Pequeno dicionário brasileiro da língua morta – Alberto Villas

Se você acha que café com leite é só a bebida mais comum do mundo no café da manhã, ou que babado serve apenas para enfeitar a saia, é porque ainda nã...
Category: Diversos

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pequeno dicionário brasileiro da

LÍNGUA MORTA Palavras que sumiram do mapa

Sumário Capa Folha de rosto Abarrotado: Cheio, completo, transbordando Balaio: Cesta de vime. Cafundó: Lugar ermo e distante Desembestado: Desenfreado Emburrado: Pessoa com a cara fechada, chateado Faceira: Mulher afetada, dengosa Gamado: Apaixonado Horrendo: Horroroso Indez: Ovo utilizado como chamariz Jardineira: Espécie de ônibus Kaol: Prato feito, típico de Minas Gerais Laquê: Fixador de cabelo Mofando: Esperando Notável: Pessoa exemplar Ovo: Pequeno Parentada: Reunião de parentes Quitute: Petisco Rapariga: Prostituta Sistemático: Maníaco Tampinha: Pessoa de baixa estatura Urticária: Alergia na pele Vegetar: Parar no tempo wc: Banheiro Xuca: Penteado de bebê Yankee: Natural da América do Norte Ziriguidum: Traquejo Créditos

“O futuro é o passado, usado.” Millôr Fernandes

abafar Fazer sucesso. O sucesso sempre existiu. Quem não se lembra dos olhos azuis de Frank Sinatra, do olhar sedutor de James Dean ou da beleza de Brigitte Bardot em E Deus criou a mulher? Sem contar o charme de Gary Cooper em Matar ou morrer. Quanto sucesso! Fazer sucesso era abafar. Músicas faziam sucesso e os cantores abafavam. Cely Campello com “Estúpido cupido” e Roberto Carlos com “Quero que vá tudo pro inferno”. Imagine quanto Cauby Peixoto não abafava ao subir no palco cantando “Conceição”. Abafar era entrar no salão e todo mundo olhar, cochichar, suspirar. Sandra Borges da Costa, por exemplo, era uma garota que abafava em todas as festas que promovia na mansão do pai, Osvaldo, na Belo Horizonte da década de 1960. As primeiras garotas que ousaram aparecer de duas peças na praia de Copacabana também abafaram!

Hoje, ABAFAR É ARRASAR. abalroar Bater, trombar, colidir, chocar-se. Na Idade Média, as embarcações abalroavam. Depois vieram os primeiros automóveis, o Benz Velo, o Ford Bigode, o Packard, o Studebaker, e eles começaram a abalroar também. Perdiam o freio e abalroavam. Policiais que dizem que o elemento adentrou o recinto ainda gostam da palavra abalroar. Ela foi mudando com o passar dos anos. Primeiro virou trombada. “Corre, vem ver a trombada!”, diziam os curiosos. Mais tarde a trombada virou batida. “Viu só que batida?” Isso no quesito automóvel. Porque já percebeu que os trens não abalroam, não trombam? Os trens chocam-se.

Hoje, ABALROAR é LEVAR UMA BATIDA. abarrotado Cheio, completo, transbordando. Quando não cabia mais nada no caixote, dizia-se que ele estava abarrotado. No ponto de ônibus, era comum os passageiros olharem com um olhar de desânimo o coletivo se aproximando e murmurar: “Não vai dar pra entrar, está abarrotado!”. Minha tia Lili, toda orgulhosa, gostava de abrir a despensa da casa dela e dizer: “Graças ao bom Menino Jesus de Praga, minha despensa está abarrotada de mantimentos”. Não era só o coletivo ou a despensa de tia Lili que viviam abarrotados. Numa época em que nada era descartável, armários, gavetas, prateleiras, tudo vivia abarrotado.

Hoje, se um ônibus está ABARROTADO costuma-se dizer que está ENTUPIDO DE GENTE. abelhudo Curioso, intrometido. Duas pessoas estavam conversando, quando uma terceira, que não tinha nada a ver com a história, resolvia dar palpite, muitas vezes torto, errado, infeliz. Chamava-se a isso meter o nariz onde não havia sido chamado, meter o bedelho, mas, principalmente, ser abelhudo. A origem da expressão ninguém sabe. Porque, pensando bem, uma mosca mete muito mais o bedelho que uma simples abelha. Em briga de casal é outra história, ninguém mete a colher de pau. No fundo, no fundo, ninguém deveria é meter o bedelho.

Hoje, um ABELHUDO continua sendo um INTROMETIDO. abobado Estado em que alguém fica quando vê uma coisa surpreendente. Era só alguém ver tomates enormes na prateleira do armazém que exclamava: “Viu o tamanho dos tomates na venda de Chaim? Nossa! Fiquei abobado!”. Mineiro quando chegava ao Rio costumava dizer: “Fiquei abobado de ver o tamanho do biquíni das moças!”. O mesmo mineiro ficava abobado quando provava a água do mar e constatava que era mesmo salgada. Numa época de muito preconceito, chamava-se de abobado uma pessoa com problemas mentais.

Hoje, ficar ABOBADO é ficar CHOCADO. abotoadura

Presilha para abotoar o punho da camisa social. Usava-se muito mais terno do que se usa hoje. Ninguém viajava de avião sem estar com um belo terno de casimira inglesa. Usava-se terno para ir à missa, a enterros e, muitas vezes, até ao campo de futebol. Sapatos e meias pretas, camisa social branca, terno impecavelmente cortado, lenço no bolso combinando com a gravata e o chapéu. Esse era o retrato falado de um homem de bem. E a abotoadura fazia parte do figurino. Era chique abotoar os punhos da camisa social com uma vistosa abotoadura de ouro ou até mesmo fantasia. As de ouro, claro, eram mais vistosas. Todo homem tinha em casa uma caixinha de joias com várias abotoaduras para combinar com o modelito do terno escolhido.

Hoje, só os mais velhos usam ABOTOADURAS. abreugrafia Raio X do pulmão. Quem inventou essa tal de abreugrafia foi, claro, um Abreu. O Manuel Dias de Abreu. O cara foi, inclusive, indicado ao Prêmio Nobel em 1950. Abreugrafia é nada mais, nada menos que uma chapa do pulmão. Algumas pessoas diziam chapa, mas para a maioria era abreugrafia. Ninguém diz que vai tirar uma abreugrafia, mas, acredite, o dia 4 de janeiro é o Dia Nacional da Abreugrafia. Quem comemora?

Hoje, uma ABREUGRAFIA é simplesmente um RAIO X. acabrunhada Abatida, triste, humilhada, vexada. As pessoas não ficavam estressadas, ficavam cansadas, exaustas, pregadas, um bagaço. As pessoas não ficavam deprimidas, ficavam abatidas, tristes, humilhadas, vexadas. Em resumo, as pessoas ficavam acabrunhadas. O compositor João Pacífico decifrou bem o sentido da palavra acabrunhado na música “Chico mulato”. Escuta esta: “A causa dessa tristeza/Sabida em todo lugar/Foi a cabocla Tereza/Com outro ela foi morar/E o Chico, acabrunhado/Largou então de cantar/Vivia triste e calado/Querendo só se matar/E o Chico, acabrunhado/Largou então de cantar”.

Hoje, uma pessoa ACABRUNHADA está BAIXO-ASTRAL, MEIO DOWN. acamada Adoentada. Ninguém sonhava com a invenção da tomografia computadorizada. Quando uma pessoa adoecia,

chamava-se o médico em casa. Ele vinha, examinava a garganta, os olhos, pedia para falar 33, passava a receita e ia embora. Gripes e resfriados eram curados com um comprimido de Cafiaspirina, um chá quente, um gargarejo. Se o nariz escorria, VickVaporub! Se a doença persistia, cê a eme a, ou melhor, cama! O repouso era o melhor remédio. De repouso, dizia-se que a pessoa estava acamada.

Hoje, quando uma pessoa está ACAMADA, falamos que ela está meio DERRUBADA. adular Agradar. Adular era muito mais que agradar. Era aquela funcionária pública que vivia levando bombons para o chefe, era aquele que já dizia saúde antes mesmo de a pessoa espirrar. Tinha também mãe que adulava filho, professora que adulava cdf, homem apaixonado que adulava sua amada. Era mais que ser gentil, era dar um agrado, se possível, todos os dias.

Hoje, ADULAR é PUXAR O SACO. aeromoça Funcionária de empresa aérea que serve os passageiros durante o voo. Sim, até pouco tempo atrás elas eram chamadas de aeromoças. E como eram bonitas as aeromoças. Elegantes, simpáticas, estavam sempre sorrindo. “E para beber, senhor?” Era assim, com esse charme todo, que ofereciam até mesmo drinques aos passageiros. As aeromoças estavam sempre prontas para atender os passageiros. Aos poucos, o nome aeromoça foi sumindo no ar.

Hoje, em vez de AEROMOÇA costuma-se dizer COMISSÁRIA DE BORDO. afeminado Delicado, de gestos femininos. Quem não se lembra de quando um gay era chamado de mulherzinha? E de maricas? A família, quando percebia que aquele menino estava educado demais, sensível demais, logo cochichava a boca pequena: “Já percebeu que ele anda com uns gestos meio afeminados?”. Felizmente o preconceito acabou.

Hoje, um AFEMINADO é um GAY.

afetado Sem naturalidade, exagerado. Uma pessoa afetada era aquela meio metida, que se achava inteligente, esperta, sabida, que falava demais, pelos cotovelos, sempre se achando o máximo.

Hoje, uma pessoa AFETADA é uma pessoa que está SE ACHANDO. agiota Aquele que empresta dinheiro a juros altos. O meu avô era uma pessoa encantadora, mas era um agiota. Depois de velho vendeu tudo que tinha – que não era muito – e transformou tudo em dinheiro vivo, guardado em sacos de papel em que ele desenhava uma caveira e escrevia a palavra veneno. Assim, ele acreditava que se, por acaso, um ladrão entrasse em sua casa, nunca meteria a mão naquele saco de veneno. Ele emprestava dinheiro a juros altos e, assim que entregava a grana a quem precisava, pegava uma nota promissória em troca. Sempre no dia primeiro, ele cobrava os juros e colocava a bufunfa naqueles sacos de papelão.

Hoje, o AGIOTA foi substituído pelo EMPRÉSTIMO. ajantarado Almoço aos domingos. Nenhuma família almoçava cedo aos domingos. Domingo é, e sempre foi, um dia muito especial. Nada de acordar cedo, tomar o café da manhã, ir para o batente. Domingo é dia de folga. Aproveitando a falta de compromisso, as famílias costumavam quebrar as regras do almoço. Nada de comida na mesa por volta de onze, meio-dia. O almoço no domingo – geralmente frango, macarronada, tutu de feijão, lombo com abacaxi – só era servido depois da uma, das duas horas. E era esse almoço no domingo que se chamava ajantarado, uma mistura de almoço com jantar.

Hoje, AJANTARADO virou ALMOJANTA. ajuizado Comportado. Toda mãe de moça solteira sonhava com um pretendente ajuizado. Ajuizado era aquele cara que andava na linha. Educado, gentil, estudioso, comportado. Mesmo quando a juventude se rebelou, deixou o cabelo crescer, vestiu a calça Lee desbotada, pegou a estrada, pendurou o pôster de Che Guevara no quarto,

fumou o primeiro baseado, o ajuizado continuou comportado.

Hoje, o AJUIZADO é chamado de COXINHA. alcaide O mesmo que chefe, prefeito. Amintas de Barros foi o alcaide de Belo Horizonte de 31 de janeiro de 1959 a 31 de janeiro de 1963. E que alcaide! Na época do Amintas, a principal avenida da cidade, a Afonso Pena, era cheia de árvores frondosas, enfileiradas uma ao lado da outra. De repente, sem mais nem menos, uma praga assolou todas elas. Era um bichinho pretinho que comeu as folhas uma a uma. E, quando passávamos debaixo dessas árvores para fugir do sol, choviam bichinhos, alguns deles atingindo nossos olhos, quase nos cegando. Em poucos dias, eles ganharam um apelido: amintinhas. Não deu outra. O alcaide mandou derrubar todas as árvores. Não sobrou uma. Ele transformou a Afonso Pena numa larga avenida, sem árvores, com espaço apenas para os automóveis. Ele chamou de progresso e se orgulhava da Afonso Pena sem um pingo de sombra, cheia de automóveis e nem sinal de amintinhas.

Hoje, o ALCAIDE é chamado simplesmente de PREFEITO. algazarra Alvoroço. Quando uma mãe ouvia lá dentro no quarto das crianças uma barulheira sem fim, uma gritaria alegre e excitada, sabia que as crianças estavam fazendo uma algazarra. Algazarra era começar uma guerra de travesseiro, dar peteleco na cabeça um do outro, pôr o pé na frente para provocar um tombo – coisas típicas de criança de sete, oito, nove anos. A cantora Eliana gravou uma canção que se chama “Algazarra no meu coração”, de Altay Veloso. Diz assim: “Com toda essa algazarra no meu coração/Que bobeira foi essa de me apaixonar/Têm dito minhas amigas só pra me zoar”.

Hoje, ALGAZARRA é nada mais, nada menos que BAGUNÇA. alinhado Bem-vestido. Basta pegar uma fotografia tirada nos anos 1920 no centro do Rio de Janeiro, de São Paulo ou de Belo Horizonte para entender o que era uma pessoa alinhada. Essas fotografias flagravam, muitas vezes sem querer, uma legião de gente bem-vestida. Ser alinhado era estar com um terno bem cortado, camisa impecavelmente bem passada, gravata no lugar, um lencinho no bolso, abotoaduras nos punhos, chapéu na cabeça, meias de seda e sapatos brilhando. E, para dar um ar britânico, os alinhados costumavam andar

sempre com um guarda-chuva na mão. Não importava se estivesse fazendo sol ou chuva.

Hoje, uma pessoa ALINHADA é uma pessoa CHIQUE. almoxarifado Lugar onde se guardam objetos e material de escritório. Toda repartição tinha um almoxarifado. Era nesse cômodo que ficava tudo de que um funcionário público precisava. Lápis, borracha, carbono, papel almaço, apontador, mata-borrão, peso para papel, tinta para caneta, régua, clipes, grampos, tachinhas, gominhas, durex. Era lá que se guardavam também máquinas de escrever novinhas em folha, calculadoras, grampeadores, furadores. Quem cuidava do almoxarifado era o almoxarife. E quem trabalhava de almoxarife sempre ganhava um sobrenome. Pedro do Almoxarifado, Geraldo do Almoxarifado, dona Neusa do Almoxarifado. Essas pessoas, geralmente, eram mãos de vaca. Guardavam aqueles objetos como se fossem delas e não da firma.

Hoje, ALMOXARIFADO, apesar de estar desaparecendo no mundo digital, continua sendo ALMOXARIFADO. alpaca Tecido fino feito com a pele de um animal chamado alpaca. Ninguém sabia que existia um animal de nome alpaca, mas todos falavam alpaca pra cá, alpaca pra lá, referindo-se a um tecido fino e sedoso. Alpaca era o chique do chique do chique. Uma pessoa com uma roupa de alpaca era sempre respeitada pela elegância e pelo bom gosto. Hoje, são poucas as pessoas que conhecem ou fazem referência aos tipos de tecidos. Já pensou alguém perguntar: “Gostou da minha roupa de alpaca?”.

Hoje, ALPACA virou simplesmente TECIDO FINO. alpendre Vitrine de uma casa. Prédios não havia. Nas cidades havia casas. E toda boa casa tinha alpendre. Era o cartão de visita de qualquer moradia. No alpendre, as famílias colocavam cadeiras de ferro com almofadas, vasos com espada de São Jorge, uma samambaia, alguns vasinhos menores e três pássaros de louça na parede, cada um de um tamanho diferente, numa ordem crescente. Era no alpendre que, ao cair da tarde, as famílias se reuniam para jogar conversa fora e ver o movimento da rua. Os vizinhos iam passando e se cumprimentando. “Oi, seu Zé! Oi, dona Maria!”

Hoje, o ALPENDRE virou VARANDA. alta classe Gente chique, elegante, com dinheiro. Gente assim sempre existiu e não é de hoje. A alta classe era conhecida também por high society. Frequentava as colunas sociais dos grandes jornais quando os grandes jornais ainda tinham colunas sociais. As notícias eram assim: “Quem aniversaria hoje é a graciosa Cristina Alvarenga, caçulinha de Ligia e Marconi Alvarenga”. “A família Peixoto se prepara para um tour pela Europa, d’abord Paris.” “Os pombinhos Lucinha Marcondes e Estevão Cincinato foram vistos no maior love no Automóvel Clube.” A alta classe gostava de viajar, dar festas, acontecer. Um dia, foi parar na música “Faroeste caboclo”, sucesso da Legião Urbana: “O tempo passa e um dia vem na porta/Um senhor de alta classe com dinheiro na mão/E ele faz uma proposta indecorosa/E diz que espera uma resposta, uma resposta do João”.

Hoje, quem é da ALTA CLASSE é uma CELEBRIDADE. amargar Ter de suportar. Quando um pau de arara voltava para casa lá no Nordeste, costumava olhar pela janela do ônibus e pensar: “Vou ter de amargar três dias e três noites de estrada”. Amargar era ter de suportar, enfrentar e geralmente sem reclamar. Quando os pobres coitados ficavam na fila do inps também costumavam dizer: “Estou aqui nesta fila amargando há mais de duas horas”. No fundo, no fundo, só pobre amargava. Nunca se pegou um flagrante de rico amargando coisa alguma.

Hoje, AMARGAR é o mesmo que SOFRER. ama-seca Mulher encarregada de cuidar de uma criança. No quesito criar uma criança, a ama-seca era pau pra toda obra. Era aquela que acordava uma, duas, três vezes de madrugada para dar de mamar, trocar fralda, ninar no colo. As amas-secas jamais respeitaram aquela psicologia de deixar o bebê no berço. Elas adoravam ninar. Encaixavam a figurinha naquele corpanzil (acho que não existia ama-seca magra) e o bebezinho caía no sono que era uma beleza. Eram elas que praticamente criavam os filhos dos grã-finos. Além de acordar de madrugada, ninar, trocar fraldas, elas davam banho, passavam talquinho, ensinavam a comer, a andar, a brincar. As mamães costumavam dizer: “Essa ama-seca que tenho lá em casa caiu do céu!”.

Hoje, uma AMA-SECA virou uma BABÁ. amasiado Aquele que mora com uma pessoa sem ser casado. Casamento sempre houve. Não havia era divórcio. As pessoas se casavam e, se não desse certo, se desquitavam. Tanto os que se separavam como os que viviam juntos sem casamento oficial eram malvistos, chamados de amasiados. Diziam também que amasiado era aquele que resolvia morar com outra pessoa sem oficializar o casamento. As pessoas diziam que eram amigadas ou que fulano juntou com fulana. Nos anos 1990, a moda era dizer que fulano tinha uma amizade colorida com fulana. Mas, depois que colorir passou a significar adesão a Fernando Collor, ninguém mais quis nem passar perto de nada colorido.

Hoje, um AMASIADO é uma PESSOA QUE VIVE COM OUTRA. amizade colorida Namoro sem compromisso. Quem não queria assumir um casamento preferia o que era chamado de amizade colorida. Amizade colorida era aquela coisa de namorar e não namorar, ser meio casado e não ser, ter um leve compromisso e não ter. Um namoro casual. O verbete anterior tem razão. A expressão amizade colorida sumiu do mapa depois da derrocada de Fernando Collor, quando o ex-presidente pediu ao povo brasileiro para sair às ruas de amarelo e todos saíram de preto.

Hoje, AMIZADE COLORIDA é o mesmo que FICAR. amoreco Queridinho. Casais melosos sempre buscavam adjetivos meio ridículos para chamar um ao outro. Já teve de tudo, mas quem não se lembra do mô, aquela abreviatura de amor? E do bem? Aquele bem bem estendido: beeenhê! Mas não são apenas esses. Teve pretinha, flô (abreviatura livre de flor), chuchuzinho e, na época do Mamonas Assassinas, pitchula, ou, mais carinhosamente, pitchulinha. Agora, amoreco atravessou décadas. Era amoreco pra cá, amoreco pra lá. Tanto homem quanto mulher, ambos eram uns amorecos.

Hoje, AMORECO é simplesmente AMOR. Perdeu o eco. amuado

Tímido, aborrecido. Amuado era uma pessoa jururu, cabisbaixa, chateada com algum problema ou aborrecimento que, muitas vezes, nem ela sabia por quê. Geralmente, a pessoa já amanhecia amuada, era difícil ficar amuada no meio do dia. Sempre que uma pessoa se mostrava assim, outra perguntava: “O que aconteceu? Por que você está tão amuada?”.

Hoje, estar AMUADO é estar BAIXO-ASTRAL. anágua Roupa íntima cheia de rendinhas. As mulheres se guardavam. Usavam anágua e combinação para se proteger dos olhares maldosos dos homens. Era comum a gente ouvir: “Sua anágua está aparecendo”. Mas o que aparecia eram as rendinhas, porque toda anágua era cheia de rendinhas. Para que servia uma anágua? Pensando bem, para nada. Só para dar mais trabalho na hora de vestir e, principalmente, na hora de tirar.

Hoje, ANÁGUA não tem nada correspondente. Sumiu do mapa. andor Padiola para transportar imagens de santos em procissão. Quem nunca ouviu a frase “cuidado com o andor que o santo é de barro”? Se o andor era de barro, ninguém sabia, mas, que era preciso andar com todo o cuidado para o santo não cair, isso é verdade. Toda procissão vinha com uma imagem de santo na frente, e esse santo estava sempre sobre um andor, geralmente feito de madeira, e não de barro. As procissões são cada vez mais raras neste mundo moderno, e a palavra andor, então, nem se fala.

Hoje, muita gente em vez de dizer ANDOR diz SUPORTE. anedota Piada. Anedota não tem nada a ver com um fato real. Uma anedota é uma historinha engraçada que vai passando de boca em boca. Cai do céu, ninguém nunca sabe quem é o autor de uma anedota, aquele que para e pensa numa historinha engraçada com começo, meio e fim. Quem será que inventa uma anedota? Como esta que eu li no Almanaque Brasil voando do Rio de Janeiro para São Paulo: “O bêbado está na porta do boteco vendo a procissão passar, carregando uma santa vestida com um manto verde e rosa. Ele berra: – Olha a mangueira aí, gente! O padre esbraveja: – Mas que falta de respeito! Não permito que o senhor

deboche assim de nossa santa. Quando o religioso acaba de falar, a santa bate no galho de uma árvore, cai e se espatifa no chão. E o sujeito: – Viu? Eu tentei avisar...”.

Hoje, ANEDOTA virou PIADA. aparelho Esconderijo de grupo clandestino. Nos anos 1960 e 1970, durante a ditadura militar, havia aparelhos espalhados pelo Brasil. Eram casas ou apartamentos onde grupos de guerrilheiros se escondiam e se reuniam para discutir política e estratégias para derrubar a ditadura. Eram apartamentos nada charmosos, sombrios mesmo. Todo aparelho tinha uma estante de tijolos com livros de Marx e Engels. Além daquele livrinho dos pensamentos vermelhos de Mao e cartilhas que ensinavam técnicas de guerrilha. Todo aparelho tinha um fogão enferrujado, uma pia cheia de louças para lavar e comida azeda nas panelas. Tinha também colchonetes espalhados pelo chão, uma televisão em preto e branco, uma geladeira enferrujada cheia de vidros d’água e, às vezes, algumas cebolas já brotando.

Hoje, o APARELHO não é mais político e é conhecido como CATIVEIRO. apear Descer do ônibus, do cavalo, do automóvel. “Chofer! Para que eu vou apear aqui.” Era o que mais se ouvia dentro daquele ônibus da viação Pioneiro que ia desbravando as estradas de terra cheias de buracos e poeira lá em Minas Gerais. O chofer parava em qualquer lugar, bastava o ilustre passageiro gritar: “Eu quero apear!”. E na hora de apear era um deus nos acuda. Quanto mais humilde, mais sacolas o pobre coitado levava. Até frango vivo via-se dentro daquele ônibus da Pioneiro. Sacolas com cobertores e travesseiros, mudas de plantas embrulhadas em jornais, gaiolas de passarinhos, matulas com comidas – havia de tudo. O ônibus parava e o passageiro ia recolhendo os seus pertences com medo de o ônibus andar, ir embora e ele não conseguir apear.

Hoje, só mesmo lá no interior, muito interior mesmo, algumas pessoas idosas ainda dizem que vão APEAR, quer dizer, PULAR FORA. aperreado Tristonho, cabisbaixo. Não existia essa coisa de depressão e estresse. Existir existia, mas ninguém dizia que estava deprimido, estressado. Ficava aperreado. Quando alguma coisa não dava certo ou preocupava, a pessoa ficava meio

aperreada. Às vezes, era uma gripe, um mal-estar, dor nas costas, saudade. Quem estava nesse estado, estava aperreado. A palavra apareceu na música “Comedor de Gillete”, de Vinicius de Moraes e Carlos Lyra: “Aquilo me deixou tão aperreado que, se não fosse o amor que eu tinha na minha violinha, eu tinha rebentado ela na cabeça daquele... filho de uma égua!”.

Hoje, um cara APERREADO é um cara DEPRÊ. apertado Atarefado. Apertado tem vários significados. Apertado de justo, apertado de vontade de ir ao banheiro, apertado de costura. Em Minas Gerais não havia costureira que não dissesse: “Eu não posso ir, porque estou muito apertada de costura”. Ah, sim, existiam costureiras e mais costureiras que iam às casas costurar por dia. Todas viviam apertadas. Roupa pronta custava muito caro, e costurar em casa ficava sempre mais em conta.

Hoje, APERTADO significa ATOLADO de coisas para fazer. apinhado Cheio. Em dia de Flamengo e Fluminense, de Atlético e Cruzeiro, de Grêmio e Internacional, dizia-se que o estádio estava apinhado. Mas não era só campo de futebol que ficava apinhado. Ônibus coletivo às seis horas da tarde também vivia apinhado. Apinhado não era simplesmente um lugar cheio, era muito, muito cheio. Muitas vezes, o ilustre passageiro ia de um ponto a outro da avenida principal sem tocar os pés no chão. Era pé em cima de pé. Aí, sim, dizia-se que o ônibus estava apinhado. E, além de apinhado, que estava entupido. “Não fui tomar uma cerveja depois do almoço porque o bar estava entupido de gente.”

Hoje, APINHADO significa LOTADO. aporrinhar Chatear. Quem inventou a palavra aporrinhar criou paralelamente a sogra e o genro. Sogra vive pegando no pé do genro e genro vive pegando no pé da sogra. Isso se chamava aporrinhar. E a pobre da filha é quem pagava o pato. “Sua mãe vive me aporrinhando” ou, então, “seu marido vive me aporrinhando” eram as frases que ela mais ouvia. Aporrinhar a sogra era cobrar dela, todos os dias, aquela feijoada que havia jurado para o sábado e não fez. Aporrinhar o genro era cobrar dele aquele fim de semana em Ouro Preto que ele prometera e nunca cumpriu.

Hoje, APORRINHAR é o mesmo que ENCHER O SACO. aposento Cômodo, lugar onde se dorme. Toda casa tinha um quarto de hóspede, um aposento. Aposento não era o nosso quarto, era um cômodo especial para alguém dormir, geralmente amigo ou parente. “Quando você vier a Santa Rita do Sapucaí, fique na minha casa, eu tenho lá um aposento para você!”, dizia o responsável pelo Serviço de Meteorologia da cidadezinha mineira. Hotéis também costumavam dizer aposento: “Este hotel tem sessenta aposentos”. E que aposentos! Eram quartos enormes, com camas imensas, guarda-roupa, cômoda, criado-mudo, espelho e até uma pia, tudo dentro do aposento.

Hoje, APOSENTO virou QUARTO. aprumar Ir pra frente, vencer na vida. Dava gosto ver filho de pobre aprumando na vida. Filho de lavadeira virando doutor, filho de taxista entrando na faculdade, contínuo virando auxiliar de almoxarife, auxiliar de almoxarife virando chefe de seção. Enfim, todos aprumando. Antigamente, para aprumar na vida era preciso muito estudo. Noel Rosa explicou direitinho na letra do samba “Com que roupa?” o que era vencer na vida: “Agora vou mudar minha conduta/Eu vou pra luta, pois eu quero me aprumar/Vou tratar você com força bruta/Pra poder me reabilitar”.

Hoje, APRUMAR na vida significa SER PROMOVIDO. arapuca Enrascada. Arapuca de verdade é um objeto para pegar passarinho, uma espécie de alçapão. Mas a arapuca do tipo “você me deixou numa arapuca” não tem nada a ver com “você me deixou num objeto para pegar passarinho”. Deixar numa arapuca era deixar sem saber direito o que fazer, numa encruzilhada, num mato sem cachorro, numa dúvida atroz. Arapuca era a mais perfeita tradução do “e agora, não sei bem o que fazer”.

Hoje, deixar alguém numa ARAPUCA é o mesmo que deixar numa CILADA.

arear Lustrar. Não bastava a dona de casa lavar, passar, cozinhar, arrumar a casa. Era preciso deixar tudo um brinco e, principalmente, arear as panelas. Depois de tirar o grosso, como diziam, vinha o tal do arear – arear vem de areia. Passar uma esponja de aço até ficar brilhante. As donas de casa se orgulhavam de dizer: “Vejam só como as minhas panelas estão todas areadinhas...”.

Hoje, AREAR é LUSTRAR. aristocracia Classe social nobre. Ser aristocrata era muito diferente de ser uma celebridade como é atualmente. Gente aristocrata era gente que havia nascido em berço de ouro. E não era brincadeira não, acho que o berço em que a aristocracia nascia era mesmo de ouro maciço. Aristocratas jamais colocavam os sapatos de cromo alemão na lama. Só pisavam em tapetes vermelhos, tomavam champanhe em taças de cristal da Boêmia e enxugavam as bocas em lenços de linho puro, egípcio. Aristocrata não lia jornal brasileiro, e, sim, Le Figaro, Financial Times e por aí vai.

Hoje, um ARISTOCRATA é GENTE FINA. armarinho Loja que vende miudezas. Armarinho era o paraíso das costureiras. O Armarinho do Mitre, então, era o paraíso e meio. Lá, ele vendia de tudo para uma mulher prendada. Alfinetes, agulhas, linhas, dedais, colchetes, ilhoses, rebites, fivelas, fecho éclair, sianinha, rendas, botões, tecidos – enfim, aviamentos em geral. Opaca, gabardine, filó, algodão, linho, popeline. O Armarinho do Mitre tinha de tudo. Poucas pessoas compravam roupa pronta. Ficava mais em conta fazer em casa. Então, era preciso comprar todas essas coisas que um armarinho vendia. Essas lojas não eram nem um pouco arrumadas, mas uma bagunça organizada. Quando você pedia para o Mitre qualquer coisa, como um botão de madrepérola quatro furos dois centímetros, ele olhava para trás, mirava uma daquelas gavetinhas e o tiro era sempre certeiro. Lá vinha o Mitre com o tal botão de madrepérola quatro furos dois centímetros. Sabe quem foi o patrocinador da Portuguesa quando o time se sagrou vice-campeão brasileiro? Armarinhos Fernando.

Hoje, os ARMARINHOS sobrevivem nos subsolos de shopping centers, mas não têm nada a ver com o Armarinho do Mitre.

arquibaldo Torcedor de arquibancada. São três tipos de torcedores que vão ao estádio e a paixão é uma só. Aqueles abonados que assistem confortavelmente ao jogo na cadeira numerada, aqueles que vão para a arquibancada e assistem confortavelmente ao jogo, mas ficam com a bunda doendo no final dos noventa minutos. E aqueles sem muita grana, que vão para a geral e assistem ao jogo em pé, sofrem, mas têm o mesmo amor ao time. Os que ficam na arquibancada eram chamados de arquibaldos. O cantor e compositor Gonzaguinha, no auge da ditadura, fez uma canção chamada “Geraldinos e Arquibaldos”. A letra diz assim: “Vá sempre em frente, nem pense/É contramão/Olha cama de gato/Olha a garra dele/É cama de gato/Melhor se cuidar/No campo do adversário/É bom jogar com muita calma/Procurando pela brecha/Pra poder ganhar”.

Hoje, ARQUIBALDO virou GALERA. arquimilionário Pessoa muito rica, com muito dinheiro. Existiam pessoas ricas, abonadas, muito ricas, ricaças e as arquimilionárias. Arquimilionárias eram aquelas que se parassem de trabalhar não fazia a menor diferença. Dinheiro não era problema. Arquimilionário era, por exemplo, o armador grego Aristóteles Onassis, aquele que acabou se casando com Jacqueline Kennedy, viúva de John, e depois Jacqueline Onassis. Arquimilionário não tinha salário, tinha dinheiro pra dar e vender.

Hoje, um ARQUIMILIONÁRIO é um cara CHEIO DA GRANA. arreado Cansado, exausto. Arreado estava aquele cavalo malhado estacionado na praça principal da cidade de São Lourenço. Durante anos e anos ele passava os dias ali, arreado, atrelado a uma charrete que passeava pelas ruas para mostrar as belezas da cidade mineira, uma das integrantes do circuito das águas. Mas arreado também estava o meu pai ao chegar em casa depois de um dia inteiro comendo poeira nas estradas ruins de Minas Gerais. Meu pai chegava cuspindo tijolo, segundo ele, com os cabelos despenteados, os sapatos empoeirados, a camisa suada. Trazia uma malinha de couro que jogava no canto, perto do sofá, e dizia a minha mãe: “Filhinha, estou arreado!”.

Hoje, uma pessoa ARREADA diz ESTOU MORTA! arruaça

Bagunça, baderna, motim. Para os pais temerosos e conservadores, os filhos só saíam às ruas durante a ditadura militar para fazer arruaça. As manifestações acabavam mesmo virando uma arruaça quando chegavam os policiais montados a cavalo com enormes cacetes nas mãos, que eram despejados nas costelas dos pobres coitados dos estudantes. Depois, vinham aqueles brucutus jorrando água e as bombas de gás lacrimogêneo. Era de chorar! Essa confusão nas ruas era chamada de arruaça. “Não vai para a rua fazer arruaça!”, diziam os pais de direita para os filhos que se orgulhavam de ser de esquerda.

Hoje, quem faz ARRUAÇA são torcedores depois de um jogo de futebol. assistência Viatura destinada a transportar enfermos. Assistência era uma camionete pintada de branco com uma cruz vermelha na porta. Qualquer problema maior, as pessoas chamavam a assistência. Quando uma assistência estacionava na porta de alguma casa é porque boa coisa não estava acontecendo. A assistência ficou famosa na música “Iracema”, de Adoniran Barbosa, uma das canções mais tristes da história da música popular brasileira. Um trechinho diz assim: “Iracema, fartavam vinte dias pra o nosso casamento, que nóis ia se casar/Você atravessou a São João, veio um carro, te pega e te pincha no chão/Você foi para assistência, Iracema/O chofer não teve curpa, você travessou contramão/Paciência, paciência...”.

Hoje, ASSISTÊNCIA virou AMBULÂNCIA. assoberbado Cheio de compromissos. Quando uma pessoa não tinha como cumprir um compromisso dizia que estava assoberbada. O marceneiro não podia fazer a estante porque estava assoberbado, a faxineira se justificava por não ter limpado o lustre alegando que passou o dia muito assoberbada. Assoberbada era sempre uma boa desculpa para ir empurrando com a barriga, fazer amanhã o que poderia ser feito já.

Hoje, ASSOBERBADO é o mesmo que ATOLADO DE COISAS PARA FAZER. assombrado Perplexo, impressionado.

Nos anos 1960, uma mulher ficava assombrada quando o vendedor fazia uma explanação sobre o funcionamento de uma máquina de lavar roupas. Um homem ficava assombrado com as pernas da moça subindo no bonde. Uma criança ficava assombrada ao ver os sapatos que deixara para o Papai Noel transbordando de presentes na manhã de 25 de dezembro. Eu fiquei assombrado quando vi pela primeira vez o filme Os pássaros, de Alfred Hitchcock.

Hoje, ASSOMBRADO é CHOCADO. atacar Criticar, falar mal. A coisa mais comum era ver funcionário público dizendo que o colega de trabalho foi “lá me atacar com o chefe”. Ou, então, “eu não disse nada e ele já veio me atacando”. Mas atacar não significava avançar sobre alguém ou dar um soco na cara. Os críticos também costumavam atacar. “Você viu a crítica atacando o filme nos jornais?” Algumas pessoas costumavam dizer que o crítico meteu o sarrafo na peça de teatro, quando queriam dizer simplesmente que ele atacou a peça.

Hoje, ATACAR é CRITICAR. atarantado Confuso, baratinado. Sim, atarantada era uma pessoa confusa, indecisa, baratinada, meio sem saber o que fazer. Mas que todo mundo usava essa palavra com o significado de assoberbado, cheio de coisas pra fazer, isso usava. Quando alguém dizia: “Vamos pra praia no final de semana?”, e, se a pessoa estava cheia de afazeres, a resposta era sempre: “Não vai dar, estou atarantada”. Acredite! Um grupo chamado Os Azeitonas gravou uma música chamada “Atarantado”. Ela diz assim: “O sangue fervilha da cabeça até os pés/Um tanto atarantado até/As emoções à flor da pele/Um tanto atarantado até”.

Hoje, uma pessoa ATARANTADA é, digamos, uma pessoa QUE NÃO REGULA MUITO BEM. atazanar Encher o saco. O cara que atazanava não era aquele cara apenas chato. Era um chato e tanto, um chato de galocha. Aquele que insistia na brincadeira de mau gosto, na picuinha. A palavra estava sempre na boca de maridos machões e genros machões. “Vou ter de trocar este fogão porque minha mulher está me atazanando.” O compositor João Bosco, em parceria com Aldyr Blanc, deu vida à palavra com o hit

“Incompatibilidade de gênios”. A canção termina assim: “Dotô/Se eu peço feijão ela deixa salgar/Calor/Ela veste casaco pra me atazanar/E ontem/Sonhando comigo mandou eu jogar/No burro/E deu na cabeça a centena e o milhar”.

Hoje, ATAZANAR é a mesma coisa que PEGAR NO PÉ. ato de contrição Arrependimento. A oração começa assim: “Meu Deus, eu me arrependo de todo o coração de vos ter ofendido, porque sois tão bom e amável”. Mas hoje ninguém sabe o que é ato de contrição. Sabíamos na época em que estudávamos catecismo na escola. Pecou, tinha de rezar. O ato de contrição era um alívio para os pecadores. Aqueles que furtavam um drope no armazém, roubavam uma goiaba no vizinho, olhavam a prima trocando de roupa pelo buraco da fechadura. Rezava a lenda que sem o ato de contrição nós, pecadores, arderíamos no fogo do inferno.

Hoje, ATO DE CONTRIÇÃO é uma espécie de ERRAMOS. atolado Ocupado, cheio de afazeres. “Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje.” Pois é, o ditado popular é esse, mas todo mundo faz exatamente o contrário. E os afazeres vão se acumulando. De contas para pagar a lavar o carro. De um exame de vista à arrumação do armário. Quando tudo ia se acumulando e a pessoa não sabia por onde começar, soltava esta: “Não vai dar pra ir porque estou atolada”. É sempre bom lembrar que esse atolado não tinha nada a ver com o carro na lama.

Hoje, estar ATOLADO é estar FODIDO. audaz Destemido, arrojado. Todo mundo tinha um carro velho e pronto para enfrentar qualquer roubada. O meu sogro tinha um chamado Princesa. Quando via pela frente uma estrada esburacada, cheia de lama, e que todos consideravam intransitável, ele dizia: “Princesa passa!”. O do meu pai era um Land Rover 1958. Na cabeça dele não tinha buraco neste mundo em que o Land Rover não passasse. A família do cantor e compositor Lô Borges tinha o Manuel. Os carros de estimação costumavam ter nomes. E foi inspirado em Manuel que ele e Toninho Horta compuseram “Manuel, o audaz”, a canção que diz: “E no ar livre, corpo livre/Aprender ou mais tentar/Manuel, o audaz/Manuel, o audaz/Iremos tentar/Vamos aprender, vamos

lá/Manuel, o audaz/Vamos lá viajar”.

Hoje, uma pessoa AUDAZ é uma pessoa CORAJOSA. aviamento Material de costura. Que mulher neste mundo não gostava de ir até uma loja de aviamentos para fazer compras? As lojas de aviamentos se espalhavam pelos bairros e eram frequentadas, basicamente, por mulheres prendadas. Mulheres que, além de lavar, passar, arrumar, cozinhar, ainda costuravam. Hoje, a palavra AVIAMENTO simplesmente sumiu do mapa. avião Mulher gostosa. Isso mesmo, mulher gostosa era chamada de avião. Bastava ela passar com o seu balançar que lá vinha um... “Que avião!”. Em outros carnavais, a Rede Globo de Televisão usava um aviãzinho em sua arte a cada vez que um avião entrava na Marquês de Sapucaí. Aliás, a avenida em dias de Carnaval mais parecia um aeroporto...

Hoje, uma mulher AVIÃO é chamada de GOSTOSONA. azedou Quando uma relação estremeceu. Primeiro era o leite que azedava. Por mais pasteurizado que fosse, o leite tinha de ir para a leiteira e ferver até subir, às vezes derramar, senão azedava. Fora da geladeira, tinha pouco tempo útil, ficava azedo. Mas as amizades também azedavam. Se dois amigos começassem a se estranhar, a discutir, a ter desavenças, a relação azedava. Namorados azedavam uns com os outros. Muitas vezes, quando uma pessoa acordava de mau humor, dizíamos que ela havia acordado meio azeda.

Hoje, AZEDAR é SE ESTRANHAR. azeite Azar o seu!

“Você não quer ir comigo para o Rio? Não?! Azeite!” “Se ela não quiser ir comigo ao cinema, azeite!” Era assim que as pessoas reagiam quando um encontro, uma saída, uma ficada miava. O engraçado é que geralmente quando uma pessoa dizia... azeite! costumava – como se dizia – dar de ombros, que era dar uma levantadinha no ombro, num gesto bem típico de azar o seu.

Hoje, em vez de dizerem AZEITE as pessoas dizem DANE-SE! azucrinar Insistir num assunto chato. Azucrinar é a mesma coisa que atazanar, aporrinhar. Quando uma pessoa cisma com uma coisa e decide insistir, pisar e repisar. Piadas velhas dizem que sogras vivem azucrinando a vida dos genros e implicam com tudo. Com o jeito de ser e agir, a poltrona dura que ele comprou, a geladeira que não gela, o microondas que não esquenta, a vassoura que não varre, o espanador que não espana e a televisão que não está no canal da novela a que ela quer assistir. Na Copa do Mundo de 2010, na África do Sul, as vuvuzelas azucrinaram os ouvidos de todo mundo, lembra-se?

Hoje, AZUCRINAR é ENCHER O SACO.

babado Novidade, fofoca. Quando alguém via uma rodinha de pessoas que conversava animada, uma fala daqui, outra fala dali, logo vinha a pergunta: “Qual é o babado?”. O babado poderia ser uma novidade ou uma fofoca. O babado corria de boca em boca, cada um dando sua opinião, se espantando ou criticando. Não tinha babado que passasse em branco.

Hoje, BABADO foi substituído por QUAL É A BOA? bafafá Confusão. A pessoa que aprontava um grande rolo aprontava um bafafá. Todo tipo de confusão, com palavras e gestos ou, às vezes, socos e pontapés, era um bafafá. Geralmente, o bafafá estava ligado a uma discussão sem fim em que não apenas duas pessoas estavam envolvidas. Precisava ter, pelo menos, meia dúzia de pessoas com ideias diferentes e posições diferentes para aprontar um bafafá. E, quando o bafafá crescia, virava um bafafá danado.

Hoje, BAFAFÁ virou uma BAITA CONFUSÃO. bagaço Cansaço.

A laranja tinha bagaço. Quando éramos pequenos, adorávamos comer o bagaço da laranja para aproveitar até o último fiapo. Mas bagaço era também o estado físico do meu pai depois de enfrentar horas e horas dentro de um jipe 1958. Isso significava chegar em casa e ir direto para o banho, colocar um pijama e tomar uma sopa bem quente. Podia ser de ervilha, feijão, massinha, que era como ele chamava o macarrão miudinho na terra de Juscelino. No dia seguinte, ele acordava outro, inteiro, firme e forte. Nem parecia que havia ido dormir um bagaço.

Hoje, em vez de dizer ESTOU UM BAGAÇO, a pessoa diz ESTOU MORTA. bagatela Valor baixo. Era muito comum nas cidades do interior alguém ver um produto na porta da venda e perguntar: “Está valendo quanto?”. O comerciante, sempre interessado em vender, fosse um par de alpargatas ou uma bacia de alumínio, nunca dizia o preço. Coçava a barbicha, olhava, olhava e soltava esta: “Ah, uma bagatela!”. E o negócio era fechado por um punhado de cruzeiros.

Hoje, uma BAGATELA é uma MIXARIA. bagulho Mulher feia, maconha. Foi no final dos anos 1960, lá nos tempos de Woodstock, que a palavra bagulho começou a circular de boca em boca. No sentido de maconha. “Tem um bagulho aí?” “Esconde o bagulho que lá vem o meganha!” O cigarro de maconha começou a passar de mão em mão e ganhou o nome de bagulho. Mas foi nessa mesma época que a palavra teve conotação de mulher feia. “Essa mulher é um bagulho!” Um exemplo de uma mulher que é um bagulho? Pega mal dizer, não é mesmo?

Hoje, BAGULHO virou TRIBUFU. bainha Barra da calça. Sempre foi assim. Quando a pessoa entrava no provador, se a calça servia na cintura e na largura, tinha centímetros e centímetros de comprimento a mais. Era nessa hora que o vendedor abria a cortininha e dizia: “Agora é só acertar a bainha”. A bainha era aquele acabamento da calça para deixá-la com o tamanho certo. Nos anos 1970, depois do sucesso da música “Back to Bahia”, de Paulo Diniz, surgiu uma piada infame: “Sabe o que a agulha disse pra linha? I want to go back to bainha...”.

Hoje, a BAINHA da calça virou BARRA. baixo calão Palavrão. Quando alguém dizia um palavrão, e era preciso escrevê-lo, bastava encher o texto com letras assim: “Q#XPZ**+$!!!”. Ou, então, colocar somente a primeira letra e depois reticências: “Mas que m...”. Havia aqueles que simplesmente abreviavam: “Seu F da P!”. Em vez de dizerem que fulano havia falado um palavrão, as pessoas mais finas diziam que ele tinha pronunciado palavras de baixo calão. Baixo calão são todas as palavras que não vale a pena escrever aqui, porra!

Hoje, palavra de BAIXO CALÃO é simplesmente PALAVRÃO. baixo meretrício Lugar de prostitutas. Corria uma piada que dizia o seguinte: um mineirinho chegou a uma cidade do interior querendo saber onde era o baixo meretrício, o lugar das prostitutas. Então, ele perguntou: “Onde fica a igreja aqui?”. Alguém apontou: “É ali na pracinha...”. Aí o mineirinho esperto retrucou: “Nossa! Perto do baixo meretrício?”. E o outro: “Não! O baixo meretrício é ali, do outro lado da rua...”. Toda cidade tinha um baixo meretrício e todos sabiam onde era. Menos o mineirinho que acabara de chegar.

Hoje, o BAIXO MERETRÍCIO é a ZONA. balacobaco Mulher da pá virada. Mulher do balacobaco era aquela mulher que dava antes do casamento. Mas era mais que uma galinha, era uma mulher que rodava a baiana, que chutava o pau da barraca, que chutava o balde, que estava se lixando. Tudo no bom sentido. Era uma mulher admirada pela ousadia, pelo despojo. Será que Leila Diniz, por exemplo, era uma mulher do balacobaco? Ou quem sabe Dercy Gonçalves?

Hoje, a gente diz que uma mulher do BALACOBACO é uma mulher DA PESADA. balaiada Jogo que termina com um placar amplo.

Existem duas balaiadas. Uma com letra maiúscula, Balaiada, que foi aquela revolta dos balaios no Maranhão no final do período regencial. E outra, com letra minúscula, aquela que a seleção da Samoa Americana levou em 2001 nas eliminatórias da Copa do Mundo de Futebol: 31 a 0 para a Austrália. Se esse jogo tivesse acontecido há muito tempo, as manchetes dos jornais seriam diferentes: “Samoa Americana leva de balaiada da Austrália”.

Hoje, BALAIADA virou GOLEADA. balaio Cesta de vime. O homem inventou a roda, e muitos, muitos anos depois criou o carrinho de feira. As pessoas iam às feiras livres, aos mercados, carregando balaios. Balaios eram cestos de vime muito benfeitos, firmes e fortes. Balaio no braço, as pessoas iam de banca em banca comprando frutas e legumes. Laranjas, bananas, abacaxi, mamão (papaia ainda não havia), maçãs argentinas, uvas. Legumes eram couve, taioba, mostarda, alface (de que só havia um tipo, a lisa). Balaio cheio, as pessoas voltavam para casa exaustas de carregar tanto peso.

Hoje, BALAIO virou SACOLA. balaio grande Bunda grande. Zélia Gattai escreveu livros maravilhosos, quase diários de uma vida inteira que passou ao lado de Jorge Amado. Ela gostava de contar suas viagens pelo mundo, que fez com o escritor baiano. Foi numa dessas viagens que, desconfiada que Jorge estivesse meio caidinho por uma moça, refletiu bem e chegou à conclusão de que não deveria ser verdade, “porque Jorge sempre gostou de mulher de balaio grande”. Mulher de balaio grande era mulher de bunda grande. Tipo Maria, aquela que subia o morro com a lata d’água na cabeça.

Hoje, uma mulher de BALAIO GRANDE é uma MULHER MELANCIA. balbúrdia Desordem. Pai que era pai de verdade não gostava de ver filho aprontando balbúrdia. Seja em casa, seja na rua. Balbúrdia não eram apenas atritos, briguinhas. Era confusão mesmo, desordem, dessas de chamar a polícia. Costumavam chamar balbúrdia de algazarra, mas hoje pai nenhum mais fala: “Que algazarra é

essa aí?”. Só aqueles com mais de setenta anos.

Hoje, uma BALBÚRDIA é uma GRANDE CONFUSÃO. baluarte Sustentáculo, pessoa importante em sua área. Baluarte é a base, o sustentáculo. Mas acabou caindo na boca do povo como uma figura importante. Por exemplo, no dia em que Zé Rodrix morreu, em 24 de maio de 2009, o Jornal do Brasil disse: “A música perde Zé Rodrix, baluarte do rock and roll”. Ele sim era o cara, o baluarte do rock rural, autor em parceria com Tavito de “Casa no campo”: “Eu quero uma casa no campo/Onde eu possa compor muitos rocks rurais/E tenha somente a certeza/Dos amigos do peito e nada mais”.

Hoje, um BALUARTE é um BAMBAMBÃ. banheira Jogador de futebol em impedimento. Todo time de bairro tinha um jogador ruim de bola que vivia na banheira. Ele ficava lá na banheira e, muitas vezes, na hora H, acabava marcando um gol. Por isso, nunca ia para o banco de reserva, continuava no time. Era a torcida que geralmente denunciava: “Tá na banheira! Tá na banheira!”. Encabulado, o ruim de bola dava uns passinhos pra trás, despistava torcida adversária e juiz e, de repente, lá estava ele novamente na banheira.

Hoje, um jogador na BANHEIRA é um jogador IMPEDIDO, em POSIÇÃO IRREGULAR. baranga Mulher malvestida, geralmente feia. Baranga era aquela mulher de gosto duvidoso, que combinava uma sandália dourada com uma pulseira (uma não, muitas) prateada. Gostava de um laquê no cabelo, e cílios e unhas só postiços. Baranga combinava xadrez com listrado e marrom com vermelho. Baranga ou não tinha vaidade nenhuma, saía de qualquer jeito, ou tinha vaidade demais, só que não tinha muita noção do ridículo.

Hoje, uma mulher BARANGA é uma mulher KITSCH. barão

Notas de um cruzeiro, cinco cruzeiros e mil cruzeiros Primeiro foi o almirante Joaquim Marques Lisboa (1807-1897), o barão de Tamandaré, aquele que participou das lutas da Independência do Brasil e das revoltas da Cabanagem, Sabinada, Farroupilha, Balaiada e Praieira. Acabou na nota de um cruzeiro. Depois veio José Maria da Silva Paranhos Júnior, o barão do Rio Branco, diplomata, geógrafo e historiador, que foi parar em meados do século passado na nota de cinco cruzeiros e na década de 1970 na nota de mil cruzeiros. Barão virou valor. “Quanto custa esta camisa?”, perguntava o comprador. E o vendedor respondia: “Um barão”. O barão de Tamandaré era conhecido por sua barba branca e o barão do Rio Branco por sua careca.

Hoje, um BARÃO é chamado de um PAU. baratinada Confusa. As pessoas ficavam baratinadas. Seja no trabalho quando o chefe pedia uma tarefa difícil, seja na escola na hora da prova oral, na rua na hora de atravessar no meio dos automóveis. Ficar baratinado era ficar confuso, sem saber bem o que fazer. Os compositores Monsueto e José Batista deixaram bem claro o que é uma mulher baratinada na canção “Eu quero essa mulher assim mesmo”, consagrada por Caetano Veloso no disco Araçá azul: “Eu quero essa mulher assim mesmo/Baratinada/Eu quero essa mulher assim mesmo/Alucinada/Eu quero essa mulher assim mesmo/Despenteada...”

Hoje, uma mulher BARATINADA é uma mulher DOIDONA. baratinha Carro conversível. A baratinha é anterior ao Cadillac conversível, aquele que descia a rua Augusta a 120 por hora. Baratinha era um carro pequeno para duas pessoas, sem capota. Anterior ao carango. Só tinha baratinha quem era da juventude transviada, que não usava espelho pra se pentear e saía com botinha sem meia, aquela que era a dona da festa. Agora, a baratinha do “quem quer casar com dona baratinha/que tem fita no cabelo e dinheiro na caixinha” é outra história.

Hoje, BARATINHA é um CONVERSÍVEL. barnabé Funcionário público. Barnabé era aquele funcionário público que não tinha um pingo de medo de ser mandado embora. Com

estabilidade no emprego, ele chegava atrasado à repartição e saía bem mais cedo, antes de o expediente acabar. Era aquele que tinha dentista todos os dias. O bom barnabé chegava, abria as gavetas, colocava o papel na máquina, pendurava o paletó na cadeira e dava um perdido. Barnabé era tão despreocupado em cumprir com os deveres que, muitas vezes, chegava a puxar uma palha, um ronco mesmo, dormia profundamente no fundo do almoxarifado.

Hoje, BARNABÉ é um CONCURSADO. basculante Tipo de janela. As mães, geralmente, morriam de medo de basculante. Por dois motivos. Primeiro porque era pelo basculante que os ladrões entravam. Ninguém imaginava como, mas era por ali que eles se enfiavam para roubar as casas. Segundo porque pelo basculante passava o vento frio que gripava as crianças enquanto tomavam banho. Não somente gripavam, mas podiam ter a boca entortada. Antes de as crianças entrarem no banho era comum ouvir as mães dando ordens: “Feche o basculante!”. Basculante é uma janela composta de dois ou três espaços envidraçados que abrem e fecham.

Hoje, BASCULANTE continua sendo BASCULANTE, mas essa palavra morreu. batata Não falhar. Batata é um tubérculo comestível pertencente à família das solanáceas. Mas a batata vive na boca do povo sob outras formas. Existe a batata da perna, por exemplo. Uma pessoa com um problema para resolver tem uma batata quente nas mãos. E aquelas que são xingadas costumam ouvir: “Vá plantar batata!”. E ainda tem a expressão “aos vencedores, as batatas!”. Mas o que ninguém mais usa é a expressão simples “batata!”, com exclamação, quando se diz: “Pedi a ele para chegar no horário e – oh! – batata!”.

Hoje, em vez de BATATA as pessoas dizem: “Pedi a ele para chegar no horário e – oh! – chegou EM CIMA”. batelada De uma só vez, muitos afazeres. Temos dois significados para batelada. E dois exemplos. O primeiro é aquela mãe de primeira viagem que abre um sorriso de todo tamanho quando o filho abre a boca ao ver a mamadeira se aproximando da

boca e bebe todo o leite. “Ele tomou uma mamadeira inteira de uma batelada só!” O segundo é quando uma pessoa tem uma lista de assuntos a resolver e diz: “Hoje não vai dar porque tenho uma batelada de coisas pra fazer”.

Hoje, uma pessoa que tem uma BATELADA de coisas para dar conta diz que está ATOLADA. bater ponto Registrar a presença no trabalho. No princípio era o livro de ponto. Um livro de capa dura, preta, que ficava na entrada da repartição. Geralmente, havia um barbante (barbante talvez devesse estar neste dicionário, não?) amarrado na caneta para nenhum funcionário levar a caneta embora. Era nesse livro que as pessoas assinavam a presença, registravam a hora da entrada e a hora da saída. Depois, com a modernidade, veio a máquina de ponto. Ela também ficava na entrada da repartição, e cada vez que o funcionário enfiava o seu cartão de ponto ela fazia um barulhão, registrando automaticamente a presença do funcionário. Poucos dias depois da invenção da máquina de ponto ouviu-se a frase: “Eu não vou trabalhar hoje, você bate o ponto por mim?”.

Hoje, BATER PONTO é PASSAR O CRACHÁ na catraca da firma. beautiful people Gente bonita, gente fina. Não é de hoje que o brasileiro adora falar inglês. Soltar uma expressão aqui, outra ali. Sempre foi chique. O disc jockey (ninguém falava dj, era disc jockey) Big Boy, por exemplo, saudava todos os dias os seus ouvintes na Rádio Fluminense, lá no início dos anos 1970, com um “Hello, crazy people!”. De repente, gente descolada, bonita, na onda, por dentro, começou a ser chamada de beautiful people. A expressão pegou durante muitos anos, depois foi sendo esquecida.

Hoje, BEAUTIFUL PEOPLE é uma espécie de CELEBRIDADE. bebê johnson Criança bonita. Quando alguém via uma criança linda, daquelas com os cabelos dourados e cacheados, bochecha vermelha e olhos azuis, dizia: “Nossa! Esse menino é um bebê Johnson!”. A Johnson & Johnson promovia um concurso para escolher o bebê mais bonito do pedaço e tinha de ser lindo mesmo. Ele virava uma celebridade, uma espécie de miss mirim. Mas para ser chamado de bebê Johnson era preciso ser muito,

muito gracinha.

Hoje, um BEBÊ JOHNSON é um FOFO. bedelho Tranca em forma de nariz. A melhor explicação para a palavra bedelho está na internet: “Vem do latim. Tranca ou ferrolho de porta que se levanta por meio de aldrava”. Deu para entender? E senta que lá vem história: por que meter o bedelho? Tem explicação. É que essa tranca tinha um trabalho artesanal que se assemelhava ao nariz. Daí o uso de meter o bedelho. A pessoa que vivia metendo o bedelho onde não era chamada era meio uma enxerida.

