mancha amarela de nicotina. Ele riu — um curto latido com absolutamente zero de humor. — Achou que eu iria me queimar, não foi? Bobby assentiu. — No que você pensa quando se desliga desse jeito? Para onde você vai? — É difícil de explicar. — Ted respondeu, então pediu para Bobby ler o horóscopo. Pensar sobre os transes de Ted o distraia. Não falar sobre as coisas que Ted o pagava para vigiar o distraia ainda mais. Como resultado, Bobby, normalmente um bom rebatedor, errou quatro vezes em um jogo matinal dos Lobos, no Clube Sterling. Ele também perdeu quatro partidas seguidas de Batalha Naval para Sully, sexta-feira na casa de S-J, quando choveu. — O que há de errado com você? — Sully perguntou. — Esta é a terceira vez que você atira em um

lugar que já atirou antes. E também eu estou tendo que praticamente berrar em seu ouvido para que você me responda. O que há? — Nada. — foi o que ele disse. Tudo, foi o que ele sentiu. Carol também perguntou algumas vezes na semana se ele estava bem; a Sra. Gerber perguntou se 18

ele estava sem comer; Yvonne Loving quis saber se ele havia contraído mono , e riu histericamente até parecer a ponto de explodir. A única pessoa que não percebeu o estranho comportamento de Bobby foi sua mãe. Liz Garfield estava muito preocupada com sua viagem à Providence, ora falando ao telefone de noite com o Sr. Biderman, ou com um dos outros dois que também iam (Bill Cushman era um deles; Bobby não conseguia se lembrar do nome do outro cara), ora espalhando suas roupas na cama até que ela estivesse quase transbordando, apenas para balançar a cabeça ao vê-las, furiosa, e devolvê-las ao guarda-roupa, ora marcando uma hora para fazer o cabelo, e logo ligando novamente para a moça para perguntar se poderia adicionar uma manicure. Bobby nem mesmo tinha certeza do que era uma manicure. Ele tinha de perguntar a Ted. Ela parecia excitada com os preparativos, mas também havia algo de sombrio nela. Era como se ela fosse um soldado pronto para invadir a praia inimiga, ou um soldado paraquedista que em breve estaria pulando de um avião e aterrissando atrás das linhas inimigas. Uma de suas conversas noturnas ao telefone pareceu ser uma discussão sussurrada — Bobby imaginava que fosse o Sr. Biderman, mas não tinha certeza. No sábado, Bobby entrou no quarto dela e a flagrou olhando para dois vestidos — vestidos finos — um com alças nos ombros e o outro sem alças, como uma roupa de banho. As caixas, nas quais eles haviam chegado, jaziam tombadas ao chão, com pedaços de isopor caindo delas. Sua mãe estava ante seus vestidos, olhando para eles com uma expressão que Bobby nunca havia visto: olhos grandes, sobrancelhas aproximadas uma da outra, bochechas pálidas e tensas, coloridas de rouge. Um cigarro ardia em fogo lento num cinzeiro na cômoda, aparentemente esquecido. Seus grandes olhos iam de um vestido ao outro. — Mãe? — Bobby perguntou, e ela pulou—literalmente pulou no ar. Ela se virou para ele, com sua boca repuxada numa careta. — Jesus Cristo! — ela quase rosnou. — Não sabe bater? — ele se desculpou e começou a recuar. Sua mãe nunca havia lhe dito nada sobre bater antes. — Mãe, você está bem? — Ótima! — ela viu o cigarro, o pegou, e fumou furiosamente. Ela exalou com tanta força que Bobby quase esperou ver fumaça saindo de seus ouvidos, nariz e boca. — Estaria melhor se pudesse 19

achar um vestido de festa que não me deixasse parecendo Elsie, a Vaca . Houve um tempo em que eu vestia tamanho seis, sabia disso? Antes de casar com seu pai, meu tamanho era seis. Agora, olhe para mim! Elsie, a Vaca! Uma verdadeira Moby Dick! — Mãe, você não está gorda. Na verdade, ultimamente você parece... — Saia, Bobby. Por favor, deixe sua mãe em paz. Eu estou com dor de cabeça. Naquela noite, ele a ouviu chorar novamente. No dia seguinte, ele a viu colocando cuidadosamente um dos vestidos em sua bagagem — o de alças. O outro voltou para a caixa da loja: VESTIDOS DA LUCIE DE BRIDGEPORT, estava escrito na frente, em uma caligrafia elegante e amarronzada. Na noite de segunda-feira, Liz convidou Ted Brautigan para jantar com eles. Bobby adorava o bolo de carne de sua mãe, e normalmente pedia por mais, mas, desta vez, ele teve de se esforçar para engolir um único pedaço. Ele estava apavorado com a possibilidade de Ted entrar em transe, o que provocaria um chilique em sua mãe.

Seus temores provaram-se desnecessários. Ted começou uma conversa agradável sobre sua infância em Nova Jersey e, quando a mãe de Bobby questionou, sobre seu emprego em Hartford. Para Bobby, ele pareceu menos confortável falando sobre contabilidade do que com velhas histórias sobre seus passeios de trenó quando criança, mas sua mãe não pareceu notar. Ted pediu por uma segunda fatia do bolo de carne. Quando o jantar havia terminado e a mesa estava limpa, Liz deu a Ted uma lista de números telefônicos, incluindo o do Dr. Gordon, o do escritório do diretor do Clube Sterling, e o do Hotel Warwick. — Se houver algum problema, eu vou querer saber. Certo? Ted assentiu. — Certo. — Bobby? Sem preocupações? — ela pôs sua mão brevemente na testa dele, do jeito que fazia quando ele reclamava que estava se sentindo febril. — Nenhuma. Nós nos divertiremos a valer. Não é, Sr. Brautigan? — Oh, chame-o de Ted. — Liz quase repreendeu. — Se ele vai dormir em nossa sala de estar, acho melhor também chamá-lo de Ted. Posso? — Deveras pode. Deixe que seja Ted de agora em diante. Ele sorriu. Bobby achou que fora um sorriso doce, sincero e amigável. Ele não entendia como alguém poderia resistir a ele. Mas sua mãe podia, e o fez. Mesmo agora, enquanto devolvia o sorriso de Ted, ele viu sua mão com o lencinho contraindo-se e relaxando, naquele velho gesto familiar de ansioso desprazer. Um de seus ditados favoritos veio à mente de Bobby: Eu confiarei nele (ou nela) quando conseguir levantar um piano. — E de agora em diante, eu sou Liz. — ela estendeu a mão através da mesa e eles se cumprimentaram como pessoas que estavam se vendo pela primeira vez... só que Bobby sabia que a ideia de sua mãe acerca de Ted Brautigan já fora formada. Se não estivesse contra a parede, ela nunca teria confiado Bobby a ele. Nem em um milhão de anos. Ela abriu a bolsa e tirou um envelope branco. — Há dez dólares aqui. — ela disse, entregando o envelope a Ted. — Os rapazes vão querer jantar fora pelo menos uma vez, eu imagino. Bobby gosta do Café Colônia, se estiver tudo bem para você, e talvez também queiram ir ao cinema. Eu não sei o que mais pode acontecer, mas é melhor deixar uma reserva, não acha? — Seguro morreu de velho. — Ted concordou, guardando o envelope com cuidado em seu bolso da frente. — Mas eu não espero que gastemos todos os dez dólares em três dias, não é, Bobby? — Puxa, não, não vejo como poderíamos. — Se não os desperdiçar, deles não vão precisar. — Liz disse. Era um de seus favoritos, quase empatado com o tolo e seu dinheiro logo se separam. Ela tirou um cigarro do maço na mesa ao lado do sofá e o acendeu com uma mão que não estava muito firme. — Vocês ficarão bem. Provavelmente vão se divertir mais do que eu. Olhando para as unhas esfrangalhadas e roídas dela, Bobby pensou: Pode apostar que sim.

***

Sua mãe e os outros iam para Providence no carro do Sr. Biderman, e às sete horas da manhã seguinte, Liz e Bobby Garfield estavam a postos na varanda, esperando que ele chegasse. O ar possuía aquele vago silêncio matinal que significava que os dias quentes de verão haviam chegado. Da Avenida

Asher veio a barulheira de um trânsito pesado que anunciava que as pessoas estavam indo trabalhar, mas aqui embaixo, na Broad, só havia ocasionais carros e caminhões de entrega. Bobby podia ouvir os barulhos dos irrigadores, e do outro lado do bloco, dos intermináveis latidos de Bowser. Bowser soava sempre do mesmo jeito, não importava se fosse junho ou janeiro; para Bobby Garfield, Bowser parecia um deus imutável. — Você não precisa esperar aqui fora comigo, sabe disso. — Liz disse. Ela vestia um casaco claro e fumava um cigarro. Ela usava mais maquiagem do que o normal, mas Bobby achou que podia detectar olheiras — ela havia passado mais uma noite em claro. — Eu não me importo. — Espero que esteja tudo bem, em deixá-lo com ele. — Eu queria que você não se preocupasse, Ted é um cara legal, mãe. Ela deu um muxoxo impaciente. Surgiu uma centelha de cromo no pé da ladeira enquanto o Mercury do Sr. Biderman (não vulgar, exatamente, mas um carro bem chamativo, mesmo assim) virava na rua deles pela Commonwealth, e subia a ladeira em direção ao número 149. — Lá está ele, lá está ele. — disse sua mãe, soando nervosa e excitada. Ela se inclinou. — Dê-me um beijo, Bobby. Eu não quero te beijar e borrar meu batom. Bobby pôs sua mão no braço dela e suavemente beijou sua bochecha. Ele cheirou seu cabelo, o perfume que ela usava, seu pó de maquiagem; ele nunca mais a beijaria com aquele amor puro novamente. Ela lhe deu um sorriso mínimo e vago, não olhando para ele, e sim para o carrão do Sr. Biderman, que deslizou graciosamente pela rua e encostou ao meiofio à frente da casa. Ela foi pegar suas duas malas (duas pareciam muito para dois dias, Bobby pensou, embora achasse que o vestido chique houvesse tomado uma boa parte do espaço de uma delas), mas ele já as havia pegado pelas alças. — Essas são muito pesadas, Bobby, você vai acabar tropeçando. — Não. — ele disse. — Não vou. Ela olhou distraidamente, então acenou para o Sr. Biderman e caminhou em direção ao carro, o salto-alto estalando. Bobby a seguiu, tentando não fazer careta por causa do peso das malas... o que ela havia colocado nelas, roupas ou tijolos? Ele as levou até a calçada conseguindo não parar para descansar. O Sr. Biderman já saíra do carro, primeiro dando um beijo casual na bochecha de sua mãe, e depois tirando a chave para abrir a mala do carro. — Como é que vai, garotão, como vai essa força? — o Sr. Biderman sempre chamava Bobby de “garotão”. — Traga-as para cá e eu as colocarei no carro. As mulheres sempre têm de cuidar de tudo, não é? Bem, você conhece o velho ditado, não se pode viver com elas, não se pode atirar nelas fora do estado de Montana. — ele arreganhou os dentes num sorriso que fez Bobby pensar em Jack, de Senhor das Moscas. — Quer que eu carregue uma delas? — Eu já peguei. — Bobby disse. Ele marchou com dificuldade ante a vigília do Sr. Biderman, com os ombros doendo e a nunca quente, começando a suar. O Sr. Biderman abriu o bagageiro, pegou as malas das mãos de Bobby, e as colocou junto com o resto da bagagem. Atrás deles, sua mãe olhava pela janela do banco de trás e falava com os outros dois homens com quem iam. Ela riu de alguma coisa que um deles disse. Para Bobby, o riso soou tão real quanto uma perna de madeira. O Sr. Biderman fechou a mala e olhou para Bobby. Ele era um homem esguio com um rosto grande. Suas bochechas estavam sempre ruborizadas. Era possível ver escalpo rosado nos caminhos deixados

pelos dentes de seu pente. Ele usava pequenos óculos redondos com aros dourados. Para Bobby, o sorriso dela parecia tão real quanto o riso de sua mãe. — Vai jogar beisebol neste verão, garotão? — Don Biderman se colocou em posição de rebatedor, e rebateu com um taco imaginário. Bobby achou que ele parecia um banana. — Sim, senhor. Eu sou um dos Lobos do Clube Sterling. Eu esperava entrar nos Leões, mas... — Bom. Bom. — o Sr. Biderman olhou para seu relógio — o grande Twist- O-Flex de ouro estava resplandecente à luz da manhã — e então deu uns tapinhas leves na bochecha de Bobby. Bobby teve de fazer um esforço consciente para não recuar ao toque. — Então, temos que pôr este vagão para andar! Cuide-se, garotão. Obrigado por emprestar sua mãe. Ele se virou e acompanhou Liz até o outro lado do passageiro do Mercury. Ele fez isso com uma das mãos pressionada contra as costas dela. Bobby gostou menos disso do que vê-lo dar um beijo na bochecha dela. Ele espiou os engomadinhos no banco de trás — Dean era o nome do outro cara, ele se lembrou — bem a tempo de vê-los se acotovelando maliciosamente. Ambos sorriam. Tem algo de errado aqui, Bobby pensou, e, enquanto o Sr. Biderman abria a porta do passageiro para sua mãe e ela murmurava um agradecimento ao entrar, segurando o vestido para não amassar, ele sentiu-se impelido a gritar para que ela não fosse, Rhode Island era longe demais, Bridgeport seria longe demais, ela precisava ficar em casa. Mas ele não fez nada, exceto ficar parado ao meio-fio, enquanto o Sr. Biderman fechava a porta dela, e dava a volta para entrar no lado do motorista. Ele abriu a porta, parou, então fez aquela imitação ridícula de batedor novamente. Desta vez, ele produziu um assobio horroroso. Que babaca, Bobby pensou. — Não fala nada que eu não faria, garotão. — ele disse. — Mas se fizer, diga que fui eu. — Cushman disse, do banco traseiro. Bobby não sabia exatamente o que isso quer dizer, mas deve ter sido engraçado porque Dean riu e o Sr. Biderman lhe lançou aquele tipo de piscadela “fica-só-entre-nós”. Sua mãe se inclinou pela janela. — Seja um bom menino, Bobby. — ela disse. — Eu voltarei à noite, por volta das oito horas da quinta-feira, no máximo antes das dez. Tem certeza de que está bem com isso? Não. Não estou bem com isso. Não vá com eles. Mamãe, não vá com o Sr. Biderman e com esses dois bananas sorridentes sentados atrás de vocês. Esses dois babacas. Por favor, não vá. — Claro que está. — o Sr. Biderman disse. — Ele é um garotão. Não é, garotão? — Sim. — ele disse. — Eu sou um garotão. O Sr. Biderman riu feito louco (mate o porco, corte sua garganta, Bobby pensou) e ligou o Mercury. “Providence, vamos nessa!”, ele berrou, e o carro deixou o meio- fio, fez o retorno na Rua Broad e seguiu em frente, em direção à Asher. Bobby continuou parado onde estava, acenando, enquanto o Mercury passava pela casa de Carol e depois pela de Sully-John. Ele sentiu como se houvesse um osso dentro de seu coração. Se esta era uma espécie de premonição — um pressentimento — ele nunca mais queria ter outra. Uma mão caiu sobre seu ombro. Ele olhou para trás e viu Ted de roupão e chinelos, fumando um cigarro. Seu cabelo, que ainda tinha um compromisso com o pente naquela manhã, emaranhava suas orelhas em cômicos arrepios de branco. — Então, aquele era o chefe. — ele disse. — Sr... Bidermeyer, não é? — Biderman. — E o que você acha dele, Bobby? Falando com clareza baixa e amarga, Bobby disse:

— Eu confiarei nele quando conseguir levantar um piano.

6

Um Velho Tarado. A Caçarola de Ted. Um Sonho Ruim. A Aldeia dos Amaldiçoados. Submundo.

MAIS OU MENOS UMA HORA APÓS VER SUA MÃE IR, Bobby desceu até o Campo B, atrás do Clube Sterling. Só haveria jogos à tarde, por enquanto nada, a não ser brincadeiras de rebatidas ou lançamentos, mas até isso era melhor do que nada. No Campo A, ao norte, as criancinhas estavam jogando algo que vagamente lembrava beisebol; no Campo C, ao sul, alguns garotos do ensino médio faziam algo muito aproximado de um jogo de beisebol. Pouco depois do relógio do parque da cidade apontar meio-dia, e dos garotos saírem em disparada procurando o carrinho de cachorro-quente, Bill Pratt perguntou, “Quem é aquele cara estranho ali?”. Ele apontava para um banco na sombra. E, embora Ted estivesse usando um casaco, um velho chapéu fedora e óculos escuros, Bobby o reconheceu de imediato. Ele imaginou que S-J também o reconheceria, se S-J não estivesse no Acampamento Winnie. Bobby quase levantou uma mão para acenar, então parou, porque Ted estava disfarçado. Ainda assim, ele tinha vindo ver seu amigo do andar de baixo jogar bola. Mesmo não sendo um jogo de verdade, Bobby sentiu uma inchação absurdamente grande crescer em sua garganta. Sua mãe só viera vê-lo uma vez nos dois anos em que jogara — no último agosto, quando seu time havia jogado no Campeonato das Três Cidades — e mesmo assim, ela teve de ir embora no quarto tempo, antes de Bobby fazer a jogada que decidira a partida. Alguém tem de trabalhar por aqui, Bobby-O, ela teria respondido se ele ousasse se aproximar dela para reclamar. Seu pai não nos deixou exatamente bens, entende. Era verdade, é claro, ela tinha de trabalhar, e Ted estava aposentado. Exceto que Ted tinha de ficar fora da vista dos homens baixos em casacos amarelos, e esse era um trabalho que tomava o dia todo. O fato de que eles não existiam não importava. Ted acreditava que existiam... mas havia saído, só para vê-lo jogar, mesmo assim. — Provavelmente algum velho tarado querendo fazer uma chupeta numa dessas criancinhas. — Harry Shaw disse. Harry era baixo e forte, um garoto atravessando a vida com um queixo protuberante. Estar com Bill e Harry deixou Bobby subitamente enjoado de saudade de Sully-John, que havia partido no ônibus para o Acampamento Winnie na manhã de segunda-feira (no desanimador horário das cinco da manhã). S-J não era muito temperamental, e era gentil. Às vezes, Bobby achava que essa era a maior qualidade de Sully — ele era gentil. Do Campo C veio o forte som de uma tacada — um som de uma grande pancada que nenhum dos meninos do Campo B seria capaz de produzir ainda. Isso foi seguido por selvagens urros de aprovação concedidos por Bill e Harry. Bobby olhou naquela direção, um pouco nervoso. — Os garotos do St. Gabe. — Bill disse. — Eles acham que são os donos do Campo C. — Babacas nojentos. — Harry disse. — Esses nojentos, eu poderia derrubar qualquer um deles. — E quanto a quinze ou vinte? — Bill perguntou, e Harry se calou. Mais a frente, brilhando como um espelho, estava o carrinho de cachorro-quente. Bobby tocou o dinheiro em seu bolso. Ted o havia lhe dado, tirando do envelope que sua mãe havia deixado, para então colocá-lo atrás da torradeira, dizendo a Bobby para pegar o que precisasse, quando precisasse. Bobby ficou quase exaltado por esse nível de confiança. — Olhem pelo lado bom. — Bill disse. — Talvez alguns desses garotos do St. Gabe batam naquele velho tarado.

Quando chegaram ao carrinho, Bobby comprou apenas um cachorro-quente, em vez dos dois que ele havia planejado. Seu apetite parecia ter minguado. Quando voltaram ao Campo B, onde os treinadores dos Lobos agora apareciam com o carrinho dos equipamentos, o banco no qual Ted estivera sentado estava vazio. — Venham! — o treinador Terrell chamou, batendo palmas. — Quem quer jogar beisebol?

***

Naquela noite, Ted cozinhou sua famosa caçarola no forno dos Garfield. Isso faria aquele cachorro-quente latir, mas no verão de 1960, Bobby Garfield poderia comer cachorros-quentes três vezes ao dia, e mais um, na hora de dormir. Ele leu algumas coisas para Ted no jornal enquanto seu amigo aprontava o jantar. Ted só queria ouvir alguns parágrafos sobre a inevitável revanche entre Patterson e Johansson, aquela que todos chamavam de “luta do século”, mas ele quis ouvir todas as palavras do artigo sobre a luta da noite do dia seguinte entre Albini e Haywood, no Madison Square Garden, em Nova York. Bobby achou que isso era meio esquisito, mas ele estava feliz demais para fazer qualquer comentário, quanto mais reclamar. Ele não se lembrava de ter passado uma noite sem sua mãe, e sentia saudades dela, mas ao mesmo tempo, ele estava aliviado por ela estar fora por um tempinho. Havia uma estranha espécie de tensão correndo entre os apartamentos há semanas, talvez meses. Era como um zumbido elétrico tão constante que você se acostumava e nem percebia como isso havia se tornado parte de sua vida até que sumisse. Tal pensamento lhe trouxe à mente mais um dos ditados de sua mãe. — No que está pensando? — Ted perguntou, enquanto Bobby vinha para pegar os pratos. — A mudança é tão boa como um descanso. — Bobby respondeu. — É algo que minha mãe diz. Eu espero que ela esteja se divertindo tanto quanto eu. — E eu também espero, Bobby. — Ted disse. Ele se inclinou, abriu o forno e checou o jantar. — Eu também.

***

A caçarola estava maravilhosa, com o feijão em lata da B&M — a única marca que Bobby realmente gostava — e exóticos pedacinhos apimentados de salsicha, não do supermercado, mas do açougueiro perto da praça da cidade (Bobby achou que Ted os comprara enquanto estava “disfarçado”). Tudo isso veio acompanhado por um tempero de rábano-picante que esquentava sua boca e te fazia se sentir meio suado no rosto. Ted comeu duas porções; Bobby comeu três, lavando-as em sua garganta com vários goles de suco de uva. Ted apagou uma vez durante a refeição, primeiro dizendo que podia senti-los atrás de seus olhos, então começou a falar ou numa língua estrangeira, ou apenas palavras sem sentidos, mas o incidente foi breve e não fez a menor diferença ao apetite de Bobby. Os apagões eram parte de Ted, só isso, assim como seu andar arrastado, e a mancha de nicotina entre seus dois primeiros dedos da mão direita. Eles lavaram a louça juntos, Ted guardou as sobras da caçarola na geladeira e lavou os pratos, Bobby secou e guardou as coisas porque sabia o lugar a que todas elas pertenciam. — Interessado em me acompanhar numa viagem a Bridgeport amanhã? — Ted perguntou, enquanto trabalhavam. — Poderíamos ir ao cinema — na matinê de cedo — e depois disso eu terei de cuidar de um assunto. — Carambola, sim! — Bobby disse. — O que você quer ver? — Estou aberto a sugestões, mas eu estava pensando em, talvez, A Aldeia dos Amaldiçoados, é um

filme britânico. É baseado num ótimo romance de ficção-científica de John Wyndham. Acha que seria bom? A princípio, Bobby ficou tão excitado que nem pôde falar. Ele havia visto propagandas de A Aldeia dos Amaldiçoados no jornal — todas aquelas crianças de semblante assustador e com os olhos brilhantes — mas ele não havia pensado que iria assisti-lo de fato. Com certeza não era o tipo de matinê sabatina que o Império Asher ou o Square exibiriam em Harwich. Matinês nestes cinemas consistiam, na maioria das vezes, em mostrar filmes de grandes insetos monstruosos, faroestes, ou filmes de guerra estrelados por Audie Murphy. E embora sua mãe o levasse se fosse assistir a outra coisa mais tarde, ela não gostava de ficção-científica (Liz gostava das melancólicas histórias de amor, como Sombras no Fim da Escada). E também, os cinemas em Bridgeport não eram como o velho e antiquado Harwich, ou como o Império, metódico de certa forma, com sua singela e modesta marquise. Os cinemas em Bridgeport eram como castelos em contos de fadas—eles tinham grandes telões (com enormes cortinas aveludadas que os cobriam entre as exibições), tetos onde pequenas luzes piscavam numa exuberância galáctica, arandelas elétricas e brilhantes... e dois camarotes. — Bobby? — Pode apostar! — ele disse, finalmente, pensando que provavelmente não dormiria naquela noite. — Eu adorei. Mas você não tem medo dos... você sabe... — Vamos tomar um táxi, em vez de um ônibus. Eu posso ligar para outro táxi nos trazer de volta para casa depois. Nós ficaremos bem. De qualquer forma, acho que eles estão se afastando agora. Eu não os sinto claramente. Ainda assim, Ted olhou para longe quando disse isso, e, para Bobby, ele pareceu um homem tentando contar uma história a si mesmo, sabendo, no fundo, que era mentira. Se a crescente frequência de apagões significa alguma coisa, Bobby pensou, ele tem uma boa razão pra ficar com essa cara. Pare, os homens baixos não existem, eles não são mais reais do que Flash Gordon ou Dale Arden. As coisas que ele pediu para você vigiar são apenas... apenas coisas. Lembre-se disso, BobbyO: são apenas coisas ordinárias. Com o jantar retirado, os dois se sentaram para assistir a Bronco, com Ty Hardin. Não era o melhor dos chamados “faroestes para adultos” (Cheyenne e Maverick eram os melhores), mas não era ruim. Na metade do programa, Bobby soltou um peido relativamente alto. A caçarola de Ted já começara a trabalhar. Ele espiou pelo canto do olho para se certificar de que Ted não estava apertando o nariz e fazendo careta. Nada, estava apenas vendo a televisão, aparentemente absorto. Quando um comercial foi exibido (alguma atriz vendendo refrigerantes), Ted perguntou a Bobby se ele gostaria de um copo de refresco. Bobby disse que tudo bem. — Acho que vou tomar um daqueles antiácidos que vi no banheiro, Bobby. Eu acho que posso ter exagerado na comida. Enquanto levantava, Ted deixou escapar um longo e sonoro peido que soou como um trombone. Bobby escondeu a boca com as mãos e riu. Ted sorriu apologeticamente e deixou a sala. As risadas de Bobby forçaram a saída de mais peidos, um pequeno fluxo de apitos, e quando Ted voltou com a garrafinha de antiácido em uma mão e uma garrafa espumante de refresco na outra, Bobby ria tanto que lágrimas escorriam por suas bochechas, pendurando-se em seu maxilar como gotas de chuva. — Isto deve nos ajudar a melhorar. — Ted disse, e ao se inclinar para dar o refresco a Bobby, uma longa buzina soou atrás dele. — Um ganso acaba de voar para fora de minha bunda. — ele adicionou, como se contando um fato, e Bobby riu tanto que não conseguiu mais ficar sentado em sua cadeira. Ele deslizou da cadeira, caindo mole no chão. — Eu volto logo. — Ted disse. — Há algo mais de que precisamos.

Ele deixou a porta aberta entre o apartamento e a sala de estar, para que Bobby pudesse ouvi-lo subir as escadas. Quando Ted chegou ao terceiro andar, Bobby já havia conseguido subir em sua cadeira novamente. Ele achou que nunca havia rido tanto em sua vida. Bebeu mais um pouco, e peidou de novo. — Um ganso acaba de... acaba de voar... — mas ele não conseguiu terminar. Guinou para trás uivando e balançando a cabeça. As escadas rangeram enquanto Ted voltava. Quando adentrou no apartamento, ele tinha seu ventilador, com o fio enrolado na base, sob um braço. — Sua mãe estava certa sobre isso. — ele disse. Quando se inclinou para ligá-lo na tomada, outro ganso saiu voando de sua bunda. — Ela normalmente tem. — Bobby disse, e isso soou engraçado para ambos. Eles sentaram na sala de estar com o ventilador girando de um lado para o outro, espalhando o ascendente ar fragrante. Bobby achou que se não parasse de rir, sua cabeça explodiria. Quando Bronco terminou (até lá, Bobby já havia perdido o rumo da história), ele ajudou Ted a fazer o sofá virar cama. A cama, que estava escondida dentro dele, não pareceu grande coisa, mas Liz havia separado alguns lençóis e cobertores, e Ted disse que iriam servir. Bobby escovou os dentes, e depois espiou da porta de seu quarto para Ted, que estava sentado no limiar do sofá-cama, assistindo ao noticiário. — Boa noite. — disse Bobby. Ted virou-se para ele, e por um momento, Bobby achou que Ted iria se levantar, cruzar a sala, e lhe dar um abraço, e talvez um beijo. Em vez disso, ele fez uma estranha e embaraçosa salva. — Durma bem, Bobby. — Valeu. Bobby fechou a porta do quarto, desligou a luzes, foi para a cama, e espalhou as pernas nos cantos dela. Enquanto olhava para a escuridão, ele se lembrou da manhã em que Ted havia segurado seus ombros, para em seguida enlaçar suas curvadas mãos ao redor de seu pescoço. Naquele dia, seus rostos haviam ficado quase tão próximos quanto o dele e o de Carol na roda gigante, bem antes de se beijarem. O dia em que havia discutido com a mãe. O dia em que havia descoberto sobre o dinheiro no catálogo. E também, o dia em que havia ganhado noventa centavos do Sr. McQuown. Agora vá comprar um martini, o Sr. McQuown havia lhe dito. Havia vindo de Ted? Será que o pressentimento surgira após ele dividir um toque com Ted? — Sim. — Bobby sussurrou na escuridão. — Sim, acho que foi isso mesmo que aconteceu. E se ele me tocar daquele jeito novamente? Bobby ainda pensava na ideia quando adormeceu.

***

Ele sonhou que algumas pessoas estavam perseguindo sua mãe pela selva: Jack e Porquinho, os Miúdos, Don Biderman, Cushman, e Dean. Sua mãe usava seu novo vestido da “Vestidos da Lucie” — o preto com alças — só que ele havia sido rasgado em alguns lugares por espinhos e galhos. Suas meias estavam em farrapos. Elas pareciam pedaços de pele morta pendurados em suas pernas. Seus olhos eram profundos buracos reluzentes de horror. Os garotos que a perseguiam estavam nus. Biderman e os outros usavam seus ternos de trabalho. Todos eles tinham riscas alternadas de vermelho e branco pintadas em seus rostos; todos brandiam lanças e gritavam Matem o porco, cortem sua garganta! Matem o porco, bebam seu sangue! Matem o porco, derramem suas tripas! Ele acordou sob a cinzenta iluminação da madrugada, tremendo, e se levantou para usar o banheiro.

Quando voltou para cama, ele não conseguia se lembrar com precisão do que tinha sonhado. Bobby dormiu por mais duas horas, e acordou com os deliciosos aromas de bacon e ovos. Os brilhantes raios de sol invadiam seu quarto atravessando a janela, e ele percebeu que Ted estava fazendo o café da manhã.

***

A Aldeia dos Amaldiçoados foi o último grande filme da infância de Bobby Garfield; foi o primeiro e maior filme do que veio após sua infância — um período negro em ele esteve bastante confuso, e seu comportamento era constantemente mau, um Bobby Garfield que ele sentia que não conhecia realmente. O policial que o prendeu pela primeira vez era loiro, e o que veio à mente de Bobby, enquanto o policial o levava para longe da loja de conveniência que ele havia arrombado (nesta época, ele e sua mãe viviam num subúrbio, ao norte de Boston), foram todas aquelas crianças loiras de A Aldeia dos Amaldiçoados. O policial poderia ser um deles, só que adulto. O filme estava sendo exibido no Criterion, o rei dos palácios dos sonhos de Bridgeport em que Bobby estivera pensando na noite anterior. O filme era em preto e branco, mas o contraste era perfeito, ao invés de granulado como no Zenith, lá em Harwich, e o telão era enorme. Assim como o som, especialmente a tiritante trilha sonora, que tocava quando as crianças de Midwich começavam a usar seus poderes pra valer. Bobby ficou encantado com a história, percebendo, mesmo antes dos primeiros cinco minutos de filme, que esta era uma história de verdade, do jeito que Senhor das Moscas fora. As pessoas pareciam reais, o que deixou as partes de faz de conta mais assustadoras. Ele imaginou que Sully-John ficaria entediado, exceto pelo final. S-J gostava de escorpiões gigantes destruindo a Cidade do México, ou Rodan esmagando Tóquio; para além disso, o seu interesse no que ele chamava de “filmes de criaturas” era limitado. Mas Sully não estava lá, e pela primeira vez desde que ele havia ido embora, Bobby se sentiu feliz. Eles chegaram a tempo da matinê da uma hora da tarde, e o cinema estava quase deserto. Ted (usando seu chapéu fedora e com os óculos escuros pendurados no bolso de sua camisa) comprou um grande saco de pipoca, uma caixa de baganas, uma coca-cola para Bobby, e um refresco (é claro!) para si. Constantemente, ele passava a pipoca ou os doces para Bobby, e Bobby pegava alguns, mas raramente ele percebia que estava comendo, e percebia muito menos o que estava comendo. O filme começou com todos no vilarejo britânico de Midwich caindo no sono (um homem, que dirigia um trator na hora do evento, foi morto; o mesmo aconteceu com uma mulher que caiu de cara no fogo do forno). Os militares foram notificados e mandaram um avião de reconhecimento para dar uma espiada. O piloto dormiu no minuto em que entrou no espaço aéreo de Midwich; o avião caiu. Um soldado com uma corda amarrada na cintura deu dez ou doze passos em direção ao vilarejo, então caiu num profundo sono. Quando foi puxado de volta, ele acordou no momento em que deixou a “linha do sono”, que havia sido pintada no meio da estrada. Todos em Midwich acordaram eventualmente, e tudo pareceu estar bem... até algumas poucas semanas depois, quando as mulheres na cidade descobriram que estavam grávidas. Velhas senhoras, jovens, e até mesmo meninas da idade de Carol Gerber, todas grávidas, e os bebês a quem deram à luz eram aquelas crianças assustadoras do cartaz — aquelas de cabelos loiros e olhos brilhantes. Embora o filme nunca tenha revelado, Bobby imaginou que as Crianças dos Amaldiçoados fossem algum tipo de fenômeno do espaço sideral, como as pessoas nos casulos em Vampiros de Almas. De qualquer forma, elas cresciam mais rápido do que as crianças comuns, eram superinteligentes, e podiam manipular as pessoas como queriam... e elas eram impiedosas. Quando um pai tentou disciplinar sua

própria Criança dos Amaldiçoados, todas as outras crianças se juntaram e direcionaram seus pensamentos no adulto que maltratava a outra (seus olhos brilhavam, e a música era tão pulsante e estranha que os braços de Bobby se arrepiaram enquanto ele bebia a Coca) até que o cara apontou uma escopeta para própria cabeça, e se matou (essa parte não foi mostrada, e Bobby se sentiu aliviado). O herói era George Sanders. Sua esposa havia dado à luz a uma criança loira. S-J teria feito pouco de George, o chamando de “bastardo afeminado”, ou “velhote maricas”, mas Bobby achou que ele era uma agradável mudança em relação a heróis como Randolph Scott, Richard Carlson e o inevitável Audie Murphy. George era puto de legal, de um jeito britânico e esquisito. Nas palavras de Denny Rivers, o velho George sabia como ficar frio. Ele usava gravatas especiais e legais, e penteava o cabelo para trás. Ele não parecia durão o bastante para enfrentar um grupo de bandidos de faroeste, mas era o único cara de Midwich com quem as Crianças dos Amaldiçoados não mexiam; na verdade, elas o escolheram para ser seu professor. Bobby não conseguia imaginar Randolph Scott ou Audie Murphy ensinando qualquer coisa a um bando de crianças superinteligentes do espaço sideral. No final, George Sanders também foi aquele que conseguiu se livrar delas. Ele havia descoberto que conseguia impedir que as Crianças lessem sua mente — ou pelo menos por um tempo — se imaginasse uma parede de tijolos em sua cabeça, com todos os seus pensamentos mais secretos atrás dela. E após todos decidirem que as Crianças precisavam sumir (você poderia ensinar-lhes matemática, mas não por que punir alguém, fazendo essa pessoa capotar penhasco abaixo, era uma coisa má), Sanders pôs uma bomba-relógio em sua pasta e levou para a escola. Este era o único local onde as Crianças — Bobby percebeu, vagamente, que elas eram simplesmente versões sobrenaturais de Jack Merridew e seu bando de caçadores em Senhor das Moscas — ficavam todas juntas. Elas sentiram que Sanders escondia algo delas. Na excruciante sequência final do filme, era mostrado que os tijolos, da parede que Sanders havia construído em sua cabeça, voavam cada vez mais rapidamente, enquanto as Crianças dos Amaldiçoados bisbilhotavam nele, tentando achar o que ele estava escondendo. Finalmente, descobriram a imagem de uma bomba dentro da pasta (oito ou nove bananas de dinamite presas a um relógio-alarme). O filme mostrava seus assustadores olhos brilhantes, esbugalhados com a compreensão, mas elas não tiveram tempo de fazer nada. A bomba explodiu. Bobby ficou chocado que o herói morreu, Randolph Scott nunca morria numa matinê sabatina no Império, nem Audie Murphy ou Richard Carlson, mas ele percebeu que George Sanders havia dado sua vida Pelo Bem de Todos. Ele achou que havia percebido outra coisa também: Ted havia apagado. Enquanto Ted e Bobby visitavam Midwich, o dia ao sul de Connecticut se tornara quente e ofuscante. Bobby não gostava muito do mundo depois de ver um filme realmente bom, em todo caso; por um instante, ele achou que era uma piada injusta, cheia de pessoas com olhares estúpidos, planos pequenos, e manchas faciais. Às vezes, ele achava que se o mundo tivesse uma trama, tudo seria muito melhor. — Brautigan e Garfield dão o fora! — Ted exclamou, enquanto saiam do cinema, parando sob a marquise (um estandarte que dizia ENTRE, ESTÁ FRESCO LÁ DENTRO, pendurado na frente). — O que achou? Você gostou? — Foi ótimo. — Bobby disse. — Fantabuloso. Obrigado por me trazer. É praticamente o melhor filme que eu já vi. Você viu quando ele tinha a dinamite? Você achou que ele conseguiria enganá-las? — Bem... eu já li o livro, lembre-se. A pergunta é... e você, vai ler? — Sim! — Bobby sentiu uma gana de voltar como um raio para Harwich, percorrer todas as distâncias de Connecticut Pike até a Avenida Asher, sob a quente luz do sol, para poder alugar A Aldeia dos Malditos com seu novo cartão de biblioteca para adultos. — Ele escreveu outras histórias de ficçãocientífica?

— John Wyndham? Oh, sim, algumas. E sem dúvida escreverá mais. Uma coisa boa sobre escritores de ficção-científica e de mistérios é que eles raramente param de escrever por muito tempo. Essa é a prerrogativa dos escritores sérios que bebem uísque e têm romances. — Tem algum outro tão bom quanto o que vimos hoje? — A Revolta das Trífides é bom. O Kraken Acorda é ainda melhor. — O que é um kraken? Eles haviam alcançado a esquina e estavam esperando que o semáforo mudasse. Ted fez uma cara assustadora, esbugalhou os olhos e inclinou-se em direção a Bobby com as mãos nos joelhos. — É um monstro! — disse, fazendo uma bela imitação de Boris Karloff. Eles seguiram adiante, a princípio falando sobre o filme, depois se haveria ou não vida além do espaço, e por fim, das gravatas legais que George Sanders havia usado no filme (Ted disse que aquele tipo de gravata era chamado de ascote). Quando Bobby percebeu o ambiente ao seu redor, eles haviam chegado a uma parte de Bridgeport em que ele nunca estivera antes—quando vinha à cidade com sua mãe, eles ficavam no centro, onde ficavam as grandes lojas. As lojas eram pequenas e imprensadas. Nenhuma delas vendia o que as grandes lojas de departamento vendiam: roupas e aparelhos, brinquedos e sapatos. Bobby viu placas sobre chaveiros, serviços de contabilidade, livros usados. Em uma delas estava escrito “ARMAS DO ROD”, na outra “MIOJO GORDO”. “REVELAÇÃO DE FOTOS”, lia-se na terceira. Próximo a MIOJO, havia uma loja vendendo “LEMBRANCINHAS ESPECIAIS”. Havia algo estranhamento parecido com as estradinhas do Rochedo Feliz nesta rua, e Bobby quase esperou ver McQuown parado na esquina, com sua mesinha improvisada e suas cartas de versos vermelhos. Bobby tentou ver através da vitrine da “LEMBRACINHAS ESPECIAIS” enquanto passavam, mas ela estava coberta por uma grande persiana de bambu. Ele nunca havia ouvido falar de uma loja que cobria as vitrines no horário do expediente. — Quem iria querer uma lembrancinha especial de Bridgeport, não é? — Bem, eu não acho que eles realmente vendam lembrancinhas. — Ted disse. — Acho que vendem coisas de cunho sexual, poucas delas estritamente legais. Bobby tinha perguntas — mais ou menos um bilhão delas — mas achou que era melhor ficar quieto. Do lado de fora de uma loja de penhores com três sininhos pendurados acima da porta, ele parou para olhar uma dúzia de lâminas de barbear afiadas que descansavam numa almofada de veludo, com suas lâminas parcialmente abertas. Elas haviam sido organizadas num círculo, o resultado era estranho e (para Bobby) bonito: olhar para elas era como olhar para peças tiradas de uma máquina letal. Os cabos eram muito mais exóticos do que os das lâminas que Ted usava. Uma parecia ser de marfim, a outra tinha um rubi, com gravações em linhas douradas, e uma terceira era de cristal. — Se você comprasse uma dessas, estaria se barbeando com estilo, não é? — Bobby perguntou. Ele achou que Ted sorriria, mas ele não o fez. — Quando as pessoas compram lâminas como aquelas, elas não as usam para se barbear, Bobby. — O que quer dizer? Ted não respondeu, mas ele lhe comprou um sanduíche numa delicatessen grega. Ele veio num pedaço de pão caseiro da qual saia um estranho molho branco que para Bobby se parecia muito com pus de espinha. Ele se forçou a provar porque Ted disse que era bom. Acabou sendo o melhor sanduíche que ele já comera, carnudo como um cachorro-quente ou um hambúrguer do Café Colônia, mas com um sabor exótico que nenhum hambúrguer ou cachorro-quente jamais tivera. E era ótimo comer na calçada, vagando com seu amigo, olhando e sendo olhado. — Como chamam esta parte da cidade? — Bobby perguntou. — Ela tem nome? — Atualmente, quem sabe? — Ted disse, e deu de ombros. — Eles costumavam chamá-la de

Grécia. Então vieram os italianos, e os porto-riquenhos, e agora os negros. Existe um romancista chamado David Goodis, que faz o tipo que nenhum professor lê, um gênio das brochuras vendida nas farmácias, que a chama de “Submundo”. Ele disse que cada cidade tem uma vizinhança como esta, onde você pode comprar sexo e maconha ou um papagaio que fale palavrão, onde os homens conversam curvados, onde as mulheres sempre aparecem para gritar para seus filhos entrarem ou apanharão de cinto, e onde o vinho sempre é vendido num saco de papel. — Ted apontou para a sarjeta, onde o pescoço de uma garrafa de Thunderbird despontava para fora de um saco pardo. — É apenas o submundo, era isso que David Goodis dizia, o lugar onde seu sobrenome não tem qualquer importância, e se pode comprar quase qualquer coisa com dinheiro no bolso. Submundo, Bobby pensou, observando um trio de adolescentes morenos em jaquetas de gangue que os observavam enquanto passavam. Esta é a terra das lâminas afiadas e das lembrancinhas especiais. O Departamento de Lojas do Criterion e Muncie nunca pareceu estar tão longe. E quanto à Rua Broad? Isso e toda a Harwich poderiam estar em outro sistema solar. Finalmente, chegaram a um lugar chamado O Bolso da Esquina – Sinuca, Jogos Automáticos, Rheingold na Lata. Também havia outro daqueles estandartes que dizia ENTRE, ESTÁ FRESCO LÁ DENTRO. Enquanto Bobby e Ted passavam sob ela, um jovem de camisa sem mangas e chapéu panamá pardo, do tipo que Frank Sinatra usava, saiu porta a fora. Ele tinha um grande estojo em uma das mãos. Esse é o taco dele, Bobby pensou, assombrado e maravilhado. Ele leva seu taco naquele estojo como se fosse um violão ou coisa parecida. — Quem é o manda-chuva, xará? — ele perguntou a Bobby, e então sorriu. Bobby sorriu de volta. O garoto do estojo formou uma pistola com os dedos e apontou para Bobby. Bobby fez o mesmo, apontando para o rapaz. O garoto assentiu, como se dizendo Isso aí, meu chapa, você é o manda-chuva, ambos somos, e então cruzou a rua, estalando os dedos da mão livre e acompanhando a música em sua cabeça. Ted olhou para os lados da rua. Adiante, três crianças negras brincavam na cascata que saia de um hidrante parcialmente aberto. Pelo caminho em que haviam vindo, dois jovens (um branco e o outro talvez porto-riquenho) tiravam as colotas de um velho Ford, trabalhando com a veloz seriedade de doutores realizando uma operação. Ted os observou, suspirou, e então olhou para Bobby. — O Bolso da Esquina não é lugar para crianças, mesmo em plena luz do dia, mas eu não vou te deixar no meio da rua. Vamos. — ele tomou Bobby por uma mão e o levou para dentro.

7

No Bolso. A Camisa Oferecida. Fora do Willian Penn. A Felina Francesa do Sexo.

O QUE PRIMEIRO ATINGIU BOBBY foi o cheiro da cerveja. Estava impregnado no ar, como se o pessoal estivesse bebendo desde a época em que as pirâmides ainda estavam em fase de planejamento. Em seguida, veio o som da TV, não exibindo Bandstand, mas uma das novelas da noite (“Programas Oh, John, Oh, Marsha”, era como sua mãe as chamava), e então o clique das bolas de sinuca. Só após estas coisas serem registradas, seus olhos fizeram seus próprios ajustes, porque precisavam fazê-lo. O lugar era muito escuro. E era extenso, Bobby viu. À direita deles havia um arco, e além dele uma sala que parecia quase interminável. A maioria das mesas de sinuca estava coberta, mas algumas permaneciam brilhantes ilhotas de luz onde homens rondavam languidamente, pausando a todo instante para se inclinarem e jogarem. Outros homens, esses mais difíceis de ver, estavam sentados em altas cadeiras próximas da parede, observando. Um deles estava tendo os sapatos engraxados. Eles pareciam custar mil dólares. Adiante, havia uma grande sala cheia de fliperamas: um bilhão de luzes vermelhas e laranjas gaguejavam cores enjoativas em uma placa que dizia SE VOCÊ QUEBRAR A MESMA MÁQUINA DUAS VEZES, TERÁ DE SAIR. Um jovem usando outro chapéu panamá — aparentemente o tipo de chapéu aprovado como parte do uniforme dos valentões que residiam no submundo — estava curvado sobre um fliperama da Patrulha da Fronteira, apertando botões freneticamente. Um cigarro pendia em seu lábio inferior, a fumaça escalava seu rosto e espirais de seu cabelo penteado para trás. Sua jaqueta estava amarrada ao avesso em sua cintura. À esquerda da entrada, estava o bar. Era de lá que vinha o som da TV e o cheiro da cerveja. Três homens estavam sentados lá, cada um cercado por banquinhos desocupados, curvados sobre suas canecas. Eles não pareciam com aqueles homens risonhos que bebiam nas propagandas; para Bobby, eles pareceram as pessoas mais solitárias do mundo. Ele não entendia o porquê de eles ao menos não se juntarem para conversarem um pouco. Perto deles estava um balcão. Um homem gordo saiu pela porta atrás dele, e por um momento, Bobby pôde ouvir o som baixo de um rádio tocando. O gordo tinha um cigarro na boca e vestia uma camisa com desenhos de palmeiras. Ele estalava os dedos como o manda-chuva do estojo, e sob sua respiração, ele cantava assim: “Chu-chu-tchau, Chu-chu-ca-tchau-tcha”, Bobby reconheceu a melodia: “Tequila”, dos The Champs. — Quem é você, xará? — o gordo perguntou a Ted. — Eu não te conheço. E ele não pode entrar aqui. Não sabe ler? — ele apontou o dedão gordo com a unha encardida para outra placa, esta pregada na mesa: TENHA 21, OU DÊ O FORA! — Você não me conhece, mas acho que conhece Jimmy Girardi. — Ted disse, educadamente. — Ele me disse que você era o homem com quem eu deveria falar... se você for Len Files. — Sou Len. — o homem disse. E subitamente pareceu bem mais amigável. Ele levantou uma mão tão branca e fofa que parecia as luvas que Mickey, Donald e Pateta usavam nos desenhos. — Você conhece Jimmy Gee, não é? Maldito seja, Jimmy Gee! Ora, o avô dele está lá atrás, engraxando. Ele tem engraxado os sapatos pra caramba ultimamente. — Len Files deu a Ted uma piscadela. Ted sorriu e apertou a mão do homem.

— É o seu filho? — Len perguntou, curvando-se no balcão para dar uma olhada melhor em Bobby. Bobby pôde sentir o cheiro de cigarro em seu hálito e do suor de seu corpo. O colarinho de sua camisa estava salpicado de caspas. — Ele é um amigo. — Ted disse, e Bobby achou que poderia realmente explodir de felicidade. — Eu não queria deixá-lo lá fora. — É, a não ser que queira pagar um resgate por ele. — Len Files concordou. — Você me lembra alguém garoto. Quem era mesmo? Bobby balançou a cabeça, um pouco assustado por parecer com alguém que Len Files poderia conhecer. O homem gordo pouco prestou atenção no gesto de Bobby. Ele já voltara a ficar ereto e olhava para Ted. — Eu não posso ter criança aqui, Sr..? — Ted Brautigan. — ele ofereceu a mão. Len Files a apertou. — Sabe como é, Ted. As pessoas com negócios como o meu têm os tiras colados na traseira. — Deveras. Mas ele vai ficar bem aqui, não vai Bobby? — Claro. — disse Bobby. — E nosso negócio não vai demorar. Mas é um bom negócio, Sr. Files... — Len. Len, é claro, Bobby pensou. Só Len. Porque aqui era o submundo. — Como eu disse, Len, este é um bom negócio que quero fazer. Eu acho que você concordará. — Se você conhece Jimmy Gee, sabe que não negocio com mixaria. — Len disse. — Eu deixo a mixaria para os negros. Do que estamos falando aqui? Patterson- Johansson? — Albini-Hollywood. No Garden, amanhã à noite? Os olhos de Len se alargaram. Então suas bochechas gordas e barbadas se abriram num sorriso. — Putz grila. Precisamos desenvolver esta ideia. — Certamente que precisamos. Len Files deu a volta no balcão, pegou Ted pelo braço e o levou até a sala de sinuca. Então parou e se virou. — É de Bobby que te chamam em casa, amiguinho? — Sim, senhor. — Sim, senhor, Bobby Garfield, ele teria dito em qualquer outro lugar... mas ali era o submundo, e achou que apenas Bobby resolveria. — Bem, Bobby, sei que estes fliperamas parecem legais pra você, e você provavelmente tem uns centavos no bolso, mas faça o que Adão não fez e resista à tentação. Pode fazer isso? — Sim, senhor. — Não vou demorar. — Ted lhe disse, e então permitiu que Len Files o levasse pelo arco até a sala de sinuca. Eles passaram pelos homens nas cadeiras altas, e Ted parou para falar com o que tinha os sapatos sendo engraxados. Perto do avô de Jimmy Gee, Ted Brautigan parecia jovem. O velho olhou para ele e Ted disse algo; os dois homens riram. O avô de Jimmy Gee tinha um belo riso forte para um velho. Ted estendeu as mãos, e deu palmadinhas leves nas bochechas pálidas dele. Isso fez o velho rir mais ainda. Então, Ted deixou Len levá-lo até a alcova coberta por uma cortina que ficava adiante dos outros homens sentados. Bobby ficou onde estava como se houvesse criado raízes, mas Len não havia dito nada sobre não poder dar uma espiada em volta, e assim ele o fez—em todas as direções. As paredes eram cobertas por cartazes sobre cervejas e calendários que mostravam garotas seminuas. Uma delas estava montada numa cerca, com uma paisagem country ao fundo. Outra saía de um Packard com a saia quase totalmente arreganhada, mostrando a cinta-liga. Atrás do balcão havia mais sinalizações, a maioria delas

expressando um conceito negativo (SE NÃO GOSTA DE NOSSA CIDADE, PROCURE OS HORÁRIOS DO TREM; NÃO MANDE UM MENINO FAZER O TRABALHO DE UM HOMEM; NÃO EXSTE TAL COISA COMO ALMOÇO GRÁTIS; NÃO ACEITAMOS CHEQUES, NÃO ACEITAMOS CARTÕES; LENÇOS PARA CHORAR NÃO SERÃO PROVIDENCIADOS PELA GERÊNCIA), e um grande botão vermelho para CHAMAR A POLÍCIA. Suspensos no teto, presos em uma roda de arame empoeirada, estavam pacotinhos embalados em celofane, alguns marcados com o título RAIZ DE GISENGUE ORIENTAL DO AMOR, e outros com DELEITE ESPANHOL. Bobby se perguntou se eram tipos de vitaminas. Por que eles venderiam vitaminas num lugar como este? O jovem na sala cheia de fliperamas espancou a lateral do Patrulha da Fronteira, recuou e mostrou o dedo à máquina. Ele foi em direção à entrada enquanto ajustava seu chapéu. Bobby imitou uma arma com os dedos e apontou para ele. O jovem pareceu surpreso, então sorriu e apontou de volta enquanto saía pela porta, deslaçando os braços da jaqueta de sua cintura. — É proibido usar jaquetas da turma aqui. — disse, notando a curiosidade de Bobby. — Nem dá pra mostrar suas malditas cores. Regras da casa. — Oh. O jovem sorriu e levantou a mão. Desenhado em azul, nas costas dela, havia um tridente de diabo. — Mas eu tenho uma marca, irmãozinho. Viu? — Que maneiro. — uma tatuagem. Bobby transbordava de inveja. O garoto percebeu; sua boca se alargou num sorriso repleto de dentes brancos. — Diablos, mano. É a melhor turma. Os Diablos mandam nas ruas. Todos os outros são maricas. — As ruas do submundo. — Pode crer, onde mais seria? Deixa rolar, chapinha. Eu gosto de você. Você tem uma boa aparência. Mas esse seu corte à escovinha é uma droga. — a porta se abriu, entrou um sopro de ar quente e o barulho das ruas, e então o rapaz se foi. Uma pequena cesta de palha no balcão chamou a atenção de Bobby. Ele ficou na ponta dos pés para ver. Ela estava cheia de chaveiros com correntes de plástico, vermelhas, azuis e verdes. Bobby pegou um para poder ler a inscrição em dourado: O BOLSO DA ESQUINA. JOGOS. SINUCA. FLIPERAMAS. KENMORE 8-2127. — Vá em frente, garoto, pegue-o. Bobby levou tamanho susto que quase derrubou a cesta de chaveiros no chão. A mulher havia vindo pela mesma porta que Len Files, e era ainda maior do que ele — quase tanto quanto a gorda do circo — mas ela tinha passos leves como os de uma bailarina; Bobby olhou para cima e ela simplesmente estava ali, agigantando-se perante ele. Ela era a irmã de Len, tinha de ser. — Me desculpe. — Bobby balbuciou, devolvendo o chaveiro que havia pegado, e empurrando a cesta de volta para o canto do balcão com as pontas dos dedos. Ele teria conseguido devolvê-la para o fundo se a mulher gorda não o houvesse parado com uma mão. Ela sorria, e não parecia nem um pouco furiosa, o que deixou Bobby tremendamente aliviado. — Sério, não estou sendo sarcástica, pegue um. — ela segurou um dos chaveiros. O plástico era verde. — São apenas coisinhas baratas, mas são de graça. Nós os distribuímos para propaganda. Como caixas de fósforos, sabe, embora eu nunca desse uma caixa de fósforos para uma criança. Você não fuma, não é? — Não, senhora. — É um bom começo. Fique longe das bebidas também. Aqui. Pegue. Não recuse as coisas de graça deste mundo, garoto, não há muitas delas por aí. Bobby pegou o chaveiro de plástico verde.

— Obrigado, senhora. É muito legal. — ele pôs o chaveiro no bolso, sabendo que teria de se livrar dele—se sua mãe o achasse, ela não ficaria nada feliz. Ela teria umas vinte perguntas para fazer, como Sully diria. Talvez trinta. — Qual é o seu nome? — Bobby. Ele esperou para ver se ela perguntaria seu sobrenome, e ficou secretamente feliz quando ela não o fez. — Sou Alanna. — ela estendeu uma mão incrustada de anéis. Eles brilhavam como as luzes dos fliperamas. — Está aqui com seu pai? — Com meu amigo. — Bobby disse. — Acho que ele está fazendo uma aposta na luta de Haywood contra Albini. Alanna pareceu alarmada e encantada ao mesmo tempo. Ela se inclinou com um dedo em seus lábios vermelhos. Ela fez um som de “shhh” para Bobby, soprando um forte cheiro de licor. — Não diga “aposta” aqui. — ela o advertiu. — Este é um salão de bilhar. Sempre se lembre disso e você ficará bem. — Certo. — Você é um diabinho bonitão, Bobby. E parece... — ela parou. — Eu conheço seu pai? Seria possível? Bobby balançou a cabeça, mas não totalmente certo — para Len ele também parecia alguém. — Meu pai está morto. Ele morreu há muito tempo. — ele sempre adicionava esta parte para que as pessoas não ficassem comovidas. — Qual era o nome dele? — mas antes que ele pudesse responder, ela mesma falou; saiu de sua boca pintada como uma palavra mágica. — Era Randy? Randy Garrett, Randy Greer, algo assim? Por um momento, Bobby ficou tão chocado que não conseguiu falar. Foi como se todo o ar de seus pulmões houvesse sido sugado. — Randall Garfield. Mas como... Ela riu satisfeita, seu busto pareceu crescer. — Bem, mais por conta de seu cabelo. Mas também as sardas... e isto aqui também, rapazinho... — ela se inclinou, e Bobby pode ver o topo de seus seios alvos e macios, que pareciam dois grandes barris de água. Ela deslizou um dedo suavemente pelo seu nariz. — Ele vinha aqui jogar sinuca? — Não. Tacos não eram muito a praia dele. Ele bebia cerveja. E, às vezes... — ela fez um gesto rápido, como se estivesse distribuindo cartas. Isto fez Bobby pensar em McQuown. — É. — Bobby disse. — Ele nunca conheceu uma sequência interior de que não gostasse, ou pelo menos foi isso o que eu ouvi dizer. — Disso eu não sei, mas ele era um cara legal. Ele seria capaz de vir aqui numa segunda à noite, quando o lugar estaria que nem um cemitério, e em meia hora, mais ou menos, estaria fazendo todo mundo rir. Ele tocava aquela canção de Jo Stafford, não consigo me lembrar do nome, e fazia Lennie ligar a jukebox. Era um doce de verdade, garoto, é disso que eu mais me lembro dele; um homem gentil de cabelos ruivos é uma mercadoria rara. Ele não pagava uma bebida a um bêbado, era uma das condições dele, mas ele seria capaz de tirar a camisa do próprio corpo e te oferecer. Tudo o que se tinha a fazer era pedir. — Mas ele perdeu um monte de dinheiro, eu acho. — Bobby disse. Ele não podia acreditar que estava tendo esta conversa — que ele havia encontrado alguém que conhecera seu pai. Ainda assim, ele imaginou que um monte de descobertas acontecia assim, por total acidente. Você só tinha que seguir sua

vida, preocupando- se com seus próprios assuntos, e então, do nada, o passado te derrubaria. — Randy? — ela pareceu surpresa. — Não. Ele vinha aqui tomar uns drinques, talvez umas três vezes por semana, sabe, se estivesse por perto. Ele estava no ramo da corretagem, ou seguros, vendas, alguma coisa assim... — Corretagem. — Bobby disse. — Ele era corretor. — E havia um escritório por aqui que ele visitava. Para propriedades industriais, eu acho, se era corretagem. Tem certeza de que o ramo dele não farmácia? — Não, era corretagem. — Engraçado como a memória funciona. — ela disse. — Algumas coisas ficam claras, mas a maioria desaparece e o verde se torna azul. De qualquer forma, todos esses negócios que envolvem homens com paletós sumiram das redondezas. — ela balançou a cabeça tristemente. Bobby não estava interessado em como a vizinhança havia sumido. — Mas quando ele jogava, ele perdia. Ele sempre tentava completar sequências interiores, e coisas assim. — Sua mãe te disse isso? Bobby ficou em silêncio. Alanna deu de ombros. Coisas interessantes aconteciam em sua frente enquanto o fazia. — Bem, isto é entre você e ela... e, ei, talvez seu pai aparecesse em outros lugares. Tudo o que sei é que aqui ele apenas sentava, uma ou duas vezes por mês, com caras que conhecia, jogava até mais ou menos meia-noite, e então ia para casa. Se ele houvesse tirado a sorte grande, ou o azar, eu provavelmente me lembraria. E eu não lembro, então ele provavelmente ficava no meio termo, na maioria das noites em que jogava. O que, à propósito, fazia dele um grande jogador de pôquer. Melhor do que aqueles lá atrás. — ela rolou os olhos na direção por onde Ted e seu irmão haviam ido. Bobby olhou para ela com crescente confusão. Seu pai não nos deixou exatamente bens de vida, sua mãe gostava de dizer. Havia o seguro de vida expirado, o monte de contas não pagas; Pouco eu sabia, sua mãe havia dito naquela primavera, e Bobby começava a achar que isto também servia para ele: pouco eu sabia. — Era um rapaz bonito, o seu pai. — Alanna disse. — Tinha o nariz de Bob Hope e tudo mais. Acho que essa é uma vantagem que você terá — puxou isto dele. Tem namorada? — Sim, senhora. Teriam sido as dívidas apenas ficção? Seria possível? Teria a apólice de seguro de vida sido sacada e guardada, talvez num banco em vez de entre as páginas de um catálogo da Sears? De algum modo, era um pensamento horrível. Bobby não podia imaginar o porquê de sua mãe querer que ele pensasse que seu pai havia sido (um homem baixo, um homem baixo de cabelos ruivos) um sacana, se ele realmente não o era, mas havia algo na ideia que pareceu... verdade. Ela poderia se irritar, essa era a marca registrada de sua mãe. Ela era capaz de ficar tão irritada que diria qualquer coisa. Era possível que seu pai — a quem sua mãe nunca havia, na memória de Bobby, chamado de “Randy”— houvesse oferecido camisas demais para pessoas demais, e consequentemente isso deixou Liz Garfield irritada. Liz Garfield não oferecia camisas, não as do seu próprio corpo, nem as de qualquer outro lugar. Você tinha que poupar suas camisas neste mundo, porque a vida não era justa. — Qual é o nome dela? — Liz. — ele sentiu-se tonto, como se houvesse saído de um cinema escuro para o brilho da luz do dia. — Que nem Liz Taylor. — ela pareceu satisfeita. — É um nome bonito para uma namorada.

Bobby riu, um pouco envergonhado. — Não, minha mãe se chama Liz. O nome de minha namorada é Carol. — Ela é bonita? — Um pedaço de mau caminho. — ele disse, sorrindo e abanando a mão. Ele sentiu-se alegre quando Alanna urrou num ataque de risos. Ela se curvou por cima do balcão, a carne acima de seu braço balançando como um maço de dinheiro, e apertou sua bochecha. Doeu um pouco, mas ele gostou. — Gracinha de garoto! Posso te dizer uma coisa? — Claro, o que é? — Só porque um homem gosta de jogar cartas, isso não faz dele um Átila, o Huno. Sabe disso, não sabe? Bobby assentiu, hesitantemente, e então mais firmemente. — Sua mãe é sua mãe, e eu não digo nada contra a mãe dos outros porque amo a minha própria, mas nem todas as mães aprovam cartas ou sinucas, ou... lugares como este. É um ponto de vista, mas é só isso. Sacou a situação? — Sim. — Bobby disse. E de fato ele havia sacado a situação. Ele se sentiu muito estranho, com vontade de rir e chorar ao mesmo tempo. Meu pai esteve aqui, ele pensou. Isto pareceu, pelo menos naquele momento, muito mais importante do que qualquer outra mentira que sua mãe já havia lhe contado. Meu pai esteve aqui, é capaz dele ter estado exatamente onde estou agora. — Fico feliz por parecer com ele. — ele disse, abruptamente. Alanna assentiu, sorrindo. — Logo você, entrar aqui, vindo das ruas. Quais são as chances? — Eu não sei. Mas obrigado por me contar sobre ele. Obrigado mesmo. — Ele seria capaz de tocar a canção de Jo Stafford a noite toda, se você deixasse. — Alanna disse. — Agora, não vá sair por aí ao relento. — Não, senhora. — Não, Alanna. Bobby sorriu. — Alanna. Ela soltou um beijo para ele, como sua mãe fazia às vezes, e riu quando Bobby fingiu pegá-lo, então voltou a atravessar a porta por onde viera. Além dela, Bobby pôde ver o que parecia ser uma sala de estar. Havia uma grande cruz numa parede. Ele meteu a mão no bolso, enganchou o chaveiro com um dedo (ele era, pensou, uma lembrancinha especial de sua visita ao submundo), e imaginou-se pedalando Rua Broad abaixo numa Schwinn da Autoeste. Ele ia em direção ao parque. Usava um chapéu panamá pardo enfiado na cabeça. Seu cabelo era longo e estava penteado para trás, terminando num rabo de pato — nada de penteado à escovinha, não mais, xará. Presa à sua cintura estava uma jaqueta com suas cores; nas costas de sua mão havia uma tatuagem azul, gravada fundo, para toda eternidade. Do lado de fora do Campo B, Carol esperava por ele. Ela estaria observando-o pedalar, pensando Oh, seu garoto louco, enquanto ele dava voltas num círculo fechado, espalhando cascalho na direção dos tênis brancos dela (mas não neles). Louco, sim. Um ciclista barra-pesada e um conquistador irresistível. Len Files e Ted voltavam agora, ambos pareciam felizes. Len, de fato, parecia um gato que acabara de comer um canário (como a mãe de Bobby geralmente dizia). Ted parou para dar mais uma breve palavra com o velho, que assentiu e sorriu. Quando os dois voltaram à entrada, Ted foi em direção à cabine telefônica ao lado da porta. Len pegou seu braço e o conduziu até o balcão. Enquanto Ted ligava, Len mexia no cabelo de Bobby.

— Eu sei com quem você parece. — ele disse. — Me lembrei enquanto estava lá atrás. Seu pai era... — Garfield. Randy Garfield. — Bobby olhou para Len, que se parecia muito com a irmã, e então pensou em como era estranho e ao mesmo tempo maravilhoso ser ligado daquele modo com seus parentes de sangue. Ser tão ligado que mesmo as pessoas que não te conhecem poderiam, às vezes, te reconhecer no meio de uma multidão. — Você gostava dele, Sr. Files? — Quem, Randy? Claro, ele era um doido de primeira. — mas Len Files pareceu um pouco vago. Ele não conhecia o pai de Bobby do mesmo modo como sua irmã, Bobby decidiu; Len provavelmente não se lembraria da canção de Jo Stafford, ou de como Randy Garfield te ofereceria uma camisa do próprio corpo. E ele não pagaria uma bebida a um bêbado; ele não faria isso. — Seu amigo é legal também. — Len continuou, agora mais entusiasmado. — Eu gosto da classe alta, e a classe alta gosta de mim, mas eu não recebo apostadores de verdade que nem ele com frequência. — ele virou-se para Ted, que estava caçando miopemente na lista telefônica. — Tente o Ciclo Táxi. KEnmore 6-7400. — Obrigado. — Ted disse. — Não tem de quê. — Len passou por Ted, e entrou pela porta atrás do balcão. Bobby teve outra breve visão da sala de estar e da grande cruz. Quando a porta fechou, Ted olhou para Bobby, e disse: — Você aposta quinhentos paus numa luta, e não tem de usar o telefone público como o resto da gentalha. Que negócio, hein? Bobby sentiu como se todo o fôlego houvesse sido sugado dele. — Você apostou quinhentos dólares em Hurricane Haywood? Ted tirou um cigarro do maço, pôs na boca, e o acendeu com um sorriso. — Meu bom Deus, não. — ele disse. — Foi em Albini. Após ter chamado um táxi, Ted levou Bobby ao bar e pediu dois refrescos. Ele não sabe que eu não gosto muito desse refresco, Bobby pensou. De algum modo, esta pareceu ser outra peça do quebracabeça — o quebra-cabeça de Ted. Len os serviu, sem falar nada sobre Bobby estar sentado no bar ou sobre ele ser um menino legal, mas que impregnava o local com sua minoridade; aparentemente uma ligação gratuita não era tudo o que quinhentos dólares apostados poderiam te conseguir. E nem mesmo a emoção da aposta poderia distrair Bobby por muito tempo da triste certeza que roubara muito do prazer que sentira ao ouvir que seu pai não era um safado, afinal de contas. A aposta havia sido feita para se conseguir dinheiro o suficiente para uma fuga. Ted estava de partida.

***

O táxi era daqueles com listras em xadrez e um grande banco traseiro. O motorista estava profundamente absorvido pelo jogo dos Yankees no rádio, a ponto de sem querer discutir com os comentaristas. — Files e a irmã conheceram seu pai? — não era realmente uma pergunta. — Sim. Especialmente Alanna. Ela achou que ele era realmente um cara legal. — Bobby parou. — Mas não é o que minha mãe pensa. — Imagino que sua mãe tenha visto um lado dele que Alanna Files nunca viu. — Ted respondeu. — Mais de um. Pessoas são como diamantes, Bobby. Elas têm muitos lados. — Mas mamãe disse... — era complicado demais. Ela nunca havia dito qualquer coisa de verdade, apenas meio que sugerira coisas. Ele não sabia como dizer a Ted que sua mãe também tinha lados, e alguns deles faziam ser difícil de acreditar naquelas coisas que ela nunca dissera abertamente. E quando se descia a tal ponto, o quanto realmente ele sabia? Seu pai estava morto, afinal. Sua mãe não

estava, e ele tinha de viver com ela... e ele tinha de amá-la. Ele não tinha ninguém mais para amar, nem mesmo Ted. Porque... — Quando você vai embora? — Bobby perguntou, em voz baixa. — Depois que sua mãe voltar. — Ted suspirou, olhou pela janela, e então para as mãos, que repousavam em um dos joelhos. Ele não olhou para Bobby, não ainda. — Provavelmente na manhã de sexta-feira. Eu não posso pegar meu dinheiro até a noite de amanhã. Eu tenho quatro contra um em Albini; isso dá dois mil dólares. Meu bom amigo Lennie terá de telefonar para Nova York para fazer a cobertura. Eles cruzaram a ponte do canal, e então o submundo ficou para trás. Agora estavam na parte da cidade em que Bobby andava com sua mãe. Os homens nas ruas usavam casacos e gravatas. As mulheres usavam moletons. Nenhuma delas se parecia com Alanna Files, e Bobby achou que não haveria muitas delas cheirando a licor se soprassem sinalizando silêncio. Não às quatro da tarde. — Eu sei porque você não apostou em Patterson-Johansson. — Bobby disse. — É porque você não sabe quem vai vencer. — Eu acho que Patterson leva desta vez. — Ted disse. — Porque desta vez ele está preparado para Johansson. Eu posso apostar dois dólares em Floyd Patterson, mas quinhentos? Para apostar quinhentos, ou você tem de saber o resultado, ou ser louco. — A luta entre Albini e Haywood já está combinada, não é? Ted assentiu. — Eu soube disso quando você leu que Kleindienst estava envolvido, e imaginei que Albini deveria ganhar. — Você fez outras apostas em lutas de boxe onde o Sr. Kleindienst era o empresário. Ted não disse nada por um momento, apenas olhou pela janela. No rádio, alguém acertava uma bela tacada. Whitney Ford pegou a bola e jogou para Moose Skowron na primeira base. Agora havia duas baixas no fim do oitavo tempo. Finalmente Ted falou: — Poderia ter sido Haywood. Era difícil ser, mas poderia. Então... você viu o velho sentado lá? O que estava engraxando os sapatos? — Claro, você deu uns tapinhas nas bochechas dele. — Aquele era Arthur Girardi. Files o deixa por lá porque ele costumava ser uma conexão. É o que Files acha, que costumava ser. Agora ele é só um velho que vem para engraxar os sapatos, depois esquece que fez isso e volta novamente às três horas. Files acha que ele é só um velho que não sabe de nada. Girardi o deixa pensar o que ele quer pensar. Se Files disser que a lua é um queijo verde, Girardi não dará um pio. Velho Gee, ele entra lá só por conta do ar-condicionado. E ele ainda é uma conexão. — Conectado com Jimmy Gee. — Com todos os tipos de caras. — O Sr. Files não sabe que a luta foi combinada? — Não, com certeza não. Eu achei que poderia. — Mas o velho Gee sabia. E ele sabia qual deles iria beijar a lona. — Sim. Essa foi minha sorte. Hurricane Haywood cairá ao oitavo assalto. Então, no ano que vem, quando as probabilidades melhorarem, Hurricane ganhará sua recompensa. — Você teria apostado se o Sr. Girardi não estivesse lá? — Não. — Ted respondeu, imediatamente. — Então como você ganharia dinheiro? Para quando for embora? Ted pareceu deprimido com estas palavras, quando for embora. Ele pensou em colocar um braço ao redor dos ombros de Bobby, mas parou. — Sempre há alguém que sabe de alguma coisa. — ele disse.

Eles se encontravam na Avenida Asher agora, ainda em Bridgeport, mas apenas a um quilômetro e meio de Harwich. Sabendo o que iria acontecer, Bobby segurou a grande e manchada mão de Ted. Ted girou os joelhos na direção da porta, levando suas mãos com ele. — É melhor não. Bobby não perguntou por que. As pessoas colocavam placas que diziam TINTA FRESCA, NÃO TOQUE porque se você colocasse sua mão em algo recém pintado, a coisa mancharia sua pele. Você poderia lavá-la, ou descascaria sozinha com o tempo, mas, por um tempo, ela ficaria lá. — Para onde você vai? — Eu não sei. — Eu me sinto mal. — Bobby disse. Ele sentiu lágrimas começando a brotas no canto de seus olhos. — Se algo acontecer a você, é minha culpa. Eu vi coisas, as coisas que você me mandou procurar, mas eu não disse nada. Eu não queria que você fosse. Então eu disse a mim mesmo que você estava louco, não sobre tudo, mas sobre os homens baixos que te perseguiam, e eu não disse nada. Você me deu um trabalho, e eu falhei. O braço de Ted se levantou novamente. Então ele o abaixou e deu uma breve tapinha na perna de Bobby. No estádio dos Yankees, Tony Kuleb acabara de dobrar dois home-runs. O público foi à loucura. — Mas eu sabia. — Ted disse, suavemente. Bobby olhou para ele. — O quê? Eu não entendo. — Eu os sinto se aproximarem. É por isso que meus transes têm sido tão frequentes. Ainda assim, eu menti para mim mesmo, do mesmo modo que você fez. Pelas mesmas razões também. Você acha que eu quero te deixar agora, Bobby? Com sua mãe tão confusa e infeliz? Com toda a honestidade, eu não me importo muito com ela, nós não nos damos bem, no segundo em que cruzamos os olhares não nos demos bem, mas ela é sua mãe, e... — O que há de errado com ela? — Bobby perguntou. Ele se lembrou de manter a voz baixa, mas tomou o braço de Ted e o sacudiu. — Diga-me! Você sabe, eu sei que sabe! É o Sr. Biderman? É algo sobre o Sr. Biderman? Ted olhou pela janela, de cenho franzido, os lábios estavam apertados firmemente. Finalmente, ele suspirou, tirou um dos cigarros e o acendeu. — Bobby... — ele disse. — O Sr. Biderman não é um homem bom. Sua mãe sabe disso, mas ela também sabe que algumas vezes precisamos estar com pessoas que não são boas. Junte-se para progredir, é o que ela pensa, e assim ela fez. Ela fez coisas durante o ano da quais não se orgulha, mas ela tem sido cuidadosa. De certa forma, ela teve de ser tão cuidadosa quanto eu, e não importa se eu gosto ou não dela, eu a admiro por isso. — O que ela fez? O que ele a obrigou fazer? — algo gélido se remexeu no peito de Bobby. — Por que o Sr. Biderman a levou para Providence? — Para a conferência de corretagem. — É só isso? Isso é tudo? — Eu não sei. Ela não sabia. Ou talvez ela tenha ignorado o que sabia e temia em favor do que tinha esperança de acontecer. Eu não tenho como dizer. Algumas vezes eu posso... algumas vezes eu tenho uma noção muito clara e direta das coisas. No primeiro momento em que o vi, sabia que você queria uma bicicleta, que ter uma era muito importante para você, e que você pretendia ganhar dinheiro para comprar uma neste verão, se pudesse. Eu admirei sua determinação. — Você me tocou de propósito, não foi? — Sim, de fato. Na primeira vez, ao menos. Eu o fiz para te conhecer um pouco. Mas amigos não

espionam; a verdadeira amizade é baseada na privacidade também. Além disso, quando eu toco, eu passo por uma espécie de... bem, uma espécie de janela. Eu acho que você sabe disso. Na segunda vez em que te toquei... realmente toquei, te abraçando, sabe o que quero dizer... aquilo foi um erro, mas não um erro tão horrível; por um tempinho você soube mais do que deveria, mas acabou passando, não foi? Mas se eu houvesse continuado... tocando e tocando, do modo como as pessoas fazem quando são próximas... chegaria o ponto onde as coisas mudariam. Onde não passaria. — ele levantou seu cigarro quase completamente fumado e o olhou com aversão. — Do mesmo modo como quando você fuma muitos desses, e fica preso a eles por toda a vida. — Minha mãe está bem agora? — Bobby perguntou, sabendo que Ted não teria como responder; o dom de Ted, o que quer que fosse, não chegava tão longe. — Eu não sei. Eu... Ted subitamente enrijeceu. Ele estava olhando pela janela, para algo adiante. Ele esmagou seu cigarro no cinzeiro do carro, produzindo força o bastante para fazer faíscas voarem em cima de sua mão. Ele pareceu não sentir. — Cristo. — ele disse. — Oh, Cristo, Bobby, agora entramos bem. Bobby inclinou-se para ver pela janela, pensando, no fundo de sua mente, no que Ted acabara de dizer — tocando e tocando, do jeito que as pessoas fazem quando são próximas — enquanto espiava a Avenida Asher. Adiante, havia uma interseção de três vias, a Avenida Asher, a Avenida Bridgeport, e Connecticut Pike, todas se encontrando num local conhecido como a Praça dos Puritanos. Manchas de pneus brilharam com o sol da tarde; caminhões de entrega buzinavam impacientemente enquanto passavam pela aglomeração. Um policial suado com um apito na boca e luvas brancas coordenava o tráfego. À esquerda, estava o Willian Penn Grille, um famoso restaurante que supostamente tinha os melhores bifes de Connecticut (o Sr. Biderman levara o escritório inteiro até lá após a agência vender a Mansão Waverly, e a mãe de Bobby havia voltado para casa com uma dúzia de caixas de fósforos do Willian Penn Grille). Sua maior razão de ser famoso, sua mãe dissera certa vez para Bobby, era o fato de o bar estar do lado de Harwich, enquanto que o restaurante ficava do lado de Bridgeport. Estacionado adiante, no fim da Praça dos Puritanos, estava um automóvel púrpuro da marca DeSoto que Bobby nunca havia visto antes — que ele sequer suspeitara existir. A cor era tão berrante que machucava seus olhos só de olhar. Machucou sua cabeça inteira. Seus carros serão como seus casacos amarelos e sapatos pontudos, e como o gel perfumado que usam para pentear seus cabelos para trás: gritante e vulgar. O carro púrpuro estava repleto com assentos e peças de cromo. Ele possuía pneus revestidos. O ornamento do capô era enorme; o topo do Chief DeSoto brilhou na luz nebulosa como uma joia falsa. Os pneus eram como enormes paredes brancas e as calotas eram do tipo que giravam. Havia uma longa antena na traseira. Em sua ponta, estava pendurada uma cauda de guaxinim. — Os homens baixos. — Bobby sussurrou. Não havia dúvidas. Era um De-Soto, mas, ao mesmo tempo, era um carro que ele nunca havia visto na vida, algo tão alienígena quanto um asteroide. Enquanto se aproximavam da interseção de três vias, Bobby viu que o estofamento era da cor de um verde metálico — a cor quase uivou em contraste com a cor púrpura do carro. O volante era forrado com pelo alvo. — Minha nossa, são eles! — Você tem de levar sua mente para longe. — Ted disse. Ele pegou Bobby pelos ombros (no banco da frente, os Yankees comemoravam, o motorista não prestava atenção alguma aos seus dois clientes no banco traseiro, muito obrigado a Deus por tanto, pelo menos), e o sacudiu com força antes de soltá-lo. — Você tem de levar sua mente para longe, entendeu?

