Prosa – Vinicius de Moraes

Esse ebook reúne a prosa publicada e dispersa do autor Vinícius de Moraes...
Category: Poesia

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PERANCANGAN COVER ALBUM FANA BAND SENJA DALAM PROSA
Puji syukur atas kehadirat Allah SWT yang telah melimpahkan segala hidayah, inayah dan segala pertolongan dan keridhaan-Nya, sehingga Tugas Akhir ini.

ABSTRAK Novel adalah sebuah karya sastra yang berbentuk prosa
Pada versi cerita pertama menceritakan tokoh yang bernama Torigawa. Anzu berjuang untuk merebut kembali kastil miliknya dan membalas dendam atas.

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050050 - AIRE COMPACTO. SURREY. 2250 F/S. C/REMOTO. 050051 - AIRE COMPACTO. SURREY. 2250 F/C. C/REMOTO. 050052 - AIRE COMPACTO.

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modificación de tuplas de la relación a la que referencian. .... hay varias áreas de conocimiento, cada una de las cuales imparte una serie de asignaturas.

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PROSA Vinícius de Moraes Reunião de textos em prosa de um dos maiores poetas do Brasil e um dos maiores compositores da MPB.

Criação do EPUB: EREMITA

Este e-book foi revisado em conformidade com o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa que entrou em vigor no Brasil em 1º de janeiro de 2009.

Sumário CAPA Folha de Rosto Créditos Namorados públicos Noa Noa O "IDAP" O amigo exemplar O 6 de Junho O amor por entre o verde O amor que move o sol e outras estrelas O aprendiz de poesia O amor em Botafogo O casamento da lua O conde e o passarinho O delírio do óbvio O dia do meu pai O exercício da crônica O exercício da crônica O primeiro grande conto-do-vigário O grande terremoto de Lisboa de 1969 segundo O.L.R. O tempo sob o sol O vento noroeste Obrigado, Portugal! Oração a Nossa Senhora de Paris Operários em construção Orfeu negro Os culpados de tudo Os Politécnicos Os tristes descaminhos Os elementos do estilo Oscar Niemeyer Para três jovens casais Ouro Preto de hoje, Ouro Preto de sempre Para uma menina com uma flor Para viver um grande amor Por que amo a Inglaterra * Pedro, meu filho...* Parábola do homem rico Por que amo Paris*

Profeta urbano Praia do Pinto Química orgânica Relendo Rilke Retrato de Portinari Samba de breque Schmidt Sentido da primavera Separação Seu "Afredo" Ser moderno * Smith-Corona versus Vat-69 Sobre os degraus da morte Sobre poesia Suave amiga Susana, flor de agosto Toadinha de ano novo Um abraço em Pelé Um taradinho de quatrocentos anos Uma mulher chamada guitarra Uma viola-de-amor Velha mesa Velho amigo 001 A alegre década de 20 A arte de ser velho A bela ninfa do bosque sagrado A casa materna A letra A: palavra por palavra (II) A letra A: palavra por palavra (III) A letra A: palavra por palavra (IV) A mulher e a sombra A outra face de Lucina A transfiguração pela poesia A um jovem poeta Agua clara con sonido Amigos meus Anteato: palavra por palavra (I) Antônio Maria Apelidos Arma secreta Arte e síntese Barra limpa Batizado na Penha Brotinho Indócil

Broto alegre, "coroa" melancólica... Cãibra Canto de amor e de angústia à seleção de ouro do Brasil Caxambu Les Eaux Chorinho para a amiga Cobertura na Gávea Com o pé na cova Contemplações do poeta ao cair da noite Conto do dilúvio Conto carioca Conto rápido Contra capa para Paul Winter Conversa com Caymmi Da solidão Depois da guerra Dia de sábado Do amor à pátria Do amor aos bichos Encontros * De pombos e de gatos Estado da Guanabara Guignard H2O Hino carioca História triste Iemanjá do céu Inocência Libelo Médico de flores Meninas sozinhas perdidas no mundo e dentro de si Menino de ilha Meu Deus, não seja já Minha terra tem palmeiras Mistério a bordo Morrer num bar Morte de um pássaro Morte natural MPB - Zero

Namorados públicos Da mesma forma que os monumentos históricos ou artísticos, as belezas naturais, os bailes e cafés, os parques e jardins - os casais de namorados são coisa que pertencem ao patrimônio de uma cidade. Uma cidade sem namorados públicos não é uma verdadeira cidade. Os cicerones de Paris costumam mostrá-los aos turistas, inteiramente despreocupados em suas ternuras, como típicas curiosidades locais. No Hyde Park, em Londres, é possível vê-los às centenas, sobre o gramado esmeralda desse parque inexcedível como se estivessem em casa. O transeunte margeia beijos intermináveis, abraços infinitos, olhares abissais, namorados que leem romances, namorados que dormem, namorados que brigam, a um passo uns dos outros, perfeitamente indiferentes ao que lhes vai em torno, - e o que é formidável - guardados da curiosidade, ou malícia alheias, por um passante constable, cuja função é zelar pela perfeita consecução de seus carinhos, com uma imparticipação e fidelidade dignas de todos os aplausos. É claro que os namorados não abusam. Mas nessa questão de carinhos de superfície eles se permitem um uso inumerável. Estrafegam-se em beijos que fariam a inveja de John Gilbert ao tempo da sua paixão por Greta Garbo. Dão-se abraços de não se saber mais quem é o outro. Fazem-se cafunés maravilhosos, esfregam-se os narizes, acarinham-se os rostos, enfim: tudo isso que faz a deliciosa cozinha dos que se amam e que vem sendo a mesma desde os tempos mais recuados no tempo. Ninguém pode dizer que o Rio não seja uma cidade de namorados: ela o é. Seria difícil, aliás, compreender-se uma cidade tão pródiga em beleza, sem namorados. Mas são namorados, meu Deus, ou tão ousados ou tão tímidos que parecem uma contrafação da natureza humana diante da Natureza. Grande culpada disso foi, até certo tempo, a nossa polícia de costumes, que arrolava todas as carícias de namorados dentro de um mesmo código moral, chegando até ao abuso de prender gente casada que saía para namorar fora de casa. Não. Há carícias e carícias. Que mal existe em se beijarem os namorados em praça pública ou nos cantos de rua? Em que uma coisa dessas ofende a moral? Por que não se poderão eles abraçar ternamente, quando tiverem vontade? Pois parece incrível: outro dia um amigo meu contou que foi "apitado" várias vezes por um guarda do Jardim Botânico, por estar dando um "peguinha" na namorada. De fato: é justo, mais do que justo, que se moralizem os costumes. Nada mais certo. Mas perseguir os namorados, da mesma forma que arrancar as plantas dos parques, ou maltratar os animais, é indício de mau caráter. Que os namorados se beijem à vontade nesta linda Rio de Janeiro. Nada há de mal no beijo dos namorados, como no amor dos pássaros. Deixai-os nos seus parques, nas suas ruas escuras, nos seus portões de casa. Deixai-os namorar, Senhor Prefeito, Senhor Diretor do Jardim Botânico, deixai-os namorar, porque eles têm cada dia menos lugares onde ir esconder seus anseios. Deixai-os se beijarem à vontade, porque o que em seus beijos irrita os burgueses moralizantes é justamente essa liberdade, essa beleza, essa poesia, esse voo que há num beijo de amor. Tréguas aos

namorados!

Noa Noa Outro dia, ou melhor, outra noite, estava eu sentado na minha sala diante de uma bela reprodução de Gauguin, comprada aqui em Montevidéu. A reprodução fica sobre a lareira, no centro da sala, e representa duas lindas vahinés taitianas, com os seus pareos coloridos, posando para o dramático pintor, contra um fundo verde-amarelo de vegetação. A moça da esquerda (vista pelo observador) traz nas mãos uma cestinha de palha cheia de flores de um laranja-avermelhado, sobre a qual parecem repousar também seus esplêndidos seios nus. Mira ela o pintor com um ar de um tal mistério (ou será de uma misteriosa malícia?) que dá para a gente ficar pensando... À direita do quadro, sua jovem companheira, também olhando de meio-perfil para o pintor, parece ter acabado de segredar-lhe alguma coisa. Que estariam elas dizendo? Olhei-as bem, em sua curiosa postura, e ao fim de dez minutos, não tive nenhuma dúvida. A vahiné da direita segredara à sua amiga: - Ele é divino, você não acha? - Ora se acho! - Você já... - Ainda não. Mas vou passar ele na cara hoje mesmo, ah, isso eu vou! - Depois você deixa eu dar uma voltinha? - Psiu... Cuidado que ele está olhando para cá... - Ah deixa... E ninguém precisou torcer o braço de Gauguin para ele ter mais uma adorável noite taitiana...

O "IDAP" Creio ter sido em casa de Fernando Sabino, há uns vinte verões atrás que, discorrendo a conversa sobre o amor, entraram de repente os circunstantes em considerações fenomenológicas da maior pertinência, a propósito desse caso patológico que é um homem apaixonado. O tipo foi, de início, estudado sob todos os ângulos; e como a maioria dos circunstantes falava com conhecimento de causa - e quanta! - chegou-se a várias conclusões sobre as quais não me estenderei de medo que o assunto vaze do retângulo a que tenho direito nesta página. Que o homem apaixonado é um doente, disso não nos ficou a menor dúvida. Doente mesmo no duro, tal um portador do mal de Hansen ou da moléstia de Basedow. Como sob a ação de um vírus qualquer letal, seu cérebro começa a funcionar de um modo totalmente peculiar. Torna-se ele, para princípio de conversa, mais policial que um agente da antiga Gestapo, para não trazer o assunto mais próximo, passando a julgar o ser amado, quando fora do seu campo visual (e por vezes também dentro dele) capaz de qualquer traição. Para o homem apaixonado, a mulher amada é o centro do mundo e da atenção geral. Todos os homens, por princípio, dão em cima dela. Se ela olha não importa quão casualmente para um outro varão na rua, está dando bola. Se não olhou é porque sofreu impacto: não ama o bastante para enfrentar com naturalidade a cobiça do sexo oposto; trata-se de uma fraca, uma venal, uma completa... - nem é bom falar! Enfim, para o homem apaixonado a mulher amada é, na fase da paixão, um misto de Bernadette e Lucrécia Bórgia. Nada mais irreal que a sua realidade, pois que se tem saudade dela em sua presença e há ocasiões em que se quer a sua morte para que se possa ter paz - e não há paz em sua ausência. A mulher amada é o paradoxo vivo, o fogo que arde sem se ver, a ferida que dói e não se sente, o contentamento descontente de que fala Camões que, esse sim, sabia o que era o amor. A partir de uma diagnose bastante completa do assunto, começou-se a pensar o que se poderia fazer em beneficio do homem apaixonado, esse bateau ivre despenhado na torrente, esse sonâmbulo a vagar no espaço cósmico, essa nota extrema e lancinante acima de todas as pautas da emoção humana. Ficou de início deliberado que ele deveria usar uma qualquer marca distintiva: talvez um sapato de cada cor, ou uma gravata que acendesse como a dos mágicos, ou andar sobre pernas de pau... - enfim, uma característica que o tornasse conspícuo aos olhos dos míseros mortais entre os quais é obrigado a viver. Acabamos optando por uma bengalinha como a dos cegos - só que, em vez de branca, vermelha, da cor da paixão; pois um dos grandes riscos que corre o homem apaixonado é o tráfego, em meio ao qual transita como se fosse transparente. Mas ficou verificado que a bengalinha poderia prestar-se a grandes contrafações por parte de inúmeros vigaristas que, sabedores de suas regalias, não hesitariam em obtê-la por meios ilícitos. O melhor, concluímos, seria criar uma nova autarquia, o Instituto dos Apaixonados

(com a sigla IDAP), a cujos sócios seria fornecida uma carteirinha; cuja carteirinha daria prioridade em telefones públicos, direito a "espetar" em bares, proteção especial da polícia em caso de briga e uma série de outras prerrogativas, como entrada grátis nos cinemas mais escuros da cidade, direito a expulsar pessoas dos bancos de parques e jardins, e etc. Mas qual a entidade para caracterizar o homem verdadeiramente apaixonado? E quais as habilitações necessárias à constituição de uma junta de psicólogos capazes de atestar ser uma pessoa portadora da terrível disfunção? Não haveria, aí também, oportunidade para muito nepotismo, muita proteção por fora? E após novas ponderações verificou-se que bastaria um funcionário honesto atrás de um guichê. O Homem Apaixonado chegaria e o funcionário examinaria rapidamente o fundo do seu olho para diagnosticar o chamado olho de peixe, ou seja, meio vidrado. Feito isto, tomar-lhe-ia o pulso ao mesmo tempo que perguntasse: "O senhor se considera realmente apaixonado?" Ao que, o paciente - eu, suponhamos responderia mais ou menos assim: - Ah, o senhor quer saber que dia é? São quatro e meia e a primavera está linda. Ela se chama Nelita... E cairia para trás, duro e babando.

O amigo exemplar (Rio de Janeiro) Pois é, compadre. Você, no exagero da sua delicadeza, não quis esperar por mim, eu trançando pela Europa inteiramente por fora do que se passava. E você morrendo sua morte com essa discrição que, melhor que uma prova de refinamento, era uma decorrência normal da sua integridade como homem. Porque eu desconfio muito dos que se deixam engessar em moldes éticos, seja por conveniência profissional, seja por medo de romper estruturas tradicionais impostas. Você não, querido morto cada vez mais vivo. Você era uno e indivisível como um diamante que tivesse chegado ao limite máximo do seu grau de lapidação. Não havia dinheiro, glória, tentações, comendas capazes de comprar a sua honra. Talvez só a amizade - e isso porque você dava um crédito de confiança total aos seus amigos - pudesse, senão demovê-lo, pelo menos fazê-lo contornar dialeticamente uma posição moral assumida. Você nunca abstraía do humano, meu compadre. Você sabia que o homem só muito raramente é aquilo que ele diz ser; é, muito mais, "esse bicho da terra tão pequeno" de que fala Camões, passível, por amor, fé ou sectarismo, dos piores compromissos; capaz de dizer, no mais enxuto dos estilos, as maiores besteiras ou as coisas mais convencionais - e com a maior convicção. E do mesmo posso tentar realmente penetrar os mistérios do ser humano, da sociedade e da natureza, em sua busca permanente de Deus (ou de uma tábua social comum de salvação). Você vivia num estado de quase permanente indignação contra os inimigos do homem e do que ele cria no plano da beleza. Você foi o grande e puro leão-de-chácara do nosso humilde patrimônio histórico e artístico, e não fosse você, rodeado de sua belle équipe, não só todos os nossos santos barrocos seriam hoje peças de antiquários, como a pedra sabão em que o gênio do Aleijadinho materializou o verbo austero dos Profetas do Antigo Testamento, estaria coberta de palavrões de mictório. Você, em benefício dessa missão, não só abdicou de uma vocação de escritor, para a qual era dotado dos instrumentos mais aptos, como se deixou envelhecer antes do tempo, vitimado por uma sobrecarga de aborrecimentos inúteis, quais os que lhe eram diariamente despejados em cima pelo natural mau gosto arquitetônico da classe média em ascensão, desservida pela desonestidade profissional de arquitetos de araque ou pela politicagem de alguns prefeitos do interior mais interessados em votos que em ex-votos; em fazer média com obras excêntricas e antipatrimoniais com vistas ao meio ambiente e ao futuro, que na restauração e preservação das autênticas, legadas pelas dores do passado e, de resto, as únicas capazes de fazer progredir, através do turismo, as cidades e regiões sob sua administração. Você lutava uma luta miúda contra o mão-de-paca da administração federal, sempre curto de verbas para atender às múltiplas e prementes exigências de restauração de obras do patrimônio sob sua guarda. Essa luta, você a levava para casa, fazia dela participarem

sua admirável companheira, seus filhos e seus amigos mais íntimos. Houve um tempo - o tempo da rua Bulhões de Carvalho - em que toda quarta-feira nós íamos - Manuel Bandeira, Pedro Nava, eu e, com menos frequência, Afonso Arinos de Melo Franco e Prudente de Morais, Neto - jantar com você e sua Graciema, na casa arrumada com tanto gosto e carinho; e ali ficávamos até altas horas traçando nosso uísque; debatendo os problemas de nossa vida e nossa época; lendo ainda no original os poemas admiráveis de Carlos Drummond; por vezes convivendo com escritores amigos de Minas e Pernambuco, de passagem pelo Rio, e para os quais uma chegada à sua casa, e à de Aníbal Machado, constituía a melhor das obrigações. A conversa era inteligente, bem escandida, não isenta de humor negro, no qual, como bom mineiro, você não deixava de se comprazer. Nem faltava, tampouco, lirismo - um tanto macabro, é certo - não fôssemos nós, como diria seu também amigo Otto Lara Resende, inquilinos vitalícios da morte, sempre carregando o eterno Defunto (de Pedro Nava) em nosso cotidiano mais fisiológico. Você ria sua risada levemente dispnéica, passando a mão felpuda rosto abaixo e balançando a cabeça de cabelos ralos mas impecavelmente penteados, a cada novo sutil achado de Nava ou de Prudente; ou à lembrança de minhas aventuras em nossa primeira viagem a Ouro Preto, no inverno de 1938, quando fomos com esse caro José Reis debulhar os gavetões da sacristia de São Francisco de Assis à cata de comprovantes de obras de talha do Aleijadinho ainda não autenticadas: e com que sucesso. Eu tivera meu primeiro desafio ao violão com o famoso improvisador Zé Badu, provocado por este, que queria brilhar à minha custa, mas por um desses azares da parlenda, estrepou-se em verde e amarelo: e, irado, partiu a dar tiros para o alto que só não mataram a família do dono do restaurante, dormindo no andar de cima, porque bala não sabe o que faz - e é só perguntar aos então jovens arquitetos Carlos Flexa Ribeiro e Vladimir Alves de Sousa, de corpo presente. Ou meu namoro com uma Mariliazinha (mesmo!) de 13 anos, mais linda e meiga que sua antiga homônima, com enormes olhos em calda... E UM CRISTO MAL CRUCIFICADO NO SEIO DE BRINQUEDO Ah, eu posso sentir ainda, amigo amado, o frio seco prisioneiro das belas fachadas coloniais da rua São José, e o som de nossos passos nos pés-de-moleque do calçamento. Na nesga de céu acima brilhavam as estrelas mais despudoradas do Brasil, que são as de Ouro Preto. Nós aquecíamos o peito com birita de rico, aguardente bem destilada com que nos regalavam, e resfolegávamos ladeira acima no rastro da beleza sempre a se desdobrar à nossa frente, sempre a nos surpreender a cada esquina, entre sons de serenata. Meus olhos, amigos, ainda não choravam sua morte. A gastura da vida que me cerca, e a grosseria dos homens que a povoam, com raras exceções, me têm de certo modo endurecido. Mas eu sei que um dia, no silêncio de uma madrugada, à simples lembrança do seu rosto erosado de rugas; à simples sensação do toque de suas mãos fraternas, no tato breve e discreto da amizade; à simples materialização do seu espectro amado no espaço expectante da minha vontade de rever você - ah, eu sei que elas correrão livres e intermináveis, para que eu possa dessedentar a saudade excruciante que sinto cada minuto, cada hora, da sua presença; do som da sua voz ao telefone a me saudar assim: "Então, querido?..."; do aconchego de sua casa e do carinho da amiga Graciema, a quem ainda não tive coragem de ir ver, para não repisar-lhe as penas. Mas sei que vou chorar, e só então você se incoporará definitivamente ao boca-livre permanente que mantenho em casa para os meus mortos. Onde você chegará, querido retardatário, me pedindo perdão pelo atraso - quando eu é que lhe devia pedir perdão de ainda não ter podido chorar -; e ficará contente de ver tantos amigos comuns que se anteciparam a

você : Zé Cláudio, Zé Lins, Gastão Cruls, Mário de Andrade, Jayme Ovalle, Graciliano, Portinari, Aníbal... toda essa linda curriola. E sobretudo - penúltimo a chegar e primeiro em precedência no nosso coração - seu muito amado Manula, meu paizinho Manuel Bandeira, que um dia se perguntou como melhor precisar esta palavra amizade. E sem hesitação respondeu: nomeando o amigo exemplar - Rodrigo M.F. de Andrade. Falou e disse.

O 6 de Junho Le jour de gloire est arrivé. A Marselhesa Na madrugada do dia 6 de junho, a pacífica travessa Santa Amélia, sita em Copacabana, foi despertada por gritos femininos próximos da alucinação. Assustados, acorreram os moradores para se deparar com o espetáculo de uma mulher, uma francesa, que debruçada de sua janela, clamava para o céu noturno, como o clarim da liberdade. - Brésiliens! Reveillez-vous, brésiliens! L'Europe a été envahie! Vive la France! Reveillezvous, brésiliens! Foi assim que uma jovem amiga minha soube da invasão da Europa. Por intermédio dela, provavelmente, dezenas de moças tiveram conhecirnento da notícia, que por sua vez telefonaram para centenas de amiguinhas, as quais avisaram a milhares de outras. No espaço de um minuto esse grito criou a maior barafunda em que já se terão visto as linhas telefônicas do Rio e dos estados da República: - Alô? - Desculpe, é engano. - A senhora não se enxerga de estar fazendo gracinha a essa hora? - Não faz mal. A Europa foi invadida! - Por que é que a senhora não vai contar isso a sua mãe? - Mas é sério! Pode ligar o rádio! - Jura? - Juro! - Santa Maria! E são mais cem pessoas que sabem da grande notícia e se comunicam com mais mil. No espaço cristalino, serenizado por uma lua quase cheia, ondas hertzianas esbarram, trançam-se, dão-se nós poderosos, criando estáticas insolúveis. A Europa foi invadida! Numa casa em Santa Teresa, um velho francês refugiado, cardíaco, morre de alegria. Casais brigados trocam de bem, parturientes encruadas dão à luz como por encanto. Um poeta com um poema atravessado encontra subitamente a solução. A Europa foi invadida! No alto das favelas, os negros batucam sem saber de nada. Notam apenas que, na cidade embaixo, muitas luzes se acenderam em muitas casas. Não sabem que o grande golpe foi dado para a extirpação completa do cancro racista no mundo. Milhares de arcanjos desceram em milhares de pára-quedas em meio a um mar de fogo nas praias e nos campos da França. Legiões de arcanjos impiedosos, traumatizados pela rapidez da queda e pela gana de possuir a terra, caindo sem ver onde, sobre o ventre amoroso da França.

O velho Tempo, relativo, ainda tentou, com as suas ásperas mãos nodosas, forçar o cadeado do 5 para transformá-lo num 6 universal e se fechar em algema, na hora 0 do ataque a hora comum para todos os povos subjugados do mundo - sobre os punhos do nazismo. Em vão. Desgarrada de seu próprio segredo a notícia corre, chega ao Brasil três horas antes de acontecer na realidade. Antes das barcaças de desembarque tocarem as praias da Normadia, já o Brasil sabia que as primeiras posições tinham sido firmadas em solo francês. Telefonadas, champanha espocando, beijos, lágrimas, confraternização. Na redação entra um preto, braço em riste, com um ramo de flores na mão: imagem eterna para um Guignard. A emoção abrevia a vida de metade da população de, sem exagero, 5 anos menos. Formam-se dilatações da aorta, por outro lado acontecem mílagres. Um hipotenso, com a máxíma a 6, volta ao normal. Muitos dormiam sem saber de nada - muitos cansados do trabalho braçal do dia, do massacre das filas, da miséria dos bondes e trens superlotados; muitos exaustos de dar pulo para conseguir o amanhã da família, muitos que a vida vem gastando, que a carestia vem submetendo, que as humilhações vêm afligindo, que o nervoso, a anemia, a úlcera do estômago, a velhice precoce vêm roendo sem remissão. Esses dormiam, sem rádio ou telefone para saber a notícia. Mas é para eles, mais que para os outros, que meu coração se volta neste momento. A hora da Libertação, se aproxima. É para eles que aquela mulher da sacada da travessa Santa Amélia grita o seu grito de amor e de anunciação: - Brasileiros! Despertai, brasileiros!

O amor por entre o verde Não é sem frequência que, à tarde, chegando à janela, eu vejo um casalzinho de brotos que vem namorar sobre a pequenina ponte de balaustrada branca que há no parque. Ela é uma menina de uns 13 anos, o corpo elástico metido nuns blue jeans e num suéter folgadão, os cabelos puxados para trás num rabinho-de-cavalo que está sempre a balançar para todos os lados; ele, um garoto de, no máximo, 16, esguio, com pastas de cabelo a lhe tombar sobre a testa e um ar de quem descobriu a fórmula da vida. Uma coisa eu lhes asseguro: eles são lindos, e ficam montados, um em frente ao outro, no corrimão da colunata, os joelhos a se tocarem, os rostos a se buscarem a todo momento para pequenos segredos, pequenos carinhos, pequenos beijos. São, na sua extrema juventude, a coisa mais antiga que há no parque, incluindo velhas árvores que por ali espapaçam sua verde sombra; e as momices e brincadeiras que se fazem dariam para escrever todo um tratado sobre a arqueologia do amor, pois têm uma tal ancestralidade que nunca se há de saber a quantos milênios remontam. Eu os observo por um minuto apenas para não perturbar-lhes os jogos de mão e misteriosos brinquedos mímicos com que se entretêm, pois suspeito de que sabem de tudo o que se passa à sua volta. Às vezes, para descansar da posição, encaixam-se os pescoços e repousam os rostos um sobre o ombro do outro, como dois cavalinhos carinhosos, e eu vejo então os olhos da menina percorrerem vagarosamente as coisas em torno, numa aceitação dos homens, das coisas e da natureza, enquanto os do rapaz mantêm-se fixos, como a perscrutar desígnios. Depois voltam à posição inicial e se olham nos olhos, e ela afasta com a mão os cabelos de sobre a fronte do namorado, para vê-lo melhor e sente-se que eles se amam e dão suspiros de cortar o coração. De repente o menino parte para uma brutalidade qualquer, torce-lhe o pulso até ela dizer-lhe o que ele quer ouvir, e ela agarra-o pelos cabelos, e termina tudo, quando não há passantes, num longo e meticuloso beijo. Que será, pergunto-me eu em vão, dessas duas crianças que tão cedo começam a praticar os ritos do amor? Prosseguirão se amando, ou de súbito, na sua jovem incontinência, procurarão o contato de outras bocas, de outras mãos, de outros ombros? Quem sabe se amanhã quando eu chegar à janela, não verei um rapazinho moreno em lugar do louro ou uma menina com a cabeleira solta em lugar dessa com os cabelos presos? E se prosseguirem se amando, pergunto-me novamente em vão, será que um dia se casarão e serão felizes? Quando, satisfeita a sua jovem sexualidade, se olharem nos olhos, será que correrão um para o outro e se darão um grande abraço de ternura? Ou será que se desviarão o olhar, para pensar cada um consigo mesmo que ele não era exatamente aquilo que ela pensava e ela era menos bonita ou inteligente do que ele a tinha imaginado? É um tal milagre encontrar, nesse infinito labirinto de desenganos amorosos, o ser verdadeiramente amado... Esqueço o casalzinho no parque para perder-me por um momento na observação triste, mas fria, desse estranho baile de desencontros, em que frequentemente

aquela que devia ser daquele acaba por bailar com outro porque o esperado nunca chega; e este, no entanto, passou por ela sem que ela o soubesse, suas mãos sem querer se tocaram, eles olharam-se nos olhos por um instante e não se reconheceram. E é então que esqueço de tudo e vou olhar nos olhos de minha bem-amada como se nunca a tivesse visto antes. É ela, Deus do céu, é ela! Como a encontrei, não sei. Como chegou até aqui, não vi. Mas é ela, eu sei que é ela porque há um rastro de luz quando ela passa; e quando ela me abre os braços eu me crucifico neles banhado em lágrimas de ternura; e sei que mataria friamente quem quer que lhe causasse dano; e gostaria que morrêssemos juntos e fôssemos enterrados de mãos dadas, e nossos olhos indecomponíveis ficassem para sempre abertos mirando muito além das estrelas.

O amor que move o sol e outras estrelas Foi no cruzamento de São José com a Avenida, depois na Cinelândia, depois em Copacabana. Elas atravessavam a rua, entravam em lojas, saíam de automóveis, paravam para admirar vitrinas e aí seguiam num novo impulso, quais jovens barcos, os barcos a se agitarem como remos de incerta parlamenta, ganhando devagar e sempre os mares azuis da tarde carioca fresca e fagueira. Saias pretas, batinas brancas, sapatinhos de balé, os cabelos graciosamente curtos ou atacados no alto, lá iam elas bamboleando a sua doce carga, com os veludosos olhos atentos aos mostruários. Surgiam às dezenas, de todos os lados, como obedecendo a um sinal convencionado e ao se cruzarem miravam-se de soslaio, a se medirem como embarcações rivais. Às vezes, numa esquina, paravam por um momento, ligeiramente resfolegantes, para descansar um pouco do esforço feito dentro do mar picado da multidão. Mas nada que denunciasse nelas uma grande estafa ou um sentimento de derrota. As barriguinhas pandas, os corpos equilibrados à nova distribuição de peso, a pele esticada, a nuca fresca, súbito punham elas de novo a funcionar o motorzinho de popa e saíam empinadinhas em frente, um enxame de mulherzinhas grávidas a penetrar a vida urbana de uma nova vida, uma nova graça e uma certa gravidade. Como explicar a emoção que senti? Talvez essa que provocaria a vista de um quadrinho de regata feito por Guignard, com os ioles e esquifes distendidos na puxada e por ali tudo, em meio ao esvoaçar multicor de bandeirinhas, um mundo de serenas baleeiras a se balançarem suaves ao sabor das ondas. Sei que fiquei lírico, possuído do sentimento da fecundidade da vida, sentindo a brisa farfalhar em meus cabelos e arder em minha pele o sol claro do dia. Soube que o tempo tinha cumprido a sua missão, e todas aquelas mulherzinhas fecundadas, a berçar no movimento de seus passos a gestação dos filhos, constituíam em seu gracioso desenho convexo uma maravilhosa afirmação de vida e um caminho positivo para o amor. Soube que o amor é uma missão a cumprir por nós, homens, e que é a nós de constantemente querer, zelar e defender essas que, tão frágeis, fazem a nossa força e miséria e cuja existência é um contínuo sofrer, se alegrar e se extinguir por nós. Soube que homem e mulher são, em sua constante atração e repúdio, a imagem mesma da vida em movimento, e que sua longa jornada de mãos juntas, a se afastar cada vez mais do Paraíso Perdido, tende a uma alfombra cada vez menos distante, onde se aninharão melhor e onde fecundarão seres cada vez mais próximos da terra.

O aprendiz de poesia Eu havia sempre laborado na arte da poesia, desde os mais verdes anos. Às vezes, em meio aos brinquedos com os irmãos, na Ilha do Governador, fugia e ia me ocultar no quarto, a folha de papel diante de mim. Era tão estranho aquilo! Eu de nada sabia ainda, senão que tinha nove anos e Cocotá era o meu mundo, com sua praia de lodo, seu cajueiro e seus guaiamuns. Mas sabia vibrar em presença da folha branca que me pedia versos, viva como uma epiderme que pede carinho. Passavam-me os mais doces pensamentos, a imagem de minha mãe cantando, o rosto de Cacilda, minha namorada, da Escola Afrânio Peixoto, o beijo que Branca me dera - menina danada! - em plena Igreja São João Batista, quando as cabeças dos fiéis se haviam mansamente curvado para a bênção. Mas de alguma coisa carecia, que me arrastava logo a antologias (muito obrigado, Fausto Barreto; muito obrigado, Carlos de Laet!) ante as quais morria de inveja. Ah, escrever um soneto como o "Anoitecer", de Raimundo Correia! Minha maior tentação era, no entanto, meu próprio pai, Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, poeta inédito, cujos manuscritos folheava deslumbrado, os mesmos que Bilac lera e cuja publicação aconselhara. Lembro que havia entre eles um soneto que levava meu nome, feito quando eu ainda no ventre materno. Cada vez que o lia, as lágrimas corriam-me livremente - e quantas não enxuguei sobre o papel amarelado para que não borrassem a linha antiga... Partia, ato contínuo, para a folha branca que me esperava, virgem, a procurar um tema, uma frase, uma palavra que me desse para abrir as portas daquela cidade cobiçada, cujos rumores chegavamme maravilhosamente acústicos. Pus-me a imitar. Primeiro meu pai, mais à mão, menos preocupado com a glória literária, a que não dava grande crédito. Um dia, como um ladrão, levei comigo, enfiada por dentro da camisa de banho, uma longa pastoral em decassílabos, que fui mostrar a Célia, minha garota da Ilha, uma menina grande e mais velha, que se entretinha de mim. - Que beleza! - disse-me ela pondo as mãos nas minhas. - Você quer dar ele para mim? Covarde, dei. Hoje a pastoral de meu pai anda por aí, não sei onde, talvez na gaveta de uma cômoda no Encantado, onde morava quando vinha ao Rio; talvez em Miami, Acapulco ou Pago-Pago, para onde a tenha levado sua imensa tontice. * * * Muito plagiei, a princípio. Primeiro timidamente, depois como um possesso. Castro Alves, companheiro de noitadas de meu tio-avô Mello Moraes Filho, emprestou-me sua revolta condoreira. Olavo Bilac cedeu-me o diamante com que cortava os duros cristais de sua poesia. Guilherme de Almeida presenteou-me com seu geraldysmo, sua reticência ilustre, seu sorriso imóvel e seus punhos de renda. Menotti deu-me seu lorgnon, seus crachás, seu jucamulatismo. Descia de Antero a Júlio Dantas, perpetrando ceias, desvendando seios, ai de mim. Abria a

antologia à toa e esperava. Casemiro? Casemiro! E assim se foi povoando de negros caracteres impecáveis um grande livro de capa preta, rubricado "Prefeitura do Distrito Federal", sobre que, tenho a impressão, um funcionário qualquer, meu parente, havia feito mão baixa. Mas que importava? Era um livro belo, um caderno de perfeito almaço, da grossura da minha ambição de criar poesia, vasto bastante para o menino que queria voar com asas roubadas, essas que tão cuidadosamente punha nas omoplatas para o exercício noturno dentro de seu quarto dentro da Ilha dentro da baía dentro da cidade dentro do país dentro do mar dentro do mundo. Um dia conheci um poeta como mandam as regras, com livro publicado e tudo o mais. Chamava-se João Lyra Filho, era moço nortista, apaixonado, e recitava Augusto dos Anjos por trás de uma cadeira. Augusto dos Anjos! Como me chocava aquela ousadia de palavras, a misturar a miséria ao sublime, o esterco à estrela, a podridão do túmulo à beleza da vida! Preferia Adelmar, para quem, naquele tempo, voltavam-se os olhos fiéis de João Lyra Filho como os do sacristão para o padre. Certa vez, depois de uma noite de angústia, resolvi mostrar-lhe meus versos. Reunira-os sob o nome de "Foederis arca". Mas o poeta não gostou. Disse-me de modo brando que desistisse daquilo. Falou-me da predestinação poética, que eu não tinha. Meu negócio devia ser outro. Faltava-me aquele imponderável que os amantes do belo representam esfregando sutilmente a polpa do polegar contra a dos outros dedos, mas não como para indicar o vil metal: mais devagar, como a destilar a própria substância imanente da arte. O poetinha aprendiz desistiu? Coisíssima nenhuma! Prossegui firme, inabalável, entre alexandrinos, decassílabos e redondilhas, a perpetrar odes, sonetos, elegias, éclogas, cromos e acrósticos que dava fielmente às namoradas que fui semeando, da Gávea a Sabará. Era o martírio da poesia, em todo o meu desvario. * * * Uma noite - eu tinha 17 anos - Otávio de Faria e eu fomos tocando a pé da Galeria Cruzeiro até a Gávea, onde ficava minha casa, na rua Lopes Quintas. Não era infrequente fazermos isso, à base da conversa. Era um hábito da amizade entre o calouro e o veterano da Faculdade de Direito do Catete, aquele passeio noturno povoado das sombras de Nietzsche e da pantomima de Chaplin. Lembro-me que à meia-noite, bem alto, na estrada de Orion, brilhava uma lua como nunca vi mais cheia, a cabeleira solta, os seios nus, o olhar de louca a me varar o peito de súplicas e doestos. Era tal o mistério dessa noite que agora mesmo, escrevendo na minha sala noturna, sinto os cabelos se me içarem de leve, como se fosse sentir novamente sobre eles a mão macia da lua cheia. Deixei Octavio de Faria no seu bonde de volta e subi Lopes Quintas, rumo a casa. O sossego era perfeito, total o sono do mundo. Só às vezes, subitamente, dos espaços descia um braço de vento que varria as folhas secas da rua e empinava papéis velhos como hipocampos. Transpus, ansiado, a distância familiar que me levava para alguma coisa que sentia vir mas não sabia o que era. Em casa, galguei rápido as escadas para o meu quarto no primeiro andar, e fui sentar-me ofegante à escrivaninha antiga, a mesma que tenho hoje, a mesma que suportou na infância o peso da minha ambição de ser poeta. A janela estava aberta, e em sua moldura a lua viera se postar, os olhos cravados em mim. Não sei como foi, mas sei que foi diferente de tudo o que sentia antes. Meus ouvidos,

como conchas, pareciam recolher os ruídos mais longínquos do mar que estilhaçava em mim. Ouvi o sopro da noite, o cair das folhas, o germinar das plantas que boliam fora, na mata próxima ao Corcovado, e ali perto, no jardim. Pombas vazaram do meu coração, deixando-me dentro, a se debater, a grande ave inimiga que me feria com suas asas querendo sair também, fugir, voar para longe. Senti-me sem peso, sem dimensão, sem matéria. Meu ser volatilizou-se para a lua, transformado ele próprio em substância lunar. E comecei a escrever como nunca dantes, liberto de métrica e rima, algo que era eu mas que era também diferente de mim; algo que eu tinha e de que não participava, como um fogo-fátuo a crepitar da minha carne em agonia. Linha por linha, como psicografado, o poema - o meu primeiro poema - começou a brotar de mim. O ar está cheio de murmúrios misteriosos... * * * Há algum tempo atrás terminei os trabalhos de correção de uma coletânea de meus poemas, a sair proximamente. Lembrei-me do meu primeiro poema, do primeiro poema em que me vi criando poesia, transformando a natureza, sendo a voz que existia em mim e não era eu. Estudei longamente a possibilidade de colocá-lo na seleção, mas não houve jeito. Era ruim demais. Mas, curioso! senti a forma como a querer, em vão, segredar-me imponderáveis. Tive saudades do tempo em que a poesia para mim era isso: a noite, com suas vozes, a lua com seus véus, o silêncio noturno da terra a rolar no infinito. Tive saudades de Júlio Dantas, Adelmar Tavares, João Lyra Filho. De repente, a poesia fez-se tão exigente, o poeta fez-se tão lúcido... Por que tiveste que passar, poesia inocente, poesia ruim, que eu fazia com os olhos nos olhos da lua? Por que morreste e deixaste o poeta calmo, firme, sóbrio dentro da noite sem mistério?

O amor em Botafogo I / BRANCA Eu conheci Branca no colégio público, tinha por aí meus sete anos. Era a Escola Afrânio Peixoto e ficava a meio caminho da rua da Matriz. Nesse tempo a gente se deslumbrava diante de uma borracha Faber, das grandes, boas não só para apagar como para morder. Não havia ainda cadernos verde-amarelos, com hinos transcritos nas costas e se usavam pequenas ardósias que os alunos chamavam "a minha pedra", para a qual havia também um lápis, "o lápis de pedra", que riscava a superficie negra com um rinchado de arrepiar uma tartaruga. Branca foi a minha primeira namorada. Morava na casa contígua à minha, na rua Voluntários da Pátria, lar de meus avós, para onde eu vinha da Ilha do Governador, onde viviam meus pais, durante o ano letivo. A menina usava o vestido bem acima dos joelhos e tinha sempre um laço de cor no chinó. No princípio não dei muita atenção a ela, por causa de duas meninas da minha classe que, embora não namorasse, me perturbavam por demais. Uma me dera um beijo um dia, em plena hora da comunhão, na matriz de São João Batista, onde oficiava o então padre Rosalvo da Costa Rego. A outra fazia composições lindas sobre o pôr-do-sol, que tocavam fundo o meu literatismo despontante. Comecei a amá-la porque um dia, no portão de sua casa, minha mão encostou de leve em sua perna. Nunca mais esqueci essa sensação. Foi a coisa mais fresca, dúctil, lisa, benfazeja que jamais toquei em minha vida. Parecia uma imensa borracha Faber. E namorei-a apesar do seu sobrenome, que me envergonhava um pouco e prestava-se a uma porção de piadas por parte dos meninos (ela chamava-se Varanda), e de sua cor, pois Branca era quase pretinha. Branca me dava cola em história do Brasil. Nunca mais pus a mão em sua perna. II / NEGRA Negra era linda. Andava como uma jovem pantera, o passo elástico desenvolvendo esferas no espaço em torno. Eu, sinceramente, não me achava merecedor dela e, de certo modo, até hoje me pergunto por que Negra me escolheu entre tantos outros garotos. Ela era um pouquinho mais alta que eu, e excedia em majestade. Qualquer coisa assim como se agora, por exemplo, Ursula Andress viesse ao Brasil e cismasse comigo. Eu tinha um misto de vergonha e orgulho de sair com ela na rua. Sim, vergonha, porque os outros meninos a olhavam com cobiça e alguns dirigiam-lhe gracejos. Ficava cego de raiva mas não fazia nada porque isso era a todo instante. Até que um dia Negra parou (foi ali na Sorocaba), e apontou para o grupo - uns três guris - que tinha mexido com ela, em termos mais

pesados. - Vai e dá neles! E eu parti com tal raça que os meninos, depois de derrubado o primeiro, fugiram e ficaram nos vaiando de longe. Negra deu-me um rápido olhar de quem diz: muito bem! - e dando-me a mão partiu comigo: eu com náusea de estômago, como até hoje tenho depois que entro em cólera� Negra sabia de mais coisas que o João. Levava-me para sua casa e bastava a mãe ou o pai saírem da sala, e a menina dava-me violentas "enxovas". Gostava de beijar como Greta Garbo, que era a rainha cinematográfica da época, ou seja, dando-me uma gravata e colocando meu rosto sob o dela. Aquilo me humilhava um pouco, mas também não vamos exagerar. Eu era vidrado por Negra e para mim tudo o que ela fazia estava perfeito. Só sei que, como cheguei, me fui. Um verão ela subiu para Petrópolis onde eu ia visitá-la às vezes, numa bela casa à margem do Piabanha. Certo dia cheguei lá e ela veio atender-me no portão: - Eu queria dizer a você que já tenho outro namorado. Voltei, no antigo trenzinho de cremalheira, lavado em lágrimas. Ah! Negra, por que você foi fazer uma coisa dessas comigo e me desprover assim do tato de seus cabelos louros, da sua boca gulosa e de sua pele mais branca do que a lua?

O casamento da lua O que me contaram não foi nada disso. A mim, contaram-me o seguinte: que um grupo de bons e velhos sábios, de mãos enferrujadas, rostos cheios de rugas e pequenos olhos sorridentes, começaram a reunir-se de todas as noites para olhar a Lua, pois andavam dizendo que nos últimos cinco séculos sua palidez tinha aumentado consideravelmente. E de tanto olharem através de seus telescópios, os bons e velhos sábios foram assumindo um ar preocupado e seus olhos já não sorriam mais; puseram-se, antes, melancólicos. E contaram-me ainda que não era incomum vê-los, peripatéticos, a conversar em voz baixa enquanto balançavam gravemente a cabeça. É que os bons e velhos sábios haviam constatado que a Lua estava não só muito pálida, como envolta num permanente halo de tristeza. E que mirava o Mundo com olhos de um tal langor e dava tão fundos suspiros - ela que por milênios mantivera a mais virginal reserva que não havia como duvidar: a Lua estava pura e simplesmente apaixonada. Sua crescente palidez, aliada a uma minguante serenidade e compostura no seu noturno nicho, induzia uma só conclusão: tratava-se de uma Lua nova, de uma Lua cheia de amor, de uma Lua que precisava dar. E a Lua queria dar-se justamente àquele de quem era a única escrava e que, com desdenhosa gravidade, mantinha-a confinada em seu espaço próprio, usufruindo apenas de sua luz e dando azo a que ela fosse motivo constante de poemas e canções de seus menestréis, e até mesmo de ditos e graças de seus bufões, para distraí-lo em suas periódicas hipocondrias de madurez. Pois não é que ao descobrirem que era o Mundo a causa do sofrimento da Lua, puseram-se os bons velhos sábios a dar gritos de júbilo e a esfregar as mãos, piscando-se os olhos e dizendo-se chistes que, com toda franqueza, não ficam nada bem em homens de saber... Mas o que se há de fazer? Frequentemente, a velhice, mesmo sábia, não tem nenhuma noção do ridículo nos momentos de alegria, podendo mesmo chegar a dançar rodas e sarabandas, numa curiosa volta à infância. Por isso perdoemos aos bons e velhos sábios, que se assim faziam é porque tinham descoberto os males da Lua, que eram males de amor. E males de amor curamse com o próprio amor - eis o axioma científico a que chegaram os eruditos anciãos, e que escreveram no final de um longo pergaminho crivado de números e equações, no qual fora estudado o problema da crescente palidez da Lua. Virgens apaixonadas, disseram-se eles, precisam casar-se urgentemente com o objeto de sua paixão. Mas, disseram-se eles ainda, o que pensaria disso o desdenhoso Mundo, preocupado com as suas habituais conquistas? O problema era dos mais delicados, pois não se inculca tão facilmente, em seres soberanos, a ideia de desposarem suas escravas. Todavia, como havia precedentes, a única coisa a fazer era tentar. Do contrário operar-se-ia uma partenogênese na Lua, o que seria em extremo humilhante e sem graça para ela. Não. Proceder-se-ia a uma inseminação artificial e, uma vez o fato consumado, por força haveria de

se abrandar o coração do Mundo. E assim se fez. Durante meses estudaram os homens de saber, entre seus cadinhos e retortas, e com grande gasto de papel e tinta, o projeto de um lindo corpúsculo seminal que pudesse fecundar a Lua. Um belo dia ei-lo que fica pronto, para gáudio dos bons e velhos sábios, que o festejaram profusamente com danças e bebidas tendo havido mesmo alguns que, de tão incontinentes, deixaram-se a dormir no chão de seus laboratórios, a roncar como pagãos. Chamaram-no Lunik, como devia ser. E uma noite, em que o Mundo agitado pôs-se a sonhar sonhos eróticos, subitamente partiu ele, o lindo corpúsculo seminal, sequioso e certeiro em direção à Lua, que, em sua emoção pré-nupcial, mostrava com um despudor desconhecido nela as manchas mais capitosas de seu branco corpo à espera. Foi preciso que o Vento, seu antigo guardião, escandalizado, se pusesse a soprar nuvens por todos os lados, com toda a força de suas bochechas, para encobrir o firmamento com véus de bruma, de modo a ocultar a volúpia da Lua expectante, a altear os quartos nas mais provocadoras posições. Hoje, fecundada, ela voltou finalmente ao céu, serena e radiosa como nunca a vira dantes. Pela expressão com que me olhou, penso que já está grávida. Ou muito me engano, ou amanhã deve estar cheia.

O conde e o passarinho Rubem Braga é, sabidamente, um conhecedor de passarinhos. Suas crônicas alegram-se e se entristecem com frequência de nomes de pássaros nacionais que eu só conheço de ouvir dizer - o que me dá um certo complexo de inferioridade. Já andei, certa vez, planejando estudar ornitologia por causa disto, e lembro-me de que na viagem que fiz com ele à sua Cachoeiro do Itapemirim, quando da homenagem que lhe prestou a cidade, foi com um sentimento de gula que recebi o maravilhoso disco de pios artificiais de passarinhos, feito pela família Coelho, que disso criou uma pequena indústria local. Tais projetos nunca foram adiante, como vários outros, entre os quais um de estudar carpintaria: e este, inclusive, concertado com o próprio Rubem - e que resultou em arrancarmos, ato contínuo, a porta da garagem da minha antiga casa, sairmos meia hora depois para matar o calor com uma cerveja gelada, e nunca mais voltarmos à dita porta, que se quedou jazente por dias a fio, vítima de nossa impostura. O Braga conhece bem sua passarada, isso ninguém lhe tira. O que não impede, porém, que tenha dado um "baixo" ornitológico que merece registro, segundo me conta minha irmã Lygia, testemunha ocular do mesmo. Pois o que se deduz da história é que o Braga pode conhecer muito bem tico-tico, curió, sanhaço, cardeal, tiê-sangue, sabiá, gaturamo, cambaxirra e até mesmo vira-bosta - mas em matéria de canário trata-se de um otário completo e acabado. Dito o quê, passemos à narrativa. Parece que o Braga vinha um dia assim muito bem pela Cinelândia, quando topou com um vendedor de passarinho oferecendo a preço de ocasião um casal de canários dentro de uma gaiola cuja bossinha era ser dividida por uma separação levadiça em dois compartimentos, um para o macho, outro para a fêmea. A gracinha era abrir a portinhola do macho, deixá-lo fugir e depois vê-lo voltar docemente, no pio da fêmea. O Braguinha, que além de gostar de pássaros não é tolo (imagina para quanta mulherzinha ele não ia poder fazer aquele truque!), assistiu com o maior interesse a mais essa demonstração de que, como diz o samba, o homem sem mulher não vale nada, entregou o dinheiro, meteu a gaiola debaixo do braço e tocou-se para o Leblon, sequioso de mostrar seu novo brinco ao aborígene. E deu-lhe a sorte de encontrar minha irmã Lygia, que além de ser uma esplêndida assistência para demonstrações desse teor, é pessoa mais de se apiedar que de caçoar da desdita alheia. O Braga colocou a gaiola em posição, abriu a porta e lá se foi o canarinho pelo azul afora, em lindas evoluções. A fêmea, como previsto, abriu o bico e o canário, ao ouvi-la, fez direitinho como mandava o figurino: voltou e posou junto à porta aberta. Mas o divórcio entrou? Nem o canário. O bichinho ficou prudentemente à porta, mas entrar dentro mesmo da gaiola que é bom... ahn-ahn. O Braga animou a ave canora com milhões de piu-pius, fez-lhe mentalmente enérgicas perorações contra a sua calhordice - tudo isso, conta minha irmã Lygia,

com olhos onde se começava a notar uma certa apreensão. O canário, nada. Quem sabe, ponderou minha irmã, um elemento verde qualquer colocado junto à porta, uma folha de alface, por exemplo, não animaria o bichinho? Foi trazida a folha de alface e colocada junto à porta. Durante essa operação o canário levantou voo, e a canarinha, aproveitando-se da ocupação dos dois, fez força com o biquinho e acabou por erguer a portinhola da separação; dali para o Jardim Botânico, não teve nem graça. Diz minha irmã que o Braga ficou triste, triste. E como a esperança é a última que morre, antes de ir embora ainda ajeitou a gaiolinha para uma espera: quem sabe os pilantras não voltariam à noite... Canário, hein Braguinha?...

O delírio do óbvio Conheci-a num coquetel no seu apartamento em Roma: uma mulherzinha intensa, minúscula, arredondada. Pensei imediatamente em dar-lhe um lugar de destaque na coleção de gnomos humanos de jardim, que venho selecionando há um ano e já vai bem adiantada. Devia andar pelos 45, mas 45 bem cuidados, a julgar pelo fundo da pele, pelo dorso das mãos e pelo colo almofadado, dando apenas a entender. Um colo arfante, naturalmente. Olhou-me com olhos úmidos e sua boca rasgada abriu um sorriso à anúncio. O tom com que me falou foi de um recolhimento quase religioso : - Ah, é o poeta Fiquei com vontade de engrossar de saída e responder: "Não, é o cobrador da Light�", mas me contive. Ela suspirou fundo - coisa que, aliás, deveria fazer num crescendo assustador - e sem mudar de tom, mas endurecendo ligeiramente as pupilas, voltou- se para minha mulher : - Que coisa divina ser a companheira de um poeta, a sua musa inspiradora! E que responsabilidade... Porque os poetas, em geral, são pródigos de amor: não é, poeta? Quis reagir, mas inutilmente. Sorrimos aquele sorriso, e enquanto minha mulher fingia procurar qualquer coisa na bolsa, eu balbuciei um "É�" que merecia ser gravado, pois jamais ouvi nada tão alvar. Ela acertou o vestido nas ancas, num gesto muito característico das mulheres que ainda não desistiram de todo, e aproximando o rosto do meu, segredou-me conivente: - Aposto que já fez sofrer muitos corações femininos... Assumi, sem saber bem o que dizer, um ar modesto de "mais ou menos", e já meio baratinado pela ação irradiante de tanto óbvio, respondi sem tirar nem pôr o que aqui vai: -Qual nada ... A senhora está exagerando... São seus bons olhos... Eu até não sou disso ... Ela fixou-me ardentemente, numa expressão só-eu-sou-capaz-de-compreender- a-alma-dospoetas e logo, desviando o olhar do meu para ir perdê-lo na distância, arrematou: - Dizer que os cientistas estudaram tanto para enviar ao espaço os cosmonautas... E estas mãos (ela tomou-me uma com infinita delicadeza) num simples dedilhar de algumas cordas, nos transportam logo ao céu! Fiquei com vontade de protestar, de dizer-lhe que estava havendo um erro de pessoa, que ela queria provavelmente se referir a Baden ou Bonfá; mas ela num súbito arroubo que conseguiu elevar-lhe a estatura de dois centímetros, dirigiu-se a minha mulher não sem uma ameaça velada na voz: - Você sabe a responsabilidade que tem, menina? ser a companheira de um poeta, de um compositor? Você sabe que ele não se pertence, é um patrimônio de todos nós? Você sabe o que é ser musa de um poeta? Minha mulher, que é muito mais Manuel Bandeira, e tal já me fez ver, chegou a olhar-me com uma certa surpresa enquanto eu, no auge da covardia, procurava abrandar a sagrada

cólera da Begum do Lugar-Comum, como a passamos a chamar depois: - Ela é boazinha, ouviu... E sem saber mais o que fazer, ofereci-lhe um cigarro, que ela declinou com seca compunção: - O poeta vai me perdoar, mas uma mulher (e fuzilou a minha com os olhos) deve ter na boca um gosto de amor e não de fumo... - Falou pouco, mas bem... Era a rendição. Ela sorriu deliciada: - Ah! poeta... As mulheres como eu só falam a linguagem do coração... Na despedida tomou-me familiarmente o braço até a porta, sem dar a menor importância à "minha musa". - Agora que já sabe o caminho, volte sempre. O ninho é pequeno mas o afeto é grande. Eu serei sempre... toda ouvidos... A porta fechada, descendo as escadas para a rua, eu me surpreendi com horror dizendo à minha "companheira`. - Que tal se fôssemos ao Alfredo, comer um fettuccini al triplo burro?

O dia do meu pai (Rio de Janeiro) Faz hoje nove anos que Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, homem pobre mas de ilustre estirpe, desincompatibilizou-se com este mundo. Teve ele, entre outras prebendas encontradas no seu modesto, mas lírico caminho, a de ser meu pai. E como, ao seu tempo, não havia ainda essa engenhosa promoção (para usar do anglicismo tão em voga) de imprensa chamada "O Dia do Papai" (com a calorosa bênção, diga-se, dos comerciantes locais), eu quero, em ocasião, trazer nesta crônica o humilde presente que nunca lhe dei quando menino; não só porque, então, a data não existia, como porque o pouco numerário que eu conseguia, quando em calças curtas, era furtado às suas algibeiras; furtos cuidadosamente planejados e executados cedo de manhã, antes que ele se levantasse para o trabalho, e que não iam nunca além de uma moeda daquelas grandes de quatrocentos réis. Eu tirava um prazer extraordinário dessas incursões ao seu quarto quente de sono, e operava em seus bolsos de olho grudado nele, ouvindo-lhe o doce ronco que era para mim o máximo. Quem nunca teve um pai que ronca não sabe o que é ter pai. Se Clodoaldo Pereira da Silva Moraes e eu trocamos dez palavras durante a sua vida, foi muito. Bom dia, como vai, até a volta - às vezes nem isso. Há pessoas com quem as palavras são desnecessárias. Nos entendíamos e amávamos mudamente, meu pai e eu. Talvez pelo fato de sua figura emocionar-me tanto, evitei sempre pisar com ele o terreno das coisas emocionais, pois estou certo de que, se começássemos a falar, cairíamos os dois em pranto, tão grandes eram em nós os motivos para chorar: tudo o que podia ter sido e que não foi; tudo o que gostaríamos de dar um ao outro, e aos que nos eram mais caros, e não podíamos; o orgulho de um pai poeta inédito por seu filho publicado e premiado e o desejo nesse filho de que fosse o contrário... - tantas coisas que faziam os nossos olhos não se demorarem demais quando se encontravam e tornavam as nossas palavras difíceis. Porque a vontade mesmo era a de me abraçar com ele, sentir-lhe a barba na minha, afagar-lhe os raros cabelos e prantearmos juntos a nossa inépcia para construir um mundo palpável. De meus amigos que conheceram meu pai, talvez Augusto Frederico Schmidt e Otávio de Faria sejam os que melhor podem testemunhar de sua paciência para com a vida e da enorme bondade do seu coração. E de sua generosidade. Fosse ele um homem rico, e nunca filhos teriam tido mais. Sempre me lembra os Natais passados na pequena casa da ilha do Governador, e a maratona que fazíamos, meus irmãos e eu, quando o bondinho que o trazia do Galeão, onde atracavam as barcas, rangia na curva e se aproximava, bamboleante e cheio de luzes, do ponto de parada junto à grande amendoeira da praia de Cocotá. Eram pencas de presentes, por vezes presentes de pai abastado, como o jogo de peças de armar, certamente de procedência americana, com que me regalou e com que construí, anos a fio, pontes, moinhos,

edifícios, guindastes, e tudo o mais. E os fabulosos Almanaques do Tico-Tico, lidos e relidos, e de onde, uma vez exaurida a matéria, recortávamos as figuras queridas de Gibi, Chiquinho, Lili e Zé Macaco. Como poeta, meu pai foi um pós-parnasiano com um pé no simbolismo. É conto familiar que Bilac, seu amigo, animou-o a publicar seus versos, que as mãos filiais de minha irmã Letícia deveriam, depois, amorosamente, copiar e reunir num grande caderno de capa preta. Há um soneto seu que me celebra ainda no ventre materno. Eu também escrevi em sua memória uma elegia em lágrimas, no escuro de minha sala em Los Angeles, quando, no dia 30 de julho de 1950, a voz materna, em sinistras espirais metálicas, anunciou-me pelo telefone intercontinental, às três da madrugada, a sua morte.

O exercício da crônica O cronista trabalha com um instrumento de grande divulgação, influência e prestígio, que é a palavra impressa. Um jornal, por menos que seja, é um veículo de ideias que são lidas, meditadas e observadas por uma determinada corrente de pensamento formada à sua volta. Um jornal é um pouco como um organismo humano. Se o editorial é o cérebro; os tópicos e notícias, as artérias e veias; as reportagens, os pulmões; o artigo de fundo, o fígado; e as seções, o aparelho digestivo - a crônica é o seu coração. A crônica é matéria tácita de leitura, que desafoga o leitor da tensão do jornal e lhe estimula um pouco a função do sonho e uma certa disponibilidade dentro de um cotidiano quase sempre "muito lido, muito visto, muito conhecido", como diria o poeta Rimbaud. Daí a seriedade do oficio do cronista e a frequência com que ele, sob a pressão de sua tirania diária, aplica-lhe balões de oxigênio. Os melhores cronistas do mundo, que foram os do século XVIII, na Inglaterra - os chamados essayists - praticaram o essay, isto de onde viria a sair a crônica moderna, com um zelo artesanal tão proficiente quanto o de um bom carpinteiro ou relojoeiro. Libertados da noção exclusivamente moral do primitivo essay, os oitocentistas ingleses deram à crônica suas primeiras lições de liberdade, casualidade e lirismo, sem perda do valor formal e da objetividade. Addison, Stecle, Goldsmith e sobretudo Hazlitt e Lamb estes os dois maiores - fizeram da crônica, como um bom mestre carpinteiro o faria com uma cadeira, um objeto leve mas sólido, sentável por pessoas gordas ou magras. Do último, a crônica "O convalescente" serviria bem para ilustrar o estado de espírito maníaco - lírico - depressivo do cronista de hoje, inteiramente entregue ao egoísmo de sua doença e à constante consideração de sua pessoinha, isolado no seu mundo de cortinas corridas, a lamber complacentemente as próprias feridas diante de um espelho pessimista. Num mundo doente a lutar pela saúde, o cronista não se pode comprazer em ser também ele um doente; em cair na vaguidão dos neurastenizados pelo sofrimento fisico; na falta de segurança e objetividade dos enfraquecidos por excessos de cama e carência de exercícios. Sua obrigação é ser leve, nunca vago; íntimo, nunca intimista; claro e preciso, nunca pessimista. Sua crônica é um copo d'água em que todos bebem, e a água há que ser fresca, limpa, luminosa para a satisfação real dos que nela matam a sede. Num momento em que o grande mal de grande parte do mundo é o entreguismo, a timidez e a franca covardia, o exercício da crônica reticente, da crônica vaga, da crônica temperamental, da crônica ególatra, da crônica à clef, da crônica da cartola - é um crime tão grande quanto o de se vender, em época de epidemia, um antibiótico adulterado. A restauração da crônica, no espírito da dignidade com que a praticaram os essayists ingleses do século XVIII, deveria constituir matéria de funda meditação por parte de seus cultores no Brasil.

O exercício da crônica Escrever prosa é uma arte ingrata. Eu digo prosa fiada, como faz um cronista; não a prosa de um ficcionista, na qual este é levado meio a tapas pelas personagens e situações que, azar dele, criou porque quis. Com um prosador do cotidiano, a coisa fia mais fino. Senta-se ele diante de sua máquina, acende um cigarro, olha através da janela e busca fundo em sua imaginação um fato qualquer, de preferência colhido no noticiário matutino, ou da véspera, em que, com as suas artimanhas peculiares, possa injetar um sangue novo. Se nada houver, resta-lhe o recurso de olhar em torno e esperar que, através de um processo associativo, surjalhe de repente a crônica, provinda dos fatos e feitos de sua vida emocionalmente despertados pela concentração. Ou então, em última instância, recorrer ao assunto da falta de assunto, já bastante gasto, mas do qual, no ato de escrever, pode surgir o inesperado. Alguns fazem-no de maneira simples e direta, sem caprichar demais no estilo, mas enfeitando-o aqui e ali desses pequenos achados que são a sua marca registrada e constituem um tópico infalível nas conversas do alheio naquela noite. Outros, de modo lento e elaborado, que o leitor deixa para mais tarde como um convite ao sono: a estes se lê como quem mastiga com prazer grandes bolas de chicletes. Outros, ainda, e constituem a maioria, "tacam peito" na máquina e cumprem o dever cotidiano da crônica com uma espécie de desespero, numa atitude ou-vai-ou-racha. Há os eufóricos, cuja prosa procura sempre infundir vida e alegria em seus leitores e há os tristes, que escrevem com o fito exclusivo de desanimar o gentio não só quanto à vida, como quanto à condição humana e às razões de viver. Há também os modestos, que ocultam cuidadosamente a própria personalidade atrás do que dizem e, em contrapartida, os vaidosos, que castigam no pronome na primeira pessoa e colocam-se geralmente como a personagem principal de todas as situações. Como se diz que é preciso um pouco de tudo para fazer um mundo, todos estes "marginais da imprensa", por assim dizer, têm o seu papel a cumprir. Uns afagam vaidades, outros, as espicaçam; este é lido por puro deleite, aquele por puro vício. Mas uma coisa é certa: o público não dispensa a crônica, e o cronista afirma-se cada vez mais como o cafezinho quente seguido de um bom cigarro, que tanto prazer dão depois que se come. Coloque-se porém o leitor, o ingrato leitor, no papel do cronista. Dias há em que, positivamente, a crônica "não baixa". O cronista levanta-se, senta-se, lava as mãos, levanta-se de novo, chega à janela, dá uma telefonada a um amigo, põe um disco na vitrola, relê crônicas passadas em busca de inspiração - e nada. Ele sabe que o tempo está correndo, que a sua página tem uma hora certa para fechar, que os linotipistas o estão esperando com impaciência, que o diretor do jornal está provavelmente coçando a cabeça e dizendo a seus auxiliares: "É... não há nada a fazer com Fulano..." Aí então é que, se ele é cronista mesmo, ele se pega pela gola e diz: "Vamos, escreve, ó mascarado! Escreve uma crônica sobre esta cadeira que está aí em tua frente! E que ela seja bem-feita e divirta os leitores!" E o negócio sai de qualquer

maneira. O ideal para um cronista é ter sempre uma os duas crônicas adiantadas. Mas eu conheço muito poucos que o façam. Alguns tentam, quando começam, no afã de dar uma boa impressão ao diretor e ao secretário do jornal. Mas se ele é um verdadeiro cronista, um cronista que se preza, ao fim de duas semanas estará gastando a metade do seu ordenado em mandar sua crônica de táxi - e a verdade é que, em sua inocente maldade, tem um certo prazer em imaginar o suspiro de alívio e a correria que ela causa, quando, tal uma filha desaparecida, chega de volta à casa paterna.