Hoje, BEDELHO significa NARIZ no sentido de não meter o nariz onde não foi chamado. benedito Expressão de espanto. Toda vez que uma mãe via um filho fazendo uma travessura, ela exclamava: “Mas será o Benedito?”. Tem gente que garante que a expressão surgiu lá nos anos 1930 quando o então presidente, Getúlio Vargas, ficou indeciso em relação ao nome de um interventor para Minas Gerais. Como Benedito Valadares era um dos mais cotados, os mineiros cochichavam entre si: “Será o Benedito?”. Uma coisa é certa: São Benedito, aquele santo negro, pastor de ovelhas, que nasceu na Sicília em 1524, não tem nada a ver com essa história.

Hoje, a expressão MAS SERÁ O BENEDITO? foi substituída simplesmente por VERDADE? beócio Uma pessoa sem cultura. Beócia é uma região da antiga Grécia. Todos que nasciam lá eram beócios. Não, não eram pessoas sem cultura, ignorantes. Não se sabe por que começaram a chamar os idiotas de beócios. Bastava falar uma bobagenzinha, lá vinha um xingamento: “Seu beócio! Pobres beócios!”. Beócios eram todos burros, umas bestas quadradas.

Hoje, um BEÓCIO é chamado de ANTA.

beque Jogador que atua na defesa. Beque era o Hideraldo Luiz Bellini, o famoso Bellini. Além de zagueiro raçudo, Bellini era bonito. As marias-chuteiras da época se derretiam por ele. Bellini começou a jogar no Sanjoanense, depois no São Paulo, no Vasco, e encerrou a carreira no Atlético Paranaense. Mas ficou famoso mesmo como capitão da Seleção Brasileira nas Copas de 1958 e 1962. Foi ele quem levantou duas vezes a taça Jules Rimet para alegria geral da nação.

Hoje, um BEQUE é um ZAGUEIRO. besta quadrada Indivíduo idiota. O cara que era chamado de besta quadrada era mesmo um idiota completo. Aquele que não tinha o menor pudor de dizer bobagens, de declarar que não sabia, por exemplo, quem era o presidente do Brasil. Era uma besta elevada ao quadrado, uma besta sem jogo de cintura, sem um pingo de “simancol”.

Hoje, uma BESTA QUADRADA é um IDIOTA COMPLETO. besuntado Sujo. Os banhistas iam para a praia todos besuntados de óleo de bronzear. O mecânico vivia besuntado de graxa. Os bebês estavam sempre besuntados de Hipoglós para não assar a bundinha. Estar besuntado é estar sujo, mas também no sentido de ter algo espalhado pelo corpo. O gostosão podia estar com o cabelo todo besuntado de brilhantina sem, necessariamente, estar com o cabelo sujo. Estava apenas besuntado.

Hoje, BESUNTADO virou simplesmente CHEIO. bicho Pessoa descolada, amiga. Justiça seja feita. O rei Roberto Carlos nunca deixou a palavra bicho morrer. Não há uma frase sequer que ele fale há mais de cinquenta anos que não tenha um bicho no final. Durante anos, hippie todo cabeludo era bicho. Os mais radicais eram bichos grilos. Depois vieram outros, o bicho de sete cabeças de Geraldinho Azevedo, os bichos escrotos dos Titãs e aquele “é o bicho, é o bicho/vou te devorar/crocodilo, eu sou”, do Ricardo Chaves. Mas, como diz o rei, esses não têm nada a ver, bicho!

Hoje, BICHO é MANO. bicho-carpinteiro Criança inquieta, agitada. Bicho-carpinteiro é um inseto roedor de madeira. Passa dia e noite a roer madeira na maior cara de pau. Mas costumava-se dizer às crianças que eram muito agitadas, aquelas que não paravam quietas um só minuto, que estavam com o bicho-carpinteiro no corpo. Não se fala mais que uma criança está com bichocarpinteiro no corpo, mas, pensando bem, essas crianças existem até hoje. São aquelas crianças que mexem em tudo, vivem correndo, pulando, deitando e rolando. Enfim, crianças.

Hoje, uma criança que está com o BICHO-CARPINTEIRO no corpo é chamada de HIPERATIVA. bicudo Bêbado. Aquele que tomava umas e outras ficava pinguço. Os mais educados dizem que a pessoa exagerou um pouquinho na bebida e ficou alterada. Na música popular, a bebida aparece em várias canções, em várias marchinhas de Carnaval. “Eu bebo sim” (Luiz Antônio e João do Violão): “Eu bebo sim/E tô vivendo/Tem gente que não bebe/E está morrendo”. “Pinga ni mim” (Elias Filho): “Nessa casa tem goteira/Pinga ni mim, pinga ni mim” e “Marvada pinga” (Marco, Mário e Cristiano): “A marvada pinga que corre nas veia/Dissolve as tripa, sapeca o estâmu/E dizima as lumbriga” e “Saca-rolha” (Zé da Zilda, Zilda do Zé, Waldir Machado): “As águas vão rolar/Garrafa cheia eu não quero ver sobrar/Eu passo a mão na saca saca saca-rolha/E bebo até me afogar”. Todo mundo continua bebendo, mas quem bebia muito ficava bicudo.

Hoje, BICUDO é um BEBUM. bidu Quem sabe tudo. Nos anos da Jovem Guarda, o rei Roberto Carlos anunciava em seu programa na tv Record: “Com vocês, o bidu Jorge Ben!”. Era um tempo em que Jorge Benjor ainda se chamava Jorge Ben. Ben ou Benjor, a verdade é que Jorge é a mais perfeita tradução de bidu, o cara boa-pinta, gente boa, gente fina e que sabe das coisas. E quando ele começava a cantar “lá fora está chovendo...” virava, sem a menor sombra de dúvida, o bidu. Além de Jorge Benjor, o Brasil tem outro Bidu famoso, personagem criado por Mauricio de Sousa. O nome do cachorrinho foi inspirado na cantora lírica Bidu Sayão. Outra Bidu famosa.

Hoje, BIDU é um SABICHÃO. bife Pedaço de carne frita. Claro que muita gente ainda fala bife. Tem coisa melhor que um bife acebolado, arroz, feijão e batata frita? Mas o bife, aquele bife nosso de todo dia, aos pouquinhos foi ganhando status, principalmente em restaurantes chiques. Você não chega jamais no restaurante Fasano, em São Paulo, por exemplo, e pede um bife. Você pede um steak, jamais um bife. Bife, pensando bem, apesar de pobre não comer todo dia, virou coisa de pobre.

Hoje, o BIFE é chamado de STEAK. big Grande. Numa época em que não era muito comum injetar palavras em inglês no nosso cotidiano, o tal do big talvez tenha sido precursor. “Ele se mudou daqui porque comprou uma big casa”, diziam as vizinhas fofoqueiras. Tudo era big. Além de uma big casa, as pessoas que iam melhorando de vida compravam um big carro, um big conjunto de móveis estofados para a sala, um big armário de fórmica para a cozinha, um big terno para ir ao casamento.

Hoje, em vez de você dizer que comprou uma BIG CASA, você diz que comprou uma MANSÃO. biônico Aquele que ocupa um cargo sem ser eleito. Foi em 1966 que começaram a aparecer os primeiros prefeitos, os primeiros governadores biônicos. Eles assumiam o poder sem um único voto. Eram escolhidos pelos militares de plantão que mandavam e desmandavam no Brasil desde o golpe militar de 1964. O termo biônico veio do filme O homem de seis milhões de dólares, aquele em que o protagonista recebeu implantes cibernéticos que lhe salvaram a vida. Quem era governador biônico? Abreu Sodré, Israel Pinheiro, Negrão de Lima, Nilo Coelho, José Sarney e muitos outros.

Hoje, graças à democracia, não existem mais prefeito, senador e governador BIÔNICOS.

birosca Pequeno comércio, geralmente na periferia, onde se vendem artigos de primeira necessidade e bebida alcoólica. Toda birosca era uma verdadeira birosca, um espaço minúsculo onde se vendia um pouco de tudo, de arroz a feijão, de fubá a macarrão e também pinga, muita pinga. Sempre muito mal iluminada, iluminada apenas por uma lâmpada de quarenta velas dependurada num fio que vinha do teto, toda birosca, apesar de um cartaz informando que “fiado só amanhã”, vendia, sim, fiado todos os dias. Para as crianças, a birosca vendia chicletes Ping Pong, que fazia bola, e chicletes Adams de caixinha, que não fazia bola. E também balas de café embrulhadas em papel celofane, sem marca, sem data de validade e que, pelo que se tem notícia, nunca mataram ninguém. Essas balas só eram encontradas mesmo numa birosca.

Hoje, BIROSCA virou MERCADINHO. bisbilhoteira Pessoa que fuça a vida dos outros. Fala-se muito em bisbilhotar a vida alheia. Pessoas bisbilhotam sem parar a vida dos outros. Mas ninguém costuma mais chamar uma mulher de bisbilhoteira. Bisbilhoteira adora uma fofoca, bisbilhota para depois fofocar. A bisbilhoteira gosta de mexer na carteira do marido à procura de um bilhetinho da amante, olha por detrás da cortina se a vizinha está chegando tarde e com quem, olha para as sacolas de supermercado dos outros para ver se estão bem de vida comprando filé-mignon e iogurte, enfim, gente que gosta de bisbilhotar.

Hoje, uma BISBILHOTEIRA é uma FOFOQUEIRA. bitelo Grande. A palavra bitelo era muito usada para elogiar crianças. Uma mulher que passava muito tempo sem ver o filho da amiga, quando o via soltava esta: “Como esse menino está um bitelo!”. Bitelo era aquele menino comprido, forte e saudável, meio gordinho, que vendia saúde.

Hoje, um menino BITELO é um menino ENORME. bituca Resto de cigarro.

Todo adolescente sabia muito bem o que era uma bituca. Quantas e quantas vezes não procurava no chão uma bituca para dar a primeira tragada? Bituca era aquele restinho de cigarro que os fumantes jogavam fora, em qualquer lugar. Até dentro do vaso sanitário encontrava-se bituca. É também o apelido de Milton Nascimento, mas somente para os mais íntimos.

Hoje, BITUCA é mais conhecida como GUIMBA. boa Mulher maravilhosa, nota dez. Uma mulher para comunista nenhum botar defeito era chamada de boa. Se era boa demais, era boazuda. A música “Pega na mentira”, de Erasmo Carlos, diz o seguinte: “Sônia Braga é feia, não é boa/Já não morre peixe, na Lagoa”. Nessa época, início dos anos 1980, Sônia Braga era indiscutivelmente boa. A mulher que passava rebolando, minissaia justa, salto alto, todos os peões da obra diziam: “Como essa mulher é boa...”.

Hoje, uma mulher BOA é uma mulher GOSTOSA. boa-pinta Jovem bonitão. Boa-pinta era tudo, o garotão que estraçalhava os corações dos brotinhos. Alto, musculoso, bem vestido, cabelo bem penteado, sapatos engraxados, um bom partido. Bom partido era o boa-pinta que, além de ser tudo, ainda estava pronto para se casar. Boa-pinta era um Alain Delon, por exemplo.

Hoje, o BOA-PINTA é um GOSTOSO. boate Lugar para dançar. Teve uma época que boate (muitos escreviam no original, boite) não era assim um lugar, digamos, bemvisto. Não era toda moça que ia a uma boate. Boate tinha má fama. Fama de lugar escurinho onde rolavam amassos. Ficou cafona dizer “vamos a uma boate”. Foi talvez no início dos anos 1990, com a chegada do Madame Satã, do Aeroanta, do Ácido Plástico, do Carbono 14, todos em São Paulo, e do Crepúsculo de Cubatão, no Rio, que a palavra boate caiu em desuso.

Hoje, em vez de ir a uma BOATE, os jovens vão a uma BALADA. bobo alegre

Idiota. O bobo alegre era, no fundo, no fundo, um chato de galocha. Mas, pensando bem, mais bobo que babaca. Era aquele cara que todo mundo passava para trás, e ele ainda ria. Era o corno que fingia não estar sabendo de nada. Era conhecido também como bobo da corte. Ria da própria desgraça, achava tudo engraçado, até mesmo coisas que não tinham a menor graça.

Hoje, um BOBO ALEGRE é um BABACA. boca de sino Calça com a boca larga. Foi nos anos 1970 que alguém teve a ideia de abrir a boca das calças que até então eram cigarettes. Assim que entrou na moda, antes mesmo de aparecer nas lojas as calças boca de sino, as pessoas resolveram transformar suas velhas calças em calças da moda. Costureiras foram convocadas, e, quando se viu, ninguém mais usava calça com boca fina, a não ser nossos pais e avós. Hoje, todo mundo tem em casa uma foto dos anos 1970 usando cabelo comprido, barba, camiseta colada no corpo e uma calça boca de sino.

Hoje, uma calça BOCA DE SINO virou uma CALÇA LARGA. bocada Mordida. Coisa típica de mineiro. Era só ver alguém com uma maçã que vinha logo o pedido: “Deixa eu dar uma bocada?”. Irmãos brigavam muito por causa de bocadas. Quando um permitia, o outro virava e dava aquela bocada, muito maior que a permitida. Além de mordida, a bocada podia ser também uma parada torta, um lugar estranho.

Hoje, BOCADA é MORDIDA. boçal Pessoa idiota. Tem uma história que rola em Minas Gerais que garante que um gaúcho chegou a Ouro Preto para o Festival de Inverno e numa mesa de bar ouviu que ele era um boçal. Ele achou o máximo e chegou à pensão onde estava hospedado todo feliz, anunciando que ele era um boçal. Ele achou que boçal era uma pessoa cheia de bossa. Até que alguém esclareceu que boçal é um cara idiota, bobo, imbecil.

Hoje, o BOÇAL é um BABACA. bochicho Intriga. A fofoca, a intriga são coisas que sempre existiram. Mas usava-se muito a palavra bochicho. Bochicho parecia ser mais que uma fofoca, era uma fofoca que se espalhava, que envolvia muita gente, que virara um verdadeiro bochicho. Se essa palavra não constasse deste Pequeno dicionário, seria o maior bochicho.

Hoje, BOCHICHO virou FOFOCA. bocó Pessoa boba. Bastava uma pessoa não conseguir realizar uma tarefa, deixar alguém passá-la para trás que era um bocó. Bocó era aquele que não conferia troco e quando chegava em casa via que estava faltando dinheiro. “Você não conferiu o troco na hora? Mas você é mesmo um bocó!”

Hoje, um BOCÓ é um IDIOTA. boco-moco Pessoa fora de moda, ridícula. Quem não viveu os anos 1970 certamente nunca ouviu falar em boco-moco. A expressão nasceu, dizem, da junção das palavras bocó e mocorongo. Toda pessoa que se vestia com um gosto bem duvidoso, camisa de babado listrada que não combinava com calça xadrez, pulseira, pochete a tiracolo, óculos tipo espelho era seguramente um boco-moco. Se fizéssemos um retrato falado do boco-moco sairia a cara do Teobaldo. A expressão foi criada pelo publicitário Arapuã, da agência dpz, para uma campanha publicitária do Guaraná Antarctica. E o personagem era o Teobaldo.

Hoje, BOCO-MOCO é BREGA. bode Confusão, depressão. Deu bode significava deu confusão. Estar de bode significava estar meio deprê. Não importava se deu ou estava, mas a palavra bode corria de boca em boca. “Tentei passar um cheque sem fundo e deu o maior

bode!” era um bom exemplo de dar bode. “Briguei com a minha namorada e acordei meio de bode” era um bom exemplo de estar de bode.

Hoje, deu BODE é o mesmo que deu CONFUSÃO; estar de BODE é estar DEPRÊ. boia Prato feito, refeição popular. Boia era um jeitinho popular de chamar um prato feito, uma comida popular. Mas não era somente em restaurantes onde comiam os boias-frias, os operários, os camelôs que a comida se chamava boia. Muitas vezes, o meu pai chegava em casa e perguntava: “A boia já está pronta?”, “A boia já está na mesa?”. João Bosco e Aldir Blanc consagraram a palavra na música “Rancho da goiabada”, que começa assim: “Os boias-frias, quando tomam umas biritas/Espantando a tristeza/Sonham com bife a cavalo, batata frita...”.

Hoje, BOIA é popularmente conhecida como RANGO. bola ao cesto Basquete. Só gente fina chamava basquete de basquete. O basquete era popularmente conhecido como bola ao cesto. Na escola, no campinho improvisado do bairro só dava pelada e bola ao cesto. Muitas vezes, a cesta era feita com um aro e um emaranhado de barbantes. Quando não havia nada disso, pendurava-se um balde furado na parede para jogar bola ao cesto.

Hoje, BOLA AO CESTO é simplesmente BASQUETE. bolão Garoto gordo. Quem não teve na escola um colega com o apelido de Bolão? Toda sala – dizia-se sala, e não classe – tinha um. Era o Bolão, o Quatro-Olhos e o Baixinho. Bolão era aquele que comia um sanduíche enorme no recreio e ainda uma meia dúzia de biscoitos Maria, uma banana e uma paçoca Amor. Sem contar o refrigerante, um copo de meio litro de Pepsi-Cola. Esse era o Bolão, ruim de bola e que só jogava no gol, isso quando o professor obrigava o Bolão a entrar em campo.

Hoje, BOLÃO virou OBESO.

bolar Imaginar uma coisa, fazer um projeto. Quem viveu nos anos 1970 bolou alguma coisa legal. Bolar era simplesmente ter uma ideia, às vezes de jerico, mas era uma ideia. Bolava-se um passeio, bolava-se uma capa bacana para o trabalho de escola, bolava-se uma estratégia para convidar uma garota bonita para uma festa, enfim, as pessoas viviam bolando coisas.

Hoje, BOLAR é simplesmente PLANEJAR. bolero Roupa feminina. Existem dois boleros. Pensando bem, existiam. Um bolero era aquele ritmo de dança espanhola com fortes influências de vários países latino-americanos. Dançava-se muito bolero nos anos dourados. Hoje, se alguém convida o outro para dançar um bolero, pode ter certeza que é gente muito antiga. O outro bolero é aquela roupa que toda mocinha usava, uma espécie de casaquinho casual por cima da roupa. Era comum ver uma mãe dizer para a filha: “Joga um bolerinho nas costas que fica bom”.

Hoje, BOLERO virou CASAQUINHO. bólido Carro possante. No sentido exato, bólido é uma bola de fogo que acaba explodindo. Mas, por aqui, um carro possante, envenenado, com tudo em cima, era chamado de bólido. Um carro que descia a rua Augusta a 120 por hora era considerado um bólido. O roqueiro Marcelo Nova, ex-Camisa de Vênus, colocou o bólido (no sentido certo) em um rock and roll chamado “Derrapando na curva do mundo”: Vamos lá: “A vida fluía como um bólido/Uma Challenger pronta pra explodir no ar”.

Hoje, um BÓLIDO virou um CARRÃO. bolinhas Estimulante. O estudante que precisava passar a noite estudando para o vestibular tomava umas bolinhas. Quer dizer, tomava umas substâncias que estimulavam a atividade do sistema nervoso central fazendo com que ele funcionasse mais rapidamente. As bolinhas deixavam a pessoa acesa. Era muito comum ouvir: “Você está

acelerado! Tomou bolinha?”.

Hoje, as pessoas ainda tomam BOLINHAS. Mas preferem Red Bull. bolinho Fácil. “Você precisa tirar dez em física quântica? Não vai ser bolinho...” Bolinho significava fácil. Qualquer coisa de difícil que se encontrasse pela frente não seria bolinho. “Pagar uma prestação mensal de mil cruzeiros? Não vai ser bolinho!” “Ir de ônibus até Recife não vai ser bolinho” “Passar o mês sem empregada não vai ser bolinho”. Nada era muito bolinho.

Hoje, o que NÃO É BOLINHO foi substituído por NÃO VAI SER MOLE. bomba Repetir o ano. Não tinha erro. Quem não tirasse todas as notas acima de cinco tomava bomba. Depois inventaram a tal de segunda época e, mais tarde, a recuperação. Mas muito tempo atrás não havia segunda chance. Menos de cinco, bomba! Corria a boca pequena nas famílias que “Sinval tomou bomba!”. A notícia caía como uma. O menino que tomava bomba não viajava nas férias, não podia ver televisão, ler histórias em quadrinhos, se divertir. Só ficava estudando e lamentando a bomba. Atualmente, a bomba deu a volta por cima. Dizer que está bombando é sinal de que está fazendo sucesso.

Hoje, tomar BOMBA significa REPETIR DE ANO. bonina Cor avermelhada, puxada para o vinho, para o roxo. Teimam comigo que a cor bonina nunca existiu. Mas existiu. Existe ainda, mas ninguém mais diz bonina. O carro é vinho, a blusa é roxa, o sapato é vermelho, mas nunca mais foi bonina. A bonina não era roxo, não era vinho, não era vermelho. Era bonina. Fuçando, fuçando, fuçando, acabei encontrando a tal cor num poema de Adélia Prado chamado “Roxo”: “O céu roxeia de manhã e de tarde/Uma rosa vermelha envelhecendo/Cavalgo caçando o roxo/Lembrança triste, bonina”.

Hoje, BONINA virou uma espécie de FÚCSIA.

borocoxô Triste, cabisbaixo, desanimado. Não havia estresse, não havia depressão. Quer dizer, que havia, havia, mas não com esses nomes. A pessoa estava cansada ou, então, meio borocoxô. Quando amanhecia meio triste, estava também jururu. Pessoas acordavam azedas, às vezes diziam que com o ovo atravessado, mas aí é outra história. Borocoxô era uma tristeza íntima, muitas vezes inexplicável. No fundo, no fundo, todo mundo sabia por que estava borocoxô.

Hoje, uma pessoa BOROCOXÔ é uma pessoa MEIO DEPRÊ. boticão Instrumento para arrancar dentes. Como se arrancavam dentes! E era com o boticão. A impressão que tínhamos é de que nem anestesia davam. Quando se falava em boticão, vinha logo aquela dor lá de dentro. O boticão entrava violentamente boca adentro, fixava no dente e o arrancava num golpe só. Era dente para um lado, sangue para o outro, até que uma água gelada fizesse estancar o sangue. O boticão era temido por todos. Quando um dentista passava a mão naquele instrumento cruel e assassino, morríamos de medo. Não era para menos.

Hoje, se arrancam dentes, mas ninguém mais fala que vai ser na base do BOTICÃO. boticário Aquele que estudou farmácia, farmacêutico. No tempo em que se escrevia farmácia com ph, ninguém dizia que ia tomar uma injeção no farmacêutico. Dizia-se que ia ao boticário para ele aplicar uma injeção. E não era no bumbum, ou na bunda, era na nádega. Boticário era aquele que entendia do riscado. Passava o dia na farmácia vendendo e aconselhando produtos para diarreia, dor na espinha, dor de cabeça, furúnculo, picada de abelha, torcicolo, cobreiro, sarna, essas coisas. O boticário estava sempre de jaleco, que chamávamos de guarda-pó branco, com o nome bordado no bolso à direita. O boticário era um profissional de inteira confiança.

Hoje, se você perguntar o que é BOTICÁRIO, vão dizer que é uma loja de perfumes que existe em todos os shopping centers do país.

boy Jovem descolado. Ninguém traduziu melhor o que era um boy do que Os Mutantes na canção “Hey Boy”, do primeiro disco deles, de 1966. “He he he hey boy/O teu cabelo tá bonito hey boy/Tua caranga até assusta hey boy/Vai passear na rua Augusta tá tá”. O boy ali teve a sua mais perfeita tradução. A mesada do pai, a mina gamada, o blusão importado, a pinta de abonado, a cuba-libre gelada. Boy era isso, uma abreviatura de playboy, o cara.

Hoje, BOY é um MAURICINHO. brazuca Brasileiro que mora no exterior. Diz a lenda que brazuca é a abreviatura de Brasileiro Residente Asteca União Centro-Americana. Diz a lenda. Mas brazuca é aquele brasileiro que foi morar fora do país sem ser exilado. Morre de saudade do mar, da caipirinha, da feijoada e do guaraná. Mora fora, mas fala português. De tempos em tempos, descola uma goiabada, uma farinha, um feijão-preto para matar a saudade. Sem contar o pagode no pandeiro.

Hoje, um BRAZUCA é mais ou menos conhecido como ILEGAL. breca Menino travesso. Quase todo menino era levado da breca. Numa era analógica, as brincadeiras eram na rua. Menino levado da breca subia nos muros, cortava o dedo com canivete, tocava campainha na casa dos outros e saía correndo, levantava a saia das meninas, andava de carrinho de rolimã na contramão ou espiava pelo buraco da fechadura a tia tomando banho. Isso sim era ser levado da breca. Em Portugal, a coisa era mais séria. Levado da breca era uma pessoa irada mesmo, à beira de um ataque de nervos.

Hoje, um menino levado da BRECA é um CAPETA. brejeira Moça da roça. Alguns dizem que brejeiro é velhaco. Outros, aquele que vive no brejo. Mas a brejeira que conheci era uma moça que usava vestido de chita, sapatinho branco com meia soquete e cabelo maria-chiquinha. Essa

era a brejeira cem por cento. Ingênua, mas, no fundo, no fundo, meio maliciosa, meio safadinha. Mas sem deixar de ser brejeira.

Hoje, uma mulher BREJEIRA é uma mulher PACATA. brinco Casa arrumada e limpa. Jovem bonita. No final do dia, as donas de casa depois de varrer, espanar, encerar, lavar, passar, preparar o jantar para o marido e os filhos, exclamavam: “Não deixem nada fora do lugar porque a casa está um brinco!”. Brinco era também uma moça bonita, arrumada, atraente. Quem não ficava de olho, ou flertava, em uma moça que era um brinco?

Hoje, quando uma casa está um BRINCO, diz-se que está ARRUMADA. bronco Grosseiro, sem educação Bronco era aquele que não tinha modos. Vivia coçando o saco, enfiando a mão no nariz, falando alto com a boca cheia; aquele que depois do almoço passava horas com um palito no canto da boca. Esse era o cara bronco. Não media as palavras, dizia palavrões em lugares nada convenientes; enfim, não tinha papas na língua. Não havia pai neste mundo que quisesse ver a filha namorando um rapaz bronco. O bronco mais famoso do pedaço foi o Bronco Dinossauro, vivido por Ronald Golias na Família Trapo.

Hoje, BRONCO é uma pessoa DESAGRADÁVEL. broto Jovem. Quando uma mulher fazia 25 anos e começava a se sentir meio velha, sempre tinha uma tia que dizia: “Deixa de bobagem, você ainda é um broto!”. Broto era aquela jovem que estava com tudo em cima. Juventude, beleza, simpatia e saúde. Celly Campello e Roberto Carlos fizeram sucesso com o tal broto. Celly cantando “Broto legal” (“Olha que broto legal/Garoto fenomenal/Fez um sucesso total/E abafou no festival”) e o rei cantando “Broto do jacaré” (“Vinha deslizando em minha prancha sozinho/E falei ao ver passar por mim um brotinho/Que bonitinha que ela é/Deslizando num jacaré”).

Hoje, BROTO virou GATA.

bucha Esponja para lavar o corpo. Tarefa difícil. Dois significados bem distintos para bucha. Uma é aquela bucha vegetal, planta herbácea trepadeira. A outra bucha significava tarefa difícil. A primeira só se vendia em feiras e mercados e servia para lavar o corpo, tirar o encardido da meninada. Nada como esfregar uma bucha para tirar o preto da sola do pé. A outra bucha é aquela que vira e mexe damos de cara com ela. “Estou com uma bucha pela frente!” quer dizer um problemão.

Hoje, uma BUCHA virou ESPONJA; a outra virou PEPINO. bucho Mulher feia. A mulher poderia ser simpática, educada, inteligente, boa gente, mas quando era um bucho era um bucho. O meu avô era cruel com as mulheres que eram um bucho. Falava na bucha: “Você está um bucho!”. Bucho era aquela mulher que não adiantava se pintar, se arrumar, dar uma geral, porque continuava um bucho, quase que perda total.

Hoje, um BUCHO é um TRIBUFU. bufunfa Dinheiro. Dinheiro sempre falta, mas o que não falta é nome para significar dinheiro: cobre, cascalho, dindim, gaita, grana, tutu e por aí vai. Era muito comum alguém ganhar uma bolada e ouvir: “Você está cheio da gaita, hein?”. Agora, uma pessoa com muito, muito dinheiro mesmo, essa sim estava com a bufunfa. Bufunfa, geralmente, era dinheiro vivo e dentro do bolso. O cheio da grana costumava se vangloriar batendo a mão no bolso e exclamando: “Estou com a bufunfa!”.

Hoje, uma pessoa com a BUFUNFA é uma pessoa CHEIA DA GRANA. bugiganga Coisa inútil. Muita gente tinha mania de guardar bugiganga, guardar coisas sem a menor utilidade, guardar por guardar. Mulher adora implicar com o marido que vive guardando bugiganga, um prego velho, uma bateria de

carro usada, uma mola, clipes tortos, uma lâmpada queimada, um canhoto de talão de cheque, revistas sem a menor importância, essas coisas. Tudo isso se chamava bugiganga.

Hoje, BUGIGANGA virou TRALHA. bulhufas Absolutamente nada. Quando um professor de química abria aquela tabela periódica dos elementos na sala de aula e começava a explicar o símbolo do cobalto, era sinal de que ninguém estava entendendo bulhufas. Do mesmo jeito eram as aulas de física, de biologia, de latim. Ninguém entendia bulhufas. Como ninguém entendia bulhufas de trigonometria. Isto é, nada, nadinha.

Hoje, quem não entende BULHUFAS não está ENTENDENDO NADA. bundar Não fazer nada. Bundar não era característica somente de um malandro. Gente de bem, trabalhadora, também bundava. Bundar significava não fazer nada, ficar à toa por ficar à toa. Coisa rara nos tempos modernos. Chegava o domingo e você ligava para um amigo e perguntava o que ele estava fazendo. “Estou bundando!” Isso queria dizer que o cara estava à toinha. Pensando bem, não tem nada melhor que, depois de uma semana de trabalho, a pessoa jogar para cima todos os compromissos e simplesmente bundar.

Hoje, BUNDAR é mais ou menos a mesma coisa que MORGAR.

cabral Nota de mil cruzeiros. Pedro Álvares Cabral, o descobridor do Brasil, de repente passou a valer mil cruzeiros. Lá estava ele bonito, de cabelos cacheados e barba grande com cara mesmo de quem estava posando para a nota de mil cruzeiros. As pessoas começaram a chamar aquela nota de Cabral, assim mesmo, como se ele fosse íntimo de todos. “Quanto custa?”, perguntavam as pessoas. “Um Cabral!”. Cabral valia uma nota, mas, de repente, foi desvalorizado. Em vez de valer mil cruzeiros, da noite para o dia passou a valer apenas um cruzeiro novo. Meteram um carimbo bem na cara dele e o pobre do Cabral virou uma figurinha carimbada.

Hoje, UM CABRAL não vale nada, mas, pensando bem, podemos chamá-lo de UM PAU. cabreiro Com um pé atrás. Dizem que mineiro é muito desconfiado. Põe desconfiado nisso. Mineiro desconfiado era cabreiro. Era assim que se chamava uma pessoa desconfiada. Desconfiada de tudo. Emprestar dinheiro, ser fiador, ser avalista. Cabreiro em comprar um carro usado, uma casa a preço baixo, enfim, cabreiro com tudo o que via pela frente.

Hoje, um cara CABREIRO é um cara DESCONFIADO.

cabrocha Mulata gostosa e feliz. Cabrocha era tudo. Elas circularam por inúmeras canções da música popular brasileira. Mas tem uma de Zé Keti, “Salve a cabrocha”, que é a mais perfeita tradução desse monumento nacional: “Ganha-se pouco mas é divertido/Lá tudo é belo, tudo é florido/As cabrochas têm no corpo um feitiço/Não há quem não goste do seu reboliço/Carregam água o dia inteiro/A noite estão lá no terreiro/Sambando, gingando, mexendo com as cadeiras/Salve a cabrocha brasileira...”.

Hoje, uma CABROCHA é uma MULATA. cabular Matar aula. Toda escola tinha um bedel e era ele que denunciava quem estava matando aula. Matava-se aula de duas maneiras. Dentro e fora da escola. Fora da escola era mais perigoso. Os pais poderiam ligar para a secretaria e receber a notícia de que o filho não fora à escola e a escola poderia ligar para os pais perguntando por que os filhos não foram às aulas. Dentro da escola, matava-se aula principalmente no banheiro. Ao saber que a professora de química iria fazer uma arguição, o pobre coitado escondia-se no banheiro e lá ficava até tocar o sinal.

Hoje, CABULAR aula é NÃO IR À ESCOLA. cachaceiro Pessoa que bebe cachaça com frequência. Bebia-se de tudo. Cerveja, uísque, conhaque, caipirinha, vodca, rum. Bebia-se não, bebe-se. Mas tinha aquele tipo que era o cachaceiro, o cara que só bebia cachaça. Não queria e não gostava de colocar nenhum líquido na boca que não fosse cachaça. Pura, branquinha. No bar, jogava-se um pouquinho no chão que era “pro santo”. Esse era o cachaceiro. Tomava uma, duas, todas. As águas rolavam, garrafa cheia ele não queria ver sobrar.

Hoje, um CACHACEIRO é um BEBUM. cachimônia Paciência. Quem tem mais de sessenta anos e nunca ouviu o pai dizendo “não me faça perder a cachimônia”? Os

pais viviam perdendo a cachimônia com seus filhos. Perder a cachimônia era perder a paciência.

Hoje, perder a CACHIMÔNIA é o mesmo que perder a CALMA. cachopa Rapariga, moça. Ninguém melhor que Noel Rosa para cantar – em todos os sentidos – uma cachopa. Foi no samba “Com que roupa?” que ele imortalizou a cachopa, aquela moça com tudo em cima. Cachopa era uma rapariga, mas rapariga tinha um sentido meio pejorativo. Vamos ao samba “Com que roupa?”. Diz assim: “Seu português, agora, deu o fora/Já foi-se embora e levou seu capital/Esqueceu quem tanto amou outrora/Foi o Adamastor pra Portugal/Pra se casar com uma cachopa”.

Hoje, uma CACHOPA é uma GATA. caçoar Fazer troça, zombar. Caçoava-se do menino gordinho da turma. Caçoava-se do que usava óculos. Caçoava-se daquele que ia ao quadro-negro e não sabia quanto era dois mais dois. Caçoava-se daquele que cortava demais o cabelo e chegava quase careca à escola. Caçoava-se de quem tinha perna torta, era baixinho, gaguejava. Era duro ser caçoado.

Hoje, CAÇOAR é GOZAR. cacunda Ombros. Aquela gente da roça vivia carregando coisas na cacunda. Era lenha, saco de farinha, lata d’água. Viviam também carregando seus filhos na cacunda. E os meninos adoravam pedir para os pais: “Tô cansado! Me leva na cacunda, pai?”. Então, os pais pegavam os pirralhos pelos braços, davam aquela girada e encaixavam os pequenos direitinho na cacunda.

Hoje, CACUNDA virou COSTAS. cadillac Automóvel de luxo.

Cadillac é uma cidade do estado de Michigan, nos Estados Unidos. Cadillac é uma comuna francesa da Aquitânia, bem como o nome de uma estação de metrô de Montreal. Mas Cadillac é uma marca que pertence à General Motors, a gm, e foi lá pelos anos 1950 que Cadillac virou sinônimo de carro grande, confortável, chique, tipo rabo de peixe. Todo carrão era chamado de Cadillac. A revista Intervalo sempre noticiava quando Roberto Carlos comprava um Cadillac, não importava se era ou não um carro da gm. Sem esquecer que o Cadillac mais famoso do Brasil era a Rita Cadillac.

Hoje, CADILLAC é chamado de CARRÃO. caduco Velho ultrapassado que perdeu, em parte, a razão. Todo velho muito velho ia ficando caduco. Caduco era aquele que começava a trocar o nome dos filhos, dos netos, dos bisnetos. Caduco era aquele que nunca sabia onde tinha colocado os óculos, se já tinha tomado o remédio para a pressão, que arrastava pela casa o chinelo com o pé trocado. Aquele que, às vezes, vestia o pijama pelo avesso e torcia por seu time assistindo ao videoteipe do jogo. Era nessas horas que os filhos cochichavam: “Acho que papai está ficando cadudo!”.

Hoje, um velho CADUCO é um velho MEIO ESCLEROSADO. café com leite Meio bobo. Café com leite tinha três significados. Uma pessoa café com leite era aquela meio boba, meio devagar, que não gostava de entrar na roda. Outro café com leite era aquele cara fácil, que estava em todas, meio arroz de festa. E o terceiro era o que chamavam de política de união entre Minas e São Paulo. Minas entrava com o leite e São Paulo com o café. Nunca deu muito certo.

Hoje, nenhum dos três significados desapareceu do mapa. E CAFÉ COM LEITE mesmo virou PINGADO. cafona Fora de moda. A palavra resiste, resiste, mas pensando bem está meio cafona. Cafona era aquele cara de sapato branco sem meia, aquela camisa vermelha de gola grande meio aberta no peito, corrente de ouro no braço, óculos escuros espelhados e um palito no canto da boca sempre que acabava de almoçar. O cafona virou até novela da Rede Globo de Televisão nos anos 1970. Se o Canal Viva resolver reprisar a novela, você vai perceber que, com o passar do tempo, ela ficou cafona.

Hoje, CAFONA virou DÉMODÉ. cafundó Lugar ermo e distante. Cafundó era um lugar que ficava longe, muito longe, pra lá do fim do mundo. Quando alguém morava na periferia, mas aquela periferia que para chegar era preciso pegar um, dois, três ônibus, aí sim, era o cafundó. Agora, mais longe que o cafundó, só mesmo o cafundó do Judas. Lá ninguém nunca conseguiu chegar, só imaginou onde seria. Foi onde Judas perdeu as botas. Longe, muito longe.

Hoje, o CAFUNDÓ virou PERIFA. caiada Pintada a cal. Uma casa caiada era sinônimo de casa de pobre. Pobre era quem dava uma caiada na casa de tempos em tempos, quando o mofo começava a aparecer nos muros depois da temporada de chuva. Comprava-se uma brocha e a cal, e depois ela era misturada na água. A tinta era essa. Era comum ouvir pessoas dizendo: “Essa casa está precisando de uma boa caiada!”. Era um tempo em que se ouvia a cantora Amália Rodrigues nas rádios cantando “Uma casa portuguesa”: “Quatro paredes caiadas/Um cheirinho de alecrim/Um cacho de uvas doiradas/Duas rosas num jardim”.

Hoje, uma casa CAIADA é uma casa PINTADA. caído Apaixonado. Quando alguém estava apaixonado, aquela paixão de deixar qualquer um bobo, dizia-se que estava caído ou, mais carinhosamente, caidinho. John Herbert, por exemplo, estava caidinho por Eva Wilma, anunciava a revista Intervalo. Estar caidinho um pelo outro significava estar inebriado de paixão.

Hoje, quem está CAÍDO pelo outro está A FIM. caixeiro Vendedor. O caixeiro era um vendedor. E o caixeiro-viajante, claro, era o vendedor que viajava. E como viajava por este Brasil afora, sempre engolindo muita poeira! O caixeiro era aquele representante. “Sou

representante das Alparcatas”, “sou representante do Biotônico Fontoura”, “sou representante dos doces Ojuara”. Era assim que eles se apresentavam nas pequenas cidades do interior, percorrendo lojas, armarinhos, botequins. Levavam com eles pequenas malas com amostras de tudo o que vendiam. Hospedavam-se sempre em hotéis baratos, porque o dinheiro era curto. De grão em grão, iam enchendo o papo.

Hoje, em vez de comprar pelas mãos do CAIXEIRO-VIAJANTE, compra-se pela INTERNET. calamitoso Cheio de calamidade, desgraçado. Quando as pessoas diziam que o estado era calamitoso, era porque a coisa estava feia. Pior que o estado calamitoso, só mesmo o estado de coma. Uma enchente de grandes proporções, por exemplo, deixava uma área em estado calamitoso. E os repórteres costumavam usar essa palavra em seus textos. Mas havia também muitas mães que diziam para suas filhas: “Vem arrumar este quarto, porque ele está numa situação calamitosa!”.

Hoje, o CALAMITOSO virou simplesmente GRANDE TRAGÉDIA. calçadeira Objeto para ajudar a calçar sapato. Foi com o advento do mocassim que a calçadeira começou a contagem regressiva para desaparecer da língua portuguesa. Os sapatos eram mais apertados e só entravam nos pés dos homens com a ajuda dela. Havia modelos de osso, madeira, plástico, ferro. Não era fácil enfiar um Vulcabrás nos pés sem a ajuda de uma calçadeira.

Hoje, CALÇADEIRA virou coisa de velho. calombo Inchaço. Como havia abelhas! E como elas picavam. E eram essas abelhas que faziam calombos pelo corpo da gente. Mas não eram só as abelhas. E as formigas saúvas? Essas bastava darem uma simples picadinha que era aquele calombo enorme no corpo. Contra o calombo, as mães só tinham uma arma: o álcool. Elas esfregavam álcool nos calombos pra desinfetar e, diziam, tirar o veneno. Dava uma aliviada, mas não diminuía. Só o tempo fazia os calombos desaparecer. O que mais se ouvia eram crianças reclamando: “Mãe, olha só o calombo aqui no meu braço!”.

Hoje, um CALOMBO é um CAROÇO. camponês Pessoa do campo, que trabalha no campo. Durante muitos e muitos anos, quem trabalhava na roça era um camponês. Mas, quando veio o golpe militar de 1964, o camponês começou a ser olhado assim com desconfiança. Isso porque muitos guerrilheiros iam se esconder no interior, no campo, em sítios, nas fazendas. Camponês começou a ser símbolo de quem queria terras, uma espécie de militante do mst. Um dia, Francisco Julião criou as Ligas Camponesas. Aí, sim, camponês quase virou símbolo de comunismo.

Hoje, um CAMPONÊS é aquele que TRABALHA NO CAMPO. caolho Pessoa que tem um olho torto. Como havia caolhos no mundo! Nas escolas, não havia uma sala sequer sem um caolho, que geralmente era chamado de quatro-olhos. Costumava-se dizer que o caolho, o vesgo, tinha um olho no gato e o outro na sardinha. Pobre caolho, como sofria! Quem nascia caolho parecia que estava condenado a passar todos os dias da sua vida com aquela sina de olhar ao mesmo tempo para Ipanema e para o Leblon. Corria a lenda de que não havia cura para colocar os olhos no lugar certo de uma pessoa caolha.

Hoje, CAOLHO virou ESTRÁBICO. capado Bode, carneiro ou porco castrado. Porco não tinha vez na fazenda. Em vez de passar a vida chafurdando na lama numa boa, ele era castrado pelo dono da fazenda para que engordasse o mais rápido possível e entrasse na faca. Dava gosto olhar o chiqueiro e ver aquele porco enorme que não conseguia nem levantar direito de tão gordo. “Olha só aquele capado!” E o capado olhava pra gente com aquele olhar tristonho de quem estava com os dias contados. E estava mesmo. Era um cabra marcado para morrer.

Hoje, o CAPADO é um CASTRADO. capanga Pequena bolsa masculina.

A moda dos anos 1970 espalhou pelo mundo o mau gosto. E o símbolo do mau gosto foi a invenção da capanga. De repente, os homens sentiram que tudo que carregavam numa carteira não cabia mais numa carteira, era preciso algo maior, uma capanga. Capanga era aquela coisa horrorosa que todo homem começou a carregar. Mais tarde, a capanga virou pochete. Pior ainda.

Hoje, uma CAPANGA é uma POCHETE. capeta Figura do mau. Capeta era aquela figura vermelha, olhos puxados, chifre, rabo, cavanhaque e um ancinho de três pontas na mão, pronto para espetar alguém. O capeta morava num lugar quente, um verdadeiro inferno. Calor e labaredas para todos os lados. O capeta era o demônio! Toda criança tinha medo do capeta. Era só fazer uma arte que lá vinha a ameaça: “O capeta vem te pegar!”. A figura era tão insuportável que virou adjetivo para menino levado. “Meu filho não tem jeito, é um capeta”, diziam as mães desesperadas.

Hoje, CAPETA é o DIABO. capiau Gente da roça. Capiau era aquele cara da roça, do interior. Aquele que usava cavanhaque, calça pega-frango, camisa xadrez, cigarrinho de palha na boca, mas que não era nada bobo nas piadas. O capiau da piada apenas se fazia de bobo.Todos sempre gostaram da vida pacata do interior, aquela coisa de ver o sol nascer e morrer. Aquele que apreciava um torresminho sem se preocupar um pingo sequer com o colesterol. O capiau era, na verdade, muito esperto. O maior representante da classe se chama Chico Bento.

Hoje, o CAPIAU é DO INTERIOR. capote Casaco comprido. Quando chegava o inverno, toda mãe judia dizia para o seu filho de trinta e poucos anos antes de sair de casa: “É melhor levar o capote porque pode esfriar”. E não era só no inverno não, no verão também a mãe judia achava que o filho deveria levar o capote. Capote era aquele paletó bem forte que resistia a qualquer tipo de frio. E era assim que as mães judias chamavam essa roupa que protegia seus filhos: capote!

Hoje, CAPOTE virou CASACÃO.

caquético Muito velho. Quando uma pessoa era taxada de caquética era porque já estava no lucro. Caquético não era simplesmente velho, era pra lá de velho. Aquele velho que não ouve mais, que não enxerga direito, meio lelé. Preconceituoso o termo? Não resta a menor dúvida. O mundo era cheio de preconceito. E os caquéticos sofriam com isso, as pessoas não se davam conta. E diziam sem o menor preconceito: “Não liga pra ela não. Dona Conceição está ficando caquética”.

Hoje, em vez de chamar um velho de CAQUÉTICO, resolveram chamar de PESSOA DA MELHOR IDADE. cara amarrada Pessoa de mau humor. “O que foi que aconteceu que você está com essa cara amarrada?” Cara amarrada era aquela pessoa que não estava a fim de papo, com bico, emburrada. Havia outras maneiras de dizer que uma pessoa estava com cara amarrada. Dizia-se que havia amarrado o burro no toco, ou mais grosseiramente: “Você amanheceu com o ovo atravessado, é?”.

Hoje, uma pessoa com CARA AMARRADA é uma pessoa MALHUMORADA. cara lavada Pessoa cínica. Não se sabe por que uma pessoa atirada, sem medo do ridículo, era chamada de cara lavada. Comentavase que “ele chegou na maior cara lavada e pediu aumento de salário”, ou então “na maior cara lavada, ele foi lá e disse que não ia pagar o que devia”.

Hoje, um CARA LAVADA é um CARA DE PAU. carabina Fuzil curto. Ouvia-se muito na roça: “Leva a carabina!”. Levar a carabina era estar armado, pronto para enfrentar qualquer tipo de onça. Estamos falando do instrumento, da arma, porque personagem era Lili Carabina, cujo nome verdadeiro era Djanir Suzano. Lili Carabina espalhou o terror nos anos 1970 e 1980. Usando

roupa bem justa e provocante e uma peruca loura, Lili distraía seguranças para que seus comparsas entrassem em ação. No final dos anos 1980 virou filme. No papel de Lili Carabina, Betty Faria. A verdadeira Lili jura de pés juntos que nunca usou a tal carabina que lhe deu o apelido.

Hoje, em vez de CARABINA diz-se simplesmente FUZIL. caramanchão Cerca de madeira geralmente coberta por uma trepadeira. Era muito comum ver o dono de uma casa dizendo que iria construir ali um caramanchão. O caramanchão servia para dar beleza a uma residência, mas também para garantir a intimidade da família. Era o caramanchão que escondia a moça de maiô tomando banho de esguicho no quintal. Com o caramanchão a tranquilidade reinava em casa.

Hoje, CARAMANCHÃO virou CERCA VIVA. caramelo Bala doce feita à base de chocolate. Pensando bem, o caramelo ainda existe. Mas existia mais do que existe agora. Caramelos se vendiam em todos os cantos, a granel e em caixinhas. Muita gente chamava qualquer tipo de bala de caramelo. As crianças gostavam muito de caramelo, mas odiavam ganhar de aniversário uma caixa de caramelos. Elas estavam certas. Caramelo não é nem nunca foi presente de aniversário.

Hoje, o CARAMELO é chamado simplesmente de BALA. carango Automóvel de jovem. O carango nasceu junto com a Jovem Guarda. Era aquele carro esportivo, geralmente vermelho, capota arreada, tala larga, um show. O carango ganhou fama quando o rei Roberto Carlos estourou nas paradas de sucesso com a música “O calhambeque”. Quem não se lembra? “Mandei meu Cadillac pro mecânico outro dia/Pois há muito tempo um conserto ele pedia/E como vou viver sem um carango pra correr/Meu Cadillac, bi, bi/Quero consertar meu Cadillac, bi, bi, bi...”

Hoje, CARANGO virou um CARRO TURBINADO. carão

Passar vergonha. Uma mulher encontra uma amiga que não vê há muito tempo, olha para a sua barriga e diz: “Que novidade! É pra quando?”. E a resposta vem seca: “Eu não estou grávida!”. Passar um carão era isso. Dar um vexame desse tamanho e não saber onde enfiar a cara. Uma vez uma mulher virou para outra numa festa e disse baixinho: “Você está com um sujinho no dente!”. E a outra: “É mancha do dente mesmo!”. Quer carão maior que esse?

Hoje, CARÃO chama-se VEXAME. carola Beata. Qual igreja do interior não tinha uma carola? Aquela que ajudava a lavar o piso, a colocar as velas no lugar, a trocar as flores murchas, a passar óleo de peroba nos bancos, a reabastecer a água benta. Aquela que aos domingos estava sempre de véu, sentada na primeira fileira para ficar mais perto do padre. A carola andava sempre com um missal debaixo de braço e uma carreira cheia de santinhos, todos os santos, de a a z. De Agostinho a Zdislava. Toda carola era muito amiga do padre e isso dava o que falar. Toda carola tinha cheiro de igreja, na verdade, de incenso. Agora, dizer que a carola tinha um caso com o padre era pecado.

Hoje, CAROLA virou simplesmente CATÓLICA. carrancudo Mal-humorado. “Velho carrancudo!” Era assim que a meninada da rua chamava aquele cidadão idoso que vivia com a cara amarrada, com a cara feia, enfim, mal-humorado. Não adiantava contar piada para carrancudo, porque ele não achava graça alguma. O carrancudo só usava roupas escuras, não gostava de barulho de criança, na verdade não gostava de criança. Carrancudo era também aquele que faz carrancas. Mas quem faz carrancas muitas vezes não é um carrancudo. Ao contrário, é alegre e divertido.

Hoje, um homem CARRANCUDO é um VELHO MALA. carro de praça Táxi. Todo mundo sabe o que é um táxi, mas poucos sabem que ele era chamado de carro de praça. E o motorista não era motorista, era chofer, mais precisamente um chauffeur. O chofer do carro de praça

vivia alinhado, bem vestido, muitas vezes de terno e um quepe. Conhecia mais os caminhos que os motoristas de táxi atuais, mas, pensando bem, as cidades eram menores e o número de carros era reduzido. Andar em carro de praça era para quem tinha dinheiro. Pobre não andava em carro de praça, só em ônibus, trólebus, bicicleta ou a pé.

Hoje, CARRO DE PRAÇA virou TÁXI. cartear marra Sentir-se metido a gostoso. Aquele que carteava marra era uma figura que se reconhecia de longe. Chegava gingando o corpo e rodando o chaveirinho com a chave do carro. Mascava chicletes e vivia consertando o topete com um pente Flamengo. Era um tipo assim meio insuportável. Metido a gostoso, a sabe-tudo, a valentão. O cara que carteava marra era um chato.

Hoje, o cara que CARTEAVA MARRA virou um tipo INSUPORTÁVEL. cartucheira Estojo de couro onde se guarda a arma. Nos tempos das matinês, dos faroestes, a cartucheira era uma estrela, além daquela do xerife. Todo mocinho bom de briga tinha uma cartucheira e, dentro dela, uma arma pronta para o disparo. Cartucheira de verdade era feita de couro, mas couro mesmo, nada de “imitando couro”. As cartucheiras eram trabalhadas e vistosas, objeto de desejo de mocinhos e bandidos.

Hoje, só pm usa CARTUCHEIRA, porque bandido guarda a arma dentro da calça. casca-grossa Pessoa sem linha, rude, grossa. Existe certa diferença entre uma pessoa mal-humorada e uma pessoa casca-grossa. A casca-grossa é aquela que transforma qualquer prazer em mau humor. Não tem tempo bom para ela. Está sempre com a pata pronta para dar um coice, sem dó nem piedade. Aquela que era chamada de casca-grossa não respeitava idade, sexo, cor, classe social. Saía espalhando grosserias para todos os lados. Estava permanentemente de mau humor. Com todos e com a vida.

Hoje, um CASCA-GROSSA é um CAVALO.

cascudo Golpe na cabeça com as mãos cerradas. Pais de antigamente adoravam ameaçar: “Não faça isso que eu te dou um cascudo!”. Não só ameaçavam, davam mesmo. Fechavam a mão e soltavam o cascudo na cabeça da pobre criança. E, como as crianças usavam cabelo curto, como doíam os cascudos! Cascudo era um alerta, uma pré-surra, porque se o tempo fechasse aí vinha a surra mesmo, tapa na bunda ou correada. Dependia do pai. Cascudo é também a designação de peixes da família dos Loricariidae, conhecidos também por acari. Mas essa é outra história.

Hoje, o CASCUDO virou um TABEFE. casquinha Sarro. Quase toda mulher acha que homem é bicho safado. E bicho safado vivia tirando uma casquinha. Bastava uma pequena oportunidade e lá estava ele tirando uma casquinha. Tirava-se muita casquinha no escurinho do cinema, principalmente. Mas, pensando bem, tirava-se casquinha também no bom sentido. Bastava alguém comer uma coisa gostosa, uma pera madura, para alguém pedir: “Me dá uma casquinha...”.

Hoje, CASQUINHA é o mesmo que SARRINHO. catar milho Datilografar lentamente. Havia os ases da datilografia, aqueles que eram conhecidos como exímios datilógrafos. Datilografar ninguém aprendia sozinho, era preciso entrar na escola de datilografia. Aqueles que se arriscavam a aprender sozinhos acabavam aprendendo a bater com apenas dois dedos e sempre eram menos ligeiros que os exímios datilógrafos, diplomados. Dava vergonha ver quem catava milho procurando as letras no teclado e fazendo aquele barulhinho toc, toc, toc.

Hoje, é difícil ver alguém CATAR MILHO num computador. Parece que as pessoas já nascem sabendo digitar. catatau Volumoso. Quando uma pessoa tinha um livro de oitocentas páginas para ler, costumava dizer que o livro era um

catatau de oitocentas páginas. Quando um aluno terminava um trabalho de escola, e ele ficava grande demais, também dizia: “Ficou um catatau!”. Catatau era isso, uma coisa enorme. Mas Catatau é também aquele urso pequenininho, o melhor amigo do Zé Colmeia. Quem não se lembra do Zé Colmeia dizendo “Ei, Catatau!”? É sempre bom lembrar que Catatau é, ainda, a obra-prima do escritor paranaense Paulo Leminski.

Hoje, CATATAU virou um CALHAMAÇO. catimbar Enrolar, ganhar tempo num jogo de futebol. Quando um jogo de futebol chegava aos quarenta minutos do segundo tempo e um time estava ganhando por um mísero um a zero, começava a catimbar. A catimba era ficar atrasando a bola para o goleiro, dando chutões para fora, ensaiando uma falta, caindo no chão, se contorcendo, fingindo que estava gravemente ferido. O tempo passava, o jogo esfriava e quando acabava a catimba estava na hora de terminar o jogo. Graças à catimba, brigas históricas aconteceram no Maracanã, no Mineirão, no Pacaembu, no Estádio Independência de Belo Horizonte.

Hoje, CATIMBAR é ENROLAR. center half Jogador de meio de campo. Os termos em inglês usados no futebol custaram a sair de campo. Até mesmo futebol escrevia-se football. Era um tal de goal keeper, backs, team, penalty, tudo escrito assim. E tinha o center half, o jogador que atuava no meio de campo. Diz o Google que existiram center halfs que entraram para a história: Itararé, Ninho e Fausto.

Hoje, um CENTER HALF é um MEIO-CAMPO. cercania Que fica próximo. Sabará fica na cercania de Belo Horizonte, Guarulhos fica na cercania de São Paulo e a rua Visconde de Pirajá fica na cercania da Vieira Souto, em Ipanema, no Rio de Janeiro. E era assim que se dizia: “O Jardin des Tuileries fica ali na cercania do Museu do Louvre”. Cercania era uma palavra muito usada para tudo que ficava perto, em torno de.

Hoje, CERCANIA virou ALI PERTO.

ceroula Roupa íntima masculina que vai até o tornozelo. Nossos pais não usavam ceroula, mas nossos avós usavam. E virou motivo de chacota. Ceroula era um cuecão de todo tamanho, enorme, largo, confortável. Era feito de pano e sempre pano branco. Não existia ceroula colorida, com florzinha, como existem cuecas agora.

Hoje, CEROULA virou CUECA SAMBA-CANÇÃO. certinha Mulher gostosa. Quem inventou essa tal de certinha foi o jornalista Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, mais tarde Lalau. Lalau, além de jornalista, era também radialista, teatrólogo, humorista, escritor, publicitário e bancário. Na década de 1950, a revista Manchete lançou a lista das “Mulheres mais bem vestidas do ano”. Lalau não deixou por menos, lançou sua lista das mais bem despidas, que logo, logo foram chamadas de “Certinhas do Lalau”. Para ser certinha do Lalau tinha de ser mulher nota dez, para comunista nenhum botar defeito. A expressão pegou, e toda mulher com um corpo impecável passou a ser chamada de certinha. Algumas que entraram na lista: Aizita Nascimento, Betty Faria, Norma Bengel, Rose Rondelli, Mara Rúbia e Virgínia Lane. Todas certinhas. A expressão ganhou força na voz de Nelson Gonçalves: “Deus fez você tão certinha/Que eu me pergunto por que/As outras são tão diferentes/Quando eu estou com você...”

Hoje, uma mulher CERTINHA é uma mulher COM TUDO EM CIMA. cerzir Costurar uma roupa puída. Se já não se fala mais cerzir, imagine, então, puir. Mas cerzia-se muita roupa puída. As roupas não eram tão descartáveis como as de hoje. Rasgava, cerzia-se. Só se desfazia de uma roupa quando ela começava a desmanchar. Toda mulher prendada sabia, além de lavar, passar, arrumar e costurar, cerzir. Costureiras estavam sempre cerzindo joelhos de calças de meninos que viviam arrastando-se pelo chão para jogar bolinha de gude.

