O Presente da Batalha – Livro N 17 Da Série O Anel Do Feiticeiro – Morgan Rice

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Category: Ficção Fantástica

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D O M D A B A T A L H A (LIVRO N 17 EM O ANEL DO FEITICEIRO)

MORGAN RICE

Acerca de Morgan Rice

Morgan Rice é a best-seller nº1 e a autora best-selling do USA TODAY com a série de fantasia épica O ANEL DO FEITICEIRO, composta por dezassete livros; do best-seller nº1 da série OS DIÁRIOS DO VAMPIRO, composta por onze livros (a continuar); do best-seller nº1 da série TRILOGIA DA SOBREVIVÊNCIA, um thriller pós-apocalíptico composto por dois livros (a continuar); e da nova série de fantasia épica REIS E FEITICEIROS. Os livros de Morgan estão disponíveis em edições áudio e impressas e as traduções estão disponíveis em mais de 25 idiomas. TRANSFORMADA (Livro n 1 da série Diários de um Vampiro), ARENA UM (Livro n 1 da série A Trilogia da Sobrevivência) e EM BUSCA DE HERÓIS (Livro n 1 da série O Anel do Feiticeiro) e A ASCENÇÃO DOS DRAGÕES (Reis e Feiticeiros – Livro n 1) estão disponíveis gratuitamente no Amazon! Morgan adora ouvir a sua opinião, pelo que, por favor, sinta-se à vontade para visitar www.morganricebooks.com e juntar-se à lista de endereços eletrónicos, receber um livro grátis, receber ofertas, fazer o download da aplicação grátis, obter as últimas notícias exclusivas, ligar-se ao Facebook e ao Twitter e manter-se em contacto!

Seleção de aclamações para Morgan Rice

"Uma fantasia espirituosa que entrelaça elementos de mistério e intriga no seu enredo. A Busca de Heróis tem tudo a ver com a criação da coragem e com a compreensão do propósito da vida e como estas levam ao crescimento, maturidade e excelência… Para os que procuram aventuras de fantasia com substância, os protagonistas, estratagemas e ações proporcionam um conjunto vigoroso de encontros que se relacionam com a evolução de Thor desde criança sonhadora a jovem adulto que enfrenta hipóteses impossíveis de sobrevivência… Apenas o princípio do que promete ser uma série de literatura juvenil épica." --Midwest Book Review (D. Donovan, eBook Reviewer) "O ANEL DO FEITICEIRO reúne todos os ingredientes para um sucesso instantâneo: enredos, intrigas, mistério, cavaleiros valentes e relacionamentos que florescem repletos de corações partidos, decepções e traições. O livro manterá o leitor entretido por horas e agradará a pessoas de todas as idades. Recomendado para a biblioteca permanente de todos os leitores de fantasia." --Books and Movie Reviews, Roberto Mattos. "A fantasia épica de entretenimento de Rice [O ANEL DO FEITICEIRO] inclui traços clássicos do género – um cenário forte, altamente inspirado pela Escócia antiga e pela sua história, e um boa noção da intriga da corte." —Kirkus Reviews "Adorei como a Morgan Rice construiu a personagem de Thor e o mundo no qual ele vivia. A paisagem e as criaturas que por lá vagueavam estavam muito bem descritas... Eu adorei [a trama]. Foi curta e doce… Havia apenas o número certo de personagens secundárias e assim não fiquei confundido. Havia aventuras e momentos angustiantes, mas a ação retratada não era demasiado grotesca. O livro seria perfeito para um jovem leitor... O início de algo notável está lá..." --San Francisco Book Review "Neste primeiro livro cheio de ação da série de fantasia épica Anel do Feiticeiro (que conta atualmente com 14 livros), Rice introduz os leitores ao Thorgrin "Thor" McLeod de 14 anos, cujo sonho é juntar-se à Legião de Prata, aos cavaleiros de elite que servem o rei... A escrita de Rice é sólida e a premissa intrigante." --Publishers Weekly "[EM BUSCA DE HERÓIS] é uma leitura rápida e fácil. O fim dos capítulos é de tal forma que você tem de ler o que acontece a seguir e não vai querer pôr o livro de lado. Existem alguns erros no livro e alguns nomes estão mal, mas isso não nos desvia da história global. O final do livro fez-me querer começar o livro seguinte imediatamente e foi isso que eu fiz. Todos os nove livros da série o Anel do Feiticeiro podem ser atualmente comprados na loja do Kindle e o Em Busca de Heróis é atualmente grátis para você se iniciar! Se você está à procura de um algo rápido e divertido de ler durante as férias este livro servirá muito bem." --FantasyOnline.net

Livros de Morgan Rice DAS COROAS E GLÓRIA ESCRAVA, GUERREIRA E RAINHA (Livro nº1) REIS E FEITICEIROS A ASCENSÃO DOS DRAGÕES (Livro nº1) A ASCENSÃO DOS BRAVOS (Livro nº2) O PESO DA HONRA (Livro nº3) UMA FORJA DE VALENTIA (Livro nº4) UM REINO DE SOMBRAS (Livro nº5) A NOITE DOS CORAJOSOS (Livro nº6) O ANEL DO FEITICEIRO EM BUSCA DE HERÓIS (Livro nº1) UMA MARCHA DE REIS (Livro nº2) UM DESTINO DE DRAGÕES (Livro nº3) UM GRITO DE HONRA (Livro nº4) UM VOTO DE GLÓRIA (Livro nº5) UMA CARGA DE VALOR (Livro nº6) UM RITO DE ESPADAS (Livro nº7) UM ESCUDO DE ARMAS (Livro nº8) UM CÉU DE FEITIÇOS (Livro nº9) UM MAR DE ESCUDOS (Livro nº10)

UM REINADO DE AÇO (Livro nº11) UMA TERRA DE FOGO (Livro nº12) UM GOVERNO DE RAINHAS (Livro nº 13) UM JURAMENTO DE IRMÃOS (Livro nº 14) UM SONHO DE MORTAIS (Livro nº 15) UMA JUSTA DE CAVALEIROS (Livro nº 16) O PRESENTE DA BATALHA (Livro nº 17) TRILOGIA DE SOBREVIVÊNCIA ARENA UM: TRAFICANTES DE ESCRAVOS (Livro nº 1) ARENA DOIS (Livro nº 2) MEMÓRIAS DE UM VAMPIRO TRANSFORMADA (Livro nº 1) AMADA (Livro nº 2) TRAÍDA (Livro nº 3) PREDESTINADA (Livro nº 4) DESEJADA (Livro nº 5) COMPROMETIDA (Livro nº 6) PROMETIDA (Livro nº 7) ENCONTRADA (Livro nº 8) RESSUSCITADA (Livro nº 9) ALMEJADA (Livro nº 10) DESTINADA (Livro nº 11) OBCECADA (Livro nº 12)



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Copyright © 2014 por Morgan Rice. Todos os direitos reservados. Exceto conforme permitido pela Lei de Direitos de Autor dos EUA de 1976, nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida, distribuída ou transmitida de qualquer forma ou por qualquer meio, ou armazenada numa base de dados ou sistema de recuperação, sem a autorização prévia da autora. Este e-book é licenciado para o seu uso pessoal. Este e-book não pode ser revendido ou cedido a outras pessoas. Se quiser compartilhar este livro com outra pessoa, por favor, compre uma cópia adicional para cada destinatário. Se está a ler este livro e não o comprou, ou se ele não foi comprado apenas para seu uso pessoal, por favor, devolva-o e adquira a sua própria cópia. Obrigado por respeitar o trabalho árduo desta autora. Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, empresas, organizações, lugares, eventos e incidentes são produto da imaginação da autora ou foram usados de maneira fictícia. Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou falecidas, é mera coincidência. Imagem da capa Copyright Photosani, usada com autorização da Shutterstock.com.

CONTEÚDO CAPÍTULO UM CAPÍTULO DOIS CAPÍTULO TRÊS CAPÍTULO QUATRO CAPÍTULO CINCO CAPÍTULO SEIS CAPÍTULO SETE CAPÍTULO OITO CAPÍTULO NOVE CAPÍTULO DEZ CAPÍTULO ONZE CAPÍTULO DOZE CAPÍTULO TREZE CAPÍTULO CATORZE CAPÍTULO QUINZE CAPÍTULO DEZASSEIS CAPÍTULO DEZASSETE CAPÍTULO DEZOITO CAPÍTULO DEZANOVE CAPÍTULO VINTE CAPÍTULO VINTE E UM CAPÍTULO VINTE E DOIS CAPÍTULO VINTE E TRÊS CAPÍTULO VINTE E QUATRO CAPÍTULO VINTE E CINCO CAPÍTULO VINTE E SEIS CAPÍTULO VINTE E SETE CAPÍTULO VINTE E OITO CAPÍTULO VINTE E NOVE CAPÍTULO TRINTA CAPÍTULO TRINTA E UM CAPÍTULO TRINTA E DOIS CAPÍTULO TRINTA E TRÊS CAPÍTULO TRINTA E QUATRO CAPÍTULO TRINTA E CINCO CAPÍTULO TRINTA E SEIS CAPÍTULO TRINTA E SETE CAPÍTULO TRINTA E OITO CAPÍTULO TRINTA E NOVE CAPÍTULO QUARENTA CAPÍTULO QUARENTA E UM CAPÍTULO QUARENTA E DOIS CHAPTER FORTY THREE

CAPÍTULO QUARENTA E QUATRO CAPÍTULO QUARENTA E CINCO CAPÍTULO QUARENTA E SEIS

Para Jake Maynard. Um verdadeiro guerreiro.

“Tu vens contra mim com uma espada, uma lança e um dardo — mas eu vou contra ti com o Nome do Senhor, Mestre das Legiões, Deus dos Batalhões.” --David para Goliath I Samuel, 17:45

CAPÍTULO UM Thorgrin estava de pé sobre o navio que balançava violentamente, olhando para a frente e, lentamente, horrorizado, começou a perceber o que tinha acabado de fazer. Ele olhou em choque para baixo, para a sua própria mão, que ainda segurava a Espada dos Mortos. Em seguida, olhou para cima e viu, apenas a algumas polegadas de distância, o rosto do seu melhor amigo, Reece, a olhar fixamente para ele, com os olhos bem abertos de dor e traição. As mãos de Thor tremiam violentamente e ele percebeu que tinha acabado de esfaquear o seu melhor amigo no peito e estava a vê-lo a morrer diante de si. Thor não conseguia entender o que tinha acontecido. Enquanto o navio abanava e virava, as correntes continuavam a puxá-los através do Estreito da Loucura, até que, finalmente, eles emergiram do outro lado. As correntes acalmaram, o navio estabilizou, as nuvens espessas começaram a subir, e, com uma rajada final, eles saíram na direção de águas calmas, paradas. Ao fazerem-no, o nevoeiro que envolvera a mente de Thor levantou e ele começou a sentir o seu velho eu, a ver o mundo com clareza mais uma vez. Ele olhou para Reece e ficou destroçado quando percebeu que não era o rosto de um inimigo, mas do seu melhor amigo. Lentamente, ele percebeu o que tinha feito, percebeu que tinha estado nas garras de algo maior do que ele mesmo, um espírito de loucura que ele não conseguia controlar e que o tinha obrigado a realizar aquele ato horrível. "NÃO!", gritou Thorgrin, com uma voz angustiada. Thor extraiu a Espada dos Mortos do peito do seu melhor amigo e, ao fazê-lo, Reece engasgou-se e começou a entrar em colapso. Não querendo colocar a vista em cima da espada, Thor atirou-a para longe, caindo com um baque oco no convés. Thor atirou-se de joelhos e apanhou Reece, segurando-o nos seus braços, determinado a salvá-lo. "Reece!", gritou ele, esmagado pela culpa. Thor pressionou a palma da sua mão contra a ferida, tentando parar o sangue. Mesmo assim, ele conseguia sentir o sangue quente a escorrer-lhe por entre os dedos, conseguia sentir a força vital de Reece a esvaziar-se enquanto o segurava nos seus braços. Elden, Matus, Indra e Angel aproximaram-se rapidamente, também eles finalmente livres das garras da sua loucura, aglomerando-se ao redor deles. Thor fechou os olhos e rezou com tudo o que tinha para que o seu amigo voltasse a si, para que lhe fosse dada a ele, Thor, uma hipótese de corrigir o seu erro. Thor ouviu passos e, ao olhar para cima, viu Selese a aproximar-se rapidamente, com a pele mais pálida que ele alguma vez a tinha visto, com os olhos a brilhar com uma luz que era de outro mundo. Ela caiu de joelhos perante Reece, tomou-o nos braços e, ao fazê-lo, Thor largou-o, vendo o brilho em torno dela e lembrando-se dos seus poderes enquanto curandeira. Selese olhou para Thor, com um olhar que ardia de intensidade. "Só tu o podes salvar", disse ela com urgência. "Coloca a mão na sua ferida agora!", ordenou ela. Thor colocou a palma da mão sobre o peito de Reece e, ao fazê-lo, Selese colocou a mão sobre a dele. Ele conseguia sentir o calor e o poder a percorrer a palma da mão dela sobre a sua mão e na direção da ferida de Reece. Ela fechou os olhos e começou a cantarolar. Thor sentiu uma onda de calor a surgir no corpo do seu amigo. Thor rezou com tudo o que tinha para que o seu amigo voltasse a si, para que fosse perdoado de qualquer que fosse a loucura que o tinha levado a fazer aquilo. Para grande alívio de Thor, Reece abriu os olhos devagar. Ele pestanejou e olhou para o céu, e, depois, lentamente, sentou-se. Thor observava, espantado, enquanto Reece pestanejava várias vezes e olhava para a sua ferida: estava totalmente sarada. Thor estava sem palavras, rendido, maravilhado pelos poderes de Selese. "Meu irmão!", gritou Thorgrin.