O primeiro grande conto-do-vigário Em seu Tesouro da fraseologia brasileira, o professor Antenor Nascentes, num período que talvez não seja dos mais brilhantes desse mestre do idioma, mas que, em todo caso, esclarece o assunto, define "conto-do-vigário" como: "Modalidade de furto na qual o ladrão conta à futura vítima (o otário) uma história complicada de grande quantidade de dinheiro (originariamente entregue pelo vigário de sua freguesia) aí presente dentro de um embrulho (o paco), dinheiro esse que ele deseja confiar provisoriamente, por comodidade ou necessidade, a uma pessoa honesta em troca de algum dinheiro miúdo de que precisa no momento. Burla, logro, intrujice." A modalidade é conhecida no Brasil, onde houve o inesquecível caso do mineiro que comprou um bonde, instalou-se nele e sentiu por algum tempo a glória de ser proprietário de um grande semovente, só verificando o logro em que caíra quando se pôs a dar ordens ao motorneiro. O Rio é um grande centro de vigaristas, por isso mesmo que recebe vastos contingentes provincianos, gente simples e de boa-fé que vai na charla desse outro vasto contingente de malandros de que está cheia a cidade. Foi meu amigo o poeta João Cabral de Melo Neto quem primeiro me chamou a atenção para isto que se pode dizer constitui o primeiro grande conto-do-vigário da história. É provável que tenha havido antecedentes, mas o conto-do-vigário em questão pode ser considerado o pai de todos, de vez que seu autor foi Rodrigo Dias de Vivar, herói popular espanhol, a quem, pela bravura em campo de batalha, cognominaram El Campeador. Isso, no século XI. A burla está na grande epopeia, espanhola, e quem quiser pode verificar com os próprios olhos. Dá-se que o Cid, intrigado por elementos da Corte que, de inveja, o indispuseram com don Afonso, viu-se na contingência de sair de Burgos e acampar com seus homens num arraial cerca da cidade. Foi quando sobreveio Martín Antolínez (seu parceiro no conto-do-vigário) não só para confortá-lo moralmente como para oferecer-lhe seus serviços. O Cid propôs então o conto: Con vuestro consejo - bastir quiero dos arcas inchamosla d'arena - ca bien serán pesadas, cubiertas de guadalmeci - e bien enclavadas.

Em resumo: o Cid queria que seu amigo construísse duas arcas bem bonitas, forradas de couro e pregadas a belos cravos, que as enchesse de areia e... Por Raquel e Vidas - vayádesme privado quando en Burgos me vedaron compra - y el rey me a ayrado, non puedo traer e laver - ca mucha es pesado, empenar gelo he -por lo quefore guisado; de noche lo lieven - que non lo vean cristianos. Veálo el Criador - con todos los santos, yo más non puedo - e amidos lo ago.

Para quem não entende o castelhano arcaico (eu também não entendo tudo não, não pensem ... ) o que o Cid disse foi o seguinte: para Antolínez ir procurar dois usurários locais, Raquel e Vidas, e dizer-lhes que, como ele não podia comprar nada em Burgos, por estar sob a ira do rei, nem levar suas arcas carregadas de despojos, por serem muito pesadas - se não topariam que ele, o Cid, as empenhasse por um dinheirinho qualquer. A coisa tinha de ser feita à noite, para que nenhum cristão visse nada, porque o Criador, esse ia ver mesmo de qualquer maneira, com todos os seus santos: aliás, ele o Cid passava o conto-do-vigário porque não tinha mesmo outro jeito, era forçado. Raquel e Vidas, por ganância, sabedores de que o Cid tinha colhido grandes despojos em suas lutas contra os mouros e o rei de Granada, toparam o negócio. Vieram à tenda do Cid e levaram as duas arcas em troca de um pago de seyscientos marcos. Muito obsequioso, Antolínez ainda o ajudou no transporte e cobrou um par de calças de comissão. O conto-do-vigário foi, assim, completo, inteiramente dentro da definição de Antenor Nascentes: com o ladrão (o Cid - e que a literatura me perdoe chamá-lo assim, ao grande herói), o otário (no caso dois) e o paco (as arcas cheias de areia). Não podia ter sido mais perfeito, nem de espírito mais carioca.

O grande terremoto de Lisboa de 1969 segundo O.L.R. (Rio de Janeiro) Nunca se vira manhã mais bela que a de 1.º de novembro de 1755. O Sol brilhava em todo seu esplendor, e o céu estava perfeitamente sereno e claro. Não fora sentido o menor sinal de aviso do grande evento que deveria transformar, em matéria de segundos, a cidade de Lisboa numa cena de horror e desolação gerais. Traduzo de cor, com pequenos lapsos de memória, do velho livro de textos ingleses que o velho padre, à base do decorebus, nos fazia ruminar nas tediosas aulas do colégio. A descrição convencional não deixava, no entanto, de excitar minha imaginação de menino, e a verdade é que alguns trechos nunca mais me saíram da cabeça. Mal sabia eu que dois séculos mais tarde deveria estar presente, no mesmo local, a um de igual intensidade, e que só não arrasou Lisboa porque teve seu epicentro no oceano, a cento e tantas milhas ao largo; e mesmo assim a teria destruído parcialmente se o deus dos sismos não cismasse, sem intenção de trocadilho, em fazer dele um terremoto horizontal. Porque, dizem os entendidos, fosse ele vertical, e talvez eu não estivesse aqui para contar a história. Ou melhor: talvez não estivesse ainda por lá, vivo e cada dia mais inteligente, meu amigo O.L.R., a quem passo a palavra, pois assim descreveume ele sua dramática experiência, ipsis verbis. O.L.R., como todo bom mineiro que se preza, é chegado ao Além, a casos parapsicológicos, a um bom defuntinho. Fala da morte como se tivesse a Dama Branca sentada ao colo, com um humor macabro que é dos pontos altos do seu charme de grande causeur, mas para quem o conhece, não passa de um processo de autopunição, por isso que representa, no fundo, o riso amarelo dos condenados. Mas deixemos para lá os problemas psíquicos de meu querido amigo O.L.R., para acompanhá-lo passo a passo nesse seu confronto não com o Além, mas o infranatural colocado ao nível do sobrenatural - porque os momentos que precedem um terremoto tiram de letra quaisquer fenômenos de ordem espírita, tais como arrastar de correntes, bater de portas e aparição de ectoplasmas, nisso que se exercem sem razão óbvia diante dos olhos do infeliz totalmente desprevenido, a pensar na futura alunissagem da Apolo-11 ou na galinha ao molho pardo comida na véspera. Tal como aconteceu com O.L.R. Era o dia 27 de fevereiro último, e a madrugada caminhava a passos lentos para mais uma jornada lisboeta, quando meu amigo O.L.R., já se preparando para puxar um sono, viu a porta do armário do quarto abrir-se de moto próprio e o chinó de sua mulher deslizar de uma prateleira no alto e cair fofamente, como devem as perucas. Aquilo, sem que ele soubesse bem por que, inquietou-o, e ele se levantou e, para disfarçar, foi - hábito antigo - à cozinha, coar

um café, arte em que é exímio. Ao passar pela geladeira, abriu-a num gesto comum a todos os noctâmbulos domésticos, e eis senão quando as garrafas em entrechoque se põem a tilintar em uníssono, alertando-o ainda mais contra a possível incursão do sobrenatural nos seus domínios. O medo ao além-túmulo pressupõe quase sempre um alerta premonitório, e meu amigo O.L.R., já sentindo se lhe eriçarem os pelinhos do braço, partiu para fazer o seu café, pois, como é sabido, o trabalho é boa terapêutica para as perturbações da cuca. Café feito e tomado, foi ele até à sala olhar o céu, provável culpado de todo este cafarnaum, e ao encostar a testa ao vidro da janela, sentiu-o vibrar de um tremor contínuo. "Uai�", comentou dentro dele o mineirão de Juiz de Fora. Positivamente as coisas naquela noite não estavam se processando como de comum. Passagem de um jato não podia ser, dado que a vibração não fora precedida de qualquer ruído; de maneira que o melhor mesmo era desligar aquilo e ir até o escritório mexer nuns papéis. Porque meu amigo O.L.R. é escritor, e dos melhores. Contou-me ele que mal se sentou o cinzeiro começou a tremer e a escorregar com a maior sem-cerimônia, diante de seus olhos. "É, seu..", comentou novamente o matuto que há em todo mineiro. "Deixa eu ir pra cama porque eu não sei o que é, não, mas, que tem qualquer coisa aí, ah, isso tem..." E como tinha! De repente a massa ígnea sobre a qual, protegidos apenas por uma frágil crosta, nós vivemos nossas neuroses de cada dia, encontrou um ponto de menor resistência, forçou-o um pouco, depois mais, e logo entrou de sola até rompê-lo em mil estilhaços subterrâneos� - e partiu para cima com o impacto de mil bombas H, sacudindo tudo em seu caminho, do Algarve em diante. Aí meu amigo O.L.R., que de bobo não tem nada, sentou-se na cama e com esse senso comum pessedista de que todo bom mineiro é dotado, sacudiu também sua mulher e disse :"Acorda, Helena! Acorda que é um terremoto!" Outra coisa não era. Era não só um terremoto como um dos de maior intensidade já registrados pelos sismógrafos. Com a única atenuante, conforme disse, de ter um balanço horizontal, digamos como o dos quadris de uma mulata sambando. Pulasse ele como os carnavalescos no auge do baile do Municipal, isto é, verticalmente, e seria uma repetição do de Agadir, ou da própria Lisboa em 1755, que não deixou pedra sobre pedra. Mas O.L.R. tem uma ótima estrela, muito embora os momentos que se seguiram fossem do maior pânico... Pois as luzes se apagaram bruscamente e em meio às exclamações de pavor de sua mulher imaginem! acordada dos seus doces sonhos de esposa mineira para a terrível realidade de um sismo lusitano - meu amigo O.L.R. lembrou-se de sua filhinha de oito meses. Helena Cristina, mais conhecida como Maria-Pão-de-Queijo, apelido que ganhou dessa bela e boa Geralda, empregada antiga da casa - e isso por um processo associativo que não cabe aprofundar aqui. Meu amigo O.L.R. partiu às cegas para o quarto da infanta, a quem se pôs a procurar em trevas totais, enquanto os demais participantes manifestavam seu terror e consternação em interjeições do maior patético. Até que a menininha foi achada no berço e devidamente protegida pelos braços amorosos de seu pai, ao mesmo tempo que aquela tralha toda tremia e ondulava mais que bailarina de fundo em programa do Chacrinha. É, queridos leitores, terremoto não é de brincadeira. A gente pode chegar ao ponto de aceitar tudo: dinheiro curto, pai quadrado, bêbado chato, trânsito engarrafado, mulher feia, música da pilantragem, hérnia de disco, dupla caipira, novela de televisão, dieta macrobiótica, poesia concretista, romance de Morris West, trote telefônico, papo de grã-fino, uísque nacional - praticamente tudo. Menos terremoto. Que o diga meu amigo O.L.R., cujo nome começa onde o outro termina.

E como este, é capaz de levantar montanhas. Só que por bem. Pelos amigos. E volte logo, Lara Resende!

O tempo sob o sol O sol de domingo pôs na praia toda a população da zona sul. Bateu de chapa na cidade falsa, em seus falsos arranha-céus, em sua falsa comunidade, e aí pelo meio-dia as areias de Copacabana, Ipanema e Leblon crepitavam de mocidades atléticas, madurezas adiposas e velhices murchas, num desperdício de carne humana. Jogos de bola, jogos de mão, jogos de olhares - a gente moça expunha-se com vigor ao cautério solar, enquanto os mais comprometidos com a morte resguardavam-se à sombra das barracas, dando um mergulho ou outro de curta duração e voltando ad locum suun inchando o peito e encolhendo a barriga. Um espetáculo belo-horrível, para usar desse desagradável lugar-comum. Vi uns poucos amigos meus, gente a beirar os quarenta, todos eles com os tórax começando a se aplastar em distensões abdominais mais ou menos consideráveis: essas irremediáveis deformações que o tempo impõe ao corpo humano que prefere viver a se conservar; as mesmas que noto em mim mesmo diariamente e cuja eliminação exige uma força de vontade que não tenho e nem quero ter. Negócio pau, com que a gente sofre a princípio, depois acostuma-se porque não há nada a fazer. Vem tão rápido que mal se percebe. Um dia se é um rapazinho esguio, de perna forte e peito dividido, a dar "paradas" nos bancos da praia para as meninas verem; depois, súbito - um aborrecimento, um período duro, uma paixão, uma viagem - e se é um homem com cabelos começando a embranquecer, os músculos docemente cobertos por uma leve camada de gordura, o fígado inchado, milhões de responsabilidades e uma missão a cumprir na vida. Tudo isso vem de repente, quando menos se espera. E chega para todo mundo, menos para os reservados, os que preferem se guardar para os vermes da terra. Essa dor do tempo, de que nenhum poeta falou direito ainda. Mas é isso mesmo. Hoje somos nós, amanhã são eles, depois de amanhã são os filhos deles, nossos possíveis netos. Esta joça toda caminha para a constelação de Órion desde há alguns milhares de séculos. Em vista do quê, preparemo-nos para os pileques de fim de ano, que vêm aí. Mais um ano, meus amigos. Estamos fritos.

O vento noroeste Ou muito me engano (e nesse caso corrija-me o Gabinete de Meteorologia) ou foi mesmo o Vento Noroeste que se pôs desde dez horas de anteontem a soprar sobre a cidade, secando o coração das gentes. O vento desceu subitamente do céu da madrugada, onde brilhava, numa lucidez de entreloucura, grande como uma lágrima da noite, a desvairada estrela da manhã. Primeiro numa rajada fria, que trazia na epiderme farfalhante um pouco do éter das altas regiões de onde chegava. E logo tornou-se morno, depois aqueceu. E partiu à solta, crestando a face lisa da aurora, fazendo crepitar as folhas das árvores, evaporando o mar que inaugurou de verde o dia nascente. A mim secou-me os olhos, a boca e a alma perseguida de insônia, e me tornou áspero o lençol, e me trouxe lembranças secas de vida. Assisti ao dia nascer como se visse um diamante cortar vidro e ficasse inelutavelmente a respirar a poeira implacável do carvão remanescente. Depois dormi e sonhei. Mas meus sonhos tinham também uma secura de cal. Vi se estorcer em chamas o antigo cadáver de uma moça que morreu tísica e se chamava Alice. Vi homens se arrastando atrás de mulheres sobre um chão de giletes. Vi troncos musculares de fícus arfando em dispneias vegetais. Vi se queimarem atmosferas enormes em clarões de cloretila. Depois acordei com a boca seca e uma sede de chupar limão verde. De saída para o Centro, pude sentir o mal que o Noroeste, esse Leviatã dos ventos, estava fazendo à cidade. Na esquina de minha casa tinha desaparecido uma criança, que a mãe buscava em gestos de Guernica. No ônibus (pegara um marcado "expresso") várias pessoas tinham-se esquecido que esses carros são diretos e quiseram saltar em Copacabana, mas o chofer não deixou porque é proibido. A palavra "proibido" ganhou uma tal secura, ao Vento Noroeste, que por um instante eu tive a visão do homem carioca afogado em cinzas. Não podia saltar onde queria, mesmo pagando. A companhia de ônibus não deixava. Precisaria pegar outro ônibus, ou então um lotação, para voltar. Nesse meio tempo já tinham saído várias discussões e na avenida Atlântica houvera um desastre com dois ônibus vermelhos da linha Ipanema: um deles chegara até a beira do passeio, quase a cair na areia, e tinha uma cara sedenta, como se tivesse querido se afogar. Na Glória, a carcaça de outro ônibus que ardera amontoava-se no asfalto. Aquilo lembrou-me, em grande, um esqueleto incinerado que vi no cinema, saindo de um forno, num dos campos de concentração nazista. De vinda para a redação, vi dois homens brigando corpo a corpo. Agrediam-se como cães danados e depois um pegou uma pedra para arrebentar a cabeça do outro, e só por um acaso não acertou. E agora, escrevendo esta crônica que é a seca expressão da verdade, eu vejo que o Noroeste está querendo secar até a tempestade que se anuncia na tarde erma. Não, que o Vento Noroeste não seque a tormenta que há de desafogar a cidade. Vinde, trovões mensageiros; rasgai o céu, relâmpagos! Que as águas de um novo dilúvio desabem sobre a cidade angustiada e encharquem a terra de lama e as árvores de seiva. Que desçam os raios e

sangrem o flanco flácido dos morros e que se rejuvenesça o coração dos homens. Que o ar se rompa em rajadas frescas e se repousem os cabelos das mulheres, frementes de eletricidade. Que deixem de ranger os papéis da burocracia, sacados pelo Vento Noroeste. Que pare, que pare imediatamente o sopro desta bisnaga de ar quente a soprar sobre a dentina dolorida da cidade. Que venha o Azul, o Azul, o Azul, o Azul!

Obrigado, Portugal! (Rio de Janeiro) A gentileza humana parece ter feito seu último reduto em Portugal. E quando eu falo em gentileza, dou-lhe quase a acepção medieval de amor cortês, de medida, de mesura. É um povo que não levanta a voz, e ninguém pense que por covardia, mas por uma boa educação instintiva e um senso de afetividade. Essa desagradável invenção moderna, o berro, não encontra forma vocal na garganta de um português. Hitler, Mussolini ou Lyndon Johnson jamais poderiam governar esse "jardim d'Europa à beira-mar plantado", onde se fala baixo, ama-se com fervor e chora-se nas despedidas. Essa tristeza, de que nós brasileiros somos os novos legatários, tem uma ancestralidade que vem de muitas dominações, muita submissão forçada, muito fatalismo histórico e geográfico. Povo afeito às guerras - ainda hoje as mantém no Ultramar - parece ele sofrer de um silencioso heroísmo na paz, como se a Desgraça, essa invisível espada de Dâmocles lenta e diariamente forjada pelo Destino, pudesse a qualquer momento cair-lhe sobre a cabeça. Quase humilde no trato pessoal, logo verificará quem o conhecer melhor que não se trata de servilismo, e sim de uma necessidade de não fazer vibrar além do necessário os frágeis fios que suspendem imanentemente os Maus Fados sobre sua existência. E é talvez por esse motivo que seus bons fados também são tristes, sempre a carpir as penas do viver e do amar. Isto é tão mais curioso quanto, apesar de pobre e subdesenvolvido em sua grande maioria, o português é um povo saudável e de bom aspecto, com boa pele e dentes magníficos, bem certo fruto de uma alimentação mais adequada: nada como o brasileiro menos aquinhoado das regiões pobres do país, no geral malsão e banguela, além de irônico e desconfiado por mecanismo de descrença e autodefesa. A propalada "burrice" do português simples e iletrado nada mais é que uma forma sadia e vegetativa de ser (ou não ser, como queiram). Foi minha mulher quem matou a charada: "Eles não são burros", disse-me ela. "Eles apenas desconhecem que têm inteligência." E a decantada "esperteza" ou "inventiva" do pária brasileiro nada mais é que o antivírus da forma crônica da ignorância e indigência em que vive, tendo que se virar mesmo de fato para não juntar os calcanhares. O pária brasileiro tem que lutar não só contra os indesejáveis cromossomos da desnutrição; a dor de dentes endêmica e a cachaça de má qualidade, até um tipo de ensino - e isso quando é muito afortunado - em que lhe baralham a cabeça com uma língua cheia de preconceitos semânticos e acentos desnecessários - isso porque há decênios os cartolas da linguística nas duas pátrias teimam em não simplificá-la, quem sabe para justificar a continuidade de seus jetons e sua dolce vita acadêmica. Eu confesso que depois desta minha última viagem, e de um contato intermitente de três meses com sua gente, Portugal seria o único país da Europa onde eu poderia viver fora do Brasil: com eventuais incursões à Itália. Que adiantam o superdesenvolvimento e a kultura

(assim mesmo com k) de um povo, como dois ou três que eu conheço, se neles a relação humana torna-se cada dia mais difícil e indesejável diante de um outro tipo de ignorância bem mais perigoso a longo prazo, como esse da reserva e falta de diálogo; da submissão a preconceitos econômicos falsos na verdadeira escala de valores; do aburguesamento progressivo e da mesmificação do mais pessoal dos meios de comunicação, que é a linguagem? Que qualidade é mais a prezar no ser humano, se não for a gentileza, o gosto de conviver, a boa vontade em cooperar, em socorrer, em dar-se um pouco em tudo o que se faz, desde trabalhar a amar, desde comer a cantar, desde criar no plano intelectual a fazer no plano industrial ou agrícola? Obrigado, Portugal! No contato de tuas gentes, teus escritores e teus artistas, teus estudantes e teus simples - teu povinho das brancas aldeias! - eu senti que há ainda muito isso que cada dia mais falta ao mundo: carinho e sinceridade. Represados, talvez, nas latentes como o sangue sob a pele, e prontos a romper a crosta criada a duras penas, ao longo de um passado tão cheio de sacrifícios e infortúnios. Obrigado, Lisboa, terra tão boa, gente tão gente, casas tão casas, amigos tão como já não se encontra. Obrigado, Coimbra que me recebeste em tua Academia e em teu Convívio e que me puseste uma velha capa sobre os ombros. Obrigado, Porto, onde teus estudantes quiseram não me deixar trabalhar em boate, porque não sabem ainda que a poesia e a canção têm de estar em toda parte (mas obrigado pelo gesto, estudantes do Porto!). Obrigado, Óbidos, que pareces feita no céu, tão linda e pura como uma avozinha menina que ainda usasse flores silvestres na cabeça. Obrigado, Évora, mãe alentejana de Ouro Preto, cidade onde mais que nenhuma outra se sente o Brasil colonial, o Brasil do Aleijadinho, cidade perfeita de gentil austeridade. Obrigado, Monserraz, que, esta não quero ver nunca mais porque se a ela voltar nela hei de ficar, entre seus muros brancos e seus homens e mulheres do mais franco olhar. Obrigado,Portugal. Resta sempre uma esperança. Eu voltarei.

Oração a Nossa Senhora de Paris (Montevidéu, Uruguai) Notre Dame de Paris, Notre Dame de Partout, rogai por mim, rogai por nós, os malferidos de amor, os feridos do doce langor, os que uivam à lua nas praias desertas do mundo, os que buscam um vagabundo num bar para falar da bem-amada, para não dizer nada só que ela é bonita, os que saem andando em campos de estrelas e de repente é uma rua deserta com um apartamento aceso que fica olhando o deambulante, o amante perdido, sem rumo e sem prumo, barco sozinho no meio do oceano lunar, é só olhar, lá está ela, a bem-amada dormindo no céu com os braços para cima, linda axila, macio feno, suave veneno de paixão, ó não, Nossa Senhora de Paris, Nossa Senhorazinha de Paris, rogai por mim porque a coisa está ruim, ela está longe eu sigo nessa névoa de luminosos astros e choro ao ver um rio que corre, uma estrela que morre, um mendigo que dorme, um cão que faz amor com uma cadela de olhos úmidos, túmidos seios, negro vórtex, meu amor, Notre Dame de Paris, Notre Dame de Partout, aqui estou eu, lembrai-vos, diante de vossa portada maior, o santo de cabeça cortada me espiando sofrer a angústia da espera vem não vem o homem me oferece cartões-postais de mulher nua pensa que eu sou americano eu sou é brasileiro do Rio de janeiro onde mora a minha amada numa colmeia a beira-parque fazendo há dois mil anos mel de amor com que adoçar todas as minhas mágoas, ó águas do Sena revoltas, minha amada está serena porque nós viemos de muito, muito, muito longe para nos encontrar, atravessamos os lagos da infância, cruzamos os desertos da adolescência, galgamos as montanhas da mocidade e aqui nesta cidade nos encontramos uma só vez, o mês era março, e nos reencontramos em abril novecentos e sessenta luas depois na rue Pierre Charon e ela entrou pelos meus olhos, banhouse no meu cristalino, acendeu-me a íris e postou-se como santa Luzia no nicho de minhas pupilas oferecendo-me os próprios olhos numa salva de prata e pôs-se a comer devagarinho minha cabeça enquanto eu não sabia o que lhe dissesse só pedia vem comigo vem comigo mas ela não podia porque não era o dia mas lá vem ela de táxi entrou na Île de Ia Cité, rodeou a praça, que graça é ela, vai saltar, não eu que vou com ela, adeus Notre Dame de Paris, Notre Dame de l'Amour, iluminai vossos vitrais, levantai âncora ó galera gótica dos meus martírios vossos santos aos remos o Corcunda no mais alto mastro Jesus na torre de comando e buscai serenamente o grande caudal no qual me abandono náufrago coberto de flores em demanda do abismo claro e indevassável da morte, Saravá!

Operários em construção Às vezes, enquanto trabalho em casa, na minha máquina, e busco no abstrato da paisagem urbana a forma do que quero dizer, acabo esquecendo de tudo para fixar minha atenção sobre os operários que terminam o edifício em frente. Chegaram agora à fase em que só falta pintar as esquadrias e dar caiação final no primeiro andar. Venho, há meses, observando-os trabalhar, erguer a sólida estrutura de oito pisos, com três apartamentos por andar. Vi-os situar as fundações, levantar o cipoal de aço e cimento que era como o esqueleto do prédio. Vi-os colocar-lhe os soalhos, enquadrar-lhe as portas e janelas, revesti-lo de sua epiderme intensa de tijolos refratários. Fui espectador emocionado de suas perigosas passagens para a prancha móvel, à guisa de elevador, sobre a área mínima da qual suspendiam-se para rebocar e caiar os grandes muros externos laterais da construção paciente e imóvel. Juro que ouvia tambores surdos, como antes do número de sensação ao trapézio volante de um circo, cada vez que um daqueles homens cor de cimento fazia arriscadíssima passagem da janela para a prancha estreita presa a roldanas colocadas no alto do edifício. Admirei-os em suas displicentes poses escultóricas, mãos na cintura sobre a tábua balouçante, indiferentes à sucção do abismo aberto em espirais de morte sob seus pés. A um vi fazer pipi lá para baixo, num perfeito à-vontade, provocando-me necessidade idêntica, ai de mim, fruto de uma reação de meu vago-simpático (pois que sofro de vertigem das alturas). À noite, ouvi-os cantar, no barracão que levantaram no pátio dos fundos, enquanto o fogo de sua cozinha rústica crepitava no escuro e seus violões ponteavam bordões dolentes. Apreciei-os brincar e brigar, passarem-se objetos, jogando-os com incrivel precisão, discutir problemas de construção e lances de futebol e receber empregadas da vizinhança com as quais se internavam prédio adentro: e que alegres voltavam desses rápidos sequestros! Agora a estrutura se erige - mais um apartamento na colmeia em torno - e os operários esticam seu labor na preguiça dos retoques finais. Ergueram o prédio. Cumpriram seu dever. Criaram com suas mãos o plano de um arquiteto. Deram vida ao espaço. E em verdade eu vos digo que é justo o lazer que ora se permitem, pois multiplicaram uma só unidade residencial em muitas, capazes de abrigar as alegrias, tristezas, amores e lutas de outros tantos homens. E, fazendo-o, fizeram trabalho de homem.

Orfeu negro Eu, agosto de 1955: Graças à gentileza do convite de Maria Oliva Fraga, a bela guardiã do Chateau d'Eu, aqui estou eu no vasto castelo de tijolos e colunata de pedra - obra sem grande interesse arquitetônico iniciada por Henrique de Guise e restaurada pelo Conde d'Eu três séculos e pouco mais tarde, depois do incêndio do começo deste século. O parque, desenhado por Le Nôtre, é realmente belo. Vim para terminar a primeira adaptação para o cinema de minha peça Orfeu da Conceição, de que o produtor Sacha Gordine quer extrair um filme. Depositamos ambos grandes esperanças no projeto. Para ajudar-me no trabalho estão comigo minha amiga e secretária Josée Fauquier e seu marido Daniel. E, naturalmente, minha filhinha Georgiana: a carinha mais marota que já se viu em qualquer latitude. O diabo é que ela, com tanta graça, me está perturbando consideravelmente na tarefa. Pois não me posso impedir de, a todo instante, perder o fio do ditado para vê-la atravessar o parque correndo, ou surgir pela mão de sua babá espanhola pequeno bichinho inconfundível contra o gótico normando da igreja de Saint Laurent, em cuja cripta dormem sobre os próprios despojos, lado a lado, em seu misterioso sono de mármore, as estátuas funerárias dos príncipes e princesas da família d'Artois. É coisa apaixonante criar um filme. Nesta adaptação construo o filme como eu o faria. Ao contrário de minha peça, em que a "descida aos infernos" de Orfeu situa-se num gafieira, no 2o ato, estou transpondo o carnaval carioca para o final do filme, como o ambiente dentro do qual a Morte perseguirá Eurídice. Josée me ajuda com o maior entusiasmo, mas é necessário a todo instante interromper o trabalho, pois Georgiana não dá uma folga. * * * Há homens que são da raça dos minotauros. Homens como Picasso, como Buñuel, como Hemingway. Sacha Alexandre Gordine é assim. Ao me pôr ao trabalho está, eu sei, numa das maiores bancarrotas da história do cinema. O grande e humaníssimo filme que deveria fazer, L'Affaire Seznec, teve a filmagem proibida quando todos os contratos já haviam sido firmados. Mas eu confio em Gordine. Há, para quem sabe ler no rosto humano, uma profunda bondade nesse homem. Bondade e uma força interior que se pode quase palpar. * * * Hoje o guia turístico do castelo veio queixar-se de que, ao mostrar aos visitantes uma das belas carruagens em exibição no andar térreo, qual não é sua surpresa, e a dos turistas, quando a porta da caleça se abre e surge, de entre sedas e alfaias, a carinha matreira de Georgiana. Ele me contou o caso com a compunção de um guia de castelo que presenciou um sacrilégio, e eu o ouvi com o ar severo que deve ter no caso o pai da sacrílega. Mas ao voltar-lhe as costas desatei a rir; e vi que ele também sacudia os ombros de tanto riso, enquanto descia as escadas. Estou em pleno carnaval no filme. Procuro dar o máximo de colorido ao roteiro para que, no caso de uma segunda adaptação, o novo roteirista sinta a animação popular em toda a sua

vibração. Na rápida viagem que fizemos ontem a Rouen, surgiu-me a ideia de fazer as mulheres - as Fúrias do mito - matarem Orfeu num parque ou jardim noturno, onde o músico fosse ter levando nos braços sua amada morta. A estudar. * * * Acabei de ver uma coisa deliciosa. Enquanto vinha vindo pelo corredor, vi Georgiana que subira no espaldar de uma poltrona e mirava com a maior atenção, bem de perto, um retrato de dom Pedro II. Depois ela afastou um pouco a cabecinha e começou a alisar as venerandas barbas do imperador. Não contente, chegou a carinha ao retrato e deu-lhe um prolongado beijo. Juro que vi sorrir o bom monarca.

Os culpados de tudo (Rio de Janeiro) Na hora que corre, quase todas as mulheres estão fazendo regime para emagrecer (e o advérbio representa aqui algumas poucas e honrosas exceções). O ideal da forma feminina passou a ser o esqueleto acolchoado, ma non troppo, de maneira que certos ossos fundamentais aos últimos padrões da moda, como a coluna vertebral, os ilíacos, as clavículas, as rótulas e os fêmures, fiquem francamente à mostra. E obedientes a essa nova extravagância do sexo outrora considerado fraco, os especialistas, transformados em mágicos, formulam esquemas dietéticos de toda sorte: macrobióticos, hipocalóricos, astronáuticos, líquidos, o diabo. Os consultórios vivem repletos, o faturamento é altíssimo, as mulheres se sentem divinas-maravilhosas quando começam a ranger nas dobradiças. Tirante conversa de futebol e análise de grupo, é o tópico sobre que mais se fala atualmente. Fulana perdeu 15 quilos em um mês! Sicrana, imaginem só, está reduzindo um quilo por dia com a dieta líquida: que bárbaro! Viram Beltraninha depois que saiu da clínica? Como é que pode!� E os homens - eu digo: os homens! - veem, compungidos, evaporar-se aquelas partes do corpo da mulher consideradas, desde séculos, como as mais responsáveis pela preservação da espécie. - Ah, que saudade das mulheres de Rubens e Renoir... - suspiram os mais antropófagos. - Eu, hein� - contestam os costureiros. - Botticelli é que era pra frente, meu filho - um louco genial, previu tudo, com aquela Primavera alucinante, magérrima! Quem gosta de gordura é detergente. A ordem do dia, queridinho, é Biafra, ouviu? Biafra! E a carne das mulheres some, as faces se encovam, os seios diminuem, as coxas se alongam, as pontas pélvicas protuberam. Quase que as moças poderiam voltar agora à velha fórmula cediça: - Aperte aqui estes ossos! Meu caro amigo José Carlos Cabral de Almeida, conhecido endocrinologista - eu diria mesmo, geômetra - de nossa desvairada praça, está mais que ninguém por dentro deste novo tipo de neurose. Passa ele grande parte do seu tempo útil transformando círculos em ângulos, curvas em retas, esferas em planos, peças de rolamento em cremalheiras. Entram - ou melhor, rolam - diariamente pelo seu consultório adentro, mulheres-pipas que ele (depois de debruçarse sobre estranhos formulários e equacionar carboidratos, proteínas e matérias graxas) devolve à sociedade transformadas em verdadeiras Verinhas Barreto Leite, em autênticas Veruschkas, capazes de sair dali direto para Paris como manequim-vedete. E elas que não arriscavam mais cruzar as pernas numa festa, sob pena de mostrar um crivo de celulite coxa acima, passam a usar minissaias e biquínis, como bem observa Paulinho Garcez, que são pouco mais que bandaids. E o moral com que elas ficam? Resolvem qualquer problema de cálculo integral, fácil. Mas esqueci de dizer uma coisa: meu amigo José Carlos, além de endocrinologista e

emagrecedor contumaz de mulheres (e homens, eventualmente, como no meu caso), é um grande pesquisador dos segredos da genética, assunto que o leva, vira e mexe, a Londres, para cursos e conferências. Eu confesso que a genética é um assunto que me fascina porque suas leis, que também são azares, formulam-se à base de um grande e poético mistério. A palavra cromossomo, por exemplo: para mim é a própria poesia. De maneira que, lidando com a genética e as glândulas do seu semelhante, nada mais natural que José Carlos Cabral de Almeida viva em plena faixa das mulheres superneuróticas. Como uma amiga sua, "uma neurótica divina", segundo ele próprio diz, e sobre quem me contou o seguinte: - Pois imagine que ela encontrou um homem extraordinário, com todos os ingredientes, hoje em dia tão raros, para fazer qualquer mulher feliz: rico, inteligente, boa pinta, finíssimo, ótimo caráter - enfim, um bilhete premiado. Começaram a sair juntos e aí eu a perdi por um tempo de vista. Muito bem: meses depois ela me procurou para uma consulta e eu lhe perguntei como ia o romance. - Acabei - respondeu a "louca maravilhosa". - Acabou? Mas você está doida, criatura? Pois você não vivia rezando por um homem exatamente como o que você acabou de chutar? - É... - fez ela. - Mas é que eu estava tão feliz, mas tão feliz, e tudo correndo tão bem que, de repente, me deu assim uma agonia, e eu resolvi acabar porque já não sabia mais se aquela felicidade toda era felicidade mesmo, ou era neurose... Essa história me encheu as medidas, porque ela é bem um conto dos nossos tempos, em que os valores se invertem do dia para a noite, e as pessoas ficam realmente sem saber onde pisam e a quantas andam. Aliás, em matéria de histórias, meu amigo José Carlos contou-me outra de sua "neurótica divina" que, essa, é antológica. Disse-me ele que durante a chamada Guerra dos Seis Dias, entre Israel e RAU, foi procurado por essa mesma amiga e cliente, e, conversa vai, conversa vem, ela começou a manifestar um anti-semitismo tão fora de seus moldes que ele, sabendo-a uma mulher inteligente e totalmente despida de preconceitos, os raciais e os outros, mostrou-lhe sua estranheza: tanto mais quanto toda sua esfera social só podia ser pró-Israel. - Judeus... - indignou-se ela. - Tomara que morram, todos! - Eu juro que não estou entendendo nada - disse-lhe José Carlos. - Logo você, uma mulher ultra por dentro, e ainda mais se lixando para política... - É uma raça que precisa ser exterminada. Hitler não conseguiu, mas eu tenho fé em Deus que Nasser há de chegar lá! Eles estão aí para fundir a cuca da humanidade. - Mas... - É isso mesmo. Por que é que está toda gente de cuca fundida, procurando analista e engordando à toa, e aí vai para o dietista e emagrece uma barbaridade, e aí come sem parar e engorda tudo de novo - me diga? Quem são os responsáveis pela neurose de todo mundo, e a minha em particular? - Francamente, não vejo... - Pois eu lhe digo: são três judeus. - Jesus Cristo, Freud e Marx. - É isso mesmo. Pau neles!

Os Politécnicos Fui a São Paulo, a convite do Grêmio dos Politécnicos, bater um papo com os rapazes em sua Faculdade. Recusei-me a fazer uma palestra, pois sou homem de língua emperrada; mas os motivos para a minha ida, como me foram apresentados pelos futuros engenheiros paulistas, pareceram-me bastante válidos, além de modestos. Têm eles que a carreira escolhida oferece o perigo de canalizar o pensamento para problemas puramente tecnológicos, em prejuízo de uma humanização mais vasta, tal como a que pode ser adquirida em contato com o homem em geral e as artes em particular. Há muito não me sentava diante de tantos moços, com um microfone na mão, para lhes responder sobre o que desse e viesse. "Quem sou eu", perguntei-me, não sem uma certa amargura, "quem sou eu, que não sei sequer consertar uma tomada elétrica, para arrogar-me o direito de vir responder às perguntas destes jovens que amanhã estarão construindo obras concretas e positivas para auxiliar o desenvolvimento deste louco país?" Mas eles, aparentemente, pensavam o contrário, pois puseram-se a bombardear-me de perguntas que, falar verdade, não dependiam em nada de cálculos, senão de experiência, bom-senso e um grão de poesia. Providenciaram mesmo uma bonita cantorazinha de nome Mariana, que estreava na boate Cave (de onde partiram para a fama Almir Ribeiro e Morgana) para cantar coisas minhas e de Antônio Carlos Jobim: o que era feito depois de eu responder se acreditava ou não em Deus, como explicava a existência de mulheres feias e o que pensava de João Gilberto. A homenagem foi simpática, mas no meio daquilo tudo comecei a ser tomado por uma sensação estranha. Aqueles rapazes todos que estavam ali, cada um com a sua personalidade própria - João gostando de romance Lolita, Pedro detestando; Luís preferindo mulatas, Carlos louras; Francisco acreditando em Karl Marx, Júlio em Jânio Quadros; Kimura preferindo filme de mocinho, Giovanni gostando mais de cinema francês - já não os tinha visto eu em outras circunstâncias, em outros tempos? Aquele painel de rostos desabrochando para a vida, aqueles olhos sequiosos ao mesmo tempo de amor e de conhecimento, não eram eles o primeiro plano de uma imagem que se ia perder no vórtice de uma perspectiva interminável, como num jogo de espelhos? Atrás de cada uma daquelas faces não havia o fotograma menor de outra face, como ela ávida de saber o porquê das coisas, e atrás dessa outra, e mais outra, e outra ainda? Vi-os, de repente, todos fardados me olhando, atentos às instruções de guerra que eu lhes dava em voz monótona: "Os três grupos decolarão em intervalos de cinco minutos, e deixarão cair sua carga de bombas nos objetivos A, B e c, tal como se vê no mapa. É favor acertarem os relógios..." Mariana cantava, um pouco tímida diante de tantos rapazes, a minha "Serenata do adeus": Ai, vontade de ficar mas tendo de ir embora...

Qual daqueles moços seria um dia ministro? Qual seria assassino? Quem, dentre eles,

trairia primeiro o anjo de sua própria mocidade? Qual viraria grã-fino? Qual ficaria louco? Tive vontade de gritar-lhes: "Não acreditem em mim! Eu também não sei nada! Só sei que diante de mim existe aberta uma grande porta escura, e além dela é o infinito - um infinito que não acaba nunca. Só sei que a vida é muito curta demais para viver e muito longa demais para morrer!" Mas ao olhar mais uma vez seus rostos pensativos diante da canção que lhes falava das dores de amar, meu coração subitamente se acendeu numa grande chama de amor por eles, como se eles fossem todos filhos meus. E eu me armei de todas as armas da minha esperança no destino do homem para defender minha progênie, e bebi do copo que eles me haviam oferecido, e porque estávamos todos um pouco emocionados, rimos juntos quando a canção terminou. E eu fiquei certo de que nenhum deles seria nunca um louco, um traidor ou um assassino porque eu os amava tanto, e o meu amor haveria de protegê-los contra os males de viver.

Os tristes descaminhos (Rio de Janeiro) Quanto tempo, meu Deus, vai-se passar ainda até que um homem, rodando por essas estradas brasileiras de conservação tão precária, mas assim mesmo tão lindas, possa-se dizer, como se diz um americano, um alemão, um russo, um holandês, um canadense, um sueco - e pelo menos isto: não há fome? Até quando essas faces terrosas, esses olhos opacos, esses braços finos, essa pasmaceira filha de uma longa indigência sem remédio? Quando virá o dia em que, ao se parar num botequim para um café, não nos chegará de mão estendida uma criança imunda e endefluxada a nos exigir uma esmola com um duro olhar adulto? Ou um idiota de boca torta, os braços ainda saudosos da posição fetal, para nos dizer de sua angústia em sons afásicos, fazendo-nos olhar para outro lado como se não o estivéssemos vendo? Sim, porque o que é que adianta ver? São seres humanos, patrícios nossos, que tiveram a desgraça de ser concebidos na miséria, de semente já enfraquecida por endemias e carências - e isto numa terra vasta e generosa, em que se plantando, tudo dá. Ficam parados à porta dos casebres e das tendinhas, ou estão sempre em marcha ao longo das rodovias, transportando suas avitaminoses, seus vermes intestinais, sua dor de dentes crônica, para ir trabalhar num roçado cinco léguas adiante. E à noitinha voltam, silenciosos e apressados, pelas mesmas estradas, para o prato sem proteínas que lhes serve urna velha mulher jovem, a quem faltam os incisivos, enquanto no chão de terra batida choraminga sobre os próprios excrementos o último fruto de sua triste condição. Porque, sim! Constituem, em sua sórdida pobreza, um casal: a célula da criação; um casal que, um amparado no outro, segue em frente, na direção onde o levam a vida e a necessidade, repartindo o trabalho, a comida, o sonho. Sonho? - que sonho? Um casal capaz de criar, produzir, vender, ganhar, ter uma casinha com uma cama, uma mesa, um fogão a lenha e uma privada. Capaz de comprar uma merendeira para a filhinha que vai à escola. Escola? - que esperança! Não, não são seres humanos. São bichos. É um verme humano, uma lombriga de calça e suspensórios, um ascarídeo que leva outro dentro. Cobrem o teto e a cabeça com palha, fumam palha, dormem sobre palha, são palha eles próprios - palha seca que se desfaz à simples fricção dos dedos. Por que me apiedo deles? O que posso eu fazer por eles quando acima, muito acima de mim, muito acima do meu país, erguem-se forças cujo fragílimo equilíbrio reside em sua própria capacidade de destruição; forças cuja agressividade já independe, porque ultrapassaram todos os limites do cognoscível, forças que se podem desencadear num átimo por excesso de tensão? No entanto, corta-me o peito vê-los em exposição como figuras de barro de um mau artista

folclórico, acocorados onde os larga sua imemorial fadiga, pitando e cuspindo a saliva grossa do fumo de rolo, portadores, quase sempre, de conjuntivite crônica, às vezes rindo um riso matreiro com as gengivas desdentadas. Matreiro, por quê? Que espécie de inteligência podem ter senão a do instinto aguçado pela necessidade de sobrevivência, que lhes faz preciso o machado, rápida a foice, fulminante a faca que mata para não morrer? São patrícios nossos, que não têm voz e não têm vez. Em suas vísceras carcomidas se gera lentamente o câncer, alimentado, também, por uma progressiva indiferença. Que adianta lutar? A única coisa a fazer é o gesto de cortar ou ceifar, levar a mão à boca e virar de um golpe a pinga ruim, onde fermenta a cólera assassina, deslocar os ossos da companheira esquálida num breve ato de prazer animal. Prazer? - que prazer? E conformar-se ao ver-lhe o ventre, já inchado de farinha, inchar mais, inchar mais, até, numa primeira lua nova, expelir um feto natimorto, ou destinado a morrer no primeiro ano de vida, quando não vinga por milagre para repetir, anos mais tarde, aquela mesma miserável mímica. Que tristeza! E aí estão eles, pelas estradas do Brasil adentro, pobres imagens de cerâmica barata toscamente esculpidas. Às vezes, à porta do barraco, ponteiam sem emoção sons de viola e cantam toadas trêmulas, que falam da mesmice de sua vida, ou amores trágicos e valentias justiceiras, tendo como únicos ouvintes uma lua, no céu, um mocho num galho, uma aranha em sua teia, um vira-lata amigo, com as costelas à mostra. Um dia, amanhecem mortos. Morreram de nó na tripa, transnominação eufemística para o câncer, a ruptura de hérnia, o vôlvulo, a úlcera gástrica, a cirrose hepática. E são enterrados em cova rasa, no cemiteriozinho mais próximo: primeira e última generosidade do dono de terra para quem trabalham; senão, é abrir um buraco por ali mesmo e jogar o defunto dentro. Deixam para trás uma nova meretriz, que vende a pele frouxa e os seios deflatados para sustentar a prole. São gente sem história. Meu amor, acorda, não me deixes, só, nesta sala noturna, a escrever estas tristezas. Não me deixes mais recordar esses casebres pobres de beira-estrada onde dormem e morrem irmãos meus em quem se descoloriu o sangue. Eu os estou vendo agora, dentro da noite negra a mugir inaudivelmente sua indiferença, os magros corpos magoados pela tábua dura das enxergas. Eles não sabem por que vieram, não sabem por que permanecem, não sabem para onde vão. Eles só sabem de uma coisa: ninguém se lembra deles, e eu também não quero lembrar mais. Vem, amiga, me serve um uísque, dose dupla, muito gelo. E põe depressa um disco dos Beatles na vitrola.

Os elementos do estilo Leio no matutino El País, de Montevidéu, uma boa crítica, ou melhor, resenha, do livro de William Strunk Jr., The Elements of Style, com revisão, introdução e capítulo adicional de E. B. White, editado por MacMillan em Nova York no ano curso. Um opúsculo de 84 páginas, aparentemente cheio de saber. À guisa de apresentação do autor, conta o crítico de El País que a parte de substância do livro já estava escrita por William Strunk Jr. desde 1918, quando era professor de altos estudos da língua inglesa, sendo E. B. White, então, aluno seu. Há dois anos, já morto o mestre em 1946, recebeu White - que crescera em renome como contista, ensaísta, poeta e repórter dessa excelente revista americana que é o New Yorker - um exemplar do livrinho, de que nunca mais soubera, o que fê-lo escrever um nostálgico in memoriam para a sua publicação. A onda que fez o artigo foi colhida pelo receptor de MacMillan, e é este o resumo da ópera. A dar crédito ao crítico de El País, o livro representa, para o escritor em língua inglesa, e mesmo nas demais, uma bengala de indisfarçável utilidade, sobretudo num momento climáxico de atividade editorial, como o que vivemos. E eis como situa ele, ao isolar num parágrafo o módulo do pensamento de Strunk: A prosa vigorosa é concisa. Uma frase não deve conter palavras desnecessárias, nem um parágrafo frases desnecessárias, pela mesma razão que um desenho não deve ter linhas desnecessárias, nem uma máquina partes desnecessárias. Isto não quer dizer que um escritor faça breves todas as suas frases, nem que evite todo detalhe, nem que trate seus temas apenas na superfície; apenas que cada palavra conta. Para Strunk (atenção, "focas", pois a linguagem jornalística é especialmente mencionada na obra!), os preceitos de um bom estilo podem resumir-se no seguinte: 1. Use uma linguagem positiva: em vez de "habitualmente não chegava à hora", diga "habitualmente chegava tarde"; em lugar de "não recordou" diga "esqueceu" - e isso porque, consciente ou inconscientemente, o leitor prefere que se diga o que é a o que não é. 2. Seja concreto: "Sobreveio um período de tempo desfavorável" constitui uma vagueza. "Choveu diariamente uma semana" seria a boa fórmula. 3. Abrevie o mais que puder: escrever "atos de natureza hostil" é alongar de dois centímetros "atos hostis". 4. Não qualifique: sempre que não se tratar de estabelecer uma opinião, a qualificação prévia é desnecessária. Dizer que é "interessante" o fato que se vai narrar, é pichar o leitor de inimaginativo. 5. Não use adornos: o estilo não é um molho para temperar uma salada; o estilo deve estar na própria salada. 6. Coloque-se atrás do que escreve: escreva de tal forma que a atenção do leitor seja despertada sobretudo pelo sentido e pela substância do que está dito, e não pelo

temperamento e pelos modismos do autor. O primeiro conselho a dar ao escritor que começa seria, pois: para chegar a um estilo, comece por não ter nenhum. 7. Use substantivos e verbos: evite o mais possível adjetivos e advérbios. Não há adjetivo no mundo que possa estimular um substantivo exangue ou inadequado; isto sem subestimar adjetivos e advérbios, quando corretamente empregados. Mas a verdade é que são os nomes e os verbos que dão sal e cor ao estilo. 8. Não superescreva (significando aqui, don't overwrite): a prosa excessivamente rica, adornada ou gorda torna-se mais facilmente nauseante. 9. Não exagere e seja claro: primeiramente, porque o exagero pode tornar o leitor suspicaz; e a clareza, é lógico, facilita a comunicação. Mais vale recomeçar uma frase longa com que se está brigando, que persistir na briga. Frequentemente uma frase longa nada mais é que duas curtas. 10. Não opine sem razão: ter por hábito ventilar opiniões próprias é prejulgar que o leitor as esteja pedindo, o que constitui um sinal de vaidade. É isto em resumo. Há mais. Mas não espaço. E depois, é como diz o outro: se todos fossem da mesma opinião, o que seria da cor amarela? (Sendo que, neste caso, até que eu "entrava bem", pois trata-se da minha cor preferida ... ). Mas pobre Proust, pobre Dickens, pobre Balzac, pobre Melville, pobre Otávio de Faria...

Oscar Niemeyer Poucos depoimentos eu tenho lido mais emocionantes que o artigo-reportagem de Oscar Niemeyer sobre sua experiência em Brasília*. Para quem conhece apenas o arquiteto, o artigo poderá passar por uma defesa em causa própria - o revide normal de um pai que sai de sua mansidão costumeira para ir brigar por um filho em quem querem bater. Mas para quem conhece o homem, o artigo assume proporções dramáticas. Pois Oscar é não só o avesso do causídico, como um dos seres mais antiautopromocionais que já conheci em minha vida. Sua modéstia não é, como de comum, uma forma infame de vaidade. Ela não tem nada a ver com o conhecimento realista - que Oscar tem de seu valor profissional e de suas possibilidades. É a modéstia dos criadores verdadeiramente integrados com a vida, dos que sabem que não há tempo a perder, é preciso construir a beleza e a felicidade no mundo, por isso mesmo que no indivíduo é tudo tão frágil e precário. Esse pungente sentimento do frágil e precário das coisas, que toca em Oscar as notas mais altas da pauta, como que serve para realçar ainda mais a sua dignidade de homem e de artista; pois nunca há nele o sentimento de estar servindo a si próprio, ou mesmo aos seus, mas aos homens em geral, num futuro que ele espera melhor. Oscar não acredita em Papai do Céu, nem que estará um dia construindo basílicas angélicas nas verdes pastagens do Paraíso. Põe ele, como um verdadeiro homem, a felicidade do seu semelhante no aproveitamento das verdes pastagens da Terra; no exemplo do Trabalho para o bem-comum e na criação de condições urbanas e rurais, em estreita interdecorrência, que estimulem e desenvolvam este nobre fim: fazer o homem feliz dentro do curto prazo que lhe foi dado para viver. Eu acredito também nisso, e quando vejo aquilo em que creio refletido num depoimento como o de Oscar Niemeyer, velho e querido amigo, como não me emocionar? É bom ver-se entre os amigos, um cujos pontos de vista coincidem com os nossos; um a quem os anos, em vez de esclerosar ou enclausurar politicamente, pelo contrário remoçam, renovam, revigoram; um cuja visão prática do mundo e dos homens não despreza nunca a dimensão da poesia. Pois a verdade é que a maioria, quando fala de política, quase só abre a boca para dizer bobagem, e se defende cada vez mais dos árduos problemas da responsabilidade humana com a armadura do reacionarismo mais egoísta. E o pior é que nem por isso a gente pode deixar de gostar deles... Dizia o grande Ésquilo que "tudo o que existe é justo e injusto, e nos dois casos igualmente justificável". Dialeticamente, perfeito, se se analisar a frase do ponto de vista da história, da extraordinária luta do homem para chegar aonde chegou. Mas, humanamente, vamos mais devagar... Hitler, que é historicamente justificável, não deixa por isso de ser um monstro hediondo. Fulgêncio Batista, que é historicamente um Judas das nas mãos dos Supremos Sacerdotes e dos Filisteus do açúcar, nem por isso deixa de ser um infame traidor de sua pátria

e um dos mais nojentos réprobos dentro da comunidade latino- americana. Por isso, meu caro Oscar, não ligue demais aos seus detratores. A maioria deles são pintas ultramanjadas. Há, como você muito bem diz, aqueles "a quem falta uma concepção mais realista da vida, que os situe dentro da fragilidade das coisas, tornando-os mais simples, humanos e desprendidos". E a esses, como você muito bem faz, cabe "compreendê-los sem ressentimentos". Mas há também, e infelizmente, os velhacos, os, trapaceiros, os provocadores, os policiais. Com esses, é preciso ter mais cuidado. Pois eles estão aí, e partidos para a ignorância. * Posteriormente publicado em livro sob o título Minha experiência em Brasília.

Para três jovens casais (Rio de Janeiro) À Marcos Anibal de Morais José Joaquim de Sales e Clementino Fraga Neto The world was all before them, where to chose. Their place of rest, and Providence their guide. They, hand in hand, with wand' ring steps and slow. Through Eden took their solitary way. Assim John Milton, o maior poeta inglês do seu século, ditou das trevas de sua cegueira os últimos versos desse incomparável monumento de poesia que é "Paraíso perdido", e de cuja transcendental beleza não há tradução possível, por isso que constituem, em sua tristeza intrínseca, uma prodigiosa síntese de toda a Criação: o primeiro casal, que é o eterno par, partindo para o mundo cheio de amor e perplexidade, as mãos unidas e os passos incertos a afastá-los cada vez mais do Paraíso conspurcado pela fatalidade do sexo, de onde se criam a vida e a morte. Impossível nada mais belo. Um dia dois olhos se encontram e deles, subitamente, irrompe uma chama imponderável. Nas veias o sangue começa a circular mais forte, e o coração parece pulsar na garganta. A voz fica trêmula, os joelhos se afrouxam, a pessoa não sabe o que fazer das próprias mãos. Ele se fosse um beija-flor, entraria a bater asas freneticamente, num vertiginoso ballet diante da pequenina fêmea expectante, para maravilhá-la com a vivacidade do seu colorido. Ela deixa-se num divino recato, mas já consciente, em sua perturbação, que vai ser dele. É o amor que nasce como uma fonte subterrânea a romper, em seu movimento para a luz, a última resistência de terra, e se põe a jorrar ao sol, em toda inocência e claridade. Que milagre determinou o seu surgimento naquele justo instante? Por que a outra pessoa, até então desconhecida, ou apenas conhecida, passa a ter toda a importância do mundo, a tal ponto que por ela se seria capaz de morrer ou de matar? Por que passa o corpo a ser como um cofre inviolável, só vulnerável ao toque das mãos amadas, e a ideia de infidelidade a última das baixezas? A posse total do ser amado torna-se como uma obsessão: possuí-lo em sua carne e seu espírito; unir-se a ele numa transubstanciação tão perfeita que um passe a ser o outro em pensamentos, palavras e obras: tal é o comando do amor. E uma vez possuído, aninhá-lo num

cantinho, a coberto da ferocidade da vida e da natureza, e da maldade dos homens - e postarse de fora vigilante como um arcanjo, o gládio em punho, para que nenhuma ofensa lhe seja imposta, nenhum dano lhe sobrevenha. Um ninho... Que beleza! A place of rest, como diz o poeta, de onde se possa sair para lutar pela sua subsistência, e para o qual se possa voltar com um livro, um doce, uma rosa para cativá-lo... E a grande viagem se inicia para vida, e ai de nós, para a morte. A fonte nascida procura o seu curso entre as pedras, em busca de um leito mais ameno, um talvegue mais brando, sem a memória anterior das estreitas gargantas e corredeiras perigosas que surpreendem o jovem rio e o impelem quem sabe para a vertigem das altas quedas, quem sabe para os vales pacíficos onde nada acontece, quem sabe para que feliz ou trágico destino... Mão na mão, com vagarosos passos erradios, através do Éden eles iniciam seu caminho solitário. Eilo que parte, o eterno casal amoroso, unido numa imagem ainda sem sombra, e de tal modo imerso em sua solidão que é como se só ele existisse no mundo. São dois pobres. Não importa em que berço tenham nascido, se de ouro ou se de palha, são dois pobres, porque o tudo ou o nada que um tenha quer dar ao outro. A necessidade é encontrar um abrigo, não importa quão pequenino, onde haja uma mesa, duas cadeiras e uma cama, rústicas que sejam, pois o mais divertido, justamente, é pintar: comprar um pincel e uma lata de tinta e sair pintando tudo de branco e azul, que são as cores do amor; e ficar bem sujo de cal, e interromper a cada instante o trabalho com beijos intermináveis, e ir tomar banho e amar-se muito, e depois ter fome, e ela atarefar-se com frigideiras e panelas, enquanto ele põe um disco na vitrola e passa os olhos nas manchetes, pouco se danando para guerras e cosmonautas, e com toda razão, de vez que está inaugurando o mundo. E alta madrugada, os corpos exaustos de amor, começar o dueto das almas, uma buscando possuir a outra, em infindável justa singular que só se dará tréguas no final dos tempos. O eterno par... Onde quer que estejam, estão sós, protegidos pela redoma do seu amor. Juntam-se os jovens rostos sorridentes para se sussurrar doces absurdos, para cantar cantigas lembradas, ou se põem sérios para fazer contas de chegar, no dever e haver conjugal, em permanente imantação. Ela sai a compras, encontra as amiguinhas de colégio que olham com maliciosa inveja sua felicidade transparente, o brilho de seus cabelos e seus olhos, a frescura de sua pele de mulher - porque agora ela é mulher - bem amada e possuída. Tudo amor. Sim, meus jovens amigos, tudo ao amor!

Ouro Preto de hoje, Ouro Preto de sempre Estamos em outros tempos, mais amenos. Agosto de 1938: justo um ano antes da Guerra. O ar é tão frio que forma estalactites nas paredes do pulmão e tão fino que um piparote pode fragmentá-lo como ao cristal mais puro. Três amigos sobem a rua São José, que a municipalidade de Ouro Preto chama Tiradentes. Sua missão é a um tempo digna e divertida: debulhar os arquivos da Igreja de São Francisco de Assis, à cata de recibos comprovantes de umas tantas obras atribuídas a Antônio Francisco de Lisboa, o Aleijadinho. Mas não nessa noite, paralisada num lugar alto e lúcido. Não nessa noite estimulada pelo frio da serra em torno. Não nesa noite povoada de meninas transeuntes e sons de serenatas longínquas. Nessa noite, tudo o que os três amigos querem é beber umas cachaças e confraternizar com uns cachaceiros. Vão à vida, no vigor de menos 15 anos, boêmios mas sem traição no coração para com as amadas distantes. São eles o escritor Rodrigo M.F. de Andrade, o arquiteto José Reis e um poeta com o meu nome, que ainda não praticava a arte da prosa. Nossos passos batem sonoros no peito liso dos "pés-de-moleque" do calçamento, os seixos rolados provavelmente subtraídos ao velho Ribeirão, e acordam à passagem fulgurações contidas no olhar das menininhas. Nossa pinta geral denuncia procedência carioca, embora Rodrigo, seja mineiro de quatro costados. Há um brotinho de uns 13 anos, a coisa mais meiga que estes olhos jamais viram, que cada vez que cruzamos, meneia as pesadas tranças pretas e abre a biquinha de mel dos olhos para mim. A uma curva da rua perdemos José Reis no visgo de uns outros olhos mais maduros, mas não menos lindos. Rodrigo ri a sua inaudível risada adunca e me anuncia com a ligeira dispneia que parece tomá-lo sempre que diz algo de fundamental. - Querido... que coisa esplêndida! Eu olho o casario a céu aberto, a Casa dos Contos, a ponte que mira longe, as fachadas das casas da mesma rua lá adiante na curva fechada que ela faz... - tudo tão calmo, tão adormecido de luar, apesar do vaivém das menininhas, na verdade mais vem do que vai... E aí está ela de novo, olha que gracinha, as tranças pretas pousadas sobre os ombros infantis, a me pedir que fale com ela, mas ela é tão criança! escuta meu anjo, posso conversar só um tiquinho com você, posso, como é seu nome? - Marília? Não é possível! Vou consultar Rodrigo. Assim é de deixar o sujeito sem graça. Parece coisa preparada, mau teatro... Há acordes de violão lá para os lados da rua Direita. Pedimos aos seresteiros que nos toquem Saudades de Ouro Preto. La-la lariii... la-la-riii. La-ri... la-la-la-la-rii... la-la-ri-rão...

Marília olha grave, extremamente consciente do seu papel de primeira anfitriã e namorada

do rapaz do Rio. Mais tarde, partidos os seresteiros, Marília dá-me a mão e deixa-a assim pousada por um momento no adeus breve. Ela entreabre o biquinho para me pipilar boanoite e seu papinho bate um pouco mais agitado: - Boa noite, Marília... * * * O encontro com os boêmios dá-se no Hotel Toffolo, para a ceia de despedida. Terminado é o trabalho de pesquisa. Tardes laboriosas, a verificar papel por papel nas imensas gavetas das enormes cômodas de jacarandá da sacristia de São Francisco. Também, não haverá mais dúvida sobre a identidade de uns poucos trabalhos do grande escultor, feitos na mais linda das igrejas mineiras - e eu vos peço perdão, ó igrejinha de Nossa Senhora do Ó, de Sabará. Formou-se uma amizade entre o grupo do Rio e a turma local. O mineiro Rodrigo, a cavaleiro da investidura de chefe do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, sente-se bem nessa confusão de Rio e Minas. Zé Badu, figura insigne de violeiro, cantador e contador de velórios (..."e aí então, pelas quatro da madrugada, quando o defunto tava já frio e as garrafas bem vazias, nós trunfemo a viúva") é nossa companhia mais constante. Com ele aprendemos a traçar pinga com cerveja ("... a gente nem sente, uma vai escorregando na outra, sabe como é..."). Vez por outra, ele faz uma piada com o Rio para cutucar este carioca. Este carioca retruca, mas é tudo à base da camaradagem espontânea e sincera. Há bons antecedentes para essa amizade: a famosa peregrinação feita por Afonso Arinos de Mello Franco (o sobrinho, historiador e atual deputado) e o "poesculápio" Pedro Nava, hoje profissional da maior austeridade, de que resultou o delicioso Roteiro lírico de Ouro Preto, escrito pelo primeiro com ilustrações do segundo. Nos fundos do Café, uma impressionante mesa nos aguarda, coberta de coisas pantagruélícas. Há um enorme leitão, na meditativa atitude dos leitões assados. Há incontáveis garrafas. Há os então jovens Carlos Flexa Ribeiro e Wladimir Alves de Sousa, recém-chegados e aderentes. Há o violão de Zé Badu, e o cantador não desgruda dele, misturando acordes com garrafadas e canções. O ambiente é da maior "altitude". Dentro em breve, temperado o pinho, Zé Badu me anuncia que vai tirar uma quadrinha para mim. E tira mesmo. Mexendo comigo por eu ser carioca. Eu nunca havia participado de um desafio, mas a "pressão" e a quantidade de comensais expectantes me estimulou. Saquei uma quadrinha de volta, bolindo com Minas. A turma começou a animar, nos espicaçando. E assim fomos, entre quadrinhas e goladas, num crescendo de ofensas que, de regionais, passaram a familiais. A mãe comercial de todos serviu profundamente de rima ao país natal. Talvez por um pouquinho mais sóbrio, eu comecei a levar a melhor sobre Zé Badu: e ele que me perdoe dizer isso, pois não há de minha parte a menor veleidade de me comparar a ele na arte do improviso. Foi questão de hora. O que eu sei é que ele no final embatucou, e eu ainda descarreguei-lhe em cima umas três quadrinhas em seguida, como golpe de misericórdia - o coitado sem se poder libertar do nó poético em que se embaraçara. Aí ele parou de tocar e abaixou a cabeça, evidentemente ferido. Depois nos olhou, a Rodrigo e a mim, por um momento, como a considerar algo da maior importância. Feito o que, sacou de um revólver e descarregou toda a sua carga para o ar, sacudindo o braço em tiros de raiva. Pânico não houve. Mas a festa teminou ali. Na rua, já acalmado, Zé Badu me explicou que só não me atirara em cima porque eu era do peito.