Hoje, CERZIR é FAZER UM REPARO NA ROUPA. chacrinha

Intriga. Chacrinha, o velho guerreiro, aquele que balançava a pança e buzinava a moça era uma coisa. A chacrinha que sumiu da boca do povo é a chacrinha no sentido de intriga. Não era uma intriga simples, era uma intriga que envolvia todo um grupo. Um grupo de pessoas falando mal do alheio virava uma chacrinha. As mulheres sempre gostaram de fazer chacrinha no banheiro.

Hoje, CHACRINHA virou FOFOCA. chapa (1) Fotografia. “Vamos reunir a família para fazer uma chapa!” Era assim que terminavam as festas aos domingos. E a família se reunia toda para fazer uma chapa. Chapa era nada mais, nada menos que uma fotografia. Mas reunir a família para fazer uma chapa não era fácil. Tinha sempre um menino que escapulia, um tio que não gostava de fazer foto, uma tia que ia pentear o cabelo para ficar bem na foto. Feita a chapa, ela era levada para revelar, e só depois de uns quinze dias víamos o resultado. Quantas e quantas vezes uma chapa não ficava fora de foco ou simplesmente queimava...

Hoje, fazer uma CHAPA é CLICAR. chapa (2) Radiografia do pulmão. Bastava uma tosse para vir o conselho: “É melhor você tirar uma chapa do pulmão”. O processo era o mesmo. Tiravam-se os objetos metálicos do bolso da camisa, encostava-se o queixo num suporte frio, respirava-se fundo, prendia-se a respiração e pronto. Estava batida a chapa do pulmão. Diferença hoje, não há praticamente nenhuma. A única é o nome. Ninguém mais diz que vai tirar uma chapa do pulmão.

Hoje, CHAPA do pulmão virou RAIO X. cheguei Expressão para quem usa uma roupa extravagante. Imagine uma pessoa com uma camisa abóbora, uma calça azul-anil, um tênis verde, meias vermelhas. Essa pessoa é do tipo cheguei. Mulheres com vestidos roxos, xales amarelos e sapatos laranja são mulheres cheguei. Pessoas do tipo cheguei são aquelas que, quando chegam, todos reparam. Reparam no exagero, no mau gosto, no excêntrico. São pessoas que não precisam dizer nada. Basta chegar.

Hoje, uma pessoa CHEGUEI é, por exemplo, o cantor FALCÃO. chepa Carona. Não se usava falar carona, falava-se chepa. “Você está indo para a cidade? Pode me dar uma chepa?” Chepa era nada mais, nada menos que pegar uma carona, aproveitar que alguém estava indo para o mesmo lugar e ir junto. “Acho que vou pegar uma chepa com você”, diziam as pessoas que não tinham carro e não estavam nem um pouco a fim de esperar meia hora no ponto do ônibus.

Hoje, CHEPA é nada mais, nada menos que CARONA. chiado Barulho provocado pela agulha no vinil. Além do ruído que a agulha causava no vinil malconservado, chiado era o intervalo entre uma rádio e outra. Sabe aquele barulhinho que é feito enquanto você procura sintonizar uma rádio? Xiiiii. Esse era o barulho do chiado no rádio. Para se ouvir um chiado, basta colocar um vinil das Casas Edison na vitrola e ouvir: “Casas Edison, Rio de Janeiro!”. Junto vem o chiado.

Hoje, CHIADO é, pensando bem, um BARULHINHO. chinelo Ser melhor que o outro. O objeto chinelo continua existindo. Já andou mais no pé das pessoas do que anda agora. Não havia um idoso que não tivesse um bom, velho e confortável chinelo daqueles acolchoados, feitos de couro. Mas deixar uma pessoa no chinelo é outra coisa. É aquele que sobressai, que ultrapassa o outro em todos os sentidos. “Ele estudou tanto para o vestibular que deixou todos os outros candidatos no chinelo.”

Hoje, DEIXAR NO CHINELO significa DEIXAR PARA TRÁS. chinfrim Insignificante. Ninguém nunca deu muito valor ou muita atenção a uma coisa chinfrim. Chinfrim parece uma onomatopeia. Basta dizer chinfrim e a gente tem a impressão de que o nariz torce, o rosto fica meio azedo. Tudo o que não é significante é uma coisa chinfrim. Pode ser um texto, uma casa, um carro. “Ele

comprou um sapato tão chinfrim.” Esse sapato chinfrim era aquele que ficava torto, meio molenga, que soltava a meia-sola ou descolava na lateral.

Hoje, CHINFRIM é uma coisa TOSCA. chispar Sair rapidamente, deixar o local. Não tinha pai neste mundo que, assim que o filho começava a aprontar, não dissesse: “Chispa já daqui!”. E ai do filho que não chispasse. O “chispa já daqui” significava que não havia mais recurso, argumento ou coisa que o valha para permanecer ali. O menino chispava para não levar uns tabefes. Chispar talvez tenha vindo do significado da palavra, que é soltar faíscas. Os meninos sumiam da frente dos pais como um raio de luz.

Hoje, em vez de CHISPA os pais dizem CAIA FORA! chofer Condutor de automóvel. Já falei do chofer de praça, mas havia também o chofer particular. Não tinha nada mais chique que uma pessoa ter um chofer particular. O chofer particular andava sempre alinhado, de terno e gravata, sapatos engraxados e uma flanelinha na mão para deixar o carro do patrão sempre um brinco. Quem tinha chofer costumava andar sempre na parte de trás. Além do chofer de praça, do chofer particular, havia também o chofer de caminhão. Esse ficou famoso na canção “Chofer de caminhão”, de Geraldo Vandré: “Eu já fui até soldado/Hoje muito mais amado/Sou chofer de caminhão”.

Hoje, CHOFER é MOTORISTA. chulear Coser a ponta de um tecido para que não desfie. Pensando bem, a impressão que se tem é de que as roupas desfiavam mais do que desfiam hoje. Se bobeasse, elas iam desfiando, desfiando, desfiando e sumiam, viravam um monte de linhas. Mas a solução para que não desfiassem era chulear. Ninguém gostava muito de ficar chuleando a roupa, mas as costureiras, pagas para isso, chuleavam que era uma beleza. Os tecidos nunca mais desfiavam.

Hoje, CHULEAR continua sendo CHULEAR, mas quase ninguém mais diz que vai CHULEAR.

chumbo Pesado. Quem estudou química e passou de ano sabe muito bem que se trata de um elemento químico de símbolo Pb, número atômico 82, com massa atômica igual a 207,2, pertencente ao grupo 14 da classificação periódica dos elementos químicos. É um metal tóxico, pesado, macio, maleável e mau condutor de eletricidade. Mas o chumbo deste verbete é o que andava na boca de todos. “Me ajuda aqui porque esse menino está um chumbo”, diziam as mães que já não aguentavam mais carregar os filhos que insistam em querer colo. Tudo o que era pesado era um chumbo. “Este balaio está um chumbo!”, diziam os carregadores do mercado.

Hoje, em vez de CHUMBO, as pessoas dizem simplesmente PESADO. chutado Fazer as coisas rapidamente. O pai dizia para o filho: “Vá devagar porque a estrada é perigosa. Nada de ir chutado”. E olha que a juventude adorava andar chutada. O contínuo era um cara que também ouvia a toda hora. “Vá ao banco chutado, porque ainda tem muita coisa para você fazer aqui na repartição”, diziam os chefes.

Hoje, em vez de CHUTADO, as pessoas dizem A MIL. cidade Centro. Ir à cidade não significava que a pessoa morava na roça e queria ir à cidade. Significava que a pessoa queria ir ao centro da cidade. Cidade era onde havia o comércio, os bancos, as avenidas principais. Para ir à cidade as pessoas aprontavam. Quer dizer, colocavam uma roupa nova, chique, uma roupa só para ir à cidade. Como não havia shopping, as compras eram feitas na cidade.

Hoje, CIDADE é o CENTRO DA CIDADE. científico Curso em três anos entre o ginásio e a universidade. Os meninos quando terminavam o ginásio passavam para o científico. As meninas, antes da revolução feminista, faziam o normal ou o clássico. Era no científico que os estudantes começavam a aprender química, física e biologia. Essas três matérias eram a cara do científico. Quem fazia o científico queria

seguir a carreira universitária, ser engenheiro, médico, advogado. Ser doutor.

Hoje, o CIENTÍFICO virou ENSINO MÉDIO. cinta-liga Peça de baixo do vestuário feminino para sustentar a meia fina. Não havia meia-calça, mas havia a meia fina. E, para segurar a meia fina, toda mulher usava uma cintaliga. Com o advento da meia-calça, a cinta-liga foi ficando cada dia mais démodé e ninguém mais usa esse acessório. Existe uma personagem dos quadrinhos que era o retrato falado da mulher que usava cinta-liga. A Betty Boop.

Hoje, mulher nenhuma usa CINTA-LIGA. clássico Curso intermediário entre o ginásio e a universidade. Acabava o ginásio existia um curso de três anos antes de prestar-se o vestibular. O estudante optava pelo curso científico, pelo normal ou pelo clássico. O clássico era um curso meio chique, meio indefinido, meio espera-marido. Fazer o clássico era muito elegante e só. Mas não podemos confundir com aquele que fazia curso de violão clássico. Aí é outra história.

Hoje, o curso CLÁSSICO não existe mais. Virou um clássico. coalhado Que passou por coagulação. Que passou por coagulação é um jeitinho simpático de dizer que o leite azedou. Como não havia leite longa vida, mas apenas o fresco, era preciso ferver o leite para que ele não coalhasse. Leite coalhado só servia para fazer coalhada ou, então, ambrosia. Mas ambrosia em Minas se fazia com leite talhado.

Hoje, leite COALHADO é leite AZEDO. cobres Dinheiro. Era muito comum uma dona de casa em dia de faxina ir separando coisas que não usava mais e no final do dia dizer: “Vou passar tudo isso nos cobres!”. Quer dizer, ela venderia para ganhar um dinheirinho.

Era roupa usada, ferro de passar com a resistência queimada, vasilhames de cerveja, uma bicicleta pequena que os filhos não queriam mais. Coisas típicas para passar nos cobres. Mas não eram só esses objetos, não. Aquele Vemaguete que começava a falhar, morrer sem explicação, também poderia ser passado nos cobres.

Hoje, passar nos COBRES significa simplesmente VENDER. coça Surra. Não tinha essa história de pai não bater em filho. Pai batia com o chinelo, com a palma da mão, com o corrião. Além disso, puxava a orelha, dava beliscões, safanões, empurrões. E ai de quem ousasse criticar o pai. “Esse menino está precisando levar é uma coça!”, dizia ele. E o menino fazia de tudo para escapar da coça. O lugar preferido que ele escolhia para se esconder era debaixo da cama. Mas de nada adiantava. Quando saía, apanhava mais ainda. Levava uma coça.

Hoje, levar uma COÇA é levar uma SURRA. cocota Jovem metida. A cocota era tudo. Podia ser simplesmente uma jovem bonitinha, gostosinha, como também uma jovem metida a besta, uma patricinha. Os cariocas gostavam de chamar suas namoradinhas mais novas de cocotas. O compositor Jards Macalé soube encaixar muito bem a palavra cocota na canção “Negra melodia”, que está no disco Contrastes. Diz assim: “O meu pisante colorido, o meu barraco lá no morro de São Carlos/Meu cachorro paraíba, minha cabrocha, minha cocota/A minha mina lá no largo do Estácio de Sá/Forget your troubles and dance...”.

Hoje, COCOTA virou GATA. cocuruto O alto da cabeça. Menino levado vivia batendo com o cocuruto em tudo quanto é lugar. “Mãe, bati com o cocuruto na janela!”, e lá vinha a mãe aflita com um pedaço de gelo enrolado num pano para tentar baixar aquele galo e fazer desaparecer aquele caroço no cocuruto. Que também era chamado de coco. “Ai meu coco!” Quem nunca ouviu isso sair da boca de uma criança muito antigamente?

Hoje, COCURUTO é chamado de CABEÇA.

colapso Diminuição da energia do sistema nervoso. Todo mundo que morria de repente morria de colapso. “Doutor Asplênio teve um colapso e morreu.” O colapso matava pessoas que ninguém esperava. Geralmente a pessoa acordava bem, tinha mil e um planos para o dia e, de repente, vinha o colapso e não havia o que fazer. Agora, quando o jornal dá como manchete que a greve dos motoristas provoca colapso na cidade, é outra história.

Hoje, COLAPSO virou ATAQUE CARDÍACO. colosso Maravilhoso, coisa que funciona. Todo mundo falava colosso a torto e a direito. “Comprei um carro que é um colosso!” “Esse escritor é um colosso!” “O apartamento que aluguei é um colosso!” Tudo o que era bom era um colosso. Quando íamos ao mercado, era comum ver o vendedor enfiar a faca no abacaxi e tirar um pedaço para você experimentar e dizer: “Experimente! Este abacaxi está um colosso!”.

Hoje, COLOSSO é o MÁXIMO. compact disc Substituto do vinil. O compact disc decretou a morte do vinil. E, quando surgiram, os primeiros eram chamados assim: compact disc, um disco compacto, sinônimo de modernidade. Os primeiros compact discs traziam as instruções de uso. Havia o receio de que o consumidor virasse o compact disc assim que terminasse a última música para ouvir o lado b.

Hoje, o COMPACT DISC é conhecido como CD. comportamento Ato de se comportar. Toda caderneta escolar trazia as notas de matemática, língua pátria (era assim que chamávamos o português), geografia, história, inglês, canto orfeônico. Mas tinha outra nota que só servia para levar bronca em casa. Era o tal do comportamento. Ninguém tomava bomba em comportamento, mas bastava uma nota nove nessa disciplina (se é que podemos chamar isso de disciplina) para o pai ralhar com os filhos. “O que aconteceu que você tirou nove em comportamento?” Bastava uma bolinha de papel na

cabeça do colega que sentava na primeira fila (o tal do cdf) para levar um nove em comportamento.

Hoje, o COMPORTAMENTO sumiu das escolas. comuna Comunista. Durante os anos de chumbo no Brasil era muito comum a gente ouvir que fulano ou beltrano era comuna. O comuna lia Marx e Engels, andava com uma bolsa a tiracolo, barba, sandália de couro e, se desse, uma camiseta de Che Guevara. O comuna era aquele que defendia Fidel Castro e Nikita Khrushchov a unhas e dentes. O comuna sonhava em colher cana na ilha de Cuba, ouvia Pablo Milanés, Silvio Rodriguez, Mercedes Sosa, Victor Jara e lutava para derrubar ditaduras. Comuna era uma espécie de abreviatura de comunista.

Hoje, COMUNA é o cara DE ESQUERDA. concubina Amante. A tfm – Tradicional Família Mineira – não podia nem ouvir falar na palavra concubina, quanto mais ver, sentir e conviver com a figura propriamente dita. Concubina era aquela que a tfm sabia que existia, mas fingia não saber. Concubina era um jeitinho mineiro de evitar dizer claramente que o cara tinha uma amante. As crianças, apesar de colocar o ouvido na parede para ouvir as fofocas da família, nunca entenderam direito o sentido de concubina.

Hoje, a CONCUBINA virou um CASO. condutor Aquele que conduz. “Pergunte para o condutor o ponto em que você deve descer.” Era assim que as pessoas aconselhavam quem não sabia o caminho ao subir no bonde. O condutor era aquele que conduzia o bonde, também chamado de motorneiro. Usava um boné azul-marinho e gostava de conversar com os passageiros, apesar do aviso bem em cima da sua cabeça afirmar: “Fale ao condutor somente o necessário”.

Hoje, o CONDUTOR é o MOTORISTA. conjuntinho

Combinação de duas peças de roupa. Que rapaz resistia a uma moça com um conjuntinho de Ban-Lon? Conjuntinho era o jeito que as moças da época arrumaram para combinar roupa. Tudo era muito combinadinho. A saia combinando com a blusa que combinava com a meia que combinava com o arco. Arco! Era assim que os mineiros chamavam a tiara. O conjunto mais famoso era o tal conjuntinho de Ban-Lon. Tratava-se de uma blusa de manga curta que se vestia por baixo de outra blusa de Ban-Lon de mangas compridas.

Hoje, o CONJUNTINHO só é usado por pessoas com mais de sessenta anos. conjunto Grupo musical. Acredite! Quando John, Paul, George e Ringo estraçalhavam corações cantando “Michelle”, aquilo ali não era uma banda de rock and roll, era um conjunto. Conjunto era a designação para qualquer formação de grupo musical. The Mamas & The Papas, Herman’s Hermits, The Monkees, The Rolling Stones, todos faziam parte de um conjunto. “Você vai à hora dançante hoje?”, perguntavam os rapazes. E as moças, animadíssimas, perguntavam: “Qual é o conjunto que vai tocar?”.

Hoje, CONJUNTO virou BANDA. constipado Resfriado ou estar com o intestino preso. Bastava o menino pegar um vento encanado para ficar constipado. Em Minas Gerais sempre foi assim. Nariz escorrendo, dor no corpo e aquele aperto no peito era sinal de constipação. Com o passar dos anos a constipação foi passando para o intestino. Menino que não ia ao troninho também estava constipado. Solução? Purgante nele! E adeus constipação.

Hoje, CONSTIPADO virou GRIPADO ou estar com PRISÃO DE VENTRE. convosco A pessoa com quem se fala. Não me lembro de alguém perguntando para o outro: “Ele vai convosco?”. Mas o convosco sempre existiu. E existiu no pai-nosso de cada dia, aquele pai-nosso que o padre sempre nos obrigava a rezar depois da confissão. Durante anos e anos toda uma geração rezou o pai-nosso e nunca se esqueceu de

dizer “o Senhor esteja convosco”.

Hoje, CONVOSCO virou CONTIGO. copiosamente Abundantemente. Chover sempre choveu. Muito ou pouco, toró ou garoa. Mas, quando a água resolvia descer pra valer do céu, as pessoas diziam que estava chovendo copiosamente. Chorar também se chorava pouco ou muito. Uma lagrimazinha caindo aqui ou pra valer, copiosamente. O grupo Swing & Simpatia cantava uma música chamada “Não vale a pena”, cuja letra era esta: “Não vale a pena/Você ficar aí tão triste/E chorando copiosamente/Não se condena/você fez tudo que podia/Pra fazer essa mina contente”.

Hoje, chover COPIOSAMENTE é chover PRA BURRO. coque Tipo de penteado. Quando a mulher estava apressada e não encontrava um jeito razoável de pentear o cabelo, ela fazia um coque. Era uma maneira simples de se arrumar. Era uma palavra muito usada. “Quem fez o seu coque?” “Que coque mais lindo!” “Você ficou ótima de coque!”

Hoje, o COQUE ainda existe, mas não se ouve mais “bonito o seu COQUE!” coqueluche A última moda. Rapaz com topete já foi coqueluche. Moça usando pega-rapaz também já foi coqueluche. A calça boca de sino, o bolero, a saia rodada, o saltinho Luís xv, o cabelo com laquê, tudo isso já foi coqueluche. Coqueluche era o que estava na moda. Coqueluche era também uma doença altamente contagiosa causada pela bactéria Bordetella pertussis. Quando uma criança tossia demais, a mãe logo desconfiava: “Vamos ao médico. Isso é coqueluche”. A doença anda meio fora de moda. Tem anos que não ouço dizer que alguém está com coqueluche.

Hoje, COQUELUCHE, no sentido de estar na moda, virou IN. cor da pele

Cor branca, mais ou menos bronzeada. Parece que o racismo era liberado para piadas. Uma delas dizia que um negro foi a uma farmácia e pediu esparadrapo cor da pele. E o farmacêutico respondeu: “Não vendemos fita isolante, senhor!”. Nada mais preconceituoso que isso. Mas, acredite, havia sim o esparadrapo cor da pele. Pele de quem, cara-pálida? Será que quem criou o esparadrapo cor da pele imaginava que todos tinham a pele da mesma cor? E os negros, mulatos, morenos, pardos, amarelos e índios peles-vermelhas?

Hoje, COR DA PELE ganhou o nome de NUDE. corner Momento em que a bola, tocada pelo jogador que defende, sai pela linha de fundo. Já imaginou o medo do goleiro na hora do pênalti? E na hora do corner não é muito diferente. Tem jogador que acha o corner tão perigoso quanto o pênalti. Tirando o exagero, o corner parece perigoso, perigosíssimo mesmo, principalmente quando faltam apenas alguns minutinhos para o final do jogo. Quando o locutor anuncia que aquela é a última oportunidade de gol. Corner é a hora em que o jogador da defesa joga a bola para a linha de fundo. Então, com o passar do tempo, a palavra corner foi sumindo para dar lugar ao que acontecia, a bola indo para a linha de fundo.

Hoje, CORNER virou LINHA DE FUNDO ou ESCANTEIO. coroca Velha caduca e feia. Toda família tinha uma velha coroca. Aquela tia que não se casou e foi ficando velha e velha e velha e cada vez mais caduca, mais implicante. Velha coroca, além de feia, costumava implicar com tudo. Até mesmo com o barulho de um filho comendo pepino ou um neto escovando os dentes. Quando ela começava a implicar com tudo, com o almoço que não estava pronto, o vidro de água vazio dentro da geladeira, alguém que deixou a tesoura fora do lugar era sinal de que tinha virado uma velha coroca.

Hoje, em vez de dizer que uma velha está meio COROCA, diz-se que está CADUCA. coroinha Aquele que ajuda o sacerdote. Toda igreja tinha um coroinha, um não, alguns. Coroinhas usavam uma espécie de batina vermelha com

um babador branco. Ajudavam a lavar a igreja, a colocar flores nos vasos, a acender as velas, a colocar água benta na entrada da igreja, a queimar o incenso na hora da missa, a segurar o cálice na hora da comunhão... O coroinha era o braço direito do sacerdote. Para ser coroinha bastava não ter pecados. Diziam.

Hoje, os tempos modernos não inventaram um novo nome para COROINHA. corrião Peça do vestuário feita de couro. O corrião servia para segurar as calças e bater em filho. O corrião ainda existe, mas ninguém mais fala essa palavra. Os corriões eram benfeitos, sempre de couro, bem costurados. Talvez tenha vindo daí a expressão “seu pai vai te dar um couro”. Isso significava que ele ia passar a mão no corrião e dar umas boas lambadas na bunda do filho.

Hoje, CORRIÃO virou CINTO. corriola Bandalheira. Quando o novo ministro do Turismo Gastão Vieira tomou posse, em setembro de 2011, acabou mais uma pequena crise do governo Dilma Rousseff e desenterrou uma palavra esquecida há muitos anos: corriola. Gastão garantiu à presidenta e ao povo brasileiro que não faz parte de nenhuma corriola. Esta é uma palavra que andava solta na boca de todos. Fazer parte de uma corriola era fazer parte de uma turma de picaretas, um bando de safados. Quando um político pisava na bola – e não é de hoje que pisam na bola –, logo diziam que ele era farinha do mesmo saco, que fazia parte de uma corriola.

Hoje, fazer parte de uma CORRIOLA é o mesmo que fazer parte de um grupo de CORRUPTOS. cortinado Pequena cortina para proteger recém-nascidos no berço. Bebê recém-nascido precisava de proteção. Proteção para passar a noite livre de pernilongos e muriçocas. O cortinado era uma cortina de tecido fino do tipo filó que envolvia todo o bercinho. Preocupação número um das avós corujas, as bochechas dos bebês poderiam ficar com aquelas brotoejas provocadas por insetos, que adoravam um sanguinho novo, se não houvesse o cortinado.

Hoje, ninguém mais se lembra do CORTINADO. coruja Mulher feia e rabugenta. Não, não é aquela expressão para mãe superprotetora e orgulhosa dos filhos, enxergando-os como os mais bonitos do mundo. Essa expressão ainda não sumiu do mapa. A que sumiu é para designar uma mulher feia. Mas feia de doer, horrorosa, medonha. Exagerando um pouco, uma mulher enrugada, com uma pinta na ponta do nariz, cabelo feito espiga de milho, meio corcunda, sem conserto. Ela podia até ser simpática e muito boazinha, mas coruja que era coruja era preciso ser feia pra valer. Quem não se lembra de Deno e Dino cantando “Coruja”. “Coruja ah ah ah/O nome que eu dei àquele alguém/Que passa e nem sequer olha ninguém/Pensando em só dar ela no lugar no lugar/Coruja ah ah ah/Você agindo assim só vai sofrer/Pois chegará um dia em que ninguém vai perceber/Que existe uma coruja no lugar”.

Hoje, CORUJA virou MULHER FEIA mesmo. coser Costurar. Não havia uma dona de casa que não tivesse uma máquina de costura. Toda mulher sabia costurar. E costurar dizia-se coser. “Não posso sair porque tenho muita roupa para coser”. Coser era fazer qualquer tipo de costura. Tirava-se o molde, cortava-se o tecido e cosia-se.

Hoje, COSER é simplesmente COSTURAR. cosmonauta Piloto de engenho espacial. As avós, aquelas avós bem velhinhas, continuam chamando astronauta de cosmonauta. Muitas delas nem acreditam muito que o homem pisou na Lua. O primeiro cosmonauta russo, Yuri Gagarin, foi para o espaço em 1961. O primeiro cosmonauta americano a ir para o espaço foi Alan Shepard, também em 1961. Havia uma guerra no ar entre russos e americanos. Os cosmonautas mais bacanas da Terra foram, sem dúvida, Aldrin, Armstrong e Collins, aqueles que em julho de 1969 pisaram pela primeira vez na Lua. Mas tinha também astronauta cubano – o Arnaldo Tamayo – e africano, o Patrick Baudry. Até uma cadela já deu uma de cosmonauta. A cadela soviética Laika, que não tem nada a ver com a máquina fotográfica. Não podemos deixar de mencionar aqui o nosso astronauta maior, o brasileiro Marcos Pontes.

Hoje, um COSMONAUTA é simplesmente um ASTRONAUTA.

cotelê Tecido em veludo ondulado. Impressionante como os nomes dos tecidos andavam na boca do povo. Gabardine, opaca, popeline, brim, algodão, pele de ovo. Houve uma época em que era muito moderno um homem vestir uma camisa de pele de ovo, sucesso de verões passados. O veludo cotelê teve seus dias de glória. Era muito chique dizer que uma roupa era feita de veludo cotelê. Um homem com calça de veludo cotelê era elegância pura. Agora, pijama de flanelinha, calça de brim e vestido de chita era coisa de gente pobre.

Hoje, COTELÊ continua sendo COTELÊ, mas poucas pessoas falam. cpor Centro de Preparação de Oficiais da Reserva. Se alguém aos dezoito anos caísse nas malhas do Exército, que fosse nas malhas do cpor. O cpor era o jeito chique de fazer o Tiro de Guerra, o serviço militar. Só tinha direito a fazer o cpor gente fina, jovens que já estavam caminhando firmes e fortes para a faculdade, para uma carreira promissora. Quem fazia cpor não passava por aquelas humilhações típicas de quem serve Exército. cpor era o lado chique, o outro lado do verde-oliva.

Hoje, ninguém mais diz que está fazendo CPOR. cravejado Repleto. Falava-se muito em cravejado. Primeiro era o anel, a coroa, o broche cravejado de brilhantes. E o outro cravejado era mais trash, era o corpo estendido no chão, cravejado de balas. Quantos e quantos bandidos não morreram com o corpo cravejado de balas. E quantas e quantas noivas não entraram na igreja com uma coroa na cabeça, cravejada de pedras preciosas...

Hoje, o CRAVEJADO é simplesmente CHEIO. creme rinse Produto para enxaguar o cabelo. Em outros tempos lavava-se o cabelo com sabão. Isso mesmo. Sabão. Até que um dia inventaram o xampu e foi a glória. Ninguém mais ficava com aquele cheiro de coco na cabeça. Mas, como o xampu deixava o cabelo meio embaraçado, alguém teve a feliz ideia de inventar o creme rinse, aquele creme que

desembaraçava o cabelo na hora. Não se sabe como essa palavra foi sumindo do mapa para dar lugar ao condicionador. Para facilitar as coisas, alguém inventou o dois em um. Na mesma embalagem o xampu e o condicionador. Condicionador! Creme rinse, jamais!

Hoje, CREME RINSE virou CONDICIONADOR. criada Pessoa encarregada de cuidar dos afazeres da casa. A criada não tinha carteira assinada, não tinha férias, não tinha nada. Para chamar uma criada, bastava tocar o sininho que ficava em cima da mesa. Blim, blim, blim e lá vinha a criada, silenciosa e submissa. A patroa dizia “água!” e lá vinha a criada com o copo d’água na bandeja. Mas criada não apenas servia a mesa. Lavava, passava, arrumava, cozinhava. Criada era pau pra toda obra.

Hoje, CRIADA virou EMPREGADA. crista da onda Estar na moda. Brigitte Bardot já esteve na crista da onda. Quando era jovem e bonita e brilhava nas telas do cinema em filmes como Moça sem véu. Jacqueline Kennedy também já esteve na crista da onda, quando era primeira-dama da Casa Branca, casada com John Kennedy. Alain Delon, Frank Sinatra, Audrey Hepburn, todos já estiveram na crista da onda. E era assim que se dizia quando uma pessoa estava no auge da carreira ou da vida social.

Hoje, em vez de CRISTA DA ONDA, se diz que a pessoa é UP ou TOP FIVE. crooner Cantor. Crooner era chique e era brega. Ricos gostavam de chamar cantor de crooner, uma coisa mais sofisticada, mais chique. A classe média sempre enxergou o crooner como coisa de rico, ao mesmo tempo em que o crooner de churrascaria, era coisa de pobre. Quem nunca ouviu um crooner de churrascaria cantando “Andança”? E o crooner de navio, aquele que animava as noites dos passageiros cantando “New York, New York” ou “It’s Now or Never”? Quem não se lembra?

Hoje, CROONER virou VOCALISTA.

cruz-credo Expressão para espantar coisa ruim, feia, indesejável. Era com um sonoro cruz-credo! (com exclamação e tudo) que as pessoas afastavam qualquer coisa ruim, atitude ou pensamento. “Sonhei que fulano morreu!” Aí vinha o espanto: “Cruz-credo!”. O cruz-credo andava lado a lado com uma espécie de assombração. Hoje, bem que poderia ser substituído por um xô. “Xô, Satanás!” ou um “tô” fora! Mineiros adoravam dizer: “Cruz-credo! Deus que me livre!”.

Hoje, CRUZ-CREDO virou XÔ! cuca Cabeça, cérebro. Cuca significa muita coisa. Uma espécie de bolo com cobertura de farinha e canela, um prato típico do sul do Brasil. Tem também a cuca de banana, que é uma delícia. Mas a cuca que desapareceu do mapa surgiu lá pelos anos 1960/1970, junto com o movimento hippie. “Vou fazer o que me der na cuca”, diziam os jovens cabeludos. E faziam mesmo. Com o passar dos anos, a palavra cuca ganhou alguns complementos. Quem não se lembra de um cara cuca legal? E aquele maluco que era lelé da cuca? A palavra entrou para a história com aquele raivoso discurso de Caetano Veloso em 1969: “Fora do tom, sem melodia. Como é, júri? Não acertaram? Qualificaram a melodia de Gilberto Gil? Ficaram por fora. Gil fundiu a cuca de vocês, hein? É assim que eu quero ver! Chega!”.

Hoje, CUCA virou apenas CABEÇA. cucuias Sinal de fracasso. Lugar longe e desconhecido. “Manda pras cucuias!” Isso significava simplesmente que a pessoa tinha chutado o pau da barraca, estava pouco se lixando. Ir para as cucuias significava ir para um lugar desconhecido, longe, pensando bem, que não existia. Quando uma pessoa dizia que o projeto tinha ido pras cucuias, é porque o projeto havia fracassado ou o dono dele havia desistido de levar aquela ideia adiante.

Hoje, dizer que foi pras CUCUIAS, quer dizer simplesmente DANOUSE. cueiro Peça do enxoval de bebê.

O cueiro era uma peça de flanela fina que servia para deixar o bebê bem amarradinho. Pensando bem, era uma espécie de camisa de força disfarçada. Para que o bebê não ficasse agitado, batendo perninhas e bracinhos, embrulhava-se o pobre coitado no cueiro e ele não conseguia nem respirar direito. E funcionava. O bebê ficava ali durinho, durinho, só piscando os olhinhos.

Hoje, quem ainda usa CUEIRO continua chamando a peça de CUEIRO. cupincha Amigo, parceiro, comparsa. Cupincha queria dizer que a pessoa era meio protegida da outra. “O chefe promoveu a Adaléa porque ela é cupincha dele”, diziam os invejosos, mas com certa razão. Às vezes, pessoas assumiam mesmo esse tipo de proteção, de amizade, de parceria. “Este aqui é meu cupincha.” Era uma palavra muito usada. Ser cupincha era tudo.

Hoje, CUPINCHA quer dizer MEU BROTHER. curé Vergonha, vexame. Passar um curé ninguém queria. Era um tipo de vexame, mas desses vexames que não têm conserto. Era dar um fora bem dado e ficar com cara de tacho. Quer um exemplo? Um jovem era pego em flagrante pelo pai beijando a namorada. “Estava no maior amasso quando o pai chegou e eu passei o maior curé.”

Hoje, CURÉ significa DAR UM FORA. cursilho Movimento cristão. Os fiéis andavam com fé. Iam à missa aos domingos, confessavam, comungavam e quando a coisa não ia muito bem, principalmente entre os casais, a solução era fazer cursilho. De tempos em tempos ouvíamos os pais dizer: “A Neusa e o Barbosa estão fazendo cursilho”. Aquilo significava que passariam alguns dias fora do ar, numa espécie de meditação, e que, mais cedo ou mais tarde, a vida entraria nos eixos, no lugar, nos trilhos.

Hoje, em vez de CURSILHO, os casais DÃO UM TEMPO.

cutuba Gente que faz. Bastava o filho trazer o boletim todo azul que o pai enchia o peito e se orgulhava em dizer: “Este meu filho é mesmo cutuba!”. Cutuba era também aquele mecânico que consertava o carro num instante, aquela cozinheira que fazia aquele frango ao molho pardo, aquele prefeito que mandava asfaltar a rua. Quando a pessoa era muito cutuba, mas muito cutuba mesmo, era chamada de cutuba na queda.

Hoje, CUTUBA é chamado de BACANA.

dar bandeira Deixar à mostra aquilo que devia ocultar. Como se dava bandeira! Dar bandeira era deixar escapar sentimentos ou ações e só perceber depois do leite derramado. A traição andava lado a lado ao dar bandeira. Chegar em casa com uma marca de batom no rosto, um número de telefone no bolso da calça, uma desculpa de que teve de ficar até mais tarde no escritório ou, então, chegar em casa de cabelo molhado – isso sim era dar a maior bandeira. A expressão ficou famosa com a composição de Caetano Veloso “De noite na cama”. Quem não se lembra dos versos? “De noite na cama, eu fico pensando/Se você me ama... E quando/Se você me ama, eu fico pensando/De noite na cama... E quando/De dia eu faço graça/Pra não dar bandeira/Não deixo você ver/De dia o tempo passa como brincadeira.”

Hoje, DAR BANDEIRA é o mesmo que DAR MANCADA. dar no couro Ser macho, não falhar na hora H. Homem que era homem, homem com h, não podia nem ouvir falar que não estava mais dando no couro. Ninguém falava muito claramente as coisas. O cara que não estava mais dando no couro não era aquele que não gostava mais de mulher; ao contrário, gostava sim, mas na hora do vamos ver falhava.

Hoje, um homem que NÃO DÁ NO COURO é um homem BROCHA. dar no pé

Ir embora rapidinho. Quando a coisa apertava, as pessoas davam no pé. Dar no pé era simplesmente sair à francesa, mas rapidinho. As pessoas davam no pé quando o assunto estava meio chato, a sogra anunciava que estava chegando, o seu time estava perdendo de três a zero aos quarenta minutos do segundo tempo. O torcedor não queria mais ficar no campo para aguentar a gozação dos amigos. Ele dava no pé.

Hoje, DAR NO PÉ virou SE MANDAR. dark Escuro, um jeito sombrio de ser. Foi lá pelos anos 1980 que surgiu a expressão. Em São Paulo, o templo dos darks era o Madame Satã, uma boate onde todas as pessoas eram meio pálidas, sombrias e se vestiam dos pés à cabeça de preto. No Rio, o ponto de encontro era o Crepúsculo de Cubatão. O dark não tinha nada a ver com o país tropical, mas reinou durante bons anos. Havia bandas dark, som dark, tudo muito sombrio.

Hoje, o DARK virou GÓTICO. datilógrafo Aquele que escreve à máquina de escrever. Ninguém nascia sabendo digitar. A máquina de escrever era um objeto que só podia ser manipulado por maiores de dezoito anos. O jovem fazia dezoito anos e entrava na escola de datilografia para aprender a bater à máquina. Quem tem mais de cinquenta sabe muito bem o que significa aquela primeira aula em que se ensina a datilografar A, S, D, F e G. Os alunos voltavam para casa depois dessa primeira lição com os dedos, os pulsos, as mãos doendo. Aos poucos, se aprendia a bater à máquina. O ideal era sem olhar o teclado, e quem batia com muita rapidez era chamado de exímio datilógrafo.

Hoje, um DATILÓGRAFO é um DIGITADOR. debelar Vencer, dominar. Já percebeu que a palavra debelar quando é usada ainda hoje é sempre em passagens de repórteres que dizem que o fogo já foi debelado? Repórter acha imponente dizer debelar, e não apagar. Fica feio dizer que os bombeiros já apagaram o fogo. É mais chique dizer que o fogo foi debelado. Mas, pensando bem, debelar o fogo é nada mais, nada menos que controlar o fogo, apagar.

Hoje, DEBELAR é APAGAR. decoreba Ato de decorar. Dois mais dois, quatro. Quatro vezes quatro, dezesseis. Oito vezes oito, sessenta e quatro. Nove vezes nove, oitenta e um. Aprender tabuada era na base da decoreba. Decoreba era ficar horas e horas decorando alguma coisa. Tínhamos de saber de cor e salteado. E não eram somente as contas de somar, diminuir, multiplicar e subtrair. Quem nunca passou um tempão decorando as capitais do Japão, da Suécia, da Noruega? Quem nunca decorou o que é uma ilha, o coletivo de lobos, quem descobriu o Brasil?

Hoje, DECOREBA virou MEMÓRIA. dedéu Muito, demais. Falava-se dedéu pra dedéu. Dedéu significava muito, demais. “A festa foi boa pra dedéu!”, diziam os baladeiros da época. “Este peixe está bom pra dedéu!”, diziam os veranistas à beira da praia. Aos poucos, essa palavra foi sendo substituída pelo seu significado. “A festa estava demais!”

Hoje, pra DEDÉU significa pra CARAMBA. degringolar Desmantelar. Quando uma situação degringolava era porque não tinha mais jeito. Sinal de que não tinha mais volta, vazou, saiu do controle, degringolou. Só que degringolar estava na boca do povo. “Esta linha de ônibus estava funcionando muito bem quando inaugurou, agora já degringolou”, diziam os passageiros.

Hoje, DEGRINGOLAR quer dizer FOI POR ÁGUA ABAIXO. deixar cair Vamos nessa. O cantor Wilson Simonal era o pai do deixa cair. Chegou até mesmo a lançar um disco de vinil com esse nome. A capa era uma foto dele, em pé, que trazia escrito em um balão: “Vou deixar cair”. Conhecido como o rei da pilantragem, o bom e velho Simonal, antes de começar a cantar suas canções de sucesso,

gostava de soltar esta: “Vou deixar cair...”. E deixava mesmo.

Hoje, DEIXAR CAIR é mais ou menos NA BOA. delonga Sem se prolongar muito. Quando alguém começava a falar demais, a explicar uma coisa simples uma, duas, três vezes, havia sempre alguém que dizia: “Vamos, acelera! Sem muita delonga”. Isso significava o seguinte: edita! Quem gosta de agir com delonga é o compositor Gilberto Gil. Para explicar que dois e dois são quatro, ele é capaz de dar a volta ao mundo em explicações, em achados filosóficos.

Hoje, sem mais DELONGA quer dizer mais ou menos sem ENROLAR. dentifrício Pasta de dentes. É coisa de mineiro chamar pasta de dentes de dentifrício. Ouvia-se muito em Minas Gerais: “O melhor dentifrício que tem é o Kolynos!”. Não tinha diferença nenhuma entre pasta de dentes e dentifrício. Era apenas um jeitinho mineiro de chamar o Kolynos, o Colgate e a pasta de dentes Philips com leite de magnésia.

Hoje, DENTIFRÍCIO é PASTA DE DENTES, até mesmo em Minas Gerais. desanuviar Tranquilizar. Quando a pressão era muito grande, e os problemas pareciam não ter solução, a pessoa costumava dizer: “Vou viajar para dar uma desanuviada”. Dar uma desanuviada era tentar esquecer, mudar de assunto. Nem sempre dava certo, mas que o melhor remédio para desanuviar é um sítio, uma praia ou, quem sabe, um cineminha, disso não resta a menor dúvida.

Hoje, DESANUVIAR é ESFRIAR A CABEÇA. desarranjado

Funcionando mal. Um comprimidinho marrom chamado Enteroviofórmio era, sem dúvida, o melhor remédio para intestino desarranjado. Hoje, é comum alguém dizer: “Aquela empadinha de camarão não me caiu bem”. Há algum tempo dizia-se: “Aquela empadinha de camarão me deixou com o intestino desarranjado”. E não era só empadinha de camarão que deixava o intestino desarranjado. Sabe aquele leitão à pururuca? Pois é. Intestino desarranjado era muito conhecido como disenteria.

Hoje, quem está com o intestino DESARRANJADO diz que está com uma BAITA DOR DE BARRIGA. desbundar Sair do eixo. Tempos atrás, quantas e quantas pessoas não desbundaram. O desbunde nasceu em Ipanema junto com o jornal que fez história, O Pasquim. O jovem que resolvia deixar a caretice de lado, romper os padrões convencionais, desbundava. O desbunde mais tarde virou adjetivo: “Aquela praia é um desbunde!”, “O apartamento do Caetano é um desbunde!” “O livro Eram os deuses astronautas é um desbunde!”

Hoje, DESBUNDAR virou SE JOGAR. descompostura Admoestação rude. Durante a prova de matemática, um aluno ficou olhando para as pernas da coleguinha ao lado. Outro escreveu a fórmula da equação na mão, outro ainda levou um pedacinho de papel com várias fórmulas que ele não conseguia decorar. E mais um aluno ficou espiando a prova do colega da frente. Sabe o que aconteceu? A professora observou tudo e acabou passando a maior descompostura em todos eles. Ninguém gostava de receber uma descompostura. E não era pra menos.

Hoje, uma DESCOMPOSTURA é uma BRONCA. desembestado Desenfreado. Enquanto alguns playboys subiam a rua Augusta a 120 por hora, ao som da canção de Hervé Cordovil, outros desciam desembestados. Descer uma rua desembestado era descer sem colocar o pé no freio, apenas no acelerador. Quando havia uma batida feia, alguém sempre comentava: “É claro, ele desceu a avenida desembestado...”.

Hoje, em vez de dizer DESEMBESTADO, diz-se A MIL. desligado Com o pensamento em outro lugar. Andar desligado era estar com o pensamento longe. Enquanto alguma coisa acontecia aqui, bem pertinho, o pensamento estava do outro lado do planeta. Os Mutantes, nos anos 1960, viviam tão desligados que fizeram uma música chamada “Ando meio desligado”. Foi um sucesso. “Ando meio desligado/Eu nem sinto meus pés no chão/Olho e não vejo nada/Eu só penso se você me quer.”

Hoje, estar DESLIGADO é estar NO MUNDO DA LUA. desmilinguido Cansado, fraco, debilitado. Havia várias maneiras de uma pessoa ficar desmilinguida. Aquele cara que passava o dia no porto carregando sacos nas costas chegava em casa desmilinguido. Um motorista que passava quinze horas ao volante numa estrada cheia de buracos na Bahia chegava ao fim do dia desmilinguido. Quem passava um grande estresse, uma tentativa de assalto com revólver no ouvido, dizia também: “Estou desmilinguido!”. A palavra – que está agonizando – apareceu um dia numa letra de Miguel Gustavo (“O último dos moicanos”): “Como Hollywood está meio desmilinguida/Eu vou passar para o cinema italiano/Pra descansar eu vou filmar La Dolce Vita”.

Hoje, quem está DESMILINGUIDO diz que está MORTO. desmunhecar Fazer gestos e insinuar com a mão que é gay. Gay era chamado de maricas, mulherzinha, bicha, pederasta, veado. Músicas insinuavam: “Olha a cabeleira do Zezé/Será que ele é?/Será que ele é?/Será que ele é bossa-nova?/Será que ele é Maomé?/Mas isso eu não sei se ele é!/Corta o cabelo dele!/Corta o cabelo dele!”. Bastava ser cabeludo que havia uma desconfiança. Não era fácil assumir a homossexualidade para a família, para a sociedade. Mas a certeza de que um homem era gay era a desmunhecada. Bastava virar a mão, dar um olhar de lado, uma viradinha no corpo e dizer “Eu, hein?” que vinha a certeza. Ele desmunhecou.

Hoje, DESMUNHECAR é FICAR AFETADO. desopilar

Relaxar, rir. O mais comum era dizer “vou desopilar o fígado”, como se o fígado fosse o centro nevrálgico de qualquer estresse, de qualquer sobrecarga, de qualquer aborrecimento. A pessoa ia se aborrecendo, se aborrecendo, se estressando e quando chegava ao ápice dizia que ia desopilar o fígado. Desopilar o fígado era se afastar física e mentalmente de um problema que estava enchendo o saco. Saltar fora, baixar a poeira, esfriar a cabeça. Muitas vezes a pessoa desopilava o fígado sem ter grandes problemas. Era só para rir mesmo.

Hoje, DESOPILAR é DAR UMA RELAXADA. deveras Verdade? Era só alguém desconfiar se o caso era mesmo verdadeiro ou não para perguntar: “Deveras?”. Para tudo de que se duvidava vinha a pergunta “deveras?”. “Você acredita que o Democrata ganhou do Cruzeiro?” “Deveras?” Deveras era uma espécie de desconfiança. Sempre que a palavra aparecia numa roda é porque o caso era meio duvidoso.

Hoje, o DEVERAS virou VERDADE? diacho Desabafo em momento de indignação. A expressão surgiu de repente e começou a ser usada em qualquer momento de indignação. “Que diacho!” Tudo era diacho quando as coisas não davam muito certo. Quando alguém não entendia muito bem uma situação, vinha a pergunta: “Mas que diacho é isso?”. Enfim, diacho servia para qualquer tipo de indignação ou interrogação.

Hoje, DIACHO virou CARAMBA. disc jockey Discotecário. A palavra disc jockey é tão antiga quanto o seu significado: discotecário. O primeiro grande disc jockey brasileiro foi Newton Alvarenga Duarte, o grande Big Boy, aquele que cumprimentava seus ouvintes da rádio com um “Hello, crazy people!”. O disc jockey não deixava nunca a pista de dança esvaziar. Quando um, dois, três iam saindo, ele incrementava um Gerson King Combo que não deixava ninguém parado.

Hoje, o DISC JOCKEY virou DJ. do peru Coisa boa. Não se sabe de onde surgiu essa expressão, mas eis que, de repente, o Brasil inteiro começou a dizer do peru. Diziam que o disco novo dos Beatles era do peru, bem como a macarronada no domingo também era do peru. Tudo de bom era do peru. Os livros de Carlos Castañeda eram do peru e viajar de carona para Arembepe também era do peru. Até mesmo Lima sempre foi a capital do Peru.

Hoje, uma coisa DO PERU é uma coisa GENIAL. dobrar de rir Rir pra valer. Não sei se o mundo era mais engraçado, mas as pessoas dobravam de rir. Dobrar de rir era rir pra valer, com vontade, dar gargalhadas a ponto de ficar com dor de barriga. Não por causa de uma piada muito boa, mas muitas vezes por uma situação que se presenciou. Às vezes, um motivo bobo era motivo para se dobrar de rir. Não sei se o mundo era mais ou menos engraçado, mas que as pessoas dobravam mais de rir que agora é verdade.

Hoje, DOBRAR DE RIR é a mesma coisa que CHORAR DE RIR. duca Abreviatura de “do caralho”. Mais uma invenção da turma de O Pasquim, jornal alternativo que sacudiu a imprensa brasileira no final dos anos 1960. Era um jornal duca. Como os militares de plantão não permitiam imprimir “do caralho” no jornal, a turma do Pasquim – Millôr, Ziraldo, Henfil, Jaguar, Francis e muitos outros – achou uma maneira duca de dizer “do caralho”.

Hoje, DUCA voltou a ser DO CARALHO.

elã Atitude súbita. Quando, de repente, alguém tomava uma decisão, uma atitude súbita, dizia-se que foi no elã... As pessoas usavam essa palavra para designar aquela atitude decidida que uma pessoa tomava, sem muito pestanejar. “Foi no elã do amanhecer que ela decidiu pegar a estrada rumo ao Rio.”

Hoje, ELÃ virou IMPULSO. embananado Atrapalhado. “Não vai dar para ir porque estou meio embananado.” Era essa a desculpa de quem não queria ir a alguma festa, casamento ou batizado. Estar embananado era estar meio atrapalhado, com afazeres atrasados.

Hoje, um cara que está EMBANANADO é um cara que está ENROLADO. embasbacado Surpreso. Quando uma garota de parar o comércio dava bola para um cara meia boca, ele seguramente ficava

embasbacado. Como ficava embasbacado aquele que não sabia resolver uma situação, por mais simples que fosse. No livro Só garotos, Patti Smith lembrou a palavra: “Tenho certeza de que, enquanto descíamos a grande escadaria, eu parecia ser a mesma de sempre, uma menina embasbacada de doze anos, toda braços e pernas”.

Hoje, estar EMBASBACADO é estar CHOCADO. embatucado Calado, mudo, silencioso. Quando se via uma pessoa lá no canto, quieta, calada, era porque ela estava embatucada com alguma coisa. Algum problema não resolvido, alguma preocupação. A pessoa embatucada ficava meio cabisbaixa, com os lábios frisados e o olhar meio distante. Lá no horizonte estava o problema, o X da questão. Quando a questão fosse resolvida, a pessoa deixava de ficar embatucada.

Hoje, um cara que está EMBATUCADO é um cara PREOCUPADO. embromar Enrolar. Aos 45 minutos do segundo tempo um time que precisasse de um empate para ser campeão, e o jogo estava zero a zero, fazia o quê? Embromava. Continua embromando até hoje, mas ninguém mais fala embromando. E não era só jogador de futebol que embromava. Embromavam todos aqueles que queriam dar uma enrolada, uma catimbada. Ah, catimbar era uma palavra usada por locutores esportivos. Noivos, aqueles noivos que não estavam a fim de passar para a condição de casados tão rapidamente, também embromavam. Ainda embromam, não é mesmo?

Hoje, EMBROMAR é EMPURRAR COM A BARRIGA. embrulho Pacote. “Ele está carregando um embrulho.”“Você leva pra mim esse embrulho?”“Pode entregar este embrulho nos Correios?” Tudo o que se embrulhava era um embrulho. A palavra foi sumindo aos poucos, virando pacote. E hoje é encomenda. Quando uma comida não caía bem, costumava-se dizer que o estômago estava embrulhado. E, quando uma pessoa desconfiava que estava sendo passada pra trás, ela dizia: “Você está me embrulhando”.

Hoje, um EMBRULHO virou uma ENCOMENDA.

emburrado Pessoa com a cara fechada, chateado. As mães costumavam dizer aos filhos que amanheciam emburrados que tinham acordado com o ovo atravessado, que haviam amarrado o burro no toco. Talvez desse burro amarrado no toco tenha surgido a palavra emburrado. Eram pessoas que não estavam pra brincadeira, não estavam com o menor espírito de humor. Estavam mesmo emburradas. Algumas fechavam a cara por um bom tempo, faziam biquinho e não queriam conversa com ninguém.

Hoje, quem está EMBURRADO está MAL-HUMORADO. emérito Aquele que tem grande saber. Não existia emérito pé-rapado. Bastava dizer que era emérito, era importante, sábio, gente de bem, com um cargo importante. Todo bajulador gostava de encher a boca ao começar um discurso e soltar um... emérito! Emérito era uma espécie de mandachuva, um doutor. Não tinha discurso sem um emérito. No dia a dia ninguém usava muito essa palavra, mas em discursos lá estava ela. O emérito sempre agradecia ao final das palavras, todas elas elogiosas.

Hoje, um EMÉRITO é um SENHOR. empanturrado Estar com o estômago cheio. Quem ler o verbete empanzinado abaixo, vai entender direitinho o que é estar empanturrado. É mais ou menos a mesma coisa, só que estar empanturrado é um jeitinho mais chulo de dizer que está empanzinado. Empanturrado era aquele que comia sem parar, não aguentava nem andar direito depois de encher a barriga. E põe encher nisso. Alguns diziam mesmo: “Enchi a pança que não estou aguentando mais andar”. A vergonha vinha depois de pisar na balança.

Hoje, ninguém mais fica EMPANTURRADO, fica CHEIO. empanzinado Com a barriga cheia. Não havia essa história de dieta, de comida light, de bebida zero. As pessoas comiam de tudo e comiam muito. Ninguém resistia a um belo pf, aquele prato feito com arroz, feijão, bife, salada e batata frita.

Ninguém media o índice de colesterol ao comer um torresminho, meia dúzia de coraçõezinhos de galinha, moelas ou jiló à milanesa sempre acompanhado de uma cervejinha estupidamente gelada. Trabalhadores, então, nem se fala. Comiam pra valer e não era só para forrar o estômago, era para enchê-lo. E, quando a pessoa ia comendo, comendo, comendo até ficar cheia, dizia-se que estava empanzinada. Se reclamava que havia comido demais, estava reclamando de barriga cheia.

Hoje, quem está EMPANZINADO está SATISFEITO. empaquei Parei. As pessoas viviam empacando. Primeiro, empacava-se somente em cima de um cavalo. Quando o bicho resolvia parar, dizia-se que ele havia empacado. Mas depois o empacar começou a ser usado para tudo. “Estava escrevendo uma carta para a minha namorada, mas empaquei”. “Estava fazendo um trabalho de escola, mas, não sei por que, empaquei.” Empacava-se até lendo um livro. Quando a leitura não andava, dizia-se que estava empacado no primeiro capítulo.

Hoje, as pessoas não dizem mais EMPAQUEI, dizem DEI PAUSE. empelotado Cheio de caroço. Como as comidas empelotavam! Angu empelotava, arroz empelotava, tutu empelotava. Não era para menos. Era só colocar água fria no feijão, no fubá ou no arroz que empelotava. E não adiantava muito ficar mexendo. Depois de empelotado, era difícil. Mas não era só comida que empelotava. A pele também empelotava. Bastava fazer um passeio no mato para voltar todo picado de formiga, todo empelotado. Bastava pintar uma alergia que as pessoas diziam que estavam empelotadas.

Hoje, em vez de EMPELOTADO, diz-se que está ENCAROÇADO. emperequetar Pessoa que se enfeita em excesso. Toda família tinha uma tia que gostava de se emperequetar. Tudo era over nessa figura. Anel, pulseira, bracelete, óculos grandes, colar, brinco. Tudo era excesso e reluzia, apesar de não ser ouro, geralmente bijuteria. Mulher emperequetada adorava um salto alto, uma saia justa, uma meia fina. Bastava uma olhada para perceber que tudo ali era over. A começar pelo tamanho do anel. Uma mulher emperequetada gostava de perfume doce. Sabíamos com alguns minutos de antecedência que ela estava se aproximando, porque o perfume chegava antes.

Hoje, uma pessoa EMPEREQUETADA é uma PERUA. empetecada Pessoa com muitos enfeites. Esse verbete é irmão do verbete anterior. A mulher empetecada era aquela que não se satisfazia com um enfeitezinho aqui, outro ali. Espalhava enfeites por todas as partes do corpo e ficava parecendo uma árvore de Natal. Enfeitava-se dos pés à cabeça, uma loucura.

Hoje, uma mulher EMPETECADA é uma mulher OVER. emplastro Forma de medicação caseira. Emplastro é uma forma de medicação caseira transdérmica caracterizada pela colocação sobre a pele de alguma substância sólida quente com o intuito de esquentar ou amolecer os tecidos, acelerando o processo de cura. Diz a lenda que um emplastro de sal é bom para dor de estômago, o de tofu serve para baixar a febre e o de batata-doce para acabar com as acnes. Emplastro era muito comum, toda mãe fazia, como se fossem curandeiras. Quando se falava em emplastro industrial, era emplastro Sabiá. Não havia outro.

Hoje, o EMPLASTRO virou COMPRESSA. empolado Que se empolou. Todo bebê vivia com o corpinho empolado. E as mães tinham sempre uma boa desculpa: “Ele está assim todo empolado porque mudei o leite”. Essa era a desculpa mais comum. Bebê empolado ficava cheio de brotoejas espalhadas pelo corpo. Manchinhas vermelhas que muitas vezes coçavam bastante. As mães viviam recomendando: “Não coça não, porque senão você vai ficar mais empolado ainda”.

Hoje, um bebê EMPOLADO é um bebê cheio de BROTOEJAS. empoleirar Subir no poleiro. Poleiro era uma coisa que existia em todo galinheiro. Estou falando de galinheiro de galinha caipira, não dessas granjas de agora. Era no poleiro que as galinhas se empoleiravam quando caía a tarde e começava

a noite. Mas os pais, que tinham quatro, cinco filhos, viviam dizendo para a criançada: “Não empoleira!”. Criança empoleirar era subir nas cadeiras, das cadeiras passarem para a mesa e por aí vai. Crianças empoleiravam também em cima dos pais. Empoleirar era debruçar nos ombros dos pais para bisbilhotar alguma coisa, muitas vezes proibida para menores de dezoito anos.

Hoje, em vez de dizer não EMPOLEIRA, as pessoas dizem SAI DA MINHA ASA. encabrunhado Tímido. Uma pessoa encabrunhada era meio tímida, meio desconfiada. Professoras costumavam dizer aos alunos tímidos, aqueles que se escondiam na hora da arguição: “Vem cá na frente, não fique encabrunhado”. Quanto mais a professora dizia isso, mais o pobre coitado do aluno ficava encabrunhado.

Hoje, um menino ENCABRUNHADO é um menino DESCONFIADO. encabulado Pessoa com vergonha. Toda sala de aula tinha um encabulado. Geralmente, ele era bem branquinho e ficava vermelho, vermelho não, roxo de vergonha quando se via no centro das atenções. Muitas vezes, usava óculos e era muito estudioso, mais conhecido como cdf. O encabulado tinha vergonha de tudo. De ir ao quadro-negro, de responder a uma questão na hora da arguição e, principalmente, de admitir que estava apaixonado por uma colega de sala.