Ele entendeu. George Sanders havia construído uma parede de tijolos para esconder seus pensamentos e planos contra as Crianças. Bobby havia pensado em Maury Wills uma vez, mas ele não achou que beisebol pudesse funcionar desta vez. O que poderia? Bobby podia ver a marquise do Império Asher, salientando-se pela calçada, três ou quatro blocos além da Praça dos Puritanos, e subitamente pôde ouvir o barulho da raquete de Sully-John: paf-paf-laf. Se ela é um lixo, S-J havia dito, eu adoraria ser o lixeiro. O cartaz que haviam visto naquele outro dia preencheu a mente de Bobby: Brigitte Bardot (a Felina Francesa do Sexo, era do que os jornais a chamavam) vestida apenas com uma toalha e um sorriso. Ela parecia um pouco com a mulher saindo do carro em um dos calendários do Bolso da Esquina, aquele em que a saia estava arreganhada e a cinta-liga aparecia. Entretanto, Brigitte Bardot era mais bonita. E ela era real. Ela era velha demais para tipos como Bobby Garfield, é claro... (Eu sou tão jovem, e você é tão velha, Paul Anka cantava em milhares de rádios, isto, minha querida, foi o que me disseram) mas, ainda assim, ela era linda, e um gato podia olhar para uma rainha, sua mãe sempre dizia isso também: um gato podia olhar para uma rainha. Bobby a viu, cada vez mais claramente, e se ajeitou no assento, seus olhos tomando exibindo aquele flutuante olhar perdido de Ted, quando ele apagava; Bobby a viu, os cabelos loiros, úmidos do banho, o declive de seus seios dentro da toalha, suas longas coxas, suas unhas pintadas acima das palavras “Apenas para Adultos, É Obrigatório Carteira de Motorista ou Certificado de Nascimento”. Ele conseguia sentir o cheiro do sabonete, algo suave e florido. Ele podia sentir o cheiro da (Nuit em Paris) fragrância de seu perfume, e ele conseguia ouvir o rádio no aposento ao lado. Era Freddy Cannon, que era chegado num jazz de verão: “She’s dancin’ to the drag, the cha-cha rag-a-mop, she’s stompin’ to the shag, rocks the bunny hop...”. Ele estava cônscio — mas fracamente, longinquamente, num outro mundo logo acima, no topo dos redemoinhos — de que o táxi em que estavam havia parado ao lado do Willian Penn Grille, bem próximo daquele estouro púrpuro de um De- Soto. Bobby quase conseguia ouvir o carro em sua cabeça; se ele possuísse uma voz, teria gritado Atirem em mim, eu sou púrpuro demais! Atirem em mim, eu sou púrpuro demais! E não muito além, ele conseguia senti-los. Eles estavam no restaurante, comendo um bife. Ambos comiam a mesma coisa, bife mal passado. Antes de irem embora, eles colocariam um cartaz de animal perdido num poste telefônico, ou deixariam um cartão escrito à mão que diria CARRO À VENDA PELO PROPRIETÁRIO; de cabeça para baixo, é claro. Eles estavam lá dentro, homens baixos em casacos amarelos e sapatos brancos, bebendo martinis entre as dentadas em seus bifes quase crus, e se eles direcionassem suas mentes nesta direção... Vapor saia do chuveiro. B.B. ergueu-se na ponta de seus pés pintados e abriu sua toalha, transformando-as em breves asas, antes de deixá-la cair. E quem Bobby viu não era Brigitte Bardot, afinal de contas. Era Carol Gerber. Você tem que ser corajoso para deixar as pessoas te olharem vestindo apenas uma toalha, ela dissera, e agora ela mesma havia deixado a toalha cair. Ele a via como ela deveria parecer daqui a oito ou dez anos. Bobby olhou para ela, sem poder olhar para o outro lado, perdido de amor, perdido nos aromas do sabonete e de seu perfume, no som do rádio (Freddy Cannon havia dado lugar aos The Platters, com Heavenly Shades of Night are Falling), na visão de suas pequenas unhas pintadas. Seu coração girou tanto quanto um redemoinho, com suas linhas subindo e desaparecendo em outros mundos. Outros mundos além deste. O táxi começou a se arrastar adiante. O horror púrpuro de quatro portas estacionado próximo ao

restaurante (estacionado numa zona de carregamento, mas o que importava para eles?) começou a se afastar na retaguarda. O carro parou novamente e o motorista xingou quando um carro atravessou a Praça dos Puritanos à toda velocidade. O DeSoto estava atrás deles agora, mas o reflexo do cromo encheu o táxi com uma errática dança de fiapos de luz. E de repente, Bobby sentiu uma furiosa coceira lhe atacar na parte de trás dos olhos. Isto foi seguido por uma cascata de manchas negras se contorcendo em seu campo de visão. Ele conseguiu se segurar a Carol, mas agora parecia olhar para ela através de um campo de interferência. Eles nos sentem... ou sentem alguma coisa. Por favor, Deus, nos tire daqui. Por favor, nos tire daqui. O motorista do táxi viu uma brecha no tráfego e meteu-se lá. Um momento depois, eles seguiam pela Avenida Asher numa boa velocidade. A sensação de coceira atrás dos olhos de Bobby começou a cessar. As manchas negras em sua visão foram desaparecendo, e quando isso aconteceu, ele percebeu que a garota não era Carol, afinal (não mais, pelo menos), nem mesmo Brigitte Bardot, mas apenas a garota do calendário do Bolso da Esquina, com suas roupas tiradas pela imaginação de Bobby. A música do rádio se fora. O cheiro do sabonete e perfume também. A vida havia sido expelida dela, ela era apenas uma... uma... — Uma figura pintada numa parede de tijolos. — Bobby disse. Ele endireitou- se. — O que disse, garoto? — o motorista perguntou, desligando o rádio. O jogo havia terminado, Mel Alien anunciava cigarros. — Nada. — Bobby disse. 20

— Acho que você cochilou, hein? Trânsito lento, dia quente... isso sempre acontece, como Hatlo dizia. Parece que seu amigo ainda está apagado. — Não. — disse Ted, ficando ereto. — Estamos de volta com a programação normal. — ele espreguiçou-se e estremeceu quando suas costas produziram um estalo. — Cochilei um pouco mesmo. — ele olhou pela janela, mas o William Penn Grille já estava fora de vista agora. — Os Yankees ganharam, suponho? — Malditos Indians, detonaram com tudo. — o motorista disse, rindo. — Não entendo como você consegue dormir com os Yankees jogando. Eles viraram na Rua Broad; dois minutos depois, o carro estacionou defronte o número 149. Bobby olhou para o lugar como se esperasse vê-lo com uma pintura diferente, ou talvez com uma ala nova adicionada. Ele sentiu como se houvesse estado fora por dez anos. De certo modo, ele supôs que houvesse, ele não havia visto Carol Gerber crescida? Eu vou me casar com ela, Bobby decidiu, enquanto saíam do táxi. Na Rua Colônia, o cão da Sra. O’Hara latiu incessantemente, como se negando isto e todas as outras aspirações humanas: ouf-ouf-ouf. Ted curvou-se por sobre a janela do motorista com sua carteira na mão. Tirou duas notas, pensou mais um pouco e tirou uma terceira. — Fique com o troco. — Você é muito bacana. — o motorista disse. — É um apostador. — Bobby corrigiu, sorrindo enquanto o táxi se mandava. — Vamos entrar. — Ted disse. — Não é mais seguro para mim aqui. Subiram a varanda e Bobby usou sua chave para abrir a porta da entrada. Ele continuou a pensar sobre aquela estranha coceira na parte de trás dos olhos, e sobre as manchas negras. As manchas haviam sido particularmente horríveis, como se ele estivesse ficando cego. — Eles nos viram, Ted? Ou nos sentiram, ou qualquer coisa assim? — Você sabe que sim... mas eu não acho que eles sabiam o quão perto nós estávamos. — enquanto

entravam no apartamento dos Garfield, Ted tirou seus óculos de sol e os enfiou no bolso da camisa. — Você deve ter se camuflado bem. Uau! Como está quente aqui! — O que faz você pensar que eles não sabiam que estávamos próximos? Ted parou enquanto abria a janela, olhando Bobby por cima dos ombros. — Se soubessem, o carro púrpuro estaria bem atrás de nós quando encostamos aqui. — Não era um carro. — Bobby disse, começando a abrir as janelas também. Não ajudou muito; o ar entrou, levantando as cortinas em apáticos sopros, pareceu tão quente quanto o ar preso dentro do apartamento o dia todo. — Eu não sei o que era, mas apenas parecia com um carro. E o que eu senti deles... — mesmo no calor, Bobby tremeu. Ted pegou seu ventilador, o passou pela prateleira de enfeites de Liz, e o colocou no peitoril. — Eles se camuflam o melhor que podem, mas ainda assim os sentimos. Mesmos as pessoas que não sabem o que eles são conseguem senti-los. Um pouco do que está sob a camuflagem escapa, e o que tem embaixo é feio. Torço para que você nunca descubra o quão feio. Bobby também torceu por isso. — De onde eles vêm, Ted? — De um lugar negro. Ted ajoelhou-se, colocou o plugue na tomada e ligou o ventilador. O ar que ele soprou pela sala era um pouco fresco, mas não tanto quanto o do Bolso da Esquina, ou do Criterion. — É em outro mundo, como em O Anel ao Redor do Sol? É, não é? Ted ainda estava ajoelhado ao lado da tomada. Ele parecia estar rezando. Para Bobby, ele pareceu exausto, acabado, quase morto. Como ele conseguia fugir dos homens baixos? Ele não parecia ser capaz de ir tão longe quanto na Loja de Variedades do Spicer sem tropeçar. — Sim. — ele disse. — Eles vêm de outro mundo. Outro onde e outro quando. É tudo o que posso lhe dizer. Não é seguro você saber mais. Mas Bobby tinha de fazer mais uma pergunta. — Você veio de um desses mundos? Ted olhou solenemente para ele. — Eu vim de Teaneck, Nova Jersey. Bobby olhou para ele, sem entender a princípio, e então começou a rir. Ted, ainda de joelhos ao lado da tomada, juntou-se a ele. — No que você pensou dentro do táxi, Bobby? — Ted perguntou, quando finalmente as risadas pararam. — Para onde você foi quando os problemas começaram? — ele pausou. — O que você viu? Bobby pensou na Carol de vinte anos, com suas unhas pintadas de rosa, nua, com a toalha a seus pés e o vapor ascendendo ao seu redor. Apenas para Adultos, É Obrigatório Carteira de Motorista. Sem Exceções. — Eu não posso dizer. — ele disse, finalmente. — Porque... bem... — Porque certas coisas são particulares. Eu entendo. — Ted levantou-se. Bobby avançou para ajudá-lo, mas Ted o parou. — Talvez você devesse sair para brincar um pouco. — ele disse. — Mais tarde, lá pelas seis, digamos, eu colocarei meus óculos escuros novamente e sairemos, vamos jantar no Café Colônia. — Mas sem feijões. Os cantos da boca de Ted se abriram num esboço de sorriso. — Com certeza, nada de feijões, feijões estão proibidos. Às dez horas eu vou ligar para meu amigo Len e ver como a luta terminou. — Os homens baixos... agora estarão procurando por mim também?

— Eu nunca deixaria você sair por esta porta se achasse isso. — Ted respondeu, parecendo surpreso. — Você está bem, e eu vou me certificar de que você fique bem. Vá agora. Vá brincar de piqueesconde, pega-pega ou qualquer outra coisa que deseje. Eu tenho coisas a fazer. Só volte às seis, para que eu não me preocupe. — Certo. Bobby foi até seu quarto e depositou as quatro moedas que havia ganhado em Bridgeport, em seu pote de dinheiro. Ele deu uma olhada em seu quarto, vendo as coisas com novos olhos: a colcha de caubói, o retrato de sua mãe em uma parede, e a foto autografada — obtida colecionando selos de caixas de cereal — de Clayton Moore com sua máscara noutro, seus patins (um deles com a correia partida) no canto, sua mesa contra a parede. O quarto pareceu menor agora — não parecia tanto com um lugar para se adentrar, mas mais com um para se sair. Ele percebeu que estava alcançando a faixa etária de seu cartão de biblioteca alaranjado, e uma amarga voz interior protestou contra isto. Ela gritou “não, não, não”.

8

Bobby Faz uma Confissão. A Bebê Gerber e o Bebê Xarope. Rionda. Ted Faz uma Ligação. Brado dos Caçadores.

NO PARQUE COMMONWEALTH, crianças jogavam bola. O Campo B estava vazio; no Campo C, alguns adolescentes, vestindo as camisas alaranjadas do St. Gabriel, treinavam beisebol. Carol Gerber estava sentada em um banco com sua corda de pular no colo, assistindo-os. Ela viu Bobby se aproximar e sorriu. E logo o sorriso sumiu. — Bobby, o que há de errado? Bobby não estivera precisamente a par de que havia qualquer coisa de errado consigo até Carol falar, mas o olhar de preocupação no rosto dela fez tudo desmoronar, e ele cedeu. Era a realidade dos homens baixos e o horror do encontro que quase tiveram com eles no caminho de volta de Bridgeport; era a preocupação com sua mãe; mas sobretudo com Ted. Ele sabia perfeitamente o porquê de Ted ter lhe enxotado de casa, e o que ele estava fazendo agora mesmo: arrumando suas pequenas malas e aquelas sacolas de papel. Seu amigo estava indo embora. Bobby começou a chorar. Ele não queria parecer um maricas na frente de uma garota, particularmente esta garota, mas não pôde evitar. Carol pareceu espantada por um momento — assustada. Ela pulou do banco, veio até ele, e pôs os braços ao seu redor. — Está tudo bem, Bobby, não chore, está tudo bem. Quase cego pelas lágrimas, e chorando mais do que nunca — era como se uma violenta tempestade de verão estivesse acontecendo em sua cabeça — Bobby deixou que ela o levasse a um pequeno bosque, onde estariam escondidos dos campos de beisebol e dos caminhos principais. Ela sentou na grama, ainda o abraçando e passando a mão em seus cabelos suados. Por um tempo, ela não disse nada, e Bobby sentiu-se incapaz de falar; ele só conseguiu soluçar, até que sua garganta começou a doer e seus olhos a latejarem. Logo, os intervalos entre os soluços aumentaram. Ele sentou, enxugou o rosto com o braço, horrorizado e envergonhado: não apenas das lágrimas, mas do catarro e da saliva também. Ele provavelmente a sujara de catarro. Carol não pareceu se importar. Ela tocou seu rosto úmido. Bobby recuou de seus dedos, produzindo novo soluço, e olhou para grama. Sua visão, lavada pelas lágrimas, pareceu quase sobrenaturalmente aguçada; ele conseguia enxergar cada espinho e dente de leão. — Está tudo bem. — ela disse, mas Bobby estava envergonhado demais para olhar para ela. Eles ficaram sentados em silêncio por um momento, e então Carol disse: — Bobby, eu serei sua namorada, se você quiser. — Você é minha namorada. — disse Bobby. — Então me diga o que está errado. E Bobby ouviu-se contando tudo para ela, começando pelo dia em que Ted chegara, e de como sua mãe levara apenas um instante para detestá-lo. Ele contou para ela sobre o primeiro apagão de Ted, sobre os homens baixos, e os sinais deles. Quando ele chegou nesta parte, Carol tocou seu braço. — O que foi? — ele perguntou. — Não acredita em mim? — sua garganta ainda estava com aquele

doloroso inchamento que obteve após tanto chorar, mas estava melhorando. Se ela não acreditasse nele, ele não ficaria com raiva dela. Não a culparia nem um pouco, na verdade. Era simplesmente um grande alívio poder tirar a coisa do peito. — Tudo bem. Eu sei como deve soar... — Eu vi essas amarelinhas engraçadas pela cidade. — disse. — Yvonne e Angie também. Nós conversamos sobre elas. Há pequenas estrelas e luas desenhadas perto delas. Às vezes, cometas também. Ele a encarou. — Você está brincando? — Não. Garotas sempre olham amarelinhas, não sei por que. Feche a boca antes que entre mosca. Ele fechou a boca. Carol assentiu, satisfeita, colocou a mão dele na sua, e entrelaçou os dedos com os dele. Bobby ficou espantado pelo encaixe perfeito que os dedos faziam. — Agora, conte-me o resto. E assim ele fez, terminando com o incrível dia que acabara de experimentar: o filme, a viagem ao Bolso da Esquina, como Alanna havia reconhecido seu pai nele, o quase encontro no caminho para casa. Ele tentou explicar como o DeSoto púrpuro não era exatamente um carro, apenas parecia ser um. O mais próximo que ele conseguiu chegar foi dizer que a coisa parecia viva de alguma maneira, como uma versão maléfica do carro que o Dr. Dolittle dirigia naquela série de livros sobre animais falantes pela qual ficaram doidos na segunda série. A única coisa que Bobby deixou de fora foi o momento em que teve de esconder seus pensamentos quando o táxi passou pelo Willian Penn Grille, e a parte de trás de seus olhos começara a coçar. Ele esforçou-se, e então falou o pior como num clímax de uma peça: que tinha medo de que havia sido um erro sua mãe ter ido à Providence com o Sr. Biderman e os outros homens. Um grande erro. — Você acha que o Sr. Biderman dá em cima dela? — Carol perguntou. Agora já voltavam para o banco onde ela havia deixado sua corda de pular. Bobby a pegou e passou para ela. Eles começaram a sair do parque, na direção da Rua Broad. — Sim, talvez. — Bobby disse, carrancudamente. — Ou ao menos... — e aqui estava parte do que ele tinha medo, embora não possuísse nome ou forma real; era como algo sinistro, coberto por um pedaço de lona. — Ao menos ela acha que ele está. — Ele vai pedir para se casar com ela? Se fizesse isso, ele se tornaria seu padrasto. — Deus! — Bobby não havia considerado a ideia de Don Biderman ser seu padrasto, e desejou com todas as forças que Carol não houvesse tocado no assunto. Era um pensamento horrível. — Se ela o ama, é melhor se conformar com a ideia. — Carol disse, de uma maneira tão madura que Bobby achou que poderia ter ficado melhor sem essa; ele achou que ela passara tempo demais neste verão assistindo programas do gênero “Oh, John, Oh, Marsha” com a mãe. E de um jeito esquisito, ele não teria se importando se sua mãe amasse o Sr. Biderman, e isso era tudo. Seria horrível, certamente, porque o Sr. Biderman era um babaca, mas ele teria entendido. Mas mais coisas estavam acontecendo. A avareza de sua mãe (sua pão-durice) era parte da coisa, assim como o que a havia feito voltar a fumar, e chorar durante certas noites. A diferença entre o Randall Garfield de sua mãe, o homem safado que a deixou com contas para pagar, e o Randy Garfield de Allana, o cara legal que gostava da jukebox no volume mais alto... até mesmo isso poderia ser parte da coisa. (Realmente haviam existido contas para pagar? Realmente havia existido a apólice de seguro prescrita? Por que sua mãe mentiria sobre tais coisas?). Essas eram coisas que ele não podia contar a Carol. Não era questão de discrição; era só que ele não sabia como se expressar. Eles começaram a subir a ladeira. Bobby pegou uma ponta da corda e eles andaram lado a lado, arrastando-a entre eles pela calçada. De repente, Bobby parou e apontou.

— Olhe. Havia uma linha amarela de pipa presa a um dos fios elétricos que cruzavam a rua acima. Ela pendia numa curva que a transformava, mais ou menos, num ponto de interrogação. — Sim, eu estou vendo. — Carol disse, soando deprimida. Eles recomeçaram a caminhada. — Ele deve ir embora hoje, Bobby. — Ele não pode. A luta é hoje à noite. Se Albini vencer, Ted tem de pegar sua grana no salão de bilhar amanhã à noite. Eu a Cho que ele precisa muito da grana. — Com certeza. — Carol disse. — Você só tem de olhar para as roupas dele para ver que ele está quase falido. O que ele apostou era provavelmente o último dinheiro que tinha. As roupas dele — isso é algo que apenas uma garota iria perceber, Bobby pensou, e abriu a boca para dizer isso para ela. Antes que ele pudesse, alguém atrás deles falou. — Oh, olhem só isso. É a Bebê Gerber e o Bebê Xarope. Como vão, bebezinhos? Eles olharam em volta. Pedalando lentamente enquanto subiam a ladeira, vinham três garotos do St. Gabe com suas camisas alaranjadas. Dentro das cestas de suas bicicletas estavam seus equipamentos de beisebol. Um dos garotos, um valentão espinhento com uma cruz prateada em volta do pescoço, presa a uma corrente, tinha um bastão de beisebol preso às costas. Ele acha que é Robin Hood, Bobby pensou, mas estava com medo. Eles eram garotos maiores, garotos do ginásio, garotos da escola paroquial, e se decidissem colocá-lo no hospital, para o hospital ele iria. Garotos maus em camisas alaranjadas, ele pensou. — Oi, Willie. — Carol disse para um deles (não para o valentão com o taco nas costas). Ela soou calma, até mesmo alegre, mas Bobby pôde ouvir o medo sobrevoando- a como um pássaro. — Eu assisti você jogar. Você apanhou bem. Aquele com quem ela falava tinha o rosto feio e deformado por baixo dos cabelos ruivos penteados para trás, e acima do corpo de um homem. A bicicleta na qual andava era ridiculamente pequena. Bobby achou que ele parecia um ogro de um conto de fadas. — E o que te importa, Bebê Gerber. — ele perguntou. Os três rapazes do St. Gabe emparelharam com eles. Então, dois deles — o com a cruz pendente e o que Carol chamara de Willie — avançaram um pouco, saindo de cima de suas bicicletas, empurrandoas. Com crescente desespero, Bobby percebeu que ele e Carol haviam sido cercados. Ele podia sentir o cheiro misturado de suor e desodorante que vinha das camisas alaranjadas dos rapazes. — Quem é você, Bebê Xarope? — perguntou o terceiro rapaz do St. Gabe a Bobby. Ele se inclinou por sobre o guidão da bicicleta para dar uma melhor olhada. — Você é Garfield? É, não é? Billy Donahue ainda está procurando por você por causa daquela no inverno. Ele quer estourar seus dentes. Talvez eu devesse estourar um ou dois bem aqui, para dar-lhe uma adiantada. Bobby sentiu uma horrível sensação de embrulhamento em seu estômago, algo que parecia com cobras dentro de uma cesta. Eu não vou chorar de novo, ele disse a si mesmo. Haja o que houver, eu não vou chorar de novo, mesmo que eles me mandem para o hospital. E eu vou tentar protegê-la. Protegê-la de garotos grandes como estes? Que piada? — Por que está sendo tão mau, Willie? — Carol perguntou. Ela falou solenemente com o garoto de cabeleira ruiva. — Você não é mau quando está sozinho. Por que tem de ser mau agora? Willie ruborizou. Isso, junto com seu escuro cabelo ruivo — mais escuro que o de Bobby — fez com que ele parecesse estar pegando fogo do pescoço pra cima. Bobby imaginou que ele não gostaria que seus amigos soubessem que podia agir como um humano quando eles não estavam por perto. — Cale a boca, Bebê Gerber! — ele rosnou. — Por que você não cala a boca e beija seu namorando enquanto ele ainda tem dentes?

O terceiro rapaz usava um cinto de motoqueiro apertado e velhos sapatos de sapateado, cobertos de areia do campo de beisebol. Ele estava atrás de Carol. Ele se aproximou, ainda empurrando sua bicicleta, e pegou o rabo de cavalo dela com as duas mãos. Então ele o puxou. — Ai! — Carol quase berrou. Ela pareceu tão surpresa quanto machucada. Ela se esquivou com tanta força que quase caiu. Bobby a pegou, e Willie — que podia ser legal quando não estava com seus amigos, de acordo com Carol — riu. — Por que fez isso? — Bobby berrou com o rapaz do cinto de motoqueiro, e as palavras saíram de sua boca como se ele as houvesse ouvido milhares de vezes antes. Tudo isso era como um ritual, as coisas que eram ditas antes dos verdadeiros machucados e empurrões, e antes que os primeiros punhos começassem a voar. Ele pensou novamente em Senhor das Moscas — Ralph fugindo de Jack e dos outros. Ao menos na ilha de Golding havia uma selva. Ele e Carol não tinham para onde fugir. Ele vai dizer Porque eu quis. É isso o que vem em seguida. Mas antes que o garoto do cinto apertado pudesse dizê-lo, Robin Hood, do bastão caseiro pendurado nas costas, disse por ele. — Porque ele quis. O que vai fazer a respeito, Bebê Xarope? — ele jogou a mão de súbito, rápido como uma cobra, e estapeou Bobby no rosto. Willie riu de novo. Carol foi até ele. — Willie, por favor, não... Robin Hood chegou nela, agarrou a fronte da blusa de Carol e a apertou. — Já cresceram os peitinhos? Ah, não tem quase nada. Você não é nada, a não ser um Bebê Gerber. — ele a empurrou. Bobby, sua cabeça ainda latejando pela tapa, a agarrou e, pela segunda vez, a impediu de cair. — Vamos arrebentar esse veadinho. — disse o garoto do cinto de motoqueiro. — Eu odeio a cara dele. Eles avançaram, os pneus de suas bicicletas guinchando solenemente. Então, Willie deixou a sua cair de lado, como um pônei morto, e foi até Bobby. Bobby levantou os punhos numa débil imitação de Floyd Patterson. — Digam-me, garotos, o que é que há? — alguém perguntou atrás deles. Willie abaixara um de seus próprios punhos. Ainda mantendo-os cerrados, ele olhou por cima dos ombros. Assim também fez Robin Hood e o garoto do cinto de motoqueiro. Estacionado ao meio-fio, estava um velho Studebaker azulado com soleiras externas enferrujadas, e um ímã de Jesus pregado no para-lama. Parada à frente dele, parecendo extremamente peituda e extremamente ampla nos quadris, estava a amiga de Anita Gerber, Rionda. Roupas de verão nunca seriam suas amigas (mesmo aos onze anos, Bobby entendeu isto), mas, naquele momento, ela parecia uma deusa em calças capri. — Rionda! — Carol gritou — sem chorar, mas quase. Ela abriu caminho através de Willie e do garoto de cinto de motoqueiro. Nenhum deles fez qualquer esforço para detê-la. Todos os três garotos do St. Gabe miravam Rionda. Bobby percebeu olhava para o punho cerrado de Willie. Às vezes, Bobby acordava de manhã com seu pinto, tão duro quanto uma rocha, apontado para cima como um foguete lunar ou coisa assim. Enquanto estava no banheiro fazendo xixi, ele começava a amolecer e murchar com o tempo. O punho cerrado de Willie começava a murchar agora, a mão relaxando de volta à formação original dos dedos, e a comparação fez Bobby querer sorrir. Ele resistiu ao ímpeto. Se o vissem sorrindo agora, eles nada poderiam fazer. Mais tarde, entretanto... ou outro dia... Rionda pôs os braços ao redor de Carol e abraçou a garota contra seus imensos seios. Ela inspecionou os rapazes de camisas alaranjadas e sorriu. Sorria e não fazia esforço para esconder. — Willie Shearman, não é? O braço do punho, antes cerrado, caiu de lado. Resmungando, ele se inclinou para pegar sua

bicicleta. — Richie O’Meara? O garoto de cinto de motoqueiro mirou seus sapatos empoeirados de sapateado, e também resmungou alguma coisa. Suas bochechas queimavam de vergonha. — Um dos garotos O’Meara, de qualquer forma, há tantos de vocês que eu mal consigo acompanhar. — seus olhos pularam para Robin Hood. — E quem é você, garotão? É um dos Dedham? Você se parece um pouco com eles. Robin Hood olhou para as mãos. Ele usava um anel da turma em um dos dedos, e agora começava a torcê-lo. Rionda ainda mantinha o braço ao redor dos ombros de Carol. Carol tinha um de seus próprios braços agarrado à cintura de Rionda, esticando-o o máximo que podia. Ela acompanhou Rionda, sem olhar para os rapazes, enquanto a mulher saia da rua para a pequena faixa de grama entre o meio-fio e a calçada. Ela ainda olhava para Robin Hood. — É melhor me responder quando eu falo com você, filhinho. Não será difícil achar sua mãe se eu quiser. Tudo o que tenho a fazer é perguntar ao Padre Fitzgerald. — Harry Doolin, sou eu. — o menino disse, finalmente. Ele torcia seu anel da turma mais rápido do que nunca. — Ora, mas cheguei perto, não foi? — Rionda perguntou, prazerosamente, dando dois ou três passos à frente. Isso a levou à calçada. Carol, com medo de se aproximar dos meninos, tentou pará-la, mas Rionda não parou. — Dedhams e Doolins, todos casados juntos. Voltando agora mesmo para o Condado da Rolha, trala-tra-li. Não era Robin Hood, mas um garoto chamado Harry Doolin com um estúpido bastão de beisebol caseiro preso às costas. Não era Marlon Brando em O Selvagem, mas um garoto chamado Richie O’Meara, que só poderia ter uma Harley para combinar com seus cintos daqui a cinco anos... se é que teria uma algum dia. E Willie Shearman, que não se atrevia a ser legal com uma garota quando estava com seus amigos. E tudo o que foi preciso para que se encolhessem de volta aos seus tamanhos naturais foi a presença de uma mulher acima do peso, vestindo uma calça capri, que havia vindo ao resgate, não em um garanhão branco, mas num Studebaker 1954. O pensamento deveria ter confortado Bobby, mas não o fez. Ele percebeu que pensava no que William Golding havia dito, que os meninos da ilha haviam sido resgatados pela tripulação de um cruzador, e que bom para eles... mas agora, quem resgataria a tripulação? Era um pensamento idiota, ninguém nunca pareceu tanto não precisar de resgate como Rionda Hewson naquele momento, mas as palavras ainda assombravam Bobby. E se não houvesse adultos? Supondo-se que a ideia inteira de adultos fosse uma ilusão. E se o dinheiro deles fossem apenas bolinhas de gude, seus negócios nada mais do que trocas de figurinhas, e suas guerras apenas brincadeiras com pistolas de água no parque? E se eles ainda fossem crianças irritadas dentro de seus ternos e vestidos? Cristo, isso não seria possível, seria? Era horrível demais para se pensar a respeito. Rionda ainda olhava para os rapazes do St. Gabe com seu perigoso e duro sorriso. — Vocês três não iriam pegar nos pés de crianças mais novas e mais inteligentes do que vocês, iriam? Uma delas sendo uma menina, como suas próprias irmãzinhas? Novamente, ela deu-lhes a chance de responderem e bastante tempo para ouvirem seus próprios silêncios. — Willie? Richie? Harry? Vocês não estavam pegando nos pés deles, estavam? — Claro que não. — Harry disse. Bobby achou que se ele continuasse a girar o anel naquela velocidade, seu dedo provavelmente pegaria fogo.

— Se eu achasse que uma coisa dessas estivesse acontecendo... — Rionda disse, ainda ostentando seu sorriso perigoso. — ...eu teria de falar com o Padre Fitzgerald, não teria? E o Padre provavelmente acharia melhor falar com seus pais, e seus pais provavelmente achariam melhor esquentar seus traseiros... e rapazes, vocês iriam merecer, não iriam? Por pegar nos pés pequenos e fracos. O silêncio dos três garotos continuou, todos agora novamente sentados em suas bicicletas ridiculamente pequenas. — Eles pegaram no seu pé, Bobby? — Rionda perguntou. — Não. — Bobby disse prontamente. Rionda pôs um dedo sob o queixo de Carol e levantou sua cabeça. — Eles pegaram no seu pé, amorzinho? — Não, Rionda. Rionda sorriu para ela, e, embora houvesse lágrimas nos olhos de Carol, ela sorriu de volta. — Bem, garotos, acho que estão fora do anzol. — Rionda disse. — Eles disseram que vocês não fizeram nada que poderiam lhes causar um único minuto desconfortante no confessionário. Eu diria que vocês devem a eles um voto de agradecimento, não? Mais resmungos dos rapazes do St. Gabe. Por favor, deixe isso pra lá, Bobby pediu silenciosamente. Não os obrigue a nos agradecer. Não esfregue a fuça deles nisso. Talvez Rionda tenha ouvido seus pensamentos (Bobby agora tinha uma boa razão para acreditar que tais coisas eram possíveis). — Bem. — ela disse. — Talvez possamos pular essa parte. Vão para casa, garotos. E Harry, quando você vir Moira Dedham, diga a ela que eu continuo a ir ao bingo em Bridgeport toda semana, se ela quiser uma carona. — Com certeza. — Harry disse. Ele montou em sua bicicleta e pedalou ladeira acima, os olhos permaneciam na calçada. Se houvesse pedestres pelo caminho, ele provavelmente os teria atropelado. Seus dois amigos o seguiram, pedalando depressa para alcançá-lo. Rionda os assistiu se distanciarem, seu sorriso desapareceu lentamente. — Carambolas. — ela disse, finalmente. — Problemas apenas esperando para acontecer. Enfim, boa viagem para eles. Carol, você está realmente bem? Carol disse que estava realmente bem. — Bobby? — Claro, estou bem. — foi necessária toda a disciplina que ele pode arranjar para não começar a tremer na frente dela como uma tigela de gelatina de morango, mas se Carol podia se segurar, ele também podia. — Entre no carro. — Rionda disse para Carol. — Eu lhe darei uma carona até a sua casa. Você vá andando, Bobby—atravesse a rua e entre em casa. Esses garotos terão esquecido tudo sobre você e minha Carol pela manhã, mas nesta noite seria mais inteligente se vocês dois permanecessem em suas casas. — Certo. — Bobby disse, sabendo que eles não teriam esquecido nada pela manhã, e muito menos pelo fim de semana, e muito menos ainda pelo fim do verão. Ele e Carol teriam de ter cuidado com Harry e seus amigos por um bom tempo. — Tchau, Carol. — Tchau. Bobby trotou pela Rua Broad. Já do outro lado, ele parou, observando o velho carro de Rionda subir até o apartamento onde viviam os Gerbers. Quando Carol saiu, ela olhou de volta para o começo da ladeira e acenou, Bobby acenou de volta. Por fim, subiu a varanda do nº 149 e entrou. Ted estava sentado na sala de estar, fumando um cigarro e lendo um exemplar da revista Life. Anita

Ekberg estava na capa. Bobby não tinha dúvidas de que as maletas e sacolas de papel estavam arrumadas, mas não havia sinal delas; ele devia tê-las deixado lá em cima, em seu quarto. Bobby estava feliz. Ele não queria ter de olhar para elas. Já era ruim o bastante saber que elas estavam lá. — O que você fez? — Ted perguntou. — Não muito. — Bobby disse. — Acho que vou deitar na cama e ler até a hora do jantar. Ele foi até o seu quarto. Empilhados no chão, ao lado de sua cama, estavam três livros da seção adulta da Biblioteca Pública de Harwich: Engenheiros Cósmicos, de Clifford D. Simak; O Mistério do Chapéu Romano, de Ellery Queen; e Os Herdeiros, de William Golding. Bobby escolheu Os Herdeiros e deitou com a cabeça no pé da cama e seus pés, ainda calçados com as meias, no travesseiro. Havia homens da caverna na capa do livro, mas eles eram desenhados de uma maneira quase abstrata — você nunca veria homens da caverna como aqueles em uma capa de livro infantil. Ter um cartão de biblioteca para adultos era bastante legal... mas não tão legal quanto havia parecido a princípio.

***

O Olho Havaiano estava passando na TV às nove horas, e Bobby normalmente teria sido proibido de assisti-lo (sua mãe dizia que programas como O Olho Havaiano e Os Intocáveis eram violentos demais para crianças verem), mas nesta noite sua cabeça continuava a vagar para longe da trama. A menos de cem quilômetros dali, Eddie Albini e Hurricane Haywood estariam lutando; a Garota das Lâminas Azuis da Gillette, vestida em roupas de banho azuis e salto-alto azul, estaria andando pelo ringue antes do começo de cada assalto, segurando uma placa com um número azul. 1... 2... 3... 4... Às nove e meia, Bobby ainda não tinha ideia de quem seria o culpado no programa, e desistiu que imaginar quem havia matado a socialite loira. Hurricane Haywood cairá no oitavo assalto, Ted havia lhe dito; o Velho Gee sabia disso. Mas, e se algo desse errado? Ele não queria que Ted fosse embora, mas se ele tinha de ir, Bobby não podia suportar o pensamento dele indo com a carteira vazia. Certamente isso não poderia acontecer... ou poderia? Bobby havia visto um programa na TV onde um lutador deveria desistir, mas aí ele mudou de ideia. E se isso acontecesse hoje? Desistir era ruim, era trapacear—não brinca, Sherlock, descobriu o mundo— mas se Hurricane Haywood não trapaceasse, Ted estaria muito encrencado; “no buraco”, como Sully-John teria dito. Nove e meia de acordo com o relógio na parede da sala de estar. Se a matemática de Bobby estivesse certa, o crucial oitavo assalto estaria a caminho. — O que está achando de Os Herdeiros? Bobby estava tão enterrado em seus próprios pensamentos que a voz de Ted o fez pular. Na televisão, Keenan Wynn estava parado, na frente de uma escavadeira, dizendo que andaria dois quilômetros por um cigarro. — É bem mais difícil que Senhor das Moscas. — ele disse. — Tem essas duas pequenas famílias de gente das cavernas, e uma delas é a mais inteligente. Mas a outra família, a família burra, eles são os heróis. Eu quase desisti, mas agora está ficando mais interessante. Eu acho que vou continuar. — A família que você conheceu primeiro, aquela com a menininha, são os Neandertais. A segunda família — só que é uma tribo, Golding e suas tribos — são os Cro-Magnons. Os Cro-Magnons são os herdeiros. O que acontece entre os dois grupos satisfaz a definição de tragédia: eventos provocando um desfecho infeliz que não pode ser evitado. Ted continuou, falando sobre peças de Shakespeare, poemas de Poe, e romances de um cara chamado Theodore Dreiser. Normalmente, Bobby teria ficado interessado, mas nesta noite sua mente continuava a viajar até o Madison Square Garden. Ele podia visualizar o ringue, aceso de modo tão

selvagem quanto as mesas de sinuca d’O Bolso da Esquina. Ele podia ouvir a multidão gritando, enquanto Haywood entrava, tatuando o surpreso Eddie Albini com suas esquerdas e direitas. Haywood não iria facilitar a luta; como o pugilista no programa da TV, ao invés disso, ele iria mostrar ao outro cara o verdadeiro mundo da dor. Bobby podia sentir o cheiro do suor e ouvir o pesado som das luvas encontrando-se com a carne. Os olhos de Eddie Albini ficariam completamente desfocados... seus joelhos cederiam... e o público ficaria de pé, ovacionando.... — ...a ideia de destino, como uma força da qual não se pode escapar, parece ter começado com os gregos. Havia um dramaturgo chamado Eurípedes que... — Ligue. — Bobby disse, e, embora nunca houvesse fumado um cigarro na vida (já em 1964 ele estaria fumando um maço por semana), sua voz soou tão áspera quanto a de Ted soava à noite, após um dia inteiro de Chesterfields. — Perdão, Bobby? — Ligue para o Sr. Files, e veja o que aconteceu na luta. — Bobby olhou para o relógio. Nove e quarenta e cinco. — Se já chegou ao oitavo, já deve ter terminado. — Concordo que a luta terminou, mas se eu ligar para Files tão cedo, ele pode suspeitar de algo. — Ted disse. — O rádio também não adiantaria, já que a luta não foi transmitida, como sabemos. É melhor esperar. É mais seguro. Deixe-o acreditar que sou um homem de palpites inspirados. Vou ligar às dez, como se eu esperasse que a luta tivesse durado mais até a decisão, ao invés de ter terminado por nocaute. Enquanto isso, Bobby, não se preocupe. Eu lhe digo que isso é como tirar doce de criança. Bobby desistiu de vez de assistir a O Olho Havaiano; ele simplesmente sentou-se no sofá e ficou escutando os atores falarem. Um homem gritou para um policial gordo havaiano. Uma mulher de maiô correu para o mar. Um carro perseguiu outro, enquanto tambores decoravam a trilha sonora. Os ponteiros do relógio se moveram, batalhando seu caminho do dez até o doze, como escaladores negociando seus últimos metros no Monte Everest. O homem que havia matado a socialite também acabou sendo morto, enquanto fugia por um campo de abacaxis. Por fim, O Olho Havaiano terminou. Bobby não esperou pelo trailer do próximo episódio; desligou a TV e disse: — Ligue, está bem? Por favor, ligue. — Em um momento. — Ted disse. — Eu acho que tomei um refresco a mais além de meu limite. Minha bexiga parece ter encolhido com a idade. Ele foi até ao banheiro. Houve um silêncio interminável, então o som do xixi caindo no bojo. — Aaah! — Ted disse. Havia uma considerável satisfação em sua voz. Bobby não podia ficar mais sentado. Ele se levantou e começou a andar pela sala de estar. Ele tinha certeza de que Tommy “Hurricane” Haywood estava sendo, naquele instante, fotografado em seu canto do ringue, no Garden, machucado, mas brilhando, enquanto os clarões brancos eram lançados contra seu rosto. A Garota das Lâminas Azuis da Gillette estaria com ele, seu braço em volta de seus ombros, sua mão em sua própria cintura, enquanto Eddie Albini permanecia atolado no seu canto, esquecido, com os olhos inchados, quase fechados, e, ainda assim, não completamente consciente da surra que havia levado. Quando Ted voltou, Bobby já estava desesperado. Ele sabia que Albini havia perdido a luta, e que seu amigo havia perdido quinhentos dólares. Ted ficaria em Harwich quando descobrisse que estava falido? Ele poderia... mas e se isso acontecesse e os homens baixos chegassem... Bobby assistiu, os punhos se fechando e abrindo, enquanto Ted pegava o telefone e discava o número. — Relaxe, Bobby. — Ted lhe disse. — Vai ficar tudo bem. Mas Bobby não conseguia relaxar. Suas tripas pareciam recheadas de arame farpado. Ted segurou

o telefone contra a orelha sem dizer nada pelo que pareceu uma eternidade. — Por que eles não atendem? — Bobby sussurrou ferozmente. — Só tocou duas vezes, Bobby. Por que você não — alô? Aqui é o Sr. Brautigan. Ted Brautigan? Sim, senhora, de hoje de manhã. — por incrível que pareça, Ted deu a Bobby uma piscadela. Como ele podia estar tão calmo? Bobby não achou que pudesse ser capaz de segurar o telefone contra a orelha se estivesse no lugar de Ted, e muito menos soltar uma piscadela. — Sim, senhora, ele está. — Ted virou-se para Bobby e falou, sem cobrir o bocal do telefone. — Alanna quer saber como está sua namorada. Bobby tentou falar e só conseguiu produzir uma brisa. — Bobby diz que ela está bem. — Ted disse a Alanna. — Tão linda quanto um dia de verão. Posso falar com Len? Sim, eu espero. Mas, por favor, fale sobre a luta. — houve uma pausa que pareceu eterna. Ted não demonstrava expressão alguma. E desta vez, quando se virou para Bobby, ele cobriu o bocal. — Ela disse que Albini levou uma bela porrada no quinto assalto, conseguiu se segurar no sexto e no sétimo, então, no oitavo assalto, do nada, soltou um belo gancho de direita que fez Haywood beijar a lona. Que surpresa, hein? — Sim. — Bobby disse. Seus lábios pareciam anestesiados. Tudo havia se realizado. A esta hora da noite de sexta-feira, Ted já teria ido embora. Com duas mil pratas no bolso, podiam-se arranjar várias fugas de vários homens baixo; com duas mil pratas no bolso, você poderia pilotar o Grande Cão Cinzento do céu ao inferno. Bobby foi ao banheiro e colocou pasta em sua escova de dentes. Seu terror de que Ted apostara no lutador errado se fora, mas a tristeza da perda ainda estava lá, e continuava a crescer. Ele nunca teria imaginado que algo que ainda não havia acontecido poderia doer tanto. Daqui a uma semana, eu não vou mais lembrar o que ele tinha de tão legal. E em um ano, dificilmente eu me lembrarei dele. Isso seria verdade? Deus, era verdade? Não, Bobby pensou. Sem chance. Eu não vou deixar isso acontecer. Na outra sala, Ted conversava com Len Files. Pareceu ser uma conversa bastante amigável, se desenrolando do jeito que Ted esperava... e sim, aqui estava Ted dizendo que tivera um palpite, um bem forte, do tipo que você tinha de apostar se quisesse se considerar um esportista. Claro, nove e trinta da noite de amanhã serial ideal para o pagamento, presumindo que a mãe de seu amigo estaria de volta por volta das oito; se ela se atrasasse um pouco, Len o veria lá pelas dez ou dez e trinta. Estava tudo bem com isso? Mais risadas de Ted, então pareceu estar tudo certo para o rechonchudo Lennie Files. Bobby devolveu a escova de dentes ao copo de vidro no armário abaixo do espelho, e pôs as mãos no bolso. Havia algo lá dentro que seus dedos não reconheciam, que não era parte das coisas normais que lá ficavam. Ele puxou o chaveiro verde de plástico, uma lembrancinha especial da parte de Bridgeport da qual sua mãe não tinha conhecimento. A parte do submundo. O BOLSO DA ESQUINA. JOGOS. SINUCA. FLIPERAMAS. KENMORE 8-2127. Ele provavelmente já deveria tê-lo escondido — ou se livrado dele de vez — então, subitamente, uma ideia lhe veio. Nada poderia realmente animar Bobby Garfield naquela noite, mas isto pelo menos chegaria perto: ele daria o chaveiro para Carol Gerber, depois de precavê-la a nunca revelar à mãe dele aonde ela o tinha ganhado. Ele sabia que Carol tinha pelo menos duas chaves que poderia colocar nele — a do seu apartamento e a do diário que Rionda lhe dera de presente de aniversário (Carol era três meses mais velha do que Bobby, mas ela nunca esfregou isso na cara dele). Dar-lhe o chaveiro seria uma maneira de dizer que ele estava pronto para namorar firme. E ele nem teria de ficar todo meloso e envergonhado para expressar; Carol saberia. Isso era parte do que a fazia ser legal. Bobby pousou o chaveiro no armário próximo ao copo de vidro, então foi para o quarto colocar o pijama. Quando saiu, Ted estava sentado no sofá, fumando um cigarro e olhando para ele.

— Bobby, você está bem? — Acho que sim. Acho que tenho de estar, não é? Ted assentiu. — Acho que ambos temos de estar. — Eu voltarei a vê-lo? — Bobby perguntou, esperando no íntimo que Ted não soasse como O Cavaleiro Solitário, falando daquele jeito canastrão que algum dia voltaremos a nos encontrar, parceiro, ou qualquer coisa assim... só que não era uma “coisa”, essa palavra era gentil demais. Estava mais para “merda”. Ele não acreditava que Ted já houvesse mentido para ele, e não queria que ele começasse agora que estavam próximos do fim. — Eu não sei. — Ted estudou seu cigarro. Quando olhou para cima, Bobby viu que seus olhos nadavam em lágrimas. — Eu acho que não. As lágrimas destruíram Bobby. Ele correu pela sala, querendo abraçar Ted, precisando abraçar Ted. Ele parou quando Ted ergueu os braços e os cruzou no peito de sua velha camisa surrada, sua expressão era de uma surpresa horrorizada. Bobby permaneceu onde estava, seus braços ainda apartados para o abraço. Lentamente, ele os abaixou. Sem abraços, sem toques. Essa era a regra, mas a regra era horrível. A regra era errada. — Você vai escrever? — ele perguntou. — Eu mandarei cartões postais. — Ted respondeu, depois de pensar por um momento. — Não diretamente para você, isto pode ser perigoso para ambos. O que eu poderia fazer? Alguma ideia? — Mande-os para Carol. — Bobby disse. Ele nem precisou parar pra pensar. — Quando você contou para ela sobre os homens baixos, Bobby? — não havia reprovação na voz de Ted. E por que haveria? Ele ia embora, não ia? Por toda a diferença que fazia, o cara que escreveu a história sobre o ladrão de carrinhos de supermercado poderia escrever mais outra para o jornal: VELHO DOIDO FOGE DE ALIENÍGENAS INVASORES. As pessoas leriam umas para as outras ao beberem seus cafés e comerem seus cereais, então ririam. Do que Ted havia chamado isso naquele dia? Humor extravagante de cidade pequena, não é? Mas se era tão engraçado, por que machucava? Por que machucava tanto? — Hoje... — ele disse, em voz baixa. — Eu a vi no parque, e tudo meio que... saiu. — Acontece. — Ted disse, solenemente. — Eu sei disso muito bem; às vezes a represa simplesmente cede. E talvez seja para o melhor. Você dirá a ela que eu posso querer te contatar através dela? — Sim. Ted bateu o dedo contra os lábios, pensando. Então assentiu. — No topo dos cartões que eu mandar, estará escrito Para C, em vez de Para Carol. No fundo, eu assinarei como Um Amigo. Deste modo, ambos saberão quem escreve. Certo? — Sim. — Bobby disse. — Legal. — não era legal, nada disso era legal, mas teria de servir. Subitamente, ele ergueu a mão, beijou os dedos, e soprou através deles. Ted, sentando no sofá, sorriu, pegou o beijo, e o carimbou em sua bochecha enrugada. — É melhor ir para a cama agora, Bobby. Este foi um grande dia, e é tarde. Bobby foi para a cama.

***

A princípio, ele achou que se tratava do mesmo sonho de antes—Biderman, Cushman e Dean caçando sua mãe pela selva da ilha de William Golding. Então, Bobby percebeu que as árvores e vinhas

eram apenas parte do papel de parede, e que o chão, sob os pés corredores de sua mãe, eram de um tapete marrom. Não uma selva, mas um corredor de hotel. Essa era a sua versão mental do Hotel Warwick. O Sr. Biderman e os outros dois bananas ainda a perseguiam. Agora, junto com eles, também corriam os rapazes do St. Gabe — Willie, Richie e Harry Doolin. Todos eles usavam aquela maquiagem, à base de tinta branca e vermelha, no rosto. Todos eles usavam gibões amarelos nas quais estavam desenhados um olho brilhante e rubro:



Exceto pelos gibões, eles estavam nus. Suas partes íntimas subiam e desciam em ninhos emaranhados de pelos púbicos. Todos, menos Harry Doolin, brandiam lanças; ele estava com seu bastão de beisebol. Ele o havia aguçado em ambas as pontas. — Matem a vadia! — Cushman berrou. — Bebam o sangue dela! — Don Biderman gritou, e jogou sua lança em Liz Gardield no momento em que ela virava em um corredor. A lança ficou presa em uma das paredes pintadas de selva. — Metam em sua boceta suja. — gritou Willie (Willie, que poderia ser legal quando não estivesse perto dos amigos). O olho rubro em seu peito observava. Abaixo dele, seu pênis também parecia observar. Corra, mãe! Bobby tentou gritar, mas nenhuma palavra saiu. Ele não tinha boca e nem corpo. Ele estava lá, mas ao mesmo tempo não estava. Ele voou ao lado de sua mãe como sua própria sombra. Ele a ouviu engasgar a procura de ar, viu sua boca aterrorizada e tremulante, e suas meias rasgadas. Seu vestido caro também estava rasgado. Um de seus seios estava arranhado e sangrava. Um de seus olhos estava quase fechado. Ela parecia ter lutado uns rounds com Eddie Albini ou Hurricane Haywood... ou ambos ao mesmo tempo. — Vou te abrir ao meio! — Richie urrou. — Vou te comer viva! — concordou Curtis Dean (a plenos pulmões). — Vou beber seu sangue, espalhar suas tripas! Sua mãe olhou para trás, e seu pé (ela havia perdido seus sapatos em algum lugar) enrolou-se no outro. Não faça isso, mãe, Bobby gritou. Pelo amor de Deus, não faça isso. Como se ela o houvesse escutado, Liz olhou novamente para frente e tentou correr mais rápido. Ela passou por um cartaz na parede:

POR FAVOR AJUDE A ACHAR NOSSA PORCA DE ESTIMAÇÃO? LIZ é nossa MASCOTE! LIZ TEM 34 ANOS DE IDADE! Ela é uma PORCA DE TEMPERAMENTO RUIM mas NÓS A AMAMOS! Fará o que você quiser se você disser “EU PROMETO” (OU) TEM DINHEIRO NESSA! LIGUE PARA HOusitonic 5-8337 (OU) TRAGA-A ao WILLIAM PENN GRILLE! Pergunte pelos HOMENS BAIXOS EM CASACOS AMARELOS!

Lema: “NÓS SÓ COMEMOS MAL PASSADO!”

Sua mãe também viu o cartaz, e desta vez, quando seus calcanhares se entrelaçaram, ela caiu. Levante-se, mãe! Bobby berrou, mas ela não o fez — talvez não pudesse fazê-lo. Ela arrastou-se pelo tapete, olhando por cima dos ombros, enquanto seguia em frente, seu cabelo pendia pelas bochechas e pela testa em cachos suados. As costas de seu vestido estavam dilaceradas, e Bobby pode ver seu traseiro nu—sua calcinha havia desaparecido. Pior, as costas de suas coxas estavam manchadas de sangue. O que haviam feito com ela? Deus, o que eles haviam feito com sua mãe? Don Biderman saiu do corredor à frente dela — ele havia encontrado um atalho. Os outros estavam atrás dele. Agora, o pau do Sr. Biderman estava ereto do jeito que o de Bobby ficava de manhã, antes dele sair da cama e ir ao banheiro. Só que o pau do Sr. Biderman era enorme, parecia um kraken, uma trífide, um monstro, e Bobby achou que havia entendido o sangue nas pernas de sua mãe. Ele não queria, mas achou que entendia. Deixe-a em paz! Ele tentou gritar para o Sr. Biderman. Deixe-a em paz, já não fez o suficiente? O olho rubro no gibão amarelo do Sr. Biderman subitamente se abriu mais ainda... e seu olhar deslizou para um lado. Bobby estava invisível, seu corpo estava um mundo abaixo do redemoinho... mas o olho rubro o viu. O olho rubro via tudo. — Matem a porca, bebam o sangue. — o Sr. Biderman disse, numa voz grossa, quase irreconhecível, e começou a avançar. — Matem a porca, bebam o sangue. — Bill Cushman e Curtis Dean se juntaram ao coro. — Matem a porca, arranquem suas tripas, comam sua carne. — cantaram Willie e Richie, vindo atrás dos bananas. Assim como eles, seus paus haviam se tornado lanças. — Coma ela, beba ela, estripe ela, foda ela. — Harry bradou. Levanta-se, mãe! Corra! Não deixe que a peguem! Ela tentou. Mas enquanto ela lutava para ficar de pé, Biderman saltou em sua direção. Os outros o seguiram, se aproximando, e quando suas mãos começaram a rasgar os restos da roupa dela, Bobby pensou: Eu quero sair daqui, eu quero voltar para o redemoinho do meu próprio mundo, faça com que pare e gire para o outro lado, para que eu possa voltar para o redemoinho do meu próprio quarto, em meu próprio mundo... Só que não era um redemoinho, e mesmo enquanto as imagens do sonho começavam a se estilhaçar e a escurecer, Bobby soube disso. Não era um redemoinho, mas uma torre, um eixo ereto por qual toda a existência se movia e girava. Então, ela sumiu, e, por um breve momento, houve um misericordioso vazio. Quando abriu os olhos, seu quarto estava banhado pela luz do sol — a luz do sol de verão de uma manhã de quinta-feira, no último junho da Presidência de Eisenhower.

9

Quinta-Feira Feia.

UMA COISA SE PODIA DIZER SOBRE Ted Brautigan: ele sabia como cozinhar. O café da manhã que ele colocou na frente de Bobby — ovos mexidos, torradas, bacon crocante — era muito melhor do que qualquer coisa que sua mãe já lhe fizera para o café da manhã (a especialidade dela eram grandes panquecas sem gosto que ambos afogavam na cobertura de mel da Tia Jenima), e tão bom quanto qualquer coisa que se poderia pedir no Café Colônia, ou em Harwich. O único problema era que Bobby não estava com apetite. Ele não conseguia se lembrar dos detalhes de seu sonho, mas sabia que havia sido um pesadelo, e que ele havia chorado em certo ponto (quando acordara, seu travesseiro estava úmido). Ainda assim, o sonho não era a única razão pela qual ele se sentia triste e deprimido nesta manhã; sonhos, afinal de contas, não eram reais. A fuga de Ted, por outro lado, era. E assim seria para sempre. — Você vai embora depois que for ao Bolso da Esquina? — Bobby perguntou, enquanto Ted vinha se sentar com ele com seu próprio prato de ovos e bacon. — Você vai, não vai? — Sim, será mais seguro. — ele começou a comer, mas lentamente, sem aparente satisfação. Ele estava se sentindo mal também. Bobby ficou feliz. — Eu direi à sua mãe que meu irmão em Illinois está doente. É tudo o que ela precisa saber. — Você vai tomar o Grande Cão Cinzento? Ted sorriu brevemente. — O trem, provavelmente. Agora sou um homem mais afortunado, lembra? — Qual trem? — É melhor se você não souber dos detalhes, Bobby. Não poderá contar o que não sabe. Ou ser forçado a isso. Bobby pensou nisso brevemente, então perguntou: — Você vai se lembrar de mandar os cartões postais? Ted pegara um pedaço de bacon, então o pousou novamente. — Cartões postais, montes de cartões postais. Eu prometo. Agora, vamos parar de falar sobre isso. — Sobre o que deveríamos falar, então? Ted pensou a respeito, então sorriu. Seu sorriso era doce e sincero; quando ele sorriu, Bobby pôde ver um reflexo de como ele devia ter sido aos vintes anos. — Livros, é claro. — Ted disse. — Vamos falar sobre livros.

***

Aquele seria um dia quente e sufocante, isso ficou claro por volta das nove horas. Bobby ajudou com os pratos, secando-os e guardando-os, então foram sentar na sala de estar, onde o ventilador de Ted fazia seu melhor para circular o ar abafado, e falaram sobre livros... ou melhor, Ted falou sobre livros. E nesta manhã, sem a distração da luta entre Albini e Haywood, Bobby ouviu atentamente. Ele não entendeu tudo o que Ted disse, mas entendeu o bastante para perceber que os livros produziam seus próprios mundos, e que a Biblioteca Pública de Harwich não era um. A biblioteca não era nada, exceto um portal para aqueles mundos. Ted falou sobre William Golding, e o que ele chamava de “fantasia distópica”, então pularam para

A Máquina do Tempo, de H.G. Wells, sugerindo uma ligação entre seus Morlocks e Elois e o Jack e Ralph da ilha de Golding; ele falou sobre o que chamava de “únicas desculpas da literatura”, que ele disse que exploravam questões sobre inocência e experiência, o bem e o mal. Próximo do fim desta palestra improvisada, ele mencionou um romance chamado O Exorcista, que lidava com ambas as questões (“no contexto popular”), então parou, abruptamente. Ele sacudiu a cabeça, como se para clareála. — O que houve? — Bobby tomou um gole do refresco. Ele ainda não gostava muito dele, mas era a única bebida leve na geladeira. Além disso, estava gelado. — No que estou pensando? — Ted passou a mão sobre a testa, como se houvesse desenvolvido subitamente uma dor de cabeça. — Esse livro ainda não foi escrito. — O que quer dizer? — Nada. Estou falando bobagens. Por que não vai passear um pouco? Esticar as pernas. Acho que vou me deitar um pouco. Não dormi bem na noite passada. — Tudo bem. — Bobby achou que um pouco de ar fresco — mesmo sendo um ar fresco quente — poderia lhe fazer bem. E, embora fosse interessante escutar Ted falar, ele começara a sentir que as paredes do apartamento estavam se fechando nele, por lembrar que Ted estava para zarpar, Bobby supôs. Agora, aí estava uma pequena e triste rima para você: se lembrar que ele estava para zarpar. Por um momento, enquanto voltava ao seu quarto para pegar sua luva de beisebol, a lembrança do chaveiro do Bolso da Esquina lhe cruzou a mente — ele iria dá-lo para Carol, para que ela soubesse que eles estavam firmes. Então, ele se lembrou de Harry Doolin, Richie O’Meara e Willie Shearman. Eles estavam lá fora, em algum lugar, com certeza estavam, e se o pegassem sozinho, eles provavelmente o arrebentariam. Pela primeira vez em dois ou três dias, Bobby achou-se desejando que Sully estivesse ali. Sully era uma criança como ele, mas ele era durão. Doolin e seus amigos poderiam arrebentá-lo, mas Sully-John os faria pagar pelo privilégio. Mas S-J estava no acampamento, e essa era a situação. Bobby nunca considerou ficar em casa — ele não podia se esconder durante todo o verão de tipos como Willie Shearman, isso seria loucura — mas enquanto saía, lembrou a si mesmo de ter cuidado, ele teria de estar com um olho na rua e o outro atrás da cabeça. Enquanto pudesse vê-los se aproximarem, não haveria problema. Com os rapazes do St. Gabe na cabeça, Bobby saiu do nº 149 deixando de pensar no chaveiro, sua lembrancinha especial do submundo. Ele permanecia no armário do banheiro, ao lado do copo de vidro, exatamente onde ele o havia deixado na noite anterior.

***

Ele caminhou por toda Harwich, ao que pareceu — da Rua Broad até o Parque Commonwealth (não havia rapazes do St. Gabe no Campo C hoje; o time da Legião Americana estava lá, treinando rebatidas e espantando moscas sob o sol quente), do parque à praça, da praça à estação ferroviária. Enquanto permanecia próximo do pequeno quiosque de jornais abaixo da passarela da ferrovia examinando algumas brochuras (o Sr. Burton, o dono do lugar, deixaria você olhar por algum tempo, contanto que você não tocasse no que ele chamava de “merrrcadorria”), o apito da cidade foi soou, assustando ambos. — Santa Mãe de Deus, o que foi isso? — o Sr. Burton perguntou, indignado. Ele havia deixado cair alguns pacotes de chicletes por todo o chão, e agora se ajoelhava para catá-los, seu avental cinzento pendendo. — Não é nem onze e meia ainda! — É cedo mesmo. — Bobby concordou, e deixou a banca logo depois. Ver as novidades já não

tinha o mesmo encanto para ele. Ele caminhou pela Avenida River, parando na padaria Crista para comprar metade de um pão do dia anterior (dois centavos), e para perguntar a Georgie Sullivan como S-J estava. — Ele está bem. — disse o irmão mais velho de S-J. — Recebemos um cartão postal na terça, ele diz que está com saudades da família e que quer vir para casa. Recebemos um na quarta-feira em que ele diz que está aprendendo a nadar. O desta manhã dizia que ele está tendo o melhor momento de sua vida. — ele riu, era um grande garoto irlandês com grandes braços e ombros irlandeses. — Pode ser que ele queira ficar lá para sempre, mas mamãe sentiria saudades dele. Você vai alimentar alguns patos com um pouco disso? — É, como sempre. — Não deixe que mordam seus dedos. Aqueles malditos patos do rio carregam doenças. Eles... Na praça da cidade, o relógio do Prédio Municipal começou a badalar como se fosse meio-dia, embora ainda faltasse um quarto de hora para isso. — O que está acontecendo hoje? — Georgie perguntou. — Primeiro o apito soa cedo, agora o maldito relógio está desregulado. — Talvez seja o calor. — Bobby disse. Georgie olhou para ele, sem acreditar muito nisso. — Bem... é uma explicação tão boa quanto qualquer outra. É, Bobby pensou, ao sair. E uma bem mais segura do que outras.

***

Bobby desceu a Avenida River mastigando seu pão enquanto caminhava. Quando encontrou um banco próximo ao Rio Housatonic, a maior parte do pão já havia desaparecido pela sua garganta. Os patos vieram gingando avidamente dos arbustos, e Bobby jogou as migalhas para eles, impressionado pelo modo voraz com que avançavam para as migalhas, jogando suas cabeças para trás para comê-las. Depois de um tempo, ele começou a ficar sonolento. Observou o rio e as teias de luzes brilhantes refletidas em sua superfície, colaborando ainda mais com seu sono. Ele havia dormido na noite passada, mas o sono não fora agradável. Ele começou a cochilar com as mãos cheias de migalhas de pão. Os patos haviam devorado o que havia na grama, e começaram a se aproximar dele, grasnando em notas baixas e famintas. O relógio da praça bateu duas horas quando era, na verdade, meio-dia e vinte, fazendo as pessoas balançarem suas cabeças, e perguntarem uns aos outros o que diabos estava acontecendo. O cochilo de Bobby aumentou em grau, e quando uma sombra caiu em cima dele, ele não a viu, nem a sentiu. — Ei. Garoto. A voz era furtiva e intensa. Bobby sentou-se num sobressalto; suas mãos se abriram, espalhando o restante do pão. As cobras começaram a se movimentar dentro de sua barriga novamente. Não era Willie Shearman, ou Richie O’Meara, ou Harry Doolin o acordando, ele sabia disso, mas Bobby desejou que fosse algum deles. Ou mesmo todos os três. Uma sova não seria o pior que poderia lhe acontecer. Não, não seria o pior. Caramba, mas por que ele tinha que ter caído no sono? — Garoto. Devagar, e fazendo barulho ao fazê-lo, Bobby se virou. O casaco do homem seria amarelo, e em algum lugar nele haveria um olho, um olho rubro à espreita. Mas o homem que lá estava vestia um terno de verão, salientado por uma barriguinha que

começava a se tornar um barrigão, e Bobby percebeu que ele não era um deles, afinal. Não havia coceira atrás dos olhos, nem manchinhas negras em seu campo de visão... mas o mais importante era que esta não era uma criatura fingindo ser uma pessoa; era uma pessoa. — O que é? — Bobby perguntou. Sua voz estava baixa e enfadonha. Ele ainda não conseguia acreditar que havia pegado no sono, que havia apagado daquele jeito. — O que você quer? — Te dou duas pratas se me deixar te fazer um boquete. — o homem de terno disse. Ele pôs a mão no bolso do terno e tirou a carteira. — Podemos ir atrás daquela árvore ali. Ninguém vai ver a gente. E você vai gostar. — Não. — Bobby disse, levantando-se. Ele não estava muito certo do que o homem de terno estava falando, mas tinha uma boa ideia. Os patos recuaram, mas o pão era muito tentador para se resistir, e eles voltaram, brincando e dançando ao redor dos tênis de Bobby. — Eu tenho que ir para casa agora. Minha mãe... O homem se aproximou, ainda estendendo a carteira. Era como se ele houvesse decidido dar tudo para Bobby, em vez das duas pratas. — Você não tem que fazer em mim, eu faço em você. Vamos, o que me diz? Aumento para três dólares. — a voz do homem agora estava trêmula, subindo e descendo em escala; em um momento, parecia rir, no outro, quase chorar. — Você poderá ir ao cinema durante um mês com três dólares. — Não, realmente, eu... — Você vai gostar, todos os garotos gostam. — ele avançou em Bobby, e ele subitamente pensou em Ted segurando-o pelos ombros, Ted colocando suas mãos atrás de seu pescoço, aproximando-o até que estivessem pertos o bastante para um beijo. Mas não era a mesma coisa... e ao mesmo tempo, era. De algum modo, era. Sem pensar no que fazia, Bobby se abaixou e agarrou um dos patos. Foi erguido num grasnado surpreso, agitando o bico, asas e patas. Bobby teve o vislumbre de um olho negro como uma pérola, e então o jogou contra o homem de terno. O homem berrou e ergueu as mãos para proteger o rosto, deixando a carteira cair. Bobby correu.

***

Ele cruzava a praça, voltando para casa, quando viu um cartaz preso a um poste telefônico do lado de fora de uma loja de doces. Ele caminhou até ele, e o leu em silêncio, aterrorizado. Ele não conseguia se lembrar do sonho da noite anterior, mas algo assim estivera nele. Ele tinha certeza.

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Este não é um bom dia, Bobby pensou, vendo sua mão arrancar o cartaz do poste telefônico. Além dele, pendendo em uma lâmpada da marquise do Cinema Harwich, ele viu um fio azul de pipa. Este não é um bom dia mesmo. Eu nunca deveria ter saído do apartamento. Na verdade, eu deveria ter ficado na cama. HOusitonic 5-8337, que nem o cartaz sobre Phil, o Corgi Galês... exceto que, se havia um posto de achados e perdidos HOusitonic em Harwich, Bobby nunca ouvira falar dele. Alguns dos números constavam no posto de HArwich. Outros no Commonwealth. Mas HOusitonic? Não. Não lá, e tampouco em Bridgeport. Ele amassou o cartaz e o jogou na lixeira do canto que dizia MANTENHA NOSSA CIDADE LIMPA E VERDE, mas do outro lado da rua, achou outro exatamente igual. Mais adiante, ele achou um terceiro cartaz perto de uma caixa de correio, na esquina. Rasgou-os também. Os homens baixos ou estavam se aproximando, ou estavam desesperados. Talvez ambos. Ted não podia sair o dia todo, Bobby teria que informar a ele. E ele teria que estar pronto para fugir. Isto ele também informaria. Bobby cortou caminho pelo parque, quase tropeçando na pressa de chegar em casa, e quase não ouviu o fraco choro soluçante que vinha da sua esquerda, enquanto ele passava pelos campos de beisebol: — Bobby... Ele parou e procurou através da alameda de árvores, para onde Carol o levara no dia anterior, quando ele começou a chorar. E quando o choro veio novamente, percebeu que era ela. — Bobby, se for você, por favor, me ajude... Ele saiu do caminho pavimentado e seguiu até o pequeno bosque. O que ele lá viu o fez largar a luva de beisebol no chão. Era um modelo Alvin Dark, aquela luva, e mais tarde ela teria desaparecido. Alguém fora até lá e a roubara, ele suporia, mas e daí? Enquanto o dia ia prosseguindo, sua luva de beisebol era a menor de suas preocupações. Carol estava sentada na mesma árvore em que ela o havia confortado. Seus joelhos estavam grudados ao peito. Seu rosto estava cinza. Círculos negros enfeitavam seus olhos, fazendo-a parecer um guaxinim. Um filete de sangue saía de uma de suas narinas. Seu braço esquerdo repousava em seu diafragma, esticando sua camiseta contra as pequenas saliências que se transformariam em seios, em um ou dois anos. Ela segurava o cotovelo daquele braço com a outra mão. Ela estava vestindo shorts e uma bata feminina de mangas longas — o tipo de coisa que passava despercebido. Mais tarde, Bobby poria a maior parte da culpa naquela estúpida blusa dela. Ela devia estar usando-a para se proteger das queimaduras de sol; era a única razão em que ele podia pensar para se usar mangas longas num dia tão quente. Ela que havia escolhido, ou teria sido a Sra. Gerber que a forçara usar? E isto importava? Sim, Bobby pensaria quando houvesse tempo. Importava, pode apostar que importava. Mas por ora, a bata de mangas compridas era uma coisa periférica. A única coisa que ele notou a princípio foi a parte superior do braço esquerdo de Carol. Parecia que havia não apenas um, mas dois ombros. — Bobby. — ela disse, olhando para ele com olhos brilhantes e confusos. — Eles me machucaram. Ela estava em choque, é claro. Ele mesmo estava, funcionando apenas por instinto. Ele tentou pegála, mas ela gritou de dor — meu Deus, que som. — Eu vou correr e procurar ajuda. — ele disse, repousando suas costas. — Fique aqui e tente não se mexer. Ela balançou a cabeça — cautelosamente, para não sacudir o braço. Seus olhos azuis estavam quase negros de dor e terror.

— Não, Bobby, não me deixe aqui, e se eles voltarem? E se voltarem e me machucarem mais? — Partes do que aconteceu naquela longa quinta-feira quente se perderam para ele, perdidas em um choque de ondas, mas esta parte sempre permaneceu clara: Carol olhando para ele e perguntando E se voltarem e me machucarem mais? — Mas... Carol... — Eu posso andar. Se você me ajudar, eu conseguirei andar. Bobby tentou passar um braço ao redor da cintura dela, esperando que ela não gritasse novamente. Aquilo fora ruim. Carol se ergueu lentamente, usando o tronco da árvore como apoio. Seu braço esquerdo se moveu enquanto o fazia. Aquele grotesco ombro duplo inchou e flexionou. Ela gemeu, mas não gritou, graças a Deus. — É melhor parar. — Bobby disse. — Não, eu quero sair daqui. Ajude-me. Oh, Deus, como dói. Assim que ela finalmente se levantou, a coisa pareceu melhorar. Eles saíram da alameda lentamente, lado a lado, com a solenidade de um casal que parecia estar prestes a se casar. Para além das sombras das árvores, o dia pareceu ainda mais quente do que antes, e tão brilhante que poderia cegar. Bobby olhou em volta e não viu ninguém. Em algum lugar de dentro do parque, um bando de garotos (provavelmente os Pardais, ou os Pintarroxos do Clube Sterling) estava cantando uma canção, mas a área dos campos de beisebol estava deserta: sem crianças, sem mães levando seus bebês em carrinhos, nem havia sinal do Oficial Raymer, o policial local que às vezes lhe comprava um sorvete, ou um pacote de amendoins se estivesse de bom humor. Todos estavam em suas casas, escondendo-se do calor. Ainda movendo-se lentamente, Bobby com o braço em volta da cintura de Carol, andou pelo caminho que saía da esquina da Commowealth com a Broad. A ladeira da Rua Broad estava tão deserta quanto o parque; o pavimento cintilava como o ar sobre um incinerador. Não havia um único pedestre ou carro à vista. Eles subiram na calçada, e Bobby começou a se perguntar se ela conseguiria atravessar a rua, quando Carol disse em sussurro alto: — Oh, Bobby, estou desmaiando. Ele olhou para ela alarmado e viu seus olhos rolarem e ficarem totalmente brancos. Ela vacilou para frente e para trás, como uma árvore que houvesse sido quase completamente cortada. Bobby inclinou-se, movendo-se sem pensar, pegando- a pela cintura e pelas costas, enquanto seus joelhos cediam. Ele estivera caminhando bem ao lado dela, e conseguiu fazê-lo sem machucar seu braço esquerdo mais do que ele já estava machucado; e também, mesmo desmaiada, Carol manteve a mão direita sobre o cotovelo esquerdo, segurando o braço com uma firmeza quase absoluta. Carol Gerber era da altura de Bobby, talvez até um pouco mais alta, e próxima de seu peso. Ele deveria ser incapaz de sequer cambalear Rua Broad acima com ela em seus braços, mas pessoas em choque são capazes de incríveis explosões de força. Bobby a carregou, sem cambalear; sob aquele ardente sol de junho, ele correu. Ninguém o parou, ninguém perguntou o que havia de errado com aquela garotinha, ninguém ofereceu ajuda. Ele conseguia ouvir carros na Avenida Asher, mas esta parte do mundo pareceu sinistra como Midwich, onde todos subitamente haviam caído no sono. Levar Carol até a mãe dela nunca lhe passou pela cabeça. O apartamento dos Gerber ficava ladeira acima, mas esse não era o motivo. Ted era tudo em que Bobby podia pensar. Ele precisava levá-la a Ted. Ted saberia o que fazer. Sua força sobrenatural começou a vacilar enquanto ele escalava os degraus da varanda frontal de seu prédio. Ele cambaleou, e o grotesco ombro duplo de Carol bateu contra o corrimão. Ela enrijeceu em

seus braços e chorou, seus olhos semicerrados agora se abrindo. — Quase lá. — ele lhe disse, num sussurro que não soou muito parecido com sua própria voz. — Quase lá, desculpe por machucar seu ombro, mas estamos quase... A porta se abriu e Ted apareceu. Ele vestia uma calça cinza e uma camisa sem mangas. Suspensórios caiam até os joelhos. Ele pareceu surpreso e preocupado, mas não assustado. Bobby conseguiu subir o último degrau, e então vacilou para trás. Por um momento terrível, ele achou que iria desabar, até mesmo rachar a cabeça na calçada de cimento. Então, Ted o segurou e ele recuperou o equilíbrio. — Entregue-a para mim. — Passe para o outro lado dela primeiro. — Bobby ofegou. Seus braços vibravam como cordas de violão, e seus ombros pareciam estar em chamas. — Esse é o lado machucado. Ted circulou e ficou do lado de Bobby. Carol olhava para ambos, seus cabelos, de um loiro arenoso, caíam sobre os pulsos de Bobby. — Eles me machucaram. — ela sussurrou para Ted. — Willie... eu pedi para que ele os fizesse parar, mas ele não fez nada. — Não fale. — Ted disse. — Você vai ficar bem. Ele a tomou de Bobby do modo mais gentil que pôde, mas não puderam evitar resvalar um pouco no braço dela. O ombro duplo moveu-se sob a blusa branca. Carol gemeu e começou a chorar. Sangue fresco escorria por sua narina direita, uma gota vermelha e brilhante caiu sobre sua pele. Bobby teve um clarão momentâneo de seu sonho da noite passada: o olho. O olho rubro. — Segure a porta para mim, Bobby. Bobby a manteve bem aberta. Ted carregou Carol pela entrada até o apartamento dos Garfield. Naquela mesma hora, Liz Garfield descia os degraus de ferro que levavam da parada de Harwich da Ferrovia Nova York, New Haven, e Hartford até a Rua Principal, onde havia um ponto de táxi. Ela caminhou com uma cautela lenta de um inválido crônico. Uma mala balançava em cada mão. O Sr. Burton, proprietário da banca de jornal, encontrava-se no seu umbral, fumando um cigarro. Ele assistiu a Liz descer os degraus, afastar o véu de seu pequeno chapéu e tocar levemente o rosto com um lencinho. Ela fazia uma careta a cada toque. Liz usava maquiagem, um monte, mas isso não ajudava. A maquiagem apenas chamava mais atenção ao que lhe havia acontecido. O véu estava melhor, embora cobrisse apenas a parte superior de seu rosto, e então, ela o abaixou novamente. Aproximou-se do primeiro dos três táxis disponíveis, e o motorista saiu para ajudá-la com as malas. Burton se perguntou quem poderia ter feito aquilo com ela. Ele esperou que quem quer que fosse, que neste momento estivesse recebendo uma massagem craniana de algum policial parrudo com um cassetete grosso. Uma pessoa que fizesse algo assim com uma mulher não merecia menos. Uma pessoa que fizesse aquilo com uma mulher não podia ficar à solta. Essa era a opinião de Burton.