* * * Agora te revejo, Ouro Preto, 15 anos e dez quilos depois. Não mudaste. De novo, tens o hotel que te legou Oscar Niemeyer, bem integrado na paisagem colonial, em suas cores de azul, branco e chocolate - musical em sua rampa fugada e seus pilotis a repetir a mesma nota na pauta arquitetônica. Impuseram-te umas poucas construções velhacas no estilo chamado neocolonial. Um horror. Mas lá está a tua Igreja de São Francisco, risco do Aleijadinho, com os dois lindos medalhões no frontão da porta principal, obra também do genial mulato e no interior o adorável painel do teto de Manuel da Costa Ataíde, em seus delicados azuis e rosas que acabam por deixar um torcicolo no visitante. Isso que Carlos Drummond de Andrade chamou, numa maravilhosa articulação poética de vogais, "a rósea nave triunfal". "Uma cidade que não mudou", disse dela o poeta Manuel Bandeira, que não contente de estudar-lhe a história, na narrativa que abre seu mais soboroso livro de prosa, as Crônicas da província do Brasil, dedicou-lhe todo um precioso guia (hoje um "item" de bibliófilo com excelente versão francesa de Michel Simon). Bom te passear, Ouro Preto. Bom te usufruir, como o fizeram Afonso Arinos e Pedro Nava, à base da disponibilidade, recolhendo a secreta poesia que se desprende do teu desenho ao sol e do teu noturno recolhimento. Bom fazer a peregrinação de tuas igrejas: a Matriz de Antônio Dias, as Mercês de Baixo e de Cima, a da Senhora dos Pretos, a de São José, a de São Francisco de Paula - cheias de coisas belas: púlpitos, altares, paramentos, imagens, balaustradas, azulejos, claustros, cômodas e armários de jacarandá. Bom ver tuas capelas, tuas fontes, teus sobradões senhoriais de cujas sacadas pendem, nas festas religiosas, belos chalés a compor a figura goyesca de severas matronas. Bom sentir tua ardente circunspecção noturna, traída por vultos de namorados unidos no escuro das vielas e cantos transeuntes de estudantes melancolizados. Bom sair à toa respirando o ar gelado, com o sentimento da saúde do corpo perturbado pela boemia do espírito. Bom parar a cada ladeira para adorar cada pequeno detalhe, uma grade, um ferrolho, um postigo, um corrimão, um lance de escada, um velho telhado, uma pátina louca num muro branco dessas que fariam o fotógrafo Cartier-Bresson viajar continentes. Bom sentir a presença de teus vultos, a ilustrar com seus nomes a imagem de ruas, casas, pontes, logradouros, fontes: Tiradentes, Marília, o Aleijadinho... Sim, na cidade colonial que dorme, dormem eles, na unidade de suas cinzas e seus ossos, na grande paz mortuária que envolve Vila Rica e fez Carlos Drummond dizer: Sobre o tempo, sobre a taipa, a chuva escorre. As paredes que viram morrer os homens já não veem. Também morrem.

Para uma menina com uma flor Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, que aliás você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado. E porque você é uma menina com uma flor e chorou na estação de Roma porque nossas malas seguiram sozinhas para Paris e você ficou morrendo de pena delas partindo assim no meio de todas aquelas malas estrangeiras. E porque você quando sonha que eu estou passando você para trás, transfere sua d.d.c. para o meu cotidiano e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de você ser assim tão subliminar. E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre num nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, como uma santa moderna, e anda lento, a fala em 33 rotações mas sem ficar chata. E porque você é uma menina com uma flor, eu lhe predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der aquela paradinha marota para olhar para trás, aí você pode se mandar, eu compreendo. E porque você é uma menina com uma flor e tem um andar de pajem medieval; e porque você quando canta nem um mosquito ouve a sua voz, e você desafina lindo e logo conserta, e às vezes acorda no meio da noite e fica cantando feito uma maluca. E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim para ele, e ele escuta mas não concorda porque é muito meu chapa, e quando você se sente perdida e sozinha no mundo você se deita agarrada com ele e chora feito uma boba fazendo um bico deste tamanho. E porque você é uma menina que não pisca nunca e seus olhos foram feitos na primeira noite da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas. E porque você é uma menina que tem medo de ver a Cara- na-Vidraça, e quando eu olho você muito tempo você vai ficando nervosa até eu dizer que estou brincando. E porque você é uma menina com uma flor e cativou meu coração e adora purê de batata, eu lhe peço que me sagre seu Constante e Fiel Cavalheiro. E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena; é um vazio tão grande que as outras mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê. E porque você é a única menina com uma flor que eu conheço, eu escrevi uma canção tão bonita para você, "Minha namorada", a fim de que, quando eu morrer, você se por acaso não morrer também, fique deitadinha abraçada com Nounouse, cantando sem voz aquele pedaço em que eu digo que você tem de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois. E já que você é uma menina com uma flor e eu estou vendo você subir agora - tão purinha

entre as marias-sem-vergonha - a ladeira que traz ao nosso chalé, aqui nestas montanhas recortadas pela mão presciente de Guignard; e o meu coração, como quando você me disse que me amava, põe-se a bater cada vez mais depressa. E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos - eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aleia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão, de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfeitando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações - porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor.

Para viver um grande amor Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso - para viver um grande amor. Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... - não tem nenhum valor. Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro - seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada - para viver um grande amor. Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o "velho amigo", que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor. Para viver um grande amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fieldade - para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor. Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô - para viver um grande amor. Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito - peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor. É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista - muito mais, muito mais que na modista! - para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor... Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica, e gostosa, farofinha, para o seu grande amor? Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto - pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente - e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia - para viver um grande amor. É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que - que não quer nada com o amor. Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva escura e desvairada não se souber achar a bem-amada - para viver um grande amor.

Por que amo a Inglaterra * A Inglaterra não foi para mim um amor à primeira vista. Ao chegar a Londres, em agosto de 1938, em gozo da primeira bolsa para Oxford, dada a um brasileiro pelo Conselho Britânico, a cidade surpreendeu-me pela sua reserva. Senti, de fato, a poesia do grande porto, com meu navio a penetrar lentamente o Tâmisa nas luzes de uma antemanhã cinza-azul, toda povoada de lentas asas brancas de gaivotas. Mas quando enfrentei as calçadas de Piccadilly Circus, cerca de meu hotel, senti como se a cidade imensa estivesse se divertindo em observar o rapaz carioca - o rapaz carioca em quem o moleque de praia era doublé de um poeta um tanto metafísico e esotérico - em seu primeiro contacto com a austeridade do Império Britânico. E encabulei. Eram seis horas da tarde e havia multidões pelas ruas desembocando de Regente e Bond Street, multidões que passavam por mim sem me olhar, a dar-me a sensação de que eu era justamente o que a minha vaidade de jovem poeta premiado não podia permitir que eu fosse: uma forma liliputiana a mais a passear no rosto gigantesco de Gulliver, acorrentado, mas a divertir-se com a pequenez dos seus conquistadores. Lembro-me de que, num dado momento, passou por mim uma família hindu, vestida a caráter, os homens de turbante, as mulheres envoltas em saris. Eu nunca tinha visto um hindu na minha vida. Aquilo foi demais para mim. Fui refugiar-me atrás de um sherry no bar do meu hotel, de onde só saí para ir dormir, às nove da noite. No quarto, sozinho, senti um isolamento atroz, que me parecia vir da cidade infinita a trazer-me de vez em quando, adormecidos pela distância, os ruídos informes de sua vida noturna. Foi só três ou quatro dias depois, ao tentar atravessar uma rua no momento errado, que me senti realmente protegido pelo Império Britânico, e comecei a achar que, malgrado a minha selvageria de menino de ilha, poderia amar a Inglaterra. Ao avançar, pousou-se sobre o meu ombro uma mão, a um tempo imperiosa e amiga, que me fixou ao solo sem maior esforço. Olhei para o lado e vi, acima, muito acima de mim, mirando em frente, esse ser especial no mundo que se chama um guarda inglês, um constable: alto como a Torre de Londres, firme como a rocha de Gibraltar. Quando o momento de atravessar chegou, a pressão desfez-se do meu ombro, a mão retirou-se e eu pude partir. Dei-lhe um olhar grato, a que ele respondeu com um outro, em que senti um frio e inteligente senso de humor. Uma semana mais tarde, numa tarde agônica, constantemente cortada de uma chuva fina e neurastenizante, estando eu a comprar uma entrada para um concerto de Yehudi Menuhin, vi uma fila de guarda-chuvas formada numa rua cerca do teatro. Dirigi-me para lá. Pouco depois passava, num automóvel, um senhor, ou melhor, um guarda-chuva famoso, a agitar na mão uma folha de papel para o povo que o aplaudia. Nesse senhor reconheci o primeiro-ministro Neville Chamberlain e lembrei-me de que ele voltava de Munique. O papel em questão era o pseudocompromisso de não declarar guerra, de Hitler, que, apesar disso, logo em seguida incorporaria a Tchecoslováquia ao poderio alemão. Não dei muita importância ao fato, pois

naquele tempo eu tinha apenas 24 anos e a política não era o meu forte. Mas dois dias não eram passados e vi no rosto do homem das ruas de Londres a "ressaca" daquele triste e inútil desfile. Vi o povo de Londres de siso grave e olhar preocupado. Li pela primeira vez nos seus traços o sentimento contido da cólera e achei que, desabafada, essa cólera deveria ser terrível. Não me lembro mais se foi na véspera de Munique, ou pouco antes, que correu a notícia de que Londres seria bombardeada. Eu passara o dia em casa de um conhecido e ao sair à rua, sem saber ainda de nada, entrei no fog mais espesso que já vi na minha vida. Encostei-me a um edifício e resolvi esperar, e não sem um certo sentimento de estranheza no coração. Foi novamente um constable que me tirou da dificuldade, encaminhando-me, como um guia de cego, até um táxi; e só quando cheguei ao meu quarto, numa pensão para onde me mudara um quarto no subsolo, desses de onde se vê, através da janela, apenas os pés da humanidade é que encontrei um bilhete do British Council mandando-me seguir de urgência para Oxford. Do céu noturno de Londres chegava-me, maciço e constante, o ronco dos aviões de caça, à espera de qualquer eventualidade. Era a minha primeira experiência de guerra, mas não tive nenhum medo e resolvi desobedecer ao Conselho Britânico. Deitei-me e fiquei à escuta daquele ruído informe, sinistro e pressago, o ouvido atento ao silvo eventual da primeira bomba ou ao estilhaçar da primeira explosão. Aquilo tudo era, para mim, uma grande aventura, uma grande aventura que, misteriosamente, me aproximava da Inglaterra e do seu povo. Achei dentro de mim que seria uma covardia eu desertar, abandonar Londres às bombas alemãs, não estar presente a sua defesa, não defendê-la eu mesmo - à cidade que tinha mãos para proteger minha vida, cuidados maternos para com a minha inexperiência. E assim foi que acabei por dormir. Nunca cheguei a confessar ao Conselho Britânico,a minha indisciplina, o que faço agora, certo de que, no seu fair play, a nobre entidade a estimará mais do que estimaria uma obediência mecânica e menos proveitosa, do ponto de vista da experiência e do coração. Uma certa noite, depois de alguns drinques - e possivelmente one too many - eu cismei de subir o underground de Piccadilly Circus no sentido inverso. A escada rolante desce a uma velocidade razoável, e tratava-se de ultrapassar essa velocidade e atingir a plataforma superior da grande estação. Lancei-me à prova, que até hoje não sei como consegui terminar, tal foi o esforço empregado. Pois bem: fui formidavelmente encorajado por todos os que desciam, a me animarem com palavras e aplausos, havendo-se formado uma verdadeira torcida a meu favor. Não houve um só protesto contra a impertinência do estrangeiro a perturbar a boa ordem de um serviço de utilidade pública. Esse foi meu primeiro contato com o espírito esportivo inglês, e uma das razões por que amei a Inglaterra e me senti tão bem em Londres. Depois, em Oxford, muitos outros elementos vieram solidificar a estrutura desse sentimento de afetividade crescente para com a Inglaterra. Lembro-me, por exemplo, da primeira gafe que cometi à mesa de jantar, no grande hall de Magdalen College. Ignorante ainda dos usos e costumes da Universidade, alguma coisa fiz que foi notada pela high table, ou seja, a mesa do deão e dos professores do colégio - os tutors, como são chamados -, o que me valeu receber um bilhete em latim, trazido por um mordomo numa pequena bandeja de prata. Segundo esse bilhete, eu deveria expiar a minha gafe bebendo uma quantidade de cerveja suficiente para afogar um recém-nascido, cuja cerveja me foi trazida num fantástico canecão, cheio até as bordas. Vi todo mundo parar de comer e voltar-se para mim: mais de quatrocentos estudantes em suas capas pretas. Tratava-se de beber ou morrer. Levantei-me, tomei da enorme caneca e iniciei a prova. Até a metade foi tudo muito bem. Mas da metade para baixo, não sei

até hoje como consegui ingerir aquilo. Sentia como se a cerveja me fosse sair pelos ouvidos, de tal modo estava locupletado. Mas o fato de ser o primeiro brasileiro com uma bolsa do Conselho Britânico para Oxford impôs-me o dever moral de não fazer feio, custasse o que custasse. E bebi, impulsionado por aquele sentimento cego. Não é preciso dizer como fui encorajado sobretudo na parte heróica da prova, pelos meus colegas. Quando acabei, a ovação foi geral. Dali por diante, todos passaram a falar comigo afetuosamente, e comecei a ser convidado frequentemente para os loucos parties nos quartos dos estudantes. Aí está Reginald Maudling, ex-aluno do Merton College, atual ministro do Império Britânico e companheiro querido dos dias universitários, que não me deixa mentir. De outra feita, um rapaz cujo nome não me lembro, disse à mesa coisas desairosas sobre o Brasil. Disse-o mais para implicar comigo, pois era o único estudante dos que sentavam perto de mim que parecia não ir particularmente com o meu jeito. Na saída do hall, numa escada, ainda ajuntou algo mais, alto bastante para que eu ouvisse. Desci-lhe o braço, e não fosse a quantidade de estudantes que se aglomeravam na escada e que o sustentaram na queda, é possível que se tivesse machucado seriamente. Fui, muito amolado com a história, para o meu quarto, à espera dos seus padrinhos, que ele me disse mandaria imediatamente, a fim de que nós fôssemos fight it out, nos grounds do colégio. Embora muito brigão em menino, sempre me desagradou a violência fisica, e não sei o que teria dado para ver o assunto resolvido amigavelmente. Pois bem: os deuses da boa educação inglesa atenderam aos meus rogos. Meia hora depois chegavam os padrinhos do rapaz, mas não para me levarem com eles. Para conversarem, sim, com os meus padrinhos, e apresentarem desculpas em nome do meu desafeto. Que ele reconhecia ter-se comportado mal e gostaria que eu esquecesse o incidente. Larguei todo o mundo e fui, correndo e emocionado, ao seu quarto, onde nos abraçamos estreitamente. Depois disso ficamos bons camaradas, e só não o ficamos mais porque, no período seguinte, ele saía da Universidade. Isso chama-se fair play: qualidade que se pode encontrar eventualmente em indivíduos, mas nunca tão universalmente como na Inglaterra. Não foi exatamente fácil para mim a vida em Oxford. Estranhei, de início, a quase total liberdade dada aos estudantes de trabalhar, numa espécie de desafio ao seu senso de responsabilidade. Meu inglês, apesar de o haver eu capinado duramente antes de sair do Brasil, estava longe de ser perfeito, e tive de enfrentar um período preliminar de anglo-saxão, em cima do "Beowful" e outros textos arcaicos da literatura inglesa. Chegava, uma vez por semana, ao quarto de meu tutor em total desalento. Ele me encorajava. Que não desanimasse, era assim mesmo, logo me habituaria. Paralelamente, frequentava o curso de poesia do professor Fox, e devorava os livros que constituíam meu dever semanal. Mas atrapalhava-me muito o estado altamente lírico em que o ambiente universitário me deixava, agudizado ainda mais pela leitura, por minha conta, dos poetas modernos. À noite, em meu estúdio, pegava o violão, que tanto encantava minha landlady miss Mourdaunt, e me deixava estar, cogitando versos, sonhando a forma nova de minha poesia, que deveria realmente revelar-se a partir daí. Depois murava-me contra a poltrona, com uma tábua de escrever, e fazia versos sem parar. Quando me faltava o espírito, traduzia literalmente os sonetos de Shakespeare, que procurava depois recriar em português. Vivia às voltas com o dicionário de Oxford. Sabia que ali, no meu colégio, tinha estudado Shelley, um poeta grandemente amado. Tudo isso me perturbava muito. Às vezes saía à noite, pelas vielas internas, para um passeio a coberto dos proctors, os guardiães da Universidade, que volta e meia passavam, nos seus bowler-hats, à cata de estudantes noctívagos. Sofria da beleza daqueles muros ilustres, daquela pedra patinada por

séculos de cultura, como a exsudar dentro da noite o calor de sua sábia austeridade. Foi talvez o período mais fecundo de minha vida de poeta. O verso, a principio timidamente, foi-se afirmando numa forma cada vez mais enxuta e clara, com um anseio muito maior de comunicação. O soneto, principalmente, começou a impor-se a determinados temas com uma prestança nunca experimentada. Dois terços de meu livro Poemas, sonetos e baladas foram escritos em Oxford, a bem dizer nos primeiros seis meses universitários. Houve outros sofrimentos também, tirante os da vida puramente escolar. O caso é que, no Brasil, eu tinha remado, cerca de um ano, no Clube de Regatas do Flamengo, sob os palavrões de ensinamento de um palamenta famoso como "Engole-Garfo", que fizera num iole-a-dois o raid Montevidéu-Rio de Janeiro. Tratava-se de um ambiente da mais total boçalidade, mas eu saíra do Clube sob a impressão de que era um remador. Assim é que, quando me perguntaram que esportes queria praticar, disse imediatamente: remo e boxe. Quem sabe não chegaria a disputar um dia um campeonato intercolegial... Comprei calções extraordinários, camisas de lã fabulosas e lá fui, através de Christ Church Meadows, para a barcaça de Magdalen College, ancorada à margem do Isis, que é o nome universitário do Tâmisa em sua tranquila passagem por Oxford. O instrutor pôs-me num esquife e, de sua bicicleta, à margem, ordenou-me com um alto-falante manual que desse umas poucas voltas pelo rio, que era para ele julgar de minhas possibilidades. O resultado é que, eu, o remador do Flamengo, tive que remar 15 dias a seco, num esquife especial colocado em terra, para reaprender tudo de novo. Desde a posição das mãos nos remos até o tempo das remadas, estava tudo errado. Fiquei meio humilhado, mas embora nunca tivesse tido a honra de remar pelo meu colégio, nem por isso deixaram de me colocar numa guarnição que, nas frias manhãs de Oxford, remava como um só homem, antes da ducha quente na barcaça de Magdalen College. Com o boxe a experiência foi mais dolorosa ainda. Comprei luvas de seis onças, calções de primeira qualidade, sapatos apropriados, e ingressei na Academia da Universidade. Tive um mês de instrução, aprendendo o a-b-c do boxador, e fazendo muita corda e muito saco de areia para endurecer a fibra. Depois passei para a punching ball e, de vez em quando, fazia um ou dois rounds com o meu instrutor. Mas meu instrutor era um santo, e nunca me acertava à vera. Uma bela tarde, chego à Academia e ele me anuncia ter destacado um aluno mais antigo para me experimentar. Fui para o ringue e não pude deixar de sorrir ante o físico do meu adversário. Tratava-se de um magriço, um rapazinho da minha altura mas muito menos sólido que eu, com as costelas à mostra e uns bracinhos finos, que as luvas pareciam engolir. Resultado, não o acertei uma só vez, e ele encaixou tantos que, no fim do terceiro round, completamente grogue e presa dessa horrível angústia da impotência diante da competência, fui dado como incapaz de continuar a luta. Confesso que não voltei à Academia nem sequer para buscar os meus apetrechos, que tinha deixado lá. Tudo isso, embora não desse ao mundo nenhum grande desportista, não deixou de incutir no primeiro bolsista brasileiro para Oxford um senso de esportividade. Torci muito pela minha Universidade, nas grandes regatas contra Cambridge, que, ai de mim, perdermos nesse ano. E que não dizer de minha grande dívida à poesia inglesa, de que já falei atrás, mas sobre o que quero voltar. Que não dizer do que devo a esses poetas todos que, desde Chaucer, desde os anônimos elizabetanos, comecei a ler e amar, e que tanto me deram nos duros caminhos da poesia. O que não dizer da imensa dívida a Shakespeare, para mim o maior dos poetas da humanidade: das indescritíveis descobertas operadas no texto dos sonetos, sobre que teria feito

a minha tese, não houvesse a guerra, que me apanhou em férias na França, impedido a minha volta à Universidade. O que não dizer das noites do terrível inverno de 1938, passadas no meu estúdio de High Street, em companhia de Milton, Dreyden, Blake, Wordsworth, Coleridge, Keats, Shelley, Lear, McNeice, Auden e Eliot; das noites de releitura de tantos clássicos da meninice: Robinson Crusoé, Ivanhoe, Alice in Wonderland e o conhecimento de clássicos novos: Pilgrim's Progress, Pride and Prejudice, Wuthering Heights, The Forsyte, Saga, Jude, the Obscure e tantos outros - o romance inglês a me oferecer um novo panorama da vida e da paixão dos homens e mulheres da Inglaterra. Eis por que amo a Inglaterra, e eis por que sua lembrança ficou em mim, todo esse tempo, viva e exata como a de nenhum outro país jamais visitado e conhecido. Ao voltar a Londres depois de 16 anos, como me foi doce reconhecer ruas percorridas, rever edifícios familiares, olhar os doces telhados de Chelsea, onde morei, em King's Road, e que me sugeriram o canto bilíngue de minha "Quinta elegia"... E à BBC, onde trabalhei durante as grandes férias de verão de 1938, nos primeiros programas para o Brasil, pude dizer com emoção: já fostes a minha casa. Pois foi em casa que me senti nela e em Londres; como, de resto, em toda aquela bela e grande ilha, ao mesmo tempo apaixonada e discreta, cordial e austera, pátria de poetas como não se viu maiores, na longa luta do mundo para realizar-se em tranquilidade e poesia. * Artigo publicado pelo autor em Senhor em abril de 1959.

Pedro, meu filho...* Como eu nunca lutei para deixar-te nada além do amanhã indispensável: um quintal de terra verde onde corra, quem sabe, um córrego pensativo; e nessa terra, um teto simples onde possas ocultar a terrível herança que te deixou teu pai apaixonado - a insensatez de um coração constantemente apaixonado. E porque te fiz com o meu sêmen homem entre os homens, e te quisera para sempre escravo do dever de zelar por esse alqueire, não porque seja meu, mas porque foi plantado com os frutos da minha mais dolorosa poesia. Da mesma forma que eu, muitas noite, me debrucei sobre o teu berço e verti sobre teu pequenino corpo adormecido as minhas mais indefesas lágrimas de amor, e pedi a todas as divindades que cravassem na minha carne as farpas feitas para a tua. E porque vivemos tanto tempo juntos e tanto tempo separados, e o que o convívio criou nunca a ausência pôde destruir. Assim como eu creio em ti porque nasceste do amor e cresceste no âmago de mim como uma árvore dentro de outra, e te alimentaste de minhas vísceras, e ao te fazeres homem rompeste meu alburno e estiraste os braços para um futuro em que acreditei acima de tudo. E sendo que reconheço nos teus pés os pés do menino que eu fui um dia, em frente ao mar; e na aspereza de tuas plantas as grandes pedras que grimpei e os altos troncos que subi; em tuas palmas as queimaduras do Infinito que procurei como um louco tocar. Porque tua barba vem da minha barba, e o teu sexo do meu sexo, e há em ti a semente da morte criada por minha vida. E minha vida, mais que ser um templo, é uma caverna interminável, em cujo recesso esconde-se um tesouro que me foi legado por meu pai, mas cujo esconderijo eu nunca encontrei, e cuja descoberta ora te peço. Como as amplas estradas da mocidade se transformaram nestas estreitas veredas da madureza, e o Sol que se põe atrás de mim alonga a minha sombra como uma seta em direção ao tenebroso Norte. E a Morte me espera em algum lugar oculta, e eu não quero ter medo de ir ao seu inesperado encontro. Por isso que eu chorei tantas lágrimas para que não precisasse chorar, sem saber que criava um mar de pranto em cujos vórtices te haverias também de perder. E amordacei minha boca para que não gritasses e ceguei meus olhos para que não visses; e quanto mais amordaçado, mais gritavas; e quanto mais cego, mais vias. Porque a poesia foi para mim uma mulher cruel em cujos braços me abandonei sem remissão, sem sequer pedir perdão a todas as mulheres que por ela abandonei. E assim como sei que toda a minha vida foi uma luta para que ninguém tivesse mais que lutar:

Assim é o canto que te quero cantar, Pedro meu filho... * Primeiro capítulo do livro com o mesmo nome, ora em elaboração.

Parábola do homem rico (Rio de Janeiro) Todos são poetas à sua maneira, mas é bem possível que, se todos o fossem realmente, não houvesse mais lugar para a poesia. Porque a poesia é a amante espiritual dos homens, aquela com quem eles traem a rotina do cotidiano. A poesia restitui-lhes o que a vida prática lhes subtrai: a capacidade de sonhar. O desgaste físico e moral imposto pelo exercício das profissões, em que o ser humano deve despersonalizar-se ao máximo para atingir um índice ideal de eficiência - eis a grande arma da poesia. Depois que o banqueiro passa o dia manipulando o jogo de interesses do seu banco, vem a poesia e, na forma de um beijo de mulher, diz-lhe que o amor é menos convencional que o dinheiro. Ou o bancário, que passa o dia depositando e calculando o dinheiro alheio, ao ver chegar a depositária grã-fina, linda e sofisticada, sonha em tornar-se um dia banqueiro. E fazendo-o, invade o campo da poesia. Pois tudo é fantasia. Cada ação provoca um sonho que lhe é imediatamente contrário. Tal é a dinâmica da vida, e sem ela a poesia não teria vez. Isso me faz lembrar certa noite em Paris, num jantar com meus amigos Marie-Paule e JeanGeorges Rueff, em companhia de um grande comerciante francês, um homem super-rico, dono de um dos maiores supermercados da França, superviajado, superlindo e casado com uma mulher superlinda. Nós nos havíamos conhecido alguns anos antes, em Estrasburgo, onde ele e os Rueff então moravam, e um pilequinho em comum nos havia aproximado, depois de um papo de coração aberto que nos levou até a madrugada. O assunto agora era o mesmo, a poesia, e o nosso prezado homem rico, depois de discutirmos um pouco a extraordinária vida desse jovem gênio que foi o poeta Jean-Arthur Rimbaud, fez-nos ver que não há casamento possível entre o Grande Lírico e o Grande Empresário: ou se é uma coisa, ou se é outra. O verdadeiro homem de empresa ao mesmo tempo inveja e despreza o poeta, uma vez que não se pode preocupar além dos limites com as palavras da poesia. Elas são, para ele, o reverso da medalha: o ouro impalpável. E como as mulheres - dizia-me ele ao lado da sua - são seres devorados de lirismo, sobretudo no amor, o capitalista tinha que pagar seu preço ao artista: e esse preço, via de regra, era a própria mulher. - Elas ficam conosco porque nós representamos poder aquisitivo, podemos dar-lhes as coisas de que necessitam para ficarem mais sedutoras, terem mais disponibilidade para cuidar da própria beleza. Mas essa beleza, elas a entregam a vocês, os artistas. No fundo, as mulheres nos odeiam. O que não impede que vocês sejam todos gigolôs do capitalismo. Ponderei-lhe que já conheci vários homens de empresa que tinham passado na cara mulheres de artistas, mas o nosso prezado homem rico não se deixou perturbar e me disse assim: - É porque não se tratava de artistas verdadeiramente grandes e puros. Seriam,

provavelmente, contrafações. As mulheres sentem. As mulheres só abandonam um iate em Saint-Tropez por um apartamentozinho na Rive Gauche à base do amor integral. E esse amor, só o artista verdadeiramente puro pode dar. Nós, os grandes empresários, temos um outro tipo de pureza. O nosso maior amor é o dinheiro e, através do dinheiro, o poder. A mulher vem na onda. - Eu conheci e era amigo - ponderei-lhe - de um grande poeta que foi também um grande homem de negócios. - Grande mesmo? Duvido. Esse tipo de dualidade cria uma profunda infelicidade pessoal. Não se serve ao Deus e ao Diabo ao mesmo tempo. Admirei-lhe, não sem uma certa sensação de desconforto, a franqueza e honestidade - ele, um belo homem, em plena força de seus quarenta anos, ao lado de sua mulher extraordinariamente linda, com um solitário no anular quase tão grande quanto um ovo de codorna, a nos escutar com uma atenção diligente. Fechado o restaurante, resolvemos esticar na boate New Jimmy's. O nosso prezado homem rico fez uma grande volta para passar diante do seu empório, a fim de ministrar-me uma aula: todo um quarteirão de supermercado, com três pavimentos servidos por escadas rolantes e centenas de vendedores e vendedoras com ordens expressas de serem simpáticos, mas impessoalmente, nunca além do limite, de modo a não retardar com conversas ou excessos de cortesia o fluxo incessante das compras. - Eu tenho uma média de três a cinco pessoas que são presas diariamente pela minha polícia, por furto de objetos. Em geral, depois de pregar-lhes um susto, eu os deixo ir. Depois, na direção do seu Rolls-Royce, cujo chofer dispensara, tirou do bolso do paletó a cigarreira da prata e com gestos precisos acendeu um cigarro e, olhando-me pelo espelhinho da direção, me perguntou com uma voz que não permitia réplica: - Não é uma beleza, poeta?

Por que amo Paris* Voilà la Cité sainte, assise à l'occident! Rimbaud Em dezembro de 1938, um jovem bolsista brasileiro para a Universidade de Oxford (com perdão do estilo Time Magazine...) tiritava num quarto de pensão em Londres, a que nada, nem mesmo seu coração apaixonado, conseguia aquecer. Tratava-se, segundo as manchetes, de um dos mais terríveis invernos do século e era impossível sair por muito tempo à rua sem que as orelhas do malfadado se descolassem e seu nariz saísse batendo as asinhas. O jovem bolsista, envolto em mil cobertores, lia sem parar os seus primeiros autores ingleses de sustância e que, por essa razão, associam-se até hoje, em sua mente, à ideia de frio: John Bunyan e Jane Austin. Um tal enfurnamento, passado usualmente em posição horizontal, determinou, é claro, uma reviravolta completa em seus horários. Ia dormir quando a neve colada aos vidros de sua janela (sua primeira neve!) começava a fazer-se mais alva com a luz da madrugada; e acordava à tarde, com o café da manhã a olhá-lo de mau humor com o seu negro olhar gelado. Sua inapetência era tal e seu frio tão grande que data daí um respeito britânico pelo uísque como agente calefator; cujo uísque, vazado a princípio em poções preventivas, provou ser tão útil que começou a ser ingerido em doses federais; e a verdade é que o jovem bolsista ainda não estava preparado para tanto. Seu temperamento imprudente e sua impaciência entraram em ação e uma noite ele saiu. O resfriado que apanhou resultou tão recalcitrante que, juntando umas poucas libras, resolveu ir curá-lo em Paris. Em boa hora! Nunca mais lhe sairia da memória sua chegada, sem dinheiro e sem orientação, a essa cidade amanhecente que teria um papel tão decisivo em sua vida. O táxi que tomou na estação devia ser um remanescente da grande corrida para o Marne, na Guerra de 14, e o chofer bigodudo um velho poilu, a quem por certo não faltaria uma cicatriz de baioneta no flanco. Era tudo azul e cinza-azul, como no soneto de Rubem Braga: uma coisa indescritível de beleza. E como a beleza está no homem e não nas coisas, esse seria o seu instante de estesia máxima diante de Paris, para a qual, desembarcando muitas vezes depois, em circunstâncias parecidas, deitaria um olhar apenas amigo ou conivente. O jovem bolsista lembra-se de haver pedido ao chofer que o levasse a um hotel qualquer bem barato. O velho olhou-o por sobre o ombro com uma severidade não isenta de simpatia, ubicou-se por uma ponte, deu voltas num labirinto de pequenas ruas e afinal parou diante de uma fachada très vieux Paris, onde havia escrito: Hotel St. Thomas d'Aquin. Era na rue Prèsaux-Clercs, no coração do Quartier Latin. Lembras-te, Di? Lembras-te, Di Cavalcanti, Di Amante da noite Di superior

Ao dia, diante Do amor, ante Rior ao México Anterior a tudo Di sem hora de Boina se rindo Se rindo de Consuelo de Saint-Exupéry E do sargento Tirso Di de Madrugada chegando Da Rádio Di De la Coupole Bebendo champagne Dez francos a taça Diagrama de Di Mi sol si ré lá Bordão que eu vi Ébrio de seios Ventre coxas Di Di de Montparnasse Di de Paris.

Lá vai ele, o jovem bolsista brasileiro para Oxford, sem um franco no bolso e um argueiro no olho que não o deixa ver Paris pela primeira vez. Dinheiro, o amigo Cícero (1) lhe emprestará algum, se for preciso. O argueiro é que são elas! É terrível estar alegre assim e ver Paris através de lágrimas. - Monsieur, voulez-vous m'enlever cette vache de dans mon oeil? O farmacêutico espia. O la-la! - Ça doit vous faire du mal, mon p'tit. - Ça m'empêche de voir Paris. C'est mon premier voyage. J'ai pas d'argent sur moi. Je vous payerai demain. Ah, eis que a visão do Louvre se enfoca. Que maravilha! O jovem bolsista pega o Pont des Arts, o lenço enxugando o olho esquerdo, o passo rápido, ao assalto da Beleza. - Hey, Milreis! Não é possível...! - Half-a-crown! São seus amigos Reginaldo Maudling (2) e Charles Steward (3), o primeiro de Merton College, o segundo de Bailliol, em Oxford. Seus melhores companheiros na Universidade. Gente cem por cento. - You, buggards! - Why the hell are you crying? O jovem bolsista explica. Maudling ri a sua boa risada: - Bloody hell! I think we sould have a beer and celebrate! Adeus, Palais du Louvre. Rios de cerveja correrão. Eu conheço Maudling, e sobretudo Steward. Menino danado! Para aguentar tanto líquido, algum tem de escapar pelo ladrão... Três meses depois, em março de 1939, o jovem bolsista, de volta a Paris, foi apresentado a uma menina de 17 anos, fina de corpo, séria de semblante e com uns olhos fugidios de corça. A querida amiga que nos apresentou disse apenas: - Você conhece minha sobrinha...

Mas, em sua distração e volubilidade usuais, esqueceu-se de acrescentar: - Você vai se enamorar dela daqui a 18 anos, numa festa em casa de um arquiteto amigo seu, no Rio. Cerca de um ano depois vocês irão se reencontrar aqui em Paris, e você ficará irremediavelmente apaixonado por ela, e há de sofrer como um possesso todas as dores de sua paixão, e na Quarta-feira de Cinzas de 1959 você terá um desastre de automóvel cerca de Petrópolis, onde ela estará veraneando, e você, coberto de sangue, ao se sentir ir morrendo, ela tão perto, olhará a sua morte com um infinito sentimento de pena porque tudo poderia ter sido e não foi; mas você preferirá morrer a ter de viver sem ela, sobretudo depois de lhe ter dito, como disse, numa noite de Sexta-feira da Paixão, no Club St. Florentin, 15 rue St. Florentin, que você a tinha dentro de você sem saber desde a mocidade, desde aquele dia, 19 anos antes, em que eu a apresentei a você, como estou fazendo agora. E você escreverá para ela a "Elegia de Sexta-Feira da Paixão", que dirá o seguinte: Amiga, deixa que a noite escolha hoje o teu vestido Em vez de Dior, Dessès ou Givanchy. Não te esqueças É Sexta-Feira da Paixão. Os castanheiros Estão apenas acordando do longo inverno que passaste Ao sol, longe de mim. Se vires a Tour Eiffel como uma doida Declamando Éluard, não te impressiones: Hoje tudo é possível. Lembra-te É Sexta-Feira da Paixão. Provavelmente Se formos até Pont Mirabeau, encontraremos O sargento Appolinaire debruçado mirando o Sena Na esperança de alguma afogada. Ah As afogadas do Sena! Sinto-as Deslizando no meu peito� Mas Não te impressiones tampouco com as loucuras que eu disser. Olha antes minhas mãos. São Como pássaros sem ninho, precisam tanto, tanto Ser aquecidas� Vem, amiga, vestida de noite; conta A Fábula da Mãe-que-não-Veio. "- Olhe, meu anjo Não se constranja, mas se você não puder sair sozinha Comigo (figa! diz que pode, diz que pode!) eu compreendo�" Amor! e já te amava tanto antes de amar-te... "- Lembro Tão bem de você, era março de 39, nós vínhamos Pelo Boulervard des Italiens, você teria o quê? uns 16 17 anos..." (como uma jovem corça arisca Ela era, olhava-me de lado, sorria Apenas com as comissuras, era linda Como um Maillol). "Não, eu posso sim, acho que posso Não há mal nenhum, isso é Paris, você não acha?" (Acho, meu anjo. Acho tudo o que você quiser. Acho que hoje É Sexta-Feira da Paixão, e o Cristo não poderia ter escolhido melhor dia Para morrer de amor por nós.) "- É, é isso mesmo. Afinal de contas Eu sou um velho amigo da família"... (Coisa linda Vestida de noite, eu vou te amar tanto Mas tanto que o meu amor será captado Por todos os radares, e os radioamadores De todo o mundo permanecerão em vigília Para ouvir, banhados em lágrimas, pulsar o meu coração.) Amada! Vamos comer camarões no "Stresa","sauce tartare"? Depois Pediremos "fraises du bois" que cobriremos com todo o açúcar Que houver no açucareiro. "- Você gosta muito de açúcar? De música? De ver cinema bem na frente? De Filhinho? De silêncio?" (Então por que não saímos daqui agora mesmo E convolamos?) Ah, meu amor

Que vontade de beijar as árvores noturnas! (enquanto busco Acertar o meu passo pelo teu: coisa difícil Porque te moves num mínimo de espaço). Amiga Que te moves num mínimo de espaço, que graça A tua! Como pode uma coisa tão pequena Ser tão grande? Onde vão ter esses imensos infinitos Que partem dos teus olhos? E qual é o nome Do ar que te circunda? "Sous le Vent" de Guerlain? Ah, não seja esta a dúvida�Virarei armador Irei escolher sementes, flores, resinas Nas mais inacessíveis ilhas, de cujo extrato Criarei perfumes capazes de te matar de amor por mim. "- Você Gostaria de ouvir um bom jazzinho num clube privativo De que sou sócio? É simpático� gente moça, boa música Borboletas nas paredes. Há uma caixa Só de espécimes do Brasil�Vamos?" (figa!) "- É, podemos ir um instantinho, só não quero Chegar tarde demais�" Amor! Ao dançar senti teu rosto roçar o meu, minha boca Aflorou tua pele, o meu beijo Veio de longe, e o meu amor despenhou-se do vácuo Corno um negro sol incendido, varando milênios De solidão e desencontro, recuperando Infinitos perdidos, espaços Abandonados, arrastando no seu vórtice Astros sem luz, estrelas moribundas Mundos sem amanhã.

* * * Por isso, porque és só minha e eu sou só teu É que eu não sou mais eu. Foi bem mais que um milagre, vida minha... Foi como a própria vida: ACONTECEU.

Uma noite, dois anos antes, bêbado e desesperado, eu fora ter a Pont Mirabeau... Uma noite, em Pont Mirabeau Fui me encontrar com Appolinaire Como falamos de mulher Como falamos de Rimbaud! Não sei, mas alguém que me viu diz Que eu tinha tomado muito uísque. Sob a ponte corria o Sena Como no poema do poeta A água corria negra e inquieta Como a vazar da minha pena. Amar? Melhor morrer... AppoLinaire, pálido, concordou. Merda! Merda! Três vezes Merda! Vociferei para a cidade Enquanto a réplica de pedra Da Estátua da Liberdade Perscrutava com um olhar frio Paris à escuta em torno, e o rio. - T'es dans un bien sâle état Mon pauvre vieux. - Appolinaire Disse para me consolar Assim com um ar de quem não quer. - Va te efaire foutre! Tu m'emmerdes! Respondi - e ele ficou verde. E vomitei dentro do rio

A gargalhar do caporal Que, os punhos cerrados, partiu Num duro passo marcial Enquanto duas mulheres, defronte Vinham andando pela ponte.

* * * Uma outra noite, perdido em Menilmontant, eu tivera a visão da miséria. Era um beco sem saída, um impasse, um cul-de-sac estreito, fétido e perfeitamente comme il faut. Un cul-de-sac aux murs étroits, Un p'tit chat noir que se promène, Un vieux soulard que a de le veine De se trouver coincé comme ça; Une fenêtre qui s'entr'ouvre, Une main qui sort et qui vide Un jules tout plein dans le vide Juste sur la tête du clochard. Un chien qui fouille dans la poubelle, Un chien qui aurait suivi Prévert, Une putain qu'sent Ia vaisselle Et qui aimerait prendre un verre; Des voix de gens qui font l'amour Et qui vachement en profitent, Un monsieur du XVlème qui a peur Et dont les pas s'en vont bien vite... O cul-de-sac aux murs étroits Combien des gens ressemblent à toi... Combien y en a-t-il dans la rue Qui sont des culs-de-sac qui puent... Combien de grands dames aux grands airs Combien de riches et gros bourgeois Combien de hauts fonctionnaires O cul-de-sac ressemblent à toi!

Mas uma tarde, reencontrado em Paris, as mais fundas feridas cicatrizando nos óleos do amor, eu tive a visão da Beleza. Era ela, Notre Dame de Paris, a grande catedral, a cuja porta eu aguardava a minha amada, e que com braços maternais nos abrigava da multidão, isolavanos no nosso mundo de ternura e tristeza. Ali, a dois passos, ficava a rue St. Julien-le-Pauvre. Havia uma casa de chá de tipo inglês chamada The Tea-Cady: Eu te levei ao "Tea-Cady" Na Rue St. Julien-le-Pauvre Very British o "Tea-Cady" Na Rue St. Julien-le-Pauvre... Veio tea, toast and marmelade O my sweet Lady! Um mês ocultamos ali O nosso mágico impossível Era tão belo tudo ali Que parecia irremovível Mas, ai, chegava sempre a hora De ires embora. Hoje, embora incréu, não me assombra Saber que ter-te e ser feliz Deve-se a havermos estado à sombra De Notre Dame de Paris E a meu amor ter dez no exame De Notre Dame.

* * * Eis por que não quero fechar esta reportagem lírica sobre a bem-amada cidade sem recitarlhe uma oração a ela, a gloriosa Nossa Senhora de Paris, que Xangô meu pai há de proteger, são Jorge meu padrinho há de defender, e que há de viver para sempre na sua floresta gótica para abençoar os namorados de todo o mundo que se encontram em Paris e que vão ocultar na sua sombra a angústia de não poderem viver o próprio amor. 1 Cícero Dias, imigrado para Paris dois anos antes 2 O ex-Paymaster General do Gabinete Macmillan. 3 Oficial aviador, morto em combate na Batalha de Londres. Maudling me chamava "Mil-réis" e eu o chamava "Half-a-crown", pelas moedas de nossos países. * Reportagem lírica de uma cidade por demais conhecida e por demais cantada, mas que acontece ser a favorita, depois do Rio de Janeiro, no coração de um poeta carioca que aliás se chama Vinícius de Moraes. Esta reportagem foi publicada em Senhor, em maio de 1959.

Profeta urbano Era a imagem de uma ruína do que antes devia ter sido um monumento de homem e portava as clássicas barbas do profeta. - Pois é - disse, limpando a boca com um gesto que acabou por levar seu dedo em riste em direção ao Corcovado [e no ímpeto quase cai de tão bêbado que estava]. - Pois é. Fica lá ele, coitado, o dia inteiro de braços abertos abençoando a cidade... [seu olhar dardejou em torno], abençoando a cidade que nem liga mais para ele. Eu, Mansueto, filho de Anacleto, digo isso porque sei. Eu, Mansueto, sei que aquele homem lá, que por sinal não é homem não é nada, é Jesus Cristo, filho de Maria, rei dos reis, tábua da salvação, esperança do mundo, conforto dos aflitos, pai dos pecadores [a partir daí sua voz embargou-se e ele começou a choramingar] eu, Mansueto, sei que aquele homem lá está sozinho, está sozinho no alto daquela montanha também chamada Corcovado. Eu, Mansueto, sei que toda santa noite aquele homem lá derrama as suas santas lágrimas de pena por esta pobre cidade mergulhada no crime e no pecado... Foi deste ponto em diante que eu tirei a caneta e comecei a anotar rápido o teor das lamentações do profeta urbano. - Porque em cada coração habita a luxúria, a maldade e a sede de ouro! Porque todos só pensam no poder e no luxo! Porque cada um só quer ter o seu rabo-de-peixe [o profeta estava um pouco atrasado no tempo diante da atual mania dos Mercedes] e o povo nem sequer tem peixe para comer... [aí os soluços embargaram-lhe a voz e ele teve de parar para enxugar os olhos com a manga do paletó em farrapos]. E então exclamou com os punhos cerrados na direção do Cristo: - Por que, Senhor, pergunto eu, Mansueto, filho de Anacleto, por que continuas abençoando esta cidade, de vício e abandonas o pobre ao seu triste destino de comer o resto dos ricos? Por que ficas de braços abertos feito um pateta em vez de lançar os vossos exércitos conta o fariseu - feito o seu Guimarães lá do armazém que só fia se apalpar a mulher dos outros. Eu sei porque eu vi. Português descarado! Ainda hei de fazer o mesmo com a tua mulher, ouviu! que embora seja uma santa senhora há de pagar pelo pecador! Neste momento ele olhou em torno com ar de briga e dando comigo me interpelou com veemência: - Você aí! Que sabes da maldade humana? Repara só nele lá em cima, de braços abertos, abençoando esta cidade toda esburacada, chorando de noite de tristeza porque seus filhos o abandonaram para cair na farra com mulheres que não valem nem para jogar no lixo, em todas essas Copacabanas [seu braço girou violentamente em torno] de mulatinhas todas pintadas como se fossem umas [censura], que aliás são! São umas [censura] de [censura] que saem remexendo a [censura] e atacando os homens como se fossem tigres. E para quê? Dizei-me para quê? Não sabe? Ah! [apontando-me] ele não sabe... Bem se vê que é um mocinho

[obrigado, profeta!] rico que não sabe de nada senão cavar o ouro e ir gastar com as mulheres de todas essas Copacabanas! Mas eu te peço, Senhor: lança os vossos exércitos contra o fariseu e deixa dessa pose que não te adianta nada, porque esse negócio de ficar de braço aberto não resolve, a gente quer ver mesmo é diminuir o preço das coisas, as pessoas vão acabar mesmo é comendo umas às outras, porque carne não tem, só a carne dessas [censura] de todas essas Copacabanas que o raio de Deus fulmine e consuma e toque fogo em toda essa [censura] que anda por aí! Dito o quê, ele me olhou com um olhar cheio de lágrimas, que parecia vir do fundo de um caos bíblico de recordações, misérias, humilhações e ressentimentos sofridos, moveu a cabeça com um ar trêmulo de animal vencido e saiu em frente, dois passos para cá, três para lá, em meio à risota e aos comentários dos circunstantes; mas mesmo de longe sua voz me chegava como a de um Isaías imprecando: - Mas essa sopa vai acabar! Essa sopa vai acabar!

Praia do Pinto Há uma praia dentro de outra praia. Uma é a praia do Leblon, e a outra não é praia - é praia do Pinto. Há uma praia dentro de outra praia, uma onde vem bater, verde-azul, a onda oceânica, e outra onde vai desaguar o Rio escuro, em sua mais sórdida miséria. Há uma praia dentro de uma praia. Ah, brinquemos de falar bobagem, brinquemos de inventar cirandas, porque a verdade é que há realmente uma praia dentro de outra, uma praia de fome, sujeira e lama, e ela se chama praia do Pinto. Fica no Leblon, como um imundo quintal raso de apartamentos de arrogante gabarito. Não há nessa praia areia branca, barracas coloridas e coxas morenas absorvendo ultravioleta. Nessa praia que não é praia, é favela, há, isso sim, barracões de lama e zinco cheirando a imundície: há a Sífilis dormindo com a Tuberculose, no chão úmido da terra; há um enxame de Disenteriazinhas engatinhando no lodo, um mundo de Verminosezinhas patinhando nos próprios excrementos, e há Descalcificações e Reumatismos Deformantes muito velhos, pitando solitariamente na noite fétida em torno. São centenas de casebres sórdidos, a abrigar milhares de seres humanos, cuja única diferença de mim é a pele negra, negra talvez para esconder melhor o próprio sofrimento na treva povoada de moléstia, molejo de mulher e música malemolente. São milhares de dentes brancos a iluminar a noite espessa de samba, álcool e luxúria, enquanto, em torno, as criancinhas morrem, os meninos lutam no aprendizado necessário da valentia e os macróbios da resistente e dura vida negra se imobilizam como estátuas invisíveis, no pensamento de antigos deuses nunca esquecidos. É a praia do Pinto, praia da pinimba, praia da porcaria. São negrinhas de ventre pontudo, levando, apenas púberes, os frutos da ignorância e do ócio dos homens. São negras a carregar não ânforas gregas, mas latas d'água para o cotidiano patético. São negros esgalgos, de camisa de malandro, a se experimentarem em passos de capoeira. São dois malandros de siso grave a se encontrarem, no enflorescer de uma aurora cor de seio, para disputar, a faca ou a navalha, o abandono de uma mulata com pele de dá e o olhar de vem. É o golpe rápido, o estertor surdo, o ventre vomitando as vísceras de uma só vez. É música. Música de violões se contrapontando. Música de batucada na tendinha; música de Ogum no terreiro. Às vezes, a voz estelar das pastoras, enredando em fios cristalinos a trama de um samba de enredo ou de uma marcha de sua escola. Adiante, os apartamentos miram o mar, o mar que por vezes ruge e se precipita, demagógico, como a querer varrer do bairro a miséria da favela inelutável. Atrás é a Lagoa serena, rodeada de casas brancas, gordas e espapaçadas. No meio é a praia do Pinto, a praia do Pinto, a praia do Pinto!

Química orgânica Há mulheres altas e mulheres baixas; mulheres bonitas e mulheres feias; mulheres gordas e mulheres magras; mulheres caseiras e mulheres rueiras; mulheres fecundas e mulheres estéreis; mulheres primíparas e mulheres multíparas; mulheres extrovertidas e mulheres inconsúteis; mulheres homófagas e mulheres inapetentes; mulheres suaves e mulheres wagnerianas; mulheres simples e mulheres fatais; - mulheres de toda sorte e toda sorte de mulheres no nosso mundo de homens. Mas, do que pouca gente sabe é que há duas categorias antagônicas de mulheres cujo conhecimento é da maior utilidade, de vez que pode ser determinante na relação desses dois sexos que eu, num dia feliz, chamei de "inimigos inseparáveis". São as mulheres "ácidas" e as mulheres "básicas", qualificação esta tirada à designação coletiva de compostos químicos que, no primeiro caso, são hidrogenados, de sabor azedo; e no segundo, resultam da união dos óxidos com a água e devolvem à tintura do tornassol, previamente avermelhada pelos ácidos, sua primitiva cor azul. Darei exemplos para evitar que os ínscios e levianos, ao se deixarem levar pela mania de classificar, que às vezes resulta de uma teoria paracientífica, cometam injustiças irreparáveis. Pois a verdade é que mulheres que podem parecer em princípio "ácidas", como as louras (conf. com a expressão corrente: "branca azeda", etc.), podem apresentar tipos da maior basicidade. Não é possível haver mulher mais "básica" que Marylin Monroe,* por exemplo; enquanto que Grace Kelly, que muita gente pode tomar por "básica", é a mulher mais cítrica dos dias que correm. Podia-se fazer com Grace Kelly a maior limonada de todos os tempos, e nem todo o açúcar de Cuba seria capaz de adoçá-la. De um modo geral, a mulher "ácida" é sempre bela, surpreendente mesmo de beleza. É como se a Natureza, em sua eterna sabedoria, procurasse corrigir essa hidrogenação excessiva com predicados que a façam perdoar, senão esquecer pelos homens. Porque uma coisa eu vos digo: é preciso muito conhecimento de química orgânica para poder distinguir uma "básica" ou uma "ácida" pela cara. A mulher "ácida" tem uma consciência intuitiva da sua química, e não é incomum vê-la querer passar por "básica" graças ao uso de maquilagem apropriada e outros disfarces próprios à categoria inimiga. Como um homem prevenido vale por dois, dou aqui, por alto, noções geográficas e fisiológicas dos dois tipos, de modo que não chupe tamarindo aquele que gosta de manga, e vice-versa. A vol d'oiseau se pode dizer que as regiões escandinavas, certas regiões balcânicas e a América do Norte são infestadas de mulheres "ácidas", no caso da América, sobretudo o Sul e Middlewest, onde há predominância do tipo one hundred per cent American. Ingrid Bergman é uma "ácida escandinava" típica e é preciso ir procurar uma Greta Garbo para achar a famosa exceção comum a toda a regra. As Ilhas Britânicas em si não são "ácidas"; mas há que ter cuidado com certas regiões da Escócia e da Irlanda, onde o limão come solto. Na França, com exceção de Paris e Île-de-France, e naturalmente da Côte d'Azur, reina uma certa

acidez, sobretudo na Bretanha, Alsácia e Normandia. A Itália é "básica", tirante, talvez, o Veneto e a Sicília. Os Países Baixos são o que há de mais "ácido", Flandres ainda mais que a região fiamenga. A Alemanha é à base do araque. Há, aí, que ir mais pelo padrão psicofisiológico que pelo geográfico. Desconfie-se, em princípio, de mulheres com muita sarda ou tache-de-rousseur. Há exceções, é claro; mas vejam só Betty Davis, * * que é de dar dor na dentina. É bom também andar um pouco precavido com mulheres, louras ou morenas, levemente dentuças. Acidez quase certa. Felizmente, a grande maioria é constituída de "básicas", para bem de todos e felicidade geral da nação. Sobretudo no Brasil, felizmente liberto, desde alguns meses, da sua "ácida número um" - aliás de outras plagas, diga-se, o peito inchado do mais justo orgulho nacional. * O autor congratula-se consigo mesmo de haver escrito, há dez anos, urna verdade que resulta em tão graciosa homenagem póstuma à grande estrela americana. **Poderia ser substituída, atualmente, pela atriz Doris Day

Relendo Rilke (E com direito a Jorge Amado) Ao som das canções de Sarah Vaughan, dei ultimamente - embora já dele tão distanciado por tantas e tão grandes causas - de reler o poeta Rainer Maria Rilke. Andei folheando as Cartas a um jovem poeta, os Sonetos a Orfeu e algumas Elegias de Duino. E o que tenho a dizer é o seguinte: poucos seres tão poéticos nasceram nunca de uma mulher. Pouquíssimos, como esse Grande Enfermo, viveram tanto em poesia e se abandonaram mais fundamente, náufrago irremediável, à avidez de suas águas onde o esperava o indizível abandono. Nunca vida humana fechou-se mais completamente dentro de uma mística. Chega a ser impressionante. Rilke passou, como aquele "afogado pensativo", a descer os "azuis verdes" dos céus e dos rios que a visão de Jean-Arthur Rimbaud confundiu no seu poema "Le Bateau ivre". O poeta viveu em transe poético constante, amargurando seu espírito contra todos os temas da Vida, do Amor e da Morte, a que piedosamente amou como uma única entidade. Sua simplicidade como poeta nasce dessa longa tortura lírica de ver a morte como um amadurecimento da vida, numa total compensação. Rilke acreditava que a morte nasce com o homem, que este a traz em si tal uma semente que brota, faz-se árvore, floresce e frutifica ao se despojar do seu alburno humano. Seus poemas menores vencem lentamente todos esses "graus do terrível", num crescimento espontâneo para a grande enflorescência, de onde penderão os melhores frutos, desejosos de renovação na terra. Em 1910 Rilke terminava os seus famosos Cadernos de Malte Laurids Brigge, onde contou, com uma beleza raras vezes alcançada em prosa, a história elegíaca da destruição de um ser votado à fatalidade irremediável da mágoa. Porque é mágoa, mais que angústia, o que colhemos dessa narrativa: a mágoa do mal-entendido humano, o solilóquio desolador do homem desajustado à vida. A qualidade do sofrimento que lhe vem dessa torturante criação, como que lhe afina ainda mais a sensibilidade, já de si tão aguçada para todos os sussurros da poesia. O poeta pena, como penou por um momento o Cristo, da coexistência íntima da dúvida e da certeza, enquanto vagueia, morbidamente enfraquecido pela doença, pelos lugares que mais ama na Europa: Paris, a Rússia e os países escandinavos, intermitentemente. Em fins de 1911, instado pelos príncipes de Tour e Taxis, Rilke vai passar sozinho o inverno no Castelo de Duino. Um belo dia de janeiro, passeando às bordas de um penhasco sobre o Adriático, diz ter ouvido no vento o mistério de uma voz que lhe dizia: "Quem, se eu gritasse, me ouviria em meio à hierarquia dos anjos?" Eriçado, e ao mesmo tempo atônito com o milagre dessas palavras que lhe surgiam com a própria poesia desejada, o poeta as anotou e, nesse mesmo dia, escrevia o primeiro movimento desse bloco sinfônico a que chamou Elegias de Duíno. Tão temperados se achavam nele os motivos da obra em perspectiva que, em poucos dias, escrevia a segunda da série e o começo de quase todas as outras.

Mas o impulso cessou. Por dez anos Rilke calou-se, à espera de que nele as palavras encontrassem seu lugar exato no grande puzzle poético que se desencadeara. Em Paris, na Espanha e em Munique acrescentou fragmentos a algumas das elegias, sofrendo terrivelmente da descontinuidade com que a poesia se revelava. E não seria senão depois da Primeira Grande Guerra, no seu refúgio da Suíça, em Muzot, que num sopro de criação poucas vezes igualado, só comparável talvez a certos instantes de música e de pintura em Miguelangelo e Beethoven, escreveria em três semanas as oito elegias restantes, Os 55 Sonetos a Orfeu e vários outros poemas a que chamou Fragmentarishes. Fora o último espasmo de vida nesse eterno, sereno moribundo. A Morte, sua amiga, desobjetivava-o poucos anos depois, como "um rio que leva". Rilke recusou o médico: queria morrer a sua morte. Mas, depois, o mal-estar em que me deixou essa combinação de Rilke e Sarah Vaughan... Foi quando tive a boa ideia de ler tua novela A morte e a morte de Quincas Berro D'água, Jorge. Que mortes tão diferentes... Que beleza, Jorge, que beleza!

Retrato de Portinari Com o próximo casamento e partida para a Europa de minha filha Suzana, andei arquitetando um meio de extorquir-lhe o meu retrato feito por Candinho Portinari em 1938, que ora lhe pertence, de que muito gosto e que deve ter, aliás, na obra do pintor, uma certa importância, pois foi o primeiro, ao que eu saiba, realizado com inteira liberdade, depois grande série de "retratos sociais" (chamemo-los assim sem qualquer desdouro, nem para o artista, nem para os retratados) que ele andou pintando de alguns membros ilustres de nossa sociedade e de nossa inteligência. Lembra-me mesmo que ao me propor fazê-lo, sabendo que estava de partida para a Inglaterra, Candinho sugeriu-me, com aquela eterna rabugice sua, que eu o deixasse pintar livremente, pois estava um pouco cansado do gênero de retratos que fazia e que tanto afagavam a vaidade da maioria dos retratados. Sei que em duas poses, em sua antiga casa das Laranjeiras, o retrato estava pronto e era como se se respirasse um novo ar dentro dele. Dias depois, estando eu no cais para embarcar em minha primeira grande viagem, chega ele sobraçando o retrato, que me vinha oferecer. A razão por que eu andei arquitetando extorquir o retrato a minha filha é simples: é que a minha Bem-Amada foi também retratada por Portinari nessa fase a que chamei "social", e eu muito gostaria de ver um dia nossos retratos juntos na parede, as técnicas brigando um pouco, mas juntos na parede, como deve ser. Mas a primogênita foi inflexível, no egoísmo do seu amor filial. Cheguei mesmo à baixeza - sabendo que ela andava precisada de um dinheirinho para as miudezas do seu casamento - de propor-lhe comprar o quadro; mas a proposta a indignou sobremaneira, coisa que, no fundo, satisfez também meu orgulho de pai quanto ao seu bom caráter. Sugeri-lhe que ela o deixasse em consignação, durante o que ainda me restar de vida; pois sendo uma jovem de 19 anos, e eu um homem dc 45, às portas de tornar-me avô, o normal é que ela me facilitasse, diante do pouco tempo que me resta, essa pequena satisfação de juntar na mesma parede dois Portinaris que se amam, enquanto que a ela caberia muito mais tempo para usufruí-lo. Mas, sem ceder um palmo, a primogênita observou-me que nós, que temos Mello Moraes no sangue, somos gente muito longeva, e pode acontecer que, ao "abotoar o paletó", como se diz por aí, eu esteja na casa dos noventa, como aconteceu com meu avô paterno. Obtemperei-lhe que fumo desde os 14 e bebo uísque desde os 25, além de outras extravagâncias, e que o provável é que as coronárias, ou o fígado, mostrem antes disso os sinais do seu repúdio a esses excitantes. Mas minha filha retrucou-me no mesmo diapasão que meu avô fazia pior que isso: comia feijoada e peixadas "caindo de pimenta", na avançada idade de oitenta anos, e que, a fiar-se na minha conversa, ela corria o risco de só entrar em posse do retrato quando macróbia ela própria, o que lhe subtrairia o prazer de dizer-se enquanto moça, possuidora de um bom Portinari, ainda mais tratando se do retrato do "meu pai". Embora tudo isso me tivesse deixado na maior consternação, suportei com o estoicismo de

sempre essa nova prova de rebeldia dos filhos modernos, lembrando-me de que há meio século poderia perfeitamente reaver o retrato com dois berros e uma boa bolacha. Mas não há de ser nada. Pode levar o quadro para Marselha, filhinha... Conte vantagem para suas amigas de que você tem o retrato do seu pai pintado por Portinari. Os filhos modernos são assim mesmo - não conhecem mais a beleza da verdadeira devoção filial. Mas também eu lhe digo uma coisa: aproveite rápido do retrato, porque breve essa sopa vai acabar, e o antigo e sadio costume da palmatória voltará a prevalecer. E para começo de conversa, me faça o favor de agora em diante só dirigir-se a mim de olhos baixos e tratando-me de "senhor meu pai"!

Samba de breque Esta história é verdade. Um tio meu vinha subindo a rua Lopes Quintas, na Gávea - era noite - quando ouviu sons de cavaquinho provenientes de um dos muitos casebres que minha avó viúva permite nos seus terrenos. O cavaco cavucava em cima de um samba de breque e esse meu tio, compositor ele próprio, resolveu dar uma estirada até a casa, que era a de um conhecido seu, companheiro de música, uma rapaz operário com mulher e uma penca de filhos. Tinha toda a intimidade com a família e às vezes ficava por lá horas inteiras, com o amigo, cada qual palhetando no seu cavaquinho, puxando música madrugada adentro. Nessa noite o ambiente era diverso. À luz mortiça da sala meu tio viu a família dolorosamente reunida em torno de uma pequena mesa mortuária, sobre a qual repousava o corpo de um "anjinho". Era o caçula da casa que tinha morrido, e meu tio, parado à porta, não teve outro jeito senão entrar, dar as condolências de praxe e reunir-se ao velório. O ambiente era de dor discreta - tantos filhos! - de modo que ao fim de poucos minutos, não se sentindo por demais necessário, meu tio resolveu partir. Tocou no braço da mulher e fez-lhe um sinal. Mas esta, saindo da sua perplexidade, pediu-lhe que entrasse para ver o amigo. Foi encontrá-lo num miserável aposento interior, sentado num catre, o cavaquinho na mão. - Pois é, velhinho. Veja só... O meu caçula... Meu tio bateu-lhe no ombro, consolando-o. A presença amiga trouxe para o pai uma pequena e doce crise de lágrimas de que ele muito se desculpou com ar machão: - Poxa, seu! Até pareço mulher! Não repara, hein companheiro... Meu tio, com ar mais machão ainda, fez qual-que-bobagem, essa coisa. Depois o rapaz disse: - Tenho um negocinho para te mostrar... E teve um gesto vago, apontando a sala onde estava o filho morto, como a significar qualquer coisa que meu tio não compreendeu bem. - Manda lá, Conta meu tio que, depois de uma introdução dentro das regras, o rapaz entrou com um samba de breque que, cantando em voz respeitosamente baixa e ainda úmida de choro, dizia mais ou menos o seguinte : Tava feliz Tinha vindo do trabalho E ainda tinha tomado Uma privação de sentidos no boteco do lado Que bom que estava o carteado... O dia ganho E mais um extra pra família Resolvi ir para a casa E gozar

A paz do lar Não há maior maravilha! Mal abro a porta Dou com uma mesa na sala A minha mulher sem fala E no ambiente flores mil E sobre a mesa Todo vestido de anjinho O Manduca meu filhinho Tinha esticado o pernil.