Hoje, o ENCABULADO é simplesmente o ENVERGONHADO. encafifado Preocupado, com ideia fixa em alguma coisa. Cafifa é a mesma coisa que pipa, em algumas regiões do Brasil conhecida como papagaio. Mas quer dizer também uma espécie de macumba. Em Minas, era muito comum ouvir: “Não sei o que está acontecendo comigo, acho que fizeram uma cafifa”. Encafifado deve ter vindo daí. Uma pessoa encafifada é aquela pessoa com ideia fixa em alguma coisa mal resolvida. No auge da era hippie, uma pessoa encafifada estava encucada.

Hoje, uma pessoa ENCAFIFADA está COM A PULGA ATRÁS DA ORELHA.

encalacrado Atrapalhado. Quando uma pessoa topava com uma pedra no caminho, um problema que não se resolvia por um ou outro motivo, ela dizia que estava meio encalacrada. Era uma boa desculpa para adiar compromissos, por exemplo. “Não vai dar para ir ao casamento porque estou encalacrado com uma coisa aqui”. Encalacrava-se sempre com alguma coisa não muito identificada.

Hoje, quem está ENCALACRADO está ATRAPALHADO. encalhada Solteira. Os tempos mudaram. Tempos atrás, uma mulher com vinte e poucos anos solteira já era uma encalhada, uma mulher que ficou pra titia. O casamento parecia uma coisa obrigatória. Aquela que não se casava era olhada, coitada, com outros olhos. Era batata! Toda mulher encalhada bordava bem, tocava piano e gostava de gatos. A impressão que tínhamos era que o casamento seria a realização plena de uma mulher. Se não casasse, tragédia! Ficava encalhada, como aquelas baleias na praia que não conseguem mais voltar para o mar.

Hoje, uma mulher ENCALHADA é uma moça FREE. encanar Preocupar. Se alguém estava encanado é porque estava preocupado com alguma coisa. Ficava-se encanado com o carro que não queria pegar, com a luz que ficava piscando, com a filha que voltava tarde da rua, com a televisão que saía do ar, com o vazamento de água, muitas vezes por culpa do cano.

Hoje, ENCANAR é o mesmo que PREOCUPAR. encher Chatear. “Para de encher!” Era assim que um irmão dizia ao outro quando estavam brigando. Encher era fazer picuinha, insistir com brincadeiras bobas e não correspondidas. Aos poucos, o encher foi acrescentado de “o saco”. “Para de encher o saco!” Na música popular brasileira, a palavra aparece no segundo disco de Gilberto Gil, na canção “Pega a voga, cabeludo!” Lá pelas tantas, Gil grita: “Ê, Manoel, para de

encher!”. Esse Manoel era o Manoel Barenbein, produtor do antológico disco tropicalista de Gil.

Hoje, ENCHER significa PENTELHAR. encher linguiça Arte de preencher espaços vazios com enrolação. É verdade que as pessoas que trabalhavam em frigoríficos enchendo linguiça viam o tempo passar, passar, e elas ali, enchendo linguiça. Hoje, os frigoríficos são automáticos, mas muita gente continua enchendo linguiça. Só que aos poucos a expressão vai sumindo do dia a dia. É mais comum dizer “não enrola não” do que “para de encher linguiça”. Encher linguiça era a arte de preencher espaços vazios com enrolação. Em trabalhos escolares, muitos estudantes acrescentavam coisas inúteis num texto só para ele ganhar corpo, ficar do tamanho exigido. Isto é, enchiam linguiça.

Hoje, ENCHER LINGUIÇA significa ENROLAR. encosto Espírito maligno que se apodera de um corpo. As pessoas usavam a palavra encosto como se fosse uma espécie de macumba. “Ando sem sorte, parece que estou com um encosto.” Quando tudo começava a dar errado na vida de uma pessoa, na certa era encosto. Assim as pessoas acreditavam.

Hoje, ENCOSTO é MAU-OLHADO. encruar Não cozinhar o suficiente. Cozinhava-se muito em casa. O fogão vivia quente. Acabava o café da manhã, vinha o almoço. Acabava o almoço, vinha o lanche da tarde, acabava o lanche da tarde vinha o jantar. Era comum uma dona de casa dizer que começou a fazer o bolo e que ele havia encruado. Bolo encruado era aquele que não crescia, ficava massudo, com um aspecto horroroso. Mas o termo saiu da cozinha e foi para a sala, para a roda de conversa. “Aquela ideia de ir para a capital encruou.” Quer dizer, não deu certo.

Hoje, ENCRUAR é MICAR. enfastiado Cansado de alguma coisa.

Enfastiava-se de tudo. De comer peixe todo dia, do trabalho burocrático no banco, de passar horas na estrada viajando, de ouvir vinte vezes a mesma canção do Roberto. Enfim, enfastiava-se. Muitos genros se enfastiavam das sogras e desabafavam com as filhas: “Estou enfastiado da sua mãe”. Quer dizer, cansado, de saco na lua.

Hoje, um ENFASTIADO está de SACO CHEIO. enfatiotado Vestido com requinte. Um cavalheiro de fina estampa era um cavalheiro enfatiotado. Gente fina, sapatos de cromo alemão, terno de linho, abotoaduras, prendedor de gravata (gravata de seda, claro) e cabelos sempre muito bem penteados, armados com brilhantina. Esses glostorados adoravam quando chegavam a algum ambiente e alguém comentava: “Olha só a fatiota dele!”. Quando diziam isso é porque a figura estava mesmo enfatiotada.

Hoje, um ENFATIOTADO é uma pessoa ELEGANTE. engomar Passar a roupa com um preparado à base de goma. Havia uma grande preocupação das donas de casa com as camisas dos maridos. Mulher prendada era aquela que engomava e passava caprichosamente as camisas sociais com que eles iriam para o trabalho. A goma era à base de farinha de trigo, produto caseiro. A mulher preparava a goma e, com um paninho umedecido, passava na camisa e só então vinha o ferro quente. Percebia-se quem era marido de mulher prendada pela camisa engomada.

Hoje, ENGOMAR uma roupa é coisa rara. engradado Recipiente para guardar e transportar bebidas. As garrafas eram de vidro. Só havia garrafa de vidro. Ninguém havia tido a ideia, ainda, de colocar bebidas em garrafas de plástico. Não havia nada descartável. As garrafas iam e voltavam em engradados. Engradados de madeira. Não havia muita preocupação com o desmatamento. Tudo era de madeira. O escorredor de prato, o cabo de vassoura e até mesmo a embalagem do chá Mate Leão vinha numa caixinha de madeira. Só se falava engradado: “Vou comprar um engradado de cerveja, um engradado de Coca-Cola, um engradado de Pepsi-Cola”. Com o passar dos anos, os engradados, de tanto ir e vir, ficaram estropiados e aos poucos sumiram do mapa. As garrafas de cerveja, que ainda continuam sendo

de vidro, são transportadas em engradados de plástico. As latinhas são embaladas em papelões ou plástico duro.

Hoje, o ENGRADADO deu lugar à CAIXA. ensebar Atrasar. Havia muito sebo. Sebo de boi que se passava no pau nas festas de São-João. Sebo de boi que se esfregava na bola de couro, artigo de luxo das grandes peladas de rua. O couro ia gastando e era o sebo que voltava a dar brilho à pelota. Talvez tenha vindo daí a expressão ensebar, que significa enrolar, empurrar com a barriga, catimbar. Na hora da família sair, havia sempre aquele filho que ficava para trás. Porque havia esquecido de escovar os dentes, de pegar a blusa de frio ou o trabalho escolar. “Venha, para de ensebar!”, diziam os pais. Era muita ensebação. Noivo ensebando noiva, funcionário público ensebando no trabalho, faxineira ensebando para não dar tempo de lavar o banheiro.

Hoje, ENSEBAR é o mesmo que ENROLAR. entulhado Muito cheio. As casas eram muito mais espaçosas do que são atualmente. Os cômodos eram grandes, boa desculpa para juntar tralha e deixar tudo entulhado. Os armários eram lugares propícios para coisas entulhadas. Uma fantasia de Carnaval, um vestido de noiva, uma roupinha de batizado, ninguém queria dá-las para os outros, ou vender para se desfazer delas. Então, iam entulhando.

Hoje, ENTULHAR é NÃO SE DESFAZER. entupido Repleto. Havia o bueiro da rua entupido, o ralo da pia entupido. Ainda há. Mas havia também o entupido que significava cheio. O ônibus vivia entupido de gente, o campo de futebol vivia entupido de torcedores do Flamengo, o cinema estava entupido na estreia de Ben-Hur. Era comum as pessoas dizerem: “Não coloque mais nada na gaveta porque ela já está entupida de coisas”. Se estivesse entupida, é porque estava pra lá de cheia, entupida mesmo.

Hoje, em vez de ENTUPIDO, as pessoas dizem CHEIO.

envenenar Falar mal. Envenenar, é claro, é dar veneno a alguém, matar alguém. Sempre foi, são históricas as histórias de envenenamento. Em novelas e na vida real. Mas o veneno aqui é outro, é aquele no sentido de falar mal, fazer a caveira. “Ele está me envenenando junto ao chefe.” Isso significava que ele estava tentando convencer o chefe de que o outro não valia nada. Verdade ou não, era veneno. Puro veneno.

Hoje, ENVENENAR é o mesmo que FOFOCAR. enviuvar Ficar viúvo. A morte do marido significava não somente a perda do amado, mas um estado de espírito que durava meses, às vezes um ano. Nenhuma mulher vestia roupa colorida durante o luto, nos meses que se seguiam à morte do marido. Era luto, preto total. Os homens costumavam usar uma tarja preta no terno, sinal de luto. Era ver aquele pedacinho de pano no terno para dar os pêsames. Nessa época, costumava-se dizer que fulana enviuvou. Quer dizer, perdeu o marido. O pessoal do Casseta & Planeta, que sempre fez humor com tudo e com todos, fazia piada dizendo que fulana partiu para a carreira solo.

Hoje, ENVIUVAR é PERDER O MARIDO. enxovalhar Sujar, manchar a honra, xingar. Bastava uma moça dar um passo, digamos, errado, para todo mundo enxovalhar a pobre coitada. Ninguém sabia muito ao certo o sentido exato da palavra, mas, que todo mundo gostava de enxovalhar alguém, isso gostava. E o pobre coitado ficava ali todo sem jeito, enxovalhado. Mas ninguém dizia que estava enxovalhado. Mas, que cara de enxovalhado existia, isso existia. Estava na cara.

Hoje, ENXOVALHAR é mais ou menos ESCULHAMBAR. esbaforido Nervoso. Além de esbaforida, a pessoa ficava ao mesmo tempo cansada. Não tinha esbaforida calma, sossegada. Você percebia quando a pessoa estava esbaforida, nervosa, meio desorientada. Mas toda esbaforida também ficava ofegante. Quando alguém dizia que chegou a algum lugar esbaforido, é porque chegou,

além de nervoso, suando feito uma cabra. Enfim, esbaforido.

Hoje, estar ESBAFORIDO significa estar AFLITO. esbelto Bonito. Não era comum dizer que homem era bonito. Somente as moças diziam, e à boca pequena. Se não diziam que era bonito, quanto mais gostoso. Isso é que não diziam mesmo. Mas diziam, sim, esbelto! Alain Delon era um homem esbelto. Mas Ernest Hemingway, que não era lá tão bonito, também era considerado bonito, mas não muito esbelto. Hoje, um homem esbelto está mais para um homem forte, musculoso, enfim, sarado.

Hoje, um cara ESBELTO é um GATO. esbodegado Cansado. Quem costumava trabalhar muito chegava em casa esbodegado. Esbodegadas ficavam também as donas de casa no dia em que resolviam fazer faxina. Não era pra menos, era pra deixar qualquer uma esbodegada. Esbodegada não era simplesmente cansada, era exausta, quase morta de cansaço. Imagine aquele operário que passa o dia inteiro com aquela britadeira furando o asfalto durante o verão. Não é mesmo para no final do dia estar esbodegado?

Hoje, um trabalhador que está ESBODEGADO está MORTO DE CANSADO. esborrachar Cair. Toda criança caía. E cai. Mas criança de tempos atrás se esborrachava. “Cuidado com o chão molhado porque senão você vai se esborrachar”, diziam as cuidadosas mamães. Mas não eram só as crianças que se esborrachavam. Adultos também, e quando um se esborrachava a coisa era feia. Ralava-se todo, ficava tipo stoned wash.

Hoje, se ESBORRACHAR é o mesmo que LEVAR UM TOMBAÇO. escalpelar

Rasgar, dissecar. Frango comprava-se no mercado, domingo cedo. E vivo. Vivo, ele era levado para casa e ali era morto sem dó nem piedade. Depois de morto, colocava-se uma panela grande com água para ferver, e era nessa água fervente que se jogava o frango com pena e tudo mais. Era chegada a hora de escalpelar o bicho. Aos poucos as penas iam se soltando até ficar pelado, sem uma penugem. Escalpelar era uma espécie de tirar o couro. No bom sentido.

Hoje, ninguém mais usa a expressão ESCALPELAR, porque ninguém mais mata o frango em casa. escambau De maneira alguma, de jeito nenhum. “Você tem de ir para o trabalho já!”, dizia a mulher. “Tenho de ir o escambau!”, retrucava o malandro, confiando naquela fezinha no jogo do bicho. Escambau era uma espécie de afirmação do negativo. Para dizer que não ia fazer uma coisa, mas não ia mesmo, era só colocar um escambau no final. Só gente muito confiante ou abusada usava esse tal de escambau.

Hoje, ESCAMBAU é o tal do NEM PENSAR. escangalhar Estragar. A radiola não estragava, escangalhava. O radinho de pilha, o projetor de slides, a câmera super-8, tudo isso escangalhava. Escangalhar não era aquele estrago rápido sujeito a conserto, não. Quando uma coisa escangalhava, é porque era praticamente perda total. Era muito difícil alguém mandar para o conserto uma coisa escangalhada.

Hoje, a gente não fala que o computador ESCANGALHOU, a gente diz que DEU PAU. escapulário Tira de pano bento usada pelos religiosos sobre o hábito. Católicos sempre foram ligados em novenas, velas, terços, imagens de santos, medalhinhas. E escapulários. Há muitos anos, o escapulário era aquele pequeno objeto que protegia as boas almas. Corria à boca pequena que alguns escapulários traziam bem embrulhadinho um pedaço da cruz em que Jesus Cristo foi crucificado. Os escapulários eram sempre muito bem guardados e não tinha casa que não

tivesse um para proteger a família.

Hoje, um ESCAPULÁRIO continua sendo um ESCAPULÁRIO, mas não está mais no dia a dia das pessoas. escaramuça Confusão. Tem gente que veio ao mundo para aprontar escaramuça. Gente que não pode ver uma situação calma que quer ver logo uma confusão. É aquela história de dar um boi para não entrar numa briga, mas dar uma boiada para não sair dela. Sabe quem era uma pessoa que gostava de uma escaramuça? O jogador Almir, que chegou a jogar na Seleção Brasileira de Futebol, coitado, que de tanta escaramuça acabou assassinado no Rio de Janeiro.

Hoje, aprontar uma ESCARAMUÇA é o mesmo que ARMAR UM BARRACO. esconjurar Amaldiçoar, exorcizar. “Te esconjuro!” Era assim que um vizinho, por exemplo, fazia a caveira do outro vizinho. Geralmente por um motivo bobo. Dizer esconjurar, pensando bem, não era lá muito sério. Quem é que vai exorcizar um vizinho? Às vezes dá vontade, mas ninguém exorciza. Mas era muito comum dizer “te esconjuro”.

Hoje, ESCONJURAR é a mesma coisa que dizer VÁ SE DANAR! escrete Seleção de futebol. Escrete era o canarinho, aquele que em 1970 ganhou o tricampeonato mundial de futebol no México. Eram 90 milhões em ação, e não tinha time neste mundo que parasse a fúria de um Pelé, um Tostão, um Gerson, um Rivelino. Aquilo sim é que era escrete. No dia seguinte, os jornais estamparam as manchetes: “Escrete canarinho é tri!”.

Hoje, ninguém mais diz ESCRETE, e sim SELEÇÃO. escurinha

Pessoa de cor negra. Chamar uma pessoa de escurinha não era preconceito. No fundo, no fundo, poderia ser, mas não era considerado preconceito. “Arrumei uma empregada escurinha”, diziam as donas de casa, numa boa. Escurinha era aquela moça negra pra mulata, parda, que ninguém dizia ser preta. Aí era preconceito. A escurinha ficou famosa com um hit de Geraldo Pereira e Arnaldo Passos que dizia assim: “Escurinha, tu tens que ser minha de qualquer maneira/Te dou meu boteco, te dou meu barraco/Que eu tenho no morro de Mangueira/Comigo não há embaraço/Vem que eu te faço, meu amor/A rainha da escola de samba/Que o teu nego é diretor”.

Hoje, uma ESCURINHA é uma AFRODESCENDENTE. esgoelar Gritar, esganar. As mães viviam dizendo que iam esgoelar os filhos, aqueles filhos capetas, endiabrados, que viviam aprontando. “Se você não voltar já pra casa, eu vou te esgoelar”. Imagine levar essa ameaça a sério. Imagine uma mãe esgoelar o filho. Aqueles meninos que costumavam roubar goiabas, jabuticabas e pitangas ouviam sempre dos moradores, donos das árvores: “Se vocês voltarem aqui, vamos esgoelar vocês!”.

Hoje, ESGOELAR continua sendo ESGOELAR, ESTRANGULAR, mas pais não dizem mais que vão ESGOELAR os filhos. esnobe Pessoa que ignora, que menospreza, as outras. Esnobe era aquele que esnobava. Tinha um carro último tipo e ficava esnobando quem tinha um Belcar. Tinha uma casa enorme e ficava esnobando quem morava numa quitinete. Tinha um alto salário e ficava esnobando quem ganhava salário mínimo. Toda pessoa esnobe tinha um olhar meio blasé, um olhar meio caído, meio nojento.

Hoje, uma pessoa ESNOBE é uma pessoa CONVENCIDA. espelunca Moradia malfeita. Quando a gente ouvia dizer que alguém morava numa espelunca, é porque era uma espelunca mesmo, uma casinha pequena, caindo aos pedaços, pra lá do fim do mundo. Espelunca era isso. Uma casa mal-

acabada, fios à mostra, sem pintura, luz fraca e uma bagunça sem tamanho. Espelunca, muitas vezes, não era simplesmente sinônimo de pobreza, mas de gente que não tinha o menor capricho.

Hoje, uma ESPELUNCA é uma casa CAINDO AOS PEDAÇOS. espeto Criança encapetada. “Esse menino parece que tem o diabo no corpo!” Era assim que as mães traduziam seus filhos endiabrados, encapetados. Aqueles que subiam em muros, quebravam a vidraça do vizinho com uma bolada, rabiscavam as paredes numa época em que o grafite não existia ainda. Esses meninos eram chamados de espeto. Espeto era aquele que não dava sossego à mãe. Cinco minutos de silêncio era sinal de que ele estava aprontando alguma coisa.

Hoje, um menino ESPETO é um menino DA PÁ VIRADA. espezinhar Insistir, atazanar. Nas piadas, ou na vida real, se existia alguém que espezinhava a vida do outro, era a sogra. Pobre sogra, ela quase sempre vinha acompanhada da palavra espezinhar, que também significa encher o saco, insistir, atazanar. Os compositores João Bosco e Aldir Blanc não usaram a palavra espezinhar, mas uma bem parecida na canção “Incompatibilidade de gênios”. Um trecho diz o seguinte: Dotô/Se eu peço feijão ela deixa salgar/Calor/Mas veste o casaco pra me atazanar”.

Hoje, ESPEZINHAR é o mesmo que TORRAR O SACO. espinafrar Xingar. Todo poderoso chefão costumava espinafrar seus subordinados. Às vezes com razão, às vezes não. Mas bastava chegar atrasado, bastava errar um ofício-circular para levar uma espinafrada. E era no corredor, na hora do cafezinho, que ouvíamos o tal lamento: “Meu chefe me deu uma espinafrada...”.

Hoje, um chefe que costumava ESPINAFRAR costuma COMER O FÍGADO do funcionário. espinha

Coluna. A dor era, e sempre foi, a mesma. Nas costas. Por vários motivos. Mas a diferença é que as pessoas costumavam dizer que estavam com dor na espinha. “Amanheci com a espinha doendo.” Isso era sinal de mau humor o dia todo. Quando a velhice chegava, a dor na espinha chegava junto. Se a dor persistisse, os pacientes eram obrigados a operar a espinha.

Hoje, ESPINHA virou COLUNA. espirituoso Aquele que tem rapidamente uma ideia engraçada. Quer um bom exemplo de pessoa espirituosa? Millôr Fernandes! Aquele que inventou frases que entraram para a história. “Para bom entendedor, meia palavra basta, entendeu ecil?” Ou, então: “Na terra de olho, quem tem cego... errei!”. Taí uma pessoa espirituosa, cheia de ideias, que saem rapidamente de um cérebro privilegiado.

Hoje, ESPIRITUOSO virou CRIATIVO. espoleta Criança que não para quieta. Criança espoleta era a cara da criança espeto, verbete que faz parte deste dicionário. Sem sossego, ela vivia agitando, aprontando alguma coisa – sempre errada. Menino espoleta era aquele que, no momento em que a família estava assistindo ao último capítulo da novela, costumava desligar o aparelho, quando não ficava na frente da televisão e saía correndo. Ser espoleta era isto: lamber a faca depois de passar a manteiga no pão.

Hoje, um menino HIPERATIVO.

ESPOLETA

é

considerado,

digamos,

esquadra Equipe de futebol. Conjunto de navios de guerra ainda é a definição para esquadra. Mas usava-se muito a palavra esquadra para designar um time de futebol. Uma coisa não tem nada a ver com a outra, apesar de alguns jogadores na hora da falta dispararem verdadeiros rojões. Claro que um time furreca de várzea, do interior, peladeiro, não era chamado de esquadra. Esquadra era um time de primeira, aquele da primeira divisão, quiçá um campeão.

Hoje, uma ESQUADRA é um TIME. esquartejar Cortar em pedaços. “Agora vamos esquartejar o bicho!” Era assim que diziam os fazendeiros após a matança do porco. Matava-se e, quando o bicho estava mortinho da silva, vinha o esquartejamento. Mas não era serviço para qualquer um. Havia uma técnica, e somente os experts sabiam como esquartejar o bicho. Esquartejava-se também o frango, o pato, o peru. E, sobre aqueles que esquartejavam as vítimas, prefiro não falar.

Hoje, ninguém mais usa ESQUARTEJAR. Usa PICAR. estalando Novo. Quando o sol batia forte e constantemente num vidro, num vitral, ele começava a estalar no decorrer do tempo. Com o calor do Planalto Central do Brasil, a catedral de Brasília, por exemplo, vive estalando. Mas o estalando que sumiu do mapa significa novo, novinho em folha. “Você viu? Ele comprou um carro estalando de novo!” Esse estalando ninguém fala mais, virou démodé, cafona, coisa do passado.

Hoje, um carro ESTALANDO de novo é um carro ZERO. estapafúrdia Coisa absurda. Não existe ideia mais estapafúrdia que ler um livro de cabeça para baixo. Conheço um cara que tentou e desistiu na orelha, outro chegou ao prefácio. Ideia estapafúrdia era isso, e as pessoas viviam dizendo essa palavra. “Você dorme de roupa, jeans, cinto e carteira no bolso? Que coisa mais estapafúrdia!” Hoje, quando a gente vê umas loucuras assim, a gente estranha, mas muito raramente dizemos tratar-se de uma ideia estapafúrdia.

Hoje, uma coisa ESTAPAFÚRDIA é uma coisa BIZARRA. estenodatilógrafo Estenodatilógrafo. Estenodatilografia é o sistema de escrita por sinais e caracteres de imprensa que combina a estenografia

e a datilografia. Estenodatilógrafo é o indivíduo que reúne qualidades de estenógrafo e datilógrafo. Agora, é bobagem dizer que alguém é datilógrafo. Ele digita e pronto, mas em outros tempos datilografia e estenodatilografia eram aprendidas na escola.

Hoje, pensando bem, um ESTENODATILÓGRAFO é um DIGITADOR. estereofônico Som e aparelhos que produzem a impressão de um espaço sonoro. Depois dos discos mono vieram os discos estereofônicos. Não tinha nada mais chique que dizer bem alto: “Este som é estéreo”. De repente, o pobre coitado do som mono virou aquela coisa de segunda categoria, abafada, sem detalhes de cada instrumento em ação, uma coisa menor. O som estereofônico se tornou a coqueluche das horas dançantes. Não tinha nada mais chique que um Ray Connif em som estereofônico.

Hoje, um som estereofônico é um sonzão. estica Elegância. “Olha só a estica dele!” Era assim que as mocinhas suspiravam quando viam entrar alguém na maior elegância. Sapatos engraxados, calça com o vinco impecavelmente passado, camisa de linho, brilhantina no cabelo... Que estica! Mocinhas caprichavam no visual na hora de um baile dançante, de uma festa de debutante. Todas iam na maior estica.

Hoje, quem está numa ESTICA está CHIQUÉRRIMO. esticada Prolongada. Quando alguém resolvia ficar um pouco mais, dava uma esticada. Se estivesse com o trabalho acumulado, o bom funcionário, para colocar tudo em dia, dava uma esticada. Mas o mau funcionário que foi passar o feriado na praia, quando via a televisão anunciando que o dia seguinte seria de sol, resolvia dar uma esticada, emendar a quinta com o final de semana. O tempo foi passando, e as mulheres que não se conformavam em ficar velhas resolveram dar uma esticada. Na pele.

Hoje, dar uma ESTICADA é EMENDAR. estofado

Móvel de sala. O conjunto estofado resistiu ao tempo, a tudo e a todos. Não tem um comercial de lojas populares na televisão que não anuncie o tal conjunto estofado. No início dos anos 1960, todo conjunto estofado tinha nomes que geralmente vinham do Planalto Central do país: conjunto estofado Brasília, conjunto estofado Alvorada, conjunto estofado Itamaraty. Mas era comum alguém dizer: “Senta aí no estofado...”. O estofado, para não sujar ou gastar, estava sempre coberto com um pano.

Hoje, ESTOFADO é SOFÁ. estonteante Bonita de parar o trânsito. No auge do jornal O Pasquim inventaram que Roseana Sarney, filha de José, era estonteante. Se era verdade ou não, aí é outra história. Estonteante era aquela mulher nota dez, pra comunista nenhum botar defeito. Enquanto o governo fez bótons “Eu sou fiscal do Sarney”, O Pasquim brincava com um bóton “Eu sou fiscal da Roseana”. Brigitte Bardot, Gina Lollobrigida, Ursula Andrews eram todas mulheres estonteantes. Eram.

Hoje, uma moça ESTONTEANTE é um ESPETÁCULO. estouro Lindo. “Ele comprou um carro que é um estouro!” “Já viu o apartamento dela? É um estouro!” Estouro era tudo o que não era apenas bonito, era lindo de morrer. Uma beleza que andava junto ao bom gosto e ao luxo, enfim, um estouro. Mulheres também eram um estouro. Audrey Hepburn, por exemplo, era um estouro de mulher!

Hoje, ESTOURO virou SHOW. estrebuchar Reclamar, contorcer. Estrebuchar sempre teve dois significados. A bola batia na mão do jogador dentro da pequena área, mas o juiz não dava o pênalti. “Se ele não deu, não adianta estrebuchar”, lamentava o torcedor mais conformado. Aí era no sentido de reclamar. Mas, quando alguém dizia que deu uma facada no pescoço do frango e ele ficou estrebuchando no chão, não significava que ele ficou lá morrendo e reclamando. Aí estrebuchar era se contorcer, pular, revirar. Enfim, estrebuchar.

Hoje, ESTREBUCHAR virou AGONIZAR. estrepe Arma feita com pregos e espinhos. Estrepe é isso mesmo, uma arma feita com pregos e espinhos. Mas sabe lá Deus por que chamavam de estrepe o espinho da rosa ou uma farpa de madeira, daquelas chatinhas que entram no dedo da gente. “Mãe, entrou um estrepe no meu dedo do pé!” Não era apenas nas roseiras dos jardins das casas que havia estrepe. Havia estrepe para tudo quanto é lado, e esses desgraçados viviam entrando nas mãos e nos pés dos moleques. Para tirar um estrepe, as mães esquentavam uma agulha, ou simplesmente davam um banho de álcool nela, e iam cutucando até o estrepe sair. Depois, era só colocar mercuriocromo.

Hoje, o que chamávamos de ESTREPE chamamos de FARPA. estrilar Protestar, ficar irritado. “A sua nota é zero e não adianta estrilar!” Era assim que os professores diziam a seus alunos que não estudavam. Estrilar estava na boca do povo. Das mães, que colocavam seus filhos de castigo, e não adiantava estrilar. Se estrilassem, corriam o risco de levar uma correada. Muita gente ainda estrila. É difícil passar por um balcão de check-in no aeroporto e não ver alguém estrilando. E com toda a razão.

Hoje, ESTRILAR virou DAR CHILIQUE. estripulia Travessura, folia. Podemos chamar de estripulia uma travessura do bem. Estripolia irritava, sim, os pais, mas nunca era uma bagunça dessas de dar briga ou de virar a casa de cabeça para baixo. Era uma espécie de folia. Quando os pais diziam “para de fazer estripulia” era porque a bagunça estava exagerada, e poderia mais tarde chegar a uma briga, ao choro.

Hoje, uma ESTRIPULIA é uma BAGUNÇA. estropiado Cansado, meio doente. Aquele peão de obra que acordava às cinco da manhã, passava a mão na marmita de alumínio preparada

pela patroa, seguia para o trabalho e chegava em casa no final do dia estropiado. Não era pra menos. Passava o dia a colocar tijolo sobre tijolo num sol a pino de dar gosto. Estropiado era o estado de espírito de todo mundo que trabalhava de sol a sol quando chegava o fim do dia. Quem não estava cem por cento de saúde costumava dizer: “Não estou bem, estou meio estropiado”.

Hoje, quem está ESTROPIADO diz que está MORTO. estrupício Pessoa feia, complicada, esquisita, que atrapalha. Aquela imagem que se fazia antigamente de uma sogra era o retrato falado do estrupício. Era muito comum ouvir: “Esta minha sogra é um estrupício na minha vida!” Por que será? Será que ela era feia, complicada e esquisita? Ou era tudo ao mesmo tempo? Ou não era nada disso, pura implicância do genro? Mas tinha também aquele chefe que considerava sua funcionária um estrupício, o aluno que achava sua professora um estrupício e o marido que definia a sua mulher como um estrupício. Ou viceversa.

Hoje, um ESTRUPÍCIO é uma espécie de PEDRA NO CAMINHO. estupefato Perplexo, pasmado. Pasmado também deveria ser um verbete deste Pequeno dicionário brasileiro da língua morta. Ninguém mais diz que ficou pasmado, só os mais velhos, donos ainda de uma língua morta. Ficar estupefato era ficar perplexo com alguma coisa. “Vi um menino de doze anos beijando uma menina de dez e fiquei estupefato.” Enfim, estupefato era parente próximo do pasmado.

Hoje, ficar ESTUPEFATO é ficar CHOCADO. eureca! Descobri! A história é meio comprida, mas foi o matemático, físico e inventor grego Arquimedes que, depois de fazer um teste com a coroa do rei numa banheira para saber se ela era ou não inteiramente de ouro, saiu gritando pelas ruas “Eureka! Eureka!”. Assim mesmo com K para espanto de gregos e troianos. E não é que a ideia de Arquimedes se espalhou e o tal eureca acabou pegando? Muita gente depois de descobrir qualquer bobagem dizia: Eureca! Assim mesmo, com C. Você sabia que existem cidades chamadas Eureca na Califórnia, em Kansas, no Missouri, em Montana, em Nevada, em Utah e até no Wisconsin?

Hoje, em vez de EURECA as pessoas costumam dizer simplesmente DESCOBRI.

faceira Mulher afetada, dengosa. As mulheres eram mais comportadas. Mas existiam as mulheres faceiras, aquelas meio afetadas, dengosas, que gostavam de colocar as asinhas de fora. Compositores se inspiraram nelas para compor clássicos da música popular brasileira, como “Faceira”, de Ary Barroso (“Foi num samba/De gente bamba, oi, gente bamba/Que te conheci, faceira/Fazendo visagem, passando rasteira.”), e “Mulata faceira”, de Martinho da Vila e Almir Guineto (“Mulata faceira/Cheia de empolgação/Parecia uma feiticeira/Que andava no meu barracão”).

Hoje, uma mulher FACEIRA é uma mulher ATIRADA. fajuto De má qualidade, que não é autêntico. Quando começaram a trazer da América do Norte as primeiras calças Lee, logo, logo surgiram as calças Lee fajutas. Eram aquelas meio moles, cujo couro com a marca Lee amolecia – era uma calça Lee falsificada. Como existem produtos fajutos agora! São aqueles produtos que imitam os originais, mas não chegam aos pés em qualidade. Geralmente vindos da China, esses produtos são vendidos, muitas vezes, clandestinamente, por debaixo dos panos. Os vendedores não gostam de dizer que os produtos são falsificados. Eles dizem que são uma réplica.

Hoje, um produto FAJUTO é um produto PIRATA, um produto CHINÊS.

falatório Muitas pessoas falando ao mesmo tempo. Adolescentes brigando dentro de casa porque um pegou a camiseta do outro acabava num falatório sem fim. E era nessa hora que o pai ou a mãe gritavam lá de dentro: “Vamos parar com esse falatório aí?”. Falatório era bate-boca, mas nunca os envolvidos chegavam às vias de fato, não davam sopapos e pescoções. Ficavam só no falatório mesmo. Professoras costumavam pedir aos alunos lá no fundo da sala para parar com o falatório.

Hoje, FALATÓRIO virou TI-TI-TI. falou e disse Conversa com começo, meio e fim. Nos anos hippies, falar não era o suficiente. Era preciso ser convincente no pensamento filosófico de uma nova era. Ou em qualquer bobagem. O importante era argumentar e convencer. E a conversa sempre chegava ao fim com um falou e disse. Falou e disse era fim de papo, conclusão, unanimidade. Para deixar bem claro que a expressão surgiu numa época de paz e amor, é bom terminar este verbete com um falou e disse, bicho!

Hoje, FALOU E DISSE virou simplesmente OK. farrapo Cansado. O que é um farrapo? Farrapo é um pedaço de pano rasgado, estropiado. Agora, o farrapo que virou expressão e depois sumiu do mapa é o farrapo que significa uma pessoa cansada, exausta mesmo. O trabalhador que passava o dia todo na luta chegava em casa e dizia para a mulher: “Querida, estou um farrapo!”. Já a Guerra dos Farrapos é outra história, uma revolução que aconteceu no Rio Grande do Sul em 1835. Nos anos 1970, uma canção de Luiz Melodia ficou famosa: “Farrapo humano”. Diz assim: “Eu choro tanto, me escondo, não digo/Viro um farrapo, tento o suicídio/Com um caco de telha ou caco de vidro”. E aquela de Noel, “Com que roupa?”, falava do pedaço de pano rasgado. “Eu hoje estou pulando como sapo/Pra ver se escapo/Desta praga de urubu/Já estou coberto de farrapo/Eu vou acabar ficando nu.”

Hoje, quem está um FARRAPO está CANSADAÇO. farto

Saciado, nutrido. A pessoa sentava, comia e dizia ao garçom: “Obrigado, não quero mais, estou farto”. Mas havia outro tipo de farto, um xingamento mesmo. Depois de uma briga de marido e mulher era comum ouvir de uma das partes: “Pode sumir da minha vida! Estou farto de você”.

Hoje, quem está FARTO de comida está SATISFEITO. E quem está FARTO do marido ou da mulher está DE SACO CHEIO. fatigado Exausto. Era uma palavra muito falada. E ficou famosa na voz do menestrel Juca Chaves com a canção “Verinha”. Uma modinha que diz assim: “O meu coração caminha/Fatigado de emoção/Ao teu coração, Verinha/Que ao encontro vinha/Do meu coração”. Quando o cara estava fatigado, ele estava mais que cansado, estava meio acabado.

Hoje, um cara FATIGADO é um cara ESTRESSADO. fatiota Roupa, traje, terno. “Olha só a fatiota dele!” Quando alguém dizia isso é porque a pessoa havia caprichado no visual. A tal fatiota não era uma roupa qualquer como a que usamos hoje – jeans, camiseta e tênis. Fatiota era uma roupa no capricho.

Hoje, a FATIOTA virou um MODELITO. favas Maneira de mandar alguém para aquele lugar. Favas são leguminosas cujas sementes são usadas como vegetais. Até aí tudo bem. Só que muito tempo atrás as pessoas mandavam as outras às favas. Difícil saber a origem dessa expressão. Mas que mandavam às favas, mandavam. “Se o seu namorado não quiser ficar noivo, mande ele às favas.” Era assim que noivos iam mesmo às favas, uns felizes da vida, outros com o coração partido. Depois vieram as favas contadas. A eleição de Lula para presidente do Brasil são favas contadas, diziam os institutos de pesquisa por volta do ano de 2006 d.C.

Hoje, mandar uma pessoa ÀS FAVAS é como mandar À MERDA.

fecho éclair Fecho utilizado em vestimentas. É bom esclarecer que éclair em francês significa relâmpago. Daí a origem do nome fecho éclair, aquele fecho que fechava tão rapidamente que lembrava um relâmpago. O fecho éclair só apareceu nas calças masculinas nos anos 1970. Até então em braguilha de calça de homem que era homem só botões. O fecho éclair ainda existe, mas ninguém mais fala que é fecho éclair. Ganhou outro nome.

Hoje, FECHO ÉCLAIR é chamado simplesmente de ZÍPER. fedelho Criança chata. Fedelho é aquela criança que faz birra. Aquela criança que, por exemplo, entra num avião e dispara o berreiro dizendo que o avião vai cair. Aquele menino que fica correndo num restaurante e, quando passa perto de sua mesa, tira uma azeitona e sai em disparada. Aquela criança que pega o prato de sopinha e joga tudo no chão. Aquele que acorda de madrugada e quer brincar. Precisa dizer mais alguma coisa?

Hoje, FEDELHO virou PENTELHO. ferrenho Austero. Não existe um exemplo melhor para ferrenho que uma pessoa, mais precisamente um crítico: José Ramos Tinhorão! Tinhorão sim, aquilo é que era um crítico ferrenho com certos compositores da música popular brasileira. De tão ferrenho, ele aparece na letra de uma composição do baiano Tom Zé – “O céu desabou” – que diz assim: “Mas foi por causa dela que o céu desabou/Sobre suas estrelas/Tinhorão, que horror!”.

Hoje, um crítico FERRENHO é um crítico MORDAZ. ferro-velho Comércio de ferro velho. Calma! O ferro-velho não acabou! Ainda existe. Mas existia muito mais. Em toda casa, quando uma torneira quebrava, trocava-se e dizia: “Guarde a quebrada que a gente vende no ferro-velho”. E o ferrovelho ia até a casa das pessoas. Um velhinho chegava puxando uma carroça e gritava: “Olha o ferrovelho!”, em alto e bom tom. Aí todos os moradores da rua apareciam com os seus cacarecos de ferro nas

mãos pra vender, levantar um dinheirinho.

Hoje, FERRO-VELHO virou SUCATA. fervilhando Movimento de gente de um lado para o outro. Se uma dona de casa disser que a água do macarrão está fervilhando é porque as bolhinhas já estão se agitando, prontas pra começar a ferver. Mas se o locutor de futebol disser que o estádio está fervilhando de torcedores é porque está cheio, bem cheio de torcedores agitados indo de um lado ao outro. É difícil encontrar pessoas que digam que algum lugar está fervilhando de gente. As pessoas dizem outra coisa.

Hoje, em vez de dizer que um lugar está FERVILHANDO de gente, diz-se que está LOTADAÇO. figueiredo Fígado. Todo mundo sabe que o fígado é um órgão que segrega a bílis e executa várias funções do metabolismo. Mas, um dia, ele ganhou um apelido: Figueiredo. Gilberto Gil imortalizou o apelido na canção “Jurubeba”, que diz o seguinte: “Quem procura acha na raiz de jurubeba/Tudo que é de bom pro Figueiredo e que se beba”. Sucesso nos anos 1970, muitos acharam que Gil estava provocando o então presidente da República, João Baptista Figueiredo. Nada a ver.

Hoje, ninguém mais diz FIGUEIREDO, e sim FÍGADO. fininho Sorrateiramente. Quando a festa começava a ficar chocha, a música estava ruim, a cerveja quente, a comida rara, as pessoas costumavam sair de fininho. Em palestras chatas, o público ia, aos poucos, saindo de fininho. Sair de fininho era a técnica de tirar o time de campo sem muito alarde.

Hoje, quem sai DE FININHO sai À FRANCESA. fisgada Dor localizada.

Bastava uma dorzinha de lado para a pessoa dizer que estava sentindo uma fisgada. Mas fisgada mesmo era quando as pedras nos rins começavam a se manifestar. Que dor miserável! As dores continuam, mas o nome que um dia deram a elas – fisgada – simplesmente foi desaparecendo.

Hoje, uma FISGADA é nada mais, nada menos que uma PONTADA. fita Filme cinematográfico. Quem ia ao cinema assistir a Dançando na chuva, por exemplo, não dizia que estava indo ver um filme e, sim, uma fita. “Você gostou da fita?”, perguntava a vovó ao netinho que acabara de assistir a Marcelino pão e vinho. Agora, fazer fita é outra história. É fingir. Quem fazia fita, além do diretor de cinema, era quem estava fingindo.

Hoje, ninguém assiste a uma FITA. Assiste a um FILME. fiu-fiu Elogio. Bastava uma gostosa passar requebrando que os peões da obra logo assoviavam um fiu-fiu. Se não assoviavam, diziam claramente: fiu-fiu. E a moça, toda gostosa, toda orgulhosa do corpão, fingia não ter ouvido. Mas que elas gostavam, gostavam. Fiu-fiu, um dia, virou música de Vanessa da Mata: “Fui ver, achei que engordei alguns quilinhos/Tentei a calça que eu gostava da época da minha adolescência/Ascendência, sei lá”.

Hoje, em vez de dizer FIU-FIU, os peões dizem ESPETÁCULO! flauta Folga. Flauta, claro, é um instrumento musical de sopro. Jean-Pierre Rampal foi um grande flautista. Mas viver na flauta não significa necessariamente viver tocando flauta. De repente, alguém chegou a essa expressão sem mais nem menos. Viver na flauta! Quem vivia na flauta era aquele cara que não nasceu para o trabalho, não queria nada com o batente, isto é, vivia na flauta. Era aquele que só queria saber de sombra e água fresca.

Hoje, quem vive na FLAUTA vive NUMA BOA. flerte

Tática de sedução. Flertar era aquela tática irresistível de sedução. Uma pessoa olhava para outra, olhava de novo, dava aquela piscadela, e logo acontecia o flerte. Se fosse correspondida, estava no papo. Mas na época do flerte não significava que uma piscadela pra cá, outra pra lá era sinônimo de namoro na certa. O flerte poderia significar apenas o começo de um longo relacionamento. Flerte, papo, mãozinha dada, o primeiro beijo, namorinho no portão etc. e tal.

Hoje, o FLERTE ficou pra trás. O negócio é DAR EM CIMA. fogosa Mulher que faz o serviço completo. Fogosa era aquela mulher literalmente dada. Não chegava a ser galinha, mas tinha a fama de... digamos, fogosa. Fogosa não era a mulher difícil, que fazia doce. Fogosa se atirava, não tinha preconceito algum numa época em que o preconceito reinava nas tradicionais famílias brasileiras. Um dia, ela caiu numa canção de Chico Buarque em parceria com Djavan. A música se chama “A Rosa” e diz assim: “Decerto sonhou com alguma novela/Penélope espera por mim bordando/Suando, ficou de cama com febre/Que febre/A lebre, como é que ela é fogosa/A Rosa”.

Hoje, uma mulher FOGOSA é uma mulher DADA. fome do cão Fome danada. Quando a fome apertava, e o estômago roncava, dizia-se que a pessoa estava com uma fome do cão. Era uma época em que os cães comiam de tudo e não apenas ração balanceada. Comiam arroz, feijão, farofa, frango e, principalmente, osso de frango. E comiam tudo porque tinham uma fome do cão. E ai de quem chegasse perto do comedouro.

Hoje, quem está com uma FOME DO CÃO está com uma BAITA FOME. fominha Egoísta. Numa pelada de futebol havia vários tipos. Um era o cara bom de bola, que driblava um, dois, três, até o goleiro, e enfiava a bola na rede. Isso quando havia rede. Outro tipo era o dono da bola, aquele jogador – se é que podemos chamar de jogador – ruim de bola, que vivia dando furada, caía à toa, não sabia

driblar, não marcava gol nenhum, mas era o dono da bola. Se ele não jogasse, não tinha jogo. E havia também o fominha. Fominha era aquele jogador que queria vencer sozinho. Quando ele pegava a bola, ela ficava no seu pé até ser atirada em gol ou ser perdida para o adversário. O fominha não passava a pelota pra ninguém, não queria dividir nada com ninguém.

Hoje, um jogador FOMINHA é um jogador GANANCIOSO. footing Hora da paquera. A hora do footing era sagrada nas cidadezinhas do interior. Caía a noite de sábado, e as primeiras donzelas iam chegando à praça de mansinho, sempre acompanhadas de amigas, outras donzelas. Um pouco mais tarde chegavam os homens, e aí começava o footing. Em algumas cidadezinhas era comum moças andarem num sentido e homens em outro. Era assim que rolava a paquera. Olhares, piscadelas, essas coisas.

Hoje, o FOOTING é feito nas REDES SOCIAIS. forrobodó Festa com muita dança. Forrobodó não era uma festinha meia boca. Forrobodó era uma festa do balacobaco, em que o forró corria solto a noite inteira, até o amanhecer. Forrobodó era corpo suado, corpo agarradinho no outro, um tesão. A palavra virou música de Chico Buarque, em parceria com Edu Lobo: “Forrobodó é folguedo/De reis/Forrobodó de preto forro/Tem o forrobodó na praia, iaiá/Tem o forrobodó no morro”.

Hoje, o FORROBODÓ simplificou para FORRÓ. frasqueira Porta-objetos de mulher em forma de maletinha. Nada mais chique que uma madame subir as escadas de um Constellation da Panair carregando uma frasqueira. Na frasqueira, ela levava de tudo. O laquê, o xampu, o esmalte, a escova, a touca de banho, um pacotinho de Cafiaspirina, o Modess, enfim tudo de que uma mulher precisava. Frasqueira que era frasqueira combinava com o conjunto de malas, que tinha a mesma estampa, geralmente Príncipe de Gales.

Hoje, a FRASQUEIRA virou NÉCESSAIRE.

frigidaire Geladeira. Simples. Como as pessoas chamam a lâmina de barbear de Gillette e a esponja de aço de Bombril, chamavam a geladeira de Frigidaire. A Frigidaire não era uma Brastemp, era uma Frigidaire. “Guarda o leite na Frigidaire porque senão ele azeda”, diziam as donas de casa. O cantor e compositor cearense Belchior a consagrou na canção “Balada de madame Frigidaire”: “Ando pós-modernamente apaixonado pela nova geladeira/Primeira escrava branca que comprei, veio e fez a revolução/Esse eterno feminino do conforto industrial injetou-se em minha veia, dei bandeira!/E ao pôr fé nessa deusa gorda da tecnologia gelei de pura emoção!”.

Hoje, ninguém mais diz FRIGIDAIRE. Diz GELADEIRA. fuinha Dentuço. Vamos por partes. Fuinha é um mamífero mustelídeo de pequeno porte, pertencente ao grupo das martas. Esse é o bicho. Mas fuinha virou adjetivo informal para uma pessoa curiosa, bisbilhoteira, fofoqueira. Já em Minas Gerais, fuinha era outra coisa. Era aquele cara que tinha os dentes pra frente, que precisava usar aparelho e não usava. Um dentuço. Ele não tinha só os dentes pra frente, mas todo o rosto. Não dava outra. Quem via aquela figura logo o chamava de fuinha. Era muito comum ver fuinhas pra todos os lados, porque usar aparelho era coisa rara.

Hoje, um FUINHA ganha logo o apelido de DENTINHO. fuleiro Produto de baixa qualidade. “Não vamos levar esse arroz porque ele está muito quebrado, muito fuleiro.” Isso significava que o produto era de baixa qualidade. E não era só o arroz, não. Roupas, material de construção, material escolar, guarda-chuva, capacho. Tudo fuleiro. Achocolatado, se não fosse Toddy, Nescau ou Ovomaltine, era fuleiro.

Hoje, um produto FULEIRO é um produto VAGABUNDO. fumegando Pelando, saindo fumaça.

Todo domingo, quando a macarronada ficava pronta, a mãe pegava dois panos de prato, segurava firmemente aquele pirex e dizia a caminho da cozinha para a sala: “Saiam da frente porque está fumegando!”. E era verdade que aquela travessa de macarronada estava mesmo fumegando, soltando fumaça. Colocar o dedo naquele pirex era queimadura com bolha na certa.

Hoje, FUMEGANDO é simplesmente MUITO QUENTE. fura-bolo Dedo indicador. Falava-se muito sobre os dedos da mão. Parecia que cada um tinha mesmo o seu valor. Dedo indicador, mindinho, seu vizinho, pai de todos, fura-bolo e mata-piolho. O mindinho, coitado, era aquele menorzinho que não servia para grande coisa. O seu vizinho pior ainda, era simplesmente seu vizinho; o maior de todos servia para mandar alguém para aquele lugar; o mata-piolho matava também pulgas; agora o furabolo era o mais valorizado. Quando o bolo estava pronto, o filho ia lá, enfiava o dedinho e o levava à boca para experimentar aquela delícia.

Hoje, o FURA-BOLO é apenas um DEDO. furreca Carro velho. Só gente com muita grana conseguia comprar um carro novo, zero-quilômetro. Por isso, as ruas eram cheias de carros usados, velhos, furrecas. Era assim que as pessoas chamavam os carros bem velhos, aqueles com o estofado já rasgando, o indicador de gasolina parado, o farolete quebrado e o para-brisa riscado. A furreca, muitas vezes, nem tinha uma cor definida, era aquela coisa meio cor de burro quando foge. Muitas pessoas tinham medo de deixar a furreca dormir na rua, não porque iriam roubar, mas porque os lixeiros podiam levar. Quando apareceu a Jovem Guarda, a furreca ganhou outro nome, uma música e virou grife, uma grife chamada calhambeque.

Hoje, um carro FURRECA é um carro USADO. fustão Tecido de algodão fino e opaco com estampas extravagantes. Como as costureiras iam às casas para fazer roupas sob medida, todos sabiam de cor e salteado o nome dos tecidos. Opaca, popeline, tergal, casimira, organdi, pele de ovo e por aí vai. E tinha o fustão. Fustão era um nome falado sempre. As pessoas chegavam ao balcão das Casas Pernambucanas e pediam: “Por favor, me dê um metro e meio de fustão”. O vendedor pegava aquele metro, colocava a peça em cima do

balcão e media um metro e meio de fustão. Hoje, se alguém chegar e pedir um metro e meio de fustão, vão chamar um tradutor. Uma curiosidade: dimity, fustão em inglês, é derivado da palavra grega dirnitos, que significa duplo fio. Está aí a explicação. O fustão de algodão é feito a partir de dois ou três fios.

Hoje, o FUSTÃO virou TECIDO. fuzarca Confusão, folia. Adolescentes eram os reis da fuzarca. Gostavam de aprontar confusão, entrar numa folia meio irresponsável. Aprontavam uma fuzarca, principalmente, aqueles que moravam em repúblicas estudantis. Ali a fuzarca corria solta. Bebida, garotas e estudo que era bom mesmo, nada. Uma farra e tanto, uma verdadeira fuzarca.

Hoje, fazer uma FUZARCA é fazer uma FARRA.

gabarito Classe. A palavra gabarito mudou de rumo. Ninguém mais diz que fulano ou sicrano é uma pessoa de gabarito. Gabarito virou simplesmente o resultado de um exame, de um vestibular, de um concurso público. Quem não duvidava que um Rui Barbosa era um homem de gabarito? Era mesmo. Hoje todos só querem saber se o gabarito saiu para checar se foi bem no exame e tem chances de passar no vestibular.

Hoje um homem de GABARITO é um homem PREPARADO. gaiato Engraçado. Gaiato era o engraçado da firma. Sempre com uma piada, um trocadilho, uma brincadeira de mau ou bom gosto na ponta da língua. Não deixava escapar nenhuma oportunidade. Comentava tudo, palpitava sobre tudo, era meio um sabichão. O gaiato gostava de imitar artistas e colegas de trabalho. Os gaiatos mais gaiatos chegavam mesmo a brincar com o chefe, que, muitas vezes, não achava graça nenhuma na brincadeira, mas nunca demitia o tal gaiato.

Hoje, o GAIATO é um pouco MALA. gaita Dinheiro.

“Ele está cheio da gaita.” Isso significava que ele estava cheio da grana, com muito dinheiro, muitas vezes dinheiro sobrando. Não se sabe de onde veio essa expressão cujo significado é dinheiro. A pessoa com muito dinheiro que vivia folgadamente era uma pessoa cheia da gaita que vivia na flauta. Faz sentido?

Hoje, quem tem GAITA tem GRANA. galinhas (dormir com as) Dormir cedo. Toda casa tinha um quintal e todo quintal tinha uma criação de galinhas. Quando o sol começava a se pôr, o movimento de galinhas no galinheiro era grande. Elas se instalavam em poleiros para ali passar a noite. Quando caía a noite, as bichinhas já estavam lá encolhidinhas, dormindo. Não se tem notícia de uma galinha boêmia, que fica acordada até altas horas, a não ser outro tipo de galinha. Ao ver as galinhas dormirem tão cedo, alguém inventou a expressão dormir com as galinhas. Quer dizer, dormir cedo, assim que a noite cai.

Hoje, DORMIR COM AS GALINHAS significa APAGAR CEDO. gamado Apaixonado. Não é de hoje que homem se apaixona por mulher, mulher se apaixona por homem, homem se apaixona por homem e mulher se apaixona por mulher. E as pessoas diziam claramente: “Estou apaixonado por você!”. Na década de 1960, quando surgiram centenas de gírias no embalo da Jovem Guarda, apareceu a palavra gamado. Estar gamado é nada mais, nada menos que estar apaixonado. Com o passar dos anos, gamar virou uma expressão para gostar de qualquer coisa. Uma mulher via um sapato na vitrine e exclamava: “Gamei!”.

Hoje, um cara GAMADO por uma mulher é um cara CAIDAÇO por uma mulher. gamela Recipiente em forma de bacia feito de madeira. Em casas do interior, humildes, as gamelas reinavam. Em casa de gente rica não se via gamela. Aliás, via sim, como decoração. Com o advento do hipismo, esses objetos tipo gamela passaram a fazer parte da decoração rústica de algumas casas de bacanas. Pobre usava a gamela para tudo. Rico para decorar ou até mesmo para colocar revistas. Gamela é coisa muito antiga e está sempre presente em obras-primas de

gênios da pintura.

Hoje, GAMELA é uma VASILHA. garrancho Letra feia. Numa era em que caligrafia fazia parte do currículo, era disciplina obrigatória, ouvia-se muito a palavra garrancho. Garrancho era aquela letra ruim, feia, malfeita, escrita de qualquer maneira e que mal dava para ler. Um garrancho mesmo. Escrever corretamente se aprendia na escola. Havia inclusive o caderno de caligrafia, em que se escrevia certo por linhas certas. Hoje, as pessoas escrevem cada vez menos à mão; com caneta-tinteiro, então, nem se fala. Agora, os reis do garrancho eram, foram e sempre serão os médicos. Alguém tem uma explicação?

Hoje, um GARRANCHO é uma LETRA INCOMPREENSÍVEL. garrucha Arma de fogo de cano curto. Tiro sempre se deu. Mas que ninguém mais diz que deu um tiro de garrucha isso ninguém mais diz. Era comum ouvir de fazendeiros e sitiantes: “Se esses meninos voltarem aqui para roubar goiaba, eu passo a mão na garrucha...”. Garrucha era o nome que se dava a uma arma de fogo de cano curto. Pais costumavam brincar com as filhas quando elas ameaçavam trazer o pretendente em casa. “Vai ser recebido a garrucha”, diziam os coronéis.

Hoje, GARRUCHA virou REVÓLVER. genuína Autêntica. Os piratas não atacavam tanto como agora. Piratas no sentido de falsários. Mas mesmo assim as revistas anunciavam: “Peças, só genuínas”. Genuínas eram aquelas peças de automóveis que vinham da fábrica, embaladas nas caixas, com garantia. Mas, como piratas já existiam, tinha sempre aquela peça similar, que quebrava o galho, bem mais barata. De uns tempos para cá está difícil distinguir o que é genuíno e o que é falsificado, fajuto.

Hoje, uma peça GENUÍNA é uma peça ORIGINAL. geraldinos

Torcedores que assistem ao jogo na geral. Se existiam os arquibaldos, claro que existiam também os geraldinos. Aqueles que não tinham grana para assistir ao jogo da arquibancada. O jeito era ficar na geral por um preço bem mais baixo. E o preço de ver um jogo na geral era esse, passar os noventa minutos em pé tentando ver os lances e ficar molhado em dias de chuva.

Hoje, GERALDINOS virou GALERA. geringonça Troço. Imagine uma coisa esquisita, meio troncha, meio sem pé nem cabeça, estranha, diferente de tudo o que existe. Trata-se de uma geringonça. Geringonça era tudo aquilo meio bizarro, velho, que funcionava dia sim, dia não. Um carro velho, de repente, poderia ser uma geringonça. Um fogão meio torto, um quebracabeça. Sim, um quebra-cabeça. Era só ver um quebra-cabeça difícil de montar que as pessoas diziam: “Como é que funciona essa geringonça?”. E não é que a geringonça funcionava? E olha que aquelas máquinas maravilhosas inventadas por Galileu, por Leonardo da Vinci, já foram chamadas de geringonça. E uma pessoa geringonçada era uma pessoa meio atrapalhada, parecendo uma geringonça.

Hoje, uma GERINGONÇA é uma COISA ESQUISITA. gogó No papo. Pesquisando bem, você vai descobrir que gogó é uma árvore de São Tomé que fornece madeira para construção. Mas isso não vem ao caso. O que vem ao caso aqui é o gogó. O gogó não é nada mais, nada menos que o pomo de adão, mas muitas pessoas diziam que conseguiram tal coisa no gogó, no papo. Mas um papo muitas vezes cheio de malandragem. “Ganhei aquela garota no gogó.” Deu pra entender?

Hoje, ganhar uma menina no GOGÓ é ganhar uma menina na LÁBIA. goiaba Bobo. Goiaba era aquele cara meio sonso, bobo mesmo, e que não percebia que era bobo. Nem mesmo quando alguém dizia na lata. O goiaba era tão goiaba que muitas vezes alguém dizia que ele era boçal e o pobre coitado achava que boçal era uma pessoa cheia de bossa. A consagração do goiaba veio com o hit

“Goiabão”, de Eduardo Araújo: “Ficou lelé/Bicho do pé/Moringa quente/Espanta a gente/Ele é um manjado paquera/Sempre está na boca de espera/Canta todo mundo/Mas sempre fica na mão/Goiabão, goiabão, goiabão”.