Ele aproximou-se e abraçou-o. Reece, desorientado, abraçou-o lentamente de volta e Thor ajudou-o a levantar-se. "Estás vivo!", exclamou Thor, mal ousando acreditar, agarrando-o pelos ombros. Thor pensou em todas as batalhas em que tinham estado juntos, todas as aventuras. Ele não iria conseguir tolerar a ideia de o perder. "E porque é que eu não haveria de estar?", pestanejava Reece, confuso. Ele olhou em toda a volta para os rostos inquisitivos da Legião, parecendo baralhado. Os outros aproximaram-se e abraçaram-no, um a um. Enquanto os outros se aproximavam, Thor olhava à sua volta fazendo um balanço. De repente, ele percebeu, com horror, que faltava alguém: O'Connor. Thor correram para a amurada lateral e freneticamente procuraram nas águas, lembrando-se de que O'Connor, no auge da sua loucura, tinha saltado fora do navio para as correntes furiosas. "O'Connor!", gritou ele. Os outros correram-se até ao seu lado e procuraram nas águas também. Thor olhou para baixo e esticou o pescoço para olhar para trás para o Estreito, para as furiosas águas vermelhas, cheias de sangue - e, ao fazê-lo, viu O'Connor a debater-se e a ser sugado precisamente junto do limite do Estreito. Thor não perdeu tempo; reagiu instintivamente e saltou por cima da amurada, mergulhando de cabeça sobre a borda, para o mar. Submerso, assustado com a temperatura quente da água, Thor sentiu o quão espessa aquela água era, como se estivesse a nadar através do sangue. A água estava tão quente que era como nadar em lama. Thor precisou de toda a sua força para nadar através das águas viscosas de volta à superfície. Ele olhou para O'Connor, que começava a afundar-se, conseguindo ver o pânico nos seus olhos. Ele também via, à medida que O'Connor cruzava a fronteira para o mar aberto, que a loucura o começava a abandonar. Ainda assim, ele debatia-se e começava a afundar-se. Thor sabia que, se não o alcançasse logo, em pouco tempo ele se afundaria até ao fundo do Estreito e nunca mais seria encontrado. Thor redobrou os seus esforços, nadando com todas as suas forças, nadando através da intensa dor e exaustão que sentia nos ombros. E, no entanto, assim que se aproximou, O'Connor começou a afundar-se na água. Thor sentiu uma injeção de adrenalina, ao ver o seu amigo a afundar-se, sabendo que era naquele momento ou nunca. Ele atirou-se para a frente, mergulhou, dando um grande impulso com os pés. Ele nadou debaixo de água, esforçando-se por abrir os olhos e ver através do líquido espesso; ele não conseguia. Os olhos ardiam muito. Thor fechou os olhos e baseou-se nos seus instintos. Convocou uma parte profunda de si mesmo, uma que conseguia ver sem ver. Com um outro impulso desesperado, Thor avançou, apalpando as águas diante de si, sentindo algo: uma manga. Exultante, ele agarrou O'Connor com firmeza, espantado com o peso dele enquanto ele se afundava. Thor puxou, virando-se com toda a sua força na direção da superfície. Ele estava aflito, com cada músculo do seu corpo a protestar, enquanto dava aos pés e nadava para a liberdade. As águas eram tão grossas, faziam tanta pressão, que ele sentia que os seus pulmões podiam explodir. A cada movimento das suas mãos, ele sentia como se estivesse a puxar o mundo. Precisamente quando ele pensava que nunca iria conseguir fazê-lo, que se iria afundar de volta nas profundezas com O'Connor e morrer ali naquele lugar horrível, Thor subitamente rompeu a superfície da água. Ofegando por ar, ele virou-se, olhou ao redor e viu, com alívio, que tinham emergido no outro lado do Estreito da Loucura, em águas abertas. Ele viu que a cabeça de O'Connor apareceu ao seu lado, vendo que ele, também, estava ofegante. A sua sensação de alívio estava completa.

Thor observou a loucura a abandonar o seu amigo e a lucidez lentamente a voltar aos seus olhos. O'Connor pestanejou várias vezes, tossindo e ofegando fora de água. A seguir, olhou para Thor, interrogativamente. "O que é que estamos a fazer aqui?", perguntou ele, confuso. "Onde estamos?" "Thorgrin!", ouviu-se uma voz. Thor ouviu um respingar na água e virou-se vendo que era uma corda grossa a aterrar na água ao seu lado. Ele olhou para cima e viu Angel de pé, lá em cima, junto com os outros na amurada do navio que tinha navegado de volta ao encontro deles. Thor agarrou-o, agarrando O'Connor com a outra mão, e, ao fazê-lo, a corda moveu-se. Era Elden que se debruçou com toda a sua grande força e os puxou a ambos pelo casco acima. A outra legião juntou-se e puxou também, um puxão de cada vez, até que Thor se sentiu a subir pelo ar e, finalmente, sobre a amurada. Ambos pousaram no convés do navio com um baque. Thor, exausto, sem fôlego, ainda tossindo água do mar, estava esparramado no convés ao lado O'Connor; O'Connor virou-se e olhou para ele, igualmente exausto. Thor conseguia via a gratidão nos seus olhos. Conseguia via O'Connor a agradecer-lhe. Nenhuma palavra precisa ser dita - Thor compreendia. Eles tinham um código de silêncio. Eles eram irmãos de Legião. Sacrificarem-se um pelo outro era o que eles faziam. Era para isso que eles viviam. De repente, O'Connor começou a rir-se. Ao princípio Thor estava preocupado, perguntando-se se ele ainda estaria louco, mas então ele percebeu que O'Connor estava bem. Ele estava apenas de volta ao seu antigo eu. Ele estava a rir-se de alívio, de alegria por estar vivo. Thor começou a rir-se, também, com a tensão a ficar para trás. Todos os outros se juntaram. Eles estavam vivos; contra todas as probabilidades, eles estavam vivos. A outra Legião aproximou-se e agarrou em O'Connor e Thor, levantando-os. Todos eles apertaram as mãos, abraçando-se com alegria. O navio, finalmente, entrou nas águas esperando-o uma navegação tranquila. Thor olhou ao longe e viu, com alívio, que eles estavam cada vez mais afastados do Estreito. A lucidez estava a descer sobre todos eles. Eles haviam conseguido; eles tinham haviam passado através do Estreito, embora a um alto preço. Thor achava que eles não conseguiriam sobreviver a uma viagem pelo estreito novamente. "Ali!", gritou Matus. Thor virou-se, juntamente com os outros, seguindo a direção do seu dedo que apontava - e ficou atordoado com o que viu diante deles. Toda uma nova vista se espalhava no horizonte diante deles, uma nova paisagem naquela Terra do Sangue. Era uma paisagem densa de nuvens melancólicas e escuras que persistiam baixas no horizonte, com a água ainda espessa com sangue – e, no entanto, naquele momento, o contorno da costa estava mais perto, mais visível. Era preto, desprovido de árvores ou de vida, parecendo cinzas e lama. Os batimentos cardíacos de Thor aceleraram quando vislumbrou, ao longe, um castelo preto, feito do que parecia ser terra, cinzas e lama, erguendo-se do chão como se fizesse parte dele. Thor conseguia sentir o mal a emanar dele. Conduzindo ao castelo havia um canal estreito, com os seus cursos de água ladeados com tochas, bloqueado por uma ponte levadiça. Thor viu tochas acesas nas janelas do castelo e sentiu uma súbita sensação de certeza: convicto, ele sabia que Guwayne estava dentro daquele castelo, esperando por si. "Encher as velas!", gritou Thor, sentindo-se novamente a controlar, sentindo um renovado sentido de propósito. Os seus irmãos entraram em ação, içando as velas e apanhando por trás a forte brisa que os empurrava para a frente. Pela primeira vez desde que entrara naquela Terra do Sangue, Thor sentiu-se otimista, uma

sensação de que poderia realmente encontrar o seu filho e resgatá-lo dali. "Estou feliz por estares vivo", disse uma voz. Thor virou-se e olhou para baixo, vendo Angel a sorrir para si, puxando-o pela camisa. Ele sorriu, ajoelhou-se ao lado dela, e abraçou-a. "Assim como eu estou feliz por estares viva", ele respondeu. "Eu não entendo o que aconteceu", disse ela. "Num minuto eu era eu mesma, e, no seguinte... era como se eu não me conhecesse a mim própria." Thor abanou a cabeça lentamente, tentando esquecer. "A loucura é o pior inimigo de todos", respondeu ele. "Nós, nós mesmos, somos o único inimigo que não conseguimos vencer." Ela franziu a testa, preocupada. "Será que vai acontecer de novo?", perguntou ela. "Há mais alguma coisa neste lugar como aquela?", perguntou ela, com uma voz amedrontrada enquanto observava o horizonte. Thor observava-o também, perguntando-se exatamente a mesma coisa – quando, demasiado depressa, para seu pânico, a resposta veio rapidamente na direção deles. Ouviu-se um tremendo respingar, como o som de uma baleia à superfície. Thor ficou surpreendido ao ver emergir à sua frente a criatura mais hedionda que alguma vez havia visto. Parecia uma lula monstruosa, com cinquenta pés de altura, vermelha brilhante, a cor do sangue, surgindo sobre o navio ao sair disparada das águas, com os seus infinitos tentáculos com trinta pés de comprimento, dezenas deles espalhados por todas as direções. Os seus redondos olhos amarelos olhavam para baixo na direção deles, cheios de fúria. A sua enorme boca, revestida com presas amarelas e afiadas, abriu-se com um som nauseante. A criatura extinguiu qualquer luz que os céus sombrios tinham permitido e emitindo um gritou sobrenatural quando começou a descer na direção deles, com os seus tentáculos a espalharem-se, pronta para consumir todo o navio. Thor olhava apavorado para a criatura, apanhado pela sua sombra com todos os outros. Ele sabia que tinha ido de uma morte certa para a próxima.

CAPÍTULO DOIS O comandante do Império chicoteava a sua zerta sem parar enquanto galopava através do Grande Desperdício, seguindo o trilho, como fazia há dias, pelo chão do deserto. Atrás de si os seus homens cavalgavam, ofegantes, à beira do colapso, já que ele não lhes havia dado um momento para descansar desde que tinham começado a cavalgar - nem mesmo durante a noite. Ele sabia como dirigir zertas pelo chão - e sabia como dirigir homens também. Ele não tinha piedade de si mesmo e, certamente, não tinha nenhum dos seus homens. Ele queria que eles fossem impermeáveis à exaustão, ao calor e ao frio - especialmente quando estavam numa missão tão sagrada como aquela. Afinal, se aquele trilho realmente os levasse até onde ele esperava que os levasse – até ao lendário Cume - tal poderia mudar todo o destino do Império. O comandante enterrou os seus calcanhares nas costas da zerta até ela guinchar, forçando-a a ir cada vez mais rápido, até praticamente tropeçar em si própria. Ele piscou os olhos na direção do sol, examinando o trilho à medida que iam avançando. Ele havia seguido muitos trilhos ao longo da sua vida e havia matado muitas pessoas no final deles – no entanto, ele nunca havia seguido um trilho tão fascinante quanto aquele. Ele conseguia sentir o quão próximo estava da maior descoberta na história do Império. O seu nome seria imortalizado, entoado por gerações. Subiram um cume no deserto e ele começou a ouvir um fraco ruído a aumentar, como uma tempestade no deserto; ele olhou ao longe enquanto o subiam, esperando ver uma tempestade de areia vindo na sua direção. Ele ficou chocado, por detetar, em vez disso, uma parede imóvel de areia a cem jardas de distância, que se erguia a partir do solo na direção do céu, girando e agitando-se, como um tornado em atividade. Ele parou, com os seus homens ao seu lado, e observava, curioso, uma vez que a parede parecia não se mover. Ele não conseguia entender. Era uma parede de areia em fúria, mas não se aproximava. Ele perguntava-se o que estava do outro lado. De alguma forma, ele persentia que era o Cume. "O teu trilho termina", disse um dos seus soldados, ironicamente. "Não podemos passar por aquela parede", disse outro. "Não nos trouxeste a lado nenhum a não ser a mais areia", disse outro. O comandante abanou a cabeça lentamente, franzindo a cara para eles com convicção. "E se ali existir uma terra do outro lado da areia?", ele retorquiu. "Do outro lado?", perguntou um soldado. "Estás louco. Não passa de uma nuvem de areia, um desperdício sem fim, como o resto deste deserto.” "Admite o teu fracasso", disse outro soldado. "Volta para trás agora - ou caso contrário, nós vamos voltar sem ti." O comandante virou-se e encarou os seus soldados, chocado com a sua insolência - e viu desprezo e rebelião nos seus olhos. Ele sabia que tinha de agir rapidamente se quisesse acabar com aquilo. Num acesso súbito de raiva, o comandante baixou-se, tirou uma adaga do seu cinto e girou-a para trás num movimento rápido, alojando-a na garganta do soldado. O soldado arfou por ar e depois caiu para trás, da sua zerta abaixo, batendo no chão e acumulando uma nova piscina de sangue no chão do deserto. Em poucos instantes, apareceu do nada um enxame de insetos, cobrindo o seu corpo e comendo-o. Os outros soldados olhavam agora com medo para o seu comandante. "Existe mais alguém que queira desafiar o meu comando?", perguntou. Os homens olhavam para ele nervosamente, mas desta vez não disseram nada. "Ou o deserto mata-vos", disse ele, "ou mato-vos eu. A escolha é vossa." O comandante avançou para a frente, baixou a cabeça e deu grande grito de guerra ao galopar

direitamente para a parede da areia, sabendo que tal poderia significar a sua morte. Ele sabia que os seus homens o seguiriam. Um momento depois, ele ouviu o som das suas zertas e sorriu de satisfação. Às vezes, eles só tinham de ser mantidos na ordem. Ele gritou ao entrar no tornado de areia. Parecia que era uma tonelada de areia em cima dele, vinda de todas as direções, escoriando-lhe a pele enquanto ele avançava cada vez mais lá para dentro. O barulho era tão grande, como se estivesse um milhar de vespas nos seus ouvidos, e, ainda assim, ele avançava, esporeando a sua zerta, forçando-a, mesmo enquanto ela protestava, entrando cada vez mais lá para dentro. Ele sentia a areia a raspar-lhe a cabeça, os olhos e o rosto, e ele sentia como se pudesse ser rasgado em pedaços. Ainda assim, ele continuou a cavalgar. Precisamente quando ele se perguntava se os seus homens estariam bem, se aquela parede levava a nada, se todos iriam morrer ali naquele lugar, de repente, para grande alívio do comandante, ele saiu de rompante para fora da areia e de volta para a luz do dia, sem mais areia a arranhá-lo, sem mais ruído nos seus ouvidos, nada para além de céu aberto e ar - que ele nunca tinha ficado tão feliz de ver. Ao redor dele, os seus homens saíram também de rompante, escoriados e a sangrar como ele, juntamente com as zertas, todas parecendo mais mortas do que vivas, mas todas vivas. E, quando o comandante olhou diante de si, o seu coração acelerou e ele ficou imóvel com a surpreendente visão que teve. Ele não conseguia respirar com o que via, e, lenta mas seguramente, ele sentiu-se orgulhoso com uma súbita sensação de vitória, de triunfo. Picos majestosos erguiam-se diretamente para o céu, formando um círculo. Um lugar que só poderia ser uma coisa: O Cume. Ali estava, no horizonte, apontado para o ar, magnífico, vasto, estendendo-se para fora de vista em ambos os lados. E ali, no topo, a brilhar à luz do sol, ele ficou surpreendido ao ver milhares de soldados de armadura brilhante, a patrulhar. Ele tinha-o encontrado. Ele, e somente ele, tinha-o encontrado. Os seus homens pararam de repente ao seu lado dele. Ele viu-os, também, a olhar para o Cume em contemplação e em admiração, com as suas bocas abertas, todos a pensar a mesma coisa que ele: aquele momento era história. Eles seriam todos heróis, conhecidos por gerações na história do Império. Com um largo sorriso, o comandante virou-se e encarou os seus homens, que agora olhavam para ele com deferência; ele, então, puxou a sua zerta e voltou-a ao contrário, preparando-se para cavalgar de volta através da parede de areia - todo o caminho, sem parar, até chegar à base do Império e relatar aos Cavaleiros dos Sete o que ele, pessoalmente, tinha descoberto. Ele sabia que em poucos dias, toda a força do Império iria descer até àquele lugar, o peso de um milhão de homens empenhados na destruição. Eles iriam passar por aquele muro de areia, escalar o Cume, e acabar com aqueles cavaleiros, conquistando os restos finais do livre território do Império. "Homens", disse ele, "a nossa hora chegou. Preparem-se para terem os vossos nomes gravados na eternidade."