***

Bobby achou que Ted colocaria Carol no sofá, mas ele não o fez. Havia uma cadeira reta na sala de estar, e foi nela onde ele se sentou, segurando-a no colo. Ele a segurou do mesmo modo como o Papai Noel fazia com as crianças na loja de departamentos Grant, que vinham para pedir para sentar com ele em seu trono. — Onde mais você está machucada? Além do ombro? — Eles me bateram na barriga. E no lado. — Qual lado? — O direito.

Ted levantou gentilmente a blusa dela naquele lado. Bobby puxou ar por enter os dentes quando viu o hematoma que corria diagonalmente por suas costelas. Ele reconheceu o formato do bastão de beisebol no mesmo instante. Ele sabia quem era o dono daquele bastão: Harry Doolin, o marginal espinhento que achava que era Robin Hood nalguma louca fantasia em sua imaginação. Ele, Richie O’Meara e Willie Shearman haviam encontrado-a pelo parque, e Harry havia trabalhado nela com seu bastão, enquanto Richie e Willie a seguravam. Todos os três riam e a chamavam de Bebê Gerber. Talvez tenha começado como uma brincadeira, e então escapado do controle. Não fora exatamente isso que acontecera em Senhor das Moscas? As coisas escaparam um pouco do controle? Ted tocou a cintura de Carol; seus dedos retorcidos se espalharam, e então lentamente deslizaram até sua cintura. Ele fez isso com a cabeça empertigada, como se estivesse auscultando, em vez de tocando. Talvez estivesse. Carol arfou quando ele alcançou o hematoma. — Dói? — ele perguntou. — Um pouco. Não tanto quanto meu om-ombro. Eles quebraram meu braço, não quebraram? — Não, eu acho que não. — Ted respondeu. — Eu o ouvi estalar. E eles também. Foi aí que fugiram. — Tenho certeza que sim. Sim, de fato. Lágrimas escorriam por suas bochechas, e seu rosto ainda ostentava uma coloração acinzentada, mas Carol parecia mais calma agora. Ted segurou sua blusa até a axila e olhou para o hematoma. Ele sabe o que essa marca significa tanto quanto eu, Bobby pensou. — Quantos havia lá, Carol? Três, Bobby pensou. — Tr-três. — Três garotos? Ela assentiu. — Três garotos contra uma garotinha. Eles devem ter ficado com medo de você. Devem ter achado que você era uma leoa. Você é uma leoa, Carol? — Eu queria ser. — Carol disse. Ela tentou sorrir. — Eu queria ter podido rugir e fazê-los fugir. Eles me ma-ma-machucaram. — Sei que sim. Eu sei. — sua mão deslizou pela cintura dela, e ele a repousou em forma de concha no hematoma em suas costelas. — Respire. O hematoma cresceu contra a mão de Ted; Bobby podia enxergar a forma púrpura entre seus dedos machados de nicotina. — Isso dói? Ela balançou a cabeça. — Não dói respirar? — Não. — E quando suas costelas vão contra a minha mão? — Nada. Só está dolorido. O que dói é... — ela olhou rapidamente para a terrível forma de seu ombro duplo, e em seguida virou o rosto. — Eu sei. Pobre Carol. Pobre querida. Já vamos dar uma olhada nisso. Onde mais eles te bateram? Na barriga, você disse? — Sim. Ted subiu a frente da blusa. Havia outro hematoma, mas este não pareceu tão profundo ou violento. Ele passou a mão lá gentilmente, primeiro acima do umbigo, e depois embaixo. Ela disse que não havia dor como em seus ombros, que sua barriga estava apenas dolorida, como suas costelas.

— Eles não te bateram nas costas? — N-não. — E na sua cabeça e pescoço? — Não, só no meu lado e na minha barriga, depois eles me bateram no ombro, e então aconteceu o estalo, eles ouviram e fugiram. Eu achava que Willie Shearman era legal. — ela concedeu a Ted um olhar triste. — Vire a cabeça para mim, Carol... bom... agora do outro lado. Não dói quando você vira? — Não. — E tem certeza que nunca bateram na sua cabeça? — Não. Digo, sim. Tenho certeza. — Garota de sorte. Bobby ficou imaginando como diabos Ted poderia achar que Carol era uma garota de sorte. O braço dela não parecia só estar quebrado; ele parecia estar partido ao meio. De repente, ele pensou em galinha assada. O jantar de domingo, e o som que a coxa de galinha fazia quando você a quebrava. Seu estômago deu um nó. Por um momento, ele achou que vomitaria seu café da manhã e o pão velho que fora seu almoço. Não, ele disse a si mesmo. Agora não, você não pode. Ted já tem problemas demais sem te adicionar à lista. — Bobby? — a voz de Ted era clara e aguda. Soou como uma pessoa com mais soluções do que problemas, e ele ficou aliviado por isso. — Você está bem? — Sim. — e achou que era verdade. Seu estômago começara a se acalmar. — Bom. Você fez bem em trazê-la até aqui. Pode me ajudar mais um pouco? — Sim. — Preciso de uma tesoura. Poderia me achar uma? Bobby foi ao quarto de sua mãe, abriu a gaveta mais alta de seu guarda-roupa e tirou a cesta de costura dela. Dentro, havia uma tesoura de porte médio. Ele correu de volta para a sala de estar, e a mostrou para Ted. — Esta serve? — É ótima. — ele disse, pegando-a. — Eu vou cortar a sua blusa, Carol. Desculpe-me, mas preciso olhar seu ombro, e não quero machucá-la mais do que puder evitar. — Tudo bem. — ela disse, e novamente tentou sorrir. Bobby estava admirado com a bravura dela; se o ombro dele estivesse daquele jeito, ele provavelmente estaria se debatendo como uma ovelha presa no arame farpado. — Você pode usar uma das camisetas de Bobby. Não pode, Bobby? — Claro, eu não me importo com alguns piolhos. — Engraçadinho. — Carol disse. Trabalhando cuidadosamente, Ted cortou a blusa nas costas e na frente. Com isso feito, ele puxou os dois pedaços como casca de ovo. Ele tomou muito cuidado do lado esquerdo, mas Carol soltou um grito quando os dedos de Ted roçaram em seu ombro. Bobby pulou e seu coração, que já estava tranquilo, começou uma nova corrida. — Desculpe-me. — Ted murmurou. — Minha nossa. Olhe só isto. O ombro de Carol estava feio, mas não tão ruim quanto Bobby temera — talvez poucas fossem uma vez que você as olhasse diretamente. O segundo ombro estava mais alto do que o normal, e a pele estava tão esticada que Bobby não entendeu como ela não rasgou. Ela também havia adquirido uma peculiar coloração lilás.

— É muito ruim? — Carol perguntou. Ela olhava para o outro lado da sala. Seu rosto possuía aquele olhar faminto e castigado de uma criança da UNICEF. Pelo que Bobby sabia, ela nunca olhou para seu ombro machucado depois daquela espiadinha rápida. — Eu vou ficar no hospital o verão todo, não vou? — Eu não acho que você vai precisar ir ao hospital. Carol olhou para o rosto de Ted, admirada. — Não quebrou, criança, apenas foi deslocado. Alguém acertou seu ombro... — Harry Doolin... — ...forte o bastante para arrancar o osso superior de seu braço esquerdo do encaixe. Posso colocá-lo de volta no lugar, eu creio. Você aguenta um ou dois momentos de dor grande se souber que as coisas vão melhorar depois? — Sim. — ela disse de imediato. — Conserte-o, Sr. Brautigan. Por favor. Bobby olhou para ele, um pouco intrigado. — Você realmente pode fazer isso? — Sim. Dê-me seu cinto. — Hein? — Seu cinto. Passe-o para mim. Bobby tirou seu cinto, quase novo que ele havia ganhado no Natal, das calças e entregou-o a Ted, que o pegou sem tirar os olhos de Carol. — Qual é o seu último nome, querida? — Gerber. Eles me chamaram de Bebê Gerber, mas eu não sou um bebê. — Certamente que não é. E é agora que você vai provar. — ele ficou de pé, colocou-a na cadeira, então se ajoelhou perante ela, como alguém num filme antigo pronto para pedir a moça em casamento. Ele enrolou o cinto de Bobby duas vezes em suas grandes mãos, então cutucou a mão boa dela para que ela soltasse seu cotovelo e pegasse o cinto dobrado. — Ótimo. Agora coloque-o na boca. — Colocar o cinto de Bobby na minha boca? — o olhar de Ted nunca a deixou. Ele começou a fazer carinho no braço bom dela, do cotovelo ao punho. Seus dedos percorreram o antebraço... parando... subindo, e então descendo de volta até o cotovelo... percorrendo novamente seu antebraço. É como se ele a estivesse hipnotizando, Bobby pensou, só que não havia nada de “como” sobre isso; Ted estava a hipnotizando. Suas pupilas começaram a fazer aquela coisa esquisita novamente, crescendo e diminuindo... crescendo e diminuindo... crescendo e diminuindo. Seus movimentos e os movimentos dos dedos estavam exatamente sincronizados. Carol olhou para seu rosto, seus lábios entreabertos. — Ted... seus olhos... — Sim, sim. — ele soou impaciente, não muito interessado no que seus olhos estavam fazendo. — A dor sobe, Carol, você sabia disso? — Não... Os olhos dela mantiveram-se nos dele. Seus dedos ainda estavam no braço dela, subindo e descendo. Subindo... e descendo. As pupilas dele como uma lenta batida de coração. Bobby conseguiu perceber Carol relaxando na cadeira. Ela ainda segurava o cinto, e quando Ted parou de alisá-la por tempo o bastante para tocar as costas de sua mão, ela o ergueu até o rosto sem protestar. — Oh, sim. — ele disse. — A dor sobe de sua origem até o cérebro. Quando eu colocar seu ombro de volta ao encaixe, haverá muita dor, mas você vai capturar a maior parte na sua boca enquanto ela subir ao seu cérebro. Você vai mordê-la com os dentes e segurá-la contra o cinto de Bobby, para que só um pouco dela possa entrar na sua cabeça, que é onde as coisas mais doem. Você entendeu, Carol? — Sim... — sua voz ficou distante. Ela parecia muito pequena sentada naquela cadeira reta,

vestindo apenas os shorts e os tênis. As pupilas dos olhos de Ted, Bobby percebeu, estavam fixas novamente. — Ponha o cinto na boca. Ela o colocou entre os lábios. — Morda quando doer. — Quando doer. — Capture a dor. — Eu a capturarei. Ted deu uma última alisada com seu grande dedo indicador, do cotovelo dela até seu pulso, então olhou para Bobby. — Deseje-me sorte. — ele disse. — Sorte. — Bobby respondeu, ansioso. Distante, sonhadora, Carol Gerber disse: — Bobby jogou um pato em um homem. — Jogou? — Ted perguntou. Muito, muito gentilmente, ele fechou a mão esquerda ao redor do pulso esquerdo de Carol. — Bobby achou que era um homem baixo. Ted olhou de relance para Bobby. — Não esse tipo de baixo. — Bobby disse. — Apenas... oh, esqueça. — Não importa. — Ted disse. — Eles estão muito próximos. O relógio da cidade, o apito... — Eu ouvi. — Bobby disse, gravemente. — Eu não vou esperar sua mãe voltar hoje à noite, eu não me atrevo. Vou passar o dia no cinema, parque, ou qualquer outro lugar. Se tudo isso falhar, existem albergues em Bridgeport. Carol, está pronta? — Pronta. — Quando a dor subir, o que você fará? — Vou capturá-la. Mordê-la no cinto de Bobby. — Boa menina. Dez segundos e você estará se sentindo melhor. Ted inspirou profundamente. Então, ergueu a mão direita acima do calombo lilás no ombro de Carol. — Aí vem a dor, querida. Seja corajosa. Não foram dez segundos; nem mesmo cinco. Para Bobby, pareceu acontecer num instante. O centro da mão direita de Ted pressionou diretamente contra o calombo que esticava a pele de Carol. Ao mesmo tempo, ele puxou bruscamente o pulso. A mandíbula de Carol flexionou enquanto ela mordia o cinto de Bobby. Bobby ouviu um breve estalo, como aquele que seu pescoço fazia às vezes quando estava rígido demais e ele o movimentava para os lados. Enfim, o calombo no ombro de Carol havia desaparecido. — Bingo! — Ted vibrou. — Parece bom! Carol? Ela abriu a boca. O cinto de Bobby soltou-se dela e caiu em seu colo. Bobby viu uma fila de pequenos furos gravados no couro; ela quase o perfurara. — Não dói mais. — ela disse, admirada. Ela pôs a mão direita onde a pele agora adquiria uma coloração roxa escura, tocou o hematoma e fez uma careta. — Vai ficar assim por mais ou menos uma semana. — Ted avisou. — E você não deve jogar ou levantar coisas com esse braço por pelo menos duas semanas. Se o fizer, poderá deslocá-lo novamente. — Eu tomarei cuidado. — agora, Carol olhava para o braço. Ela continuava a tocar cuidadosamente o machucado com os dedos, testando. — Quanta dor conseguiu apanhar? — Ted perguntou, e embora seu rosto estivesse sério, Bobby

achou que pôde captar um pequeno sorriso em sua voz. — A maior parte. — ela disse. — Nem doeu muito, pra falar a verdade. — entretanto, no momento em que tais palavras foram proferidas, ela caiu de volta na cadeira. Seus olhos estavam abertos, mas desfocados. Carol havia desmaiado pela segunda vez.

***

Ted disse a Bobby para molhar um pano e trazê-lo até ele. — Água fria. — ele disse. — Torça o pano, mas não demais. Bobby correu até o banheiro, pegou uma toalha de rosto acima da banheira, e a molhou com água fria. A metade inferior da janela do banheiro estava fosca, mas se ele tivesse olhado pela metade superior, teria visto sua mãe descer do táxi. Bobby não olhou; ele estava concentrado em sua tarefa. Ele tampouco pensou no chaveiro verde, embora estivesse bem ali diante de seus olhos, na prateleira. Quando Bobby voltou à sala de estar, Ted encontrava-se sentado na cadeira reta com Carol no colo novamente. Bobby percebeu como ficaram corados os braços dela em comparação ao resto de sua pele, que era de um branco puro e macio (exceto onde estavam os hematomas). Ela parece estar usando meias de náilon nos braços, ele pensou, um pouco espantado. Seus olhos começavam a clarear e eles seguiram Bobby enquanto ele avançava até ela, mas Carol não parecia exatamente bem, seu cabelo estava bagunçado, seu rosto totalmente suado, e havia uma linha seca de sangue entre a narina e o canto da boca. Ted pegou a toalha e começou a passar nas bochechas e testa dela. Bobby ajoelhou-se, ficando do lado da cadeira. Carol sentou um pouco, levantando seu rosto agradecido contra a umidade fria. Ted limpou o sangue sob seu nariz, então depositou a toalha na mesinha ao lado. Ele tirou os cabelos suados de Carol de sua testa. Quando alguns deles retornaram, ele pretendeu usar a mão para tirá-los de lá novamente. Mas antes que pudesse fazê-lo, a porta da varanda se abriu. Sons de passos cruzaram a entrada. A mão úmida na testa de Carol ficou paralisada. Os olhos de Bobby encontraram os de Ted, e um único pensamento passou entre eles, uma telepatia forte que consistiu numa única palavra: Eles. — Não. — Carol disse. Não eles, Bobby, é a sua m... A porta do apartamento foi aberta e Liz apareceu com a chave em uma mão, e seu chapéu — aquele com o véu — na outra. Atrás dela, e além da entrada, a porta para todo o mundo quente exterior estava aberta. Nas laterais do tapete de boas-vindas da varanda, estavam duas malas, onde o taxista as havia deixado. — Bobby, quantas vezes preciso dizer para fechar esta maldita... Ela chegou até aí, então parou. Pelos anos que se seguiriam, Bobby se lembraria deste momento de novo e de novo, enxergando mais e mais o que sua mãe havia visto quando voltara de sua desastrosa viagem à Providence: seu filho ajoelhado ao lado de uma cadeira onde um velho, de quem ela nunca havia gostado ou realmente confiado, sentava com uma garotinha em seu colo. A garotinha parecia entorpecida. Seu cabelo se enrolava em cachos suados. Sua blusa, rasgada, repousava em pedaços no chão, e mesmo com seus próprios olhos inchados e semicerrados, Liz teria visto os machucados de Carol: um no ombro e o outro na barriga. E Carol, Bobby e Ted Brautigan a olharam com a mesma incredulidade paralisada: os dois olhos negros (nada havia no olho direito de Liz, senão um brilho profundo escondido por uma massa inchada); o lábio inferior inchado e cortado em dois lugares, ainda ostentado marcas de sangue seco como um velho batom horrendo; o nariz, que jazia entortado e adquirira um gancho anormal, parecia uma quase caricatura do nariz da Bruxa Hazel, da Turma do Pernalonga.

Silêncio, um momento considerável de silêncio em uma tarde de verão. Em algum lugar, um carro engasgou. Em algum lugar, uma criança gritou “Vamos, pessoal!”. E atrás deles, na Rua Colônia, surgiu o som com que Bobby mais relacionaria sua infância e com aquela quinta-feira em particular: os latidos de Bowser penetrando ainda mais fundo no século vinte: uou-uou, uou-uou-uou. Jack a pegou, Bobby pensou, Jack Merridew e seus amigos bananas. — Caramba, o que foi que aconteceu? — ele perguntou, quebrando o silêncio. Ele não queria saber; mas tinha que saber. Ele correu até ela, começando a chorar por medo, mas também por tristeza; o rosto dela, seu pobre rosto. Ela não se parecia com sua mãe, afinal. Ela se parecia com uma velha que não pertencia à Rua Broad, mas ao Submundo, onde as pessoas bebiam vinhos em garrafas dentro de sacos de papel, e não possuíam sobrenomes. — O que ele fez? O que aquele desgraçado fez com você? Ela não prestou atenção, sequer pareceu ouvi-lo. Mas ela o segurou, segurou seus ombros com força o bastante para que ele sentisse seus dedos cravando as unhas em sua carne, com força o bastante para doer. Ela afrouxou os dedos e o colocou de lado, sem um olhar sequer. — Solte-a, seu sujo. — ela disse, numa voz baixa, porém áspera. — Solte-a agora mesmo. — Sra. Garfield, por favor, não entenda mal. — Ted ergueu Carol de seu colo — com cuidado, mesmo agora, para manter as mãos longe do ombro machucado — e então se levantou. Ele espanou a bainha das calças, um pequeno gesto nervoso típico de Ted. — Ela estava machucada, entende. Bobby a encontrou... — DESGRAÇADO! — Liz gritou. À sua direita, estava uma mesa com um vaso em cima. Ela pegou o vaso e arremessou-o contra Ted. Ele se abaixou, mas não rápido o bastante para evitá-lo; a base do vaso acertou o topo de sua cabeça, saltou como uma pedra jogada velozmente na superfície de um lago, chocou-se contra a parede e se estilhaçou. Carol berrou. — Mãe, não! — Bobby gritou. — Ele não fez nada de mau! Ele não fez nada de mau! Liz não tomou conhecimento. — Como se atreve a tocá-la? Você também esteve tocando meu filho assim? Esteve, não esteve? Você não liga para o sabor deles, contanto que sejam jovens! Ted deu um passo em direção a ela. Os suspensórios soltos voavam para frente e para e para trás na altura de suas pernas. Bobby conseguia ver brotos de sangue no escasso cabelo do topo de sua cabeça, aonde o vaso tinha atingido. — Sra. Garfield, eu lhe asseguro... — Assegure isso, seu tarado desgraçado! — com o vaso destruído, e sem mais nada em cima da mesa, ela pegou a própria mesa e a lançou. Ela acertou Ted no peito e o fez cambalear para trás; ele teria desabado se não fosse pela cadeira reta. Ted caiu nela, olhando para ela com os olhos esbugalhados e incrédulos. Sua boca tremia. — Ele estava ajudando você? — Liz perguntou. Sua face estava de um branco mortal. Os machucados se destacavam como marcas de nascença. — Você ensinou meu filho a te ajudar? — Mãe, ele não a machucou! — Bobby gritou. Ele pegou seu pulso. — Ele não a machucou, ele... Ela o agarrou como o vaso, como a mesa, e mais tarde ele chegaria à conclusão de que ela havia adquirido tanta força quanto ele, quando carregara Carol pela ladeira desde o parque. Ela o arremessou através da sala. Bobby chocou-se contra a parede. Sua cabeça foi impelida para trás e atingiu o relógio, derrubando-o no chão e paralisando-o para sempre. Pontos negros brotaram em sua visão, fazendo-o pensar breve e confusamente (eles estão se aproximando, os cartazes agora têm o nome dele)

sobre os homens baixos. Enfim, ele deslizou para o chão. Tentou amortecer a queda, mas seus joelhos não conseguiram se firmar. Liz olhou para ele, sem parecer ter muito interesse, e então voltou sua atenção para Ted, que estava sentado na cadeira reta com a mesa no colo e suas pernas apontadas para o rosto dele. Sangue escorria por uma de suas bochechas agora, e seu cabelo estava mais ruivo do que branco. Ele tentou falar e, em vez disso, o que saiu foi uma tosse seca e falha típica de um velho fumante. — Homem sujo. Sujo, homem sujo. Por dois centavos eu abaixaria suas calças e cortaria seu troço fora. — ela se virou, e olhou novamente para seu confuso filho, e a expressão que Bobby viu em seu único olho sadio — o desprezo, a acusação — fê-lo chorar mais ainda. Ela não disse você também, mas ele viu isso em seu olho. Então, ela se voltou para Ted. — Sabe de uma coisa? Você vai para a cadeia. — ela apontou um dedo para ele, e mesmo através de suas lágrimas, Bobby viu que uma das unhas que havia estado lá, quando ela entrara no carro do Sr. Biderman, havia desaparecido; havia um vergão ensanguentado em seu lugar. Sua voz estava entorpecida, parecendo se espalhar pelo ar de algum modo ao atravessar seu lábio inferior inchado. — Eu vou chamar a polícia agora. Se for esperto, vai ficar sentado aí enquanto eu ligo. Apenas fique calado e sentado. — sua voz agora crescia. Suas mãos, arranhadas e inchadas nas juntas, como também quebradas nas unhas, enrolaram-se em punhos que ela sacudiu na direção dele. — Se fugir, eu vou correr atrás e enterrar minha maior faca de cozinha em você. Veja se eu não sou capaz. E vou fazê-lo bem no meio da rua para que todos vejam, e vou começar pela parte que parece lhe causar... causar a vocês, homens... tantos problemas. Então fique sentado, Brattigan. Se quiser continuar vivo e ir para a cadeia, fique parado. O telefone estava na mesinha do sofá. Ela foi até lá. Ted permaneceu sentado com a mesa em seu colo e o sangue escorrendo por sua bochecha. Bobby ainda estava caído próximo ao relógio, o que sua mãe havia ganhado trocando por selos. Voando pela janela, pegando carona na brisa do ventilador de Ted, veio o lamento de Bowser: uou-uou-uou. — Você não sabe o que aconteceu aqui, Sra. Garfield. O que aconteceu à senhora foi horrível e você tem toda a minha simpatia... mas o que lhe aconteceu não foi o que aconteceu a Carol. — Calado. — ela não estava ouvindo, nem mesmo olhou em sua direção. Carol correu até Liz, e então parou. Seus olhos cresceram em sua pele pálida. Seu queixo caiu. — Eles tiraram seu vestido? — foi um meio sussurro, meio gemido. Liz parou de discar e lentamente olhou para ela. — Por que eles tiraram seu vestido? Liz pareceu pensar em como responder. Ela pareceu pensar muito. — Fique calada. — ela disse, finalmente. — Apenas fique calada, está bem? — Por que eles te perseguiram? Quem estava batendo? — a voz de Carol cresceu em alarme. — Quem estava batendo? — Cale a boca! — Liz largou o telefone e levou as mãos aos ouvidos. Bobby olhou para ela com crescente horror. Carol virou-se para ele. Lágrimas frescas escorriam por suas bochechas. Havia entendimento em seus olhos — entendimento. Do tipo, Bobby pensou, que ele sentira quando o Sr. McQuown tentara enganá-lo. — Eles a perseguiram. — Carol disse. — Quando ela tentou fugir, eles a perseguiram e obrigaramna a voltar. Bobby sabia. Eles haviam perseguido-a pelo corredor do hotel. Ele havia visto tudo. Ele não conseguia se lembrar onde, mas havia. — Faça-os parar! Faça com que eu pare de ver! — Carol gritou. — Ela está batendo neles, mas não consegue fugir! Ela está batendo neles, mas não consegue fugir!

Ted tirou a mesa do colo e lutou para ficar de pé. Seus olhos ardiam. — Abrace-a, Carol! Abrace-a bem! Isso fará a coisa parar! Carol jogou o braço bom ao redor da mãe de Bobby. Liz recuou um passo, quase caindo quando um de seus sapatos enganchou na perna do sofá. Ela ficou de pé, mas o telefone caiu no tapete do lado de um dos tênis largados de Bobby, provocando um zumbido alto. Por um momento, as coisas ficaram daquele modo, era como se estivessem brincando de Estátua, e o telefone houvesse acabado de gritar estátua! Foi Carol quem se moveu primeiro, soltando a cintura de Liz Garfield, e recuando. Seus cabelos úmidos pediam sobre seus olhos. Ted avançou até ela para pôr uma mão em seu ombro. — Não toque nela. — Liz disse, mas ela falou mecanicamente, sem força. O que quer que houvesse lampejado dentro dela ante a visão de uma criança no colo de Ted Brautigan, havia sumido, ao menos provisoriamente. Ela parecia exausta. Mesmo assim, Ted deixou a mão cair. — Você tem razão. — ele disse. Liz respirou fundo, segurou, então expirou. Ela olhou para Bobby, então virou o rosto. Bobby desejou com todo o coração que ela fosse até ele, ajudá-lo um pouco, ajudá-lo a se levantar, só isso, mas ela se virou para Carol. Bobby se levantou sozinho. — O que aconteceu aqui? — Liz perguntou a Carol. Embora ainda estivesse chorando, e suas palavras saíssem com dificuldade enquanto ela lutava por ar, Carol contou à mãe de Bobby sobre os três garotos grandes que haviam encontrando-a no parque, e de como, no começo, pareceu apenas mais uma de suas brincadeiras, um pouco mais malvada do que a maioria, mas ainda assim uma brincadeira. Então, Harry começara a bater nela enquanto os outros a seguravam. O som do estalo em seu ombro assustara os garotos e os fizera correr. Ela contou como Bobby a achara cinco ou dez minutos depois — ela não sabia exatamente quanto tempo, porque a dor estivera tão forte — e a carregara até aqui. E como Ted havia consertado seu braço, depois de dar-lhe o cinto de Bobby para que ela capturasse a dor. Ela se inclinou, pegou o cinto, e mostrou a Liz as pequenas marcas de mordida com uma mistura de orgulho e vergonha. — Eu não capturei tudo, mas a maior a parte. Liz deu apenas uma olhada rápida no cinto antes de se virar para Ted. — Por que você rasgou a blusa dela, chefe? — Não está rasgada! — Bobby protestou. Ele ficou furioso com ela de súbito. — Ele a cortou para que pudesse olhar seu ombro e consertá-lo sem machucá-la! Eu trouxe a tesoura para ele, pelo amor de Deus! Por que você é tão estúpida, mãe? Por que não consegue ver... Ela moveu-se sem se virar, pegando Bobby completamente de surpresa. As costas de sua mão se conectaram com o lado do rosto dele; o dedo indicador dela atingiu seus olhos, enviando uma onda de dor para o interior de sua cabeça. Suas lágrimas cessaram como se a bomba que as controlasse houvesse quebrado subitamente. — Não me chame de estúpida, Bobby-O. — ela disse. — Nem mesmo nos seus sonhos mais adoráveis. Carol olhava com medo para a bruxa com o nariz de gancho que havia voltado de táxi usando as roupas da Sra. Garfield. A Sra. Garfield que havia corrido e lutado quando não conseguira mais correr. Mas no fim, eles haviam conseguido o que queriam dela. — Você não deveria bater em Bobby. — Carol disse. — Ele não é como aqueles homens. — Ele é o seu namorado? — ela riu. — É? Bom pra você! Mas vou te contar um segredo docinho, ele é igual ao pai, e ao seu pai, e ao resto deles. Vá para o banheiro. Eu vou te limpar e achar algo para você vestir. Cristo, que bagunça!

Carol olhou para ela por mais um segundo, então se virou e foi ao banheiro. Suas costas nuas pareciam pequenas e vulneráveis. E alvas. Tão alvas ante o contraste de seus braços corados. — Carol. — Ted chamou. — Está melhor agora? — Bobby não achou que ele estivesse falando do braço dela. Não desta vez. — Sim. — ela disse, sem se virar. — Mas eu ainda posso ouvi-la ao longe. Ela está gritando. — Quem está gritando? — Liz perguntou. Carol não respondeu. Ela foi ao banheiro e fechou a porta. Liz vigiou-a por um momento, certificando-se de que ela não deslocasse o braço novamente, então se virou para Ted. — Quem está gritando? Ted simplesmente olhou para ela com cautela, como se esperasse outro ataque de mísseis balísticos a qualquer instante. Liz começou a sorrir. Era o sorriso que Bobby bem conhecia: do tipo “eu estou perdendo a paciência”. Era possível que ainda havia mais para se perder? Com seus olhos escuros, nariz quebrado e lábio ferido, o sorriso a deixou horrorosa: não era sua mãe, mas alguma doida varrida. — Mas que Bom Samaritano você é, não? Quantas apalpadas você deu enquanto a consertava? Ela ainda não é muita coisa, mas aposto que você checou o que podia, não é? Nunca perde uma oportunidade, certo? Vamos, admita pra mamãe. Bobby olhou para ela com crescente desespero. Carol havia lhe contado tudo — toda a verdade — e não havia feito qualquer diferença. Nenhuma. Deus! — Há um adulto perigoso nesta sala. — Ted disse. — Mas não sou eu. Ela pareceu primeiro não entender, depois incrédula, por fim furiosa. — Como se atreve? Como se atreve? — Ele não fez nada! — Bobby gritou. — Não ouviu o que Carol disse? — Cale a sua boca. — ela disse, sem olhar par ele. Ela via apenas Ted. — Os policiais ficarão muito interessados em você, acho. Don ligou para Hartford na sexta, antes de... antes. Eu pedi para ele. Ele tem amigos lá. Você nunca trabalhou no Estado de Connecticut, nem como fiscal de contas públicas, nem em qualquer outro lugar. Você estava na cadeia, não estava? — De certo modo, suponho que estava. — Ted disse. Ele parecia mais calmo agora, apesar do sangue que escorria pela lateral de seu rosto. Ele tirou os cigarros do bolso de sua camisa, olhou para eles, então os devolveu ao lugar. — Mas não do modo que você pensa. E não neste mundo, Bobby pensou. — E pelo que foi? — ela perguntou. — Por fazer menininhas se sentirem melhor em primeiro grau? — Eu tenho algo de valor. — Ted disse. Ele ergueu a mão e tocou a testa. O dedo voltou salpicado de sangue. — Existem outros como eu. E há pessoas cujo trabalho é nos pegar, aprisionar e nos usar para... bem, para nos usar, vamos deixar assim. Eu e outros dois escapamos. Um foi pego, o outro foi morto. Apenas eu estou livre. Se for isso... — ele olhou em volta. — ...que você chama de liberdade. — Você está louco. Velho louco Brattigan, mais varrido que banheiro de convento. Eu vou ligar para a polícia. Vamos deixá-los decidir se vão mandá-lo de volta à prisão da qual você escapou, ou ao Sanatório de Danbury. — ela se inclinou para pegar o telefone caído. — Não, mãe! — Bobby disse, avançando para ela. — Não... — Bobby, não! — Ted disse, rispidamente. Bobby recuou, olhando primeiro para sua mãe, enquanto ela pegava o telefone, e depois para Ted. — Não do jeito que ela está agora. — Ted disse. — Enquanto ela estiver desse jeito, não vai parar de morder. Liz Garfield concedeu a Ted um brilhante, quase indescritível sorriso — Boa tentativa, seu escroto — e tirou o telefone do gancho.

— O que está havendo? — Carol gritou do banheiro. — Já posso sair? — Ainda não, querida. — Ted respondeu. — Daqui a pouco. Liz cutucou o gancho do telefone, apertando-o e soltando-o. Ela parou, ouviu, e pareceu ficar satisfeita. Ela começou a discar. — Vamos descobrir quem é você. — ela disse. Ela falou num tom estranho e confiante. — Isso deverá ser bem interessante. E o que você fez. Deve ser mais interessante ainda. — Se você ligar para a polícia, eles também saberão quem você é, e o que você fez. — Ted disse. Ela parou de discar e olhou para ele. Foi um olhar astuto que Bobby nunca havia visto antes. — Do que, em nome de Deus, você está falando? — De uma mulher tola que deveria ter sabido escolher melhor. De uma mulher tola que já conhecia o bastante de seu chefe para saber melhor — que já havia ouvido ele e seus amigos o suficiente para ficar mais esperta — para saber que qualquer “seminário” a que eles iriam só poderia ser de bebidas e orgias. Talvez de drogas também. De uma mulher tola que deixou a cobiça dominar seu bom senso... — O que você sabe sobre ser sozinho? — ela choramingou. — Eu tenho um filho para criar! — ela olhou para Bobby, como se lembrasse do filho que tinha para criar pela primeira vez em um bom tempo. — O quanto disso você quer que ele escute? — Ted perguntou. — Você não sabe de nada. Você não pode. — Eu sei de tudo. A pergunta é, o quanto você quer que Bobby saiba? Quanto quer que seus vizinhos saibam? Se a polícia vier e me levar, eles saberão o que eu sei, isso eu lhe prometo. — ele fez uma pausa. Suas pupilas permaneceram firmes, mas seus olhos pareceram crescer. — Eu sei de tudo. Acredite em mim — não me ponha a teste. — Por que você me machucaria deste jeito? — Se eu tivesse escolha, não o faria. Você já foi machucada o suficiente, por si mesma e por outros. Deixe-me ir, é tudo o que lhe peço. Eu ia embora de qualquer forma. Deixe-me ir. Tudo o que fiz foi tentar ajudar. — Oh, sim. — ela disse, e riu. — Ajudar. Ela estava sentada em você praticamente nua. Ajudar. — Eu ajudaria você se... — Ah, sim, e eu sei como. — ela riu novamente. Bobby começou a falar, e viu os olhos de Ted, avisando-o para não fazê-lo. Atrás da porta do banheiro, água começou a escorrer pela pia. Liz abaixou a cabeça, pensando. Finalmente, levantou-a novamente. — Tudo bem. — ela disse. — Eis o que vou fazer. Eu vou ajudar a namoradinha de Bobby a se limpar. Vou dar a ela uma aspirina e achar algo que possa vestir até chegar em casa. Enquanto isso, vou fazer a ela algumas perguntas. Se as respostas forem as certas, você pode ir. Pode ir ao inferno se quiser. — Mãe. Liz ergueu uma mão como um guarda de trânsito, calando-o. Ela olhava para Ted, que a encarava de volta. — Vou levá-la para casa, vou vê-la entrar pela porta da frente. O que ela decidir contar à mãe, fica entre ambas. Meu trabalho é vê-la chegar segura em casa, só isso. Quando estiver feito, vou até o parque sentar à sombra por um instante. Eu tive uma noite difícil ontem. — ela sugou o ar, e o deixou escapar num suspiro seco e pesaroso. — Muito difícil. Então irei ao parque, sentarei à sombra e pensarei no que fazer em seguida. Pensar em como vou mantê-lo e a mim longe da miséria. Se eu encontrá-lo aqui quando voltar, meu querido, vou chamar a polícia... e você não me ponha a teste nisso. Diga o que quiser. Nada vai importar tanto para qualquer pessoa se eu disser que entrei no meu apartamento algumas horas mais

cedo do que você esperava, e o flagrei com uma mão dentro da calcinha de uma menina de onze anos. Bobby observou sua mãe em choque mudo. Ela não viu o olhar dele; ela ainda olhava para Ted, seus olhos inchados estavam fixados nele intensamente. — Se, por outro lado, eu voltar e você tiver desaparecido, juntamente com sua bagagem, eu não terei que chamar ninguém ou dizer qualquer coisa. Tout finis. Eu vou com você! Bobby pensou para Ted. Eu não me importo com os homens baixos. Eu prefiro ter milhares de homens baixos em casacos amarelos procurando por mim — um milhão deles — do que ter que continuar a viver com ela. Eu a odeio! — Bem? — Liz perguntou. — De acordo. Eu terei partido em uma hora. Provavelmente menos. — Não. — Bobby protestou. Quando ele havia acordado esta manhã, já estava conformado com a partida de Ted — triste, mas conformado. Agora, tudo estava doendo novamente. E pior do que antes. — Não! — Fique quieto. — sua mãe disse, ainda sem olhar para ele. — É o único jeito, Bobby. Você sabe disso. — Ted olhou para Liz. — Tome conta de Carol. Eu vou falar com Bobby. — Você não está em posição de dar ordens. — Liz disse, mas foi. Enquanto cruzava a sala para o banheiro, Bobby percebeu que ela mancava. Um salto de um de seus sapatos havia quebrado, mas ele não achava que essa era a única razão pela qual ela não conseguia andar direito. Ela bateu brevemente na porta, e então, sem esperar por uma resposta, deslizou para dentro. Bobby correu pela sala, mas quando tentou pôr os braços em volta de Ted, o velho pegou suas mãos e as apertou brevemente, então as devolveu ao peito de Bobby e soltou. — Leve-me com você. — Bobby disse, ferozmente. — Eu posso ajudá-lo a procurar por eles. Dois pares de olhos são melhores do que um. Leve-me com você! — Não posso fazer isso, mas você pode vir comigo até a cozinha. Carol não é a única que precisa ser limpa. Ted levantou-se da cadeira, e balançou sobre os pés por um momento. Bobby foi até ele para equilibrá-lo, e Ted uma vez mais empurrou sua mão de modo gentil, mas firme. Doeu. Não tanto quanto a falha de sua mãe em ajudá-lo a se levantar (ou sequer olhar para ele), depois de tê-lo jogado contra a parede, mas o bastante. Ele caminhou com Ted até a cozinha, sem tocá-lo, mas perto o bastante para segurá-lo, caso ele caísse. Ted não caiu. Ele olhou para o reflexo nublado de si mesmo na janela acima da pia, suspirou, e então abriu a torneira. Molhou o tecido e começou a limpar o sangue de sua bochecha, checando seu reflexo na janela para ter uma referência. — Sua mãe precisa de você mais do que nunca. — ele disse. — Ela precisa de alguém em que possa confiar. — Ela não confia em mim. Eu nem mesmo acho que ela goste de mim. Ted comprimiu a boca, e Bobby entendeu que havia tropeçado em uma verdade que Ted enxergara na mente de sua mãe. Bobby sabia que ela não gostava dele, ele sabia disso, então por que as lágrimas ameaçavam cair novamente? Ted foi até ele, então, parecendo se lembrar de que era uma má ideia, voltou a trabalhar no seu tecido molhado. — Está bem. — ele disse. — Talvez ela não goste de você. Se for verdade, não é por causa de qualquer coisa que você tenha feito. É por causa do que você é. — Um menino. — ele disse, amargamente. — Um maldito menino.

— E o filho de seu pai, não se esqueça disso. Mas Bobby... quer ela goste ou não de você, ela o ama. Parece até um cartão de aniversário, eu sei, mas é a verdade. Ela o ama, e precisa de você. Você é tudo o que ela tem. Ela está muito machucada agora... — Machucar-se foi culpa dela! — ele explodiu. — Ela sabia que havia alguma coisa errada! Você mesmo disse! Ela soube disso por semanas! Meses! Mas ela não iria largar o emprego! Ela sabia, e mesmo assim foi com eles para Providence! Ela foi com eles mesmo assim! — Um domador de leões sabe, mas mesmo assim entra na jaula. Ele entra porque é lá que está o seu pagamento. — Ela tem dinheiro. — Bobby quase cuspiu. — Não o bastante, aparentemente. — Ela nunca terá o bastante. — Bobby disse, e soube que era verdade no momento em que as palavras saíram de sua boca. — Ela o ama. — Eu não ligo! Eu não a amo! — Mas você ama. Você amará. Precisa amar. É o ka. — Ka? O que é isso? — Destino. — Ted já limpara a maior parte do sangue em seu cabelo. Ele desligou a água, e deu uma última checada em sua imagem fantasmagórica na janela. Para além dela, jazia todo aquele quente verão, mais jovem do que Ted Brautigan jamais seria novamente. Mais jovem do que Bobby jamais seria novamente, aliás. — Ká é destino. Você se importa comigo, Bobby? — Você sabe que sim. — Bobby disse, começando a chorar novamente. Ultimamente, chorar parecia ser tudo o que ele sabia fazer. Seus olhos doíam de tanto chorar. — Eu me importo muito. — Então tente ser amigo de sua mãe. Por mim, se não por você mesmo. Fique com ela e ajude-a a se recuperar. E daqui pra frente, eu lhe mandarei um cartão postal. Eles agora voltavam novamente para a sala de estar. Bobby começava a se sentir um pouco melhor, mas desejou que Ted pudesse colocar o braço ao redor dele. Ele desejou isso mais do que tudo. A porta do banheiro se abriu. Carol saiu primeiro, olhando para os próprios pés com estranha timidez. Seu cabelo havia sido lavado, penteado para trás e preso num rabo de cavalo com uma liga. Ela usava uma das velhas blusas da mãe de Bobby; era tão grande que quase batia em seus joelhos, como se fosse um vestido. Não dava para ver seus shorts vermelhos. — Vá lá pra fora, e espere. — Liz disse. — Está bem. — Você não irá para casa sem mim, irá? — Não. — Carol disse, e seu rosto abatido se iluminou de alarme. — Bom. Fique perto das minhas malas. Carol começou a andar até a entrada, então se virou. — Obrigada por consertar meu braço, Ted. Espero que não fique encrencado por causa disso. Eu não quis... — Vá para a maldita varanda. — Liz repreendeu. — ...deixar ninguém encrencado. — Carol terminou, numa voz tão baixinha que quase parecia um sussurro de um ratinho num desenho animado. Por fim, ela saiu, a blusa de Liz balançava à sua volta de um modo que seria cômico em outra situação que não fosse a atual. Liz virou-se para Bobby, e quando ele deu uma boa olhada nela, seu coração afundou. A fúria dela estava refrescada. Uma vermelhidão havia se espalhado pelo rosto machucado dela até o seu pescoço. Oh, caramba, o que foi agora? Bobby pensou. Então, ela mostrou o chaveiro verde, e ele

entendeu. — Onde você conseguiu isso, Bobby-O? — Eu... ele... — mas ele não conseguiu pensar em nada para dizer: nenhuma mentirinha, nem uma mentira mais elaborada, nem mesmo a verdade. Subitamente, Bobby se sentiu muito cansado. A única coisa que ele queria no mundo era ir para o quarto, se esconder sob as cobertas de sua cama e dormir. — Eu dei a ele. — Ted disse, suavemente. — Ontem. — Você levou meu filho a uma casa de apostas em Bridgeport? Um salão de pôquer em Bridgeport? Não diz casa de apostas no chaveiro, Bobby pensou. Nem mesmo diz salão de pôquer... porque estas coisas são contra a lei. Ela sabe o que acontece por lá porque meu pai ia lá. E tal pai, tal filho. É o que dizem, tal pai, tal filho. — Eu o levei ao cinema. — Ted disse. — A Aldeia dos Amaldiçoados, no Criterion. Enquanto ele assistia, fui ao Bolso da Esquina resolver um assunto. — Que tipo de assunto? — Eu fiz uma aposta numa luta. — por um momento, o coração de Bobby afundou ainda mais, e ele pensou, O que há de errado com você? Por que não mente? Se você soubesse como ela se sente em relação a essas coisas... Mas ele sabia. Claro que sabia. — Uma aposta em uma luta. — ela assentiu. — Uhum. Você deixou meu filho sozinho em um cinema de Bridgeport para que pudesse ir apostar. — ela riu loucamente. — Ora, bem, suponho que eu deva ser grata, não? Você lhe trouxe uma lembrancinha tão bonitinha. Se ele mesmo alguma vez decidir fazer uma aposta, ou perder dinheiro jogando pôquer, como o pai dele fazia, já sabe aonde ir. — Eu o deixei por duas horas no cinema. — Ted disse. — Você o deixou comigo. Ele pareceu ter sobrevivido a ambas as coisas, não? Por um momento, Liz pareceu ter levado uma tapa, por outro momento, como se estivesse a ponto de chorar. Seu rosto suavizou e ficou sem expressão. Ela fechou o punho sobre o chaveiro e o colocou no bolso do vestido. Bobby entendeu que jamais o veria novamente. Ele não se importava. Ele não queria vê-lo novamente. — Bobby, vá para seu quarto. — ela disse. — Não. — Bobby, vá para seu quarto! — Não! Eu não vou! Parada ao lado das malas de Liz Garfield, num feixe de luz sobre o tapete de boas-vindas, flutuando dentro de uma velha camisa de Liz Garfield, Carol começou a chorar ao som das vozes elevadas. — Vá para o seu quarto, Bobby. — Ted disse, calmamente. — Foi muito bom encontrá-lo e conhecê-lo. — Conhecê-lo. — disse a mãe de Bobby, numa voz irritada e insinuante, mas Bobby não a entendeu, e Ted não a percebeu. — Vá para o seu quarto. — ele repetiu. — Você ficará bem? Sabe o que quero dizer. — Sim. — Ted sorriu, beijou os dedos e soprou-o para Bobby. Bobby o capturou com um punho, segurando-o firme. — Vou ficar muito bem. Bobby caminhou lentamente em direção à porta de seu quarto, cabisbaixo e com os olhos mirando os tênis. Ele quase havia chegado lá, quando pensou Eu não posso fazer isso, não posso deixá-lo ir

deste jeito. Ele correu até Ted, jogou os braços ao seu redor e cobriu seu rosto de beijos: testa, bochechas, queixo, lábios, as finas e sedosas pupilas de seus olhos. — Ted, eu te amo! Ted cedeu e abraçou-o forte. Bobby pôde sentir o cheiro fantasma da espuma que ele usara para se barbear, e o forte aroma dos cigarros Chesterfield. Estes foram cheiros que ele carregaria dentro de si por um longo tempo, assim como a memória das grandes mãos de Ted tocando-o, acariciando suas costas, segurando as curvas de seu rosto. — Bobby, eu também o amo. — ele disse. — Oh, pelo amor de Cristo. — Liz quase gritou. Bobby virou-se para ela e o que ele viu foi Don Biderman encurralando-a num canto. Em algum lugar, a Orquestra de Benny Goodman tocava “One O’Clock Jump” no volume máximo. A mão do Sr. Biderman estava aberta num trejeito de tapa. O Sr. Biderman perguntava se ela queria mais, se era desse jeito que ela gostava, dizia que ela poderia ter um pouco mais daquilo se era daquele jeito que ela gostava. Bobby quase pôde sentir o gosto da compreensão aterrorizada dela. — Você não sabia mesmo, não é? — ele disse. — Pelo menos não de tudo, tudo o que eles queriam. Eles achavam que você sabia, mas não sabia. — Vá para seu quarto agora mesmo, ou vou chamar a polícia e pedir que eles enviem uma viatura. — disse sua mãe. — Eu não estou brincando, Bobby-O. — Sei que não. — Bobby disse. Ele foi para o quarto e fechou a porta. A princípio, achou que estava bem, então, achou que iria vomitar, ou desmaiar, ou ambas as coisas. Ele foi até a cama com as pernas bambas. Queria apenas se sentar, mas, em vez disso, acabou deitando transversalmente, como se todos os seus músculos houvessem sumido de seu estômago e em seguida reaparecido. Ele tentou levantar os pés, mas as pernas mantiveram-se paralisadas, os músculos delas haviam desaparecido também. Ele teve uma imagem repentina de Sully-John em roupas de banho, subindo uma escada de piscina, correndo até o final da rampa e mergulhando. Naquele momento, ele desejou estar com Sully-John. Estar em qualquer lugar, exceto ali. Em qualquer lugar, exceto ali. Em qualquer lugar, exceto ali.

***

Quando Bobby acordou, a luz no seu quarto havia escurecido, e quando olhou para o chão, mal conseguiu discernir a sombra da árvore que ficava do outro lado da janela. Ele havia apagado — dormido ou desmaiado — por três horas, talvez quatro. Estava coberto de suor e suas pernas estavam dormentes; em nenhum momento ele havia içado-as para a cama. Ele tentou fazê-lo, houve uma explosão de agulhadas que quase fê-lo gritar. Ao invés disso, ele deslizou para o chão e as agulhas correram de suas coxas até sua virilha. Ele sentou com os joelhos na altura das orelhas, suas costas latejavam, suas pernas zuniam, sua cabeça estava confusa. Algo horrível havia acontecido, mas a princípio ele não se lembrava do que fora. Enquanto se ajeitava contra a cama, olhando para Clayton Moore em sua máscara do Cavaleiro Solitário, as lembranças começaram a retornar. O braço deslocado de Carol, sua mãe espancada e enlouquecida, sacudindo um chaveiro verde na sua cara, furiosa com ele. E Ted... Ted já teria ido embora a uma hora dessas, e provavelmente era melhor assim, mas como doía pensar a respeito. Ele se levantou e deu duas voltas pelo quarto. Na segunda vez, parou pela janela e olhou para fora, esfregando as mãos na nuca, que estava dura e suada. Um pouco abaixo da rua, as gêmeas Sigsby, Dina e

Dianne, pulavam corda, mas as outras crianças já estavam dentro de suas casas, ou para jantarem, ou para ficarem lá pelo resto da noite. Um carro passou com os faróis acessos. Era mais tarde do que ele pensara; as sombras celestiais da noite estavam caindo. Ele deu mais uma volta em seu quarto, exercitando as canelas, sentindo-se como um prisioneiro esticando as pernas em sua cela. Não havia fechadura na porta — não mais do que a que sua mãe havia instalado, mas ele se sentiu como um pássaro numa gaiola assim mesmo. Ele tinha medo de sair. Ela não o chamara para jantar, e embora estivesse com fome — um pouco, de qualquer forma — ele tinha medo de sair. Tinha medo de como a encontraria... ou não a encontraria. E se ela finalmente houvesse atingido sua cota de Bobby-O, estúpido e mentiroso Bobby- O, o filho de seu pai? Mesmo se ela estivesse aqui e parecesse voltar ao normal... haveria qualquer coisa parecida com o normal? Às vezes, as pessoas tinham coisas horríveis atrás de suas faces. Bobby sabia disso agora. Quando alcançou a porta fechada de seu quarto, ele parou. Havia um pedaço de papel que lá jazia. Ele se abaixou e pegou. Ainda havia luz o suficiente para que ele pudesse lê-lo facilmente.

Querido, Bobby— Pela hora em que você ler isto, eu já terei ido embora... mas o levarei comigo em meus pensamentos. Por favor, ame sua mãe e lembre-se de que ela te ama. Ela encontrava-se apavorada, machucada e humilhada nesta tarde, e quando vemos pessoas deste jeito, nós vemos o pior delas. Eu deixei algo para você no meu quarto. Eu vou me lembrar de minha promessa. Com todo meu amor,

Os cartões portais, foi isso o que ele prometeu. Mandar-me cartões postais. Sentindo-se melhor, Bobby dobrou o bilhete que Ted havia deslizado para dentro de seu quarto antes de partir, e abriu a porta do quarto. A sala de estar estava vazia, mas havia sido arrumada. Pareceria quase normal se não se soubesse que deveria haver um relógio na parede do lado da TV; agora havia apenas um pequeno prego onde ele estivera pendurado, apontando, sem nada para segurar. Bobby percebeu que podia ouvir sua mãe roncar no quarto. Ela sempre roncava, mas este era um ronco pesado, como se fosse de uma pessoa velha, ou de um bêbado num filme. É porque eles a machucaram, Bobby pensou e, por um momento, ele pensou no (Como é que vai, garotão, como vai essa força?) Sr. Biderman e nos dois bananas se acotovelando no banco traseiro e sorrindo, Matem a porca, cortem sua garganta, Bobby pensou. Ele não queria mais pensar nisso, mas não podia evitar. Saiu na ponta dos pés atravessando a sala de estar. Tão quieto quanto João no castelo do gigante, abriu a porta para a entrada e saiu. Continuou na ponta dos pés pelo primeiro lance de escadas (movendo-se grudado ao corrimão, porque ele havia lido num romance de mistério dos Hardy Boys que se você andasse deste modo numa escada, ela não rangeria muito), e disparou pelo segundo. A porta de Ted estava aberta; o quarto quase vazio. As poucas coisas que ele mesmo tinha colocado — uma pintura de um homem pescando ao pôr do sol, uma pintura de Maria Madalena lavando os pés de Jesus, e um calendário — haviam desaparecido. O cinzeiro na mesinha estava vazio, mas ao lado dele estava uma das sacolas de papel de Ted. Dentro dela, havia quatro brochuras: A Revolução dos Bichos, O Mensageiro do Diabo, A Ilha do Tesouro e Ratos e Homens. Escrita, na lateral da sacola de papel, estava a caligrafia tremida, mas completamente legível, de Ted: Leia o de Steinbeck primeiro. “Caras como nós”, George diz, quando ele conta a Lennie a história que Lennie sempre quer ouvir.

Quem são os caras como nós? Quem eram eles para Steinbeck? Quem são eles para você? Pergunte isto a si mesmo. Bobby pegou os livros, mas deixou a sacola — ele temia que se sua mãe visse uma das sacolas de Ted, ela enlouqueceria novamente. Ele olhou dentro do refrigerador, e nada viu, exceto uma garrafa de mostarda French e uma caixa de bicarbonato de sódio. Ele fechou o refrigerador novamente e deu uma olhada em volta. Era como se ninguém houvesse morado ali. Exceto... Ele foi até o cinzeiro, segurou-o na frente do nariz e inalou profundamente. O cheiro dos Chesterfields era forte, e isto trouxe Ted de volta completamente, Ted sentado à sua mesa, falando sobre Senhor das Moscas, Ted parado à frente do espelho do banheiro, fazendo a barba com aquela sua lâmina apavorante, escutando pela porta aberta enquanto Bobby lia as opiniões dos jornalistas que ele próprio não entendia. Ted deixando para trás uma pergunta final na lateral de uma sacola de papel: Caras como nós. Quem são os caras como nós? Bobby inalou de novo, sugando os pequenos flocos de cinza e lutando contra a vontade de espirrar, segurando o cheiro, fixando-o em sua memória o melhor possível, fechando os olhos, e pela janela veio o interminável e inevitável lamento de Bowser, agora soando pela escuridão como num sonho: uou-uouuou, uou-uou. Ele pousou o cinzeiro novamente. A vontade de espirrar havia passado. Eu vou fumar Chesterfields, ele havia decidido. Eu vou fumá-los por toda a minha vida. Desceu as escadas, segurando os livros contra o peito e evitando o centro dos degraus novamente, enquanto ia do segundo andar até a entrada. Ele deslizou para dentro do apartamento, na ponta dos pés, cruzando a sala de estar (sua mãe ainda roncava, mais alto do que antes), e adentrando seu quarto. Ele pôs os livros sob a cama — bem escondidos. Se sua mãe os encontrasse, ele diria que eram presentes do Sr. Burton. Era uma mentira, mas se contasse a verdade, ela sumiria com os livros. Além disso, mentir não parecia mais uma coisa tão ruim. Mentir poderia se tornar uma necessidade. Com o tempo, poderia até mesmo se tornar um prazer. O que viria a seguir agora? O ronco em seu estômago decidiu por ele. Um pouco de pasta de amendoim e sanduíche de geleia era o que viria a seguir. Ele avançou para a cozinha, passando pela porta entreaberta de sua mãe, na ponta dos pés sem nem mesmo pensar, e então parou. Ela estava se revirando na cama. Seus roncos estavam irregulares, e ela falava enquanto dormia. Era apenas um murmúrio baixo que Bobby não conseguia decifrar, mas ele percebeu que não precisava fazê-lo. Ele podia ouvi-la mesmo assim. E ele podia ver coisas. Seus pensamentos? Seus sonhos? O que quer que fosse, era horrível. Conseguiu dar mais três passos em direção à cozinha, então pegou o lampejo de algo tão terrível que sua respiração paralisou-se em sua garganta como gelo: VOCÊ VIU BRAUTIGAN! Ele é um VELHO CÃO MESTIÇO mas NÓS O AMAMOS! — Não. — ele sussurrou. — Oh, mamãe, não. Ele não queria entrar lá onde ela estava, mas seus pés giraram, naquela direção assim mesmo. Ele foi com eles como um refém. Assistiu à sua mão se mover, aos dedos se esticarem, e a empurrar a porta do quarto completamente. Sua cama ainda estava feita. Ela jazia deitada em cima da colcha ainda de vestido, uma perna estava tão encolhida que o joelho quase tocava seu peito. Ele podia ver o topo de suas meias e cinta-liga, e isso o fez pensar na moça da foto do calendário n’O Bolso da Esquina, aquela saindo do carro com a maior parte da saia no colo... exceto que a moça saindo do Packard não tinha os machucados feios acima das meias.

O rosto de Liz estava vermelho onde não estava machucado; o cabelo estava empapado de suor; suas bochechas estavam besuntadas de lágrimas e manchadas pela maquiagem. Uma tábua rangeu abaixo do pé de Bobby ao entrar no quarto. Ela gemeu e ele congelou, é claro que seus olhos se abririam. Mas ao invés de acordar, ela rolou para longe dele na direção da parede. Aqui, no quarto dela, a mistura de pensamentos e imagens que saíam dela era não apenas clara, mas também mais organizada e pungente, como o suor emanado de uma pessoa doente. Ao fundo de tudo, estava o som de Benny Goodman tocando “One O’Clock Jump”, e o gosto de sangue escorrendo pela parte interna da garganta dela. Você viu Brautigan, Bobby pensou. Ele é um velho cão mestiço, mas nós o amamos. Você viu... Ela havia fechado as cortinas antes de se deitar, e o quarto estava muito escuro. Ele deu mais um passo, e então parou ao lado da mesa com o espelho, onde ela às vezes sentava-se para retocar a maquiagem. Sua bolsa estava lá. Bobby pensou em Ted o abraçando — o abraço que Bobby desejara, que tanto precisara. Ted acariciando suas costas, a curva de seu rosto. Quando eu toco, eu passo por uma espécie de janela, Ted havia lhe dito, enquanto voltavam no táxi de Bridgeport. E agora, ao lado da mesa de maquiagem de sua mãe, com os punhos cerrados, Bobby tentou olhar através da janela da mente de sua mãe. Ele pegou um lampejo dela voltando de trem, encolhida, olhando pelos milhares de quintais entre Providence e Harwich, para que o menor número de pessoas possível visse o seu rosto; ele a viu mirando o espalhafatoso chaveiro verde, ao lado do copo de escovas de dente, enquanto Carol vestia sua blusa; viu-a levando Carol para casa, fazendo perguntas por todo o caminho, uma atrás da outra, atirando- as como uma metralhadora. Carol, abalada demais para dissimular, respondera a todas. Bobby viu sua mãe caminhando — mancando — até o Parque Commonwealth, ouvindo-a pensar Se apenas algo de bom saísse deste pesadelo, se apenas algo de bom, qualquer coisa boa... Ele a viu sentar num banquinho à sombra, e então se levantar por um momento, andar até a Spicer para comprar alguma coisa para dor de cabeça, e um suco para ajudá-la a engolir antes de voltar para casa. E então, logo antes de deixar o parque, Bobby a viu espiar algo pregado nas árvores. Este algo estivera pregado por toda a cidade; devia ter passado por alguns deles durante seu passeio pelo parque, mas de tão absorta, ela nunca os notou. Uma vez mais, Bobby sentiu-se como um passageiro em seu próprio corpo, nada mais do que isso. Ele viu sua mão se mover, viu seus dois dedos (aqueles que ostentariam manchas amareladas de um fumante constante em alguns anos) fazerem um movimento de tesoura e pinçarem uma coisa que se salientava para fora da bolsa. Bobby puxou o papel, desdobrou-o, e leu as duas primeiras linhas na fraca luz que atravessava a porta:

VOCÊ VIU BRAUTIGAN! Ele é um VELHO CÃO MESTIÇO mas NÓS O AMAMOS!

Seus olhos saltaram meio caminho abaixo para as palavras que, sem dúvida, haviam seduzido sua mãe e extirpado qualquer outro pensamento de sua mente.

Nós pagaremos UMA GRANDE RECOMPENSA ($$$$)

Aqui estava a coisa que ela estivera desejando, esperando, rezando; aqui estava UMA GRANDE RECOMPENSA. E ela havia hesitado? Será que o pensamento “Espere um minuto, meu filho ama aquele velho

desgraçado!” havia lhe passado pela cabeça? Que nada. Não se podia hesitar. Porque a vida era cheia de Don Birdemans, e a vida não era justa. Bobby saiu do quarto na ponta dos pés e com o cartaz em mãos, caminhando em grandes e suaves passos, congelando toda vez que o piso rangia sob seus pés, para logo seguir em frente. Atrás dele, o murmúrio de sua mãe diminuíra para pequenos roncos novamente. Bobby chegou à sala de estar e fechou a porta atrás de si, descendo a maçaneta até a porta estar totalmente fechada, não querendo que o trinco fizesse barulho. Então, ele correu em direção ao telefone, percebendo só agora que estava longe de sua mãe, que seu coração batia a toda velocidade, e que sua garganta tinha gosto de ferro. Qualquer vestígio da fome havia sumido. Ele pegou o fone, olhou em volta rapidamente para se certificar de que a porta de sua mãe continuava fechada, então discou o número do cartaz. O número queimava em sua cabeça: HOusitonic 58337. Houve apenas silêncio quando terminou de discar. Não era surpresa, porque não havia qualquer posto de achados e perdidos HOusitonic em Harwich. E se ele sentia frio novamente (exceto em suas bolas e solas dos pés, que estavam estranhamente quentes), era apenas porque ele estava com medo por Ted. Era só isso. Apenas... Quando Bobby estava para desligar, houve um clique que soou como uma pedra chocando-se com algo. E então, uma voz disse: “Sim?”. É Biderman! Bobby pensou loucamente. Caramba, é Biderman! — Sim? — a voz disse, novamente. Não, não era Biderman. Baixo demais para ser Biderman, mas era a voz de um banana, sem dúvidas, e enquanto a temperatura de sua pele continuava a descer ao zero absoluto, Bobby soube que o homem do outro lado da linha possuía algum tipo de casaco amarelo em seu guarda-roupa. Subitamente, seus olhos começaram a arder, e a parte de trás deles começou a formigar. É a família Sagamore? foi isso o que ele pretendeu perguntar, e se quem quer que estivesse ao telefone confirmasse, ele imploraria pela liberdade de Ted, faria qualquer coisa que pedissem. Mas agora que sua chance havia chegado, ele não conseguia dizer nada. Até este ponto, ele nunca acreditara completamente nos homens baixos. Agora, alguma coisa encontrava-se do outro lado da linha, alguma coisa que nada tinha em comum com a vida como Bobby Garfield a compreendia. — Bobby? — a voz disse, e houve uma espécie de prazer insinuante na voz, um reconhecimento sensual. — Bobby. — a voz disse, novamente, desta vez sem um ponto de interrogação. As manchas começaram a invadir o campo de visão de Bobby; a sala de estar do apartamento subitamente se encheu de neve negra. — Por favor... — Bobby suspirou. Ele juntou toda a sua determinação e se forçou a terminar. — Por favor, deixem-no ir. — Não podemos fazer isso. — a voz vinda do vazio disse. — Ele pertence ao Rei. Fique longe, Bobby. Não interfira. Ted é o nosso cão. Se não quiser ser nosso cão também, fique longe. Clique. Bobby manteve o telefone seguro contra a orelha por mais um momento, precisando tremer, e com frio demais para fazê-lo. O formigamento atrás de seus olhos começou a sumir, e as manchas que caíam começaram a se misturar ao ambiente escuro. Finalmente, ele afastou o telefone do rosto, começou a abaixá-lo, então algo o deteve. Havia uma dúzia de pequenos círculos vermelhos nas perfurações do fone de ouvido. Era como se a voz da coisa do outro lado houvesse feito o telefone sangrar. Arquejando em leves e rápidos soluços, Bobby devolveu o telefone ao gancho e foi para o quarto.

Não interfira, o homem do número da Família Sagamore havia lhe dito. Ted é o nosso cão. Mas Ted não era um cão. Ele era um homem, e ele era o amigo de Bobby. Ela podia ter dito a eles onde ele ficaria esta noite, Bobby pensou. Eu acho que Carol sabia. Se sim, se ela disse à Mamãe... Bobby pegou o pote de dinheiro para comprar sua bicicleta. Ele pegou todo o dinheiro e saiu do apartamento. Considerou deixar um bilhete para sua mãe, mas não o fez. Ela poderia ligar para HOusitonic 5-8337 novamente e contar ao banana de voz baixa o que seu Bobby-O estava planejando. Essa era uma razão para não deixar um bilhete. A outra era que se pudesse avisar Ted a tempo, ele poderia ir com ele. Desta vez, Ted teria que deixá-lo ir com ele. E se os homens baixos o matassem ou o sequestrassem? Bem, essas coisas eram quase iguais a fugir, não eram? Bobby deu uma olhada final ao redor do apartamento, e enquanto ouvia sua mãe roncar, sentiu um puxão involuntário em seu coração e em sua mente. Ted tinha razão: apesar de tudo, ele a amava. Se havia um ka, amá-la era parte do dele. Ainda assim, ele torceu para nunca mais vê-la. — Adeus, Mamãe. — Bobby sussurrou. Um minuto depois, ele corria ladeira abaixo pela Rua Broad, em direção às profundezas das trevas, com uma mão fechada ao redor do maço de notas em seu bolso, para que nada pudesse pular para fora dele.

10

Submundo de Novo. Os Rapazes da Esquina. Homens Baixos em Casacos Amarelos. O Pagamento.

ELE CHAMOU UM TÁXI pelo telefone público da loja de Spicer, e enquanto esperava por sua carona, arrancou um cartaz de animais perdidos com o nome BRAUTIGAN de um quadro de avisos. Também removeu uma propaganda de um Rambler 1957 à venda pelo proprietário. Ele os amassou e os jogou na lata de lixo ao lado do umbral, sem nem mesmo se importar em olhar para trás para ver se o velho Spicer, cujo temperamento explosivo era uma lenda entre as crianças do lado oeste de Harwich, havia flagrado-o. As gêmeas Sigsby estavam por ali também, as cordas de pular caídas ao chão para que pudessem brincar de amarelinha. Bobby se aproximou delas e observou as figuras...

...desenhadas ao lado da amarelinha. Ele ficou de joelhos e Dina Sigsby, que estava para jogar sua pedrinha no 7, parou para observá-lo. Dianne protegeu a boca com seus dedos encardidos e começou a soltar risadinhas. Ignorando-as, Bobby usou as mãos para borrar os desenhos. Quando terminou, ficou de pé e espanou as mãos. O poste no pequeno estacionamento da loja iluminou-se; as sombras de Bobby e das meninas subitamente cresceram. — Por que fez isso, seu velho burro Bobby Garfield? — Dina perguntou. — Eles eram bonitos. — Eles davam azar. — Bobby respondeu. — Por que não estão em casa? — não que ele não tivesse uma boa ideia; a resposta piscava na mente delas como as placas de cerveja na vitrine de Spicer. — Mamãe e Papai estão brigando. — Dianne disse. — Ela disse que ele tem uma namorada. — ela riu, e sua irmã se juntou a ela, mas em seus olhos havia medo. Elas lembraram a Bobby os Pequenos de Senhor das Moscas. — Vão para casa antes que fique totalmente escuro. — ele disse. — Mamãe disse para ficarmos longe. — Dina lhe disse. — Então ela é burra e seu pai também. Vão logo! Elas se entreolharam e Bobby percebeu que as havia assustando ainda mais. Ele não se importou. Assistiu-as recolherem as cordas de pular e subirem a ladeira. Cinco minutos depois, o táxi que ele havia chamado parou no estacionamento do lado da loja, seus faróis iluminavam o cascalho. — Hum. — disse o taxista. — Não sei se é uma boa ideia levar um garotinho a Bridgeport após o pôr do sol, mesmo se puder pagar. — Está tudo bem. — Bobby disse, sentando-se atrás. Se o taxista pretendia colocá-lo para fora, era melhor ter um pé-de-cabra na mala. — Meu avô vai me encontrar. — mas não no Bolso da Esquina, Bobby já havia decidido; ele não iria chegar àquele lugar num táxi. Alguém poderia estar vigiando-o. — Na Companhia de Macarrão Wo Fat. Fica na Avenida Narragansett. — o Bolso da Esquina também ficava na Narragansett. Ele não se lembrara do nome da rua, mas a havia achado com facilidade nas páginas amarelas, após chamar o táxi. O taxista começara a dar ré para voltar à rua. Então, parou novamente. — Essa rua nojenta? Cristo, aquilo não é lugar para uma criança. Nem mesmo em plena luz do dia.

— Meu avô vai me encontrar. — Bobby repetiu. — Ele disse para te dar uma gorjeta de meio mango. Você sabe, cinquenta centavos. Por um momento, o taxista oscilou. Bobby tentou pensar em outro modo de persuadi-lo, mas não conseguiu produzir nada. O taxista suspirou, abaixou a bandeira e começou a dirigir. Enquanto passavam o prédio dele, Bobby olhou para ver se havia alguma luz acesa no apartamento. Não havia, ainda não. Ele sentou-se, e esperou que Harwich ficasse para trás.

***

O nome do taxista, Roy DeLois, constava no taxímetro. Ele não disse uma palavra pela viagem até Bridgeport. Estava triste por ter tido que levar Pete ao veterinário, e por ter tido que sacrificá-lo. Pete tinha quatorze anos. Era velho demais para um Collie. Ele havia sido o único amigo de verdade de Roy DeLois. Manda ver, garotão, pode comer, é por minha conta, Roy DeLois diria enquanto o alimentava. Ele dizia a mesma coisa toda noite. Roy DeLois era divorciado. Às vezes ele ia a um clube de strippers em Hartford. Bobby conseguia ver imagens fantasmagóricas de dançarinas, a maioria sendo daquelas que usavam penas e longas luvas brancas. A imagem de Pete era mais clara. Roy DeLois estivera bem pelo caminho de volta do veterinário, mas quando viu o prato vazio de Pete na despensa, desabou no choro. Eles passaram pelo William Penn Grille. Luzes fortes saíam de todas as janelas, e a rua estava afilada de carros em ambos os lados por três blocos, mas Bobby não viu nenhum DeSoto maluco, ou outros carros que parecessem criaturas vivas em finos disfarces. A parte de trás de seus olhos não formigou; não houve manchas negras. O táxi cruzou a ponte do canal e então eles chegaram ao submundo. Música espanhola alta tocava nos apartamentos com escadas de incêndio, que ziguezagueavam como raios de metal. Grupos de jovens, com brilhosos cabelos penteados para trás, apareciam em algumas esquinas; grupos de garotas que riam, apareciam em outras. Quando o táxi parou no sinal vermelho, um homem de pele morena passou, os quadris pareciam escorregar como se houvesse óleo em suas calças de gabardina, que havia deslizado, deixando a cintura de sua samba-canção branca visível, e ofereceu- se para lavar o para-brisa com um pano imundo que segurava. Roy DeLois sacudiu a cabeça e deu no pé no instante em que o sinal mudou. — Malditos espiões. — ele disse. — Eles deviam ser barrados neste país. Já não temos negros o suficiente? A Rua Narragansett parecia diferente à noite — ligeiramente mais assustadora e fabulosa. Chaveiros... escritórios de contabilidade... alguns bares que cuspiam risos, música e rapazes com garrafas de cerveja nas mãos... ARMAS DO ROD... e claro, bem além da Rod e próxima à loja que vendia LEMBRANCINHAS ESPECIAIS, a COMPANHIA DE MACARRÃO WO FAT. Daqui não seriam mais do que quatro blocos até o Bolso da Esquina. Era apenas oito da noite. Bobby tinha muito tempo. Quando Roy DeLois encostou ao meio-fio, seu taxímetro informava a quantia de oitenta centavos. Adicione a isto uma gorjeta de cinquenta centavos, e estaria se falando de um grande rombo nos Fundos da Bicicleta, mas Bobby não ligava. Ele nunca faria tanta questão por dinheiro do modo como ela fazia. Se pudesse avisar Ted antes que os homens baixos pudessem agarrá-lo, Bobby ficaria feliz por nunca pedalar. — Não gosto de te deixar aqui. — Roy DeLois disse. — Onde está seu avô? — Oh, está por aqui. — Bobby disse, forçando um tom alegre, e quase conseguindo. Era realmente incrível o que se podia fazer ao ser posto contra parede. Ele estendeu o dinheiro. Por um momento, Roy DeLois hesitou, ao invés de pegar a grana; pensou em levá-lo de volta ao Spicer, mas se o garoto não está contando a verdade sobre seu avô, o que ele

está fazendo aqui? Roy DeLois pensou. Ele é muito novo pra trepar. Estou bem, Bobby mandou de volta... e sim, ele achava que também poderia fazer isso, ou um pouco, de qualquer forma. Pode ir, pare de se preocupar comigo, eu estou bem. Roy DeLois finalmente pegou o dólar amassado e o trio de moedas. — Isto é realmente muita coisa. — ele disse. — Me avô me ensinou a nunca ser pão-duro como certas pessoas são. — Bobby disse, saindo do táxi. — Talvez você devesse comprar um novo cachorro. Sabe, um filhote. Roy DeLois talvez tivesse cinquenta anos, mas a surpresa o fez parecer bem mais jovem. — Como... Então, Bobby o ouviu decidir que não se importava como. Roy DeLois ligou o motor de seu táxi e dirigiu para longe, deixando Bobby em frente à Companhia de Macarrão Wo Fat. Ele ficou por ali até que os faróis traseiros do táxi sumissem de vista, então começou a andar lentamente em direção ao Bolso da Esquina, pausando tempo o bastante para olhar pela vitrine empoeirada da LEMBRACINHAS ESPECIAIS. A cortina de bambu estava recolhida, mas a única lembrancinha especial à mostra era um cinzeiro de cerâmica em forma de privada. Havia um encaixe para o cigarro no assento. ESTACIONE O TRASEIRO dizia na privada. Bobby achou isso bastante espirituoso, mas não o bastante para ser uma amostra na vitrine; ele esperava por itens de natureza sexual. Especialmente agora que o sol se fora. Ele continuou a andar, passando pela IMPRESSÕES B’PORT, e SAPATOS CONSERTADOS ENQUANTO CÊ ESPERA, e KARTAS ESPERTAS PARA TODAS AS OCASIÕES. Mais acima havia outro bar, mais jovens na esquina, e o som de The Cadillacs: Brrrr, Black slacks, make ya cool, DaddyO, when ya put’em on you’re rarin’ to go. Bobby cruzou a rua, caminhando com os ombros curvados, cabeça abaixada e mãos no bolso. Do outro lado da rua, havia um restaurante abandonado com um toldo esfarrapado ainda acima das vitrines, Bobby penetrou em suas sombras e continuou, encolhendo sempre que alguém gritava e uma garrafa se estilhaçava. Quando alcançou a esquina seguinte, ele novamente cruzou a tal rua nojenta pela diagonal, retornando ao lado em que se encontrava o Bolso da Esquina. Enquanto avançava, ele tentou concentrar sua mente para pegar algum sinal de Ted, mas não havia nada. Bobby não ficou surpreso. Se ele fosse Ted, teria ido a algum lugar como a Biblioteca Pública de Bridgeport, onde poderia vagar sem ser percebido. Talvez depois que a biblioteca fechasse, ele fosse comer, matar um pouco mais de tempo. Eventualmente, chamaria outro táxi e viria pegar sua grana. Bobby não achava que ele estava por perto, mas continuou a tentar ouvi-lo. Ele estava tão concentrado que esbarrou num homem sem nem vê-lo. — Ei, cabrón! — o cara disse, rindo, mas não de uma maneira legal. Mãos seguraram os ombros de Bobby. — Aonde você pensa que vai, putino? Bobby olhou para cima e viu quatro jovens, o que sua mãe chamaria de rapazes de esquina, parados em frente de um lugar chamado BODEGA. Eles eram porto-riquenhos, ele pensou, e todos vestiam calças amassadas. Botas pretas pontudas saíam por baixo das bainhas. Eles também vestiam jaquetas azuis de seda com a palavra DIABLOS escrita nas costas. Também havia um tridente de diabo. Algo pareceu familiar acerca do tridente, mas Bobby não tinha tempo para pensar nisso. Ele percebeu com o coração afundando que havia trombado com quatro membros de alguma gangue. — Desculpe. — ele disse, numa voz seca. — Sério, eu... com licença. Ele afastou-se das mãos que agarravam seus ombros e tentou passar pelo cara. Deu apenas um passo antes que os outros o agarrassem. — Aonde está indo, tío? — este perguntou. — Aonde está indo, tío? Mío?