Diz meu tio que, entre horrorizado e comovido com aquela ingênua e macabra celebração do filho morto, ouviu o amigo, a pipocar lágrimas dos olhos fixos no vácuo, rasgar o breque do samba em palhetadas duras: - O meu filhinho Já durinho Geladinho!

Schmidt Na sua morte Ele era poeta como quem se afoga. Nas suas noites, sempre a poesia subitamente a vazar de encanamentos mal soldados em suas pernas e seus braços, e a invadir-lhe a casa, perseguindo-o da sala para o quarto, do quarto para o banheiro, do banheiro para o escritório, onde, exausto, ele acabava por se trancar. E seu corpo outrora vasto, já agora reduzido pelas dolências, subia boiando com o nível das águas até o emparedamento total e a asfixia, como nos antigos suplícios por afogamento em recinto fechado. E ele morria em seu noturno aquário, esmagado pelo teto do infinito, náufrago de si mesmo - um poeta como quem se afoga. Eu tinha 19 anos quando, em 1933, pela mão de Otávio de Faria, fui pedir-lhe para distribuir meu primeiro livro de versos. Encontrei-o na porta de sua livraria, na antiga rua Sachet, e seu volume físico oprimiu o menino magro que eu era. Olhou-me com intensidade e disse: - Mas é uma criança... Aquilo me deu raiva. Deu-me, sim, porque eu me achava um gênio e meus amigos mais próximos também não faziam por menos. Para Otávio, que orientava meus primeiros passos literários, eu era - embora sem nenhuma influência direta, pois mal me iniciara na leitura dos poetas modernos - o continuador de Schmidt, o jovem acólito de sua missa poética. Aquela missão secundária feria-me os brios porque me parecia que eu partira de mim mesmo, de minhas próprias fontes, e não devia nada a ninguém. Mas, depois de lê-lo, eu me pusera a admirá-lo também e nas nossas intermináveis viagens andarinhas amávamos despetalar seus poemas e atirar versos soltos às estrelas... Tudo é inexistente, disseram os príncipes deitados na areia... E vinha o grande pálio aberto e se estendia sobre o céu sem manchas. Destroços, ruínas, podridões ameaçavam desabar... Eram palavras proféticas, a revelar a catástrofe em gestação, a enunciar poeticamente os dados da aventura existencialista do pós-guerra: uma "vidência", uma premonição realmente extraordinárias... Nós éramos todos "de direita". Torcíamos pela vitória do fascismo e líamos Nietzsche como quem vai morrer. "Escreve com o teu sangue, e verás que teu sangue é espírito!" Ah, como amávamos essa palavra sangue... Ah, que conteúdo tinha para nós essa palavra espírito... Depois eu cresci e vi que não era nada disso. Vi que nem eu era gênio, nem queria destruir coisa alguma. Queria era namorar, conversar com os amigos, tomar sol na praia, empilhar fichas de chope e escrever palavras simples. E fui me afastando... Mas, vira e mexe, encontrava Schmidt. Em São Paulo, num cais em Montevidéu, em

Montmartre, na rua Cupertino Durão. Então ele me pegava, dava-me o braço e me dizia: - Vem comigo. Estou precisando muito conversar com você... E eu ia. Uma vez foi para poder atribuir-me a culpa da ingestão de meia lata de goiabada que comeu em casa, pobrezinho, alucinado que estava por uma dieta de fome a que o submetia a sua Musa, que o queria esbelto e elegante. Foi também em sua casa que conheci Jayme Ovalle, o grande, o eterno amigo. No fundo, devo-lhe muito. Aliás, por falar em dívida, fiquei lhe devendo cinco contos, emprestados há muitos, muitos anos. Eu lhe digo o que farei, meu caro Schmidt. Hoje à noite, quando sair para fazer meu show, pegarei uma nota de Cr$ 5.000, bem amassada numa bolinha, e a jogarei para címa, com toda a força que tiver. Se você ainda estiver levitando por aí e conseguir pegá-la, muito bem. Se não, tudo o que desejo é que caia perto de alguém mais pobre do que eu.

Sentido da primavera Ao acordar, naquele dia preliminar da Primavera, senti imediatamente que alguma coisa tinha acontecido de muito fundamental na ordem do mundo. Eu, homem de despertar difícil, pulei da cama tão bem-disposto e leve que, por um momento, assustei-me com a sensação indizível que sentia. Ao pegar o copo habitual para a minha água matutina, notei que se achava cheio de uma substância volátil, penetrada de uma linda cor violeta. E não sei por que bebi do copo vazio, estranguladamente, o ar da Primavera, de gosto azul e fragrância fria, com um peso específico de sonho. Durante alguns minutos nada me aconteceu. Tomei meu café, fumei um cigarro e dei uma olhada nas coisas. Mas de repente senti que em mim a matéria começava a se transformar. Palpitações violentas confrangeram-me o coração e eu mal conseguia respirar. Vi minha filhinha Susana distorcer-se à minha frente como ante um espelho côncavo e logo em seguida penetrou-me um cheiro tão monumental que pensei se me tivesse enlouquecido a imaginação. Era um cheiro de menininha, um cheiro que eu conhecia bem, próprio de minha filha, mistura de talco, suorzinho, lavanda, xixi, sabonete, leite e sono; mas desta vez com uma tal arnplitude que eu podia perfeitamente distinguir cada um dos subcheiros da sua composição. No talco, por exemplo, senti um cheiro de polvilho que não o abona, talco tão caro! e senti também que no leite havia um cheiro de água, o que só vem corroborar a certeza geral de que o leite, nesta cidade do Rio de Janeiro, anda sendo fartamente batizado. Depois senti milhões de cheiros. Não os descreverei todos para não ferir, com o desagrado de alguns, os ouvidos - diria melhor: os narizes - do leitor mais delicado. Como todo o mundo sabe, a praia do Leblon não cheira a rosas - e caiba-me aqui mais uma vez chamar a atenção das autoridades competentes para o crime que é despejarem os esgotos naquelas águas onde se banha o que de mais inocente há no bairro: a criançada rica, remediada e pobre das ruas pavimentadas e da praia do Pinto. Enfim, estou a fugir do meu assunto, mas valha-me a referência para registrar um cheiro enorme que senti na ocasião: um cheiro de miséria, que só poderia porvir da dita praia do Pinto, lugar, como todo mundo sabe, onde se comprime, em barracões infectos, a mais negra, sórdida e desamparada indigência da zona. Mas até já ia me esquecendo: senti um cheiro de nazismo, súbito. Ora - direis - como é esse tal cheiro de nazismo? Reconheço a dificuldade de descrevê-lo em toda a sua complexidade, mas penso que era um cheiro branco, inodoro, perfeitamente ortodoxo no entanto, com laivos de salsicha, chope e cachorro policial, um cheiro de radiotelegrafia e talvez de cemitério. Não podia, porém, precisar de onde ele vinha, querendo me parecer, sem haver nisso qualquer insinuação, que chegava da rua Visconde de Pirajá, possivelmente, de algum café ou bar, desses onde se reúnem os nazistas conhecidos e desconhecidos que continuam a se aporrinhar mutuamente em grupos, pelos bebedouros de importação germânica que ainda existem nesta cidade hospitaleira.

Tudo isso constituía um fenômeno muito curioso. Os cheiros mais estranhos, os mais perversos, os mais doces, os do amor, os da solidão, perseguiam-me como outros tantos espíritos da Primavera. Um cheiro dolorosíssimo de morte chegou-me ao mesmo tempo que um odor de nascimento. Soube que alguém morria e nascia naquele instante particular do mundo e senti o cheiro da minha vaidade de me saber dono de um tão grande privilégio. Curioso também: só não consegui sentir bem, em meio àquela sinfonia de cheiros, o aroma das coisas obviamente cheirosas como as flores e as mulheres em geral. O perfume do mar, por exemplo, eu o sentia em toda a sua frescura, verde, salso, infinito, e também o cheiro da areia que por sua vez cheirava a nuvem. Cheiro horrível era o de uma mosca que naquela ocasião voejava à minha volta: bicho imundo! Tive que fugir para a varanda, onde senti o vigoroso cheiro da madeira dos troncos, um rubicundo cheiro de sol e... ah, esses gatos miseráveis! Um dia ainda passo fogo num! Ao sentir um cheiro de cachaça pensei comigo que meu amigo... (não, não o desmoralizarei) devia estar por perto: e efetivamente, pouco depois chegava ele com um queijo de Minas debaixo do braço, cujo cheiro me deu vertigens. Mas eu acho o cheiro de queijo tão bom (contra, bem sei, a opinião de quase todo mundo, que, estou certo, irá rir de mim) que seria capaz de usá-lo no lenço, quando, naturalmente, não houvesse ninguém por perto. Aliás, poderia usar no lenço também cheiro de graxa ou gasolina, cheiro de torrefação de café ou mesmo cheiro de padaria de madrugada, quando o pão é feito. Tantos cheiros, tantos... O cheiro do teu riso, minha adorada, de tua boca quente e sem malícia. O cheiro de tua pureza, coisa inefável, parecendo sândalo ou alfazema. O cheiro da tua devoção de cada instante, cheirando a alecrim ou mato verde, o cheiro da tua emoção constante, como o da terra viva molhada de chuva... E depois senti um cheiro sobrenatural, um gigantesco cheiro de sobrenatural, um cheiro de éter, um cheiro de cristal transparente em vibração, um cheiro de luz antiga, ainda fria dos eternos espaços por onde passara em seu caminho para a Terra. A Primavera cheirava toda para mim, só para mim, desnudada, a dançar na manhã azul perfeita, embriagante, toda olhos claros e sorrisos, a abrir com beijos de brisa a boca infantil das corolas nascituras. E dentro da Primavera senti um cheiro mágico de Paz.

Separação Voltou-se e mirou-a como se fosse pela última vez, como quem repete um gesto imemorialmente irremediável. No íntimo, preferia não tê-lo feito; mas ao chegar à porta sentiu que nada poderia evitar a reincidência daquela cena tantas vezes contada na história do amor, que é história do mundo. Ela o olhava com um olhar intenso, onde existia uma incompreensão e um anelo, como a pedir-lhe, ao mesmo tempo, que não fosse e que não deixasse de ir, por isso que era tudo impossível entre eles. Viu-a assim por um lapso, em sua beleza morena, real mas já se distanciando na penumbra ambiente que era para ele como a luz da memória. Quis emprestar tom natural ao olhar que lhe dava, mas em vão, pois sentia todo o seu ser evaporar-se em direção a ela. Mais tarde lembrar-se-ia não recordar nenhuma cor naquele instante de separação, apesar da lâmpada rosa que sabia estar acesa. Lembrar-se-ia haver-se dito que a ausência de cores é completa em todos os instantes de separação. Seus olhares fulguraram por um instante um contra o outro, depois se acariciaram ternamente e, finalmente, se disseram que não havia nada a fazer. Disse-lhe adeus com doçura, virou-se e cerrou, de golpe, a porta sobre si mesmo numa tentativa de seccionar aqueles dois mundos que eram ele e ela. Mas o brusco movimento de fechar prendera-lhe entre as folhas de madeira o espesso tecido da vida, e ele ficou retido, sem se poder mover do lugar, sentindo o pranto formar-se muito longe em seu íntimo e subir em busca de espaço, como um rio que nasce. Fechou os olhos, tentando adiantar-se à agonia do momento, mas o fato de sabê-la ali ao lado, e dele separada por imperativos categóricos de suas vidas, não lhe dava forças para desprender-se dela. Sabia que era aquela a sua amada, por quem esperara desde sempre e que por muitos anos buscara em cada mulher, na mais terrível e dolorosa busca. Sabia, também, que o primeiro passo que desse colocaria em movimento sua máquina de viver e ele teria, mesmo como um autômato, de sair, andar, fazer coisas, distanciar-se dela cada vez mais, cada vez mais. E no entanto ali estava, a poucos passos, sua forma feminina que não era nenhuma outra forma feminina, mas a dela, a mulher amada, aquela que ele abençoara com os seus beijos e agasalhara nos instantes do amor de seus corpos. Tentou imaginá-la em sua dolorosa mudez, já envolta em seu espaço próprio, perdida em suas cogitações próprias - um ser desligado dele pelo limite existente entre todas as coisas criadas. De súbito, sentindo que ia explodir em lágrimas, correu para a rua e pôs-se a andar sem saber para onde...

Seu "Afredo" Seu Afredo (ele sempre subtraía o l do nome, ao se apresentar com uma ligeira curvatura: "Afredo Paiva, um seu criado..."), tornou-se inesquecível à minha infância porque tratava-se muito mais de um linguista que de um encerador. Como encerador, não ia muito lá das pernas. Lembro-me que sempre depois de seu trabalho, minha mãe ficava passeando pela sala com uma flanelinha debaixo de cada pé, para melhorar o lustro. Mas como linguista, cultor de vernáculo e aplicador de sutilezas gramaticais, seu Afredo estava sozinho. Tratava-se de um mulato quarentão, ultra-respeitador, mas em quem a preocupação linguística perturbava às vezes a colocação pronominal. Um dia, numa fila de ônibus, minha mãe ficou ligeiramente ressabiada quando seu Afredo, casualmente de passagem, parou junto a ela e perguntou-lhe à queima-roupa, na segunda do singular: - Onde vais assim tão elegante? Nós lhe dávamos uma bruta corda. Ele falava horas a fio, no ritmo do trabalho, fazendo os mais deliciosos pedantismos que já me foi dado ouvir. Uma vez, minha mãe, em meio à lide caseira, queixou-se do fatigante ramerrão do trabalho doméstico. Seu Afredo virou-se para ela e disse: - Dona Lídia, o que a senhora precisa fazer é ir a um médico e tomar a sua quilometragem. Diz que é muito bão. De outra feita, minha tia Graziela, recém-chegada de fora, cantarolava ao piano enquanto seu Afredo, acocorado perto dela, esfregava cera no soalho. Seu Afredo nunca tinha visto minha tia mais gorda. Pois bem: chegou-se a ela e perguntou-lhe: - Cantas? Minha tia, meio surpresa, respondeu com um riso amarelo: - É, canto às vezes, de brincadeira... Mas um tanto formalizada, foi queixar-se a minha mãe, que lhe explicou o temperamento do nosso encerador: - Não, ele é assim mesmo. Isso não é falta de respeito, não. É excesso de... gramática. Conta ela que seu Afredo, mal viu minha tia sair, chegou-se a ela com ar disfarçado e falou: - Olhe aqui, dona Lídia, não leve a mal, mas essa menina, sua irmã, se ela pensa que pode cantar no rádio com essa voz, 'tá redondamente enganada. Nem programa de calouro! E a seguir, ponderou: - Agora, piano é diferente. Pianista ela é! E acrescentou: - Eximinista pianista!

Ser moderno * (Rio de Janeiro) Saía o Sol sobre a Terra quando Lot entrou em Zoar. Então fez o Senhor chover enxofre e fogo sobre Sodoma e Gomorra. E subverteu aquelas cidades e toda a campina, e todos os moradores das cidades, e o que nascia da terra. E a mulher de Lot olhou para trás e converteuse numa estátua de sal. O grifo é meu e o texto está no Gênese, o primeiro livro de Moisés. O episódio bíblico constitui também, provavelmente, o primeiro caso psiquiátrico de neurose do passado. A mulher de Lot fora instruída a não olhar para trás, a andar a monte com seu marido e suas duas filhas, para não perecer no castigo imposto pelo Senhor à cidade de Sodoma. - Quem mandou se meter a fogueteira? - diria um psiquiatra rnoderno da escola kleiniana. Não há que olhar para o passado. O passado é a neurose. O futuro é que conta. - Então - perguntaria eu, bronqueado - por que é que você está usando uma expressão tão fora de época como "se meter a fogueteira"? Aí o psiquiatra me explicaria que se tratava de uma expressão usada por sua avozinha, a única pessoa que conseguiu, com muito amor e paciência, corrigi-lo do hábito de fazer pipi na cama até os dez anos; mas que as pessoas projetadas para o futuro é que são isentas de neuroses. - Feito os cosmonautas? - indagaria eu, meio preocupado com a lavagem cerebral indispensável ao equilíbrio neuropsíquico dos invasores do Cosmos. - É, mas ou menos... - responderia o nosso amigo, com ar de quem não quer levar a discussão adiante. Aí... - aí, pombas, cada um iria para a casa de sua mãe, mesmo porque a conversa já estava ficando com um certo ar de crônica de Art Buchwald, como está tão em moda. É, velhinho... Que fazer? Dar uma de moderno, sair por aí, de calça vermelha ou azulturquesa, camisa de florzinha e corrente com medalhão ao pescoço, puxando um fumo (1) honesto, e depois ir esticar com uma percanta (2) no Varanda, pra biritar (3) umas e outras? Ou assumir a vida, a experiência, o passado? - Escuta, bicho, você tá por fora... Falar umas e outras já saiu do ar. Não vá me dizer isso no Veloso... A turma te dá uma buzinada. O último cara que falou assim foi o Chico Buarque, morou? - Que é que tem o Chico? Eu acho o Chico, um sujeito por dentro, um compositor todo bom, cheio de sentimento... - Sentimentos? Mas que é isso, bicho? Que coisa mais antiga... Quem tem sentimento é guia de cego. O negócio é entrar na onda (4). Você está em outra (5). Leia Marcuse e Norman Mailer e atualize seu repertório (6). Deixe o espírito vagar. Tem que ter plá (7).

Tem que ter plá, ouviram bem? Ser moderno é achar que a história começa com os Beatles e termina com os hippies. Depois disso, não há mais nada a fazer. É ir levando, entrar em órbita (8), canear (9) por aí com umas grinfas (10) bem xués (11), que é pra não dar dor de cabeça. É o sideral (12). O negócio é muita bolinha (13), muita tia-branca (14), muito LSD ou qualquer outro psicotrópico que dê um barato (15) firme. É de lei! Realmente, a que se pode aspirar, depois de atingir a categoria hippy? O hippy é, no fundo, tão velho e sem perspectiva quanto um embaixador que caiu na compulsória. É um jovem que pediu aposentadoria da vida, motivado, é claro, pelos mais nobres sentimentos. Tudo, menos o trabalho burguês. Amor, não a guerra. Sexo livre, ambidestro e descompromissado. Desligamento total dos laços tradicionais de família. "Familles, je vous hais; foyers clos, portes renfermées, possessions jalouses du bonheur!" (16) - como já disse André Gide, esse Marcuse avant la lettre, esse velho hippy formalista, que viu Verlaine bêbado na rua sendo apupado e maltratado por um bando de colegiais, e optou por não socorrê-lo para não intervir no curso do seu destino. E há - importantíssimo! - o problema "acústico". - Que é que você achou da mulher americana, Miltinho? - Humm... Não tem som (17). Tem que ter som, ouviram, ó mulhas? (18). Não basta ser dondoca bonérrima, ter curso de psicologia na PUC, ser aprendiz de guerrilheira ou dona de boutique, assistente social ou bandida (19), grã-fina ou grã-grossa. O negócio é o seguinte: tem que ter som. Perguntem aos músicos mais pra frente (e perdoem se esta expressão tiver sido excomungada ontem no novo Zepelim). - O Sérgio Mendes? Ih, bicho... já deu o que tinha dar. O som já não é mais aquele, morou? Muito comercial, muito pra gringo. Não dá mais pé. Agora: você já ouviu uns garotos que estão com um conjunto de cavaquinhos e gaitas eletrônicas? Velhinho, aquilo é que é som. Resultado: andam os músicos a experimentar, dia e noite com seus conjuntos, à cata de um som: um como aquele que conduziu Sérgio Mendes ao auge do faturamento. - Não, ô cara, a poesia não deixa de ter sua importância na canção, se o infeliz não me vier de amor - saudade - tristeza - coração - luar. Agora: importante mesmo é o som. A letra tem que interpretar o momento presente, aproveitar das novas estruturas, das novas formas, dos novos materiais, da nova linguagem publicitária de nossa sociedade de consumo. Tem que passar sinteco no samba. - Mas... e o Tom? - Bem... o Tom é grande, mas já está ultrapassado. Deu uma de coroa (20). Poxa, gravar com o Sina (21), um velhunco, um tremendo matusa (22). Não, bicho, eu estou em outra... De maneira, arcaico leitor, que o seguinte é o que se segue; e o que se segue é a realidade; e a realidade é um fato; e fato é o que eu vou lhe provar agora: para ser moderno, você tem que estar na deles. Estando com eles, está com Deus. Você tem que usar calças Lee, de preferência desbotadas e puídas nos joelhos (camisas Lacoste é pra granfunço); tem que estar por dentro de blá(23) de malandro e gíria de barbudo de Ipanema; tem que fazer a ponte Zepelim-Varanda, e de vez em quando dar uma de Degrau; tem que discutir cinema novo, e sobretudo Gláuber; tem que saber queimar-o-pé (24) e entrar no embalo-7 (25) com birita de pobre: uísque é pros Onassis da vida; ou estar a balão (26) sempre que puder, puxando seu charo (27) em companhia de uma grinfete (28) super, levando o seu (29) com aquela disponibilidade; mas também sabendo quebrar um pau (30) quando o negócio estiver mais pra

fezes (com perdão do eufemismo) que pra mousse de chocolate; tem que gostar de Gal Costa (sem que isso tenha nada a ver com o fato de ela ser uma excelente cantora) e Caetano Veloso (idem para o grande compositor), e tem que achar o Chico um ótimo letrista mas um músico meio devagar; tem que considerar o Chacrinha um gênio, inteiramente dentro do contexto, que é cafono por natureza: (Isso é que é tropicalismo, morou, ô infeliz?); tem que encarar de ver em quando umas patuleiras do asfalto (31), e se mandar pra Barra no carango (32), a mil; tem que, pelo menos uma vez por ano, fundir a cuca (33) e ir misturar as estações (34) numa clínica de repouso, e fazer uma sonda (35) seguida de uma psicoterapia de apoio - dá um pé bárbaro! É isso que você tem que fazer, execrável leitor, se quiser ser moderno. Pergunte a esse grande ator Hugo Carvana, que me forneceu muitos dos elementos que estão aqui. O resto é papo furado. Se você não estiver nessa nunca vai ser um praça-boa, uma pedra-90 (36). Senão, bicho, quando você for buscar o milho, eles já fizeram a pipoca. Em rio que tem piranha, mosquito não dá rasante. Quem se mete a avestruz tem que aguentar o ovo. Ou como diz o fotógrafo filósofo e gentleman tijuco-ipanemense Paulinho Garcez: "Ajoelhou, tem que rezar!" * P.S. Para os que estão mais por fora que marido enganado, fiz um pequeno glossário. Se quaisquer outras dúvidas ocorrerem, consultem o jovem super ao seu lado. E por falar nisso: pode haver nada mais velho do que o novo? 1 - fumando maconha; 2 - mulher, garota que se namora; 3 - bebiba alcoólica; 4 - assumir o moderno, com tudo o que ele implica; 5 - ser antigo, ou quadrado; 6 - a súmula do linguajar moderno; 7 - substrato, bossa, espírito; 8 embriagar-se com drogas; 9 - beber; 10 - mulheres, garotas do mesmo naipe; 11 - malucas; 12 - embriaguez específica por drogas ou psicotrópicos; 13 - excitantes medicamentosos em pílulas; 14 - cocaína; 15 - corruptela de baratino: o mesmo que o item 12; 16 - "Famílias, eu vos odeio; lares fechados, portas trancadas, possessões ciumentas da felicidade"; 17 - musicalmente, o correspondente a plá, qualidade sonora, bossa, inventiva, expressão; 18 - corruptela de mulher em gíria; 19 - mulher ou garota de vida fácil, sem chegar a ser uma prostituta: diz-se também vadia; 20 - quarentão; 21 - Sinatra; 22 - corruptela de Matusalém; velhíssimo, ancião; 23 - papo, conversa; 24 embriagar-se; 25 - embriagar-se muito; também se diz encher a cara; 26 - inebriar-se com drogas ou psicotrópicos; estar suspenso no ar; 27 - corruptela de charuto; cigarro mais grosso de maconha; 28 - diminutivo de grinfa (ver no 10), broto, lolita; 29 - contando suas histórias, levando o seu papo; 30 - brigar fisicamente; 31 - prostitutas perambulantes, como se vê ao longo das praias; 32 - automóvel de preferência velho; 33 - ficar neurótico, ou muito perturbado mentalmente; 34 - idem, como se se tratasse de um rádio; 35 - sonoterapia, 36 pessoa de qualidade; o mesmo que bacana.

Smith-Corona versus Vat-69 Hoje eu colocarei pequenas lâmpadas em todos os lírios, e acenderei os campos da Terra para que a Lua, quando nasça, pense que está bêbada, e que o Infinito virou ao contrário, e vomite sobre o Mundo uma galáxia multicor. Depois me mandarei a Marte (mandar-me-ei a Marte)? num foguete interplanetário onde haja um único LP (e a quem decifrá-lo, em cartas à redação, eu, esfingético, o devorarei). E partirei para a ignorância, com Jayme Ovalle, Arletty e Katchaturian, pregando rabos de papel em futuros camelôs da República e desenhando a carvão sobre os muros brancos a fórmula da desagregação da rosa. Mas que não me exorcizem os clérigos, nem que prendam os "tiras", pois eu os perfurarei de semifusas com a minha guitarra automática, e se forem muitos, os debandarei com violentas granadas mias. Porque ou muito me engano ou tomarei um pileque de Arpège e beijarei novamente o rosto do poeta Carlos, e mergulharei no largo do Passeio Público para procurar meus óculos, enquanto o arquiteto Carlos arranca os cabelos, e depois reinventarei a TV com o desenhista Carlos, e terminarei dando um balão no compadre Carlos, de cujo mármore será feita a minha lápide.* E que não me venham dizer que é tarde, que não há divisas e Feu Mathias Pascal quer dizer que ele morreu. Tampouco vociferem contra o cravo, contra Tchaikovski e contra as panelas a jacto. Cabe de tudo neste mundo, filhos meus. Não é à toa que os homens do Nepal não querem nada com as mulheres de Cochabamba. Mais vale um mamão na mão que uma mão no pé. É ou não é? Purque si num fô eu vô contá pa Exu ti castigá fazê mandinga cantá maringá acarajé camocim sobral. E depois há o problema da transcendência do mito, da ubiquidade do pito e do werbundenshaft. Mas eu partirei, altivo e desdenhoso, e deixar-me-ei, esquivo, lá onde Zaratustra vivia rododendro as unhas de inveja de Prometeu. E cantarei a caraboo comendo carambolas no quintal de meu ex-avô. E porei borboletas em moringas, sapatos em geladeiras e faturas em cavernas. Abúlico, seguirei a rota de Livingstone para ir desaguar no Elephant Blanc. Beberei champanha em fêmures e erguerei um brinde à ordem nova. Nova, uma ova! Ordem era a ordem-unida com a moçada marchando firme ali pelo Ibirapuera um-dois-feijão-com-arroz o sargento Carlão gritando alto! pra comê umas melancias a gente se rindo cutuba! É Flórida. Em verdade vos digo que é Flórida, é mais que Flórida é Florença, e mais que Florença é Florianópolis. E antes que venha Floriano, reelejamos Deodoro. Ou dê, ou doro! E necalina de virivizera, senão eu chamo o Moringueira pra lhe passar uma rasteira, e eu sei que ele não se restringe de lhe riscar uma solinge desde o maneco até a esfinge. Tá bom? Porque a verdade é que é tudo mu-munha, MU-MUNHA! E não me venha com essa história de Crato

que eu sou é de Fortaleza, j'oviu? e conheço Gilberto, Antiógenes, e João Condé, j'oviu? E sou dono de boate em Maceió e de serviço de marinete em Feira de Sant'Ana e tenho mucho dinheiro para comprar até bomba de gasolina feito o Frederico C. esse homem bom cabra da peste com nome de navio, que quase que trouche Marlene mas trouche Sara Vagão, o danado do homem trouche, homem danado! Sabem que foi Saleuco? Scotus? Schutzenberger? Conhece Seleções? Qual é o seu I.Q.? Acaso dir-me-ia o que é, dir-me-ia, acaso, o que é diácope? É inútil, ó Revisor. Não é mesmo para entender. Remember Stanislaw. Não toqueis! Noli me tangere! Não é tangerina não que eu queria dizer, ouviu, Revisor? Montevideanamente vosso... * Infelizmente, a Morte não quis assim e deu prioridade a Carlos Echenique.

Sobre os degraus da morte (Na morte de Paul Éluard) Ainda tenho no ouvido tua voz grave, feita metálica pelo interurbano, a me dizer do México para Los Angeles: "Alors, mon vieux, qu'est-ce que tu attends? Viens, donc... " Tu me chamavas sem me conhecer, porque sabias que eu sou poeta, não tão grande quanto és, não tão bravo quanto foste, não tão necessário quanto serás; mas poeta, e poeta atento às necessidades do seu tempo. Tu me chamavas porque outros poetas, amigos nossos, te haviam falado de mim. Eras tu, Di Cavalcanti, Neruda, Guillén, a me chamarem, a me mandarem cartas escritas em bares, cheias de fraternidade e palavrões, a me falarem da beleza do México e do gosto da tequilla, a me cativarem para o vosso convívio boêmio e grave. E eu fui. Fui porque me "tutoiaste" sem me conhecer, nessa grande intimidade que só os poetas têm e só a poesia pode dar. Mas quando cheguei já havias partido para França, a compromissos urgentes. Conheci tua mulher, tua terceira mulher Dominique, que ficara por uns poucos dias mais, essa menina alta, de face lisa de campônia, que vivia ainda envolta na beleza das coisas que lhe deras e lhe disseras. Tinhas casado com ela dias antes, depois de um passeio louco em companhia de Siqueiros e sua mulher pelo México adentro. Ela só tinha na boca jovem um nome: o teu nome. Ela dizia Paul, Paul, Paul, Paul - com uma esperança simples no olhar. Seus braços traziam ainda as marcas de tuas carícias de homem. Tinhas dado um papagaio a ela, e ela o carregava alto no dedo e lhe falava de ti, dizia-lhe que breve estaríeis todos juntos na França, e que ele teria de ter juízo e não falar quando o poeta estivesse trabalhando, pois o poeta era um homem cheio de poemas a fazer. Ela lhe falava como a uma criança, a voz quente, e as penas da cabeça da ave eriçavam-se brandamente enquanto engrolava também doces absurdos. Tua morte - como a de Mário de Andrade, de angina pectoris - chegou-me, tal a dele, como um teor vazio e abstrato. Inútil pensar que morreste. Mário morreu por acaso? Não vem ele visitar-me sempre que estou sozinho, sempre que estou sofrendo, o amigo fiel? - e não pousa como dantes a grande mão no meu ombro e se deixa horas comigo a discutir os velhos assuntos sentidos, poesia, amizade, beleza, amor, morte, vida, arte, povo, mulher, bebida - e poesia ainda, e ainda poesia, e mais poesia? Loucura pensar que morreste. Sobre cada face viva, sobre cada coisa viva, sobre o coração da vida - escrevo o teu nome. Escrevo o teu nome sobre os degraus da morte, gravo-o a fogo sobre os seios da aurora, pinto-o em luz sobre tudo o que é triste, escuro e trágico. Tu escolheste. Tu foste claro, ardente, digno. Delicado até os ossos de ti mesmo - esses que restarão de tua bela figura de homem - tu enfrentaste a brutalidade dos carrascos. Hoje eu digo o teu nome e digo-o

sentindo-me melhor por ter participado do teu tempo humano. Teu nome é também Liberdade, Paul Éluard.

Sobre poesia Não têm sido poucas as tentativas de definir o que é poesia. Desde Platão e Aristóteles até os semânticos e concretistas modernos, insistem filósofos, críticos e mesmo os próprios poetas em dar uma definição da arte de se exprimir em versos, velha como a humanidade. Eu mesmo, em artigos e críticas que já vão longe, não me pude furtar à vaidade de fazer os meus mots de finesse em causa própria - coisa que hoje me parece senão irresponsável, pelo menos bastante literária. Um operário parte de um monte de tijolos sem significação especial senão serem tijolos para - sob a orientação de um construtor que por sua vez segue os cálculos de um engenheiro obediente ao projeto de um arquiteto - levantar uma casa. Um monte de tijolos é um monte de tijolos. Não existe nele beleza específica. Mas uma casa pode ser bela, se o projeto de um bom arquiteto tiver a estruturá-lo os cálculos de um bom engenheiro e a vigilância de um bom construtor no sentido do bom acabamento, por um bom operário, do trabalho em execução. Troquem-se tijolos por palavras, ponha-se o poeta, subjetivamente, na quádrupla função de arquiteto, engenheiro, construtor e operário, e aí tendes o que é poesia. A comparação pode parecer orgulhosa, do ponto de vista do poeta, mas, muito pelo contrário, ela me parece colocar a poesia em sua real posição diante das outras artes: a de verdadeira humildade. O material do poeta é a vida, e só a vida, com tudo o que ela tem de sórdido e sublime. Seu instrumento é a palavra. Sua função é a de ser expressão verbal rítmica ao mundo informe de sensações, sentimentos e pressentimentos dos outros com relação a tudo o que existe ou é passível de existência no mundo mágico da imaginação. Seu único dever é fazê-lo da maneira mais bela, simples e comunicativa possível, do contrário ele não será nunca um bom poeta, mas um mero lucubrador de versos. O material do poeta é a vida, dissemos. Por isso me parece que a poesia é a mais humilde das artes. E, como tal, a mais heróica, pois essa circunstância determina que o poeta constitua a lenha preferida para a lareira do alheio, embora o que se mostre de saída às visitas seja o quadro em cima dela, ou a escultura no saguão, ou o último long-playing em alta- fidelidade, ou a própria casa se ela for obra de um arquiteto de nome. E eu vos direi o porquê dessa atitude, de vez que não há nisso nenhum mistério, nem qualquer demérito para a poesia. É que a vida é para todos um fato cotidiano. Ela o é pela dinâmica mesma de suas contradições, pelo equilíbrio mesmo de seus polos contrários. O homem não poderia viver sob o sentimento permanente dessas contradições e desses contrários, que procura constantemente esquecer para poder mover a máquina do mundo, da qual é o único criador e obreiro, e para não perder a sua razão de ser dentro de uma natureza em que constitui ao mesmo tempo a nota mais bela e mais desarmônica. Ou melhor: para não perder a razão tout court. Mas para o poeta a vida é eterna. Ele vive no vórtice dessas contradições, no eixo desses contrários. Não viva ele assim, e transformar-se á certamente, dentro de um mundo em carne

viva, num jardinista, num floricultor de espécimes que, por mais belos sejam, pertencem antes a estufas que ao homem que vive nas ruas e nas casas. Isto é: pelo menos para mim. E não é outra a razão pela qual a poesia tem dado à história, dentro do quadro das artes, o maior, de longe o maior número de santos e de mártires. Pois, individualmente, o poeta é, ai dele, um ser em constante busca de absoluto e, socialmente, um permanente revoltado. Daí não haver por que estranhar o fato de ser a poesia, para efeitos domésticos, a filha pobre na família das artes, e um elemento de perturbação da ordem dentro da sociedade tal como está constituída. Diz-se que o poeta é um criador, ou melhor, um estruturador de línguas e, sendo assim, de civilizações. Homero, Virgílio, Dante, Chaucer, Shakespeare, Camões, os poetas anônimos do Cantar de Mío Cid vivem à base dessas afirmações. Pode ser. Mas para o burguês comum a poesia não é coisa que se possa trocar usualmente por dinheiro, pendurar na parede como um quadro, colocar num jardim como uma escultura, pôr num toca-discos como uma sinfonia, transportar para a tela como um conto, uma novela ou um romance, nem encenar, como um roteiro cinematográfico, um balé ou uma peça de teatro. Modigliani - que se fosse vivo seria multimilionário como Picasso - podia, na época em que morria de fome, trocar uma tela por um prato de comida: muitos artistas plásticos o fizeram antes e depois dele. Mas eu acho difícil que um poeta possa jamais conseguir o seu filé em troca de um soneto ou uma balada. Por isso me parece que a maior beleza dessa arte modesta e heróica seja a sua aparente inutilidade. Isso dá ao verdadeiro poeta forças para jamais se comprometer com os donos da vida. Seu único patrão é a própria vida: a vida dos homens em sua longa luta contra a natureza e contra si mesmos para se realizarem em amor e tranquilidade.

Suave amiga E eu pensarei: Que bom, nem é preciso respirar Cecília Meireles Não fui ao teu enterro, Suave Amiga. Os enterros, eliminei-os de minha vida para que possa lembrar vivos os meus mortos. Quando os vejo morrer, ou lhes velo os despojos, ou os acompanho em seu último e inútil passeio, eles se vão pouco a pouco fazendo imparticipantes; deixam-se frios e reservados como hóspedes de uma longínqua Marienbad. Sim, Suave Amiga, muito esnobes ficam os mortos para meu gosto. Prefiro pensá-los em viagem, capazes de inesperadamente surgir em minha imaginação, como sucediam no meu tempo; vivos itinerantes, sempre partindo e sempre de volta. Porque, assim como eu, todos os meus amigos viajam muito. Em algum lugar andarás agora, Suave Amiga, algum Tibete ou algum Nepal, a te moveres entre templos, levada pelo ímã do teu olhar de prata. Em algum lugar estará acontecendo o teu silêncio, a tua sombra, a tua dúvida. Ora deves parar em doce postura para ouvir de algum velho monge fórmulas mágicas capazes de imobilizar o tempo, dar voz às rosas, transformar tudo em distância; ora ensimesmar-te diante de horizontes infinitos até a evaporação total da carne feita bruma, feita nuvem, feitá pólen lunar: bruma, nuvem, pólen lunar habitados por imensos olhos verdilúcidos a caminharem para a grande treva fluida esgarçada de véus brancos. Suave Amiga, que saudade antiga... Saudade de quando entravas na sala de mesas toscas e, à tua chegada, nós nos iluminávamos; e o teu olhar fazia tudo verde, mas não verde-que-tequero-verde: verde-conta, verde-cecília, cristal verde. Era Manuel Bandeira, cujo beijo deves ainda guardar na face fria; era Ribeiro Couto, que nunca mais vai voltar de Belgrado e era eu nos meus 28 anos, investindo com a lança do Silêncio contra os cavaleiros do Som, em combate cinematográfico desigual; éramos nós, teus poetas, e eras tu, poeta nosso, poetanuvem, poeta-gaivota a pescar na névoa de teu mar os peixes luminosos de teus versos. Era outro dia, era outra fábula. De mesmo só havia uma grande vontade de chorar. Suave Amiga, que cantiga triste... Que triste história a não contar mais nunca, essa do tempo que passa, do teu vulto avançando na penumbra da sala para logo se perder, da luz de teu sorriso e da calma dos teus olhos sem paz... Não importa onde estejas agora, nos caminhos do Sinai tangendo estrelas, ou a dormir num aquário no fundo de um lago, a graça de teu vulto acompanha nossos passos. À noite, em silêncio, pensamos em ti, ó poeta-pássaro, e sentimos o roçagar inaudível de tuas asas. Um dia, quando menos esperares, estaremos a teu lado. E eu sei que, inclinando graciosamente o corpo sobre o abismo, vigiarás nossa escalada e, no último lance, nos darás a mão. E tu serás para nós, teus poetas, a adorável cicerone desse mundo sem som onde hoje vagas ao sabor da inexistência de tudo, na imensa disponibilidade

de quem não tem para onde ir. E nós talvez possamos escrever no grande quadro-negro incolor do espaço, como alunos aplicados, as primeiras palavras inexistentes da poesia que não foi.

Susana, flor de agosto A redação seria a coisa mais triste do mundo, não fosse a presença inesperada de Susana. Susana com seus 13 anos em flor, sua sábia beleza, seu doce e triste olhar castanho e sua perfeita desenvoltura encheram a redação de uma vida inesperada, fazendo-me por alguns instantes esquecer a mesquinhez do cotidiano. Ela entrou nos amplos espaços do meu tédio com passos graciosos de dançarina e ficou a girar por ali, balançando os cabelos longos sobre os ombros firmes de adolescente. Pus-me a adorá-la como nunca dantes, àquela menina a quem dei vida, e nunca senti mais forte, doce, secreto, o elo que a ela me prende. Talvez para os outros sua jovem figura trouxesse apenas o encanto uma flor em desabrochamento. Para mim, seu pai, trouxe uma sensação de indizível amor, de um triste, fatal e pacífico amor sem remédio. Revia-a pequenina em meus braços diante de um branco céu crepuscular olhar para o alto anunciando-me que as estrelinhas estavam acordando. Revi-a a me olhar do seu modo sério quando lhe contava histórias, longas histórias por vezes inventadas e que nunca eram bastantes para a sua imaginação insone. Revi-a crescendo diante de mim qual planta misteriosa, estirando o caule, distendendo os ramos numa ânsia saudável de crescer. Agora ali estava ela a dançar sua maravilhosa dança ritual só para mim, nos infinitos espaços do meu silêncio - Susana, uma vida tirada de mim, uma menina que eu fiz para amar com a maior doçura do mundo: Susana, flor de agosto, filha minha muito amada, para quem eu cantei meus mais sentidos cantos e sobre cujo pequenino rosto adormecido despetalei as mais lindas pétalas do meu carinho.

Toadinha de ano novo E foi-se o ano - ano bissexto arrenegado! - ano ruim, ano safado, ano assim nunca se viu! Levou Aníbal, levou Antônio Maria, levou tanta poesia com Cecília que partiu... Levou Ari e levou Álvaro Moreyra (nunca vi ano bissexto pra fazer tanta besteira!). E não contente - eta aninho contundente! - ainda deixa pra semente tanto estorvo pro Brasil!... Ano pior só fazendo de encomenda: depois da morte de Kennedy, até Kruchev caiu. De modo que se escutarem um barulhão, não se assustem, é nada não... foi a Bomba que explodiu. Mas já se foi, já se mandou... - valha-nos isso! - ano chato, ano difícil, ano contraproducente. E isso porque além de todo esse estrupício, deu um estranho panarício no dedo de muita gente. Pelo meu lado eu até não digo nada: me casei com a minha amada, fui com ela pra Paris. Fiz meus sambinhas, tenho uns planos de cinema e a Garota de lpanema me deixou muito feliz. E se a saúde não fizer nenhum forfait, este Ano Novo até que vai ser muito fagueiro: vou tacar peito, vou fazer muito poema, e a Garota de Ipanema vai ser mãe em fevereiro. Pois tem um samba feito por mim e por Baden que - não sei, vocês aguardem... - tem um balanço legal; e que se for trabalhado pelo Ciro, aposto vai ser um tiro: vai estourar no carnaval! Pois é, meus filhos, aí está 65... Vai entar tudo nos trilhos, como diz Roberto Campos. Se não entrar, resta a Barra da Tijuca e uma garrafa de uca enquanto se pescam uns pampos. Resta saber que no Quarto Centenário o carioca, esse otário, vai ter água pra chuchu. Pois tem morrido um bocado de operário pra aliviar nosso calvário com a adutora do Guandu. Resta pensar na folia de Rei Momo - carnaval de quem não come resolve qualquer problema. Quem ficar vivo, segundo a lei do mais forte, esteve mais perto da morte que mocinho de cinema. De qualquer modo resta o tomara-que-seja; resta o que a gente deseja, como diz o amigo Guima. E a esperança é uma mulher tão à mão, que é até ingratidão a gente não dar-lhe em cima. Por isso, amigos, que este ano recém-nato, ao contrário do transacto, lhes chegue de fraldas limpas; e vocês tenham um milhão de coisas boas e possam ver suas pessoas num espelho mais bonito. Que vocês tenham mais Jobim e mais Caymmi; mais paixão e menos crime; mais Zé Kéti e Opinião. E Zicartola continue sua escola com essa branquinha pachola que se chama Nara Leão. Pois a verdade é que tudo se renova: bossa velha fica nova, o que eu acho muito bem. Só não renova quem já está com o pé na cova, quem não cria e não desova, quem não gosta de ninguém. Que vocês tenham mais Drummond e mais Bandeira, e eles deixem de leseira e venham mais para a rua. E que Schmidt, em lugar de dar palpite, venda com mais apetite no Disco da

velha Lua. Que João Gilberto continue longe e perto, cantando pelo deserto seu canto de solidão. Canto que vende para a causa brasileira muito mais que o Bemoreira, o Rei da Voz e o Dragão. Que a linda Astrud nos mande mais amiúde, de Nova York ou Hollywood, os ecos de sua voz; voz que faz mais por nossos pobres Cr$ do que os trustes estrangeiros que proliferam entre nós. Que esses meninos tão bons do Cinema Novo mostrem mais ao nosso povo sua força e seu poder; e que através da mensagem de seus filmes evitem maiores crimes que inda podem acontecer. Que a Bardotzinha volte sempre para Búzios e quando queira use e abuse dos nossos encantos mil: ou sejam os mares, os solstícios, os luares, os poentes e os madrugares que dão sopa no Brasil. Porque em matéria de exploração estrangeira, é a única verdadeira, que toma mas também dá. E que ela seja ao lado de seu Zaguri um truste que sempre dure na terra do sabiá. Que Pixinguinha, já curado seu enfarte, nos dê mais de sua arte de sambista e de "chorão". E essa figura chamada Ciro Monteiro balance o Brasil inteiro com a voz do seu coração. Que nasçam poemas, nasçam canções, nasçam filhos; e se terminem os exílios e se exerça mais perdão. E brotem flores das dragonas militares e não mais se assustem os lares com esses tiros de canhão. Que todos se unam, se protejam, apertem os cintos; se reúnam nos recintos com esperança brasileira. E que se dê de comer a quem não come, porque o povo passa fome: e a Fome é má conselheira... Que o Rei Pelé faça gols por toda parte; e Di Cavalcanti, arte; e o Congresso, leis honestas. E Rubem Braga escreva crônicas lindas; e o Poder crie mais Dimas do que tem criado Gestas. E - que diabo! - que eles voltem, meus pareceiros... Estão todos no estrangeiro. Que fazem vocês aí? Voltem depressa, venham logo para casa, que é pra gente mandar brasa ao som do Quarteto em Cy. E finalmente que eu, pequeno mas decente, siga sempre para a frente com meu amor ao meu lado. E ela me dê no mais próximo presente, o presente de um futuro sem as dores do passado.

Um abraço em Pelé Eu ainda não tive o prazer de lhe ser apresentado, meu caro Pelé, mas agora, com o fato de termos sido condecorados juntos pelo governo de França - você no grau de Cavaleiro e eu no de Oficial: e mais justo me pareceria o contrário - vamos certamente nos conhecer e tornar amigos. Ninguém mais que você merece tão alta distinção, sobretudo por ter sido conferida espontaneamente - pois ninguém mais que você tem levado o nome do Brasil para fora de nossas fronteiras. Da Sibéria à Patagônia todo mundo conhece Pelé; e eu estou certo de que você entraria fácil na lista das dez personalidades mais famosas de nossos dias. Não posso disfarçar o orgulho que a condecoração me causa, embora seja, de natureza, avesso a honrarias; e orgulho tanto maior porque nela estamos juntos: preto e branco (as cores do meu Botafogo!) e também as cores irmãs de nossa integração racial. Sim, caro Pelé, nós representamos, em face da comenda que nos é conferida, o Brasil racialmente integrado, o Brasil sem ódio e sem complexos, o Brasil que olha para o futuro sem medo porque, apesar dos pesares, é bom de mulher, bom de música, bom de poesia, bom de pintura, bom de arquitetura e bom de bola. Particularmente por isso considero-me feliz de estar a seu lado no momento em que nos colocarem no peito a condecoração. Que você tenha sido distinguido pela Ordem Nacional do Mérito da França nada me parece mais natural. A França sempre deu um alto valor ao gênio, e você, meu grande Pelé, é um gênio completo, porque o seu futebol representa um reflexo imediato de sua cabeça nos seus pés. Eu não sou gênio, não. Eu tenho que pensar um bocado para que a mão transmita direito o que a cabeça lucubrou. Meus gols são mais raros que os seus. Você é com justa razão chamado o Rei. Quanto a mim, que rei sou eu? Mas nada disso turva a satisfação que sinto em ser o seu Coutinho nesta nova investida do Brasil na área internacional. Parabéns, meu caro Pelé. Parabéns e o melhor abraço aqui do seu irmãozinho!

Um taradinho de quatrocentos anos Caro Deus: Não foi sem muito refletir que resolvi mandar-lhe esta, mormente agora que Você está aí a braços com o velho Churchill, de cuja resposta a um jornalista ainda me lembro, já lá vão dez anos, quando lhe foi perguntado se estava pronto para enfrentar o seu Criador: estava, mas não sabia se o seu Criador estava pronto para enfrentá-lo, a ele, Churchill. Consta, além disso, que Você está planejando grandes reformas no seu serviço de relações públicas... Mas eu, sinceramente, não podia esperar mais, porque na minha qualidade de poeta - e carioca! sinto-me de certa maneira responsável pelo que está acontecendo. Veja, pois, se Você mete aí um litro de uísque no velho Churchill e aproveita para pensar um instantinho no problema que lhe vou submeter, no sentido não sei se de dar providências - o que contraria o seu modo usual de agir desde que Você mandou seu Filho aqui por estas paragens; de, quem sabe premunir-me sobre o que deve ser feito relativamente à educação do meu jovem Rio, que acaba de completar quatrocentos janeiros, mas que o mais das vezes porta-se como se tivesse quarenta. Eu estou ficando grisalho de pensar no assunto, pois nunca vi menino ao mesmo ternpo tão adorável, e se me permite a palavra chula, taradinho. Taradinho mesmo. Que ele é bom menino, disso não resta a menor dúvida: sem falar que está ficando cada vez mais lindo. Os amigos estrangeiros de passagem ficam encantados com as suas graças naturais e o seu modo de ser, independente de qualquer padrão atualmente conhecido. É ele de uma espontaneidade que a gente não sabe se louvar ou censurar. Discipliná-la é fazê-lo perder em encanto. Dar-lhe corda é submeter-se aos mais graves imprevistos. A sua religiosidade, por exemplo... Sabia, prezado Deus, que o meu Rio vem se afastando gradativamente do sagrado culto, indo cada vez menos à missa e cada vez mais a terreiros de macumba, onde se entrega à prática da magia negra, substituindo o seu professor por babalaôs e não sei mais quantos, e os cantos litúrgicos por pontos de macumba e cantos de candomblé, que, diga-se de passagem, são bem mais bonitos que os primeiros. Não sei se Você, com todas as suas ocupações, teve tempo de dar uma olhada para a orla marítima do estado da Guanabara, no último dia do ano. Era de ver o número de devotos de Iemanjá a penetrar nas águas como doidos, jogando flores e acendendo velas que, pela quantidade, davam a impressão de um imenso colar luminoso ao longo das praias, a ponto de criar um lindo efeito para os passageiros das grandes linhas internacionais aéreas que chegavam. Ora, é indubitável que isso vem criando um interesse turístico crescente pelo meu jovem Rio, importando em considerável entrada de divisas: o que faz com que as autoridades, como se diz, fechem os olhos ao assunto. Trata-se, ao mesmo tempo, de um adolescente imprevisível. Às vezes toma-se de súbitos fervores altruísticos e não para de subir ladeiras para misturar-se a mutirões de trabalho com os favelados, passando dias a urbanizar e higienizar favelas por aí tudo. Queria só que Você

visse o estado a que chega, imundo de lama e detritos: uma coisa de se ter que tapar as narinas. E de repente, como outro dia, ao regressar de uma dessas jornadas, violou e matou uma mulher, jogando-lhe depois o corpo a um córrego. E aí parte para terríveis períodos de cólera e sangue, espancando, assaltando e matando gente a esmo, especialmente na Zona Norte onde há menos vigilância. Depois recolhe-se como um santinho e faz planos de abrir escolas, construir casas populares (é muito dado à arquitetura, o meu jovem Rio!) e rasgar túneis para facilitar o trânsito da cidade: mas sem criar condições de trabalho para os operários (geralmente os paus-de-arara que, como agora se diz, dão sopa por aí) que morrem às dezenas. É realmente um caso muito especial... O menino faz tudo de um modo atabalhoado, alternando períodos construtivos com outros de destruição, a dar prova de uma personalidade fortemente esquizofrênica. Na semana passada, por exemplo, deu-se um caso que eu, aqui entre nós, acho engrassadíssimo; e embora tivesse ameaçado o menino com umas palmadas, se ele reincidir, tive que esconder-me após o ralho para poder rir à vontade. Imagine, caro Deus, que um guarda ao passar perto de um cano de esgoto abandonado, ali pela zona do Aterro, ouviu sair de dentro dele uma voz que dizia insistentemente estas palavras: "Rendes ap! Rendes ap!" Chegou-se e deparou com o meu jovem Rio a ensinar a um bando de marginais como assaltar turistas americanos, agora nas pportunidades do IV Centenário. "Rendes ap" nada mais é que a pronúncia de hands up (mãos ao alto), com que os gangsters do nosso poderoso irmão do norte limpam suas vítimas (e também, é claro, os do Império Britânico). E sabe a explicação que o menino deu ao Distrito? Que com a crise econômica, não está mais dando pé assaltar o elemento nacional. O negócio é mesmo achacar os turistas portadores de dólares. Agora me diga, caro Deus: Você já ouviu falar numa coisa destas? Deixo o caso em suas mãos. Eu, francamente, entreguei a rapadura. Mande-me, por favor, e urgente, uma palavra, nem que seja através do Alziro Zarur. E veja se este ano, em homenagem ao quarto centenário do menino, Você... fatura um pouco menos do que o ano passado, com relação, aos amigos da gente. Poxa!... a morte de Antônio Maria, eu sinceramente achei sujeira. E, é lógico, o que você puder fazer nesse sentido pelo poeta aqui, será devidamente apreciado... De antemão grato, aqui fico o Vinícius

Uma mulher chamada guitarra Um dia, casualmente, eu disse a um amigo que a guitarra, ou violão, era "a música em forma de mulher". A frase o encantou e ele a andou espalhando como se ela constituísse o que os franceses chamam un mot d'esprit. Pesa-me ponderar que ela não quer ser nada disso; é, melhor, a pura verdade dos fatos. O violão é não só a música (com todas as suas possibilidades orquestrais latentes) em forma de mulher, como, de todos os instrumentos musicais que se inspiram na forma feminina - viola, violino, bandolim, violoncelo, contrabaixo - o único que representa a mulher ideal: nem grande, nem pequena; de pescoço alongado, ombros redondos e suaves, cintura fina e ancas plenas; cultivada mas sem jactância; relutante em exibir-se, a não ser pela mão daquele a quem ama; atenta e obediente ao seu amado, mas sem perda de caráter e dignidade; e, na intimidade, terna, sábia e apaixonada. Há mulheres-violino, mulheres-violoncelo e até mulheres- contrabaixo. Mas como recusam-se a estabelecer aquela íntima relação que o violão oferece; como negam-se a se deixar cantar preferindo tornar-se objeto de solos ou partes orquestrais; como respondem mal ao contato dos dedos para se deixar vibrar, em beneficio de agentes excitantes como arcos e palhetas, serão sempre preteridas, no final, pelas mulheres-violão, que um homem pode, sempre que quer, ter carinhosamente em seus braços e com ela passar horas de maravilhoso isolamento, sem necessidade, seja de tê-la em posições pouco cristãs, como acontece com os violoncelos, seja de estar obrigatoriamente de pé diante delas, como se dá com os contrabaixos. Mesmo uma mulher-bandolim (vale dizer: um bandolim), se não encontrar um Jacob pela frente, está roubada. Sua voz é por demais estrídula para que se a suporte além de meia hora. E é nisso que a guitarra, ou violão (vale dizer: a mulher-violão), leva todas as vantagens. Nas mãos de um Segovia, de um Barrios, de um Sanz de la Mazza, de um Bonfá, de um Baden Powell, pode brilhar tão bem em sociedade quanto um violino nas mãos de um Oistrakh ou um violoncelo nas mãos de um Casals. Enquanto que aqueles instrumentos dificilmente poderão atingir a pungência ou a bossa peculiares que um violão pode ter, quer tocado canhestramente por um Jayme Ovalle ou um Manuel Bandeira, quer "passado na cara" por um João Gilberto ou mesmo o crioulo Zé-com-Fome, da Favela do Esqueleto. Divino, delicioso instrumento que se casa tão bem com o amor e tudo o que, nos instantes mais belos da natureza, induz ao maravilhoso abandono! E não é à toa que um dos seus mais antigos ascendentes se chama viola d'amore, como a prenunciar o doce fenômeno de tantos corações diariamente feridos pelo melodioso acento de suas cordas... Até na maneira de ser tocado - contra o peito - lembra a mulher que se aninha nos braços do seu amado e, sem dizer-lhe nada, parece suplicar com beijos e carinhos que ele a tome toda, faça-a vibrar no mais fundo de si mesma, e a ame acima de tudo, pois do contrário ela não poderá ser nunca

totalmente sua. Ponha-se num céu alto uma Lua tranquila. Pede ela um contrabaixo? Nunca! Um violoncelo? Talvez, mas só se por trás dele houvesse um Casals. Um bandolim? Nem por sombra! Um bandolim, com seu tremolos, lhe perturbaria o luminoso êxtase. E o que pede então (direis) uma Lua tranquila num céu alto? E eu vos responderei: um violão. Pois dentre os instrumentos musicais criados pela mão do homem, só o violão é capaz de ouvir e de entender a Lua.

Uma viola-de-amor Deem ao homem uma viola-de-amor e façam-no cantar um canto assim... "Sairei de mim mesmo e irei ao encontro das flores humildes dos caminhos e das lentas aves dos crepúsculos, cujo pipilo suspende na paisagem uma lágrima que nunca se derrama. Sairei de mim mesmo em busca de mim mesmo, em busca de minha imagem perdida nos abismos do desespero, minha imagem de cuja face já não me lembro mais... "Sairei de mim mesmo em busca das melodias esquecidas na memória, em busca dos instantes de total abandono e beleza, em busca dos milagres ainda não acontecidos... "Que eu seja novamente aquele que ergue do chão o pássaro ferido e, no calor de sua mão, dá-lhe de morrer em paz; aquele que, em sua eterna peregrinação em busca da vida, ajuda o carnponês a consertar a roda do seu carro... "Que me seja dado, em minhas andanças, restituir a cada ser humano o consolo de chorar dias de lágrimas; e depois levá-lo lá onde existe a luz e chorar eu próprio ante a beleza do seu pranto ao sol... "Possa eu mirar novamente os pélagos e compreendê-los; atravessar os desertos e amá-los. Possa eu deitar-me à noite na areia das praias e manter com as estrelas em delírio o colóquio da eternidade. Possa eu voltar a ser aquele que não teme ficar só consigo mesmo, numa dura solidão sem deliquescência... "Bem haja o meu irmão no meu caminho, com as suas úlceras à mostra, que a ele eu hei de curar e dar abrigo no meu peito, Bem haja no meu caminho a dor do meu semelhante, que a ela estarei desvelado e atento... "Seja a mulher a mãe, a esposa, a amante, a filha, a bem-amada do meu coração; possa eu amá-la e respeitá-la, dar-lhe filhos e silêncios. Possa eu coroá-la de folhas da primavera em seu nascimento, seu conúbio e sua morte. Tenha eu no meu pensamento a ideia constante de querê-la e lhe prestar serviço... "Que o meu rosto reflita nos espelhos um olhar doce e tranquilo, mesmo no mais fundo sofrimento; e que eu não me esqueça nunca que devo estar constantemente em guarda de mim mesmo, para que sejam humanos e dignos o meu orgulho e a minha humildade, e para eu cresça sempre no sentido de Tempo... "Pois o meu coração está antes de tudo com os que têm menos do que eu, e com os que, tendo mais do que eu, nada têm. Pois o meu coração está com a ovelha e não com o lobo; com o condenado e não com o carrasco� "E que este seja o meu canto e o escutem os surdos de carinho e de piedade; e que ele vibre com um sino nos ouvidos dos falsos apóstolos dos falsos apóstatas; pois eu sou o homem, ser de poesia, portador do segredo e sua incomunicabilidade - e o meu largo canto vibra acima dos ócios e ressentimentos, das intrigas e vinganças, nos espaços infinitos...". Deem ao homem uma viola-de-amor e façam-no cantar um canto assim, que sua voz está

rouca de tanto insulto inútil e seu coração triste, de tanta vã mentira que lhe ensinaram.

Velha mesa É uma velha mesa esta sobre a qual bato hoje a minha crônica. Pouco mais de um metro por uns quarenta centímetros de largura. Móvel digno, com duas gavetas laterais, um verniz escuro cobria em outros tempos seu jacarandá. Às vezes me dá vontade de parar de escrever, descansar minha cabeça no seu duro regaço e ficar lembrando a infância longínqua. É uma velha querida mesa. Foi lixada para parecer mais nova, mas mostra ainda por toda parte as rugas que lhe causaram a minha inquietação juvenil. O canivete entalhou fundo em sua carne fibrosa e ainda é possível distinguir nomes de antigas amadas, quase esvanecidos. Lembro de que aqui à direita ficava o teu nome pequeno e louro, ó minha namorada de oito anos. Na ponta esquerda, lá onde existe um nódulo escuro, havia uma cruz assim: A AMOR O R - como a prenunciar um eterno suplício. A palavra Poesia gravada em caracteres largos, não mais se vê, mas o pequeno violão desenhado a gilete, com uma clave de sol ao lado, resistiu ao carpinteiro. Foi esta a única verdadeira mesa de trabalho que jamais tive. Na gaveta da direita guardava os versos de meu pai, minha primeira e maior influência. Meus cadernos de estudo, empilhava-os à esquerda - ah, cadernos meus de geografia com mapas tão cuidadosamente copiados! e do outro lado alinhava o grande caderno preto da Prefeitura, onde passava a limpo meus primeiros versos. A página de guarda mostrava, escrito a tinta, o título Foederis arca - "A arca da fé" - e levava, se não me engano, epígrafe de Vigny e um gosto à reticência... J'écris... pourquoi?... Je ne sais... parce qu'ilfaut..

Nessa mesa passou horas infindávéis de amor e poesia um menino com o meu rosto, labutando no verso uma forma ainda hoje não alcançada. E foi nela também que, uma madrugada, a suar sangue, um poetinha de 18 anos desencantou de uma página em branco o seu primeiro poema original - emoção tão grande como talvez nunca nenhuma. Doce rever-te, velha mesa, depois de tanto, tanto tempo. Como a ti, andaram me polindo. Há também em mim nomes e símbolos quase indistinguíveis sob a lixa do tempo. Mas não és tu a mesa da infância e da juventude - aquela sobre que gotejaram, no pungente labor do verso e na angústia do amor sozinho, as primeiras lágrimas de um homem que nada sabia e nada sabe senão amar a mulher?

Velho amigo Conto de Natal Fui eu próprio levar o peru - o meu primeiro! - para a sala, onde me vivaram devidamente. Vieram todos ver, entre goladas de champanha e interjeições de fome. Era, na realidade, um lindo bicho, e podia-se quase sentir sua maciez através da crosta dourada que o forno trabalha em tempo rigorosamente proporcional ao peso. Uma beleza! Eu não cabia em mim de orgulho: muito mais do que se se tratasse de um poema ou uma canção. Meu primeiro peru poxa! - e ainda mais para gourmets da categoria de Jorgito Chaves, Celso de Souza e Silva, Gilberto Bandeira de Melo, David Silveira da Mota, Geraldo Silos e Almeida Sales... Isso no meu apartamento em Paris, no Natal de 1963. Um pouco mais cedo, durante o cozimento da ave, meu parceiro Baden Powell sobreviera e ali mesmo, ao pé do fogão, balançara-me um samba também saidinho do forno; um sambão todo alegria, de bocarra aberta e braços para cima. Enquanto trançávamos entre a cozinha e a sala, dando as últimas providências, a letra foi saindo... Formosa, não faz assim Carinho não é ruim Mulher que nega Não sabe não... Tem uma coisa de menos No seu coração!

E assim foi ele cantado por todos os circunstantes, durante oito horas e dez garrafas do mais puro escocês. Quando, já madrugadinha, a casa serenou, Baden e eu nos sentamos com as nossas mulheres e nos deixamos a lembrar Natais passados. Foi quando ele, pondo-se sério, perguntou-me se eu não queria pôr letra numa canção que fizera para seu pai morto um Natal antes. Havia-se imposto o dever - disse-me - desse encontro musical com a morte do seu "velhinho". A canção era linda e nos emocionou a todos fundamente. Já agora o ambiente tinha mudado. A casa não era mais a hospedeira de uma alegria que partira, mas de uma saudade que tinha chegado: uma saudade doída, feita dessa indefinível angústia de meninice, quando cada sentimento é uma paixão e cada coisa que se passa, um acontecimento extraordinário. Peguei papel e lápis e, os olhos velados de lágrimas, comecei a tentar... Neste dia de Natal Em que já não estás comigo Ó deixa-me chorar Ao relembrar a valsa De um Natal antigo... Ao soar da velha hora Eu te via, velho amigo, Entrar bem devagar Me beijar, e ir chorando embora...