CAPÍTULO TRÊS Kendrick, Brandt, Atme, Koldo e Ludvig caminhavam pelo Grande Desperdício, na direção dos sóis nascentes da aurora do deserto, a pé, durante toda a noite, determinados a resgatar o jovem Kaden. Eles caminhavam sombriamente, caindo num ritmo silencioso, todos com as mãos sobre as armas, todos alerta, seguindo o trilho dos Caminhantes da Areia. As centenas de pegadas levavam-nos cada vez mais para as profundezas daquela paisagem de desolação. Kendrick começou a questionar-se se alguma vez aquilo chegaria ao fim. Ele estava admirado por se encontrar de volta àquele lugar, de volta àquele Desperdício, lugar onde ele havia jurado nunca mais voltar - especialmente a pé, sem cavalos, sem provisões e sem maneira de voltar para atrás. Eles tinham depositado a sua fé nos outros cavaleiros do Cume, que voltariam para eles com os cavalos – para o caso de eles não o fazerem, eles tinham comprado para si próprios um bilhete só de ida para uma missão sem retorno. Mas era isso o que significava a valentia, Kendrick sabia. Kaden, um bom jovem guerreiro com um grande coração, que tinha nobremente ficado a vigiar, aventurando-se corajosamente no deserto para dar provas do seu valor enquanto montava guarda, tinha sido sequestrado por aquelas bestas selvagens. Koldo e Ludvig não podiam virar costas ao seu irmão mais novo, por muito sombrias que fossem as hipóteses - e Kendrick, Brandt e Atme não podiam virar costas a todos eles; o seu sentido de dever e honra compelia-os a isso. Estes bons cavaleiros do Cume haviam-nos acolhido com hospitalidade e gratidão quando eles mais haviam precisado - e, agora, estava na hora de retribuir o favor - custasse o que custasse. A morte pouco significava para ele - mas a honra significava tudo. "Conta-me sobre Kaden", disse Kendrick, voltando-se para Koldo, querendo quebrar a monotonia do silêncio. Koldo olhou, sobressaltado devido ao silêncio profundo, e suspirou. "Ele é um dos melhores jovens guerreiros que jamais irás encontrar", disse ele. "O seu coração é sempre maior do que a sua idade. Ele queria ser um homem antes mesmo de ser um rapaz, ele queria manejar uma espada antes mesmo de conseguir segurar uma.” Ele abanou a cabeça. "Não me surpreende que por se aventurar tanto, tenha sido o primeiro numa patrulha a ser levado. Ele não recuava de nada - especialmente se isso significasse vigiar os outros." Ludvig entrou na conversa. "Se algum de nós tivesse sido levado", disse ele, "o nosso pequeno irmão seria o primeiro a voluntariar-se. Ele é o mais novo de nós e representa o que há de melhor em nós." Kendrick tinha assumido esse tanto do que havia observado ao falar com Kaden. Ele tinha reconhecido o seu espírito guerreiro, mesmo sendo tão jovem. Kendrick sempre tinha sabido, que a idade não tinha nada a ver com ser um guerreiro: ou se tinha um espírito guerreiro ou não se tinha. O espírito não conseguia mentir. Eles continuaram a marchar durante muito tempo, caindo novamente num silêncio firme à medida que os sóis subiam mais alto, até que, por fim, Brandt aclarou a sua a garganta. "E os Caminhantes da Areia?", Brandt perguntou a Koldo. Koldo virou-se para ele enquanto andavam. "Um grupo vicioso de nómadas", ele respondeu. "Mais bestas do que homens. Eles são conhecidos por patrulhar a periferia da Parede de Areia." "Necrófagos", entrou Ludvig na conversa. "Eles são conhecidos por arrastarem as suas vítimas para as profundezas do deserto." "Para onde?", perguntou Atme.

Koldo e Ludvig trocaram um olhar alarmante. "Para onde quer que eles estejam reunidos - onde eles realizem um ritual e os façam em pedaços." Kendrick encolheu-se ao pensar em Kaden e no destino que o esperava. "Então, há pouco tempo a perder", disse Kendrick. "Temos de correr, ok?" Olharam todos uns para os outros, sabendo a imensidão daquele lugar e o longo caminho que teriam de percorrer a correr - especialmente ao calor, que se acentuava, e com as armaduras. Todos sabiam o quão arriscado seria não irem a andar naquela paisagem implacável. No entanto, eles não hesitaram e desataram, juntos, a correr. Corriam para o vazio. Em poucos instantes, o suor iria escorrer-lhes pelos rostos. Eles sabiam que se não encontrassem Kaden em breve, aquele deserto iria matá-los a todos. * Kendrick arfava por ar enquanto corria, o segundo sol agora lá no alto, com a sua luz ofuscante e o seu calor sufocante, e, ainda assim, ele e os outros continuavam a correr, todos ofegantes, com as suas armaduras a chocalhar enquanto corriam. O suor escorria pelo rosto de Kendrick e picava-lhe tanto os olhos que ele mal conseguia ver. Com os seus pulmões quase a explodir, ele nunca tinha ansiado tanto por oxigénio. Kendrick nunca tinha sentido nada parecido com o calor daqueles sóis, tão intensos, sentindo como se lhe fossem arrancar a pele queimada diretamente do seu corpo. Eles não conseguiriam ir muito mais longe com aquele calor, naquele ritmo, Kendrick sabia; em breve, iriam todos morrer ali, colapsar, tornando-se nada mais do que comida para insetos. De fato, enquanto corriam, Kendrick ouviu um guincho ao longe. Olhou para cima e viu os abutres a circular, o que já faziam há horas, baixando de altitude. Eles eram sempre os mais espertos: eles sabiam quando uma nova morte estava iminente. Kendrick perscrutava as pegadas dos Caminhantes da Areia, que se desvaneciam pelo horizonte fora. Ele não conseguia perceber como é que eles haviam corrido uma distância tão longa tão rapidamente. Ele só rezava para que Kaden ainda estivesse vivo, para que tudo aquilo não fosse em vão. No entanto, mesmo não querendo, ele não conseguia evitar duvidar se alguma vez iriam chegar até ele. Era como se estivessem a seguir pegadas na direção de um oceano vazante. Kendrick olhou à volta e viu os outros a caírem também, a cambalearem mais do que a correrem, mal se aguentando de pé – contudo, determinados como ele, a não parar. Kendrick sabia - todos eles sabiam que assim que parassem de se mover, morreriam. Kendrick queria quebrar a monotonia do silêncio, mas, naquele momento, ele estava muito cansado para falar com os outros. Ele forçava as suas as pernas a continuarem, sentindo-se como se elas pesassem um milhão de libras. Ele nem sequer ousava usar a energia para olhar para o horizonte, sabendo que não iria ver nada, sabendo que estava condenado a morrer ali depois de tudo. Em vez disso, ele olhava para o chão, observando o rastro, preservando qualquer energia preciosa que lhe restasse. Kendrick ouviu um barulho e, ao princípio, ele tinha a certeza que era a sua imaginação; no entanto, ouviu-o novamente, um som distante, como o zumbido de abelhas. Desta vez, ele obrigou-se a olhar para cima, sabendo que era estúpido, que nada poderia estar ali, e com medo de estar esperançoso. No entanto, desta vez, a visão diante de si fez o seu coração bater com entusiasmo. Lá, diante deles, talvez a cem jardas de distância, estava um ajuntamento dos Caminhantes da Areia. Kendrick chamou a atenção dos outros, tocando-lhes com força, que, saindo do seu devaneio, viram também. A batalha tinha chegado. Kendrick baixou a mão e agarrou a sua arma. Os outros fizeram-no, também, sentindo a familiar descarga de adrenalina. Os Caminhantes da Areia, dezenas deles, viraram-se e viram-nos, e, eles, também, prepararam-se, de

frente para eles. Eles gritaram ferozmente e desataram a correr. Kendrick ergueu a sua espada e soltou um grande grito de batalha, pronto, finalmente, para matar os seus inimigos - ou morrer a tentar.

CAPÍTULO QUATRO Gwendolyn caminhava solenemente pela capital do Cume, com Krohn ao seu lado, Steffen atrás dela, com a sua mente às voltas enquanto ponderava as palavras de Argon. Por um lado, ela estava exultante por ele ter recuperado, por estar de volta a si mesmo – porém, a sua profecia fatídica ecoava dentro da sua cabeça como uma maldição, como um sino anunciando a sua morte. Das declarações terríveis e enigmáticas que ele havia proferido, parecia que ela não estava destinada a ficar com Thor para sempre. Gwen lutava contra as lágrimas, caminhando rapidamente e determinada, em direção à torre. Ela tentava bloquear as palavras dele, recusando-se a permitir que a sua vida fosse dirigida por profecias. Ela tinha sido sempre assim e era disso que ela precisava para permanecer forte. O futuro podia estar escrito, mas, ainda assim, ela sentia também que o mesmo podia ser alterado. O destino, ela sentia, era maleável. Apenas era preciso desejá-lo com muita convicção, estando disposto a desistir do que fosse necessário - qualquer que fosse o custo. Aquele era um desses momentos. Gwen recusava-se absolutamente a permitir que Thorgrin e Guwayne se escapassem dela e ela sentia uma determinação crescente. Ela iria desafiar o seu destino, independentemente do que fosse preciso, sacrificando o que quer que fosse que o universo exigisse dela. Em circunstância alguma ela iria viver sem ver Thor ou Guwayne novamente. Como se a ouvir os seus pensamentos, Krohn gemeu encostando-se à sua perna, esfregando-se, enquanto ela caminhava pelas ruas. Acordada dos seus pensamentos, Gwen olhou e viu a torre surgir diante de si, vermelha, circular, erguendo-se mesmo no centro da capital, e ela lembrou-se: o culto. Ela tinha prometido ao Rei que iria entrar na torre e tentar resgatar o filho e filha dele das garras daquele culto, confrontar o seu líder sobre os livros antigos, o segredo que eles estavam a esconder que podia salvar o Cume da destruição. O coração de Gwen batia com força à medida que ela se aproximava da torre, antecipando o confronto diante dela. Ela queria ajudar o Rei, e o Cume, mas acima de tudo, ela queria andar lá fora no terreno à procura de Thor, de Guwayne, antes que fosse tarde demais para eles. Se ao menos, ela desejava, tivesse um dragão ao seu lado, como costumava ter; se ao menos Ralibar pudesse voltar para ela e a levasse a atravessar o mundo, para longe dali, para longe dos problemas do Império e de volta para o outro lado do mundo, para Thorgrin e Guwayne mais uma vez. Se ao menos eles pudessem todos voltar para o Anel e viver a vida como antes. No entanto, ela sabia que aqueles eram sonhos infantis. O Anel estava destruído e o Cume era tudo o que lhe restava. Ela tinha de enfrentar a sua realidade atual e fazer o possível para ajudar a salvar aquele lugar. "Minha senhora, posso acompanhá-la ao interior da torre?" Gwen virou-se ao ouvir a voz, acordando do seu devaneio, e ficou aliviada ao ver o seu velho amigo Steffen ao seu lado, com uma mão sobre a sua espada, andando de forma protetora ao seu lado, ansioso, como sempre, por a proteger. Ele era o conselheiro mais leal que ela tinha, ela sabia. Ela refletia sobre há tempo ele estava com ela, sentindo uma onda de gratidão. Gwen parou diante da ponte levadiça, que levava à torre, e ele espreitou-a desconfiado. "Eu não confio neste lugar", disse ele. Ela colocou uma mão reconfortante no pulso dele. "Tu és um verdadeiro e leal amigo, Steffen", ela respondeu. "Eu valorizo a tua amizade e a tua lealdade, mas este é um passo que devo tomar sozinha. Eu tenho de descobrir o que conseguir e ter-te ali vai colocá-los em alerta. Além disso", acrescentou, enquanto Krohn choramingava, "eu terei Krohn." Gwen olhou para baixo e viu Krohn a olhar para ela expectante, e ela acenou para ele. Steffen assentiu.