Bobby se soltou, mas o quarto cara o empurrou de volta ao segundo. O segundo cara o agarrou novamente, não tão gentilmente desta vez. Era como ser cercado por Harry e seus amigos, só que pior. — Você tem dinheiro, tío? — perguntou o terceiro cara. — Porque aqui é um pedágio, saca? Todos riram e se aproximaram. Bobby podia sentir o cheiro de suas loções fortes, os tônicos para cabelo, seu próprio medo. Ele não conseguia ouvir os pensamentos deles, mas precisava? Eles provavelmente o espancariam e roubariam seu dinheiro. Se tivesse sorte, era tudo o que fariam... mas, ele provavelmente não teria tanta sorte. — Garotinho. — o quarto cara quase cantarolou. Ele pegou os cabelos de Bobby, e puxou forte o bastante para fazer seus olhos se encherem de água. — Pequeno muchacho, quanto tem de dinheiro, hein? Quanto tem do bom e velho dinero? Se tiver algo, nós o deixaremos ir. Se não, vamos esmagar suas bolas. — Deixe-o em paz, Juan. Eles olharam em volta — Bobby também — e ali vinha um quinto cara, também vestindo uma jaqueta dos Diablos, também com as calças amassadas; usava sapatos de viagem, em vez das botas pontudas, e Bobby o reconheceu no mesmo instante. Era o rapaz que estivera jogando Patrulha da Fronteira no Bolso da Esquina, no dia em que Ted fora fazer sua aposta. Não era à toa que aquele tridente havia lhe parecido tão familiar — estava tatuado na mão do cara. Sua jaqueta estava amarrada em volta de sua cintura (é proibido usar jaquetas da turma aqui, ele dissera a Bobby), mas usava o sinal dos Diablos assim mesmo. Bobby tentou olhar na mente do recém-chegado, e apenas viu formas escuras. Sua habilidade estava desaparecendo novamente, como havia desaparecido no dia em que a Sra. Gerber os levara ao Rochedo Feliz; pouco depois de deixarem a barraquinha de McQuown, no fim do parque, a coisa havia sumido. Desta vez, o pressentimento havia durado mais tempo, mas já estava desaparecendo. — E aí, Dee. — disse o rapaz que puxara o cabelo de Bobby. — Nós só íamos sacudir esse rapazinho um pouco. Fazê-lo pagar para passar pelo pedágio dos Diablos. — Não este. — Dee disse. — Eu o conheço. Ele é meu comprade. — Ele parece um riquinho da cidade pra mim. — disse o que havia chamado Bobby de cabrón e putino. — Eu ia ensiná-lo a ter respeito. — Ele não precisa aprender nada com você. — Dee disse. — Quer aprender comigo, Moso? Moso recuou, franzindo os cenhos e pegando um cigarro do bolso. Um dos outros acendeu o cigarro para ele, e Dee levou Bobby para mais abaixo na rua. — O que está fazendo aqui no submundo, amigo? — perguntou, segurando o ombro de Bobby com a mão tatuada. — Você é muito burro de vir ao submundo e loco pra caralho por vir sozinho à noite. — Não pude evitar. — Bobby disse. — Eu tenho que encontrar o cara com quem eu estava ontem. O nome dele é Ted. Ele é velho e bem alto. Anda um pouco curvado, como Boris Karloff, sabe, aquele cara dos filmes de terror? — Eu sei quem é Boris Karloff, mas não conheço nenhum Ted. — Dee disse. — Eu nunca o vi. Cara, você tem que dar o fora daqui. — Eu tenho que ir ao Bolso da Esquina. — disse Bobby. — Eu acabei de sair de lá. — disse Dee. — E não vi nenhum cara parecido com Boris Karloff. — Ainda é muito cedo. Eu acho que ele vai estar lá entre as nove e meia e as dez. Eu tenho que estar lá quando ele chegar, porque há alguns homens atrás dele. Eles vestem casacos amarelos e sapatos brancos... dirigem carros esquisitos... um deles é um DeSoto púrpura, e... Dee o pegou e o girou contra a porta da loja de penhores com tanta força que por um momento, Bobby pensou que ele havia decidido entrar na onda de seus amigos, os rapazes da esquina, afinal.

Dentro da loja de penhores, um velho de óculos levantou sua cabeça careca e olhou em volta, aborrecido, então voltou sua atenção para a leitura do jornal. — Os jefes em longos casacos amarelos. — Dee sussurrou. — Eu já vi esses caras. Alguns dos outros também os viram. Você não vai querer se meter com esses rapazes, chico. Há algo de errado com esses rapazes. Eles não parecem certos. Fazem os valentões que andam pelo Mallory’s Saloon parecerem santos. Algo na expressão de Dee lembrou-lhe Sully-John, e Bobby se lembrou de SJ falando que havia visto uma dupla de caras estranhos do lado de fora do Parque Commonwealth. Quando Bobby perguntara o que havia de tão estranho sobre eles, Sully dissera que não sabia dizer exatamente. Mas Bobby sabia. Sully havia visto os homens baixos. Já naquela época eles estavam xeretando. — Quando você os viu? — Bobby perguntou. — Hoje? — Xará, dá um tempo. — Dee respondeu. — Eu só acordei há duas horas e a maior parte do tempo eu estive no banheiro, dando um trato na figura pra sair na rua. Eu os vi saindo do Bolso da Esquina, um par deles, anteontem, eu acho. E aquele lugar tá engraçado ultimamente. — ele ponderou por um instante, então fez um chamado. — Ei, Juan, traga seu traseiro aqui. O cara do puxão de cabelo chegou trotando. Dee falou com ele em espanhol, Juan respondeu e Dee falou ainda mais brevemente, apontando para Bobby. Juan inclinou-se sobre Bobby, mãos nos joelhos de suas calças rasgadas. — Você viu estes caras, hein? Bobby assentiu. — Um bando num grande DeSoto púrpura? Um bando num Cri’sler? Um bando num Olds 98? Bobby conhecia apenas o DeSoto, mas assentiu. — Estes carros não são carros de verdade. — disse Juan. Ele olhou de esguelha para Dee, para ver se ele estava rindo. Dee não estava; ele apenas assentiu para que Juan continuasse. — Eles são outra coisa. — Eu acho que eles estão vivos. — Bobby disse. Os olhos de Juan iluminaram-se. — É! Parecem vivos! E aqueles homens... — Como eles eram? Eu vi um dos carros deles, mas não eles. Juan tentou, mas não conseguiu responder, pelo menos não em inglês. Ele trocou para o espanhol. Dee traduziu uma parte, mas de um jeito abstrato; mais e mais ele conversava com Juan e ignorava Bobby. Os outros rapazes da esquina — e rapaz era o adjetivo certo pra eles—Bobby notou, aproximaram-se e somaram suas contribuições. Bobby não conseguia entender o que diziam, mas achou que eles estavam assustados, todos eles. Eles eram durões—no submundo isso era necessário para se sobreviver ao dia — mas os homens baixos haviam assustado a todos eles, assim mesmo. Bobby capturou uma última imagem clara: uma figura alta andando a passos largos, vestindo um casaco cor de mostarda, o tipo de casaco que os homens às vezes vestiam em filmes como Sem Lei, Sem Alma ou Sete Homens e um Destino. — Vi quatro deles saindo da barbearia que tem uma casa de apostas de corrida de cavalos nos fundos. — disse aquele que parecia se chamar Filio. — É isso o que fazem, esses caras, entram em lugares e perguntam coisas. Sempre deixam um de seus carrões com o motor ligado ao meio-fio. Você poderia achar loucura fazer uma coisa dessas num lugar como este, deixar um carro ligado ao meio-fio, mas quem roubaria uma daquelas malditas coisas? Ninguém, Bobby sabia. Se tentasse, o volante poderia se transformar numa cobra e o estrangularia; o assento poderia se transformar numa poça de areia movediça e o sugaria.

— Eles vêm em bando. — Filio continuou. — Todos vestindo aqueles longos casacos amarelos, mesmo quando o dia está tão quente que se poderia fritar um ovo na calçada. Eles usavam uns sapatos brancos legais — pontudos, vocês sabem que sempre noto o que as pessoas usam nos pés, sou viciado nisso — e não acho... não acho... — ele pausou, acalmando-se, e disse algo para Dee em espanhol. Bobby perguntou o que ele havia dito. — Ele disse que os sapatos deles não tocavam o chão. — Juan respondeu. Seus olhos estavam esbugalhados. Não havia escárnio ou diversão neles. — Ele disse que chegaram neste grande Cri’sler vermelho, e quando voltaram pra ele, seus malditos sapatos meio que não tocavam o chão. — Juan pôs dois dedos bifurcados à frente da boca, cuspiu entre eles e então fez o sinal da cruz. Ninguém disse nada por um ou dois minutos, então Dee inclinou-se com um semblante sério novamente. — São estes os caras que estão procurando seu amigo? — Isso mesmo. — Bobby disse. — Eu preciso avisá-lo. Ele teve uma louca ideia de que Dee fosse se oferecer pra ir com ele ao Bolso da Esquina, e depois o resto dos Diablos seguiriam; eles subiriam a rua, estalando os dedos em uníssono, como os Jets, em Amor, Sublime Amor. Eles seriam amigos agora, rapazes de uma gangue que por acaso tinham bons corações de verdade. Claro que nada disso aconteceu. O que aconteceu foi que Moso se afastou, voltando para o lugar onde havia agarrado Bobby. Os outros o seguiram. Juan parou tempo o bastante pra dizer, “Esbarre nesses caballeros e você está morto, putino, tío mío. Apenas Dee havia sobrado, e ele disse: — Ele tem razão. É melhor voltar para sua casa, meu amigo. Deixe que seu amigo tome conta de si mesmo. — Não posso. — disse Bobby. E por pura curiosidade: — Você poderia? — Não contra caras normais, talvez, mas estes não são caras normais. Não estava ouvindo a conversa? — Sim. — Bobby disse. — Mas... — Você é doido, garotinho. Poco loco. — Pode ser. — e ele se sentia doido. Poco loco e mais um pouco. Doido como um rato num lixo, sua mãe teria dito. Dee começou a se afastar, e Bobby sentiu seu coração se contrair. O rapagão foi até a esquina, seus amigos o esperavam do outro lado da rua—então girou sobre os pés, fez uma arma com os dedos e a apontou para Bobby. Bobby sorriu e apontou sua própria “arma” de volta. — Vaya com Dios, mi amigo loco. — Dee disse, e atravessou a rua com o colarinho da jaqueta de sua gangue levantado contra a nuca. Bobby virou-se para o outro lado e começou a andar novamente, desviando das luzes jogadas pelas placas de neon, tentando se manter sob a proteção das sombras.

***

Do outro lado da rua do Bolso da Esquina havia um necrotério, FUNERAIS DESPEGNI, dizia num toldo verde. Pendurada na janela, estava um relógio cuja face estava delineada por um frio círculo de neon azulado. Abaixo do relógio havia uma placa que dizia O TEMPO E A MARÉ NÃO ESPERAM POR NINGUÉM. De acordo com o relógio, já passava das oito horas. Ele ainda tinha tempo, muito tempo. Bobby podia ver uma viela além do Bolso onde poderia esperar em relativa segurança, mas ele não conseguia apenas ficar parado e esperar, muito embora soubesse que essa seria a coisa mais esperta

a se fazer. Se fosse realmente esperto, ele nunca teria descido ao submundo em primeiro lugar. Bobby, por sua vez, não era uma velha coruja sábia; ele era um garoto assustado que precisava de ajuda. Ele duvidou que houvesse alguma pelo Bolso da Esquina, mas talvez ele estivesse errado. Bobby caminhou sob o pôster que dizia ENTRE, ESTÁ FRESCO AQUI DENTRO. Ele nunca sentiu menos necessidade de estar sob um ar-condicionado em toda a sua vida; era uma noite bem quente, mas ele estava completamente congelado. Deus, se estiver aí, por favor, ajude-me agora. Ajude-me a ser bravo... e a ter sorte. Bobby abriu a porta e entrou.

***

O cheiro de cerveja era muito mais forte e muito mais fresco, e o salão com os fliperamas piscou e ressonou. Onde anteriormente só Dee estivera jogando, parecia haver pelo menos duas dúzias de caras, todos fumando, usando camisas sem manga e aqueles chapéus sedutores de Frank Sinatra, todos com garrafas de Bud colocadas acima das máquinas. A área da mesa de Len Files estava mais clara do que antes porque havia mais luzes no bar (onde cada banquinho estava ocupado), bem como na sala de fliperamas. A própria sala de sinuca, que estivera escura em sua maior parte na quarta-feira, estava agora acesa como um teatro operante. Havia homens em cada mesa, inclinando-se, circulando e dando tacadas dentro de um nevoeiro azul de fumaça de cigarro; as cadeiras ao longo das paredes estavam todas ocupadas. Bobby podia ver o Velho Gee com os pés em cima dos apoios de engraxar, e... — Mas que porra você está fazendo aqui? Bobby se virou, assustado pela voz e chocado pelo som da palavra que saíra da boca de uma mulher. Era Alanna Files. A porta que dava para a sala de estar atrás da mesa estava se fechando atrás dela. Nesta noite, ela estava vestindo uma blusa de seda branca que deixava seus ombros à mostra — belos ombros, brancos e cremosos e tão redondos quanto os seios — e o topo de seu prodigioso peitoral. Abaixo da blusa branca estava o maior par de calças vermelhas que Bobby já vira. No dia anterior, Alanna fora gentil, sorridente... quase rira dele, na verdade, embora, de certo modo, Bobby não ligara. Nesta noite ela parecia assustada até a alma. — Desculpa... sei que não deveria estar aqui, mas preciso achar meu amigo Ted, e pensei... pensei que... — ele ouviu sua voz murchar como um balão que foi solto para voar ao redor da sala. Algo estava horrivelmente errado. Era como um sonho que às vezes tinha, onde ele estava em sua carteira, estudando gramática ou ciência, ou simplesmente lendo uma história, aí todos começavam a rir e ele percebia que havia se esquecido de vestir as calças antes de vir para a escola, ele estava sentado em sua carteira com tudo de fora para todo mundo ver, garotas, professores, todo mundo. O som das campainhas na sala de jogos não havia parado completamente, mas diminuíra. A torrente de conversas e risadas vinda do bar havia secado quase que inteiramente. O clique das bolas de sinuca havia parado. Bobby olhou em volta, sentindo aquelas cobras em seu estômago novamente. Nem todos estavam olhando para ele, mas a maioria estava. O Velho Gee espiava com olhos que pareciam buracos queimados em papel sujo. E embora a janela dentro da mente de Bobby estivesse quase opaca agora — embaçada — ele sentiu que várias pessoas ali meio que haviam estado esperando por ele. Ele duvidava que elas soubessem disso, e mesmo que soubessem, não saberiam o motivo. Eles estavam meio que adormecidos, como o povo de Midwich. Os homens baixos haviam estado ali. Os homens baixos... — Saia, Randy. — Alanna disse num pequeno sussurro seco. Em seu pânico ela chamara Bobby

pelo nome do pai dele. — Saia enquanto pode. O Velho Gee havia deslizado para fora de sua cadeira de engraxar. Sua jaqueta de linho amassada ficou presa em um dos pedestais e rasgou quando começou a avançar, mas ele não prestou atenção enquanto a linha de seda flutuava ao lado de seu joelho, como um paraquedas de brinquedo. Mais do que nunca seus olhos pareciam com buracos queimados. — Peguem. — o Velho Gee disse, numa voz agitada. — Peguem o garoto. Bobby vira o bastante. Não havia ajuda aqui. Ele desembestou pela porta e a abriu com violência. Atrás de si, teve a sensação de que pessoas haviam começado a se mover, mas lentamente. Muito lentamente. Bobby Garfield correu para dentro da noite.

***

Ele correu quase que dois blocos inteiros antes de uma fisgada na lateral de seu corpo o obrigar a diminuir o passo, e então parar. Ninguém o seguia e isso era bom, mas se Ted entrara no Bolso da Esquina para pegar seu dinheiro, ele estava acabado, feito, kaput. Não era apenas com os homens baixos com quem ele tinha que se preocupar; agora havia o Velho Gee e o resto deles para se preocupar também, e Ted não sabia disso. A pergunta era, o que Bobby poderia fazer a respeito disso? Ele olhou em volta e viu que as lojas haviam sumido; ele chegara a uma parte repleta de armazéns. Eles cresciam como rostos gigantes das quais a maioria das feições havia sido apagada. Havia um cheiro de peixe, serragem e odor vagamente podre que poderia ter sido de carne velha. Não havia nada que pudesse fazer. Ele era apenas uma criança e isto estava fora de suas mãos. Bobby percebeu isso, mas também percebeu que não poderia deixar Ted entrar no Bolso da Esquina sem, ao menos, tentar avisá-lo. Não havia nada de heroico nisto, tampouco; ele simplesmente não podia ir embora sem fazer um esforço. E fora sua mãe quem o colocara nesta posição. Sua própria mãe. — Eu te odeio, Mamãe. — sussurrou. Ele ainda estava com frio, mas suor brotava de seu corpo; cada centímetro de sua pele parecia úmido. — Não me importo com o que Don Biderman e aqueles outros caras fizeram com você, você é uma vaca e eu te odeio. Bobby se virou e começou a trotar de volta pelo caminho de onde viera, mantendo-se sob as sombras. Por duas vezes escutou pessoas se aproximando e se agachou perto das entradas dos armazéns, encolhendo-se até que passassem. Encolher- se era fácil. Ele nunca se sentira tão encolhido na vida.

***

Desta vez, ele virou e entrou no beco. Havia latas de lixo de um lado, e pilhas de caixas no outro, cheias de garrafas recicláveis que cheiravam a cerveja. Esta coluna de papelão era quinze centímetros mais alta do que Bobby, e quando ele se pôs atrás dela, ficou completamente escondido da rua. Uma vez, durante sua espera, algo quente e peludo se esfregou contra seu tornozelo e Bobby começou a gritar. Ele abafou a maior parte do grito, olhou para baixo e viu um gato vagabundo encarando-o de volta com olhos que pareciam lâmpadas verdes. — Dá no pé, zé. — Bobby sussurrou, e tentou chutá-lo. O gato revelou as agulhas que eram seus dentes, silvou, então voltou lentamente para o beco, desviando- se dos pedaços de lixo e cacos de vidro quebrado, sua cauda erguida no que parecia um ato de desdém. Através da parede de tijolos ao seu lado, Bobby conseguia ouvir a entorpecida pulsação da jukebox do Bolso da Esquina. Mickey e Sylvia cantavam “Love Is Strange”. O amor era estranho, pode crer. Um grande e estranho pé no saco. De seu esconderijo, Bobby já não conseguia mais ver o relógio do necrotério e perdera o senso de

quanto tempo passara. Para além do beco fedendo a cerveja e lixo, uma ópera urbana de verão acontecia. Pessoas gritavam umas com as outras, às vezes risonhas, às vezes irritadas — às vezes em inglês, às vezes em uma dúzia de outras línguas. Houve algumas explosões que o deixaram duro como pedra — tiros foi sua primeira ideia — e então ele reconheceu o som de bombinhas, provavelmente chumbinhos, e relaxou um pouco novamente. Carros passaram velozes, muitos deles com pinturas brilhantes, canos cromados e silenciosos. Uma vez ouviu o que parecia ser uma luta com uma multidão em volta encorajando os briguentos. Uma vez uma senhora que soava tão bêbada quanto triste passou cantando “Where the Boys Are” numa voz linda e pastosa. Uma vez sirenes de polícia se aproximaram e depois se afastaram. Bobby não dormiu, exatamente, mas caiu em uma espécie de transe. Ele e Ted moravam numa fazenda em algum lugar, talvez na Flórida. Eles trabalhavam por horas, mas Ted podia trabalhar muito para um velho, especialmente agora que deixara de fumar e possuía mais fôlego nos pulmões. Bobby ia para a escola com outro nome — Ralph Sullivan — e à noite eles se sentavam na varanda, comendo o que Ted houvesse cozinhado e bebendo chá gelado. Bobby lia o jornal para ele e quando iam para a cama, dormiam tão profundamente e seus sonhos eram tão pacíficos, nunca interrompidos por pesadelos. Quando fossem ao supermercado, às sextas-feiras, Bobby checaria o quadro de avisos, procurando cartazes de animais perdidos ou anúncios de vendas pendurados de cabeça para baixo, mas nunca acharia um. Os homens baixos teriam perdido a trilha de Ted. Ted já não mais seria o cão de ninguém e eles estariam seguros na fazenda. Não como pai e filho, ou avô neto, mas apenas como amigos. Caras como nós, Bobby pensou, sonolento. Ele agora estava encostado contra a parede de tijolos, sua cabeça caindo até que seu queixo tocasse o peito. Caras como nós, por que não haveria um lugar para caras como nós? Luzes banharam o beco. Toda vez que isto acontecia, Bobby se escondia atrás da pilha de caixas. Desta vez quase não o fez... queria fechar os olhos e pensar na fazenda, mas ele se obrigou a olhar e o que viu foi uma atarracada barbatana amarela de um táxi, acabando de parar no Bolso da Esquina. A adrenalina percorreu Bobby e acendeu luzes em sua cabeça que ele nem imaginava existir. Ele desviou das caixas, derrubando a duas do topo. Seu pé ficou preso em uma lata de lixo vazia e ele foi jogado contra a parede. Quase pisou numa coisa peluda que silvou furiosamente... o gato, novamente. Bobby o chutou para o lado e correu para fora do beco. Enquanto virava em direção ao Bolso da Esquina, pisou em um tipo de graxa nojenta e caiu sobre um joelho. Ele viu o relógio do necrotério em seu círculo azul e frio: 9h45. O táxi estava parado ao meio-fio, em frente à porta do Bolso da Esquina. Ted Brautigan encontrava-se sob o estandarte que dizia ENTRE, ESTÁ FRESCO AQUI DENTRO, pagando a corrida. Inclinado sobre a janela aberta do motorista daquele jeito, Ted pareceu mais com Boris Karloff do que nunca. Oposto ao táxi, estacionado em frente ao necrotério, estava um grande Oldsmobile, tão vermelho quanto as calças de Alanna. Ele não estivera ali antes, Bobby tinha certeza. Sua forma não era exatamente sólida. Vê-la fazia seus olhos quererem lacrimejar; fazia sua mente querer lacrimejar. Ted! Bobby tentou gritar, mas nenhum grito saiu, tudo o que pôde produzir foi um sussurro seco. Por que ele não os sente? Bobby pensou. Como ele não sabe? Talvez porque os homens baixos podiam bloqueá-lo de alguma forma. Ou talvez fossem as pessoas dentro do Bolso da Esquina que estivessem produzindo o bloqueio. O Velho Gee e os outros. Os homens baixos talvez houvessem os transformado em esponjas humanas, que poderiam absorver os sinais de aviso que Ted normalmente sentia. Mais luzes banharam a rua. Enquanto Ted se endireitava e o taxista ia embora, o DeSoto púrpuro apareceu na esquina. O taxista teve que guinar para o lado para desviar. Por trás dos faróis, o DeSoto

parecia um grande coágulo decorado em cromo e vidro. Seus faróis se moviam e brilhavam como luzes vistas debaixo d’água... e então eles piscaram. Não eram faróis, afinal. Eram olhos. Ted! Nada saiu, a não ser aquele sussurro seco. Bobby não conseguia ficar de pé. Um medo terrível, tão desorientador como uma gripe e tão arrasador quanto um cataclísmico caso de diarreia, o envolvia. Passar pelo DeSoto coagulante que estivera do lado de fora do Willian Penn já fora ruim; ser capturado por um de seus olhos-faróis era mil vezes pior. Não... um milhão de vezes pior. Ele sabia que havia rasgado a calça e que sangue brotava de seu joelho; ele podia ouvir Little Richard uivando pela janela de alguém acima, e ainda podia ver o círculo azul ao redor do relógio do necrotério, como um clarão de luz tatuado em sua retina, mas nada daquilo parecia real. A suja Avenida Narragansett subitamente não pareceu nada mais do que um pano de fundo mal pintado. Atrás dele, havia uma insuspeita realidade, e a realidade era sombria. O gradeado do DeSoto se movia. Estes carros não são de verdade, Juan dissera. Eles são outra coisa. Eles eram outra coisa, sim, pode apostar. — Ted... — um pouco mais alto desta vez... e Ted ouviu. Ele se virou para Bobby, os olhos se arregalando, e então o DeSoto avançou para o meio-fio, seus faróis instáveis e brilhantes inundando Ted, e fazendo sua sombra crescer como havia acontecido com a sombra de Bobby e das meninas Sigsby, quando a luz do poste do estacionamento da loja de Spicer acendera. Ted se virou para o DeSoto, levantando uma mão para proteger os olhos da claridade. Mais luzes varreram a rua. Desta vez foi um Cadillac vindo do distrito dos armazéns, cor de musgo verde, que parecia medir um quilômetro; um Cadilac com barbatanas como se fossem sorrisos e laterais que se moviam como lóbulos de pulmões. Subiu a calçada bem atrás de Bobby, parando a menos de trinta centímetros de suas costas. Bobby ouviu um baixo som de palpitação. O motor do Cadillac, ele percebeu, estava respirando. Portas se abriram em todos os três carros. Homens saíram... ou coisas que pareciam homens, à primeira vista. Bobby contou seis deles, depois oito e então parou de contar. Cada um deles vestia um longo casaco cor de mostarda... do tipo que chamavam de espanador... e na lapela direita de cada um havia o olho rubro vigilante que Bobby reconheceu de seu sonho. Ele supôs que os olhos rubros eram insígnias. As criaturas que as usavam eram... o quê? Policiais? Não. Um pelotão, como em um filme? Estava esquentando. Vigilantes? Era quase isso, mas não exatamente. Eles eram... Eles eram Justiceiros. Como naquele filme que eu e S-J vimos no Empire, ano passado, aquele com John Payne e Karen Steele. Era isso, oh, sim. Os Justiceiros no filme acabaram se revelando os vilões, mas primeiro você pensava que eram fantasmas ou monstros, ou coisa assim. Bobby achou que esses justiceiros eram monstros. Um deles pegou Bobby pelo braço. Bobby gemeu... o contato fora, provavelmente, a coisa mais horrível que já experimentara na vida. Fez parecer normal ser catapultado contra a parede por sua mãe. Ser tocado pelos homens baixos era como ser agarrado por uma garrafa de água quente com dedos... exceto que a sensação continuava a mudar. Pareciam dedos sob sua axila, então garras. Dedos... garras. Dedos... garras. Aquele indescritível toque aferroou sua carne, fechando-a por cima e por baixo. É a lança de Jack, ele pensou, loucamente. Aquela com ambas as pontas afiadas. Bobby foi empurrado contra Ted, que estava cercado pelos outros. Tropeçou nas pernas, que estavam fracas demais para andar. Ele realmente havia pensado que poderia avisar a Ted? Que eles poderiam correr juntos avenida abaixo, talvez até dando pulinhos, do jeito que Carol fazia? Isso era bem engraçado, não era?

Incrivelmente, Ted não parecia estar com medo. Ele permaneceu no semicírculo de homens baixos e a única emoção em seu rosto era preocupação com Bobby. A coisa que agarrava Bobby (agora com uma mão, agora com repugnantes dedos pulsantes, agora com garras afiadas) subitamente o largou. Bobby cambaleou. Um dos outros soltou um grito alto e o empurrou para o meio. Bobby voou e Ted o segurou. Chorando de terror, Bobby empurrou o rosto contra a camisa de Ted. Ele podia sentir o cheiro reconfortante dos cigarros de Ted e da loção pós-barba, mas eles não eram fortes o bastante para cobrir o fedor que vinha dos homens baixos (um aroma podre de carne), e um cheiro forte e inflamado de uísque que vinha de seus carros. Bobby olhou para cima, para Ted. — Foi minha mãe. — ele disse. — Foi minha mãe quem contou. — Não foi culpa dela, não importa o que pense. — Ted respondeu. — Eu simplesmente fiquei aqui por tempo demais. — Mas as férias foram boas, Ted? — um dos homens baixos perguntou. Sua voz possuía um zumbido horrível, como se suas cordas vocais estivessem infestadas de insetos, gafanhotos ou talvez grilos. Ele devia ser aquele com quem Bobby falara ao telefone, aquele que dissera que Ted era o cão deles... mas talvez todos eles soassem daquela maneira. Se não quiser ser nosso cão também, fique longe, o do telefone havia dito, mas ele viera até aqui de qualquer forma, e agora... oh, agora... — Não foram ruins. — Ted respondeu. — Espero que pelo menos tenha dado uma trepada. — outro disse. — Porque você provavelmente não terá outra chance. Bobby olhou em volta. Os homens baixos estavam ombro a ombro, cercando- os, encurralando-os com seu cheiro de suor e carne podre, bloqueando qualquer visão das ruas com seus casacos amarelos. A pele deles era escura, os olhos eram afundados, os lábios eram vermelhos (como se tivessem comido cerejas)... mas eles não eram o que pareciam. Não eram o que pareciam, mesmo. Seus rostos não estavam certos, para começar; suas bochechas, queixos e cabelos continuavam a tentar se espalhar para fora dos cantos certos (era o único jeito que Bobby conseguia interpretar o que via). Abaixo de suas peles escuras, havia camadas tão brancas quanto seus sapatos pontudos. Mas seus lábios continuavam vermelhos, Bobby pensou, seus lábios eram sempre vermelhos. E seus olhos eram sempre negros, não olhos de verdade, mas cavernas. E eles são tão altos, ele percebeu. Tão altos e magros. Não há pensamentos como os nossos em seus cérebros, não há sentimentos como os nossos em seus corações. Do outro lado da rua ecoou um grosso grunhido molhado. Bobby olhou naquela direção e viu que um dos pneus do Oldsmobile havia se transformado em um tentáculo cinza escuro. O tentáculo se moveu, pegou um pacote de cigarro no chão e o puxou. Um momento depois, o tentáculo era um pneu novamente, mas o pacote de cigarro despontava dele como algo que fora mastigado pela metade. — Pronto para voltar, meu chapa? — um dos homens baixos perguntou a Ted. Ele inclinou-se até Ted, as dobras de seu casaco farfalhando pesadamente. O olho rubro em sua lapela vigiava. — Pronto para voltar e cumprir seu trabalho? — Eu vou. — Ted respondeu. — Mas o menino fica aqui. Mais mãos caíram em Bobby, e algo como um galho vivo acariciou sua nuca. Isso desencadeou aquele zumbido novamente, algo que era tanto um alarme quanto uma doença. A coisa subiu até a sua cabeça como um enxame. Dentro desse louco zumbido, ele ouviu primeiro um sino, dobrando rapidamente, então vários. Um mundo de sinos em alguma terrível noite escura de ventos fortes e cálidos. Ele supôs que estivesse sentindo o lugar de onde os homens baixos haviam vindo; um lugar alienígena, a trilhões de quilômetros de Connecticut e de sua mãe. Vilas queimavam sob constelações desconhecidas, pessoas gritavam e aquele toque em sua nuca... aquele terrível toque...

Bobby gemeu e enterrou sua cabeça contra o peito de Ted, novamente. — Ele quer ficar com você. — uma voz indescritível cantarolou. — Eu acho que nós o levaremos, Ted. Ele não tem qualquer habilidade natural como um Sapador, mas ainda assim... todas as coisas servem ao Rei, você sabe disso. — os dedos indescritíveis o acariciaram novamente. — Todas as coisas servem ao Feixe. — Ted disse, numa voz seca, corrigindo-o. Sua voz de professor. — Não por muito tempo. — o homem baixo disse, e riu. O som afrouxou as tripas de Bobby. — Traga-o. — disse outra voz. Esta ostentava um timbre de comando. Todos eles soavam parecidos, mas era com este que ele havia falado ao telefone; Bobby tinha certeza. — Não! — Ted disse. Suas mãos se firmaram nas costas de Bobby. — Ele fica aqui! — Você quer nos dar ordens? — o homem baixo no comando perguntou a ele. — Como você ficou orgulhoso em seu pequeno período de liberdade, Ted! Quanta arrogância! Ainda assim você vai voltar para o mesmo quarto em que morou por tantos anos, com outros, e se eu digo que o menino vem, então o menino vem. — Se o trouxer, terá que me obrigar a fazer o que quer que eu faça. — Ted disse. Sua voz estava muito tranquila, mas forte. Bobby o abraçou o mais forte que pôde e fechou os olhos. Ele não queria olhar para os homens baixos, nunca mais. O pior de tudo era que o toque deles era como o de Ted, de certa forma: abria uma janela. Mas quem iria querer olhar através de tal janela? Quem iria querer vê-los altos, de bocas vermelhas, em forma de tesouras, do jeito que realmente eram? Quem iria querer ver o dono daquele olho rubro? — Você é um Sapador, Ted. Você foi feito para isso, nascido para isso. E se dissermos para você sapar, você irá sapar, por Deus. — Você pode me forçar, mas não sou tão tolo quanto pensa... mas se vocês deixarem ele aqui, eu darei o que tenho espontaneamente. E eu tenho mais para dar do que você poderia... bem, talvez você possa imaginar. — Quero o menino. — o homem baixo no comando disse, mas agora soava pensativo. Talvez até em dúvida. — Ele será um presente bonito para dar ao Rei. — Eu duvido que o Rei Rubro vá lhe agradecer por um presente bonito sem sentido, se isso vai interferir em seus planos. — Ted disse. — Há um pistoleiro... — Pistoleiro, bah! — Ainda assim, ele e seus amigos alcançaram a fronteira das Terras do Fim do Mundo. — Ted disse, e agora era ele quem soava pensativo. — Se eu der o que quer, ao invés de ser forçado a fazê-lo, poderei acelerar as coisas em cinquenta anos ou mais. Como você diz, sou um Sapador, feito e nascido para isso. Não há muitos de nós. Vocês precisam de cada um e, acima de tudo, precisam de mim. Porque eu sou o melhor. — Você se superestima... e subestima sua importância para o Rei. — É mesmo? Imagino. Até os Feixes quebrarem, a Torre Negra permanece... com certeza não preciso te lembrar disso. Será que um menino vale o risco? Bobby não tinha a mínima ideia do que Ted estava falando, e não se importava. Tudo o que sabia era que sua vida estava sendo decidida na calçada de um salão de sinuca, em Bridgeport. Ele podia ouvir o farfalhar das capas dos homens baixos; podia sentir o cheiro deles; agora que Ted o tocara novamente, podia sentilos ainda mais claramente. Aquela horrível coceira por trás dos olhos recomeçou também. De um jeito estranho, ela se harmonizou com o zumbido em sua cabeça. As manchas negras flutuavam em sua visão, e subitamente ele soube o que elas significavam, para que serviam. No livro O Anel ao Redor do Sol, de Clifford Simak, era o topo que te levava para outros mundos; você seguia as espirais ascendentes.

Na verdade, Bobby suspeitou, eram as manchas que faziam isso. As manchas negras. Elas estavam vivas... E elas estavam com fome. — Deixe o menino decidir. — o líder dos homens baixos disse, enfim. O galho vivo que era seu dedo acariciou a nuca de Bobby novamente. — Ele te ama tanto, Teddy. Você é o te-ka dele. Não é? Isso significa amigo do destino, Bobby-O. Não é o que esse velho urso Teddy, com cheiro de cigarro, é para você? Seu amigo do destino? Bobby não disse nada, apenas pressionou seu rosto frio e latejante contra a camisa de Ted. Ele agora estava arrependido de ter vindo, com todo o coração. Teria ficado em casa, escondido sob a cama, se soubesse a verdade sobre os homens baixos, mas sim, ele supôs que Ted fosse seu te-ka. Ele não tinha certeza quanto a parte do destino, era apenas uma criança, mas Ted era seu amigo. Caras como nós, Bobby pensou, angustiado, caras como nós. — Então, como se sente agora que você nos viu? — o homem baixo perguntou. — Gostaria de vir conosco para que você possa ficar perto do bom e velho Ted? Talvez vê-lo nos fins de semana? Discutir literatura com seu velho e querido te-ka? Aprender a comer o que comemos, beber o que bebemos? — os dedos horríveis de novo, o acariciaram. O zumbido na cabeça de Bobby aumentou. As manchas negras engordaram e agora elas pareciam dedos, dedos que acenavam. — Nós comemos coisas quentes, Bobby. — o homem baixo sussurrou. — E bebemos coisas quentes também. Quente... e doce. Quente... e doce. — Pare com isso. — Ted explodiu. — Ou prefere ficar aqui com sua mãe? — a voz que cantarolava continuou a ignorar Ted. — Com certeza, não. Não um menino com seus princípios. Não um menino que descobriu as alegrias da amizade e da literatura. Com certeza você vai querer vir com esse velho e enferrujado ka-mai, não vai? Ou não? Decida, Bobby. Decida agora e saiba que o que você decidir será seu destino. Agora e para sempre. Bobby teve uma delirante lembrança das cartas de verso vermelho correndo por baixo dos longos dedos brancos de McQuown: Aqui vão elas, estão parando, todas belas, descansando. O teste começou! Eu falhei, Bobby pensou. Eu falhei no teste. — Deixe-me ir, senhor. — disse, angustiado. — Por favor, não me levem. — Mesmo que isso signifique que seu te-ka tenha que ir sem sua maravilhosa e encantadora companhia? — a voz sorria, mas Bobby quase pôde experimentar o que havia daquela superfície de cereja, e tremeu. Sentiu-se aliviado, porque entendeu que provavelmente seria libertado, afinal de contas, e com vergonha, porque sabia o que estava fazendo; se escondendo, amarelando. Todas as coisas que os mocinhos dos filmes e livros que ele adorava não faziam. Mas os mocinhos nos filmes e livros nunca tiveram que encarar nada como os homens baixos em casacos amarelos, ou o horror das manchas negras. E o que Bobby viu destas coisas aqui, do lado de fora do Bolso da Esquina, não era o pior, tampouco. E se ele visse o resto? E se as manchas negras o sugassem para um mundo onde visse os homens baixos em casacos amarelos como eles realmente eram? E se ele visse as formas que habitavam o interior daquelas que eles usavam neste mundo? — Sim. — ele disse, e começou a chorar. — Sim, o quê? — Mesmo que ele vá sem mim. — Ah. E mesmo que isso signifique ter que voltar para sua mamãe? — Sim. — Agora você talvez entenda a vaca da sua mãe um pouco mais, não é? — Sim. — Bobby disse pela terceira vez. Agora ele quase gemia. — Eu acho que entendo.

— Basta. — Ted disse. — Pare. Mas a voz não iria parar. Ainda não. — Você aprendeu a como ser um covarde, Bobby... não foi? — Sim! — ele chorou, ainda com o rosto contra a camisa de Ted. — Um bebê, um franguinho medroso, sim, sim, sim! Eu não me importo! Só me deixem ir para casa! — ele inspirou um longo e instável fluxo, e soltou tudo num grito — EU QUERO A MINHA MÃE! — era o uivo de um pequeno apavorado que finalmente via a fera da água, a fera do ar. — Tudo bem! — o homem baixo disse. — Já que você pôs dessa maneira. Supondo que seu ursinho Teddy confirme que vai trabalhar com vontade, sem ter que ser acorrentado como antes ao seu remo. — Eu prometo. — Ted soltou Bobby. Bobby ficou onde estava, segurando Ted em pânico e firmemente, empurrando o seu rosto contra o peito dele, até que Ted o afastou gentilmente. — Entre no salão de sinuca, Bobby. Diga a Files para te dar uma carona até em casa. Diga que se ele fizer isso, meus amigos o deixarão em paz. — Sinto muito, Ted. Eu queria ir com você. Eu pretendia ir com você. Mas não posso. Sinto muito. — Você não deve ser tão duro consigo mesmo. — mas o olhar de Ted era pesado, como se ele soubesse que, desta noite em diante, Bobby jamais seria capaz de ser alguma coisa. Dois homens em casacos amarelos pegaram Ted pelos braços. Ted olhou para o que estava atrás de Bobby, o que estivera acariciando a nunca dele com seus dedos horríveis. — Eles não precisam fazer isso, Cam. Eu vou andando. — Soltem-no. — Cam disse. Os homens baixos soltaram Ted. Então, pela última vez, os dedos de Cam tocaram o pescoço de Bobby. Bobby gemeu em choque. Ele pensou, Se ele fizer isso novamente, vou enlouquecer, eu não vou poder evitar. Vou começar a gritar e não vou conseguir parar. Mesmo que minha cabeça exploda e rache ao meio, eu vou continuar a gritar. — Entre lá, garotinho. Vá, antes que eu mude de ideia. Bobby tropeçou em direção às escadarias do Bolso da Esquina. A porta ainda estava entreaberta, contudo vazia. Ele subiu um degrau, então se virou. Três homens baixos cercavam Ted, mas Ted caminhava para o DeSoto púrpuro por si mesmo. — Ted! Ted se virou, sorriu e começou a acenar. O homem baixo chamado Cam avançou, o segurou e o girou, empurrando-o para dentro do carro. Enquanto Cam fechava a porta traseira do DeSoto, Bobby viu, por um instante, um ser incrivelmente alto, incrivelmente magricela, lá dentro, usando um longo casaco amarelo, uma coisa com a pele tão branca como neve, e lábios tão vermelhos como sangue fresco. Dentro de seus globos oculares havia bestiais pontos de luz, e manchas dançantes de escuridão nas pupilas inchadas e contraídas, como as de Ted. Os lábios vermelhos descascaram, revelando dentes afiados que fariam vergonha ao gato do beco. Uma língua negra saiu pelo meio dos dentes e acenou em um obsceno adeus. A criatura de casaco amarelo correu ao redor do capô do DeSoto púrpuro, pernas finas rangendo. Joelhos finos pulsando e mergulhando atrás dos pneus. Do outro lado da rua, o Olds deu a partida, o motor soava como um rugido de um dragão desperto. Talvez fosse um dragão. Do lugar onde estava, enviesou metade para fora da calçada, o motor do Cadillac fez o mesmo. O DeSoto girou numa manobra em forma de U, uma parte do carro deixando uma breve trilha de faíscas na rua e, por um momento, Bobby viu o rosto de Ted na janela traseira do DeSoto. Bobby levantou a mão e acenou. Ele achou que Ted havia acenado em retorno, mas não pôde ter certeza. Uma vez mais sua cabeça se encheu de sons de cascos. Ele nunca mais viu Ted Brautigan novamente.



***

— Dê o fora, garoto. — Len Files disse. Seu rosto estava branco como cera, parecendo flácida em seu crânio como a carne flácida nos braços de sua irmã. Atrás deles, as luzes dos fliperamas piscavam sem ninguém para vê-las; os manda-chuvas que fizeram dos fliperamas uma especialidade noturna estavam todos atrás de Len Files, como um bando de crianças. À direita de Len, estava a mesa de sinuca e os jogadores, muitos deles agarrando os tacos como se fossem porretes. O Velho Gee estava ao lado da máquina de cigarros. Ele não tinha um taco; em uma mão retorcida segurava uma pequena pistola automática. Não assustou Bobby. Depois de Cam e seus amigos em casacos amarelos, ele achou que nada teria o poder de assustá-lo agora. No atual momento ele já estava completamente assustado. — Ponha as mãos no bolso e dê o fora, garoto. Agora. — É melhor fazer isso, rapazinho. — essa foi Alanna, atrás da mesa. Bobby a viu e pensou, Se eu fosse mais velho aposto que poderia te dar alguma coisa. Aposto que poderia. Ela viu seu olhar — a qualidade do olhar — e olhou para o outro lado, enrubescendo, assustada e confusa. Bobby olhou de volta para o irmão. — Você quer que aqueles caras voltem aqui? A cara flácida de Len cresceu ainda mais. — Você está brincando? — Certo, então. — Bobby disse. Dê-me o que eu quero e vou embora. Você nunca mais me verá. — ele pausou. — Ou eles. — O que ‘cê quer, garoto? — o Velho Gee disse, em sua voz oscilante. Bobby teria o que pedisse; isso estava piscando na mente do Velho Gee como uma grande e brilhante placa. Aquela mente estava tão clara agora como a que um dia pertencera ao Jovem Gee, fria, calculista e desagradável, mas parecia inocente depois de Cam e seus justiceiros. Inocente como um sorvete. — Uma carona para casa. — Bobby disse. — Esse é o número um. — Então, falando para o Velho Gee, ao invés de para Len, ele deu a eles o número dois.

***

O carro de Len era um Buick: grande, longo e novo. Vulgar, mas não baixo. Só um carro. Os dois viajaram ao som de bandas dançantes dos anos quarenta. Len falou apenas uma vez durante o trajeto até Harwich. — Não mude para rock. Já escuto o bastante dessa merda no trabalho. Eles passaram pelo Império Asher e Bobby viu que havia um cartaz em tamanho natural de Brigitte Bardot à esquerda da bilheteria. Ele olhou para ela sem muito interesse. Sentia-se velho demais para B.B. agora. Eles viraram na Asher, o Buick desceu até a ladeira da Rua Broad como um sussurro secreto. Bobby apontou para seu apartamento, que se encontrava aceso; quase todas as luzes estavam. Bobby olhou para o relógio no painel do Buick e viu que eram quase onze da noite. Enquanto o Buick encostava, Len Files achou sua língua novamente. — Quem eram eles, garoto? Quem eram aqueles sacripantas? Bobby quase sorriu. A frase o fez se recordar do fim dos episódios de O Cavaleiro Solitário, onde alguém quase sempre dizia Quem era aquele homem mascarado? — Homens baixos. — disse a Len. — Homens baixos em casacos amarelos.

— Eu não gostaria de ser seu amigo agora. — Não. — Bobby respondeu. Um arrepiou passou por ele como uma brisa. — Nem eu. Valeu pela carona. — Não tem por onde. Só fique longe do meu estabelecimento e das minhas verdinhas de agora em diante. Está banido para sempre. O Buick (um barco, um cruzador de Detroit, mas não baixo) se foi. Bobby ficou assistindo enquanto ele virou em uma rua do outro lado, então voltou para subir a ladeira, passando pelo apartamento de Carol. Quando desapareceu pela esquina, Bobby olhou para as estrelas, bilhões delas, uma ponte caída de luz. Estrelas e mais estrelas além delas, girando na escuridão. Há uma Torre, ele pensou. Ela segura tudo. Há Feixes que a protegem de alguma maneira. Há o Rei Rubro e os Sapadores trabalhando para destruir os Feixes... não porque os Sapadores querem, mas porque ELE quer que o façam. O Rei Rubro. Já estaria Ted junto dos outros Sapadores? Bobby pensou. De volta e remando? Sinto muito, ele pensou, começando a subir a varanda. Ele se recordou de sentar ali com Ted, lendo o jornal. Só uma dupla de caras. Eu queria ir com você, mas não pude. No fim eu não pude. Ele parou ao fim dos degraus, esperando escutar Bowser pela Rua Colônia. Mas não havia nada. Bowser estava dormindo. Era um milagre. Sorrindo languidamente, Bobby começou a se mover novamente. Sua mãe devia ter escutado o segundo degrau da varanda ranger alto, porque gritou seu nome, e então ele escutou o barulho de passos apressados. Ele havia alcançado a entrada quando a porta se abriu e ela atravessou, ainda vestindo as roupas que usava quando chegara de Providence. Seus cabelos estavam espalhados por sua face em emaranhados selvagens. — Bobby! — ela gritou. — Oh, Bobby! Graças a Deus! Graças a Deus! Ela correu até ele, girando-o e girando em alguma espécie de dança, suas lágrimas molhavam a lateral de seu rosto. — Eu não podia aceitar o dinheiro deles. — ela balbuciava. — Eles me ligaram de volta e pediram o endereço para poderem mandar o cheque, e eu disse para esquecerem, que era um engano... eu estava machucada e furiosa, eu disse não, Bobby, eu disse não, eu disse que não queria o dinheiro. Bobby viu que ela mentia. Alguém havia empurrado um envelope com o nome dela debaixo da porta de entrada. Não um cheque, mas três mil dólares em dinheiro. Três mil dólares para devolver seu melhor Sapador; simples três mil mangos. Eles eram mais pão-duros do que sua própria mãe. — Eu disse que não queria, você me ouviu? — ela disse, carregando-o para dentro do apartamento. Ele pesava quase cinquenta quilos, era pesado demais, mas ela o carregou assim mesmo. Enquanto ela balbuciava, Bobby percebeu que não teriam que se preocupar com a polícia, pelo menos; ela não os chamara. Pela maior parte do tempo, ela estivera aqui, sentada, mexendo em sua saia amassada e rezando incoerentemente para que ele voltasse para casa. Ela o amava. Isso se chocou contra sua mente como as asas de um pássaro preso num celeiro. Ela o amava. Isso não adiantava muito... mas ajudava um pouco. Mesmo se fosse uma armadilha, ajudava um pouco. — Disse que não queria, que não precisávamos, que poderiam ficar com o dinheiro. Eu disse que... eu disse a ele... — Que bom, mãe. — ele disse. — Que bom. Ponha-me no chão. — Onde você esteve? Você está bem? Está com fome? Ele respondeu todas as perguntas. — Sim, estou com fome, mas estou bem. Fui a Bridgeport. E consegui isso. Ele pôs a mão no bolso da calça e tirou o restante do dinheiro da bicicleta. As notas de um dólar e as moedas estavam misturadas em um maço bagunçado de notas de dez, vinte e cinquenta. Sua mãe olhou para o dinheiro enquanto ele caiu na mesinha ao lado do sofá, seu olho bom crescendo e crescendo, até que Bobby temeu que ele

pudesse escapulir para fora da órbita. O outro olho permaneceu fechado em sua inchada pele escura. Ela olhou para o dinheiro como um velho pirata espiando algum tesouro, uma imagem que Bobby poderia ter ficado sem ver... e uma que nunca saiu inteiramente de sua cabeça durante os quinze anos entre aquela noite e a noite da morte de sua mãe. Ainda assim, alguma nova e não particularmente agradável parte dele gostou daquela imagem, como a fazia parecer velha, feia e cômica, uma pessoa tão estúpida quanto avarenta. Essa é a minha mamãe, ele pensou, usando a voz de Jimmy Durante. Essa é minha mamãe. Ambos desistimos dele, mas eu paguei mais do que você, mamãe, não foi? Sim! Pode crer! — Bobby. — ela suspirou em uma voz trêmula. Ela parecia uma pirata e soava como uma vencedora no programa de Bill Cullen, O Preço Está Certo. — Oh, Bobby, é tanto dinheiro! De onde vem? — A aposta de Ted. — disse Bobby. — É o pagamento dele. — Mas, Ted... ele não vai... — Ele não vai mais precisar dele. Liz fez uma careta como se um de seus machucados de repente houvesse piorado. Então, ela começou a juntar o dinheiro, separando as notas ao fazê-lo. — Vou te comprar aquela bicicleta. — ela disse. Seus dedos se moviam com a velocidade e experiência de um homem como McQuown. Ninguém me vence neste movimento, Bobby pensou. Ninguém nunca me venceu com esse movimento. — É a primeira coisa que faremos pela manhã. Quando a Autoeste abrir. Depois nós iremos... — Eu não quero uma bicicleta. — ele disse. — Não comprada com esse dinheiro. E não de você. Ela congelou com a mão cheia de dinheiro, e ele sentiu a raiva dela crescer, algo vermelho e elétrico. — Nada de agradecimentos, não é? Eu fui uma tola de esperar algum. Maldito seja se não é a imagem cuspida de seu pai! — ela recolheu a mão com os dedos abertos. A diferença é que desta vez ele sabia o que estava por vir. Ela tentara ludibriá-lo pela última vez. — E como você saberia? — Bobby perguntou. — Você contou tantas mentiras sobre ele que nem mesmo se lembra das verdades. E era verdade. Ele havia vasculhado a mente dela e quase não havia Randall Garfield ali, apenas uma caixa com seu nome... seu nome e uma imagem apagada do que poderia ser qualquer homem. Essa era a caixa onde ela guardava as coisas que a machucavam. Ela não se lembrava de como ele gostava daquela música de Jo Stafford; não se lembrava (se é já soubera) que Randy Garfield era um homem realmente gentil, que seria capaz de oferecer a própria camisa que usava. Não havia espaço para essas coisas na caixa mental que ela guardava. Bobby achou que era horrível ela precisar de uma caixa como aquela. — Ele não pagava bebida para bêbados. — ele disse. — Sabia disso? — Do que está falando? — Você não pode me fazer odiá-lo... e você não pode me transformar nele. — ele fechou a mão em um punho e a ergueu ao lado da cabeça. — Eu não serei o fantasma dele. Conte a si mesma quantas mentiras quiser sobre as contas que ele não pagou e a apólice de seguro que ele perdeu, e todas as sequências interiores que ele tentou cobrir, mas não as diga para mim. Nunca mais. — Não levante a mão para mim, Bobby-O. Nunca levante a mão para mim. Em resposta, ele ergueu a outra mão, também fechada. — Venha. Quer me bater? Eu te acerto de volta. Você pode levar um pouco mais. Só que desta vez, você vai merecer. Venha. Ela vacilou. Ele podia sentir a raiva dela se dissipando tão rapidamente quanto surgira, e o que

tomou seu lugar foi uma terrível escuridão. Nela, ele viu, havia medo. Medo de seu filho, medo de que ele a machucasse. Não hoje, não, não com esses punhos de criança. Mas garotinhos cresciam. E ele era tão melhor do que ela que poderia lhe dar um sermão? Era melhor em qualquer jeito? Em sua mente, ele ouviu a indescritível voz que cantarolava, perguntando se queria ir para casa, mesmo que isso significasse que Ted iria sem ele. Sim, Bobby dissera. Mesmo que significasse voltar para a vaca da sua mãe? Sim, Bobby dissera. Você a entende um pouco melhor agora, não é? Cam perguntara e, mais uma vez, Bobby dissera sim. E quando ela reconheceu seus passos na varanda, a princípio nada surgira na mente dela, exceto amor e alívio. Aquelas coisas haviam sido reais. Bobby desfez os punhos. Ele se aproximou e pegou a mão dela, que ainda estava em posição de dar uma bofetada... embora sem muita convicção, agora. Ela resistiu no começo, mas Bobby enfim tirou a tensão dela. Ele a beijou. Olhou para a face espancada de sua mãe e beijou a mão dela novamente. Ele a conhecia tão bem, e não queria conhecê-la tanto. Sentiu-se ansioso para que a janela em sua mente fechasse, sentiu-se ansioso pela opacidade que fazia o amor não apenas parecer possível, mas necessário. Quanto menos se soubesse, em mais se poderia acreditar. — É só uma bicicleta e eu não a quero. — ele disse. — Está bem? É só uma bicicleta. — O que você quer? — ela perguntou. Sua voz estava incerta, triste. — O que quer de mim, Bobby. — Panquecas. — respondeu. — Muitas. — ele tentou sorrir. — Estou com taaanta fome. Ela fez panquecas o bastante para ambos e eles comeram o café da manhã à meia-noite, sentados em lados opostos na mesa. Ele insistiu em ajudá-la com os pratos, muito embora todos estivessem sujos. “E por que não?”, ele perguntou a ela. Não haveria escola no dia seguinte, ele poderia dormir tão tarde quanto quisesse. Enquanto a água escorria pelo cano e Bobby colocava o último talher no lugar, Bowser começou a latir na Rua Colônia: uou-uou-uou na escuridão de um novo dia. Os olhos de Bobby encontraram os de sua mãe, eles riram e, por um momento, souberam que tudo estava bem.

***

A princípio, deitou-se na cama do jeito que sempre fazia, de costas com os pés esticados até as pontas da cama, mas o jeito velho não parecia mais certo. Ele se sentia exposto, como se qualquer coisa que desejasse capturar um menino simplesmente pudesse sair do armário para rasgar sua barriga com uma garra. Ele rolou para o lado e imaginou onde Ted estaria agora. Ele tentou sentir Ted, mas não havia nada. Como também não houvera nada mais cedo, na suja Rua Narragansett. Bobby desejou poder chorar por Ted, mas não conseguiu. Ainda não. Do lado de fora, cruzando a escuridão como um sonho, o relógio da praça soou: um único bong. Bobby olhou para os ponteiros luminosos de seu próprio relógio de mesa e viu que eles estavam parados na primeira hora. Isso era bom. — Eles se foram. — Bobby disse. — Os homens baixos se foram. — mas ele dormiu com os joelhos encolhidos contra o peito. Suas noites de dormir estirado haviam terminado.

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Lobos e Leões. Bobby no Bastão. Oficial Raymer. Bobby e Carol. Tempos Ruins. Um Envelope.

SULLY-JOHN VOLTOU bronzeado do acampamento, com dez mil mordidas de mosquitos e um milhão de histórias para contar... só que Bobby não queria ouvi-las. Aquele fora o verão em que a velha amizade entre Bobby, Sully e Carol se despedaçou. Os três andavam até o Clube Sterling juntos algumas vezes; mas assim que lá chegavam, seguiam para atividades diferentes. Carol e suas amigas estavam inscritas nas atividades de raciocínio, softball e peteca. Bobby e Sully estavam inscritos para os Safáris Juniores e beisebol. Sully, cujas habilidades no esporte já estavam amadurecendo, evoluiu de Lobos para Leões. E quando todos os garotos iam nadar e caminhar juntos nos safáris, sentados na traseira de um velho caminhão do Clube Sterling, com suas roupas de banho e almoços em sacos de papel, S-J cada vez mais se sentava perto de Ronnie Olmquist e Duke Wendell, garotos com quem estivera no acampamento. Eles contavam as mesmas histórias sobre camas com lençóis curtos e sobre mandar as crianças menores em caçadas, até que Bobby estivesse entediado. Era de se pensar que Sully houvesse passado cinquenta anos no acampamento. No Quatro de Julho, os Lobos e Leões jogaram seu amistoso anual. Desde os quinze anos anteriores, após o fim da Segunda Guerra Mundial, os Lobos nunca haviam vencido os Leões, mas na partida de 1960, eles quase conseguiram (muito se devendo a Bobby Garfield). Ele conseguiu igualar o placar em 3 a 3 e mesmo sem sua luva Alvin Dark, deu um mergulho espetacular no centro do campo (levantando- se e ouvindo os aplausos, ele desejou que sua mãe, que não havia vindo ao feriado anual no Lago Canton, estivesse ali). A última rebatida de Bobby veio durante a última rodada de batidas dos Lobos. Eles estavam com dois a menos e um corredor na segunda base. Bobby direcionou a bola para parte esquerda do campo, e enquanto disparava pela primeira base, ouviu S-J gritar “Boa batida, Bob!” de sua posição de apanhador, atrás do home-plate. Foi uma boa batida, e ele deveria ter parado na segunda, satisfazendo-se com o tying-run, mas, ao invés disso, resolveu continuar correndo. Garotos menores de treze anos quase nunca conseguiam devolver a bola ao campo com precisão, mas, desta vez, Duke Wendell, o amigo de Sully, do Acampamento Winnie, lançou uma bola do lado esquerdo do campo para o outro amigo de Sully, Ronnie Olmquist. Bobby deslizou, mas sentiu as luvas de Ronny baterem em seu calcanhar um segundo antes que seu tênis tocasse no saco. — ESTÁ FOOOOORA! — gritou o árbitro, que havia corrido do home-plate para chegar no momento do lance. Nas arquibancadas, amigos e parentes dos Leões gritavam histericamente. Bobby levantou-se, olhando para o árbitro, um monitor do Clube Sterling de uns vinte anos com um apito e uma branca mancha de óxido de zinco no nariz. — Eu salvei! — Desculpe, Bob. — o rapaz disse, largando sua representação de árbitro e voltando a ser o monitor. — Foi uma bela tacada e uma grande rasteira, mas você está fora. — Não estava! Está trapaceando! Por que quer trapacear? — Expulse-o! — gritou o pai de alguém. — Não há lugar no jogo para um chorão desses! — Vá sentar, Bobby. — disse o monitor.

— Eu salvei! — Bobby berrou. — Salvo por um quilômetro! — ele apontou para o homem que havia pedido sua expulsão. — Ele te pagou para que você nos fizesse perder? Aquele gorducho ali? — Pare, Bobby. — disse o monitor. Como ele parecia idiota com seu apito e chapéu de árbitro de alguma fraternidade de faculdade. — Estou avisando. Ronnie Olmquist deu as costas, como se sentisse enojado pela discussão. Bobby o odiou também. — Você não é nada, só um ladrão. — Bobby disse. Ele conseguia segurar as lágrimas que brotavam no canto dos olhos, mas não o descontrole em sua voz. — Essa foi a última. — disse o monitor. — Vá sentar e esfriar. Você... — Chupa-rola trapaceiro. É isso o que você é. Uma mulher próxima à terceira base engasgou e virou-se para o lado. — Chega. — o monitor disse, numa voz desprovida de tom. — Fora. Agora. Bobby caminhou até metade das linhas que separavam a terceira e a quarta base, então se virou. — A propósito, um passarinho cagou no seu nariz. Acho que você é idiota demais para perceber isso. É melhor se lavar. Soou engraçado em sua cabeça, mas idiota quando saiu e ninguém riu. Sully estava indeciso no home-plate, grande como uma casa e sério como um ataque do coração, em seu esfrangalhado uniforme de apanhador. Sua máscara, remendada com fita adesiva, pendia em uma das mãos. Ele parecia envergonhado e furioso. Também parecia uma criança que nunca mais seria um Lobo. S-J estivera no Acampamento Winnie, tivera uma cama cujos lençóis eram curtos e ficara acordado até tarde, contando histórias de fantasmas ao redor da fogueira. Ele seria um Leão para sempre, e Bobby o odiou. — O que há com você? — Sully perguntou, enquanto Bobby caminhava lentamente. Ambos os bancos estavam em silêncio. Todas as crianças olhavam para ele. Todos os pais estavam olhando para ele também. Olhando como se ele fosse algo nojento. Bobby achou que provavelmente fosse. Apenas não pelas razões que eles pensavam. Adivinhe, S-J, talvez você tenha ido ao Acampamento Winnie, mas eu estive no Submundo. Bem no fundo dele. — Bobby? — Não há nada comigo. — ele disse, sem olhar para cima. — Quem se importa? Eu estou para me mudar para Massachusetts. Talvez haja menos trapaceiros escrotos por lá. — Ouça, cara... — Oh, cale a boca. — Bobby disse, sem olhar para ele. Ao invés disso, olhou para os tênis. Simplesmente olhou para os próprios tênis e continuou a andar.

***

Liz Garfield não fez amigos (Sou uma mariposa marrom, não uma borboleta social, ela às vezes dizia a Bobby), mas durante seus primeiros anos na Corretagem de Home Town, chegara a bons termos com uma mulher chamada Myra Calhoun. Na linguagem de Liz, ela e Myra eram iguais, marchavam sob o mesmo tambor, estavam ligadas na mesma estação, etc. e tal. Naquela época, Myra trabalhara como secretária de Don Biderman, e Liz fora a faz-tudo, atendendo agentes, organizando compromissos, levando o café, escrevendo correspondências. Myra deixara a agência abruptamente, sem muita explicação, em 1955. Liz fora promovida à sua vaga, como secretária do Sr. Biderman no começo de 1956. Liz e Myra continuaram a se falar, trocando cartões de férias e cartas ocasionais. Myra, a quem Liz chamava de “senhora dama”, havia se mudado para Massachusetts e abrira sua própria firma de

corretagem. Em junho de 1960, Liz escreveu para ela e perguntou se poderia ser sócia, com um pequeno papel para começar, é claro, na Soluções para Corretagem Calhoun. Ela tinha algum capital que podia trazer consigo; não era muito, mas também não era um cuspe no oceano. Talvez a Srta. Calhoun houvesse sido atropelada pelo mesmo rolo compressor que atingiu sua mãe, talvez não. O que importava é que ela havia concordado e até enviou um buquê de flores para sua mãe. Liz estivera feliz pela primeira vez em semanas. Talvez realmente feliz pela primeira vez em anos. O que importava é que eles iriam se mudar de Harwich para Danvers, Massachusetts. A viagem seria em agosto, então Liz tinha tempo de sobra para arranjar que seu Bobby-O, a nova versão quieta e malhumorada de seu Bobby-O, fosse para uma nova escola. O que também importava era que o Bobby-O de Liz Garfield tinha um pequeno assunto para resolver antes de deixar Harwich.

***

Ele era jovem e pequeno demais para fazer o que precisava de uma maneira mais direta. Ele precisaria ser cuidadoso e silencioso como uma cobra. Para Bobby, ser silencioso não era problema; ele não tinha muito mais interesse em agir como Audie Murphy ou Randolph Scott naqueles filmes de matinê aos sábados. Além disso, algumas pessoas precisavam ser emboscadas, para que sentissem na pele como era ser emboscado. O esconderijo que escolhera fora o pequeno bosque onde Carol o levara quando ele ficou meloso demais e começou a chorar; um lugar perfeito para esperar Harry Doolin, o velho Sr. Robin Hood. Harry havia conseguido um emprego como empacotador na Mercearia Total. Bobby soubera disso por semanas, ele o vira onde fazia compras com sua mãe. Bobby também vira Harry voltar para casa após seu expediente acabar às três. Normalmente, Harry estaria com um ou mais amigos. Richie O’Meara era seu parceiro mais comum; Willie Shearman parecia ter desistido da velha vida de Robin Hood, como Sully desistira da de Bobby. Mas sozinho ou acompanhado, Doolin sempre cortava caminho pelo Commonwealth Park para voltar para casa. Bobby passou a aparecer durante a tarde. Havia apenas jogos matinais agora, e estava bem quente, e pelas três da tarde, os campos A, B e C estavam desertos. Cedo ou tarde, Harry sairia do trabalho e passaria por estes campos desertos sem Richie ou 21

qualquer um de seus Homens Felizes para fazê-lo companhia. Enquanto isso, Bobby gastava o tempo entre as três e quatro horas no pequeno bosque onde havia chorado no colo de Carol. Algumas vezes lia um livro. Aquele sobre George e Lennie o fizera chorar. Caras como nós, que trabalham em ranchos, são os caras mais solitários do mundo. Era o que Georgie achava. Caras como nós não têm nada a esperar. Lennie achou que ambos conseguiriam uma fazenda e criariam coelhos, mas antes que pudesse terminar de ler a história, Bobby já sabia que não haveria fazenda ou coelhos para George e Lennie. Por quê? Porque as pessoas precisavam de feras para caçar. Elas achavam um Ralph ou um Porquinho, ou um grande e burro brutamonte como Lennie, depois se transformavam em homens baixos. Vestiam seus casacos amarelos, pegavam suas lanças afiadas em ambas as pontas e iam caçar. Mas caras como nós às vezes provam do próprio veneno, Bobby pensou, enquanto esperava pelo dia em que Harry apareceria só. Às vezes provam. Seis de agosto acabou sendo esse dia. Harry caminhava pelo parque pela esquina da Rua Broad com a Commonwealth, ainda usando o avental vermelho da Mercearia Total (mas que banana de merda), cantarolando “Mack the Knife”, em uma voz que soava como parafusos derretendo. Com cuidado para não esbarrar nos galhos baixos, Bobby colocou-se atrás dele e se aproximou, andando mansamente pelo

caminho, sem usar seu bastão de beisebol até que estivesse próximo o suficiente. Enquanto o erguia, pensou em Ted dizendo, Três garotos contra uma garotinha. Eles devem ter ficado com medo de você. Devem ter achado que você era uma leoa. Mas é claro que Carol não era uma leoa; tampouco ele. Era Sully quem era o leão e Sully não estivera lá. Aquele se esgueirando atrás de Doolin não era sequer um Lobo. Ele era apenas uma hiena, mas e daí? Por acaso Doolin merecia coisa melhor? Não, Bobby pensou, e desceu o bastão. Ele se chocou com o mesmo baque satisfatório que sentira no Lago Canton, enquanto corria pela terceira base após sua melhor batida, aquela no canto esquerdo do campo. Conectar o bastão às costas de Harry Doolin foi ainda melhor. Harry gritou pela dor e pela surpresa, caindo engatinhando. Quando ele rolou, Bobby acertou o bastão na perna dele, imediatamente. O golpe teve como destino, desta vez, o ponto logo abaixo do joelho esquerdo. Aaaaaah! Harry urrou. Era muito satisfatório ouvir Harry Doolin gritar; Aaaaaaaahhh, isso dói! Isso dóóóóói!; era quase um êxtase. Não posso deixá-lo se levantar, Bobby pensou, escolhendo o próximo alvo com um olhar frio. Ele tem o dobro do meu tamanho, se eu errar uma vez e deixá-lo se levantar, ele vai me partir ao meio. Porra, ele vai é me matar. Harry tentava fugir, escavando o caminho de cascalhos com o tênis, impulsionando- se com a bunda, engatinhando com os cotovelos. Bobby girou o bastão e o acertou no estômago. Harry perdeu o ar e seus cotovelos cederam sob suas costas. Seus olhos ficaram ofuscados com lágrimas causadas pela luz do sol. Suas espinhas se destacaram em grandes pontos vermelhos e púrpuros. Sua boca, fina e maliciosa no dia em que Rionda Hewson os resgatara, agora era dois pedaços de carne trêmula. Aaaaaaaaah, para, eu desisto, eu desisto, oh, Jesuuuuus! Ele não me reconhece, Bobby percebeu. O sol em seus olhos não o deixa saber quem é. Isso não era bom. Insatisfatório, rapazes! Era o que os monitores do Acampamento Winnie haviam dito após uma péssima inspeção de cabanas, Sully contara, não que Bobby se importasse com inspeções de cabanas; quem dava a mínima para inspeções de cabanas, afinal de contas? Mas ele dava a mínima para isso, de fato. Ele se inclinou para o rosto agonizante de Harry. — Lembra-se de mim, Robin Hood? — ele perguntou. — Lembra, não lembra? Eu sou o Bebê Xarope. Harry parou de gritar, encarou Bobby e finalmente o reconheceu. — Te... pegar... — ele conseguiu dizer. — Vai pegar o caralho. — Bobby disse, e quando Harry tentou agarrar seu calcanhar, ele o chutou nas costelas. Aaaaaiii! Harry Doolin gemeu, voltando à sua posição anterior. Isso provavelmente dói mais em mim do que em você, Bobby pensou. Chutar pessoas quando se está de tênis é coisa de covarde. Harry rolou. Enquanto tentava se pôr de pé, Bobby ensaiou uma tacada tipo home-run e dirigiu o bastão até o traseiro de Harry. O som que ele ouviu foi como uma batida num tapete, um som maravilhoso! A única coisa que poderia ter melhorado aquele momento era se ele também tivesse o Sr. Biderman esparramado no chão. Bobby sabia exatamente onde gostaria de bater nele. Mas metade de um desejo era melhor do que nenhum desejo. Ou pelo menos era o que a sua mãe dizia. — Essa é pela Bebê Gerber. — Bobby disse. Harry estava novamente estendido no chão, soluçando. Catarro escorria por seu nariz em filetes verdes. Com uma das mãos ele tentava provocar alguma sensação em sua bunda dormente.

As mãos de Bobby se firmaram no punho do bastão de novo. Ele queria erguê- lo e descê-lo uma última vez; não no queixo de Harry, ou em suas costas, mas em sua cabeça. Ele queria ouvir o barulho do crânio de Doolin rachando e, realmente, o mundo não seria muito melhor sem ele? Irlandezinho de merda. Pequeno... Calma, Bobby, falou a voz de Ted. Já é o bastante, então pare. Controle-se. — Toque ela de novo e eu te mato. — disse Bobby. — Toque em mim de novo e eu queimo sua casa até os alicerces. Banana de merda. Ele havia se agachado até bem perto de Harry para dizer isso. Bobby se levantou, olhou em volta e começou a andar. No momento em que entravam em cena as meninas gêmeas dos Sigsby, na metade da ladeira da Rua Broad, ele assobiava.

***

Pelos anos que se seguiram, Liz Garfield ficou quase acostumada a ver algum policial à sua porta. O primeiro que apareceu foi o Oficial Raymer, o policial gordo de Harwich que às vezes comprava amendoins para as crianças, no parque. Quando tocou a companhia do apartamento 149 do primeiro andar, na noite do dia seis de agosto, o Oficial Raymer não parecia feliz. Com ele estava Harry Doolin, que não iria poder sentar em uma cadeira normal por uma ou duas semanas, e sua mãe, Mary Doolin. Harry subiu os degraus da varanda como um velho, com as mãos plantadas na base das costas. Quando Liz abriu a porta, Bobby encontrava-se ao seu lado. Mary Doolin apontou para ele e disse, em voz alta: — É ele, o menino que espancou meu Harry! Prenda-o! Cumpra seu dever! — Do que se trata, George? — Liz perguntou. Por um momento, o Oficial Raymer não respondeu. Em vez disso, olhou de Bobby (um metro e sessenta, cinquenta quilos) para Harry (um metro e oitenta e cinco, noventa quilos). Seus largos olhos ficaram cobertos de dúvidas. Harry Doolin era burro, mas não tanto para não conseguir ler aquele olhar. — Ele me pegou de surpresa. Veio por trás. Raymer inclinou-se até Bobby, apoiando as mãos rachadas e vermelhas nos joelhos das calças de seu uniforme. — Harry Doolin diz que você o espancou enquanto ele voltava do trabalho. — Raymer pronunciou trabaliu. Bobby nunca se esqueceu disso. — Disse que você se escondeu e então pulou com um bastão de beisebol antes que ele pudesse se virar. O que você diz, rapazinho? Ele está dizendo a verdade? Bobby, nem um pouco estúpido, já havia considerado essa cena. Ele queria ter dito a Harry que o que estava pago estava pago, e o que estava feito estava feito; se Harry dedurasse Bobby a qualquer um sobre espancá-lo, então Bobby o deduraria em retorno, contando que Doolin e seus amigos haviam machucado Carol, o que iria parecer bem pior. O problema com isso é que os amigos de Harry iriam negar; seria a palavra de Carol contra a de Harry, Richie e Willie. Portanto, Bobby fora embora sem dizer nada. Esperando que a humilhação sofrida por Harry — ser atacado por um garoto com metade de seu tamanho — o faria ficar de boca fechada. Isso não aconteceu, e olhando para a cara estreita da Sra. Doolin, lábios descoloridos e olhos furiosos, Bobby entendeu o motivo. Ela o havia obrigado a falar. Arrancado dele, provavelmente. — Eu nunca toquei nele. — Bobby disse, e segurou firmemente seu olhar ao de Raymer enquanto dizia isso. Mary Doolin engasgou em choque. E até Harry, cujo verbo mentir devia ser seu lema de vida, pareceu surpreso.

— Oh, que mentiroso, cara de pau! — a Sra. Doolin choramingou. — Deixe- me falar com ele, Oficial! Eu vou arrancar a verdade dele, veja se não arranco! Ela avançou. Raymer a empurrou de volta com uma mão, sem levantar, ou sequer tirar seus olhos de Bobby. — Agora, rapaz... por que um brutamonte do tamanho de Harry Doolin diria uma coisa dessas sobre um tampinha como você se não fosse verdade? — Não chame meu menino de brutamonte! — ralhou a Sra. Doolin. — Já não basta ele ter sido espancado quase até a morte por esse covarde? Por que... — Cale a boca. — disse a mãe de Bobby. Era a primeira vez que ela falava desde que perguntara ao Oficial Raymer do que aquilo tudo se travava, e sua voz estava mortalmente tranquila. — Deixe-o responder a pergunta. — Ele ainda está furioso por causa do último inverno, é por isso. — Bobby disse a Raymer. — Ele e outros garotos grandes do St. Gabe me perseguiram pela ladeira. Harry escorregou no gelo, caiu e ficou todo molhado. Ele disse que me pegaria. Acho que ele pensa que esse é um bom jeito de fazê-lo. — Seu mentiroso. — Harry berrou. — Não era eu te perseguindo, era Billy Donahue! Seu... Ele parou, olhou em volta. Doolin havia revelado sua culpa, de algum modo; uma sombria apreciação do fato aparecia em seu rosto. — Não fui eu. — Bobby disse. Ele falou tranquilamente, mantendo contato com os olhos de Raymer. — Se eu tentasse bater num garoto desse tamanho, ele me ferraria. — Mentirosos vão para o inferno! — Mary Doolin gritou. — Onde estava por volta das três e meia desta tarde, Bobby? — Raymer perguntou. — Pode me responder isso? — Aqui. — Bobby disse. — Srta. Garfield? — Oh, sim. — ela disse, calmamente. — Bem aqui comigo a tarde toda. Eu esfreguei o chão da cozinha e Bobby limpou os rodapés. Estamos nos mudando e quero que o lugar esteja bonito quando sairmos. Bobby reclamou um pouco— como os garotos fazem—mas cumpriu sua tarefa. Depois disso, nós tomamos chá. — Mentirosa! — a Sra. Doolin choramingou. Harry parecia chocado. — Sua tremenda mentirosa! — ela avançou novamente, as mãos estendidas na direção do pescoço de Liz Garfield. Uma vez mais Oficial Raymer a empurrou sem lhe dar atenção, colocando um pouco mais de força desta vez. — Você jura que ele estava com você? — Oficial Raymer perguntou a Liz. — Juro. — Bobby, você nunca o tocou? Jura? — Juro. — Jura perante de Deus. — Juro perante de Deus. — Eu vou te pegar, Garfield. — Harry disse. — Vou dar um jeito nessa sua fuça verme... Raymer se virou tão subitamente que se sua mãe não o houvesse pegado por um cotovelo, Harry teria rolado varanda abaixo, machucando velhas feridas e abrindo novas. — Cale a matraca desse seu filho idiota. — Raymer disse, e quando a Sra. Doolin começou a falar, Raymer apontou para ela. — E cale a boca você também, Mary Doolin. Se quiser prestar queixa contra algum espancador, é melhor começar com seu maldito marido. Haveria mais testemunhas. A boca de Mary Doolin se abriu. Ela estava furiosa e envergonhada. Raymer abaixou a mão que estivera apontando, como se subitamente houvesse ganhado peso. Ele

olhou de Harry para Mary (nenhum deles cheio de graça) na varanda, para Bobby e Liz na entrada. Então, ele se afastou de todos os quatro, tirou seu boné, coçou a cabeça suada, e recolocou o chapéu. — Há algo de podre no reino da Dinamarca. — ele disse, enfim. — Alguém aqui está mentindo mais rápido do que um trote de cavalo. — Ele... — Você... — Harry e Bobby falaram juntos, mas o Oficial George Raymer não tinha interesse em ouvir nenhum deles. — Calados! — ele berrou, tão alto que chamou a atenção de um casal idoso que passava do outro lado da rua. — Eu estou declarando o caso fechado. Mas se houver mais problemas entre vocês dois... — disse, apontando para os meninos. — Ou vocês... — apontando para as mães — Alguém terá problemas. Uma palavra de aviso já basta. Harry, você vai apertar a mão do jovem Robert e dizer que está tudo bem? Vai fazer o que um homem faria? Ah, imaginei que não. O mundo é um lugar maldito e triste. Vamos, Doolins. Levarei vocês para casa. Bobby e sua mãe assistiram aos três descerem os degraus. O andar manco de Harry havia piorado ao ponto de parecer um marinheiro tonto. No pé da calçada, a Sra. Doolin subitamente o agarrou pela nuca. — Não piore as coisas, seu merdinha! — ela disse. Harry melhorou depois dessa, mas ainda ia de proa para estibordo. Para Bobby, o mancar residual do garoto parecia uma de suas obras. Provavelmente era obra sua. A última tacada, aquela no meio da bunda de Harry, fora uma grande porrada. De volta ao apartamento, falando com a mesma calma, Liz perguntou: — Ele era um dos meninos que machucou Carol? — Sim. — Acha que pode ficar longe dele até nos mudarmos? — Acho que sim. — Bom. — ela disse, e então o beijou. Ela raramente o beijava, e foi maravilhoso quando o fez.