Hoje, o GOIABA virou um MANÉ. gonorreia Doença sexualmente transmissível. Falando sério. A gonorreia era um fantasma que assombrava todo homem, principalmente aqueles que frequentavam a zona meretrícia. Era ali que, além das putas, estava também a bactéria Neisseria gonorrhoeae. Pegar gonorreia foi a grande vergonha de toda uma geração. A cura? Sim, havia a cura por meio de antibióticos. Mas ninguém falava muito em antibióticos. Falava-se que para curar a gonorreia só mesmo a penicilina.

Hoje, a GONORREIA ainda existe, mas não se fala mais nisso. gorilas Apelido para militares. Quando o tempo fechou no Brasil, em 1968, e o Ato Institucional número 5 foi instituído, não havia um manifestante na rua que chamasse militar de militar. Era gorila. Os pms nas ruas com seus cassetetes, suas bombas de gás lacrimogêneo e seus cavalos faziam jus ao apelido. Eram verdadeiros trogloditas que não pensavam duas vezes antes de agir. Partiam para o pau, os gorilas.

Hoje, GORILAS viraram militares. goró Cachaça. Tomar uns gorós (era assim mesmo que se dizia) não queria dizer que a pessoa iria socialmente tomar uma dose de cachaça. Quando alguém anunciava que ia tomar uns gorós é porque o bicho ia pegar. Era muita pinga, uma atrás da outra. Até cair. Pinga, cana, mé, aguardente, era tudo a mesma coisa. Tomar uns gorós significava que a pessoa só voltaria pra casa amanhã. Goró acompanhado de coração de galinha, jiló à milanesa, moela, bolinho de arroz ou qualquer outro petisco, nada melhor.

Hoje, quem vai tomar uns GORÓS vai tomar TODAS. gorou

Não deu certo. Quando uma galinha chocava, alguns ovos encubavam e outros goravam. O gorou de que estamos falando aqui, pensando bem, tem o sentido de gorar mesmo, de não ir pra frente, de não dar certo. Exemplos? O namoro do João com a Maria gorou. Aquela ideia de fazer um concurso pra trabalhar na prefeitura gorou. Ela ia para a praia no final de semana, mas a ideia gorou. Além dos ovos da galinha, muita coisa gorava antigamente.

Hoje, GOROU virou MICOU. gozeira Zombaria. É comum dizer, agora, que a turma caiu na gozação pra cima dele. Mas a palavra gozeira vivia na boca do povo. “Quando ele chegou vestido de mulher foi a maior gozeira”, diziam as pessoas. Aos poucos, a gozeira foi dando lugar à gozação. Acredito que se alguém usar a palavra gozeira vai ser a maior gozação.

Hoje, ninguém mais diz GOZEIRA, e sim GOZAÇÃO. grã-fina Chique. Gente grã-fina usava luvas de pelica, fumava com piteira e tinha motorista de terno e gravata. Gente grãfina tocava o sininho na mesa de jantar para chamar a empregada e pedir um pouco mais de água gelada. Gente grã-fina falava baixo, pedia por favor e sempre cumprimentava estendendo a mão. Quem é grã-fina agora? Gloria Kalil, Lilian Pacce, Costanza Pascolato, Fernanda Montenegro. Para citar apenas quatro.

Hoje, gente GRÃ-FINA é gente FINA. grilado Preocupado. O Grilo Falante de Walt Disney existe há muitos anos. Mas a expressão “estou grilado” chegou junto com outras – “vou desgrilar”, “não tem grilo” e “bicho grilo” – no auge do hipismo. Chegou como uma onda de gafanhotos que se espalhou pelo país. Não tinha uma figura cabeluda, nenhum bicho grilo de calça boca de sino, camiseta manchada e colada no corpo, sandália de couro e uma bolsa pendurada que não usasse a palavra grilado pelo menos três vezes em cada frase. Estar grilado era estar preocupado, encucado, cabreiro. A onda foi tão grande que a palavra foi parar em duas letras de música. Uma de

Erasmo e Roberto, “Mexerico da Candinha”: “Candinha agora tá falando até demais/Porém, ela no fundo sabe que eu sou bom rapaz/E sabe bem que essa onda é uma coisa bem legal/A Candinha tá grilada, vejam só, com o Simonal/Mas sei que ainda vai falar”. E outra, “Grilado”, do psicodélico Júpiter Maçã: “Tô grilado, grilado em relação a mim, em relação a você/Paranoico, e aquele dia que a gente viveu como um Tihuana, é isso aí/Na festinha, você foi andar com outro cara e trocou telefone, eu vi/Tô grilado, grilado em relação a nossa relação”.

Hoje, um cara GRILADO é um cara DESCONFIADO. grudada Junta. Frases estavam soltas no ar. “Essa minha filha é muito grudada em mim.” “A minha namorada é grudada demais.” Pessoas grudadas não eram necessariamente irmãs siamesas. Bastava querer ficar juntinho o tempo todo que era chamada de grude. Grude era uma cola à base de farinha e água, mas essa é outra história.

Hoje, uma filha GRUDADA é uma filha LIGADA. grupo Escola primária. Grupo era aquele prédio geralmente antigo onde se lia numa placa na entrada: Grupo Escolar Afonso Pena, Grupo Escolar Bueno Brandão, Grupo Escolar Antônio Carlos. Grupo escolar era onde as crianças entravam pela primeira vez para aprender o bê-á-bá. Aprender a ler, somar, dividir, diminuir e multiplicar. Aprender quem descobriu o Brasil, o significado de ilha, de arquipélago. Aprendia-se também a colar. Todo grupo escolar exigia uniforme completo, dos pés à cabeça, geralmente azulmarinho e branco. Era no grupo escolar que as crianças tinham o primeiro contato com a cartilha Caminho suave, de Branca Alves de Lima, e com a tabuada. “O seu filho está enorme! Ele já está no grupo?” Era assim que as pessoas falavam.

Hoje, GRUPO virou ESCOLA. guarda-noturno Vigia. Guarda-noturno era aquele cara que passava o dia em casa e quando a noite chegava saía para o trabalho. Passava a noite vigiando alguma coisa, muitas vezes cochilando, puxando uma palha, alguns chegavam a roncar. Ainda tem gente assim, mas ninguém mais diz que é guarda-noturno. O guarda-noturno mais

famoso de todos os tempos é aquele da letra “Três apitos”, de Noel Rosa: “Sou do sereno poeta muito soturno/Vou virar guarda-noturno/E você sabe por que/Mas você não sabe/Que enquanto você faz pano/Faço junto ao piano/Estes versos pra você”.

Hoje, um GUARDA-NOTURNO é um SEGURANÇA. guidom Peça dianteira com dois punhos em que se apoiam as mãos para guiar. Criança andava de bicicleta na rua – Monark, Caloi, Mercury – e toda bicicleta tinha guidom. Ainda tem, mas ninguém mais fica falando que o guidom está torto, que o guidom está fora do prumo. Algumas pessoas diziam guidão, mas todos achavam meio estranho. O chique do chique era colocar na bicicleta um farolete, uma campainha e, no guidom, um protetor de mãos de borracha.Todo pai que ensinava os filhos a andar de bicicleta dizia na primeira lição: “Olha pra frente! Não fique olhando pro guidom!”.

Hoje, GUIDOM é VOLANTE. guimba Resto de cigarro. Propaganda de cigarro rolava solta na televisão, nas páginas dos jornais e nas revistas. A imagem era de juventude, esporte, saúde. Ao sucesso! Cigarro nunca custou caro, mas havia gente (ainda há) que não tinha dinheiro nem para o cigarro. Essas pessoas procuravam nas ruas as guimbas, aquele restinho, pouco mais que o filtro. Imagine o mal que o cigarro faz, ainda mais um pedaço de cigarro já fumado, achado no chão. Mas não era só no chão que apareciam as guimbas. Estudantes que não tinham dinheiro costumavam passar para os colegas, que também eram uns prontos, o cigarro quase no finalzinho.

Hoje, costumam chamar a GUIMBA de BITUCA. guisado Refogado à base de legumes e carnes. Comia-se muito guisado. Guisado era uma panelada com um pouco de tudo. Óleo, alho, colorau, pimentado-reino, cominho, cebola, pimentões, batatas, tomates, cheiro-verde, tudo misturado com carne de vaca, vitela, carneiro ou porco. Nada mais gostoso. Esse é o guisado oficial, mas muitas donas de casa improvisavam, claro. Com menos de meia dúzia desses ingredientes, na hora do aperto, faziam um guisado à moda da geladeira meio vazia. “Não vá embora, porque vou fazer um guisado aqui pra gente!”, diziam as donas de casas para as amigas íntimas, claro.

Hoje, o GUISADO ficou chique. Virou RATATOUILLE. guloseima Todos os tipos de doces. Qual criança não gostava de uma guloseima? Guloseima era todo tipo de docinho que corria solto em festinhas de aniversário. Brigadeiro, cajuzinho, olho de sogra, balinha de coco, bombom de nozes, era guloseima que não acabava mais. Numa época em que açúcar não era veneno e que a palavra dieta ainda não estava nos dicionários. Ainda que estivesse, ninguém usava.

Hoje, as mães costumam chamar GULOSEIMA de PORCARIA.

homessa Ora essa. Confesso que quando ouvia uma pessoa nervosa dizendo Homessa! com exclamação, não imaginava que esse homessa fosse com H. Mas sempre foi. Homessa é a união de homem + essa. Significa certo espanto de uma pessoa intrigada. Exemplo um pouco mais irado: “Pago caro a escola todo mês para você tirar quatro em matemática? Homessa!”. Um pouco mais calmo: “Homessa! Não sei onde coloquei a chave do carro!”.

Hoje, em vez de exclamar HOMESSA! costuma-se dizer POXA! horrendo Horroroso. Existem pessoas bonitas e pessoas feias. Mas existem também as horrendas. O Corcunda de Notre-Dame, por exemplo, é uma pessoa horrenda. O que vocês acham do Shrek? É simpático, gentil, mas no fundo, no fundo, é horrendo. Combinar marrom com roxo, por exemplo, também é horrendo.

Hoje, HORRENDO é FEIO PRA DANAR.

indecência Contra os bons costumes. As pessoas pareciam mais pudicas. Pareciam porque no fundo, no fundo não eram nada. Mas ouviam-se muitas frases como: “Você vai com essa minissaia? Mas que indecência!”, “Está uma indecência esse seu decote!”, ou, então, “Olha só aquele casal se beijando na frente de todo mundo! Que indecência!”. Indecência era ser meio erótico, meio provocador, fora dos bons costumes. A palavra virou canção na voz de Kid Abelha e os Abóboras Selvagens: “A indecência pode ser saudável/A indecência pode ser normal/Um pouco de indecência/É sempre necessário/Pra manter uma vida normal/Pra manter uma vida normal, saudável”.

Hoje, INDECÊNCIA é uma coisa meio PORNÔ. indez Ovo utilizado como chamariz. Na roça, além dos jecas e dos capiaus, sempre houve as galinhas caipiras. Galinhas caipiras são aquelas que ciscam minhocas, comem insetos, areia, bebem água do riacho e nunca experimentaram um grão de ração. São elas que botam meia dúzia de ovos e ficam chocas. Pra tirar o choco, só muita água fria durante dias. Galinha caipira criada solta costuma colocar os seus ovos em ninhos no meio do mato. Um problema sério para os fazendeiros é encontrar esses ninhos e recuperar os ovos antes que a galinha fique choca e comece a chocá-los. Para isso havia o ovo indez. Ovo indez era um ovo cobaia. Ele era colocado dentro do ninho para que a galinha o visse e ali colocasse os seus ovos todos os dias. O ovo indez era um ovo sujo, choco, não servia para nada, a não ser para enganar galinhas caipiras.

Hoje, sinceramente, ninguém mais diz INDEZ. indumentária Roupa. Indumentária tinha um ar chique, meio nobre. Quando alguém chamava a atenção para a indumentária de alguém é porque esse alguém estava bem vestido. Ninguém tinha uma indumentária pobre. Chinelo e bermuda, por exemplo, nunca foi indumentária. Indumentária era um terno bem cortado, um vestido que caía bem, uma coisa comportada.

Hoje, pensando bem, uma INDUMENTÁRIA é uma ROUPA BACANA. inferninho Local de prostituição. Imagine um lugar meio sombrio, cheio de quartos com luzes vermelhas e muitas mulheres. Mulheres trajando roupas sumárias, provocativas. Todas elas cheias de amor para dar. O inferninho era isso. Lugar que, ao chegar a noite, pegava fogo. De vez em quando uma batida policial, uma blitz. As luzes se apagavam para mais tarde voltarem a ser acesas. Vermelhas, sempre vermelhas.

Hoje, o INFERNINHO virou PRIVÊ. inhaca Ranço, fedor. Pessoas que não tinham o bom hábito de tomar banho todos os dias tinham inhaca, aquele mau cheiro típico de desodorante vencido. Mas em Minas Gerais o termo era usado também para mau-olhado. “Nada dá certo na minha vida, parece que puseram uma inhaca em mim”, diziam os mineiros. Agora, uma pessoa com azar e cheirando mal, essa sim estava com uma inhaca danada.

Hoje, INHACA virou MAU CHEIRO. injuriado Insultado. Quando a briga pegava fogo, uma pessoa logo dizia: “Não admito ser injuriada!”. Quer dizer, não admitia ser insultada. É claro que a palavra vem de injúria, usada até pelos mais velhos ainda hoje. Injuriado, um

dia, virou música de sucesso de ninguém mais, ninguém menos que Chico Buarque: “Se eu só lhe fizesse o bem/Talvez fosse um vício a mais/Você me teria desprezo por fim/Porém não fui tão imprudente/E agora não há francamente/Motivo pra você me injuriar assim/Dinheiro não lhe emprestei/Favores nunca lhe fiz/Não alimentei o seu gênio ruim/Você nada está me devendo/Por isso, meu bem, não entendo/Porque anda agora falando de mim”.

Hoje, um INJURIADO é um OFENDIDO. instantâneo Fotografia. Uma pessoa que diz que vai tirar um instantâneo tem, pelo menos, oitenta anos. Instantâneo era uma fotografia. E olha que essa fotografia demorava dias para ser revelada. Quer dizer, nada de instantâneo. O instantâneo, nesse caso, talvez significasse o clique. Havia outro instantâneo, aquele que começou a aparecer nas embalagens, e que nada era instantâneo, pois tudo empelotava. O Toddy e o angu, principalmente. Ninguém sabe quem inventou o instantâneo, ou a fórmula que faz o leite e a água se misturarem com o pó. Mas, que foi uma grande invenção, isso foi.

Hoje, tirar um INSTANTÂNEO é tirar uma FOTO. inzoneiro Manhoso. “Essa cabocla é muito inzoneira!” Era assim que os galanteadores diziam para aquela morena manhosa, dengosa. Ser inzoneiro era uma maneira de ser. A consagração dessa palavra, que de repente desapareceu do mapa, chegou ao seu ápice quando o compositor mineiro Ary Barroso compôs “Aquarela do Brasil”. A música caiu no gosto popular, começou a ser cantada de norte a sul, de leste a oeste do país. Virou um clássico: “Brasil!/Meu Brasil brasileiro/Meu mulato inzoneiro/Vou cantar-te nos meus versos...”.

Hoje, o INZONEIRO virou BOA-VIDA.

jaburu Mulher feia. Jaburu (Jabiru mycteria) é uma ave pernalta ciconiforme da família Ciconiidae. É pernalta, tem o pescoço nu, preto e vermelho, e se transformou no símbolo do Pantanal. Virou vedete durante a novela Pantanal, onde aparecia em praticamente todos os capítulos. Na época, brincavam que havia jaburu até com crachá da Rede Manchete voando por lá. Mas o jaburu de que estamos falando é uma mulher feia, dessas que não têm conserto. Mal-arrumada, que usa tamanco e cabelo oxigenado com as raízes pretas à mostra; uma mulher completamente desleixada. Dessas que estão se lixando se você a considera um jaburu.

Hoje, uma mulher JABURU é um TRIBUFU. jacu Pessoa da roça. Jacu é uma ave da família dos cracídeos, gênero Penelope, que habita a Mata Atlântica. Virou sinônimo de sertanejo, jeca, capiau, um pouco Chico Bento. Nas grandes cidades, percebia-se logo quem era um jacu. Era aquela pessoa que ficava no centro da cidade olhando pra cima, encantada com os prédios altos, o movimento, a agitação. O jacu costumava olhar desconfiado, falar pouco, coçar o cavanhaque e mostrar-se perplexo com tanto progresso.

Hoje, um JACU é um PROVINCIANO. japona

Vestimenta masculina. Japona era um paletó, mas diferente de um paletó. Tinha os botões dourados e um corte reto. Era feito de um tecido mais encorpado, uma espécie de lã. Nos anos 1970, a japona era tudo. Um jovem que vestia japona era um jovem pra frente, prafrentex. Cheia de bolsos, cheia de bossa, a japona reinou durante muitos e muitos anos.

Hoje, a JAPONA virou um BLAZER. jararaca Mulher brava e feia. “Minha sogra é uma jararaca!” Ouvia-se isso em cada esquina porque sogra não era apenas a mãe da esposa, era motivo de piada. Mesmo as sogras que eram gente fina viravam, na hora da piada, umas jararacas. No fundo, no fundo, muitas sogras faziam jus ao nome da cobra do gênero Bothrops, da família Viperidae. Como eram venenosas e feias. Agora, jararaca famosa só mesmo a da saudosa dupla Jararaca e Ratinho.

Hoje, uma sogra JARARACA virou uma FERA. jardineira Espécie de ônibus. Jardineira era um ônibus menor, que não era bem ônibus. Tinha o motor na frente e o bagageiro lá em cima, no teto. Antes de embarcar, os passageiros iam subindo numa escada e colocando as malas lá no alto. Arrumando daqui, dali, amarrando tudo com cordas para não cair no meio do caminho. A passagem das jardineiras era mais barata que a de um ônibus comum. Elas serviam para ir de uma cidade a outra, cidades não muito distantes.

Hoje, jardineira virou van. joão-ninguém Pessoa sem estudo. Quando um carroceiro passava nas ruas puxando aquela carroça enorme cheia de tranqueiras, as mães costumavam dizer a seus filhos: “Está vendo! Se você não estudar não vai ser ninguém na vida!”. Quer dizer, vai ser um joão-ninguém. É claro que os carroceiros são, sim, alguém na vida, mas as mães não perdoavam. Sem estudo, o filho ia ser carroceiro, um joão-ninguém. Por que João? Não me pergunte. Talvez por ser um nome comum na época.

Hoje, um JOÃO-NINGUÉM é uma espécie de ZÉ MANÉ. jogando Balançando. Era impressionante como um Douglas, um Constellation, da Panair, balançavam. Não era brincadeira. Se pegassem um temporal, todos os passageiros se consideravam sobreviventes, e não passageiros. Entrar num avião na década de 1950 era mesmo uma aventura. E que aventura! Quando desembarcavam, os passageiros ouviam como primeira pergunta de quem estava esperando por eles: “Jogou muito?”. O avião não balançava, jogava. Jogava para cima e para baixo, para um lado e para o outro.

Hoje, não se fala mais que um avião está JOGANDO, mas, sim, que está passando por uma TURBULÊNCIA. judiar Fazer mal. Irmão mais velho judiava de irmão mais novo. Aluno mais forte judiava de colega mais fraco. Mãe judiava de filho. Judiar era dar um beliscão aqui, um puxão de orelha ali. Judiar não era torturar, mas como machucava! Namoradinho apaixonado judiava da namorada. Quando, em dia de jogo, ele dizia para ela que iria ao campo, ela fazia beicinho e dizia: “Judia de mim não...”.

Hoje, JUDIAR é DAR UMA SACANEADINHA. jururu Triste. Ficar jururu não significava necessariamente entrar em depressão, era ficar meio deprê. Jururu era uma tristeza light. Muitas vezes, a pessoa jururu não sabia muito bem por que estava jururu. Ficava quieta, calada, pensativa. Isso era estar jururu. Quem não se lembra da música “Ando jururu”, de Rita Lee? “Eu ando jururu/I don’t know what to do/Quero encontrar pelo caminho/Um cogumelo de zebu”.

Hoje, estar JURURU é estar DOWN.

kaol Prato feito, típico de Minas Gerais. Kaol era um prato feito com carne, arroz, ovo e linguiça. Alguns dizem que estava incluída na conta uma cachacinha. Não se sabe por que os restaurantes escreviam kaol com k. Talvez embalados por aquela ideia que muitos comerciantes têm. Quem nunca viu um salão de beleza chamado Ki-Beleza, um hotel chamado Ki-Sono, uma lanchonete chamada Ki-Delícia. Então, a carne do kaol era com k. Um prato que todos comiam sem pensar na palavra colesterol.

Hoje, o KAOL é um PF.

labuta Trabalho. “Tenho de ir pra labuta” era um jeito, digamos, meio sofisticado de dizer vou para o trabalho, vou para a luta. No fundo, no fundo, labuta era simplesmente trabalho. Apenas outra maneira de dizer. Chico Buarque, mais uma vez, encontrou poesia na palavra: “Como beber dessa bebida amarga/Tragar a dor, engolir a labuta/Mesmo calada a boca, resta o peito/Silêncio na cidade não se escuta”. A música chamase “Cálice” e foi feita em parceria com Gilberto Gil durante os anos de chumbo.

Hoje, LABUTA virou TRAMPO. laia Da mesma categoria. Nunca foi bom ouvir que você é da mesma laia de alguém. Laia sempre teve um sentido pejorativo. “Não importa de que partido esses deputados são, todos são da mesma laia”, diziam os eleitores revoltados com a onda de corrupção. Ser da mesma laia significava mais ou menos ser da mesma quadrilha, da mesma gangue.

Hoje, ser da mesma LAIA significa ser FARINHA DO MESMO SACO. lamber sabão

Ver se está na esquina. Mandar uma pessoa lamber sabão era a mesma coisa que mandar chupar prego. Lamber sabão e chupar prego, claro, não são a mesma coisa, mas quando você manda alguém lamber sabão ou prego é, sim, a mesma coisa. Resumindo, é aquela velha piadinha, a mesma coisa que dizer: “Vá ver se eu estou lá na esquina, vai!”.

Hoje, LAMBER SABÃO é o mesmo que dizer VÁ SE DANAR. lambisgoia Assanhada, espevitada, exibida, saliente, afetada. Pela descrição acima dá perfeitamente para perceber quando alguém dizia “sua lambisgoia”, não é mesmo? Lambisgoia tinha de tudo um pouco. Um pouco assanhada, meio espevitada, ligeiramente exibida, descaradamente saliente e, venhamos e convenhamos, afetada. Uma lambisgoia que se prezava era um pouco tudo isso. Ao mesmo tempo.

Hoje, uma LAMBISGOIA é uma PRESUNÇOSA. lambuja Algo mais. Compre um sapato e ganhe uma meia de lambuja. Encha o tanque e ganhe uma ducha de lambuja. Lambuja era isso, algo mais. Quantas e quantas vezes um time não estava ganhando de três a zero e no finalzinho do jogo ainda fazia um gol de lambuja?

Hoje LAMBUJA virou BÔNUS. lanterninha Funcionário de cinema que, com uma lanterna na mão, ajudava as pessoas a se instalar na sala de projeção. O lanterninha era a salvação da pátria de quem chegava atrasado ao cinema. Com a sala já escura, ele ia com a sua lanterna na mão procurando o caminho pelo corredor e pelas fileiras até achar o lugar certo do espectador. Lanterninhas costumavam trabalhar anos a fio no mesmo cinema. Conheciam de cor e salteado os caminhos da sala e geralmente eram gente fina, até mesmo no escuro. Na França, costumavase dar uma moeda para o lanterninha assim que ele achasse um lugar vazio para você. Se não desse, dá para imaginar o mau humor do lanterninha francês, não é mesmo?

Hoje, a profissão de LANTERNINHA não existe mais. laquê Fixador de cabelo. Vaidosas, as mulheres sempre foram. Mas houve uma época em que a vaidade das mulheres não saía da cabeça. Era o laquê. Ninguém ia a uma festa, a um acontecimento, sem passar laquê no cabelo. O bom e velho laquê fixava o cabelo conforme ele estivesse. A mulher fazia um coque e borrifava com laquê. Havia uma bomba de laquê – fi... fi... fi... –, que sempre fazia esse barulho. Repare bem, em qualquer foto de casamento, batizado ou aniversário da década de 1970, as mulheres estão com o cabelo armado de laquê.

Hoje, forçando um pouco a barra, LAQUÊ virou GEL. largo Pessoa com sorte. “Ganhei um projetor de slides na rifa!” Logo alguém dizia: “Você é mesmo muito largo!”. Largo significava uma pessoa com sorte. Dizia-se largo para toda pessoa que conseguia alguma coisa por mérito ou não. “Caiu o ponto sobre a vida de Lavoisier, o único que eu tinha estudado. Sou muito largo!”, triunfava o estudante. Um personagem de história em quadrinhos ficou muito famoso por ser largo. Gastão, personagem de Walt Disney.

Hoje, um cara LARGO é um cara RABUDO. lascado Ficar em má situação. Bastava alguém dizer que você precisava chegar duas horas antes ao trabalho para se ouvir: “Estou lascado!” Era só o professor abrir a porta da sala e anunciar uma arguição oral para todos os alunos murmurarem: “Estamos lascados!” Estar lascado era mais ou menos estar em maus lençóis.

Hoje em vez de dizer estou LASCADO, diz-se estou FERRADO. latrina Banheiro. Latrina era o lugar reservado para as pessoas fazerem suas necessidades. Latrina não soava bem, não

havia latrina limpa e cheirosa. Latrina era aquele banheiro de beira de estrada, de rodoviária, de boteco. Na porta dos banheiros públicos sempre existe uma placa: WC, Damas, Cavalheiros, Ele, Ela, Homens, Mulheres e por aí vai, mas nunca uma placa Latrina.

Hoje, a LATRINA é chamada de BANHEIRO PÚBLICO. lavar a égua Ganhar, se sair bem. Tem coisa mais complicada que lavar uma égua? Mas a expressão já foi muito usada em nosso país. Lavar a égua significava ganhar alguma coisa, se sair bem. “Fui jogar baralho com os meus amigos e lavei a égua”, quer dizer ganhei o jogo, ganhei dinheiro.

Hoje, LAVAR A ÉGUA é o mesmo que SE DAR MUITO BEM. lé com cré Coisa com coisa. Sabe quando a idade vai chegando e o avô começa a confundir o nome dos filhos, dos netos, às vezes da mulher? Sabe quando a idade vai chegando e o velho começa a contar o mesmo caso uma, duas, três vezes? Sabe quando a idade avança demais e o velhinho começa a falar coisas incompreensíveis, inventar histórias e perguntar por pessoas que já morreram? Quando isso acontecia, as pessoas diziam: “Vovô não está juntando lé com cré”.

Hoje, não juntar LÉ COM CRÉ é a mesma coisa que não falar COISA COM COISA. leão de chácara Empregado encarregado de vigiar boate. O leão de chácara botava medo. Era, geralmente, uma pessoa forte, musculosa, capaz de pegar alguém pela camisa e jogar do lado de fora de uma boate. O leão de chácara vivia antenado, era capaz de captar excessos de bebida, começo de briga, mão-boba e por aí vai. Quando ele chegava perto do, digamos, infrator, esse tremia. Diz a lenda que o nome veio mesmo da expressão: “Você entraria numa chácara sabendo que tem um leão lá dentro?”. Se é verdade, não sei. Mas quem sou eu para discutir esse assunto com um leão de chácara?

Hoje, um LEÃO DE CHÁCARA é um SEGURANÇA.

lerdo Lento. Um cara lento, meio devagar, era chamado de lerdo. Ele poderia ser lerdo ao se explicar, lerdo ao fazer qualquer coisa. O lerdo comia devagar, dirigia um automóvel devagar, falava devagar, custava a acordar, a se aprontar, enfim, era um lerdo.

Hoje, um cara LERDO é um cara MEIO DEVAGAR. lero-lero Blá-blá-blá. Lero-lero pode ser traduzido por conversa fiada, conversa jogada fora. Gente que fala pelos cotovelos é gente cheia de lero-lero. Aquele plá! Quando alguém não tem muito a dizer, quer enrolar o outro, ele vem logo com um lero-lero. Esse lero-lero, muitas vezes, é logo percebido. É gente que não tem muito argumento, não tem conversa com muito fundamento, é sem conteúdo, mas gosta de um, digamos, lerolero.

Hoje, LERO-LERO é um PAPO FURADO. liga Peça do vestuário feminino para segurar meia fina. Uma mulher cruzar as pernas e deixar a liga aparecer era uma grande provocação. Usava-se liga na mesma época em que se usava anágua e combinação. Em todo show de striptease, a liga era a grande atração.

Hoje, a LIGA deu lugar à MEIA-CALÇA. limpa-tipos Borracha usada para absorver grafites. Limpa-tipos era uma borracha mole que desenhistas usavam para absorver grafites, rastros deixados pelo lápis. Talvez desenhistas e arquitetos ainda usem limpa-tipos, mas não se ouve mais ninguém falando. Na era digital, como o uso do lápis é cada vez mais restrito, o pobre do limpa-tipos foi esquecido.

Hoje, ainda há quem chame LIMPA-TIPOS de LIMPA-TIPOS.

língua morta Língua que ninguém mais fala. A ideia deste dicionário surgiu numa feira livre no bairro da Lapa, em São Paulo. Foi quando vi na vitrine de um açougue uma língua de boi gelada. Aquilo era uma língua morta. Mas o verbete que dá título a este Pequeno dicionário brasileiro da língua morta significa uma língua que já existiu, mas não é mais usada. O latim, por exemplo. A maioria das pessoas só sabe o que significa “Quosque tandem abutere, Catilina, patientia nostra?”, isto é, “Até quando, ó Catilina, abusarás da nossa paciência?”. Essa frase, pelo visto, ainda não morreu.

Hoje, uma LÍNGUA MORTA é o LATIM. linguarudo Fofoqueiro, gente que fala demais. A fofoca existe desde que o ser humano existe. O linguarudo é aquele que faz fofoca e que, muitas vezes, não vive sem ela. “Você tem a língua muito grande! Por que foi contar para o seu pai que sua irmã está namorando?” Esse era o tal do linguarudo, aquele que não conseguia guardar segredo por nada neste mundo. Já tratava logo de espalhar a notícia pra Deus e o mundo e sempre pedindo para não dizer que foi ele quem disse.

Hoje, o LINGUARUDO é o cara que tem VENENO no canto da boca. lombriga Pessoa magra. Lombriga mesmo é um verme que provoca uma parasitose, a ascaridíase. Mas pessoas magras, compridas e finas eram chamadas de lombrigas. “Você está seco, magricelo, parecendo uma lombriga!”, dizia a mãe preocupada diante de um prato cheio que oferecia ao filho que não queria comer nada. Todo adolescente quando crescia demais, de repente, virava uma lombriga.

Hoje, uma pessoa não é mais chamada de LOMBRIGA, mas, sim, de ANORÉXICA. lorota Mentira. Ninguém nunca disse que a lorota tem pernas curtas. Quem tinha era a mentira, mas, pensado bem, lorota

e mentira são exatamente a mesma coisa. Lorota é uma conversa fiada, uma espécie de chacota, de zombaria. Quando alguém chegava contando muita vantagem de si mesmo, tinha sempre um que retrucava: “Não me venha com lorota!”.

Hoje, há quem diga que, em vez de contar uma LOROTA, você está BRINCANDO. ludibriar Enganar. Era muito comum ouvir alguém dizer “você está me ludibriando”. Significava nada mais, nada menos que enganar. Quem gostava de ludibriar? Motorista de táxi que pegava passageiro já com o taxímetro ligado, funcionário público que deixava o paletó pendurado na cadeira para ludibriar o chefe, feirante que tinha a balança que roubava, cobrador que dava troco faltando, enfim, gente desonesta que adorava ludibriar.

Hoje, LUDIBRIAR é PASSAR PRA TRÁS.

macaca Fã. Macaca era mais que ser fã. Macaca de auditório era aquela alucinada por seu ídolo, aquela que não perdia um show e estava sempre lá, plantada na fila do gargarejo. Macaca era capaz de tudo para conseguir um fio de cabelo do Cauby, um pedaço da roupa rasgada da Ângela Maria ou da Emilinha Borba. Macaca de auditório comprava todas as semanas a Revista do Rádio, colecionava as figurinhas da revista Intervalo e guardava tudo o que dizia respeito a seu ídolo.

Hoje, MACACA virou TIETE. macaquice Brincadeira que lembra peraltices de macacos. Menino vivia fazendo macaquice. Macaquice podia ser uma brincadeira qualquer, uma imitação, uma palhaçada boba, como poderia ser – literalmente – uma brincadeira de macaco. Toda criança gostava de fazer cara de macaco. Puxava as duas orelhas de lado e fazia um gesto com a boca – boca de macaco. Macaquice podia ser também subir no pé de goiaba para catar aquela lá em cima, no último galho. Subir no muro, dar cambalhota, saltar na cama, fazer guerra de travesseiro, tudo isso era macaquice.

Hoje, MACAQUICE é PALHAÇADA. maçaroba Mistura de comida.

Sabe quando você chega em casa e encontra um pouquinho de tudo sobre o fogão, um restinho de tudo dentro da geladeira? E você resolve misturar aquele pouquinho de arroz, com aquele restinho de feijão, com aquela cebola frita que sobrou do bife acebolado, acrescentando aqueles três pedaços de chuchu à milanesa que ficou no Tupperware? Aí você decide colocar tudo numa panela, quebrar o último ovo lá dentro, colocar farinha de mandioca e um pouco de pimenta. Pronto! A isso dávamos o nome de maçaroba ou mexido. Mas aquele mexido muito mexido virava uma maçaroba.

Hoje, MAÇAROBA é chamada de MEXIDO. maçaroca Alguma coisa embolada, embaraçada. A tudo o que se misturava, embolava e irritava a gente era dado o nome de maçaroca. Aquela linha que embolava na caixa de costura, aquela trena que não fechava, o barbante que embaraçava viravam uma maçaroca. Mas não eram apenas fios. Mineiro costumava chamar aquele arroz empapado de maçaroca. “Coloquei água fria e este arroz virou uma maçaroca.”

Hoje, uma MAÇAROCA virou uma COISA CONFUSA, BAGUNÇADA. macarronada Prato típico italiano. Hoje, é comum convidar alguém para comer uma massa. Mas, tempos atrás, o nome era macarronada, prato típico do almoço aos domingos. A família brasileira cozinhava o macarrão, fazia um molho vermelho e jogava um frango desfiado por cima. Depois, levava ao forno. Estava pronta a macarronada do domingo. Um prato delicioso a tal macarronada ao forno.

Hoje, MACARRONADA virou MASSA. maciota Viver livremente, despreocupado, numa boa. “Onde anda o Lourival?” E a resposta vinha: “Está lá, vivendo na maciota!”. Viver na maciota poderia ser viver sem preocupação, sem trabalho fixo, sem livro de ponto, sem terno e gravata. Enfim, trabalhar pouco ou quase nada. Tinha aqueles que viviam na maciota porque não esquentavam a cabeça mesmo. Outros viviam na maciota porque eram sustentados por parentes ricos. Viver na maciota é chegar domingo à noite e não ficar nem um pouco preocupado porque o dia seguinte é segunda-feira. Claro que não se preocupavam. Viviam na maciota...

Hoje, viver na MACIOTA é viver NA BOA. maconhado Aquele que fumou muita maconha. O termo maconhado apareceu nos anos 1960, junto com os primeiros hippies e os grandes festivais de música ao ar livre. Na mesma época surgiram as primeiras calças Lee desbotadas, as primeiras camisetas manchadas de água sanitária, os primeiros tamancos suecos, os primeiros cabeludos, e o termo maconhado passou a circular de boca em boca junto com o baseado. A palavra passava de mãe em mãe, de pai em pai, de tia em tia. Bastava um jovem deixar o cabelo crescer, se jogar um pouco no mundo para ser chamado de maconhado, aquele que fumava maconha, que puxava fumo. Fumar maconha era sinônimo de estar no caminho errado, de estar perdido, sem futuro. As vizinhas também eram as primeiras a comentar: “O filho da dona Santinha, coitada, é um maconhado”.

Hoje, quem está MACONHADO está CHAPADO. madureza Exame para adquirir o diploma de ginásio e científico. Só fazia madureza aluno que tinha fama – ou era verdade mesmo? – de não gostar de estudar. Depois de patinar um, dois, três anos, de ficar de segunda época, de repetir, os pais resolviam matriculá-lo na madureza. Ali, em pouco tempo, ele ganhava três anos de estudo. Ou recuperava os três perdidos. A fama de quem fazia madureza era a pior possível. Anunciar que alguém estava na madureza era sinal de que as coisas não andavam bem, que ele não queria nada com os livros. Era conhecido também por Artigo 99.

Hoje, MADUREZA virou INTENSIVO. mafuá Desordem. Um par de sapatos jogado para um lado, um copo de Crush em cima de um livro, uma cueca no chão, um vinil fora da capa, as portas do armário abertas, a luz permanentemente acesa, a cama desarrumada. Esse era o retrato falado de um mafuá. E os adolescentes eram os que mais ouviam esta: “Direto arrumar esse quarto porque ele está um verdadeiro mafuá!”.

Hoje, um quarto que está um MAFUÁ é um quarto BAGUNÇADO. maioral

O primeirão, o bom. Maioral era aquele cara bom em tudo. Bom em matemática, em língua pátria, em geografia, em história, era bom até em canto orfeônico. Mas não era só nos estudos que o maioral era o maioral. Ele era o maioral também na pelada. Era o cara que driblava, passava a bola, recebia de volta e enfiava no cantinho. Não tinha jogo em que o maioral não marcasse gol. Agora, convencido era o cara que vivia dizendo: “Eu sou mesmo o maioral!”. Maioral ganhou a glória em 1955, num hit de Ataulfo Alves chamado “Pois é”: “Pois é, falaram tanto que desta vez/A morena foi embora/Disseram que ela era a maioral/E eu é que não soube aproveitar/Endeusaram a morena tanto, tanto/Que ela resolveu me abandonar”.

Hoje, o MAIORAL é O CARA. mancebo Rapaz novo. A palavra mancebo vem do latim, mancipius. É uma história antiga, do tempo dos escravos. Eles eram escolhidos à força dentro dos navios negreiros e, claro, os senhores preferiam os mais jovens, os mancebos. De repente, as pessoas começaram a chamar os rapazes mais jovens de mancebos. Em Minas Gerais, mancebo tinha uma conotação meio de bofe. Mas nem todo mancebo era, digamos, um bofe.

Hoje, o MANCEBO é um GATO. mandachuva Pessoa importante. O Mandachuva era um simpático gatinho, criação de Hanna Barbera. O Mandachuva fazia de tudo para se dar bem na vida. E dava. Mas o mandachuva que ninguém fala mais era o cara que mandava mesmo. Aquele chefe que decidia, dava ordens, mandava. Todo chefe de repartição pública era conhecido como mandachuva. Quantas vezes as pessoas não perguntavam para a secretária, na portaria: “Quem é o mandachuva aqui?”. E ela apontava para a sala do chefe.

Hoje, o MANDACHUVA virou um PODEROSO CHEFÃO. mandar brasa Começar, tocar adiante. A palavra brasa como gíria apareceu no auge da Jovem Guarda. “É uma brasa, mora!” era uma palavra de ordem do rei Roberto Carlos. Tudo o que era bacana era uma brasa. Mais tarde, surgiu o mandar

brasa, que significava ir em frente, dar o pontapé inicial.

Hoje, MANDAR BRASA significa, mais ou menos, VAMOS NESSA! manequim Jovem que participa de desfiles de moda. Existem dois tipos de manequim. Um é um boneco de madeira com membros articulados, sem sexo, que passa o dia imóvel nas vitrines, vestindo de ternos bem cortados a bermudas casuais. O outro é de carne e osso. Mais osso que carne. Se alimentam de folhas de alface e de um pedaço minúsculo de grelhado de frango feito na chapa, sem gordura. Os manequins desfilam roupas que serão usadas somente nos desfiles de moda. Manequim era uma palavra tão usada que, há décadas, virou nome de revista, que ainda existe.

Hoje, toda MANEQUIM é chamada de TOP MODEL. mangos Dinheiro, grana. O dinheiro é o mesmo, curto, mas já foi chamado de tudo quanto é nome: cabral, bufunfa, tutu, dindim, grana. Já foi chamado também de mangos. “Pagar vinte mangos pra entrar no cinema eu não pago!”, dizia o pão-duro. Quem nunca ouviu o tal do “me empresta aí vinte mangos que depois eu te pago?”. De onde veio essa expressão? Difícil imaginar. A única certeza é que a palavra morreu.

Hoje, em vez de dizer VINTE MANGOS, as pessoas falam VINTE PAUS. manota Mancada. Manota era, por exemplo, chegar para uma mulher, olhar a barriguinha e perguntar: “É pra quando?”. E ouvir a resposta: “Não estou grávida!”. A isso se chamava manota. Dar uma manota era dar um fora, uma mancada.

Hoje, uma MANOTA é um FORA. manquitolando Mancando.

Se manota era dar uma mancada, um fora, manquitolando era viver mancando. Depois de uma partida de futebol entre solteiros e casados, era difícil ver algum jogador que não saísse do campo manquitolando.

Hoje, MANQUITOLANDO é MANCANDO mesmo. mantimento Arroz, feijão, farinha, fubá... “Vou ao armazém comprar mantimentos.” Fazia-se uma pequena lista dos mantimentos: arroz, feijão, farinha, fubá... E guardavam-se os mantimentos na despensa. Os mantimentos costumavam ficar em sacos de linhagem, bem na entrada dos armazéns que vendiam secos e molhados. Pensando bem, os mantimentos eram os secos.

Hoje, MANTIMENTO virou CESTA BÁSICA. mantô Vestimenta usada no inverno. Toda mãe cuidadosa não deixava os filhos passarem frio. Mesmo que caísse uma neve de Zurique ou fizesse um calor do deserto do Saara, ao sair, os filhos ouviam a famosa frase: “Estão levando o mantô?”. O mantô era um casaco de lã que não deixava ninguém sentir frio em lugar algum, em nenhuma época do ano. O mantô durava anos e anos, porque era de um tecido forte e resistente.

Hoje, o MANTÔ virou um CASACÃO. mão-boba Mão que passa na bunda de mulher gostosa. A mão-boba andava solta. Nos ônibus lotados na hora de pico, no escurinho do cinema, no meio da torcida no campo de futebol e, dizem os mais fiéis, até na saída da missa aos domingos. A mão-boba não era nada boba, era sem-vergonha mesmo. O dono da mão-boba sempre fazia uma cara de tacho quando era flagrado. Fingia que não era ele o dono da tal mão-boba.

Hoje, a MÃO-BOBA virou MÃO SAFADA. maricas Homossexual.

O maricas era também chamado de mulherzinha, de efeminado, de bicha. Tudo isso numa época de muito preconceito. Ninguém assumia publicamente sua opção sexual por medo ou pela repressão que andava solta no ar. Ouvia-se a boca pequena, entre quatro paredes, que fulano era maricas. Muitas vezes, mariquinhas.

Hoje, o MARICAS é um GAY. mariposa Prostituta. A mariposa propriamente dita é um inseto lepidóptero da divisão dos heteróceros. Mas mariposa era o nome dado também à mulher de vida fácil. Não tem sentido – não é mesmo? – chamar uma prostituta de mulher de vida fácil, mas foi assim que ela ficou conhecida. Nada explica melhor o que eram as mariposas que uma canção de Adoniran Barbosa chamada “As mariposa”: “As mariposa quando chega o frio/Fica dando vorta em vorta da lâmpida pra si isquentá/Elas roda, roda, roda e dispois se senta/Em cima do prato da lâmpida pra descansá/Eu sou a lâmpida/E as muié é as mariposa/Que fica dando vorta em vorta de mim/Todas noite só pra mi beijá”.

Hoje, uma MARIPOSA é uma GAROTA DE PROGRAMA. marmelada Trapaça. Todo mundo sabe que marmelada é um doce feito a partir do marmelo. Marmelo mesmo ninguém come, mas o doce é uma delícia. A outra marmelada era muito ouvida em campos de futebol, em salas de jogos. E também em circos, onde o palhaço entrava pulando no picadeiro e gritava: “Hoje tem marmelada?”. E a meninada respondia: “Tem, sim senhor”.

Hoje, MARMELADA virou ROUBALHEIRA. marmota Pessoa mal-arrumada. A marmota é um pequeno quadrúpede roedor muito simpático. Todo ano vira estrela de tv ao sair da toca para anunciar aos americanos se o inverno vai ser longo ou não. Não se sabe por que, mas marmota virou, injustamente, sinônimo de pessoa mal-arrumada. “Vá trocar de roupa menino, você está uma marmota”, diziam as mães aos filhos que estavam mesmo malvestidos, combinando o xadrez com o listrado, o amarelo com o roxo, a meia preta com o sapato branco.

Hoje, MARMOTA virou BREGA. marraio Palavra de ordem do último jogador a jogar. Não existia criança neste mundo que não tivesse um saquinho cheio de bolinhas de gude dos mais variados tamanhos e cores. Jogar bolinha de gude era o divertimento daqueles que moravam em casa e brincavam na rua. Era em terrenos baldios, com chão de terra, que se jogava bolinha de gude. Onde havia terreno vazio existia moleque jogando bolinha de gude, e onde havia moleque jogando bolinha de gude ouvia-se a todo momento a palavra marraio! Era a palavra de ordem do último jogador a jogar.

Hoje, é difícil ver criança jogando bolinha de gude, mas o último jogador, em vez de gritar MARRAIO, grita EU! martirizar Afligir. O que martirizava uma pessoa? Uma dor de cabeça, uma dívida, uma reforma da casa que não andava. Eram tantas coisas que martirizavam alguém que não dá para enumerá-las aqui. Muitas pessoas viviam se martirizando. Isso mesmo. “Não posso ficar me martirizando desse jeito.” Quem dizia isso era a namorada que estava desconfiada da traição do namorado. Martirizar era isso: bater na mesma tecla, a tecla do sofrimento.

Hoje, MARTIRIZAR virou ATORMENTAR. massa Ótimo. De repente, a palavra massa tomou conta de Minas Gerais. Tudo o que era legal ou bacana virou massa. “Você já ouviu o novo disco do Beto Guedes?” E a resposta: “Sim... massa”. Massa era, além do disco de Beto Guedes cantando “Feira moderna”, o automóvel novo do vizinho, a reforma da igreja, o filme do Godard, tudo era massa. Até mesmo a macarronada no domingo era massa.

Hoje, MASSA voltou a ser BACANA. mata-piolho Dedo polegar.

Antes de dizer o que era um mata-piolho é bom lembrar que havia muito mais piolho antigamente do que existe agora. E olha que piolho era uma dor de cabeça para toda mãe que passava horas e horas com um pente tentando catar os bichinhos nas cabeças dos filhos. O mata-piolho era aquele dedo que pegava o bichinho e craw! Mas, mesmo que o dedo não matasse piolho, ele era assim chamado. Era o dedo que ficava ao lado do pai de todos e do fura-bolo.

Hoje, o MATA-PIOLHO é chamado simplesmente de DEDO. matar aula Faltar à escola, não assistir às aulas. Ninguém gostava de matemática do mesmo jeito que não gostava de química. Bem como da tal de ospb, Organização Social e Política Brasileira. Então, é por isso que as pessoas matavam aula. Muitas vezes iam à escola, mas sentiam aquela vontade de cabular a aula quando sabiam que haveria arguição. Quem não queria matar aula quando o professor mandava o aluno ao quadro-negro para fazer raiz quadrada? Alunos, às vezes, cabulavam aula no banheiro, ficavam ali escondidinhos. Outros simplesmente não iam à escola. Quer dizer, diziam para os pais que iam, mas no meio do caminho mudavam de rumo. E, assim, matavam aula.

Hoje, MATAR AULA é apenas FALTAR. matar hora Deixar o tempo passar sem fazer nada. Da mesma maneira que as pessoas matavam aula, matavam também a hora. Matar hora era deixar o tempo rolar sem fazer nada. O relógio ia andando com os seus ponteiros e a hora ia sendo morta. Um bom exemplo era colocar cadeira na calçada, sentar e começar a jogar conversa fora. Era nessa hora que se matava hora. E ninguém ia preso. Ao contrário, todos ficavam numa boa.

Hoje, MATAR HORA é PASSAR O TEMPO. matéria plástica Material feito a partir de petróleo e gás natural. Poucas coisas eram feitas de matéria plástica. O cabo da vassoura era de madeira, a pá de lixo era de lata e madeira. Os brinquedos eram de madeira, bem como o escorredor de prato. O painel do carro era de ferro, a embalagem do Toddy era de vidro, como as garrafas de Coca-Cola, Pepsi-Cola, Mirinda, Grapette e Crush. O escorredor de macarrão era de alumínio e o porta-gelo do mesmo material. Os sacos do supermercado eram de papel e as verduras compradas na feira embrulhadas em jornal. Poucas coisas

eram feitas de matéria plástica, e era assim que dizíamos: “A sola dessa sandália é muito vagabunda, é feita de matéria plástica”.

Hoje, MATÉRIA PLÁSTICA virou simplesmente PLÁSTICO. matraca Pessoa que fala demais. Sempre houve no mundo gente que fala demais, que fala sem parar. Era só dar corda. Assim se falava: “Não dá corda que ela começa a falar e não para mais”. Quantas vezes no cinema, o filme já rolando, ouvíamos aquele zum-zum-zum. Era quando alguém, enfurecido, gritava: “Vamos parar com essa matraca”. Silêncio na sala de projeção. Mas era só aparecer o The End na tela para a matraca começar a falar, a comentar o filme, principalmente o fim.

Hoje, uma MATRACA é o mesmo que uma pessoa que FALA PELOS COTOVELOS. matula Merenda preparada para viagem. As pessoas não gostavam muito de comer no meio do caminho, parar o carro num restaurante de estrada para almoçar, fazer um lanche. Desconfiava-se que os produtos não eram frescos ou eram muito caros. Por isso, viajantes preparavam uma matula. Era uma sacola cheia de comida. Sanduíche de mortadela, biscoito de polvilho, presuntada Swift. Isso os mais abonados. A matula dos mais pobres era pão, carneseca, banana, coisas assim. Nos anos 1970, a sacola foi substituída pela caixa de isopor, um progresso, onde se podia levar até gelo para gelar a Tubaína. Quem não se lembra da música “Pau de arara”, de Luiz Gonzaga? “Quando eu vim do sertão, seu moço, do meu Bodocó/A malote era um saco e o cadeado era um nó/Só trazia a coragem e a cara/Viajando num pau de arara/Eu penei, mas aqui cheguei/Trouxe o triângulo, no matulão/Trouxe o gonguê, no matulão/Trouxe o zabumba, dentro do matulão.”

Hoje, MATULA é LANCHE. matutar Raciocinar. Quando pintava um problema, todo mundo começava a matutar. “Estou aqui matutando se vale a pena gastar tanto dinheiro pra pegar esse avião e ir para o Rio de Janeiro.” “Fiquei aqui matutando se não é melhor a gente ouvir o jogo pelo rádio em vez de enfrentar aquela multidão no Maracanã.” Matutava-se muito. Era aquela coisa: “É melhor pensar duas vezes antes de agir”. Pensar duas vezes, três, quatro,

cinco era sinônimo de matutar.

Hoje, MATUTAR virou RACIOCINAR. meganha Policial. Na hora de fazer o retrato falado de um meganha é sempre bom dar as seguintes informações: ele é um homem forte, musculoso, tem a barriga saindo da calça, a voz grossa, o olhar malvado, usa botas de cano alto e por aí vai. O meganha é nada mais, nada menos que um policial. Nos anos 1960, quando alguém estava fumando maconha escondido num terreno vazio, alguém avisava: “Despista, despista, porque está passando um meganha”. E o meganha passava devagar, com olhar desconfiado, de meter medo.

Hoje, o MEGANHA é um PM. meia soquete Meia de cano curto. A meia continua firme e forte, tem seu lugar garantido no armário. O que não se fala mais é meia soquete. Meia soquete era aquela meia de cano curto. A dos homens era de algodão; com o passar do tempo, ia abrindo a boca e ficando desbeiçada. Não se sabe por que toda meia soquete de criança costumava entrar no sapato. Lembra?

Hoje, MEIA SOQUETE perdeu o soquete e é chamada apenas de MEIA. meleca Sujeira acumulada no nariz. “Vai ter baile?”, perguntava o pai para o filho que estava com o dedo no nariz. E completava: “Já que você está limpando o salão, é porque vai ter baile...”. O filho, muito encabulado, tirava a mão do nariz e não sabia onde enfiar a cara. E a meleca. Era assim que chamávamos, sem preconceito: meleca! A palavra era corriqueira e vivia sendo falada por todos. Era meleca pra cá, meleca pra lá. Coisa mais nojenta.

Hoje, MELECA é chamada de CAQUINHA. meliante

Vagabundo, mau elemento. Qualquer policial que pegar este dicionário de língua morta vai ficar furioso ao encontrar a palavra meliante. Porque, diariamente, o policial fala meliante. Talvez seja a única pessoa do mundo que ainda diz meliante para um vagabundo, um mau elemento. Em entrevistas, adora dizer meliante. Basta colocar um microfone na frente dele que logo dispara: “O meliante fugiu pelo telhado, mas, quando desceu na outra rua, foi preso. O meliante foi imediatamente encaminhado para a delegacia”. A palavra ficou famosa no hit “Juca”, de Chico Buarque: “Juca foi autuado em flagrante/Como meliante/Pois sambava bem diante/Da janela de Maria...”.

Hoje, qualquer MELIANTE virou um BANDIDO. melindrosa Tipo de fantasia. Quando o Carnaval chegava, o que mais se ouvia era “este ano vou sair de melindrosa”. Melindrosa era uma fantasia meio extravagante, da época do charleston. Uma garota melindrosa era meio assanhada, meio saidinha, mas, no fundo, no fundo, uma pura. Vestidas de melindrosa ficavam irresistíveis.

Hoje, uma garota MELINDROSA é uma garota CHARMOSA. merendar Comer merenda. Quando o sino tocava, a meninada saía correndo da sala de aula para o pátio. Era hora de merendar. Merendar era nada mais, nada menos que comer a merenda que a mãe preparava e colocava dentro da merendeira. Pão com salame, banana, suco de caju. Às vezes, variava o suco, tinha de laranja e de uva também. E, no lugar do pão com mortadela, um biscoito Mirabel. A melhor hora da escola era essa, a hora de merendar. A merenda ficava arrumadinha dentro da merendeira, embrulhada em guardanapos de pano, até a hora em que o sino tocava.

Hoje, MERENDAR é o mesmo que LANCHAR. meretriz Mulher da vida. Meretriz era um jeito chique e educado de chamar uma mulher de vida fácil, que de fácil não tinha nada. Ninguém dizia que ia se encontrar com uma meretriz, mas, na hora de contar que a rua estava cheia de prostitutas, dizia-se que a rua estava cheia de meretrizes. A meretriz trabalhava na zona, e uma região que

tinha um monte de zonas era chamada de baixo meretrício.

Hoje, MERETRIZ é PUTA. mestre Profissional do ensino. Mestre era um jeito elegante de chamar um professor. Pensando bem, mestre era um mestre, um professor acima de qualquer suspeita, graduado, consagrado. Um senhor professor! Ninguém duvidava de um mestre, era um tipo que sabia tudo, mas tudo mesmo. Quem não se lembra das cenas de Ao mestre, com carinho, com direção de James Clavell e Sidney Poitier no papel de mestre? Grande mestre!

Hoje, um MESTRE é um PROFESSOR. metido Convencido. Ninguém suportava um cara metido. Cara metido era aquele que chegava a qualquer lugar rodando o chaveirinho só para mostrar que tinha um automóvel, numa época em que ter um automóvel era tudo, sinal de status. Metido era também aquele que quando tirava dez em matemática saía com o boletim na mão, mostrando para todos da sala e dizendo “eu sou o máximo”. O metido, apesar de ser metido, muitas vezes se dava bem.

Hoje, um cara METIDO é um cara que está SE ACHANDO. mexerico Intriga. Um mexerico era uma intriga baixa, rasteira. Aquela intriga apenas com pitadas de maldade. A palavra mexerico ganhou notoriedade com uma coluna na Revista do Rádio chamada “Mexericos da Candinha”. A coluna que derramava veneno ficou tão famosa que virou música de Roberto e Erasmo Carlos: “A Candinha vive a falar de mim e tudo/Diz que eu sou louco, esquisito e cabeludo/E que eu não ligo para nada e dirijo em disparada/Acho que a Candinha gosta mesmo de falar/Ela diz que sou louco e que o hospício é meu lugar”.

Hoje, MEXERICO virou FOFOCA. mexido

Comida misturada. Sabe aquelas tigelinhas com sobras que ficam dentro da geladeira? Pois é. Era só juntar tudo, arroz, feijão, chuchu, um pedaço de bife, salada de tomate, e colocar um pouco de farinha. Pronto! Estava feito um autêntico mexido. Para incrementar o gosto, algumas pessoas costumavam colocar dois grãos de pimenta-malagueta. Irresistível. A melhor comida do mundo por volta de duas horas da madrugada.

Hoje, um MEXIDO continua sendo um MEXIDO. mijo Urina. A palavra é feia, meio chula, mas era falada por todos. Era comum em banheiros de beira de estrada você encontrar plaquinhas dizendo o seguinte: “É proibido mijar fora da privada”. Assim, sem meias palavras. “Espere aí que vou mijar.” O mijo era uma palavra masculina que andava solta na boca de todos os homens. Dificilmente ouvia-se uma mulher falando mijo.

Hoje, o MIJO virou XIXI. milico Policial militar. Foi nos anos 1960 que os militares começaram a ser chamados de milicos. Donos do poder à força eram vistos com maus olhos por terroristas, guerrilheiros, gente de esquerda e toda a juventude engajada. Essa turma não gostava de ouvir falar, nem de longe, em nada que se aproximasse do verde-oliva, a cor da farda dos milicos. “Esconde esse livro de Marx porque tem milico por aqui”, diziam os estudantes da faculdade de filosofia. Eram os milicos que prendiam e arrebentavam quem fosse contra o regime. Eram os milicos que censuravam os jornais, as revistas, os filmes, as peças de teatro, a televisão. Eles tinham pavor do comunismo. Ainda bem que nos livramos deles no poder, senão este verbete nem existiria neste dicionário. Nem este dicionário existiria.

Hoje, um MILICO é um MILITAR. milonga Mexerico, fofoca. “Seja claro e objetivo, não me venha com milonga!” Milonga era uma palavra muito usada. Pedir para não vir com milonga era pedir para evitar mexericos, evitar fofocas, evitar conversa fiada.