"Eu vou esperar por ti aqui", disse ele, "e se houver algum problema lá dentro, eu vou ter contigo." "Se eu não encontrar o que preciso dentro daquela torre", ela respondeu: "receio que vamos ter muitos mais problemas." * Gwen caminhou lentamente sobre a ponte levadiça, com Krohn ao lado dela. Os seus passos ecoavam na madeira à medida que ela atravessava as águas que suavemente ondulavam por baixo de si. Ao longo de toda a ponte dezenas de monges estavam alinhados, completamente atentos, em silêncio, usando mantos escarlate, com as mãos escondidas lá dentro, e de olhos fechados. Eles eram um estranho lote de guardas, desarmados, incrivelmente obedientes. Gwen não sabia há quanto tempo eles montavam ali guarda. Ela estava maravilhada com a sua intensa lealdade e devoção ao seu líder, e ela percebeu que era como dizia o Rei: todos o veneravam como um deus. Ela questionou-se onde é que se estava a meter. Ao aproximar-se, Gwen olhou para as enormes portas em arco que surgiram diante de si, feitas de carvalho antigo, inscritas com símbolos que ela não entendia. Ela observou maravilhada vários monges a aproximarem-se e a abrirem-nas. Elas rangeram, revelando um interior sombrio iluminado apenas por tochas. Uma corrente de ar frio foi ao seu encontro, cheirando levemente a incenso. Krohn ficou entorpecido ao seu lado, a rosnar, e Gwen entrou e ouviu a porta bater atrás de si. O som ecoou no interior. Gwen demorou um pouco a orientar-se. Estava escuro ali dentro, as paredes estavam iluminadas apenas por tochas e pela luz solar filtrada que entrava através de vitrais lá no alto. O ar ali sentia-se sagrado, silencioso, e ela sentia como se tivesse entrado numa igreja. Gwen olhou para cima e viu que a torre tinha uma espiral muito alta, com rampas graduais e circulares que levavam até aos pisos. Não havia janelas e as paredes ecoavam com o som fraco de cânticos. O incenso pairava pesado no ar e os monges apareciam e desapareciam a todo o tempo, caminhando como em transe para dentro e para fora dos aposentos. Alguns libertavam incenso e alguns ecoavam cânticos, enquanto outros ficavam em silêncio, perdidos a refletir. Gwen indagava-se ainda mais sobre a natureza deste culto. "O meu pai mandou-te?", ecoou uma voz. Gwen, assustada, virou-se e viu um homem ali a pouca distância, vestindo um longo manto escarlate, sorrindo para ela afavelmente. Ela mal podia acreditar o quanto ele se parecia com o seu pai, o Rei. "Eu sabia que ele iria enviar alguém, mais cedo ou mais tarde", disse Kristof. "Os seus esforços para me trazer de volta ao seu redil são infinitas. Por favor, vem", acenou ele, voltando-se para o lado e gesticulando com a mão. Gwen colocou-se ao lado dele enquanto caminhavam por um arqueado corredor de pedra, subindo gradualmente a rampa em círculos até aos níveis mais altos da torre. Gwen viu-se apanhada desprevenida; ela esperava um monge louco, um fanático religioso, e ficou surpreendida ao encontrar alguém afável e bem-humorado, e, claramente, no seu perfeito juízo. Kristof não parecia ser a pessoa perdida e louca que o seu pai tinha feito crer. "O teu pai chama por ti", disse ela finalmente, quebrando o silêncio depois de eles passarem por um monge que caminhava pela rampa na direção oposta sem nunca ter levantado o olhar do chão. "Ele quer que eu te leve para casa." Kristof abanou a cabeça. "Esse é o problema do meu pai", disse ele. "Ele acha que encontrou a única verdadeira casa no mundo. Mas eu aprendi algo", acrescentou ele, de frente para ela. "Há muitas verdadeiras casas neste mundo." Ele suspirou e eles continuaram a andar. Gwen queria dar-lhe o seu espaço, não querendo pressionar demasiado.

"O meu pai nunca iria aceitar quem eu sou", acrescentou ele finalmente. "Ele nunca vai aprender. Ele permanece preso nas suas velhas e limitadas crenças - e ele quer impô-las em mim. Mas eu não sou ele e ele nunca vai aceitar isso." "Não sentes falta da tua família?", perguntou Gwen, surpreendida por ele entregar a sua vida àquela torre. "Sinto", respondeu ele com sinceridade, surpreendendo-a. "Muito. A minha família é tudo para mim mas a minha vocação espiritual ainda é mais. A minha casa é aqui agora", disse ele, virando num corredor enquanto Gwen o seguia. "Eu agora sirvo Eldof. Ele é o meu sol. Se o conhecesses", disse ele, voltando-se e olhando para Gwen com uma intensidade que a assustou, "ele também seria o teu." Gwen desviou o olhar, não gostando da aparência do fanatismo nos seus olhos. "Eu não sirvo mais ninguém além de mim mesma", respondeu ela. Ele sorriu para ela. "Talvez seja essa a fonte de todas as tuas preocupações terrenas", respondeu ele. "Ninguém pode viver num mundo onde não sirva outra pessoa. Neste momento, estás a servir outra pessoa." Gwen olhou para ele desconfiada. "Como assim?", ela perguntou. "Mesmo se pensas que te serves a ti mesma", respondeu ele, "estás enganada. A pessoa que estás a servir não és tu, mas sim a pessoa que os seus pais moldaram. É os teus pais que tu serves - e todas as suas velhas crenças, transmitida pelos pais deles. Quando é que vais ter coragem suficiente para te livrares das suas crenças e servir-te?" Gwen franziu a testa, não comprando a sua filosofia. "E assumir então as crenças de quem?", perguntou ela. "De Eldof?" Ele abanou a cabeça. "Eldof é meramente um canal", ele respondeu. "Ele ajuda a descartares quem tu eras. Ele ajuda-te a encontrar o teu verdadeiro eu, tudo o que estavas destinada a ser. É a quem deves servir. É quem nunca vais descobrir até que o teu falso eu seja libertado. É isso que Eldof faz: ele liberta-nos a todos.” Gwendolyn olhava para os seus olhos brilhantes e conseguia ver quão devotado ele era - e aquela devoção assustava-a. Ela poderia dizer imediatamente que ele estava para além da razão, que ele nunca iria deixar aquele lugar. Era assustador, a teia que aquele Eldof tinha tecido para atrair todas aquelas pessoas e prendê-las ali – uma qualquer filosofia barata, com uma lógica só para si. Gwen não queria ouvir mais nada; era uma teia que ela estava determinada a evitar. Gwen virou-se e continuou a caminhar, sacudindo aquilo com um arrepio, continuando pela rampa acima, circundando a torre, subindo gradualmente cada vez mais, onde quer que a rampa os estivesse a levar. Kristof estava ao lado dela. "Eu não vim para discutir os méritos do teu culto", disse Gwen. "Eu não te posso convencer a voltar para o teu pai. Prometi perguntar, e fi-lo. Se tu não valorizas a tua família, não posso ensinar-te a valorizá-la." Kristof olhou para ela com gravidade. "E achas que o meu pai valoriza a família?", perguntou. "Muito", respondeu ela. "Pelo menos do que eu consigo ver." Kristof abanou a cabeça. "Deixa-me mostrar-te uma coisa." Kristof agarrou-a pelo cotovelo e levou-a por outro corredor para a esquerda, depois subiram um longo lanço de escadas, parando diante de uma grossa porta de carvalho. Ele olhou para ela seriamente e, em seguida, abriu-a, revelando um conjunto de barras de ferro. Gwen ficou ali, curiosa, nervosa para ver o que quer que fosse que ele lhe queria mostrar - então ela

aproximou-se e olhou através das grades. Ela ficou horrorizada ao ver uma menina jovem, bonita, sentada sozinha numa cela, a olhar pela janela, com o seu longo cabelo à frente do rosto. Embora os seus olhos estivessem abertos, ela parecia não tomar conhecimento da presença deles. "É assim que o meu pai se importa com a família", disse Kristof. Gwen olhou para ele, curiosa. "A família dele?", perguntou Gwen, atordoada. Kristof assentiu. "Kathryn. A sua outra filha. A que ele esconde do mundo. Ela tem sido relegada para aqui, para esta cela. Porquê? Porque ela é demente. Porque ela não é perfeita, como ele. Porque ele tem vergonha dela." Gwen ficou em silêncio, sentindo um buraco no estômago enquanto olhava com tristeza para a menina, querendo ajudá-la. Ela começou a questionar-se sobre o Rei e começou a questionar-se se as palavras de Kristof eram verdadeiras. "Eldof valoriza a família", continuou Kristof. "Ele nunca abandonaria um dos seus. Ele valoriza o nosso verdadeiro eu. Ninguém aqui é recusado por vergonha. Essa é a praga do orgulho. E aqueles que são dementes estão mais próximos do seu verdadeiro eu." Kristof suspirou. "Quando conheceres Eldof", disse ele, "vais entender. Não há ninguém como ele, nem nunca haverá." Gwen podia ver o fanatismo nos seus olhos, podia ver o quão perdido ele estava naquele lugar, naquele culto, e ela sabia que ele estava demasiado perdido para sequer voltar para o Rei. Ela olhou rapidamente e viu a filha do Rei ali sentada, sentindo-se cheia de pena dela, de todo aquele lugar, da sua família despedaçada. A sua visão da imagem perfeita do Cume, da família real perfeita, tinha-se desmoronando. Aquele lugar, como qualquer outro, tinha o seu próprio lado sombrio. Havia uma batalha silenciosa ali e era uma batalha de crenças. Era uma batalha que Gwen sabia que não conseguia ganhar. Nem ela tinha tempo para isso. Gwen pensou na sua própria família abandonada, e sentiu a urgência premente de salvar o seu marido e o seu filho. A sua cabeça estava às voltas naquele lugar, com o incenso espesso no ar e a falta de janelas a desorientarem-na, e ela queria obter o que precisava e sair. Ela tentou lembrar-se porque é que tinha ido ali sequer e, então, ela lembrou-se: para salvar o Cume, tal como tinha prometido ao Rei. "O teu pai acredita que esta torre detém um segredo", disse Gwen, chegando ao ponto, "um segredo que poderia salvar o Cume, poderia salvar o vosso povo." Kristof sorriu e fez figas. "O meu pai e as suas crenças", respondeu ele. Gwen franziu as sobrancelhas. "Estás a dizer que não é verdade?", perguntou ela. "Que não existe nenhum livro antigo?" Ele fez uma pausa, desviou o olhar e, depois suspirou profundamente, ficando em silêncio por um longo período. Por fim, continuou. "O que te deve ser revelado e quando", disse ele, "ultrapassa-me. Apenas Eldof pode responder às tuas perguntas." Um sentimento de urgência começou a crescer dentro de Gwen. "Podes levar-me até ele?" Kristof sorriu, virou-se e começou a caminhar pelo corredor. "Certamente", disse ele, andando rapidamente, já distante, "como uma traça em direção à luz."

CAPÍTULO CINCO

Stara estava na plataforma precária, tentando não olhar para baixo à medida que ia sendo puxada cada vez mais para cima na direção do céu, vendo a vista a expandir-se a cada puxão da corda. A plataforma subia cada vez mais ao longo da borda do Cume. Stara permanecia ali, com o coração a bater com força, disfarçada, com o capuz puxado para baixo sobre o rosto e o suor a escorrer-lhe pelas costas abaixo enquanto sentia o calor do deserto a aumentar. Estava sufocante tão lá no alto e o dia mal havia nascido. À sua volta estavam os sempre presentes sons das cordas, roldanas e rodas a ranger, enquanto os soldados puxavam sem parar, sem nenhum deles perceber quem ela era. Em poucos instantes, a plataforma parou e tudo ficou quieto enquanto ela permanecia no pique do Cume - o único som era o uivo do vento. A vista era impressionante, fazendo-a sentir-se como se estivesse no topo do mundo. Tal trazia-lhe de volta memórias. Stara lembrou-se de quando chegou pela primeira vez ao Cume, novata, vinda do Grande Desperdício, com Gwendolyn e Kendrick e todos os outros esfalfados, a maioria deles mais morto do que vivo. Ela sabia que tinha tido sorte em ter sobrevivido e, de início, a vista do cume tinha sido um grande dom, tinha sido uma visão de salvação. E, no entanto, agora ali estava ela, preparada para se ir embora, para descer o Cume mais uma vez pelo seu lado mais longínquo, de volta para o Grande Desperdício, de volta para o que poderia ser uma morte certa. Ao lado dela, o seu cavalo empinava-se, com os seus cascos a tatearem a oca plataforma. Ela estendeu a mão e acariciou a sua crina, tranquilizando-o. Aquele cavalo seria a sua salvação, a sua passagem para sair dali; ele faria com que a sua passagem pelo Grande Desperdício fosse muito diferente do que tinha sido. "Não me lembro de ordens do nosso comandante sobre esta visita", ouviu-se a voz de comando de um soldado. Stara ficou muito quieta, sabendo que estavam a falar sobre ela. "Então eu terei de colocar essa questão diretamente ao seu comandante – ao meu primo, o Rei", respondeu Fithe convictamente, de pé ao lado dela, soando tão convincente como nunca. Stara sabia que ele estava a mentir. Ela sabia que ele estava a arriscar por ela – e ela ficava-lhe, para sempre, grata por isso. Fithe tinha-a surpreendido por cumprir com a sua palavra, por, como tinha prometido, fazer tudo o que estava ao seu alcance para ajudá-la a sair do Cume, para ajudá-la a ter uma hipótese de ir por ali fora e encontrar Reece, o homem que amava. Reece. Stara ficava em sofrimento ao pensar nele. Ela iria deixar aquele lugar, por muito seguro que fosse, iria atravessar a Grande Desperdício, cruzar oceanos, atravessar o mundo, apenas por uma oportunidade de lhe dizer o quanto o amava. Por muito que Stara odiasse colocar Fithe em perigo, ela precisava daquilo. Ela precisava arriscar tudo para encontrar aquele que amava. Ela não conseguia ficar no Cume em segurança, por muito glorioso, rico e seguro que fosse, até ficar com Reece. Os portões de ferro para a plataforma abriram-se a ranger. Fithe pegou-a pelo braço, acompanhandoa. Ela usava o capuz para baixo, com o seu disfarce a dar resultado. Eles saíram da plataforma de madeira para o planalto de pedra dura no topo do Cume. Um vento a uivar passou, forte o suficiente para quase os derrubar e desequilibrar e ela agarrou a crina do cavalo, O seu coração bateu com força ao ver a vasta extensão, a loucura do que estava prestes a fazer. "Mantem a tua cabeça baixa e o teu capuz para baixo", Fithe sussurrou urgentemente. "Se eles te veem, veem que és uma miúda, eles vão perceber que não é suposto estares aqui em cima. E mandam-te para trás. Espera até nós chegarmos ao extremo mais distante do cume. Há uma outra plataforma à tua espera para te levar para baixo pelo outro lado. Ela vai levar-te – e somente a ti sozinha." A respiração de Stara acelerou quando os dois atravessaram o grande planalto de pedra, passando por

cavaleiros, andando rapidamente, Stara mantendo a cabeça para baixo, longe dos olhos curiosos dos soldados. Por fim, eles pararam, e ele sussurrou: "Ok. Vê." Stara puxou o capuz para trás, com o seu cabelo coberto de suor e, ao fazê-lo, ela ficou atordoada com o que viu: dois sóis enormes e lindos, ainda vermelhos, nascendo na manhã gloriosa do deserto, com o céu coberto de um milhão de tons de rosa e roxo. Parecia como se fosse o romper da aurora do mundo. Ao olhar ao longe, ela viu todo o Grande Desperdício espalhar-se diante de si, parecendo esticar-se até ao fim do mundo. Ao longe estava a Parede de Areia em fúria e, contra si mesma, ela olhou diretamente para baixo. Ela ficou estonteada devido ao seu medo das alturas e, logo a seguir, desejou não o ter feito. Ela viu a inclinação acentuada, desde lá de cima até à base do Cume. E diante de si, ela viu uma plataforma solitária, vazia, à sua espera. Stara virou-se e olhou para Fithe, que olhou para ela seriamente. "Tens a certeza?", perguntou ele suavemente. Ela conseguia ver nos olhos dele o medo que ele tinha por ela. Stara sentiu uma onda de apreensão a percorrê-la. Mas, depois, pensou em Reece e abanou cabeça sem hesitação. Ele acenou de volta para ela gentilmente. "Obrigado", disse ela. "Eu não sei como é que alguma vez te vou retribuir." Ele sorriu-lhe de volta. "Encontra o homem que amas", respondeu ele. "Se não posso ser eu, pelo menos, pode ser outra pessoa." Ele pegou na mão dela, beijou-a, fez-lhe uma vénia, virou-se e afastou-se. Stara observou-o ir, cheia de apreço por ele. Se ela não tivesse amado Reece da forma que tinha, talvez ele fosse um homem que ela amaria. Stara virou-se, mentalizando-se, segurou a crina do cavalo, e deu o primeiro passo decisivo para a plataforma. Ela tentou não olhar para o Grande Desperdício, para a jornada diante de si que quase certamente significaria a sua morte. Mas fê-lo. As cordas rangiam e a plataforma balançava. À medida que os soldados baixavam as cordas, um pé de cada vez, ela começava a sua descida, sozinha, na direção do nada. Reece, pensou, eu posso morrer. Mas vou atravessar o mundo por ti.