***

Menos de uma semana antes de se mudarem—o apartamento começava a se encher de caixas de papelão e parecer estranhamente nu—Bobby encontrou Carol Gerber no parque. Ela caminhava sozinha para variar. Ele a vira caminhar várias vezes com suas amigas, mas não era assim que ele queria fazer. Agora Carol estava finalmente sozinha, e não foi até ela olhar por cima dos ombros que ele viu o medo em seus olhos, de que ele soubesse que ela o estivera evitando. — Bobby. — ela disse. — Como vai? — Não sei. — ele disse. — Bem, eu acho. Não tenho te visto ultimamente. — Você não vem até minha casa. — Não. — ele disse. — Não, eu... — O quê? Como ele deveria terminar a frase? — Eu tenho estado ocupado. — completou, idiotamente. — Oh. Aham. — Bobby podia ter aguentado ela ser fria com ele. O que ele não podia aguentar era o medo que ela estava tentando esconder. Medo dele. Como se ele fosse um cão que fosse mordê-la. Bobby pensou em uma louca imagem de si mesmo ficando de quatro e começando a latir. — Eu estou me mudando. — Sully me contou. Mas ele não sabia aonde exatamente. Acho que vocês não são tão próximos quanto costumavam ser. — Não. — Bobby respondeu. — Não como antes. Mas veja... — ele enfiou uma mão no bolso traseiro e tirou um pedaço de papel dobrado proveniente de seu caderno escolar. Carol olhou para o

papel, desconfiada, estendeu a mão para pegálo, então recuou. — É apenas meu endereço. — ele disse. — Nós vamos para Massachusetts. Uma cidade chamada Danvers. Bobby estendeu o papel dobrado, mas ela permaneceu sem pegá-lo e ele teve vontade de chorar. Ele recordou-se de estar no topo da roda gigante com ela e da sensação de estar por cima de um mundo iluminado. Ele recordou-se da toalha se abrindo como asas, pés girando, com dedos pequenos pintados de esmalte, e o cheiro do perfume. “She’s dancin’ to the drag, the cha-cha rag-a-mop”, Freddy Cannon cantara pelo radio na outra sala, e fora Carol, fora Carol o tempo todo. — Pensei que você pudesse escrever. — ele disse. — Provavelmente ficarei com saudades de casa nessa nova cidade e tudo mais. Carol pegou o papel finalmente e o colocou no bolso dos shorts sem olhá-lo. Ela provavelmente vai jogá-lo fora quando chegar em casa, Bobby pensou, mas não se importou. Ela pelo menos o pegara. Seria o bastante para se lembrar em tempos que precisasse levar sua mente para longe... e não tinha que haver nenhum homem baixo na vizinhança para que se precisasse fazer isso, ele descobrira. — Sully diz que você está diferente agora. Bobby não respondeu. — Várias pessoas dizem isso, na verdade. Bobby não respondeu. — Você bateu em Harry Doolin? — perguntou e pegou o pulso de Bobby com uma mão fria. — Bateu? Bobby lentamente assentiu. Carol jogou os braços ao redor de seu pescoço e o beijou com tanta força que seus dentes se chocaram. Suas bocas se separaram com um estalo audível. Bobby não beijou outra garota na boca por três anos... e nunca na vida ele teve uma que o beijasse daquele modo. — Bom! — ela disse, numa voz feroz e baixa. Era quase um uivo. — Bom! Então, ela correu na direção da Rua Broad, com suas pernas—bronzeadas pelo verão e raladas por vários jogos e caminhadas—à mostra. — Carol. — ele gritou por ela. — Espere! — ela correu. — Carol, eu te amo! Ela parou ao ouvir... ou talvez apenas houvesse alcançado a Avenida Commonwealth e precisasse ver o tráfego para atravessar. De qualquer forma, ela parou por um momento, de cabeça baixa, então olhou para trás. Seus olhos estavam bem abertos e seus lábios separados. — Carol! — Preciso ir para casa, tenho que fazer a salada. — ela disse, e correu dele. Ela correu pela rua e para fora de sua vida sem olhar para trás uma segunda vez. Talvez fosse melhor assim.

***

Ele e sua mãe se mudaram para Danvers. Bobby foi matriculado na Escola Elementar de Danvers, fez alguns amigos, e mais inimigos ainda. As brigas começaram e, não muito depois, as faltas na escola. Na seção de “Comentários” de seu primeiro boletim, a Sra. Rivers escreveu: Robert é um menino extremamente brilhante. Ele também é extremamente problemático. Pode vir me ver e conversar comigo sobre ele, Sra. Garfield? A Sra. Garfield foi, e a Sra. Garfield ajudou como pôde, mas havia tantas coisas das quais ela não podia falar: Providence, um certo cartaz de animal perdido, e de como ela conseguira dinheiro para começar um novo negócio e uma nova vida. Ambas as mulheres concordaram que Bobby estava sofrendo

por estar crescendo; que sentia saudades de sua velha cidade e de seus velhos amigos também. Ele eventualmente superaria seus problemas. Ele era cheio de potencial e brilhante demais para não fazê-lo. Liz prosperou em sua nova carreira como agente de corretagem. Bobby também foi muito bem em Inglês (conseguiu um A+ em um trabalho em que havia comparado Ratos e Homens, de Steinbeck, a Senhor das Moscas, de Golding), e foi mal no restante das matérias. Ele começou a fumar cigarros. Carol escrevia para ele de vez em quando — notas hesitantes, quase tímidas, em que contava sobre a escola, amigos e uma viagem de fim de semana para Nova York com Rionda. Anexado à outra que chegou em março de 1961 (suas cartas sempre vinham em papéis de bordas irregulares, com ursinhos dançantes nas laterais) havia um P.S. frio: Acho que meus pais vão se separar. Ele se inscreveu para outra ‘viagem’ e tudo o que minha mãe faz é chorar. Mas na maioria das vezes, contudo, ela falava sobre coisas leves: que estava aprendendo a dar piruetas, que havia ganhado um belo par de patins de gelo no aniversário, que ainda achava que Fabian era uma gracinha, muito embora Yvonne e Tina discordassem, que ela fora a uma festa twist e dançara todas as músicas. Ao abrir cada uma das cartas delas, Bobby pensava, Esta é a última. Eu nunca mais vou ouvir falar dela. Crianças não escrevem cartas por muito tempo, mesmo que tenham prometido. Há muitas coisas novas vindo pelo caminho. O tempo passa tão rápido. Tão rápido. Ela vai me esquecer. Mas ele não colaboraria para que isso acontecesse. Após ler cada carta dela, ele se sentava para escrever uma resposta. Ele contou a ela sobre a casa em Brookline que sua mãe vendera por vinte e cinco mil dólares — seis meses de salário no velho emprego dela em um único pagamento. Ele contou-lhe sobre o A+ na prova de Inglês. Contou sobre seu amigo Morrie, que estava lhe ensinando a jogar xadrez. Ele não contou que, às vezes, ele e seu amigo Morrie saíam em expedições para quebrar janelas, pedalar suas bicicletas (Bobby finalmente juntara o bastante para comprar uma) o mais rápido que pudessem pelos velhos apartamentos decrépitos da Rua Plymouth, atirando pedras de suas cestas enquanto passavam. Ele pulou a parte de como dissera ao Sr. Hurley, diretor assistente da Escola Elementar de Denvers, para beijar sua bunda rosada, e de como o Sr. Hurley respondera com um tapa em sua cara, chamando-o de garotinho insolente e irritante. Ele não confidenciou a ela que começara a furtar de lojas, ou que ficara bêbado em quatro ou cinco ocasiões (uma vez com Morrie, as outras sozinho) ou que algumas vezes havia caminhado por cima dos trilhos do trem, perguntando-se se ser atropelado pelo Expresso de South Shore seria o modo mais rápido de ir. O cheiro de diesel, uma sombra caindo sobre seu rosto, e então plof. Ou talvez não fosse tão rápido assim. Em cada carta que escrevia a Carol, ele terminava da mesma maneira:

Sinto muita saudade Seu amigo, Bobby

Semanas passariam sem que houvesse cartas — não para ele — e então chegaria outro envelope com corações e ursinhos desenhados na traseira, outro pedaço de papel com as bordas irregulares, mais relatos sobre patins, piruetas, novos sapatos e de como ela ainda tinha dificuldades com frações. As cartas iam cada vez mais tomando aparência de um suspiro esforçado de um ente querido cuja morte agora parece ser inevitável. Um último suspiro. Até mesmo Sully-John lhe escreveu algumas cartas. Elas pararam no começo de 1961, mas Bobby ficou surpreso e comovido com o fato de que Sully ao menos havia tentado. Ao ler a caligrafia infantil e os erros gramaticais dolorosos, Bobby pôde distinguir um adolescente de bom coração que faria esportes e amor com líderes de torcida com igual alegria, um rapaz que se perderia nos matagais das pontuações

tão facilmente quanto atravessaria a zaga de uma equipe adversária no futebol. Bobby achou que podia ver o homem que esperava por Sully nas décadas de setenta e oitenta, esperando-o no caminho como se esperasse por um táxi: um vendedor de automóveis que eventualmente seria dono de sua própria concessionária. A loja se chamaria John Honesto, é claro; a Concessionária Harwich Chevrolet do John Honesto. Ele possuiria uma grande pança sobre o cinto e várias plaquinhas na parede de seu escritório, seria técnico de times juvenis e começaria cada treino com Escutem, rapazes, e iria à igreja, marcharia em paradas, faria parte do conselho da cidade e tudo mais. Seria uma boa vida, Bobby analisou — a fazenda e os coelhos, em vez da lança com ambas as pontas afiadas. A lança, entretanto esperava por Sully, afinal; ela esperava na Província de Dong Ha, junto à velha mamasan, aquela que nunca desapareceria completamente.

***

Bobby tinha catorze anos quando o policial o flagrou saindo de uma loja de conveniência com duas grades de cerveja (Narragansett) e três maços de cigarros (Chesterfields, naturalmente; vinte e um grandes tabacos fazem vinte maravilhosas tragadas). Este era o policial loiro d’A Vila dos Amaldiçoados. Bobby contou ao policial que não invadira, que a porta traseira estivera aberta e que ele simplesmente entrara, mas quando o policial iluminou a tranca com sua lanterna, viu que ela pendia torta na velha madeira, quase arrancada. E quanto a isto? o policial perguntou, e Bobby deu de ombros. Sentado dentro da viatura (o policial deixara Bobby sentar na frente com ele, mas não acender um cigarro), o policial começou a preencher um formulário numa prancheta. Ele perguntou ao garoto magricela e carrancudo ao seu lado qual era seu nome. Ralph, Bobby dissera. Ralph Garfield. Mas quanto pararam em frente à casa onde vivia com sua mãe agora — uma casa inteira, com escadas que davam para cima e para baixo, os tempos eram bons — ele contou ao policial que havia mentido. — Meu nome de verdade é Jack. — ele disse. — Oh, é mesmo? — o policial loiro d’A Vila dos Amaldiçoados disse. — Sim. — Bobby disse, assentindo. — Jack Merridew Garfield. Sou eu.

***

As cartas de Carol pararam de chegar em 1963, ano em que Bobby foi expulso da escola pela primeira vez, e também o ano de sua primeira visita ao Reformatório Juvenil de Massachusetts, em Bedford. O motivo de sua visita foi a posse de cinco cigarros de maconha, aos quais Bobby e seus amigos chamavam de palitos da felicidade. Bobby foi sentenciado a cumprir noventa dias, sendo o último terço da pena perdoado por bom comportamento. Ele leu muitos livros. Alguns dos outros garotos o chamavam de Professor. Bobby não se importava. Quando saiu do Reformatório Bedfode, o Oficial Grandelle veio e perguntou a Bobby se ele estava pronto para se aprumar e voar pela rota certa. Bobby disse que estava, que havia aprendido a lição e, por um tempo, isso pareceu ser verdade. Então, no outono de 1964, Bobby espancou um garoto com tanta força que ele precisou ser levado ao hospital, e houve dúvidas se algum dia ele se recuperaria completamente. O garoto não queria dar seu violão a Bobby, então Bobby o espancou e tomou o instrumento. Bobby tocava o violão (não muito bem) em seu quarto quando foi preso. Ele contara a Liz que havia comprado o violão, um acústico Silvertone, numa loja de penhores. Liz permanecia chorando no umbral de sua residência enquanto o Oficial Grandelle levava Bobby até a viatura estacionada ao meio-fio.

— Eu vou lavar minhas mãos para você, se não parar! — ela choramingou atrás dele. — Eu estou falando sério! — Lave-as. — ele respondeu, entrando na traseira. — Vá em frente, mãe, lave-as agora e poupe seu tempo. Dirigindo pelo centro da cidade, o Oficial Grandelle disse: — Achei que você fosse se aprumar e voar pela rota certa, Bobby. — Eu também. — Bobby disse. Dessa vez, ele ficou em Bedfode por seis meses.

***

Quando foi solto, ele descontou o dinheiro do vale-transporte e pediu carona até sua casa. Ao entrar, sua mãe não veio lhe recepcionar. — Você recebeu uma carta. — ela disse, de seu quarto escuro. — Está em cima de sua mesa. O coração de Bobby começou a bater com força contra suas costelas assim que ele viu o envelope. Os corações e os ursinhos haviam sumido — ela estava velha demais para essas coisas agora — mas ele reconheceu a caligrafia de Carol imediatamente. Ele pegou a carta e a abriu. Dentro, havia uma única folha de papel — com as bordas irregulares — e outro envelope bem menor. Bobby leu a nota de Carol, a última que recebeu dela, rapidamente.

Caro Bobby, Como está? Eu estou bem. Você recebeu algo de seu velho amigo, aquele que consertou meu braço daquela vez. O envelope chegou a mim porque acho que ele não sabia onde você estava. Ele enviou uma nota me pedindo para mandá-lo junto. Então estou mandando. Diga oi para sua mãe. Carol

Nada de aventuras sobre piruetas. Nada de atualizações sobre como ela estava se saindo em matemática. Nada sobre namorados, tampouco, mas Bobby imaginou que ela já tivesse tido alguns. Ele pegou o envelope selado com as mãos que tremiam e estavam dormentes. Seu coração batia mais forte do que nunca. Na frente, escrita com um lápis leve, estava uma única palavra: seu nome. Na caligrafia de Ted. Ele o abriu imediatamente. Com a boca seca, inconsciente de que seus olhos começavam a marejar, Bobby rasgou o envelope, que não era maior do que aqueles que crianças da primeira série enviavam no Dia dos Namorados, para abri-lo. O que saiu primeiro foi o cheiro mais doce que Bobby já havia experimentado. O cheiro o fez pensar nos abraços que ele dava em sua mãe quando era menor, o odor de seu perfume, do desodorante e do produto que ela passava no cabelo; o cheiro o fez pensar no odor estival do Parque Commonwealth; o cheiro o fez pensar no odor das estantes da Biblioteca de Harwich, concentrado, turvo e, de algum modo, explosivo. As lágrimas em seus olhos transbordaram e começaram a descer por suas bochechas. Ele havia se acostumado a se sentir velho; mas se sentir jovem novamente — sabendo que poderia se sentir jovem novamente — fora um choque terrivelmente desorientador. Não havia carta, nenhuma nota ou escrita de qualquer natureza. Quando Bobby virou o envelope, o que choveu na superfície de sua mesa foram pétalas de rosa do mais profundo e escuro vermelho que ele já havia visto. Sangue de coração, pensou, exaltado sem saber o porquê. Subitamente, pela primeira vez em anos, ele se lembrou de como levar a mente para longe, de como podia colocá-la em liberdade. E mesmo enquanto pensava nisso, ele sentiu seus pensamentos flutuarem. As pétalas de rosa brilhavam na

superfície castigada de sua mesa como rubis, como uma luz secreta lançada pelo coração secreto do mundo. Não apenas um mundo, Bobby pensou. Não apenas um. Há outros mundos além deste, milhões de mundos, todos girando no eixo da Torre. E então, ele compreendeu: Ele fugiu deles novamente. Ele está livre de novo. As pétalas não deixavam espaço para dúvidas. Eram todos os “sins” que alguém podia querer; todos os “você podes” e “você deves”, todos os “é verdades”. Aqui vão elas, estão parando, Bobby pensou, sabendo que havia ouvido tais palavras antes, sem lembrar onde ou o porquê de terem voltado à sua mente agora. Sem se importar, tampouco. Ted estava livre. Não neste mundo e tempo, desta vez ele havia corrido para a outra direção... mas em algum mundo. Bobby apanhou as pétalas, cada uma parecendo uma moedinha de seda e as aninhou numa conchinha feita com as mãos, como palmas repletas de sangue. Então, levou-as ao rosto. Ele poderia ter se afogado na doce fragrância delas. Ted estava nelas, Ted claro como o dia com seu jeito engraçado de andar, seu cabelo ralo como de um bebê, e as manchas amarelas de nicotina tatuadas nos dois primeiros dedos de sua mão direita. Ted com suas sacolas de compra com alças. Como no dia em que punira Harry Doolin por machucar Carol, ele ouviu a voz de Ted. Na época, achara que fora sua imaginação. Desta vez, Bobby entendeu que fora real, como aquilo que fora injetado nas pétalas de rosa e deixado para ele. Calma, Bobby. Já é o bastante, então pare. Controle-se. Ele sentou-se em sua mesa por um longo tempo com as pétalas de rosa pressionadas contra o rosto. Por fim, cautelosamente, para não perder nenhuma, ele as colocou de volta no pequeno envelope, e dobrou seu topo rasgado. Ele está livre. Ele está... em algum lugar. E ele se lembrou. — Ele se lembrou de mim. — Bobby disse. — Ele se lembrou de mim. Bobby se levantou, foi até a cozinha e começou a preparar chá. Depois, foi até o quarto de sua mãe. Ela estava deitada na cama, usando roupas leves e com os pés para cima, e ele pôde ver que ela começava a parecer velha. Ela virou o rosto para o outro lado quando ele se sentou ao seu lado, um menino agora quase tão grande quanto um homem, mas deixou que ele tomasse sua mão. Ele a segurou e a acariciou, esperando pela chaleira apitar. Depois de um tempo, ela se virou para ele. — Oh, Bobby. Nós estragamos tantas coisas, você e eu. O que vamos fazer? — O melhor que pudermos. — ele disse, ainda acariciando a mão. Ele a levou até os lábios e beijou a palma, onde a linha da vida e a do coração se entrelaçavam brevemente antes de se apartarem novamente. — O melhor que pudermos.



Rita Hayworth e a Redenção de Shawshank

(do livro Quatro Estações)

Introdução de Stephen King

Ficção escrita e ficção filmada diferem em um aspecto fundamental: a primeira é quase sempre obra de uma mente solitária, a segunda é um esforço em colaboração forjado por muitos, do diretor ao desenhista de figurino ao decorador de sets. Mesmo os editores de som (que adicionam qualquer coisa, de sons de passos a latidos de cães e barulhos de grilos) fazem sua parte. É uma maravilha que qualquer adaptação cinematográfica funcione. E quando funcionam, é normalmente por causa de uma única mente criativa que secretamente junta todas as outras mentes para alcançar um objetivo claro. E não dói se a obra original é relativamente curta, onde os elementos da trama são comprimidos. A mente criativa no caso de Um Sonho de Liberdade foi Frank Darabont. Eu concedi os direitos de filmagem a ele; estávamos apenas nós dois, sem nenhum produtor no caminho, passando dólares e acordos. Quando Frank me mandou o roteiro original, ele tinha mais de cento e trinta páginas — um tamanho épico — e era incrivelmente fiel à minha história. Eu terminei de ler com uma triste risada, pensando “É maravilhoso... mas ninguém vai querer filmá-lo. Ora bolas, nada sequer explode nessa história”. Mas graças à Castle Rock (que obteve sucesso com Conta Comigo; na verdade, a produtora de Rob Reiner foi batizada em homenagem à minha cidade de mentirinha, presente no ocidente do Maine), o filme foi feito, e o resultado final é uma realização fiel do roteiro original de Frank, quase página por página. O filme — a princípio — não foi bem sucedido nas bilheterias. Parte do motivo pode ter sido o título, que não informava nada e não provocava a imaginação do público. Infelizmente, ninguém conseguia pensar num título melhor, e isso inclui a mim mesmo; eu nunca gostei do título da minha própria história, e não gosto até hoje. A parte do “Rita Hayworth” ajuda um pouco, mas ainda é esquisito... e eu me considero muito bom em inventar títulos (e não liguem para os críticos espertinhos que apontaram que “It” não rima com “Shit” à toa). De qualquer forma, o filme eventualmente encontrou seu público. E como encontrou! Ele agora aparece comumente em listas dos filmes mais amados de todos os tempos. Se eu o amo também? Sim. A história tinha coração; o filme tem mais. Frank Darabont, que manteve as rédeas firmes nas mãos ao insistir em dirigir o próprio roteiro, é um dos melhores seres humanos do universo. Essa bondade brilha aqui. Eu nunca gostei da parte do “Casamento de Figaro” no filme (não existe na história), mas tudo mais simplesmente brilha. A história é dura quando tem que ser, cheia de sentimento sem ser sentimental, e é o melhor exemplo de como um filme pode mostrar como homens podem se amar, e como eles sobrevivem. Existe um cara como eu em toda prisão estadual e federal da América, eu acho — eu sou o cara que pode conseguir as coisas para você. Cigarros feitos à mão, um baseado se você aprecia uma garrafa de conhaque para comemorar a formatura de segundo grau de seu filho ou sua filha, ou quase qualquer outra coisa... isto é, qualquer coisa dentro dos limites da razão. Nem sempre foi assim. Vim para Shawshank quando tinha apenas vinte anos, e sou um dos poucos membros de nossa pequena família feliz disposto a confessar o que fez. Cometi um assassinato. Fiz uma grande apólice de seguros para minha mulher, três anos mais velha do que eu, e depois mexi no freio do Chevrolet esporte que o pai dela nos dera de presente de casamento. Saiu tudo exatamente como eu tinha planejado, menos que ela fosse parar para dar uma carona à vizinha e seu bebê no caminho para a cidade de Castle Hill. O freio partiu, e o carro, ganhando velocidade, entrou pelos arbustos à beira da praça. Testemunhas disseram que devia estar a oitenta por hora ou mais quando se chocou contra a base da estátua da Guerra Civil e explodiu em chamas. Também não tinha planejado ser preso, mas fui. Ganhei uma entrada gratuita para uma temporada

neste lugar. No Maine não há pena de morte, mas o Promotor Público fez com que eu fosse julgado pelas três mortes e recebesse três penas de prisão perpétua para cumprir uma depois da outra. Isso adiava minhas chances de receber liberdade condicional por muito, muito tempo. O juiz chamou o que fiz de "um crime bárbaro, abominável", e foi, mas agora faz parte do passado. Vocês podem procurar nos arquivos amarelados do Call de Castle Rock onde as manchetes enormes anunciando minha condenação parecem meio estranhas e antiquadas junto às notícias sobre Hitler, Mussolini e a sopa de letrinhas de agências de Franklin Delano Roosevelt. Vocês perguntam se me reabilitei? Nem sei o que quer dizer essa palavra, a nível de riso e castigos. Acho que é palavra de político. Pode ter algum outro significado e pode ser que eu venha a ter uma chance de descobrir, mas isso faz parte do futuro... uma coisa sobre a qual os presos aprendem a não pensar. Eu era jovem, bonito e da zona pobre da cidade. Engravidei uma garota bonita, mal-humorada e voluntariosa que morava numa das casas bonitas e antigas da Carbine Street. Seu pai era a favor do casamento se eu me empregasse na companhia de ótica que ele possuía e “subisse na vida”. Descobri que o que queria realmente era manter-me sob seu teto e seu domínio, como um cachorrinho temperamental que ainda não foi bem domesticado e pode morder. Tanto ódio acumulado finalmente me levou a fazer o que fiz. Se tivesse uma segunda chance não faria de novo, mas não tenho certeza que isso signifique dizer que me reabilitei. De qualquer maneira não é sobre mim que quero falar; quero lhes falar sobre um cara chamado Andy Dufresne. Mas antes de poder falar sobre Andy, preciso explicar algumas outras coisas a meu respeito. Não vai demorar. Como disse antes, sou o cara que consegue as coisas aqui em Shawshank há quase quarenta anos. E não são só artigos de contrabando como cigarros especiais e bebidas, embora esses artigos sempre encabecem a lista. Mas já consegui milhares de outros artigos para os homens que cumprem suas penas aqui, alguns dos quais perfeitamente legais embora difíceis de conseguir num lugar onde você veio para ser punido. Havia um camarada que veio para cá por estuprar uma menina e exibirse para uma dúzia de outras; consegui para ele três peças de mármore rosa de Vermont com as quais fez três esculturas lindas — um bebê, um garoto de doze anos e um rapaz barbado. Chamou-as de As Três Idades de Jesus e estão agora na sala de visitas de um homem que foi governador deste estado. Um nome do qual vocês devem lembrar se cresceram no norte de Massachusetts é Robert Alan Cote. Em 1951, ele tentou assaltar o First Mercantile Bank de Mechanic Falls, e a tentativa acabou numa chacina — seis mortos, dois deles membros da quadrilha, três reféns e um jovem policial que levantou a cabeça na hora errada e levou uma bala no olho. Cote tinha uma coleção de moedas. Claro que não iam deixar que ficasse com ela aqui, mas com uma ajudazinha de sua mãe e de um intermediário que dirigia o caminhão da lavanderia pude consegui-la para ele. Eu lhe disse, “Bobby você deve estar maluco de querer ter uma coleção de moedas neste 'hotel' cheio de ladrões”. Ele me olhou, sorriu e disse: “Sei onde guardar. Ficará em lugar seguro. Não se preocupe”. E ele estava certo. Bobby Cote morreu de tumor cerebral em 1967, mas aquela coleção nunca apareceu. Já consegui chocolates para os detentos no Dia dos Namorados; consegui três daqueles milkshakes verdes que o McDonald’s serve no dia de São Patrício para um irlandês maluco chamado O'Malley; consegui até uma sessão da meia-noite de Garganta Profunda e O Diabo e Miss Jones para um grupo de vinte homens que fizeram uma “vaquinha” para alugar os filmes... embora tenha acabado passando uma semana na solitária por aquela pequena travessura. É o risco que se corre quando se é o cara que arranja as coisas. Já consegui livros de referência e livros de sacanagem, novidades engraçadas como aparelhinhos para dar choque quando se aperta a mão de alguém, pó de mico, e mais de uma vez consegui para os

“perpétuos” calcinhas de suas esposas ou namoradas... e imagino que você saiba o que um cara aqui faz com essas coisas nas longas noites em que o tempo se arrasta como uma lesma. Não consigo todas essas coisas de graça, e para alguns artigos o preço é alto. Mas não faço só pelo dinheiro; de que vale o dinheiro para mim? Nunca vou ter um Cadillac nem viajar para a Jamaica por duas semanas em fevereiro. Faço pelo mesmo motivo que um bom açougueiro só lhe vende carne fresca: adquiri uma reputação e quero mantê-la. As duas únicas coisas que me recuso a conseguir são armas e drogas pesadas. Não vou ajudar ninguém a se matar nem a matar os outros. Já tenho homicídio nas costas para a vida inteira. É, sou um Neiman-Marcus profissional. E assim, quando Andy Dufresne se aproximou de mim em 1949 e perguntou se eu poderia trazer Rita Hayworth clandestinamente para a prisão, respondi que não seria problema. E não foi mesmo. Andy tinha trinta anos de idade quando veio para Shawshank em 1948. Era um homem baixo, bem arrumado, de cabelos ruivos e mãos pequenas e ágeis. Usava óculos de aros de ouro. Suas unhas estavam sempre bem aparadas e limpas. É uma coisa engraçada de lembrar a respeito de um homem, eu acho, mas isso parece resumir Andy para mim. Sempre parecia estar usando gravata. Lá fora, tinha sido vicepresidente do departamento de crédito de um grande banco de Portland. Um bom trabalho para um homem tão jovem como ele. Principalmente se você levar em conta como a maioria dos bancos é conservadora, e multiplicar esse conservadorismo por dez na Nova Inglaterra, onde as pessoas não gostam de confiar seu dinheiro a um homem qualquer, a não ser que ele seja careca, manco e esteja constantemente puxando as calças para botar a funda no lugar. Andy estava na prisão por assassinar sua mulher e o amante dela. Como acho que já disse, todo homem na prisão é um homem inocente. Ah, eles citam essa passagem do jeito que aqueles pregadores fanáticos na TV leem o Livro das Revelações. Foram vítimas de juízes de coração de pedra e saco do mesmo material, de advogados incompetentes, de conspiração policial ou má sorte. Citam a passagem, mas você vê uma passagem diferente no rosto deles. A maioria dos presos são tipos ordinários, ruins para eles e para os outros e seu maior azar foi suas mães terem levado a gravidez até o fim. Durante todos os anos que passei em Shawshank, existiram menos de dez homens nos quais acreditei quando me disseram que eram inocentes. Andy Dufresne foi um deles, embora eu só tenha me convencido de sua inocência ao longo dos anos. Se eu estivesse no júri que ouviu seu processo no Supremo Tribunal de Portland durante seis tumultuadas semanas em 1947-1948, teria também votado a favor da condenação. Foi um processo dos diabos; um daqueles bem picantes com todos os ingredientes a que tinha direito. Havia uma bela garota com relações na sociedade, uma personalidade do esporte local (ambos mortos) e um jovem e eminente homem de negócios no banco de réus. Tudo isso e mais todo o escândalo que os jornais podiam insinuar. A acusação foi rápida. O julgamento só demorou tanto porque o promotor estava planejando candidatar-se à Câmara de Deputados e queria que os eleitores tivessem bastante tempo para olhar sua cara. Foi um espetáculo de circo forense, os espectadores formaram filas desde as quatro horas da manhã, apesar da temperatura abaixo de zero, para garantir seus lugares. Os fatos da condenação que Andy nunca contestou foram os seguintes: que ele tinha uma esposa, Linda Collins Dufresne; que em junho de 1947 ela demonstrara interesse em aprender golfe no Country Club de Falmouth Hills; que ela realmente teve aulas durante quatro meses; que seu instrutor era o profissional de golfe de Falmouth Hills, Glenn Quentin; que no final de agosto de 1947 Andy soube que Quentin e sua esposa eram amantes; que Andy e Linda Dufresne discutiram violentamente na tarde de 10 de setembro de 1947; que o motivo da discussão foi a infidelidade dela. Ele declarou que Linda admitiu estar contente por ele saber de tudo; andar às escondidas, disse ela,

era desgastante. Ela contou a Andy que planejava conseguir o divórcio em Reno. Andy disse que preferia vê-la no inferno a vê-la em Reno. Ela saiu para passar a noite com Quentin no bangalô alugado por ele perto do campo de golfe. Na manhã seguinte, a faxineira encontrou os dois mortos na cama. Cada um tinha levado quatro tiros. Este último fato foi o que mais pesou contra Andy. O promotor com aspirações políticas exagerou um bocado na sua exposição inicial e em seu resumo final do processo. Andrew Dufresne, disse ele, não era um marido enganado em busca de vingança furiosa contra a esposa traidora; isso, disse o promotor, seria compreensível e até justificado. Mas a vingança tinha sido de uma grande frieza. Reflitam! Esbravejou o promotor para o júri. Quatro e quatro! Não apenas seis, mas oito tiros! Tinha atirado até esvaziar o revólver... e aí parou para poder recarregar e atirar neles mais uma vez! QUATRO PARA ELE E QUATRO PARA ELA, clamou o Sun de Portland. O Register de Boston apelidou-o de Assassino do Número Par. Um vendedor da Casa de Penhores Wise, em Lewiston, testemunhou que tinha vendido um revólver Police Special .38 de seis tiros para Andrew Dufresne apenas dois dias antes do duplo assassinato. Um garçom do bar do clube testemunhou que Andy tinha chegado por volta de sete horas do dia 10 de setembro, engoliu três uísques puros num período de vinte minutos — quando levantou da banqueta, disse ao garçom que ia à casa de Glenn Quentin e que ele, o garçom, “podia ler o resto nos jornais”. Outro vendedor, este de uma loja de variedades a pouco mais de um quilômetro da casa de Quentin, disse no tribunal que Dufresne tinha entrado na loja por volta de quinze para as nove naquela mesma noite. Comprou cigarros, três garrafas de cerveja e alguns panos de prato. O médico legista do condado comprovou que Quentin e a mulher de Dufresne tinham sido assassinados entre 11 horas da noite e 2 horas da manhã dos dias 10 e 11 de setembro. O detetive da Procuradoria Geral encarregado do caso declarou que existia um desvio na estrada a menos de cem metros do bangalô, e que na tarde de 11 de setembro três provas foram colhidas nesse desvio, primeira, duas garrafas vazias de cerveja Narragansett (com as impressões digitais do réu); segunda, doze pontas de cigarro (todas Kool, a marca que o réu fumava); terceira, as marcas de quatro pneus (que coincidiam exatamente com o desenho dos pneus do Plymouth 1947 do réu). Na sala de estar do bangalô de Quentin foram encontrados quatro panos de prato em cima do sofá. Tinham marcas de bala e queimaduras de pólvora. O detetive especulou (apesar dos veementes protestos do advogado de Andy) que o assassino tinha envolvido o cano da arma para abafar o barulho dos tiros. Andy Dufresne foi para o banco de testemunhas em sua própria defesa e contou sua história calma, fria e imparcialmente. Disse que começou a ouvir boatos inquietantes sobre sua mulher e Quentin na última semana de julho. Em fins de agosto estava inquieto o bastante para investigar um pouco. Uma noite em que Linda deveria ter ido fazer compras em Portland depois da aula de golfe, Andy seguiu- a e a Quentin até a casa de dois andares alugada por Quentin (inevitavelmente apelidada pelos jornais de “ninho de amor”). Ele estacionou no desvio da estrada até Quentin levá-la de volta ao clube, onde o carro dela ficara três horas depois. — O senhor quer dizer em juízo que seguiu sua mulher em seu Plymouth sedã novo em folha? — perguntou-lhe o promotor, testando-o. — Troquei de carro com um amigo naquela noite. — disse Andy, e esta fria admissão de que sua investigação tinha sido tão bem planejada não lhe foi nada favorável aos olhos do júri. Após devolver o carro do amigo e pegar o seu, foi para casa. Linda estava na cama, lendo um livro. Perguntou a ela como tinha sido o passeio até Portland. Ela respondeu que tinha sido divertido, mas que não tinha visto nada que gostasse para comprar. — Foi quando tive certeza. — disse Andy aos espectadores ansiosos. Falou com a mesma voz

calma e vaga com que dera quase todo seu depoimento. — Qual era seu estado de espírito nos dezessete dias decorridos entre aquela noite e a noite em que sua mulher foi assassinada? — o advogado de Andy lhe perguntou. — Eu estava muito aflito. — disse Andy calma e friamente. Assim como um homem enumera a sua lista de compras, ele afirmou que pensara em suicídio e que tinha até comprado um revólver em Lewiston no dia 8 de setembro. O advogado então pediu-lhe para contar ao júri o que acontecera depois que sua esposa saíra para encontrar Glenn Quentin na noite dos assassinatos. Andy contou... e a impressão que causou foi a pior possível. Eu o conheci por cerca de trinta anos, e posso lhe dizer que ele era o homem mais calmo e senhor de si que já encontrei. O que estava certo com ele, contava um pouquinho de cada vez. O que estava errado guardava dentro de si mesmo. Se por acaso tivesse passado uma “noite negra”, como se encontra nos romances, você jamais saberia. Era o tipo do homem que, se decidisse cometer suicídio, o faria sem deixar um bilhete, mas não até que seus negócios estivessem perfeitamente em ordem. Se ele tivesse chorado no banco dos réus, ou se sua voz tivesse ficado embargada ou hesitante, até se ele tivesse começado a gritar com o promotor destinado a Washington, acredito que ele não recebesse a sentença de prisão perpétua que recebeu. Mesmo que a tivesse recebido, estaria em liberdade condicional em 1954. Mas ele contou sua história ao júri como se fosse um gravador, parecendo dizer aos jurados: É isso aí. É pegar ou largar. Eles largaram. Ele afirmou que estava bêbado naquela noite, que estava mais ou menos bêbado desde 24 de agosto e que era uma pessoa que não segurava muito bem a bebida. É claro que isso, por si só, já seria difícil para qualquer júri engolir. Eles não conseguiam visualizar este moço, friamente seguro de si, em um perfeito terno de lã com jaquetão e colete, ficando bêbado de cair por causa de um casinho vulgar de sua mulher com um professor de golfe de cidade pequena. Eu acreditei na história dele porque tive uma oportunidade de observar Andy, o que aqueles seis homens e seis mulheres não tiveram. Todo o tempo em que o conheci, Andy Dufresne só tomava quatro drinques por ano. Ele me encontrava no pátio de exercícios todo ano, uma semana antes de seu aniversário, e depois novamente duas semanas antes do Natal. Em cada ocasião me pedia para conseguir uma garrafa de Jack Daniel's. Ele comprava-o do jeito que a maioria dos presos compram suas coisas — com o salário de fome daqui e mais um pouquinho do seu dinheiro. Até 1965, o que se recebia pela hora de trabalho era 10 centavos. Em 65, aumentaram para 25 centavos. Minha comissão para bebida era, e é, 10%, e quando se acrescenta essa sobretaxa ao preço de um bom uísque como o Black Jack, tem-se uma ideia de quantas horas de suadouro Andy Dufresne passava na lavanderia da prisão para comprar seus quatro drinques por ano. Na manhã do seu aniversário, 20 de setembro, ele “virava” um bocado da garrafa, e à noite outro bocado depois de apagarem as luzes. No dia seguinte me dava o resto da garrafa e eu dividia com outros homens. Da outra garrafa ele tomava uma dose na noite de Natal e outra na véspera de Ano Novo. Então a garrafa voltava para mim com instruções para passar adiante. Quatro drinques por ano — e este é o comportamento de um homem que foi duramente afetado pela bebida. O bastante para tirar sangue. Ele contou ao júri que na noite do dia 10 estava tão bêbado que só se lembrava do que acontecera em pequenos intervalos. Ele tinha se embebedado de tarde — “ tomei uma dose dupla de coragem holandesa — foi como ele colocou — antes de enfrentar Linda”. Depois que ela saiu para encontrar Quentin, ele se lembrava que decidiu enfrentá- los. No caminho para o bangalô de Quentin, parou no clube para uma ou duas “biritinhas”. Não conseguia, disse ele, recordar ter dito ao garçom que este ia “poder ler o resto nos jornais”, ou qualquer

outra coisa. Lembrava-se de ter comprado cerveja na loja de variedades, mas não os panos de prato. “Para que iria querer panos de prato?”, — perguntou, e um dos jornais relatou que três juradas estremeceram. Mais tarde, muito mais tarde, ele me contou suas teorias sobre o empregado que teria testemunhado a compra das toalhas de prato, e acho que vale a pena transcrever o que ele disse: — Suponha que durante a procura por testemunhas... — comentou Andy um dia no pátio de exercícios — Eles tenham esbarrado nesse sujeito que me vendeu a cerveja naquela noite. Nessa altura, já tinham se passado três dias. Os fatos foram proclamados por todos os jornais. Talvez eles tenham cercado o sujeito, cinco ou seis tiras, mais o detetive da Procuradoria, além do assistente do Promotor. Memória é uma coisa muito subjetiva, Red. Eles poderiam ter começado com “Não é possível que ele tenha comprado quatro ou cinco panos de prato?” e trabalharem em cima disso. Se houver bastante gente querendo que você se lembre de alguma coisa, isto pode ser um elemento persuasivo muito forte. Concordei que poderia. — Existe, porém, um ainda mais forte. — Andy continuou com seu jeito pensativo. — Acho que é pelo menos possível que ele tenha se convencido. Eram as luzes do palco em cima dele. Repórteres fazendo perguntas, a foto nos jornais... tudo isso, é claro, coroado pela sua vez de estrela no tribunal. Não estou dizendo que ele tenha deturpado deliberadamente sua história, ou que tenha cometido perjúrio. Acho até possível que ele passasse num teste do detector de mentiras com grau dez, ou que ele jurasse por sua mãe que eu comprei aqueles panos de prato. Mas ainda assim... memória é uma coisa subjetiva dos diabos. Uma coisa eu sei: embora meu próprio advogado pensasse que eu estava mentindo sobre metade da história, ele nunca engoliu esse negócio dos panos de prato. É uma coisa doida. Eu estava bêbado feito um gambá, bêbado demais para pensar em abafar os tiros. Se eu tivesse cometido um crime, os teria deixado explodir. Ele foi para o desvio da estrada e estacionou. Bebeu cerveja e fumou. Viu as luzes do primeiro andar da casa de Quentin se apagarem. Viu uma única luz acender- se no segundo andar... e quinze minutos mais tarde viu aquela apagar-se. — Sr. Dufresne, o senhor foi então à casa de Glenn Quentin e matou os dois? — bradou seu advogado. — Não, eu não matei. — respondeu Andy. Por volta da meia-noite, segundo ele, estava ficando sóbrio. Estava sentindo também os primeiros sinais de uma tremenda ressaca. Decidiu ir para casa, dormir e pensar sobre o assunto de modo mais adulto no dia seguinte. — Naquela noite, enquanto eu dirigia a caminho de casa, comecei a pensar que a decisão mais inteligente seria simplesmente deixá-la ir a Reno conseguir o divórcio. — Obrigado, Sr. Dufresne. O promotor se levantou. — O senhor se divorciou dela da maneira mais rápida que pôde inventar, não foi? O senhor se divorciou dela com um .38 enrolado em panos de prato, não foi? — Não, senhor, não foi. — disse Andy calmamente. — E então o senhor atirou no amante dela. — Não, senhor. — O senhor quer dizer que atirou em Quentin primeiro? — Quero dizer que não atirei em nenhum dos dois. Bebi duas garrafas de cerveja e fumei não sei quantos cigarros que a polícia achou no desvio. Então fui para casa dormir. — O senhor disse ao júri que entre 24 de agosto e 10 de setembro estava pensando em suicídio. — Sim, senhor.

— O bastante para comprar um revólver. — Sim. — O senhor ficaria muito aborrecido, Sr. Dufresne, se eu lhe dissesse que o senhor não me parece ser do tipo que se suicida? — Não. — respondeu Andy. — Mas o senhor não me impressiona com sua sensibilidade aguçada, e duvido muito que eu levasse meu problema para o senhor se estivesse pensando em suicídio. Neste momento, ouviu-se um riso abafado e tenso na sala, mas ele não ganhou nenhum ponto com o júri. — O senhor carregava o seu .38 na noite de 10 de setembro? — Não, como já declarei... — Ah, sim! — O promotor sorriu sarcástico. — O senhor o atirou no rio, não foi? O rio Royal. Na tarde de 9 de setembro. — Sim, senhor. — Um dia antes dos assassinatos. — Sim, senhor. — Conveniente, não é? — Nem conveniente, nem inconveniente. Apenas a verdade. — Acredito que o senhor tenha ouvido o depoimento do tenente Mincher? — Mincher chefiou a turma que tinha dragado o trecho do rio Royal perto da ponte Pond Road, de onde Andy tinha dito que atirara o revólver. A polícia não o tinha encontrado. — Sim, senhor. O senhor sabe que ouvi. — Então, o senhor ouviu-o contar ao tribunal que eles não encontraram nenhum revólver, embora tenham dragado o rio durante três dias. Isso foi um tanto conveniente, não foi? — Conveniência à parte, o fato é que eles não encontraram o revólver. — respondeu Andy calmamente. — Mas eu gostaria de lembrar ao senhor e ao júri que a ponte Pond Road está muito perto do local em que o rio Royal desemboca na baía de Yarmouth. A correnteza é forte. O revólver pode ter sido arrastado para a baía. — E assim não se pode comparar os estriamentos das balas retiradas dos corpos ensanguentados de sua esposa e de Glenn Quentin com os estriamentos no cano de seu revólver. Isto é correto, não é, Sr. Dufresne? — Sim. — E é também um tanto conveniente, não é? Nesse momento, segundo os jornais, Andy mostrou uma das poucas reações, levemente emocionais, a que se permitiu durante as seis semanas do julgamento. Um leve e amargo sorriso cruzou seu rosto. — Já que sou inocente desse crime e já que estou dizendo a verdade sobre ter atirado o revólver no rio na véspera do dia do crime, o fato de que o revólver nunca tenha sido encontrado me parece decididamente inconveniente. O promotor atormentou-o durante dois dias. Releu para Andy o depoimento do empregado da loja de variedades sobre os panos de prato. Andy repetiu que não se recordava de tê-los comprado, mas admitia que também não se recordava de não tê-los comprado. Era verdade que Andy e Linda Dufresne tinham feito uma apólice de seguro conjunta no começo de 1947? Sim, era verdade. E se fosse absolvido, não era verdade que Andy estaria em situação de ganhar 50 mil dólares de benefício? Verdade. E não era verdade que ele tinha ido à casa de Glen Quentin com ódio de morte em seu coração, e também não era verdade que tinha cometido assassinato duas vezes? Não, não era verdade. Então, o que ele achava que tinha acontecido, já que não havia sinais de roubo?

— Não tenho condições de responder isso. — disse Andy calmamente. O processo foi para o júri a uma hora da tarde de uma quarta-feira cheia de neve. Os doze jurados, homens e mulheres voltaram às 3:30. O meirinho disse que eles deveriam ter voltado mais cedo, mas demoraram para que pudessem provar o frango do almoço do restaurante Bentley, às custas do condado. Eles o consideraram culpado, e, meu irmão, se o estado de Maine tivesse a pena de morte, ele teria “dançado” antes que os brotos da primavera emergissem da neve. O promotor lhe perguntara o que ele achava que teria acontecido, e Andy esquivou-se à pergunta — mas ele tinha uma ideia, e a arranquei dele num fim de noite em 1955. Foram precisos 7 anos para evoluirmos de conhecidos para amigos — mas eu nunca me senti realmente chegado a Andy até 1960, e acredito que fui o único que chegou a ser seu amigo. Por sermos “perpétuos”, ficamos no mesmo bloco do princípio ao fim, embora eu estivesse um pouco distante dele, no corredor. — O que eu acho? — ele riu. — Mas não havia humor no seu riso. — Acho que havia muito azar pairando no ar naquela noite. Mais do que poderia caber novamente no mesmo período de tempo. Acho que deve ter sido um estranho que passava por ali. Talvez alguém que tivesse um pneu furado naquela estrada depois que fui para casa. Talvez um ladrão. Talvez um psicopata. Ele os matou, é só. E eu estou aqui. Muito simples. E ele estava condenado a passar o resto de sua vida em Shawshank—ou a parte que era importante. Cinco anos mais tarde ele começou a ter audiências para liberdade condicional e lhe negavam sistematicamente, apesar de ser um prisioneiro exemplar. Quando se tem assassinato carimbado no papel de admissão, conseguir um passe para fora de Shawshank é trabalho lento, tão lento quanto um rio desgastando uma rocha. Sete homens fazem parte da comissão, e mais dois na maioria das prisões estaduais, e cada um desses tem uma cabeça tão dura quanto pedra. Esses caras você não compra, não passa uma conversa e não pede nada chorando. O negócio em relação a essa comissão é “dinheiro não tem vez e ninguém sai do xadrez”. Havia outras razões no caso de Andy também... mas isso fica um pouco mais adiante na minha história. Havia um detento com regalias, chamado Kendricks, que me devia uma grana alta nos anos 50 e levou uns quatro anos até pagar tudo. A maior parte dos juros que ele me pagou foi em informações — na minha linha de trabalho você será um homem morto se não tiver um jeito de manter os olhos abertos e os ouvidos atentos. Esse Kendricks, por exemplo, tinha acesso a documentos que eu nunca veria durante meu serviço de operador do moinho de minérios na droga da oficina de placas. Kendricks me contou que o voto da comissão de liberdade condicional foi sete a zero contra Andy Dufresne em 1957, seis a um em 58, sete a zero de novo em 59, e cinco a dois em 60. Depois disso eu não sei, mas o que sei é que dezesseis anos mais tarde ele ainda estava na cela 14 do bloco 5. Nessa época, 1975, ele já tinha 15 anos. Eles provavelmente seriam generosos e o deixariam sair em 1983. Eles dão a você uma sentença para a vida toda e é a vida que eles te tiram — pelo menos, tudo dela que vale a pena. Talvez eles deixem você sair algum dia, mas escute bem: eu conhecia um cara, Sherwood Bolton era seu nome, e ele tinha um pombo em sua cela. Teve esse pombo de 1945 até 1953, quando o deixaram sair. Ele não era nenhum Homem Pássaro de Alcatraz; só tinha esse pombo — Jake, assim o chamava. Ele libertou Jake um dia antes da sua saída, e Jake foi embora, voando, alegre e bonito. Mas cerca de uma semana depois, um amigo me levou até o lado oeste do pátio de exercícios, onde Sherwood costumava ficar. Um pássaro estava deitado lá, como se fosse um montinho de roupa suja. Parecia faminto. Meu amigo disse: “Não é Jake, Red?” Era. O pombo estava “mortinho da silva”. Eu lembro da primeira vez que Andy Dufresne entrou em contato comigo; me lembro como se fosse ontem. Não foi aquela vez que pediu Rita Hayworth, não. Isso foi depois. Naquele verão de 1948, ele se aproximou de mim por uma outra razão. A maioria dos meus negócios é feita lá mesmo no pátio de

exercícios, e foi onde esse aconteceu também. Nosso pátio é grande, bem maior que os outros. E um quadrado perfeito de 90 metros de lado. No lado norte fica um muro com torres de guarda em cada extremidade. Os guardas lá de cima são equipados com binóculos e armas contra motim. O portão principal fica no lado norte. As áreas de carga e descarga de caminhões ficam no lado sul do pátio. Há cinco dessas áreas. Shawshank é movimentado durante a semana — entregas chegando, entregas saindo. Nós temos uma fábrica de placas de automóveis e uma grande lavanderia industrial que lava toda a roupa da prisão e mais a do Hospital Kittery Receiving e a da Casa de Saúde Eliot. Há também uma grande oficina onde os presidiários mecânicos consertam veículos municipais, estaduais e da prisão — sem falar nos carros particulares dos guardas, da administração... e em mais de uma ocasião, os da comissão de livramento condicional. No lado leste há uma grossa parede de pedra com pequeninas janelas estreitas. O bloco 5 fica do outro lado dessa parede. No lado oeste ficam a administração e a enfermaria. Shawshank nunca ficou superlotada como a maioria das prisões, e em 1948 somente 2/3 da sua capacidade estavam preenchidos, mas a qualquer momento poderia haver de oitenta a cento e vinte detentos no pátio, jogando futebol ou beisebol, jogando dados, matraqueando uns com os outros, fazendo negócios. No domingo, o lugar ficava ainda mais cheio; no domingo, o lugar se pareceria com uma festa ao ar livre... se houvesse mulheres. Foi num domingo que Andy se aproximou pela primeira vez. Eu tinha acabado de falar sobre um rádio com Elmore Armitage, um companheiro que me “quebrava uns galhos” de vez em quando, quando Andy chegou. Eu sabia quem ele era; tinha fama de ser um cara pretensioso e frio, O pessoal dizia que ele estava sempre pronto para uma confusão. Uma das pessoas que dizia isso era Bogs Diamond, um cara ruim para se ter por perto. Andy não tinha companheiro de cela, e esse era o jeito que ele queria, embora já estivessem dizendo que ele pensava que seu cocô era mais cheiroso que o dos outros. Mas eu não presto atenção a boatos sobre um homem quando posso julgá-lo por mim mesmo. — Oi. — disse ele.— Sou Andy Dufresne. — estendeu-me a mão e eu o cumprimentei. Não era homem de perder tempo com amabilidades sociais; foi direto ao assunto: — Ouvi dizer que você é um cara que sabe como conseguir as coisas. Concordei que eu era capaz de localizar certos artigos de vez em quando. — Como faz isso? — perguntou Andy. — Às vezes... — respondi. — Parece que as coisas vêm direto para as minhas mãos. É um troço inexplicável. A menos que seja porque sou irlandês. Ele deu um breve sorriso. — Será que você me conseguiria um cinzel? — O que é isso, e por que você quer? Andy pareceu surpreso. — As motivações fazem parte do seu negócio? — usando palavras assim, pude entender por que ele tinha ganho fama de pretensioso, o tipo do cara que se dá ares de grandeza; mas percebi uma minúscula ponta de humor em sua pergunta. — Escute bem... — respondi. — Se você quisesse uma escova de dentes eu não faria perguntas. Eu lhe daria um preço. Porque, veja bem, uma escova de dentes é um objeto não letal. — Você se opõe a objetos letais? — Sim, me oponho. Uma bola de beisebol, velha e remendada com fita isolante voou em nossa direção, e ele se virou com uma agilidade felina e pegou-a no ar. Foi uma jogada que deixaria Frank Malzone orgulhoso. Andy atirou a bola de volta — só um movimento de pulso, rápido e aparentemente fácil, mas aquele arremesso tinha malícia. Eu podia ver muita gente nos observando de rabo de olho enquanto faziam outras coisas. Provavelmente os guardas na torre estavam observando também. Não vou chover no molhado, mas em

qualquer prisão há detentos que têm influência, talvez uns quatro ou cinco em uma prisão pequena, talvez umas duas ou três dúzias numa grande penitenciária. Em Shawshank eu era um desses, e o que eu achava de Andy Dufresne teria muito a ver com o modo pelo qual ele passaria sua estada aqui. Ele sabia disso também, mas não estava me bajulando ou puxando o meu saco, e por esse motivo eu o respeitei. — É justo. Vou lhe dizer para o que é que eu quero. Um cinzel parece com uma picareta em miniatura — desse tamanho. — ele colocou as mãos cerca de trinta centímetros uma da outra, e foi quando notei como suas unhas eram aparadas e limpas. — Tem um pico afiado numa extremidade e uma cabeça de martelo chata e rombuda na outra. Eu quero porque gosto de rochas. — Rochas. — repeti. — Sente aqui um pouco. — disse ele. Fiz sua vontade. Nós nos agachamos como índios. Andy pegou um bocado de terra do pátio e peneirou-a com suas mãos limpas, de maneira que esta saía como uma nuvem fina. Sobraram pequenos seixos, um ou dois faiscantes, o resto opaco e feio. Um dos opacos era quartzo, mas era opaco só até que se esfregasse, limpando-o. Aí tinha um bonito brilho leitoso. Andy limpou-o e jogou-o para mim. Peguei-o e disse o nome: — Quartzo, com certeza. — disse ele. — E olhe só: mica, xisto, granito sedimentado. Esse é um terreno de rocha calcária em declive, da época em que cortaram este lugar do lado do morro. — jogou-os fora e limpou as mãos. — Sou um “caça-rochas”. Pelo menos... era um “caça-rochas”. Na minha antiga vida. Gostaria de ser outra vez, numa escala reduzida. — Excursões domingueiras pelo pátio de exercícios? — perguntei, me levantando. Era uma ideia boba, e ainda assim... aquele pedacinho de quartzo me deu um aperto estranho no coração. Não sei exatamente por quê; só uma associação com o mundo lá fora, acho eu. Não se pensa em encontrar tais coisas em pátios de prisão. Quartzo é algo que se acha em pequeninos e velozes riachos. — Melhor ter excursões domingueiras aqui do que não tê-las. -— retorquiu ele. — Você poderia enfiar o cinzel no crânio de alguém. — observei. — Não tenho inimigos aqui. — disse ele calmo. — Não? — eu sorri. — Espere um pouco. — Se houver problemas, posso resolver sem usar o cinzel. — Talvez você queira tentar fugir? Passar sob o muro. Porque se você tentar... Ele sorriu educadamente. Três semanas depois, quando vi o cinzel, entendi o porquê. — Sabe... — disse eu. — Se virem você com isso, vão tomar. Se eles vissem você com uma colher, também tomariam. O que é que você vai fazer, sentar aqui no pátio e começar a martelar? — Acho que posso fazer melhor do que isso. Assenti com a cabeça. De qualquer jeito, essa parte não era da minha conta. Um cara contrata meus serviços para arranjar alguma coisa para ele. Se depois ele puder guardá-la ou não, é problema dele. — Quanto custaria um artigo como esse? — perguntei. Eu estava começando a gostar de seu jeito calmo e discreto. Quando se passa dez anos no xadrez, ficase terrivelmente cansado dos fanfarrões e papos-furados. Sim, seria justo dizer que gostei de Andy desde o começo. — Oito dólares em qualquer loja de pedras semipreciosas. — disse ele. — Mas sei que num negócio como o seu existe um adicional. — Minha taxa atual é um adicional de 10%, mas cobro mais por um artigo perigoso. Para o tipo de coisa que você quer, é preciso um pouco mais de “graxa” para fazer a engrenagem funcionar. Vamos dizer 10 dólares. — Está bem, 10. Olhei para ele, sorrindo um pouco.

— Você tem 10 dólares? — Tenho. — disse ele calmamente. Muito tempo depois descobri que ele tinha trazido mais de 500 dólares. Quando você se registra neste “hotel”, um dos guardas faz você curvar-se e dá uma olhada no seu “negócio” — mas há muitos negócios para olhar e, para falar sem rodeios, se o cara estiver realmente a fim pode enfiar um objeto bastante grande no seu “negócio” — fundo o bastante para sumir de vista, a não ser que o guarda esteja disposto a usar uma luva de borracha e cutucar. — Está bem. — disse eu. — Você deve saber o que te espera se for apanhado com o artigo que eu arrumar. — Acho que sei. — disse ele, e percebi pela leve mudança em seus olhos cinzentos que ele sabia exatamente o que eu ia dizer. Era um leve brilho, um lampejo de seu especial humor irônico. — Se você for apanhado, dirá que achou. Isso é para encurtar a história. Vão colocar você na solitária por três ou quatro semanas... e mais, é claro, você vai perder seu brinquedo e ganhar uma nota ruim no seu boletim. Se você disser meu nome a eles, nunca mais faremos negócio. Nem para um par de cadarços de tênis ou um saco de batatinha frita. E eu mandaria uns caras te acertar. Não gosto de violência, mas você entende minha posição. Não posso deixar que pensem que não sei me defender. Seria o meu fim. — É, acho que sim. Eu entendo, não precisa se preocupar. — Eu nunca me preocupo. — respondi. — Num lugar como este não se leva porcentagem com isso. Ele assentiu e foi embora. Três dias depois andou ao meu lado durante o descanso da manhã na lavanderia. Não falou nem me olhou, mas pôs uma nota de 10 dólares na minha mão com tanta agilidade quanto um mágico com suas cartas. Era um homem que se adaptava rapidamente. Arranjei o cinzel. Fiquei com ele na minha cela por uma noite e era exatamente como Andy o descrevera. Não era uma ferramenta para fugas (levaria uns seiscentos anos para um homem cavar um túnel sob o muro usando um cinzel, imaginei), mas mesmo assim eu tinha algumas dúvidas. Se aquele cinzel fosse enfiado na cabeça de alguém, essa pessoa certamente jamais escutaria outra vez o programa Fibber McGee e Molly no rádio. E Andy já tinha começado a ter problemas com as “irmãs”. Eu esperava que não fosse para elas que Andy queria o cinzel. No fim, confiei em meu julgamento. No dia seguinte bem cedo, vinte minutos antes do toque de alvorada, passei o cinzel e um maço de Camel às escondidas para Ernie, o velho detento que varria os corredores do bloco 5, até que foi solto em 1956. Ele o colocou em seu uniforme sem uma palavra, e eu não vi mais o cinzel durante dezenove anos, e a essa altura já estava completamente gasto de tanto uso. No domingo seguinte, Andy se aproximou de mim novamente no pátio de exercícios. Parecia um trapo naquele dia. Seu lábio inferior estava tão inchado que parecia uma linguiça, o olho direito estava meio fechado de tão inchado e havia um arranhão feio na face. Ele estava tendo problemas com as “irmãs”, mas nunca falou sobre isso. — Obrigado pela ferramenta. — disse. E foi embora. Eu o observei curiosamente. Ele andou um pouco, viu alguma coisa no chão, curvou-se e pegou-a. Era uma pedrinha. Os uniformes da prisão não têm bolsos, exceto os usados pelos mecânicos quando estão em serviço. Mas dá-se um jeito nisso. A pedrinha desapareceu pela manga de Andy e não voltou. Eu me admirei disso... e o admirei também. Apesar dos seus problemas, ele estava levando sua vida. Há milhares que não o fazem ou não o querem, ou ainda não o podem, e muitos desses não estão na prisão. E notei que, embora seu rosto parecesse ter sido amassado por um rolo compressor, suas mão estavam limpas e as unhas bem aparadas. Eu não o vi muito nos seis meses seguintes; Andy passou um bocado de tempo na solitária.

Umas poucas palavras sobre as “irmãs”. Em muitas prisões eles são conhecidos como “veados machos” ou “bonecas do xadrez” — atualmente o nome da moda é “rainhas assassinas”. Mas em Shawshank eles sempre foram as “irmãs”. Não sei por que, mas fora o nome, não há diferença. Não é surpresa alguma para muitos hoje em dia que exista um bocado de sodomia no interior das prisões — exceto para alguns dos novatos, talvez, que têm a infelicidade de serem jovens, esbeltos, bonitos e incautos — mas a homossexualidade, como a heterossexualidade, tem centenas de variedades e formas diferentes. Há homens que não suportam viver sem alguma forma de sexo e procuram outro homem para não ficarem loucos. Normalmente, o que acontece é um arranjo entre dois homens fundamentalmente heterossexuais, embora eu às vezes ficasse pensando se eles eram mesmo tão heterossexuais como pensavam que seriam quando voltassem para suas esposas ou namoradas. Existem também os homens que “viram casaca” na prisão. Na linguagem atual eles viram gays ou “saem do armário”. Na maioria das vezes (mas nem sempre) desempenham o papel de fêmea, e seus favores são acirradamente disputados. E há as “irmãs”. Eles estão para a sociedade carcerária assim como o estuprador está para a sociedade livre. Normalmente têm prisão perpétua, cumprindo penas rigorosas por crimes brutais. Suas presas são os jovens, os fracos e os inexperientes... ou, como no caso de Andy Dufresne, os que parecem fracos. Seus locais de caçada são os chuveiros, as áreas apertadas como os túneis atrás das enormes máquinas de lavar na lavanderia, algumas vezes a enfermaria. Mais de uma vez já houve estupro na minúscula cabine de projeção atrás do auditório. Na maioria das vezes, o que as irmãs conseguem à força poderia ser feito com boa vontade se elas assim o quisessem; aqueles que “viraram casaca” parecem sempre nutrir “paixões” por alguma irmã, como adolescentes por seus Sinatras, Presleys ou Redfords. Quanto às irmãs, porém, sua satisfação é sempre fazer à força... e acho que sempre será assim. Por causa de sua pequena estatura e por ter boa aparência (e talvez também pela sua presença de espírito, que eu admirava), as irmãs perseguiram Andy desde a hora em que entrou aqui. Se isso fosse um conto de fadas, eu diria que Andy lutou até que o deixaram em paz. Quisera poder dizer isso, mas não posso. A prisão não é nenhum mundo de contos de fadas. Sua primeira vez foi no chuveiro, menos de três dias depois de ter entrado para a nossa feliz família Shawshank. Só muito tapinha e cócegas naquela vez, eu sei. Eles gostam de avaliar o cara antes de fazerem uma jogada firme, como chacais descobrindo se a presa está tão fraca e estropiada quanto parece. Andy reagiu com uns socos e abriu o lábio de Bogs Diamond, uma irmã pesada e grandalhona — que só Deus sabe por onde anda agora. Um guarda os separou antes que acontecesse alguma coisa, mas Bogs prometeu pegá-lo — e Bogs cumpriu a promessa. A segunda vez foi atrás das máquinas de lavar. Muita coisa já aconteceu nesses anos naquele espaço estreito, longo e empoeirado; os guardas sabem disso e deixam acontecer. E escuro e coberto com sacos de compostos para lavar e alvejar, tambores cheios de catalisador Hexlite, tão inofensivo quanto sal se suas mãos estão secas, mortal como ácido de bateria se estão molhadas. Os guardas não gostam de ir lá. Não há por onde escapar, e uma das primeiras coisas que te ensinam quando se vem trabalhar nesse lugar é nunca deixar os caras te levarem para um lugar onde não há saída. Bogs não estava lá nesse dia, mas Henley Backus, que era o chefe da turma de lavagem desde 1922, me contou que quatro dos amigos de Bogs estavam. Andy os manteve acuados por algum tempo com um punhado de Hexlite, ameaçando jogá-lo nos olhos deles se chegassem mais perto, mas tropeçou quando tentava passar atrás de uma das grandes máquinas de quatro tambores. Bastou isso. Caíram em

cima dele. Acho que a expressão “curra” não muda muito de uma geração para outra. E foi isso que aquelas quatro irmãs fizeram com ele. Eles o deitaram sobre uma caixa de transmissão e um deles segurou uma chave Phillips contra sua cabeça enquanto os outros faziam sua parte. O negócio rasga você um pouco, mas não muito — se estou falando por experiência própria? — quisera eu que não fosse. Você sangra por um tempo. Se você não quiser que algum palhaço lhe pergunte se suas regras começaram, faça um chumaço de papel higiênico e ponha na cueca até que o sangramento pare. Esse sangramento é mesmo como uma menstruação; dura dois, talvez três dias, pingando devagar. E aí para. Sem prejuízo nenhum, a menos que eles tenham feito alguma coisa mais antinatural ainda. Nenhum dano físico — mas estupro é estupro, e você acaba tendo que olhar seu rosto no espelho de novo e decidir o que fazer de você mesmo. Andy passou por isso sozinho, do jeito que passou por tudo sozinho naqueles dias. Deve ter chegado à conclusão a que outros chegaram antes dele, ou seja, que só há duas maneiras de lidar com as irmãs: lutar contra elas e ser agarrado, ou simplesmente ser agarrado. Ele decidiu lutar. Quando Bogs e dois de seus cupinchas vieram atrás dele, mais ou menos uma semana depois do incidente na lavanderia (— Ouvi dizer que você foi amaciado. — disse Bogs, segundo a versão de Ernie, que estava por perto naquela hora), Andy partiu para cima deles. Quebrou o nariz de um cara chamado Rooster MacBride, um caipira de barriga grande que estava preso por ter batido em sua enteada até matá-la. Fico feliz em dizer que Rooster morreu aqui. Eles o pegaram, todos os três. Quando acabaram, Rooster e o outro sujeito — acho que foi Pete Verness, mas não estou certo — forçaram Andy a ajoelhar-se. Bogs Diamond ficou na frente dele. Tinha uma navalha com o cabo de madrepérola com as palavras “Diamond Pearl” gravada nos dois lados do cabo. Ele a abriu e disse: — Eu vou abrir minha braguilha agora, cara, e você vai chupar o que eu te der para chupar. E quando você tiver chupado o meu, vai chupar o de Rooster. Você quebrou o nariz dele e eu acho que ele tem que ter alguma recompensa. Andy disse: — Qualquer coisa sua que você enfiar na minha boca, vai ficar sem ela. Bogs olhou para Andy como se ele fosse doido, contou-me Ernie. — Não. — disse a Andy, bem devagar, como se Andy fosse uma criança imbecil. — Você não entendeu o que eu disse. Se você fizer qualquer coisa desse tipo eu enfio oito polegadas desta lâmina de aço dentro do seu ouvido. Sacou? — Eu entendi o que você disse. Você é que não entendeu o que eu disse. Eu vou morder qualquer coisa que você ponha na minha boca. Pode enfiar essa navalha na minha cabeça, mas você deve saber que um ferimento grave e súbito no cérebro faz com que a vítima urine e defeque ao mesmo tempo... e morda. Ele olhou para Bogs, com aquele sorriso discreto, como contou o velho Ernie, como se os três estivessem discutindo ações e títulos, e não jogando duro do jeito que estavam. Como se ele estivesse usando um de seus ternos de banqueiro ao invés de estar ajoelhado num chão sujo de um quartinho de limpeza com as calças arriadas nos tornozelos e sangue pingando por entre as coxas. — Na verdade... — ele continuou. — eu sei que o reflexo de morder algumas vezes é tão forte que os maxilares da vítima têm que ser abertos com pé-decabra. Bogs não botou nada na boca de Andy naquela noite em fins de fevereiro de 1948, e Rooster MacBride também não, e ninguém mais o fez, que eu saiba. O que os três fizeram foi bater em Andy até quase matá-lo, e os quatro acabaram passando um tempo na solitária. Andy e MacBride passaram antes pela enfermaria. Quantas vezes esse mesmo bando o agarrou? Não sei. Acho que Rooster perdeu o apetite bem depressa — tala no nariz durante um mês deixa qualquer um assim — e Bogs Diamond parou com isso de

súbito naquele verão. Aquilo foi estranho. Bogs foi encontrado em sua cela, mortalmente espancado numa manhã no começo de junho, quando não apareceu para a contagem da hora do café da manhã. Ele não contou quem tinha feito o serviço ou como tinham chegado até ele, mas no meu ramo de negócios sei que um guarda pode ser subornado para fazer quase tudo, exceto arranjar uma arma para um detento. Eles não ganhavam um bom salário naquela época, tampouco agora. E naquele tempo não havia sistema de trancamento eletrônico nem circuito fechado de televisão, nem chaves gerais que controlassem áreas inteiras da prisão. Em 1948, cada bloco de celas tinha seu próprio carcereiro. Um guarda podia ser comprado facilmente para deixar alguém entrar — talvez uma ou duas pessoas — no bloco, e até na cela de Diamond. É claro que um serviço desse tipo teria custado muito dinheiro. Não para os padrões externos, claro. A economia de uma prisão funciona em escala muito menor. Quando se está aqui há algum tempo, um dólar em sua mão é igual a vinte do lado de fora. Meu palpite é que, se Bogs foi “amassado”, isso custou a alguém uma boa nota — quinze dólares, eu diria, para o carcereiro, e dois ou três por cabeça para cada “justiceiro”. Não estou dizendo que tenha sido Andy Dufresne, mas eu sei que ele trouxe quinhentos dólares quando veio para cá, e ele era um banqueiro lá fora — um homem que entende melhor do que todos nós as maneiras pelas quais dinheiro se transforma em poder. E isso eu sei: depois do espancamento — três costelas quebradas, hemorragia no olho, as costas torcidas e o quadril deslocado — Bogs Diamond deixou Andy em paz. Na verdade, ele deixou todo mundo em paz. Ele ficou como um vento forte de verão, muita fúria e nenhum frio. Pode-se dizer que ele se transformou numa “irmã frouxa” Este foi o fim de Bogs Diamond, um homem que poderia ter matado Andy, se Andy não tivesse tomado medidas preventivas (se é que foi Andy quem tomou as medidas). Mas não foi o fim dos problemas de Andy com as irmãs. Houve um pequeno intervalo, e então começou tudo de novo, embora não fosse tão duro ou tão frequente. Chacais gostam de presa fácil, e havia outras mais fáceis que Andy Dufresne. Ele sempre lutou contra elas, isso é o que eu lembro. Acho que ele sabia que se se deixasse agarrar uma vez sem luta, iria tornar a próxima vez muito mais fácil. Assim, Andy aparecia de vez em quando com equimoses no rosto, e houve um negócio de dois dedos quebrados seis ou oito meses depois do espancamento de Diamond. Ah, sim — uma vez, em fins de 1949, o homem pousou na enfermaria com o malar quebrado, que era provavelmente o resultado de alguém balançando um lindo pedaço de cano com a ponta embrulhada em flanela. Ele sempre lutou, e como consequência passou temporadas na solitária. Mas não acho que a solitária fosse para Andy a dureza que era para alguns homens. Ele se dava bem consigo mesmo. As irmãs foram algo a que ele se adaptou — e então, em 1950, isso parou quase que totalmente. Esta é uma parte da minha história a que voltarei no devido tempo. No outono de 1948, Andy me encontrou uma manhã no pátio de exercícios e me perguntou se eu poderia conseguir uma meia dúzia de cobertores de rocha. — Que diabo é isso?— perguntei. Ele me explicou que era como os caçadores de rochas os chamavam; eram panos de polimento do tamanho de panos de prato. Eram pesadamente acolchoados, com um lado macio e um áspero—o lado macio como uma lixa muito fina, o áspero quase tão abrasivo quanto palha de aço industrial (Andy tinha uma caixa deles em sua cela, embora não os tivesse arranjado comigo — imagino que os tivesse afanado na lavanderia da prisão).

Respondi que achava que podia fazer negócio com os cobertores, e os obtive da mesma loja em que tinha conseguido o cinzel. Desta vez, cobrei de Andy meus dez por cento normais e nem mais um centavo. Eu não vi nada letal ou mesmo perigoso em uma dúzia de panos acolchoados quadrados de 15 por 15. Cobertores de rocha, certamente.

Foi mais ou menos cinco meses depois que Andy me perguntou se eu poderia conseguir Rita Hayworth para ele. A conversa foi no auditório durante um filme. Hoje em dia temos filmes uma ou duas vezes por semana, mas naquela época eram um acontecimento mensal. Normalmente os filmes a que assistíamos tinham uma mensagem moralmente edificante, e esse, The Lost Weekend, não fugia à regra. A moral era o perigo da bebida. Uma moral na qual podia-se obter algum alento. Andy conseguiu ficar perto de mim, e na metade do filme ele se inclinou e perguntou se eu poderia conseguir a Rita Hayworth. Para dizer a verdade, isso me gritou. Ele normalmente era calmo, frio e senhor de si, mas naquela noite estava uma pilha de nervos, quase constrangido, como se estivesse me pedindo para arranjar um carregamento de camisinhas-de-vênus ou um daqueles negocinhos forrados de pele de ovelha que “intensificam seu prazer solitário”, como anunciam as revistas. Parecia eletrizado, supercarregado, um cara a ponto de ferver seu radiador. — Posso. — disse eu. — Sem grilos, se acalme. Você quer a pequena ou a grande? — naquele tempo, Rita era minha garota favorita (uns anos antes tinha sido Betty Grable), e ela vinha em dois tamanhos. Por um dólar você podia ter a pequena Rita. Por dois e cinquenta, a grande Rita, um metro e trinta só de mulher. — A grande. — respondeu ele sem me olhar. Ele estava a mil naquela noite. Corava como um garoto tentando entrar num filme pornô com a carteira de seu irmão mais velho. — Você pode conseguir? — Calma, cara, é claro que posso. — a plateia estava aplaudindo e gritando enquanto os insetos caíam das paredes para pegar Ray Milland, que estava em estado grave de delirium tremens. — Quando? — Uma semana. Talvez menos. — Está bem. — mas ele parecia decepcionado, como se esperasse que eu tivesse uma escondida nas minhas calças naquele instante. — Quanto? Eu disse a ele o preço de custo. Podia me dar ao luxo de vender-lhe isso a preço de custo, era um bom cliente — haja vista o cinzel e os cobertores de rocha. Além disso, era um bom sujeito — em mais de uma noite quando estava tendo problemas com Bogs, Rooster e o resto, eu pensava quanto tempo levaria para usar o cinzel para partir a cabeça de alguém. Pôsteres são uma fatia grande do meu negócio, logo abaixo de bebidas e cigarros, normalmente um pouquinho acima de baseados. Nos anos sessenta, o negócio explodiu em todas as direções, com muita gente querendo pôsteres incrementados de Jimi Hendrix, Bob Dylan e aquele do filme Sem Destino. Mas a maior parte é de garotas; uma rainha de pin-up após a outra. Dias depois de Andy falar comigo, um motorista da lavanderia com quem eu tinha feito uns negócios anteriormente trouxe mais de sessenta pôsteres, a maioria de Rita Hayworth. Você talvez até se lembre da foto; eu me lembro. Rita está vestida — ou meio vestida — com um maiô, uma mão atrás da cabeça, os olhos semicerrados, os lábios vermelhos e carnudos entreabertos. Chamavam essa foto de Rita Hayworth, mas bem que podiam tê-la chamado de “mulher no cio”. Se vocês estiverem pensando sobre o assunto, deixe-me dizer que a administração sabe sobre o mercado negro. É claro que eles sabem. Provavelmente sabem quase tanto sobre meu negócio quanto eu. Eles aceitam porque sabem que uma prisão é como uma grande panela de pressão, e tem que haver

válvulas de escape para deixar sair algum vapor. Eles dão batidas ocasionais, e já fui para a solitária umas três vezes nesses anos, mas quando se trata de pôsteres eles fazem vista grossa. Viva e deixe viver. E quando uma grande Rita Hayworth aparecia na parede de alguma cela, presumia-se que tivesse vindo pelo correio, mandada por algum amigo ou parente. É claro que todos os pacotes de amigos e parentes são abertos e o conteúdo é relacionado, mas quem vai examinar e verificar a relação de conteúdo para uma coisa tão insignificante quanto um pôster de Rita Hayworth ou de Ava Gardner? Quando você está numa panela de pressão, aprende a viver e deixar viver, ou alguém te abre uma nova boca bem acima do pomo-de-adão. Você aprende a ser tolerante. Foi Ernie novamente quem levou o pôster da minha cela, a 96, para a cela de Andy, a 14. E foi Ernie quem trouxe o bilhete, escrito com a letra cuidadosa de Andy, de uma só palavra: “Obrigado”. Um pouco mais tarde, enquanto nos enfileirávamos para o rango da manhã, dei uma olhada em sua cela e pude ver Rita em cima de seu catre em toda a glória de seu maiô, a mão atrás da cabeça, os olhos semicerrados, aqueles macios e acetinados lábios entreabertos. Estava acima de seu catre de maneira que ele pudesse olhá-la à noite, depois das luzes apagadas, na luminescência das luzes de sódio do pátio de exercícios. Mas à luz brilhante do sol da manhã, havia tarjas escuras em seu rosto—a sombra das grades de sua única janela estreita.