Hoje, MILONGA é INTRIGA. míngua Escassez. As pessoas exageravam um pouco no varejo, mas é verdade que neste planeta Terra milhões de pessoas sempre morreram à míngua. Morrer à míngua era não ter nada, nadinha para comer e nem um tostão no bolso pra comprar sequer um quilo de grãos. As imagens de gente morrendo à míngua chegavam da África todos os dias. Eram radiofotos de péssima definição, e quando vinham fotos coloridas e impactantes saíam na revista Manchete.

Hoje, morrer à MÍNGUA é morrer na PENÚRIA. mise-en-plis Ondular os cabelos. Se agora existe a ditadura da chapinha, já existiu a ditadura dos caracóis de seus cabelos. Ao mesmo tempo que pessoas sonham com um cabelo liso, outras sonham com as ondas. Quem gostava de estar na crista da onda fazia mise-en-plis. Era simples, só chegar ao salão de beleza e pedir um mise-en-plis. Molhava-se o cabelo, colocavam-se os bobes e, depois de seco, os bobes eram retirados. “Que lindo ficou seu mise-en-plis”, diziam as invejosas.

Hoje, fazer um MISE-EN-PLIS é CACHEAR. mistureba Tudo misturado. Fazer uma mistureba era misturar tudo, tudo mesmo. Misturar o arroz, o feijão, a farofa, a couve e o picadinho de carne era fazer uma mistureba. Misturar roupas que não combinavam era uma mistureba danada. Até mesmo um texto mal escrito, meio sem pé nem cabeça, era considerado uma mistureba de ideias. “Vamos refazer esse texto, está uma mistureba doida!” Palavra de professor.

Hoje, uma MISTUREBA é apenas uma MISTURA DANADA. miúdo Criança pequena. Miúdo vem lá de Portugal. Mas falava-se também no Brasil. “Viajar com os miúdos” significava viajar

com as crianças, com os pequenos. Esses miúdos não tinham nada a ver com os miúdos de porco, que viravam prato obrigatório em dia de matança do bicho. Reunia-se tudo de bom que estava dentro do porco e fazia-se um prato de miúdos. Mas isso é outra história.

Hoje, MIÚDO é chamado de BAIXINHO ou BAIXINHA. mixórdia Grande bagunça. Quando a mãe dava uma dura dizendo “este quarto está uma mixórdia!” é porque estava mesmo uma bagunça indescritível. Era – e ainda é – difícil encontrar um quarto de adolescente que não esteja uma mixórdia. Mixórdia era bagunça da brava. Sapato para um lado, roupa para o outro, pôster torto na parede, revistas recortadas jogadas ao léu. Pronto! A mixórdia estava completa.

Hoje, em vez de MIXÓRDIA o quarto virou UMA ZONA. mixou Não deu certo. Quando uma turma de adolescentes começava a planejar um final de semana na praia e, de repente, a tia não queria mais emprestar a casa, o pai negava o carro e a meteorologia anunciava um sábado de tempo instável e domingo sujeito a chuvas, era sinal de que o programa havia mixado. Mixar era não dar certo, azedar.

Hoje, ninguém mais diz MIXOU. Diz FUROU. mofando Esperando. Quando um namorado marcava um cinema com a namorada às nove da noite e dava oito e meia, oito e quarenta e cinco, nove, nove e quinze, e ele não chegava, ela ficava furiosa e com razão. Porque o cara de pau, antes do encontro marcado, resolvia passar no boteco para tomar uma gelada. Ela, então, disparava: “Você foi beber e eu fiquei aqui mofando!”. Ninguém chegava a mofar esperando alguém, mas falava-se muito “fiquei aqui mofando”.

Hoje, em vez de dizer fiquei aqui MOFANDO, diz-se fiquei aqui PLANTADO.

moído Cansado. Imagine o que era entrar num Renault Dauphine num dia de muito calor e pegar uma estrada de terra esburacada rumo ao interior. Uma, duas, cinco horas de viagem desviando de crateras e pedras, e comendo poeira. Essa pessoa tinha todo o direito de chegar ao destino, sair do carro, dar aquela espreguiçada e dizer: “Estou moído”. A sensação era essa mesmo. Dor nas costas, nas pernas, nos braços, na cabeça. Isso, sim, era estar moído.

Hoje, um motorista que está MOÍDO diz que está EXAUSTO. molde Modelo de papel que dá forma a uma roupa. Por melhor que fosse a costureira, por mais experiente, ela sempre trabalhava com molde. Para fazer um molde, a costureira passava antes por um curso de corte e costura. Era na escola que aprendia a pegar o papel e riscar com perfeição o molde da camisa, da saia plissada, da calça, do vestido tubinho, do bolero. O molde tinha o mesmo significado que uma planta para um arquiteto. Revistas de moda costumavam trazer moldes de brinde. E estampavam na capa “Grátis: moldes”.

Hoje, o MOLDE continua sendo MOLDE, mas quase não se ouve mais essa palavra. mongoloide Pessoa que sofre de síndrome de Down. Cientificamente, a síndrome de Down é conhecida como trissomia do cromossoma 21. Foi o médico britânico John Langdon Down quem descreveu a síndrome em 1862. Uma criança que nascia com tal síndrome era chamada de mongoloide. Ainda bem que não é mais.

Hoje, uma criança MONGOLOIDE é uma pessoa com SÍNDROME DE DOWN. mono Som que não é estéreo. Antes do cd e do iPod havia o vinil. Havia a agulha da eletrola e o chiado. Havia o som mono, aquele som bruto que não era estéreo. Antes de o homem existir havia o macaco, que também era chamado de

mono. Mas o que isso tem a ver com o som? Até hoje existem aqueles que cultuam o som mono, considerando-o mais puro, mais natural. Com o advento do som estéreo, o som mono começou a sua contagem regressiva. Com chiado e tudo mais a que tinha direito.

Hoje, o som MONO ainda é chamado de MONO por quem o cultiva. montepio Pensão paga por uma instituição depois da aposentadoria ou da morte. Os montepios anunciavam em página inteira nas revistas Realidade, O Cruzeiro, Manchete e Joia. E nos jornais Última Hora, Jornal do Brasil, Diário da Noite. Os montepios tiveram seu auge nos anos 1970 e o mais famoso deles era o Montepio da Família Militar. Isso porque os militares davam as cartas no Brasil nos anos 1970.

Hoje, em vez de MONTEPIO, as pessoas falam em FUNDO DE APOSENTADORIA. morfeu Aquele que faz dormir. Morfeu é filho de Hipnos, o deus grego do sono. Quando a noite caía e o sono vinha, as pessoas diziam que iriam cair nos braços de Morfeu. Cair nos braços de Morfeu era deitar na cama e dormir profundamente o sono dos justos. “Vocês vão para o baile do marinheiro no Iate Clube? Pois eu vou cair nos braços de Morfeu”, diziam os pais aos filhos, todos fantasiados de marinheiros.

Hoje, em vez de dizer que caiu nos braços de MORFEU, a pessoa diz APAGUEI. morim Tecido de algodão. Como quase ninguém comprava roupa pronta, falava-se bastante sobre tecidos. O morim era um deles. Morim é um tecido de algodão cordado, usado para fazer roupas íntimas, camisas e faixas, que são espalhadas pela rua. Gente elegante, que vivia rasgando seda, não fazia roupa de morim. O morim amassava muito e tinha um cheiro bem característico.

Hoje, o MORIM virou simplesmente PANO.

morou? Certo? Quem gostava de fazer esse tipo de pergunta era o rei Roberto Carlos. Além do famoso “é uma brasa, mora”, ele perguntava sempre: “Morou?” Roberto Carlos contava para a revista Intervalo que estava apaixonado e completava: “Morou, bicho?”. Mas o tal morou não era exclusividade do rei. Quem não se lembra da música “Mora na filosofia”, de Candeia? “Mora na filosofia/Morou, Maria?/Morou, Maria?.”

Hoje, em vez de perguntar MOROU, pergunta-se OK? motorneiro Condutor de bonde. Como mineiro tinha fama de comprar bonde, Minas Gerais era o paraíso dos motorneiros, aqueles que conduziam o bonde. Eles trabalhavam com um figurino bem característico, mas o que os diferenciava mesmo era o boné azul-marinho que usavam, o famoso boné de motorneiro. Um dia, o então candidato, Jânio Quadros, vestiu, no calor da multidão, um boné e ficou famoso por isso. A fotografia de Jânio com boné de motorneiro entrou para a história. Não havia motorneiro sem aquele chapéu. No ponto final do bonde, os motorneiros se reuniam num boteco para tomar uma média com pão e manteiga. Nessa hora, eles colocavam o boné no balcão.

Hoje, não há mais bondes, mas, se existir algum MOTORNEIRO, ele será chamado de MOTORISTA. mulher de vida fácil Prostituta. Quem inventou a expressão mulher de vida fácil nunca precisou ganhar a vida com o corpo, porque que vida difícil era essa de ganhar a vida com o corpo... Ninguém dizia claramente que transou com uma mulher de vida fácil; nessa hora, ela era puta mesmo. Tias carolas, que não tinham coragem de chamar de puta, diziam: “Coitada. Ela virou uma mulher de vida fácil”.

Hoje, uma MULHER DE VIDA FÁCIL é uma PUTA. mulherzinha Pessoa afeminada. Havia um preconceito enorme contra homossexuais. Era muito difícil encontrar um gay fora do armário.

Até mesmo aqueles cem por cento gays não eram considerados homossexuais por pais, tios, tias, avós e avôs preconceituosos. Falava-se a boca pequena e dos outros, nunca dos próximos: “Estou desconfiada de que ele seja mulherzinha”, diziam as velhas corocas com ar de espanto e fofoca.

Hoje, ninguém mais chama um homossexual de MULHERZINHA. mumunha Trapaça. Mumunha era uma coisa meio indefinida, mas, no fundo, era uma espécie de trapaça, de coisa não muito identificada. A palavra foi lembrada por Caetano Veloso na canção “Saudosismo”, que está em seu segundo disco, conhecido como disco da Tropicália: “Eu, você, nós dois/Já temos um passado, meu amor/Um violão guardado/Aquela flor/E outras mumunhas mais/Eu, você, João/Girando na vitrola sem parar/E o mundo dissonante que nós dois/Tentamos inventar, tentamos inventar/Tentamos inventar, tentamos”.

Hoje, MUMUNHA virou BABADO. mundaréu Reunião de pessoas. “Tinha muita gente na festa de debutante da Marlene?” E a resposta vinha: “Um mundaréu”. Quando se dizia mundaréu é porque tinha gente saindo pelo ladrão, muita gente mesmo, sem espaço nem para andar e, no caso da festa da Marlene, nem para dançar a valsa. Todo Fla-Flu tinha um mundaréu, todo Carnaval na avenida Presidente Vargas tinha um mundaréu, todo comício de Juscelino tinha um mundaréu.

Hoje, MUNDARÉU virou POVÃO. munheca Pessoa econômica, pão-duro. A história da munheca é longa. Munheca é aquela pessoa econômica, pão-duro, que não gosta de gastar um centavo. Sempre pensa duas vezes antes de gastá-lo e acaba não gastando. É aquela pessoa que aprende braile só para ler no escuro e economizar luz. Todo pão-duro era conhecido como munheca. O muito pão-duro era chamado de munheca de samambaia, por causa daquele brotinho de samambaia, bem fechadinho. Munheca significa pulso, e a palavra no sentido pejorativo vem da ideia de que a pessoa força o pulso para não abrir a mão e, consequentemente, não gastar dinheiro. De tanto escrever à mão, dizia-se muito “estou com dor na munheca”, o que agora é chamado de tendinite.

Hoje, MUNHECA é MÃO FECHADA. muque Músculo. “Olha só o muque que ele tem!”, diziam os brotinhos encantados com aquele pão fazendo barra nas areias de Copacabana. Muque era músculo, aquele braço forte capaz não somente de enfrentar os inimigos, como de carregar sua amada nos braços sem o menor sinal de fazer força. Quer saber quem tinha muque? Tarzan! Aquela figuraça criada por Edgard Rice Burroughs. Aquilo, sim, que era muque!

Hoje, um cara que tem MUQUE é um cara MALHADO. muquifo Lugar sujo, malconservado. Não era fácil morar num muquifo. Era um lugar feio, sujo, malconservado. Como o preconceito andava solto, elogiavam-se os pobres dizendo “que o lugar onde ele mora é limpinho, é ajeitadinho, não mora num muquifo, não”. Ninguém gostava de um muquifo, aquele lugar esquisito, malvisto, onde as paredes estavam sempre sujas e com infiltração de água.

Hoje, MUQUIFO virou CORTIÇO. muquirana Pessoa econômica. Muquirana era aquela pessoa que não dava bom-dia, emprestava. Gente que nunca participava dos bolões da Loteria Esportiva para não dividir o prêmio com ninguém. Muquirana era aquele que pegava o palito de fósforo e cortava no meio para poder usar duas vezes. Muquirana era aquele que achava que tudo custava caro, inclusive uma caixa de fósforos.

Hoje, o MUQUIRANA é um PÃO-DURO. murrinha Criança manhosa. Fazer murrinha era fazer manha. Aquela criança que, sem motivo aparente, começava a chorar, a espernear, a encher o saco. Murrinha era essa criança. Uma criança que, de repente, ficava irritada e começava a aprontar: chorava, ficava enjoada, gritava, deitava no chão e começava a espernear. Crianças

no banco de trás do carro que criavam caso uma com as outras logo ouviam: “Vamos parar com essa murrinha aí atrás?”.

Hoje, MURRINHA virou BIRRA. musgo Planta do grupo das briófitas. O musgo é uma planta estranha, desprovida de vasos de condução e tecidos. Dizem que é constituído por cauloides, rizoides e filoides, e eu acredito. São plantas criptogramas, isto é, têm o órgão reprodutor escondido, ou que não possuem flores. Ninguém sabia desses detalhes quando, antigamente, dezembro chegava e os vendedores de musgos batiam à porta para oferecer a planta em caixinhas – elas eram usadas na decoração de presépios. Toda casa armava um presépio e o enchia de musgos para ficar bem natural.

Hoje, o MUSGO continua sendo MUSGO, mas são poucas as pessoas que ainda decoram presépios com a plantinha. muxiba Parte dura da carne que não se mastiga. Carne só se comprava no açougue. E não tinha essa coisa de bife pronto, separadinho em pratinhos de isopor. Chegava-se no balcão e pedia-se um quilo de alcatra, de patinho, de coxão mole, de músculo. “Tire a muxiba.” Era assim que as donas de casa davam ordem aos açougueiros, que não obedeciam e embrulhavam a carne cheia de muxiba. Só em casa, na hora de colocar na panela, é que elas caíam na real e xingavam o açougueiro: “Essa carne está cheia de muxiba”. Como tinha muxiba na carne! E não é que as crianças gostavam? Era comum ver criança, até mesmo depois do almoço, com aquela coisa na boca, fazendo das tripas coração para engoli-la.

Hoje, não se fala mais MUXIBA, mas sim CONTRAPESO.

n vezes Inúmeras vezes. Muito simples. A letra N na matemática é usada para se referir a qualquer número inteiro. É por isso que as pessoas usavam muito o tal de N vezes. “Já te falei para parar de ver televisão N vezes”, “Já fomos a Conceição do Mato Dentro N vezes”, “Já comemos nesse restaurante N vezes.” Uma letra vira e mexe aparece na língua portuguesa. É o tal do dia D, o X do problema, na hora H.

Hoje, N VEZES foi substituída por um MONTE DE VEZES. nanico Criança pequena. Quando o menino chegava aos doze, treze anos e empacava no crescimento, os parentes começavam a cochichar: “Esse menino está ficando nanico”. Ficar nanico era simplesmente parar de crescer, estancar ali por volta de um metro e cinquenta e cinco, um metro e sessenta, enfim, virar um baixinho. Já que o menino estava ficando nanico, dá-lhe fortificante! Tome Biotônico Fontoura, Emulsão Scott, óleo de fígado de bacalhau. Tudo em nome do crescimento. Era preciso abrir o apetite do nanico, fazer com que comesse bem e ficasse forte. E, para ficar forte, tome Calcigenol.

Hoje, um menino NANICO é um BAIXINHO. nas coxas

De qualquer maneira. Gente desleixada fazia tudo nas coxas. Fazer alguma coisa nas coxas era sinônimo de preguiça, falta de empenho, falta de capricho. Maus alunos viviam fazendo trabalhos escolares nas coxas. Se o tema era a Guerra do Paraguai, por exemplo, era só dar uma espiada na Enciclopédia Barsa e copiar parágrafos inteiros. Isso era fazer um trabalho nas coxas. Havia pintor que pintava a casa nas coxas, mecânico que consertava o carro nas coxas, passadeira que passava a roupa nas coxas, datilógrafo que datilografava o ofício-circular nas coxas e por aí vai.

Hoje, fazer qualquer coisa NAS COXAS é fazer DE QUALQUER JEITO. necas Nada. “Fui à casa do Geraldo para saber se ele tinha um dinheiro pra me emprestar e necas.” Necas não queria dizer simplesmente nada, era nadinha mesmo. “Achei que o Garrincha iria fazer um gol no jogo e necas.” O Garrincha não fez o gol. Em alguns estados brasileiros, para afirmar ainda mais que necas era nada mesmo, reforçava-se com um necas de pitibirobas ou necas de pitibiribas. Aí é que não tinha nada mesmo. “Hoje, tem prova de biologia e não sei necas de pitibiribas.” Isso significava que o aluno não sabia sequer o significado de mitocôndrias.

Hoje, NECAS virou NADA. negar fogo Falhar na hora H. Não é preciso explicar muito. Negar fogo pode significar não dar mais no couro, dar aquela brochada. Como pode significar também falhar. “Josué não é de negar fogo.” Isso queria dizer nada mais, nada menos que o Josué não costuma dar mancada, faltar na hora em que mais precisamos dele.

Hoje, NEGAR FOGO é dar BOLA FORA. nervosia Estado nervoso. Pessoas que começavam a se irritar facilmente, a criar caso com qualquer bobagem, a ficar chatas, eram pessoas com nervosia. Crianças birrentas eram picadas pelo mosquito da nervosia. Os pais davam um berro só: “Vamos parar com essa nervosia?”.

Hoje, NERVOSIA virou IRRITAÇÃO. neurastênico Pessoa com problemas nervosos. O neurastênico era, antes de tudo, um chato. No fundo, no fundo era um cara com problemas nervosos, mas, pensando bem, não tão graves assim. Porque uma pessoa com problemas nervosos graves sai atirando. O neurastênico era aquele encrenquinha, aquele cara cheio de picuinhas, que, muitas vezes, se livrava de uma situação porque todos comentavam: “Não vamos incomodar o Carlinhos, porque ele é neurastênico”.

Hoje, um cara NEURASTÊNICO é um cara PROBLEMÁTICO. notável Pessoa exemplar. Figura notável era aquela figura nota dez. Inteligente, educada, atenciosa, tudo de bom. “Pedrinho é notável.” Isso significava que o tal Pedrinho era um bom partido, uma pessoa que sempre andava na linha, não se desvirtuava com drogas, mulheres, farras. A palavra era usada para definir alguém, ou alguma coisa, bacana, superbacana. “O que você achou desse projeto?” E o cliente do arquiteto dizia: “Achei notável”. Sinal de que o projeto havia agradado em cheio. A notável mais famosa de todos os tempos foi Carmen Miranda, a Pequena Notável.

Hoje, NOTÁVEL é BACANA. núpcias Realização de um casamento. Noivos eram os nubentes e casamentos eram as núpcias. Falava-se muito sobre a preparação das núpcias, a igreja, as flores, o convite, os doces, o champanhe, mas o que mais falavam mesmo era sobre a tal noite de núpcias, a hora mais esperada do casamento. A noite de núpcias era a primeira noite depois de casados e a última antes de partir para a lua de mel.

Hoje, NÚPCIAS são o tal CASAMENTO.

ó do borogodó Coisa boa ou coisa ruim. A expressão ó do borogodó é curiosa. Dependendo do estado brasileiro significa duas coisas completamente opostas. No Sul é coisa ruim: “Não vou naquele restaurante porque ele é o ó do borogodó”. Isso significa que não é nada aconselhável, a comida é ruim e o ambiente estranho. Já em Pernambuco é muito comum ver uma morena desfilando na praia e alguém dizer: “Que mulher! Essa é o ó do borogodó.” Enfim, vai entender...

Hoje, Ó DO BOROGODÓ foi simplificado para O Ó. obséquio Favor. Claro que as pessoas mais educadas, mais polidas, ainda usam o tal do obséquio. Comissárias de bordo, por exemplo, vivem pedindo por obséquio para os passageiros apertarem o cinto, deixarem a mesinha na posição vertical e desligarem o celular. Mas o obséquio está virando uma palavra antiga como tantas outras. Só pessoas com idade avançada – e as comissárias de bordo – ainda pedem por obséquio.

Hoje, OBSÉQUIO virou POR FAVOR. ofício Documento oficial de correspondência.

Uma coisa era carta, escrita à mão em papel fino. Outra coisa era o ofício. Nada mais burocrático. Eram até mesmo numerados: ofício 053/59. Era por meio do ofício que os chefes davam as ordens ou as diretrizes a seus subordinados. Os datilógrafos tinham verdadeiro ódio dos tais ofícios. Bem na hora de levantar para tomar um cafezinho vinha o chefe e disparava: “Dá para bater este ofício pra mim?”.

Hoje, ninguém mais manda OFÍCIO. Manda E-MAIL. ojeriza Repulsa. As pessoas tinham muita ojeriza. “Tenho verdadeira ojeriza de barata.” E não era só de barata. Para qualquer tipo de repulsa lá vinha a palavra ojeriza. “Não suporto veludo cotelê. Tenho ojeriza de qualquer tipo de veludo.” As pessoas tinham ojeriza umas das outras. Quantos genros não diziam que sentiam ojeriza das sogras?Algumas pessoas ainda usam essa palavra. Dizem: “Tenho ojeriza de políticos”.

Hoje, OJERIZA virou PAVOR. omoplata Osso na região do ombro que se articula com a clavícula. O corpo humano não mudou. A omoplata continua lá onde sempre esteve. A única diferença é que as pessoas falavam muito essa palavra. Bastava fazer uma viagem mais longa, carregar um peso mais pesado, fazer uma ginástica mais puxada que lá vinha a frase: “Estou sentindo muita dor aqui na região da omoplata”. No fundo, no fundo ninguém sabia direito onde ficava, e o que era, a omoplata, mas qualquer dor na região dorsal era dor na omoplata.

Hoje, OMOPLATA virou OMBRO. ordenado Remuneração de um trabalhador. Banco não tinha cartão e os trabalhadores, no início do mês, iam retirar o seu ordenado. Ninguém deixava muito dinheiro no banco. Era comum um trabalhador levar todo o seu ordenado para casa. E era assim que chamavam o dinheiro – às vezes muito pouco e que nunca dava para as despesas – que recebiam todo mês. As frases que mais se ouviam eram: “Vou pedir aumento de ordenado.” “Meu ordenado não está dando pra nada.” “Vou ao banco pegar o meu ordenado.” “Quanto você ganha de ordenado?”

Hoje, ORDENADO virou SALÁRIO. orquestrada Pensada. Quando alguém queria armar uma trama contra outro, começava a orquestrar uma situação. E, quando o fato realmente ocorria, o vencido sempre desconfiava e dizia: “Estou achando que essa situação foi orquestrada”. Nem sempre uma situação que ia sendo orquestrada dava certo. Muitas vezes quem orquestrava acabava caindo do cavalo.

Hoje, uma situação ORQUESTRADA é uma situação TRAMADA. ourela Tira de pano com indicações sobre a peça de roupa. Em resumo, ourela é a etiqueta da roupa. Mas a palavra etiqueta era usada somente para recepções. Usava-se ourela. As mães viviam implicando com os filhos na hora em que eles saíam de casa: “Conserta essa camisa, a ourela está aparecendo”. Aparecer a ourela não era nada elegante, dava a impressão de que a roupa estava do lado avesso. Hoje, o que as pessoas mais querem é mostrar a ourela, ou melhor, a etiqueta. Principalmente se for de grife.

Hoje, todos chamam OURELA de ETIQUETA. outrossim Do mesmo modo. É muito simples, mas, sinceramente, quando foi a última vez que você ouviu alguém dizendo a palavra outrossim? Ninguém mais fala, e as novas gerações nem sabem que essa palavra existe. Só nos lembramos dela quando pegamos um Aurélio ou um Houaiss e lá está entre o N e o P, na letra O, o tal do outrossim.

Hoje, OUTROSSIM é IGUALMENTE. ova De jeito nenhum. Todo mundo sabe que uma ova é um ovo de peixe. Mas a ova deste Pequeno dicionário brasileiro da língua morta tem o significado de negação. “Você vai ter de comparecer ao tribunal na próxima

segunda.” Aí entrava em ação a ova: “Vou comparecer uma ova”. Queria dizer que o sujeito não ia comparecer de maneira alguma, de jeito nenhum.

Hoje, em vez de dizer UMA OVA, as pessoas dizem simplesmente TÔ FORA. ovo Pequeno. O ovo existe desde que existe a galinha. Se bem que existe uma polêmica sobre quem veio primeiro, o ovo ou a galinha. Não importa. Aqui, o ovo tem sentido de pequeno: “Aluguei um apartamento que é um ovo”. Isso significava que o apartamento era pequeno, mas pequeno mesmo. Daqueles cuja cozinha era tão pequena que só dava para fritar um ovo de cada vez. Sempre que uma pessoa abria o porta-malas de um Fusca, exclamava: “Nossa! Esse porta-malas é um ovo”.

Hoje, chamam um apartamento que é um OVO de MINÚSCULO. oxigenada Mulher com cabelo loiro. Primeiro foi tingir. As mulheres tingiam o cabelo de loiro. Depois virou pintar. Elas pintam de loiro. Mas entre o tingir e o pintar havia a mulher oxigenada. Era aquela que sem pudor algum enfiava a cabeça na água oxigenada e saía loira. Oxigenada era uma maneira de saber quem era a pessoa. “Quem é a Vanda?” “É aquela oxigenada do almoxarifado.”

Hoje, uma mulher OXIGENADA é uma LOIRA.

pacas Muito. Um cara apaixonado gostava da namorada pacas. Um cara que andava quilômetros a pé dizia que andava pacas. Um cara gripado dizia que estava gripado pacas. O cansado era cansado pacas. Quando chovia, chovia pacas. Enfim, bastava ser muito, ser volumoso, que era pacas. A letra P, por exemplo, deste dicionário tem verbetes pacas.

Hoje, em vez de PACAS, as pessoas dizem PRA CARAMBA. padaria Bunda. Acredite! Bunda de mulher era chamada de padaria. Isso mesmo, padaria. Era só você reparar na hora da sesta dos boias-frias. Bastava passar uma gostosa na calçada para você ouvir: “Olha que padaria”. Era padaria pra lá, padaria pra cá. “Você viu a padaria daquela morena?” Dependendo da morena, não havia um cristão que não desse aquela olhada na padaria. Até mesmo as morenas costumavam reagir: “O que foi, hein? Nunca viu uma padaria?”.

Hoje, uma PADARIA é chamada de BUMBUM. palangana Recipiente usado para levar a comida à mesa.

Quem tem mais de cinquenta anos já ouviu a mãe dizer: “Você leva a palangana para a mesa?”. Isso queria dizer levar a travessa para a mesa com aquele arroz de forno, aquela macarronada, aquele frango ao molho pardo. Quando a palangana ia à mesa, geralmente estava quente. Só dava para segurar com um ou dois panos de prato. “Sai da frente que a palangana está pelando.” Corria criança pra todo lado. Depois, voltavam para a mesa para comer aquela delícia que estava na palangana.

Hoje, uma PALANGANA virou uma TRAVESSA. palerma Pessoa idiota, tola, lerda. “Você não conseguiu pegar a galinha-d’angola? Você é mesmo um palerma”, gritava o capataz para o subordinado. E olha que pegar uma galinha-d’angola não era pra qualquer um. Mas, mesmo assim, ele considerava aquele empregado um palerma. Palerma era aquela pessoa meio desligada, meio tola, meio devagar.

Hoje, uma pessoa PALERMA é chamada de DEVAGAR. pamonha Bobo. Havia um personagem na televisão que era o retrato falado do pamonha. Ele se chamava Jojoca. Era o verdadeiro pamonha. Tinha medo e vergonha das mulheres, de chegar, de investir. Homem pamonha é isso. Medo de mulher, medo de qualquer situação, medo de não conseguir tomar nenhuma atitude. Ficava parado esperando alguma coisa acontecer. Um pamonha.

Hoje, o PAMONHA é um BABACA. panaca Pessoa fácil de ser enganada. Panaca foi aquele cara que caiu no conto da Lua. Quando o homem pisou na Lua em 1969, a revista Manchete trouxe de brinde a seus leitores um enorme mapa em cores e descartável. Um gaiato pegou esse mapa e saiu vendendo terrenos na Lua. Muita gente acabou caindo na lábia do malandro e comprando um terreninho na Lua para um dia construir um ranchinho. Esse homem, dizem, loteou toda a superfície lunar e fez fortuna. Graças aos panacas.

Hoje, PANACA virou IDIOTA.

pança Barriga. Era um tal de “olha a pança dele”, “enchi a pança que não consigo nem andar” e “que pança, hein?”. Era um tempo em que ninguém fazia dieta, que todo mundo comia o seu torresminho, seu jiló à milanesa, seus corações de galinha sem a menor culpa, sem a menor dor na consciência. Por isso, havia pança pra dar e vender. Gente com pança grande costumava aparecer no Natal e no Carnaval. Era o Papai Noel e o Rei Momo. Que pança! A glória da pança veio com a música “Aquele abraço”, de Gilberto Gil: “Chacrinha continua balançando a pança/E buzinando a moça e comandando a massa...”

Hoje, a PANÇA virou BARRIGUINHA. pandarecos Em frangalhos. Estar em pandarecos não era estar numa boa, como se diz atualmente. Uma pessoa que trabalhava muito, por exemplo, chegava em casa à noite em pandarecos. Estar em pandarecos era estar em frangalhos. Mas não era só o ser humano que ficava em pandarecos. Uma casa velha, por exemplo, depois de um temporal, de uma ventania, ficava em pandarecos. Destruída, arruinada.

Hoje, estar em PANDARECOS é a mesma coisa que estar ACABADO. pândego Engraçado. Ronald Golias como Bronco Dinossauro na Família Trapo, programa de sucesso na década de 1970, era pândego. Chico Anysio e seus inúmeros personagens também eram pândegos. Bem como Zé Vasconcellos, Costinha e Ary Toledo contando piadas. Todos eram pândegos. E Jô Soares na pele de Norminha? Nada mais pândego! No cinema, Ankito, Oscarito, Grande Otelo eram pândegos. Pândego era aquele que nos fazia rir, na tristeza e na alegria.

Hoje, PÂNDEGO virou HILÁRIO. pandemônio Confusão. “Foi um pandemônio” era uma coisa que se ouvia a torto e a direito. Bastava o tumulto ganhar força, a confusão se formar e prometer quase uma briga que virara um pandemônio. Na saída de um show do

Cauby, por exemplo, quando as fãs alucinadas resolviam brigar para chegar perto do cantor, empurrando, puxando o cabelo, rasgando a roupa, gritando umas com as outras, aquilo virava um pandemônio.

Hoje, PANDEMÔNIO virou uma GRANDE CONFUSÃO. pão Homem bonito. Mulher se fingia de discreta e nunca elogiava os dotes de um homem em alto e bom tom como elogiam agora. Mas, a boca pequena, sabia-se quem elas achavam um pão. Artistas de cinema como James Dean e Marlon Brando, por exemplo, eram um pão. Bonitos, fortes, elegantes, fotogênicos. Mas não eram apenas as estrelas de cinema que eram um pão. O namorado de uma, o vizinho da outra, o pretendente, havia pão para todos os lados.

Hoje, um PÃO virou um GOSTOSO. papa-filas Ônibus articulado. Transporte urbano no Brasil nunca foi bom, mas quando inventaram o tal do papa-filas acreditou-se que os problemas haviam acabado. As filas nos pontos de ônibus sempre foram enormes, principalmente na hora do rush, por volta de seis e pouco da tarde, já que a maioria dos trabalhadores deixava o batente às dezoito horas. E eram essas filas gigantescas que o tal do ônibus papava. Bastava ele parar que subia gente. Não restava um passageiro sequer para contar a história. E, depois de cheio, lá ia o papa-filas imponente até o próximo ponto para papar mais passageiros, um a um.

Hoje, um PAPA-FILAS é um BUSÃO. papagaiado Enfeitado de maneira exagerada. “Aonde você vai assim todo papagaiado?” Papagaiado era uma pessoa que se enfeitava exageradamente e de tanto enfeite ficava com um pé no brega. Com tanta coisa junta era impossível combinar peças de roupa e bijuterias. Quanto mais enfeite se colocava – era um brinco aqui, um chapéu ali, uma pulseira acolá –, mais a pessoa ficava papagaiada. Se agora é fashion misturar estilos, em outra época era meio esquisito. E a pessoa ficava assim: toda papagaiada.

Hoje, PAPAGAIADO é OVER.

papa-léguas Pessoa que anda muito. Papa-léguas é uma ave típica da América do Norte que, junto com o coiote, virou personagem de desenho animado nas mãos da Warner Bros. Mas lá na roça papa-léguas era aquele matuto que andava quilômetros e quilômetros, ou melhor, léguas e mais léguas como se nada tivesse acontecido. Ia de norte a sul, de leste a oeste buscar farinha, rapadura, fubá, enfim, o arroz com feijão de cada dia, sem reclamar. Ele saía andando e pronto. Papava léguas e voltava cada vez mais forte, cada vez mais feliz da vida.

Hoje, quem tem cara de PAPA-LÉGUAS é um QUENIANO. papo-firme Garota avançada. Uma garota papo-firme era uma garota à frente de seu tempo, avançada e, como diziam, pra frente. Foi aquela que rompeu com a caretice, encurtou a saia, passou a mão num copo de cuba-libre e saiu por aí. Gostava de rock and roll, de twist e se rebolava para ficar na moda, nem que fosse num bambolê. E foi Roberto Carlos quem fez o retrato falado dela na canção “É papo-firme”, que tomou conta do Brasil. Vamos ao pé da letra: “Essa garota é papo-firme, é papo-firme, é papo-firme/Ela é mesmo avançada e só dirige em disparada/Gosta de tudo que eu falo, gosta de gíria e muito embalo/Ela adora uma praia e só anda de minissaia/Está por dentro de tudo e só namora se o cara é cabeludo”.

Hoje, uma garota PAPO-FIRME é uma garota MODERNA, BACANA. paraíba Mulher-macho. Quando uma mulher tinha o ar meio masculino era logo chamada de paraíba. Paraíba era sinônimo de mulher-macho, meio cangaceira, meio decidida a sair no braço, se necessário fosse. O retrato falado da mulher paraíba está na canção do rei do baião, Luiz Gonzaga, e de seu parceiro Humberto Teixeira: “Paraíba masculina/Muié macho sim sinhô/Eita pau-pereira/Que em princesa já roncou/Eita paraíba/Muié macho sim sinhô.”

Hoje, uma mulher PARAÍBA virou SAPATA. paralelepípedo Pedras para pavimentar ruas.

Dizendo assim parece bonito. Um paralelepípedo tem seis faces, sendo que duas são idênticas entre si. Os paralelepípedos podem ser retos ou oblíquos. No fundo, no fundo o paralelepípedo era nada mais, nada menos que as pedras que pavimentam as ruas. O presidente Costa e Silva, conhecido por sua inteligência limitada, virou personagem de uma piada que corria lá pelos anos 1960. Quando ele saiu visitando o Brasil costumava sempre fazer o mesmo discurso, mudando apenas o nome do estado. Ao chegar a Minas Gerais, em vez de dizer “povo do Rio Grande do Sul... trocava o Rio Grande do Sul por Minas e dizia “povo de Minas...”. Chegando ao Ceará, depois de uma visita ao Pará, ele soltou esta: “Essas ruas agora cheias de cearalelepípedos...”.

Hoje, o ASFALTO está matando o PARALELEPÍPEDO. pardieiro Lugar esquisito, inferninho. Pardieiro era aquele lugar estranho com gente esquisita. Quando se dizia “um verdadeiro pardieiro” significava que o local não deixava dúvida. Era um lugar meio perigoso, meio estranho, desarrumado, malcheiroso. Esse era o verdadeiro pardieiro. Mas os pais costumavam usar a palavra para dar ordens aos filhos: “Vá já arrumar o seu quarto porque aquilo lá está um verdadeiro pardieiro”.

Hoje, um PARDIEIRO é uma verdadeira BADERNA. parentada Reunião de parentes. Família sempre foi família. Tem gente fina, gente grossa, gente educada, desbocaba, gente de tudo quanto é jeito. E as famílias se reuniam muito mais do que se reúnem agora. Domingo, por exemplo, era dia de macarronada e de reunir a parentada toda. Parentada toda significava avós, pais, tios, tias, sobrinhos, primos, cunhados, genros, noras. No Natal, então, nem se fala. Era quando a parentada toda se reunia para festejar o nascimento de Cristo e, muitas vezes, lavar a roupa suja.

Hoje, PARENTADA virou FAMILIARES. parentalha Expressão meio baixo nível para definir reunião de parentes. Quando se dizia que a parentalha toda vinha para o churrasco, significava que vinham os parentes, mas o risco de baixar o nível era grande. Parentalha era um jeitinho meio pejorativo de dizer parentada. Numa reunião aonde vinha toda a parentalha não poderia faltar aquele genro falando mal da sogra, aquela cunhada desbocada colocando a boca no trombone, por exemplo.

Hoje, PARENTALHA virou GENTALHA. parrudo Forte, musculoso. Tarzan! Esse, sim, era parrudo. Mas nem só o rei das selvas era parrudo. Mães que davam litros e litros de mingau a seus filhinhos se orgulhavam em dizer que eles estavam fortes, parrudos. Parrudo era o contrário de minguado. Um homem parrudo era todo-poderoso. Não era gordo, era parrudo, tinha o peito cheio de músculos. Já um bebê parrudo concentrava sua robustez nos braços e nas bochechas.

Hoje, um cara PARRUDO é um cara BOMBADO. pascoela Segunda-feira seguinte ao domingo de Páscoa. O domingo de Páscoa era um dia sagrado e sempre lembrado pelo volume de ovos de chocolate espalhados pela casa. Os pais compravam dezenas de ovinhos e escondiam pelos cantos dizendo que foi o coelhinho que trouxe. No final do dia era aquela overdose de chocolate. Mas havia o day after, o dia seguinte à Páscoa que todos chamavam de Pascoela. A lembrança que todos têm da Pascoela é que algumas escolas não tinham aula e que havia pedaços de chocolate por todos os lados. Ninguém, numa Pascoela, conseguia nem sequer olhar para um ovo deixado pelo coelhinho.

Hoje, PASCOELA é simplesmente SEGUNDA-FEIRA. pasmado Abismado. Encontrar o marido da amiga com a outra no cinema era de deixar qualquer um pasmado. Como pasmado ficava aquele que via o vizinho comprar um carrão mesmo sabendo que ele não ganhava um salário muito alto. As pessoas costumavam ficar pasmadas quando a televisão mostrava um beijo na boca no horário nobre. Todos os que ficavam pasmados costumavam arregalar os olhos e colocar a mão na boca, com aquela expressão: “Nossa, estou pasmado”.

Hoje, quem fica PASMADO fica CHOCADO. passar um pente Pentear rapidamente os cabelos.

São expressões que vão sumindo com o tempo. Era muito comum ouvir alguém dizer: “Espere um pouquinho, só vou passar um pente no cabelo”. Passar um pente era dar uma escovada rápida, um trato no cabelo. As pessoas usavam muito o pente e pouco a escova. Todo mundo vivia passando um pente no cabelo.

Hoje, PASSAR UM PENTE é simplesmente PENTEAR O CABELO. pastel Pessoa lenta, sem graça. Uma pessoa lenta, meio zen, passa. Mas sem graça não tem graça nenhuma. Uma pessoa que andava meio devagar, e ainda por cima sem graça, era chamada de pastel. “O namorado da Maria Lúcia é meio pastel.” Essa frase não significava necessariamente que ele tinha a cor da pele em tom pastel, e sim que ele era meio sem graça, meio devagar, não era o pretendente perfeito para Maria Lúcia continuar namorando, noivar, casar e ter filhos.

Hoje, uma pessoa PASTEL é uma pessoa SEM SAL. pata-choca Pessoa inútil, lerda. Reconhecia-se uma pessoa pata-choca quando, por exemplo, começava a chover e ela ia caminhando na chuva com a sombrinha debaixo do braço. Precisava alguém alertá-la: “Ô, sua pata-choca. Abre a sombrinha! Não está vendo que está chovendo?”. Aí a pata-choca se tocava e abria a sombrinha pra não se molhar. A pata-choca, a ave, é bem o retrato de uma pessoa pata-choca. Anda sempre meio devagar e com aquele olhar blasé.

Hoje, uma pessoa PATA-CHOCA é uma pessoa MEIO DEVAGAR. patavina Nada. Quando um professor colocava no quadro-negro uma equação do segundo grau e o aluno lá no fundo da sala cochichava dizendo que não estava entendendo patavina era porque não estava entendendo nada de nada. O tal do “não entendi patavina” reinou durante mais de uma década, a de 1970. Muitas vezes era precedido de um putz. “Putz, não entendi patavina!” E não era só equação de segundo grau que alguns não entendiam patavina. Se um bebum, por exemplo, explicasse ao motorista como se fazia para chegar ao bairro de Ermelino Matarazzo, o motorista fechava o vidro e dizia: “Não entendi patavina do que ele disse...”.

Hoje, não entender PATAVINA é não entender NADINHA. patifaria Ato de fazer coisas ilícitas, ilegais. A patifaria corria e ainda corre solta. Mas, hoje, ninguém diz que um político pego em flagrante ao enfiar pacotes de dinheiro na meia está fazendo uma patifaria. Havia todo tipo de patifaria. Roubar, enganar, passar alguém para trás, enrolar, tudo era patifaria. E a pessoa que praticava tais atos ilícitos era um patife.

Hoje, uma PATIFARIA virou uma SACANAGEM. patota Turma. A palavra patota apareceu junto com o jornal satírico O Pasquim, nos anos 1960. Quem se divertia fazendo o jornal não era uma equipe de jornalistas ou humoristas. Era uma patota, a patota d’O Pasquim. Com o passar dos anos, a palavra foi perdendo força e passou mesmo a significar turminha, panelinha. “Ele foi promovido porque faz parte da patota.” O funcionário lamuriava: “Não recebi aumento porque não sou da patota”.

Hoje, uma PATOTA é uma TRIBO. patropi Abreviatura de país tropical. Foi o cantor e compositor que na época se chamava Jorge Ben e agora Jorge Benjor quem inventou tal abreviatura ao compor a canção “País tropical”, um hit dos anos 1970. Ele não só abreviou país tropical, como todos os versos da canção. “Moro num país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza, mas que beleza” virou “Mo num patropi abençoá por Deu e boni por naturê. Mas que belê!”. E foi assim que o nosso país tropical passou a ser chamado de patropi. “Aqui no patropi nada funciona!”, diziam.

Hoje, PATROPI virou BRASIL. pavimento Piso. Houve uma época em que as pessoas gostavam de chamar o andar do prédio de pavimento. Essa ideia

surgiu, principalmente, por causa dos corretores de imóveis. Você chegava a uma imobiliária para ver um apartamento para alugar ou comprar e lá vinha o corretor: “O apartamento é ótimo. Fica no segundo pavimento”. Ou então: “O prédio é muito tranquilo, são apenas quatro pavimentos”. Pavimento é piso. “O pavimento é todo de sinteco”, diziam os mesmos corretores. A palavra pavimento vem do latim pavimentu, mas o que não se sabe é por que os corretores de imóveis chamavam andar de pavimento.

Hoje, PAVIMENTO é ANDAR. pavonear Exibir-se. O pavão macho é uma das aves mais exuberantes que existem. E também uma das mais exibidas. Talvez por isso as pessoas costumassem dizer que um cara estava pavoneando. Quer dizer, se exibindo, querendo aparecer. Coisa bem de macho para conquistar a fêmea. O cara que gostava de pavonear se destacava na multidão. Sempre muito bem vestido, terno bem cortado, camisa sem um sinal sequer de amassado, sapatos impecavelmente engraxados, cabelo penteado com brilhantina, um pavão.

Hoje, PAVONEAR significa querer SE MOSTRAR. pé de chinelo Pessoa pobre. O pé de chinelo era o terror da classe média metida a besta. Quando a filha aparecia em casa com um namoradinho, a primeira coisa era saber de que família era e se não era um pé de chinelo qualquer. Era considerado pé de chinelo aquele cara meio pobre e sem muita chance de subir na vida. O pé de chinelo não sonhava com a faculdade, não pensava em ser doutor. Os pais tinham pavor de ver suas filhas queridas casar com um pé de chinelo qualquer. Pé de chinelo qualquer era ainda pior que um pé de chinelo simplesmente.

Hoje, PÉ DE CHINELO é simplesmente POBRETÃO. pé de valsa Pessoa que gosta de dançar e dança muito bem. Nunca antes na história deste país houve um presidente da República que gostasse tanto de dançar como Juscelino Kubitschek. Era um verdadeiro pé de valsa. Pé de valsa era aquele que não podia ver uma orquestra afinar os instrumentos que já ia logo procurar um par e sair dançando. Dançavam em festas, em comemorações, em horas dançantes, em qualquer lugar em que houvesse música. O pé de valsa gostava de ser admirado no meio do salão e ia muito além do dois pra lá, dois pra cá.

Hoje, o PÉ DE VALSA é um DANÇARINO. pecúlio Seguro. “Pecúlio é um termo que define o capital segurado que é pago em caso de morte de um segurado”. Verdade seja dita: as pessoas continuam nascendo e morrendo, mas são poucas as que ainda falam, e usam, pecúlio. Talvez uma meia dúzia de gatos-pingados.

Hoje, PECÚLIO virou SEGURO. pederasta Homem que se relaciona com outro homem mais novo. Pederasta era aquele homem que estava sempre de olho em outro homem, mas sempre mais novo, jovem, às vezes criança. Abominável em todas as épocas. Era conhecido também como tarado. Era comum ouvir a palavra tarado, se bem que nem todo tarado se interessava única e exclusivamente por pessoas mais novas.

Hoje, PEDERASTA é PEDÓFILO. pedir a negra Pedir uma nova chance. Nos anos 1960 era muito comum em Minas Gerais a pessoa pedir a negra. Ninguém sabe de onde veio a expressão, que agora tem uma conotação meio racista. Pedir a negra significava pedir uma revanche, uma nova chance. Se uma pelada de rua terminasse cinco a zero, o time perdedor logo gritava: “Amanhã eu quero a negra!”. E uma nova partida era convocada, a negra.

Hoje, PEDIR A NEGRA é o mesmo que REVANCHE. pega-frango Calça que encolheu. Por este Brasil afora, pega-frango pode significar uma pessoa covarde, um mané, um otário, uma besta. Em Minas Gerais, é o nome que davam a uma calça que encolheu. Encolheu porque lavou ou encolheu porque o dono cresceu. As mães implicavam muito com os filhos que usavam calça pega-frango, porque ficavam parecendo o Jeca Tatu com aquelas meias aparecendo. Não tinha um menino de dez, doze anos,

que não tivesse uma calça pega-frango. E não era pra menos, porque eles não paravam de crescer. A calça pega-frango era também conhecida como pula brejo. Tudo a ver.

Hoje, uma calça PEGA-FRANGO não tem nome. pega-rapaz Mecha de cabelo colada na testa em forma de vírgula. Virou moda o tal cabelo pega-rapaz. Não era muito fácil armar aquela mecha de cabelo que precisava ficar bem colada na testa e tinha o formato de vírgula. Uma moda que talvez tenha surgido lá nos anos 1920. Em toda foto antiga, daquelas bem antigas mesmo, as moças estão usando cabelo pega-rapaz. Era chique, moderno, jovem, grã-fino, última moda. Agora, se pegavam é outra história. Rita Lee levou às alturas a tal moda com a canção “Pega-rapaz” que fez em parceria com Roberto de Carvalho: “Pegarapaz/Meu cabelo à la garcon/Prova o gosto desse ton-sur-ton/Do meu batom na tua boca”.

Hoje, um cabelo PEGA-RAPAZ está completamente fora de moda. pela madrugada Expressão de espanto. O porquê da madrugada não se sabe, mas a expressão de espanto era bem clara: pela madrugada! “Você vai viajar sozinha? Pela madrugada!” “Você vai ter coragem de enfrentar esse trânsito no feriado? Pela madrugada!” Isso significava mais ou menos um “não é possível” ou um “é verdade?”.

Hoje, PELA MADRUGADA virou PELO AMOR DE DEUS. pelanca Pele flácida, envelhecida. Na maior falta de educação, muitas pessoas não diziam que a vovó estava velhinha ou com algumas rugas. Diziam na cara dura que a vovó está cheia de pelanca. Estar cheia de pelanca era estar bem velha, com a pele flácida e enrugada. No açougue, as donas de casa diziam aos açougueiros na maior: “Quero um quilo de contrafilé, mas, por favor, tire a pelanca”. Tirar a pelanca significava tirar toda aquela gordura que ficava em volta da carne vermelha. Pode parecer que a palavra não é nada romântica, mas Caetano Veloso conseguiu arrancar poesia da pelanca na canção que compôs em Londres durante o seu exílio no início dos anos 1970: “Que tem vovó/Pelanca só/Que tem vovó/Pelanca só/You won’t see me.../Spaces grow wide about me”. A música chama-se “Neolithic Man”.

Hoje, a PELANCA é chamada de PAPO.

pelando Muito quente. Era muito comum ouvir a mãe, dentro de casa, dando o grito de alerta: “Saiam da frente que está pelando”. E lá vinha ela de avental trazendo aquela travessa enorme de macarronada. As mesmas mães aconselhavam a seus filhos: “Tomem banho morno, não tomem banho pelando”. Pelando era isso, muito quente. Não importa se a macarronada ou o banho.

Hoje, em vez de PELANDO as pessoas dizem simplesmente QUENTE DEMAIS. peleja Partida de futebol. Analisando bem, peleja significa luta, combate, briga. Mas a peleja que costumavam dizer nos anos 1960 era uma partida de futebol. “Quanto está a peleja?” “Didi se contundiu e deixou a peleja.” “A que horas começa a peleja?” Dizia-se peleja na mesma época em que chamavam a bola de pelota, o goleiro de gol keeper e o impedimento de banheira.

Hoje, PELEJA é uma PARTIDA. pelejando Lutando para vencer na vida. Não é de agora que as pessoas vivem pelejando. Acordam cedo, dão um duro danado e, no final do mês, o salário ó, como dizia um personagem do Chico Anysio. Pelejar era não fugir à luta, enfrentar chuvas e trovoadas. As pessoas trabalhavam, trabalhavam, e, quando alguém perguntava como iam as coisas, a resposta vinha em apenas uma palavra: “Pelejando...”.

Hoje, PELEJANDO virou BATALHANDO. pelota Bola de futebol. Não apenas os locutores de rádio diziam que “a pelota está com Vavá”, “Pelé domina a pelota” ou “Bellini atrasa a pelota para Gilmar”, como os meninos da rua diziam “vamos jogar uma pelota à tarde?”. Pelota era o nome que se dava à bola de futebol. Na Copa do Mundo de 2010, na África do Sul, a pelota ganhou um nome que correu o mundo: jabulani. Mas foi uma fama passageira, durou apenas uma Copa do

Mundo, a de 2010.

Hoje, PELOTA é BOLA. penando Passando aperto. As crianças tinham muito medo de ir para o inferno. O inferno parecia uma coisa tão real, tão quente, tão palpável. E era lá que as almas ficavam penando, ardendo no fogo. Penar era sofrer e sofrer muito. E as velhas carolas viviam rezando para as almas penadas. Mas, pensando bem, havia o penando light. “A Madalena está penando porque a nova empregada foi embora.” Isso não era penar no inferno. Era penar no tanque e no fogão.

Hoje, PENANDO significa SOFRENDO. penhorar Ato judicial pelo qual são apreendidos os bens do devedor. Essa explicação serve para quem está enrolado com a Justiça e tem os bens penhorados. Mas existia a penhora a granel. Aquela senhora que estava apertada de dinheiro – era assim que se dizia – e precisava levantar uma grana rapidinho, era só ir à Caixa Econômica e penhorar as joias. Podia ser uma aliança, um anel, uma pulseira, uma correntinha de ouro. O importante era ter algum valor. A pessoa levantava um dinheiro e deixava as joias lá guardadas, penhoradas. Só podiam ser recuperadas quando o dinheiro fosse devolvido e com juros.

Hoje, em vez de PENHORAR, as pessoas pedem EMPRÉSTIMO. penosa Galinha. Quem dizia “vamos comer uma penosa?” estava convidando alguém para comer uma galinha, que poderia ser frita, ao molho pardo, a passarinho, assada ou refogada com batata. Penosa era um jeito carinhoso de chamar a simpática galinha que, apesar de ser simpática, acabava na panela. As pessoas compravam a galinha viva para matar em casa. Chegavam ao mercado, escolhiam e diziam ao vendedor: “Me vê essa penosa marrom, por favor!”.

Hoje, a PENOSA é um FRANGO. pequena

Namorada. A moça não precisava ser necessariamente de baixa estatura para ser chamada de pequena. Chamava-se a namorada de broto, de namorada mesmo e de pequena. Pequena era um jeito carinhoso de nomear uma namorada, geralmente um caso recente. Ninguém que namorasse há dois, três anos, chamava a namorada de pequena. Quantas vezes um galã não apresentou sua namorada dizendo: “Esta aqui é a Marlene, a minha pequena...”.

Hoje, minha PEQUENA virou minha GATA. peralta Criança da pá virada. Criança é criança em qualquer lugar do mundo. Seja no Japão, no Egito, na Zâmbia. Seja no Brasil, seja no Butão. Criança quietinha no canto, amuada, é criança reprimida ou doente. Uma criança que sobe no muro, rabisca a parede da sala recém-pintada, sobe e cai do pé de goiaba, essa é uma criança arteira, rebelde, travessa, da pá virada. Mas essa criança era também chamada de peralta.

Hoje, uma criança PERALTA é uma criança LEVADA. pé-rapado Pessoa sem estudo, pobre. Pais entravam em desespero quando ficavam sabendo que a filha estava namorando um pé-rapado. Pérapado era aquele cujas respostas eram sempre não: “Tem pai rico? Não. Estuda? Não, parou. Trabalha? Não”. Quando a resposta era sim, era porque trabalhava, mas ganhava pouco, o insuficiente para sustentar uma família. Então, esse pobre coitado era chamado de pé-rapado. E pai nenhum queria ver sua donzela apaixonada por um tipo assim.

Hoje, um PÉ-RAPADO é um POBRETÃO. pereba Ferida. Toda criança vivia leve, livre e solta. Brincava na rua e em terrenos baldios, perambulava pelo bairro. E, muitas vezes, ficava com o corpo cheio de pereba. Pereba era uma feridinha, um caroço que surgia depois de uma picada de abelha, que inflamava, uma alergia a mamona, uma coceira bem coçada ou coisa parecida. Toda criança tinha uma pereba.

Hoje, PEREBA virou CAROÇO. perhaps Não ter dúvida. Muito simples. Perhaps, em inglês, significa talvez. Mas, em vez de dizerem não tem talvez, as pessoas – em Minas Gerais, sobretudo – começaram a dizer perhaps. “Amanhã vou ao jogo do Galo. Não tem perhaps.” De vez em quando acontece isso na língua portuguesa. Uma palavra em inglês cai no gosto popular. Quase ninguém responde a um e-mail com um obrigado. É tks, abreviatura de thank you. Enfim, só love.

Hoje, em vez de dizer NÃO TEM PERHAPS, diz-se NÃO TEM TALVEZ em bom português. perigas Correr o risco. De repente, a palavra perigas caiu no gosto popular e se ouvia a todo o momento. O auge foi nos anos 1970. “Se você sair nessa passeata perigas ser preso”, “Com a música ‘Apesar de você’, o disco do Chico perigas ser apreendido”, “Essa foto do Geisel na capa do jornal Opinião perigas ser censurada.” Tudo era perigas. A consagração da palavra veio com o hit que está no disco Acabou chorare, dos Novos Baianos, “Caia na estrada e perigas ver”, de Pepeu, Galvão e Paulinho Boca de Cantor: “Caia na estrada e perigas ver/Estamos nos últimos dias de outrora/Caminho em linhas tortas divertidamente/Caia na estrada e perigas ver”.

Hoje, em vez de dizer PERIGAS, diz-se CORRE O RISCO. perrengue Adoentado. Sintomas de uma pessoa que está perrengue: dor de cabeça, dor no corpo, dor nas costas, sono, desânimo, estado febril. Esse é o retrato falado de uma pessoa que se dizia perrengue. Apesar de tantos sintomas, estar perrengue não despertava preocupação como ir ao médico ou ao pronto-socorro. Estar perrengue era não se animar a sair, a fazer qualquer coisa. Com o tempo passava, bastava um comprimido de Melhoral, um chá de boldo, um gargarejo com água quente, limão e sal ou coisa parecida. Mas tem também pessoas que passam por um perrengue, passam por um problema, uma chateação.

Hoje, uma pessoa PERRENGUE é uma pessoa DERRUBADA.

pesada Barra-pesada. Até hoje se diz da pesada. “Essa foi da pesada”, por exemplo, é uma frase que ainda se ouve. Mas houve uma época em que da pesada virou meio gíria na boca do cantor Wilson Simonal, um cantor da pesada. Ele gostava de subir ao palco e antes de começar uma música, que seguramente iria virar hit, ele dizia: “Essa é da pesada... vamos lá”.

Hoje, DA PESADA é mais ou menos BACANA. pescar Saber. Calma, pescadores! A palavra pescar não sumiu do mapa. Isto é, a palavra pescar no sentido de pegar peixes. Já o pescar de não saber nada está com os dias contados. A professora ia ao quadro-negro e começava a explicar todos os tempos do verbo: passado, presente, tudo bem, mas quando chegava o pretérito passado, o mais-que-perfeito o aluno lá no fundo da sala costumava dizer: “Não estou pescando nada...”. Era sinal de que não estava entendendo nada de nada, não estava entendendo bulhufas.

Hoje, NÃO PESCAR é ESTAR POR FORA. pestanejar Duvidar. Pestanejar, no sentido exato da palavra, é piscar lentamente os olhos. Um efeito do sono. Mas o que andou na boca do povo por um bom tempo foi o tal do sem pestanejar. “Quando me chamam para ir à praia no verão, vou sem pestanejar.” Ou então: “Entrei na livraria e comprei o livro novo do Chico Buarque sem pestanejar”. Quer dizer, passou a mão no livro e foi direto ao caixa sem sequer dar uma piscadinha.