CAPÍTULO SEIS Erec estava na proa do navio, com Alistair e Strom a seu lado. Olhou para baixo, para as águas transbordantes do rio do Império. A corrente furiosa bifurcou o navio para a esquerda, para longe do canal que os teria levado para Volusia, para Gwendolyn e os outros - e ele sentiu-se destroçado. Ele queria salvar Gwendolyn, é claro; e, no entanto também tinha de cumprir o voto sagrado que tinha feito aos aldeões libertados, de libertar a aldeia vizinha deles e acabar com a guarnição do Império nas proximidades. De qualquer das formas, se ele não o fizesse, de seguida, os soldados do Império em breve matariam os homens libertados, e todos os esforços de Erec para libertá-los teriam sido em vão, deixando a aldeia deles nas mãos do Império mais uma vez. Erec olhou e estudou o horizonte, muito consciente do facto de que cada momento que passava, cada rajada de vento, cada golpe do remo, estava a levá-los para mais longe de Gwendolyn, da sua missão original; e, no entanto, ele sabia que às vezes era preciso desviar-se da missão, a fim de fazer o que era o mais nobre e mais correto. Ele tinha noção que, às vezes, a missão, nem sempre era o que se tinha pensado que seria. Às vezes era uma mudança constante; às vezes era uma viagem paralela ao longo do caminho que acabava por se tornar a verdadeira missão. Ainda assim, Erec resolveu internamente derrotar a guarnição do Império tão rapidamente quanto possível e bifurcar de volta pelo rio acima em direção a Volusia, para salvar Gwendolyn antes que fosse tarde demais. "Senhor!", gritou uma voz. Erec olhou e viu um dos seus soldados, no alto do mastro, apontando para o horizonte. Ele virou-se para ver, e, quando o seu navio passou uma curva do rio e foi apanhado pelas correntes pegou, o sangue de Erec acelerou ao ver um forte do Império, repleto de soldados, empoleirado à beira do rio. Era um edifício monótono, quadrado, construído de pedra, baixo, com os vigias do Império alinhados ao seu redor – no entanto, nenhum observava o rio. Em vez disso, eles estavam todos a observar a aldeia de escravos abaixo, a abarrotar de aldeões, todos sob o chicote e a vara dos vigias do Império. Os soldados chicoteavam impiedosamente os aldeões, torturando-os nas ruas com trabalhos forçados, enquanto os soldados acima olhavam para baixo e riam-se da cena. Erec ruborizou-se com indignação, fervendo com a injustiça daquilo tudo. Ele sentiu que se tinha justificado a bifurcação dos seus homens por aquele caminho rio acima, e sentiu-se determinado a acertar contas e a fazê-los pagar. Poderia ser apenas uma gota no balde da farsa do Império, e, ainda assim, Erec sabia que nunca se podia subestimar o que a liberdade significava até mesmo para poucas pessoas. Erec viu as margens alinhadas com navios do Império, guardados casualmente, nenhum deles suspeitando um ataque. Claro, eles não seriam atacados: não havia forças hostis no Império, nenhuma que o vasto exército do Império pudesse temer. Nenhuma, quer dizer, a não ser a de Erec. Erec sabia que ainda que ele e os seus homens estivessem em desvantagem numérica, ainda assim, eles tinham a vantagem da surpresa. Se eles conseguissem atacar suficientemente depressa, talvez eles os conseguissem matar a todos. Erec virou-se para os seus homens e viu Strom ali de pé, ao seu lado, aguardando ansiosamente o seu comando. "Assume o comando do navio ao meu lado", ordenou Erec ao seu irmão mais novo - e assim que ele proferiu aquelas palavras o seu irmão explodiu em ação. Ele correu pelo convés, saltou para fora da amurada, para o navio que navegava ao lado deles, onde, rapidamente, ele se dirigiu para a proa e assumiu o comando. Erec virou-se para os seus soldados que se aglomeravam em torno dele, no seu navio, à espera das

suas orientações. "Eu não quero que eles sejam alertados para a nossa presença", disse ele. "Temos de chegar tão perto quanto possível. Arqueiros – estejam prontos! ", gritou. "E todos vocês, peguem nas vossas lanças e ajoelhem-se!" Todos os soldados tomaram as suas posições, de cócoras ao longo do amurada, com filas e mais filas de soldados de Erec alinhados, todos a segurar lanças e arcos, todos bem disciplinados, pacientemente aguardando o seu comando. As correntes apanharam-nos. Erec viu as forças do Império a ficarem mais perto e sentiu a adrenalina nas suas veias: a batalha estava no ar. Eles estavam cada vez mais perto, agora apenas a cem jardas de distância. O coração de Erec batia com força, esperando não serem detetados, sentindo a impaciência de todos os seus homens ao seu redor, esperando para atacar. Eles só tinham de ficar dentro de alcance e, em cada volta da água, cada pé que eles ganhavam, ele sabia, era inestimável. Eles apenas tinham uma oportunidade com as suas lanças e flechas, e não podiam falhar. Vá lá, pensou Erec. Apenas um pouco mais perto. Erec ficou preocupado quando, de repente, um soldado do Império se virou casualmente e examinou as águas - e, depois, semicerrou os olhos confundido. Ele estava prestes a vê-los – e era demasiado cedo. Eles ainda não estavam dentro de alcance. Alistair, ao lado dele, também viu isso. Antes de Erec conseguir dar o comando para iniciar a batalha cedo, de repente, ela levantou-se e, com uma expressão confiante e serena, levantou a palma da sua mão direita. Uma bola amarela apareceu na sua mão. Ela puxou o braço para trás e, em seguida, atirou-a para a frente. Erec assistiu espantado à esfera de luz a flutuar no ar acima deles e a descer sobre eles, como um arco-íris. Em poucos instantes, uma névoa apareceu, obscurecendo a sua visão, protegendo-os dos olhos do Império. O soldado do Império olhava agora para a névoa, confuso, não vendo nada. Erec virou-se e sorriu para Alistair sabendo que, mais uma vez, ele estaria perdido sem ela. A frota de Erec continuou a navegar, agora tudo perfeitamente escondido. Erec olhou para Alistair com gratidão. "A tua palma é mais forte do que a minha espada, minha senhora", disse ele com uma vénia. Ela sorriu. "Ainda é a tua batalha venceres", ela respondeu. Os ventos levavam-nos mais para perto e a névoa mantinha-se com eles. Erec conseguia ver todos os seus homens em pulgas para dispararem as suas flechas, para lançarem as suas lanças. Ele entendia; a sua lança também lhe fazia cócegas na palma da sua mão. "Ainda não", ele sussurrou para os seus homens. Ao se separarem da névoa, Erec começou a vislumbrar os soldados do Império. Eles estavam sobre as muralhas, com as costas musculadas a brilhar, erguendo os chicotes e chicoteando os aldeões, com o estalo dos seus chicotes a ser audível mesmo a partir dali. Outros soldados olhavam para o rio, claramente convocados pelo homem de vigia, e todos espreitavam desconfiados para a névoa, como se a suspeitar de algo. Erec estava tão perto agora, com os seus navios quase a trinta jardas de distância. Ele sentia o seu coração a latejar nos seus ouvidos. A névoa de Alistair começou a dissipar-se e ele sabia que tinha chegado o momento. "Arqueiros!", comandou Erec. "Fogo!" Dezenas dos seus arqueiros, todos em cima e em baixo na sua frota, puseram-se em posição, fizeram mira e dispararam. O céu encheu-se com o som das flechas a saírem das cordas e a navegarem pelo ar - e o céu escureceu

com a nuvem das mortais pontas de flecha, voando alto em arco e, em seguida, girando para baixo para a margem do Império. Um momento depois soaram gritos pelo ar, quando a nuvem de flechas mortais desceu sobre os soldados do Império que abundavam no forte. A batalha havia começado. Por todo o lado soavam trombetas, à medida que a guarnição do Império era alertada e se reunia para se defender. "LANÇAS!", gritou Erec. Strom foi o primeiro a ficar de pé e a atirar a sua lança, uma bela lança prateada, que assobiava pelos ares enquanto voava a uma velocidade tremenda, encontrando, de seguida, um lugar no coração atordoado do comandante do Império. Erec arremessou a sua, apoiado nos seus calcanhares, juntando-se ao atirar a sua lança dourada e matando um comandante do Império do outro lado do forte. Todos os homens nas fileiras em cima e em baixo na sua frota juntaram-se, arremessando as suas lanças e matando soldados do Império atordoados, que mal tiveram tempo para reunir. Dezenas deles caíram. Erec sabia que a sua primeira rajada tinha sido um sucesso; contudo, ainda restavam centenas de soldados. Quando o navio de Erec parou, mal tocando na costa, ele soube que tinha chegado o momento do combate corpo-a-corpo. "ATACAR!", gritou ele. Erec sacou da sua espada, saltou para cima da amurada e, depois, pelo ar, caindo de uma altura de uns bons quinze pés e pousando nas margens de areia do Império. Todos os seus homens à sua volta o seguiram, centenas seguramente, todos a avançarem pela praia, esquivando-se das flechas e lanças do Império, enquanto estouravam para fora da névoa e pela areia aberta na direção do forte do Império. Os soldados do Império agruparam-se, também, apressando-se ao seu encontro. Erec preparou-se quando um desmedido soldado do império avançou diretamente na sua direção, gritando, levantando o seu machado e balançando-o de lado na direção da sua cabeça. Erec baixou-se, esfaqueou-o no estômago, e apressou-se. Erec, com os seus reflexos de batalha a entrarem em ação, esfaqueou um outro soldado no coração, evitou um golpe de machado de outro e, de seguida, virou-se e golpeou-o no peito. Outro avançou para ele, por trás, e, ele, sem se virar, deu-lhe uma cotovelada no rim, fazendo-o cair de joelhos. Erec corria pelas fileiras de soldados, mais depressa e com mais força do que qualquer um no campo e, liderando os seus homens como um de cada vez, eles abatiam os soldados do Império, fazendo o seu caminho em direção ao forte. O combate intensificou-se, corpo-a-corpo, e aqueles soldados do Império, quase duas vezes o seu tamanho, eram adversários ferozes. Erec estava destroçado por ver muitos dos seus homens caírem em torno dele. Mas Erec, determinado, movia-se como um relâmpago, com Strom ao seu lado, manobrando-se entre eles pela esquerda e pela direita. Ele atravessou a praia como um demónio libertado do inferno. Em poucos instantes tinha conseguido. Na areia tudo estava calmo, já que a praia, estava agora vermelha, cheia de cadáveres, a maioria deles os corpos dos soldados do Império. Muitos deles, porém, eram os corpos dos seus próprios homens. Erec, cheio de fúria, avançou para o forte, ainda repleto de soldados. Ele subiu os degraus de pedra ao longo da sua borda, com todos os seus homens a seguirem-no, e foi de encontro a um soldado que vinha a correu por ali abaixo direto a ele. Ele apunhalou-o no coração, bem antes de ele conseguir baixar na sua cabeça um martelo de duas mãos. Erec afastou-se e o soldado, morto, caiu pelos degraus abaixo, ao seu lado. Outro soldado apareceu, golpeando na direção de Erec antes de ele conseguir reagir. Strom chegou-se à frente e com um grande estrondo e uma chuva de faíscas, bloqueou o golpe antes de este conseguir alcançar o seu irmão e deu uma cotovelada no soldado com o punho da espada, derrubando-o pela borda fora e fazendo-o gritar até à sua morte.

Erec continuou a avançar, subindo quatro degraus de cada vez até chegar ao nível superior do forte de pedra. As dezenas de soldados do Império que permaneciam no nível superior estavam agora aterrorizados, vendo todos os seus irmãos mortos - e ao verem Erec e os seus homens a alcançam pisos superiores, eles viraram-se e começaram a fugir. Eles correram para o lado oposto do forte, para as ruas da aldeia - e, ao fazerem-no, tiveram uma surpresa: os aldeões estavam agora encorajados. As suas expressões de medo tinham-se transformado em expressões de raiva e, como um, eles revoltaram-se. Eles viraram-se contra os seus captores do Império, arrebataram-lhes os chicotes das mãos e começaram a chicoteá-los enquanto eles fugiam para o outro lado. Os soldados do Império não estavam à espera daquilo e, um por um, caíram sob os chicotes dos escravos. Os escravos continuaram a chicoteá-los enquanto eles estavam estendidos no chão, uma e outra vez sem parar, até que, finalmente, eles pararam de se mover. A justiça tinha sido servida. Erec ficou ali, no topo do forte, respirando com dificuldade, com os seus homens a seu lado, fazendo um balanço no silêncio. A batalha tinha acabado. Lá em baixo, foi preciso um minuto para os aldeões atordoados processarem o que tinha acontecido, mas em poucos instantes eles fizeram-no. Um de cada vez, eles começaram a dar vivas e uma grande ovação ergueu-se no céu, cada vez mais alto. Os seus rostos estavam cheios de pura alegria. Era uma ovação de liberdade. Erec sabia que aquilo fazia com que tudo valesse a pena. Ele sabia que aquilo era o que significava a valentia.