...eu fechava os olhos, fingindo não o ver, enquanto ele se aproximava bem de mansinho e pendurava o grande pé de meia de filó vermelho, cheio de brinquedos, na cabeceira de minha cama, e empulhava no chão, por ordem de tamanho, os embrulhos entre os quais eu sabia estar - ah, prazer divino! - o Almanaque do Tico Tico com milhões de coisas a recortar e armar; e logo, o coração aos pulos, eu via através de uma frincha de olho seu rosto vir se agigantando sobre o meu, vir se agigantando, até uma incomensurável imagem, a imagem do amor paterno, o amor que gostaria de dar tudo sem poder: toma esse navio de verdade! toma esse trem de ferro da Central! toma essa ponte levadiça! toma esse automóvel de corrida! toma esse edificio! toma o que você quiser! - e depois deixar um beijo leve em minha face, um beijo como o pedido de perdão, de um pai que de seu só tinha o nome; e uma vez, esquecer também uma lágrima que lhe gotejou na carícia e ficou a tremular em minha pele como a incerta gota de orvalho sobre a folha nova, e da qual escorreu com a instantânea lentidão das coisas do Infinito, a morte das estrelas, o nascimento das galáxias, as viagens da luz... Meu velho amigo Por que foste embora... Desde que tu partiste O Natal é triste Triste e sem aurora...

Naquela sala, em que a madrugada começava a filtrar, dois mortos de pé consideravam com espanto dois homens que não podiam cantar, de tal modo as lágrimas se lhes corriam, tão convulsivo se ia fazendo seu pranto de órfãos, de meninos sem Papai Noel. E mais surpresos se puseram ainda ao ver que nos abraçávamos todos, nós homens porque não tínhamos mais pai, nossas mulheres só de pensar que os poderiam perder um dia - e que conosco choravam a mesa, as cadeiras, as garrafas vazias e até os restos do peru de Natal, do qual repontavam ossos brancos. E tanto que, chocados, se foram retirando discretamente, a conversar em voz baixa - certamente sobre a frouxidão desses filhos modernos que nem sabem mais aguentar a tristeza e saudade específicas de uma noite de Natal.

001 Hoje eu acordei possuído da maior ternura por Otto Lara Resente. Otto tem sido para mim, ao longo de vinte anos de convívio, um amigo exemplar: desses que a pessoa não sabe bem o que fez para merecer. Mais habituado a dar que receber, Otto usualmente se omite no convívio, recorrendo à facilidade verbal, ao gênio que tem para a frase cunhada como uma espécie de cortina- de- palavras protetora de seu amor, que pratica à socapa, com malícia e disfarce bem mineiros. Mas que é um grande amoroso, disto não haja dúvida. E daí o segredo da imantação que exerce sobre seus amigos, que acabam todos escravizados à sua escravidão. Eu dificilmente posso passar mais de dois dias sem lhe telefonar. Quando estou no estrangeiro, é das ausências que mais me pesam. Quantas vezes já não me disse, a perambular triste e sozinho pelos lugares mais esdrúxulos, o que não daria para ouvir, súbito, a meu lado, o seu passo curto e apressado e suas palavras bem escandidas; ou o refrão que em geral canta, com afetação gutural, quando me vê e que passa a persegui-lo horas a fio: Professor de Ciências Naturais É o Vinícius de Moares!

Há amigos a quem querer bem se vai tornando, à medida, um sacrifício, de tal modo eles "bagunçam o nosso coreto", como se, diz por aí. Amigos que impõem a própria desarmonia, violentam a nossa intimidade, nos agridem quando bebem e estão sempre a nos pedir prestações de contas. São os tais que a gente gostaria de fazer "virar fada" quando se entra numa boate, porque o mínimo que pode acontecer é se brigar com a mesa ao lado. Eles têm o dom de provocar o assunto mais explosivo para o nosso convidado, ou assumem o direito de achar que as moças que estão conosco adoram ouvir palavrões ou ser manuseadas. E quando já chatearam ao máximo, partem ofendidos, sem pagar a conta, depois de nos fazer ver que estamos ficando "muito importantes" ou "não somos mais o mesmo". Outros, pelo contrário, como Otto parecem estar sempre esticando uma mãozinha disfarçada para nos ajudar a carregar a nossa cruz. São seres de bons fluidos, que, quando a gente encontra, o dia melhora. Eles têm o dom da palavra certa no momento certo, e mesmo que tomem o maior dos pileques jamais se tornarão motivo de desarmonia. Sabem respeitar ao máximo a liberdade alheia, a verdade alheia e a mulher alheia. E não é outra a razão pela qual Otto Lara Resende tem tantos "deslumbrados", dos quais o mais conhecido é sem dúvida seu maior "promotor", o teatrólogo Nelson Rodrigues. Eu, às vezes, conhecendo-lhe os horários, sigo-o em pensamento pela cidade - de casa para a Procuradoria, da Procuradoria para o jornal, do jornal para casa onde entra tarde e cansado. Como numa panorâmica tirada do alto, vejo-o atravessar a avenida Rio Branco, acompanhado de um ou outro amigo jornalista, a discutir editoriais em função do momento político: um homem sempre por dentro de todos os assuntos graças à confiança que desfruta entre os

poderosos e da qual nunca tira proveito próprio. Lá vai ele em seu passinho ligeiro, uma figura meio gauche na qual os ternos não assentam bem, as calças perdem rapidamente o vinco e as pontas do colarinho viram. Usa o olhar baixo, preso ao bico dos sapatos e não gosta de demorá-lo demasiado sobre o de seu interlocutor: mas não, como em seu conterrâneo Carlos Drummond de Andrade, por tristeza, orgulho e alheamento ao que na vida é porosidade e comunicação - e que conferem à poesia do grande itabirano a sua singular dignidade; antes por medo de pôr-se a gritar de repente que já não aguenta de tanto amar os outros e não sabe como dar o seu amor, que transforma em serviços prestados: um empreguinho aqui; uma intervenção junto a um banco ali; um pronunciamento bem escrito para um líder de letras canhestras; uma visita oportuna a um casal amigo em vias de rompimento; uma paciência inesgotável para as confissões e explicações de temperamento dos que andam perdidos nos labirintos da personalidade. Otto chega ao auge o que para mim é motivo de maior admiração e inveja - de levar, mesmo sem interesse, ao futebol no Maracanã, em pleno verão carioca, seus filhos André e Bruno: feito para mim só comparável à travessia do Kon-Tiki. Otimo marido, ótimo filho, ótimo pai, ótimo amigo, ótimo profissional, ótimo tudo - que mais dizer dessa no entanto misteriosíssima figura chamada Otto Lara Resende, ou melhor, o agente 001? Em fase de "cigarra", como agora, nunca ninguém poderá dizer tê-lo visto cantar sebe alheia. Mas ninguém tampouco poderá jamais saber o que está realmente planejando. Influindo no problema da sucessão presidencial? Bem possível. Nos destinos da ONU? Quase certo. O que vai fazer, por exemplo, quando, em meio à conversa mais animada, ausenta-se subitamente e volta meia hora depois, de cara esperta? O que fabrica no banheiro, onde passa a maior parte do seu dia? Estará ele em vias de descobrir o filtro da eterna amizade?

A alegre década de 20 Suponhamos, leitor, que você acorde um dia quatro décadas atrás, no período entre 1920 e 1930 que sucedeu à Primeira Grande Guerra e onde a disponibilidade e falta de critério eram gerais: os "Gay Twenties", como ficou conhecida nos Estados Unidos a era do jazz, tão fabulosamente vivida e narrada pelo romancista Scott Fitzgerald. Suponhamos que você tivesse uma amiga, ou melhor, uma "amiguinha" rica e quisesse fazer um programa com ela. Iria encontrá-la em casa metida num peignoir de cetim ciré, sandálias de pompom, piteira em riste a queimar um Abdoula, envolta em ondas de Mitsoukou ou Tabac Blond, do perfumista Caron. Ela estaria, naturalmente, num divã coberto de almofadas, e na testa da jovem "melindrosa", você notaria um "pega-rapaz", ou antes, uma "belezinha", feita com uns poucos fios de cabelo. Você ficaria, leitor amigo, como é natural, entre surpreso e encantado, sobretudo quando notasse que, ao sorrir, a sua diva mordia a pontinha da língua num tique faceiro. E mais encantado ainda quando, ao pedir um uísque, visse a empregada voltar com um coquetel rose, delicada beberagem à tona da qual estaria boiando, qual leve batel, uma pétala de rosa... Depois de tomar uns oitenta desses, você ouviria a sua amiguinha adverti-lo contra os perigos de uma "carraspana". Mas qual! Estando habituado ao uísque falsificado da maioria das nossas boates e bares, você nem estaria sentindo o anunciado "pifão". Pelo contrário. Animadíssimo, colocaria uma "chapa" no gramofone e tiraria sua amiguinha para dançar um ragtime. Em seguida, mirando ao espelho a sua elegância - calça estreita de flanela, paletó azul-marinho cintado, camisa listada, gravata borboleta, sapato camouflage e chapéu de palhinha você, com uma graciosa pirueta de satisfação, convidaria sua amiguinha para uma saída: - Vamos ao chá dançante do Palace Hotel? E ela, com um muxoxo: - Não, hoje eu preferia muito ir ver o Bataclan. Dizern que é "supimpa". Dado a coisas mais finas que o vaudeville ou o teatro de revista, você ainda tentaria convencer o seu "pedaço de mau caminho" a ir, em vez, à festa do Fluminense ouvir os Corsarinos e sua jazz band: um negócio do "balacobaco". Mas a menina não estava nada para coisas muito formais. Em vista do quê, você, leitor, estirando-se numa otomana, à luz do abajur cor bleu (como bem caraterizava o fox-trot "Hindustão") você pegaria com um gesto displicente os poemas de Hermes Fontes, ou o La Garçonne de Victor Margueritte - e perdido entre bibelôs, esperaria que sua amiguinha se arrumasse "com uma rapidez de Fregoli", conforme anunciara, referindose ao famoso transformista. Mas essa arrumação tomaria tempo. Primeiro, desfazer os papelotes e desbastar a gaforinha - coisa que levava usualmente uma meia hora. Depois, enfiar as meias fumées, os sapatos

mordorés, o chapéu canotier e passar no pescoço o renard argenté (uma magra raposinha a morder o próprio rabo). Só então a sua linda vigarista, depois de um último retoque ao espelho da entrada, iria à vida com você para diverti-lo um pouco à custa de uns magros "caraminguás". De volta ao tempo presente, leitor, você acharia que não era má a ideia de uma saída para ir ao 36 ver o Caymmi, ou ao Sacha's para gozar do refrigerado. Aí você passaria a mão no telefone, discaria um número, e quando a voz feminina lhe respondesse do outro lado você diria assim: - Como é, ó vigarista? Mete aí um bom pano em cima de ti e vamos enfrentar um escurinho musicado. Não, nada de botar banca pra cima de mim. Eu te manjo. É isso mesmo. Vamos lá tirar a ficha da moçada. A gaita anda curta para o scotch mas dá para molhar a garganta com uma "loura". Menina, hoje estou enxugando o fino! O couvert já está conversado. Você sabe que o papai mora no assunto. Taca peito.* * O A. se julga no dever de advertir, com relação à gíria empregada no último parágrafo, que esta crônica data de 1953.

A arte de ser velho É curioso como, com o avançar dos anos e o aproximar da morte, vão os homens fechando portas atrás de si, numa espécie de pudor de que o vejam enfrentar a velhice que se aproxima. Pelo menos entre nós, latinos da América, e sobretudo, do Brasil. E talvez seja melhor assim; pois se esse sentimento nos subtrai em vida, no sentido de seu aproveitamento no tempo, evita-nos incorrer em desfrutes de que não está isenta, por exemplo, a ancianidade entre alguns povos europeus e de alhures. Não estou querendo dizer com isso que todos os nossos velhinhos sejam nenhuma flor que se cheire. Temo-los tão pilantras como não importa onde, e com a agravante de praticarem seus malfeitos com menos ingenuidade. Mas, como coletividade, não há dúvida que os velhinhos brasileiros têm mais compostura que a maioria da velhorra internacional (tirante, é claro, a China), embora entreguem mais depressa a rapadura. Talvez nem seja compostura; talvez seja esse pudor de que falávamos acima, de se mostrarem em sua decadência, misturado ao muito frequente sentimento de não terem aproveitado os verdes anos como deveriam. Seja como for, aqui no Brasil os velhos se retraem daqueles seus semelhantes que, como se poderia dizer, têm a faca e o queijo nas mãos. Em reuniões e lugares públicos não têm sido poucas as vezes em que já surpreendi olhares de velhos para moços que se poderiam traduzir mais ou menos assim: "Desgraçado! Aproveita enquanto é tempo porque não demora muito vais ficar assim como eu, um velho, e nenhuma dessas boas olhará mais sequer para o teu lado..." Isso, aqui no Brasil, é fácil sentir nas boates, com exceção de São Paulo, onde alguns cocorocas ainda arriscam seu pezinho na pista, de cara cheia e sem ligar ao enfarte. No Rio é bem menos comum, e no geral, em mesa de velho não senta broto, pois, conforme reza a máxima popular, quem gosta de velho é reumatismo. O que me parece, de certo modo, cruel. Mas, o que se vai fazer? Assim é a mocidade- ínscia, cruel e gulosa em seus apetites. Como aliás, muito bem diz também a sabedoria do povo: homem velho e mulher nova, ou chifre ou cova. Na Europa, felizmente para a classe, a cantiga soa diferente. Aliás, nos Estados Unidos dáse, de certo modo, o mesmo. É verdade que no caso dos Estados Unidos a felicidade dos velhos é conseguida um pouco à base da vigarista; mas na Europa não. Na Europa veem-se meninas lindas nas boates dançando cheek to cheek com verdadeiros macróbios, e de olhinho fechado e tudo. Enquanto que nos Estados Unidos eu creio que seja mais... cheek to cheek. Lembro-me que em Paris, no Club St. Florentin, onde eu ia bastante, havia na pista um velhinho sempre com meninas diferentes. O "matusa" enfrentava qualquer parada, do rock ao chá-chá-chá e dançava o fino, com todos os extravagantes passinhos com que os gauleses enfeitam as danças do Caribe, sem falar no nosso samba. Um dia, um rapazinho folgado veio convidar a menina do velhinho para dançar e sabem o que ela disse? - isso mesmo que vocês

estão pensando e mais toda essa coisa. E enquanto isso, o velhinho de pé, o peito inchado, pronto para sair na física. Eu achei a cena uma graça só, mas não sei se teria sentido o mesmo aqui no Brasil, se ela se tivesse passado no Sacha's com algum parente meu. Porque, no fundo, nós queremos os nossos velhinhos em casa, em sua cadeira de balanço, lendo Michel Zevaco ou pensando na morte próxima, como fazia meu avô. Velhinho saliente é muito bom, muito bom, mas de avô dos outros. Nosso, não.

A bela ninfa do bosque sagrado Hollywood, novembro de 1946: A noite é alta, Ciro's terminou e estamos todos - um destacado grupo de "estrelas" e "astros", entre os quais sou um modesto meteorito - na casa de Beverly Hills de Herman Hover, o notório dono da famosa boate de Sunset Boulevard. Vou nas águas de minha amiga Carmen Miranda, com quem saí e a quem, como um cavalheiro que sou, depositarei em sua vivenda de Bedford Street. Lá estão também as figuras ciclópicas de José do Patrocínio de Oliveira, o não menos conhecido Zé Carioca, e seu sonoplástico parceiro Nestor Amaral, ambos homens dos sete instrumentos, sendo que este é capaz de tocar o Hino Nacional batendo com um lápis nos dentes e o "Tico-tico no fubá" mediante pequenos cascudos acústicos aplicados no cocuruto - tudo diante de um microfone, bem entendido. Carmen está quieta, sentada no braço de minha poltrona. Tornamo-nos rapidamente grandes amigos. Celebramo-nnos com o devido foguetório quando nos encontramos e uma vez juntos temos assunto para conversas intermináveis, sempre salpicadas de história sobre seus inícios como cantora, que me encantam. Sua verve é inesgotável e ninguém imita como ela antigas situações marotas em que se viram envolvidos, nos primeiros contatos com o público, seus velhos companheiros Mário Reis, Francisco Alves e Ari Barroso, na fase renascentista do samba carioca. Aprendi a querer-lhe muito bem e admirar a coragem com que enfrenta, ela uma mulher toda sensibilidade, a tortura de se ter tornado um grande cartaz comercial para Hollywood e de ter de sorrir à boçalidade, com raríssimas exceções, dos produtores, diretores, cenaristas, cinegrafistas, iluminadores e demais mão-de-obra dos estúdios. : Mas hoje Carmen está quieta. Seus imensos olhos verdes se horizontalizam numa linha de cansaço, quem sabe tédio, daquilo tudo já "tão tido, tão visto, tão conhecido", como diria Rimbaud. Cerca de nós, o ator Sonny Tuffs toca um piano mais bêbedo que o do genial Jimmy Yancey nas faixas em que foi gravado sem saber. Depois seu corpanzil oscila, ele se levanta só Deus sabe como e sai por ali cercando frango, não sem antes abraçar à passagem a atriz Ella Raines, que compareceu de noivo em punho e deixa-se estar com este a um canto, com um ar de Alicinha que só enganaria os drs. Sobral Pinto e Albert Schweitzer. Numa poltrona a meu lado estira-se, com um viso suficientemente decomposto, o magnata Howart Hughes. Troco duas palavras com ele, mas o tedioso multimilionário e playboy, descobridor e bicho-papão de "estrelas", me parece muito mais interessado em Ella Raines espécie de Grace Kelly de 1940, só que menos pasteurizada. Deixo-o, pois, à sua nova conquista, enquanto no meio da sala, Zé Carioca e Nestor Amaral "se viram" para chamar a atenção sobre os seus dotes de instrumentistas. Mas a pressão geral é grande e cada um procura cavar o pão da noite como pode, enquanto Herman Hover passeia com um ar de Napoleão em Marengo. Há propostas para um banho de piscina, para um concurso de rumba e outras trivialidades, mas ninguém topa mesmo porque o Sol (ou melhor "Ele", como dizem com o maior nojo meus amigos Américo e Zequinha Marques da Costa) já deve, contumaz

ginasta matutino, estar pendurado à barra do horizonte para a sua atlética flexão de cada dia. O ambiente se está nitidamente desgastando em álcool e semostração. Vou propor a Carmen irmos embora quando uma cortina se entreabre e surge uma mulher espetacular. Não creio que ninguém houvesse reparado, mas a mim ela me pareceu tão linda, tão linda que foi como se tudo tivesse de repente desaparecido diante dela. Fiquei, confesso, totalmente obnubilado ante tanta beleza, muito embora essa beleza se movimentasse, por assim dizer, um pouco à base da dança a que chamam quadrilha: dois passinhos para diante e três para trás com direito a derrapagem. Mas o que o corpo fazia, o rosto desconhecia; pois esse rosto tinha mais majestade que Carlos Machado entrando no Sacha's. Ela olhou em torno com um soberano ar de desprezo e logo, dando com Carmen, tirou um ziguezague até ela, vindo postar-se no esplendor de todo o seu pé-direito justo diante de mim, coitadinho que nunca fiz mal a ninguém. - Hey, Carmen - disse ela. - Hey, honey - respondeu Carmen com o seu sorriso no 3. - Gee, Carmen, I think you're wonderful, you know. I think you're tops, you know. Tops. You're terrific. Para quem não sabe inglês, esse diálogo inteligente exprimia a admiração da moça por Carmen, a quem ela chamava de "do diabo", de "a máxima" e toda essa coisa. Passado o quê, dá ela de repente comigo lá embaixo, pobre de mim que tive bronquite em criança, e olhandome por cima de suas pirâmides, fez-me a seguinte pergunta num tom de rainha para vassalo: - Who are you? (- Quem é você?) Declinei minha condição de modesto servidor da pátria no estrangeiro, o que não pareceu interessá-la um níquel. Em seguida, sem aviso prévio, ela debruçou-se a ponto de eu poder ver o algodãozinho que havia juntado no seu umbigo, pôs as mãos sobre os meus braços, trouxe o rosto até um centímetro do meu e cuspindo-me todo como devia fez-me a seguinte indagação: - Do you think I'm beautiful? (- Você me acha bonita?) Fiz-lhe os elogios de praxe. Ela esticou-se novamente e concordou comigo: - You're right. I'm very beautiful. But morally, I stink! (- Você está certo. Eu sou muito bonita. Mas moralmente eu... como traduzir sem ofender tanta beleza, tirante os ouvidos do leitor? - não cheiro muito bem.) Dito o quê, partiu como chegara, através da mesma cortina, para onde suponho houvesse um bar privado. Só sei que aquilo deu-me uma grande animação, a festa continuou até "Ele" raiar e eu acabei dançando com a linda moça, ela bastante mais alta do que eu, o que permitia ouvir-lhe bater o coração, de resto levemente taquícárdico. Antes de sair vi vários casais no Jardim que não se sabia mais quem era quem, vi Sonny Tuffs atravessado num sofá, vi coisas como só se vê em baile de carnaval. Festinha familiar, como diria a finada dona Sinhazinha. Fora perguntei a Carmen se ela sabia quem era a deusa. - É uma atriz nova que está entrando agora. Bonita, não é? Chama-se Ava Gardner.

A casa materna Há, desde a entrada, um sentimento de tempo na casa materna. As grades do portão têm uma velha ferrugem e o trinco se oculta num lugar que só a mão filial conhece. O jardim pequeno parece mais verde e úmido que os demais, com suas palmas, tinhorões e samambaias que a mão filial, fiel a um gesto de infância, desfolha ao longo da haste. É sempre quieta a casa materna, mesmo aos domingos, quando as mãos filiais se pousam sobre a mesa farta do almoço, repetindo uma antiga imagem. Há um tradicional silêncio em suas salas e um dorido repouso em suas poltronas. O assoalho encerado, sobre o qual ainda escorrega o fantasma da cachorrinha preta, guarda as mesmas manchas e o mesmo taco solto de outras primaveras. As coisas vivem como em prece, nos mesmos lugares onde as situaram as mãos maternas quando eram moças e lisas. Rostos irmãos se olham dos porta-retratos, a se amarem e compreenderem mudamente. O piano fechado, com uma longa tira de flanela sobre as teclas, repete ainda passadas valsas, de quando as mãos maternas careciam sonhar. A casa materna é o espelho de outras, em pequenas coisas que o olhar filial admirava ao tempo em que tudo era belo: o licoreiro magro, a bandeja triste, o absurdo bibelô. E tem um corredor à escuta, de cujo teto à noite pende uma luz morta, com negras aberturas para quartos cheios de sombra. Na estante junto à escada há um Tesouro da juventude com o dorso puído de tato e de tempo. Foi ali que o olhar filial primeiro viu a forma gráfica de algo que passaria a ser para ele a forma suprema da beleza: o verso. Na escada há o degrau que estala e anuncia aos ouvidos maternos a presença dos passos filiais. Pois a casa materna se divide em dois mundos: o térreo, onde se processa a vida presente, e o de cima, onde vive a memória. Embaixo há sempre coisas fabulosas na geladeira e no armário da copa: roquefort amassado, ovos frescos, mangas-espadas, untuosas compotas, bolos de chocolate, biscoitos de araruta - pois não há lugar mais propício do que a casa materna para uma boa ceia noturna. E porque é uma casa velha, há sempre uma barata que aparece e é morta com uma repugnância que vem de longe. Em cima ficam os guardados antigos, os livros que lembram a infância, o pequeno oratório em frente ao qual ninguém, a não ser a figura materna sabe por que, queima às vezes uma vela votiva. E a cama onde a figura paterna repousava de sua agitação diurna. Hoje, vazia. A imagem paterna persiste no interior da casa materna. Seu violão dorme encostado junto à vitrola. Seu corpo como que se marca ainda na velha poltrona da sala e como que se pode ouvir ainda o brando ronco de sua sesta dominical. Ausente para sempre da casa materna, a figura paterna parece mergulhá-la docemente na eternidade, enquanto as mãos maternas se fazem mais lentas e as mãos filiais mais unidas em torno à grande mesa, onde já agora vibram também vozes infantis.

A letra A: palavra por palavra (II) (Rio de Janeiro) Abacate: Fiz certa vez para a minha série de poeminhas infantis, um sexteto sobre essa fruta de que gosto muito e que pertence, segundo me ensina o verbete de mestre Aurélio, à família das Lauráceas - o que não é dizer pouco. O poeminha é como segue, e faz grande sucesso entre crianças de mentalidade cropófila e adultos de mentalidade de criança, como é o caso de meu amigo e compadre Chico Buarque: A gente pega o abacate Bate bem no batedor Depois do bate-que-bate Que é que parece? - Cocô. Ô abacate biruta: Tem mais caroço que fruta!

Mas eis que, de repente, surgem-me, no ato de escrever, confusas, dolorosas recordações ligadas a essa palavra. Vejo-me menino, na casa de meus avós paternos, à rua General Severiano em Botafogo, debruçado à grande mesa da sala de jantar, apreciando meu avô comer com delícia o seu abacate no ritual gastronômico cotidiano. Era toda uma cerimônia, as refeições de meu avô Moraes. Brando déspota baiano, cheio de bossa e filáucia, colocava-se ele à cabeceira, o guardanapo atacado ao pescoço, à moda antiga, e sem dizer abacate atacava os próprios, depois de cortá-los em duas metades, que enchia de açúcar até às bordas. E era de vê-lo traçando-os a colheradas, devagar e sempre, até a última epiderme. Depois, limpava, com um rápido gesto de ida e volta, a boca e o bigode branquinho, suspirava fundo e partia para o seu quarto de leitura, onde ficava o lindo oratório de minha avó. E ali se deixava ele no embalo da velha cadeira de balanço, de espaldar de palhinha, a ler pela milésima vez os folhetins de Michel Zevaco, de que eu era também leitor constante. Quantos títulos não lembro... Os Pardaillan, Buridan, Os amantes de Veneza, A torre de Nestle... - Ecco la saeta! - La paro! O italiano entrava nos duelos como cor local. Pardaillan aparava o que viesse, o herói de todo caráter, enquanto, pouco a pouco, o velho avô se ia desintegrando em sono. Eu chegava pé ante pé para espiá-lo de mais perto, como quem examinava uma múmia de museu. Que fenômeno, um velho! Mas não qualquer velho: um ancião espetacular, como meu avô Moraes, o rosto cortado em mil rugas descendentes e as pálpebras inferiores começando a cair; um velho com o dorso das mãos enferrujado e a pele do pescoço pendente, já meio solta da carne. Meu avô Antero Pereira da Silva Moraes... Bendita a palavra que desencadeou tanta saudade e o trouxe de volta tão nítido como o vejo agora... a arrastar os pés ao longo do corredor, sem tempo e sem rumo - um macróbio total. Circundava-o sempre um aroma de

sândalo ou alfazema, por isso que minha avó nunca se esquecia de espalhar, em seus gavetões, sachets perfumosos que lhe impregnavam a roupa. E sua vida era essa: vagar pela casa, o único território em que podia velejar com segurança. Nós, meninos, tínhamos cuidado para não esbarrar nele, em nossas correrias, de vez que o corredor era o desaguadouro natural de nosso tropel faminto, quando nos chamavam para a mesa. O velho, ao sentir que algum pé-de-vento o cruzava, dava uma leve guinada de proa, fazia uma lenta meia-volta parada e seguia mecanicamente em sua esteira, agarrado por cabos imponderáveis àquela vida infantil que passava à toa. Tudo nele parecia realizar-se num mundo acústico, onde os sons chegassem como num aparelho de surdo subitamente conectado. Uma porta batia, alguém berrava por alguém, o cachorro ladrava - e desencadeavase em seus tímpanos uma tempestade que o fazia retornar ao mundo dos vivos. Sua máscara frouxa assumia um ar dramático e ele, transtornado, perguntava, numa voz pânica e trêmula de náufrago pedindo socorro: - Que foi? Às vezes parava, incerto sobre o rumo a tomar, desligado de tudo. Seu rosto ensimesmavase, num desesperado esforço de ver, como se estivesse mirando um poço sem fundo, e depois exprimia espanto, pois o medo do desconhecido parecia de repente tomá-lo. Girava os olhos, então, dentro da cratera rubra das pálpebras soltas, como a buscar onde se ater. Ficava assim, a mover devagar a cabeça para um lado e outro - um bicho velho diante de sua própria morte. Depois, refeito o vazio, ele reunia novas forças e saía em seu passinho miúdo e arrastado, de volta à cadeira de balanço como um velho barco ao ancoradouro. Ali, com um máximo de cautela para não cair, sentava-se bem devagarinho, num exercício cujo resultado parecia deixá-lo feliz, pelos esgares que fazia. Puxava a manta sobre os joelhos e, pouco a pouco, deixava pender a cabeça. Que pensamentos poderiam então tomá-lo? Talvez lhe chegassem, em fragmentos rútilos, as risadas claras das mulheres que teve - e muitas foram, ao que parece...; talvez os rufos e as clarinadas das paradas militares a que tanto gostava de assistir. E era doce, nessas horas, depois que o sono vinha, ver chegar toda branquinha, toda curva, a sua eterna velhinha que se deixava estar um pouco junto ao umbral, queimando a sua cera antiga numa chama de amor quase apagando. E depois de mirá-lo algum tempo, ela ia, minha santa avozinha, e se ajoelhava ao pé do oratório, onde ficava a tatalar preces ausentes, os olhos postos com infinita devoção no Menino Deus, em sua manjedoura, ou em Nossa Senhora da Conceição, sua xará celeste, perdida na visão de beatitudes que não conheceu em vida - pois, segundo consta, em matéria de mulher, meu avô não deixou passar ninguém. Mas ela o amava, o velho sacripanta, de um amor tão puro de esposa, que eu posso vê-la neste instante, mesmo mergulhada na visão do Ser Egrégio, a cuja mão direita deve sentar-se agora, linda e modesta como sempre, tendo ao lado seu velhinho todo elegante em seu paletó de alpaca - e cuja entrada no Céu só obteve pelo muito que rezou e por todo o bem que fez em vida. Pois o velho não era de brincadeira.

A letra A: palavra por palavra (III) (Rio de Janeiro) Abajur: Foi, talvez a primeira palavra francesa de que tive conhecimento, e ela me traz recordações tão lindas da Ilha do Governador que, ainda agora, a escrever estas memórias, tenho os olhos rasos d'água. Nossa casa, com duas janelas de frente, ficava à beira-mar, em Cocotá, a meio quilômetro da grande amendoeira onde o bondinho da ilha rangia na curva, em demanda de Freguesia. Eu tinha por aí uns nove anos, e era a coisa mais pulante, grimpante e nadante que já existiu. Nunca menino algum aceitou menos as vias normais de acesso. Sempre em carreira, desviava compulsivamente minha velocidade para as sebes, que varava, os muros, que escalava, e os fossos, que transpunha. Vivia aos saltos, de baixo para cima, de cima para baixo. Bastava ver um acidente qualquer de terreno, uma cerca, uma catraia a seco, um valado, e eu, dando tudo, precipitava-me a mil e - zumpt! - saltava-os feito um doido dançarino. Era como um Nijinski infante a dar entrechats cada vez mais altos e elásticos, numa ânsia de alcançar não sei o quê, quem sabe o infinito, quem sabe Deus... E caía exato Como cai um gato.

�para recomeçar uma correria nova, fosse para a casa de Mário e Quincas, meus amiguinhos pobres, fosse para o pontão das barcas da Cantareira, de onde Augusto mergulhava. Augusto era o meu deus. Irmão mais velho de Mário, Quincas e Marina, minha namoradinha secreta, Augusto representava para mim o herói total configurado no mergulhador. Eu admirava, da ponte de Cocotá, a agilidade com que ele, numa escalada de macaco, subia as estacas mais altas, de onde dava os saltos de anjo mais lindos, penetrando o mar como uma faca em ponta, sem qualquer espadana, e com um marulho apenas perceptível. E eu ficava sempre numa aflição, de não vê-lo nunca mais voltar à tona. Augusto demorava dois minutos folgados a vasculhar o fundo, do qual trazia sempre qualquer coisa de belo ou de útil: caranguejo, ferro-velho, estrela-do-mar, ou o que fosse, que me atirava de baixo, em saltos que lhe faziam soerguer meio corpo da superfície, como um golfinho brincalhão. Nós andávamos os quatro sempre de súcia, e a mim me espantava a naturalidade em que seus irmãos o tinham, sem nenhuma mostra de admiração. Foi ele que me ensinou a mergulhar e mover-me no fundo do mar, rente ao lodo; e mais tarde a pescar a dinamite: uma barbaridade que, na época, eu achava o máximo. Augusto colocava-se à proa do barco, nós nos agachávamos na popa como podíamos, ele acendia o pavio, esperava um momento, soprandoo forte, e, de repente, no segundo antes, lançava a banana de dinamite ao mar. A explosão, gorda e cava, levantava, ato contínuo, um cogumelo espumarento, e logo os peixes mortos

começavam a subir. Mas os que nos interessavam eram os que ficavam atordoados, atrás dos quais mergulhávamos rápido. Levávamos, para essas ocasiões, pequenos sacos, e, uma vez cheios, metíamos o peixe dentro da camisa da roupa de banho - como se usava na época - e voltávamos semi-asfixiados à tona. Nunca mais pude esquecer o contato frio e viscoso dos peixes contra a minha pele. * * * À tarde, na sala de visitas, como então se dizia, onde tudo o que havia de luxo era o belo jarrão chinês, trazido por meu bisavô de uma de suas andanças, minha mãe sentava-se ao piano e ficava tocando horas perdidas. Nós ficávamos, minha irmã mais velha e eu, sentados no chão, geralmente a armar colagens ou a folhear o Tico-Tico, o Eu sei tudo e o Tesouro da juventude, nossa primeira leitura infantil. Os sons vinham, encantatórios, mergulhar ainda mais nossas vidas naquele clima doméstico, como se nós fôssemos a única família do mundo. E a verdade é que éramos a única família do mundo, unidos pelos mesmos horários e pelos mesmos desígnios de poupança, pois meu pai, por uns maus negócios que fizera, andava mal de vida. Minha mãe, ainda tão moça, aflorava as teclas, o olhar perdido longe. Ela tinha sido aluna de francês de meu pai, na velha chácara da Gávea, e se casara aos 15 anos com esse homem bem mais velho, que se apaixonara perdidamente por ela, e que, bom poeta, vivia a lhe fazer sonetos, odes, rimancetes, baladas, elegias - tudo enfim que constitui e consolida a arte de fazer versos. Eu a achava linda, toda rechonchuda, os longos cabelos soltos e os olhos de um azul tão vivo que, às vezes, parecia perturbar-lhe a visão, como se ela estivesse enxergando mais do que devia. Posso ouvir ainda os primeiros tangos que ela tocava, dos quais "La cumparsita" era o mais vibrante e "Caminito" o mais terno... E de repente foi o fox-trot. Que alucinação! Meu pai chegava com novas partituras, que minha mãe tirava laboriosamente ao piano: Hindustão Paraíso das mulheres divinais Ó Hindustão Quem te ama não te esquece nunca mais...

Eram os primeiros doces tentáculos do polvo tateando à toa num mundo despreocupado e sem malícia. Nós não sabíamos de nada ainda. Sabíamos que éramos uma família que morava numa ilha pertencente à capital de um país que não sabíamos tampouco subdesenvolvido. Sabíamos vagamente que houvera uma guerra mundial e um terremoto no Japão. E súbito, aquele ritmo diferente e cheio de langor, a insinuar conivências pecaminosas na penumbra... Abajur Com tua branda luz de cor bleu Tu, só tu Tu me inspiras não sei por quê...

Minha irmã e eu dançávamos, dois passos para lá, e dois para cá, como mandava o figurino. E os sons me envolviam dessa tristeza que nunca mais me abandonou, que tem a ver com alguma coisa sempre buscada e nunca totalmente possuída: não sei se o amor, não sei se a vida, não sei se a paz. Saudade, certo, que me fez poeta e compositor, e que, apesar de todas as flores e amores que a vida me deu, só me fez crescer em melancolia e solidão.

A letra A: palavra por palavra (IV) (Rio de Janeiro) Abismo: Havia, nos fundos do externato, um barranco perpendicular que caía do morro. Depois do recreio, alguns meninos, eu entre eles, ficavam de baixo a mirá-lo, medindo-lhe as possibilidades. Era um tremendo desafio ao nosso espírito de aventura, pois despencava vertical de uma altura de uns trinta metros, e tudo o que tinha como ponto de apoio eram alguns degraus naturais da escavação e uns poucos arbustos e raízes que o corte deixara a nu. Nós ficávamos debaixo a observá-lo com olhos de alpinista, a medir-lhe a tentação e o perigo: um pequeno grupo de garotos de cáqui que já tinham lido Júlio Verne. E saímos dali a nos fazer apostas sobe, não sobe: como se da coragem de tentar ou não a escalada dependesse toda a nossa futura dignidade de homens. Uma tarde, depois de um bate-bola, partimos para lá. O barranco parecia me olhar, na luz do entardecer, e eu, a defrontá-lo, parecia ouvir-lhe a voz cavilosa que me desafiava: - Vem se você é homem! E súbito eu parti e pus-me a galgá-lo com raiva, as mãos fincadas na terra como garras, os pés vencendo o barro mole à força de escorregar e tentar novamente. Vários garotos me seguiram, que desistiram logo, à exceção de um que me acompanhava de perto. Quando consegui apoiar-me a um troço de raiz e olhei para baixo, vi que tinha subido uns bons dez metros. Vi também, no fim da perpendicular, o rosto impassível de meu amigo A.V.P., que um segundo antes tentara me dissuadir da aventura em nome do bom senso. Depois, de repente, o garoto que me seguia largou presa e escorregou barranco abaixo - mas sem se machucar, pois até o estágio onde nos encontrávamos o aclive não era arriscado. Respirei fundo ao vê-lo que se sacudia do barro que lhe imundava o uniforme, e logo a seguir partiu correndo. E foi aí que eu cometi a temeridade. Sim, sozinho na escalada, senti-me um vencedor. Pensei que era mais homem que os demais, que a mim estava reservado um destino maior. E olhando para cima, recomecei a subida. Foi terrível, porque, a partir dali, a ribanceira descia a pique, e eu, mal dado o passo inicial, senti pela primeira vez a sensação do abismo embaixo, a sucção que a força de gravidade parecia exercer sobre meu corpo seguro apenas pelos pés e pelas mãos a pedaços precários de raízes e tufos de arbustos nascidos na encosta. Parar e descer pareceu-me impossível. Logo acima, uma raiz maior, como negra cariátide, protuberava um meio metro do barranco. Fazendo um desesperado esforço, consegui içar-me até ela e cavalgá-la, de costas para o abismo: um bem pequeno abismo, é certo, mas não menos assassino, pois a essa altura ele já adquirira para mim uma conotação até então desconhecida, de vertigem e perigo mortal. A noite caía rapidamente, e as grandes árvores do morro começaram a criar um nicho de

trevas, ali naquele desvão. Olhei para cima: deviam faltar ainda uns dez metros para alcançar o platô do morro - e só então vi que não podia fazer mais nada. Depois, cautelosamente, olhei para baixo: não havia mais ninguém. Até A.V.P., o amigo, abandonara-me ao perigo em que eu me encontrava. Tive vontade de chorar. Meu coração pôs-se a bater mais forte, sacudido pelo medo que me acometia mais e mais. Eu era, montado naquela raiz, um pequeno cavaleiro do abismo, sem nada em cima a que me soerguer, sem nada embaixo para me sustentar, senão, depois da queda, o chão que eu já mal distinguia, pois uma boca de treva se fora formando a meus pés, treda e como que à espera de que eu caísse para me deglutir. Alguém já experimentou o sentimento físico da solidão? O sentimento de se saber irremediavelmente só, como deve ter sentido o poeta Hart Crane depois de jogar-se ao mar, de noite, e ver seu navio ir embora num feixe de luzes que se foram perdendo pouco a pouco no oceano? Ou como Guillaumet, quando seu pequeno avião caiu nos Andes, no grande deserto eriçado de picos, como catedrais de neve, e todo rasgado em gargantas indevassáveis? Eu experimentei - um menino de apenas 13 anos - esse sentimento quando a noite veio e tudo o que eu tinha para me apoiar era um negro paredão de terra e a sela de uma velha raiz protuberante - e vinte metros de nada embaixo. Uma bem mesquinha solidão perto da desses dois ases da poesia e da aviação: mas para mim, adolescente, era a primeira; e eu não sabia ainda o que eles sabiam, que fez ao poeta escolher a morte no mar, em plena noite, e ao aviador andar três dias, gelado e faminto, na busca desesperada de um cimo bem visível onde lhe pudessem descobrir o corpo, a fim de que sua mulher não perdesse o seu seguro de vida. Neste, o auge do instinto de vida; no outro, o auge do instinto de morte. Foi quando ouvi a voz de A.V.P. e a de um irmão secular do colégio, cujo nome não lembro mais. O amigo me concitava friamente a descer. - Mas eu não vou poder... - Vai sim. Se você subiu, pode descer. Pensei que tudo era melhor que aquele sentimento experimentado: não o medo da morte, mas o terrível cara a cara com a solidão. Era melhor cair, quebrar-me todo, morrer, que sentilo de novo. Aquelas vozes embaixo eram tudo de que eu precisava para voltar a ser eu mesmo, um menino entre os outros, um menino com pai, mãe, irmãos, e amigos; um menino que jogava no ataque e já revelava um individualismo feroz em seu futebol, driblando muito e querendo chegar sozinho à meta. E desci. Desci lenta, cautelosamente, experimentando bem com o pé cada reentrância onde pisava, e nunca largando o apoio de cima senão ao me sentir seguro de não cair. Desci às cegas mas desci, sabendo que cada segundo ganho ao abismo era uma possibilidade cada vez maior de sobrevivência. E, na última etapa, quando risonho e esfogueado me voltei, a primeira coisa que vi foi a mão de A.V.P. estendida para mim, e seu rosto tenso que se relaxava ao contato de minha mão. A mão do amigo. Do amigo cuja vida ele não tivera dúvida em arriscar, na certeza de que nada no mundo é feito sem esperança.

A mulher e a sombra Tentei, um dia, descrever o mistério da aurora marítima. Às cinco da manhã a angústia se veste de branco E fica como louca, sentada espiando o mar... Eu a vira, essa aurora. Não havia cor nem som no mundo. Essa aurora, era a pura ausência. A ânsia de prendê-la, de compreendê-la, desde então me perseguiu. Era o que mais me faltava à Poesia: E um grande túmulo veio Se desvendando no mar...

Mas sempre em vão. Quem era ela de tão perfeita, de tão natural e de tão íntima que se me dava inteira e não me via; que me amava, ignorando-me a existência? És tu, aurora? Vejo-te nua Teus olhos cegos Se abrem, que frio! Brilham na treva Teus seios tímidos...

O desespero inútil das soluções... Nunca a verdade extrema da falta absoluta de tudo, daquele vácuo de Poesia: Desfazendo-se em lágrimas azuis Em mistério nascia a madrugada... Lembrava uma mulher me olhando do fundo da treva: Alguém que me espia do fundo da noite Com olhos imóveis brilhando na noite Me quer.

E fora essa a única verdade conseguida. A aurora é uma mulher que surge da noite, de qualquer noite - essa treva que adormece os homens e os faz tristes. Só a sua claridade é amiga e reveladora. Ao poeta mais pobre não seria dado desvendá-la em sua humildade extrema. O poeta Carlos, maior, mais simples, a revelaria em sua pulcritude, a aurora que unifica a expressão dos seres, dá a tudo o mesmo silêncio e faz bela a miséria da vida: Aurora, entretanto eu te diviso, ainda tímida, inexperiente das luzes que vais acender e dos bens que repartirás com todos os homens. Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações, Adivinho-te que sobes, vapor róseo, expulsando a treva noturna. O triste mundo facista se decompõe ao contato de teus dedos, teus dedos frios, que ainda não se modelaram mas que avançam na escuridão como um sinal verde e peremptório. Minha fadiga encontrará em ti o seu termo, minha carne estremece na certeza de tua vinda.

O suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventes se enlaçam, os corpos hirtos adquirem uma fluidez, uma inocência, um perdão simples e macio... Havemos de amanhecer. O mundo se tinge com as tintas da antemanhã e o sangue que escorre é doce, de tão necessário para colorir tuas pálidas faces, aurora.

A aurora dos que sofrem, a única aurora. Aquela mesma que eu vira um dia, mas cujo segredo não soubera revelar. Uma mulher que surge da sombra... Bem haja aquele que envolveu sua poesia da luz piedosa e tímida da aurora!

A outra face de Lucina Montevidéu, maio de 1959: Tomei conhecimento da outra face da Lua - "minha velha amiga a Lua", como disse Ciro Monteiro num samba inédito que me é dedicado - ao chegar de Buenos Aires. Mirei e remirei a fotografia estampada em El País com um sentimento misto de humildade e assombro. Durante milênios esteve ela oculta, esta outra face da velha amiga, e, de repente, um aparelho fotográfico colocado pela mão do homem num foguete teleguiado fotografa e envia por radioondas para a Terra estes espantosos instantâneos. Espantosos não em si, mas pelo que representam de grandeza do homem diante do Infinito; pelo que têm de maravilhoso no plano da inteligência do homem: esse microcosmo de células e centros nervosos a trabalharem, em seu sangrento excipiente, as fórmulas da conquista do espaço e do equilíbrio da matéria. Eis que a Ciência, esse sistema exato de conhecimentos, ultrapassa os campos da imaginação... Cuidado, artistas, escritores, poetas, homens que viveis de criar mundos imaginários! Os cientistas, dentro do seu minucioso mundo matemático, invadem também o vosso, e com que grau de beleza! Ao conseguirem fotografar com suas teleobjetivas os campos da ficção pura - essa outra face da Lua oculta desde sempre ao homem pelo equilíbrio mesmo do Universo - agigantam-se sobre os mais altos artífices da imaginação. Realmente penetram o Infinito, na mais prodigiosa viagem de que já houve notícia. Para mim, devoto que sou da serena e mágica Lucina, a nova revelação possui uma beleza dificilmente superável. Pois não vivi eu também todos esse anos à espera de descobrir a outra face desse ser a um tempo real e distante, misterioso e claro, luminoso e indevassável que se chama Mulher? E não foi preciso que ela descesse à Terra e, sob as aparências do amor, desvendasse só para mim os segredos de sua outra face, oculta desde o início dos tempos?

A transfiguração pela poesia Creio firmemente que o confinamento em si mesmo, imposto a toda uma legião de criaturas pela guerra, é dinamite se acumulando no subsolo das almas para as explosões da paz. No seio mesmo da tragédia sinto o fermento da meditação crescer. Não tenho dúvida de que poderosos artistas surgirão das ruínas ainda não reconstruídas do mundo para cantar e contar a beleza e reconstruí-lo livre. Pois na luta onde todos foram soldados - a minoria nos campos de batalha, a maioria nas solidões do próprio eu, lutando a favor da liberdade e contra ela, a favor da vida e contra ela - os sobreviventes, de corpo e espírito, e os que aguardaram em lágrimas a sua chegada imprevisível, hão de se estreitar num abraço tão apertado que nem a morte os poderá separar. E o pranto que chorarem juntos há de ser água para lavar dos corações o ódio e das inteligências o mal-entendido. Porque haverá nos olhos, na boca, nas mãos, nos pés de todos uma ânsia tão intensa de repouso e de poesia, que a paixão os conduzirá para os mesmos caminhos, os únicos que fazem a vida digna: os da ternura e do despojamento. Tenho que só a poesia poderá salvar o mundo da paz política que se anuncia - a poesia que é carne, a carne dos pobres humilhados, das mulheres que sofrem, das crianças com frio, a carne das auroras e dos poentes sobre o chão ainda aberto em crateras. Só a poesia pode salvar o mundo de amanhã. E como que é possível senti-la fervilhando em larvas numa terra prenhe de cadáveres. Em quantos jovens corações, neste momento mesmo, já não terá vibrado o pasmo da sua obscura presença? Em quantos rostos não se terá ela plantado, amarga, incerta esperança de sobrevivência? Em quantas duras almas já não terá filtrado a sua claridade indecisa? Que langor, que anseio de voltar, que desejo de fruir, de fecundar, de pertencer, já não terá ela arrancado de tantos corpos parados no antemomento do ataque, na hora da derrota, no instante preciso da morte? E a quantos seres martirizados de espera, de resignação, de revolta já não terão chegado as ondas do seu misterioso apelo? Sofre ainda o mundo de tirania e de opressão, da riqueza de alguns para a miséria de muitos, da arrogância de certos para a humilhação de quase todos. Sofre o mundo da transformação dos pés em borracha, das pernas em couro, do corpo em pano e da cabeça em aço. Sofre o mundo da transformação das mãos em instrumentos de castigo e em símbolos De força. Sofre o mundo da transformação da pá em fuzil, do arado em tanque de guerra, da imagem do semeador que semeia na do autômato com seu lança-chamas, de cuja sementeira brotam solidões. A esse mundo, só a poesia poderá salvar, e a humildade diante da sua voz. Parece tão vago, tão gratuito, e no entanto eu o sinto de maneira tão fatal! Não se trata de desencantá-la, porque creio na sua aparição espontânea, inevitável. Surgirá de vozes jovens fazendo ciranda em torno de um mundo caduco; de vozes de homens simples, operários, artistas, lavradores, marítimos, brancos e negros, cantando o seu labor de edificar, criar, plantar, navegar um novo

mundo; de vozes de mães, esposas, amantes e filhas, procriando, lidando, fazendo amor, drama, perdão. E contra essas vozes não prevalecerão as vozes ásperas de mando dos senhores nem as vozes soberbas das elites. Porque a poesia ácida lhes terá corroído as roupas. E o povo então poderá cantar seus próprios cantos, porque os poetas serão em maior número e a poesia há de velar. * Primeira crônica do A., publicada em A Manhã, 1946.

A um jovem poeta O almoço que tivemos outro dia, meu caro Jovem Poeta - e três poetas éramos nós em três idades da existência tão importantes como os trinta, os quarenta e os cinquenta -, deixou-me triste. Triste porque o seu descaminho, a sua angústia, a sua neura são sintomáticos de uma luta inglória. Você, que ainda é puro e sabe o quão fundamental é ela para a sua aventura de poeta, fica irado contra os outros, ao sentir que a sua presente agressividade é fruto de um complexo de culpa. É você, não os outros, quem está em crise. E se os outros também o estiverem, razão a mais para você afirmar-se em sua luta, que é a luta de todo poeta, para ajudá-lo a sair dela. Pois você não auxiliará ninguém, muito menos a si mesmo, se seu coração não estiver limpo de ressentimento e sua luta contra "o outro" não for constante. "O outro", não preciso dizer, é você próprio. É o súcubo que, todos, temos dentro de nós; o ser calhorda, comprável com a moeda da mentira e da lisonja, que de repente adota a gratuidade como norma, por isso que a paixão é mais insaciável que o infinito aberto em cima. E a paixão não se vende nunca. Cada poeta é uma coisa em si, mas todos os poetas devem o mesmo à Poesia: a própria vida. Há, o poeta, que queimar-se e causar sempre mal-estar aos que não se queimam. Há que ser o grande ferido, o grande inconformado, o grande pródigo. Há que viver em pranto por dentro e por fora, de alegria ou de sofrimento, e nunca dizer "não" a ninguém, nem mesmo àqueles que optaram pelo não chorar. Há que também não ter o pejo do ridículo, da intriga ou da risota alheia. Quando Gide, ao ver Verlaine bêbado e maltratado, numa rua de Paris, por um grupo de jovens que o perseguiam e caçoavam com empurrões e doestos, contrariou voluntariamente o impulso de socorrê-lo preferindo deixá-lo entregue a um destino que sabia já traçado - que grande página deixou de escrever sobre a covardia humana, sobre o mal da disponibilidade e a tristeza do egoísmo! Veriaine, o pobre Verlaine, talvez dentre os poetas o que mais amou e sofreu... Você meu caro Jovem Poeta, que foi dotado de talento e de beleza, não tem o direito de negar-se ao seu martírio. Só ele pode tornar a sua poesia emocionante. Só ele pode salvá-lo do formalismo em que caem os que se recusam a estar sempre despertos. É preciso que todos vejam a luz que seu coração transverbera, mesmo coberto por bons panos. Não negue o seu olhar de poeta aos homens que precisam dele, mesmo tendo o pudor de confessá-lo. Abra a sua camisa e saia para o grande encontro!

Agua clara con sonido De Garcilaso dela Vega dizia-se que era el mais hermoso y gallardo de cuantos componian la Corte del emperador. Chamavam-no, sem inveja, el amado de los dioses y su elegido. Morto com a idade de Cristo (1503-1536), viveu o grande toledano uma vida de um brilho raro, distribuída entre um desterro, muitas batalhas e, nos interlúdios, lindas mulheres, entre as quais sobressai sua maior paixão, dona Isabel Freyre, dama portuguesa da Corte da imperatriz Isabel, que, aparentemente, não lhe dava o devido troco. Mas a verdade é que o poetacortesão ia levando, a mão nos copos da espada, um sorriso nos lábios e estrofes de Virgílio, Dante e Petrarca na ponta da língua, para amaciar corações outros que não o da bem-amada. Era um bravo, à maneira de Villon e de Camões. Tão bem a cavalo como a pé, amigo de poetas e de santos, morreu nos braços de seu amigo, o marquês de Lombay, que a Igreja canonizaria como são Francisco de Borja, depois de, sozinho, dar início ao assalto à fortaleza de Muy, na Provença. Mas quando repousava-se das armas, empunhava, ao que se conta, a harpa com igual mestria. Formal, no sentido clássico, sem ser culterano, soube deixar fluir de sua curta mas magistral obra poética uma luminosa música verbal que o distingue entre os pioneiros do chamado Século de Ouro da poesia espanhola. E foi também um extraordinário inovador, não só com trazer para a lírica de sua pátria os elementos positivos da escola italiana, mas com enriquecê-la de criações novas, qual seja a estrofe composta de versos de cinco, sete e 11 sílabas, conhecida como estrofe-lira, por ser esta a palavra final do primeiro verso de sua famosa canção "A la flor de Gnido ": Si de mi baja lira tanto pudiese el son que en un momento aplacase la ira del animoso viento y la furia del mar, y el movimiento

E que maior glória para Garcilaso, ver suas inovações constituírem as formas diletas de poetas espanhóis do século VI da estatura de frei Luis de León e, sobretudo, san Juan de La Cruz? Há um verso do poeta que me encanta, na écloga dedicada ao vice-rei de Nápoles, em que são personagens seus dois filhos pastoris mais amados, Salicio e Nemeroso. Vem lá pelo meio do poema, e diz assim: ... cuando Salicio, recostado al pié de una alta haya en la verdura, por donde una agua clara con sonido atravesaba el fresco y verde prado...

O verso a que me refiro, como já hão de ter percebido, é o terceiro do trecho aqui citado: por donde una agua clara con sonido. É inútil tentar traduzir. Água clara com som, água clara com ruído - nada terá nunca a beleza natural, a luminosidade de córrego límpido correndo

fagueiro ao sol, o onomatopeísmo substantivo, sem necessidade de aliterações, do verso original de Garcilaso. São como sons puros de música. Eu, se jamais tivesse feito um verso assim, pendurava as chuteiras.

Amigos meus Ah, meus amigos, não vos deixeis morrer assim... O ano que passou levou tantos de vós e agora os que restam se puseram mais tristes; deixam-se, por vezes, pensativos, os olhos perdidos em ontem, lembrando os ingratos, os ecos de sua passagem; lembrando que irão morrer também e cometer a mesma ingratidão. Ide ver vossos clínicos, vossos analistas, vossos macumbeiros, e tomai sol, tomai vento, tomai tento, amigos meus! - porque a Velha andou solta este último Bissexto e daqui a quatro anos sobrevirá mais um no Tempo e alguns dentre vós - eu próprio, quem sabe? - de tanto pensar na Última Viagem já estarão preparando os biscoitos para ela. Eu me havia prometido não entrar este ano em curso - quando se comemora o 19640 aniversário de um judeu que acreditava na Igualdade e na justiça - de humor macabro ou ânimo pessimista. Anda tão coriácea esta República, tão difícil a vida, tão caros os gêneros, tão barato o amor que - pombas! - não há de ser a mim que hão de chamar ave de agouro. Eu creio, malgrado tudo, na vida generosa que está por aí; creio no amor e na amizade; nas mulheres em geral e na minha em particular; nas árvores ao sol e no canto da juriti; no uísque legítimo e na eficácia da aspirina contra os resfriados comuns. Sou um crente - e por que não o ser? A fé desentope as artérias; a descrença é que dá câncer. Pelo bem que me quereis, amigos meus, não vos deixeis morrer. Comprai vossas varas, vossos anzóis, vossos molinetes, e andai à Barra em vossos fuscas a pescar, a pescar, amigos meus! - que se for para engodar a isca da morte, eu vos perdoarei de estardes matando peixinhos que não vos fizeram mal algum. Muni-vos também de bons cajados e perlustrai montanhas, parando para observar os gordos besouros a sugar o mel das flores inocentes, que desmaiam de prazer e logo renascem mais vivas, relubrificadas pela seiva da terra. Parai diante dos Véus-de-Noiva que se despencam virginais, dos altos rios, e ride ao vos sentirdes borrifados pelas brancas águas iluminadas pelo sol da serra. Respirai fundo, três vezes o cheiro dos eucaliptos, a exsudar saúde, e depois ponde-vos a andar, para frente e para cima, até vos sentirdes levemente taquicárdicos. Tomai então uma ducha fria e almoçai boa comida roceira, bem calçada por pirão de milho. O milho era o sustentáculo das civilizações índias do Pacífico, e possuía status divino, não vos esqueçais! Não abuseis da carne de porco, nem dos ovos, nem das frituras, nem das massas. Mantende, se tiverdes mais de cinquenta anos, uma dieta relativa durante a semana a fim de que vos possais esbaldar nos domingos com aveludadas e opulentas feijoadas e moquecas, rabadas, cozidos, peixadas à moda, vatapás e quantos. Fazei de seis em seis meses um check-up para ver como andam vossas artérias, vosso coração, vosso figado. E amai, amigos meus! Amai em tempo integral, nunca sacrificando ao exercício de outros deveres, este, sagrado, do amor. Amai e bebei uísque. Não digo que bebais em quantidades federais, mas quatro, cinco uísques por dia nunca fizeram mal a ninguém. Amai, porque nada

melhor para a saúde que um amor correspondido. Mas sobretudo não morrais, amigos meus!

Anteato: palavra por palavra (I) (Rio de Janeiro) A ideia ocorreu-me em março de 1967, quando ganhei pela... ésima vez, para grande prazer meu, um novo Pequeno dicionário brasileiro da língua portuguesa, de meu velho amigo Aurélio Buarque de Holanda, que nada tem a ver com Sérgio e Chico, mas é, também, homem de muita cachola. Lembro-me de que era noite, e fiquei folheando-o à toa, e verificando uma vez mais a minha imensa ignorância do nosso léxico. De cada dez palavras, não sabia o significado de três ou quatro. É verdade que eram, o mais das vezes, palavras eruditas, de conteúdo científico e - bolas! - eu não sou cientista nem nada. Mas para um escritor, uma tal constatação é, de qualquer forma, humilhante. Passei a ler com mais frequência o dicionário como recomendava Gide - o que, aliás, constitui para mim uma ocupação melhor que a leitura desses escritores de best sellers que andam em voga. Muitos amigos me têm pedido que escreva as minhas memórias, Fernando Sabino em particular. Fico pensando... Para quê? Parece-me um ato de vaidade, mais que de despudor. Mas, pondera ele - o Otto Lara Resende já me disse o mesmo - eu percorri um caminho de tal modo vário em experiências, aqui e no estrangeiro, que sonegá-las aos que acreditam no que escrevo, à mocidade em particular, é, de certo modo, uma forma de vaidade maior ainda. Considerando-se, ademais, que minha vida sempre foi, por assim dizer, vivida abertamente... Não sei. Tenho horror à ideia de tornar-me literário, de começar a redigir no ato de escrever. O que me dificulta, hoje em dia, a leitura dos escritores em geral, com pouquíssimas exceções, é justamente esse detestável defeito. Mal sinto, em lugar de estilo, o menor maneirismo, a menor fita, largo o livro de mão. Acho-os, na maioria, uns chatos, só contam o que todo mundo já sabe ou logo adivinha. A vida é infinitamente mais rica que suas palavras e estou certo de que mesmo os mais mediocres são portadores de experiências que nas mãos de um bom romancista ou um bom biógrafo dariam matéria de interesse universal. Pois tudo tem interesse, mesmo o coito de duas moscas, desde que provoque no ser que o observa um reflexo vital. Vale dizer que pouca gente vive: esta é a grande verdade; vive no sentido de queimar-se sem reservas, sem preconceitos, sem atitudes, sem julgamentos canonizados por uma moral convencional imposta. Mas, por outro lado, eu não gostaria de escandalizar. Escandalizar pode ser também uma forma infame de vaidade, um processo autocomplacente de criar uma antimoral como justificação de taras ou fraquezas pessoais. Não: eu sou um homem que, até certo ponto, venceu as barreiras do medo de viver, e viver é, hoje em dia, para mim, um ato simples, perturbado apenas pelas neuroses consequentes do simples ato de viver. A vida, tratase de cumpri-la bem, sem outro temor que ter de apertar-lhe as rédeas. Ai de mim, que ilusão! - dizer isto na quadra dos cinquenta, quando os frutos do amor crescem cada vez menos ao

alcance das mãos, do meu desejo... Mas o curioso em tudo isso é que, aquela noite de março de 1967, a leitura à toa do Pequeno dicionário fez-me voltar a 15 anos atrás, num hotel em Genebra, quando - lembro-me tão bem agora - veio-me pela primeira vez a vontade de escrever minhas memórias, e eu chamei um mensageiro e dentro em breve punha-me a rabiscar num grosso caderno suíço. O resultado de um dia de trabalho pareceu-me, na manhã seguinte, tão... não digo literário, mas auto-suficiente, que larguei aquela choldra com um profundo aborrecimento de mim mesmo. Eu nada fizera senão ir, conscientemente, tentar justificar-me, apresentar-me sob uma luz falso-modesta, ficar lambendo as próprias feridas. Agora, não. Agora sinto que vou poder escrevê-las, usando as letras do alfabeto e as palavras da língua sob seus capítulos, como ímãs mnemônicos capazes de me mergulhar compulsivamente num abismo de lembranças: palavras concretas desagregando-se em memórias, um infinito de saudades, um sumidouro de associações caóticas, mas de onde possam vir à tona, tal um agente lisérgico, os fragmentos desse grande puzzle a reconstituir, que é a vida de um homem, de qualquer homem, de todos os homens. E fazê-lo dia a dia, numa hipnose consciente que possa resultar, quem sabe, numa auto-análise, tanto quanto possível próxima da verdade - que desta, realmente, não se sabe nunca. Sim, a ideia me apaixona. Por que não tentar? Por que não pousar os olhos numa palavra e, através de conjeturas, sentir refluir o que ficou do tempo? Que mundo de livros, sobrasse-me vida, não poderia eu escrever com a palavra amor, a palavra amigo, a palavra mulher... Não criou a palavra ressentimento condições para que eu possa mergulhar na palavra sonho, e sonhar, e sonhar minha existência... - palavra por palavra?

Antônio Maria Também chamado familiarmente Maria, Zé Maria, Menino-Grande - Antônio Maria, que eu chamo "o meu Maria", é de longe o melhor do seu nome. Meu parente através de uma linha de Moraes de Pernambuco que vai assim, faz assim e volta e da qual participa o poeta João Cabral de Melo Neto, esse pernambaioca (se me permitem o neologismo tirado de Pernambuco, Bahia e Carioca) espesso, áspero e agridoce, com um carão de lua que parece sempre bafejado de uma brisa nordestina; esse: a) poeta; b) compositor popular; c) produtor de rádio; d) cronista lírico; e) locutor esportivo; f) escritor de shows; g) grande papo; h) diretor artístico de boate; i) fazedor de jingles; j) homem triste, k) ótimo volante; l) esplêndido amigo; m) desvairado amante; n) M.C.; o) humorista nato; p) "santo homem", como dele diz com terno sotaque o poeta português Carlos Maria de Araújo; q) trabalhador infatigável; r) letrista insigne; s) cantor agradável; t) pródigo absoluto; u) incurável gourmand; v) olho de lince; x) punho de clava; y) superego; z) adorador da vida; - esse menino grande mesmo, que não sei como ainda não descobriu no poema "Les Chercheuses de Poux", de Rimbaud, a sua doce morte diária, porque é homem de rede, mucama, água de coco, cosca no pé, cafuné na cabeça, brisa marinha no cabelo do peito; esse quebrador de tenreiros, físico para bergères antigas tipo mesenta, bem estufadas de modo a ele caber todo e ainda poder pôr os pisadores longe no tamborete; esse imenso tímido de radar sempre ligado, capaz no entanto das maiores semostrações esse gigante fraterno que já pôs o braço diante da minha queda e que tem casa, comida e roupa lavada no meu coração; esse grande pecador que se chama Antônio Maria Araújo de Moraes, tem - eu vos asseguro - o estofo de um grande santo. Às vezes posso vê-lo num burel de monge, no pátio colonial de um convento plantado de roseiras, dando de comer na mão a pombas brancas; ou a transitar silenciosamente num claustro seu vasto corpo gasto e purificado de muito amar.