Hoje, fazer uma coisa SEM PESTANEJAR é fazer uma coisa SEM PENSAR DUAS VEZES. peteleco Pancada na cabeça com o dedo médio e o punho fechado. Todo filho desobediente levava peteleco. Se não levava, ganhava uma ameaça: “Se você não se comportar, vai levar um peteleco”. O irmão mais novo de uma tropa de vários irmãos, coitado, vivia

levando petelecos. Mais antigamente, além de ajoelhar no milho e escrever cem vezes “eu não devo conversar na sala de aula”, aquele aluno que se sentava lá na última carteira da sala costumava levar peteleco da professora. Acredite se quiser.

Hoje, levar um PETELECO é levar um TABEFE. piaçaba Espécie de palmeira. A piaçaba, também conhecida como piaçava (Attalea funifera) não é uma árvore que corre risco de extinção, mas a palavra sim. Nome comum de uma espécie de palmeira nativa dos estados de Alagoas, Bahia, Espírito Santo e Sergipe, a piaçaba em tupi quer dizer planta fibrosa. E era com a piaçaba que se fazia vassouras para varrer calçada, quintal, cozinha. Não se varria sala com vassoura de piaçaba, porque riscava o chão. Se uma pessoa chegar a um supermercado e perguntar se tem vassoura de piaçaba, o empregado vai olhar com espanto.

Hoje, uma VASSOURA DE PIAÇABA é apenas uma VASSOURA. picape Aparelho de som. Claro que existe outra picape, aquela camionete. E é claro que no mundo dos djs, que eram chamados de disc jockeys, a palavra picape ainda está em uso. Mas o que desapareceu do mapa foi aquele marido que pedia para a mulher colocar um disco do Ray Connif na picape. Desapareceu Ray Connif e desapareceu a picape.

Hoje, em vez de dizer coloque o disco na PICAPE, diz-se coloque um SOM. picar a mula Sair correndo. Picar a mula não é fatiar o cavalo. É ir embora rapidamente, sair correndo. Falava-se a todo o momento: “Se o dono da casa chegar e vir você roubando goiaba, é melhor picar a mula”. Uma vez saiu no jornal. A polícia deu uma batida num inferninho e um homem saiu pelado pelas ruas. Quer dizer, para evitar vexame maior, ele picou a mula.

Hoje, PICAR A MULA é SE MANDAR.

pichar Criticar. Quando, no início dos anos 1970, o cantor baiano Caetano Veloso lançou o disco experimental Araçá azul, foi muito pichado. Críticos de música adoravam pichar discos de que não gostavam. “Você viu como o José Ramos Tinhorão tem pichado a Jovem Guarda?” Aliás, o Tinhorão vivia pichando tudo o que via pela frente e que não era de raiz.

Hoje, PICHAR é METER O PAU. piche Resíduo da destilação do petróleo. O piche em sua forma natural é chamado de asfalto. É aquela substância negra, mole, que, ao grudar na sola do sapato, não sai mais. Em Minas Gerais, era uma palavra muito usada. Certo dia, a repórter Helena de Grammont foi a Belo Horizonte fazer uma matéria para o Fantástico e, quando perguntou onde ficava uma ruela perto do aeroporto, ouviu do guarda de trânsito: “Você segue nessa rua toda vida e quando acabar o piche vire à esquerda...”. Acabar o piche era acabar a rua asfaltada.

Hoje, uma rua com PICHE é uma rua com ASFALTO. pilantragem Malandragem. O auge da pilantragem surgiu nos anos 1970 com o cantor Wilson Simonal, o rei da pilantragem. Não que ele fosse um pilantra, mas fazia o tipo e gostava de dizer: “Agora vamos à pilantragem...”. A palavra fazia tanto sucesso que virou nome de uma banda – de um conjunto musical como se dizia na época –, chamada A Turma da Pilantragem. A especialidade da banda era pegar músicas famosas e dar uma modificada, um molho especial. Quer dizer, pura pilantragem.

Hoje, PILANTRAGEM é PICARETAGEM. pilão Cintura fina. Mulher gostosa tinha cintura de pilão e era chamada de violão. Simples imaginar porque tinha cintura de pilão. Cheinha em cima, fininha no meio e cheinha em baixo. Ou melhor, seios fartos, traseiro avantajado e cintura fininha. A consagração da cintura de pilão veio com a música “Cintura fina”, de Luiz Gonzaga e

Zé Dantas. O refrão diz assim: “Vem cá, cintura fina, cintura de pilão/Cintura de menina/Vem cá meu coração”.

Hoje, CINTURA DE PILÃO é TOP. pilha de nervos Muito nervoso. Toda criança tinha medo do pai. E quantas mães não espalhavam o terror? “Você trata de ficar comportado porque daqui a pouco seu pai chega e ele está uma pilha de nervos!” Estar uma pilha de nervos era estar colérico, à beira de um ataque. São aqueles dias em que nada dá certo, que é preciso deitar na cama, colocar a cabeça no travesseiro, dormir e começar um novo dia.

Hoje, estar uma PILHA DE NERVOS é estar ESTRESSADO. pilhéria Zombaria. O ser humano vive gozando o outro. Mas em outros tempos fazia-se pilhéria. Fazer pilhéria é fazer gozação, zombaria, encher o saco muitas vezes por um motivo bobo. Quando uma turma resolvia pegar uma pessoa pra Cristo, não tinha quem segurasse. Faziam pilhéria até que essa pessoa, muitas vezes, perdia a paciência e virava a mão, quer dizer, enfiava a mão na cara de outra.

Hoje, fazer PILHÉRIA é TIRAR SARRO. pimenta Colérico. Imagine uma pessoa virar uma pimenta. É a mesma coisa que virar um cão. Reclamar de tudo, achar que tudo está errado. Aquela pessoa que, quando alguém diz que o tempo está bom, fresco, que o céu amanheceu lindo e azul e que o sol está ótimo, ela vem logo com um comentário do tipo “... mas vai chover”.

Hoje, um PIMENTA é um MAL-HUMORADO. pindaíba Sem dinheiro.

“Não vou viajar nas férias porque estou numa pindaíba danada.” Estar numa pindaíba era não ter dinheiro. As pessoas ficavam sem grana e quando chegava lá pelo dia 20, 21, o dinheiro ia acabando. O problema maior da pindaíba é que não havia cartão de crédito nem cheque especial. Tinha de viver com pouco ou quase nada esperando o mês acabar, começar outro e receber o ordenado.

Hoje, estar numa PINDAÍBA é estar NO VERMELHO. pingando Com muito sono. Coisa de mineiro do interior. Escurecia, acabava o Repórter Esso e todo mundo ficava pingando de sono. Quando o filho dava aquela encostada no sofá, as mães mineiras logo diziam: “Vai dormir porque você está pingando de sono...”. O filho levantava e saía cambaleando até a cama, pingando de sono.

Hoje, PINGANDO de sono significa CAINDO de sono. pinguço Pessoa alcoolizada. O cara chegava ao boteco e pedia uma pinga. Daqui a pouco, pedia outra e mais outra. Na quarta, pedia um torresmo, uma moela, um jiló frito como tira-gostos. Aí chegava um amigo e ele tomava mais uma e mais outra. Daqui a pouco, a saideira e depois da saideira a última saideira. Quando via, estava embriagado. Saía cambaleando pela calçada até que passava alguém de carro e gritava: “Ô, pinguço!”.

Hoje, um PINGUÇO é um BEBUM. pinoia! Porcaria! Bastava uma situação não dar certo para uma pessoa soltar um... pinoia! Era pinoia pra todo lado. Uma torneira que não saía água, uma caneta-tinteiro que falhava, um jornal que sujava a mão de tinta, um carro parado na mão dupla, tudo era motivo para um... pinoia! Muitas pessoas usavam a expressão quando queriam dizer “coisíssima nenhuma”. Quando alguém dizia “você tem de ir à praia este final de semana mesmo que esteja chovendo”, vinha a resposta: “Vou pra praia uma pinoia!”

Hoje, a palavra PINOIA pode muito bem ser substituída por... SACO! pimpolho

Bebê. Quem resistia a um pimpolho? Pimpolho era aquele bebezinho rosado, bochechas enormes, sorriso aberto, simpatia pra dar e vender. Aquele bebê que ficava batendo as perninhas e dando gritinhos. Aquele bebê que começava a ficar sentadinho, chupava o dedo do pé, engatinhava, parava e piscava pra gente. O pimpolho era o queridinho da família, um amor.

Hoje, um PIMPOLHO é chamado de FOFO. pinto Fácil. O pinto, pobre coitado, é uma vítima. Principalmente de piadas. O pinto de verdade é o filhote da galinha, isso todo mundo sabe. O outro pinto também todo mundo sabe. Mas a expressão “ser pinto” apareceu com o significado de fácil. “Flamengo e Madureira domingo no Maracanã? Vai ser pinto”, dizia o flamenguista na certeza de que o rubro-negro iria faturar mais um jogo. Quando se dizia vai ser pinto é porque ia ser fácil mesmo.

Hoje, em vez de dizer vai ser PINTO, fala-se que vai TIRAR DE LETRA. pirambeira Ribanceira. As cidades de Minas Gerais, estado mais montanhoso do Brasil, são o retrato falado das tais pirambeiras. Era assim que se chamavam aquelas encostas, aquelas montanhas, aquelas ruas inclinadas. Lá de cima, as mães alertavam os filhos para tomarem cuidado para não cair na pirambeira. Era um perigo também o bebum vir dirigindo um carro e, de repente, descer a pirambeira.

Hoje, PIRAMBEIRA virou ÁREA DE RISCO. piriri Dor de barriga. Piriri se curava com um comprimidinho marrom chamado Enteroviofórmio. Um comprimidinho que curou muito piriri, mas que acabou sendo proibido, banido das farmácias. Piriri! Era assim que era chamada a famosa dor de barriga. Aquela que vinha de repente e que levava qualquer um voando ao banheiro mais perto. Uma, duas, três vezes. O tal piriri só parava depois de se tomar um Enteroviofórmio.

Hoje, PIRIRI virou DISENTERIA. pirralho Menino, garoto, guri. Menino existe por toda parte, nos quatro cantos do mundo, mas com nomes diferentes. No Rio, por exemplo, menino é garoto, no Sul é guri, e em Minas é menino mesmo. Mas quando o menino ainda não havia crescido era chamado de pirralho. E, quando ele começava a colocar as asinhas de fora, lá vinham os pais com a repressão: “Esse pirralho está pensando que é gente?”. Ou então: “Esse pirralho nem largou a fralda e já está querendo ser dono do próprio nariz?”. Um dia, o pirralho acaba crescendo e, aí sim, vira gente. Gente dona do próprio nariz.

Hoje, PIRRALHO é chamado de MOLEQUE. piruá Milho de pipoca que não estourou. Não havia esse luxo de pipoca de micro-ondas. Pipoca ou era vendida no carrinho de pipoqueiro na porta do cinema, no circo ou nos parques de diversão, ou no armazém em grãos. Era muito simples preparar pipoca em casa. Uma colherada de manteiga na panela, uma pitada de sal, o milho e pronto. Era só esperar os grãos começarem a estourar. Quando o barulho acabava, era sinal de que a pipoca estava pronta. Um pouquinho mais de sal e... que delícia. Acontece que alguns milhos não estouravam. Eram esses grãos rebeldes que chamávamos de piruá. Eles ainda existem, mas no micro-ondas não tem piruá que resista. Acaba estourando.

Hoje, ninguém mais chama PIRUÁ de PIRUÁ. pisante Sapato elegante. Quando alguém dizia “que pisante!” era porque o pisante era mais que um sapato. Era, por exemplo, um sapato fino de verniz preto, branco ou vermelho. O pisante era um jeito elegante de chamar o sapato. “Viu o pisante que o Pedrão comprou?” E o Pedrão fazia o maior sucesso com aquele famoso pisante.

Hoje, ninguém mais fala PISANTE. Fala SAPATO. pitel

Mulher gostosa. O pitel original é um salgadinho. Mas ninguém chama mais salgadinho de pitel. Pitel lá pelos anos 1950 virou sinônimo de mulher gostosa. Era só ver a Brigitte Bardot no escurinho do cinema para alguém suspirar: “Que pitel”. Aquilo, sim, é que era pitel de verdade. Havia outras na tela do cinema ou andando nas calçadas bem em frente a uma construção para que os pedreiros, descansando depois do almoço, pudessem gastar o seu português: “Que pitel”. E a morena, sem dar a menor pelota, seguia em seu rebolado.

Hoje, PITEL virou DELÍCIA. piti Escândalo. Aprontar o maior piti era ter um chilique. O piti não passava despercebido. Na fila do ônibus, quando alguém a furava, tinha gente que aprontava um piti, um escândalo em alto e bom tom. Namorada com ciúmes do namorado olhando para a bunda de uma mulher também costumava dar piti. O piti era público para que todos na redondeza percebessem que aquilo ali era um mesmo um piti.

Hoje, PITI virou BARRACO. pitimba Sem dinheiro. Pitimba era exatamente a mesma coisa que pindaíba, já registrado neste dicionário. Estar na maior pitimba significava falta de grana total. Pitimba era substituir a carne pelo ovo, o filé-mignon pela carne de segunda, o carro pelo busão. Que pitimba!

Hoje, estar na maior PITIMBA é estar DURO. pito Reprimenda. Como os pais passavam pito em seus filhos. Bastava uma nota vermelha no boletim escolar, um rabisco na parede recém-pintada, uma bola que quebrou a janela de vidro do vizinho e lá vinha o pito. As mães viviam ameaçando os filhos: “Se você não tomar banho já, vai ver o pito que o seu pai vai te dar!”. Pito era uma reprimenda daquelas, mas não chegava à violência.

Hoje, em vez de levar um PITO, as pessoas levam uma BRONCA.

pivô Suporte para dentes. Existem vários tipos de pivôs. No Direito, o pivô é o principal suspeito. No esporte, o pivô é o jogador que serve de base para a armação das jogadas. Na odontologia é a haste metálica que serve para suportar coroas na raiz dos dentes. O pivô do crime ainda é falado, o pivô da seleção brasileira de basquete também. Mas aquele pivô na boca das pessoas, esse nome ninguém fala mais.

Hoje, PIVÔ virou IMPLANTE. pixaim Cabelo crespo. O preconceito andava solto e não era motivo de cadeia. Quantas e quantas vezes uma pessoa dizia em alto e bom tom que aquela mulata tinha o cabelo ruim? Ter cabelo ruim era ter o cabelo pixaim. Cabelo pixaim era cabelo crespo. Corria até uma piada na época: “Você sabe em que parte a mulher tem cabelo mais pixaim?”. Envergonhada, a pessoa respondia: “Não”. E o piadista completava: “Na África”.

Hoje, cabelo PIXAIM é um cabelo BLACK. plantada Em pé, esperando alguém. “Tem mais de uma hora que estou aqui plantada e ele não veio”, dizia a namorada, chorando o bolo que havia levado do namorado. “Não vou ficar aqui plantada”, dizia a outra. Ficar plantada era ficar ali, geralmente em pé, esperando alguém que nunca vinha, ou vinha com um atraso de horas. Pessoas ficavam plantadas na fila do banco, na fila do inps, plantadas diante da tv hipnotizadas pelo apresentador.

Hoje, ficar PLANTADA é ficar PARADA. plissada Roupa com pregas. A maior concentração de moças usando saias plissadas podia ser vista nos colégios de freiras. Todo uniforme, além da blusa branca e do sapato preto, tinha uma saia plissada. Saia plissada era aquela cheia de pregas, difícil de ser passada. As empregadas suavam pra passar uma saia plissada, prega por prega.

Hoje, uma saia PLISSADA continua sendo uma saia PLISSADA, mas

ninguém mais fala dela. pneumático Roda de borracha. Depois que inventaram a roda, todo mundo passou a saber o que era um pneumático, uma roda de borracha, peça fundamental num automóvel. “Vossa senhoria deseja trocar o pneumático?”, dizia o mecânico para o homem de terno e vasto cavanhaque ao lado de seu Ford Bigode. No final dos anos 1960, Gilberto Gil compôs uma canção, “Alfômega”, que diz o seguinte: “O analfomegabetismo/Somatopsicopneumático/Que também significa/Que eu não sei de nada sobre a morte”. Mas será que isso tem alguma coisa a ver com o nosso pneumático ou é viagem do Gil?

Hoje, em vez de dizer PNEUMÁTICO, fala-se simplesmente PNEU. pó de arroz Espécie de talco usado para maquiagem. Qual mulher não tinha um pó de arroz na bolsa? Pó de arroz era gênero de primeira necessidade, fazia parte da cesta básica de qualquer mulher na metade do século passado. O pó de arroz vinha num estojinho redondo e com um espelhinho. Era comum no bonde a gente ver uma ilustre passageira sacar o seu estojinho da bolsa e passar pó de arroz. Sem esquecer que pó de arroz era o apelido da torcida do Fluminense.

Hoje, o PÓ DE ARROZ virou apenas PÓ. pó de mico Tipo especial de pozolana que provoca coceira. Quando ia chegando o Carnaval, começavam a aparecer latinhas de pó de mico. Eram os esponjilitos, mas ninguém chamava pó de mico de esponjilitos. Era sacanagem jogar pó de mico em alguém. O pó se tornou muito popular no Brasil quando surgiu uma marchinha de Carnaval, sucesso na voz de Emilinha Borba: “Vem cá, seu guarda/Bota pra fora esse moço/Que está no salão brincando/Com pó de mico no bolso/Foi ele! Foi ele sim/Foi ele quem jogou pó de mico em mim”.

Hoje, PÓ DE MICO não mudou de nome. Continua sendo PÓ DE MICO, mas não está mais no salão. pocilga

Lugar sujo. Imagine um lugar xexelento. Esse lugar era chamado de pocilga. “Nunca mais entro nesta pocilga”, diziam os mais sóbrios ao sair de um boteco meia boca. Pocilga era um lugar sujo, malcheiroso, esquisito mesmo. Mas não eram só alguns botecos que eram chamados de pocilga. Quantas e quantas vezes os pais não abriram a porta do quarto de seus filhos adolescentes e exclamaram: “Que pocilga”.

Hoje, POCILGA é um VERDADEIRO CHIQUEIRO. podes crer Tá certo. Os hippies adoravam o tal do podes crer. Era só concordar com alguém que lá vinha o podes crer. “Acho que vou pegar uma carona e passar uma temporada em Salvador.” “Podes crer”, dizia o amigo, vestindo uma bata indiana, uma calça boca de sino, sandálias com sola de pneu, bolsa feita de couro de cabra muito malcheirosa.

Hoje, PODES CRER foi simplificado para OK. podre de rica Pessoa muito rica. Não tem explicação de por que uma pessoa com muito dinheiro era chamada de podre de rica. Por que podre? Mas era assim que era chamada aquela figura que tinha muito dinheiro, não apenas porque tinha um belo salário. Era dinheiro que não acabava mais, muitas vezes de herança, de família dona de indústria, de fazendas. O mais curioso é que uma pessoa muito chique era chamada de podre de chique. Vai entender...

Hoje, uma pessoa PODRE DE RICA é uma pessoa CHEIA DA GRANA. pomposo Muito luxuoso. Um lugar muito chique, organizado, de bom gosto era chamado de um lugar pomposo. Pomposa era uma pessoa elegante, cheia de cerimônia. Aquela pessoa que sabia exatamente qual talher era o certo para peixe, a taça exata para tal tipo de vinho, a faca correta para aquele tipo de carne. Era uma pompa só. E uma pessoa cheia de pompa era chamada de pomposa.

Hoje, um lugar POMPOSO é chamado de LUXUOSO. popeline Tecido de algodão feito de fios finos. Se você der uma espiadela nos verbetes anteriores vai perceber que as pessoas costumavam chamar os tecidos pelos nomes. E o popeline era um deles. Ouvia-se sempre uma dona de casa, uma costureira, fazendo propaganda do tal popeline, um tecido fino, feito de algodão. “Isso é popeline puro”, diziam as mais entendidas.

Hoje, ninguém mais diz POPELINE. Diz simplesmente PANO. porão Local situado abaixo do nível da casa. Toda casa tinha um porão. Era no porão que as pessoas juntavam tudo quanto é tralha. Mas tralha mesmo. Aquela batedeira que quebrou, aquele sofá que de tanto uso furou, um ventilador que não ventila mais, pilhas de revistas Eu Sei Tudo, jornais anunciando na manchete o suicídio de Getúlio Vargas, além de um conjunto de malas Ika. No porão, tudo ficava empilhado, acumulando pó e teias de aranha. O porão tinha um cheiro permanente de mofo no ar, uma luz fraca, um frio ou um calor.

Hoje, o PORÃO foi substituído pelo SUBSOLO. possante Carro potente. As pessoas chamadas de metidas costumavam andar com a chave do carro na mão rodando o chaveiro para deixar bem claro que tinham um possante. Possante era aquele carro barulhento, envenenado, tala larga, vidro bolha. Os donos dos tais possantes eram pessoas orgulhosas do automóvel que possuíam.

Hoje, um POSSANTE é um carro TURBINADO. posses Reunião de bens. Quando uma tia chegava e dizia que o pretendente da sobrinha tinha posses era sinal de que estava aprovado o namoro. Ter posses era ter bens que podiam ser um apartamento, um carro, um lote. As pessoas que sonhavam com a casa própria costumavam comprar lotes. Os pais, na hora de aprovar o

noivado da filha, sempre perguntavam na lata para o pobre do noivo: “O senhor tem posses?”.

Hoje, uma pessoa que tem POSSES é uma pessoa BEM DE VIDA. portuga Natural de Portugal. Todo portuga era uma figura. Costumava andar de tamanco, calça pega-frango, camiseta sem mangas, lápis atrás da orelha, palito no canto da boca. Portuga era o dono da padaria. Era raro o bairro que não tinha a padaria do portuga. Geralmente bagunçada, pilhas de engradados de cerveja na porta, tudo meio fora do lugar, mas o pãozinho francês era ótimo. Era muito comum um velho cliente chegar, pedir pão e leite e, ao sair, dizer: “Portuga, coloca na caderneta”.

Hoje, PORTUGA voltou a ser um bom e velho PORTUGUÊS. povaréu Reunião de muita gente. Quando alguém dizia que “foi um povaréu danado” significava que muita gente da classe mais baixa havia ido a tal lugar. Não se chamava gente grã-fina de povaréu. Povaréu era aquele que ia a jogos do Corinthians e não perdia uma liquidação das Casas Pernambucanas.

Hoje, POVARÉU é conhecido como NOVA CLASSE C. prata da casa Recursos materiais ou humanos próprios do lugar. Ser taxado de prata da casa significava que a pessoa estava ali trabalhando havia um bom tempo. Uma espécie de móvel e utensílio, mas com certo valor. Quando alguém precisava contratar um funcionário e se lembrava da tal prata da casa acabava economizando. A prata da casa sempre custava menos para a empresa.

Hoje, PRATA DA CASA virou GENTE NOSSA. prático Dentista sem diploma. Um dentista sem diploma corre o risco de ir para a cadeia. Em outras épocas, um dentista sem diploma

era um prático. E o prático exercia a profissão de prático, colocando dentaduras, obturando e arrancando dentes. Os pacientes, principalmente de cidades do interior onde o número de dentistas era reduzido, confiavam piamente nos práticos.

Hoje, onde andam os PRÁTICOS? pregado Muito cansado. “Estou pregado!” Era assim que os caminhoneiros chegavam em casa depois de passar dias e dias na estrada comendo pó, desviando de buracos, engolindo pratos feitos. Chegar pregado era chegar esbodegado, entregando os pontos. Chegavam em casa, tomavam um banho, enfiavam um pijama, tomavam uma sopa quente e cama. No dia seguinte, aí sim, a vida recomeçava.

Hoje, em vez de dizer estou PREGADO diz-se estou MORTO. prelo Em impressão. A palavra prelo, pensando bem, não é uma palavra morta. Mas falava-se mais sobre ela. Quando o livro estava no prelo significava que estava prontinho para ser impresso, estava diagramado, revisado, ilustrado, capa pronta, era só rodar. Hoje, os suplementos literários usam muito a palavra prelo em suas colunas que anunciam os próximos lançamentos.

Hoje, PRELO continua sendo PRELO. prendada Mulher dotada de aptidões domésticas. Uma mulher prendada era uma mulher de verdade. Sabia cozinhar muito bem, costurar, arrumar a casa, cuidar dos filhos. Prendada mesmo era a mulher que bordava, tocava piano, tirava nota dez em canto orfeônico. Toda sogra olhava com maus olhos aquela namorada do filho que não era prendada. Para ser mulher de verdade precisava saber cuidar do lar. Foram as feministas que colocaram para escanteio a mulher prendada.

Hoje, a mulher PRENDADA é uma AMÉLIA. prendas domésticas

Profissão: dona de casa. Na hora de preencher um formulário, uma pesquisa, uma ficha de check-in no hotel era comum mulheres que não tinham formação, que cuidavam da casa, escreverem “prendas domésticas” quando a pergunta era profissão. Prendas domésticas era a profissão de dona de casa. Cuidar da casa e, principalmente, do marido.

Hoje, está ficando cada vez mais difícil encontrar uma mulher cuja profissão seja PRENDAS DOMÉSTICAS. presepada Coisa malfeita. Aprontar uma presepada era aprontar uma confusão, uma reunião de mentiras e trapalhadas. Se a palavra vem de presépio não faz o menor sentido chamar de presepada essa confusão. Nada mais organizado que um presépio. As pessoas que costumavam aprontar uma presepada ficavam conhecidas. Todos desconfiavam delas e sabiam que a qualquer momento estavam prontas para aprontar mais uma grande presepada.

Hoje, PRESEPADA virou uma grande MANCADA. preto Negro. Dona Canô, lá em Santo Amaro da Purificação, na Bahia, costumava chamar o filho Caetano, quando Gilberto Gil começou a aparecer na televisão, assim: “Caetano, vem ver aquele preto que você gosta de ver tocando violão...”. O preto em questão era Gilberto Gil. Naquela época, não havia receio de chamar uma pessoa de preta. “Está vendo aquele preto ali?”, “Pergunte para aquele preto”, “A minha empregada é preta”. Quem não se lembra da música de Galvão e Moraes Moreira cantada pelos Novos Baianos? “Preta, preta, pretinha...”

Hoje, um PRETO é um AFRODESCENDENTE. procedimento Comportamento. O professor chegava à sala de aula e começava a ler o boletim: “Abel, língua pátria: nove; matemática: sete; história: oito; geografia: sete e meio; procedimento: dez. Procedimento não era uma matéria curricular, mas uma maneira de ser. Para tirar dez em procedimento, o aluno precisava não conversar

durante a aula, não brigar com os colegas na hora do recreio, ser educado com a professora, cuidar bem de seu material escolar. Procedimento agora é outra coisa. Significa cirurgia.

Hoje, PROCEDIMENTO é a mesma coisa que COMPORTAMENTO. prosear Conversar. Quando caía a tarde nas cidades pequenas, as pessoas costumavam colocar as cadeiras nas varandas para prosear. Prosear era conversar. Falar de tudo um pouco. Naquelas cidades pequenas, poucas coisas aconteciam, mas as pessoas tinham assunto para prosear até tarde. Tarde era modo de dizer, porque quando dava oito, oito e meia da noite, elas se recolhiam para dormir com as galinhas.

Hoje, PROSEAR é a mesma coisa que BATER PAPO. psicodélico Riponga. Psicodélico é um efeito sobre a experiência consciente. Surgiu nos anos 1960 junto com os hippies, quando o uso de drogas alucinógenas se espalhou pelo mundo. De repente, tudo ligado ao hippismo virou psicodélico. Roupas coloridas, música viajandona – tudo era psicodélico. Até mesmo a revista Contigo dava a seus leitores no final do ano um calendário psicodélico. Nada mais, nada menos que um calendário todo colorido, tipo flower power.

Hoje, PSICODÉLICO virou simplesmente COLORIDO. pucheta Ato de jogar a bola para trás. Lá no final dos anos 1950, início dos anos 1960, não tinha um locutor de futebol que não usava a expressão pucheta. “Didi passou para Pelé de pucheta...” Passar a bola de pucheta era olhar pra frente e chutar a bola pra trás. Aos poucos a expressão foi sumindo, sumindo, sumindo até sumir.

Hoje em vez de dizer que fez um gol de PUCHETA o locutor diz que foi de BICICLETA. puída

Rasgada, gasta. A calça de todo menino levado era puída nos joelhos. E toda blusa era puída nos cotovelos. Roupa era feita para durar e durava até puir. Aliás, até depois de puir. As mães costumavam costurar outro pedaço de pano ou um couro em cima do puído. Meias costumavam puir no calcanhar.

Hoje, uma roupa PUÍDA é uma roupa RASGADA. pula brejo Calça curta. A calça pula brejo já apareceu aqui neste Pequeno dicionário no verbete “pega-frango”. Uma calça pula brejo é exatamente a mesma coisa que calça pega-frango. Aquela calça que parece que encolheu, mas foi o dono quem cresceu.

Hoje, a PULA BREJO é conhecida como PULA BREJO mesmo. pulha Pessoa sem caráter, sem dignidade. O pulha era aquele cara também chamado de patife, sem brio. Era um pouco de tudo, tudo de ruim. Mentiroso, caloteiro, sem caráter mesmo. O pulha era conhecido na praça. “Cuidado com aquele pulha”, diziam os mais desconfiados. Era uma pessoa que não dava para confiar, pessoa que a gente estava sempre com um pé atrás.

Hoje, um PULHA é um CANALHA. pulôver Roupa de lã. Quando o vento começava a soprar, quando o frio batia à porta, a chuva fina mostrava a sua cara, era tempo de usar pulôver. “É melhor levar um pulôver porque vai esfriar.” Era assim que as mães aconselhavam seus filhos quando iam saindo de casa. Toda pessoa que passava o final de semana em Campos do Jordão voltava de lá com um pulôver na mala. Os pulôveres de Campos do Jordão sempre foram mais baratos que os pulôveres das capitais.

Hoje, PULÔVER é conhecido como MALHA. purgante

Criança que acorda meio azeda. Purgante é uma substância que limpa ou esvazia os intestinos. Isso no sentido literal. Mas a palavra purgante tem outro significado. Quando uma criança acordava chorona, com um humor péssimo, reclamando de tudo, sem um pingo de vontade de tomar o café da manhã, sem vontade de fazer a lição de casa, era chamada de purgante. As mães eram diretas com esses filhos que acordavam azedos: “Você está um purgante”.

Hoje, PURGANTE virou UM PORRE. putzgrila Expressão de espanto ou susto. Ninguém neste mundo que foi hippie nos anos 1960 e 1970 deixou de falar, um dia, o tal do putzgrila. Era putzgrila pra cá, putzgrila pra lá. Todo espanto vinha logo seguido de um putzgrila. “Bicho, o Marcos foi preso em Piccadily Circus...” “É mesmo? Putzgrila.” A palavra também foi incorporada, e muito bem aceita, pela turma d’O Pasquim, jornal que quebrou as regras do jornalismo burocrático no final dos anos 1960.

Hoje, PUTZGRILA foi simplificado para PUTZ. puxar o carro Ir embora. Quando o assunto ia ficando chato, a festa começava a ficar meio desanimada, as pessoas não diziam que iam embora, diziam: “Vou puxar o carro”. Mesmo quem não tinha carro costumava puxar o carro. Era um jeito simpático de dizer que estava na hora de ir embora, de partir. Puxar o carro era mais ou menos a mesma coisa que tirar o time de campo.

Hoje, em vez de dizer PUXAR O CARRO costuma-se dizer FUI. puxar uma palha Tirar um cochilo. Enquanto os espanhóis costumavam fazer a siesta, alguns brasileiros costumavam tirar um cochilo, ou melhor, puxar uma palha. Será que tem uma explicação, o porquê da expressão puxar uma palha? Alguns diziam puxar uma palhinha, que era um minicochilo, coisinha rápida, aquela cochiladinha básica.

Hoje, PUXAR UMA PALHA significa a mesma coisa que DAR UMA

COCHILADA.

quadro-negro Superfície para escrever textos e desenhar numa sala de aula. A meninada se arrepiava quando a professora chegava à sala de aula e dava a ordem: “Sizenando, vá ao quadro-negro!” Não me esqueço nunca quando no primeiro ano primário fui ao quadro-negro e escrevi calcular com U. Foi um vexame. Até os anos 1960 o quadro onde professoras e alunos escreviam com giz era mesmo negro. Depois é que ficou verde. Mas as equações e o tal do “the book is on the table” no primeiro dia de aula de inglês continuam sendo escritos no quadro-negro, que não chama mais quadronegro.

Hoje, QUADRO-NEGRO virou LOUSA. quinquilharia Amontoado de coisas velhas e muitas vezes inúteis. Na verdade, quinquilharia não era exatamente só coisa velha. Havia lojas especializadas em quinquilharias. Abridor de lata, colher de pau, desentupidor de pia, enfim, quinquilharias. Mas quinquilharia mesmo era aquilo que as tias costumavam guardar. E guardavam só por guardar. Quem nunca já não disse: “Na casa da minha tia tem um cômodo cheio de quinquilharias...?”

Hoje QUINQUILHARIA virou TRALHA. quiproquó

Confusão. Basta um cara de meia-idade entrar na fila reservada aos idosos em um banco para se formar um quiproquó. Os velhinhos ranzinzas que vão chegando logo começam a se queixar dizendo que tem gente malandra neste país, tem gente que se faz de bobo, que é esperta e “o mundo é dos espertos”. Reclamam, ainda, que os caixas não dizem nada, que deveriam pedir a identidade para checar a idade, essas coisas. Quando o homem de meia-idade chega à boca do caixa, os velhinhos não resistem e aprontam o maior quiproquó. Aquela confusão típica de quem não está nada satisfeito. Quiproquó acabou virando música de Lourenço e Ronaldo Barcellos na voz do grupo Raça: “O nosso amor é um angu de caroço/Sopapo, tapa e tabefe/Chamego, dengo e xodó/Toda hora um quiproquó, um alvoroço/Mesmo assim nunca tive amor melhor”.

Hoje, um QUIPROQUÓ é chamado de BAITA CONFUSÃO. quitute Petisco. Todo bom vizinho vivia trocando quitutes. Era um tal de pratinho pra lá, pratinho pra cá. Toda boa dona de casa se amarrava em fazer quitutes, comidinhas gostosas, caseiras. Tudo o que era gostoso, e em pequenas porções, era conhecido por quitute. E as mulheres prendadas, cozinheiras de mão-cheia, eram chamadas de quituteiras.O compositor pernambucano Lenine se lembrou da palavra na canção “Meu amanhã”, que diz assim: “Ela é minha orgia/Meu quitute/Insaciável apetite/Numa ceia de Natal”.

Hoje, QUITUTE virou COMIDINHA.

rabo de peixe Automóvel americano. O Plymouth Belvedere, símbolo do vigor da economia americana, era o retrato fiel de um carro rabo de peixe, aqueles carros enormes que ocupam a vaga de três. Todo rabo de peixe costumava beber gasolina. Foi nos anos dourados que eles começaram a circular pelas ruas como sinônimo de riqueza e prosperidade.

Hoje, um RABO DE PEIXE costuma ser chamado de CARRÃO. radiante Eufórica. Quando uma pessoa dizia que estava radiante era porque estava feliz pra caramba. Um jovem que lia seu nome na lista dos aprovados no vestibular, por exemplo, era um jovem radiante. Radiante também ficava quem ganhava na Loteria Esportiva, comprava um carro novo, ou ganhava um filho. Agora, mulher radiante era aquela que brilhava até mesmo no escuro.

Hoje, uma pessoa RADIANTE é uma pessoa ESFUZIANTE. radiola Aparelho sonoro.

Radiola era aquele aparelho de som em que se ouviam discos de vinil de Carlos Gardel, Nelson Gonçalves, Francisco Alves, Dilermando Reis e tantos outros. Claro que não eram só discos desses bambas, mas que eles são a cara de uma radiola, isso são. Radiola era um móvel de madeira de lei, pesadão, agora antigão. Era comum ouvir frases do tipo: “Põe um lp de Sinatra na radiola” ou “o som está baixo, aumenta aí a radiola”. Era também chamada de eletrola. Radiola é uma marca. Como Gillete, Maizena e Bombril.

Hoje, ninguém mais fala RADIOLA. Fala SOM. ralé Gente pobre. Pertencer à ralé não era fácil. Significava que você não somente nasceu pobre, mas continuava pobre e condenado a ser pobre até o final dos seus dias. Uma pessoa da ralé, coitada, era vista como sem futuro. “Não quero convidar ninguém da ralé para o meu casamento”, diziam as noivas da aristocracia. Aristocracia era o modo de dizer, porque eram noivas metidas a besta.

Hoje, RALÉ é POBREZA. ralhar Chamar a atenção. Mãe ralhava com filho, professor ralhava com aluno, chefe ralhava com subordinado, médico ralhava com paciente que não parava de fumar. Ralhar era chamar a atenção, ficar bravo. Os motivos eram os mais variados possíveis. O filho que não queria comer, o aluno que não fazia a lição, o subordinado que chegava atrasado ao trabalho e o paciente, conforme já disse, que não queria parar de fumar. Muitos ralhavam mais seriamente, com o dedo em riste.

Hoje, RALHAR é DAR UMA BRONCA. rapariga Prostituta. Vamos explicar bem direitinho. Lá em Portugal uma rapariga é uma moça nova, mocinha, uma adolescente do sexo feminino. Mas, voltando ao Brasil, nos estados do Norte e do Nordeste, rapariga é uma meretriz, uma prostituta mesmo. No Brasil inteiro essa palavra nunca foi bem-vista. Quando alguém falava rapariga, logo se imaginava uma moça de comportamento duvidoso, de deixar qualquer um de orelha em pé.

Hoje, no Brasil uma RAPARIGA virou uma VAGABA. rapé Fumo raspado. Rapé vem do francês raper, que significa raspar. Tratava-se de um pó de tabaco para inalar. Era um hit lá no início do século xx. Era chique e, ao mesmo tempo, um vício. O rapé era vendido em caixinhas de madeira, de prata, de papel machê. Os mais ricos, claro, guardavam o rapé em caixinhas de prata. Você pode encontrar menção ao rapé nas obras de Machado de Assis (O bote de rapé) e Eça de Queiroz (Os Maias).

Hoje, ninguém mais cheira RAPÉ. raquítico Pessoa pouco desenvolvida. As mães morriam de medo de seus filhos ficarem raquíticos. Quando faziam sete anos, e não começavam logo a dar aquela esticada, os raquíticos costumavam tomar doses cavalares de Emulsão Scotch, óleo de fígado de bacalhau, Biotônico Fontoura e por aí vai. As mães costumavam comparar o tamanho de seus filhos com os do vizinho, dos primos, dos colegas de trabalho. “Esse menino está raquítico.” Quando se ouvia isso em casa, era pânico geral. Havia um temor no ar de ver um filho tornar-se baixinho e ganhar esse apelido.

Hoje, um menino RAQUÍTICO é um menino BAIXINHO. raspa do tacho Caçula. As famílias eram numerosas. As mulheres tinham normalmente quatro, cinco filhos. Era comum ouvir um pai, ou uma mãe, dizer: “Esse é o meu mais velho, esse é o segundo, esse é o do meio, esse é o quarto e essa aqui é a raspa do tacho”. A raspa do tacho era a última de uma série de filhos, muitas vezes protegida justamente por ser a menorzinha da fila, a caçulinha, a raspa do tacho.

Hoje, se costuma dizer que a RASPA DO TACHO é a FILHA MAIS NOVA. rata

Dar um fora. A palavra rata sumiu do vocabulário do brasileiro. Só a palavra, porque dar um fora todo mundo continua dando. Quer um exemplo de rata? “Pra mim, só quem pesa mais de oitenta quilos é obeso. Você pesa quanto?” “Noventa.” Quando acontecia um fato desses, a pessoa logo comentava com a outra: “Nossa! Dei uma rata...”.

Hoje, RATA virou GAFE. reclame Comercial. “Já viu os reclames das Casas da Banha?” A dona de casa ficava empolgada com essas propagandas que anunciavam produtos mais baratos. E olha que nem se assustava com uma loja que tinha o nome de Casas da Banha. Havia reclames para todos os lados. Os mais engraçados estavam dentro dos bondes: “Papafina só com extrato de tomate Elefante”, “Lavolho: conserva seus olhos sadios”, “Cortejada e desejada! Leite de Arroz!”. O mais famoso dizia assim: “Veja, ilustre passageiro/O belo tipo faceiro/Que o senhor tem ao seu lado.../E, no entanto, acredite/Quase morreu de bronquite/Salvou-o o Rhum Creosotado”.

Hoje, um RECLAME virou uma PROPAGANDA. reco-reco Instrumento de percussão que produz um som provocado por atrito. O reco-reco, conhecido por caracaxá ou querequexé, não sumiu do mapa, mas sumiu da boca das crianças. Criança nenhuma do mundo moderno, da era do iPhone, diz para o pai que quer ganhar um recoreco de aniversário. E já pediram um dia. O pai comprava e ficava com aquele som infernal do reco-reco dentro de casa por dias a fio. Ainda bem que o reco-reco anda meio sumido.

Hoje, um RECO-RECO é mais conhecido como GANZÁ. refresco Suco de frutas. Era na lanchonete das Lojas Americanas na cidade, quer dizer, no centro da cidade, que se tomava um refresco. Havia refresco de tudo quanto é fruta: uva, maracujá, tamarindo... Um dia lançaram o tal do QSuco, aquele refresco em pó que fica pronto em um segundo e tem aquele famoso sabor artificial. Para concorrer com o Q-Suco foi lançado o Q-Refresco, mas que nunca chegou aos pés da fama do Q-Suco.

Talvez, nessa época, a palavra refresco tenha morrido. Havia um ditado muito famoso que dizia: “Pimenta no cu dos outros é refresco”. Aí era refresco mesmo, nunca foi suco.

Hoje, em vez de dizer REFRESCO, as pessoas dizem SUCO. repartição Local onde trabalham funcionários públicos. Repartição tinha cara e cheiro. No início, era cheia de móveis pesados de madeira escura, e mais tarde, mais moderninha, a repartição ganhou móveis de aço Fiel. Toda repartição tinha um chefe, e todo chefe tinha uma cadeira Giroflex. Não havia repartição que não tivesse máquina de escrever, de calcular, mataborrão, tinteiro, peso para papel, mimeógrafo, livro de ponto, relógio de parede, mapa do Brasil pendurado na parede. E também uma secretária gostosa que se chamava Marlene, Yolanda ou Jacira.

Hoje, REPARTIÇÃO virou TRABALHO. repeteco Ato de repetir. Tudo o que se repetia era um repeteco. Até mesmo os locutores de televisão costumavam dizer: “O gol de Pelé foi um gol maravilhoso, um gol de placa. Vale um repeteco”. E aquela feijoada completa? Valia um repeteco. E aquele frango ao molho pardo do restaurante Maria das Tranças? Também merecia um belo repeteco.

Hoje, REPETECO virou REPLAY. resguardo Período pós-parto. O resguardo era sagrado. Não se fazia sexo e só se tomava canja de galinha. Assim que a mulher dava à luz (não era muito educado dizer parir), entrava e respeitava o período de resguardo. Ficava meio abatida, de camisola, e só andava devagar e segurando a barriga, agora vazia, como se ela fosse cair. Algumas mulheres nem lavavam o cabelo durante esse período com medo de ter um treco. Em algumas regiões, o resguardo durava vinte dias, mas em outras até quarenta. Antes disso, nem pensar em fazer sexo ou bater um prato de feijoada.

Hoje, o RESGUARDO MATERNIDADE.

foi

oficializado

como

LICENÇA-

resma Quinhentas folhas de papel. Era para a repartição que a secretária encomendava no almoxarifado uma resma de papel. Como não havia computador, usava-se muito papel, e uma resma era aquele pacote com quinhentas folhas. Se você chegar agora a uma papelaria e pedir uma resma de papel A4, algum vendedor vai saber o que é? Certamente não. Ele vai no fundo da loja buscar o velhinho, o dono. E esse vai pegar a resma de papel e perguntar: “O que mais a senhora precisa além da resma de papel?”.

Hoje, RESMA virou simplesmente PAPEL. respondão Mal-educado. Pai que era pai não admitia filho respondão. Respondão era aquele que, quando o pai perguntava “você já estudou para a prova?”, respondia “não te interessa”. O respondão levava um sopapo para aprender a não ser mais respondão. Em outros tempos só havia um remédio para o respondão: tabefe.

Hoje, o RESPONDÃO virou um SEM EDUCAÇÃO. ripa Descer o pau. Seja num adversário dentro do campo ou num colega de trabalho junto ao chefe. Descia-se a ripa. O nome ficou muito famoso quando o locutor esportivo Osmar Santos resolveu acrescentar algumas palavras: “Ripa na chulipa e pimba na gorduchinha”. Quando um craque como Zico sentava a ripa e pimba na gorduchinha era gol na certa.

Hoje, SENTAR A RIPA é DAR UM CHUTAÇO. riscado Assunto. Quando alguém entendia do riscado era considerado um cara bom no assunto. No quesito Fórmula 1, Emerson Fittipaldi entendia do riscado. No quesito bola, Pelé entendia do riscado. No quesito poesia, Carlos Drummond de Andrade, esse sim, entendia do riscado. Agora, no quesito arquitetura era Oscar Niemeyer quem entendia – literalmente – do riscado.

Hoje, entender do RISCADO é entender do BABADO.

robe de chambre Roupa usada após o banho. Era chique, muito chique, um homem sair do banho vestido com um robe de chambre. Saía perfumado, bem penteado, glostorado. O robe de chambre era feito de tecido atoalhado, mais encorpado, com bolsos e um cinto feito do mesmo tecido. Chique era um robe de chambre vinho ou listrado de azul e branco. Deixava qualquer mulher enlouquecida.

Hoje, são poucos os que usam ROBE DE CHAMBRE. Quando usam, o robe é chamado de ROUPÃO. roça Fazenda. Dava dó quando uma pessoa era taxada como da roça. Era uma pessoa simples, vestida de um jeito singelo, ingênua, capiau mesmo. Uma espécie de Chico Bento. A pessoa da roça se assustava com a cidade grande, o movimento dos automóveis, a altura dos prédios, as primeiras escadas rolantes. Roça era aquele lugar lá no interior, longe de tudo e principalmente da modernidade da capital. Era muito comum as mães advertirem seus filhos: “Se você não estudar, vai acabar trabalhando na roça”.

Hoje, uma pessoa da ROÇA é uma pessoa do INTERIOR. rodado Usado. No sentido exato, rodado era aquele carro que ultrapassava os cem mil quilômetros no velocímetro. O outro rodado era aquele cara namorador, que passou por todas as meninas da turma e muito mais. Quem era rodado tinha fama. “Não namora o Nilo porque ele já é muito rodado.” Isso significava que o Nilo passou pela Letícia, pela Carmen, pela Conceição, pela Ângela Maria e muitas outras.

Hoje, um cara RODADO é um cara VIVIDO. roer a corda Não cumprir o combinado. Você combinava direitinho uma coisa com alguém e quando chegava a hora H ela roía a corda. Roer a corda significava não querer mais fazer o combinado. Roer a corda era não cumprir uma promessa. “Ele ia me alugar aquele apartamento na praia, mas, quando chegou o verão, ele acabou roendo a corda.”

Muitas pessoas roíam a corda na hora de emprestar um dinheiro. Colocavam a cabeça no travesseiro, pensavam bem e desistiam do negócio – roíam a corda.

Hoje, ROER A CORDA significa DAR O CANO. rojão Situação. “Você segura o rojão?” O rojão poderia ser um trabalho pesado, dez horas numa estrada de terra, um saco de batatas nas costas, um ano sem férias. Quem suportava tais situações era porque estava segurando o maior rojão. O outro rojão era o foguete, aquele que soltávamos na festa de São-João, na Copa do Mundo de Futebol, ou simplesmente para comemorar um gol do Atlético Mineiro, do Flamengo, do Corinthians.

Hoje, segurar o ROJÃO é a mesma coisa que segurar a BARRA. rompante Arrogante. Uma pessoa rompante era uma pessoa arrogante, daquelas que olhavam para você com o nariz empinado, meio de lado, um olhar blasé. Chamar uma pessoa de rompante poderia seguramente ser o início de uma briga. “Você não vai ser nada na vida, seu rompante!” E o rompante não estava nem aí. Não dava a menor pelota e continuava rompante.

Hoje, uma pessoa ROMPANTE é uma pessoa METIDA A BESTA. rouge Pó para deixar as mulheres mais coradinhas. Muito simples. Rouge em francês significa vermelho. Mulheres branquinhas demais usavam rouge. Bastava passar um pouquinho de rouge nas bochechas que elas ficavam mais coradinhas. Toda mulher carregava na bolsa um espelhinho e um estojo de rouge. Diante de um galã, nenhuma mulher queria passar em branco.

Hoje, o ROUGE virou BLUSH. rush Hora de muita afluência.

A hora do rush começava por volta das dezoito horas, quando as pessoas saíam do trabalho. Sim, ninguém costumava ficar até muito tarde no escritório, na loja, na repartição. Não mediam quantos quilômetros havia de engarrafamento em cidade alguma e a hora do rush era aquela em que alguns automóveis começavam a se aglomerar e os motoristas a buzinar, principalmente nas ruas do centro da cidade. “Você vai ao cinema? Evite a hora do rush”, diziam as pessoas.

Hoje, hora do RUSH é hora de PICO.

sabugo Parte interna da espiga do milho. O milho verde estava presente na vida de qualquer criança. Cozido ou assado, era devorado até mesmo por aqueles que aos sete anos nem dentes tinham na frente. Era só cozinhar, colocar um pouquinho de sal e manteiga e pronto. Os grãos iam desaparecendo e ficava somente o sabugo, que era chupado até acabar toda aquela água salgadinha que ficava dentro dele. Em algumas partes do Brasil sabugo tem um sentido bem pejorativo. Mas deixa pra lá.

Hoje, o SABUGO continua sendo SABUGO, mas quase nenhuma criança sabe o que é. sacou Entendeu. Lá vêm os hippies de novo em mais um verbete deste dicionário. Não é pra menos. Como eles inventavam coisas. Eram eles que adoravam perguntar: “Sacou?”. Isso queria dizer nada mais, nada menos que “entendeu?”. Quando as pessoas tinham uma boa ideia, tinham uma bela sacada.

Hoje, em vez de perguntar SACOU?, as pessoas perguntam OK? sacumé?

Abreviatura de sabe como é. Foi na era d’O Pasquim que alguém inventou de abreviar sabe como é para sacumé. Era um tal de sacumé pra cá, sacumé pra lá. “Vou pegar a estrada e passar uma temporada em Arembepe, sacumé amizade?”, diziam os ripongas com uma mochila nas costas. Era um jeito de ser, de agir, de sonhar, sacumé?

Hoje, o SACUMÉ virou o tal do ENTENDEU? saint-tropez Calça com a cintura baixa. A calça é um espelho da moda através dos tempos. Já existiu calça de todo tipo. Curta, comprida, larga, justa, cintura alta, cintura baixa. Nos anos 1970, virou uma febre a tal calça Saint-Tropez, cujo nome, claro, foi inspirado na região francesa da Cote D’Azur. A calça Saint-Tropez permitiu que os homens pudessem observar como era o umbigo de cada mulher. Uns miudinhos, charmosos, outros horrorosos, provocados por um parto malfeito. A calça Saint-Tropez foi o começo da liberação das mulheres.

Hoje, a calça SAINT-TROPEZ é chamada de CINTURA BAIXA. salafrário Patife. Quando alguém dizia em alto e bom tom “você é um salafrário” é porque o clima estava esquentando. Salafrário era aquele cara patife, sem vergonha, que vivia dando o cano nas pessoas. Uma pessoa sem brio. Era muito comum ouvir dizer que alguém era um verdadeiro salafrário. E o salafrário não estava nem aí. Sabe por quê? Porque essa pessoa era mesmo um salafrário.

Hoje, um SALAFRÁRIO virou um PICARETA. salão Parte interna do nariz. Não se sabe muito bem por que, mas criança de antigamente tinha uma tara por enfiar a mão no nariz. Viviam com a mão lá dentro, e nessa hora os pais perguntavam: “Vai ter festa?”. Bastava o menino perguntar o porquê, para os pais completarem: “Você está limpando o salão”. Limpar o salão era tirar toda a sujeira de dentro do nariz.

Hoje, ninguém mais diz que uma criança está limpando o SALÃO.

são brás Grito de socorro para quem estava engasgado. Era impressionante como as crianças se engasgavam. Por quê? Simplesmente porque comiam de tudo. Fruta com casca, bagaço de laranja, osso de frango, o que viesse pela frente. Era no momento do engasgo que a mãe recorria ao santo, batendo nas costas dos filhos: “São Brás”. E aquilo que estava engasgado voava longe imediatamente. São Brás foi um mártir cristão que, um dia, caminhando pelas ruas, viu que vinha em sua direção uma mulher apavorada cujo filho tinha uma espinha de peixe atravessada na garganta. E foi São Brás que, milagrosamente, salvou aquela criança.

Hoje, ninguém mais pede socorro a SÃO BRÁS, mas o tapinha nas costas as mães continuam dando quando os filhos engasgam. sapeando Observando. A palavra sapear existia para definir aquele que chegava por trás de alguém que estava escrevendo alguma coisa e ficava de rabicho de olho lendo. “O que é que você está sapeando aqui?”, reagiam os sapeados. Meninos sapeavam meninas no vestiário, chefe sapeava as pernas da secretária gostosa, mulheres consumidoras sapeavam vitrines, telespectadores sapeavam tudo o que passava em todos os canais.

Hoje, quem está SAPEANDO está DANDO UMA ESPIADINHA. sapeca Agitada, festeira, meio galinha. Criancinha sapeca era aquela brincalhona, agitada, que não parava quieta. Quando crescia, e era chamada de sapeca, a mocinha ia além. Usava minissaia, era toda atirada, meio safadinha. As meninas sapecas eram adoradas por todos os meninos. Elas não tinham certos tipos de vergonha e estavam meio se lixando para o que todos pensavam delas.

Hoje, uma garota SAPECA é uma menina DANADA. sarará Branco de cabelo crespo. Ninguém melhor que o cantor e compositor baiano Gilberto Gil para definir sarará como na canção

“Sarará miolo”. A letra diz assim: “Sara, sara, sara cura/Dessa doença de branco/Sara, sara, sara cura/Dessa doença de branco/De querer cabelo liso/Já tendo cabelo louro/Cabelo duro é preciso/Que é para ser você, crioulo”. Enfim, sarará era aquela figura que tinha pele branca e cabelo de negro, mas, às vezes, de tão loiro chegava a ser avermelhado.

Hoje, SARARÁ é SARARÁ, mas ninguém chama ninguém de SARARÁ. sarongue Peça única em forma de saia. O sarongue continua por aí, vivinho da silva. O que morreu foi a palavra sarongue. O sarongue era usado por mulheres na praia ou por homens em dias de Carnaval. Todo sarongue era florido e de tecido bem leve. Quando alguém dizia que ia pra praia, sempre havia quem perguntasse: “Está levando o sarongue?”.

Hoje, o SARONGUE virou SAÍDA DE PRAIA ou simplesmente SAÍDA. sarro Curtir com a cara de alguém. Tirar um sarro da cara de alguém era uma coisa. Sarrar era outra. Tirar um sarro era gozar, encher o saco, tripudiar com alguém. Não chegava a ser bullying, mas estava com um pé lá de tão chato que era às vezes. Sarrar era o que as pessoas faziam no escurinho do cinema. Sabe aquela mão-boba? Pois é.

Hoje, tirar um SARRO é o mesmo que GOZAR COM A CARA DO OUTRO. sassaricar Sair por aí. Talvez o sentido exato de sassaricar seja pular de galho em galho. Mas o tal sassaricando ficou popular na metade do século passado quando uma marchinha de Luiz Antônio, Zé Márcio e Oldemar Magalhães estourou nas paradas de sucesso: “Sassassaricando/Todo mundo leva a vida no arame/Sassassaricando/A viúva o brotinho e a madame/O velho na porta da Colombo/É um assombro/Sassaricando”.

Hoje, SASSARICAR é o mesmo que DAR UM ROLÊ.

secos e molhados Armazém que vendia um pouco de tudo. Numa era em que não havia supermercado, havia armazém. E todo armazém tinha uma placa na porta: “Secos e molhados”. Isso significava que ali você encontrava um pouco de tudo, inclusive secos e molhados. Bebidas, enlatados e cereais em geral. Hoje, se você perguntar a qualquer pessoa o que é secos e molhados vão logo dizer: “Não é aquele conjunto musical dos anos 1970 cuja estrela se chamava Ney Matogrosso?”.

Hoje, um mercado que vende SECOS E MOLHADOS é um mercado que vende de TUDO. segunda época Não conseguir passar na primeira bateria de provas. Ficar de segunda época significava estragar as férias. Quem não conseguisse chegar ao final do ano com médias azuis era sinal de que havia ficado de segunda época. Vinha aquele bode. Os colegas de sala se preparando para viajar nas férias – rio, fazenda, praia – e quem ficava de segunda época só enxergava pela frente aqueles livros de física, de química e biologia empilhados.

Hoje, em vez de ficar de SEGUNDA ÉPOCA, o aluno fica de RECUPERAÇÃO. selecionado Time do Brasil. Quando o selecionado brasileiro adentrava o gramado para uma partida de futebol válida pela Copa do Mundo o país parava. O selecionado era aquele time que tinha Gilmar no gol e Garrincha, Didi, Pelé, Vavá e Zagalo no ataque. Com um selecionado assim, o Brasil só poderia mesmo sagrar-se campeão do mundo de futebol na Suécia e trazer o caneco para casa. Selecionado que era selecionado usava camisa de algodão que não trazia o nome do jogador nas costas nem propaganda alguma. Mas ganhava todos os jogos.

Hoje, o SELECIONADO brasileiro é a SELEÇÃO. sereia Mulher tipo violão.

Uma marchinha de Carnaval de Haroldo Lobo e Milton de Oliveira dizia: “Domingo é dia, de pescaria, oi/Lá vou eu, de caniço e samburá/Maré tá cheia/Fico na areia/Porque na areia dá mais peixe que no mar”. Sereia era mais que peixe, era aquele mulherão, cintura fina, de pilão, uma gostosona. Sereia era aquele objeto do desejo de todo homem na metade do século passado.

Hoje, uma SEREIA é uma mulher GOSTOSA. sianinha Fita ondulada usada principalmente em roupas juninas. A sianinha era jeca. E, por isso, vivia enfeitando roupas juninas. Ela costumava frequentar algumas peças íntimas. Ninguém da high society usava sianinha na roupa. Era uma fita ondulada à venda em qualquer armarinho. Armarinho era aquela loja que, além de sianinha, vendia agulha, linha, colchete, alfinete, ilhós e tudo que é tipo de miudeza.