CAPÍTULO SETE

Godfrey estava sentado no chão de pedra no aposento subterrâneo do palácio de Silis, com Akorth, Fulton, Ario e Merek a seu lado, Dray a seus pés, e Silis e os homens dela à frente deles. Estavam todos tristes, de cabeça baixa, com as mãos sobre os joelhos, todos sabendo que estavam num velório. O aposento tremia com os baques da guerra lá em cima, da invasão de Volusia, com o som da cidade deles a ser saqueado e a reverberar nos seus ouvidos. Estavam todos ali, à espera, enquanto os Cavaleiros dos Sete despedaçavam Volusia em pedaços, por cima das suas cabeças. Godfrey tomou outro longo gole do seu saco de vinho, o último saco deixado na cidade, tentando atenuar a dor, a certeza da sua morte iminente nas mãos do Império. Ele olhou fixamente para os seus pés, questionando-se como é tudo tinha chegado àquilo. Há luas atrás, ele estava seguro e protegido dentro do Anel, desperdiçando a sua vida a beber, sem outras preocupações para além de qual a taberna e o bordel a visitar a cada noite. Agora, ali estava ele, do outro lado do mar, no Império, preso no subsolo, numa cidade sob ruína, tendo-se emparedado a ele mesmo no seu próprio caixão. A sua cabeça zumbia e ele tentava limpar a sua mente, tentava concentrar-se. Ele persentia o que os seus amigos estavam a pensar, podia senti-lo no desprezo dos seus olhares: eles nunca lhe deviam ter dado ouvidos; eles deviam todos ter escapado quando tiveram a oportunidade. Se eles não tivessem voltado para trás por Silis, eles poderiam ter chegado ao porto, embarcado num navio, e estarem agora longe de Volusia. Godfrey tentou consolar-se com o facto de que ele havia, pelo menos, retribuído um favor e havia salvado a vida daquela mulher. Se ele não a tivesse alcançado a tempo de avisá-la para descer, ela ainda estaria certamente lá em cima e já morta. Isso tinha de valer alguma coisa, mesmo que não fosse típico dele. "E agora?", perguntou Akorth. Godfrey virou-se e viu-o a olhar para si com um olhar acusador, proferindo a pergunta que assolava claramente as mentes de todos eles. Godfrey olhou à volta e examinou o pequeno e escuro aposento, com tochas a cintilar e quase a apagarem-se. As suas parcas provisões e um saco de cerveja eram tudo o que tinham, lá a um canto. Era um velório. Ele ainda conseguia ouvir o som da guerra lá em acima, mesmo através daquelas paredes espessas, questionando-se quanto tempo é que eles conseguiriam sobreviver àquela invasão. Horas? Dias? Quanto tempo levaria até que os Cavaleiros dos Sete conquistassem Volusia? Será que eles se iriam embora? "Não é a nós que eles querem", observou Godfrey. "É o Império a lutar contra o Império. Eles têm uma vingança pendente contra Volusia. Eles não têm nenhum problema connosco." Silis abanou a cabeça. "Eles vão ocupar este lugar", disse ela com sobriedade, com a sua voz forte a cortar o silêncio. "Os Cavaleiros dos Sete nunca recuam." Ficaram todos em silêncio. "Então, quanto tempo é que conseguimos viver aqui?", perguntou Merk. Silis abanou a cabeça e olhou para as provisões deles. "Uma semana, talvez", ela respondeu. De repente, ouviu-se um tremendo estrondo lá em cima, e Godfrey estremeceu ao sentir o chão a tremer debaixo dele. Silis levantou-se num ápice, agitada, a andar de um lado para o outro, a observar o teto à medida que o pó começava a cair em cima deles. Soava como uma avalanche de pedras por cima deles. Ela examinava-o como uma proprietária preocupada. "Eles fizeram fissuras no meu castelo", disse ela, mais para si do que para eles.

Godfrey viu uma expressão de dor no seu rosto, e reconheceu-o como o olhar de alguém que perdeu tudo o que tinha. Ela virou-se e olhou para Godfrey, agradecida. "Estaria lá em cima agora, se não tivesses sido tu. Salvaste as nossas vidas." Godfrey suspirou. "E para quê?", perguntou ele, aborrecido. "Para que é que serviu? Para que possamos todos morrer aqui?" Silis parecia sorumbática. "Se permanecermos aqui", Merk perguntou: "vamos todos morrer?" Silis virou-se para ele e assentiu com tristeza. "Sim", respondeu ela secamente. "Não hoje ou amanhã, mas dentro de alguns dias, sim. Eles não conseguem chegar aqui - mas nós não conseguimos ir lá a cima. Em breve, as nossas provisões vão acabar." "Então, e agora?", perguntou Ario, encarando-a. "Pretendes morrer aqui em baixo? Porque eu, por mim, não." Silis andava de um lado para o outro, com a sobrancelha franzida, e Godfrey conseguia vê-la a pensar muito e intensamente. Então, finalmente, ela parou. "Há uma hipótese", disse ela. "É arriscado. Mas pode ser que resulte." Ela virou-se e olhou para eles. Godfrey prendeu a respiração com esperança e expectativa. "No tempo de meu pai, havia uma passagem subterrânea sob o castelo", disse ela. "Que vai pelas paredes do castelo. Nós poderíamos encontrá-la, se ainda existir, e sair à noite, sob a cobertura da escuridão. Podemos tentar ir pela cidade, para o porto. Podemos levar um dos meus navios, se ainda restar algum, e sair deste lugar a navegar." Um silêncio, longo e incerto, caiu sobre a sala. "Arriscado", disse Merk finalmente, com uma sua voz grave. "A cidade estará cheia com o Império. Como é que vamos atravessá-la sem sermos mortos?" Silis encolheu os ombros. "Verdade", respondeu ela. "Se eles nos apanharem, seremos mortos. Mas se sairmos quando estiver escuro o suficiente, e matarmos qualquer um que se ponha no nosso caminho, talvez cheguemos ao porto." "E se encontramos esta passagem e chegarmos ao porto, mas os teus navios não estiverem lá?", perguntou Ario. Ela encarou-o. "Nenhum plano é certo", disse ela. "Podemos muito bem morrer lá fora - e podemos muito bem morrer aqui em baixo." "A morte vem para todos nós", Godfrey entrou na conversa, sentindo um novo propósito ao levantar-se e encarar os outros, sentindo uma sensação de determinação ao superar os seus medos. "É uma questão de como desejamos morrer: aqui em baixo, encolhidos como ratos? Ou lá em cima, almejando a nossa liberdade?" Lentamente, um de cada vez, todos se levantaram. Eles encararam-no e todos assentiram solenemente de volta. Ele sabia, naquele momento, que um plano havia sido formado. Eles iriam fugir naquela noite.

CAPÍTULO OITO Loti e Loc caminhavam lado a lado sob o sol ardente do deserto, algemados um ao outro, enquanto eram chicoteados pelos vigias do Império que seguiam atrás deles. Caminhavam através do deserto e Loti indagava-se, mais uma vez, porque é que o seu irmão os tinha oferecido para aquele trabalho perigoso e árduo. Teria enlouquecido? "Em que é que estás a pensar?", ela sussurrou-lhe. Eles eram empurrados por trás e quando Loc perdeu o equilíbrio e tombou para a frente, Loti agarrou-o pelo braço bom antes de ele cair. "Porque é que nos havias de oferecer como voluntários?", acrescentou. "Olha em frente", disse ele, recuperando o equilíbrio. "O que é que vês?" Loti olhou em frente e não viu nada além de um deserto monótono diante deles, cheio de escravos e chão duro com pedras; mais à frente, viu uma inclinação para um cume, no topo do qual, trabalhavam mais uns quantos escravos. Estavam vigias por todo o lado e os chicotes soavam no ar. "Não vejo nada", respondeu impaciente, "apenas o mesmo de sempre: escravos a serem levados até à morte pelos vigias.” De repente Loti sentiu uma dor lancinante nas costas, como se a sua pele estivesse a ser arrancada. Ela gritou ao ser chicoteada nas costas, com o chicote a cortar-lhe a pele. Ela virou-se e viu o rosto carrancudo de um vigia atrás dela. "Cala-te!", ordenou ele. Loti teve vontade de chorar por causa da dor intensa, mas conseguiu suster-se, continuando a caminhar ao lado de Loc, com as suas algemas a chocalhar sob o sol. Jurou a si mesma que, logo que pudesse, mataria todo o Império. Continuaram a marchar em silêncio. Só se ouvia o som do esmagar das suas botas contra as pedras. Por fim, Loc aproximou-se dela. "Não é o que vês", sussurrou ele, "mas sim o que não vês. Olha bem de perto. Lá em cima, no cume." Ela observou a paisagem, mas não viu nada. "Só está um vigia lá em cima. Um. Para duas dúzias de escravos. Olha para trás, sobre o vale, e vê quantos lá estão." Loti olhou furtivamente por cima do ombro, e viu, no vale imediatamente atrás, dezenas de vigias a supervisionarem escravos que partiam as pedras e cultivavam a terra. Ela virou-se e olhou novamente para o cume, compreendendo pela primeira vez o que o seu irmão tinha em mente. Não só havia apenas um vigia, mas melhor ainda, havia uma zerta ao lado dele. Um meio de fuga. Ela ficou impressionada. Loc assentiu em concordância. "O posto de trabalho mais perigoso é em cima do cume", sussurrou ele. "O mais quente, o menos desejado, tanto pelos escravos como pelos vigias. Mas isso, minha irmã, é uma oportunidade." Loti foi subitamente pontapeada nas costas. Desequilibrou-se para a frente juntamente com Loc. Os dois endireitaram-se e continuaram a subir até ao cume, Loti com falta de ar, tentando recuperar o fôlego debaixo do calor que aumentava à medida que eles subiam. Mas desta vez, quando ela olhou para cima, sentiu-se otimista e entusiasmada: finalmente, eles tinham um plano. Loti nunca tinha achado que o seu irmão fosse ousado, tão disposto a assumir tal risco, a enfrentar o Império. Mas agora, ao olhar para ele, ela conseguia ver o desespero nos seus olhos, podia ver que, finalmente, ele estava a pensar como ela. Ela via-o sob uma nova luz, e admirava-o muito por isso. Era exatamente o tipo de plano que ela própria teria engendrado. "E as algemas?", sussurrou-lhe ela, ao certificar-se que os vigias não estavam a olhar. Loc fez um gesto com a cabeça.

"A sela dele", respondeu Loc. "Olha com atenção." Loti olhou e viu a longa espada pendurada na sela; ela apercebeu-se que eles podiam usá-la para cortar as algemas. Eles podiam fugir a partir dali. Sentindo-se otimista pela primeira vez desde que havia sido capturado, Loti observava com muita atenção os outros escravos no topo do pico. Eram todos homens e mulheres destroçados, corcundas sem pensar nas suas tarefas, sem qualquer pingo de resistência; ela percebeu imediatamente que nenhum deles poderia ser de alguma ajuda para a sua causa. Por ele não havia qualquer problema - eles não precisam da ajuda deles. Eles apenas precisavam de uma oportunidade e que todos aqueles escravos servissem como uma distração. Quando chegaram ao pico do cume, Loti sentiu um pontapé na parte de baixo das costas e tropeçou para a frente, caindo de cara no chão. Ela sentiu umas mãos ásperas a levantarem-na por arrasto. O vigia empurrou-a com força, antes de se virar e começar a descer o cume, deixando-os ali. "Coloquem-se em fila!", gritou um novo vigia, o único no topo do cume. Loti sentiu as suas mãos calejadas a agarrarem a parte de trás do seu e a empurrarem-na; as suas correntes chocalhavam enquanto ela corria para a frente, tropeçando no campo de trabalho dos escravos. Foi-lhe dada uma longa enxada com uma ponta de ferro e, depois, foi-lhe dado um último empurrão uma vez que o vigia do Império esperava que ela começasse a lavrar com todos os outros. Loti virou-se. Viu Loc fazer-lhe um aceno significativo e ela sentiu o fogo a queimar-lhe as veias; ela sabia que era agora ou nunca. Loti soltou um grito, levantou a enxada, balançou-a à volta, e com toda a sua força trouxe-a para baixo. Ela ficou chocada ao sentir o baque, vendo-a alojada na parte de trás da cabeça do vigia. Loti tinha-se virado tão rapidamente, tão decisivamente, que ele, claramente, não estava à espera. Ele não tinha tido sequer tempo para reagir. Claramente que nenhum daqueles escravos ali, cercado por todos aqueles vigias e sem ter para onde correr, ousaria tal movimento. Loti sentia o zumbido da enxada ao longo dos seus braços e mãos. Ela viu primeiro em choque, depois com satisfação, que o guarda tinha tropeçado e caído. Com as costas ainda a doerem-lhe dos golpes, aquilo sabia a reivindicação. O seu irmão aproximou-se, ergueu a sua própria enxada, e, quando o vigia começou a contorcer-se, ele trouxe-a diretamente para baixo na parte de trás da cabeça dele. Finalmente, o vigia ficou imóvel. A respirar com dificuldade, coberta de suor, com o seu coração ainda a bater com força, Loti deixou cair a enxada incrédula, salpicada com o sangue do homem, e trocou um olhar com o seu irmão. Eles tinham conseguido. Loti sentia os olhares curiosos de todos os outros escravos à sua volta. Ela virou-se e viu que estavam todos a assistir, boquiabertos. Apoiaram-se todos nas suas enxadas, pararam de trabalhar e lançaram-lhes um olhar horrorizado e incrédulo. Loti sabia que não tinha tempo a perder. Ela corria, com Loc ao seu lado, algemados um ao outro, à zerta. Levantou a longa espada da sela da zerta com ambas as mãos, erguendo-a, e virou-se. "Cuidado!", gritou ela para Loc. Ele preparou-se e ela baixou a espada com toda a sua força, cortando as correntes. Tal provocou faíscas. Ela sentiu a satisfação da liberdade pelo facto das suas correntes terem sido cortadas. Ao virar-se para se ir embora ela ouviu um grito. "E nós!?", gritou uma voz. Loti virou-se e viu os outros escravos a correrem, estendendo as suas algemas. Ela virou-se e viu as zerta à espera. Ela sabia que o tempo era precioso. Ela queria ir para leste o mais depressa possível, para Volusia, o último lugar para onde ela sabia que Darius estava a ir. Talvez ela o encontrasse lá. Mas, ao mesmo tempo, ela não aguentava ver as suas irmãs e irmãos algemados.

Loti correu para a frente, pelo meio da multidão de escravos, cortando correntes à esquerda e à direita, até ficarem todos livres. Ela não sabia onde é que eles iriam agora que eram livres - mas, pelo menos, eram livre para fazer o que quisessem. Loti virou-se, montou a zerta, e estendeu a mão para Loc. Ele deu-lhe a sua mão boa e ela puxou-o para cima – de seguida, ela deu um pontapé com força nas costelas da zerta. Quando partiram, Loti estava eufórica com a sua liberdade. Ela já conseguia ouvir ao longe os gritos dos vigias do Império, detetando-a. Mas ela não esperou. Virou e levou a zerta pelo cume abaixo, descendo a encosta oposta, com ela e o seu irmão a entrarem de rompante pelo deserto, para longe dos vigias – e para o outro lado da liberdade.