Apelidos O gênio do apelido é virtude brasileira, diria quase carioca. Não conheço, em outros povos, uma tal espontaneidade na caracterização de tipos através de apelidos. Aqui no Rio, então, se o sujeito não tiver sido muito bem-feitinho, a régua e compasso, dificilmente o seu defeito ou modo peculiar de ser passará despercebido ao olho do carioca. Aliás, também não adianta muita perfeição, haja vista o excesso de linha daquele indivíduo sempre ultraengomado, que lhe valeu para sempre o apelido de Carretel. Há entre nós homens e mulheres com apelidos absolutamente notáveis. Não vou, é claro, revelar a identidade de seus portadores, muitos dos quais não conheço, porque em geral apelidos desse gênero obedecem a uma crítica um tanto cruel, a uma caricatura em palavras de defeitos ou peculiaridades. Chamar gente de nariz chato de Nariz na Vidraça pode ser muito engraçado, mas não para o possuidor do dito, seus parentes e amigos mais íntimos. Aquele rapaz, por exemplo, que cresceu demais e ficou lá em cima, com um rosto glarbo e infantil, é para todos os efeitos Menino Desce do Muro. Apelido cruel, convenhamos. Aliás, para caracterizar homens altos com um certo ar oligofrênico, há outros apelidos bastante bons: Espanador da Lua, Jóquei de Elefante, Água-Furtada. Sujeito alto, de pescoço comprido, já se sabe: é Garrafa. Há um homem magro, moreno e triste, conhecido meu, que tem o apelido de Pavio. Um outro, esquelético e muito louro, de Batata Palha. Este provavelmente não gostaria de ser identificado. Minha amiga Danusa Leão não liga a mínima (até gosta!) que a chamem Girafinha, devido ao seu lindo pescocinho espichado. E está certo, o apelido é terno. Mas coisa diferente é ser apelidado Bagaço de Cana ou Unha Encravada, como aconteceu com dois homens públicos, notórios no Brasil pela sua feiúra. Ou 1001, pela falta de dois dentes na frente, ou Ovos Nevados, por causa de manchas brancas na pele. Ou Azeitona Triste, devido a uma fisionomia verdoenga, coroada por uma melancólica careca; ou Puxa a Válvula, violento apelido para um homem sujo e de mau hálito, de quem eu fujo como da peste. Gente chata, essa tem apelidos que se vão tornando clássicos: Bolha, Pereba, Calo, Ferrinho de Dentista, Pingo D'água, Sapato Apertado, Valha-me Deus. Pode-se apontá-los na via pública; como também àquela vulcânica moça a quem apelidaram Estragalares e aquela grande fã de escritores e jornalistas, que ficou conhecida como Gruta da Imprensa; e mais aquela jovem leviana que, por muito pegada, tomou a pecha de Maçaneta; e ainda aquelas outras duas bem vulgares, vampes, que passaram a ser Minhoca de Lajedo e Que Modos São Esses. Houve um tempo em que havia aqui no Rio três lindas Elzas, excelentes moças, grandes amigas de nosso grupo. A uma, por excesso de "bondade", o carioca Lúcio Rangel apelidou de Elza Pudim Carnal; e o cronista Rubem Braga, que é de Cachoeiro de Itapemirim, mas também um bom carioca, chamou às outras duas, Elza Quisera Eu e Elza Simpatia é Quase Amor. A

caracterização, como se vê, nada fica a dever à biotipologia. Chamar moça gostosa, de andar trançado, de Tico-Tico no Fubá não é nada mau. Como também me parece um achado o apelido de Festa na Cumeeira, dado aos rapazes de Copacabana, da geração coca-cola, pelo topete que usam na cabeleira. A propósito de penteados, há outros bons como Rabo de Peixe, para negrinhas de cabelos esticados a ferro, ou Rompe-Fronha, para quem tem cabelo cortado rente e espetado. Gente pernóstica tem merecido, também, apelidos, mais que justos, como aquele crioulo de linguagem rebuscadíssima, a quem chamaram Noite Ilustrada; ou aquele branco do mesmo teor, que ficou conhecido Bolas de Ouro. Ninguém escapa nesta desvairada metrópole. Capenga pode eventualmente ser chamado Pneu Furado ou Pé no Visgo. Gente de pele escalavrada, Cocada Preta; mentirosos, Palavra de Honra; pessoas com crânios e orelhas de abano, Feijoada Completa; homens corpulentos e balofos, Bolo Fofo; homossexuais muito altos, Jaca (porque é fruta grande). Sujeitos ricos e pequenininhos, Banana Ouro; carecas totais, Ponto de Referência. Elegantes desses que usam berloques de ouro e relógios-pulseira, alfinete ou pregador de gravata e anel no minguinho, Árvore de Natal. Tipos albinos, ou muito ruivos, Tijolo ou Pinga-Fogo. Há um amigo meu a quem apelidaram Mal Necessário. Um bom sujeito. Há um outro, que um dia, nu, foi se olhar no espelho sobre uma penteadeira, que tinha uma gaveta aberta e perdeu o equilíbrio (contam seus amigos que o berro que deu foi tremendo!), a quem só chamam de Gaveta. Como se vê, tudo é pretexto para um bom apelido.

Arma secreta A notícia dada por um vespertino de que dez mil pintinhos de raça estavam sendo eletrocutados por ordem da Inspetoria Sanitária Animal do Ministério da Agricultura, por estarem contaminados de perigoso mal, foi recebida com a maior indignação por todos os galinheiros livres da cidade. O terrível morticínio, que nem de longe se compara a outros de memória recente, como as chacinas de Guernica, Lídice e Ouradour sem falar nos 6 milhões de judeus torturados e assassinados pelos nazistas - causou, no entanto, grande mal-estar no seio da família galinácea do Brasil, sobretudo por serem as vítimas pobres crianças indefesas. Como é sabido, cinco mil pintinhos já haviam sido sacrificados até sábado último, devendo os outros enfrentar o poleiro elétrico nos dias a seguir. Quer dizer: por essas horas o pintalhame todo já deve ter encontrado o seu Criador e não é dificil, com um pouco de imaginação, ver os bichinhos a piar tristemente pelas verdes e enevoadas pastagens do céu das galinhas, na saudade de seus inconsoláveis. De posse da notícia, andou o cronista percorrendo vários galinheiros da cidade, encontrando por toda parte um ambiente misto de desolação e revolta, principalmente entre os galináceos prisioneiros, a cujas gaiolas e samburás teve acesso graças a uma permissão dificilmente conseguida com o Fomento da Produção Animal. - É uma barbaridade! - disse um garnizé de pés atados. - Se eu conseguir sair daqui eles vão ver comigo! - E eu que tinha vários sobrinhos lá... - soluçou uma Rhode Island rolando dolorosamente os olhos cheios de lágrimas. - Não se importe não, minha filha - retrucou uma galinha-de-pescoço-pelado, que se fazia notar por um certo ar subversivo. - A coisa está por pouco. O revertere vem aí! - Qual! - cacarejou uma bela Leghorn. - Você ainda acredita em justiça? Pois bem: eu, minha filha, quero é me divertir. Assim que sair daqui, você vai ver só o galinheiro grã-fino que eu vou pegar. É preciso é aparência... Que é que adianta lutar? Eles são mesmo os mais fortes... Eu não, eu vou é com jeitinho... - Galinha! - cacarejou-lhe de volta um pedrês. Diante do que, resolveu o cronista bater em retirada, mal habituado que está a um certo cacarejo mais vulgar. Mas a visita a alguns galinheiros particulares, onde o regime de iniciativa privada é evidente, e a outros em franco processo de socialização, produziu efeito idêntico. - Soube que morreram como heróis! - disse um galinho carijó, - Apesar de crianças, enfrentaram a morte com a bravura característica da raça! Estamos providenciando uma reunião no sentido de erguer-lhes um monumento que perdure como o símbolo da nossa revolta. Pobres pintinhos... E assim foi em todos os galinheiros. Num último, por sinal localizado no quintal de uma

parenta nossa, tivemos oportunidade de falar com um líder da raça. O encontro foi cercado das maiores precauções, mas nos foram feitas revelações que não podemos deixar de transmitir aos leitores, embora sem citar o santo, ou melhor, o galo. Disse-nos o circunspecto bípede: - Trata-se de um ato de desespero, um ato de medo, meu caro plumitivo. Eles não sabem, no entanto, que a coisa está muito mais avançada do que eles pensam. As condições mudaram. O senhor não vê, por exemplo, essa galinha que apareceu em Rondolândia, em Goiás, e que põe ovos brancos e azuis através de dois sistemas de fecundação e postura independentes? Isso é uma arma com que eles não contam. No fundo, ficam atribuindo mais esse fenômeno à bomba atômica, mas se enganarn redondamente... Para nós, isso é pinto!

Arte e síntese (Rio de Janeiro) Arte não é só "fazer": é também esperar. Quando o veio seca, nada melhor para o artista que oferecer a face aos ventos, e viver, pois só da vida lhe poderão advir novos motivos para criar. Nada pode resultar mais esterilizante que o encontro de uma síntese, se ela não for, como na vida, a consequência de uma análise que se retoma a partir dela. Encontrar uma fórmula é, sem dúvida, uma forma de realização; mas comprazer-se nela e ficar a aplicá-la indefinidamente, porque agradou, ou compensou, constitui a meu ver uma falta de caráter artísco. Como nas ciências positivas, o encontro de uma síntese deve ser o ponto de partida para a busca de outra, e assim por diante, até o encontro dessa grande e única verdadeira síntese que é a morte. E nesse particular eu considero Picasso o maior artista dos nossos tempos. Picasso é como o câncer às avessas. Sua arte múltipla e prolífica representa uma tremenda afirmação de vida, pois o grande andaluz reformula-se constantemente, até quando varia sobre o mesmo tema. O quadro é para ele como um abismo onde se lança de cabeça, e que uma vez possuído, repele-o fora, como uma mulher violentada. Porque Picasso é dos poucos artistas de qualquer época a quem o abismo teme. O abismo teme esse louco saltimbanco que se atira no vácuo da tela sem saber se vai voltar - e volta sempre. De quantos mais, no nosso século, se pode dizer o mesmo? Arte é afirmação de vida, em que pese isto aos mórbidos. Afirmação de vida nesse sentido que a vida é a soma de todas as suas grandezas e podridões: um profundo silo onde se misturam alimentos e excrementos, e do qual o artista extrai a sua ração diária de energias, sonhos e perplexidades: a sua vitalidade inconsciente. Tome-se Villa-Lobos, por exemplo. Villa-Lobos é um caudal que se precipita arrastando tudo o que encontra em seu caminho, troncos floridos e paus pobres, ninfeias e cadáveres; e, uma vez represado, harmoniza os elementos antagônicos dessa rica contextura em música, seja da maior tranquilidade, seja do maior tormento - pois tudo faz parte da vida. Como admirar, assim, o artista que se recusa a comer dessa mistura, que desinfeta as mãos para tocá-la, que vive a tomar leite para não se envenenar com suas tintas? A arte não ama os covardes: e essa afirmação não pode ser mais antifascista. A arte, há que domá-la como a um miúra: e para tanto é preciso viver sem medo. Não a coragem idiota dos que se arriscam desnecessariamente, em franco desrespeito a esse terrível postulado da vida, que ordena uma preservação constante, de maneira a se estar sempre apto para os seus grandes momentos. Esse foi, a meu ver, o pecado maior de Hemingway, e a loucura maior de Rimbaud, que resultou, num, numa morte simulada, temporã, que se antecipou à grande síntese; no outro, numa evasão total, numa recusa pânica a ver o fundo do abismo. Isto sem

prejuízo da arte, que ambos exerceram, cada um a seu modo, com gênio e responsabilidade; mas não o gênio e a responsabilidade de um Tolstoi ou de um Picasso. E aí é que está a questão. É evidente que nenhum prazer poderá jamais substituir uma relação sexual de amor. E é isso o que irrita em certos artistas: eles acabam por se safisfazer solitariamente. Não são capazes, depois de encontrar a síntese, de jogá-la aos peixes, como faz Picasso diariamente, e sair para outra - e não por insatisfação pura e simples: porque sabe intuitivamente que quem acha vive se perdendo, como filosofou Noel Rosa. O negócio é a busca. Aí que a vida incute. Eu conheço artistas que não se dão mais sequer o trabalho de mergulhar no que fazem, no ato de criar. Trabalham mecanicamente, a partir de um métier adquirido, e elaboram sua obra dentro de esquemas predeterminados por uma síntese atingida. E ficam jogando boxe com a sombra, justificando-se de sua impotência criadora com a auto-satisfação do próprio virtuosismo; aparentemente vaidoso de sua rigidez temática, mas no fundo sabendo que se encontram diante desse fatal impasse em que esbarram sempre os que se recusam às fontes mais generosas da vida e da criação. Há amigos de Picasso, e a um eu conheci, que o acusam de avarento. Mas certamente não com sua vida e sua arte. Já ouvi toda sorte de histórias a seu respeito: de que guarda a fortuna em casa, dentro de uma arca, e fica a contar e recontar moedas como um usurário de teatro. Histórias absurdas, evidentemente, para quem não deve ter a menor noção do valor do dinheiro; cujos guardanapos e toalhas, que ficava riscando à toa, eram disputados a tapa pelos garçons dos restaurantes onde comia em Cannes. Mas fosse isso verdade - esse horrível pecado que é a avareza - e não seria uma ínfima anomalia neurótica, desculpável, portanto, num homem que criou a maior obra de arte do seu século? Quem fez mais que ele, que revolucionou toda a estética da arte contemporânea e se colocou, chegando o momento, do único lado certo - aquele contra os inimigos do homem e da cultura? Hoje, beirando os noventa, o velho minotauro, ainda sadio, ainda pintando, pode dizer: "Criei um mundo!" E não, bem certo, porque tivesse sido avaro com sua vida. Fecundou mulheres, teve filhos, fez amigos e discípulos por toda parte. Prodigalizou seu sêmen. Foi um homem.

Barra limpa (Rio de Janeiro) E como as páginas dos jornais estivessem mais sujas de sangue que as que embrulham o peso de carne nos açougues, eu resolvi desligar e buscar um pouco de beleza no mundo. Olhei minha nova casa em torno, toda caiada de branco, modesta em seu recolhimento, e os belos arraiolos no piso de tábuas, e fui espiar meu escritório ainda incompleto, pintado de amareloacácia, e vi minha mesa de trabalho com a Smith Corona em posição de sentido e o maço de folhas quadriculadas à minha espera para o artigo, o poema, a canção. À esquerda, o Pequeno dicionário, de mestre Aurélio, o tubo plástico de cola-tudo, a caixa de clipes e o copinho de couro ornado em cobre com as esferográficas e os lápis prontos para tudo. Pedi um café e sentei-me, tomado de grande paz. Vinha daquele ambiente um silêncio tão antigo; aquela casa era a tal ponto a representação de outras em que eu nunca tinha estado - como o reflexo ao infinito de uma imagem num espelho - que eu poderia dizer naquele instante como viviam e pensavam os homens mais remotos no tempo. Foi então que vi, através da janela, a pedra dos Dois Irmãos, na luz pura da manhã na Gávea; e ela estava de tal modo precisa em seus contornos, tão íntegra em sua estrutura milenar, que sorri para ela e ela me correspondeu sensível à onda de percepção que eu irradiava. Senti como se estivesse nascendo naquele momento. Uma vida nova, passada a limpo, me esperava em direção a um Norte mais nítido, a uma morte mais próxima e sem alternativa. Mas aquela casa me protegia, e dentro dela uma mulher se esforçava por me fazer feliz. Aquelas folhas de papel me esperavam também, intocadas, e era minha obrigação escurecê-las de ideias, histórias, sortilégios capazes, talvez, de fazer alguém parar no seu cotidiano e se pôr a sonhar. Era bela a minha missão. "E sou um poeta", pensei, "um homem dotado de um dom mágico com relação às palavras; a bem dizer, um encantador de palavras, com a habilidade de ordená-las no seu caos e fazê-las significar, torná-las cruéis, pungentes, desesperadas, ou boas, úteis, generosas; com o poder de interpretar para alguém o milagre de um sentimento ignorado; de dar expressão ao inexprimível; de associar ideias, cores, sons aparentemente contrastantes; de emprestar sentido e beleza ao terrível paradoxo da vida..." E senti como nunca dantes a necessidade de uma disciplina física e mental que pudesse ajudar meu corpo a tornar-se cada dia mais apto para usufruir, meu espírito mais lúcido para receber, meu coração mais simples para dar. Pensei em seres lindos semeados ao longe do meu caminho, que comeram o pão que o diabo amassou, e nem por isso se deixaram envenenar pelo ressentimento; pelo contrário, a cada sofrimento vivido pareciam crescer em consciência, amor e perdão - e como que deles emanava uma paz. Pensei que alguns desses seres já se foram, transpuseram o muro do silêncio, e suas imagens, fixadas na eternidade, continuam a transmitir-me esse recado de

perdão. Perdoar... Transcender o efêmero de cada sentimento, de cada ressentimento, e tentar compreender o ser humano em sua fragilidade, em sua transitoriedade e inabilidade intrínseca para demarcar os limites de sua solidão; em sua inútil e permanente mania de viver esbanjando a própria morte: a única coisa de que é realmente possuidor. Ah, que conquista tão bela, a do perdão... - e não o perdão autocomplacente; mas o perdão punitivo, o que responsabiliza aquele que perdoa, como o de Sócrates com seus juízes, o de Cristo com a adúltera, o da mulher que ama com o homem que acabou de traí-la. O amor que transcende. Que seres difíceis de digerir se tornaram os cosmonautas, em seu mundo mecânico e pasteurizado... Tomara que tenham êxito em sua badalação cósmica, que nos tragam, de preferência, antibióticos contra a guerra e não vírus contra a paz, que possam olhar o espaço invertido, com perdão da palavra, em noite de terra-cheia, e ver também, como nós vemos de cá, o Santo Guerreiro vencendo o Dragão da Maldade - que já não é sem tempo! E sobretudo que ao voltarem - e faço votos do fundo do meu coração - não comecem com muitas explicações cibernéticas quando ouvirem Frank Sinatra ou Ella Fitzgerald cantar velhas baladas como "Blue Moon" e outras do mesmo lunário em louvor da outrora bela e mágica Silene, a que apaixonou Endimião, e a quem tudo o que se pode dizer hoje em dia é que não lhe cairia mal um face peeling. Porque, ou muito me engano, ou uma grande onda romântica deve vir por aí, em contagem regressiva, em reação aos pops & ops, hips & trops, concs & struts, de que já está todo o mundo cheio. Depois de todas essas considerações, umas pertinentes, outras ímper, peguei meu carro e fui até a Barra, visitar um antigo cosmonauta: meu amigo Zanine. Zanine é um construtor terrestre, no mais amplo sentido da palavra, isto é, não apenas de casas, mas de sua própria vida. Gosta de fazer tudo com as mãos, ou orientando as de seus obreiros como se fossem o prolongamento das suas. Ele ama a terra, a pedra, a areia, a água, o barro cozido, a madeira nua, a cal branca, o ferro batido, a mulher baiana. É um artista no que planeja como visão de conjunto, e um artesão na pureza e simplicidade do que faz - com tudo o que essa palavra contém de beleza e sensualidade. Fórmica com ele não tem vez. Zanine acabou de construir uma bela casa - a sua casa - onde mora com a mulher e a filhinha, a alto cavaleiro do mar: um marzão que é uma bestialidade, povoado de ilhas toscas e peixes ferozes. O crepúsculo que Zanine me ofereceu esse dia, naquele horizonte imenso, era de dar vontade de ter asas. Aliás, voavam por ali tudo balõezinhos de julho, retardatários, que por não serem impulsionados por nenhum foguete - no que muito bem obravam - acabaram por cair no mar, em obediência a uma antiga lei de física, qual seja a da gravidade dos corpos, que, diga-se de passagem, qualquer dia é bem capaz de fazer uma falseta a um desses cosmonautas que teimam em desrespeitá-la. Para mim não há nada mais inocente que essas revistas pseudo-eróticas que andam por aí. As moças nuas, em off-set, parecem-me de tal modo cândidas, malgrado o esforço em contrário dos fotógrafos, que para mim constituem verdadeiros breves contra a luxúria. Já o mesmo não pode ser dito da natureza: pelo menos tal como ela se me oferecia, ao voltar da Barra. Pois imaginem que ao olhar o céu rubro do crepúsculo (eu diria melhor: ruborizado!) constatei, nada mais, nada menos - veja só! - que a tarde estava com a Lua toda de fora...

Batizado na Penha Eu sou um sujeito que, modéstia à parte, sempre deu sorte aos outros (viva, minha avozinha diria: "Meu filho, enquanto você viver não faltará quem o elogie..."). Menina que me namorava casava logo. Amigo que estudava comigo, acabava primeiro da turma. Sem embargo, há duas coisas com relação às quais sinto que exerço um certo pé-frio: viagem de avião e esse negócio de ser padrinho. No primeiro caso o assunto pode ser considerado controverso, de vez que, num terrível desastre de avião que tive, saí perfeitamente ileso, e numa pane subsequente, em companhia de Alex Viany, Luís Alípio de Barros e Alberto Cavalcanti, nosso Beechcraft, enguiçado em seus dois únicos motores, conseguiu no entanto pegar um campinho interditado em Canavieiras, na Bahia, onde pousou galhardamente, para gáudio de todos, exceto Cavalcanti, que dormia como um justo. Mas no segundo caso é batata. Afilhado meu morre em boas condições, em período que varia de um mês a dois anos. Embora não seja supersticioso, o meu coeficiente de afilhados mortos é meio velhaco, o que me faz hoje em dia declinar delicadamente da honra, quando se apresenta o caso. O que me faz pensar naquela vez em que fui batizar meu último afilhado na Igreja da Penha, há coisa de uns vinte anos. Éramos umas cinco ou seis pessoas, todos parentes, e subimos em boa forma os trezentos e não sei mais quantos degraus da igrejinha, eu meio céptico com relação à minha nova investidura, mas no fundo tentando me convencer de que a morte de meus dois afilhados anteriores fora mera obra do acaso. Conosco ia Leonor, uma pretinha de uns cinco anos, cria da casa de meus avós paternos. Leonor era como um brinquedo para nós da família. Pintávamos com ela e a adorávamos, pois era danada de bonitinha, com as trancinhas espetadas e os dentinhos muito brancos no rosto feliz. Para mim Leonor exercia uma função que considero básica e pela qual lhe pagava quatrocentos réis, dos grandes, de cada vez: coçar-me as costas e os pés. Sim, para mim cosquinha nas costas e nos pés vem praticamente em terceiro lugar, logo depois dos prazeres da boa mesa; e se algum dia me virem atropelado na rua, sofrendo dores, que haja uma alma caridosa para me coçar os pés e eu morrerei contente. Mas voltando à Penha: uma vez findo o batizado, saímos para o sol claro e nos dispusemos a efetuar a longa descida de volta. A Penha, como é sabido, tem uma extensa e suave rampa de degraus curtos que cobrem a maior parte do trajeto, ao fim da qual segue-se um lance abrupto. Vínhamos com cuidado ao lado do pai com a criança ao colo, o olho baixo para evitar alguma queda. Mas não Leonor! Leonor vinha brincando como um diabrete que era, pulando os degraus de dois em dois, a fazer travessuras contra as quais nós inutilmente a advertimos. Foi dito e feito. Com a brincadeira de pular os degraus de dois em dois, Leonor ganhou momentum e quando se viu ela os estava pulando de três em três, de quatro em quatro e de

cínco em cinco. E lá se foi a pretinha Penha abaixo, os braços em pânico, lutando para manter o equilíbrio e a gritar como uma possessa. Nós nos deixamos estar, brancos. Ela ia morrer, não tinha dúvida. Se rolasse, ia ser um trambolhão só por ali abaixo até o lance abrupto, e pronto. Se conseguisse se manter, o mínimo que lhe poderia acontecer seria levantar voo quando chegasse ao tal lance, considerada a velocidade em que descia. E lá ia ela, seus gritos se distanciando mais e mais, os bracinhos se agitando no ar, em sua incontrolável carreira pela longa rampa luminosa. Salvou-a um herói que quase no fim do primeiro lance pôs-se em sua frente, rolando um para cada lado. Não houve senão pequenas escoriações. Nós a sacudíamos muito, para tirá-la do trauma nervoso em que a deixara o tremendo susto passado. De pretinha, Leonor ficara cinzenta. Seus dentinhos batiam incrivelmente e seus olhos pareciam duas bolas brancas no negro do rosto. Quando conseguiu falar, a única coisa que sabia repetir era: "Virge Nossa Senhora! Virge Nossa Senhora!" Foi o último milagre da Penha de que tive notícia.

Brotinho Indócil A insistência daqueles chamados já estava me enchendo a paciência (isto foi há alguns anos). Toda a vez era a mesma voz infantil e a mesma teimosia: - Mas eu nunca vou à cidade, minha filha. Por que é que você não toma juízo e não esquece essa bobagem... A resposta vinha clara, prática, persuasiva: - Olha que eu sou um broto muito bonitinho... E depois, não é nada do que você pensa não, seu bobo. Eu quero só que você autografe para mim a sua Antologia poética, morou? Morar eu morava. É danadamente difícil ser indelicado com uma mulher, sobretudo quando já se facilitou um bocadinho. Aventei a hipótese: - Mas... e se você for um bagulho horrível? Não é chato para nós ambos? A risada veio límpida como a própria verdade enunciada: - Sou uma gracinha. Mnhum - mnhum. Comecei a sentir-me nojento, uma espécie de Nabokov avant la lettre, com aquela Lolita de araque a querer arrastar-me para o seu mundo de ninfeta. Não resistiria. - Adeus. Vê se não telefona mais, por favor... - Adeus. Espero você às quatro, diante da ABI. Quando você vir um brotinho lindo você sabe que sou eu. Você, eu conheço. Tenho até retratos seus... Não fui, é claro. Mas o telefone no dia seguinte tocou. - Ingrato... - Onde é que você mora, hein? - Na Tijuca. Por quê? - Por nada. Você não desiste, não é? - Nem morta. - Está bem. São três da tarde; às quatro estarei na porta da ABI. Se quiser dar o bolo, pode dar. Tenho de toda maneira que ir à cidade. - Malcriado... Você vai cair duro quando me vir. Desta vez fui. E qual não é minha surpresa quando, às quatro e ponto, vejo aproximar-se de mim a coisinha mais linda do mundo: um pouco mais de um metro e meio de mulherzinha em uniforme colegial, saltos baixos e rabinho de cavalo, rosto lavado, olhos enormes: uma graça completa. Teria, no máximo, treze anos. Apresentou-me sorridente o livro: - Põe uma coisa bem bonitinha para mim, por favor? E como eu lhe respondesse ao sorriso: - Então, está desapontado? Escrevi a dedicatória sem dar-lhe trela. Ela leu atentamente, teve-um muxoxo: - Ih, que sério... Embora morto de vontade de rir, contive-me para retorquir-lhe:

- É, sou um homem sério. E daí? O "e daí" é que foi a minha perdição. Seus olhos brilharam e ela disse rápido: - Daí que os homens sérios podem muito bem levar brotinhos ao cinema... Olhei-a com um falso ar severo: - Você está vendo aquele Café ali? Se você não desaparecer daqui imediatamente eu vou àquele Café, ligo para sua mãe ou seu pai e digo para virem buscar você aqui de chinelo, você está ouvindo? De chinelo! Ela me ouviu, parada, um arzinho meio triste como o de uma menina a quem não se fez a vontade. Depois disse, devagar, olhando-me bem nos olhos: - Você não sabe o que está perdendo... E saiu em frente, desenvolvendo, para o lado da avenida.

Broto alegre, "coroa" melancólica... (Rio de Janeiro) Elas se atarefavam, mãe e filha, nos últimos preparativos para a festinha. Iam ser uns quarenta ao todo, entre meninas e meninos, como sempre esfaimados, e a mãe não poupara nas comidas e sobremesas para os que inham comemorar os 16 anos de sua queridinha. Esta, excitada com a movimentação, ordenava agora os discos por ordem de popularidade. O barril de chope acabara de chegar, e os homens instalavam a serpetina que deveria mantê-lo bem gelado. A filha lançou um último olhar à sala enfeitada de flores e depois correu a beijar a mãe, que, emocionada, fingiu não dar por isso, ocupando-se com a arrumação de um vaso. - Você é um devaneio! - disse-lhe a menina. - A garota mais legal que eu conheço. - Pois é... - suspirou a mãe, disfarçando. - Acho que não falta mais nada. A filha coçou a cabeça, franzindo um pouco a testa. - Você acha que esse negócio de chope vai dar certo? Não é meio... antiquado, meio devagar? Será que os caras não vão me gozar? - Que é isso? Tenha personalidade! No meu tempo era o que se usava, para as festas maiores. Sai tão mais barato... Imagina dar uísque a essa gente toda... Era só o que faltava! E depois, custa mais a dar pileque. - Bem, eu tenho uísque escondido para o Marquinhos e o Ronaldo, que são do peito. Os outros vão pensar que é guaraná. A mãe parecia, de repente, perdida em recordações. - Era sempre chope... A não ser, naturalmente, nos grandes dias, quando seu avô abria vinho e até champanha... - Devia ser o auge do troço quadrado - comentou a filha distraidamente. - Não tinha nada de quadrado, não senhora! A gente se divertia muito mais, em lugar de ficar se matando com essas danças malucas de vocês. Eu me lembro, por exemplo, quando fiz 18 anos. Tinha leitão assado, galinha ao molho pardo, frigideira de siri, empadas de camarão... você nem imagina! Sobremesas, acho que eram umas dez! - E vocês dançaram? - Se dançamos! Seu avô mandou contratar especialmente a orquestra de Nelsinho e seus Turunas. Era o que se chamava, então, uma jazz band. Tinha uma música que eu adorava... como é mesmo? Ah, já lembrei... Chamava-se "Carabu": O minha Carabu Dou-te o meu coração La-ra-ra-ra-ra-rão Tu, somente tu Minha Carabu!

- A melodia é bacaninha, mas a letra parece uma bomba. Como é que você estava vestida?

- Ah... - e a mãe deu uma meia-volta de modelo para mostrar - eu tinha um vestido mauve rosé até aqui: bem curtinho. Foi a moda precursora do Courrèges. Sapatinhos meio-salto, mordorrés, meias com liga de elástico, e rococós. - Rococós? Que troço é esse? - Nada, sua boba. Eram duas rosinhas de cetim que se punha na frente das ligas, para ficar bonitinho se alguém por acaso visse, sabe� O cabelo era assim meio de taradinha, como andam usando de novo. Só que a gente fazia pega-rapaz, umas vírgulas de cabelo na testa e dos lados. E a boca era pintada em forma de coração. Ah, ia me esquecendo: punha-se sempre um sinal preto um pouquinho abaixo do olho, o grain de beauté. Eu usava um produto chamado Sardalina, para disfarçar um pouco as sardas, e a gente escovava bem os dentes com pasta Diamant vermelha, para ficar com as gengivas rosadas. Na mão só se levava uma pequena trousse: a minha era linda, de ouro, que mamãe tinha me dado. Um leque japonês também tinha seu lugar, mais para as senhoras. Nos olhos se usava Kohl, uma pasta preta: ficava lindo! - Imagino... - disse a menina. - É sim! Quando a orquestra ia embora, passava-se para o gramofone. E no final da noite faziam-se jogos de prenda. Esconde-esconde seu avô não deixava, por causados beliscões que os moços davam. - Ninguém puxava um fumo? - Se alguém fumava? Havia quem fumasse, mas escondido, para os pais não verem. Imagina se alguém ia ter coragem de fumar diante de seu avô... - Você não entendeu... Eu perguntei se alguém fumava maconha, ô quadradona! - Você está louca, menina! Você tem cada ideia! Isso são loucuras dessa mocidade de hoje. Mas em compensação eu tinha um namorado, logo antes de seu pai, que tocava ukelele! - Tocava... o QUÊ? - Ukelele, ora essa! Muito bonitinho. Vocês por acaso não tocam todas essas bobagens de iê-iê-iê e não sei mais quantas? Meu namorado tocava ukelele. E muito bem até! A menina correu para dentro, as mãos tapando a boca de tanto rir. - Essa não! Essa não!

Cãibra Um cacho de gente pendura-se ao meu lado, do estribo do bonde descendo a Presidente Vargas em demanda da Central. Na ponta do cacho, como uma banana não prevista, um mulatinho segura-se ao bonde por apenas dois dedos de cada mão. Numa hora lá, ouço-o dizer: - Puxa, que cãibra! Olho a penca humana do meu lugar à ponta do banco. Tenho à minha esquerda um velho que cochila, com toda a pinta de funcionário da Central, os punhos puídos e a gravata desfiando no nó. À minha frente há uma mulata gorda, de pé, ou melhor, no seu impressionante posterior, Vejo, nas caras à minha volta, sinais de imemorial fadiga e paciência, Dir-se-ia que estamos na Índia. A cor de todo mundo é a da desnutrição e da desesperança. Há poucos rostos escanhoados. Muitos olhos trazem sinais de conjutivite crônica e paira um ar geral de avitaminose dentro do elétrico a transportar lentamente a sua carga humana para a cidade. O sol bate a pino no cacho pendente, como a querer amadurá-lo à força, e rapidamente. Lá de fora chega-me novamente a voz, meio aflita: - 'Tou com uma cãibra! Mas ninguém dá atenção. O bonde prossegue um pouco mais, eu de olho no mulatinho de cara contraída, os braços elásticos a abraçar de fora a penca de homens de cerrada catadura. "Ele vai cair�" penso comigo. Mas logo depois acho que não, que ele aguenta mais um pouquinho, porque já por estas alturas estamos atingindo a antiga praça Onze, onde há um ponto de parada. Mas a voz chega novamente, aflitíssima, enquanto eu vejo os dedos do mulatinho com as pontas brancas de esforço, agarrados como garras ao balaústre: - Não aguento mais essa cãibra! A queda veio em seguida, mas o "roxinho" era muito safo. Apesar de cair de costas, ele aproveitou o movimento, girou numa espetacular pantana e pôs-e de pé. Foi evidentemente sorte sua o bonde estar a fraca velocidade. Vi-o ainda sacudindo o braço da cãibra que o tomara, sem qualquer sinal aparente de ferimento ou choque. O seu substituto no cacho ficou olhando, o corpo estirado para fora do bonde, e comentou meio para si mesmo: - O homem devia 'tar com uma cãibra...

Canto de amor e de angústia à seleção de ouro do Brasil Minha seleçãozinha de ouro da Copa do Mundo de 1962 eu vos suplico que não jogueis mais futebol internacional não porque o meu pobre coração não aguenta tanto sofrimento eu juro que prefiro ver vocês disputando só aqui dentro do gramado nacional porque aqui a gente já sabe como é e embora eu torça pelo Botafogo ninguém vai morrer mas não é mesmo a não ser talvez o meu bom Ciro Monteiro quando o Flamengo entra bem porque nós somos todos irmãos e briga entre irmãos se resolve em casa mas lá for a tudo é diferente eu quase tive um enfarte eu quase tive uma embolia tinha uma coisa que bolia dentro do meu cérebro eu acho que era o Puskas chutando minha massa cinzenta de tanta raiva filho de uma boa senhora vocês deviam é ter-lhe dado um pontapé no cóccix vá ser oriundi ele sabe onde mas você Amarildo garoto lindo do meu Botafogo você representou o Rei à altura coitado do meu Pelé com aquela distensão na virilha se estorcendo em dores para maior glória do futebol brasileiro ele é que devia ser primeiro -ministro do nosso Brasil trigueiro sabe Pelé eu nunca chamei ninguém de gênio porque acho besteira mas você eu chamo mesmo no duro você e o meu Garrincha que eu louvo a santa natureza lhe ter dado aquelas pernas tortas com que ele botou a Espanha entre parêntesis garoto bom passou o primeiro passou o segundo o terceiro o quarto chutou GOOOOOOOOOL DOOO BRAAAAASIL que beleza maior beleza não tem nem pode ter toda raça vibrando com uma dispneia coletiva ah que vasoconstrição mais linda o sangue entrando verde pelo ventrículo direito e saindo amarelo pelo ventrículo esquerdo e se fundindo no corpo amoroso de pobres e ricos doentes de paixão pela pátria e até a revolução social em marcha para maravilhada para ver "seu" Mané balançar o barbante e aí ela prossegue seu caminho inflexível contente da vida de estar marchando nessa terra em que são todos irmãos até mesmo os que amanhã podem estar regando com o seu generoso sangue este solo nativo onde seremos enterrados enrolados moralmente na bandeira brasileira ao som de "Cidade maravilhosa" mas como eu ia dizendo não me façam mais aquilo do primeiro tempo com a Espanha porque senão vai ter um poeta a menos no mundo eu sei que poeta não resolve não dribla não encaçapa a não ser o Paulinho Mendes Campos a gente fica só mesmo é driblando a angústia o medo e amor a morte poxa eu estou agora meio doente acordo em sobressaltos eu acho que nem vou poder ouvir o jogo final senão eu faço feito aquele cara que estourou a cabeça contra um poste no fim do primeiro tempo com a Espanha porque é demais tanta ansiedade eu jà não sou criança as coronárias não aguentam brasileiro é mesmo sentimental a gente chora porque a vida dói muito em nós conforme disse o Carlinhos Oliveira aqui não tem Marienbad não é tudo gleba feita do barro natal e lágrimas do amor até grã-fino sofre e é capaz de não ir ao Jirau para ver Didi mestre sereno da arte do balipédio Einstein da folha-seca ou então os professores Nilton e Djalma Santos que precisam ser canonizados porque nunca

pensam em si mesmos só em Gilmar probrezinho mais sozinho do que Cristo no Horto no meio daquele retângulo abstrato no vórtice do qual se esconde o hímen da pátria-menina que todos nós havemos de defender até a última gota do nosso sangue dá-lhe San Thiago porque olhe que eu sou até um cara que não é dessas coisas mas juro que estou ficando com uma xenofobia de lascar e só de me lembrar do Puskas vou até tomar um tranquilizador senão eu dou uma bomba aqui nesta máquina de escrever que vai ser fogo e aí morro porque eu não aguento mais tanta agonia por favor ganhem logo e voltem para casa com a Taça erguida bem alto para a transubstanciação do nosso e do vosso júbilo o Rio de Janeiro a vossos pés e muito papel picado caindo das sacadas da avenida Rio Branco e da cabeça dos políticos é só o que eu lhes peço voltem porque senão a revolução em marcha não caminha ela fica também encantada com a vossa divina mestria e por favor poupem o coração deste e de 70 milhões de poetas cuja vida pulsa em vossos artelhos enquanto vos dirigis para a vitória final inelutável com a ajuda de Nossa Senhora da Guia nosso pai Xangô e "seu" Mané Garrincha. Olé!

Caxambu Les Eaux Depois de uma temporada como a que tive no Zum-Zum, nada melhor que esta moleza, este vago tédio em que me encontro, específicos de uma estação de águas. Cheguei, além do mais, asilando uma gripe que se não é a "russa", anda por perto. Estou derreado. Servem-me as águas a domicílio, numa garrafa vestida de uma linda fantasia de palhinha, um negócio para o baile do Municipal: eu, astênico, vagotônico, no fundo feliz de me sentir de novo disponível. Cai-me bem, de quando em quando, uma doença. É, não só, de certo modo, um treino para a morte, como um grande pretexto para a meditação. O tempo, que se faz tão rápido nesta minha quadra da existência, como que se relaxa. Fica tudo mais sensível, mais acústico. Esse binômio "gripe e estação de águas" é muita felicidade junta. Sinto que me recuperarei de modo total, e com muita sabedoria. E uma certa tristeza. * * * Tenho figos no quarto. Se acordo de madrugada e sinto fome, como um figo. Ou chupo, em solo mineiro, uvas paulistas, tal um herói de Kazantzakis. E antes de voltar à cama, e aos braços de mme. de Rênal, com quem na pele de Julien Sorel, traio a minha bem-amada, ainda respiro à janela o ar das Alterosas. Em que país, fosse mesmo escandinavo, poderia eu ver três senhorazinhas encantadas passarem pela rua, às duas da manhã, tremulando valsas em bandolins afinadíssimos? Em que ficção, fosse mesmo japonesa, poderia eu ler uma cena destas? Ó prosadores destas Minas que sois amigos meus: por que me ocultastes isto tanto tempo? * * * Hoje fui ao parque: melhor dizer Parque, assim com maiúscula. Passeei minha convalescença por entre outras senhorazinhas encantadas, mas desta vez encantadas de serem aquáticas, de estarem trafegando assim por entre a flora bem-comportada do jardim, parando para beber as águas e fazer uma fofoca rápida; senhorazinhas, algumas, ainda esperançosas, justiça lhes seja feita, a julgar pelas calças compridas que portam, mais justas que as da Mariazinha do Posto 5. Bravo, senhoras minhas! Nada de entregar os pontos. Bebei na Fonte Duque de Saxe, lavai o rosto na da Beleza e os olhos com o colírio alcalino da Viotti. Em seguida, fazei massagens de duchas, e se necessário for, metei um Pitanguy. E em desespero de causa ide para o Jardim Botânico em dia de chegada de navio holandês. Há sempre um viúvo rico dos Países-Baixos correndo o mundo, disposto a negociar os dólares da própria solidão. Ora, o Jardim Botânico, para um flamengo, é atração turística obrigatória. Sentai-vos num banco com o vosso tricô e ao vê-lo que se aproxima, gordinho e rubicundo, pedi-lhe fogo. Se ele não fumar, isso já é assunto bastante para um passeio juntos. Não paga dez. À noite recebereis uma cesta de tulipas e um mês depois estareis em Amsterdã, dona de casa entre canais, tomando a vossa

genebra bem gelada e nem lembrando mais deste país subletrado e subdesenvolvido. Eu tive uma prima idosa que casou assim: e ela era mais feia que a necessidade. Casou-se com um suíço. A linha é mais ou menos essa... Ontem minha mulher foi assistir, no circo local, a uma pantomima sobre Caryl Chessmann, o famoso Bandido da Luz Vermelha, de Los Angeles, cuja execução na câmara de gás, há uns quatro anos, deixou o mundo em suspenso. Contou-me ela que, num determinado momento, a mulher do bandido vai visitá-lo na prisão e ao vê-lo pergunta-lhe, asssim mesmo à gaúcha: - Então, como vais? Ao que Chessmann responde: - Encarcerado, como vês... * * * Como existe esperança no mundo... Que beleza! É de ver o movimento que vai por estas fontes, mesmo agora, já um pouco fora de estação. Uma trançação constante, cada um com o seu copinho de plástico onde há escrito: "Lembrança de Caxambu." E as águas balsâmicas desengurgitam figados cirróticos, acordam vesículas preguiçosas, dissolvem litíases antigas. É a saúde! Uma esticada de mais dez anos, mais cinco, mais seis meses, mais um mês, mais 15 dias... - poxa! - mais uma semaninha só, tá? A Velha da Prestação não tem outro jeito: - Tá. * * * Mas ao vê-la sentada lá no alto do outeiro, com o maxilar apoiado nas falanges, numa atitude de Pensador de Rodin a gente sente que a Morte está chateada da vida. Assim não é vantagem, com essas águas... E ela fica, pensando que não há nada como se ter dinheiro. O que ainda lhe vale é que para a paisanada local, pobre e mal nutrida, a carência de iodo nas águas da região é bócio certo. De qualquer modo, para ela não deixa de ser uma esperança...

Chorinho para a amiga Se fosses louca por mim, ah eu dava pantana, eu corria na praça, eu te chamava para ver o afogado. Se fosses louca por mim, eu nem sei, eu subia na pedra mais alto, altivo e parado, vendo o mundo pousado a meus pés. Oh, por que não me dizes, morena, que és louca varrida por mim? Eu te conto um segredo, te levo à boate, eu dou vodca pra você beber! Teu amor é tão grande, parece um luar, mas lhe falta a loucura do meu. Olhos doces os teus, com esse olhar de você, mas por que tão distante de mim? Lindos braços e um colo macio, mas porque tão ausentes dos meus? Ah, se fosses louca por mim, eu comprava pipoca, saía correndo, de repente me punha a cantar. Dançaria convosco, senhora, um bailado nervoso e sutil. Se fosses louca por mim, eu me batia em duelo sorrindo, caía a fundo num golpe mortal. Estudava contigo o mistério dos astros, a geometria dos pássaros, declamando poemas assim: "Se eu morresse amanhã... Se fosses louca por mim... ". Se você fosse louca por mim, ô maninha, a gente ia ao Mercado, ao nascer da manhã, ia ver o avião levantar. Tanta coisa eu fazia, ó delícia, se fosses louca por mim! Olha aqui, por exemplo, eu pegava e comprava um lindo peignoir pra você. Te tirava da fila, te abrigava em chinchila, dava até um gasô pra você. Diz por que, meu anjinho, por que tu não és louca-louca por mim? Ai, meu Deus, como é triste viver nesta dura incerteza cruel! Perco a fome, não vou ao cinema, só de achar que não és louca por mim. (E no entanto direi num aparte que até gostas bastante de mim...). Mas não sei, eu queria sentir teu olhar fulgurar contra o meu. Mas não sei, eu queria te ver uma escrava morena de mim. Vamos ser, meu amor, vamos ser um do outro de um modo total? Vamos nós, meu carinho, viver num barraco, e um luar, um coqueiro e um violão? Vamos brincar no Carnaval, hein, neguinha, vanios andar atrás do batalhão? Vamos, amor, fazer miséria, espetar uma conta no bar? Você quer quer eu provoque uma briga pra você torcer muito por mim? Vamos subir no elevador, hein, doçura, nós dois juntos subindo, que bom! Vamos entrar numa casa de pasto, beber pinga e ceveja e xingar? Vamos, neguinha, vamos na praia passear? Vamos ver o dirigível, que é o assombro nacional? Vamos, maninha, vamos, na rua do Tampico, onde o pai matou a filha, ô maninha, com a tampa do maçarico? Vamos maninha, vamos morar em jurujuba, andar de barco a vela, ô maninha, comer camarão graúdo? Vem cá, meu bem, vem cá, meu bem, vem cá, vem cá, vem cá, se não vens bem depressinha, meu bem, vou contar para o seu pai. Ah, minha flor, que linda, a embriaguez do amor, dá um frio pela espinha, prenda minha, e em seguida dá calor. És tão linda, menina, se te chamasses Marina, eu te levava no banho de mar. És tão doce, beleza, se te chamasses Teresa, eu teria certeza, meu bem. Mas não tenho certeza de nada, ó desgraça, ó ruína, ó Tupá! Tu sabias que em ti tem taiti, linda ilha do amor e do adeus? tem mandinga, tem mascate, pão-de-açúcar com café, tem chimborazo, kamtchaka, tabor, popocatepel? tem juras, tem jetaturas e até danúbios azuis, tem igapós, jamundás, içás, tapajós, purus! - tens, tens, tens, ah se tens! tens, tens tens, ah se tens! Meu amor, meu amor, meu amor, que carinho tão bom por você, quantos

beijos alados fugindo, quanto sangue no meu coração! Ah, se fosses louca por mim, eu me estirava na areia, ficava mirando as estrelas. Se fosses louca por mim, eu saía correndo de súbito, entre o pasmo da turba inconsútil. Eu dizia : Woe is me! Eu dizia: helàs! pra você� Tanta coisa eu diria que não há poesia de longe capaz de exprimir. Eu inventava linguagem, só falando bobagem, só fazia bobagem, meu bem. Ó fatal pentagrama, ó lomas valentinas, ó tetrarca, ó sevícia, ó letargo! Mas não há nada a fazer, meu destino é sofrer: e seria tão bom não sofrer. Porque toda a alegria tua e minha seria, se você fosse louca por mim� Mas você não é louca por mim... Mas você não é louca por mim...

Cobertura na Gávea Todo mundo, como eu, devia ter uma cobertura. Pois ter uma cobertura significa ser Capitão de Imóvel, ter uma ponte de comando de onde observar a vida, e às vezes a morte, nos imóveis de menor calado, sempre de olhos baixos ante vosso orgulhoso gabarito. Significa poder espraiar a vista sobre o grande mar urbano, a conter em casas e apartamentos o amor que se debruça para fora das janelas, em busca de comunicação. Ter uma cobertura significa dominar; não dominar como o fazem os ditadores e os tiranos: dominar com os olhos - e também em tristeza e solidão. Significa ver sem ser visto, desvendando a rápida nudez de moças em flor a caminhar em seus aposentos: e amá-las quase sem desejo. Em verdade, coisa bela é ser dono de uma cobertura, e poder ficar em intimidade maior com a noite, mais próximo do céu, em colóquio com as estrelas, nessa vaga embriaguez que provoca a mirada do infinito. É poder sentir a palpitação noturna da vida nas luzes acesas dentro das casas, a insinuar uma precisão de paz em meio ao grande conflito humano. Ter uma cobertura representa ser montanhês na planície dos homens e das coisas; respirar o ar menos poluído do complexo urbano; poder falar, ouvir música e amar em alto e bom som, sem a preocupação de incomodar o próximo. Sim, todo mundo, como eu, devia ter uma cobertura na Gávea com um belo terraço, de onde se descortina, ao norte o Pão de Açúcar; ao sul o Hipódromo; a leste a réstia luminosa de Ipanema e a oeste o Corcovado - o Cristo de costas, discreto, inatento. Ter, sobretudo, uma cobertura sem grandes luxos, simples, sincera, pintada de branco e de teto baixo na qual-se possa ir e vir com um ar de comandante satisfeito com o seu barco. Hoje posso olhar à minha volta para esses amplos espaços que me cercam, para a reserva florestal que enche de verde o meu escritório e o meu quarto, e dizer-me com orgulho : sou um homem rico ! Na realidade, de que mais preciso? Proprietário de poemas e canções, senhor de uma mulher e uma paisagem, dono de minha vida e minha morte - não serei eu por acaso o homem mais rico desta terra?

Com o pé na cova Segunda-feira última, ao entrar no Golden Room do Copacabana para a estreia do novo espetáculo de Carlos Machado, tive a mão vivamente apertada por um dos mâitres da casa, velho chapa meu. Notei que me olhava com um ar ansioso. - Como é? - perguntei-lhe. - Tudo em ordem? - Puxa, dr. Vínicius... O senhor nem sabe como estou satifeito! Imagine que hoje de tarde andou correndo que o senhor tinha morrido... Fiz, por via das dúvidas, a minha figa, com o pai-de-todos e o furabolos, pensando na mãe do autor da gracinha. Mas a real satisfação do mâitre meu amigo compensou-me de um certo mal-estar deixado pela notícia. Fiquei considerando que ela realmente vai acontecer um dia e � - mas deixa pra lá. Entrei na boate lembrando-me de que, se há um homem que pode dizer já ter estado "com o pé na cova", literalmente, esse homem sou eu. Foi em Los Angeles, aí por 1947. Com o cônsul em férias, achava-me eu encarregado do nosso Consulado e um belo dia eis que me aparece por lá um marinheiro brasileiro: um bom paraibano, com um sotaque pastoso, que havia fugido de um navio, no porto de São Francisco, e depois de viajar de carona até Los Angeles, esfaimado, resolvera se apresentar. Tomei os necessários dados, dei-lhe um dinheirinho para que comesse num drugstore embaixo e arrumasse um hotel, e pedi-lhe que se mantivesse em contato comigo, enquanto tratava de sua repatriação. Dia seguinte, surge-me um cidadão da polícia de San Diego, porto vizinho a Los Angeles, para dizer-me que um brasileiro havia sido esmagado por um trem, por se encontrar deitado na linha férrea. Reconheci, na carteira profissional que me foi apresentada, o retrato do meu bom paraibano. Tinha-se "mandado". Fiz um telegrama ao Itamarati, pedindo autorização para fazer embalsamar o corpo e proceder o enterro, e três dias depois, dirigidos por dois agentes da companhia funerária que havíamos tratado, eu e o então auxiliar contratado Maurício Fernandes - que posteriormente entrou firme no negócio de hotéis, e continua sempre um bom amigo - dirigimo-nos para o cemitério de Forest Law: cenário do famoso romance The Loved One, de Evelyn Waugh; cemitério onde se ouve música piegas sair de todos os lados e que, no meu tempo, mantinha cartazes de publicidade nas ruas de Los Angeles com os seguintes dizeres: "Sleep under the stars..." ("Durma sob as estrelas"). Uma vez chegados, um dos agentes acionou um mecanismo que fez o caixão sair automaticamente do coche, já em posição de ser retirado. E assim o levamos nós, com Maurício Fernandes e eu nas alças de trás, até a cova que havíamos adquirido para o nosso bom paraibano. Mas de uma coisa não sabia eu: que com essa mania de disfarçar a morte que têm os americanos (maquilar os defuntos, etc.), existe também o curioso costume de tapar o buraco da cova, até a hora da descida do caixão, com um tapetinho de um material verde parecendo chenile - o que a integra na relva circundante.

E foi exatamente onde eu pisei e desapareci, deixando o caixão sobre mim, por um momento, em posição bastante precária, devido ao desequilíbrio causado pela minha queda. Aí veio todo mundo me ajudar a sair da cova, mas eu, apesar de um pouco arranhado nas pernas, ao dar com a cara entre aflita e irônica de Maurício Fernandes, a me estender a mão, desabei numa tal gargalhada que foi uma luta para me tirarem dali. Dobrava-me de tanto rir. Meu riso contagiou-o, e nós não podíamos mais olhar um para o outro. Ríamos, ríamos, e foi rindo assim, em frouxos alternados, que demos sepultura ao nosso pobre patrício. E não sem muitos olhares de censura dos dois agentes funerários, absolutamente imperturbáveis no exercício do seu piedoso dever.

Contemplações do poeta ao cair da noite Ainda há pouco, a reler a página admirável de frei Luís de Sousa, cujo título, possivelmente dado pelos antologistas Álvaro Lins e Aurélio Buarque de Holanda, é (se em vez de poeta ler-se arcebispo) o mesmo desta crônica, tive a alegria de verificar quão parecidas eram as minhas noites de solidão em Montevidéu, com as de frei Bertolameu dos Mártires, mais de três séculos antes. Como o santo arcebispo, também eu passava o dia todo dando expediente, quiçá de menos hierarquia, pois enquanto ele devia andar às voltas com despachos celestiais, tinha eu a meu cargo despachos marítimos e terrestres, além da firmação de passaportes e faturas e da contagem diária dos emolumentos consulares. E como fazia ele, com relação às coisas divinas, eu, ao fechar-se a noite sobre o cerro que provocou no descobridor a exclamação nominativa da cidade, depois de um curto trajeto de automóvel até o bairro de Pocitos, onde tenho meu apartamento num sétimo andar "pagava-me o peso do dia, e do trabalho com um passatempo malconhecido no mundo, e ao menos buscado de poucos (e ainda mal, que se muitos o buscaram fora melhor ao mundo)". Entregava-me a uma profunda contemplação da bem-amada ausente. Esta era a maneira de vencer a distância irremediável que se estendia diante dos meus olhos voltados para o norte e que às vezes buscavam, na linha descendente de Alfa e Beta de Centauro, o ponto exato onde ela, de sua janela sobre o parque, devia também pensar em mim. E não se maravilhe ninguém de que eu, tal o arcebispo, passasse com tanta facilidade dos negócios à contemplação. Não tinha, é claro, "dês da primeira idade feito hábito neste santo exercício". Mas o que me faltava em penitências, sobrava-me em ternura e querer-bem. E se nele "este antigo costume lhe trazia a viola do espírito tão temperada sempre, que em qualquer conjunção que largava o negócio, logo a achava prestes para sem detença entoar as músicas da Celestial Jerusalém, e ficar absorto nos prazeres do divino ócio", eu por mim tinha sempre bem afinado o meu violão Del Vecchio, e me comprazia em machucar-me as saudades com os doridos acordes de tantas canções feitas para a bem-amada. E assim não me era por nada difícil passar de faturas a doçuras, e desligar-me da rotina do trabalho para a comunhão com a amiga distante, num lento evolar-se do meu ser empós sua adorável imagem, que às vezes parecia corporificar-se na lua que estava no céu. E não era incomum ficarmos, eu e a lua de Montevidéu, em doce conúbio, ela dilatando os espaços com os raios de seu amor, eu esvaindo-me de amor em seu luar. Pois era aquele o luar do meu bem no seu pungente exílio, a segredar-me que, mesmo ausente, ali estava para iluminar as minhas horas; e eu tivesse paciência e a esperasse dentro e fora de mim, que ela se vestira toda de luz para o nosso futuro encontro; e não me desesperasse, pois estava próximo o dia em que nunca mais nos haveríamos de separar. De outros turnos - como no caso de frei Bertolameu, que dessem-lhe azo os negócios, "subia sobre tarde a um eirado que mandou fazer em uma casa das mais altas do Paço; e como

o passarinho, que depois de andar todo o dia ocupado na fábrica de seu ninho, quando vai caindo o Sol, e as sombras crescendo, estende as asas pelo ar, dando umas voltas alegres, e desenfadadas, que parece não bole pena, ou posto sobre um raminho canta descansadamente", - também eu deixava-me estar no terraço de meu apartamento, um dos mais altos de Pocitos: e feito ele que, à imagem da avezinha, "depois de alargar os olhos pelas serras e outeiros, que do alto se descobriam, estendia os de sua alma às maiores alturas do Céu, voava com a consideração por aquelas eternas moradas, desabafava, e em voz baixa entoava de quando em quando alegres Hinos" - eu por minha vez, ante a ideia de compartilhar com a bem-amada a visão dos amplos espaços crepusculares do estuário do rio da Prata, e de rodeá-la, com meus braços dentro das iluminações do poente oriental, punha-me, tal um menino que, ai de mim, já não sou mais, a tamborilar com os dedos e a cantar com ela alegres sambas do meu Rio, que não é da Prata nem do Ouro, mas que é cidade de muito instante, e em hoje mora, em casa única, o meu antes triste e multifário coração.

Conto do dilúvio O rapaz vinha contente pelo aguaceiro - plact, ploct, ploct - na semi-embriaguez em que o tinham deixado umas cachaças tomadas para cortar: um mulatinho bacano e desempenado, naquela idade em que só se olha para a frente. Levantara as calças até os joelhos e agora deixava a chuva bater-lhe livremente no rosto, tomado de euforia. Nunca tinha visto tanta água. Ficara um tempão preso na obra, tudo alagado em torno, mas a cachaça correra de mão em mão - ele pouco habituado - e de repente, com a cabeça em fogo, resolvera enfrentar o temporal - poxa! - senão ia perder a vez da Ritinha. Ritinha era uma jovem prostituta do morro, menina de 14 anos que se achamegara por ele. Ela o esperava sempre embaixo da escadaria que cortava a encosta, para evitar confusão com os malandros que a requestavam. "Deixa eles comigo �", dizia-lhe o rapaz cheio de entono, gingando o corpo como quem vai se espalhar. Mas ela sabia que seu namorado ainda não dava pé para enfrentar a turma da pesada, e por isso arrumara aquele cantinho discreto, onde podiam se amar à vontade. Ele a viu mesmo de longe, abrigada sob a pedra da encosta, e correu para ela - ploct, ploct, ploct, ploct - o mais depressa que podia, a mente cheia de desejo do seu amor fácil e sem compromisso. Teve apenas o cuidado de rodear de longe o grande bueiro aberto na rua, para onde as águas lamacentas eram tragadas em rápida e perigosa sucção: - Pensei que você não viesse mais... - queixou-se ela, abraçando-o todo contra o coração. - Ah! roxinha... Não foi mole não! Se o papai aqui não é muito safo, você hoje ficava sem a sua marmita... E veio o amor violento sob a chuva, um a querer sugar o outro, ela no seu abandono de prostituta-menina, ele no ardor de seus verdes anos, acrescido da embriaguez do álcool. E a tromba-d'água caía em torrente sobre seus jovens corpos se amando na lama, lavando-os das impurezas da vida no morro. E depois veio a paz. -Vou te levar pro teu barraco - disse-lhe ele, agradecido. - Que barraco? Não tem mais barraco nenhum não... - Como é que não tem mais barraco? Ela deu de ombros: - A pedra rolou ontem de madrugada e acabou com tudo. O rapaz ergueu o corpo a meio, para olhá-la melhor. Só então notou grandes rnanchas de sangue por baixo da lama que a cobria. - Quer dizer que você não tem mais onde morar? Ela levantou-se, apoiando-se nele: - Tenho. Só agora é que eu tenho mesmo onde morar. Você chama morar àquele barraco imundo que eu tinha, onde eu vendia meu corpo por um dólar de maconha? Depois, desprendendo-se dele, deu alguns passos em direção à rua cheia onde a água

turbilhonava: - Eu só voltei para não faltar ao nosso encontro... E caminhando rapidamente para o sumidouro, gritou-lhe: - Desde ontem eu moro aqui. E tapando delicadamente as narinas com os dedos sujos de sangue e barro, deu um gracioso saltinho para dentro do bueiro e desapareceu.

Conto carioca O rapaz vinha passando num Cadillac novo pela avenida Atlântica. Vinha despreocupado, assoviando um blue, os olhos esquecidos no asfalto em retração. A noite era longa, alta e esférica, cheia de uma paz talvez macabra, mas o rapaz nada sentia. Ganhara o bastante na roleta para resolver a despesa do cassino, o que lhe dava essa sensação de comando do homem que paga: porque tratava-se de um "duro", e era o automóvel o carro paterno, obtido depois de uma promessa de fazer força nos estudos. O show estivera agradável e ele flertara com quase todas as mulheres da sua mesa. A lua imobilizava-se no céu, imparticipante, clareando a cabeleira das ondas que rugiam, mas como que em silêncio. De súbito, em frente ao Lido, uma mulher sentada num banco. Uma mulher de branco, o rosto envolto num véu branco, e tão elegante e bonita, meu Deus, que parecia também, em sua claridade, um luar dormente. O freio de pé agiu quase automaticamente e a borracha deslizou, levando o carro maneiroso até o meio-fio, onde estacou num rincho ousado. Depois ele deu ré, até junto da dama branca. - Sozinha a essas horas? Ela não respondeu. Limitou-se a olhar serenamente o rapaz do Cadillac, com seu olhar extraordinariamente fluido, enquanto o vento sul agitava-lhe docemente os cabelos cor de cinza. - Sabe que é muito perigoso ficar aqui até estas horas, uma mulher tão bonita? A voz veio de longe, uma voz branca, branca como a mulher, e ao mesmo tempo crestada por um ligeiro sotaque nórdico: - Perdi a condução... Não sei... é tão dificil arranjar condução... O rapaz examinou-a já com olhos de cobiça. Que criatura fascinante! Tão branca... Devia ser uma coisa branca, um mar de leite, um amor pálido. Suas pernas tinham uma alvura de marfim e suas mãos pareciam porcelanas brancas. Veio-lhe uma sensação estranha, um arrepio percorreu-lhe todo o corpo e ele se sentiu entregar a um sono triste, onde a volúpia cantava baixinho. Teve um gesto para ela: - Vem... Eu levo você... Ela foi. Abriu a porta do carro e sentou-se a seu lado. Fosse porque a madrugada avançasse, a noite se fizera mais fria e, ao tê-la aconchegada - talvez emoção - o rapaz tiritou. Seus braços eram frios como o mármore e sua boca gelada como o éter. Vinha dela um suave perfume de flores que o levou para longe. Ela se deixou, passiva, em seus braços, entregue a um mundo de beijos mansos. Quando a madrugada rompeu, ele acordou do seu letargo amoroso. A moça branca parecia mais branca ainda, e agora olhava o mar, de onde vinha um vento branco. Ele disse: - Amor, vou levar você agora. Ela deu-lhe seus olhos quase inexistentes, de tão claros:

- Em Botafogo, por favor. Tocou o carro. A aventura dera-lhe um delírio de velocidade. Entrou pelo túnel como um louco e fez, a pedido dela, a curva da General Polidoro num ângulo quase absurdo. - É aqui - disse ela em voz baixa. Ele parou. Olhou para ela espantado: - Por que aqui? - Eu moro aqui. Venha me ver quando quiser. Muito obrigada por tudo. E dando-lhe um último longo beijo, frio como o éter, abriu a porta do carro, passou através do portão fechado do cemitério e desapareceu.