Agora vou contar o que aconteceu em meados de maio de 1950, que finalmente encerrou a série de três anos de conflitos entre Andy e as irmãs. Foi também esse incidente que fez com que ele saísse da lavanderia e fosse para a biblioteca, onde preencheu seu tempo até deixar nossa pequena família feliz no princípio deste ano. Vocês já notaram que muito do que contei aqui foi na base do “ouvi dizer” — alguém viu alguma coisa, me contou e eu lhes contei. Bem, em alguns casos simplifiquei o negócio mais ainda e tenho repetido (ou repetirei) informações de quarta ou quinta mão. Aqui é assim. A rede de boatos é muito real, e você tem que usá-la se quiser estar sempre à frente. E também, é claro, você tem que saber separar o trigo da verdade do joio de mentiras, rumores e histórias do tipo “queria que tivesse sido assim”. Também deve ter passado pela cabeça de vocês que estou descrevendo alguém que é mais lenda do que homem, e eu teria que concordar que há alguma verdade nisso. Para nós, os “perpétuos”, que conhecemos Andy durante anos, havia nele um elemento de fantasia, um sentido quase de mágica-mito, se vocês sabem o que quero dizer. A história que contei sobre Andy recusando-se a dar uma chupada em Bogs Diamond é parte do mito, e como ele continuou a lutar contra as irmãs é parte do mito, e como ele conseguiu o trabalho na biblioteca também é... mas com uma diferença importante: eu estava lá e vi o que aconteceu, e juro pela minha mãe que é tudo verdade. O juramento de um assassino condenado pode não valer muito, mas acreditem: eu não minto. Nessa época, Andy e eu conversávamos razoavelmente. O cara era fascinante. Recordando o episódio do pôster, vejo que há uma coisa que deixei de contar, e talvez eu devesse. Cinco semanas depois que ele pendurou Rita na parede (eu já tinha esquecido completamente e estava fazendo outros negócios), Ernie passou uma pequena caixa branca pelas grades de minha cela. — De Dufresne. — disse ele em voz baixa, sem parar de varrer. — Obrigado, Ernie. — disse eu, e dei a ele meio maço de Camel. Que diabo seria aquilo, eu pensava enquanto tirava a tampa da caixa. Havia um bocado de algodão, e embaixo do algodão... Fiquei olhando por um bom tempo. Por alguns minutos foi como se eu não ousasse tocá-los, eram tão lindos... Há uma notória escassez de coisas bonitas no xadrez, e o pior disso é que muitos homens

parecem não sentir falta delas. Dentro da caixa havia dois pedaços de quartzo, ambos cuidadosamente polidos. Tinham sido lapidados na forma de troncos flutuantes dos rios. Viam-se pequeninas chispas de pinta amarela que pareciam salpicos de ouro. Se não fossem tão pesados, fariam um belo par de abotoaduras — eram quase um par perfeito. Quanto trabalho tinha sido posto na criação daquelas duas peças? Horas e horas depois das luzes apagadas, eu sabia. Primeiro o desbastamento e a lapidação, e depois o interminável polimento e acabamento com aqueles cobertores de rocha. Olhando para eles, senti o entusiasmo que qualquer homem ou mulher sente quando vê alguma coisa bela, alguma coisa que foi trabalhada e feita — acho que é isso realmente que nos diferencia dos animais — e senti outra coisa também. Um sentimento de temor pela feroz persistência do homem. Mas eu nunca percebi o quanto Andy Dufresne podia ser persistente até muito mais tarde. Em maio de 1950, os poderes vigentes decidiram que o telhado da fabrica de placas de veículos tinha que ser recoberto com alcatrão. Queriam o serviço pronto antes que ficasse muito quente lá em cima, e pediram voluntários para o trabalho, que devia levar mais ou menos uma semana. Mais de setenta homens se ofereceram, porque era trabalho ao ar livre, e maio é um ótimo mês para serviços ao ar livre. Nove ou dez nomes foram sorteados num chapéu, e dois deles foram o meu e o de Andy. Na semana seguinte, marchávamos para o pátio depois do café da manhã, com dois guardas à frente e mais dois atrás... e mais todos os guardas nas torres de sobreaviso na operação com seus binóculos, como precaução. Quatro de nós carregávamos uma escada de extensão naquelas marchas matinais — sempre achei um barato o nome pelo qual Dickie Betts, que estava no serviço, chamava aquele tipo de escada: extensível — e a encostávamos naquele edifício baixo. Então começávamos a passar baldes de alcatrão quente até o telhado. Derrame aquela merda em você e você vai dançando swing até a enfermaria. Havia seis guardas no projeto, todos escolhidos na base de tempo de serviço. Era quase tão bom quanto uma semana de férias, porque ao invés de suar na lavanderia ou na oficina de placas, ou ficar com um bando de presos cortando polpa de frutos ou gravetos em algum lugar, eles estavam tendo um feriado ao sol de maio, recostados no parapeito baixo, jogando conversa fora. Eles não precisavam nem dar uma olhadinha em nossa direção, porque o posto de sentinela do muro sul estava bastante próximo, de modo que os caras lá de cima poderiam cuspir em nós, se quisessem. Se qualquer um do nosso grupo de trabalho fizesse algum movimento estranho, seriam necessários apenas quatro segundos para ser cortado ao meio com uma rajada de metralhadora calibre 45. Desse modo, os seis guardas estavam simplesmente sentados lá, numa boa. Tudo o que eles queriam era uma dúzia de cervejas enterradas em gelo moído, e seriam os senhores de toda a criação. Um deles era um sujeito chamado Byron Hadley e, em 1950, ele estava em Shawshank há mais tempo do que eu. Há mais tempo do que os dois últimos diretores juntos. O cara que comandava o espetáculo em 1950 era um ianque do leste com jeito de maricas chamado George Dunahy. Era formado em administração penal. Que eu saiba, ninguém gostava dele, exceto o pessoal que o tinha nomeado. Eu soube que ele só estava interessado em três coisas: em compilar estatísticas para um livro (que mais tarde foi publicado por uma pequena editora da Nova Inglaterra, chamada Light Side Press, onde ele certamente pagou para tê-lo publicado); saber qual o time que tinha ganho o campeonato regional de beisebol em setembro; e conseguir uma lei de pena de morte para o estado do Maine. Era um árduo defensor da pena de morte, esse George Dunahy. Foi demitido em 1953, quando se noticiou que estava administrando um serviço mecânico com desconto na garagem da prisão e dividindo o lucro com Byron Hadley e Greg Stammas. Hadley e Stammas saíram dessa sem um arranhão — eram macacos velhos o

bastante para cobrirem os seus traseiros — mas Dunahy dançou. Ninguém ficou triste com a sua saída, mas também ninguém ficou feliz de ver Greg Stammas tomar seu lugar. Greg era baixo, tinha uma barriga dura e os olhos castanhos mais feios que já vi. Tinha sempre um sorriso forçado, contraído e doloroso em seu rosto, como se quisesse ir ao banheiro e não conseguisse. Durante o período de Stammas como diretor, houve muita brutalidade em Shawshank, e, apesar de não ter provas, creio que houve pelo menos uma meia dúzia de enterros noturnos na pequena floresta de moitas a leste da prisão. Dunahy era mau, mas Greg Stammas era um homem cruel, odioso, um coração de pedra. Ele e Byron Hadley eram bons amigos. Como diretor, George Dunahy era só uma figura decorativa; era Stammas, e através dele Hadley, quem realmente administrava a prisão. Hadley era um homem alto e desajeitado com poucos cabelos ruivos. Queimava- se facilmente ao sol, falava alto, e se você não andasse depressa para agradálo, levava uma sarrafada. Naquele dia, que era o nosso terceiro no telhado, ele estava conversando com um outro guarda chamado Mert Entwhistle. Hadley tinha recebido notícias excepcionalmente boas e estava resmungando a respeito. Este era seu estilo — era um homem ingrato que não tinha uma palavra boa para ninguém, um homem convencido de que o mundo inteiro estava contra ele. O mundo o tinha lesado nos melhores anos de sua vida, e o mundo ficaria mais feliz em lesá-lo no resto. Já vi alguns guardas que eu pensava serem quase santos, e acho que sei por que isso acontece — eles são capazes de ver a diferença entre suas próprias vidas, pobres e difíceis que sejam, e as vidas dos homens que o estado lhes paga para vigiar. Estes guardas são capazes de fazer uma comparação referente à desgraça. Outros não fazem ou não querem. Para Byron Hadley, não havia termos de comparação. Ele podia sentar lá, calmo e à vontade sob o morno sol de maio, e ter o desplante de lamentar sua boa sorte enquanto que a menos de dez metros um bando de homens trabalhava, suava e queimava as mãos em grandes baldes cheios de alcatrão fervendo, homens que tinham que trabalhar tão duro em seu dia-a-dia que isto parecia um alívio. Você deve se lembrar de uma velha pergunta, aquela que define sua concepção de vida quando você a responde. Para Byron Hadley, a resposta seria sempre “meio vazio, o copo está meio vazio”. Para todo o sempre, amém. Se lhe dessem uma cidra gelada para beber, pensaria em vinagre. Se lhe dissessem que sua mulher sempre lhe tinha sido fiel, diria que era porque ela era feia como o diabo. E lá estava ele sentado, conversando com Mert Entwhistle em voz alta, alta o bastante para todos nós ouvirmos, a sua larga testa branca já começando a ficar vermelha por causa do sol. Uma das mãos estava apoiada sobre o parapeito que cercava o telhado. A outra estava na coronha do seu .38. Nós todos ouvimos a história junto com Mert. Parecia que o irmão mais velho de Hadley tinha ido embora para o Texas uns quatorze anos antes, e o resto da família não tinha tido notícias do filho da mãe esse tempo todo. Todos pensavam que ele estava morto, graças a Deus. Então, há uma semana e meia, um advogado tinha telefonado para eles de Austin. O negócio era que o irmão de Hadley tinha morrido há quatro meses, e morrido rico (— É foda como alguns imbecis podem ter tanta sorte — comentou esse exemplo de gratidão no telhado da oficina de placas). O dinheiro era resultante de petróleo e arrendamento de petróleo, e chegava a um milhão de dólares. Não, Hadley não era um milionário — isso poderia tê-lo feito feliz, pelo menos por algum tempo — mas o irmão tinha feito um legado decente de trinta e cinco mil dólares para cada membro vivo da família que pudesse ser encontrado em Maine. Nada mal. É como ganhar o sweepstake. Mas para Byron Hadley, o copo estava sempre meio vazio. Ele passou mais da metade da manhã reclamando com Mert a dentada que o diabo do governo ia dar na sua herança: — Eles vão me deixar apenas com o suficiente para comprar um carro novo. — estimou. — E aí, o que acontece? Você tem que pagar taxas sobre o carro, consertos e manutenção, e as malditas crianças te

aporrinhando para dar um passeio com a capota arriada... — E para dirigir, se tiverem idade. — disse Mert. O velho Mert Entwhistle sabia onde tinha o nariz e não disse o que devia ser óbvio para ele e para todos nós: “Se esse dinheiro está te preocupando tanto, meu velho Byron, vou tirar tal peso de cima de você. Afinal de contas, para que servem os amigos?”. — É isso aí, querendo dirigir o carro, querendo aprender a dirigir nele, pelo amor de Deus. — disse Byron, estremecendo. — E aí, o que é que acontece no final do ano? Se você calculou o imposto de renda errado e não tem uma reserva para pagar o que falta, tem que pagar do seu bolso, ou talvez até pegar emprestado num desses agiotas. E eles examinam a sua declaração. Não tem jeito. E quando você cai na malha fina eles sempre levam mais. Quem pode lutar contra o Tio Sam? Ele põe a mão dentro da sua camisa e aperta seu bico até ficar roxo, e você acaba entrando num rabo-de-foguete. Caramba. Calou a boca de mau humor, pensando no azar de ter herdado aqueles trinta e cinco mil dólares. Andy Dufresne estava espalhando alcatrão com um pincel grande a menos de 4 metros de distância; então atirou o pincel dentro do balde e foi até onde Mert e Hadley estavam sentados. Nós todos ficamos tensos e eu vi um outro guarda, Tim Youngblood, levar sua mão até o coldre da pistola. Um dos caras na torre bateu de leve no braço do companheiro e os dois se viraram também. Por um instante, pensei que Andy fosse levar um tiro, ou levar umas cacetadas, ou as duas coisas. Então ele disse tranquilamente para Hadley: — Você confia na sua mulher? Hadley encarou-o fixamente. Estava começando a ficar com o rosto vermelho e isso era um mau sinal, eu sabia disso. Em três segundos ia tirar o cassetete e acertar Andy no plexo solar, onde fica um grande feixe de nervos. Uma pancada violenta nesse local pode matar, mas eles sempre acertam aí. Se não te matar, vai te deixar paralítico por algum tempo, o bastante para você esquecer qualquer movimento engraçadinho que tivesse planejado. — Rapaz... — disse Hadley. — Vou te dar só uma chance de apanhar aquele pincel, ou vai sair deste telhado de cabeça. Andy só olhou para ele, quieto e bem calmo. Seus olhos pareciam de gelo. Era como se ele não tivesse escutado. E eu me surpreendi querendo lhe ensinar, dar a ele um curso intensivo. O curso intensivo consiste em nunca deixar que os guardas percebam que você está ouvindo a conversa deles, nunca se meter em suas conversas, a menos que te peçam (e então você sempre diz o que eles querem ouvir e cala a boca de novo) Branco, preto, vermelho, amarelo—na prisão não faz a menor diferença porque temos a nossa própria marca de igualdade. Na prisão todo preso é um “crioulo”, e você tem que se acostumar com a ideia se pretende sobreviver a homens como Hadley e Greg Stammas, que realmente te matariam logo que olhassem para você. Quando você está no xadrez, pertence ao Estado e se se esquecer disso, coitado de você. Conheci uns homens que perderam olhos, homens que perderam dedos do pé e da mão; conheci um homem que perdeu a ponta do seu pênis e deu graças a Deus de ter sido só isso. Eu queria dizer a Andy que já era tarde demais. Ele poderia voltar e apanhar o pincel, mas ainda haveria um monstro esperando por ele nos chuveiros aquela noite, pronto para quebrar suas pernas e deixá-lo se contorcendo no cimento. Pode-se comprar um imbecil desses com um maço de cigarros ou três barras de chocolate. Mas, acima de tudo, queria dizer-lhe para não fazer a coisa pior do que já estava. O que fiz foi continuar a colocar o alcatrão no telhado como se nada estivesse acontecendo. Como todos os outros, tomo conta do meu rabo primeiro. É meu dever. Ele já está rachado, e em Shawshank tem sempre os Hadleys querendo continuar o serviço. Andy continuou:

— Talvez eu tenha me expressado errado. Se o senhor confia ou não na sua mulher, é irrelevante. O problema é se acredita ou não que ela tentasse te passar para trás. Hadley se levantou. Mert se levantou, e Youngblood se levantou. Hadley estava vermelho como um carro de bombeiros. — Seu único problema... — disse ele. — É saber quantos ossos inteiros você ainda terá. Poderá contar na enfermaria. Vamos, Mert. Vamos jogar esse babaca lá embaixo. Tim Youngblood sacou seu revólver. O resto de nós continuou a passar alcatrão como maníacos furiosos. O sol queimava. Eles não estavam brincando; Hadley e Mert iam arremessá-lo do telhado. Um acidente terrível. Dufresne, prisioneiro 81433-SHNK, levava uns baldes vazios para baixo quando escorregou da escada. Que azar. Eles o seguraram, Mert pelo braço direito, Hadley pelo esquerdo. Andy não ofereceu resistência. Continuou olhando para o rosto vermelho e furioso de Hadley. — Se o senhor a domina, Sr. Hadley... — continuou na mesma voz calma e segura. — Não há razão para não ter cada centavo desse dinheiro. Placar final: Sr. Byron Hadley trinta e cinco mil, Tio Sam zero. Mert começou a arrastá-lo para a beira. Hadley ficou parado. Por um momento, Andy era como uma corda entre eles num cabo de guerra. Então Hadley disse: — Espere um minuto, Mert. O que é que você quer dizer, rapaz? — Quero dizer que, se é o senhor quem manda, pode dar o dinheiro a ela — disse Andy. — E melhor que você comece a ser claro, rapaz, ou vai cair lá embaixo. — O Imposto de Renda lhe permite uma única doação a seu cônjuge. — continuou Andy. — Pode ser de até sessenta mil dólares. Hadley agora olhava para Andy como se tivesse levado uma machadada. — Não, isso está errado. — disse. — Isenta de imposto? — Isento de imposto. — respondeu Andy. — O Governo não pode tocar em nenhum centavo. — Como é que você sabe disso? Tím Youngblood disse: — Ele era banqueiro, Byron. Pode ser que... — Cale a boca, truta. — disse Hadley, sem olhar para ele. Tim Youngblood corou e se calou. Alguns guardas o chamavam de truta por causa de seus lábios grossos e dos olhos esbugalhados. Hadley continuou olhando para Andy. — Você é o banqueiro esperto que atirou na mulher. Por que devo acreditar num banqueiro esperto como você? Para terminar meus dias aqui quebrando pedra em sua companhia? Você bem que gostaria disso, não é? Calmamente, Andy continuou: — Se o senhor fosse para a cadeia por sonegação de impostos, iria para uma penitenciária federal, e não para Shawshank. Mas não vai. A doação isenta de imposto para o cônjuge é uma saída perfeitamente legal. Já fiz dúzias... não, centenas delas. Destina-se principalmente a pessoas com pequenos negócios para passar, para pessoas que recebem uma herança de uma só vez. Como o senhor. — Acho que você está mentindo. — disse Hadley, mas não achava. — podia- se ver que ele não achava. Havia uma expressão de emoção em seu rosto, alguma coisa grotesca recobrindo aquela fisionomia longa e feia e aquela testa miúda e queimada. Uma emoção quase obscena quando vista nos traços de Byron Hadley. Era esperança. — Não, não estou mentindo. Não há motivo para acreditar em mim também. Arranje um advogado... — Filhos da puta, ladrões, caçadores de ambulância e de porta de cadeia! — gritou Hadley. Andy

deu de ombros. — Então vá ao Imposto de Renda. Eles lhe dirão a mesma coisa, de graça. Na verdade, o senhor não precisa de mim para lhe dizer isso. Deveria ter investigado o assunto sozinho. — Seu fodido! Não preciso de nenhum banqueiro esperto assassino da mulher para me mostrar que dois e dois são quatro! — O senhor vai precisar de um advogado especialista em impostos ou de um banqueiro para estabelecer a doação, e isso lhe custará alguma coisa — disse Andy. — Ou... se o senhor estiver interessado, eu teria prazer em fazer isso para o senhor, quase de graça. O preço seria três cervejas por cabeça para cada um de meus colaboradores... — Colaboradores — disse Mert, e soltou uma gargalhada esganiçada. Ele deu uma palmada no joelho. O velho Mert tinha mania de dar palmadas no joelho, e espero que tenha morrido de câncer intestinal em algum lugar do mundo onde não se tenha ouvido falar em morfina. — Colaboradores, não é, engraçadinho? Colaboradores? Você não tem... — Cale esta maldita boca. — rosnou Hadley, e Mert calou. Hadley olhou para Andy novamente. — O que é que você estava dizendo? — Eu estava dizendo que pediria somente três cervejas por cabeça para meus colaboradores, se isso parecer justo. — respondeu Andy. — Acho que um homem se sente mais homem quando está trabalhando ao ar livre na primavera se ele puder ter uma garrafa de cerveja. Desceria macio, e tenho certeza de que o senhor teria a gratidão deles. Eu conversei com alguns dos homens que estavam lá em cima naquele dia — Rennie Martin, Logan St. Pierre e Paul Bonsaint eram três deles — e todos nós vimos a mesma coisa... sentimos a mesma coisa. De repente era Andy quem tinha vantagem. Era Hadley quem tinha o revólver na cintura e o cassetete na mão, era Hadley quem tinha seu amigo Greg Stammas o apoiando, e toda a administração da prisão apoiando Stammas, todo o poder do Estado apoiando isso tudo, mas de repente naquele sol dourado nada disso fez diferença, e eu senti meu coração dar um pulo dentro do peito como não acontecia desde que um caminhão trouxe a mim e a mais quatro pelo portão, em 1938, e eu pisei no pátio de exercícios. Andy olhava para Hadley com aqueles olhos frios, claros e calmos, e não foram só os trinta e cinco mil então, nós concordamos nisso. Já repeti a cena várias vezes na minha cabeça, e sei que era homem contra homem. Andy simplesmente forçou-o, da maneira que um homem forte força o pulso de um homem mais fraco até a mesa numa queda de braço. Não havia razão, veja bem, para Hadley não ter dado o sinal a Meti naquele instante, jogado Andy lá de cima e ainda seguido seu conselho. Nenhuma razão. Mas ele não fez isso. — Eu podia arranjar umas cervejas para vocês, se quisesse. — disse Hadley. — Uma cerveja realmente pega bem quando você está trabalhando. — aquele porra ainda conseguia parecer generoso. — Só vou lhe dar um conselho que o Imposto de Renda não daria — disse Andy. Seus olhos estavam fixos em Hadley, sem pestanejar. — Só faça essa doação à sua esposa se o senhor tiver certeza. Se o senhor acha que existe uma única chance de que ela possa enganá-lo ou traí-lo, podemos planejar outra coisa... — Trair? — perguntou Hadley, asperamente. — Trair? Seu Banqueiro Figurão, se ela engolisse uma caixa inteira de laxantes, não ousaria peidar sem meu consentimento! Mert, Youngblood e os outros guardas sorriram respeitosamente. Andy não esboçou um sorriso hora nenhuma. — Vou fazer uma lista dos formulários necessários. — disse. — Pode consegui- los no correio, e eu os preencho para que o senhor assine. Isto deu um toque de importância, e o peito de Hadley estufou-se.

Então olhou em volta para nós e berrou: — O que é que os idiotas estão olhando? Ao trabalho, droga! — de novo para Andy: — Você vem comigo, figurão. E escute bem: se estiver me passando para trás de algum modo, vai se ver procurando sua própria cabeça no chuveiro antes do final da semana! — Entendido. — disse Andy calmamente. E entendeu. Do jeito que as coisas aconteceram, ele entendeu muito mais do que eu — muito mais do que qualquer um de nós. E foi assim que, no antepenúltimo dia de serviço, a turma de presos que alcatroava o telhado da fábrica de placas em 1950 acabou sentada em fileira às 10 horas de uma manhã de primavera, bebendo cerveja Black Label fornecida pelo guarda mais durão que já entrou na Prisão Estadual de Shawshank. Aquela cerveja estava morna que nem xixi, mas foi a melhor que já tomei na vida. Nós sentamos e bebemos, e sentimos o sol em nossos ombros, e mesmo a expressão do rosto de Hadley, de divertimento e desprezo — como se ele estivesse vendo macacos beber cerveja — não conseguiu estragar nosso prazer. Durou vinte minutos aquele descanso para a cerveja, e naqueles vinte minutos nos sentimos homens livres. Parecia que estávamos tomando cerveja e alcatroando o telhado de nossas próprias casas. Só Andy não bebeu. Já falei sobre seu hábito de beber. Ficou agachado na sombra, as mãos entre os joelhos, nos observando e sorrindo um pouco. E impressionante quantos homens se lembram dele daquele jeito, e impressionante também quantos homens estavam naquela turma de trabalho quando Andy Dufresne defrontou- se com Byron Hadley. Eu pensava que eram só nove ou dez, mas em 1955 deve ter havido uns duzentos, talvez mais... se você acreditasse no que ouvia. E isso: se vocês me pedissem para responder diretamente se estou tentando lhe contar sobre um homem ou uma lenda que se criou em torno dele, como uma pérola que se forma em torno de um grão, eu diria que a resposta está mais ou menos no meio. Tudo o que sei, com certeza, é que Andy Dufresne não era como eu ou como qualquer outra pessoa que já conheci desde que vim para cá. Ele trouxe quinhentos dólares enfiados no traseiro, mas de alguma forma aquele filho da mãe conseguiu trazer uma outra coisa também. Um senso de seu próprio valor, talvez, ou um sentimento de que, no fim, seria o vencedor... ou talvez até fosse um senso de liberdade, mesmo no interior desses malditos muros cinzentos. Era uma espécie de luz interior que carregava consigo. Eu só o vi perder essa luz uma única vez, e isso também é parte da minha história. Na época do campeonato mundial de 1950 — foi o ano em que os Whiz Kids de Filadélfia perderam quatro seguidas, você se lembra — Andy não estava mais tendo problemas com as irmãs. Stammas e Hadley tinham dado o recado. Se Andy Dufresne viesse a qualquer um dos dois, ou a outro guarda que fizesse parte da turma, e mostrasse uma gotinha que fosse de sangue na sua cueca, cada irmã de Shawshank iria para a cama à noite com dor de cabeça. Elas não insistiram mais. Como eu já disse, havia sempre um ladrão de automóveis de 18 anos de idade, um incendiário ou um cara que gostava de bolinar criancinhas. Depois daquele dia no telhado da fábrica de placas, Andy e as irmãs tomaram caminhos diferentes. Nessa época, ele estava trabalhando na biblioteca sob as ordens de um velho detento duro de roer chamado Brooks Hatlen. Hatlen tinha conseguido esse trabalho em fins da década de 20 porque tinha formação universitária. Brooksie era formado em zootecnia, é verdade, mas é tão raro encontrar alguém com curso superior num lugar como este que parece aquele caso dos mendigos que não podem ser exigentes. Brooksie, que tinha matado a esposa e a filha depois de uma maré de azar no pôquer na época em que Coolidge era presidente, ganhou liberdade condicional em 1952. Como sempre, o Estado, do alto de sua sabedoria, deixou-o sair muito depois da idade em que pudesse ser útil à sociedade. Tinha 68 anos e

sofria de artrite quando saiu, trôpego, pelo portão principal, de terno polonês e sapato francês, seu documento de liberdade numa das mãos e uma passagem de ônibus da Greyhound na outra. Estava chorando quando partiu. Shawshank era seu mundo. O que ficava além de seus muros era tão terrível quanto os mares ocidentais para os marinheiros supersticiosos do século XV. Na prisão, Brooksie tinha sido uma pessoa de alguma importância. Era o bibliotecário, um sujeito formado. Se ele fosse à biblioteca de Kittery e pedisse um emprego, não lhe dariam nem mesmo uma carteirinha de sócio. Soube que ele morreu num asilo de indigentes no caminho para Freeport em 1953, e com isso durou uns seis meses a mais do que eu pensava que fosse durar. E, acho que o Estado teve sua restituição com Brooksie. Eles o treinaram para gostar dessa casa de merda e depois o botaram para fora. Andy assumiu o trabalho de Brooksie e foi bibliotecário durante 23 anos. Para conseguir para a biblioteca o que ele queria, usava a mesma força de vontade que o vi usar com Byron Hadley. Aos poucos ele transformou um quartinho (que ainda cheirava a aguarrás, pois tinha sido um depósito de tintas até 1922 e nunca fora arejado devidamente), coberto de romances condensados do Reader’s Digest e do National Geographics, na melhor biblioteca das prisões da Nova Inglaterra. Fez isso passo a passo. Colocou na porta uma caixa de sugestões, e pacientemente eliminou todas as tentativas de humor do tipo “mais livro de sacanagem, por favor” e “Como fugir em 10 lição fácil” Conseguiu coisas que os prisioneiros pareciam encarar seriamente. Escreveu aos maiores clubes de livro de Nova Yorque e conseguiu que dois deles, o Grêmio Literário e o Clube do Livro do Mês, nos enviassem edições de todas as suas maiores seleções a um preço especial. Descobriu uma sede de informações sobre pequenos passatempos como entalhe em pedrasabão, em madeira, prestidigitação e jogos de paciência. Conseguiu todos os livros que pôde sobre esses assuntos. E dois autores preferidos dos prisioneiros, Erle Stanley Gardner e Louis L’Amour. Os presos nunca se fartam de tribunais ou de planícies abertas. E tinha também, é claro, uma caixa de livrinhos picantes debaixo da mesa, que emprestava com cuidado, certificando-se de que eram sempre devolvidos. Mesmo assim, cada nova aquisição deste gênero era lida rapidamente até ficar em frangalhos. Em 1954, começou a escrever para o Senado Estadual em Augusta. Stammas era o diretor nessa época, e costumava fazer de conta que Andy era uma espécie de mascote. Estava sempre na biblioteca conversando com Andy, e às vezes até colocava um braço paternal em seus ombros ou lhe dava um tapinha amigável. Ele não enganava ninguém. Andy Dufresne não era mascote de ninguém. Stammas disse a Andy que talvez ele tivesse sido um banqueiro lá fora, mas que essa parte de sua vida estava rapidamente virando um passado longínquo, e ele tinha mais é que entender os fatos da vida na prisão. No que diz respeito àquele bando de rotarianos republicanos em Augusta, havia somente três gastos viáveis do dinheiro dos contribuintes no setor de prisões e correcionais. Número um era mais muros; número dois, mais grades; e número três, mais guardas. Para o Senado Estadual, explicou Stammas, o pessoal de Thomastan, Shawshank, Pittsfield e South Portland era a escória da terra. Eles estavam lá para cumprir duras penas, e por Deus e seu filhinho Jesus, iam ser duras as suas penas. E se existissem uns poucos carunchos no pão, isso não era ruim pra caralho? Andy deu seu sorrisinho sereno e perguntou a Stammas o que aconteceria a um bloco de concreto se caísse sobre ele uma gota d’água por ano durante um milhão de anos. Stammas riu e bateu-lhe nas costas: — Você não tem um milhão de anos, meu velho, mas se tivesse acredito que os passaria com o mesmo sorrisinho no rosto. Vá em frente e escreva suas cartas. Eu até coloco no correio para você, se pagar o selo. E foi o que ele fez. E foi ele quem riu por último, embora Stammas e Hadley não estivessem aqui para ver. Os pedidos de Andy de verbas para a biblioteca foram sistematicamente recusados até 1960, quando recebeu um cheque de duzentos dólares — o Senado provavelmente o enviou na esperança de que

ficasse quieto e desaparecesse. Esperança vã. Andy sentiu que tinha dado o primeiro passo, e redobrou seus esforços; duas cartas por semana em vez de uma. Em 1962 conseguiu quatrocentos dólares, e pelo resto da década a biblioteca recebeu setecentos dólares anuais regularmente. Por volta de 1971, tinha aumentado para mil dólares. Não é muito se comparado com o que uma biblioteca de uma cidadezinha média recebe, acho eu, mas mil dólares compram um bocado de livros de segunda mão do detetive Perry Mason e bangue-bangues de Jake Logan. Na época em que Andy saiu, podia- se entrar na biblioteca (ampliada do armário de tintas original para três cômodos) e achar quase tudo que se quisesse. E se não achasse, havia grandes possibilidades de Andy consegui-lo para você. Agora você está se perguntando se tudo isso aconteceu só porque Andy disse a Byron Hadley como economizar o imposto sobre a herança. A resposta é sim... e não. Você pode imaginar o que aconteceu. Correu o boato que Shawshank estava hospedando seu próprio gênio financeiro de estimação. No fim da primavera e no verão de 1950, Andy elaborou dois fundos de reserva para os guardas que queriam assegurar uma educação universitária para seus filhos, aconselhou outros que queriam começar pequenas carteiras de ações (e eles se deram muito bem no final das contas; um deles se deu tão bem que pôde se aposentar mais cedo dois anos depois) e que um raio me parta ao meio se ele não aconselhou o próprio diretor, o velho “lábios de limão”, George Dunahy, a criar uma proteção contra impostos. Isso foi antes de Dunahy levar o chute no traseiro, e acho que ele devia estar sonhando com todos os milhões que seu livro ia lhe render. Em abril de 1951, Andy estava fazendo as declarações de imposto de renda para metade dos guardas de Shawshank e em 1952, para quase todos eles. Ele era pago no que pode ser a moeda mais valiosa de uma prisão: simples boa vontade. Mais tarde, depois que Greg Stammas assumiu o cargo de diretor, Andy ficou ainda mais importante — mas se eu tentasse contar os detalhes de como fez isso, estaria conjecturando. Há algumas coisas que eu sei, e outras que posso apenas conjecturar a respeito. Sei que existiam detentos que tinham todo tipo de regalias — rádio nas celas, privilégios extraordinários de visita, coisas assim — e havia gente do lado de fora que pagava para que eles tivessem esses privilégios. Essas pessoas eram chamadas de “anjos” pelos detentos Sem mais nem menos um cara era liberado de seu serviço na oficina de placas na manhã de sábado, e você sabia que aquele sujeito tinha um anjo lá fora que havia soltado um bolo de grana para garantir o privilégio. A maneira que normalmente funciona é que o anjo paga o suborno a um guarda de nível médio que espalha a “graxa” para cima e para baixo na escada administrativa. Então houve o serviço mecânico com desconto que derrubou o Diretor Dunahy. O serviço submergiu por algum tempo e reapareceu mais forte do que nunca no final dos anos cinquenta. E alguns dos empreiteiros que trabalhavam na prisão de vez em quando estavam dando comissões aos altos funcionários administrativos, tenho certeza disso, e isso se aplicava também às companhias que vendiam equipamentos para a lavanderia, para a oficina de placas de veículos e para o moinho de minérios, construído em 1963. No final da década de sessenta houve um rápido crescimento no comércio de bolinhas, e o mesmo pessoal da administração estava ganhando uma nota com isso. Tudo concorria para formar um grande rio de renda ilícita. Não é como a pilha de grana clandestina que rola em prisões grandes como Attica ou San Quentin, mas não era mixaria também. E dinheiro também vira um problema depois de um certo tempo. Você não pode enfiar na carteira e depois soltar um monte de notas de dez e vinte quando quiser construir uma piscina ou ampliar sua casa. Depois que se passa de um certo ponto, tem-se que explicar de onde veio o dinheiro.., e se suas explicações não forem convincentes, você é capaz de acabar usando um número às costas também. Desse modo, os serviços de Andy eram necessários. Isso o tirou da lavanderia e o instalou na biblioteca, mas se encararmos de outra maneira, ele nunca saiu da lavanderia. Simplesmente o puseram

para trabalhar lavando dinheiro sujo no lugar de roupa suja. Ele canalizava isso em ações, títulos, obrigações, qualquer coisa. Um dia, uns dez anos depois daquele episódio no telhado, ele me disse que seus sentimentos a respeito do que fazia eram muito claros, e que sua consciência não estava pesada. As fraudes aconteceriam com ele ou sem ele. Não pedira para ser mandado para Shawshank, continuou; era um homem inocente que tinha sido vitima de um azar colossal, e não um missionário ou um benfeitor da humanidade. — Além disso, Red... — continuou com o mesmo meio-sorriso. — O que estou fazendo aqui não é muito diferente do que estava fazendo lá fora. Vou te expor um axioma bem cínico: a quantidade de consultoria financeira especializada que um indivíduo ou uma firma necessita aumenta na proporção direta da quantidade de gente que aquele indivíduo ou aquela firma está lesando. Em sua maioria, as pessoas que administram este lugar são monstros brutais e estúpidos. As pessoas que mandam no mundo lá fora são brutais e monstruosas, mas não são estúpidas, porque o padrão de competência lá fora é um pouco mais alto. Não muito, mas um pouco. — Mas as pílulas. — disse eu. — Não quero te ensinar o teu negócio, mas isso me deixa nervoso. Excitantes, calmantes, Nembutal — e agora tem essas coisas que chamam de “fase quatro”. Nunca vou entrar numa dessas. Nunca entrei. — Não. — disse Andy. — Também não gosto de bolinhas. Nunca gostei. Mas também não sou muito de cigarros e bebida. Mas não entro nessa de bolinhas. Não mando buscar nem vendo aqui quando tem. Quase sempre são os guardas que fazem isso. — Mas... — É, eu sei. Tem uma linha muito sutil aí. O negócio, Red, é que algumas pessoas se recusam a sujar as mãos. Isso se chama santidade e os pombos pousam em seus ombros e fazem cocô em sua camisa. O outro extremo é tomar um banho de sujeira e fazer alguma coisa que te dê algum lucro — armas, canivetes, heroína, o diabo. Algum detento já te ofereceu um contrato? Sacudi a cabeça. Já acontecera muitas vezes nesses anos. Afinal das contas, você é o cara que arranja as coisas. E eles pensam que se você arranja pilhas para o rádio ou pacotes de cigarro ou seda para baseado, você também pode colocá-los em contato com alguém que tenha uma faca. — É claro que sim. — concordou Andy. — Mas você não faz isso. Porque caras como nós, Red, sabemos que há uma terceira opção. Uma alternativa entre permanecer autêntico ou se banhar na sujeira e na lama. E a alternativa que os adultos do mundo inteiro escolhem. Você se equilibra no meio do lamaçal lutando contra o que pode te derrubar. Você escolhe o menor dos dois males e tenta manter as boas intenções à sua frente. E acho que você julga se está indo bem se for capaz de dormir bem à noite... e ter bons sonhos. — Boas intenções... — disse eu, e ri. — Sei tudo sobre isso, Andy. Um camarada pode caminhar até o inferno nessa estrada. — Não acredite nisso. — disse ele, ficando grave. — Isso aqui é que é inferno. Aqui mesmo em Shank. Eles vendem bolinhas e eu ensino o que fazer com o dinheiro. Mas eu também tenho a biblioteca, e conheço mais de duas dúzias de caras que estudaram naqueles livros para passar no exame supletivo. Talvez quando saírem daqui sejam capazes de rastejar para fora da merda. Quando precisamos daquela segunda sala em 1957, eu consegui. Porque queriam me deixar feliz. Eu cobro barato. Esse é o troco. — E você tem uma cela particular. — Exatamente. E assim que eu gosto. A população carcerária havia crescido lentamente durante os anos cinquenta e quase explodiu nos anos sessenta, pois todos os garotos em idade de cursar uma universidade queriam experimentar drogas,

e as penalidades eram completamente ridículas pelo uso de um pequeno baseado. Mas durante todo esse tempo, Andy nunca teve um companheiro de cela, a não ser um índio alto e calado chamado Normaden (como todos os índios em Shank, era chamado de Chefe), e Normaden foi embora logo. Muitos dos outros “perpétuos” achavam que Andy era maluco, mas Andy apenas sorria. Vivia sozinho e gostava que fosse assim... e, como ele mesmo dizia, gostavam de deixá-lo feliz. Cobrava barato. O tempo na prisão passa lentamente, algumas vezes você jura que vai parar, mas passa. George Dunahy saiu de cena com os jornais berrando coisas como ESCÂNDALO e FAZENDO O PÉ-DE MEIA. Stammas sucedeu-o, e durante os seis anos seguintes Shawshank virou uma espécie de inferno na terra. Enquanto durou o reinado de Greg Stammas, as camas da enfermaria e as celas da ala das solitárias estavam sempre cheias. Um dia, em 1958, me olhei num pequeno espelho de barbear que tinha em minha cela e vi um homem de quarenta anos. Um garoto tinha chegado aqui em 1938, um garoto de fartos cabelos ruivos como cenoura, meio atormentado de remorso, pensando em suicídio. Aquele garoto não existia mais. O cabelo ruivo estava ficando grisalho e começando a diminuir. Tinha pés-de-galinha em volta dos olhos. Naquele dia pude ver um velho dentro de mim esperando a hora de mostrar-se. Senti medo. Ninguém quer envelhecer na cadeia. Stammas saiu no começo de 1959. Havia vários repórteres xeretando, e um deles até ficou quatro meses com um nome falso por causa de um crime fictício. Estavam só esperando para publicar ESCÂNDALO e FAZENDO O PÉ-DEMEIA novamente, mas antes que pudessem acusá-lo, Stammas pulou fora. Posso entender isso, cara, e como. Se ele tivesse sido julgado e condenado, teria acabado aqui. Se isso tivesse acontecido, não duraria mais de cinco horas. Byron Hadley tinha ido embora dois anos antes. O canalha teve um enfarte e se aposentou mais cedo. Andy nunca se envolveu no caso de Stammas. No início de 1959 foi nomeado um novo diretor, e um novo assistente do diretor e um novo chefe dos guardas. Nos oito meses seguintes mais ou menos, Andy voltou a ser apenas mais um presidiário. Foi nesse período que Normaden, o índio mestiço Passamaquoddy, dividiu a cela com Andy. Depois tudo voltou ao normal. Normaden foi transferido e Andy voltou a viver em seu esplendor solitário. Os nomes mudam, mas o jogo nunca. Certa vez conversei com Normaden sobre Andy. — Bom sujeito. — disse Normaden. Era difícil entender o que ele dizia, pois tinha lábio leporino e o palato aberto; as palavras saiam espirradas. — Gostava de lá. Ele nunca zombou de mim. Mas não queria que eu ficasse. Sentia isso. — deu de ombros. — Fiquei feliz de ir embora, eu. Corrente de ar forte naquela cela. O tempo todo frio. Não deixa ninguém pegar nas coisas dele. Tudo bem. Bom sujeito, nunca zombou de mim. Mas corrente de ar forte. Rita Hayworth ficou pendurada na cela de Andy até 1955, se não me engano. Depois foi Marilyn Monroe, aquela foto do filme O pecado mora ao lado em que ela está de pé sobre uma grade do metrô e o ar quente está levantando sua saía. Marilyn ficou até 1960, e já estava bem dobrada nas pontas quando Andy substituiu-a por Jayne Mansfield. Jayne era, com perdão da palavra, uma peituda. Só depois de um ano ou mais foi substítuída por uma atriz inglesa—deve ter sido Hazel Court, mas não tenho certeza. Em 1966, essa saiu e Raquel Welch subiu batendo o recorde de seis anos de permanência na cela de Andy. O último poster foi o de uma bonita cantora de rock country chamada Linda Ronstadt. Perguntei-lhe certa vez o que os pôsteres significavam para ele, e ele me lançou um olhar peculiar, surpreso. — Ora bolas, significam o mesmo que para a maioria dos presidiários, eu acho. — disse ele. — Liberdade. Você olha aquelas mulheres bonitas e acha que pode quase... não de verdade, mas quase... entrar lá e ficar ao lado delas. Ser livre. Acho que é por isso que sempre preferi a Raquel Welch. Não

era só ela; era a praia em que estava. Parecia algum lugar no México. Um lugar calmo, onde um cara pode ouvir seus próprios pensamentos. Nunca sentiu isso em relação a uma fotografia, Red? Que podia quase entrar nela? Disse que nunca tinha pensado nisso daquela forma. — Talvez um dia você entenda o que eu quero dizer. — disse ele, e estava certo. Anos depois entendi exatamente o que queria dizer... e quando entendi, a primeira coisa que pensei foi em Normaden dizendo que estava sempre frio na cela de Andy. Aconteceu uma coisa horrível com Andy no final de março ou começo de abril de 1963. Já disse a vocês que ele tinha algo que a maioria dos outros prisioneiros, inclusive eu, parecia não ter. Chamo de serenidade, um sentimento de paz interior, talvez até uma fé constante e inalterável de que algum dia o longo pesadelo terminaria. Qualquer que seja o nome que se queria dar, Andy Dufresne parecia manter sempre seu autocontrole. Não havia nele aquele desespero sombrio que parece afligir a maioria dos condenados à prisão perpétua depois de um certo tempo; nunca sentia-se nele o menor vestígio de desesperança. Até o final daquele inverno de 1963. Nessa época tínhamos outro diretor, um homem chamado Samuel Norton. Cotton Mather e seu pai Increase se sentiriam completamente a vontade com Sam Norton. Que eu saiba, nunca o viram sequer esboçar um sorriso. Usava um broche que ganhou quando completou trinta anos junto à Igreja Batista Adventista de Eliot. Sua principal inovação como diretor de nossa feliz família foi entregar a cada novo prisioneiro um exemplar do Novo Testamento. Em sua mesa havia uma pequena placa com letras douradas incrustadas em teca onde se lia JESUS E MEU SALVADOR. Um quadro bordado por sua mulher, que ficava pendurado na parede, dizia: SEU JULGAMENTO CHEGARÁ E É ABSOLUTO. Para a maioria de nós essa última reflexão não fazia o menor efeito. Sentíamos que o julgamento já tinha ocorrido e podíamos testemunhar que a pedra não nos esconderia nem a árvore nos daria abrigo. Tinha uma citação da Bíblia para qualquer situação, o Sr. Sam Norton, e sempre que você encontrar um homem como esse, meu conselho é que dê um largo sorriso e cubra suas bolas com as duas mãos. Havia menos casos na enfermaria do que na época de Greg Stammas, e que eu saiba os enterros sob o luar cessaram completamente, o que não quer dizer que Norton não acreditasse em castigo. As solitárias estavam sempre bem povoadas. Os homens não perdiam os dentes em brigas, mas sim com as dietas de pão e água. Começaram a ser chamadas de migalhas, como em “Estou no trem de migalhas de Sam Norton”. Aquele homem foi o maior sórdido hipócrita que já conheci ocupando uma posição superior. O jogo sobre o qual falei ainda há pouco continuou a florescer, mas Sam Norton acrescentou seus próprios métodos novos. Andy conhecia todos eles, e como naquela época já éramos bons amigos, me colocava a par de alguns deles. Quando Andy falava sobre isso, seu rosto adquiria uma expressão de espanto, nojo e admiração como se estivesse me falando de um percevejo feio e predador que, por sua feiura e ganância, era mais cômico que horrível. Foi o diretor Norton quem instituiu o programa “AO AR LIVRE”, sobre o qual você deve ter lido há dezesseis ou dezessete anos atrás; saiu até na Newsweek. Para a imprensa soou como um verdadeiro progresso em matéria de punição e reabilitação. Havia prisioneiros que cortavam madeira para fazer papel, outros que faziam consertos de pontes e barragens e outros que construíam armazéns de batatas. Norton deu a isso o nome de “AO AR LIVRE” e foi convidado para dar palestras em quase todas as drogas de clubes Rotary e Kiwani da Nova Inglaterra, principalmente depois que sua foto saiu na Newsweek. Os prisioneiros chamavam isso de “gangue de rua”, mas, pelo que sei, ninguém foi jamais convidado a expor seu ponto de vista para os kiwanianos nem para os rotarianos.

Norton estava presente em todas as operações, com o broche dos trinta anos e tudo; desde cortar madeira até cavar escoadouros para tempestades, fazer novos encanamentos sob as estradas, lá estava Norton, examinando tudo superficialmente. Havia centenas de maneiras de fazer—homens, materiais, etc. Mas tinha outra maneira também. As firmas de construção da área tinham um medo mortal do programa “AO AR LIVRE” de Norton, porque o trabalho de prisioneiros é trabalho de escravos, e não se pode competir com ele. Assim, Sam Norton, o do Novo Testamento e do broche de trinta anos de Igreja, recebeu diversos envelopes grossos por baixo da mesa durante seus dezesseis anos de trabalho em Shawshank. E quando recebia um envelope, das três uma: ou fazia uma oferta maior pelo projeto, ou não fazia oferta nenhuma ou dizia que todos os prisioneiros já estavam comprometidos. Sempre me admirei que Norton nunca tenha sido encontrado na mala de um Thunderbird parado no acostamento de uma estrada em algum lugar de Massachusetts com as mãos amarradas para trás e meia dúzia de balas cravadas na cabeça. De qualquer forma, como dizia a velha música de jazz, meu Deus, como rolou dinheiro. Norton deve ter aderido à opinião puritana de que a melhor maneira de descobrir quais as pessoas favorecidas por Deus é verificar suas contas bancárias. Andy Dufresne foi sua mão direita em tudo isso, seu sócio silencioso. A biblioteca da prisão era o tesouro que Andy não podia perder. Norton sabia disso e se aproveitava. Andy me disse que um dos aforismos prediletos de Norton era “uma mão lava a outra’. Assim, Andy dava bons conselhos e sugestões úteis. Não posso dizer com certeza que ele tenha elaborado o programa “AO AR LIVRE” de Norton, mas tenho certeza de que administrou o dinheiro daquele pregador filho da puta. Dava bons conselhos, sugestões úteis, o dinheiro rolava farto e... filho da puta! A biblioteca ganhava novas coleções de manuais de reparo de automóveis, enciclopédias Grolier e livros sobre como se preparar para exames de admissão nas faculdades. E, claro, mais livros de Erle Stanley Gardner e Louis L’Amour. Estou convencido de que o que aconteceu, aconteceu porque Norton não queria perder sua boa mão direita. Vou mais longe: aconteceu porque tinha medo do que poderia acontecer — e do que Andy podia falar dele se algum dia saísse da Prisão Estadual de Shawshank. Ouvi uma parte da história aqui, outra ali, num período de sete anos, algumas de Andy — mas não todas. Ele nunca queria falar sobre aquela fase de sua vida, e não o culpo por isso. Ouvi partes da história de talvez meia dúzia de fontes diferentes. Já disse uma vez que prisioneiros não passam de escravos, e têm aquele hábito dos escravos de parecerem idiotas e estarem sempre de orelha em pé. Ouvi partes do final, do começo e do meio, mas vou contar do princípio ao fim, e talvez vocês entendam por que o cara passou cerca de dez meses num marasmo de depressão e tristeza. Acho que ele não sabia da verdade até 1963, quinze anos depois de vir para esse doce e pequeno buraco dos infernos. Até conhecer Tommy Williams, acho que não sabia a que ponto as coisas podiam chegar. Tommy Williams juntou-se à nossa pequena e feliz família Shawshank em novembro de 1962. Tommy considerava-se natural de Massachusetts, mas não se orgulhava disso; com seus vinte e sete anos de idade tinha cumprido pena em toda a Nova Inglaterra. Era ladrão profissional, como vocês devem ter imaginado, mas minha opinião é que deveria ter escolhido uma outra profissão. Era um homem casado, e sua mulher vinha visitá-lo toda semana religiosamente. Ela achava que as coisas poderiam melhorar para Tommy — e, consequentemente, para ela e o filho de três anos — se ele conseguisse um diploma de segundo grau. Convenceu-o disso, e assim Tommy Williams passou a frequentar a biblioteca regularmente. Para Andy aquilo já era rotina. Providenciava para Tommy livros de testes simulados. Tommy relembrava as matérias que tinha passado na escola — não muitas — e depois fazia os testes. Andy também providenciou sua matrícula numa série de cursos por correspondência que cobriram as matérias

que não tinha passado ou simplesmente repetido por falta. Provavelmente não foi o melhor aluno que Andy já teve entre os ladrões, e não sei se algum dia conseguiu o diploma de segundo grau, mas isso não faz parte da minha história. O importante é que passou a gostar muito de Andy Dufresne, como acontecia com a maioria das pessoas depois de algum tempo. Diversas vezes perguntou a Andy “o que um cara esperto como você está fazendo na gaiola?”, uma pergunta que equivale mais ou menos àquela que diz “o que uma garota como você está fazendo num lugar desses?”. Mas Andy não era do tipo que respondia; apenas sorria e mudava de assunto. Normalmente Tommy perguntava a outras pessoas, e quando finalmente obteve a resposta, acho que levou o maior choque de sua juventude. A pessoa a quem perguntou foi o companheiro que trabalhava com ele na máquina de passar e dobrar a vapor na lavanderia. Os internos chamavam essa máquina de mutilador, porque é exatamente o que acontece se você não prestar atenção. Seu companheiro era Charlie Lathrop, que estava preso há cerca de doze anos por assassinato. Ficava muito feliz em reviver os detalhes do julgamento de Andy para Tommy; quebrava a monotonia de ficar tirando lençóis recém-passados da máquina e colocando-os na cesta. Estava quase chegando na parte em que os jurados estão esperando acabar o almoço para darem o veredicto de culpado quando um alarme contra problemas soou e a máquina parou com um chiado. Estavam colocando os lençóis lavados da Casa de Saúde Eliot numa ponta; os lençóis saíam secos e bem passados do lado de Tommy e de Charlie a uma média de um a cada cinco segundos. O trabalho deles era pegá-los, dobrá-los e jogá-los no carrinho de mão, que já tinha sido forrado com papel pardo limpo. Mas Tommy Williams estava de pé, os olhos fixos em Charlie Lathrop e a boca aberta de espanto. Estava pisando numa pilha de lençóis limpos que agora absorviam toda a sujeira úmida do chão — e no chão da lavanderia há bastante sujeira. Assim, quando o carcereiro-chefe daquele dia, Homer Jessup, veio correndo balançando a cabeça, pronto para resolver qualquer problema, Tommy não percebeu sua presença. Falava com Charlie como se o velho Homer, que já quebrara tantas caras que tinha perdido a conta, não estivesse lá. — Como era mesmo o nome do professor de golfe? — Quentin. — respondeu Charlie, a essa altura todo confuso e sem jeito. Mais tarde contou que o garoto estava branco como uma bandeira da paz. — Glenn Quentin, eu acho. Qualquer coisa assim, pelo menos... — Ora, ora... — rugiu Homer Jessup, o pescoço vermelho como uma crista de galo. — Ponham os lençóis na água fria! Rápido! Rápido, pelo amor de Deus, seus... — Glenn Quentin, meu Deus! — exclamou Tommy Williams, e foi tudo que conseguiu dizer, porque Homer Jessup, o homem menos pacífico que já conheci, baixou o cacete no seu ouvido. Tommy caiu no chão com tanta força que perdeu três dentes da frente. Quando acordou, estava na solitária onde ficaria confinado uma semana, num vagão fechado do famoso trem de migalhas de Sam Norton. Mais uma nota vermelha no seu boletim. Isso foi no começo de fevereiro de 1963, e Tommy Williams procurou seis ou sete outros perpétuos quando saiu da solitária e ouviu exatamente a mesma história. Sei disso; fui um deles. Mas quando lhe perguntei por que queria saber, simplesmente se recusou a falar. Então, um dia foi até a biblioteca e soltou uma droga de uma história para Andy Dufresne. E pela primeira e última vez, pelo menos desde que me procurou querendo o pôster de Rita Hayworth como um garoto comprando sua primeira caixa de preservativos, Andy perdeu a calma... só que dessa vez explodiu literalmente. Eu o vi mais tarde nesse mesmo dia e parecia um homem que pisou num ancinho e o cabo acertou

sua testa em cheio. Suas mãos tremiam, e quando falei com ele, não respondeu. Antes do final da tarde já tinha alcançado Billy Hanlon, o carcereiro-chefe, e marcado um encontro com o Diretor Norton para o dia seguinte. Depois me contou que não pregou o olho durante aquela noite inteira, ficava ouvindo um vento gelado de inverno uivar lá fora, olhando as luzes dos holofotes rodando, deitando sombras compridas e regulares sobre os muros de cimento da gaiola que chamava de lar desde que Harry Truman era presidente e tentando entender tudo. Disse que era como se Tommy tivesse lhe dado uma chave que abria uma gaiola no fundo de sua cabeça, uma gaiola como a sua própria cela. Só que ao invés de conter um homem, a gaiola guardava um tigre e o nome desse tigre era Esperança. Williams tinha lhe dado a chave que abria a gaiola e o tigre tinha saído, forçadamente, para vagar em sua mente. Quatro anos antes, Tommy Willíams tinha sido preso em Rhode lsland dirigindo um carro roubado cheio de mercadorias roubadas. Tommy foi considerado cúmplice, o promotor público foi comprado e Tommy recebeu uma sentença menor... dois a quatro, incluídos os anos cumpridos. Onze meses depois de ter começado a cumprir a pena, seu antigo companheiro de cela foi embora e Tommy teve um novo companheiro, um homem chamado Elwood Blatch. Blatch tinha sido condenado por assalto e ia cumprir de seis a doze anos. — Nunca vi um cara tão nervoso. — contou-me Tommy. — Um homem como ele nunca deveria ser ladrão, principalmente usando armas. Ao menor barulho dava um pulo de dez metros... e provavelmente descia atirando. Uma noite quase me enforcou porque um cara no corredor estava batendo nas grades da cela com uma caneca de lata. Passei sete meses com ele, até que me deixaram sair. Cumpri minha pena e fui embora. Não posso dizer que a gente conversava, porque ninguém conversava exatamente com El Blatch. Ele conversava com você. Falava o tempo todo. Nunca calava a boca. Se você tentasse dar uma palavra, ele levantava o braço para você e revirava os olhos. Eu ficava arrepiado quando ele fazia isso. Era um cara forte e alto, quase careca, os olhos verdes fundos dentro das órbitas. Meu Deus, espero nunca mais encontrar ele de novo. “Era como uma conversa de bêbado toda noite. Onde tinha vivido, os orfanatos de onde tinha fugido, os trabalhos que tinha feito, as mulheres que tinha comido, os jogos em que tinha roubado. Eu deixava ele falar. Não tenho a cara bonita, mas também não queria que fosse consertada. Dizia que tinha roubado mais de duzentos lugares. Para mim era difícil acreditar, um cara como ele que pulava feito uma bombinha cada vez que alguém soltava um pum, mas ele jurava que era verdade. Agora... escute, Red. Sei que alguns caras fazem as pazes depois que sabem de alguma coisa, mas mesmo antes de saber sobre esse professor de golfe, Quentin, me lembro que eu pensava que se El Blatch algum dia assaltasse a minha casa e eu só descobrisse depois, ia me achar o cara mais sortudo da face da terra. Já imaginou ele no quarto de uma mulher remexendo na caixa de joias dela e ela tosse ou se vira de repente? Me dá calafrios só de pensar uma coisa dessas, juro pela minha mãe que dá. Disse que tinha matado gente. Gente que fez merda. Pelo menos foi o que disse. E eu acreditei. Com certeza parecia um homem capaz de matar. Era nervoso como os diabos. Como uma pistola sem percutidor. Conheci um cara que tinha um Smith & Wesson Especial da Polícia sem o percutidor. Não servia para nada a não ser meter medo. O gatilho daquele revólver era tão macio que disparava se o cara, Johnny Callahan, era esse o nome dele, colocasse o revólver em cima de uma caixa de som e aumentasse todo o volume do toca-discos. El Blatch era assim. Não posso definir melhor. Nunca duvidei que tenha subornado algumas pessoas. Então, um dia, só para dizer alguma coisa, perguntei: ‘Quem você matou?’, sabe, como uma brincadeira. Aí ele riu e disse:” — Tem um cara preso em Maine por causa dessas duas pessoas que eu matei. Foi um cara e a mulher do idiota que está preso. Eu estava escondido na casa deles e o cara começou a me dar trabalho. — Não me lembro se ele alguma vez me disse o nome da mulher ou não— continuou Tommy. —

Talvez tenha dito. Mas na Nova Inglaterra, Dufresne é igual a Smith ou Jones no resto do país, tem tantos franceses aqui. Dufresne, Lavesque, Ouelette, Poulin, quantos nomes franceses você pode lembrar? Mas disse o nome do cara. Disse que o cara era Glenn Quentín e era um babaca, um rico babaca, um professor de golfe. Ele disse que achava que o cara devia ter dinheiro em casa, talvez quase cinco mil dólares. Era muito dinheiro naquela época, ele disse. “Então eu continuei: — Quando foi isso? E ele disse: — Depois da guerra, logo depois da guerra. Então ele entrou, assaltou a casa, eles acordaram e o cara começou a criar problemas. Foi o que El disse. Talvez o cara só tenha começado a roncar, eu acho. De qualquer maneira, El disse que Quentin estava na cama com a mulher de um advogado importante e mandaram o advogado para a Prisão Estadual de Shawshank. Depois deu uma grande gargalhada. Santo Deus, nunca fiquei tão feliz com alguma coisa como no dia que consegui minha liberdade e saí daquele lugar”. Acho que vocês podem imaginar por que Andy ficou um tanto atordoado quando Tommy lhe contou a história e por que quis ver o diretor imediatamente. Elwood Blatch cumpria pena de seis a doze anos quando Tommy o conheceu quatro anos antes. Quando Andy soube de tudo isso, em 1963, devia estar na iminência de ir embora... ou quase. Assim, essas eram as duas hipóteses com as quais Andy se debatia — a ideia de que Blatch ainda pudesse estar preso, por um lado, e a possibilidade bem real de que já tivesse se mandado, por outro. Havia discrepâncias na história de Tommy, mas também não existem sempre na vida real? Blatch disse a Tommy que o homem que foi preso era um advogado importante e Andy era banqueiro, mas essas duas profissões podem ser facilmente confundidas por pessoas com pouca instrução. E não se esqueçam de que tinham se passado doze anos entre o dia em que Blatch leu as notícias sobre o julgamento e o dia em que contou a história para Tommy Williams. Também disse a Tommy que levou mais de mil dólares do cofre que Quentin tinha no armário, mas no julgamento de Andy a polícia disse que não havia sinais de roubo. Tenho algumas opiniões sobre isso. Primeiro, já que o homem a quem pertencia o dinheiro estava morto, só se poderia saber se alguma coisa tinha sido roubada se houvesse alguém para dizer que havia dinheiro. Segundo, quem pode afirmar que Blatch não estava mentindo sobre essa parte? Talvez não quisesse admitir ter matado duas pessoas sem motivo. Terceiro, talvez houvesse sinais de roubo e os policiais ou não viram — às vezes são uns idiotas — ou propositadamente encobriram para não atrapalhar o caso do promotor público. O cara estava concorrendo a um cargo público, lembrem-se, e precisava de uma condenação para se eleger. Um assassinato com roubo não resolvido não seria nada bom. Mas, das três, prefiro a segunda. Conheci vários Elwood Blatches em Shawshank — atiradores de olhar louco. Esses caras querem que você pense que roubaram o equivalente a uma montanha de ouro em cada assalto, mesmo que sejam presos com um Timex de dois dólares e um de nove pelo qual estão cumprindo pena. E houve uma coisa na história de Tommy que convenceu Andy sem sombra de dúvidas. Blatch não tinha atacado Quentin aleatoriamente. Chamou Quentin de “rico babaca” e sabia que Quentin era professor de golfe. Bem, Andy e a mulher iam ao clube uma ou duas vezes por semana para tomar drinques e jantar havia uns dois anos, e Andy já tinha tomado muitos drinques ali quando descobriu o caso da mulher. Havia uma marina no clube, e durante algum tempo em 1947 trabalhou lá em meio expediente um empregado esperto que coincidia com a descrição de Tommy de Elwood Blatch. Um homem alto e forte, quase careca, de olhos verdes fundos. Um homem com um jeito desagradável de olhar

para você, como se o estivesse estudando. Não ficou muito tempo, Andy contou. Ou se demitiu ou Briggs, o responsável pela marina, mandou-o embora. Mas não era um homem fácil de esquecer. Era marcante demais. Assim, Andy foi conversar com o Diretor Norton num dia de chuva e vento com grandes nuvens cinzentas espalhadas pelo céu acima dos muros cinzentos, num dia em que os últimos vestígios de neve se derretiam deixando à mostra trechos de grama sem vida do ano anterior nos campos além da prisão. O diretor tem um grande escritório na ala administrativa, e atrás de sua mesa há uma porta ligada à sala do diretor assistente. Ele não estava nesse dia, mas havia um prisioneiro de confiança em sua sala. Era um cara meio coxo cujo nome verdadeiro esqueci; todos os internos, inclusive eu, o chamávamos de Chester por causa do companheiro inseparável do Marechal Dillon. Chester tinha que regar as plantas e encerar o chão. Acho que naquele dia as plantas ficaram sedentas e Chester só encerou o buraco da fechadura daquela porta, onde ficou de ouvido colado. Ouviu a porta do diretor abrir e fechar e depois Norton dizer: — Bom dia, Dufresne. O que posso fazer por você? — Diretor... — começou Andy, e o velho Chester disse que quase não reconheceu a voz de Andy. — Diretor... tem uma coisa... aconteceu uma coisa comigo que é... é tão... tão... nem sei por onde começar. — Que tal começar do início?— disse o diretor, provavelmente com aquela voz doce de quem diz “passemos ao salmo vinte e três e leiamos a uma só voz”. — Geralmente funciona. E foi o que Andy fez. Começou relembrando os detalhes do crime pelo qual fora preso. Depois contou a Norton exatamente o que Tommy Williams tinha lhe contado. Também deu o nome de Tommy, o que talvez você não ache tão inteligente à luz dos acontecimentos posteriores, mas eu pergunto, o que mais poderia ter feito se quisesse que sua história tivesse alguma credibilidade? Quando terminou, Norton ficou em silêncio absoluto durante algum tempo. Posso imaginá-lo; provavelmente recostado em sua cadeira sob o retrato do Governador Reed na parede, os dedos entrelaçados, os lábios avermelhados e enrugados, a testa franzida como degraus de escada até o alto da cabeça, o broche de trinta anos reluzindo suavemente. — É... — disse finalmente. — É a história mais abominável que já ouvi. Mas vou lhe contar o que mais me surpreende, Dufresne. — O que é? — Que você tenha acreditado nela. — O quê? Não estou entendendo o que o senhor quer dizer. E Chester contou que Andy Dufresne, que tinha enfrentado Byron Hadley treze anos antes, mal conseguia pronunciar as palavras. — Bem... — disse Norton. — Me parece óbvio que esse jovem Williams ficou impressionado com você. Na verdade, bem encantado. Ouviu falar de sua desgraça e é natural que queira... alegrá-lo, digamos assim. Bem natural. E jovem, não muito brilhante. Não é de se admirar que não tenha percebido o estado em que iria deixá-lo. Agora, o que sugiro é que... — O senhor acha que não pensei nisso? — perguntou Andy. — Mas nunca falei para Tommy sobre o homem que trabalhava na marina. Nunca falei para ninguém— nem passou pela minha cabeça. Mas a descrição do companheiro de cela de Tommy é idêntica à daquele homem. — Ora, o senhor deve estar alimentando uma certa percepção seletiva — disse Norton com um risinho. Frases desse tipo, percepção seletiva, têm de ser usadas por pessoas envolvidas em administração carcerária e reabilitação de presos, e elas usam tanto quanto podem. — Não é só isso, Sr. Norton. — É o seu ponto de vista. — disse Norton. — Mas o meu é diferente. E não vamos nos esquecer de

que somente o senhor disse que havia um homem com tais características trabalhando no Country Clube de Falmouth Hills naquela época. — Não, senhor. — interveio Andy novamente. — Não, não é verdade. Porque... — De qualquer forma... — Norton interrompeu-o, falando alto e efusivamente. — Vamos olhar o outro lado da moeda, certo? Imagine—apenas imagine— que realmente houvesse um sujeito chamado Elwood Blotch. — Blatch. — disse Andy com firmeza. — Blatch, sem dúvida. E digamos que ele fosse o companheiro de cela de Thomas Williams em Rhode lsland. A possibilidade de que já tenha sido solto a essa altura é muito grande. Muito grande. Nem sabemos quanto tempo já tinha cumprido quando Williams foi embora. Sabemos apenas que cumpria pena de seis a doze anos. — Não, não sabemos quanto tempo. Mas Tommy disse que era um homem perverso, um criminoso. Acho que é bem provável que ainda esteja preso. Mesmo que já tenha sido solto, na prisão deve haver uma ficha com seu último endereço, o nome de parentes... — E é quase certo que seriam quase inúteis. Andy ficou em silêncio por alguns instantes, mas explodiu: — Afinal, é uma chance, não é? — Sim, claro que é. Mas vamos supor, Dufresne, que Blatch exista e ainda esteja preso na Penitenciária Estadual de Rhode lsland. Agora, o que vai dizer se lhe apresentarmos essa embrulhada? Vai cair de joelhos, revirar os olhos e dizer “Fui eu! Fui eu! Me condenem à prisão perpétua?”. — Como o senhor pode ser tão obtuso? — disse Andy tão baixo que Chester mal ouviu. Mas ouvia claramente o diretor. — O quê? De que o senhor me chamou? — Obtuso! — gritou Andy. — É de propósito? — Dufresne, você tomou cinco minutos do meu tempo—não, sete—e hoje estou muito atarefado. Assim, daremos esse breve encontro por encerrado e... — O clube tem todos os antigos cartões de ponto, não vê isso? — gritou Andy. — Eles têm os comprovantes de impostos, comprovantes de despesa de empregados, todos com o nome dele. Deve haver empregados agora que estavam lá naquela época, talvez o próprio Briggs! Faz quinze anos, e não uma eternidade! Devem lembrar dele! Eles vão lembrar de Blatch! Se Tommy testemunhar o que Blatch lhe disse e Briggs testemunhar que Blatch realmente trabalhava no Country Club, posso ter um novo julgamento! Posso... — Guardas! Guardas! Levem este homem! — O que há com o senhor? — disse Andy, e Chester me contou que ele estava quase gritando àquela altura. — É minha vida, minha chance de sair daqui, não vê isso? E não vai dar nenhum telefonema interurbano para ao menos confirmar a história de Tommy? Olhe, eu pago o telefonema! Eu pago... E houve muito barulho quando os guardas o seguraram e começaram a arrastá- lo. — Solitária. — disse Norton secamente. Provavelmente alisava o broche quando o disse. — Pão e água. E assim levaram Andy, totalmente fora de controle a essa altura, ainda gritando para o diretor; Chester disse que podia ouvi-lo mesmo depois que a porta fechou: — É minha vida! Minha vida! Não entende que é minha vida? Vinte dias de migalhas para Andy na solitária. Foi a segunda vez que ficou na solitária e a discussão com Norton foi a primeira advertência que recebeu desde que se juntara à nossa pequena

família feliz. Vou lhes falar um pouco sobre a solitária de Shawshank enquanto estamos dentro do assunto. E como uma volta aos tempos duros de pioneirismo entre o começo e o meio do século XVIII no Maine. Naquela época ninguém perdia tempo com coisas como “reabilitação” e “percepção seletiva”. Naquele tempo o tratamento dado aos presos era preto no branco. Ou se era culpado ou inocente, ou se era enforcado ou colocado na cadeia. E se você fosse condenado à cadeia, não ia para uma instituição. Não, você cavava sua própria cela com uma pá fornecida pela província do Maine. Você cavava um buraco o mais fundo e largo possível no período entre o nascer e o pôr do sol. Depois lhe davam alguns odres e um balde e você descia. Uma vez lá embaixo, o carcereiro colocava grades na boca do buraco, jogava algum cereal ou talvez um pedaço de carne bichada uma ou duas vezes por semana, e talvez uma concha cheia de sopa de cevada nos domingos à noite. Você urinava no balde e levantava o mesmo balde para receber água quando o carcereiro vinha por volta das seis da manhã. Quando chovia, o balde era usado para tirar a água da cela... a não ser que o cara quisesse morrer afogado como um rato num barril. Ninguém passava muito tempo “no buraco”, como era chamado; trinta meses era muito tempo e, que eu saiba, quem passou mais tempo e saiu vivo foi o chamado “Garoto Durham”, um psicopata de quatorze anos que castrou um colega de escola com um pedaço de metal enferrujado. Ele ficou sete anos, mas é claro que era jovem e forte quando entrou. Vocês devem lembrar que por crimes mais sérios que roubar animais, blasfemar ou esquecer de colocar um lenço no bolso quando saísse aos domingos, a pena era a forca. Por crimes menores como os mencionados acima ou outros semelhantes, o cara passava três, seis ou nove meses no buraco e sairia branco como uma barriga de peixe, encolhido de medo dos espaços abertos, quase cego, os dentes sambando dentro dos alvéolos devido ao escorbuto, os pés formigando com fungos. Adorável velha província de Maine. Hoho- ho e uma garrafa de rum. A ala das solitárias de Shawshank não era tão ruim como aquilo.., imagino. Acho que as coisas acontecem em três níveis principais na experiência humana: bom, ruim e terrível. E à medida que se desce na crescente escuridão em direção ao terrível, fica cada vez mais difícil fazer subdivisões. Para se chegar à ala das solitárias, descia-se vinte e três degraus até um porão onde o único barulho era a água pingando. A pouca luz vinha de uma série de lâmpadas de sessenta watts penduradas. As celas tinham a forma de um barrilete, como aqueles cofres de parede que os ricos às vezes escondem atrás dos quadros. Como um cofre, as portas redondas tinham dobradiças e eram sólidas, sem grades. A ventilação vinha de cima, mas não havia luz, a não ser a sua própria lâmpada de 60 watts, que era apagada por uma chave geral exatamente às 20:00, uma hora antes que no resto da prisão. A lâmpada não ficava dentro de um aramado ou qualquer coisa parecida. A sensação era de que se você quisesse sobreviver ali dentro, era bem-vindo. Poucos conseguiam... mas depois das oito, não se tinha escolha, é claro. Havia um beliche preso na parede e uma lata, nada de vaso sanitário. Tinha-se três maneiras de passar o tempo: sentado, cagando ou dormindo. Grande escolha. Vinte dias podem parecer um ano. Trinta dias, dois anos; e quarenta, dez. Às vezes ouviam- se ratos no sistema de ventilação. Numa situação dessas as subdivisões de “terrível” tendem a desaparecer. Se há alguma coisa favorável a se dizer em relação às solitárias, é só que se tem tempo para pensar. Andy teve vinte dias de migalhas para pensar, e quando saiu requereu outro encontro com o diretor. Pedido negado. Tal encontro, disse-lhe o diretor, seria “contraproducente”. Esta é outra expressão que se deve dominar quando se trabalha na área de prisões e reabilitação. Pacientemente, Andy renovou o pedido. E renovou. E renovou. Tinha mudado, Andy Dufresne. De repente, quando a primavera de 1963 despontou, havia rugas em seu rosto e fios brancos em seus cabelos. Tinha perdido aquele leve sorriso que parecia constante em seus lábios. Seus olhos ficavam

fixos no espaço com mais frequência, e você aprende que quando um homem começa a fixar o olhar no nada está contando os anos que cumpriu, os meses, as semanas, os dias. Renovou o pedido e renovou. Era paciente. Não tinha nada, a não ser tempo. Chegou o verão. Em Washington, o Presidente Kennedy prometia uma séria investida contra a pobreza e as desigualdades dos direitos civis, sem saber que tinha apenas meio ano de vida. Em Liverpool, um grupo musical chamado Os Beatles emergia como uma força a ser levada em conta dentro da música inglesa, mas acho que nos Estados Unidos ninguém ainda ouvira falar neles. Os Red Sox de Boston, quatro anos antes do que o povo da Nova Inglaterra chama de “o milagre de 67”, aguardavam ansiosos no porão da Liga Americana. Todas essas coisas aconteciam num mundo maior, onde as pessoas caminhavam livres. Norton encontrou-o quase no final de junho, e esta conversa ouvi do próprio Andy uns sete anos depois. — Se é pelo aperto, não precisa se preocupar. — disse Andy a Norton em voz baixa. — Acha que eu ia sair por aí falando? Iria prejudicar a mim mesmo. Seria tão indiciado quanto... — Chega! — interrompeu Norton. Seu rosto estava comprido e gelado como uma lápide de ardósia. Recostou-se na cadeira até sua cabeça quase encostar no bordado onde se lia SEU JULGAMENTO CHEGARÁ E É ABSOLUTO. — Mas... — Nunca mais mencione dinheiro comigo. — disse Norton. — Nem neste escritório, nem em lugar nenhum. A menos que queira ver aquela biblioteca transformada em depósito de tintas novamente. Entendeu? — Só estava tentando deixar o senhor à vontade. — Olhe aqui: quando eu precisar de um miserável filho da puta como você para me sentir à vontade, me aposento. Concordei com este encontro porque cansei de ser importunado. Dufresne. Quero que pare com isso. Se quer comprar essa briga, o problema é seu, não meu. Poderia escutar histórias malucas como a sua duas vezes por semana se quisesse. Todos os pecadores deste lugar viriam chorar nos meus ombros. Tive mais respeito por você. Mas esse é o fim. Chegamos a um acordo? — Chegamos. — disse Andy. — Mas vou contratar um advogado, se o senhor quer saber. — Mas para quê, meu Deus? — Acho que podemos chegar a uma conclusão. — disse Andy. — Com Tommy Williams, o meu depoimento e as provas corroborativas de registros e de empregados do Country Club, acho que poderemos chegar a uma conclusão. — Tommy Williams não está mais preso aqui. — O quê? — Foi transferido. — Transferido para onde? — Cashman. Ao ouvir isso, Andy ficou em silêncio. Era um homem inteligente, mas só um homem extremamente burro não sentiria o cheiro de negociata naquilo. Cashman era uma prisão com segurança mínima, bem ao norte do condado de Aroostook. Os internos colhem muitas batatas e isso é trabalho duro, recebem um salário decente pelo trabalho e podem frequentar as aulas de um instituto técnico-vocacional bem razoável, se assim desejarem. O mais importante para um cara como Tommy, um cara com uma mulher jovem e um filho, era que Cashman tinha um programa de licença... o que significava uma chance de viver como um homem comum, pelo menos nos fins de semana. Uma chance de montar um aviãozinho com seu filho, de fazer amor com a mulher, talvez fazer um piquenique. Era quase certo que Norton tinha oferecido tudo isso a Tommy com uma única condição: nem mais

uma palavra sobre Elwood Blatch, nem agora, nem nunca mais. Ou vai acabar passando maus pedaços em Thomaston na pitoresca Rota 1 com caras realmente violentos, e ao invés de fazer amor com a mulher, vai fazer com uma bicha velha qualquer. — Mas por quê? — disse Andy. — Por que... — É melhor para você — disse Norton calmamente. — Entrei em contato com Rhode lsland. Realmente tiveram um presidiário chamado Elwood Blatch. Recebeu o que chamam de liberdade condicional provisória, um desses programas liberais malucos para colocar criminosos na rua. Desapareceu desde então. Andy disse: — O diretor de lá... é seu amigo? Sam Norton deu um sorriso para Andy tão frio quanto uma geladeira. — Nós nos conhecemos. — disse ele. — Por quê? — repetiu Andy. — Pode me dizer por que fez isso? Sabia que eu não falaria nada sobre... sobre qualquer coisa que estivesse acontecendo. Sabia disso. Então, por quê? — Porque pessoas como você me aborrecem — disse Norton ponderadamente. — Quero que fique aqui, Sr. Dufresne, e enquanto eu for o diretor de Shawshank, vai ficar aqui. Sabe, você costumava achar que era melhor que os outros. Vejo isso facilmente no rosto de um homem. Reparei isso em você da primeira vez que entrei na biblioteca. Estava escrito em letras maiúsculas em sua testa. Essa expressão já não existe mais e isso me agrada. Não que não seja mais útil, nunca pense isso. Simplesmente homens como você precisam aprender a ter humildade. Andava por aquele pátio de exercícios como se fosse uma sala de estar e estivesse num coquetel dando voltas, cobiçando as mulheres e maridos dos outros e se embebedando. Mas não anda mais desse jeito. E vou ficar reparando se voltar a caminhar dessa maneira. Durante alguns anos prestarei atenção em você com muito prazer. Agora dê o fora daqui. — Está bem. Mas todas as atividades extracurriculares terminam aqui, Norton. As consultas de investimentos, as trapaças, as dicas para não pagar impostos. Tudo acabado. Compre um manual para aprender a declarar seu imposto de renda. O rosto do Diretor Norton a princípio ficou vermelho como um tijolo, depois perdeu toda a cor. — Vai voltar para a solitária por causa disso. Trinta dias. Pão e água. E enquanto estiver lá, pense nisso: se alguma coisa acabar agora, a biblioteca acaba. Vou pessoalmente providenciar para que volte a ser o que era antes de você chegar. E vou tornar sua vida... muito dura. Muito difícil. Vai ter os piores dias possíveis. Vai perder aquela cela individual confortável no bloco 5, para começar, e aquelas pedras que ficam no peitoril da janela, e qualquer proteção que os guardas venham lhe dando contra os sodomitas. Vai... perder tudo. Entendido? Acho que estava bem entendido. O tempo continuava a passar — o mais velho artifício do mundo, e talvez o único que seja realmente mágico. Mas Andy Dufresne tinha mudado. Tinha se tornado menos sensível. E a única definição que encontro. Continuou fazendo o trabalho sujo para o Diretor Norton e comandando a biblioteca, de maneira que aparentemente as coisas continuaram na mesma. Continuava a tomar drinques no seu aniversário e nas festas de fim de ano; continuava a dividir o resto de cada garrafa. Ocasionalmente eu conseguia para ele panos novos para polir pedras, e em 1967 consegui um novo cinzel — aquele que tinha conseguido há dezenove anos atrás já estava, como já disse, completamente gasto. Dezenove anos! Quando se fala isso assim, de repente, essas duas palavras soam como o golpe surdo de um túmulo se fechando. O cinzel, que tinha custado dez dólares naquela época, estava por vinte e dois em 1967. Eu e ele demos um sorrisinho triste por causa daquilo. Andy continuava a lapidar e polir as pedras que encontrava no pátio de exercícios, que já era

menor nessa época; metade do que havia em 1950 tinha sido asfaltada em 1962. Ainda assim, acho que encontrava o suficiente para manter-se ocupado. Quando acabava uma pedra colocava-a no peitoril da janela, que dava para leste. Disse que gostava de vê-las ao sol, pedaços do planeta que tirara do chão e dera forma. Xistos, quartzos, granitos. Pequenas esculturas engraçadas em mica, unidas com cola de avião. Vários conglomerados de sedimentos polidos e cortados de maneira tal que podia-se ver por que Andy os chamava de “sanduíches milenares” — camadas de diferentes materiais sobrepostos durante décadas e séculos. De vez em quando Andy dava de presente suas pedras e esculturas a fim de obter espaço para as novas. Acho que me deu a maior parte — com as pedras que pareciam abotoaduras, tinha cinco. Havia uma escultura em mica, sobre a qual lhes falei, que fora cuidadosamente trabalhada para parecer um homem lançando um dardo, e dois conglomerados de sedimentos em que todos os níveis mostravam um corte transversal suavemente polido. Ainda as tenho, e frequentemente as pego e penso no que um homem é capaz de fazer se tem tempo suficiente e vontade de usá-lo — de gota em gota. Assim, ao menos aparentemente as coisas continuavam mais ou menos iguais. Se Norton quisesse prejudicar Andy tanto quanto tinha prometido, teria que olhar mais profundamente para ver a mudança. Mas se tivesse visto como Andy estava diferente, acho que Norton teria ficado bastante satisfeito com os quatro anos que se seguiram ao conflito. Ele tinha dito a Andy que este dava voltas pelo pátio de exercícios como se estivesse num coquetel. Eu não colocaria dessa maneira, mas sei o que quis dizer. E como o que eu tinha dito sobre ele, que usava sua liberdade como um casaco invisível, que nunca desenvolveu uma mentalidade de prisioneiro. Seus olhos nunca tinham aquela expressão monótona. Nunca caminhou como os outros homens que voltam às suas celas no final do dia para mais uma noite interminável — um andar arrastado, com os ombros caídos. Andy caminhava de ombros erguidos, com passos leves, como se estivesse indo para casa encontrar uma mulher amorosa e comer uma refeição caseira, e não aquela gororoba de vegetais mal cozidos e sem gosto, purê de batatas encaroçado e uma ou duas fatias daquela coisa gordurosa e cheia de cartilagem que a maioria dos presos chamava de carne misteriosa.., isso e uma foto de Raquel Welch na parede. Mas naqueles quatro anos, embora nunca tivesse ficado exatamente como os outros, tornou-se silencioso, introspectivo e taciturno. Quem poderia culpá-lo? Assim, talvez fosse o Diretor Norton quem estava satisfeito... pelo menos por enquanto. Seu humor sombrio desapareceu mais ou menos na época do Campeonato Mundial de 1967. Aquele foi um ano de sonhos, o ano em que os Red Sox ganharam a flâmula e não ficaram em nono lugar, como os bookmakers de Las Vegas haviam previsto. Quando isso aconteceu — quando ganharam a flâmula da Liga Americana — uma espécie de euforia tomou conta da prisão inteira. Havia uma crença um tanto quanto tola de que se o Dead Sox podia se recuperar, qualquer um podia... Não posso explicar esse sentimento agora, tanto quanto um ex-beatleman louco não pode explicar aquela loucura, imagino. Mas era real. Todos os rádios da prisão ficavam sintonizados nos jogos enquanto o Red Sox alegrava nossas vidas. Houve um desânimo quando o Sox perdeu duas em Cleveland quase no final, e uma alegria quase histérica quando Rico Petrocelli rebateu uma bola decisiva. E depois houve tristeza quando Lonborg foi derrotado no último jogo do campeonato, pondo fim a um sonho que não pôde ser gozado completamente. Provavelmente Norton ficou feliz, o filho da puta. Gostava de ver a prisão com ar fúnebre e pesado. Para Andy, no entanto, não foi mais um motivo de tristeza. Não era mesmo um aficionado em beisebol, talvez tenha sido por isso. Entretanto, parecia ter sido contagiado pela onda de otimismo, que para ele não se esvaneceu mesmo com o último jogo do campeonato. Tinha tirado aquele casaco invisível do armário e vestido novamente.