CAPÍTULO NOVE Darius olhou para cima em choque, olhando fixamente para os olhos do misterioso homem que estava ajoelhado sobre ele. O pai dele. Quando Darius olhou nos olhos do homem, toda a noção de tempo e espaço desapareceu, toda a sua vida congelou naquele momento. De repente, tudo fez sentido: aquela sensação que Darius tinha tido desde o momento em que o tinha visto. Aquele olhar familiar, aquele algo que lhe repuxava a consciência, que o incomodava desde que eles se tinham encontrado. O pai dele. A palavra nem parecia real. Lá estava ele, ajoelhando-se sobre si, tendo acabado de salvar a vida de Darius, tendo bloqueado um golpe mortal de um soldado do Império, um que certamente teria matado Darius. Ele tinha arriscado a sua vida para se aventurar por ali, sozinho, na arena, no momento em que Darius estava prestes a morrer. Ele tinha arriscado tudo por ele. O seu filho. Mas porquê? "Pai", disse Darius de volta, a sussurrar, em reverência. Darius sentiu uma onda de orgulho ao perceber que era da família daquele homem, daquele bom guerreiro, o melhor guerreiro que ele já conhecera. Isso fê-lo sentir que talvez ele pudesse ser um grande guerreiro, também. O seu pai agarrou-lhe a mão com firmeza e força. Ele levantou Darius, e, ao fazê-lo, Darius sentiu-se renovado. Sentiu como se tivesse uma razão para lutar, uma razão para ir em frente. Darius imediatamente baixou-se, apanhou a sua espada do chão. Em seguida, virou-se, e, juntamente com o seu pai, enfrentaram a horda de soldados do Império que se aproxima. Com aquelas criaturas horrendas agora mortas, todas mortas pelo seu pai, as cornetas tinham soado e o Império tinha enviado uma nova vaga de soldados. A multidão rugia. Darius olhou para os rostos hediondos dos soldados do Império que avançavam contra eles, empunhando longas lanças. Darius focou-se e sentiu o mundo a desacelerar ao preparar-se para lutar pela sua vida. Um soldado avançou e atirou uma lança para a sua cara. Darius desviou-se precisamente antes de ela o atingir no olho; Ele então virou-se e, quando o soldado se aproximou para o enfrentar, Darius esmagou a sua têmpora com o punho da espada, derrubando-o no chão. Darius agachou-se quando outro soldado balançou uma espada na direção da sua cabeça, e, em seguida, saltou para a frente e esfaqueou-o no estômago. Outro soldado atacou vindo de lado, com a sua lança direcionada às costelas de Darius, movendo-se com demasiada rapidez para Darius conseguir reagir; no entanto, ele ouviu o som de madeira a bater em metal, e ele virou-se agradecido ao ver o seu pai aparecer e usar o seu bastão para bloquear a lança antes de aquela atingir Darius. Ele então aproximou-se e espetou o bastão entre os olhos do soldado, derrubando-o no chão. O seu pai girava com o seu bastão, enfrentando o grupo de atacantes. O som do seu bastão enchia o ar enquanto ele, aos golpes, afastava, uma lança após a outra. O seu pai dançava entre os soldados, como uma gazela a ondular-se através dos homens. Ele empunhava o seu bastão graciosamente, girando e golpeando habilmente os soldados, com golpes assertivos na garganta, entre os olhos, no diafragma, derrubando homens em todas as direções. Ele era como um relâmpago. Darius, inspirado, lutava como um homem possuído ao lado do seu pai, extraindo para fora de si energia; ele golpeava, agachava-se e espetava, com a sua espada a ressoar contra as espadas dos outros soldados, com faíscas a voar enquanto ele avançava sem medo na direção do grupo de soldados. Eles

eram maiores do que ele, mas Darius tinha mais espírito, e ele, ao contrário deles, estava a lutar pela sua vida - e pela do seu pai. Ele desviou mais do que um golpe destinado ao seu pai, salvando-o de uma morte imprevista. Darius fez cair soldados por todos os lados. O último soldado do Império dirigiu-se apressadamente para Darius, erguendo uma espada por cima da cabeça com ambas as mãos – e, ao fazê-lo, Darius avançou e apunhalou-o no coração. Os olhos do homem arregalaram-se e ele congelou lentamente, caiu no chão, morto. Darius mantinha-se perto do seu pai, os dois de costas um para o outro, respirando com dificuldade, examinando a sua façanha. Ao redor deles, os soldados do Império jaziam mortos. Eles tinham sido vitoriosos. Darius sentiu que ali, ao lado do seu pai, ele poderia enfrentar qualquer coisa que o mundo atira-se para cima dele; ele sentiu que, juntos, eles eram uma força imparável. E parecia surreal estar realmente a lutar ao lado do seu pai, que ele sempre tinha sonhado que era um grande guerreiro. Afinal, o seu pai não era apenas uma pessoa comum. Ouviu-se um coro de cornetas e a multidão aclamou. De início, Darius esperava que eles estivessem a aclamar a sua vitória, mas, a seguir, enormes portas de ferro abriram-se no outro lado da arena e ele sabia que o pior estava apenas a começar. Ouviu-se o som de uma trombeta, mais alto do que qualquer uma que Darius já tivesse ouvido, e ele levou um momento para perceber que não era a trombeta de um homem - mas sim, a tromba de um elefante. Enquanto olhava para o portão, com o seu coração a bater em antecipação, apareceram, de repente, para sua surpresa, dois elefantes, todos pretos, com longas e reluzentes presas brancas, com os focinhos contorcidos de raiva e inclinando-se para trás, levantando a tromba. O ruído sacudiu o próprio ar. Eles levantaram as suas patas dianteiras e, em seguida, baixaram-nas com tanta força que tal fez abanar o chão, fazendo com que Darius e o seu pai se desequilibrassem. Acima deles cavalgavam soldados do Império, empunhando lanças e espadas, vestindo armaduras da cabeça aos pés. Darius observou-os, olhando para aquelas bestas, maiores do tudo o que ele tinha visto na sua vida: ele sabia que não havia nenhuma maneira que ele e seu pai poderem ganhar. Ele virou-se e viu o seu pai ali parado, sem medo, não recuando enquanto estoicamente encarava a morte de frente. Tal deu forces a Darius. "Nós não conseguimos ganhar, Pai", disse Darius, afirmando o óbvio, enquanto os elefantes começavam a avançar. "Nós já ganhámos, meu filho", disse o pai. "Ficando aqui de pé e encarando-os, não virando as costas e fugindo, já os derrotámos. Os nossos corpos podem morrer aqui hoje, mas a nossa memória continuará viva - e será uma memória de valentia!" Sem outra palavra, o pai dele soltou um grito e avançou para o ataque, e Darius, inspirado, gritou e avançou ao seu lado. Os dois correram ao encontro dos elefantes, o mais rápido que conseguiam, sem sequer hesitar em encontrar a morte de frente. O momento do impacto não foi o que Darius esperava. Ele esquivou-se de uma lança quando o soldado, em cima do elefante, a atirou para baixo na sua direção. Então ele levantou a sua espada e golpeou o pé do elefante quando este avançou diretamente para si. Darius não sabia como atacar um elefante, ou se o golpe teria sequer qualquer impacto. Não teve. O golpe de Darius mal arranhou a sua pele. A enorme besta, enfurecida, baixou o seu tronco e abanou-o para os lados, atingindo Darius nas costelas. Darius foi projetado trinta pés pelo ar, sentindo o vento a bater-lhe, e caiu de costas, rebolando na terra. Ele rebolava sem parar, tentando recuperar o fôlego e ouvindo os gritos abafados da multidão. Ele virou-se e tentou vislumbrar o seu pai, preocupado com ele. De soslaio ele viu-o a arremessar a sua lança, apontando para um dos enormes olhos do elefante, e a rebolar para se afastar do elefante que

tinha avançado na sua direção. Era um golpe perfeito. A lança alojou-se firmemente no seu olho e, com isso, o elefante gritou e ergueu a sua tromba, com os seus joelhos a dobrarem-se e a cair no chão, rebolando, levando consigo o outro elefante numa enorme nuvem de poeira. Darius levantou-se, inspirado e determinado, fixando o seu olhar num dos soldados do Império, que tinha caído e estava a rebolar pelo chão. O soldado colocou-se de joelhos e, em seguida, virou-se e, ainda a segurar a sua lança, apontou para as costas do pai de Darius. O seu pai estava ali, desprevenido, e Darius sabia que, em poucos instantes, ele morreria. Darius entrou em ação. Ele avançou para o soldado, ergueu a sua espada e, golpeando, arrancou-lhe a lança da mão - em seguida, deu balanço e decapitou-o. A multidão festejou. Mas Darius teve pouco tempo para se deleitar com o seu triunfo: ele ouviu um grande estrondo e, ao virar-se, viu que o outro elefante tinha conseguido levantar-se - e o soldado do Império que o montava - e estava a atirar-se a ele. Sem tempo para fugir do seu caminho, Darius, de costas, apanhou a lança e viroua para cima quando a pata do elefante desceu. Ele esperou até ao último momento para, em seguida, se desviar a rebolar no momento em que a pata do elefante foi na sua direção para esmagá-lo para dentro da terra. Darius sentiu um vento forte no momento em que a pata do elefante passou rapidamente por ele, errando por pouco. De seguida, ouviu um grito e o som da lança a impactar em carne. Ele virou-se e viu o elefante a pisar a lança. A lança subiu pela sua carne adentro, saindo do outro lado. O elefante empinou-se e gritou, correndo em círculos e, ao fazê-lo, o soldado do Império que o montava perdeu o equilíbrio e caiu, uns bons cinquenta pés, gritando enquanto caia para a sua morte, esmagado pela queda. O elefante, ainda louco de raiva, virou-se para o outro lado e bateu em Darius com a sua tromba atirando-o para o ar mais uma vez, caindo na outra direção. Darius sentia como se todas as suas costelas se estivessem a partir. Darius arrastou-se de gatas, tentando recuperar o fôlego, olhou para cima e viu o seu pai a lutar valentemente com vários soldados do Império, que haviam sido libertados dos portões para ajudar os outros. Ele girava, golpeava e espetava com o seu bastão, derrubando vários deles em todas as direções. O primeiro elefante que tinha caído, com a lança ainda no seu olho, conseguiu levantar-se, era chicoteado novamente por outro soldado do Império que tinha saltado para as suas costas. Sob a sua direção, o elefante empinou-se e, em seguida, avançou diretamente para o pai de Darius que, desprevenido, continuava a lutar contra os soldados. Darius estava a ver o que estava a acontecer e ficou ali, impotente, com o seu pai demasiado longe de si e ele não não conseguindo chegar lá a tempo. A velocidade do tempo abrandou quando ele viu o elefante a virar-se diretamente para ele. "NÃO!", gritou Darius. Darius viu com horror o elefante a correr para a frente, diretamente na direção do seu desprevenido pai. Darius correu pelo campo de batalha, apressando-se para salvá-lo a tempo. No entanto, ele sabia, mesmo enquanto corria, que era inútil. Era como ver o seu mundo a desmoronar-se em câmara lenta. O elefante baixou as suas presas, avançou para a frente para atacar, e empalou o seu pai pelas costas. O seu pai gritou, com sangue a escorrer-lhe da boca, enquanto o elefante o erguia no ar. Darius sentiu seu próprio coração a fechar-se ao ver o seu pai, o guerreiro mais corajoso que ele já tinha visto, no ar, empalado pelas presas, lutando para se libertar mesmo quando estava a morrer. "PAI!", gritou Darius.

CAPÍTULO DEZ Thorgrin estava na proa do navio, agarrando com força o punho da sua espada. Olhou, em choque e horror, para o enorme monstro marinho que emergia das profundezas da água. Era da mesma cor do mar de sangue, e, ao erguer-se cada vez mais para o alto, lançou uma sombra sobre a pouca luz que havia naquela Terra do Sangue. Abriu as suas enormes mandíbulas, revelando dezenas de fileiras de dentes, e lançou os seus tentáculos em todas as direções, alguns deles mais compridos do que o navio, como se uma criatura das profundezas do inferno estivesse a aproximar-se para lhes dar um abraço. Em seguida, ele mergulhou na direção do navio, pronto para engoli-los a todos. Ao lado de Thorgrin, Reece, Selese, O'Connor, Indra, Matus, Elden e Angel, todos seguravam as suas armas, mantendo-se firmes sem medo perante aquela besta. Thor ficou ainda mais determinado ao sentir a Espada dos Mortos a vibrar na sua mão. Ele sabia que tinha de entrar em ação. Ele tinha de proteger Angel e os outros e sabia que não podia esperar que a besta chegasse até eles. Thorgrin saltou para a frente na direção da besta, para cima da amurada, ergueu a espada acima da cabeça, e, quando um dos tentáculos se dirigiu a si a balançar de um lado para o outro, ele virou-se e cortou-o. O enorme tentáculo, separado, caiu para o navio com um som oco, balançando o barco, deslizando, em seguida, pelo convés até colidir com a amurada. Os outros também não hesitaram. O'Connor soltou uma saraivada de flechas para os olhos do animal, enquanto Reece cortava outro tentáculo que descia na direção da cintura de Selese. Indra atirou a sua lança, perfurando o seu peito, Matus deu balanço ao mangual, cortando outro tentáculo e Elden usou o seu machado, cortando dois de uma vez só. Como uma, a Legião atirou-se sobre aquela besta, atacando-a como uma máquina bem afinada. O animal gritava de raiva, tendo perdido vários dos seus tentáculos, perfurado por flechas e lanças, claramente apanhado de surpresa pelo ataque coordenado. O seu primeiro ataque tinha sido detido. Ele gritava ainda mais alto em frustração, atirou-se para o ar, e, em seguida, como a mesma rapidez mergulhou sob a superfície, criando grandes ondas e deixando o navio a balançar no seu rastro. Thor estacou com o silêncio repentino, intrigado, e, por um segundo, pensou que talvez o animal tivesse recuado, que o haviam derrotado, especialmente quando viu a poça de sangue do animal na superfície. Mas depois ele teve uma sensação estranha de que, muito rapidamente, tudo tinha ficado muito calmo. E então, demasiado tarde, ele percebeu o que o animal estava prestes a fazer. "ESPEREM!", gritou Thor para os outros. Assim que Thor pronunciou as palavras, sentiu o seu navio a subir das águas de uma forma instável, cada vez mais alto, até ficar ar, nos tentáculos do animal. Thor olhou para baixo e viu a besta sob o navio, com os seus tentáculos envoltos a toda a volta, da proa à popa. Ele preparou-se para o acidente que estava prestes a acontecer. A besta arremessou o navio pelos ares, como se fosse um brinquedo. Todos eles tentavam agarrar-se à sua preciosa vida, até que, por fim, o navio aterrou no oceano, balançando violentamente. Thor e os outros largaram o navio, deslizando através da plataforma em todas as direções, embatendo na madeira enquanto o navio abanava e se virava. Thor vislumbrou Angel a escorregar pelo convés na direção da amurada, prestes a passar por cima da borda, e esticou-se e agarrou a sua pequena mão, segurando-a firme enquanto ela olhava para ele em pânico. Por fim, o navio endireitou-se. Thor levantou-se com dificuldade, assim como os outros, preparandose para o ataque seguinte. De imediato, ele viu o animal a nadar em direção a eles a toda a velocidade, agitando os seus tentáculos. O animal agarrou o navio por todos os lados, com os seus tentáculos a rastejar por cima da borda, sobre o convés, indo na direção deles.