Conto rápido Todas as manhãs de sol ia para a praia, apertada num maiô azul. Por onde passasse, deixava atrás de si olhares de homens colados a suas pernas douradas, a seus braços frescos. Os fornecedores vinham para a porta, os velhos para a janela, as ruas transversais movimentavam-se extraordinariamente à sua passagem cotidiana. Deixava uma sensação perfeita de graça e leviandade no espaço. Era loura, mas podiam-se ver massas castanhas por baixo da tintura dourada do cabelo. Trazia sempre o roupão neio aberto - e o vento da praia o enfunava alegremente, deixando-lhe à mostra as coxas vibrantes, cobertas de uma penugem tão delicada que só mesmo a claridade intensa deixava ver. Não tinha idade precisa. O corpo era de vinte anos, no entanto os cabelos pareciam velhos, mortificados de permanentes, e faltava-lhe aos olhos verdes a luz da mocidade. Usava uns sapatinhos vaidosos, de saltos incrivelmente altos, que lhe afirmavam melhor a elegância um pouco mole, um pouco felina. Seu filhinho, um lindo garoto de três anos, ela o arrastava consigo naquelas longas passeatas pela areia, pois nunca deixava de perambular um pouco para receber, aqui e ali, galanteios nem sempre delicados, que a deliciavam. Ficava sob uma barraca parecidíssima com ela, uma coisa colorida e fagueira, localizável de qualquer distância. Ali arrumava cuidadosamente seus pertences, esticava o roupão, acamava a areia com o corpo e depois se esfregava longamente de óleo, as alças do maiô caídas, o início do colo infantil bem desnudado, os dois pequenos seios soltos como limões. O garotinho ficava brincando por ali, ora em correrias, ora agachado ante a maravilha de uma concha, de um tatuí, de um pedaço de pau. Isso era o ritual de todos os dias, que lhe dava tempo para a vinda dos admiradores habituais. Chegavam invariavelmente, um após outro, uns rapagões torrados de sol, de tóraxes enxutos e carões bonitos, curiosamente parecidos, todos. Ela ficava deitada, os braços em cruz, afagando a areia, afagando a cabecinha do filho que, às vezes, lhe corria a trazer alguma descoberta. Os rapazes pintavam com o menino, alguns enfezavam-no, como a convidá-lo a ir brincar mais longe. Ela deixava, mole para reagir, e de vez em quando deitava um olhar complacente para a praia, a vigiá-lo quando o via um pouco longe. Mas o guri fugia das brincadeiras brutas dos rapazes e ela o esquecia, perdida em sua tagarelice, até que um mais ousado a forçava a um beijo rápido, entre a gargalhada dos demais. Contavam-se fitas de cinema, festas e mexericos de praia, jogavam peteca e uma vez ou outra os rapazes lutavam jiu-jítsu para ela, que se extasiava. Cada meia hora, corriam todos em bando para um mergulho coletivo, e ficavam brincando na água, sem se importar com os demais - os rapazes a empurrá-la, a pegá-la, ela gritando, se defendendo, batendo neles, uma delícia! Nessas horas o menininho chorava vendo se afastar a mãe. Mas ela voltava e o comia de beijos sempre consoladores. Na verdade, a vida naquela barraca de praia era a coisa mais inconsequente e agradável da orla marítima. E assim foi todo o verão. Só nas manhãs de chuva a praia perdia a sua figurinha loura, mas

isso mesmo era razão demais para o encontro dos outros dias: ela, o menino e os rapazes de sungas curtíssimas, os tóraxes crus, a dar lindas "paradas" para ela ver, a pegar nela, a jogar peteca, a lutar jiu-jítsu. A jovem penca humana aumentou consideravelmente durante aquele período, e tudo não se passou sem uns dois ou três incidentes entre os atletas, inclusive uma briga feroz a que ela assistiu emocionada e que terminou por uma linda chave de braço com distorção muscular. Essa briga, naturalmente, provocou outras, em bares e festas de verão, mas que se passaram longe de seus olhos e que ela ouvia contar na praia. Muitas brigas provocou ela, com seu maiô azul e a sua infantil tagarelice, mas nunca ninguém poderia dizer que tivesse recusado um novo fã, desses que conhecem um da roda e depois, astuciosamente, se aboletam e passam a ser o preferido de duas semanas. E todos sempre adorando o garotinho, achando-o uma beleza, jogando-o para cima, coisa que o apavorava e fazia sempre correr para longe. Ela se zangava levemente, mas acabava rindo com as cócegas que lhe faziam os rapazes, com os tapas que levava. Comia o menino de beijos e depois se estirava voluptuosamente, centro de uma rosa de olhares que não disfarçavam o objetivo. Houve um dia em que um, meio de pileque, chegou a dar-lhe uma mordida na perna. Ela zangou-se de verdade, pegou o filhinho e foi para casa. Deixou atrás um ruído de vozes masculinas se interpelando com ar de briga. Ficou-lhe uma semana uma marca roxa em meia-lua, pouco acima do joelho. Um dia, quase no fim do verão, estava ela, como sempre, com seu grupo a contar um baile a que tinha ido na noite anterior, maravilha de riqueza e bom gosto. O menino brincava junto às ondas, e os rapazes debruçavam-se todos, em atitudes elásticas, sobre o seu jovem corpo estirado, ouvindo-a tagarelar. Pois imaginassem: tinha sido servido um jantar americano, e cada convidado trouxera uma garrafa de uísque, e às dez horas apagaram todas as luzes do terraço para aproveitar a claridade do luar: tinha havido tanto pileque e se via cada coisa de espantar, puxa menino! cada beijo em plena sala! como ela não via desde as festas de carnaval... Eram quase duas horas e a praia estava completamente deserta. Só a barraca colorida alegrava a hora vazia a ensolarada, recortada contra a espuma forte das ondas e o azul vivo do céu. Ela contava sua festa aos rapazes, inteiramente embebida nas recordações da noite. Foi quando chegou um pretinho correndo: - Moça, aquele menino não é da senhora? Ela sentou-se: - É sim. Por quê? O pretinho apontou: - O mar levou ele. Os rapazes se precipitaram todos e se jogaram n'água. Ela saiu atrás, numa corridinha frágil, os braços meio içados numa atitude infantil de pânico. As ondas enormes alteavam-se longe e se abatiam em estampidos de espuma até a praia. Depois refluíam. Em vão. O mar levara mesmo o menino. Os rapazes voltaram, incapazes de lutar contra os vagalhões e temerosos da correnteza. Afrouxado sobre a areia branca, seu corpo fazia uma graciosa mancha azul.

Contra capa para Paul Winter Quando, em 1956, eu pedi a Antônio Carlos Jobim que fizesse os sambas de minha peça Orfeu da Conceição, de onde foi extraído o filme Orfeu negro, não tinha ideia de estar dando ao jovem compositor carioca - um verdadeiro nativo de Ipanema - o sinal de partida para o nosso movimento renovador da bossa nova, que hoje ganhou projeção internacional. Paralelamente, outros jovens compositores como Carlos Lyra, Roberto Menescal e os irmãos Mário e Oscar Castro Neves compunham individualmente no mesmo sentido, numa espécie de trabalho telepático que se deveria unir numa onda comum depois do aparecimento das primeiras canções de jobim no nosso LP Canção do amor demais, cantado por Elisete Cardoso, e onde um cantor e guitarrista ainda desconhecido a não ser pelos seus mais íntimos, João Gilberto, acompanhava Elisete numa nova batida ao violão que deveria tornar-se o marco rítmico do moderno samba brasileiro. Daí por diante a história é conhecida. O samba que fiz com Jobim, "A felicidade", extraordinariamente divulgado pelo sucesso do filme Orfeu negro, lançou a primeira ponte internacional para a nova música. Paralelamente, no Rio e posteriormente em São Paulo, os estudantes sob a orientação de Ronaldo Bôscoli começaram a organizar shows de bossa nova, cuja aceitação foi sensacional. Em 1959 aparecia o primeiro álbum de João Gilberto, cujo título era o mesmo no nosso samba: Chega de saudade: o primeiro inteiramente dentro do espírito da bossa-nova. Daí por diante, os novos LPs de João Gilberto, lançando os sambas de Jobim, Carlos Lyra, Menescal e Oscar Castro Neves - além de reformular, dentro do novo estilo, velhos sambas de Ari Barroso, Dorival Caymmi e outros compositores - fizeram o resto. Dentro do Brasil o movimento estabelecera bases, senão ainda populares, pelo menos firmes no seio das elites e da burguesia média. A partir de 1961 eu comecei a compor com o compositor e extraordinário violonista Baden Powell, num sentido mais nacionalista, por assim dizer: búscando a temática dos ritos negros do candomblé da Bahia e introduzindo um elemento que faltava ao moderno samba brasileiro: a contribuição africana, devidamente sincretizada em seu novo hábitat. E em fins do mesmo ano retomei o trabalho com Carlos Lyra, criando para toda uma fita de gravação que o compositor me havia apresentado, para versificar, a história e estrutura de uma comédia musicada: a primeira comédia musicada genuinamente brasileira, salvo no nome, que é o de uma antiga canção de Noel Coward e, creio, de um antigo filme americano com Shirley Temple: Pobre menina rica (Poor Little Rich Girl). Mas como é o único nome possível para o musical, nós o temos mantido até que alguém nos ameace de processo. Porque, como disse Romeu para Julieta: "What's in a name?..." Perdoe o leitor americano eu ter de personalizar assim. É que muita fantasia tem sido escrita sobre a bossa nova, no Brasil como nos Estados Unidos, e já é mais que tempo de pôr as coisas em seus devidos lugares. Ninguém quer a glória de tê-la inventado. A bossa nova

vem de uma série de conjunturas históricas, econômicas e artísticas no Brasil, fruto do grande surto desenvolvimentista que o país teve sob a presidência de Juscelino Kubitschek: o homem que, com dois arquitetos, Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, construiu em quatro anos a mais moderna cidade do mundo: Brasília. Ela é uma filha moderna do samba tradicional, que teve o seu namoro com o jazz, sobretudo o chamado "West Coast", mas que, tal como a praticam seus melhores homens: Jobim, João Gilberto, Lyra, Menescal, Donato, Castro Neves e Baden Powell, não sofreu nenhuma descaracterização, nem perda de nacionalidade. O que se convencionou chamar de "samba-jazz" nada tem a ver com a bossa nova; nem, para ir mais longe, com samba ou com jazz. É um híbrido espúrio. A verdadeira e orgânica influência do jazz no moderno samba brasileiro está na liberdade de improvisação que criou para os intrumentos e também na orientação do uso do tecido harmônico, que veste a melodia com uma graça e leveza desconhecidas no samba antigo, mais escorado no ritmo e na percussão. Tanto assim que, nos melhores bateristas da bossa nova, como Milton Banana, por exemplo, a percussão funciona frequentemente com um sentido harmônico, se é possível dizer assim. Quanto ao mais, o sucesso internacional da bossa nova deve-se em primeiro lugar à sensibilidade musical do disc-jockey Felix Grant que, em rápida passagem pelo Rio, ouviu e levou para os Estados Unidos os discos de João Gilberto, os quais começou a lançar em seus programas. Depois, Paul Winter, Stan Getz, Lailo Schiffrin e Herbie Mann sentiram a mensagem do novo som brasileiro, a poesia da bossa nova. E vieram os sucessos de "Samba de uma nota só" e "Desafinado". Aí, Jobim e eu fizemos "Garota de Ipanema", que, num milagroso lance, Astrud gravou, no álbum Getz-Gilberto, com um conjunto instrumental brasileiro do qual participavam Jobim ao piano, João Gilberto no violão, Tião Neto no contrabaixo e Milton Banana na bateria. Esta é a verdadeira história da bossa nova. Hoje dá prazer ver o nome do nosso querido bairro de Ipanema transformado em moeda internacional corrente. Foi lá, no n0 107 da rua Nascimento Silva, no antigo apartamento de Antônio Carlos Jobim que, numa tarde de abril de 1956, dois compositores amigos inclinaram as cabeças um para o outro e cantaram juntos sua primeira composição tipicamente bossa-nova: "Chega de saudade". * * * O que é bossa nova? Bossa nova é mais Greenwich Village do que 52nd Street; é mais uma chuva fina olhada através da janela de um modesto hotel de 46th Street que um rubro poente sobre a ilha de Manhattan, visto do Empire State Building. Bossa nova - para citar esse grande new yorker que foi o poeta Jayme Ovalle, é mais a namorada que abre a luz do quarto para dizer que está, mas não vem, que a loura bonita num casaco de mink que se leva para dançar no El Moroco. Bossa nova é mais a estrela da tarde quando brilha sozinha no crepúsculo, entre dois arranha-céus, que todo um céu constelado entrevisto de um alto terraço em Hyde Park. Bossa nova é mais uma moça triste atravessando a Broadway quando já se apagam suas luzes, que o Great Highway tumultuado em que todas as raças se cruzam e todas as impiedades são permitidas. Bossa nova é mais a solidão de uma rua de Ipanema que a agitação comercial de Copacabana. Bossa nova é mais um olhar que um beijo; mais uma ternura que uma paixão; mais um recado que uma mensagem. Bossa nova é o canto puro e solitário de João Gilberto eternamente trancado em seu apartamento, buscando uma harmonia cada vez mais extremada e simples nas cordas de seu violão e uma emissão cada vez mais perfeita para os sons e palavras de sua canção. Bossa nova é também o sofrimento de muitos jovens, do mundo inteiro, buscando na tranquilidade da música não a fuga e alienação aos problemas do seu tempo, mas a maneira

mais harmoniosa de configurá-los. Bossa nova é a nova inteligência, o novo ritmo, a nova sensibilidade, o novo segredo da mocidade do Brasil: mocidade traída por seus mais velhos, pais e educadores, que lhe quiseram impor os próprios padrões, gastos e inaceitáveis. Bossa nova foi a resposta simples e indevassável desses jovens a seus pais e mestres: uma estrutura simples de sons super-requintados de palavras em que ninguém acreditava mais, a dizerem que o amor dói mas existe; que é melhor crer do que ser cético; que por pior que sejam as noites, há sempre uma madrugada depois delas e que a esperança é um bem gratuito: há apenas que não se acovardar para poder merecê-lo. Bossa nova são estes sons que estão aqui, tirados por um jovem músico americano que se cativou de nossa música e hoje é, ao lado de Felix Grant e Stan Getz, o seu maior divulgador dentro dos Estados Unidos: Paul Winter. Quando ele vem ao Rio, nós já o recebemos como a um carioca honorário. Ele toca com os nossos músicos, comunga com os nossos ideiais, namora as nossas moças, come o nosso feijão com arroz, vai ver os nossos pocket-shows, flana à toa por Capacabana e Ipanema, como nós fazemos. Seu encontro com Carlos Lyra, como ficou provado em seu último LP, The Sound of Ipanema, foi feliz para ambos. Como, aliás, o encontro da bossa nova com o jazz. Nós recebemos e depois demos. E estamos prontos a receber ainda, mais e sempre. E a dar sempre, mais e ainda. Por isso, obrigado, Felix Grant... Obrigado, Stan Getz... Obrigado, Paul Winter...

Conversa com Caymmi Sábado - o dia da Criação - cheguei ao Zum-Zum para fazer meu show com Caymmi e fui encontrar o baiano, como sempre, aboletado na copa, de papo com seus amigos, os garçons da boate. Paulinho Soledade, que eu desconfio fez o Zum-Zum (a dois passos de seu apartamento) muito mais para deleite próprio que do alheio (o que constitui um certificado de garantia) tem neste momento a melhor equipe de serviço da noite carioca: um pessoal que, desde o mâitre até o último garçom, é simpático, eficiente e devotado à casa. Adolfo, o porteiro, por exemplo, que acaba de perder o irmão e quatro sobrinhos no rolamento da pedra da rua Euclides da Rocha, está lá firme no seu posto, imerso em sofrimento mas nunca desatento: uma instituição da noite! Caymmi anda no auge da forma. Com a chegada de Nana, a sua "oncinha", e dos netinhos, da Venezuela, o baiano está nos seus quintais. Tudo nele respira saúde moral e realização. Não fosse a ausência de sm caçula Danilo, o flautista, a quem Caymmi mandou numa excursão à Europa, e sua felicidade seria integral. Dori está se firmando cada, vez mais como um dos jovens compositores mais importantes da última safra. E Stela, sua mulher, é aquele baluarte. De que mais precisa um homem? Pedimos cada um um uisquinho, e eu disse a Caymmi: - Você sabe, meu Caymmi, o que um bombeiro disse a meu filho Pedro? Simplesmente o seguinte: que tem uma pedra ali em cima do túnel da Barata Ribeiro, que pela sua tonelagem, se cair vai até a Nossa Senhora de Copacabana, fácil. - Não me diga... - Isso não é nada. Atrás de onde eu moro, ali na rua Diamantina, ao sopé do Corcovado, tem uma outra pedra, que, essa, vai cair mesmo. Os bombeiros estiveram lá e já fizeram evacuar três edificios de apartamentos que ficam na trajetória de sua queda. Ela deve pesar umas dez toneladas. Caymmi considerou seu uísque. - Pois é, seu poeta... Veja você... Tudo por causa disto. E apontou com os olhos um jarro de água à sua frente. Depois, seu olhar baixou um instante e ele se deixou estar, pensando... - Ela tem um ar tão inocente, mas não é? Tão fresca, tão clarinha... No entanto, ninguém sabe o mal que isso faz! Olhou-me de soslaio, num sestro muito seu: - É capaz de devastar uma cidade... Novo olhar: - Dá tifo... Mais outro: - É por essas e outras que Dorival Caymmi nunca põe água no uísque�

E bebendo uma golada do seu, puro e sem gelo: - É, meu irmão... Água é fogo!

Da solidão Sequioso de escrever um poema que exprimisse a maior dor do mundo, Poe chegou, por exclusão, à ideia da morte da mulher amada. Nada lhe pareceu mais definitivamente doloroso. Assim nasceu "O corvo": o pássaro agoureiro a repetir ao homem sozinho em sua saudade a pungente litania do "nunca mais". Será esta a maior das solidões? Realmente, o que pode existir de pior que a impossibilidade de arrancar à morte o ser amado, que fez Orfeu descer aos Infernos em busca de Eurídice e acabou por lhe calar a lira mágica? Distante, separado, prisioneiro, ainda pode aquele que ama alimentar sua paixão com o sentimento de que o objeto amado está vivo. Morto este, só lhe restam dois caminhos: o suicídio, físico ou moral, ou uma fé qualquer. E como tal fé constitui uma possibilidade - que outra coisa é a Divina comédia para Dante senão a morte de Beatriz? - cabe uma consideração também dolorosa: a solidão que a morte da mulher amada deixa não é, porquanto absoluta, a maior solidão. Qual será maior então? Os grandes momentos de solidão, a de Jó, a de Cristo no Horto, tinham a exaltá-la uma fé. A solidão de Carlitos, naquela incrível imagem em que ele aparece na eterna esquina no final de Luzes da cidade, tinha a justificá-la o sacrifício feito pela mulher amada. Penso com mais frio n'alma na solidão dos últimos dias do pintor Toulouse-Lautrec, em seu leito de moribundo, lúcido, fechado em si mesmo, e no duro olhar de ódio que deitou ao pai, segundos antes de morrer, como a culpá-lo de o ter gerado um monstro. Penso com mais frio n'alma ainda na solidão total dos poucos minutos que terão restado ao poeta Hart Crane, quando, no auge da neurastenia, depois de se ter jogado ao mar, numa viagem de regresso do México para os Estados Unidos, viu sobre si mesmo a imensa noite do oceano imenso à sua volta, e ao longe as luzes do navio que se afastava. O que se terão dito o poeta e a eternidade nesses poucos instantes em que ele, quem sabe banhado de poesia total, boiou a esmo sobre a negra massa líquida, à espera do abandono? Solidão inenarrável, quem sabe povoada de beleza... Mas será ela, também, a maior solidão? A solidão do poeta Rilke, quando, na alta escarpa sobre o Adriático, ouviu no vento a música do primeiro verso que desencadeou as Elegias de Duino, será ela a maior solidão? Não, a maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, e que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro. O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e de ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes da emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto da sua fria e desolada torre.

Depois da guerra Depois da Guerra vão nascer lírios nas pedras, grandes lírios cor de sangue, belas rosas desmaiadas. Depois da Guerra vai haver fertilidade, vai haver natalidade, vai haver felicidade. Depois da Guerra, ah meu Deus, depois da Guerra, como eu vou tirar a forra de um jejum longo de farra! Depois da Guerra vai-se andar só de automóvel, atulhado de morenas todas vestidas de short. Depois da Guerra, que porção de preconceitos vão se acabar de repente com respeito à castidade! Moças saudáveis serão vistas pelas praias, mamães de futuros gêmeos, futuros gênios da pátria. Depois da Guerra, ninguém bebe mais bebida que não tenha um bocadinho de matéria alcoolizante. A coca-cola será relegada ao olvido, cachaça e cerveja muita, que é bom pra alegrar a vida! Depois da Guerra não se fará mais a barba, gravata só pra museu, pés descalços, braços nus. Depois da Guerra, acabou burocracia, não haverá mais despachos, não se assina mais o ponto. Branco no preto, preto e branco no amarelo, no meio uma fita de ouro gravada com o nome dela. Depois da Guerra ninguém corta mais as unhas, que elas já nascem cortadas para o resto da existência. Depois da Guerra não se vai mais ao dentista, nunca mais motor no nervo, nunca mais dente postiço. Vai haver cálcio, vitarnina e extrato hepático correndo nos chafarizes, pelas ruas da Cidade. Depois da Guerra não haverá mais Cassinos, não haverá mais Lídices, não haverá mais Guernicas. Depois da Guerra vão voltar os bons tempinhos do carnaval carioca com muito confete, entrudo e briga. Depois da Guerra, pirulim, depois da Guerra, vai surgir um sociólogo de espantar Gilberto Freyre. Vai se estudar cada coisa mais gozada, por exemplo, a relação entre o Cosmos e a mulata. Grandes poetas farão grandes epopeias, que deixarão no chinelo Camões, Dante e Itararé. Depois da Guerra, meu amigo Graciliano pode tirar os chinelos e ir dormir a sua sesta. Os romancistas viverão só de estipêndios, trabalhando sossegados numa casa na montanha. Depois da Guerra vai-se tirar muito mofo de homens padronizados pra fazer penicilina. Depois da Guerra não haverá mais tristeza: todo o mundo se abraçando num geral desarmamento. Chega francês, bate nas costas do inglês, que convida o italiano para um chope Alemão. Depois da Guerra, pirulim, depois da Guerra, as mulheres andarão perfeitamente à vontade. Ninguém dirá a expressão "mulher perdida", que serão todas achadas sem mais banca, sem mais briga. Depois da Guerra vão se abrir todas as burras, quem estiver mal de cintura, logo um requerimento. Os operários irão ao Bife de Ouro, comerão somente o bife, que ouro não é comestível. Gentes vestindo macacões de fecho zíper dançarão seu jiterburgue em plena Copacabana. Bandas de música voltarão para os coretos, o povo se divertindo no remelexo do samba. E quanto samba, quanta doce melodia, para a alegria da massa comendo cachorro-quente! O poeta Schmidt voltará à poesia, de que anda desencantado e escreverá grandes livros. Quem quiser ver o poeta Carlos criando, ligará a televisão, lá está ele, que homem magro! Manuel Bandeira dará aula em praça pública, sua voz seca soando num bruto de um megafone. Murilo Mendes ganhará um autogiro, trará mensagens de Vênus, ensinando o povo a amar. Aníbal Machado

estará são como um perro, numa tal atividade que Einstein rasga seu livro. Lá no planalto os negros nossos irmãos voltarão para os seus clubes de que foram escorraçados por lojistas da Direita (rua). Ah, quem me dera que essa Guerra logo acabe e os homens criem juízo e aprendam a viver a vida. No meio tempo, vamos dando tempo ao tempo, tomando nosso chopinho, trabalhando pra família. Se cada um ficar quieto no seu canto, fazendo as coisas certinho, sem aturar desaforo; se cada um tomar vergonha na cara, for pra guerra, for pra fila com vontade e paciência - não é possível! Esse negócio melhora, porque ou muito me engano, ou tudo isso não passa, de um grande, de um doloroso, de um atroz mal-entendido!

Dia de sábado Porque hoje é sábado, comprei um violão para minha filha Susana, a fim de que ela aprenda dó maior e cante um dia, ao pé do leito de morte de seu pai, a valsa "Lágrimas de dor", de Pixinguinha - e seu pai possa assim cerrar para sempre os olhos entre prantos e galgar a eternidade ajudado pela mão negra e fraterna do grande valsista... Porque hoje é Sábado, desejarei ser de novo jovem e tremer, como outrora, à ideia de encontrar a mulher casada, de pés de açucena; desejarei ser jovem e olhar, como outrora, meus bícepes fortes diante do espelho... Porque hoje é Sábado, desejarei estar num trem indo de Oxford para Londres, e à passagem da estação de Reading lembrar-me de Oscar Wilde, a escrever na prisão que o homem mata tudo o que ele ama... Porque hoje é Sábado, desejarei estar de novo num botequim do Leblon, com meu amigo Rubem Braga, ambos negros de sol e com os cabelos, ai, sem brancores; desejarei ser de novo moreno de sol e de amores, eu e meu amigo Rubem Braga, pelas calçadas luminosas da praia atlântica, a pele salgada de mar e de saliva de mulher, ai... Porque hoje é Sábado, desejarei receber uma carta súbita, contendo sobre uma folha de papel de linho azul a marca em batom de uns grossos lábios femininos, e ver carimbado no timbre o nome Florença... Porque hoje é Sábado, desejarei que a lua nasça em castidade, e que eu a olhe no céu por longos momentos, e que ela me olhe também com seus grandes olhos brancos cheios de segredo� Porque hoje é Sábado, desejarei escrever novamente o poema sobre o dia de hoje, sentindo a antiga perplexidade diante da palavra escrita em poesia e como dantes, levantar-me com medo da coisa escrita e ir olhar-me ao espelho para ver se eu era eu mesmo... Porque hoje é Sábado, desejarei ouvir cantar minha mãe em velhas canções perdidas, quando a tarde deixava um alto silêncio na casa vazia de tudo que não fosse sua voz infantil... Porque hoje é Sábado, desejarei ser fiel, ser para sempre fiel; ser com o corpo, com o espírito, com o coração fiel à amiga, àquela que me traz no seu regaço desde as origens do tempo e que, com mãos de pluma, limpa de preocupações e angústia a minha fronte imensa e tormentosa...

Do amor à pátria São doces os caminhos que levam de volta à pátria. Não à pátria amada de verdes mares bravios, a mirar em berço esplêndido o esplendor do Cruzeiro do Sul; mas a uma outra mais íntima, pacífica e habitual - uma cuja terra se comeu em criança, uma onde se foi menino ansioso por crescer, uma onde se cresceu em sofrimentos e esperança canções, amores e filhos ao sabor das estações. Sim, são doces as rotas que reconduzem o homem à sua pátria, e tão mais doces quanto mais ele teve, viu e conheceu outras pátrias de outros homens. Assim eu, ausente pela segunda vez de uma ausência de muitos anos quando, dentro da noite a bordo, os dedos a revirar o dial do ondas-curtas, aguardava o primeiro balbucio de minha pátria como um pai à espera da primeira palavra do seu filho. O coração batia-me como batera um dia, à poesia sonhada, ou como uma outra vez, diante de uns olhos de mulher. - O sr. tem certeza de que isso é mesmo um ondas-curtas? O camareiro norueguês, grande e tranquilo, limitou-se a sorrir misteriosamente. Depois, humano, inclinou-se sobre o aparelho, o ouvido atento, e pôs-se a tentar por sua vez. As ondas sonoras iam e vinham verrumando a minha angústia. Onde estava ela, a minha pátria que não vinha falar comigo ali dentro do mar escuro? E de repente foi uma voz que mal se distinguia, balbuciando bolhas de éter, mas pensei no meio delas distinguir um nome: o nome de Iracema. Não tinha certeza, mas pareceu-me ouvir o nome de Iracema entre os estertores espásmicos do aparelho receptor. Deus do Céu! Seria mesmo o nome de Iracema? Era sim, porque logo depois chegou a afirmar-se, mas quase imperceptível, como se pronunciado por um gnomo montado em minha orelha. Era o nome de Iracema, da Rádio Iracema, de Fortaleza, a emissora dos lábios de mel, que sai mar afora, enfrentando os espaços oceânicos varridos de vento para trazer a um homem saudoso o primeiro gosto de sua pátria. Adorável prefixo noturno, nunca te esquecerei! Foste mais uma vez essa coisa primeira tão única como o primeiro amigo, a primeira namorada, o primeiro poema. E a ti eu direi: é possível que o padre Vieira esteja certo ao dizer que a ausência é, depois da morte, a maior causa da morte do amor. Mas não do amor à terra onde se cresceu e se plantou raízes, à terra a cuja imagem e semelhança se foi feito e onde um dia, num pequeno lote, se espera poder nunca mais esperar.

Do amor aos bichos Quem, dentre vós, já não teve vontade de ver um passarinho lhe vir pousar na mão? Quem já não sentiu a adorável sensação da repentina falta de temor de um bicho esquivo? A cutia que, num parque, faz uma pose rápida para o fotógrafo - em quem já não despertou o impulso de lhe afagar o dorso tímido? Quem já não invejou Francisco de Assis em suas pregações aos cordeirinhos da úmbria? Quem já não sorriu ao esquilo quando o animalzinho volta-se curioso para nos mirar? Quem já não se deliciou ao contato dulcíssimo de uma pomba malferida, a tremer medrosa em nossa palma? Eis a razão por que, semanal leitor, hoje te quero falar do amor aos bichos. Não do amor de praxe aos cachorros, dos quais se diz serem os maiores amigos do homem; nem do elegante amor aos gatos, que gostam mais da casa que do dono, conforme reza o lurgar-comum. Quero falar-te de um certo inefável amor a animais mais terra-a-terra, como as galinhas e as vacas. Diremos provisoriamente basta o amor ao cavalo, que é, fora de dúvida, depois da mulher, o animal mais belo da Criação. Pois não quero, aqui neste elogio, deixar levar-me por considerações éticas ou estéticas, mas apenas por um critério de humanidade. E, sob este aspecto, o que não vos poderia eu dizer sobre as galinhas e as vacas! Excelsas galinhas, nobres vacas nas quais parece dormir o que há de mais telúrico na natureza... Bichos simples e sem imaginação, o que não vos contaria eu, no entanto, sobre a sua sapiência, a sua naturalidade existencial... Confesso não morrer de amores pelos bichos chamados engraçadinhos, ou melhor, não os levar muito em conta: porque a verdade é que amo todos os bichos em geral; nem pelos demasiado relutantes ou maníaco-depressivos, tais os veados, os perus e as galinhas-d'angola. Mas olhai uma galinha qualquer ciscando num campo, ou em seu galinheiro: que feminilidade autêntica, que espírito prático e, sobretudo, que saúde moral! Eis ali um bicho que, na realidade, ama o seu clã; vive com um fundo sentimento de permanência, malgrado a espada de Dâmocles que lhe pesa permanentemente sobre a cabeça, ou por outra, o pescoço; e reluta pouco nas coisas do amor fisico. Soubessem as mulheres imitá-las e estou certo viveriam bem mais felizes. E põem ovos! Já pensastes, apressado leitor, no que seja um ovo: e quando ovo se diz, só pode ser de galinha! É misterioso, útil e belo. Batido, cresce e se transforma em omelete, em bolo. Frito, é a imagem mesma do sol poente: e que gostoso! Pois são elas, leitor, são as galinhas que dão ovos e - há que convir - em enormes quantidades. E a normalidade com que praticam o amor?... A natureza poligâmica do macho, que é aparentemente uma lei da Criação, como é bem aceita por essa classe de fêmeas! Elas se entregam com a maior simplicidade, sem nunca se perder em lucubrações inúteis, dramas de consciência irrelevantes ou utilitarismos sórdidos, como acontece no mundo dos homens. E tampouco lhes falta lirismo ou beleza, pois muito poéticas põem-se, no entardecer, a cacarejar docemente em seus poleiros; e são belas, inexcedivelmente belas durante a maternidade.

Assim as vacas, mas de maneira outra. E não seria à toa que, a mais de tratar-se de um bicho contemplativo, é a vaca uma legítima força da natureza - e de compreensão mais sutil que a galinha, por isso que nela intervêm elementos espirituais autênticos, como a meditação filosófica e o comportamento plástico. De fato, o que é um campo sem vacas senão mera paisagem? Colocai nele uma vaca e logo tereis, dentro de concepções e cores diversas, um Portinari ou um Segall. A "humanização" é imediata: como que se cria uma ternura ambiente. Porque doces são as vacas em seu constante ruminar, em sua santa paciência e em seu jeito de olhar para trás, golpeando o ar com o rabo. Bichos fadados, pela própria qualidade de sua matéria, à morte violenta, irnpressiona-me nelas a atitude em face da vida. São generosas, pois vivem de dar, e dão tudo o que têm, sem maiores queixas que as do trespasse, transformando -se num número impressionante de utilidades, como alimentos, adubos, botões, bolsas, palitos, sapatos, pentes e até tapetes pelegos - como andou em moda. Por isso sou contra o uso de seu nome como insulto. Considero essa impropriedade um atentado à memória de todas as galinhas e vacas que morreram para servir ao homem. Só o leite e o ovo seriam motivo suficiente para se lhes erguer estátua em praça pública. Nunca ninguém fez mais pelo povo que uma simples vaca que lhe dá seu leite e sua carne, ou uma galinha que lhe dá seu ovo. E se o povo não pode tomar leite e comer carne e ovos diariamente, como deveria, culpe-se antes os governos, que não os sabem repatir como de direito. E abaixo os defraudadores e açambarcadores que deitam águas ao leite ou vendem o ovo mais caro do que custa ao bicho pô-lo! E, uma vez dito isto, caiba-me uma consideração final contra os bichos prepontentes, sejam eles nobres como o leão ou a águia, ou furbos como o tigre ou o lobo: bichos que não permitem a vida à sua volta, que nasceram para matar e aterrorizar, para causar tristeza e dano; bichos que querem campear, sozinhos, senhores de tudo, donos da vida; bichos ferozes e egoístas contra o povo dos bichinhos humildes, que querem apenas um lugar ao sol e o direito de correr livremente em seus campos, matas e céus. Para vencê-los que se reúnam todos os outros bichos, inclusive os domésticos "mus" e "cocoricós", porque, cacarejando estes, conglomerando-se aqueles em massa pacífica mas respeitável, não prevalecerá contra eles a garra do tigre ou o dente do lobo. Constituirão uma frente comum intransponível, a dar democraticamente leite e ovos em benefício de todos, e destemorosa dos rugidos da fera. Porque uma fera é em geral covarde diante de uma vaca disposta a tudo.

Encontros * Meu primeiro encontro, em Poesia, depois das inelutáveis influências da juventude, foi o de Murilo Mendes. A fase da imitação declinava lentamente, à medida que os poetas melhoravam. Discípulo ardente de Júlio Dantas, tendo escrito aos 14 anos um poema chamado "Os três amores", passei por Guerra Junqueiro em branco. Julgava-o um grande filósofo mais que um poeta, e temia-lhe o tom blasfemo. É que não lera ainda Os simples, onde está o melhor do seu lirismo. Nessa ocasião, fiz do sr. João Lira Filho mentor espiritual. Dei-lhe Foederis arca para ler. A Arca em aspas era um livrão de capa preta onde ia pondo os versos que me pareciam razoáveis. O sr. João Lira Filho não se agradou da poesia. Deu-me uns conselhos: que eu deixasse daquilo, que poesia era "frescura" e "abandono", que meus sonetos eram "muito ruins" e só as trovinhas "onde você procura imitar Adelmar é que são mais ou menos". A palavra "abandono" que interpretei mal, feriu-me a suscetibilidade juvenil. Larguei do sr. João Lira Filho e do seu mestre da Academia e dei com Guilherme de Almeida. Aquilo é que era poeta! Como é que o homem fazia aquelas coisas, que perfeição! O relógio de mogno, grave, enorme Dorme

Meu olhar se concentrava sobre a magia da palavra "mogno". Se me perguntassem o que era Poesia, eu diria que era aquela palavra feiticeira. Lembro-me que fiz um verso onde falava "em teus seios de mogno e teus lábios de écran". Meus poemas redundavam em diálogos sutilíssimos entre a amada e eu, passavam-se sempre numa casa de chá elegante ou num ônibus de luxo, tinham de Toi et moi, que felizmente só vim a ler mais tarde. Castro Alves e Bilac não me fizeram grande impressão. Li-os apressadamente, sem que me tivessem marcado muito. A poesia paterna, que encontrara numa gaveta velha em casa, foi a minha grande decisiva influência. Desejei imenso fazer versos assim, versos de amor, despidos das ideias grandiloquentes que assustavam no vate baiano e do brilho de joalheria que cegava no artífice da "Via Láctea". Junto de ti, ó minha amada Passam-se os dias a voar Se longe estou, como apressada Minha alma à tua quer chegar!

Posso citá-los ainda de cor. Causaram-me inveja e me fizeram sofrer. Pensei que nunca poderia ser poeta. Chorei. Cheguei ao furto. Uma vez mostrei a alguns conhecidos um que me parecia o melhor, como se fora meu. Assinei meu nome embaixo. Na noite desse dia tive uma das maiores crises por que já passei neste meu fadário. Pensei pela primeira vez em me suicidar. Depois, fui crescendo, como acontece na vida. Na Faculdade de Direito entrei em pasmo

contacto com os grandes do CAJU, o centro da elite da escola. Era garoto e andava fardado de aspirante a oficial da reserva. Foi uma época rica e dolorosa, de lutas íntimas, de descobertas gloriosas, de ânsia e aspiração infindáveis. Otávio de Faria e San Thiago Dantas, dois dos nomes de maior projeção acadêmica, discutiam problemas de Poesia no Café do Areal. Ouvia quieto, mas com um ouvido gigante, as sentenças misteriosas, ditadas sabe Deus por que demônio, que na boca de San Thiago se prestigiavam de uma claridade que para mim tinha algo de sobrenatural, e que Otávio de Faria fazia sombrias, dilacerantes. A um devo uma amizade que através de tanta coisa vivida tem se mostrado sempre boa e generosa, amável no cotidiano mas atenta nos momentos difíceis. Ao outro devo a Amizade. Foram esses dois homens que me iniciaram nos mistérios da Poesia. Falavam em Murilo Mendes e Augusto Frederico Schmidt. San Thiago Dantas lembrava-se às vezes do derradeiro: O filósofo é como o galinho branco, pequenino, dormindo... Eu pensava. Que não seria aquilo tudo? Filósofo... galinho branco... Realmente, uma sugestão qualquer, branca, assim como um ideia branca, a ideia branca de um filósofo, Platão, sei lá. Palmo a palmo conquistava a compreensão do incompreensível. Um dia ouvi um nome: Baudelaire. Outro: Rimbaud. Mais outro: Mallarmé. Outro ainda: Verlaine. E pus-me a ler. Mas isso não vem ao caso. Com Murilo Mendes a coisa foi assim: achava-me passeando com Otávio de Faria pela Praia do Flamengo. De repente ele produziu uma brochura branca, quase quadrada, com o título Poemas em caracteres negros. Era Murilo Mendes. Minhas mãos estavam virgens ainda de qualquer nova poesia brasileira. Minha emoção foi grande. Fiz perguntas, como era, como não era. Lemos alguns poemas juntos. Otávio criticava, de dentro da admiração real pelo poeta. Travei conhecimento com a questão do "sublime" e do "cotidiano" em Poesia. Ponderei coisas. Coisas me foram ponderadas. Em casa li o livro até de manhã. Achei-o magistral em tudo, até no que tinha de artifício. A primeira impressão que o poeta me deu é de que vivia num espaço cristalizado em ângulos onde anjos cubistas salmodiavam ao som de saxofones. Todas essas adolescentes burguesas geométricas, essas meninas em eterna projeção e prolongamento, movia-as o poeta, transformado em mágico, como a novos títeres, através de versos como fios metálicos, num cenário fantástico de metrópoles cônicas, paisagens elásticas, ao som de melodias penetrantes. Mais tarde, já com o primeiro livro publicado, conheci o poeta na Avenida, por intermédio de Otávio. Vinha deblaterando, o dedo em riste, uma gravata vermelha, o rosto azul de entalhe magro dignificado por uma testa vasta e dolorosa. Pôs-me a mão no ombro, depois me abraçou com longos braços dançarinos. Senti a imediata cordialidade do artista, a sua ânsia de comunhão. Disse-me palavras reconfortantes, de longe ainda me gritava coisas, escandalosamente. Via-o depois em concertos, em conferências, ora mergulhado na música, ora apontando ondulante de uma multidão, a me enviar mensagens periódicas de fraternidade com a mão espantosa, quebradiça e exangue. E desde sempre Murilo Mendes foi um amigo. Ouço muito falar mal dele, de seu espírito fantástico, da teatralidade com que vive. Eu próprio já tenho sentido certa má-vontade - a minha má vontade de animal razoável - contra o poeta nos seus momentos de irrisão declamatória. Mas que me deixem dizer: a par de ser um grande poeta brasileiro, com um modo pessoalíssimo para a Poesia, Murilo Mendes é um puro e um coração bom, não direi como a água, de que não gosto, mas como o uísque. Com Augusto Frederico Schmidt foi diferente. Já em meio à primeira experiência poética, juntando os poemas que iriam dar O caminho para a distância, li Navio perdido. Tinha do

poeta uma ideia que me perturbava um pouco. Ouvia falar dele como se fala dos gênios. Alguém sem pé nem cabeça, a quem não se leva muito a sério no que diz, uma pessoa variável, inconstante, passeando pela vida uma grande alma insatisfeita, ferida de Poesia. Dizia-se que o poeta era assim e o homem assado, que a vida do homem não traduzia a obra do poeta, a sua extraordinária mensagem lírica. Mensagem... o termo me pegou em cheio. Achei que mensagem é que era. Adotei mensagem. Quando Aporelli mexia com o bardo, aproveitando-se das suas levitações poéticas, eu me enfezava, achava um desrespeito, embora bem que risse. Navio perdido passou a ser o meu livro. Sentimentos comuns em face da Poesia, a vocação do "sublime", causa de que me fizera paladino, me aproximavam muito de Schmidt. Contudo, não gostei quando os críticos acharam grande semelhança de tons entre as duas poesias. Eu queria era ser pessoal, tinha uma vaidade danada disso. Pensava que ficar como continuador do lirismo schmidtiano era muita honra, mas não para mim. Minha extrema mocidade não admitia senão uma linha de frente geral. Todo mundo junto. Um artigo de Manuel Bandeira me deixou louco. Hoje, pensando nessas coisas, dá-me uma grande ternura por mim mesmo. Que menino esplêndido eu era! Manuel Bandeira (isto é, o inimigo de então, o chefe da poesia do "cotidiano") ousava escrever, colocando meu livro do lado de vários outros, que eu realmente tinha vocação poética, mas que precisava muito abandonar o "tom schmidtiano", metrificar minhas linhas, deixar de muitas facilidades com o verso livre, que só é bom na mão dos mestres. Como fiquei queimado! Achei que você não entendia nada de Poesia, Manuel, que você não era o Grande Poeta, vivendo a vida inefável dos símbolos misteriosos, dos rios loucos, das luas assexuadas, das mulheres trágicas e dos caminhos de Deus. Mas, voltando a Schmidt. Uma noite vinha com Otávio de Faria pela rua Sachet. Ia ver meu livro que acabava de sair e que a Schmidt Editora distribuíra. À porta da famosa livraria, onde tanta coisa confusa já teve lugar, encontrava-se o poeta. Achei-o irreal, à primeira vista. Apertou-me a mão com um gesto que eu não soube se era de simpatia ou de zanga, porque ao mesmo tempo que me prendia fortemente, me mantinha a distância. Houve falta de jeito. Schmidt exclamou: "Ah, é esse!" Depois falou em Gilberto Amado, o qual teria dito que eu era "um alto". Ficou tudo meio atrapalhado, meio confuso. Eu queria ir-me embora, Otávio também, que não sabia como casar aqueles dois poetas. De volta, creio que fiz observações pouco gentis sobre o que ficara. Durante um certo tempo, Schmidt passou a ser uma presença incômoda. Não havia crítica, notinha de jornal onde se mencionasse meu livro, que não falasse nos poetas irmãos, um prosseguindo no caminho que o outro abrira. A coisa para mim tomou um ar de pendenga, de corrida rasa, com Schmidt à frente, e eu em segundo, fazendo força para emparelhar. Quando todas essas coisas passaram e a minha vaidade trancada começou a dar mofo, algumas saídas juntos, algumas conversas foram dissipando a impressão de ceci tuera celà que a presença de Schmidt me causava. Ia gostando dele, compreendendo-lhe o método lírico dentro do desarranjo formal, amando-lhe a inteligência de voo tão largo. Hoje em dia vemonos menos, mas nos gostamos mais. Às vezes dá-me uma saudade do poeta, e eu tomo a iniciativa de ir visitá-lo no seu décimo andar sobre Copacabana. Mesmo porque, ele não me procura. Schmidt tolera pouco os intelectuais, e embora eu nunca converse "inteligente" com ele, creio que o poeta descansa mais o espírito britando pedra, por assim dizer, na companhia dos seus amigos homens de negócio, onde o troco inocente de ideias deixa às vezes saldo para uma das partes. Eu que, em companhia do poeta, já tive oportunidade de assistir a algumas

dessas reuniões, acho que talvez ele é que esteja com a razão. Há um mistério agradável nesses homens de ar vagamente entendiado que vivem do gozo rápido das tiradas, que andam muito de táxi e percorrem numa noite vários ambientes, resolvendo uma mesma questão que nunca entre em jogo. O encontro de Manuel Bandeira, que coisa excelente foi! Eu ainda tinha várias dificuldades em relação à poesia do poeta, mas intimamente mudara muito. Se no princípio me quisessem levar a ele, talvez tivesse relutado. Depois, não. Manuel me escrevera um cartão agradecendo a remessa de Forma e exegese, que me remexeu por dentro. Lia-o às vezes, a Manuel, invejando-lhe secretamente a sobriedade perfeita do verso, mas sempre em oposição ao modo de sua poesia. No fundo, achava que não se podia transigir assim com o Espírito, com a Fome metafisica, com a Visão. Mas, ai de mim, já amava o poeta. Meu coração de mulher da vida já batia por ele. Andava dando um jeito para encontrá-lo. Anah e Carlos Chagas Filho deram-me o ensejo. Esses caros amigos, cuja casa da rua Jardim Botânico era para mim uma coisa perfeita de gosto e intimidade, providenciaram o encontro. O próprio Manuel, diziam eles, achava que a ideia de um jantar tinha seus pontos. E uma lagartixa resolveu a questão. Eu havia chegado e esperava na sala, quando vi uma lagartixa branca. Parti a caçá-la, o que fiz com o maior cuidado para não magoar o bichinho frágil. E Manuel me pegou assim, com a lagartixa na concha da mão e aderiu imediatamente a ela. Dei-lhe um aperto de canhota, porque tinha a lagartixa na direita. O poeta esticou o pescoço, ficou observando o animalzinho com o seu perfil de pássaro, depois riu à-toa, um riso que mal parecia vir daquele siso sério. O riso me venceu. A ternura pelo poeta foi imediata. Um segundo depois estávamos conversando no sofá, eu brilhando discretamente para não chocar o amigo em perspectiva. Falou-se dos Mello Moraes, de poesia, de violão. Eu trouxera o violão, que era assim uma espécie de prato forte meu (nem tão forte, na verdade...) e que hoje em dia considero uma cruz. Cantei umas modas. Manuel parece que gostou. Vi-o pela segunda vez no Salão de Belas-Artes. Foi quando me apresentou a Mário de Andrade. Fez-me as mesmas festas, perguntou pelo violão, falou vagamente em se marcar qualquer coisa. Mário de Andrade conservou-se "onézimo", segundo a gnomonia ovalleana, que é um modo sui generis de imparticipação. Uma noite saímos juntos. Grande noite para mim, e Manuel, paternal, me levou ao cinema, me levou à Americana para tomarmos um malted milk, depois me levou ao Beco, onde subi sete andares num elevador vermelho, que pia feito gavião quando chega. Conheci seu quarto, esse quarto que às vezes tem sido para o poeta um lugar de tristezas; e que para mim tem sido tantas vezes um lugar de sossego. E banhei-me do verso exemplar de Estrela da manhã, ainda inédito, que o poeta leu para mim, ou melhor, que me jogou em cima, com aquele seu modo brusco de ler poesia. Manuel é hoje em dia um ser à parte para mim. Todo o mundo tem seus dias de antipatia do amigo, suas brigas, suas caturrices. Chega-se mesmo a enjoar da pessoa, da presença, do modo de ser, de certos pequenos hábitos irritantes. Fica-se mesmo com uma tendência vaga a partir a cara, sem prejuízo grande para a amizade. Com Manuel, jamais! Nunca a menor bulha, mesmo dentro de um ou dois pontos de vista diferentes. Manuel aceita o amigo e se impõe a ele. É fiel, mas não intervém; presto, sem se fazer sentir. Parece Ronald Colman. Mas eu tinha falado em Mário de Andrade. Mário foi uma conquista minha. O poeta, a princípio, não quis nada comigo. Fui-lhe mesmo apresentado umas duas ou três vezes, sem

resultado. Fazia um ar, meu Deus, vaguíssimo, de ombros um pouco levantados. Mas em São Paulo, que é sua casa, eu fui um dia à casa dele com Armandinho Sales de Oliveira, Mário de Andrade tinha dirigido um recital colosso, de modinhas do Império, de modo que estava no céu com o pé de fora. À saída, não me lembro mais por que, a uma pergunta de Armandinho eu respondi: "Tomara!" Mário de Andrade me pegou vivamente pelo braço. "Você também vem. Uma pessoa que fala tomara, tomara, meu Deus! - que gostosura! tem direito a beber minha caninha. Ah, não! você vem!" E eu fui. E eis como venci Mário de Andrade, pela linguagem. Em casa dele bebemos toda a garrafa de caninha. Houve grandes confraternizações. E hoje em dia, mal acabo de escrever um livro, corro para Mário de Andrade. Ele critica impiedosamente, inefavelmente. Anota as margens. Sinto que gosta de meus poemas, mas tem uma "diferença" qualquer com minha poesia. Eu o acho uma criatura esplêndida, com todas as suas manias. E que bom poeta! Poucos literatos no Brasil terão uma figura tão vasta e universal, apesar do seu fanático regionalismo. Conheço gente que o acha fiteiro. Mas a esses eu direi - lede-o para entendê-lo: Muito de indústria me fiz careca Abri salão nos meus pensamentos. Ou ainda: Danço para não chorar.

Também em São Paulo conheci Oswald, também de Andrade. Achava-me no Hotel Esplanada, no quarto de Manuel Bandeira, que deveria ir jantar com o poeta de Pau-Brasil. Ao saber quem eu era, prorrompeu em gargalhadas positivamente obscenas: "Então é esse menino, com esse ar esportivo, o autor daqueles versos compridos como um iole-a-8! Mas você não tem medo de fazer tanta força nessa regata desigual, seu poeta?" Eu me abespinhei um pouco, mas não fiz má cara à piada. Dei uma em troca. E logo a cordialidade se estabeleceu. Saímos os três e jantamos em boa camaradagem. Oswald estava brilhantíssimo. Procurava-o sempre que ia a São Paulo. Gostava de seu jeito e de sua casa. Boa casa para a gente se sentir à vontade, entre originais até de Picasso, vendo Oswald construir de um lado e arrasar de outro. O poeta tem a paixão da literatura. É um demolidor, rnas é, por outro lado, um espírito altamente construtivo. Gosto dos homens assim, mutáveis mas intransigentes enquanto creem, bem raciados, os homens que gostam da sua casa e da sua mulher, não os femininos, os impotentes ou os fracos. Oswald tem essa grande qualidade macha que lhe dá sumo à vida. Quase todo o mundo o teme. Temo-lhe o destabocamento e a sátira irresponsável. Compreendo que não gostem dele. Mas no fundo é um homem fácil de se gostar, com um grande complexo sentimental de paternidade, um homem de coração gordo e violento. Homem que vi estranho foi o poeta Carlos Drummond de Andrade. Conheci-o para lhe pedir um favor e desde então nunca mais fiz outra coisa. Mas já tenho ido lá para pedir-lhe o simples favor de vê-lo um pouco. Achei-o intratável a primeira vez, parecia um estilete e não um chefe de gabinete. Saí impressionado, pensando comigo que nunca poderia ser amigo de um sujeito assim. Não sei se ele gosta de mim ou não, não me interessa. Eu o tenho em especial carinho. Invejo-lhe a poesia descarnada e lúcida, e como que iluminada por um sol fluido de aurora. Tenho em alta conta sua figura humana, seca e vibrátil, laminar. Não tem importância o modo como ele lhe trate, às vezes desconhecendo a sua ilustre pessoa. O que importa é que, uma

noite, num bar, depois de uns chopes, a máscara do poeta esgarça-se num riso silencioso, que lhe vem de uma paisagem casta e longínqua na alma, e sua cabeça baixa se levanta, suas mãos mortas se reencarnam, e ele tamborila na mesa uma alegria rápida e extraordinária. E então se sabe que o poeta ama perdidamente: Amor, a quanto me obrigas. O poeta louco Jayme Ovalle, ou melhor, "o místico", como o chamou Manuel Bandeira, foi na minha vida um encontro de que não me esqueço. Conheci-o três dias depois de sua chegada da Europa, em casa de Schmidt. Tinha uma curiosidade enorme em vê-lo. Soube que andava fechado, não querendo receber ninguém, sofrendo as agruras da dor-sem-nome, roído de saudade da Inglaterra. Mas combinei uma tramoia com Schmidt e fui, com um ar de quem não quer. Encontrei o poeta no meio da sua garrafa de uísque, rodeado pelo grupo familial atento e respeitoso. Seu monóculo me recebeu mal, enquanto seu olho de águia me considerava com ar pouco amigável. Calei-me e fiquei quietinho, espiando passear o gênio. Passado um tempo Ovalle sentou-se. Todos se voltaram para ele. Alguma coisa ia suceder. Mas ele limitou-se a falar fanhosamente para Schmidt: "Põe um Bachzinho aí na vitrola pra mim, põe?" Só então se virou para o meu lado. Ficou me olhando um pouco, eu gelado mas firme, sorrindo um riso covarde. Ao fim de um tempo sorriu também. - Ele é muito bonzinho - disse, apontando-me com o dedo. - Ele é tão bonzinho que um dia... que um dia ele é capaz de sair correndo assim, compreende, sair correndo assim, e aí... Mas não cheguei a saber o que ia acontecer comigo no fim da corrida. Schmidt voltava com um livro de poemas do poeta, poemas ingleses, feitos na sua amada Londres. Ovalle relutou um pouco, mas acabou lendo quase tudo. Eu fiquei ouvindo sem compreender muita coisa, mas compreendo muita coisa do homem a que ouvia. Ovalle chorou, ajoelhou-se, às vezes se curvava até o chão para em seguida saltar como um calunga doido, falava música, fazia gestos tão patéticos que parecia querer se agarrar ao xale invisível de Nossa Senhora. Juro que fiquei fisicamente cansado da emoção. Quando resolvi sair, o poeta quis vir comigo. E fomos juntos por Copacabana afora. Depois entramos num táxi para a cidade. Na cidade pusemo-nos a beber - e bebemos tanto que nem as estrelas do céu ou os peixinhos do mar fariam conta do que bebemos. A madrugada nos encontrou na Lapa, comendo um filé à moda com vinho verde. A expressão do poeta sossegara muito, e ele agora me contava sobre as coisas do mistério, num tom simples e persuasivo. Ouvi de sua boca a explicação integral da famosa Gnomonia. Ouvi-o falar de Bach e Beethoven. Ouvi-o exaltar as mulheres da vida. Mais tarde, às sete horas da manhã, assisti ao seu encontro com Manuel Bandeira, encontro emocionante, depois de quatro anos de ausência, e um pequena rusga. Do quarto de Manuel fui para a Censura Cinematográfica, onde dormi durante a projeção um sono de duas horas e liberei todas as fitas. Até hoje, quando nos encontramos, sinto entre nós a fidelidade a esse primeiro encontro. Descobrimos coisas, fazemos caso de tudo, nunca há silêncio entre nós. Meu amigo Pedro Nava, ou melhor, o dr. Pedro Nava, é um grande poeta brasileiro que também é médico. Um olho clínico, como dizem seus colegas. E eu digo amém, porque Pedro Nava é o meu médico. Já me diagnosticou uma apendicite, e guardo bem a lembrança - a última lembrança ao ser anestesiado - de seu olho clínico posto em tristeza diante da possibilidade de um trespasse meu. Pedro Nava, sendo como é meu amigo, contou-me mais tarde o medo que tivera que eu morresse, não tanto porque fosse eu paciente, mas porque era

seu amigo. É verdade que se morre muito nesse negócio de operação, por mais que o cirurgião seja hábil, como era no meu caso. Tive um medo póstumo, quando o poeta me fez ver essa possibilidade. Mas já que se falou em morrer, em se tratando de Morte o poeta Pedro Nava comparece e fica triste. Porque se trata de um ser votado à Morte, tanto em sua profissão, onde luta exemplarmente contra ela, como em sua poesia, onde é todo dela. Pedro Nava é o criador da ideia sinistra do defunto que todos nós carregamos conosco, a quem damos de comer e beber e para quem arranjamos mulher; defunto que se senta, se levanta, anda na rua, vai ao cinema, escova os dentes e, no fim da noite, se deita imóvel para imitar o descanso eterno. Como se pode deduzir, Pedro Nava é um ser terrível, um perturbador da ordem, um russo. É o poeta russo Pedro, o grande. Só se sente bem ou no seu hospital, onde combate, com uma prudência de conhecedor a fundo, todos os candidatos à Morte; ou perturbando a alma alheia com sua grande tristeza - e por que não dizer dor-de-corno? - sua ternura úmida e animal de mastim fiel, e sua poesia lancinante. É um grande Pedro! Travei relações com ele em casa de Rodrigo Mello Franco de Andrade esse Rodrigo cuja amizade é para mim uma coisa extrema na vida - e o poeta batalhou para me manter a distância. Não queria mais saber de amigos, que são criaturas que atrapalham muito, sofrem, adoecem, morrem, é o diabo! Mas pouco a pouco venci o poeta. Hoje ele é um desses quatro ou cinco que já não distingo mais em meu sentimento. É um homem espantosamente rico e inteligente. Não há balda, como se diz em Minas, que lhe passe. Sua capacidade inventiva, no domínio da psicologia lírica, é assombrosa. Marca não importa quem, com dois ou três traços essenciais. Sua poesia bissexta, como se diz, segundo a expressão de Prudente de Morais Neto - porque vem de raro em raro -, é excelente. Quem não leu "O defunto" não sabe o que é sugestão de morte. É o poema mais "incômodo" que há. Perturba o tempo todo, irremediavelmente. Quando morto estiver meu corpo Evitem os inúteis disfarces...

E por fim meu primo, meu amado primo, que também é Pedro e é o anjo dos "Dantas" Prudente de Morais Neto. É preciso concentrar-se muito para dizer a menor das suas qualidades. Sua poesia - que ele chama bissexta - é o próprio lirismo. É um canto japonês. É o saquê. E fica-se sem saber o que admirar mais nesse homem: se essa alma que aninha tudo com o mesmo amor, o bem e o mal, o puro e o impuro; ou o seu espírito lógico, que separa com precisão matemática o justo do injusto, embora justificando a ambos. Quem o vê a primeira vez pode bem achá-lo bobo - e muitos bobos têm caído nessa esparrela. Se eu tivesse que "procurar-lhe o bicho", diria talvez que Prudente parece um bom chantecler, com seu topete, seu olho azul, sua cabeça que lhe movimenta todo o corpo ao se voltar, e esse corpão genial, terne, terno, túmulo ideal para as confidências, os segredos, os sentimentos mais íntimos, as paixões mais puras, as contemplações mais extáticas. Porque esse homem, de aparência burguesa e de inteligência prática, é um contemplativo. Não se irrita, não quer mal a ninguém, perdoa a injustiça que lhe fazem. Mas é justo e preciso como a luz elétrica. Não fica escaninho que lhe passe despercebido quando se volta para o julgamento de alguém ou de alguma coisa. Não tolera a mentira ou o engano. Prefere sofrer os males de uma verdade desnecessária que o remorso de uma mentira generosa. E isso não porque se ache demasiado íntegro diante da vida. Porque o erro o nauseia e desequilibra. Seu caminho é um doce movimento para a frente, um doce movimento de braços abertos.

Eu vos incito a amá-lo muito, vós que o não conheceis ou o admirais apenas. Não importa a posição em que estejais, direita, esquerda, centro avante, ou retaguarda. É preciso amá-lo com o maior carinho, com maior doçura e deixar que ele vos ame também, porque a glória desse mundo é pouca e o amor desse homem é uma grande glória. Mas estou me tornando patético. Ou não estou? Não sei. Sei de uma coisa: que Prudente de Morais Neto, o criador da Cachorra, sobrinho de Manuel Bandeira e meu primo pelo coração, foi o homem mais exato que já vi até hoje. E a propósito disto, cabe uma consideração. Que grupo excelente fazem todos esses homens! Olhem que estive viajando, conhecendo gente nova, tive contato com grandes poetas ingleses, ouvi-os falarem, vi outros grupos de homens de espírito; mas nada assim como eles. Essa força lírica, essa poesia magistral que estão criando para o Brasil, esse impacto de ternura e sordidez, essa coragem diante da vida, essa modéstia real, esse socorro mútuo, essa discrição e esse escândalo com que vivem, só os encontrei neles, aqui entre nós, nesses pequenos grupos dentro do grande Grupo. E faz um bem terrível pensar nisso. Que onde quase todos esperam recompensas, esses homens não esperam nada, apenas a fidelidade mútua. Que onde quase todos usam de processos turvos, muitas vezes inconfessáveis, esses homens agem limpamente, sem sequer se dar conta disso. Vivem em meio à ganância geral com armas desiguais, senão desarmados. São almas caríssimas, perfeitas de sentimento. Quando se queixam o fazem na melhor poesia, mas porque o fazem assim se queixam pouco. Não transigem com a má literatura: sabem esperar o amadurecimento da palavra a fim de que ela não traga engano. E são homens que se iludem, sujeitos às mesmas tentações e às mesmas quedas, com a mesma sensação da própria fraqueza e da própria sordidez. Mas neles até a sordidez é inefável. Eis o que os diferença. Neles a sordidez se transforma em poesia e a poesia em canto. E não é essa a maior grandeza do poeta? É possível ser-se poeta sem ser sórdido? * Primeiro artigo publicado pelo autor em O Correio da Manhã em 1940.

De pombos e de gatos Um dos meus grandes encantos em Florença, onde, em 1952, passei cerca de um mês, era ver da janela do meu quinto andar, no Hotel Nazionale, a madrugada toscana romper sobre a piazza Santa Maria Novella. Habituei-me de tal modo a isso que, nos meus hábitos de noctâmbulo, esticava a noite até o amanhecer, só pelo prazer de ver a luz rósea do sol florentino descobrir e incendiar os mármores da fachada da igreja de Santa Maria Novella, bem como o claustro verde que fica à sua esquerda e as elegantes arcadas do fundo, onde existem as terracotas de Andrea e Giovanni della Robbia. Mas o prazer desse minuto de luz acabaria por resultar monótono, não se lhe seguisse um dos mais extraordinários divertissements a que já me foi dado assistir, misto de balé, cinema e circo romano, sem falar que cheio de ensinamentos sobre a vida e arte de viver perigosamente. O caso é que, aos primeiros vestígios de luz, começava-se a ouvir por ali em torno um brando ruflar de asas que, com o despontar do Sol, crescia num espesso burburinho ao qual vinham se unir doces arrulhos. E o ambiente, em suas cores rosa, verde, laranja e terracota, adquiria uma maciez de plumas; e logo asas brancas e trigueiras começavam a tatalar em largos voos e algumas desciam em voos rasantes; e toda uma população de pombos, habitantes daqueles mil escaninhos, como só pode proporcionar a arquitetura antiga, vinha pousar na praça. A coisa ficava assim por uns poucos minutos; e em breve apareciam, infalivelmente, no belo logradouro, três padres e cinco gatos. Cabe dizer, em nome da verdade, que os padres chegavam bem menos sorrateiramente que os gatos e, estou certo, com intenções muito menos maléficas; pois se vinham os padres para se aquecer um pouco ao sol e ler seus breviários, os gatos surgiam, esgueirando-se das ruas laterais, para cumprir uma fatalidade do seu destino, que é de comer pombos. E com a malícia que lhes é peculiar, colocavam-se pacientemente em posições estratégicas, sob automóveis encostados ao meio-fio, à espera do momento azado para o bote. Deus sabe que, entre gatos e pombos, eu sou francamente pela primeira espécie. Acho os pombos um povo horrivelmente burguês, com o seu ar bem-disposto e contente da vida, sem falar na baixeza de certas características de sua condição, qual seja a de, eventualmente, se entredevorarem quando engaiolados. Mas no caso especial da piazza de Santa Maria Novella, devo confessar que era torcida incondicional dos pombos; e só passei a torcer pelos gatos no final, quando, defrontado com a realidade de sua terrível humilhação, e provável neurose subsequente, achei que não faria nenhuma falta à comunidade a desaparição de uma meia dúzia de columbinos, em beneficio do sistema nervoso dos pobres gatos. Pois era quase doloroso ver o fracasso constante de suas desesperadas tentativas de caçar um pombinho que fosse. E garanto que eles empregavam todas as técnicas tradicionais dos gatos, desde a paciente emboscada, até a carreira às cegas, com saltos desordenados para todos os lados.

Tudo em vão. Porque, a cada arremetida, os pombos limitavam-se a dar pequenos voos que criavam verdadeiros túneis para os gatos, que os percorriam em furiosas e inúteis investidas. E o pior é que cada pombo, passado o rojão, pousava como se nada tivesse havido, e continuava na sua estúpida ciscação do chão da praça, na mais total indiferença diante de seu velho inimigo. Coisa que, positivamente, devia deixar os gatos loucos. Haja visto um que um dia eu vi, depois de numerosos ataques frustrados, a morder como um possesso o pneu de um Chevrolet, e por cuja sanidade mental não poria da maneira alguma a mão na Bíblia.