Lembro de um dia de sol radiante de outono, quase no final de outubro, algumas semanas depois do término do Campeonato Mundial. Acho que era um domingo, porque o pátio de exercícios estava cheio de homens “dando uma volta” — arremessando disco, jogando futebol, trocando o que tinham para trocar. Outros ficavam sentados na longa mesa da sala de visitas, sob o olhar fixo dos vigias, conversando com parentes, fumando, contando mentiras sinceras, recebendo seus pacotes previamente examinados. Andy estava acocorado como um índio encostado à parede, com duas pedrinhas na mão batendo ritmicamente uma na outra, o rosto virado para o sol. Estava surpreendentemente quente aquele sol para um dia já tão próximo do final do ano. — Ei, Red — gritou. — Vem cá, senta aqui um pouco. Fui. — Quer isso? — perguntou, e me mostrou um dos “sanduíches milenares” cuidadosamente polidos sobre os quais lhes falei há pouco. — Claro. — disse eu. — É muito bonito. Obrigado. Deu de ombros e mudou de assunto. — Aniversário importante ano que vem para você. Concordei. No próximo ano me tornaria um homem de trinta anos de cadeia. Sessenta por cento de minha vida passada na Prisão Estadual de Shawshank. — Acha que algum dia vai sair? — Claro. Quando tiver uma longa barba branca e estiver meio gagá. Ele sorriu um pouco e virou o rosto para o sol novamente, de olhos fechados. — Está agradável. — Acho que sempre é agradável quando a gente sabe que a merda do inverno está chegando. Ele concordou, e ficamos em silêncio por um tempo. — Quando eu sair daqui... — disse Andy finalmente. — Vou para um lugar que seja quente o ano inteiro. — falou com uma certeza tão tranquila que você acharia que só tinha mais um mês de cadeia pela frente. — Sabe para onde vou, Red? — Não. — Zihuatanejo. — disse ele, rolando a palavra docemente em sua boca como uma música. — Lá no México. É um lugar pequeno, talvez a trinta quilômetros de Playa Azul e da Autoestrada 37. Fica a cento e sessenta quilômetros a nordeste de Acapulco no Oceano Pacífico. Sabe o que os mexicanos dizem do Pacífico? Disse que não. — Dizem que não tem memória. E é lá que quero passar o resto da minha vida, Red. Num lugar quente e sem memória. Andy tinha pego um punhado de pedras enquanto falava; jogava-as para cima, uma por uma, e as olhava girar e rolar pelo centro imundo do campo de beisebol, que em breve estaria coberto por um palmo e meio de neve. — Zihuatanejo. Vou ter um pequeno hotel lá. Seis chalés ao longo da praia e seis mais para trás, próximos ao comércio da estrada. Vou ter um garoto para levar meus hóspedes para pescar num barco de aluguel. Haverá um troféu para aquele que pescar o maior peixe-vela da temporada, e colocarei seu retrato no saguão. Não será um lugar familiar. Será um lugar para pessoas em lua de mel... primeira ou segunda. — E onde vai conseguir dinheiro para comprar esse lugar fabuloso? — perguntei. — Com suas ações? Andy olhou para mim e sorriu.

— Não está muito longe. — disse ele. — Às vezes você me surpreende, Red. — O que quer dizer com isso? — Na verdade, só existem dois tipos de homens no mundo que enfrentam problemas... — disse Andy, colocando as mãos em volta de um fósforo e acendendo um cigarro. — Imagine se houvesse uma casa cheia de quadros raros, esculturas e antiguidades de alto valor, Red. E imagine se o dono da casa ouvisse dizer que um tremendo furacão se aproximava. Um desses dois tipos de homem espera o melhor. O furacão vai mudar de direção, diz para si mesmo. Nem pensar que o furacão ousaria varrer todos esses Rembrandts, meus dois cavalos de Degas, meus Grant Woods e meus Bentons. Além do mais, Deus não permitiria. E se o pior tiver que acontecer, eles estão no seguro. Esse é um tipo de homem. O outro tipo simplesmente acha que o furacão vai entrar pelo meio da casa e destruí-la. Se o serviço de meteorologia informar que o furacão acabou de mudar de direção, esse cara vai achar que vai mudar de novo e arrasar sua casa. Esse segundo tipo de cara sabe que não há mal em esperar o melhor, desde que esteja preparado para o pior. Acendi um cigarro. — Está dizendo que está preparado para essa eventualidade? — Sim, estava preparado para o furacão. Sabia que era difícil. Não tinha muito tempo, mas agi com o tempo que tinha. Tinha um amigo — praticamente a única pessoa em quem podia confiar — que trabalhava numa firma de investimentos em Portland. Morreu há uns seis anos atrás. — Sinto muito. — É. — Andy jogou a guimba fora. — Eu e Linda tínhamos cerca de quatorze mil dólares. Não é muito, mas poxa, éramos jovens. Tínhamos a vida inteira pela frente. — contraiu um pouco o rosto, depois riu. — Quando as coisas pioraram, comecei a tirar meus Rembrandts da rota do furacão. Vendi minhas ações e paguei os impostos sobre o lucro como um bom menino. Declarei tudo. Não escondi nada. — Não confiscaram seus bens? — Fui incriminado por assassinato, Red, e não morto! Não se pode confiscar os bens de um homem inocente — graças a Deus. E foi antes de terem a coragem de me condenar pelo crime. Jim — meu amigo — e eu tínhamos algum tempo. Me dei mal, perdi um bocado. Fiquei esfolado. Mas naquela época tinha coisas piores com que me preocupar do que uma perda na bolsa. — É, imagino que sim. — Mas quando vim para Shawshank estava tudo seguro. Ainda está. Do outro lado destes muros, Red, existe um homem que ninguém jamais viu. Tem cartão de seguro social e carteira de motorista do Maine. Tem certidão de nascimento. Chama-se Peter Stevens. Um simpático nome comum, hein? — Quem é ele? — perguntei. Achava que sabia o que ia responder, mas não podia acreditar. — Eu. — Não vai me dizer que teve tempo de conseguir uma identidade falsa com os vigias andando atrás de você. — disse eu. — Ou que terminou o trabalho enquanto estava sendo julgado... — Não, não vou lhe dizer isso. Foi meu amigo Jim quem conseguiu a identidade falsa. Ele começou a se mexer depois que meu recurso foi recusado, e os principais documentos de identificação estavam em suas mãos por volta da primavera de 1950. — Deve ter sido um grande amigo. — disse eu. Não sabia o quanto acreditava naquilo —pouco, muito ou nada. Mas o dia estava quente e o sol brilhava, e a história era incrivelmente interessante. — Tudo isso é cem por cento ilegal, conseguir uma identidade falsa assim. — Era um grande amigo. — disse Andy. — Estivemos juntos na guerra. França, Alemanha, a ocupação. Era um bom amigo. Sabia que era ilegal, mas também sabia que conseguir uma identidade falsa neste país é muito fácil, e muito seguro. Pegou meu dinheiro — todo o dinheiro com os impostos

pagos para que o Imposto de Renda não se interessasse muito — e investiu-o para Peter Stevens. Fez isso em 1950 e 1951. Hoje chega a trezentos e setenta mil dólares e mais alguns trocados. Acho que meu queixo fez um barulho quando caiu até o peito, porque ele riu. — Imagine se todas as pessoas tivessem investido desde 1950, por aí. quantas não estariam na situação de Peter Stevens. Se eu não tivesse vindo parar aqui, provavelmente teria agora uns sete ou oito milhões de dólares. Teria um Rolls Royce... e provavelmente uma úlcera do tamanho de um rádio portátil. Colocou as mãos na terra e começou a peneirar os seixos. Moviam-se rápido, com graça. — Torcia pelo melhor e esperava o pior—nada além disso. O nome falso foi só para manter meu pequeno capital intacto. Tirei as pinturas do caminho do furacão. Mas não imaginava que o furacão... que fosse tão longe como foi. Eu fiquei calado por um tempo. Acho que estava tentando absorver a ideia de que aquele homem pequeno e magro em trajes cinza da prisão pudesse ter mais dinheiro que o Diretor Norton conseguiria juntar até o final de sua vida miserável, mesmo com todas as trapaças. — Quando você disse que podia contratar um advogado, não estava brincando mesmo. — eu disse por fim. — Com essa grana poderia contratar Clarence Darrow ou quem quer que esteja em seu lugar hoje em dia. Por que não fez isso, Andy? Meu Deus, você poderia ter saído daqui como um foguete. Ele sorriu. Era o mesmo sorriso que tinha no rosto quando me disse que ele e a mulher tinham a vida inteira pela frente. — Não. — disse ele. — Um bom advogado teria tirado o tal do Williams de Cashman, quisesse ele ou não. — disse eu. Estava começando a me empolgar. — Poderia ter conseguido um novo julgamento, contratado detetives particulares para investigar sobre Blatch e de sobra deixado Norton em maus lençóis. Por que não, Andy? — Porque fui esperto. Se algum dia tentar colocar as mãos no dinheiro de Peter Stevens daqui de dentro vou perder até o último centavo. Meu amigo Jim poderia ter feito isso, mas Jim está morto. Entende o problema? Entendia. Apesar de todos os benefícios que traria para Andy, aquele dinheiro também poderia pertencer a outra pessoa. De certa forma pertencia. Se de repente o negócio em que tinha investido começasse a cair, tudo que Andy poderia fazer seria ficar olhando o naufrágio, acompanhando dia após dia nas páginas de mercado do Press Herald. E uma coisa dura, imagino. — Vou lhe contar como é, Red. Há um grande campo de feno na cidade de Buxton. Sabe onde fica Buxton, não sabe? Disse que sim. É pertinho de Scarborough. — Exatamente. E do lado norte desse campo há um muro de pedra, saído de um poema de Robert Frost. E em algum lugar ao longo da base desse muro há uma pedra que não tem similar num campo de feno no Maine. E um pedaço de vidro vulcânico e até 1947 era usado como peso de papel na mesa do meu escritório. Meu amigo Jim colocou-a nesse muro. Há uma chave debaixo dela. A chave abre um cofre da agência de Portland do Banco Casco. — Acho que você está numa fria. — disse eu. — Quando seu amigo Jím morreu, o Serviço de Receita Pública deve ter aberto todos os seus cofres. Juntamente com o testamenteiro, é claro. Andy sorriu e deu um tapinha do lado da minha cabeça. — Nada mau. Há mais coisas aí dentro além de marshmallows. Mas pensamos na possibilidade de Jim morrer enquanto eu estivesse na cadeia. O cofre está no nome de Peter Stevens e uma vez por ano a firma que fez o testamento de Jim envia um cheque ao Casco para cobrir o aluguel do cofre de Stevens.

Peter Stevens está dentro desse cofre, só esperando para sair. Sua certidão de nascimento, a carteira do Seguro Social e a carteira de motorista. A carteira está expirada há seis anos porque Jim morreu há seis anos, é verdade, mas ainda pode ser perfeitamente renovada por cinco dólares. Os certificados das ações estão lá, os títulos sem impostos e cerca de dezoito ações ao portador no valor de dez mil dólares cada. Assoviei. — Peter Stevens está trancado num cofre do Banco Casco de Portland e Andy Dufresne trancado num cofre em Shawshank — disse ele. — Pão-pão, queijo- queijo. E a chave que abre o cofre, o dinheiro e a vida nova estão debaixo de uma pedra de vidro preto num campo de feno de Buxton. Já lhe disse tudo isso, e vou dizer mais, Red—nos últimos vinte anos, sem tirar nem pôr, venho acompanhando os jornais com uma atenção redobrada procurando notícias sobre algum projeto de construção em Buxton. Fico achando que qualquer dia vou ler que vão construir uma estrada passando por lá, ou um hospital comunitário, ou um shopping center. Seria enterrar minha nova vida debaixo de dez metros de concreto ou cuspi-la dentro de algum pântano e aterrá-la. Falei sem pensar: — Meu Deus, Andy, se tudo isso é verdade, como ainda não ficou louco? Ele sorriu. — Por enquanto, tudo tranquilo no front. — Mas pode levar anos... — Vai levar. Talvez não tanto quanto o Estado e o Diretor Norton imaginem. Não posso esperar tanto. Fico pensando em Zihuatanejo e naquele pequeno hotel. E tudo o que quero na vida, Red, e acho que não quero demais. Não matei Glenn Quentin e não matei minha mulher; e aquele hotel... não estou querendo demais. Nadar, me bronzear e dormir num quarto com as janelas abertas e espaço... não é querer demais. Jogou as pedras fora. — Sabe, Red. — disse sem pensar. — Num lugar como aquele teria que ter um homem que soubesse como conseguir as coisas. Pensei naquilo por um longo tempo. E o maior inconveniente para mim não era nem que estivéssemos falando sobre sonhos num patiozinho de exercícios de merda numa prisão com guardas armados nos olhando do alto de suas guaritas. — Eu não poderia. — disse eu. — Não conseguiria ser bem-sucedido lá fora. Agora sou o que eles chamam de um homem institucional. Aqui sou o homem que pode conseguir as coisas, tá legal. Mas lá fora qualquer um pode conseguir. Lá fora, se quiser pôsteres, cinzéis, um determinado disco ou um kit de barco para montar, pode usar a merda das Páginas Amarelas. Aqui, eu sou a merda das Páginas Amarelas. Não saberia como começar. Nem por onde. — Você se subestima. — disse ele. — Você é um autodidata, um homem que venceu com o próprio esforço. Um homem notável, para mim. — Porra, não tenho nem diploma de segundo grau. — Eu sei disso. — disse ele. — Mas não é só um pedaço de papel que faz um homem. E também não é só a prisão que o estraga. — Eu não poderia ser um profissional lá fora, Andy. Sei disso. Andy levantou-se. — Pense nisso. — disse ele displicentemente quando o sinal lá dentro tocou. E foi-se embora, caminhando como um homem livre que acabara de fazer uma proposta a outro homem livre. E por algum tempo aquilo foi o suficiente para que me sentisse livre. Andy tinha essa capacidade. Conseguia me fazer esquecer por alguns instantes que nós dois éramos condenados à prisão

perpétua, à mercê de um conselho de liberdade condicional composto por canalhas e de um diretor pregador de salmos que queria Andy exatamente ali onde estava. Afinal de contas, Andy era um cãozinho de estimação que sabia como reaver o dinheiro dos impostos. Que animalzinho formidável! Mas naquela noite em minha cela senti-me um prisioneiro de novo. A ideia parecia absurda e a imagem mental de águas azuis e praias de areias brancas pareciam mais dolorosas que tolas — fisgava minha mente como um anzol. Simplesmente não conseguia usar aquele casaco invisível como Andy. Adormeci e sonhei com uma pedra enorme de vidro preto no meio de um campo de feno; uma pedra com a forma de uma enorme bigorna de ferreiro. Tentava levantar a pedra para poder pegar a chave que estava embaixo. Nem se movia, era grande demais. E ao fundo, cada vez mais próximo, ouvia o latido de cães de caça. O que nos leva, suponho, ao tema de fugas. Claro, acontecem de vez em quando em nossa pequena família feliz. No entanto, não se pula o muro, não em Shawshank, não se o cara for esperto. As luzes de busca ficam acesas a noite inteira, lançando longos dedos brancos por sobre os campos abertos que circundam três lados da prisão e o pântano fedorento do quarto lado. Os prisioneiros algumas vezes pulam os muros, e as luzes de busca quase sempre os pegam. Se não, são capturados tentando pegar carona na Autoestrada 6 ou na 99. Se tentam atravessar os campos, algum fazendeiro os vê e telefona logo para a prisão dando sua localização. Os prisioneiros que pulam os muros são burros. Shawshank não é nenhuma Canon City, mas numa área rural um homem tentando atravessar o campo de pijama cinza fica tão evidente quanto uma barata num bolo de casamento. Durante esses anos, os caras que tiveram êxito—talvez fantasticamente, talvez nem tanto foram os caras que fizeram isso impulsivamente. Alguns saíram dentro de uma carreta cheia de lençóis; um sanduíche de réu na pureza do branco dos lençóis, pode-se dizer. Isso acontecia muito logo que cheguei aqui, mas com o passar dos anos eles mais ou menos fecharam essa saída. O famoso programa “AO AR LIVRE” do Diretor Norton também produziu sua cota de fugas. Eram os caras que decidiram levar o nome do programa ao pé da letra. E, novamente, na maioria dos casos, era uma coisa bem espontânea. Jogar o ancinho no chão e entrar debaixo de um arbusto enquanto os vigias tomam um copo d’água no caminhão ou quando uma dupla deles se envolve numa discussão. Em 1969, os integrantes do programa “AO AR LIVRE” colhiam batatas aos domingos. Era dia três de novembro e o trabalho estava quase no fim. Havia um guarda chamado Henry Pugh e, acreditem, não é mais membro da nossa pequena família feliz — sentado no para-lama traseiro de um dos caminhões de batatas, almoçando com sua carabina atravessada em cima dos joelhos, quando uma linda mulher (assim me contaram, mas às vezes exageram) surgiu do meio da bruma do começo da tarde. Pugh foi atrás dela imaginando como ficaria aquele troféu exposto em sua galeria de recordes, e enquanto fazia isso três dos presos simplesmente foram embora. Dois foram recapturados numa sala de jogos eletrônicos em Lisboa. O terceiro não foi encontrado até hoje. Acho que o caso mais famoso foi o de Sid Nedeau. Isso foi em 1958 e acho que nunca vai ser apurado. Sid estava do lado de fora marcando as linhas do campo para um campeonato interno de beisebol no sábado, quando o sinal das três horas soou anunciando a troca de guardas. O estacionamento fica depois do pátio de exercícios, do outro lado do portão principal eletrônico. Às três horas o portão se abre e os guardas que chegam e os que saem se misturam. Há muitas brincadeiras, insultos, comparações de times e as costumeiras piadinhas étnicas cansativas. Sid simplesmente saiu empurrando a máquina portão afora deixando atrás de si uma linha de oito centímetros de espessura que ia desde o lugar do batedor no pátio de exercícios até uma vala do outro lado da Rodovia 6, onde encontraram a máquina virada numa pilha de cal. Não me perguntem como

conseguiu. Estava vestido com seu uniforme de presidiário, tinha um metro e noventa de altura e formava nuvens de poeira de cal atrás de si. Tudo o que posso imaginar é que, sendo uma sexta-feira à tarde e tudo, os guardas que iam embora estavam tão felizes e os que entravam, tão deprimidos, que os membros do primeiro grupo continuaram com a cabeça nas nuvens e os do segundo não tiraram os olhos da ponta dos sapatos... e o velho Sid Nedeau simplesmente escapuliu no meio deles. Pelo que eu saiba, Sid ainda está solto. Durante esses anos Andy Dufresne e eu demos boas risadas com a grande fuga de Sid Nedeau, e quando ouvimos falar daquele sequestro de avião em que o cara pulou de paraquedas da porta traseira do avião, Andy jurou de pés juntos que o verdadeiro nome de D. B. Cooper era Sid Nedeau. — E provavelmente tinha o bolso cheio de cal para dar sorte. — disse Andy. — Aquele sortudo filho da mãe. Mas vocês devem entender que casos como o de Sid Nedeau ou o do cara que fugiu habilmente do campo de batatas num domingo são como se esses caras tivessem ganho o sweepstake irlandês. Puramente um caso de seis tipos de sorte diferentes que se consolidam todas ao mesmo tempo. Um cara formal como Andy podia esperar noventa anos e nunca conseguir uma chance dessas. Talvez vocês se lembrem que um pouco atrás mencionei um cara chamado Henley Backus, que tomava conta do banheiro da lavanderia. Ele veio para Shawshank em 1922 e morreu na enfermaria da prisão trinta e um anos depois. Fugas e tentativas de fuga eram seu passatempo, talvez porque nunca tenha ousado correr o risco. Podia lhe dizer cem planos diferentes, todos malucos, e todos já tinham sido tentados em Shank alguma vez. Minha história predileta era a de Beaver Morrison, que tentou construir sozinho um planador no porão da fábrica de placas. O projeto em que se baseava estava num livro escrito por volta de 1900 chamado Guia de Diversões e Aventuras do Rapaz Moderno. Beaver construiu o planador sem ser descoberto, assim diz a história, para descobrir depois que não havia no porão uma porta suficientemente grande para passar o troço. Quando Henley contava essa história todos choravam de rir, e ele sabia uma dúzia — uma não, duas dúzias de histórias — quase tão engraçadas quanto essa. Os detalhes dos fracassos ocorridos em Shawshank, Henley contava com minúcias. Contou uma vez que no seu tempo tinha havido mais de quatrocentas tentativas de fuga, que ele soubesse. Pense mesmo nisso antes de balançar a cabeça e continuar lendo. Quatrocentas tentativas de fuga! Isso significa 12,9 tentativas de fuga para cada ano que Henley Backus passou em Shawshank e as acompanhou. Era o Clube da Tentativa de Fuga do Mês. Claro que a maioria das tentativas eram frustradas, que acabavam com um guarda arrastando o idiota pelo braço e grunhindo: “Onde pensa que vai, seu corno feliz?” Henley disse que classificaria talvez umas sessenta como tentativas mais sérias, e incluiu a “fuga da prisão” de 1937, um ano antes de eu chegar a Shank. A nova ala administrativa estava em construção naquela época e quatorze presos fugiram usando o material da construção guardado num barraco mal fechado. A população inteira do sul do Maine ficou em pânico com os quatorze “criminosos perigosos”, a maioria dos quais estava morta de medo e não tinha a menor ideia para onde ir, como coelhos ofuscados pelos faróis de um caminhão. Nenhum dos quatorze escapou. Dois deles morreram a tiros — dados por civis e não por policiais ou guardas da penitenciária — mas nenhum escapou. Quantos já tinham fugido entre 1938, quando cheguei aqui, e aquele dia de outubro em que Andy me falou sobre Zihuatanejo pela primeira vez? Juntando as minhas informações e as de Henley, diria dez. Dez escaparam ilesos. E embora não se possa ter certeza, acho que pelo menos metade deles está cumprindo pena em algum estabelecimento primário como Shank. Porque o cara fica realmente doutrinado. Quando se tira a liberdade de um homem e se ensina a viver dentro de uma cela, ele parece perder a capacidade de pensar em dimensões. Como aquele coelho que falei, apavorado com os faróis do caminhão prestes a matá-lo. Frequentemente o prisioneiro que acaba de fugir vai fazer alguma coisa

idiota que não tem a menor chance de dar certo... e por que? Porque isso vai trazê-lo de volta. De volta para onde compreende como as coisas funcionam. Andy não era assim, mas eu era. A ideia de ver o Pacífico soava excelente, mas tinha medo de vêlo de perto e ficar apavorado pela sua grandeza. De qualquer forma, no dia da conversa sobre o México e sobre Peter Stevens... foi naquele dia que comecei a acreditar que Andy tinha ideia de realizar um ato de sumiço. Torcia para que fosse cuidadoso, e mesmo assim não apostaria em suas chances de ser bem sucedido. O Diretor Norton observem, acompanhava Andy de perto. Andy não era mais um mortal com um número para Norton; tinham uma relação de trabalho, pode-se dizer assim. Além do mais, Andy tinha cabeça e coração. Norton estava disposto a usar uma e esmagar o outro. Da mesma forma que existem políticos honestos do lado de fora — os que continuam sem criatividade — existem guardas honestos, e se você for um bom observador de personalidades e tiver bastante dinheiro para gastar, acho que é possível dar um jeitinho para fugir. Não sou eu quem vai dizer que isso nunca aconteceu, mas Andy Dufresne não podia fazer isso. Porque, como disse, Norton não saía dos seus calcanhares. Andy sabia disso, e os guardas também. Ninguém designaria Andy para o programa “AO AR LIVRE”, não enquanto fosse o Diretor Norton quem julgasse as nomeações. E Andy não era o tipo de homem que improvisasse uma fuga como a de Sid Nedeau. Se eu estivesse no lugar dele, a lembrança daquela chave teria me atormentado constantemente. Teria sorte de conseguir dormir de verdade duas horas por noite. Buxton ficava a menos de dez quilômetros de Shawshank. Eu ainda achava que sua melhor chance era contratar um advogado e tentar um novo julgamento. Qualquer coisa para se livrar das garras de Norton. Talvez Tommy Williams calasse a boca com um simples programa de licença, mas não tinha muita certeza. Talvez um bom advogado durão do Mississippi pudesse dobrá-lo... e talvez esse advogado não precisasse se empenhar tanto. Wíiliams tinha gostado de Andy de verdade. A toda hora eu mostrava esses pontos a Andy, que apenas sorria com o olhar distante e dizia que estava pensando naquilo. Aparentemente estava pensando numa série de outras coisas também. Em 1975, Andy Dufresne fugiu de Shawshank. Não foi recapturado e acho que nunca vai ser. Na verdade, acho que Andy Dufresne nem existe mais. Mas acho que há um homem em Zihuatanejo, México, chamado Peter Stevens. Provavelmente dono de um pequeno hotel novo neste ano de Jesus de 1976. Vou lhes contar o que sei e o que acho; é quase tudo que posso fazer, não é? No dia 12 de março de 1975, as portas das celas do bloco 5 abriram-se às 6:30, como acontece todos os dias por aqui, exceto aos domingos. E como sempre, exceto aos domingos, os presos dessas celas saíram para o corredor e formaram duas filas, ouvindo as portas fecharem-se com um estrondo atrás de si. Caminharam até o portão principal do bloco onde eram contados pelos guardas antes de desceram para o refeitório para o café da manhã com mingau de aveia, ovos mexidos e bacon gorduroso. Tudo isso aconteceu como de costume até a contagem no portão do bloco de celas. Deveria haver vinte e sete homens. No entanto, havia vinte e seis. Após chamarem o chefe dos guardas, permitiram que o bloco 5 fosse tomar café. O chefe dos guardas, um sujeito não muito mau chamado Richard Gonyar, e seu assistente, um maucaráter metido a engraçadinho chamado Dave Burkes, desceram imediatamente até o bloco 5. Gonyar reabriu as portas das celas e ele e Burkes desceram o corredor juntos, passando seus cassetetes pelas grades, os revólveres a postos. Num caso desses o que geralmente acontece é alguém ter ficado doente, tão doente que nem consegue sair da cela de manhã. Mais raramente alguém morreu... ou se suicidou.

Mas desta vez encontraram um mistério ao invés de um homem doente ou um homem morto. Não encontraram homem nenhum. Havia quatorze celas no bloco 5, sete de cada lado, todas bem arrumadas — em Shawshank, a punição para uma cela bagunçada é a restrição de visitas — e vazias. A primeira hipótese levantada por Gonyar foi que tivesse havido erro na contagem ou uma piadinha eficaz. Assim, ao invés de irem trabalhar após o café, os internos do bloco 5 foram mandados de volta para suas celas, brincando felizes. Qualquer quebra na rotina era sempre bem-vinda. As portas das celas se abriram, os detentos entraram; as portas se fecharam. Algum palhaço gritou: — Quero meu advogado! Quero meu advogado! Vocês dirigem esta prisão como se fosse um puteiro! Burkes: — Cala a boca aí ou eu te arrebento! O palhaço: — Tirei um sarro com a tua mulher, Burkie. Gonyar: — Calem a boca, todos vocês, ou vão passar o dia aí! Ele e Burkes revistaram as celas novamente, contando os presos. Não precisaram ir longe. — De quem é esta cela? — perguntou Gonyar ao guarda noturno à sua direita. — Andrew Dufresne. — respondeu o guarda, e isso foi o suficiente. Tudo saiu da rotina a partir daquela hora. A confusão começou. Em todos os filmes sobre prisão que vi as sirenes disparam quando há uma fuga. Em Shawshank isso nunca acontece. A primeira coisa que Gonyar fez foi entrar em contato com o diretor. A segunda foi providenciar uma busca na prisão. A terceira foi alertar a polícia estadual de Scarborough sobre uma possível rebelião. Essa era a rotina Não exigiram que se examinasse a cela do fugitivo suspeito, e ninguém fez isso. Não naquela hora. Para quê? Estava tudo ali na cara. Era uma pequena cela quadrada, grades na janela e na porta de correr. Havia um banheiro e um catre vazio. Algumas lindas pedras no peitoril da janela. E o pôster, claro. Era Linda Ronstadt naquela época. O pôster ficava bem em cima do catre. Havia pôster ali, naquele mesmo lugar, há vinte e seis anos. E quando alguém — foi o próprio Diretor Norton, como se verificou, com imaginação, se é que houve — olhasse atrás dele, levaria um tremendo choque. Mas isso só aconteceu às seis e meia da tarde, quase doze horas depois de Andy ter sido dado como desaparecido, provavelmente vinte horas depois de ter escapado. Norton subiu pelas paredes. Soube de fonte limpa — Chester, o prisioneiro de confiança que encerava o chão do corredor da ala administrativa. Não precisou polir o buraco da fechadura com a orelha naquele dia; ele disse que podia ouvir claramente o diretor procurando registros e arquivos e xingando Rich Gonyar. — O que está querendo dizer, está “convencido de ele não estar dentro da prisão”? O que significa isso? Significa que você não o encontrou! E melhor encontrá- lo! E melhor que isso aconteça! Porque eu quero ele de volta! Está entendendo? Quero ele de volta! Gonyar falou alguma coisa. — Não aconteceu no seu turno? É o que você diz. Pelo que eu saiba, ninguém sabe quando aconteceu. Nem como. Nem se aconteceu. Agora, quero ele na minha sala até às três horas da tarde de hoje, ou algumas cabeças vão rolar. Prometo isso a você, e sempre cumpro minhas promessas! Gonyar disse alguma coisa que pareceu aumentar ainda mais a ira de Norton. — Não? Então olhe isso aqui! Olhe isso aqui! Reconhece? Os registros de contagem do bloco 5 de ontem à noite. Todos os prisioneiros registrados. Dufresne foi trancado ontem às nove horas da noite e é impossível ter fugido agora! Impossível! Agora, vá encontrá-lo! Mas às três horas daquela tarde Andy ainda estava desaparecido. O próprio Norton desceu enfurecido até o bloco 5 algumas horas depois, onde todos nós tínhamos ficado trancados o dia inteiro.

Se fomos interrogados? Passamos a maior parte daquele longo dia sendo interrogados por guardas desesperados que sentiam o dragão bufar em suas nucas. Todos dissemos a mesma coisa. Não vimos nada, não ouvimos nada. E pelo que eu saiba, estávamos dizendo a verdade. Eu, pelo menos, estava. Tudo que podíamos dizer era que Andy realmente estava em sua cela na hora em que foi trancado e quando as luzes se apagaram, uma hora depois. Uma testemunha sugeriu que Andy tinha escorrido pelo buraco da fechadura. A sugestão lhe valeu quatro dias na solitária. Eles estavam nervosos. Assim, Norton desceu resoluto olhando para nós com seus olhos azuis quase fervendo a ponto de arrancar faíscas das grades de aço temperado de nossas gaiolas. Olhava para nós como se acreditasse que estávamos todos envolvidos. Provavelmente acreditava mesmo. Entrou na cela de Andy e olhou em volta. Estava como Andy a tinha deixado, os lençóis revirados no catre, mas sem parecerem usados. Pedras no peitoril da janela... mas não todas. As que mais gostava levou consigo. — Pedras. — sussurrou Norton, e varreu-as do peitoril com estardalhaço. Gonyar, cujo turno já havia terminado, estremeceu, mas não disse nada. Os olhos de Norton pousaram no pôster de Linda Ronstadt. Linda olhava por sobre os ombros, as mãos enfiadas nos bolsos de trás da calça comprida castanho-clara, bem justa. Usava uma frente única e tinha um forte bronzeado californiano. Deve ter ofendido profundamente a sensibilidade batista de Norton, aquele pôster. Vendo-o olhar para o pôster, lembrei-me de Andy me dizendo certa vez que tinha a sensação de que podia quase entrar na fotografia e ficar com a garota. De uma maneira bem real, foi exatamente o que fez—como Norton descobriria alguns segundos depois. — Que coisa horrorosa! — grunhiu, e arrancou o pôster da parede com um puxão. E expôs o buraco aberto no concreto atrás do pôster.

Gonyar não queria entrar. Norton ordenou-o — meu Deus, a prisão inteira deve ter ouvido Norton mandá-lo entrar — e Gonyar simplesmente negou-se, categoricamente. — Isso vai custar o seu emprego! — gritou Norton. Estava tão histérico quanto uma mulher com as ondas de calor da menopausa. Tinha perdido o controle completamente. Seu pescoço ficou vermelho como brasa e duas veias saltaram latejantes em sua testa. — Pode contar com isso, seu, seu... seu francezinho! Vou botar você na rua e cuidar para que nunca mais consiga emprego em nenhuma penitenciária da Nova Inglaterra! Gonyar passou silenciosamente sua pistola a Norton, o cabo primeiro. Estava farto. Passavam duas horas de seu expediente, quase três, e ele estava farto. Foi como se a deserção de Andy de nossa pequena família feliz tivesse levado Norton ao limite máximo de uma irracionalidade íntima que existia há muito tempo... realmente estava louco naquela noite. Não sei o que seria aquela irracionalidade íntima, é claro. Mas sei que havia vinte e seis presos ouvindo a breve discussão entre Norton e Rích Gonyar naquela noite enquanto a claridade do final do dia se esvanecia do céu monótono do alto inverno, todos nós desgraçados e azarados, que tínhamos visto os administradores entrarem e saírem, os canalhas e os bonzinhos também, e todos sabíamos que o Diretor Samuel Norton tinha acabado de passar o que os engenheiros gostam de chamar de “limite de tensão”. E, juro por Deus, tinha quase a sensação de que em algum lugar podia ouvir Andy Dufresne rindo. Norton finalmente conseguiu um fiapo de gente do turno da noite para entrar no buraco que havia atrás do pôster de Linda Ronstadt de Andy. O nome do guarda esquelético era Rory Tremont, e não era

exatamente brilhante mentalmente. Talvez achasse que iria ganhar uma estrela de bronze ou algo parecido. Enfim, felizmente Norton conseguiu alguém de altura e tamanho aproximados de Andy para entrar lá; se tivessem mandado um sujeito grandão — como a maioria dos guardas — é certo que o cara teria ficado preso, tão certo como dois e dois são quatro... e ainda poderia estar lá. Tremont entrou com um pedaço de corda de nylon, que alguém tinha encontrado na mala de seu carro, amarrada na cintura e uma grande lanterna de seis pilhas na mão. A essa altura Gonyar, que tinha mudado de ideia sobre largar o trabalho e parecia ser o único ainda capaz de pensar com clareza, tinha desencavado uma série de cópias de plantas. Sei exatamente o que mostravam — uma parede que tinha três metros de espessura. As seções interna e externa tinham cerca de um metro e vinte cada uma. No centro havia 60 centímetros de vão para a tubulação, e você desejaria acreditar que isso era tudo... por mais de um motivo.

A voz de Tremont soou de dentro do buraco, fraca e abafada: — Alguma coisa está cheirando muito mal aqui, chefe. — Não tem problema! Continue! As canelas de Tremont desapareceram no buraco. Um instante depois seus pés sumiram também. A luz da lanterna ia para frente e para trás. — Chefe, está cheirando terrivelmente mal aqui. — Não tem problema, já disse!— gritou Norton. Dolorosamente, a voz de Tremont fez-se ouvir outra vez: — Cheira a merda. Meu Deus, é isso, é merda, ai meu Deus, deixa eu sair daqui, vou vomitar tudo, merda, é merda, aí meu Deeeeeeeeus... — e ouviu-se o barulho inconfundível de Tremont perdendo suas duas últimas refeições. Bem, para mim aquilo foi a gota d’água. Não pude me conter. O dia inteiro — não, droga, os últimos trinta anos — vieram à tona de uma vez e eu comecei a rir sem parar, rir como não ria desde que era um homem livre, o tipo de riso que nunca esperaria ter dentro dessas paredes cinzentas. E como foi bom, meu Deus! — Tirem esse homem daí! — gritou o Diretor Norton, e eu estava rindo tanto que não sabia se ele se referia a mim ou a Tremont. Continuava rindo, batendo os pés no chão e segurando a barriga. Não teria parado se Norton não tivesse ameaçado me dar um tiro certeiro. — Levem ele daqui! Bem, amigos e vizinhos, fui eu que entrei bem. Direto para a solitária onde fiquei quinze dias. Azar. Mas a toda hora me lembrava do coitado do não-muitobrilhante Rory Tremont gritando “ai, meu Deus, é merda, é merda”, e depois pensava em Andy Dufresne indo para o sul em seu próprio carro, vestido num elegante terno, e só podia rir. Passei aqueles quinze dias na solitária praticamente com os pés nas costas. Talvez porque metade de mim estivesse com Andy Dufresne, Andy Dufresne que tinha passado pela merda e saído limpo do outro lado, Andy Dufresne, em direção ao Pacífico. Ouvi o resto do que se passou naquela noite de meia dúzia de fontes diferentes. Não havia muito, entretanto. Acho que Rory Tremont chegou à conclusão que não tinha muito mais a perder depois de ter perdido o almoço e o jantar, porque continuou sua tarefa. Não havia perigo de cair no vão da tubulação entre os segmentos interno e externo da parede do bloco de celas; era tão estreito que Tremont teve que se apertar para entrar. Disse depois que só podia respirar pela metade e sabia como era ser enterrado vivo. O que encontrou no final do vão foi um cano de esgoto principal que servia os quatorze banheiros do bloco 5, um tubo de porcelana instalado há trinta e três anos atrás. Tinha sido quebrado. Ao lado do

buraco irregular no cano, Tremont encontrou o cinzel de Andy. Andy tinha conseguido sua liberdade, mas não tinha sido fácil. O cano era ainda mais estreito que o vão pelo qual Tremont tinha descido. Rory Tremont não entrou, e, pelo que eu saiba, ninguém entrou também. Devia ser quase indescritível. Um rato pulou do cano quando Tremont examinava o buraco e o cinzel, e ele jurou depois que era quase tão grande quanto um filhote de cocker spaniel. Subiu de volta de gatinhas para a cela de Andy como um macaco subindo num galho. E Andy tinha entrado naquele cano. Talvez soubesse que terminava num córrego a 450 metros da prisão no pântano do lado oeste. Acho que sabia. As plantas da prisão estavam por perto e Andy teria achado um jeito de estudá-las. Era um companheiro metódico. Devia saber ou ter descoberto que o cano de esgoto que saía do bloco 5 era o último em Shawshank que não estava ligado à máquina de tratamento de despejos, e devia saber que tinha de agir até meados de 1975 ou nunca mais, pois em agosto mudariam para a máquina de tratamento. Quatrocentos e cinquenta metros. O comprimento de cinco campos de futebol. Quase meio quilômetro. Arrastou-se aquela distância, talvez com uma pequena lanterna na mão, talvez com nada além de algumas caixas de fósforos. Arrastou-se naquela sujeira que não consigo ou não quero imaginar. Talvez os ratos se dispersam à sua frente, ou talvez o atacassem como às vezes fazem quando têm uma chance de atacar no escuro. Devia ter a largura certa de ombros para continuar se movendo, e provavelmente teve que fazer força para passar pelas junções dos canos. Se fosse eu, a claustrofobia teria me enlouquecido diversas vezes. Mas ele conseguiu. No final do cano encontraram pegadas enlameadas saindo do córrego parado e poluído no qual o cano desembocava. A três quilômetros dali um grupo de busca encontrou seu uniforme de prisioneiro — isso foi um dia depois. A história explodiu nos jornais, como vocês devem imaginar, mas ninguém, num raio de vinte e quatro quilômetros da prisão, apareceu para denunciar um carro roubado, roupas roubadas ou um homem nu sob o luar. Não havia mais que um cão latindo num terreiro de fazenda. Saiu do cano do esgoto e desapareceu como fumaça. Mas aposto que desapareceu na direção de Buxton. Três meses depois daquele dia memorável, o Diretor Norton pediu demissão. Era um homem derrotado, tenho o prazer de relatar. A primavera se acabara para ele. No último dia se arrastou cabisbaixo como um velho prisioneiro se arrastando cabisbaixo na enfermaria atrás de suas pílulas de codeína. Foi Gonyar quem assumiu, e para Norton deve ter sido o pior golpe de todos. Pelo que eu saiba, Sam Norton está em Eliot agora, comparecendo todos os domingos aos serviços da Igreja Batista e imaginando como Andy Dufresne conseguiu levar a melhor. Eu poderia ter-lhe respondido; a resposta a essa questão é a própria simplicidade. Alguns a têm, Sam. Outros não têm, e nunca terão. Isso é o que sei, agora vou contar o que acho. Posso errar em alguns detalhes, mas aposto meu relógio que em linhas gerais estou certo. Porque sendo Andy o tipo de homem que era, pode ter acontecido apenas de duas maneiras. E a toda hora, quando penso nisso, penso em Normaden, aquele índio meio maluco. “Bom sujeito”, tinha dito Normaden após conviver com Andy por oito meses. “Fiquei feliz em ir embora, eu. Corrente de ar forte naquela cela. O tempo todo frio. Não deixava ninguém pegar nas coisas dele. Tudo bem. Bom sujeito, nunca zombou de mim. Mas corrente de ar forte”. Pobre Normaden maluco. Sabia mais que todos nós, e soube antes. Foram oito longos meses até Andy conseguir que ele fosse embora e ter a cela só para si novamente. Se não fossem os oito meses que Normaden passou com ele logo que o Diretor Norton assumiu, acredito realmente que Andy tivesse ficado livre antes de Nixon renunciar.

Agora acredito que ele começou em 1949, naquela época — não com o cinzel, mas com o pôster de Rita Hayworth. Contei a vocês como ele parecia nervoso quando o pediu, nervoso e com uma excitação disfarçada. Na época achei que fosse apenas constrangimento, que Andy fosse o tipo do cara que não queria que ninguém soubesse que era de carne e osso e desejava uma mulher... ainda por cima uma mulher de fantasia. Mas agora acho que estava errado. Acho agora que a excitação de Andy tinha outros motivos. O que foi responsável pelo buraco que o Diretor Norton posteriormente descobriu atrás do pôster de uma garota que ainda nem era nascida quando aquela foto de Rita Hayworth foi tirada? A perseverança e o trabalho duro de Andy Dufresne, sim — não deixo de levar isso em conta. Mas houve mais dois elementos na equação: um bocado de sorte e o concreto da WPA. Não é necessário que eu explique a sorte, acho. O concreto da WPA investiguei sozinho. Investi algum tempo e dois selos e escrevi primeiro para o Departamento de História da Universidade de Maine e depois para um sujeito cujo endereço eles puderam me dar. Esse sujeito foi o mestre de obras do projeto da WPA que construiu a Ala de Segurança Máxima de Shawshank. A ala onde ficam os blocos 3, 4 e 5 foi construída entre os anos de 1934 e 1937. Hoje em dia ninguém considera o cimento e o concreto “desenvolvimentos tecnológicos” como consideramos os carros, os fornos a óleo e os navios lançachamas, mas na realidade são. Não havia cimento moderno até por volta de 1870 nem concreto moderno até depois da virada do século. Misturar o concreto é uma arte tão delicada como fazer pão. Pode ficar molhado demais ou então pouco molhado. A mistura de areia pode ficar muito grossa ou muito rala e o mesmo acontece com a mistura de cascalhos. E no ano de 1934 a ciência de misturar o negócio era bem menos sofisticada do que hoje em dia. As paredes do bloco 5 eram bastante sólidas, mas não eram bem secas e cozidas. Na verdade, eram e são bem úmidas. Após um longo período de chuvas ficavam ensopadas e até gotejavam. As rachaduras apareciam, algumas com até dois centímetros e meio. Eram sempre rebocadas com argamassa. E então chega Andy Dufresne no bloco 5. Era formado em administração de empresas pela Universidade de Maine, mas também tinha feito duas ou três cadeiras de geologia durante o período universitário. Na verdade, a geologia tornara-se seu passatempo principal. Acho que atraía sua natureza paciente e meticulosa. Uma era glacial de dez mil anos aqui; um milhão de anos para a formação de uma montanha ali, camadas de rocha se sedimentando no fundo da camada externa da terra durante milênios. Pressão. Andy me disse certa vez que toda a geologia é o estudo da pressão. E tempo, é claro. Teve tempo de estudar aquelas paredes. Muito tempo. Quando a porta da cela bate e as luzes se apagam, não há mais nada para olhar. Os novatos geralmente têm dificuldade em se adaptar ao confinamento da vida na cadeia. Ficam transtornados. Algumas vezes têm que ser arrastados para a enfermaria e sedados algumas vezes até entrarem no esquema. E comum ouvir algum novo membro de nossa pequena família feliz batendo nas grades da cela e gritando para sair... e depois de muitos gritos, a cantiga começa a ser ouvida ao longo do bloco de celas: “Peixe fora d’água, ei peixinho, peixe fresco, peixe fresco, hoje tem peixe fresco!”. Andy não perdeu a cabeça dessa maneira quando veio para Shank em 1948, mas isso não quer dizer que não tenha sentido muitas dessas coisas. Pode ter chegado quase à loucura: alguns chegam, outros ficam à beira dela. A antiga vida soprada para longe num piscar de olhos, pesadelos indefinidos estendendo-se à sua frente, uma longa temporada no inferno. Então o que ele fez, lhes pergunto? Procurou quase desesperadamente algo que pudesse divertir, sua mente inquieta. Ora, existem mil maneiras de se divertir, mesmo na prisão; parece que a mente humana é cheia de infinitos recursos em relação à diversão. Contei-lhes sobre o escultor e sua Três

Idades de Jesus. Havia colecionadores de moedas que sempre perdiam suas coleções para os ladrões, colecionadores de selos, um sujeito que tinha cartões-postais de trinta e cinco países diferentes — e poderia matar se encontrasse alguém remexendo neles. Andy interessou-se por pedras. E pelas paredes de sua cela. Acho que sua intenção inicial deve ter sido apenas gravar suas iniciais na parede no lugar onde em breve o pôster seria pendurado. As iniciais ou talvez alguns versos de algum poema. No entanto, o que encontrou de interessante foi o concreto mole. Talvez tenha começado a gravar as iniciais e um grande pedaço de parede caiu. Posso vê-lo deitado no catre, olhando o pedaço de concreto, revirando-o nas mãos. Não importa a ruína de sua vida inteira, não importa que tenha vindo pela estrada de ferro para este lugar num trem de azar. Esqueçamos tudo isso e olhemos este pedaço de concreto. Alguns meses depois deve ter achado que seria engraçado ver quanto poderia tirar daquela parede. Mas não se pode simplesmente começar a cavar a parede e depois, quando a inspeção semanal chegar (ou as inspeções inesperadas que estão sempre descobrindo esconderijos interessantes de biritas, drogas, fotografias obscenas e armas), dizer ao guarda: “Isso? Só estou fazendo um buraquinho na parede da minha cela. Não se preocupe, amigo.”. Não, não podia ser assim. Então chegou para mim e perguntou se poderia lhe conseguir um pôster da Rita Hayworth. Não um pequeno, mas um grande. E, claro, tinha o cinzel. Lembro-me de ter pensado, quando lhe consegui o instrumento em 1948, que um homem levaria seiscentos anos para escavar a parede com ele. É bem verdade. Mas Andy só teve meia parede para cavar — e mesmo com o concreto mole, precisou de dois cinzéis e vinte e sete anos. Claro que perdeu mais da metade de um ano com Normaden, e só podia trabalhar à noite, de preferência tarde da noite, quando quase todos estão dormindo inclusive os guardas do turno da noite. Mas suspeito que o que mais o atrasou foi se livrar dos pedaços de parede à medida que os tirava. Podia abafar o barulho do trabalho enrolando a cabeça do cinzel com panos de polir pedra, mas o que fazer com a poeira de concreto e os pedaços que ocasionalmente saíam inteiros? Acho que deve ter quebrado os pedaços em pequenos cascalhos e... Lembrei do domingo depois que lhe consegui o cinzel. Lembro de tê-lo visto atravessar o pátio de exercícios, o rosto inchado do último encontro com as irmãs. Vi quando se agachou, pegou uma pedra... e ela desapareceu dentro de sua manga. Aquele bolso dentro da manga é um velho truque de prisão. Dentro da manga ou na bainha da calça. E tenho outra lembrança, muito forte mas pouco clara, talvez algo que tenha visto mais de uma vez. E a lembrança de Andy Dufresne atravessando o pátio de exercícios num dia quente de verão quando o ar está completamente parado. Parado, sim... a não ser pela breve brisa que levantava poeira em torno dos pés de Andy. Talvez tivesse mais de um bolso falso nas calças abaixo dos joelhos. O negócio era encher os bolsos falsos e sair andando com as mãos nos bolsos, e quando se sentisse seguro e não estivesse sendo observado, dar um pequeno puxão nos bolsos. Os bolsos, claro, são presos com barbante ou uma corda forte aos bolsos falsos. O conteúdo vai escorrendo pela perna da calça à medida que anda. Os prisioneiros de guerra na Segunda Guerra Mundial que tentavam fugir por túneis usavam esse truque. Os anos se passaram e Andy trouxe sua parede para o pátio de exercícios aos punhados. Jogava o jogo com cada diretor e eles pensavam que era porque queria que a biblioteca continuasse crescendo. Não duvido que isso também fizesse parte, mas o mais importante para Andy era ocupar sozinho a cela 14 do bloco 5. Duvido que realmente tivesse planos ou esperança de fugir, pelo menos não no começo. Provavelmente achou que a parede tivesse três metros de concreto sólido e se conseguisse escavá-la totalmente sairia nove metros depois do pátio de exercícios. Mas, como eu digo, acho que ele não estava

muito preocupado em fugir. Deve ter imaginado o seguinte: Faço apenas trinta centímetros de progresso a cada sete anos mais ou menos; assim, levarei setenta anos para fugir; aí teria cento e um anos de idade. Eis uma segunda suposição que eu teria feito se fosse Andy: que algum dia eu seria pego e passaria muito tempo na solitária, sem falar de uma grande advertência na minha ficha. Afinal de contas, havia a inspeção semanal regular e uma revirada de surpresa — geralmente à noite — a cada duas semanas mais ou menos. Deve ter achado que o negócio não ia durar muito. Mais cedo ou mais tarde um guarda ia espiar atrás de Rita Hayworth só para se certificar de que Andy não tinha um cabo de colher afiado ou alguns cigarros de maconha presos com durex na parede. Sua resposta à segunda suposição deve ter sido dane-se. Talvez até tenha feito um jogo daquilo. Quanto tempo vão levar até descobrirem? A prisão é uma droga de um lugar cacete e a chance de ser surpreendido por uma inspeção não programada durante a noite, quando tivesse tirado o pôster, provavelmente acrescentou algum sabor à sua vida durante os primeiros anos. E realmente acredito que teria sido impossível continuar impune por pura sorte. Não por vinte e sete anos. No entanto, tenho que acreditar que nos primeiros dois anos — até meados de maio de 1950, quando ajudou Byron Hadley a se livrar dos impostos sobre sua herança inesperada — foi exatamente por pura sorte que conseguiu continuar. Ou talvez tivesse algo mais que pura sorte naquela época. Tinha dinheiro e deve ter dado um troco para alguém toda semana para maneirar com ele. A maioria dos guardas aceita se o preço for justo; é dinheiro no bolso, e o prisioneiro consegue ficar com seu pôster e seus cigarros feitos a mão. Além de tudo, Andy era um presidiário modelo — calmo, educado, respeitador, pacífico. Os desordeiros e agitadores é que têm suas celas reviradas pelo menos uma vez a cada seis meses, seus colchões abertos, seus travesseiros apreendidos ou abertos, os canos de seus banheiros cuidadosamente verificados. Então, em 1950, Andy tornou-se algo mais que um prisioneiro modelo. Em 1950 tornou-se uma mercadoria valiosa, um assassino que fazia retorno de impostos melhor do que qualquer companhia. Dava conselhos grátis de planejamento de bens, estabelecia prevenções contra taxas, preenchia formulários de empréstimos (algumas vezes com muita criatividade). Lembro-me dele sentado atrás de sua mesa na biblioteca, pacientemente estudando um acordo de empréstimo para um automóvel, parágrafo por parágrafo, para um guarda que queria comprar um De Soto usado, dizendo ao cara o que era vantajoso no acordo e o que não era, explicando que era possível pedir um empréstimo sem se endividar muito, fazendo-o desistir das firmas de financiamento, que naquele tempo metiam a mão. Quando terminou, o guarda estendeu a mão, e depois puxou-a de volta rapidamente. Por um instante se esqueceu que estava lidando com um mascote, e não com um homem. Andy acompanhava as leis de impostos e as mudanças no mercado de ações, e assim sua utilidade não acabou depois que ficou em reclusão por um tempo, como deveria ter acontecido. Começou a receber o dinheiro da biblioteca, suas lutas com as irmãs acabaram e ninguém mexia muito em sua cela. Era um bom crioulo. Então um dia, bem mais tarde — talvez por volta de outubro de 1967 — o antigo passatempo transformou-se em outra coisa. Uma noite, quando estava enfiado no buraco até a cintura com Raquel Welch pendurada sobre seu traseiro, a ponta do cinzel deve ter afundado repentinamente no concreto até o punho. Teria retirado alguns pedaços de concreto, mas talvez tenha ouvido outros caindo naquele vão, retinindo naquele cano ascendente. Será que sabia naquela época que iria encontrar aquele vão, ou ficou totalmente surpreso? Não sei. Naquela época já devia ter visto as cópias da planta da prisão, ou não. Caso não tivesse visto, pode ter certeza que deu um jeito de vê-las não muito depois.

De uma hora para outra deve ter percebido que ao invés de estar simplesmente jogando um jogo, estava correndo um alto risco.., em termos de sua vida e seu futuro, o mais alto risco. Mesmo a essa altura ainda não podia ter certeza, mas devia ter uma boa ideia, porque foi exatamente nessa época que me falou sobre Zihuatanejo pela primeira vez. De repente, ao invés de ser simplesmente um brinquedo, aquele estúpido buraco na parede tornou-se seu objetivo — se sabia da existência do cano do esgoto no fundo e que este passava sob o muro externo — com toda certeza. Teve a chave embaixo da pedra em Buxton para se preocupar durante anos. Agora tinha que se preocupar se algum novo guarda esperto olharia atrás do pôster e revelaria tudo, ou se teria algum outro companheiro de cela, ou se depois de todos aqueles anos de repente fosse transferido. Teve tudo isso na cabeça nos oito anos seguintes. Tudo o que posso dizer é que deve ter sido o homem mais calmo que já existiu. Eu teria ficado completamente louco depois de algum tempo, vivendo com toda essa incerteza. Mas Andy simplesmente continuou jogando o jogo. Teve que carregar a possibilidade de ser descoberto por mais oito anos — a probabilidade, podese dizer, porque por mais cuidado que tivesse ao apostar as cartas, na condição de prisioneiro não tinha muitas cartas — e os deuses tinham sido generosos com ele por muito tempo; uns dezenove anos. A ironia mais terrível que posso imaginar teria sido se lhe concedessem liberdade condicional. Já pensaram? Três dias depois que o preso é solto, é transferido para a ala de pouca segurança para se submeter a um exame físico completo e a uma bateria de testes vocacionais. Enquanto está lá, sua cela é totalmente limpa. Ao invés de conseguir a liberdade condicional, Andy iria passar um bom período lá embaixo na solitária, seguido de mais um período em cima... mas em outra cela. Se ele encontrou o vão em 1967, como é que só fugiu em 1975? Não tenho certeza — mas posso adiantar alguns bons palpites. Primeiro, deve ter ficado mais cuidadoso do que nunca. Era inteligente demais para simplesmente continuar na maior velocidade e tentar escapar em oito meses ou mesmo em dezoito. Deve ter ido alargando a abertura da passagem aos poucos. Um buraco do tamanho de uma xícara na época em que tomou seu drinque de véspera de Ano-Novo naquele ano. Um buraco do tamanho de um prato quando tomou o drinque de aniversário em 1968. Do tamanho de uma bandeja à época em que começou a temporada de beisebol de 1969. Por um tempo achei que devia ter ido mais rápido do que aparentemente foi — depois que abriu o caminho, quero dizer. A mim parecia que, ao invés de reduzir o entulho a pó e tirá-lo da cela nos bolsos falsos que descrevi, podia simplesmente deixá-lo cair no vão. O tempo que levou me faz acreditar que não ousou fazer isso. Deve ter achado que o barulho levantaria suspeitas. Ou, se soubesse do cano de esgoto, como acredito que sabia, deve ter ficado com medo de que um pedaço de concreto pudesse quebrá-lo ao cair antes que ele estivesse pronto, danificando o sistema de esgoto do bloco de celas e levando a uma investigação. E uma investigação, desnecessário dizer, o levaria à ruína. Contudo, suponho, à época em que Nixon prestou juramento para seu segundo mandato, o buraco devia estar suficientemente largo para Andy enfiar-se por ele... provavelmente antes disso. Andy era um cara pequeno. Então, por que ele não foi naquela época?—aí que minhas suposições disciplinadas se esgotam, pessoal; a partir desse ponto tornam-se progressivamente confusas. Uma possibilidade é que o buraco estivesse entupido de merda e ele tivesse que limpá-lo. Mas isso não levaria todo esse tempo. Então o que foi? Acho que talvez Andy tenha ficado com medo. Contei-lhes da melhor maneira possível como é ser um homem institucional. Primeiro você aguenta

aquelas paredes, depois pode suportá-las, depois você as aceita, e depois, quando seu corpo, sua mente e seu espírito se ajustam à vida em escala de Holmes, você as ama. Dizem-lhe quando comer, quando escrever cartas, quando fumar. Se está trabalhando na lavanderia ou na fábrica de placas, são-lhe concedidos cinco minutos a cada hora para ir ao banheiro. Durante trinta e cinco anos, meu tempo era vinte e cinco minutos depois da hora, e depois de trinta e cinco anos essa era a única hora em que sentia necessidade de mijar ou cagar: vinte e cinco minutos depois da hora. E se por alguma razão não pudesse ir, a vontade passava depois de trinta e voltava nos vinte e cinco minutos após a hora seguinte. Acho que Andy deve ter lutado contra esse tigre — essa síndrome institucional — e também contra o medo terrível de que tudo fosse em vão. Quantas noites deve ter ficado acordado embaixo daquele pôster, pensando naquela tubulação de esgoto, sabendo que uma única chance era tudo que tinha? As cópias das plantas devem-lhe ter mostrado o diâmetro do cano, mas uma cópia de planta não poderia lhe mostrar como seria dentro do cano — se seria capaz de respirar sem ficar asfixiado, se os ratos eram grandes e ferozes o suficiente para enfrentálo ao invés de fugirem... e uma cópia de planta não poderia lhe mostrar o que ele encontraria no final do cano, quando e se chegasse lá. Agora uma piada mais engraçada que a da liberdade condicional: Andy entra na tubulação de esgoto, se arrasta durante quatrocentos e cinquenta metros de escuridão asfixiante com cheiro de merda e sai numa enorme rede. Ha, ha, ha muito engraçado. Isso deve ter passado por sua cabeça. E se conseguisse vencer e sair, seria capaz de conseguir roupas civis e fugir das cercanias da prisão sem se identificar? Finalmente, imagine se saísse do cano, escapasse de Shawshank antes que o alarme soasse, fosse a Buxton, virasse a pedra certa... e não encontrasse nada? Não necessariamente algo tão dramático quanto chegar ao campo certo e descobrir que um enorme edifício de apartamentos fora erguido no local ou que virara estacionamento de supermercado. Podia acontecer de algum garotinho que gostasse de pedras notasse aquele pedaço de vidro vulcânico, virasse-o, visse a chave do cofre e a levasse junto com a pedra para seu quarto como lembrança. Talvez um caçador chutasse a pedra, deixasse a chave exposta e um esquilo ou um corvo que gostasse de coisas brilhantes a levasse. Talvez tivesse havido uma enchente na primavera de um determinado ano que rompera o muro levando a chave. Talvez qualquer coisa. Então eu acho — suposição confusa ou não — que Andy ficou paralisado por algum tempo. Afinal de contas, não se perde se não se aposta. O que tinha a perder, vocês perguntam? Sua biblioteca, por exemplo. A droga de vida institucional, outro exemplo. Qualquer chance futura de conquistar sua liberdade segura. Mas finalmente conseguiu, como lhes contei. Tentou... e, que coisa! Não conseguiu de maneira espetacular? Me digam! Mas ele escapou mesmo, vocês perguntam? O que aconteceu depois? O que aconteceu quando chegou naquele prado e virou aquela pedra... sempre pressupondo que a pedra ainda estava lá? Não posso descrever esta cena, porque este homem institucional ainda está nessa instituição e acha que continuará por muitos anos. Mas vou lhes contar o seguinte. No final do verão de 1975, no dia 15 de setembro para ser mais exato, recebi um cartão-postal que tinha sido postado na minúscula cidade de McNary, Texas. Esta cidade fica do lado americano da fronteira, bem em frente a El Porvenir. O lado em branco do cartão estava completamente vazio. Mas eu sei. Tenho certeza no fundo do meu coração como tenho a certeza de que todos nós vamos morrer um dia. McNary foi por onde cruzou a fronteira. McNary, Texas. Pois bem, esta é a minha história, pessoal. Nunca soube quanto tempo levaria para escrever nem quantas páginas teria. Comecei a escrever logo depois que recebi aquele cartão-postal, e aqui estou.

terminando dia 14 de janeiro de 1976. Usei três lápis até o finalzinho e um bloco inteiro de papel. Escondi bem as páginas... não que muitos conseguissem ler meus garranchos, afinal de contas. Suscitou mais recordações do que eu poderia imaginar. Escrever sobre você mesmo é como enfiar um galho no córrego de águas limpas e revolver a terra embaixo. Mas você não estava escrevendo sobre você mesmo, ouço alguém na plateia dizer. Estava escrevendo sobre Andy Dufresne.Você não passa de um personagem secundário de sua própria história. Mas não é bem assim. É tudo sobre mim, cada droga de palavra. Andy era a parte de mim que eles nunca conseguiram prender, a parte que vai alegrar- se quando os portões finalmente se abrirem e eu sair andando com meu terno barato e meus vinte dólares suados no bolso. Essa parte de mim vai alegrarse, não importa quanto o resto de mim esteja velho, abatido e amedrontado. Acho que o que acontece é simplesmente que Andy tinha mais dessa parte que eu, e a usava melhor. Há outros como eu aqui, outros que se lembram de Andy. Estamos felizes por ele ter ido embora, mas um pouco tristes também. Alguns pássaros não nasceram para ficar na gaiola, é isso. Suas penas são brilhantes demais, seu canto, doce e selvagem. Então você os liberta, ou quando abre a gaiola para alimentá-los, passam por você e vão embora. E a parte de você que sabe que é errado prendê-los fica contente no inicio, mas depois o lugar em que você mora torna-se muito mais monótono e vazio com sua partida. Esta é a história, e estou feliz por tê-la contado, mesmo que seja um pouco inconclusiva e mesmo que algumas lembranças que o lápis revolveu (como aquele galho revolvendo o fundo do rio) tenham me feito sentir um pouco triste e mesmo mais velho do que sou. Obrigado por terem escutado. E Andy, se você estiver mesmo lá, como acredito que esteja, olhe as estrelas por mim depois do pôr do sol, toque a areia, mergulhe na água e sinta-se livre.

Nunca pensei em retomar esta narrativa, mas aqui estou com as páginas dobradas e com orelhas na minha frente. Aqui estou para acrescentar mais três ou quatro páginas, escrevendo num bloco novo. Um bloco que comprei numa loja — simplesmente entrei numa loja na Portland’s Congress Street e o comprei. Achei que tinha finalizado minha história numa cela de prisão de Shawshank num dia frio de janeiro em 1976. Agora é maio de 1977 e estou sentado num quarto pequeno e barato do Hotel Brewster em Portland, aumentando-a. A janela está aberta e o barulho do tráfego fluindo parece enorme, excitante e intimidante. Tenho que olhar a toda hora pela janela para me reassegurar de que ela não tem grades. Durmo mal à noite porque a cama deste quarto, por mais barata que seja, parece grande e luxuosa demais. Desperto todas as manhãs pontualmente as seis e meia, sentindo-me desorientado e amedrontado. Meus sonhos são maus. Tenho uma sensação horrível de queda livre. A sensação é apavorante e estimulante ao mesmo tempo. O que aconteceu na minha vida? Podem adivinhar? Recebi liberdade condicional. Depois de trinta e oito anos de audiências rotineiras e recusas rotineiras (no curso desses trinta e oito anos, três advogados meus morreram), minha liberdade condicional foi concedida. Acho que eles chegaram à conclusão de que, aos cinquenta e oito anos de idade, fui consumido o bastante para ser considerado digno de confiança. Estive muito perto de queimar o documento que vocês acabaram de ler. Eles vigiam os presos em liberdade condicional quase com tanto cuidado quanto vigiam os “novatos”. E além de conter bastante dinamite para me garantir uma reviravolta e mais seis ou oito anos de cadeia, minhas “memoirs” continham mais uma coisa o nome da cidade onde acredito que Andy Dufresne esteja. A policia mexicana coopera satisfatoriamente com a americana, e não queria que minha liberdade — ou que minha relutância

em desistir da história que me deu tanto trabalho e que levei tanto tempo para escrever — custasse a liberdade de Andy. Depois lembrei como Andy tinha trazido seus quinhentos dólares em 1948 e omiti esta parte da mesma maneira. Só por segurança, reescrevi cuidadosamente cada página em que mencionava Zihuatanejo. Se as páginas tivessem sido encontradas durante minha “busca externa”, como dizem em Shank, teria sofrido uma reviravolta... mas os guardas teriam procurado Andy numa cidade da costa peruana chamada Las lntrudes. O Conselho de Liberdade Condicional me deu um emprego de “assistente de estoquista” no grande FoodWay Market de Spruce Mali na zona sul de Portland— o que significa que me tornei mais um carregador idoso. Há apenas dois tipos de carregadores, vocês sabem: os velhos e os jovens. Ninguém repara em nenhum deles. Se você faz compras no FoodWay de Spruce Mali, eu posso ter levado suas compras até o carro... mas você teria que ter feito suas compras entre março e abril de 1977, pois foi o tempo que trabalhei lá. Primeiro achei que não conseguiria de jeito nenhum me adaptar ao mundo exterior. Descrevi a sociedade da prisão como uma escala menor do seu mundo exterior, mas não tinha ideia de como as coisas mudam rápido lá fora a velocidade crua a que as pessoas andam. Até falam mais rápido. E mais alto. Foi a adaptação mais difícil por que já passei, e ainda não acabei... não totalmente. As mulheres, por exemplo. Depois de mal saber que eram metade da humanidade durante quarenta anos, de repente estava trabalhando num lugar cheio delas. Mulheres idosas, mulheres grávidas de camisetas com setas apontando para baixo e a frase impressa BEBÉ AQUI, mulheres magras com os bicos dos seios apontando nas camisetas — uma mulher vestida daquele jeito quando fui para a cadeia teria sido presa e sua sanidade julgada — mulheres de todos os tipos e tamanhos. Surpreendia-me andando o tempo todo com ereção, e me xingava por ser um velho indecente. Ir ao banheiro era outra coisa. Quando tinha que ir (a vontade sempre vem vinte e cinco minutos depois da hora), tinha que lutar contra a necessidade quase irresistível de consultar o meu chefe. Saber que eu podia simplesmente ir e fazer nesse mundo exterior reluzente era uma coisa; adaptar minha personalidade interior a essa prática depois de tantos anos tendo que consultar o guarda mais próximo, ou passar dois dias na solitária se não o fizesse.... isso era outra coisa. Meu chefe não gostava de mim. Era um cara jovem, vinte e seis ou vinte e sete anos, e eu sentia que o desagradava do mesmo modo que um velho cão servil e adulador que fica em pé para receber carinho desagrada um homem. Meu Deus, eu me desagradava. Mas... não conseguia parar. Queria lhe dizer: É isso que uma vida inteira na cadeia lhe faz, meu jovem. Transforma qualquer pessoa em posição de autoridade em amo e você no cachorro de todo amo. Talvez você saiba que virou um cachorro, mesmo na prisão, mas como todos os outros de roupa cinza também são, parece que não tem muita importância. Mas aqui fora tem. Mas não podia dizer isso a um jovem como ele. Nunca entenderia. Nem o suboficial que me vigiava entenderia, um ex-oficial da marinha, grande e sincero, de enorme barba ruiva e um grande estoque de piadas polonesas. Encontravame por cerca de cinco minutos a cada semana. “Está fora das grades, Red?” perguntava, quando não tinha mais piadas polonesas. Eu dizia “é”, e era só isso até a semana seguinte. Música no rádio. Quando entrei, as grandes bandas estavam com força total. Agora toda música parece que fala de trepar. Tantos carros. No começo parecia que tinha a vida por um fio cada vez que atravessava a rua. Havia mais — tudo era estranho e assustador — mas você talvez pegue a ideia, ou ao menos consiga tocar uma ponta dela. Comecei a pensar em fazer alguma coisa para voltar. Quando se está em liberdade condicional qualquer coisa serve. Tenho vergonha de contar, mas cheguei a pensar em roubar

algum dinheiro ou mercadoria do FoodWay, qualquer coisa, para voltar para o lugar que era calmo e você sabia tudo que ia acontecer durante o dia. Se nunca tivesse conhecido Andy, provavelmente teria feito isso. Mas ficava pensando nele, que passou todos aqueles anos cavando pacientemente o concreto com o cinzel para ser livre. Pensava naquilo, sentia vergonha e desistia da ideia novamente. Ah, vocês podem dizer que ele tinha mais motivos para ser livre do que eu — tinha nova identidade e muito dinheiro. Mas não é bem verdade, sabem? Porque não tinha certeza que a nova identidade ainda estava lá, e sem a nova identidade o dinheiro estaria sempre fora de seu alcance. Não, o que precisava era somente de liberdade, e se eu chutasse para o alto a que tinha seria como cuspir em tudo que ele lutou para conseguir. Então, o que comecei a fazer nas minhas horas livres foi pegar caronas até a pequena cidade de Buxton. Isso foi no começo de abril de 1977, a neve começando a derreter nos campos, o ar começando a esquentar, os times de beisebol vindo para o norte começar uma nova temporada do único jogo que tenho certeza que Deus aprova. Quando fazia essas viagens, levava uma bússola no bolso. Há um grande campo de feno em Buxton, Andy tinha dito, e do lado norte desse campo há um muro de pedra, saído de um poema de Robert Frost. Em algum lugar ao longo da base desse muro há uma pedra que não tem similar num campo de feno em Maine. Uma missão impossível, vocês diriam. Quantos campos de feno existem numa pequena cidade rural como Buxton? Cinquenta? Cem? Por experiência própria diria mais que isso, se você levar em conta os campos que hoje são cultivados e que deviam ser de grama quando Andy entrou. E se eu achar o certo, talvez nunca saiba. Porque não vou perceber o pedaço de vidro vulcânico preto ou, o que é mais provável, Andy colocou-o no bolso e levou-o consigo. Então concordarei com vocês. Uma missão impossível, sem dúvida. Pior; perigosa para um homem em liberdade condicional, porque alguns desses campos têm placas avisando NÃO ULTRAPASSE. E, como disse, ficam muito satisfeitos de baterem no seu traseiro e mandarem você de volta se sair da linha. Uma missão impossível... mas cavar uma parede sólida de concreto durante vinte e sete anos também é. E quando não se é mais o cara que pode conseguir as coisas, mas apenas um velho carregador de compras, é bom ter um passatempo para desviar a cabeça da vida nova. Meu passatempo era procurar a pedra de Andy. Então eu pegava caronas para Buxton e caminhava pelas estradas. Ouvia os pássaros, a água da primavera escorrendo para os bueiros, examinava as marcas que a neve havia deixado — coisas sem utilidade e sem valor, sinto dizer; o mundo parece ter se tornado terrivelmente esbanjador desde que fui para a cadeia — e procurava campos de feno. A maioria podia ser eliminada na hora. Nenhum muro de pedra. Outros tinham muros, mas minha bússola me dizia que estava na direção errada. Andava pelos campos errados, de qualquer maneira. Era uma coisa animadora de fazer, e nessas saídas me sentia livre, em paz. Um cachorro velho caminhou comigo num sábado. E um dia vi um cervo magro do inverno. Depois veio o dia 23 de abril, um dia que jamais esquecerei mesmo que viva mais cinquenta e oito anos. Era uma tarde refrescante de sábado e eu caminhava por uma estrada que um garoto, que pescava de uma ponte, me disse chamar-se The Old Smith Road. Eu tinha levado meu almoço num saco marrom do FoodWay e comia sentado numa pedra à beira da estrada. Quando acabei, enterrei cuidadosamente os restos como meu pai me ensinara antes de morrer, quando eu era um garotinho da mesma idade do pescador que me dissera o nome da estrada. Por volta das duas horas cheguei num grande campo à minha esquerda. Havia um muro de pedra no final dele, virado ligeiramente para o nordeste. Andei até ele chapinhando no chão molhado e comecei a seguir o muro. Um esquilo me censurou do alto de um carvalho.