Hoje, a pobre SIANINHA, coitada, anda esquecida, mas, quando chegam as festas juninas, continua sendo chamada de SIANINHA. sifu Se fodeu. Mais uma gíria/abreviatura criada pela patota do jornal O Pasquim lá pelos anos 1960. Sifu é nada mais, nada menos que a mesma coisa que se fodeu. Vale para qualquer situação. “Ele estava colando na prova de matemática, a professora pegou e ele sifu.” Ou, quem sabe, “ele foi se engraçar com a vizinha gostosa e sifu, porque ela era casada”.

Hoje, SIFU é o famoso SE FODEU. sinuca de bico Sem saída. Quando uma pessoa estava numa situação difícil, meio sem saída, ela costumava dizer que estava na maior sinuca. Quando o sem saída era sem saída mesmo, aí era completo: sinuca de bico. Diz a lenda que o nome vem daquela situação em que o jogador de sinuca tem a bola da vez protegida atrás de outras bolas, uma verdadeira sinuca de bico.

Hoje, estar numa SINUCA DE BICO é a mesma coisa que estar numa ENRASCADA.

sirigaita Mulher ousada, atrevida. Uma mulher sirigaita era um pouco de tudo. Ousada, atrevida, safada, aparecida, faladeira, engraçada e tudo mais. A sirigaita era uma mulher muito invejada por outras mulheres menos sirigaitas. Bastava uma mulher dar mole para o namorado de uma delas que logo vinha a flechada: “Quem é essa sirigaita que anda dando bola para você desse jeito?”.

Hoje, uma SIRIGAITA é uma mulher ATIRADA. sistemático Maníaco. O sistemático não era fácil. Era uma pessoa cheia de manias, também chamado de neurastênico. A fama do sistemático corria solta. Era uma pessoa meio caladona, bastante fechada. Muitas vezes, ele se livrava de pagar mico justamente por ser sistemático. “É melhor não mexer com o Saldanha porque ele é muito sistemático.” E ninguém mexia. O sistemático tinha hora de acordar, de almoçar, de fazer o lanche à tarde, de jantar, de tomar banho, de vestir o pijama, de dormir. Era mesmo muito sistemático.

Hoje, uma pessoa SISTEMÁTICA é uma pessoa que tem TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo). socado Apertado. O povo andava socado – pensando bem, ainda anda – nos trens da Central, nos ônibus nas horas de pico. Nos dias de greve, a classe mais ou menos média costumava dizer: “Vou de táxi porque não quero andar socado dentro desse trem”. Andar socado significava ir de um ponto ao outro sem conseguir colocar os pés no chão, sujeito a tudo, inclusive ver sua carteira ser surrupiada. Andar socado num ônibus era ler a plaquinha dizendo “lotação máxima 48 pessoas de pé” e você contar umas cem.

Hoje, SOCADO virou CHEIO. soldado Militar. O soldado sempre foi um soldado, mas houve uma época em que todo militar era simplesmente um soldado. Mães gostavam de repreender seus filhos com ameaças do tipo “se você não se comportar, vou

chamar o soldado pra te prender”. Imagine o delírio das mães. Será que alguma mãe, algum dia, chamou mesmo um soldado para prender o filho simplesmente porque ele subiu no muro?

Hoje, SOLDADO é chamado de PM. sonso Aquele que vive no mundo da lua. Sonso era aquele aluno que se sentava lá na última fileira, e, quando a professora o chamava e pedia para conjugar o verbo caminhar, levava um susto, porque estava no mundo da lua. Sonso era aquele que esquecia a chave dentro do carro, entrava no banho de óculos, ou percebia muito tempo depois que o ponto de ônibus perto de sua casa já havia passado quilômetros. Havia também aquele sonso que se fazia de morto, que devia um dinheiro e simplesmente se esquecia de pagar.

Hoje, um cara SONSO é um cara DESLIGADO. sorumbático Triste. Todos se preocupavam com o sorumbático. Corria à boca pequena a preocupação com esse tipo lá na repartição. “O que será que aconteceu com o Valdemar? Ele anda tão sorumbático...” Sorumbático era aquele que andava de cabeça baixa, não queria papo com ninguém; tinha o olhar triste, um olhar longe, de preocupação. Quando alguém perguntava “por que você anda assim tão sorumbático?”, ele respondia sempre: “Não é nada, não”.

Hoje, um SORUMBÁTICO é um DEPRÊ. sova Surra. Pais e mães, principalmente os pais, sabiam bem o que era uma sova. As mães viviam ameaçando seus filhos: “Se não limpar essa parede que você rabiscou, seu pai vai chegar e te dar uma sova”. Sova não era um tapinha, não. Sova era uma surra pra valer, palmada na bunda, ou de corrião, que deixava marcas. Numa época em que pais não iam pra cadeia por maus-tratos, a última moda era a sova.

Hoje, levar uma SOVA é levar um CACETE. sovina

Pessoa que não gosta de gastar dinheiro. Sovina era aquele que não abria a mão nem para cumprimentar. Tinha uma verdadeira alergia a gastar dinheiro, mesmo que fosse uma moedinha, um tostão. O sovina gostava de economizar, encher o cofrinho. O sovina era conhecido também como pão-duro ou munheca de samambaia. Para que um sovina saísse à francesa, bastava alguém dizer “vamos fazer uma vaquinha pra...”

Hoje, o SOVINA é um MÃO-FECHADA. speaker Par de alto-falantes estéreo. Quando o estéreo foi inventado, pobre do mono. Virou moda ser estéreo, e para acompanhar a moda inventaram o tal speaker. Era assim que as pessoas chamavam o par de alto-falantes estéreo. Nada mais chique que montar uma festa, levar a eletrola com dois speakers. Talvez tenha sido por essa época que os brasileiros começaram a falar inglês.

Hoje, SPEAKER é simplesmente ALTO-FALANTE. suaves prestações Venda parcelada. Não é de hoje que brasileiro gosta de comprar à prestação. Seja o que for. Um televisor ou um par de chinelos. Os reclames das lojas adoravam anunciar: “Compre agora o seu Frigidaire e pague em suaves prestações’’. Suaves prestações eram aquelas que não pesavam no bolso e se perdiam de vista. Quando acabava o carnê (sim, as suaves prestações eram pagas em carnês), o Frigidaire já estava bem derrubado, enferrujado e gelando pouco.

Hoje, o vendedor, em vez de perguntar se você quer pagar em SUAVES PRESTAÇÕES, pergunta em QUANTAS VEZES você quer pagar. subindo pelas paredes Pessoa irada, nervosa por algum motivo. Imagine uma pessoa subindo pelas paredes. Pois é, ela existia. Depois de uma discussão e tanto, só restava subir pelas paredes. Isso significava que a pessoa tinha perdido a cabeça, partido para a baixaria – se não para o sopapo mesmo. As mães – mais uma vez – costumavam advertir os filhos: “Se o seu pai souber que você ficou de segunda época em matemática, ele vai subir pelas paredes”.

Hoje, SUBIR PELAS PAREDES é ficar IRRITADÍSSIMO. subindo pelas tamancas Pessoa com raiva. Subir pelas tamancas era um jeito mais tranquilo de subir pelas paredes. A pessoa subia pelas tamancas quando alguém a irritava, mas não a ponto de partir para a briga ou para a discussão pesada. Mas subir pelas tamancas era sinal de que a pessoa estava meio furiosa.

Hoje, uma pessoa que está SUBINDO PELAS TAMANCAS é uma pessoa FURIOSA. suéter Blusa de lã. Suéter era um casaquinho de lã que servia para proteger as pessoas do frio. Mas se estivesse muito, muito frio, não havia suéter que segurasse. Suéter era o tipo da blusa ideal para a meia-estação. A palavra ganhou fama nos anos 1970 com a música “Miss Suéter”, de João Bosco e Aldir Blanc: “Eu conheço uma assim/Uma dessas mulheres/Que um homem não esquece/Ex-atriz de tv/Hoje, é escriturária do inps/E que dias atrás/Venceu lá no concurso de Miss Suéter”.

Hoje, em vez de dizer SUÉTER, diz-se AGASALHO. suíta Substância de baixo valor energético. Quando foi declarada guerra ao açúcar, por volta dos anos 1970, inventaram a Suíta. “Você quer açúcar ou Suíta?”, perguntavam os garçons. Suíta era nada mais que um adoçante, talvez o primeiro no Brasil. O compositor baiano Caetano Veloso colocou a palavra na ordem do dia com a canção “Você não entende nada”, cujo trecho diz o seguinte: “Eu quero tocar fogo neste apartamento/Você não acredita/Traz meu café com Suíta eu tomo/Bota a sobremesa eu como, eu como/Eu como, eu como, eu como”.

Hoje, em vez de SUÍTA, fala-se ADOÇANTE. supimpa Legal. Uma pessoa supimpa era uma pessoa bacana. Dessas pessoas raras, muito educadas, prestativas,

atenciosas. Gente que nunca pisa na bola, incapaz de prejudicar alguém, passar uma rasteira, fazer mal. Supimpa era tudo isso e muito mais.

Hoje, uma pessoa SUPIMPA é GENTE FINA. suspensório Peça do vestuário para segurar a calça. Só duas faixas etárias usavam suspensório. Ou era gente muito nova, por volta dos quatro, cinco, seis anos, ou muito velha, pra lá dos setenta. O suspensório infantil era de elástico e o suspensório dos velhos de couro, para não deixar a calça cair. Pensando bem, o suspensório era uma peça chique. Senhores respeitáveis, às vezes, preferiam usar suspensório que corrião. O negócio era não deixar a calça cair.

Hoje, pouquíssimas pessoas usam SUSPENSÓRIO, e quando usam ainda o chamam de SUSPENSÓRIO.

tá maus Não estar bem. O Brasil inventa cada uma! Onde já se viu alguém dizer obrigado e o outro responder: “Obrigado eu”. De vez em quando surge, ninguém sabe de onde nem por que, uma expressão esdrúxula. Tá maus, por exemplo. “O Jurandir foi internado, coitado. Ela tá maus.” Era assim que falavam do pobre Jurandir. O tá maus deu origem a outra expressão esquisita: foi maus.

Hoje, em vez de dizer TÁ MAUS, diz-se NÃO ESTÁ NADA BEM. tacar Arremessar. Essa palavra era muito usada por volta dos anos 1960, 1970, e a toda hora. “Para de tacar pedra na casa da vizinha”, “Para de tacar água fria no seu irmão”, “Para de tacar lixo na rua” e por aí vai. Tacar era simplesmente arremessar alguma coisa. Detalhe: quantas e quantas vezes um pai não ameaçava o filho: “Se você continuar se comportando assim, vou tacar a mão na sua cara”.

Hoje, em vez de TACAR, as pessoas dizem JOGAR. tafetá Tecido de seda trançado. Se você procurar neste Pequeno dicionário, vai encontrar outros tipos de tecidos que viraram verbetes.

Como a roupa era feita em casa, e por costureiras delivery, as pessoas precisavam saber qual tecido seria usado em tal peça. Popeline? Brim? Tafetá? Tafetá, tecido de seda trançado, era um dos que todos conheciam. O tafetá era tão famoso que foi parar numa canção de João Bosco e Aldir Blanc, chamada “Prêt-à-porter de tafetá”. Uma letra bem a cara da dupla: “Pagode em Cocotá/Vi a nega rebolá/Num prêt-à-porter de tafetá”.

Hoje, quando uma pessoa vê uma peça de TAFETÁ, diz apenas que é TECIDO. talharim Espécie de macarrão. Era coisa de mineiro chamar qualquer tipo de massa de talharim. “Aparece lá em casa domingo pra comer um talharim...”, diziam os hospitaleiros moradores da terra de Carlos Drummond de Andrade, Juscelino Kubitschek, Ziraldo e Henfil. E era no domingo que os mineiros cozinhavam o talharim, desfiavam o frango, preparavam o tutu e abriam uma Ouro Branco estupidamente gelada. Sim, os mineiros gostavam de colocar em pratos limpos o talharim e o tutu – tudo misturado.

Hoje, os mineiros chamam TALHARIM de MASSA. tamborete Banco pequeno. Costuma-se dizer que a mentira tem pernas curtas. Quando um banquinho tinha pernas curtas dizia-se que era um tamborete. “Menino, não sobe nesse tamborete que você cai daí!” As mães, preocupadas com os filhos, sempre advertiam para que não subissem em cadeiras, banquinhos ou tamboretes. Toda casa de pobre tinha tamborete, principalmente na cozinha onde tomavam o café da manhã.

Hoje, TAMBORETE virou BANQUINHO. tampinha Pessoa de baixa estatura. Havia tampinha por todo lado. Na sala de aula, na repartição, no meio da torcida. Tampinha era aquele cara que insistia em não crescer, mesmo quando chegava a época de crescimento. Ele ficava baixinho e logo ganhava o nome de tampinha. Muitos acreditavam que o tampinha era aquele que havia nascido prematuro, aos seis, sete meses. O que não é verdade. Havia tampinha que havia nascido com quase quatro quilos. Depois, as pessoas foram se esquecendo do tampinha e passaram a dizer baixinho. O baixinho da Kaiser, por exemplo.

Hoje, TAMPINHA virou BAIXINHO. tantã Pessoa meio doida. Andando pelas ruas temos a impressão de que existem menos pessoas malucas soltas por aí. Malucas no sentido de ficar falando sozinha, gesticulando, lembrando da Segunda Guerra Mundial, tentando encontrar soluções para este mundo tão confuso. São os tantãs, conhecidos no bairro por onde passam. “Eu sou Napoleão”, dizia um e logo vinha o comentário: “Não liga não, ele é assim mesmo, meio tantã”. Durante um tempo, os tantãs foram chamados de pinel, homenagem ao médico francês Philippe Pinel (17451826), considerado o pai da psiquiatria.

Hoje, o TANTÃ é um DOIDÃO. tapear Enganar. Era uma palavra corriqueira. Tapear uma pessoa era nada mais, nada menos que enganar. Mães tapeavam os filhos escondendo o legume debaixo da batatinha frita na hora da comida. Mas havia todo tipo de tapeação. Havia quem tapeasse o outro dizendo que não tinha dinheiro no bolso para pagar o cafezinho, quem tapeava dizendo que estava doente para não ir trabalhar, e aquele irmão que tapeava a irmã dizendo que não tinha visto nenhum morango na geladeira, depois de ter comido o último.

Hoje, TAPEAR virou uma espécie light de SACANEAR. taquara rachada Pessoa com voz irritante. Ninguém neste mundo tem mais voz de taquara rachada que o cantor e compositor cearense Fagner. É só ouvir o primeiro disco dele – Manera frufru manera – ou o segundo, Ave noturna. Não que o autor de “Mucuripe” tenha uma voz irritante, mas é muito particular, de taquara rachada. Enquanto uns têm voz de taquara rachada, outros têm de veludo. Ouça João Gilberto cantando “Desafinado”, por exemplo. A Desciclopédia tem uma lista enorme de pessoas com voz de taquara rachada. De Tiririca a Xuxa, passando por Sandy Leah, a Sandy do Júnior.

Hoje, ninguém mais diz que Fagner tem voz de TAQUARA RACHADA.

tarado Maníaco sexual. Tarados andavam soltos pelas ruas e muitos deles jamais apareciam nas páginas policiais dos jornais. Eram tarados de bairro. Mito ou realidade, ninguém sabia, mas aqueles que tinham fama de tarado a carregavam para sempre. As mães pediam cuidado aos filhos e contavam histórias tenebrosas de tarados que levavam crianças para o mato. A história parava aí. Nos anos 2000, Caetano Veloso e Jorge Mautner compuseram “Tarado”, uma canção que diz: “Gosto de ficar na praia deitado/Com a cabeça no travesseiro de areia/Olhando coxas gostosas por todo lado/Das mais lindas garotas, também das mais feias/Porque são todas gostosas e sereias/Pro meu olhar de supremo tarado/Tarado”.

Hoje, TARADO é chamado de PEDÓFILO. tarimba Conhecimento de causa. Quem tinha tarimba estava com tudo. Eram contratados para trabalhar na firma porque tinham tarimba. Ter tarimba era ter conhecimento de causa, entender do riscado, estar por dentro, conhecer a fundo. Ninguém queria contratar um motorista que não soubesse as malandragens do trânsito, aquele que não tivesse tarimba. Ninguém queria pintar a casa entregando o pincel a um pintor que não tivesse tarimba.

Hoje, quem tem TARIMBA tem EXPERIÊNCIA. tarraxa Peça para fazer as roscas do parafuso. Era impressionante como neste mundo as pessoas tarraxavam. Era um tal de “me passa a tarraxa”, “vamos colocar uma tarraxa aqui” ou “o que está faltando é uma tarraxa”. Nada ficava preso, firme, sólido sem uma tarraxa. Aos poucos, não se sabe por que, as pessoas começaram a colar, a prender na base da pressão, mas da tarraxa, pobre coitada, ninguém mais falou.

Hoje, TARRAXA é chamada de ROSCA. teco Pedaço, um pouco. Irmãos brigavam muitas vezes por uma bobagem, por um teco de biscoito, um teco de pudim. Era assim que se chamava o pedaço de biscoito, um pouco do pudim. Em Minas Gerais, quando o teco era muito

pequeno diziam – muitos ainda dizem – tiquinho. “Me dá um tiquinho de pão de queijo.” Mas cuidado. Chama-se também de teco uma carreira de cocaína.

Hoje, quem quer um TECO pede um PEDACINHO. telegrafar Ato de enviar telegrama. Mandar um telegrama era o jeito mais rápido de se comunicar. Quando a notícia era importante, a melhor solução era o telegrama. “tio carlinhos faleceu pt enterro amanhã cedo”. Era assim que se mandava um telegrama, tudo com letra maiúscula. O ponto era pt, a vírgula vg. Tudo muito simplificado, porque telegrama era caro, cobrava-se por palavra. Por isso, todos economizavam nas palavras. Ninguém enchia linguiça num telegrama. “feliz aniversário” e pt final.

Hoje, em vez de TELEGRAFAR, manda-se um E-MAIL. telenovela Novela exibida na televisão. O Direito de Nascer foi talvez a primeira grande novela de sucesso na televisão. Alguém teve a ideia de escrever uma longa história e contá-la em capítulos todas as noites. Antes da telenovela, havia a radionovela. A melhor coisa que havia na radionovela era a sonoplastia. Era preciso criar sons para beijos, cavalos em disparada, buzina de carro, tapa na cara. Não é de hoje que os brasileiros são apaixonados por novelas. Se o mar contasse, Roque Santeiro, Dancing days, Gabriela, Vale tudo. Todas elas tiveram milhões e milhões de seguidores.

Hoje, a TELENOVELA virou apenas NOVELA. televizinho Pessoas que assistiam à televisão no vizinho. A televisão custava caro quando chegou ao Brasil. Não era qualquer família que tinha uma na sala. Num bairro, o primeiro a comprar um aparelho logo, logo via a chegada em sua casa dos televizinhos. Televizinho era aquele que ainda não tinha uma televisão, mas não queria perder os lances da grande novidade tecnológica. Muitos televizinhos, para agradar, costumavam levar doces e salgadinhos à casa do dono da televisão. E, muitas vezes, todos assistiam aos programas entre um brigadeiro e outro, entre um pastelzinho português e outro.

Hoje, não existe mais TELEVIZINHO.

telha Mente. Meio maluco era aquele que não media as consequências, tampouco as palavras. Vivia dizendo o que lhe dava na telha. E como saía bobagem da boca daqueles que diziam o que dava na telha. Dar na telha é o mesmo que dar na veneta. Um dia, o compositor Jards Macalé colocou isso numa canção chamada “Revendo amigos”. Foi um sucesso lá no início dos anos 1970: “Se me der na veneta eu vou/Se me der na veneta/eu mato/Se me der na veneta eu morro/E volto pra curtir”.

Hoje, dar na TELHA é dar na CABEÇA. teteia Pessoa graciosa. Teteia podia ser aquele bebezinho passeando no carrinho numa manhã de sol à beira do mar, como podia ser aquela garota, coisa mais linda, mais cheia de graça, que passa no doce balanço a caminho do mar. Quantas vezes uma mulher assim não ouviu um galanteio do tipo: “Teteia”. Teteia era nada mais, nada menos que uma pessoa graciosa, dengosa, charmosa e todas as rimas com “osa”.

Hoje, TETEIA virou FOFA. tétrico Horrível, assustador. Tétrico é um filme de terror, um lugar sombrio, um cemitério de madrugada, um porão mal-assombrado. Agora, o retrato falado de um ser tétrico é, sem a menor sombra de dúvida, Zé do Caixão. Nada mais tétrico. Tudo podia ser tétrico, até mesmo um desenho infantil que mostrava um homem cortando a cabeça do outro e espirrando sangue para todos os lados. Que desenho tétrico!

Hoje, TÉTRICO virou FÚNEBRE. tição Negro. Quando um homem negro era cem por cento negro dizia-se que ele era um negro tinindo. Tição era aquele homem negro imenso e com a cor da pele muito, muito negra. As pessoas diziam sem um pingo de preconceito: “Aquele ali, sim, é um tição.” Eram tição o compositor e humorista Monsueto, o Naldinho da Ilha, o Mussum. Todos uma simpatia.

Hoje, TIÇÃO é chamado de NEGÃO. tinindo Perfeito, limpo. Quando uma pessoa lavava o carro, enxugava, passava cera e depois uma flanela, o carro ficava tinindo. Tinindo ficava a casa no dia em que a faxineira chegava cedo e saía somente à noite. Ela limpava as janelas, o assoalho, as paredes, as porcelanas, as pratarias, as portas, enfim, deixava tudo tinindo. E as patroas ficavam felizes: “Geralda, você está de parabéns. Deixou a casa tinindo!”.

Hoje, quando está tudo TININDO, está tudo IMPECÁVEL. tinturaria Local onde se lava e passa roupa. Roupa suja se lavava em casa, mas roupa chique mandava-se para a tinturaria. Tinturaria era aquele local onde se lavavam ternos, calças de tergal, vestidos de festa. Lavava-se a seco e passava-se impecavelmente. A especialidade da tinturaria era tirar manchas de roupas de festa. Sabe aquele vinho que derrubaram em seu vestido? Só mesmo indo para a tinturaria. Costumava voltar novo.

Hoje, TINTURARIA virou LAVANDERIA. tintureiro Homem cuja profissão é lavar e passar roupa. Tintureiro era o dono da tinturaria. Muitos deles saíam de bicicleta de casa em casa recolhendo roupa suja para, alguns dias depois, devolvê-la impecavelmente limpa e cheirosa. O tintureiro conhecia as freguesas e costumava só confirmar com o cliente o jeito que ele queria a roupa de volta: “É para caprichar no friso da calça, não é mesmo, seu Licurgo?”.

Hoje, um TINTUREIRO, justiça seja feita, continua sendo um TINTUREIRO. tiquinho Pequena quantidade. Tiquinho é coisa de mineiro. “Me dá um tiquinho só”, “Fica mais um tiquinho”, “Só falta um tiquinho para o filme acabar”. Era assim ou ainda é que o mineiro fala. Tiquinho é coisa pouca, quando só falta

um pouquinho para terminar. Até mesmo aquele restinho de leite na mamadeira que a mãe quer ver na barriguinha do filho que precisa crescer: “Bebe! Só mais esse tiquinho...”.

Hoje, TIQUINHO virou um POUQUINHO. tiro de guerra Servir ao Exército. Qual jovem gostava de parar os estudos, parar a vida, para fazer o Tiro de Guerra? Tiro de Guerra era o período em que um jovem de dezoito anos ia servir o Exército. Durante os anos de ditadura militar, não foi fácil. Além de não querer vestir aquela farda verde-oliva, ninguém queria deixar de ser cabeludo, estar na moda, para passar uma máquina zero no cabelo. No interior, os jovens não se importavam muito em fazer o Tiro de Guerra. Com aquela farda verde-oliva ficava mais fácil conseguir uma namorada na hora do footing na praça. E as mocinhas costumavam dizer: “Meu namorado é militar...”.

Hoje, em vez de dizer que vai fazer o TIRO DE GUERRA, o jovem costuma dizer que vai fazer o SERVIÇO MILITAR. tô ki tô Estar a fim. É difícil explicar que tô ki tô é a mesma coisa que estou que estou. E o que quer dizer isso? Mesmo sem muita explicação, a expressão virou bordão da Rede Globo de Televisão em Carnavais passados. Quando a pessoa diz tô ki tô é porque está com tudo, está a fim, está se achando.

Hoje, o tal TÔ KI TÔ significa ESTOU A FIM. tocar o bonde Ir levando. Tocar o bonde significava ir levando uma situação. A coisa não estava muito boa, mas as pessoas iam tocando o bonde. Era exatamente a mesma coisa que tocar o barco. Mesmo sem ser condutor, sem ser marinheiro, muita gente ia tocando o bonde, tocando o barco.

Hoje, TOCAR O BONDE é o mesmo que EMPURRAR COM A BARRIGA. topetudo

Atrevido. Quando uma pessoa era meio desaforada, meio atrevida, dizia-se que era uma pessoa topetuda. Aquela que não levava desaforo para casa, que não deixava passar barato. Era um topetudo. Os pais viviam chamando a atenção dos filhos: “Deixa de ser topetudo”. É bom esclarecer que o verbete não tem nada a ver com o cantor Elvis Presley ou com o ex-presidente Itamar Franco.

Hoje, um TOPETUDO está SE ACHANDO. trabuco Mulher feia. Parece que as pessoas não tinham papas na língua. Uma mulher feia era uma mulher feia. Até o poetinha Vinicius de Moraes deixou o seu recado para a posteridade: “As muito feias que me perdoem/Mas beleza é fundamental”. Era comum alguém dizer que “aquela mulher é um trabuco” mesmo sem saber o sentido exato de trabuco. Chamam mulheres feias também de bucho e pronto. Enfim, as que são trabucos que me perdoem, mas beleza é fundamental.

Hoje, um TRABUCO é chamado de TRIBUFU. tramela Tranca de madeira. Toda porta de fazenda tinha tramela, nada de fechaduras de metal. A tramela era uma simplória fechadura de madeira que virava de um lado para outro trancando a porta. As pessoas costumavam perguntar: “Passou a tramela?”, para ter certeza de que a casa estava trancada. Com o tempo, as tramelas ficavam frouxas e era preciso uma boa apertada com uma chave de fenda. A invenção da tramela foi a melhor coisa que aconteceu para evitar que galinhas, patos e gansos entrassem em casa. Porque ladrão entrar em casa de fazenda era muito raro. Só havia ladrões de galinha.

Hoje, a TRAMELA sumiu e deu lugar à FECHADURA. tranchan Chique, elegante. Uma figura tranchan era uma figura de bom gosto, chique, elegante. Quantas vezes uma mulher se vestia meio de qualquer jeito e, quando um homem reparava nela, ia lá dentro e mudava de roupa. Voltava toda vaidosa e alguém dizia: “Agora sim, você está tranchan”. Tranchan era elegância dos pés à cabeça. Sapatos engraxados e roupa fina, bem caída, bem passada. Enfim, tranchan!

Hoje, TRANCHAN virou COISA FINA. transa Alguma coisa. Houve um tempo em que transar não significava necessariamente o ato sexual. Na época hippie era muito comum dizer “Estou transando umas coisas aqui em casa”, “Vamos transar umas coisas à noite?”, “Que transa legal...”. Transar significava fazer alguma coisa, e os hippies viviam transando alguma coisa. Seja um artesanato, uns poemas marginais, um baseado. No início dos anos 1970, o compositor baiano Caetano Veloso gravou um disco em Londres chamado Transa, um disco com uma capa toda transada.

Hoje, em vez de TRANSA, diz-se que vai fazer uns BABADOS. transeunte Pessoa que anda na rua. Só especialistas em trânsito dizem transeunte. Mas falava-se antigamente. O transeunte é nada mais, nada menos que a pessoa que anda, que circula na rua. Ninguém mais diz que quase atropelou um transeunte, apesar de os transeuntes viverem atravessando a rua fora da faixa.

Hoje, TRANSEUNTE virou PEDESTRE. travessa Vasilha. “Me passa a travessa?” Era assim que as pessoas diziam na mesa do almoço, na mesa do jantar. Travessa era aquele recipiente onde se colocava o arroz de forno, o tutu, a macarronada, o frango no domingo. Agora, quando uma pessoa fala em travessa, vai logo pensando que é aquela livraria charmosa no Rio de Janeiro.

Hoje, TRAVESSA virou VASILHA. treco Coisa, troço, trem. Treco é a cara de Minas Gerais. Mineiro gosta de guardar uns trecos, de guardar um prego torto, uma pilha usada, uma chaleira com a alça quebrada, uns trecos assim. Os trecos não costumam ficar à vista, são guardados – ou jogados, empilhados – em um quarto de despejo, num porão, num lugar em que não se

circula muito. Trecos costumam mofar, enferrujar. Mineiro costuma chamar treco de coisa, de troço, de trem.

Hoje, TRECO virou TROLHA. trela Atenção. Sabe aquela pessoa que fala demais, fala sem parar? Para essa pessoa costumava-se dizer: “Deixa ela falar, não dê trela não”. Não dar trela era não dar atenção, não se preocupar, se lixar. Aquela tia que costumava ver defeito em todos os membros da família, a melhor saída era não dar muita trela. Mas, mesmo assim, a tia costumava continuar falando, falando, falando.

Hoje, em vez de dizer NÃO DÊ TRELA, costuma-se dizer NÃO DÊ CORDA. tremer na base Medo de tomar uma decisão. Quando uma pessoa se via numa situação de perigo, de embaraço, ela costumava tremer na base. Tremer na base era uma espécie de medo. Quando o avião levantava voo, por exemplo, muita gente tremia na base. Nesse caso, na base aérea. Agora, sem brincadeira, tremer na base era aquele intervalo entre um pequeno pânico e uma decisão. A filha que chegava em casa de madrugada e encontrava a luz da sala acesa, e sabia que o pai estava ali esperando, essa tremia na base.

Hoje, TREMER NA BASE é a mesma coisa que PANICAR. tribufu Mulher horrorosa. Tribufu, que já apareceu aqui como uma palavra que é dita até hoje, já foi mais falada. O tribufu de agora é aquela mulher, que além de ser muito feia, é mal-arranjada. Um bagulho, uma baranga, brega mesmo. De dar dó. Essa palavra deveria ser banida de qualquer dicionário em nome do charme, da beleza e do veneno da língua portuguesa.

Hoje, TRIBUFU está mais para BREGA. tricoline

Tecido leve de algodão sedoso. Não é a primeira vez que uma espécie de pano vira verbete deste dicionário. O tricoline é apenas mais um. Uma roupa de tricoline era uma roupa chique, bacana, que precisava estar impecavelmente bem passada. Mas que amassava logo em seguida. O que será que aconteceria se alguém entrasse numa loja de roupas e dissesse: “Por favor, um metro e meio de tricoline”. O que será que o vendedor iria dizer?

Hoje, ninguém mais especifica TRICOLINE. Diz apenas PANO. tríduo momesco Relativo ao Carnaval. Não tem nada mais antigo que chamar a festa mais popular do mundo, o nosso Carnaval, de tríduo momesco. Tríduo momesco era aquele Carnaval ingênuo em que os blocos saíam às ruas, as pessoas brincavam nos salões. Ingênuo até certo ponto, porque o lança-perfume corria solto. O tríduo era momesco porque o rei Momo era o dono da festa. Gordo, obeso mesmo, e na maior animação.

Hoje, o TRÍDUO MOMESCO é apenas CARNAVAL. trinques Em ordem. Estar tudo nos trinques era estar tudo em ordem. A família que viajava de carro, por exemplo, olhava o bagageiro e dizia: “Está tudo nos trinques”. No final do dia, a dona de casa costumava perguntar à faxineira: “Deixou tudo nos trinques?”. Em resumo, estar nos trinques era estar não apenas em ordem, mas tudo muito certinho. Havia também a roupinha nos trinques, aquela que caía certinho no corpo. E havia os Novos Baianos, que faziam shows nos trinques.

Hoje, deixar alguma coisa NOS TRINQUES é deixar TUDO EM CIMA. tró-ló-ló Conversa vazia. Tró-ló-ló quer dizer exatamente a mesma coisa que lero-lero, blá-blá-blá, papo furado, conversa vazia. “Não vem com esse tró-ló-ló não...” queria dizer “não vem com esse papo torto não...” Havia também pessoas cheias de tró-ló-ló, aquelas pessoas que costumavam rodear, rodear, rodear antes de chegar ao assunto. Bom, chega de tró-ló-ló.

Hoje, TRÓ-LÓ-LÓ quer dizer CONVERSA FIADA. trombose Formação de um coágulo de sangue. Quando chegava a notícia de que alguém teve uma trombose era assustador. O medo das sequelas era grande e ainda é. Só que hoje as pessoas não costumam mais dizer trombose. Aos poucos, a trombose foi sendo substituída por derrame. O retrato falado de uma pessoa com trombose era o pior possível. Boca torta, olhando para o além, não reconhecendo os outros.

Hoje, TROMBOSE virou AVC. troninho Penico infantil. Quem lançou essa história de troninho foram os fabricantes de um comprimidinho marrom chamado Enteroviofórmio. Um remédio contra dor de barriga. “Se o seu filho anda indo muito ao troninho...” E lá estava aquele pobre menininho sentado no penico e com uma coroa na cabeça. A propaganda pegou, e o penico infantil passou a ser chamado de troninho.

Hoje, TRONINHO voltou a ser PENIQUINHO. trumbicar-se Se ferrar. Quem popularizou a palavra trumbicar-se foi Abelardo Barbosa, o Chacrinha. Quem não se comunica se trumbica. Ele repetia a frase N vezes em seu programa de televisão. Aliás, Chacrinha criou inúmeros bordões: Roda e avisa! Alô, alô, Teresinha! Mas um dos mais famosos foi o tal do Quem Não se Comunica se Trumbica. E Chacrinha nunca se trumbicou, porque se havia uma coisa que ele sabia fazer era se comunicar.

Hoje, TRUMBICAR-SE foi substituída por SE FERRAR. truque Mágica. O mundo da criança era mais mágico do que é atualmente. Havia mais mágicos no planeta Terra, na televisão, no teatro. E eram esses mágicos que faziam truques de deixar qualquer um de queixo caído.

Alguns truques eram manjados, como tirar pombo do lenço e coelho da cartola. E aquele truque de cortar a mulher no meio? Mas, que todos ficavam de queixo caído, ficavam.

Hoje, fazer um TRUQUE é fazer uma MÁGICA. tudo em riba Tudo certo. Era uma expressão muito usada. Quem queria saber se estava tudo pronto, tudo em cima, era só perguntar se estava tudo em riba. Era também uma expressão de saudação. Em vez de perguntar se estava tudo bem, dizia-se: “E aí, tudo em riba?”. E assim caminhava a humanidade, com tudo em riba.

Hoje, para saber se está TUDO EM RIBA, pergunta-se se está TUDO SOB CONTROLE. tutu Dinheiro. Para um bom mineiro, é claro, tutu é aquele prato delicioso da culinária de Minas Gerais. Aquele feijão misturado com farinha de mandioca, ovo cozido e linguicinha frita por cima. Mas tutu, para mineiro e para o restante do Brasil, era sinônimo de dinheiro, grana, bufunfa, dindim. Um cara com muito dinheiro era um cara cheio de tutu. Quando alguém abria a carteira e exibia aquelas notas de mil cruzeiros, o outro logo dizia: “Você está com muito tutu, hein?”. Uma pessoa que comprava um carro zero à vista só podia ser uma pessoa com muito tutu.

Hoje, TUTU virou GRANA.

última palavra Última moda. A última palavra do dicionário Aurélio é a z-zero, que significa carga elétrica nula. Mas a última palavra aqui é outra história, é a tal da última moda. “A última palavra em automóvel é o Simca Chambord.” Sinônimo de beleza, conforto e modernidade. “A última palavra em moda feminina é a saia plissada”, diziam os estilistas. E “a última palavra em arquitetura, não resta dúvida alguma, é Oscar Niemeyer”, exclamavam os engenheiros ao ver nascer Brasília. Depois da última palavra, a impressão que se tinha era que nada mais moderno e chique seria inventado.

Hoje, a ÚLTIMA PALAVRA virou IN. urinol Recipiente para urinar. Urinol é uma das palavras mais feias da língua portuguesa, se não a mais feia. Como pode um recipiente usado para urinar chamar-se urinol? Até que está correto, mas é uma palavra muito feia, quase um palavrão. O urinol era muito usado nos modelos esmaltados, ou de alumínio e porcelana. Aos poucos, foi mudando de nome e só os velhos, aqueles que sempre tinham um debaixo da cama, costumavam chamá-lo de urinol.

Hoje, o URINOL virou PENICO. ursada

Adultério, sacanagem. Cometer adultério era cometer uma ursada. “Você viu a ursada que o Valdemar aprontou com a Yolanda?” Isso significava que o Valdemar havia pulado a cerca e se engraçado com a vizinha, deixando a Yolanda na mão. Ursada era todo tipo de adultério e também de trapaça. Era uma expressão corriqueira. Bastava uma pulada de cerca para alguém comentar: “Que ursada”.

Hoje, URSADA é TRAIÇÃO. urticária Alergia na pele. Bastava uma mãe ver o filho com parte do corpo avermelhada para dar o veredito: “Isso é urticária”. E era mesmo. Mãe não errava nessas horas. E lá vinha banho de enxofre para curar a tal urticária. Agora, não me pergunte por que os meninos de antigamente tinham tanta urticária. Ainda bem que ela sumiu junto com a palavra.

Hoje, URTICÁRIA virou simplesmente ALERGIA. uso tópico Uso externo. Redatores de bulas adoravam escrever “uso tópico”. E os pobres pacientes nunca sabiam o que era o tal uso tópico. Perguntavam e obtinham respostas adversas. “É para tomar”, diziam uns, enquanto outros afirmavam categoricamente: “É para passar no corpo”. E o paciente não sabia se esfregava ou engolia. Nunca se deve engolir um remédio cuja bula afirme ser uso tópico.

Hoje, as bulas insistem em escrever USO TÓPICO, mas muita gente continua sem saber o que é USO TÓPICO. uva Moça bonita. Frutas e legumes sempre designaram pessoas e situações. Essa moça é um chuchu, tenho um pepino pra resolver, achei o filme um abacaxi, aquele cara é um banana, aquele lá é um pão, ele é um laranja, e por aí vai. Mas tinha a uva, a mocinha que era uma uva. Uva era aquela moça de dezoito anos, corpo perfeito, olhar meigo, uma coisa irresistível. Uva era uma palavra que estava na ponta da língua dos peões de obra. Moça nenhuma escapava de um “que uva”. Até mesmo aquelas que caminhavam para virar uvapassa.

Hoje, uma UVA é uma GRAÇA.

vaca-amarela Sorvete com guaraná. A original é vaca-preta, mas a amarela aparece primeiro neste dicionário por uma questão de ordem alfabética. Depois que inventaram a vaca-preta, nossos nacionalistas inventaram a vaca-amarela, uma mistura de sorvete de creme com Guaraná. Simples de preparar, uma delícia de beber. Era só colocar o sorvete num pote e, em seguida, ir colocando o Guaraná. Naquela época, era Guaraná Champagne Antarctica, garrafa de vidro e rótulo de papel.

Hoje, é difícil um bar ter VACA-AMARELA, mas ela continua sendo VACA-AMARELA. vaca-preta Sorvete com Coca-Cola. Eis a original! Sorvete de creme com Coca-Cola. Nada mais refrescante. Não se sabe quem inventou essa história de misturar sorvete com Coca-Cola, certamente foi algum brasileiro, porque nos Estados Unidos ninguém nunca ouviu falar numa bebida chamada black cow.

Hoje, continuam chamando VACA-PRETA de VACA-PRETA. válvula Dispositivo que fecha hermeticamente tudo.

Pode parecer simplório definir válvula como um dispositivo que fecha hermeticamente tudo. Essa era apenas a válvula que ficava nos aparelhos de rádio e nos televisores, aquela que precisávamos esperar esquentar para que a voz e a imagem aparecessem. “A válvula deve ter queimado.” Essa era a frase que mais se ouvia na era do rádio.

Hoje, VÁLVULA é coisa do passado, mas continua sendo chamada de VÁLVULA. vara Expressão de raiva. Aqui está outra palavra muito usada pelas mães. “Vá tomar banho logo porque seu pai está uma vara.” Estar uma vara era estar furioso, nervoso com qualquer coisa, à beira de um ataque de nervos. Todos os pais viraram uma vara com as peraltices dos filhos. Imagine um filho levar bomba em matemática depois de um ano inteiro de aula particular. Imagine o filho que estragou o radinho de pilha na hora do pênalti. Imagine o filho que entornou o Toddy no terno do pai. Não é motivo suficiente para o pai ficar uma vara?

Hoje, em vez de dizer que o pai está uma VARA, diz-se que ele está PUTO. vara verde Expressão de medo. Quando o chefe chamava na sala dele, o funcionário ia tremendo feito vara verde. Já foram vistos goleiros na hora do pênalti tremerem feito vara verde. Tremer feito vara verde era ter muito medo, medo de uma bronca, de ser demitido, de a bola balançar a rede. Quem não se lembra de José Sarney no dia da posse como presidente da República ao ler o juramento? Ele tremia feito vara verde.

Hoje, tremer feito VARA VERDE é tremer de MEDO. varado de fome Com muita fome. Quando uma pessoa tomava o café da manhã cedinho, estava varada de fome à uma da tarde. Estar varada de fome era estar com muita fome, uma fome de anteontem, uma fome de leão. Motoristas de caminhão costumavam chegar aos restaurantes à beira da estrada e já ir dizendo logo na entrada: “Tem almoço? Estou varado de fome”. Aí vinha aquele prato feito maravilhoso, muito bem servido. Matava a fome de qualquer pessoa varada de fome.

Hoje, quem está VARADO DE FOME está com MUITA FOME. varapau Adolescente que cresceu rapidamente. Adolescentes são sempre assim. O tempo vai passando e eles não crescem, motivo de preocupação de toda mãe. De repente, a impressão que se tem é que estão crescendo cinco centímetros por dia. Nessa hora, as mães exclamavam: “Como você está um varapau”. Varapau era aquele adolescente que perdia todas as calças porque ficavam curtas, a voz começava a mudar e as espinhas brotavam no rosto. Todo varapau andava desajeitado e, vamos ser sinceros, era meio chato.

Hoje, um VARAPAU é um HOMENZARRÃO. vasculhada Procurar, revirar. Quem tem mais de sessenta anos e nunca disse: “Vou dar uma vasculhada nas minhas coisas para ver se acho aquele recibo”? As pessoas viviam vasculhando as gavetas, o fundo das bolsas, as caixinhas para procurar alguma coisa perdida. Ladrões costumavam entrar em casas vazias e dar uma vasculhada em tudo para ver se encontravam dinheiro e joias. E as pessoas assustadas ao entrar em casa logo diziam: “Nossa! Eles vasculharam tudo.”

Hoje, dar uma VASCULHADA é dar uma GERAL. vasilhame Recipiente para bebida. Não havia garrafas de plástico. Eram todas de vidro, os famosos vasilhames. Os vasilhames iam e vinham. Vasilhame de cerveja, de refrigerante, de leite. Sim, o leite vinha em vasilhame de vidro. O planeta Terra seguramente era mais limpo na época dos vasilhames. Eles iam e vinham inúmeras vezes. Só se aposentavam quando quebravam e viravam cacos colados em cima dos muros para evitar ladrões.

Hoje, o VASILHAME virou PET. vegetar Parar no tempo. Vegetar tinha dois significados distintos, mas todos eles levavam ao mesmo ponto: estar parado no tempo.

Havia o lado dramático daquela pessoa que teve um problema cerebral e, de repente, se via entrevado na cama, levando uma vida vegetativa. Até quando era um grande mistério. Mas havia aquela dona de casa que, no íntimo, percebia que, enquanto o marido saía para a farra, ela ficava em casa vegetando. Enfim, vegetar era tudo de ruim.

Hoje, VEGETAR é estar PARADO NO TEMPO. vela Acompanhante de namorada. O mundo era terrível. Namorado nenhum tinha liberdade para sair sozinho com a namorada. Não tinha direito de dar as mãos, colocar as mãos nos ombros, abraçar, beijar em público. Mas fazia tudo isso, e às escondidas. Os pais se faziam de mortos, acreditando que suas filhas eram santas. E eram. Do pau oco. Sendo assim, havia as velas. Velas eram aquelas pessoas designadas a acompanhar casais de namorados que iam à missa, ao cinema, a uma hora dançante. Nunca se viu uma vela de cara boa. As velas faziam bico, porque não era fácil acompanhar um casal de namorados para não deixar que fizessem – o que se chamava na época – coisa errada.

Hoje, não existe mais VELA. velhaco Aquele que engana, enrola. Safado. Como havia – e ainda há – velhacos neste mundo. Aquele que pedia dinheiro emprestado e não pagava era um velhaco. Aquele que ficava enrolando para entregar um serviço era um velhaco. Aquele velhinho que traía a mulher era um velhaco. Quer dizer, os velhacos continuam soltos por aí, mas não são mais chamados de velhacos.

Hoje, um VELHACO é chamado de 171. velocípede Brinquedo infantil. Aquilo que era chamado de velocípede era uma espécie de bicicleta de três rodas destinada ao público bem infantil, crianças que ainda não sabiam andar de bicicleta ou não tinham idade para tal. Todo velocípede era vermelho, e nunca se soube por quê. O sonho de consumo de qualquer criança era o velocípede da Estrela. De ferro, resistente, pneus de borracha. Coisa fina.

Hoje, o VELOCÍPEDE é de plástico e é chamado de TICO-TICO.

veneta Cabeça, vontade. Foi no final dos anos 1960, e início dos anos 1970, que a palavra chegou com força total, junto com um bando de hippies. Foi num mundo em que se sonhava com liberdade que a palavra veneta se firmou. Qualquer ideia maluca que passava pela cabeça de um hippie era dar na veneta. “Se der na veneta, largo tudo isto aqui e vou-me embora para Arembepe.” Quem sonhava mais alto, se mandava para Amsterdã quando dava na veneta. A consagração da palavra veio com o sucesso da canção “Revendo amigos”, de Jards Macalé e Waly Salomão: “Se me der na veneta eu vou/Se me der na veneta eu mato/Se me der na veneta eu morro/E volto pra curtir”.

Hoje, dar na VENETA virou estar A FIM. vergão Arranhão. Crianças brincavam na rua e corriam pequenos riscos sempre. Subindo em muros, em árvores, brincando com pedaços de pau com prego, brincando de jogar finca, pelada, esconde-esconde. Nessas horas, aparecia o vergão, aquele arranhão provocado por um galho de laranjeira, um espinho de roseira, um caco de vidro. Era só chegar em casa para ouvir: “Que vergão é esse nas suas costas?”.

Hoje, VERGÃO é chamado de ARRANHÃO. vermelho Comunista. A palavra vermelho, que significa cor, não desapareceu nem vai desaparecer jamais. Mas vermelho no sentido de comunista está com os dias contados. Teve seus dias de glória no finalzinho dos anos 1950 com a vitória da Revolução Cubana e começou sua decadência com o final da Guerra Fria. Chamar comunista de vermelho era a coisa mais comum no mundo capitalista. Os vermelhos eram garotos barbudos que amavam Marx e Engels. Para o mundo capitalista, os vermelhos eram um perigo.

Hoje, VERMELHO virou VELHO COMUNISTA. vermífugo Remédio para vermes. Vermífugo fazia parte da cesta básica dos primeiros-socorros em qualquer casa. Criança andava

descalça, comia frutas do pé sem lavar, punha a mão suja de terra na boca e o resultado era uma barriga cheia de vermes. O primeiro sinal de que ali haviam se instalado vermes era ter vontade de comer doce. “Esse menino não para de comer doce. Deve estar com verme.” E para acabar com os vermes – que também eram chamados de lombrigas –, nada como uma boa dose de vermífugo.

Hoje, VERMÍFUGO é chamado de REMÉDIO PARA VERMES. versus Contra. Quando chegava o domingo, dia de clássico, os torcedores anunciavam que iam assistir a Flamengo versus Fluminense, Atlético versus Cruzeiro, Internacional versus Grêmio. Os jornais estampavam em suas manchetes: “Clássico Atlético × Cruzeiro promete renda recorde”. O X da questão era o tal versus. E não era só dentro do gramado. Toda disputa era fulano versus beltrano. No boxe, na luta livre, no judô. Nos anos 1970 nasceu um jornal chamado Versus, que significava a resistência versus a ditadura.

Hoje, ninguém mais diz Flamengo VERSUS Fluminense. Foi substituído por um hífen: Fla-Flu. vidrado Apaixonado. Quem não era vidrado em Leila Diniz? Em Brigitte Bardot? Em Elizabeth Taylor? Quem não era vidrado em uma casa de campo, em um Mercedes zero-quilômetro? Ser vidrado era ser apaixonado. No sentido de querer um bem de consumo – sonho quase nunca realizável. Até mesmo aquele menino do curso colegial era vidrado na colega que usava sutiã. Todo mundo era meio vidrado. Seja pela Leila Diniz, seja pelo Mercedes estalando de novo.

Hoje, VIDRADO virou CHEGADO. vigarice Trapaça. Aquele que fazia uma vigarice era um vigarista. E como havia vigarista no mundo! Vigarice era enganar alguém, fazer uma trapaça, uma tapeação. Quer vigarice maior que o noivo abandonar a noiva no altar? Eram comuns os casos de noivos que na hora H amarelavam, puxavam o carro, saíam de banda. Os comentários eram um só: “Que vigarice!”. O vigarista era um belo de um cara de pau, que vivia aprontando as suas. Aprontando vigarices.

Hoje, VIGARICE é SACANAGEM. víspora Bingo. Jogar bingo era jogar víspora. O jogo de víspora era um clássico. Vinham diversas cartelas e noventa bloquinhos de madeira dentro de um saco de pano. Cada participante escolhia uma, duas ou três cartelas, e alguém começava a tirar as pedras do saco e cantar as pedras. Quando chegava o 22, dizia-se dois patinhos na lagoa.

Hoje, VÍSPORA é BINGO. vivaldino Esperto. Vivaldino era aquele cara esperto que gostava de aplicar a Lei de Gerson, aquele de “o importante é se dar bem”. Vivaldino furava fila no banco, não tinha o menor pudor de se apaixonar pela amiga de um amigo. Vivaldino só pensava nele, não queria se dar mal, e não tinha a menor importância se os outros se estrepassem. “Ele conseguiu ingresso para assistir ao Holiday on ice, porque disse que era convidado especial do governador. Ele é mesmo um vivaldino!”

Hoje, o VIVALDINO é um PILANTRA.

wc Banheiro. Banheiro já teve muitos nomes e alguns ainda resistem. Sanitário, toalete, casinha, mictório e por aí vai. Mas durante muitos e muitos anos reinou o tal do WC, que vem do inglês water closet. Na porta dos banheiros de bar no meio da estrada não tinha um sem a placa WC na porta. E os mais idosos chegavam mesmo a dizer: “Por favor, onde fica o water closet?”

Hoje ninguém mais pergunta onde fica o WC e sim onde fica o TOALETE.

xarope Pessoa chata. Imagine uma pessoa que fala demais, fala pelos cotovelos, fala muita asneira. Imagine uma pessoa que só conversa segurando o seu braço, cutucando e pedindo que você concorde com tudo o que ela fala. Imagine uma pessoa que repete o mesmo caso, a mesma piada N vezes. Essa pessoa era chamada de xarope. O xarope era conhecido da turma. Quando ele chegava, as pessoas começavam a ir embora.

Hoje, o XAROPE virou um MALA. xilindró Prisão. Bandido que aprontava acabava no xilindró. O curioso é que a palavra xilindró era, digamos, um jeitinho simpático de dizer prisão. Ninguém dizia que o marginal foi para o xilindró com ar tenso. O xilindró dava a impressão de ser uma prisão light e até mesmo um pouco divertida. Era nada. Imaginava-se no xilindró aquele malandro que tentou aplicar uma trapaça, aquele picareta mesmo. No xilindró não havia traficantes de alta periculosidade nem havia xilindró de segurança máxima.

Hoje, o XILINDRÓ é chamado de CADEIA. xistose Esquistossomose.

A esquistossomose ou bilharziose é uma doença crônica causada por parasitas. Ainda é, mas parece que antigamente era mais. E só os mais entendidos diziam esquistossomose, porque na boca do povo era xistose mesmo. Menino que ficava meio aperreado, a mãe dizia: “Isso é xistose”. Com o avanço da medicina, essas doenças foram, aos poucos, desaparecendo do dia a dia. Ainda bem.

Hoje, XISTOSE ainda é XISTOSE, mas tem vinte anos que não ouvimos mais alguém dizer que está com XISTOSE. xongas Nada. O aluno não entendia xongas da aula de química. Os mais velhos não entendiam xongas das letras dos Rolling Stones. O avô não entendia xongas do que o neto dizia. A dona de casa não entendia xongas do que a empregada com sotaque falava. Não entender xongas significava não entender nada, nadinha. E aquela palestra sobre Ulisses, de Joyce? Mais da metade da plateia, mesmo prestando muita atenção, não entendia xongas.

Hoje, não entender XONGAS é a mesma coisa que ficar BOIANDO. xuca Penteado de bebê. Mães de primeira viagem sempre foram muito corujas. E sempre se preocuparam, além da saúde e da alimentação do bebê recém-nascido, com a aparência. Faziam das tripas coração para deixar os rebentos lindos. E a xuca, aquele penteado que jogava o pouco cabelo para cima, num estilo meio moicano, estava na ordem do dia. Depois do banho não tinha um bebê que escapasse da tal xuca.

Hoje, ninguém mais elogia a XUCA de um bebê. xumbrega Coisa de mau gosto, esquisita. Diz uma das lendas em torno de xumbrega que a palavra vem do compositor austríaco Arnold Schomberg, o papa da dodecafonia, som considerado feio, estranho. Atenção! Diz uma das lendas! Dizer que uma coisa era xumbrega significava que tal coisa era estranha, de gosto duvidoso, ou de mau gosto mesmo. Festa desanimada era uma festa xumbrega, uma Brasília velha era um carro xumbrega, um conjunto estofado na vitrine de uma loja popular era xumbrega. Diz outra lenda que a abreviatura de xumbrega é brega.

Hoje, uma coisa XUMBREGA é uma coisa TOSCA.

yankee Natural da América do Norte. Nos anos 1960 havia uma legião de brasileiros que odiava os americanos, os yankees. Ao ponto de não beber Coca-Cola ou mascar chicletes, “coisa de yankee”. A impressão que tínhamos era que os americanos a qualquer momento iriam invadir o país. Nos muros, quantas e quantas vezes alguém não escreveu: “Yankees, go home!” Os yankees eram, no fundo, no fundo, aqueles americanos que durante muitos e muitos anos ficaram de olho no nosso país.

Hoje, YANKEE virou simplesmente AMERICANO.

zarolho Vesgo. Quem nascia zarolho estava condenado a morrer zarolho. Não tinha cura, diziam as tias, as avós, a vizinha, o padre, o doutor. Aquele que nascia com um olho no gato, o outro no peixe, estava mesmo condenado a passar o resto da vida vendo o mundo assim, tipo dois pra lá, dois pra cá. Todo zarolho usava óculos e ganhava logo o apelido de quatro-olhos. E ainda por cima era chamado de caolho. Os anos foram passando, a ciência progredindo, a medicina avançando, a cirurgia se sofisticando, o zarolho foi salvo e começou a enxergar o mundo com bons olhos.

Hoje, o ZAROLHO é chamado de ESTRÁBICO. zinabre Hidrocarboneto. “Zinabre mata.” Toda uma geração ouviu esse alerta dos pais. Se zinabre era ou não veneno é outra questão. Ele tinha uma cor verde e se formava na superfície do cobre ou latão quando em contato com a umidade do ar. A curiosidade infantil era exatamente ver aquele verdinho formado na beira do tacho de zinco, passar o dedo e levá-lo até a boca. Resumo da ópera: zinabre deve matar mesmo, mas nunca se ouviu dizer que alguém havia morrido em decorrência do zinabre. A palavra – venenosa ou não – acabou sumindo da boca das pessoas.

Hoje, quem é que diz ZINABRE?

ziriguidum Traquejo. “Aquela mulata tem ziriguidum.” Aliás, é difícil encontrar uma mulata que não tenha ziriguidum, uma onomatopeia que imita o som da percussão do samba. Você fala ziriguidum como se estivesse tocando um instrumento. Durante muitos e muitos anos o Brasil teve um rei do ziriguidum chamado Osvaldo Sargentelli. Era o cara que mais entendia de mulatas no Brasil. E de ziriguidum.

Hoje, ZIRIGUIDUM virou RITMO. zombar Sacanear. Zombar era a mesma coisa que sacanear uma pessoa, encher o saco de alguém. O ato de zombar nunca sumiu. O que sumiu com o tempo foi a palavra. Criança nenhuma agora diz “para de zombar de mim”. E como diziam! Zombava-se do zarolho, do cdf, do garoto que levou um sonoro não da coleguinha de classe, de uma roupa brega ou de um careca, mesmo sabendo que ele havia acabado de passar no vestibular.

Hoje, em vez de ZOMBAR, as pessoas preferem ZOAR.

Créditos

Copyright © 2012 by Editora Globo S. A. para a presente edição Copyright © 2012 by Alberto Villas Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta edição pode ser utilizada ou reproduzida – por qualquer meio ou forma, seja mecânico ou eletrônico, fotocópia, gravação etc. – nem apropriada ou estocada em sistema de banco de dados, sem a expressa autorização da editora. Texto fixado conforme as regras do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (Decreto Legislativo nº 54, de 1995). Preparação de texto: Ana Tereza Clemente Revisão: Daniela Mateus e Araci dos Reis Capa, projeto gráfico e paginação: epizzo Ilustrações: Marina Mayumi Watanabe Foto do autor: Maria Clara Villas Produção para ebook: Fábrica de Pixel 1ª edição, 2012 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Villas, Alberto Pequeno dicionário brasileiro da língua morta / Alberto Villas ; [ilustrações de Mariana Mayumi Watanabe]. -- São Paulo : Globo, 2012. 2.013 kb; ePUB ISBN 978-85-250-5172-1 1. Crônicas 2. Humor 3. Palavras em desuso 4. Português - Expressões 5. Termos e frases 6. Usos e costumes I. Watanabe, Mariana Mayumi. II. Título. 12-02415 CDD-869.9802 Índices para catálogo sistemático: 1. Palavras e expressões antigas : Coletâneas : Tratamento humorístico 869.9802 Editora Globo S. A. Av. Jaguaré, 1485 – 05346-902 – São Paulo – SP www.globolivros.com.br Este livro, composto na fonte Frutiger, foi impresso em papel Pólen Soft 80 g na Imprensa da Fé. São Paulo, março de 2012.

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