Estado da Guanabara Um repórter me telefona, eu ainda meio tonto de sono, para saber se eu achava melhor que o Distrito Federal fosse incorporado ao estado do Rio, consideradas todas as razões óbvias, ou se preferia sua transformação no novo estado da Guanabara. Sem hesitação optei pela segunda alternativa, não só porque me parece que o Distrito Federal constitui uma unidade muito peculiar dentro da Federação, como porque vai ser muito difícil a um carioca dizer que é fluminense, sem que isso importe em qualquer desdouro para com o simpático estado limítrofe. O negócio é mesmo chamar o Distrito Federal de estado da Guanabara, que não é um mau nome, e dar-lhe como capital o Rio de janeiro, continuando os seus filhos a se chamarem cariocas. Imaginem só chegarem para a pessoa e perguntarem de onde ela é, e ela ter de dizer: "Sou guanabarino, ou guanabarense"... Não é de morte? Um carioca que se preza nunca vai abdicar de sua cidadania. Ninguém é carioca em vão. Um carioca é um carioca. Ele não pode ser nem um pernambucano, nem um mineiro, nem um paulista, nem um baiano, nem um amazonense, nem um gaúcho. Enquanto que, inversamente, qualquer uma dessas cidadanias, sem diminuição de capacidade, pode transformar-se também em carioca; pois a verdade é que ser carioca é antes de mais nada um estado de espírito. Eu tenho visto muito homem do Norte, Centro e Sul do país acordar de repente carioca, porque se deixou envolver pelo clima da cidade e quando foi ver... kaput! Aí não há mais nada a fazer. Quando o sujeito dá por si está torcendo pelo Botafogo, está batendo samba em mesa de bar, está se arriscando no lotação a um deslocamento de retina em cima de Nélson Rodrigues, Antônio Maria, Rubem Braga ou Stanislaw Ponte Preta, está trabalhando em TV, está sintonizando para Elizete. Pois ser carioca, mais que ter nascido no Rio, é ter aderido à cidade e só se sentir completamente em casa, em meio à sua adorável desorganização. Ser carioca é não gostar de levantar cedo, mesmo tendo obrigatoriamente de fazê-lo, é amar a noite acima de todas as coisas, porque a noite induz ao bate-papo ágil e descontínuo; é trabalhar com um ar de ócio, com um olho no oficio e outro no telefone, de onde sempre pode surgir um programa; é ter como único programa o não tê-lo; é estar mais feliz de caixa baixa do que alta; é dar mais importância ao amor que ao dinheiro. Ser carioca é ser Di Cavalcanti. Que outra criatura no mundo acorda para a labuta diária como um carioca? Até que a mãe, a irmã, a empregada ou o amigo o tirem do seu plúmbeo letargo, três edifícios são erguidos em São Paulo. Depois ele senta-se na cama e coça-se por um quarto de hora, a considerar com o maior nojo a perspectiva de mais um dia de trabalho; feito o quê, escova furiosamente os dentes e toma a sua divina chuveirada. Ah, essa chuveirada! Pode-se dizer que constitui um ritual sagrado no seu cotidiano e faz do carioca um dos seres mais limpos da criação. Praticada de comum com uma quantidade de sabão suficiente para apagar uma mancha mongólica, tremendos pigarreios, palavrões homéricos, trechos de samba e abundante perda de cabelo, essa chuveirada - instituição

carioquíssima - restitui-lhe a sua euforia típica e inexplicável: pois poucos cidadãos poderão ser mais marretados pela cidade a que ama acima de tudo. Em seguida, metido em sua beca de estilo, que o torna reconhecível por um outro carioca em qualquer parte do mundo (não importa quão bom ou medíocre o alfaiate, de vez que se trata de uma misteriosa associação do homem com a roupa que o veste), penteia ele longamente o cabelo, com gomina, brilhantina ou o tônico mais em voga (pois tem sempre a cisma de que está ficando careca) e, integrado no metabolismo de sua cidade, vai à vida, seja para o trabalho, seja para a flanação em que tanto se compraz. Pode-se lá chamar um cara assim de guanabarino?

Guignard Contou-me Aloísio de Salles, na inauguração da exposição de Guignard (que ninguém deve perder, ali no Museu de Arte Moderna), que o artista ficou felicíssimo no grande dia porque o deixaram entrar sem cobrar-lhe nada. A história dá bem a medida da qualidade do artista e pureza de sua arte. Eu acho Guignard um sujeito fabuloso. Houve tempo, antes de sua partida para Minas (de que é hoje o pintor- representativo), em que nos víamos mais. Guignard gostava muito de meter-se nas barcas da Cantareira e ficar trafegando, a ver a baía colorida. Lembro-me que um domingo, Carlos Leão e eu o encontramos numa barca de Niterói, e era dia de regata - o que deixou Guignard completamente indócil. Ficou debruçado como uma criança, a espiar o movimento dos ioles, a agitação multicor das bandeirinhas, o luminoso espetáculo marítimo que se lhe oferecia, assim em verde, azul e vermelho. De vez em quando, voltava-se para nós e, com gestos de pintor, reproduzia no ar quadros que via ora aqui, ora lá longe. Poucas vezes o vi mais agitado. Caloca deliciou-se, e eu também, com a espontaneidade infantil do seu entusiasmo. Guignard é, como se sabe, um grande marinhista - de um jeito diferente de Pancetti, mas também grande. Suas pinturas de mar têm muito mais encanto e frescor que as de Pancetti. Ele põe sempre milhões de barquinhos em composição meio primitiva, dá um ar de festa ao motivo que pinta, torna o mar uma coisa vibrante e encantatória. Hoje em dia, quase que completamente descarioquizado, ele depois de desenhar e pintar muito essas queridas montanhas de Itatiaia (sim, muito queridas para minha lembrança), passou-se todo para Minas, onde criou sua esplêndida escola de pintura (cheia de bons frutos) e onde tem vivido e desenhado lindas paisagens das serras e do casario colonial com a mão mais delicada que já viu a pintura brasileira. Muitas dessas telas estão lá no Museu de Arte Moderna, e algumas atingem a perfeição formal, a sutileza simples, a técnica lírica da pintura japonesa. Bom Guignard! No meio de tanta coisa ruim, de tanta miséria e tanto desencontro, eis sua pintura, fresca como um sorriso de criança; sua pintura onde em casas singelas vivem seres simples e felizes; sua pintura onde, em frondes verdes, cantam sempre passarinhos.

H2O Sete horas da manhã. Campainha na porta. - Dez minutos de água, pessoal! É a voz do seu Abel, o porteiro do meu edifício. Água quer dizer banho. Há dois dias este corpinho só vê fricções de água-de-colônia. A ablução é um tanto ou quanto matinal demais, mas não há remédio: o homem é um escravo do quarto elemento, de que é ele próprio o composto químico: H-O-N-C. Os dois primeiros em combinação, dão água: H20. É ela! A correria é infernal, enche-se desde o tanque de lavar roupa até os copos da casa. A lavação da louça suja é feita a toda, como para ganhar um campeonato. Ouvem-se profusas descargas de latrinas, torneiras escorrem ruidosamente, enchendo recipientes dos quais a banheira é o mais capaz. A barba é feita em dois minutos, havendo eu, muito de indústria, deixado pincel e aparelho adrede preparados. Depois vem o banho, às carreiras. Mas a verdade é que o tempo útil voa impressentido. Depois de bem ensaboado, o chuveiro começa a minguar assustadoramente, acabando por estar com um sinistro gorgolejo. O nome feio anda pela casa, atravessa paredes, vai encontrar eco em outros apartamentos, desdobra-se até longínquos bairros, toma a cidade inteira. De repente todo mundo põe-se a berrá-lo em uníssono. Ele é a expressão viva da realidade carioca. Aliás, um grande general de Napoleão já o usara em circunstâncias talvez não tão dramáticas, mas com vigor. Um homem ensaboado não se pode dizer que valha por dois, porque é o ser mais infeliz e ridículo da criação. Tem de se haver com o sistema da cuia. Seu corpo esfria, ele fica com um ar de pinto molhado. É absolutamente lamentável. Ontem à noite, o café foi feito com água mineral. Ficou com um gosto meio velhaco, mas não há de ser nada. É de esperar, contudo, que o recurso não se tenha de estender ao próprio banho, porque com a mineral a Cr$ 180, e sendo necessários uns cem litros para encher uma banheira, sai cada banho a 18 contos - o que torna a prática proibitiva para a classe média, ficando acessível apenas a uns poucos homens ricos e bem nutridos, que aliás devem ficar umas gracinhas dentro de um banho de água mineral, agitando os braços gordos e soltando milhões de borbulhas....

Hino carioca Na noite do dilúvio, tentando alcançar a pé minha casa, eu me senti bêbado e louco. Caía uma tromba-d'água do céu, e tão espessa que eu mal conseguia respirar. Minhas pernas venciam a custo a densidade da cheia, que me passava dos joelhos; mas eu prosseguia com raiva dos elementos desencandeados, com raiva da cidade passiva ante sua fúria. Caí e me levantei duas vezes imprecando nomes, desafiando o aguaceiro e sua mortalha de lama, querendo briga. Seriam pelas quatro da manhã e eu me sentia menino e ao mesmo tempo o último herói do mundo. Era tudo vazio à minha volta, e eu não suspeitava a catástrofe que, naquele momento mesmo, se abatia sobre centenas de lares pobres nos morros, o pé-d'água varrendo casebres que se desfaziam caindo pelas encostas; gente a pedir socorro em plena queda; corpos esmagados de crianças e adultos a misturar seu sangue ao barro imundo. Eu seguia cheio de cólera e euforia, o olho atento aos remoinhos, aos movimentos suspeitos da água, ao chupo dos bueiros abertos, patinhando violentamente no lençol de chuva. Ao passar diante de uma garagem inundada, um velho crioulo guardador compreendeu minha luta e me animou: - É para frente que se anda... Eu sorri para ele e sua carapinha branca: - Fique em paz, meu irmão. E pus-me a cantar cantos de guerra. Quando alcancei meu edifício, brandi meu punho para o alto. Não, não vai ser nem o ressentimento dos covardes, que cria as ditaduras, nem a fúria dos elementos, que gera a calamidade, que irão impedir o homem de chegar ao seu destino ai dele! - mesmo sabendo de antemão perdida a grande e fatal partida em que foi lançado. Porque o destino dos homens é a liberdade: liberdade para amar, para optar e para criar; liberdade pura e integral, com a dramática beleza dos elementos desencadeados a que se sucedem céus azuis cheios de luz. Liberdade para viver e para morrer, sem medo. Liberdade para cantar seu canto rouco diante da carne translúcida das auroras. Liberdade para desejar, para conquistar o que não lhe é permitido pela estupidez da convenções e pela reserva dos bem-pensantes. Liberdade para ganir sua solidão ante o Infinito. Liberdade para suar sua angústia no Horto da dúvida e do desespero, e subitamente explodir seu riso claro em pleno Cosmos: - A terra é azul! Esse é o grande destino do homem: remover os escombros criados pelo ódio e partir de novo, no vento da Liberdade, para a frente e para cima. Que venham os tiranos, que o prendam e torturem, que caiam do céu bolas de fogo - e ele levante-se, roto e ensanguentado, e com a força que lhe dá a Vida parte uma vez mais, em direção à Liberdade. Vai, favelado, meu pobre irmão dos morros, enterra os teus mortos, remove teus escombros, ergue novos barracos de lama e podridão na perigosa vertente das favelas,

recomeça tua vida de música e miséria, e depois toma umas cachaças e cai no samba. Carnaval vem aí, para te fazer esquecer teu destino de lama. Ele é a tua liberdade de três dias, até que recomeces a trabalhar, a roubar, matar, a procriar na lama. Tens mais um ano à tua frente. Aproveita bem desse privilégio, porque ninguém pode prever se até o próximo verão uma nova frente fria vinda da Patagônia não vai encontrar uma grande formação cúmulosnimbos (ou será que estou dizendo bobagem, senhores meteorologistas?) e a cólera de Deus não vai querer cooperar com a obra de extinção sumária das favelas, tão ao agrado de certos arianos cariocas...

História triste Outro dia, meu amigo, o escritor Otto Lara Resende, estava mineirando ali na esquina de México com Pedro Lessa, quando lhe veio a vontade de tomar um "sustincau". Não sei bem o que seja um "sustincau", mas pela descrição que me fez Otto, creio tratar-se de um híbrido de "toddy" com picolé. Disse-me ele ser coisa de sustância e eu acreditei piamente. Ao que parece, existe uma carrocinha do produto no local indicado, e tanto ele como Paulo Mendes Campos são fregueses da estranha beberagem; ou chuparagem - não sei ao certo. Sei de uma coisa: que Otto estava por ali manipulando um "sustincau", quando viu chegar uma família - pai pobre e doentio, mãe ainda moça, desgastada e sem brilho, e filhinha anêmica, de rostinho chupado. Uma família brasileira típica, poderíamos dizer. A menininha, ao ver o Otto sorvendo o "sustincau", precipitou-se para a carrocinha gritando que também queria um: "um igual ao daquele moço". Os pais chegaram-se contrafeitos. O Otto, que nada perdia da cena, nem do "sustincau", viu o pai perguntar quanto era, depois convocar a mulher e os dois confabularem, com o resultado de ela dizer-lhe que só havia para a passagem de volta. Tinham vindo ao IPASE para exame médico e trazido o justo necessário. Chamaram a menininha e tentaram explicar-lhe, sem dizer a razão exata porque, naturalmente, eram gente de brio e Otto estava por perto, urubusservando. Mas a menininha tinha água na boca: - Ah, me dá um, papai! Um igual ao do moço! - É muito gelado, filhinha! Faz mal... - Ah, me dá um, papai! O homem da carrocinha, que não estava seguindo a história, mas ouvira as últimas frases, interveio: - Tem sem ser gelado, s'or! O casal se entreolhou. Diz Otto que o encabulamento do homem era total. Ele foi para um canto com a mulher e os dois puseram-se a esgravatar na bolsa. Mas só havia cascalho. - Não pode ser, não, filhinha! A mulher, nervosa, chegou-se para a menininha: - Pare de pedir coisas, ouviu? Que menina! Tem os olhos maiores que o estômago. Vam'embora! E não quero ouvir nem mais uma palavra! Os olhos tristes da garota lambiam o "sustincau" do Otto. Ela suspirou, fazendo beicinho - e foi aí que o próprio Otto, meio contrafeito, dirigiu-se ao pai. - Pode deixar ela tomar um. A menininha precipitou-se para a carrocinha. O homem, de olhos baixos, agradeceu, no auge da vergonha. Diz Otto que engrolou umas palavras e meteu o pé. Bom Otto. Se houvesse céu, ele já estava com o seu lugar garantido.

Não é bem o que o ministro da Justiça chama, com uma tal vernaculidade, de "menoridade desvalida"; mas que é uma menoridade um bocado pinimbada, sem nem um tostãozinho para tomar um "sustincau", ah, isso é!

Iemanjá do céu Domingo, quando te vi cheia no céu, sobre a Lagoa - e nunca te vira assim tão cheia - juro que morri de ciúmes, Bem-Amada. Já não eras mais moça. Os olhos mecânicos de Lunik-9, pousados sobre o teu corpo, fotografavam-te em tua desnudez. Ai de mim, já não eras só minha. Nunca mais os doces colóquios noturnos, só tu e eu, e o Infinito recolhido em silêncio para o nosso amor. Nunca mais os grandes êxtases solitários, tu transtornada de paixão, a descobrir só para os meus olhos as partes mais pudendas do teu luminoso corpo. Nunca mais os grandes delírios declamatórios, versos desvairados a partir de mim para os teus espaços. Nunca mais, porque eu estava certo de que embora os pretendentes fossem muitos, o único mesmo era eu. Eu era o teu eterno poeta, o menestrel da tua melancólica beleza, o sacerdote máximo do teu culto. Representavas para mim a lemanjá do Céu, a deusa de cuja pele branca irrompe luz, a uiara do canto merencório e ausente, cuja música envolve e atrai os pescadores do verbo. Tua cabeleira de prata estendia- se no Cosmos, vinha envolver minha tristeza com sua mansa claridade. Às vezes, virgem demente, parecias me provocar. Sacavas da treva teu divino seio e o suspendias, alabastrino, para a minha contemplação, como o faria uma menina pervertida com um homem prisioneiro, apenas para aumentar seu sofrimento, levá-lo aos abismos da loucura. Ou te deixavas, Lua menina, reclinada em tua rede branca, a me fazer juras de amor para sempre, tua voz sussurrante soando nos claustros do meu silêncio, a me dizer que era melhor assim, de longe, de bem longe, no módulo mesmo do mistério: que eu tivesse paciência, pois eras em verdade minha, mais do que de qualquer outro poeta ou trovador, porque só para mim te movias, Lua Nova, alteando os quartos do minguante para o crescente, do crescente para o plenilúnio, em virginal despudor. E era como se eu te possuísse e fecundasse ao longo de tuas fases, e só para mim retornavas - eu que mais que nenhum outro havia sido o teu poeta e fiel cavaleiro; eu que sobre ti dissera as palavras mais lindas e sentidas; eu que descobrira antes que ninguém que és neta de Oxum, filha do Mar, ilha da Terra boiando no Universo: feita na mesma combustão que criou minha matéria; que és enfim, Iemanjá do Céu, a sereia luminescente do olhar verde-prata, que atrai com seus inaudíveis cantos hialinos os poetas que tiveram a temeridade de olhar para o Infinito. Sim, senti ciúmes de ti, Lua Mulher. Senti ciúmes porque já agora, em algum lugar no teu mar das Tormentas, um pequenino Robô terrestre pesquisa com olhos cobiçosos a superficie branca do teu ventre. E mais ciúmes senti ainda porque, ao ver-te domingo sobre a Lagoa, soube que te havias dado ao jovem conquistador. Estavas rósea de vergonha, Lua Cheia, e mantinhas os olhos baixos para não fixar os meus. Pobre de mim, que fazer? Aos cinquenta anos, como competir com o atlético e ousado Lunik que venceu mais de trezentos mil quilômetros para te conquistar, com risco de sua própria estrutura? Não viste com que delicadeza pousou ele sobre teu corpo, que os cientistas

pensavam recoberto de uma espessa camada de poeira, mas que, ao contrário, leva apenas uma fina e perfumosa mão de talco lunar? Não, ao poeta resta apenas reconhecer que, doravante, terá que repartir teus encantos com os homens da Técnica. Mas o que ninguém sabe é que quem te colheu fui eu, "porque eu fui o grande íntimo da noite, colei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa"... Por isso não pensem os soviéticos que Lunik foi... l'unique. Único uma ova! Antes dele já o poeta brasileiro havia "passado a Lua na cara" em boas condições. Leiam a balada "O poeta e a lua", em sua Antologia poética, e depois me digam... E ainda me vêm com essa banca de Lunik... L'unique... aqui, ó!

Inocência Seamos t'dos locos Santa Teresa As pessoas que frequentam o Café Vermelhinho, em frente à ABI - centro das jovens artes plásticas do Rio, e onde, depois das lides diárias, alguns escritores costumam também descansar o espírito - conhecem, pelo menos de vista, o alagoano Antônio Galdino da Silva, autor do inocente poema que hoje vos trago para vos purificar dos males de serdes sociais. Trata-se, o poeta, de um caboclo escuro, cor de melaço rico, com uns olhos distantes e um bigodinho frio num rosto vigoroso e franco de nordestino. Capenga, passeia-se itinerante, a bengala quase chapliniana numa das mãos, na outra um leque de bilhetes de loteria, num trabalho persuasivo de oferecer fortunas, mas que nunca chega a ser maçante. Não há aluno da Escola de Belas-Artes que não lhe queira bem. Tenho certeza de que numa batalha estudantil, Antônio Galdino da Silva brigaria até o fim em defesa de sua gente - e nisso ele me recorda o velho português Carmona, da Faculdade de Direito do meu tempo, que um dia passou as manoplas duras como um cadeado em volta das grades do portão da Escola e explicou aos tiras, que do lado de fora se esforçavam por entrar: "Nos meus m'ninos ningaim bate!". Antônio Galdino da Silva apareceu de repente fazendo poesia. Alfredo Ceschiatti, escultor novo do grupo revolucionário das Belas-Artes, cuja figura sonolenta como que já se vai fixando pictoricamente entre as vermelhidões do agitado Café carioca, compareceu-me outro dia com essa "Santíssima Noemy, em Prece a Deus pelo seu Destino e sua Felicidade", que Sombra ora vos dá como iguaria rara, em bandeja de prata. O poema, não saberia dizer como, levou-me atrás... ao tempo em que eu, menino de 18 anos, descobria, entre confuso e maravilhado, no sossego de Itatiaia, a música do texto das Iluminações, de Itaiaia, a música do texto das Iluminações, de Rimbaud, e deixava-me levar, bêbado de poesia, no seu louco navio, em meio aos "azuis verdes" do mar e do céu confundidos pela visão do poeta. Não poderia explicar a aproximação. Não há nenhuma semelhança efetiva entre esses dois lirismos. São inocências diversas, fruto de naturezas diferentes. Talvez, quem sabe, a mesma tendência em ambos para a sabedoria das palavras inexistentes, inventadas no paroxismo da criação, e capazes de confundir num só organismo cores, climas, perfumes, imagens e ritmos perdidos - quem sabe... É realmente extraordinário. Um poema nasce de um voto de amor, e súbito, no milagre de uma palavra, reúne tudo o que, de tão vago, poeta nenhum saberia dizer diferentemente sem se tornar banal: Em sua vida cheia de inverderume céu!

Inverderume tem tudo: o inverno, a cor verde dos campos, uma luz que não chega a se

precisar, a ideia da divindade feminina, um amanhecer e uma tarde. E depois deste achado, o poeta atinge, sem mais, uma altitude bíblica. A linha seguinte contém todo o mistério da mulher em sua santidade fisica. Esses acatos das trevas alucinantes são uma das coisas mais doidas que já li. Como interpretar, sem desfazer o mundo do sentido que circula no espaço dessas três palavras? Poderá haver sublimação maior? Dos seus acatos das trevas alucinantes... Em sacraremos das suas inlomares Que vem-me varejando os meus clarins. E por quem é que vou gritando neste caminho? É por Deus! é por Deus! é por Deus do céu!...

Parece Isaías. Não são muitos os momentos maiores no tremendo poeta bíblico. Os versos descem numa candência onde se alternam os mais terríveis gritos e as mais litúrgicas pacificações. O verso: Em sacraremos das suas inlomares solta pombas místicas no corpo silencioso de uma nave. O decassílabo que se segue é Guernica, de Picasso, sem tirar nem pôr. Os dois versos finais da estrofe são como a memória de outras vozes, as dos Profetas, a de Saulo na estrada de Damasco, perseguido de Deus� Isso tudo, tão alto porque tão inocente. Se houvesse propósito, alguns desses versos perderiam talvez em conteúdo, embora me pareça que sua qualidade formal independa do fato de terem sido feitos por um homem simples. Mas sabermos que foram escritos por Antônio Galdino da Silva, bilheteiro, dá-lhes um panejamento insopitável. Aqui e ali, o poeta lembra Augusto Frederico Schmidt, o Schmidt dos poemas proféticos e do "Canto da noite": Noemy anda perdida nas matas do Araquém? Não! Não! Ainda não! Noemy está pensando Está sonhando, está dormindo em casa Da sua amiguinha e companheira inseparável!...

Só Schmidt é capaz de trabalhar conscientemente um valor poético de surpresa com tão cândida mestria. Senão, confronte-se: Penso num vago luar, penso na estrela Na andorinha do céu avoando avoando... Adeus, Julieta, vou fugir daqui! ("O canto da noite")

Em certos trechos surge o músico, o modinheiro que vive em potencial na alma brasileira de Antônio Galdino da Silva, trazendo acordes de frases suburbanas à Uriel Lourival, o divino poeta da valsa "Mimi": .......... e o sol brilha elegantemente Se debruça aos meus pés chorando tanto Que por uma credencial do sol brilhante E, espafadamente, é de minha Aleluia, Aleluia!...

Não vos poderei dizer mais. Relede o poema no silêncio de vós mesmos, e meditai depois sobre este verso puríssimo de um homem do povo que ganha a vida vendendo bilhetes, e cuja cor, no espectro, reúne todas as cores: Felizes não são estes ainda que me veem de longe...

Libelo De que mais precisa um homem senão de um pedaço de mar - e um barco com o nome da amiga, e uma linha e um anzol pra pescar? E enquanto pescando, enquanto esperando, de que mais precisa um homem senão de suas mãos, uma pro caniço, outra pro queixo, que é pra ele poder se perder no infinito, e uma garrafa de cachaça pra puxar tristeza, e um pouco de pensamento pra pensar até se perder no infinito... - Mas o amigo foi ludibriado, e é preciso por ele lutar! De que mais precisa um homem senão de um pedaço de terra - um pedaço bem verde de terra - e uma casa, não grande, branquinha, com uma horta e um modesto pomar; e um jardim - que um jardim é importante - carregado de flor de cheirar? E enquanto morando, enquanto esperando, de que mais precisa um homem senão de suas mãos pra mexer na terra e arranhar uns acordes no violão quando a noite se faz de luar, e uma garrafa de uísque pra puxar mistério, que casa sem mistério não vale morar... - Mas a terra foi escravizada, e é preciso por ela lutar! De que mais precisa um homem senão de um amigo pra ele gostar, um amigo bem seco, bem simples, desses que nem precisa falar - basta olhar - um desses que desmereça um pouco da amizade, de um amigo pra paz e pra briga, um amigo de casa e de bar? E enquanto passando, enquanto esperando, de que mais precisa um homem senão de suas mãos para apertar as mãos do amigo depois das ausências, e pra bater nas costas do amigo, e pra discutir com o amigo e pra servir bebida à vontade ao amigo? - Mas o amigo foi ludibriado, e é preciso por ele lutar! De que mais precisa um homem senão de uma mulher pra ele amar, uma mulher com dois seios e um ventre, e uma certa expressão singular? E enquanto passando, enquanto esperando, de que mais precisa um homem senão de um carinho de mulher quando a tristeza o derruba, ou o desatino o carrega em sua onda sem rumo? Sim, de que mais precisa um homem senão de suas mãos e da mulher - as únicas coisas livres que lhe restam para lutar pelo mar, pela terra, pelo amigo...

Médico de flores Buenos Aires, outubro de 59: já poderia - como aquele ingênuo novo-rico que gravou nos seus cartões de visita: Fulano de Tal, ex-passageiro do "Cap Arcona" - mandar colocar nos meus, se os tivesse: V. de M., ex-passageiro do "Caravelle". Pois a verdade é que acabei de ingressar na era do jacto puro, com um voo de Montevidéu a Buenos Aires. Voo fulminante, pois mal subimos e o piloto já estava resolvendo os problemas da descida. Devido à curta distância (para um jacto) do trajeto, não foi possível tomar a altura ideal de 12 mil metros, onde a serenidade é quase total e a vibração quase nula; mas de qualquer maneira achamos, a Bem-Amada e eu, emocionante voarmos a 7 mil metros, numa velocidade de oitocentos quilômetros horários e a uma temperatura externa de 300 abaixo de zero. E dentro do avião tudo quentinho como deve ser. No chão, que ainda é melhor, a temperatura está também como deve ser, nesta boa cidade de Buenos Aires. Ainda há pouco, ao andar rodando por aí tudo, lembrei-me de mim mesmo, faz 14 anos, passeando por estas mesmas ruas em companhia de Aníbal Machado e Moacir Werneck de Castro. Éramos mais moços de quase três lustros e estávamos contentes da vida porque tínhamos escapado por milagre do desatre do six-motor francês "Leonel de Marmier" (num voo entre Rio e B. A.), que conseguiu amarar ninguém sabe como numa lagoa próxima à cidade de Rocha, em pleno pampa uruguaio, depois de ter tido a nacela cortada de alto a baixo por uma das hélices, que desprendera do motor e entrara avião adentro, numa carnificina que mais vale não lembrar. O tempo do desastre foi de seis minutos: seis terríveis minutos de expectativa da morte. Valha-nos, na era do jacto puro, saber que o indivíduo provavelmente desintegra, em caso de acidente. Hoje, domingo, 25, fizemos, em companhia do meu mui caro, leal e valoroso amigo Lauro Escorel, secretário de Embaixada em B.A., uma grande rodada de automóvel que nos levou para lá do Palermo. A cidade dominical era tranquila, fria e com um céu de névoas. Lembrome de que, num determinado momento, ao passarmos por uma enorme edificação toda murada, disse-nos o ensaísta de O pensamento político de Maquiavel ser ali o lugar onde são tratadas as águas que abastecem Buenos Aires. Fiquei pensando que, mais ainda que expassageiro do Caravelle, gostaria de ter nos meus cartões de visita: V. de M., médico de águas. Assim seria apresentado às pessoas nas festas, em vez de como poeta ou diplomata. E ante a estranheza que lhes causaria o título, eu confirmaria gravemente: - Sim, minha senhora, médico de águas, para servi-la... Depois a imaginação se me partiu, e eu fiquei achando que médico de flores seria ainda mais belo. Que linda e honesta profissão a ter! E como eu seria o único do Rio, não chegaria para as encomendas, com uma clientela de fazer inveja a meus amigos os drs. Clementino Fraga Filho, Marcelo Garcia e Ivo Pitanguy, dentro de suas especialidades. Estaria assim muito bem no meu consultório e de repente minha mãe, aflitíssima, telefonaria: "Meu filho, vem

depressa que minhas rosas estão morrendo..." E eu partiria com a minha maletinha para auscultar o coração das rosas, aplicar-lhes a coramina das flores, fazer-lhes transfusão de seiva, reavivar-lhes as cores, a fragrância, a beleza. E mal chegado a casa já haveria recados de milhões de amigas preocupadíssimas com suas azáleas, seus redodendros, seus antúrios. E eu voltaria feliz e diria com orgulho e alegria à Bem-Amada: "Acho que consegui salvar as rosas de minha mãe." E a Bem-Amada ficaria muito contente e me daria um beijo. E eu daria também consultas a flores pobres, e na rua todas as damas me sorririam com simpatia e respeito, cumprimentando- me com graciosos ademanes. E eu as cumprimentaria de volta, com a circunspecção que deve ter um médico de flores.

Meninas sozinhas perdidas no mundo e dentro de si Feito sobre um desenho de Carlos Scliar Meninas sozinhas, perdidas no mundo e dentro de si: eu gostaria tocar-lhes xilofone nas clavículas, harpa nas costelas, cuíca na caveira e gostaria também de lhes pedir emprestados os fêmures e com um fazer uma flauta, e com o outro bater um fantástico tambor feito da pele dos seus ventres, bem esticada sobre sua ossada pélvica. E gostaria que o som saísse do xilofone e da harpa e da cuíca e da flauta e do tambor dissesse Hitler! Meninas sozinhas, perdidas no mundo e dentro de si: ó abstratas, mímicas ganglionares! feixes de ossos armados para a fogueira de todas as esperanças, todos os votos, todos os desejos. Eu gostaria... Por vós clamamos, por vós suspiramos, ó degradadas filhas de Eva, macérrimas torres de fome e solidão, meninas de eterna impuberdade, perdidas na sombra, perdidas na noite, perdidas no mundo e em si mesmas perdidas. Aparentemente meninas: conservais no rosto a perene crispação de um sorriso. Mas não é sorriso, é magreza. Não vos foi dado lábios nem para sorrir nem para beijar. Tendes a boca negra como uma cratera e vosso mau hálito suspira: amor! Sois opiladas e sedentas da poesia da palavra que é a Poesia: hormônio. Trazeis ventres inchados de entranhas vazias, onde afia as presas um filho sem pai, que traz um nome: Fome, Hambre, Faim, Hunger, Fame, - Ô Femme, monceau d'entrailles, pitié douce... Pedis esmolas, pedis pão, pedis calor. Ganhais a moeda, a côdea, o chão. Nem a tepidez das lágrimas conheceis. Mas caçam-vos os lobos humanos, e desprezam-vos os donos da vida. Em seus sapatos lustrosos vosso rosto deformado se reflete quando ante eles vos inclinais sob a ameaça do chicote. Meninas que sois a inocência do mundo, perdidas no mundo e dentro de vós. Meninas cadaverosas, errantes, nas ruas de Varsóvia, errantes nas ruas de Berlim, errantes nas ruas de Xangai, errantes nas ruas do mundo, salvas dos destroços para as escadarias das igrejas, cariátides primitivas nascidas de cinzel sem gume, pobres odontomoças, furbas e tísicas, tristes e afônicas. Meninas sozinhas perdidas no mundo e dentro de si. Há homens gordos que vos ignoram, homens baixos que vos ignoram, homens magros que vos ignoram, homens com bigode que vos ignoram, homens com óculos que vos ignoram, homens que se vestem de negro, pardo, verde e rosa que vos ignoram. São homens os que vos ignoram... Ah, arcas de descrença, cântaros de fel, estrelas de podridão, púcaros de bacilos, pântanos de desejos, cloacas de abandono, cemitério de anelos, castelos de loucura, museus de

horrores, templos de lues, - ó meninas perdidas no mundo e dentro de si! Meninas sozinhas, perdidas no mundo e dentro de si. Meninas sozinhas, meninas perdidas, perdidas sozinhas, sozinhas no mundo, meninas imundas, sozinhas no mundo, meninas imundas perdidas nas fossas do mundo... Tende piedade de nós!

Menino de ilha Às vezes, no calor mais forte, eu pulava de noite a janela com pés de gato e ia deitar-me junto ao mar. Acomodava-me na areia como uma cama fofa e abria as pernas aos alíseos e ao luar: e em breve as frescas mãos da maré cheia vinham coçar meus pés com seus dedos de água. Era indizivelmente bom. Com um simples olhar podia vigiar a casa, cuja janela deixava apenas encostada; mas por mero escrúpulo. Ninguém nos viria nunca fazer mal. Éramos gente querida na ilha, e a afeição daquela comunidade pobre manifestava-se constantemente em peixe fresco, cestas de caju, sacos de manga-espada. E em breve perdia-me naquela doce confusão de ruídos... o sussurro da maré montante, uma folha seca de amendoeira arrastada pelo vento, o gorgulho de um peixe saltando, a clarineta de meu amigo Augusto, tuberculoso e insone, solando valsas ofegantes na distância. A aragem entrava-me pelos calções, inflava-me a camisa sobre o peito, fazia-me festas nas axilas, eu deixava a areia correr de entre meus dedos sem saber ainda que aquilo era uma forma de cortar o tempo. Mas o tempo ainda não existia para mim; ou só existia nisso que era sempre vivo, nunca morto ou inútil. Quando não havia luar era mais lindo e misterioso ainda. Porque, com a continuidade da mirada, o céu noturno ia desvendando pouco a pouco todas as suas estrelas, até as mais recônditas, e a negra abóbada acabava por formigar de luzes, como se todos os pirilampos do mundo estivessem luzindo na mais alta esfera. Depois acontecia que o céu se aproximava e eu chegava a distinguir o contorno das galáxias, e estrelas cadentes precipitavam-se como loucas em direção a mim com as cabeleiras soltas e acabavam por se apagar no enorme silêncio do Infinito. E era uma tal multidão de astros a tremeluzir que, juro, às vezes tinha a impressão de ouvir o burburinho infantil de suas vozes. E logo voltava o mar com o seu marulhar ilhéu, e um peixe pulava perto, e um cão latia, e uma folha seca de amendoeira era arrastada pelo vento, e se ouvia a tosse de Augusto longe, longe. Eu olhava a casa, não havia ninguém, meus pais dormiam, minhas irmãs dormiam, meu irmão pequeno dormia mais que todos. Era indizivelmente bom. Havia ocasiões em que adormecia sem dormir, numa semiconsciência dos carinhos do vento e da água no meu rosto e nos meus pés. É que vinha-me do Infinito uma tão grande paz e um tal sentimento de poesia que eu me entregava não a um sono, que não há sono diante do Infinito, mas a um lacrimoso abandono que acabava por raptar-me de mim mesmo. E eu ia, coisa volátil, ao sabor dos ventos que me levavam para aquele mar de estrelas, sem forma e corpo e ouvindo o breve cochicho das ondas que vinham desaguar nas minhas pernas. Mas - como dizê-lo? - era sempre nesses momentos de perigosa inércia, de mística entrega, que a aurora vinha em meu auxílio. Pois a verdade é que, de súbito, eu sentia a sua mão fria pousar sobre minha testa e despertava do meu êxtase. Abria os olhos e lá estava ela sobre o mar pacificado, com seus grandes olhos brancos, suas asas sem ruído e seus seios cor-de-rosa,

a mirar-me com um sorriso pálido que ia pouco a pouco desmanchando a noite em cinzas. E eu me levantava, sacudia a areia do meu corpo, dava um beijo de bom-dia na face que ela me entregava, pulava a janela de volta, atravessava a casa com pés de gato e ia dormir direito em minha cama, com um gosto de frio em minha boca.

Meu Deus, não seja já (North Saint-Andrews, Hollywood) Sim, cidadãos, esta primeira crônica que vos mando da minha peqena casa fria de 635 North Saint-Andrews, Hollywood, é uma declaração, de amor à pátria. Se eu tiver que morrer, como disse o poeta, meu Deus não seja já. Antes gostaria de rever tanta coisa, tanta coisa que aí gorjeia diferente. O azul do céu de maio, por exemplo, prisioneiro dos edificios da rua Araújo Porto Alegre, eu sentado nas rubras cadeiras de palha do Café Vermelhinho, traçando a minha brahma-extra, com um desejo vago de evasão. Não, não seja já. Quero ouvir cantar ainda Lúcio Rangel, nos grandes sambas de Noel, e Ismael Silva nos sambas dele próprio. Quero me locomover dificilmente, quero ir de oito-em-pé examinando o colo das mulheres sentadas, antipatizando com o trocador; ou então de lotação, apanhado quase a pescoção ali no princípio da Avenida. Se eu tiver que morrer agora, juro, vou com um gosto de fel para o sepulcro. Hollywood é bonito, não há dúvida, mas não tem essas estrelas flores vida amores. As estrelas aqui brilham vazias, num céu perfeitamente deslumbrado. Claro que aí nunca me teria sido possível ficar de joelho mole à vista de Marlene, entrando ofídica no Ciro's, e têla por duas horas ombro a ombro, sentindo-lhe o perfume dos cabelos: namorava com outro, mas que importa? Claro que aí eu não poderia dar familiarmente adeus a Ann Sheridan, telefonar para minha amiga Margo, dançar com Lynn Bari, nem ouvir Fritz Lang contar seus filmes. Mas botante, tirante, que vale isso comparado com as nossas menininhas? Ô meninas em flor da pátria minha, que amores não sois vós! Gaveanas discretas; Leblonenses e lpanemenses bicicletantes; Copacabanenses louras e salgadas; Botafoguenses familiais, de olhos íntimos; Cateteanas e Flamengas futingueiras, eternas pensionistas; Laranjeirenses calmas e bucólicas; moças da Glória, que nunca se sabe; jovens citadinas, funcionárias de caixas e pensões, arquivistas, secretárias, datilógrafas, a encher os cafés das duas horas para a média com canoa-torrada, para a gemada, para o mingau (meu Deus, o mingau! inclusive um que tem uma camada de chocolate por cima, e dorme dias nas vitrinas dos botecos!), para o malted-milk (que aqui é bem melhor, entre parênteses), para a canjiquinha. E as grandes, bovarianas bem-amadas, as grandes bem-amadas da Tijuca! Não há dúvida, nisso tudo entra muito de lirismo - mas não é o lirismo a expressão indizível da beleza? E assim foi, assim é, assim será. Por isso eu peço sempre, eu peço muito: meu Deus, não seja já! Quero ainda ouvir cantar Araci de Almeida e, fora do rádio, minha cara amiga Mariinha, em fados tropicais, quando de noite, no Alcazar, ela se disputa em beleza com a lua de Copacabana. Eu não nego que gosto muito de viajar, e que depois de algum tempo começo a achar isso aí bastante pau. Mas, daqui do Pacífico, mesmo o que é pau dá flor aí no Atlântico, nessas pudendas praias da Niemeyer onde eu fui tantas vezes namorado. Sim, não há dúvida: são saudades da pátria, e sobretudo do que na pátria é pobre e

diferente. Aqui mulher é dízima inflinita, todas louras lindas e dentifrícias. Nunca verás moringa na janela; pano de mesa antigo; quadradinhos de jornal no prego da parede da "casinha"; empregada no portão; moça de rua transversal de olhar frustrado; bica sem água (isso é handicap!); açougue aceso de madrugada; bidé; cachorro viralata; flores de papel no fio elétrico; casais de crioulos a namorar no escuro em geniais posturas; meninas da Escola Amaro Cavalcanti; espetaculares saltadores de bonde andando; aquele chá noturno de família burguesa, com um galo de flanela cobrindo o bule; o footing em redor do coreto da praça; a redação do jornal, tão democrática; o bom cafajeste carioca de sola alta e gomina no cabelo; o abandono geral à humana vida, o abandono geral... Não, meu Deus, se eu tiver que morrer, espera um pouco. Quero rever também outras colinas, com miséria talvez - quanta miséria! - mas com um manso perdão para a cidade. Quero rever também outras meninas, outras crianças, outras cucarachas: a nossa também tem muito mais bossa. Quero rever Governador, a Ilha! que minha amiga Rachel de Queiroz pensa que é dela, mas não se engane, é nossa. Quero repalmilhar a praia de Cocotá, onde dez anos fui feliz. E rever Lopes Quintas, Dona Mariana, Bambina, Campos de Carvalho, Ataulfo de Paiva, todos esses senhores e senhoras, e Acácias, rua minha! - e a praia de lpanerna e aquele apartamento nem tão pequenino, onde o nosso amor nasceu, ai! Não, me dá por favor, dois ou três anos - meu Deus, não seja já!

Minha terra tem palmeiras (Rio de Janeiro) Vejo de minha janela uma nesga do mar verde-azul de Copacabana e me penetra uma infinita doçura. Estou de volta à minha terra... A máquina de escrever conta-me uma antiga história, canta-me uma antiga música no bater de seu teclado. Estou de volta à minha terra, respiro a brisa marinha que me afaga a pele, seu aroma vem da infância. Retomo o diálogo com a minha gente. Uma empregada mulata assoma ao parapeito deftonte, o busto vazando do decote, há toalhas coloridas secando sobre o abismo vertical dos apartamentos, dá-me uma vertigem. Que doçura! Sinto borboletas no estômago, deve ter sido o tutu com torresmo ontem misturado ao camarão à baiana de anteontem misturado à galinha ao molho-pardo de trasanteontem misturada aos quindins, papos-de-anjo, doces de coco do primeiro dia. Digiro o Brasil. Qual canard au sang, qual loup flambé au fenouil, qual paté Strasbourgeois, qual nada! A calda dourada da baba-de-moça infiltra-se entre as papilas, elas desmaiam de prazer, tudo deságua em lentas lavas untuosas num amoroso mar de suco gástrico... - É a brazuca! - disse-me Antônio Carlos Jobim balançando a cabeça com ar convicto, enquanto empinava o seu VW em direção ao Arpoador. Há uma semana e meia atrás, pelas cinco da manhã, eu tocava violão para uns brasileiros e espanhóis da terceira classe, no Charles Tellier, que me trazia da Europa. De repente, um clarão lambeu o navio e todo mundo correu para a amurada. Era um farol de terra, possivelmente o de Cabo Frio. Havia entre nós um padre que regressava depois de quatro anos de estudos em Roma e Paris, um bom padre mineiro cheio de zelo pela nova missão de que vinha investido. Juro que vi o velho palavrão admirativo, o clássico palavrão labial de assombro formar-se em sua boca sem que ele sequer desse por isso. Domingo passado fui almoçar na casa materna. Muito mais que as coisas vistas, os sons é que me emocionaram. Lá estava na parede o velho quadro de Di Cavalcanti, representando um ângulo da rua Direita pouco depois do antigo Hotel Toffolo, em Ouro Preto, mas o que me chegou foi o tinir das ferraduras dos burrinhos nas velhas pedras do calçamento, de mistura ao soar dos sinos e à voz presente de minha filha Luciana chamando-me: "Pai... iê!" para que eu fosse ver qualquer coisa. Depois, o sussurrar de vozes se amando baixinho no escuro de um beco, sob a luz congelada de estrelas enormes... - Você gosta de mim? - Gosto. - Muito? - Muito! Minhas artérias entraram em constrição violenta, o peito doeu-me todo e eu me levantei e

fui até a rua para respirar. Sei que morrerei um dia de uma emoção assim. Mas não adiantou. Lá estava o capim brotando de entre os paralelepípedos, lá estava a ladeira subindo para o verde úmido do morro, ali à esquerda ficava um antigo apartamento onde eu morei. Naquele tempo eu ganhava novecentos mil-réis por mês e estudava para o concurso do Itamarati. Dava apertado, mas dava. Porque será que só no Brasil brota capim de entre os paralelepípedos, e particularmente na Gávea? Existe por acaso um sorvete como o do seu Morais às margens do Ródano? Veem-se jamais as silhuetas de Lúcio Rangel e Paulo Mendes Campos numa cervejaria em Munique? Quem já viu passar a garota de lpanema em Saint-Tropez? Adeus mãe Europa. Tão cedo não te quero ver. Teus olhos se endureceram na visão de muitas guerras. Tua alma se perdeu. Teu corpo se gastou. Adeus, velha argentária. Guarda os teus tesouros, os teus símbolos, as tuas catedrais. Quero agora dormir em berço esplêndido, entre meus vivos e meus mortos, ao som do mar e à luz de um céu profundo. Malgrado o meu muito lutar contra, eis que me vou lentamente tornando - logo eu! - num isolacionista brasileiro.

Mistério a bordo A bordo do Claude Bernard, a caminho de Montevidéu - cansado de muitas emoções casamento da primeira filha, despedida dos amigos, mais uma partida para longe do Brasil entro às sete da noite em minha cabina, deito-me e pego no sono. Mas de repente qualquer coisa me desperta. Olho o relógio. É uma da madrugada. Ouço a trepidação do navio e sinto o seu doce balanço, como o de um berço. Deitada, a mão sob o rosto, a Bem-Amada, da cama ao lado, olha-me como uma criança. A luz do banheiro filtra uma suave claridade, que seria boa para uma nova incursão no sono, não fosse a angústia que, como um fardo progressivo, começa a oprimir-me o peito. Então levanto-me, ponho uma camisa esporte e saio para o convés de bombordo. A noite é alta, negra, mas há duas estrelas no céu que resistiram ao teor da treva; mas não por muito tempo, pois logo desaparecem, deixando-me totalmente só. Busco-as ainda na escuridão impenetrável, feita maior pelas luzes do navio. Mesmo o mar, a vista não vai muito longe nele. Pressinto-o, todavia, por ali tudo à volta, taciturno e longo, berçando aquele navio que, inconsciente da sua enorme fragilidade, passeia sobre ele como um feixe de luzes flutuantes. O vento faz-se mais frio. Volto à cabina, enfio um suéter, pego um bloco de papel e vou sentar-me no grande salão. Sinto necessidade de escrever, o quê, não saberia dizer. Vontade, no entanto, de ficar assim sentado, com caneta e papel, espera de alguma coisa. Não disse alguém que o homem escreve para matar a morte? Talvez seja esse o sentimento que me coloca, a contragosto, nessa posição para mim meio ridícula, como um espírita em vias de psicografar mensagens do Além. Porque o Além está presente, disso não haja a menor dúvida. Provou-o agora mesmo um gato que, como um raio, atravessou o salão aos saltos e depois parou junto à porta para olhar-me temeroso e eriçado, como se eu tivesse de súbito encarnado a Coisa que o perseguia antes. "Você está louco�", digo eu ao gato, e como para me tranquilizar. Mas a mão do invisível arrepia-me levemente os pelos do braço, e o meu coração bate mais forte, alertado pelas sentinelas do medo. Olho em torno. O gato continua parado à porta, o rabo espetado, o dorso em arco numa atitude de pavor e defesa. Mas a verdade é que não há nada. Aquele gato está querendo é ser contratado para o cinema. Mas de repente ouço um horrível miado de terror e compreendo a razão do seu pânico, pois ele me foi em parte transmitido. Vinda do mar, uma enorme mariposa cor de cinza entrou direto sala adentro e partiu para cima do gato. Gatos sabidamente não têm medo de mariposas mesmo quando se trate, como no caso, de uma dessas gordas e felpudas bruxas, que em seu instinto suicida atiram-se às cegas sobre tudo, desfazendo as asas em pó, que aliás dizem que cega. Mas que aquele gato morria de medo daquela mariposa, estava eu ali para prová-lo. Pois

ele em absoluto ousava atacar o lepidóptero que esvoaçava à sua volta. Só quando ela pousou, noturna e esfingética, sobre a borda do pano da mesa onde eu estava, ousou ele partir, numa corrida elástica, mergulhando escada abaixo para o convés inferior. Olhei a bruxa pousada a meu lado. Nunca tinha visto uma tão grande. Meus cabelos eriçaram-se ao longo da nuca. Devia estar cansada de sua longa viagem desde terra. Não, eu não teria medo dela. Cheguei por trás, a mão em concha e prendi-lhe fortemente o corpo pelas asas. Ela debateu-se um pouco entre meus dedos, mas, sentindo-se dominada, aquietou-se. Fui até a amurada e joguei-a longe, contra a noite. De suas asas, restou sobre a polpa de meus dedos um finíssimo pó cinzento. Ao entrar, num gesto cuja razão não sei a que atribuir, calquei sob a pintura branca da parede a impressão digital do meu polegar direito. Morte, misteriosa mariposa�

Morrer num bar Na morte de Antonio Maria Aí está, meu Maria... Acabou. Acabou o seu eterno sofrimento e acabou o meu sofrimento por sua causa. Na madrugada de 15 de outubro em que, em frente aos pinheirais destas montanhas queridas, eu me sento à máquina para lhe dar este até-sempre, seu imenso coração, que a vida e a incontinência já haviam uma vez rompido de dentro, como uma flor de sangue, não resistiu mais à sua grande e suicida vocação para morrer. Acabou, meu Maria. Você pode descansar em sua terra, sem mais amores e sem mais saudades, despojado do fardo de sua carne e bem aconchegado no seu sono. Acabou o desespero com que você tomava conta de tudo o que amava demais: o crescimento harmonioso de seus filhos, o bem-estar de suas mulheres e a terrível sobrevivência de um poeta que foi o seu melhor personagem e o seu maior amigo. Acabou a sua sede, a sua fome, a sua cólera. Acabou a sua dieta. Aqui, parado em frente a estas montanhas onde, há trinta anos atrás, descobri maravilhado que eu tinha uma voz para o canto mais alto da poesia, e para onde, neste mesmo hoje, você deveria chamar porque (dizia o recado) não aguentava mais de saudades - aprendo, sem galicismo e sem espanto, a sua morte. Quando a caseira subiu a alegre ladeirinha que traz ao meu chalé para me chamar ao telefone - eram nove da manhã eu me vesti rápido dizendo comigo mesmo: "É o Maria!" E ao descer correndo para a pensão fazia planos : " Porei o Maria no quarto de solteiro ao lado, de modo a podermos bater grandes papos e rir muito, como gostamos�" E ainda a caminho fiquei pensando: "Será que Itatiaia não é muito alto para o coração dele?..." Mas você, há uma semana - quando pela primeira e última vez estivemos juntos depois de minha chegada da Europa, numa noitada de alma aberta - me tinha tranquilizado tanto que eu achei melhor não me preocupar. Eu sabia que seu peito ia explodir um dia, meu Maria, pois por mais forte e largo que fosse, a morte era o seu guia. Outra noite, pelo telefone, ao perguntar eu se você estava cuidando de sua saúde, você me interpelou: "Você tem medo de morrer, Poesia?" "Medo normal, meu Maria", respondi. " Pois olhe: eu não tenho nenhum" retorquiu você sem qualquer bravata na voz. "Só queria que não doesse demais, como na primeira crise. Aquela dor, Poesia, desmoraliza." Mas como eu descesse - dizia - para atender à sua chamada, e atravessasse o salão da casagrande, e entrando na cabine ouvisse (como há 14 anos atrás ouvi a voz materna) a voz paternal de meu sogro que me falava, preparando-me: "Você sabe, Antônio Maria está muito mal...": e eu instantaneamente soubesse... - justo como naquela época soube também, quando a voz materna, em sinistras espirais metálicas, me disse do Rio para Los Angeles: "Sabe, meu filho, seu pai está muito mal�", o nosso encontro marcado deu-se numa dimensão nova, entre o mundo e a eternidade: eu aqui; você... onde, meu Maria? - onde? Ah, que dor! Agora correm-me as lágrimas, e eu choro embaçando a vista do teclado onde

escrevo estas palavras que nem sei o que querem dizer� Há uma semana apenas conversamos tanto, não é, meu Maria? Você ainda não conhecia minha mulher, foi tão carinhoso com ela... Tomamos uma garrafa de Five Stars no Château, depois fomos até o Jirau e terminamos no Bossa Nova. Eu ainda disse: "Você pode estar bebendo e comendo desse jeito?" "Por que, Poesia? Não há de ser nada... Qualquer dia eu vou morrer é assim mesmo, num bar..." Eu só espero que não tenha doído muito, meu Maria. Que tenha sido como eu sempre desejei que fosse: rápído e sem som. Mas é uma pena enorme. Você tinha prometido à minha mulher, a pedido dela, que recomeçaria hoje, nesta quinta-feira do seu recesso, no seu "Jornal de Antônio Maria" o seu "Romance dos pequenos anúncios", que foi uma de suas melhores invenções jornalísticas e onde eu era personagem cotidiano: você sempre a querer fazer de mim, meu pobre Maria, o herói que eu não sou... Mas por outro lado, sei lá... Você disse nessa noite, à minha mulher e a mim, que nem podia pensar na ideia de sobreviver às pessoas que mais amava no mundo: sua mãe, seus dois filhos, suas irmãs e este seu poeta. "E Rubem Braga�", acrescentou você depois, brincando com ternura, "Eu não queria estar aí para ler quanta besteira se ia escrever sobre o Braguinha..." Não irei ao seu enterro, meu Maria. Daria tudo para ter estado ao seu lado na hora, para lhe dar a mão e recolher seu último olhar de desespero, de maldição para esta vida a que você nunca negou nada e o fez sofrer tanto. Daqui a pouco o sino da casa-grande tocará para o almoço. Verei minha mulher descer, triste de eu lhe ter dito (porque ela dorrne ainda, meu Maria...) e de me deixar assim sozinho, sentado à máquina de escrever, com a sua morte enorme dentro de mim.

Morte de um pássaro (Réquiem para Federico Garcia Lorca) Ele estava pálido e suas mãos tremiam. Sim, ele estava com medo porque era tudo tão inesperado. Quis falar, e seus lábios frios mal puderam articular as palavras de pasmo que lhe causava a vista de todos aqueles homens preparados para matá-lo. Havia estrelas infantis a balbuciar preces matinais no céu deliquescente. Seu olhar elevou-se até elas e ele, menos que nunca, compreendeu a razão de ser de tudo aquilo. Ele era um pássaro, nascera para cantar. Aquela madrugada que raiava para presenciar sua morte, não tinha sido ela sempre a sua grande amiga? Não ficara ela tantas vezes a escutar suas canções de silêncio? Por que o haviam arrancado a seu sono povoado de aves brancas e feito marchar em meio a outros homens de barba rude e olhar escuro? Pensou em fugir, em correr doidamente para a aurora, em bater asas inexistentes até voar. Escaparia assim à fria sanha daqueles caçadores maus que o confundiam com o milhafre, ele cuja única missão era cantar a beleza das coisas naturais e o amor dos homens; ele, um pássaro inocente, em cuja voz havia ritmos de dança. Mas permaneceu em sua atonia, sem acreditar bem que aquilo tudo estivesse acontecendo. Era, por certo, um mal-entendido. Dentro em pouco chegaria a ordem para soltá-lo, e aqueles mesmos homens que o miravam com ruim catadura chegariam até ele rindo risos francos e, de braços dados, iriam todos beber manzanilla numa tasca qualquer, e cantariam canções de cante-hondo até que a noite viesse recolher seus corpos bêbados em sua negra, maternal mantilha. As ordens, no entanto, foram rápidas. O grupo foi levado, a coronhadas e empurrões, até a vala comum aberta, e os nodosos pescoços penderam no desalento final. Lábios partiram-se em adeuses, murmurando marias e consuelos. Só sua cabeça movia-se para todos os lados, num movimento de busca e negação, como a do pássaro frágil na mão do armadilheiro impiedoso. O sangue cantava-lhe aos ouvidos, o sangue que fora a seiva mais viva de sua poesia, o sangue que tinha visto e que não quisera ver, o sangue de sua Espanha louca e lúcida, o sangue das paixões desencadeadas, o sangue de Ignácio Sánchez Mejías, o sangue das bodas de sangre, o sangue dos homens que morrem para que nasça um mundo sem violência. Por um segundo passou-lhe a visão de seus amigos distantes. Alberti, Neruda, Manolo Ortiz, Bergamín, Delia, María Rosa - e a minha própria visão, a do poeta brasileiro que teria sido como um irmão seu e que dele viria a receber o legado de todos esses amigos exemplares, e que com ele teria passado noites a tocar guitarra, a se trocarem canções pungentes. Sim, teve medo. E quem, em seu lugar, não o teria? Ele não nascera para morrer assim, para morrer antes de sua própria morte. Nascera para a vida e suas dádivas mais ardentes, num

mundo de poesia e música, configurado na face da mulher, na face do amigo e na face do povo. Se tivesse tido tempo de correr pela campina, seu corpo de poeta-pássaro ter-se-ia certamente libertado das contingências físicas e alçado voo para os espaços além; pois tal era sua ânsia de viver para poder cantar, cada vez mais longe e cada vez melhor, o amor, o grande amor que era nele sentimento de permanência e sensação de eternidade. Mas foram apenas outros pássaros, seus irmãos, que voaram assustados dentro da luz da antemanhã, quando os tiros do pelotão de morte soaram no silêncio da madrugada.

Morte natural Nós costumamos ligar a ideia de morte natural apenas ao homem, como se as plantas e os animais não morressem naturalmente. E mesmo nas plantas e animais, só nos lembramos disso quando sua morte vem ligada a alguma noção peculiar, gênero morte de elefante que, diz-se, ao se sentir morrer caminha léguas em demanda do cemitério de seus congêneres, onde deita o vasto corpo entre as carcaças familiares e desobjetiva em boas condições. Só rararnente nos lembramos que bichos pequenos também morrem de morte natural. Quando por acaso encontramos sobre uma mesa, ou no chão, uma mosca, hirta, nunca nos vem a ideia de que ela faleceu dentro das regras: isso porque para todo mundo a mosca é um inseto que não morre - é morto. E assim para a grande maioria dos bichinhos. Quem é que vai se lembrar de que uma joaninha pode morrer, ou um mosquitinho, ou uma baratinha de praia, ou uma pulga, ou uma minhoca? São bichos de tal modo submissos aos azares da morte violenta, de tal modo sujeitos a serem comidos por um outro bicho, pisados, batidos, espremidos, dedetizados, que acabam, no consenso do homem, sem direito a morte própria. Daí o espanto que se tem ao ver o raro espetáculo de uma mosca moribunda agitando as patinhas nas vascas da agonia. Onde será que ficam as centenas de milhares de cadáveres de dípteros, coleópteros, lepidópteros - toda a legião de invertebrados que deve viver morrendo por aí? É curioso como quase não se veem bichinhos mortos, quando eles morrem às pamparras; sim, porque há muitos que vivem horas apenas... Onde ficam as borboletas mortas que eu não as vejo em lugar nenhum, nem mesmo nas matas? Aliás, onde estão as borboletas, que desapareceram dos jardins e parques, que não agitam mais suas asinhas coloridas em torno dos pés de manacá ou por entre o capim alto dos terrenos baldios da cidade? Será que não concordam com o maugosto dos objetos feitos com suas asas e em sinal de protesto contra a estultícia do turista consumidor suicidaram-se em massa atirando-se ao mar? De fato, não há mais borboletas. A última que vi era uma grande borboleta amarela num livro de crônicas de Rubem Braga... Um dia, passeando nos terrenos de um castelo inglês cerca de Oxford - era uma tarde dourada de folhas de outono - ouvi no ar um estranho grito, um som agudo e horrível, entre espasmo e canto. Olhei para cima e vi um passarinho cumprir, num derradeiro estertor de vida, sua última parábola ascendente. Ele subiu até onde pôde e depois caiu a prumo, quase aos meus pés. Peguei-o. Suas plumas foram ainda por algum tempo doces e quentes na minha mão em concha.

MPB - Zero (Rio de Janeiro) A propósito do IV Festival Internacional O samba já cumpriu seu cinquentenário. Um bem bonito rol, e uma estranha parábola pois nasceu antigo e foi ficando cada vez mais jovem: e que mais poderia desejar um cinquentão? E só recentemente, depois de absorvida a luta e experiência de seus velhos mestres é que ele, como um estudante inquieto, partiu em busca de horizontes novos e iniciou a conquista do mundo. De Pixinguinha a Francis Hime, cinquenta anos se passaram em que, como despreocupados mas atentos atletas de uma longa maratona, foram todos esses grandes passando de um para outro a tocha viva do samba, cumprindo etapa sobre etapa nessa constante e orgânica corrida. De Donga e Sinhô a Nonô e Ismael Silva; e destes a Geraldo Pereira, Dorival Caymmi, e Noel Rosa; e de Noel Rosa a Ari Barroso; e de Ari Barroso a Ismael Neto; e de Ismael Neto a Antônio Carlos Jobim; e deste a Chico Buarque de Holanda, nunca esses soberbos atletas deixaram a tocha cair ou suas pernas fraquejarem. Passaram-se, em plena carreira, o símbolo ígneo com sorrisos fraternos e palavras de animação, em boa gíria carioca. De cutuba, o samba ficou do balacobaco e depois da pontinha, para hoje tornar-se, com o advento da bossa nova e da moderna música popular, tal como a praticam Edu Lobo, Dori Caymmi, Francis Hime, Milton Nascimento, Caetano Veloso e Egberto Gismonti, no fino do som, no superquente, no cheio de plá. De ritmo, passou a ter balanço. Mas - insisto - na mão desses incansáveis atletas, nunca se descaracterizou. E se absorveu o que de melhor lhe poderia emprestar o jazz, como instrumentação e sentido de improvisação, foi para logo lhe devolver - e com juros - um novo sentido melódico e rítmico, e uma poesia mais afirmativa, menos convencional. O resultado está aí: o samba tradicional voltando eventualmente, como no caso de um Chico Buarque, um Paulinho da Viola e um Sídnei Miller, com uma nova originalidade, e o samba moderno de um Jobim, de um Carlos Lyra, de um Baden Powell penetrando cada vez mais as estruturas musicais estrangeiras, com a graça de sua banda e a ubiquidade do seu ritmo. Esses homens já são conhecidos no mundo inteiro. Ainda ontem eu ouvi a fita de um novo LP de Sinatra gravando músicas de Tom, com soberbos arranjos de Eumir Deodato. É, como diria Jaime Ovalle, o pobre dando esmola ao rico. Os grandes da bossa nova abriram caminho, ao mesmo tempo, para seus irmãos mais velhos e mais jovens: e o fizeram quando a estrada era de pedras, não de pétalas. E novos talentos aparecem, já correndo paralelamente a seus maiores, ansiosos também por levar a tocha do samba até a vitória última. Aí estão Gilberto Gil, Caetano Veloso, Antônio Adolfo, Macalé, Danilo Caymmi, Gismonti e seus parceiros prontos para novas arrancadas.

Isso é cultura. Cultura de um povo a manifestar em sua arte mais popular, não só um grande sentido de integração, como de sensibilidade coletiva; cultura de seus músicos, a se fazerem os intérpretes mais comunicativos dessa integração. O resto... é silêncio. Deixa pra lá. Porque, com ou sem Festival, o que todo mundo quer mesmo, é cantar junto. Nada disso, é claro, poderia ter existido se há cinquenta e poucos anos um crioulinho chamado Alfredo da Rocha Viana, frequentador assíduo do terreiro da velha tia Ciata - ali onde ficava a antiga praça Onze - não se misturasse ao baiano que batucava no primitivo mercado, e que depois partiu para organizar os primeiros ranchos de carnaval: o grande Pixinguinha, o genial chorão. E é dessas raízes fundamentais que a meninada dos dois últimos festivais parece andar querendo se arrancar. Que esperança! Resulta, com pouquíssimas exceções, em toda a chatice que se ouviu nesta última semana, fruto de um desejo mais de aparecer que de ser. E é espantoso, também, como jovens músicos surgidos nos últimos três ou quatro anos, como Edu Lobo, Milton Nascimento e Caetano Veloso (com direito, de vez em quando, a uma geraldovandrezada) são instituídos em verdadeiros mestres (e estou certo que sem a sua aquiescência) por uma garotada mal saída dos cueiros; quando os próprios, músicos de grande talento, é fora de dúvida, acham-se, ainda em pleno aprendizado de sua arte. Vamos com calma... mestre é Pixinguinha, é Ismael Silva, é Nélson Cavaquinho, é Noel Rosa, é Ari Barroso, é Antônio Carlos Jobim. O que os meninos estão fazendo, com algumas e não excepcionais exceções, é um triste e chato pantógrafo daqueles três jovens músicos (com direito, de vez em quando, a uma geraldovandrezada), de quem tudo se espera, mas que estão longe ainda de ter uma obra realizada. E quando não é uma cópia medíocre de um deles, é um coquetel dos três (com direito, de vez em quando, etc., etc.). Que pobreza... Por que será que os jovens estão nascendo cada vez mais velhos? Será isto um problema cibernético?

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