A três quartos do fim vi a pedra. Não havia engano. Vidro preto macio como seda. Uma pedra que não fazia sentido num campo de feno do Maine. Por um longo tempo fiquei apenas olhando, sentindo que ia chorar, por alguma razão. O esquilo havia me seguido e continuava tagarelando. Meu coração batia desesperadamente. Quando senti que havia recobrado o controle, fui até a pedra, me agachei ao lado dela as juntas dos meus joelhos dobraram-se como um revólver de cano duplo — e deixei minha mão tocá-la. Era real. Não peguei-a porque achei que haveria alguma coisa embaixo, poderia facilmente ter ido embora sem descobrir o que havia embaixo. Certamente não planejava levá-la comigo, porque senti que não era eu que devia levar — senti que tirar aquela pedra do campo seria o pior tipo de roubo. Não, só peguei para senti-la melhor, para sentir o peso da coisa e, suponho, para provar sua realidade sentindo sua textura acetinada na minha pele. Fiquei olhando o que estava embaixo por muito tempo. Meus olhos viram, mas minha mente custou a assimilar. Era um envelope, cuidadosamente embrulhado num plástico para protegê-lo da umidade. Meu nome estava escrito na frente com a letra inconfundível de Andy. Peguei o envelope e deixei a pedra onde Andy havia deixado, e o amigo de Andy antes dele.

Meu caro Red, Se está lendo isto é porque está solto. De alguma maneira está solto. E se veio tão longe, deve estar disposto a ir um pouco mais. Acho que se lembra do nome da cidade, não lembra? Eu poderia ter um bom sujeito para me ajudar a realizar meu projeto. Enquanto isso, tome um drinque por mim — e pense bem nisso. Ficarei esperando por você. Lembre-se de que a esperança é uma coisa boa, Red, talvez a melhor coisa, e as coisas boas nunca morrem. Espero que esta carta o encontre, e o encontre bem. Seu amigo, Peter Stevens

Não li esta carta no campo. Uma espécie de terror tomou conta de mim, uma necessidade de fugir antes que fosse visto. Para fazer um trocadilho meio apropriado, estava apavorado de ser apreendido. Voltei para o meu quarto e li a carta, com o cheiro de jantar de gente velha subindo pelo vão da escada até mim — Beefaroni, Rice-a-Roni, Noodle Roni. Pode apostar que qualquer coisa que os velhos americanos, os que recebem uma renda fixa, costumam comer à noite, quase certamente acaba em roni. Abri o envelope e li a carta e depois coloquei as mãos no rosto e chorei. Junto com a carta havia vinte notas novas de cinquenta dólares. E aqui estou no Hotel Brewster, tecnicamente um foragido da justiça novamente — violação da liberdade condicional é meu crime; acho que ninguém vai bloquear estradas para pegar um homem por esse crime pensando no que vou fazer agora. Tenho este manuscrito. Tenho uma pequena bagagem do tamanho de uma mala de médico com tudo o que possuo. Tenho dezenove notas de cinquenta, quatro de dez, três de um e uns trocados. Troquei cinquenta para comprar este bloco e um maço de cigarros. Pensando no que vou fazer. Mas realmente não há dúvidas. Sempre sobram duas opções. Ocupar-se em viver ou ocupar-se em morrer. Primeiro vou pôr este manuscrito de volta na mala. Depois vou fechá-la, pegar meu casaco, descer e fechar a conta desse pulgueiro. Depois vou a pé até um bar na cidade e colocar uma nota de cinco dólares na frente do barman e pedir duas doses puras de Jack Daniel’s—uma para mim e outra para Andy Dufresne. Fora uma ou duas cervejas, serão os primeiros drinques que tomarei como homem livre desde 1938. Depois darei um dólar de gorjeta ao barman e agradecerei gentilmente. Sairei do bar, subirei a

Spring Street até o terminal de ônibus Greyhound onde comprarei uma passagem para El Paso via Nova York. Quando chegar a El Paso, comprarei uma passagem para McNary. E quando chegar em McNary, acho que terei uma chance de descobrir se um ladrão velhaco como eu pode conseguir atravessar a fronteira de barco e entrar no México. Claro que me lembro do nome: Zihuatanejo. Um nome como esse é bonito demais para ser esquecido. Descubro que estou excitado, tão excitado que mal posso segurar o lápis em minhas mãos trêmulas. Acho que é uma excitação que só um homem livre pode sentir, um homem livre no inicio de uma longa viagem de resultado incerto. Espero que Andy esteja lá. Espero conseguir atravessar a fronteira. Espero encontrar meu amigo e apertar sua mão. Espero que o Pacífico seja tão azul quanto em meus sonhos. Espero.



As Crianças do Milharal

(do livro Sombras da Noite)

Introdução de Stephen King

A versão cinematográfica de “As Crianças do Milharal” (Colheita Maldita) é meio que um avatar dos filmes de terror dos anos 70 — até mesmo o sangue espirrado parece pronto para cheirar cocaína e dançar ao som dos BeeGees — e ele tem uma fala (não no conto, como você perceberá) que fizeram meus filhos se acabarem de rir: “Forasteiro, nós temos a sua mulher!”. Mas, ora, vamos... não é tão ruim assim. Para mim, tem aquele clima de O Homem de Palha (o primeiro Wicker Man, aquele que é bom), e Linda Hamilton, que logo mais estrelaria O Exterminador do Futuro em toda a sua glória, certamente se doa totalmente. Ainda assim, se doar totalmente às vezes não resolve. Às vezes a história original é melhor simplesmente porque a imaginação de uma pessoa nunca depende de um orçamento. Eu acho que a versão escrita é mais sinistra, porque o milho é sinistro. No filme, ele simplesmente parece... milho. No filme, o milho nunca vai meter medo no Drácula. Em outra nota: Colheita Maldita gerou mais sequências horríveis do que qualquer outra história em minhas obras. Existe, pelo menos, Colheita Maldita II, III e IV. Possivelmente mais (eu eventualmente perdi a conta). Se minha conexão com a Internet não estivesse desligada enquanto escrevo isto, eu checaria para ver se já não existe um Colheita Maldita no Espaço. Eu acho que quase houve. Mas o único pelo qual eu realmente torci para existir foi Colheita Maldita VS. Leprechaun. Eu gostaria de ouvir o pequeno leprechaun gritando “Dê-me meu milho de volta!” em seu sotaque irlandês engraçadinho.

Burt ligou o rádio alto demais e não diminuiu o volume porque estavam à beira de outra discussão e ela não queria que isto acontecesse. Vicky disse alguma coisa. — O quê? — berrou ele. — Abaixe isso! Quer estourar-me os tímpanos? Ele mordeu com força a resposta que lhe viera à boca e diminuiu o volume do rádio. Vicky abanava-se com o lenço, embora o Thunderbird tivesse ar condicionado. — Onde estamos, afinal? — Em Nebraska. Ela lhe lançou um olhar frio e neutro. — Sim, Burt. Sei que estamos em Nebraska. Mas onde, diabo, estamos? — Você tem o mapa rodoviário. Procure. Ou não sabe ler? — Que espirituoso! Foi por isso que saímos da rodovia. Para podermos ver quinhentos quilômetros de milharais. E gozarmos do espírito e sabedoria de Burt Robeson. Ele segurava o volante com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. Fazia-o porque pensava que, caso relaxasse um pouco os dedos, uma daquelas mãos simplesmente voaria do volante e acertaria a ex-Rainha do Baile do Ginásio bem no mastigador de alfafa. Estamos salvando nosso casamento, refletiu. Sim. Da mesma forma que salvamos as aldeias na guerra do Vietnã. — Vicky — disse ele com cautela. — Dirigi dois mil e quatrocentos quilômetros nas rodovias principais desde que saímos de Boston. Dirigi o tempo todo, porque você se recusou a revezar-se comigo. Então... — Não me recusei! — protestou Vicky com veemência. — Só porque tenho enxaqueca quando dirijo muito tempo seguido... — Então, quando perguntei se você faria o papel de navegadora para mim em algumas das estradas secundárias, você respondeu: Claro, Burt. Foram exatamente suas palavras: Claro, Burt. Então... — Às vezes eu fico imaginando como acabei casada com você. — Dizendo duas pequenas palavras. Ela o fitou por um momento, com os lábios brancos de tão apertados. Em seguida, pegou o atlas rodoviário, virando as páginas com violência. Fora um erro sair da rodovia principal, pensou Burt sombriamente. Uma pena, também, porque até então vinham muito bem, tratando-se mutuamente quase como seres humanos. Às vezes parecia que aquela viagem à Costa Oeste, cuja finalidade ostensiva era visitar o irmão e a cunhada de Vicky, mas realmente uma última e desesperada tentativa de remendar seu casamento, ia dar certo. Contudo, desde que haviam deixado a rodovia principal as coisas vinham piorando outra vez. Até que ponto? Bem, na verdade, até um ponto terrível. — Saímos da rodovia em Hamburg, certo? — Certo. — Não há mais nada até Gatlin — disse ela. — Trinta e dois quilômetros. Aqui indica um trecho largo na estrada. Supõe que poderíamos parar ali para comer alguma coisa? Ou seu todo-poderoso cronograma de viagem nos obriga a prosseguirmos até as duas da tarde, como ontem? Ele tirou os olhos da estrada para encará-la. — Já estou farto, Vicky. No que me diz respeito, podemos dar a volta aqui mesmo e partir para casa, para falarmos com aquele advogado que você queria consultar. Porque nada está dando certo e... Ela tornara a olhar para a estrada, o rosto fechado numa expressão de pedra, que de repente se

transformou em surpresa e temor. — Burt, olhe o que está... Ele retomou a atenção à estrada bem a tempo de ver algo desaparecer sob o Thunderbird. Um instante depois, enquanto ainda estava mudando o pé do acelerador para o freio, sentiu um solavanco horripilante sob as rodas dianteiras e, logo em seguida, sob as traseiras. Foram atirados para a frente quando o carro ficou ao longo da linha central da estrada, desacelerando de oitenta para zero ao longo de negras marcas de pneus. — Um cão — disse ele. — Diga-me que foi um cão, Vicky. O rosto dela estava pálido como requeijão caseiro. — Um menino. Um garotinho. Ele saiu correndo do milharal e... parabéns, tigre. Abriu a porta do carro com súbita afobação, debruçou-se para fora e vomitou. Burt ficou sentado, ereto, ao volante do Thunderbird, as mãos na mesma posição que antes e apenas um pouco relaxadas. Por longo tempo, não se deu conta de coisa alguma exceto do forte e desagradável cheiro de fertilizante. Então, percebeu que Vicky saíra do carro e, olhando pelo retrovisor lateral, viu-a tropeçando desajeitada na direção de algo que parecia uma pilha de trapos. Normalmente, era uma mulher graciosa, mas agora sua graciosidade se fora, roubada. Homicídio culposo. É isso que dirão. Desviei o olhar da estrada. Desligou o motor do carro e saltou. O vento roçava suavemente no milharal em desenvolvimento, da altura de um homem, produzindo um som esquisito semelhante a uma espécie de respiração. Agora, Vicky estava em pé junto à pilha de trapos e Burt ouviu-a soluçar. Estava a meio caminho entre o carro e Vicky quando algo lhe atraiu o olhar à esquerda da estrada, uma berrante mancha vermelha entre todo aquele verde, brilhando como tinta de celeiro. Parou, olhando diretamente para o milharal. Viu-se pensando (qualquer coisa para desviar a mente daqueles trapos que não eram trapos) que a estação devia ser fantasticamente propícia ao cultivo do milho. O milharal estava crescido e cerrado, quase a ponto de produzir. Seria possível enveredar por aquelas fileiras regulares e cheias de sombra e ter que passar o dia inteiro procurando o caminho de volta. Ali, porém, a regularidade das fileiras fora quebrada; vários talos de milho estavam quebrados e caídos para os lados. E o que seria aquilo, mais além, na sombra? — Burt! — berrou Vicky. — Você não vem ver? Para poder contar a seus parceiros de pôquer o que matou em Nebraska! Você não... Mas o resto da frase perdeu-se entre novos soluços. A sombra de Vicky cercava-lhe os pés. Era quase meio-dia. A sombra se fechou sobre Burt quando ele entrou no milharal. A brilhante mancha de tinta vermelha era sangue. Um zumbido grave e sonolento partia das moscas que pousavam, tiravam uma prova do sangue e tornavam a voar... talvez para contar às companheiras. Havia mais sangue nas folhas do interior do milharal. Claro que o sangue do menino atropelado não poderia ter respingado tão longe? Então, Burt parou ao lado do objeto que vira da estrada. Apanhou-o. Naquele ponto, a regularidade das fileiras de milho estava perturbada. Vários talos inclinavam-se em ângulos diversos e dois deles tinham sido quebrados. Havia sulcos na terra. E sangue. O milharal sussurrava com o vento. Burt estremeceu e voltou à estrada. Vicky estava histérica, gritando-lhe palavras ininteligíveis, rindo e chorando ao mesmo tempo. Quem poderia imaginar que tudo fosse terminar de forma tão melodramática? Olhou para a mulher e percebeu que ele não estava passando por uma crise de identidade, ou uma difícil transição na vida, ou qualquer daquelas coisas que estavam tão em moda. Ele a detestava. Deu-lhe

um forte tapa no rosto. Ela emudeceu repentinamente e levou a mão à marca vermelha que os dedos dele lhe tinham deixado no rosto. — Você irá para a cadeia, Burt — declarou solenemente. — Creio que não — replicou ele, depositando aos pés dela a maleta que encontrara no milharal. — O que...? — Não sei. Acho que pertencia a ele. Burt apontou para o corpo que jazia estendido de bruços na estrada. Não mais de treze anos de idade, pela aparência. A maleta era velha. O couro marrom surrado e arranhado pelo uso. Depois pedaços de corda de pendurar roupas tinham sido passados em volta e atados em laços grandes, que mais pareciam uma palhaçada. Vicky abaixou-se para desatar um deles. Viu sangue na corda e recuou. Burt ajoelhou-se e virou delicadamente o corpo. — Não quero ver — disse Vicky. Entretanto, seus olhos não conseguiram deixar de fitar o cadáver. E quando o rosto cego, de olhos esbugalhados, deu a impressão de olhar para ela, Vicky gritou. O rosto do menino estava sujo, contraído numa careta de pavor. Sua garganta fora cortada. Burt levantou-se e tomou Vicky nos braços quando ela começou a cair. — Não desmaie — disse ele baixinho. — Está ouvindo, Vicky? Não desmaie. Continuou a repetir a frase até que Vicky começou a recobrar-se e se agarrou a ele. Pareciam estar dançando no meio da estrada fustigada pelo sol do meio-dia, com o cadáver do menino a seus pés. — Vicky? — Que é? O som da voz foi abafado de encontro à camisa de Burt. — Volte ao carro e guarde as chaves no bolso. Retire o cobertor do assento traseiro e pegue meu rifle. Traga-os para cá. — O rifle? — Alguém degolou o menino. Talvez o assassino esteja nos observando. Vicky ergueu vivamente a cabeça e seus olhos arregalados fitaram o milharal que se estendia até onde a vista alcançava, ondulando de acordo com as suaves depressões e elevações do terreno. — Imagino que ele tenha fugido. Mas por que nos arriscarmos? Vá. Faça o que eu disse. Ela andou empertigadamente até o automóvel, acompanhada pela própria sombra, uma mascote escura que se mantinha próxima àquela hora do dia. Quando ela se inclinou para o banco traseiro, Burt agachou-se ao lado do menino. Branco, masculino, sem marcas distintas. Atropelado, sim; mas o Thunderbird não lhe cortara a garganta. Um corte irregular, ineficiente — nenhum sargento do exército ensinara ao assassino os melhores métodos para matar em combate corpo-a-corpo — mas o efeito final fora mortal. O menino correra ou fora empurrado através dos últimos dez metros de milharal, ou morto ou mortalmente ferido. E Burt Robeson o atropelara. Se o menino ainda estivesse vivo quando o carro lhe passou por cima, sua vida fora abreviada de, no máximo, trinta segundos. Vicky cutucou-lhe o ombro e ele se sobressaltou. Ela trazia o cobertor marrom do exército sobre o braço esquerdo e a espingarda de caça de repetição na mão direita, mantendo O olhar desviado do cadáver. A arma ainda estava na capa de lona. Burt pegou o cobertor e o estendeu na estrada. Rolou o cadáver para cima dele. Vicky emitiu um leve gemido desesperado.

— Você está bem? — Burt ergueu os olhos para ela. — Vicky? — Estou bem — respondeu ela em voz estrangulada. Burt virou as bordas do cobertor para cima do cadáver e o ergueu nos braços, detestando o peso morto. O corpo do menino tentou fazer um U entre seus braços e escorregar para o chão. Burt agarrou-o com mais força e o carregou para o carro. — Abra a mala — grunhiu ele. A mala do carro estava cheia de bagagens, maletas e souvenires. Vicky passou a maior parte para o banco traseiro e Burt deixou o cadáver do menino escorregar para o espaço aberto. Fechou a tampa da mala e deixou escapar um suspiro de alívio. Vicky estava em pé junto à porta do motorista, ainda segurando a espingarda guardada na capa de lona. — Coloque isso aí atrás e entre no carro. Burt consultou o relógio e verificou que apenas quinze minutos se tinham passado. Pareceram-lhe horas. — E a maleta? — indagou Vicky. Burt voltou trotando pela estrada até o lugar onde a maleta estava sobre a linha branca central da pista, como o ponto focal de uma pintura impressionista. Pegou-a pela alça gasta e fez uma pausa. Tinha a forte sensação de estar sendo observado. Era uma sensação sobre a qual lera nos livros, principalmente de ficção barata, e de cuja existência sempre duvidara. Agora, não duvidava mais. Era como se existissem pessoas no milharal, talvez muitas delas, calculando friamente se a mulher conseguiria retirar a arma da capa e dispará-la antes que pudessem agarrá-lo, arrastá-los para o interior sombrio do milharal, cortar-lhe o pescoço... Com o coração aos saltos, correu de volta ao carro, arrancou as chaves da fechadura da mala e embarcou. Vicky chorava outra vez. Burt deu partida no carro e antes que se passasse um minuto já não conseguia ver pelo retrovisor o lugar onde tudo acontecera. — Qual você disse que era a próxima cidade? — perguntou. — Oh — disse ela, debruçando-se outra vez sobre o atlas rodoviário. Gatlin. Devemos chegar lá em dez minutos. — Parece ter tamanho suficiente para possuir uma delegacia de polícia? — Não. É apenas um pontinho no mapa. — Talvez exista pelo menos um policial responsável pela localidade. Viajaram em silêncio por algum tempo. Passaram por um silo à esquerda da estrada. Excetuando isso, só milharais. Nenhum carro passou por eles em sentido contrário. Nem mesmo um caminhão de fazendeiro. — Passamos por algum veículo desde que saímos da rodovia principal, Vicky? Ela pensou um pouco. — Por um carro e um trator. Naquele cruzamento. — Não, desde que entramos nesta estrada. Rodovia 17. — Não, creio que não passamos. Antes, isto poderia ser o prefácio de algum comentário mordaz. Agora, ela se limitava a olhar pela sua metade do para-brisa, vendo a faixa de asfalto que parecia rolar velozmente para baixo do carro e a interminável risca tracejada marcando o centro. — Vicky? Pode abrir a maleta? — Acha que pode fazer diferença?

— Não sei. Talvez faça. Enquanto ela desatava os nós (o rosto tenso de uma maneira peculiar — inexpressivo mas com os lábios apertados — que fazia Burt lembrar sua mãe quando limpava as tripas da galinha dos domingos), Burt tornou a ligar o rádio. A estação de música pop que estavam escutando antes era quase totalmente inaudível por causa da estática e Burt girou vagarosamente o botão de sintonia. fazendo o ponteiro vermelho deslocar-se pelo mostrador. Noticiários agrícolas. Tammy Winette. Tudo muito distante, numa balbúrdia distorcida. Então, perto da extremidade do mostrador, uma única palavra foi berrada pelo alto-falante, tão alta e nítida que os lábios que a pronunciaram bem poderiam estar junto à grade do rádio no painel do carro: — EXPIAÇÃO! — berrou a voz. Burt soltou um grunhido de surpresa Vicky sobressaltou-se. — SÓ PELO SANGUE DO CORDEIRO SEREMOS SALVOS! — rugiu a voz. Burt apressou-se em diminuir o volume. A estação era bastante próxima, sem dúvida. Tão próxima que... sim, lá estava ela, erguendo-se acima do milharal, quase no horizonte, um tripé de aço parecendo um pedaço de teia de aranha de encontro ao azul do céu: a torre transmissora. — Meus irmãos e minhas irmãs, expiação é a palavra — disse a voz, assumindo um tom mais coloquial. Ao fundo, longe do microfone, outras vozes murmuraram: Amém! — Existem aqueles que pensam que está muito bem saírem pelo mundo, como se pudessem trabalhar e andar pelo mundo sem serem maculados por ele. Ora, é isso que a palavra de Deus nos ensina? Longe do microfone, mas bem alto: — Não! — SAGRADO JESUS! — berrou o evangelista. Em seguida as palavras vieram numa cadência forte e bem marcada, quase tão arrebatadora quanto o ritmo violento de um rock-and-roll: — Quando aprenderão eles que esse caminho é a morte? Quando compreenderão que os salários do mundo são pagos no outro lado? Hem? Hem? O Senhor disse que existem muitas moradas em Sua casa. Mas não há lugar para o fornicador. Não há lugar para o cobiçoso. Não há lugar para o que profana o milho. Não há lugar para o homossexual. Não há lugar... Vicky desligou o rádio. — Essa bobagem me enoja. — O que disse ele? — quis saber Burt. — Que disse ele a respeito do milho? — Não escutei — respondeu Vicky, tentando desatar a segunda corda. — Ele disse alguma coisa a respeito do milho. Sei que disse. — Consegui! — exclamou Vicky. A maleta abriu-se em seu colo. Estavam passando por uma placa que anunciava: GATLIN 8 KM. DIRIJA DEVAGAR. PROTEJA NOSSAS CRIANÇAS. O anúncio fora colocado pelos Elks locais. Tinha buracos de balas calibre 22. — Meias — disse Vicky. — Dois pares de calças... uma camisa... um cinto... uma gravata com um... Ela ergueu a mão, mostrando a Burt o pregador de gravata folheado a ouro que começava a descascar-se. — De quem será isto? Burt lançou um rápido olhar ao objeto. — De Hopalong Cassidy, creio.

— Oh. Vicky recolocou o pregador de gravata na maleta. Começou a chorar outra vez. Depois de algum tempo, Burt indagou: — Algo naquele sermão pelo rádio não lhe pareceu esquisito? — Não. Quando era criança, ouvi o bastante dessas baboseiras para me fartar pelo resto da vida. — Não lhe soou como um jovem? Aquele pregador? Vicky emitiu um riso sem humor. — Talvez um adolescente; e dai'? É exatamente isso que é monstruoso nesses fanáticos religiosos. Gostam de prender os jovens quando a mente ainda está em formação, ainda é moldável. Sabem como aplicar todos os freios e contrapesos emocionais. Você devia ter comparecido a algumas das reuniões religiosas às quais meus pais me arrastavam... algumas nas quais eu fui “salva”. — Vejamos... Havia Baby Hortense, a Maravilha Cantante. Tinha oito anos de idade. Aparecia para cantar “Amparados nos Braços Eternos”, enquanto o pai passava a sacola de esmolas, dizendo a todos: “Sejam generosos, agora. Não decepcionemos essa filhinha de Deus”. Havia também Norman Staunton, que pregava o fogo e as lavas do inferno na sua roupinha de Lord Fauntleroy, de calças curtas. Tinha apenas sete anos. Meneou afirmativamente a cabeça ante o olhar incrédulo de Burt. — E não eram só eles dois. Havia muitos deles no circuito. Eram boa receita — disse Vicky, cuspindo a palavra. — Ruby Stampnell, uma curandeira de dez anos de idade. As Irmãs Grace, que costumavam aparecer com pequenos halos de zinco na cabeça e... oh! Uma pausa. Então: — O que é isto? Burt virou-se para olhar. Vicky fitava, extasiada, um objeto que retirara da maleta e tinha nas mãos. Estas, passando distraidamente pelo fundo da maleta enquanto Vicky falava, tinham encontrado aquilo. Burt parou o carro para ver melhor. Sem dizer uma palavra, Vicky passou-lhe o objeto. Era um crucifixo feito com tranças de palha de milho, antes verde mas agora seca. Atado a ele por uma cordinha de fibras de pendão de milho havia um sabugo anão. A maioria dos grãos foram cuidadosamente removidos, provavelmente com um canivete, um a um. Os grãos que restavam formavam uma tosca figura cruciforme em baixo relevo amarelado. Olhos de grãos de milho, com cortes verticais que sugeriam pupilas. Braços de grãos de milho, estendidos para os lados; as pernas juntas, terminando numa tosca representação de pés descalços. Em cima, quatro letras também formadas de grãos amarelos contra o sabugo branco: INRI. — Uma fantástica peça de artesanato — comentou Burt. — É horroroso — declarou Vicky numa voz tensa, sem entonação. Jogue-o fora. — A polícia talvez deseje vê-lo, Vicky. — Por quê? — Bem, não sei por que. Talvez... — Jogue-o fora. Quer fazer isso por mim, por favor? Não, quero essa coisa dentro do carro. — Vou colocá-lo aí atrás. Tão logo falarmos com a polícia, nos livraremos dele, de um modo ou de outro. Prometo. Está bem? — Ou, faça o que quiser com essa droga! — berrou Vicky. — É o que vai fazer, de qualquer maneira! Perturbado, Burt jogou o objeto para a parte traseira do carro, onde ele caiu sobre uma pilha de roupas. Os olhos de grãos de milho fitavam arrebatadamente a luz do teto do Thunderbird. Burt deu a

partida, com o cascalho jorrando sob os pneus. — Daremos à polícia o cadáver e tudo que estava dentro da maleta prometeu ele. — Depois, esqueceremos tudo. Vicky não respondeu. Fitava as mãos. Um quilômetro e meio adiante, os infindáveis milharais afastavam-se da estrada, deixando à mostra casas de fazenda e celeiros. Viram galinhas sujas ciscando num quintal. Nos telhados dos celeiros havia anúncios desbotados de Coca-Cola e fumo de mascar. Passaram por um grande cartaz que dizia: SÓ JESUS SALVA. Passaram por um café com uma bomba de gasolina da Conoco, mas Burt decidiu ir ao centro da cidade, se esta existisse. Caso contrário, poderiam retomar até o café. Só depois de passarem pelo local ocorreu-lhe que o estacionamento estava vazio, a não ser por uma velha picape empoeirada que parecia estar com os pneus vazios. De repente, Vicky começou a rir, produzindo um som agudo que pareceu a Burt muito próximo da histeria. — O que é tão engraçado? — As placas — respondeu ela, engasgando-se e soluçando. — Não as leu? Quando chamaram esta região de Cinturão da Bíblia certamente não estavam brincando. Oh, meu Deus, lá vem outro grupo. E tornou a rir histericamente, tapando a boca com as mãos. Cada placa tinha apenas uma palavra. Estavam apoiadas em paus caiados que tinham sido cravados no acostamento arenoso — há muito tempo, a julgar pela aparência. Vinham a intervalos de três metros e Burt leu: UMA... NUVEM... DE... DIA... UMA... COLUNA... DE... FOGO... A... NOITE. — Só esqueceram uma coisa — comentou Vicky, ainda rindo incontrolavelmente. — O quê? — quis saber Burt, franzindo a testa. — Creme de barbear. Ela comprimiu o punho cerrado contra a boca aberta para conter o riso, mas as risadinhas meiohistéricas escapavam-lhe pelos cantos dos lábios como bolhas efervescentes de cerveja. — Vicky, você está bem? — Estarei. Tão logo nos encontrarmos a mil e quinhentos quilômetros daqui, na ensolarada e pecaminosa Califórnia, com as Montanhas Rochosas entre nós e Nebraska. Outro grupo de placas se aproximou e eles leram em silêncio: tomai... ISTO... E... COMEI... DISSE... O... SENHOR... DEUS. Ora, refletiu Burt, por que motivo associou imediatamente o pronome indefinido ao milho? Não é essa a frase que dizem quando comungam? Fazia tanto tempo que ele não entrava numa igreja, que nem se lembrava. Não ficaria surpreso se usassem milho para fazer hóstias, naquela região. Abriu a boca para dizer isto a Vicky, mas mudou de ideia. Chegaram ao topo de uma pequena lombada e viram Gatlin logo à frente. Três quarteirões apenas, parecendo o cenário cinematográfico de um filme sobre a Depressão. — Tem que haver um policial — disse Burt, tentando adivinhar por que motivo a visão daquela aldeia caipira cochilando ao sol lhe provocava um nó de temor na garganta. Passaram por uma placa indicativa de que a velocidade máxima era, agora, quarenta e cinco quilômetros por hora, e por um cartaz pipocado de ferrugem que dizia: VOCÊ ESTA ENTRANDO EM GATLIN, A MELHOR CIDADE PEQUENA DE NEBRASKA — OU DE QUALQUER OUTRO LUGAR! 5.431 HABITANTES. Olmos empoeirados erguiam-se em ambos os lados da estrada, a maioria deles quase morta. Passaram pela Serraria Gatlin e por um posto de gasolina 76, onde as placas com os preços balançavam-

se levemente à brisa quente do meio-dia: COMUM $ 35.9 — AZUL $ 38.9. Outra dizia: BOMBA DE ÓLEO DIESEL NOS FUNDOS. Atravessaram a Rua dos Olmos e depois a Rua das Bétulas, chegando à praça da cidade. As casas que ladeavam as ruas eram de madeira, com varandas fechadas por telas de arame. Angulosas e funcionais. Os gramados amarelados e sem viço. Lá na frente, um cão vira-lata veio vagarosamente ao centro da Rua dos Bordos e olhou para eles por um momento. Depois, deitou-se na rua com o focinho entre as patas. — Pare — disse Vicky. — Pare bem aqui. Obediente, Burt encostou o carro ao meio-fio. — Dê a volta. Vamos levar o cadáver a Grand Island. Não fica muito longe, não é? Vamos fazer isso. — O que há de errado, Vicky? — Que quer dizer com “o que há de errado?” — perguntou ela, erguendo a voz num tom agudo. — Esta cidade está vazia Burt. Não há ninguém aqui, com exceção de nós. Será que não consegue sentir isso? Ele sentira alguma coisa; ainda sentia. Mas... — É apenas impressão — replicou. — Mas, certamente, é apenas um povoado. Provavelmente estão todos na praça, num concurso de bolos ou num jogo de bingo. — Não há ninguém aqui — declarou Vicky com uma ênfase tensa e esquisita. — Você não viu aquele posto da 76, lá atrás? — Claro, perto da serraria. E daí? A mente de Burt estava distraída, escutando o canto de uma cigarra num dos olmos próximos. Ele podia sentir o cheiro de milho, de rosas empoeiradas e de fertilizantes — naturalmente. Pela primeira vez, estavam fora da rodovia principal e numa cidade. Uma cidade num estado que ele não conhecia (embora tivesse sobrevoado num Boeing 727 da United Airlines), e, de algum modo, tudo parecia estar mal e, ao mesmo tempo, bem. Em algum lugar mais adiante haveria uma lanchonete, um cinema chamado Bijou e uma escola batizada em homenagem a John Fitzgerald Kennedy. — Burt, os preços anunciados era de 35.9 por galão para a gasolina comum e 38.9 para a especial. Ora, desde quando alguém neste país não paga tais preços? — Há pelo menos quatro anos — admitiu ele. — Mas, Vicky... — Estamos em plena cidade, Burt, mas não há um só carro! Nenhum carro! — Grand Island fica a cento e dez quilômetros daqui. Ficaria esquisito levarmos o cadáver para lá. — Não importa. — Ouça, vamos apenas até o fórum da cidade e... — Não! Ali estava, com os diabos. Ali estava o motivo pelo qual o casamento estava naufragando. Numa palavra: Não. Não farei isso. Não, senhor. Além disso, prenderei a respiração até ficar azul se você não fizer o que eu quero. — Vicky — disse ele. — Quero ir embora daqui, Burt. — Vicky, escute-me. — Dê a volta. Vamos embora. — Vicky, quer parar um minuto? — Pararei quando estivermos seguindo em sentido contrário. Agora, vamos.

— Temos uma criança morta no porta-malas do carro! — rugiu Burt. E sentiu nítido prazer ao ver o modo como ela se encolheu, o modo como o rosto dela deu a impressão de desmanchar-se. Em voz ligeiramente mais baixa, ele prosseguiu: — O menino foi degolado, empurrado para a estrada e eu o atropelei. Agora, vou até o fórum, ou qualquer coisa semelhante que eles tenham aqui, comunicar o que aconteceu. Se você quer voltar a pé para a rodovia principal, vá em frente. Eu a pegarei no caminho. Mas não me diga para dar a volta e viajar cento e dez quilômetros até Grand Island como se nada houvesse no porta-malas a não ser um saco de lixo. O menino é filho de alguém e vou comunicar a ocorrência antes que o assassino consiga ir muito longe. — Filho da puta — disse ela, chorando. — O que estou fazendo em sua companhia? — Não sei — replicou Burt. — Não sei de mais nada. Mas a situação pode ser remediada, Vicky. Deu partida no carro. O cão ergueu a cabeça ao ligeiro cantar de pneus e depois tornou a pousá-la entre as patas. Percorreram o quarteirão que restava até a praça. Na esquina das ruas Principal e Agradável, a Rua Principal dividia-se em duas. Existia realmente uma praça da cidade, um parque gramado com um coreto no centro. Na outra extremidade, onde a Rua Principal se transformava novamente numa só, existiam dois prédios com aparência oficial. Burt conseguiu ler o que estava escrito num deles: CENTRO MUNICIPAL DE GATLIN. — É ali — disse ele. Vicky permaneceu calada. Na metade da praça, Burt tornou a parar o carro. Estavam em frente a um restaurante, o Gatlin Bar and Grill. — Aonde você vai? — quis saber Vicky, alarmada, quando ele abriu a porta do automóvel. — Descobrir onde estão todos. O letreiro na vitrina diz “aberto”. — Não vai me deixar aqui sozinha. — Então venha. Quem a está impedindo? Ela destrancou a porta direita e saltou, enquanto ele contornava a frente do Thunderbird. Vendo o quanto ela estava pálida, sentiu uma ponta de piedade dela. Uma piedade sem esperanças. — Está escutando? — perguntou Vicky quando ele se aproximou dela. — Escutando o quê? — O nada. Nenhum carro. Nenhuma pessoa. Nenhum trator. Nada. Então, vindo de um quarteirão de distância, ouviram o riso agudo e alegre de crianças. — Estou escutando crianças — disse Burt. — Você não está? Ela o encarou, perturbada. Burt abriu a porta do restaurante e entrou para o calor seco, antisséptico. O chão estava coberto de poeira. O brilho dos cromados embaçado. As pás de madeira dos ventiladores presos ao teto paradas. Mesas vazias. Tamboretes do bar vazios. Mas o espelho da parede por detrás do balcão do bar fora quebrado e havia algo mais... num instante, Burt percebeu: todas as torneiras de chope tinham sido quebradas e arrancadas. A voz alegre de Vicky tinha um falsete nervoso: — Claro. Pergunte a qualquer um. Com licença, senhor, mas poderia informar... — Oh, cale a boca. Mas a voz de Burt era inexpressiva, desprovida de força. Achavam-se numa faixa de sol que entrava pela grande vitrina da frente do restaurante e, mais uma vez, Burt teve aquela sensação de ser observado; pensou no cadáver do menino no porta-malas do carro e

no riso de crianças. Aparentemente sem motivo, uma frase lhe veio à mente — uma frase de som estranho, que se repetia insistentemente em seu cérebro: Comprar no escuro, sem ver. Comprar no escuro, sem ver. Comprar no escuro, sem ver. Seu olhar passou pelos velhos cartazes de papelão amarelado presos com percevejos à parede por detrás do balcão: CHEESEBURGER $ 0.35 A MELHOR SODA DO MUNDO $ 0.1O — TORTA DE MORANGO COM RUIBARBO $ 0.25 — HOJE — PRESUNTO ESPECIAL & MOLHO DA CASA C/PURÉ DE BATATAS $ 0.85. Há quanto tempo ele vira preços como aqueles? Vicky tinha a resposta: — Veja isto — disse ela em voz muito aguda, apontando para o calendário na parede. — Eles estão nessa sopa de ervilhas há doze anos, creio. Soltou um riso estridente. Burt foi até lá. A ilustração na folhinha mostrava dois meninos nadando num remanso, enquanto um cãozinho engraçadinho roubava-lhes as roupas. Abaixo da ilustração, a legenda: CUMPRIMENTOS DA SERRARIA GATLIN — Você Quebra, Nós Consertamos O mês era agosto de 1964. — Não compreendo — balbuciou Burt. — Mas tenho certeza de que... — Você tem certeza! — gritou histericamente Vicky. — Você tem certeza! Esse é o seu problema Burt: você passou a vida inteira tendo certeza! Ele voltou à porta e Vicky o seguiu. — Aonde vai? — Ao Centro Municipal. — Burt, por que você tem que ser tão teimoso? Sabe que alguma coisa aqui está errada. Será que não é capaz de admitir isso? — Não estou sendo teimoso. Quero apenas livrar-me do que está no portamalas do carro. Saíram para a calçada e Burt sentiu novamente o choque do silêncio que reinava na cidade e o cheiro de fertilizante. A gente nunca sentia aquele cheiro, nem pensava nele, quando passava manteiga e sal numa espiga de milho e a comia. Cumprimentos do sol, da chuva e todos os tipos de fosfatos, além de uma boa dose de bosta de vaca. Mas, de alguma forma, aquele cheiro era diferente do que ele sentira ao ser criado no interior do Estado de Nova York. Podiam dizer o que bem entendessem a respeito dos fertilizantes orgânicos, mas havia quase um perfume no ar quando se espalhava estrume nos campos. Não de perfume francês, é claro, mas quando a brisa do entardecer de primavera o trazia dos campos recém-arados, era um cheiro que suscitava associações agradáveis. Significava que o inverno se fora definitivamente. Significava que as portas das escolas se fechariam dentro de seis semanas para que todos aproveitassem as férias de verão. Na mente de Burt, era um cheiro irremediavelmente ligado a outros odores que eram perfumes: capim novo, trevos, terra fresca, malva, corniso. Aqui, porém, deviam fazer algo diferente, refletiu ele. O cheiro era parecido, mas não o mesmo. Havia um traço doce, enjoativo. Quase um cheiro de morte. Como padioleiro do exército no Vietnã, ele se familiarizara bastante com o cheiro da morte. Vicky estava sentada no carro, calada, segurando o crucifixo de milho no colo e fitando o com um ar embevecido que não agradava Burt. — Largue isso — disse ele. — Não — replicou ela sem erguer o olhar. — Você faz seus brinquedos, eu faço os meus. Burt engatou a marcha no carro e dirigiu até a esquina. Um sinal de tráfego apagado pendia do fio no cruzamento, balançando-se à leve brisa. A esquerda, estava uma bem cuidada igreja branca. Gramado

aparado. Flores bem tratadas orlavam o caminho de pedras que levava à porta. Burt parou o carro. — Que está fazendo? — Vou entrar e dar uma espiada — respondeu Burt. — É o único lugar na cidade que não parece estar coberto por uma camada de poeira de dez anos. Veja o quadro de sermões. Vicky olhou. As letras brancas sob o vidro do quadro anunciavam: O PODER E A GRAÇA DAQUELE QUE ANDA POR DETRÁS DAS FILEIRAS. A data era 24 de julho de 1976 — o domingo anterior. — Aquele que Anda Por Detrás das Fileiras — disse Burt, desligando o motor. — Um dos nove mil nomes de Deus que só são usados em Nebraska, presumo. Vem comigo? Ela não sorriu: — Não vou com você. — Muito bem. Como queira. — Não entro numa igreja desde que saí de casa e não quero entrar nessa igreja, como também não quero estar nesta cidade, Burt. Estou louca de medo. Será que não podemos apenas ir embora daqui? — Será só um minuto. — Tenho minhas chaves, Burt. Se você não voltar dentro de cinco minutos, ligarei o carro e irei embora, deixando você aqui. — Ora, espere aí, mocinha. — É isso que vou fazer, a menos que você queira me agredir, como um bandido barato, para me tomar as chaves. Suponho que seja capaz de fazer isso. — Mas não acredita que farei. — Não. A bolsa estava entre os dois, em cima do banco. Burt pegou-a num gesto repentino. Vicky gritou e tentou agarrar a correia da alça. Burt puxou a bolsa para fora do alcance dela. Não se dando o trabalho de procurar as chaves, simplesmente virou a bolsa de boca para baixo, entornando tudo que havia dentro. O chaveiro brilhou entre cosméticos, lenços de papel e velhas listas de compras. Vicky mergulhou na direção dele, mas Burt foi mais rápido, outra vez, e guardou as chaves no bolso. — Não precisava fazer isso — disse ela, chorando. — Me dá o chaveiro. — Não — replicou ele, lançando-lhe um sorriso duro e inexpressivo. — Nada disso. — Por favor, Burt! Estou com medo! Vicky estendeu a mão, suplicante agora. — Você esperaria dois minutos e acharia que era hora de partir. — Eu não faria... — Então, iria embora rindo e dizendo consigo mesma: "Isto ensinará Burt a não me contrariar quando quero alguma coisa". Não tem sido esse o seu lema durante toda a nossa vida de casados? “Isto ensinará Burt a não me contrariar?”. Ele saltou do carro. — Por favor, Burt! — berrou ela, escorregando-se no assento. — Escute... eu sei... sairemos da cidade e ligaremos de uma cabine telefônica, está bem? Tenho bastante troco. Eu só... nós podemos... não me deixe sozinha, Burt! Não me deixe aqui sozinha! Burt bateu a porta do carro enquanto ela gritava. Recostou-se na parte lateral do Thunderbird por um instante, os polegares comprimidos contra os olhos fechados. Vicky esmurrava o vidro da janela do motorista, gritando por ele. Iria causar uma bela impressão quando ele realmente encontrasse alguma autoridade para entregar o cadáver do menino. Oh, sim.

Virou-se e caminhou pelas pedras até a porta da igreja. Dois ou três minutos, apenas uma olhadela, e voltaria para o carro. Provavelmente, a porta estaria trancada. Contudo, a porta se abriu silenciosamente nos gonzos bem lubrificados (reverentemente lubrificados, refletiu Burt — e, sem motivo aparente, aquilo lhe pareceu engraçado) e ele entrou num vestíbulo tão fresco que chegava a causar arrepios de frio. Seus olhos demoraram um instante para se acostumarem à penumbra. A primeira coisa que Burt notou foi uma pilha de letras de madeira no canto mais afastado, empoeiradas e misturadas a esmo. Pareciam tão velhas e esquecidas quanto o calendário na parede do restaurante, ao contrário do resto do vestíbulo, que estava limpo e arrumado. As letras tinham cerca de sessenta centímetros de altura e, obviamente, faziam parte de um conjunto. Burt espalhou-as no tapete — eram dezoito — e arrumou-as em anagramas. HURT BITE CRAG CHAP CS. Nada disso. CRAP TARGET CHIBS HUC. Também não. Exceto pelo CH em CHIBS. Ele arrumou rapidamente a palavra CHURCH — igreja — e ficou com RAP TAGET CIBS. Tolice. Estava ali, agachado e brincando como um idiota, enquanto Vicky enlouquecia no carro. Começou a levantar-se e, então, percebeu. Formou a palavra BAPTISTA — batista —, ficando com RAG EC. Trocando duas letras, obteve GRACE — graça. GRACE BAPTIST CHURCH — Igreja Batista da Graça. As letras deviam constituir anteriormente um letreiro lá fora. Tinham-nas tirado da fachada e jogado indiferentemente naquele canto. Como a igreja fora pintada depois disso, era impossível perceber lá fora o lugar que as letras ocupavam antes. Por quê? Porque não era mais a Igreja Batista da Graça — eis aí o motivo. Então, que espécie de igreja era agora? Por alguma razão, aquela indagação provocou em Burt um arrepio de medo e ele se levantou depressa, tirando a poeira dos dedos. Tinham retirado aquele conjunto de letras — e daí? Talvez tivessem mudado o nome para Igreja do Que Está Acontecendo Agora, de Flip Watson. Mas, então, o que acontecera? Burt afastou o pensamento com um sacolejão e passou pela dupla porta interna. Agora, encontravase no fundo da igreja propriamente dita. Ao olhar para a nave, sentiu o medo se fechar sobre o coração e apertar com força. Prendeu a respiração, emitindo um som alto no carregado silêncio que ali reinava. O espaço atrás do púlpito era dominado por um gigantesco retrato do Cristo e Burt pensou: “Se nada nesta cidade levou Vicky à loucura total, isto iria”. O Cristo era sorridente, vulpino. Tinha olhos grandes e fixos; Burt lembrou- se nervosamente de Lon Chaney em O Fantasma da ópera. Em cada uma das pupilas, alguém (um pecador, presumivelmente) se afogava num lago de fogo. Entretanto, a coisa mais esquisita era o fato de que o Cristo tinha cabelos verdes... cabelos que, examinados com mais atenção, revelavam-se como um emaranhado de milho do início do verão. O quadro fora toscamente pintado, mas era eficaz. Parecia um mural de estória em quadrinhos desenhado por uma criança talentosa: um Cristo do Velho Testamento, ou um Cristo pagão, capaz de imolar seu rebanho em sacrifício, em vez de conduzi-lo. Em frente à fileira esquerda de bancos estava um órgão de pedais e Burt, a princípio, não conseguiu perceber o que havia de errado nele. Caminhou ao longo da fileira de bancos e viu, com crescente pavor, que as teclas tinham sido arrancadas, os registros quebrados... e os tubos tapados com sabugos de milho secos. Acima do órgão, uma placa cuidadosamente desenhada dizia: NÃO FAZEI MÚSICA SENÃO COM A BOCA HUMANA, DISSE O SENHOR DEUS. Vicky tinha razão: havia algo terrivelmente errado ali. Burt debateu consigo mesmo a ideia de voltar para Vicky sem continuar a exploração do local e sair da cidade o mais rápido possível, esquecendo o Centro Municipal. Mas aquilo o irritava. Para dizer a verdade, pensou ele, você quer dar

uma lição a Vicky antes de voltar e admitir que ela tinha razão desde o início. Voltaria dentro de um ou dois minutos. Encaminhou-se para o púlpito, pensando que gente devia atravessar Gatlin o tempo todo, que deviam existir pessoas nas cidades próximas que tivessem parentes e amigos ali. A patrulha da polícia estadual de Nebraska devia passar por ali de vez em quando. E a companhia de eletricidade? O sinal de tráfego estava apagado. Certamente a companhia saberia se o sinal estava apagado há doze anos. Conclusão: o que parecia ter acontecido em Gatlin era impossível. Ainda assim, Burt estava arrepiado. Subiu os quatro degraus atapetados que levavam ao púlpito e olhou para os bancos vazios que pareciam brilhar na penumbra. Teve a impressão de sentir o peso daqueles olhos medonhos e decididamente pagãos às suas costas. Sobre a estante do púlpito estava uma grande Bíblia, aberta no 38º capítulo de Jó. Burt baixou os olhos e leu: “Então, respondendo o Senhor a Jó, do meio de um redemoinho, disse: Quem é este, que mistura conselhos com palavras ignorantes?... Onde estavas tu quando eu lançava os alicerces da Terra? Dize-mo, se é que tens inteligência”. O Senhor. Aquele que Anda Por Detrás das Fileiras. E, por favor, passe o milho. Burt folheou as páginas da Bíblia, que produziram um som seco e sussurrante no silêncio — o som que os espíritos produziriam, se realmente existissem. E, num lugar como aquele, a gente quase conseguia acreditar na sua existência. Pedaços da Bíblia tinham sido arrancados. A maior parte deles, do Novo Testamento, reparou Burt. Alguém resolvera assumir a tarefa de corrigir o Bom Rei Tiago com uma tesoura. O Velho Testamento, porém, continuava intacto. Burt estava prestes a descer do púlpito quando viu outro livro na prateleira inferior e o apanhou, julgando que talvez fosse o registro de casamentos, batizados e óbitos da igreja. Fez uma careta ao ver as palavras estampadas na capa, gravadas em dourado por mãos inexperientes: ASSIM? QUE OS INÍQUOS SEJAM CEIFADOS PARA QUE O SOLO VOLTE A SER FÉRTIL, DISSE O SENHOR DEUS DOS EXÉRCITOS. Abriu o livro na primeira página larga, pautada. Viu imediatamente que a caligrafia era de uma criança. Em alguns lugares fora cuidadosamente utilizada uma borracha de apagar tinta e, embora não existissem erros de ortografia, a letra era grande e infantil, mais desenhada do que propriamente escrita. A primeira coluna dizia: Amos Deigan (Richard), n. 4 set 1945 4 set 1964 Isaac Renfrew (William), n. 19 set 1945 19 set 1964 Zepeniah Kirk (George), n. 14 out 1945 14 out 1964 Mary Wells (Roberta), n. 12 nov 1945 12 nov 1964 Yemen Hollis (Edward), n. 5 jan 1946 5 jan 1965 Franzindo a testa, Burt continuou virando as páginas. A três quartos do fim, as colunas duplas terminavam bruscamente: Rachel Stigman (Donna), n. 21 jun 1957 21 jun 1976 Moses Richardson (Henry), n. 29 jul 1957 Malachi Boardman (Craig), n. 15 ago 1957 O último registro no livro era de Ruth Clawson (Sandra), n. 30 abril 1961. Burt olhou para a prateleira onde pegara o livro e apanhou mais dois. O primeiro trazia a mesma frase QUE OS INÍQUOS SEJAM CEIFADOS... e continuava o mesmo registro. No início de setembro de 1964, ele encontrou Job Gilman (Clayton), n. 6 set 1964 e o registro seguinte era de Eva Tobin, n. 16 jun

1965. Sem segundo nome entre parênteses. O terceiro livro estava em branco. De pé no púlpito, Burt refletiu a respeito. Algo ocorrera em 1964. Algo relacionado com religião, milho... e crianças. Amado Deus, nós imploramos tua bênção sobre a colheita. Em nome de Jesus, amém. E a faca foi erguida para sacrificar o cordeiro — mas teria sido um cordeiro? Talvez eles fossem arrebatados por uma mania religiosa. Sós, totalmente isolados do resto do mundo por centenas de quilômetros quadrados de milharais farfalhantes. Sozinhos sob setenta milhões de hectares de céu azul. Isolados sob o olhar vigilante de Deus, agora um estranho Deus verde, um Deus de milho, envelhecido, alienado, faminto. Aquele que Anda por Detrás das Fileiras. Burt sentiu um arrepio espalhar-se pelo corpo. Vicky, deixe-me contar uma estória. É a respeito de Amos Deigan, que nasceu Richard Deigan, a 4 de setembro de 1945. Adotou o nome Amos em 1964, um belo nome do Velho Testamento, Amos, um dos profetas menores. Bem, Vicky, o que aconteceu — não ria — é que Dick Deigan e seus amigos — Billy Renfrew, George Kirk, Roberta Wells e Eddie Hollis, entre outros — tornaram-se religiosos e mataram os pais. Todos eles. Não é uma graça? Mataram-nos a tiro em suas camas, apunhalaram-nos na banheira, envenenaram-lhes a comida, enforcaram-nos ou estriparam-nos, pelo que sei. Por quê? Por causa do milho. Talvez o milho estivesse morrendo. Talvez eles tivessem a ideia de que o milho estava morrendo por causa do excesso de pecados. Não havia sacrifícios suficientes. E eles fariam sacrifícios nos milharais, nas fileiras. E de algum modo, Vicky, não tenho muita certeza de como, de algum modo eles decidiram que dezenove anos seria a idade máxima que viveriam. Richard “Amos” Deigan, o herói de nossa pequena estória, completou dezenove anos no dia 4 de setembro de 1964 — a data registrada no livro. Acho que, talvez, eles o mataram. Foi sacrificado no milharal. Não é uma estória tola? Contudo, vejamos Rachel Stigman, que foi Donna Stigman até 1964. Ela completou dezenove anos no dia 21 de junho, há cerca de um mês. Moses Richardson nasceu em 29 de julho — daqui a três dias ele fará dezenove anos. Você faz alguma ideia do que acontecerá ao Moses no dia 29 deste mês? Eu imagino. Burt passou a língua nos lábios, que estavam secos. Mais uma coisa, Vicky. Veja isto aqui. Temos Job Gilman (Clayton), nascido a 6 de setembro de 1964. Não ocorreram outros nascimentos até 16 de junho de 1965. Uma lacuna de dez meses. Sabe o que penso? Mataram todos os pais, inclusive as mulheres grávidas, é o que eu penso. E uma delas engravidou em outubro de 1964, dando à luz a Eva. Uma garota-mãe aos dezesseis ou dezessete anos. Eva. A primeira mulher. Burt folheou febrilmente o livro e encontrou o registro de Eva Tobin. Logo abaixo: “Adam Greenlaw, n. 11 jul. 1965”. Deviam ter agora onze anos, pensou Burt, sentindo a carne arrepiar-se. Talvez estivessem lá fora. Em algum lugar. Mas como poderia uma coisa assim ficar em segredo? Como poderia continuar? Como, a menos que fosse aprovada pelo Deus em questão? — Oh, Jesus — disse Burt no silêncio da igreja. E foi então que a buzina do Thunderbird começou a soar na tarde, um prolongado toque contínuo. Burt saltou do púlpito e correu pela alameda central da nave. Escancarou a porta do vestíbulo, saindo para o sol quente e ofuscante. Vicky estava empertigada ao volante, ambas as mãos apertando ao aro da buzina, a cabeça girando desvairadamente de um lado para outro. As crianças chegavam de todos

os lados. Algumas riam alegremente. Empunhavam facas, machadinhas, martelos, canos, pedras. Uma menina, talvez com oito anos de idade, belos cabelos louros compridos, brandia um cabo de macaco de automóvel. Armas rurais. Nenhum deles trazia arma de fogo. Burt sentiu um louco impulso de perguntar: Quais de vocês são Adão e Eva? Quem são as mães? Quem são as filhas? Pais? Filhos? Dizei-mo, se tendes inteligência... Vinham das ruas transversais, do gramado da praça, através do portão da cerca que delimitava ó playground da escola, um quarteirão a oeste. Algumas delas olhavam com indiferença para Burt, petrificado nos degraus da igreja, e outras se cutucavam, apontavam e sorriam... o doce sorriso das crianças. As meninas usavam vestidos longos de lã marrom e desbotados chapéus do século passado. Os meninos, como pastores quakers, estavam todos de preto e usavam chapéus de copas arredondadas e abas chatas. Vinham numa torrente em direção ao automóvel, atravessando a praça da cidade, andando pelos gramados; uns poucos atravessaram, o jardim do que fora a Igreja Batista da Graça até 1964. Um ou dois quase ao alcance da mão de Burt. — O rifle! — berrou Burt. — Vicky, pegue a arma! Mas ela estava petrificada pelo pânico; dos degraus da igreja, Burt podia perceber. Duvidava até mesmo que ela conseguisse escutá-lo por detrás dos vidros fechados do automóvel. As crianças convergiram sobre o Thunderbird. Os machados, machadinhas e pedaços de cano começaram a subir e descer. Meu Deus, estarei mesmo vendo isso? pensou Burt, imóvel. Uma flecha cromada caiu da lateral do carro. O ornamento do capô voou longe. Facas furaram os pneus e o carro arriou sobre o solo. A buzina continuava a tocar. O para-brisa e os outros vidros ficaram opacos e se quebraram sob o assalto... então, o vidro laminado voou em pedaços e Burt conseguiu ver outra vez o interior do automóvel. Vicky estava encolhida; agora, apenas uma das mãos apertava o aro da buzina, enquanto a outra se erguia para proteger o rosto. Mãos jovens e ansiosas tatearam a porta, procurando a trava. Vicky bateu loucamente nelas. O toque da buzina tornou-se intermitente e, depois, cessou por completo. A porta esquerda, amassada e arranhada, foi aberta. Tentavam arrancar Vicky do carro, mas ela se agarrava ao volante. Então, um deles se inclinou para dentro do carro, com uma faca na mão, e... Burt rompeu a paralisia e se atirou pelos degraus, quase caindo. Correu pelas pedras em direção ao carro. Um deles, um rapaz com cerca de dezesseis anos, cabelos ruivos compridos escorrendo por baixo do chapéu, voltou-se para ele com um gesto quase despreocupado e algo brilhou no ar. O braço de Burt foi puxado para trás e, por instante, ele teve a impressão absurda de haver levado um murro à distância. Então, sentiu a dor, tão repentina e aguda que o mundo pareceu ficar cinzento. Como uma espécie de espanto estúpido, examinou o braço. Um canivete barato, desses de um dólar e meio, estava ali cravado como um estranho tumor. A manga da cara camisa esporte começava a tornarse vermelha. Burt fitou-a por um tempo que lhe pareceu uma eternidade, tentando entender como lhe nascera um canivete no braço... seria possível? Quando ergueu o olhar, o rapaz de cabelos ruivos estava quase sobre ele. Sorria, confiante. — Filho da puta! — disse Burt com voz engasgada pelo choque. — Entregue a alma a Deus porque logo estarás diante do Seu trono — disse o rapaz ruivo, tentando cravar as unhas nos olhos de Burt. Burt recuou, arrancou o canivete do braço e o enfiou na garganta do rapaz ruivo. O jorro de sangue foi imediato, enorme. Burt ficou respingado. O rapaz ruivo começou a gorgolejar, andando num amplo círculo. Burt o fitou, boquiaberto. Nada daquilo estava acontecendo. Era um pesadelo. O rapaz ruivo gorgolejava e andava. Agora, o som produzido por ele era o único naquele início de tarde quente. Os

outros olhavam, aturdidos. Aquilo não fazia parte do script, pensou Burt, aparvalhado. Vicky e eu, nós éramos o script. E o menino no milharal, que tentava fugir. Mas não era um deles. Fitou-os desvairadamente, sentindo vontade de gritar: Gostaram? O rapaz ruivo emitiu um último som abafado e caiu de joelhos. Olhou um momento para Burt. Então, suas mãos largaram o cabo do canivete e ele tombou de bruços. Um leve som suspirante partiu das crianças reunidas em torno do Thunderbird. Olhavam para Burt e este os encarava, fascinado... e foi então que percebeu que Vicky desaparecera. — Onde está ela? — perguntou Burt. — Para onde vocês a levaram? Um dos rapazes ergueu uma faca de caça manchada de sangue e fez o gesto de degolar o próprio pescoço. Sorriu. Foi a única resposta. De algum lugar no fundo do grupo, a voz de um rapaz mais velho disse mansamente: — Agarrem-no. Os rapazes começaram a avançar sobre Burt. Este recuou. Eles avançaram mais depressa. Burt recuou mais depressa. A espingarda, a maldita espingarda! Fora de alcance. O sol projetava assombras escuras dos jovens no gramado verde da igreja... então, Burt viu-se na calçada. Virou-se e correu. — Matem-no! — berrou alguém. E partiram atrás dele. Burt correu, mas não às cegas. Contornou o Centro Municipal — não adiantaria esconder-se ali; eles o encurralariam como a um rato — e continuou correndo pela Rua Principal, que se abria na praça e tornava a ser a estrada dois quarteirões adiante. Se ao menos ele tivesse dado ouvido a Vicky, estariam ambos agora naquela estrada. Seus mocassins faziam barulho na calçada. Em frente, avistou mais alguns prédios comerciais, inclusive a Sorveteria Gatlin e — sem a menor dúvida — o Cinema Bijou. O letreiro empoeirado na marquise anunciava: EM XIBIÇÃ CLEOPA RA UM ELI A TH TAYLOR — PROIBIDO ATÉ EZ ANOS — Além da rua transversal seguinte, havia um posto de gasolina que marcava a orla da cidade. Para lá do posto, os milharais fechando-se sobre as margens da estrada, uma imensa onda verde de milho. Burt continuou correndo. Já estava sem fôlego e o ferimento do canivete no braço começava a doer. E deixava atrás de si um rastro de sangue. Enquanto corria, tirou o lenço do bolso traseiro e o enfiou por baixo da camisa. Corria. Os mocassins martelavam o cimento rachado da calçada, a respiração produzia um ruído áspero na garganta cada vez mais seca e quente. O braço começou a latejar com força. Uma parte mordaz de sua mente lhe perguntava se ele seria capaz de correr todo o caminho até a cidade mais próxima, se ainda aguentaria correr trinta e cinco quilômetros no asfalto da estrada de pista dupla. Corria. Podia ouvi-los no seu encalço, quinze anos mais jovens e mais velozes, ganhando terreno. Os pés deles faziam barulho no calçamento. Soltavam berros e gritavam uns para os outros. Divertiam-se mais do que em um incêndio, refletiu Burt desarticuladamente. Falarão no assunto durante anos. Burt corria. Passou correndo pelo posto de gasolina que assinalava a orla da cidade. A respiração arquejava e rugia no peito. A calçada acabou sob seus pés. E agora, restava apenas uma coisa a fazer, uma única oportunidade para ganhar deles e escapar com vida. As casas tinham ficado para trás, a cidade terminara. O milho surgira como uma suave onda verde que chegava às beiras da estrada. As folhas verdes, semelhantes a adagas, farfalhavam mansamente. Lá dentro seria profundo, profundo e fresco, à sombra

dos pés de milho enfileirados, da altura de um homem. Burt passou correndo por uma placa que dizia: VOCE AGORA ESTÁ SAINDO DE GATLIN, A MELHOR CIDADE PEQUENA DE NEBRASKA — OU DE QUALQUER OUTRO LUGAR: VOLTE SEMPRE! Podem ter certeza de que voltarei, pensou Burt distraidamente. Passou correndo pela placa como um corredor velocista aproximando-se da fita de chegada. Então, penetrou no milharal e este se fechou às suas costas como as ondas de um mar verde, tragando-o. Ocultando-o. Sentiu-se invadido por um repentino e totalmente inesperado alívio e, ao mesmo tempo, recuperou o fôlego. Seus pulmões, que pareciam à beira da exaustão, deram a impressão de se dilatarem, fornecendo-lhe mais oxigênio. Ele correu diretamente pela primeira fileira em que entrara, com a cabeça encolhida, os ombros largos roçando nas folhas e fazendo-as tremerem. Vinte metros mais adiante, virou à direita, novamente em sentido paralelo à estrada, e continuou a correr, mantendo-se abaixado a fim de que eles não pudessem ver seus cabelos escuros entre os pendões amarelos do milharal. Dobrou de volta na direção da estrada por alguns instantes, atravessando novas fileiras e depois virou as costas para a estrada, pulando aleatoriamente de fileira para fileira, sempre embrenhandose cada vez mais no milharal. Afinal, caiu de joelhos e encostou a testa no solo. Só conseguia ouvir a própria respiração arquejante e o pensamento que se repetia em sua cabeça era: Graças a Deus deixei defumar, graças a Deus deixei defumar, graças a Deus... Podia escutá-los, gritando uns para os outros, em alguns casos esbarrandose (“Ei, esta fileira é minha!”), e aqueles sons lhe deram coragem. Achavam-se bem à sua esquerda e pareciam muito mal organizados. Burt retirou o lenço, dobrou-o e tornou a colocá-lo após examinar o ferimento. O sangue parecia ter parado de escorrer, a despeito do esforço que ele despendera. Descansou por mais alguns instantes e, de repente, percebeu que se sentia bem, fisicamente melhor do que se sentia há anos... a não ser pelo latejar do braço. Sentia-se bem excitado e subitamente capaz de enfrentar um problema definido (apesar de insano), depois de passar dois anos lutando contra os pequenos fantasmas incubados que vinham sugando seu casamento até deixá-lo totalmente seco. Não era direito sentir-se assim, disse ele com seus botões. Sua vida corria perigo mortal e sua esposa fora sequestrada. Poderia estar morta, agora. Tentou relembrar o rosto de Vicky e dissipar em parte aquela estranha sensação de bemestar, mas a fisionomia dela se recusava a aparecer. O que surgiu foi o rapaz ruivo com o canivete cravado na garganta. Deu-se conta do aroma do milho nas narinas, cercando-o por todos os lados. O vento no topo dos pés de milho produzia um som semelhante ao de vozes. Calmante. O que quer que tivesse sido perpetrado em nome do milho, este agora era seu protetor. Mas eles se aproximavam. Correndo abaixado, Burt seguiu pela fileira em que se encontrava, dobrou à direita, voltou em direção à estrada e, depois, tornou a atravessar outras fileiras em sentido paralelo à estrada. Tentou manter as vozes sempre à sua esquerda, mas à medida que a tarde avançava isto se tornou cada vez mais difícil. As vozes ficaram longínquas e, por vezes, o farfalhar do milharal abafava-as por completo. Burt corria, parava para escutar, tornava a correr. O solo era compacto e seus pés calçados apenas com meias não deixavam rastros. Quando ele parou, muito mais tarde, o sol pairava sobre os campos à sua direita, vermelho e inflamado. Consultando o relógio, Burt percebeu que já passava um quarto das sete horas. Inclinou a cabeça para o lado, escutando. Com a aproximação do pôr do sol, o vento cessara por completo e o

milharal estava imóvel, exalando seu aroma de crescimento no ar aquecido. Se eles ainda estivessem no milharal, achavam-se muito distantes ou simplesmente quietos, à escuta. Contudo, Burt não acreditava que um bando de garotos, mesmo loucos, fosse capaz de se manter silencioso durante tanto tempo. Desconfiava de que eles tinham feito a coisa mais infantil, a despeito das consequências que pudessem sofrer: haviam abandonado a caçada humana e voltado para casa. Burt virou-se para o sol poente, que já se metera por detrás das nuvens acumuladas no horizonte, e começou a andar. Se caminhasse em diagonal através do milharal, sempre mantendo o sol poente à sua frente, devia chegar à Rodovia 17, mais cedo c; mais tarde. A dor no braço transformara-se num latejar que era quase agradável e a sensação de bem-estar ainda não o abandonara. Decidiu que enquanto estivesse ali permitiria que a sensação de bem-estar continuasse a existir sem remorsos. O remorso retornaria quando ele fosse obrigado a encarar as autoridades e relatar o que ocorrera em Gatlin. Mas isso podia esperar. Caminhou através do milharal, refletindo que jamais se sentira tão agudamente alerta. Quinze minutos depois o sol não passava de um semicírculo espiando por cima do horizonte e Burt tomou a parar, seu novo sentido de alerta assumindo um padrão de percepção que não lhe agradava. Era vagamente... bem, era vagamente amedrontador. Inclinou a cabeça para o lado. O milharal farfalhava. Havia algum tempo que Burt percebera outra coisa, mas ele a tinha associado com outro fato. O vento cessara. Como era possível? Olhou desconfiadamente em volta, quase esperando ver os meninos sorridentes vestidos de quakers esgueirando-se por entre os pés de milho, empunhando suas facas. Nada disso. O som farfalhante continuava. A esquerda. Burt começou a andar naquela direção, não mais precisando atravessar as fileiras de pés de milho. Aquela fileira o levava na direção que ele desejava, naturalmente. A fileira terminava lá adiante. Terminava? Não; desembocava numa espécie de clareira. O farfalhar vinha dali. Burt parou, repentinamente amedrontado. O cheiro do milho era bastante forte para ser sufocante. As fileiras do milharal conservavam o calor do sol e Burt se deu conta de que estava ensopado de suor, coberto de palha e de fios sedosos de pendões de milho. Os insetos deveriam estar atacando em massa... mas não estavam. Ficou imóvel, fitando o local onde o milharal se abria no que aparentava ser um amplo círculo de terra nua. Ali não havia micuins, nem mosquitos, nem qualquer outro tipo de inseto — o que ele e Vicky costumavam chamar de “insetos de drive-in” nos tempos de namorados, lembrou-se ele com repentina e inesperada nostalgia. E não avistara um único corvo. Não era esquisito, um milharal sem corvos? À última luz do dia, observou atentamente a fileira de pés de milho à sua esquerda e reparou que cada folha e talo eram perfeitos, o que simplesmente não era possível. Nenhum vestígio de ferrugem ou outra praga. Nenhuma folha roída, nenhum ovo de lagarta, nenhum buraco de animal, nenhum... Esbugalhou os olhos. Meu Deus, não há mato! Nem uma só folha. A intervalos de quarenta e cinco centímetros os pés de milho brotavam da terra. Nenhum capim, tiririca, estramônio, ou qualquer outra erva daninha. Nada. Burt ergueu a cabeça, os olhos muito abertos. A luz no oeste estava sumindo. As nuvens acumuladas

tinham-se afastado. Abaixo delas, a luminosidade dourada assumira tons rosados e amarelo-escuro. Logo escureceria. Era tempo de ir à clareira no milharal e verificar o que lá existia. Não fora este o plano, desde o início? Durante todo o tempo em que julgara estar voltando à estrada, não vinha sendo conduzido àquele local? Sentindo o medo na barriga, seguiu ao longo da fileira e parou na orla da clareira. Havia luz suficiente para que ele visse o que lá estava. Não conseguiu gritar. Teve a impressão de que não lhe restava ar nos pulmões. Cambaleou sobre pernas que pareciam feitas de sarrafos rachados. Os olhos saltavam do rosto suado. — Vicky — sussurrou. — Oh, Vicky, meu Deus... Ela fora colocada num pau transversal, como um medonho troféu de caça, os braços amarrados pelos pulsos e as pernas pelos tornozelos com arame farpado comum, que poderia ser comprado em qualquer loja de ferragens de Nebraska por setenta centavos o metro. Os olhos tinham sido arrancados e as órbitas estavam cheias com sedosos fiapos de pendões de milho. As mandíbulas escancaradas num grito silencioso, a boca cheia de sabugos de milho. À esquerda de Vicky estava um esqueleto numa batina apodrecida. A mandíbula descarnada exibia um sorriso macabro. As órbitas vazias pareciam fitar Burt de modo jocoso, como se o antigo pastor da Igreja Batista da Graça de Gatlin estivesse dizendo: Não é tão ruim ser sacrificado por crianças-demônios pagãs num milharal; não é tão ruim ter os olhos arrancados segundo a Lei Mosaica; não é tão ruim... À esquerda do esqueleto de batina estava um outro, vestido com um apodrecido uniforme azul. Um boné na caveira escondia os olhos e na pala do boné havia um distintivo coberto de azinhavre que dizia: CHEFE DE POLÍCIA. Foi então que Burt o ouviu chegando: não as crianças, mas algo muito maior, avançando através do milharal em direção à clareira. Não, não eram as crianças. As crianças não se aventurariam no milharal à noite. Aquele era um lugar sagrado, o lugar de Aquele que Anda Por Detrás das Fileiras. Num movimento trêmulo, Burt virou-se para fugir. A fileira pela qual ele entrara na clareira desaparecera. Fechada. Todas as fileiras estavam fechadas. Burt podia ouvi-lo chegar, abrindo caminho por entre os pés de milho. Sentiu-se dominado por êxtase de terror supersticioso. Ele estava chegando. Os pés de milho no lado oposto da clareira tinham escurecido subitamente, como se cobertos por uma sombra gigantesca. Chegando. Aquele que Anda Por Detrás das Fileiras. Começou a entrar na clareira. Burt viu algo imenso, que se erguia até o céu... algo verde, com olhos terríveis do tamanho de bolas de futebol. Algo que cheirava como palha de milho seca guardada durante anos num celeiro. Burt começou a gritar. Mas não gritou por muito tempo. Algum tempo depois, uma enorme lua cheia alaranjada subiu no horizonte. As crianças do milho reuniram-se no centro da clareira durante o dia, olhando para os dois esqueletos crucificados e os dois cadáveres... Os cadáveres ainda não eram esqueletos, mas seriam. No devido tempo. E ali, no coração de Nebraska, no centro do milharal, não havia outra coisa senão tempo. — Ouçam: tive um sonho durante a noite e o Senhor me mostrou tudo isto. Todos olharam com espanto e temor para Isaac, até mesmo Malachi. Isaac tinha apenas nove anos, mas fora o Vidente desde que o milharal levara David, um ano atrás. David completou dezenove anos e entrou no milharal no dia de seu aniversário, na hora em que o crepúsculo vinha descendo sobre o milho

do verão. Agora, o rostinho muito sério sob o chapéu de copa arredondada, Isaac prosseguiu: — E no meu sonho o Senhor era uma sombra que andava por detrás das fileiras e falou comigo em palavras que usava com nossos irmãos mais velhos, há muitos anos. Está muito aborrecido com este sacrifício. Os jovens emitiram um som suspirando, soluçante e olharam para a muralha verde que os rodeava. — E o Senhor falou: E não vos dei um lugar de matar, para que lá imolasses o sacrifício? E não vos mostrei meus favores? Mas este homem blasfemou contra mim e eu mesmo completei o sacrifício. Como o Homem Azul e falso ministro que conseguiu fugir há muitos anos. — O Homem Azul... O falso ministro... Os jovens sussurravam, entreolhando-se nervosamente. — Portanto, agora fica a Idade do Favor baixada de dezenove plantios e colheitas para dezoito — prosseguiu Isaac, implacável. — Não obstante, sede férteis e vos multiplicai como o milho se multiplica, para que meu favor vos seja mostrado e esteja convosco. Isaac calou-se. Todos os olhares se voltaram para Malachi e Joseph, os dois únicos componentes do grupo que tinham dezoito anos. Havia outros na cidade, talvez vinte no total. Aguardaram para ouvir o que diria a Malachi, Malachi que liderara a caçada contra Japhet, que para sempre seria conhecido por Ahaz, amaldiçoado por Deus. Malachi cortara o pescoço de Ahaz e o jogara para fora do milharal de modo que o corpo pútrido não poluísse ou empesteasse o milho. — Obedeço a palavra de Deus — declarou Malachi. O milharal pareceu suspirar em sinal de aprovação. E naquela noite, todos os que tinham acima da Idade do Favor penetraram silenciosamente no milharal e foram à clareira, para ganharem a continuidade do favor de Aquele que Anda Por Detrás das Fileiras. — Adeus, Malachi — gritou Ruth, acenando desconsoladamente. Tinha o ventre crescido com o filho de Malachi e as lágrimas lhe escorriam silenciosamente pelo rosto. Malachi não se voltou. Mantinha as costas eretas. O milharal o tragou. Ruth deu meia-volta, ainda chorando. Criara um ódio secreto pelo milharal e às vezes sonhava como entrar nele segurando uma tocha acesa em cada mão quando chegasse o seco mês de setembro e os talos estivessem mortos, explosivamente combustíveis. Mas também o temia. Lá fora, à noite, algo vagava e via tudo... até mesmo os segredos guardados pelos corações humanos. O crepúsculo se transformou em noite. Ao redor de Gatlin, o milharal farfalhava e sussurrava bem baixinho. Estava muito satisfeito.

“Minhas Dez Adaptações Favoritas”

por Stephen King (em ordem alfabética)

1408 (1408, 2007) À Espera de um Milagre (The Green Mile, 1999) A Tempestade do Século (Storm of the Century, 1999) Conta Comigo (Stand By Me, 1986) Cujo (Cujo, 1983) Eclipse Total (Dolores Claiborne, 1995) Louca Obsessão (Misery, 1990) O Aprendiz (Apt Pupil, 1998) O Nevoeiro (The Mist, 2007) Um Sonho de Liberdade (The Shawshank Redemption, 1994)

STEPHEN KING VAI AO CINEMA

Tradução Amadora Exclusiva

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Formatação e conversão para e-Pub e Mobi: Susane Paz

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Notas [←1] Jogada do pôquer em que quatro cartas requerem outra no meio, da mais alta e da mais baixa, para poder completar a sequência. Quando um jogador apanha tal carta, ele faz uma sequência interior. O contexto da fala de Liz sugere que o pai de Bobby era viciado em jogos de azar (N. do T.).

[←2] Todas são personagens da literatura infanto-juvenil (N. do T.)

[←3] Expressão em latim que significa “o tempo voa” (N. do T.)

[←4] Gêmeas de uma série de livros infantis escrita pelo Sindicato Stratemeyer (que publicava livros infantis de mistério como “Nancy Drew” e “Hardy Boys”), sob o pseudônimo de Laura Hope (N. do T.)

[←5] Seriado antigo de faroeste (N. do T.)

[←6] Comediante americano (1890-1977) que costumava ostentar bigode e sobrancelhas exageradas. Outras de suas marcas registradas incluíam óculos e um charuto (N. do T.)

[←7] Palavra francesa que significa “confusão”, “tumulto” (N. do T.).

[←8] Do original, Young Men Christian Association, ou YMCA (N. do T.)

[←9] Famoso apresentador americano de TV das décadas de 50 e 60 (N. do T.)

[←10] O trocadilho original se perde na tradução. Lo-mein é um tipo de comida chinesa, feita com macarrão e farinha de trigo. A palavra se parece com “Low Men”, os “Homens Baixos” da história (N. do T.)

[←11] Primeira frase do poema “Sweeney Among the Nightingales” de T.S. Eliot (N. do T.)

[←12] Aqui, King pega partes do poema “The Waste Land”, também de Eliot, para compor a frase (N. do T.)

[←13] Lutadores famosos de luta-livre daquela época (N. do T.)

[←14] Baby Huey era um antigo personagem de desenho animado dos estúdios da Paramount. Era um pato gigante e amarelo que usava fraldas (N. do T.)

[←15] Grupo de Rock and Roll/R&B/Soul americano que foi revelado nos anos 50 (N. do T.)

[←16] “Aqui, ao arrebol do dia, nos encontramos, sem tristeza”. Pedaço da letra da música “Twilight Time”, cuja 1ª linha— “Heavenly Shades of Night are Falling”— dá nome à última história deste livro (N. do T.).

[←17] O infielder é um jogador de beisebol que guarda um dos quatro pontos defensivos no campo, como uma espécie de zagueiro (N. do. T)

[←18] Mononucleose Infecciosa, também conhecida como “Doença do Beijo”, é um vírus contraído via troca de saliva (N. do T.).

[←19] Vaquinha mascote da Borden, marca americana que fabrica laticínios (N. do T.).

[←20] Jimmy Hatlo, cartunista americano criador da tirinha “They’ll Do it Everytime”, que pode ser traduzido como “Isto Sempre Acontece” (N. do T.)

[←21] Do original, “Merry Men”, nome concedido à turma de Robin Hood.

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