Thor ouviu um grito e viu Selese com um tentáculo envolto no seu tornozelo, a deslizar pela plataforma, sendo atirada ao mar. Reece girou e cortou o tentáculo, mas, com a mesma rapidez, outro tentáculo agarrou o braço de Reece. Cada vez mais tentáculos rastejavam sobre o navio e, quando Thor sentiu um na sua própria coxa, olhou à volta e viu todos os seus irmãos da Legião a balançarem descontroladamente, cortando tentáculos. Para cada um que eles cortavam, apareciam mais dois. O navio estava todo coberto. Thor sabia que se não fizesse algo em breve, iriam todos ser sugados para baixo de uma vez por todas. Ele ouviu um grito, no alto do céu, e, quando olhou para cima, viu uma das criaturas demoníacas libertadas do inferno, a voar bem lá no alto, olhando para baixo com um olhar irónico enquanto se afastava a voar. Thor fechou os olhos, sabendo que aquele era um de seus testes, um dos momentos monumentais na sua vida. Ele tentou apagar o mundo, focar-se interiormente. Na sua formação. Em Argon. Na sua mãe. Nos seus poderes. Ele era mais forte do que o universo, ele sabia disso. Havia poderes dentro dele, poderes acima do mundo físico. Aquela criatura era desta terra – no entanto, os poderes de Thor eram maiores. Ele conseguia convocar as forças da natureza, os próprios poderes que tinham criado aquela besta, e enviá-la de volta para o inferno de onde ela tinha vindo. Thor sentiu o mundo a abrandar à sua volta. Sentiu um calor a subir pelas palmas das suas mãos, espalhando-se pelos seus braços, pelos seus ombros e de volta novamente, a picar, até as pontas dos dedos. Sentindo-se invencível, Thor abriu os olhos. Ele sentiu um poder incrível a brilhar através deles, o poder do universo. Thor esticou o braço e colocou a mão sobre o tentáculo da besta, e, ao fazê-lo, ele incinerou-o. A besta retirou-o imediatamente da sua coxa, como se estivesse a ser queimada. Thor permanecia ali de pé, um novo homem. Ele virou-se e viu a cabeça da besta a ergue-se ao longo da borda do navio, abrindo a sua mandíbula, preparando-se para engoli-los a todos. Ele viu os seus irmãos e irmãs da Legião a deslizarem, prestes a serem arrastados por cima da borda. Thor soltou um grande grito de guerra e avançou para a besta. Ele atirou-se a ela antes de ela conseguir alcançar os outros, abrindo mão da sua espada e, em vez disso, agarrando-a com as suas ardentes palmas das mãos. Ele agarrou o rosto do animal e colocou as mãos em cima, e, ao fazê-lo, sentiu-as a incinerar o rosto do animal. Thor agarrava a besta com força enquanto esta gritava e se contorcia, tentando libertar-se. Lentamente, um tentáculo de cada vez, o animal começou a largar o barco, e Thor sentiu o seu poder a crescer dentro de si. Ele agarrou o animal firmemente e levantou ambas as mãos, sentindo o peso do animal a erguer-se cada vez mais alto no ar. Em poucos instantes, aquele estava a pairar por cima das palmas das mãos de Thor. O poder dentro de si mantinha o animal a flutuar. Então, quando o animal estava a uns bons trinta pés acima, Thor virou-se e lançou as mãos para a frente. O animal saiu disparado a voar para a frente, por acima do navio, a guinchar, caindo aos trambolhões. Navegou pelo ar uns bons cem pés, até que finalmente ficou inerte. Caiu no mar com um grande chapão e, em seguida, afundou-se sob a superfície. Morto. Thor ficou ali, no silêncio, com todo o seu corpo ainda quente. Lentamente, um de cada vez, os outros reagruparam-se, levantando-se e chegando-se ao pé de si. Thor permanecia ali, respirando com dificuldade, atordoado, olhando para o mar de sangue. No horizonte, os seus fixaram-se sobre o castelo preto, que pairava sobre aquela terra, o lugar que, ele sabia, detinha o seu filho. Havia chegado a hora. Não havia nada agora que o detivesse, e estava na hora, finalmente, de recuperar o seu filho.

CAPÍTULO ONZE Volusia estava diante dos seus muitos assessores nas ruas da capital do Império, a olhar em choque para o espelho na sua mão. Ela examinou a sua nova cara de todos os ângulos – metade dela ainda era bonita e a outra metade estava desfigurada, derretida - e ela sentiu uma onda de repulsa. O fato de que metade da sua beleza ainda permanecia, até certo ponto, tornava tudo pior. Teria sido mais fácil, ela percebeu, se todo o seu rosto tivesse ficado desfigurado – assim ela não conseguia lembrar-se de nada do seu anterior aspeto. Volusia recordava-a da sua deslumbrante boa aparência, a raiz do seu poder, que a tinha levado por todos os acontecimento na vida, que lhe tinha permitido manipular homens e mulheres da mesma maneira, colocar os homens de joelhos aos seus pés com um único olhar. Agora, tudo isso tinha desaparecido. Agora, ela era apenas mais uma miúda de dezassete anos de idade - e pior, meio-monstro. Ela não conseguia suportar ver o seu próprio rosto. Numa explosão de raiva e desespero, Volusia atirou o espelho para o chão e viu-o a partir-se em pedaços nas ruas imaculadas da capital. Todos os seus conselheiros estavam ali, em silêncio, olhando para longe, todos sabendo que isso era melhor do que falar com ela naquele momento. Também ficou claro para ela, enquanto observava os seus rostos, que nenhum deles queria olhar para ela, para ver o horror em que a sua cara agora estava. Volusia olhou à volta à procura dos Volks, ansiosa por os despedaçar, mas eles já se tinham ido embora, tendo desaparecido logo a seguir a terem lançado sobre ela o terrível feitiço. Ela tinha sido avisada para não juntar forças com eles e agora ela percebia que todos os avisos estavam certos. Ela tinha pago um elevado preço por isso. Um preço que era irreversível. Volusia queria descarregar a sua raiva em alguém e os seus olhos caíram sobre Brin, o seu novo comandante, um guerreiro escultural apenas alguns anos mais velho que ela, que andava a cortejá-la há luas. Jovem, alto, musculado, com uma aparência deslumbrante, andava a cobiçá-la desde que ela o tinha conhecido. No entanto, agora, para fúria dela, ele nem sequer iria encontrar o seu olhar. "Tu", sibilou Volusia para ele, quase incapaz de se conter. "Será que agora nem sequer vais olhar para mim?" Volusia ruborizou-se quando ele olhou para cima sem se cruzar com o olhar dela. Ela sabia que aquele agora era o seu destino, para o resto da sua vida, ser vista como uma aberração. "Causo-te repulsa agora?", ela perguntou, ficando desesperada. Ele baixou a cabeça, mas não respondeu. "Muito bem", disse ela, finalmente, depois de um longo silêncio, determinada a vingar-se em alguém,"então eu ordeno-te: vais olhar para o rosto que mais odeias. Vais provar-me que eu sou bonita. Vais dormir comigo." O comandante olhou para os olhos dela, pela primeira vez, com medo e horror na sua expressão. "Deusa?", perguntou ele, com a voz embargada, apavorado, sabendo que iria ser confrontado com a morte se desafiasse o seu comando. Volusia sorriu largamente, feliz, pela primeira vez, percebendo que seria a vingança perfeita: dormir com o homem que a achava mais repugnante. "Tu primeiro", disse ela, dando um passo para o lado e apontando para o seu quarto. * Volusia estava diante da alta e aberta janela arqueada, no último andar do palácio da capital do Império. Cedo, os sóis da manhã nasceram e as cortinas ondulavam na sua cara enquanto ela chorava

baixinho. Ela sentia as lágrimas a escorrerem-lhe pelo lado bom do seu rosto, mas não pelo outro, o lado derretido. Esse estava dormente. Um ronco suave pontuava no ar. Volusia olhou para trás e viu Brin ali, ainda a dormir, com o seu rosto carregado com uma expressão de repulsa, mesmo durante o sono. Ele tinha odiado cada momento em que tinha estado na cama com ela, ela sabia, e isso tinha-lhe trazido alguma pequena vingança. No entanto, ela ainda não se sentia satisfeita. Ela não podia descarregar nos Volks, e, no entanto, ela ainda sentia a necessidade de vingança. Era uma fraca vingança, mal chegava ao que ela ansiava. Os Volks, afinal de contas, tinham desaparecido, enquanto ali estava ela, na manhã seguinte, ainda viva, ainda presa em si mesma, como teria de estar para o resto da sua vida. Presa com esses olhares, com esse rosto desfigurado, que nem mesmo ela conseguia suportar. Volusia enxugou as lágrimas e olhou para fora, para além da linha da cidade, para além dos muros da capital, para longe no horizonte. À medida que os sóis iam nascendo, ela começava a ver o traço mais leve dos exércitos dos Cavaleiros dos Sete, com as suas bandeiras pretas a revestirem o horizonte. Eles estavam ali acampados e os seus exércitos estavam a cavalgar. Eles estavam a cercá-la lentamente, reunindo milhões de todos os cantos do Império, todos a prepararem-se para invadir. Para a derrotar. Ela dava as boas-vindas ao confronto. Ela sabia que não precisava dos Volks. Ela não precisava de nenhum dos seus homens. Ela conseguia matá-los sozinha. Ela era, afinal, uma deusa. Ela havia deixado o reino dos mortais há muito tempo e agora ela era uma lenda, uma lenda que ninguém e nenhum exército no mundo conseguia deter. Ela iria saudá-los sozinha e matá-los a todos, para todo o sempre. E então, finalmente, não haveria ninguém para confrontá-la. E então, os seus poderes seriam supremos. Volusia ouviu um barulho atrás dela e pelo canto do olho, detetou movimento. Ela viu Brin a levantarse da cama, atirando os lençóis e começando a vestir-se. Ela viu-o a esgueirar-se por ali, com cuidado para não fazer barulho, e percebeu que ele pretendia escapar do quarto antes de ela o ver - para que ele nunca mais tivesse de olhar para a sua cara novamente. E isso acrescentava insulto à injúria. "Oh, Comandante", disse ela casualmente. Ela viu-o congelar de medo; ele virou-se e olhou para ela com relutância, e, ao fazê-lo, ela sorriu-lhe, torturando-o com o grotesco dos seus lábios derretidos. "Vem cá, comandante", disse ela. "Antes de saíres, há algo que eu te quero mostrar." Ele virou-se lentamente e caminhou, atravessando o quarto até chegar ao pé dela. Ele ficou ali, a olhar, a olhar para qualquer lado menos para a sua cara. "Não tens um beijo de despedida doce para a tua Deusa?", perguntou ela. Ela viu-o a recuar muito ligeiramente e sentiu uma nova raiva a arder dentro de si. "Esquece", acrescentou ela, com a sua expressão a ficar sombria. "Mas há, pelo menos, algo que eu te quero mostrar. Dá uma olhadela. Vês lá fora, no horizonte? Vê mais de perto. Diz-me o que vês lá em baixo." Ele chegou-se à frente e ela colocou uma mão no seu ombro. Ele inclinou-se e examinou o horizonte, e, ao fazê-lo, ela viu que ele, confundido, franziu a testa. "Não vejo nada, Deusa. Nada fora do comum." Volusia sorriu largamente, sentindo a velha vingança a crescer dentro de si, sentindo a velha necessidade de violência, de crueldade. "Olha mais de perto, Comandante", disse ela. Ele inclinou-se para a frente, apenas um pouco mais, e, num movimento rápido, Volusia agarrou a sua camisa por trás e com toda a sua força, atirou-o pela janela com a cara voltada para baixo. Brin gritava enquanto se agitava e caía pelo ar, cem pés, até, finalmente, cair de cara na rua lá em baixo, morrendo instantaneamente. O baque reverberou nas ruas habitualmente tranquilas. Volusia sorriu amplamente, examinando o seu corpo, finalmente, com um sentimento de vingança.

"Está a ver-te a ti mesmo", ela respondeu. "Quem é o menos grotesco de nós agora?"

CAPÍTULO DOZE Gwendolyn caminhava pelos corredores sombrios da torre dos Caçadores de Luz, com Krohn ao seu lado, caminhando lentamente pela circular rampa acima, ao longo das paredes do edifício. O caminho estava revestido com tochas e devotos do culto, de pé silenciosamente concentrados, com as mãos escondidas nas suas vestes. A curiosidade de Gwen aprofundava-se, enquanto ela continuava a subir um nível após o outro. O filho do rei, Kristof, tinha-a levado até metade do caminho, após a reunião deles. Em seguida, tinha-se virado e descido, instruindo-a de que ela teria de completar a viagem sozinha para ver Eldof, que só ela, sozinha conseguiria enfrentá-lo. A forma como todos eles falavam sobre ele, era como se ele fosse um deus. Cânticos suaves preenchiam o ar pesado com incenso, enquanto Gwen caminhava pela muito gradual rampa acima, questionando-se: Que segredo guardava Eldof? Será que ele lhe iria transmitir o conhecimento que ela precisava para salvar o Rei e salvar o Cume? Será que ela alguma vez seria capaz de resgatar a família do Rei deste lugar? Gwen virou numa esquina e, de repente, a torre abriu-se, e ela perdeu o fôlego com a vista. Ela entrou numa câmara com um teto de cem pés de altura e paredes forradas com janelas de vitral do chão ao teto. Havia uma luz ténue, cheia de escarlates, roxos e rosas, emprestando à câmara uma qualidade etérea. E o que ainda o tornava mais surreal era ver um homem sentado sozinho naquele vasto lugar, no centro da sala, com os raios de luz a descerem sobre si como se para o iluminarem a ele e a ele só. Eldof. O coração de Gwen bateu com força ao vê-lo ali sentado na extremidade da câmara, como um deus que tinha caído do céu. Ele estava ali sentado, com as mãos dobradas no seu brilhante manto de ouro, com a sua cabeça implacavelmente calva, num enorme e magnífico trono esculpido em marfim, com tochas em ambos os lados da rampa que levava até lá, iluminando obliquamente a sala. Aquela câmara, o trono, a rampa - era mais inspirador do que aproximar-se de um Rei. Ela percebeu imediatamente porque é que o Rei se sentia ameaçado pela sua presença, pelo seu culto, por aquela torre. Era tudo projetado para inspirar temor e subserviência. Ele não lhe acenou, nem sequer reconheceu a sua presença. Gwen, não sabendo mais o que fazer, começou a percorrer o longo caminho dourado que ia até ao trono dele. Enquanto ia, ela viu que, afinal, ele não estava ali sozinho, pois ofuscados nas sombras, estavam fileiras de devotos todos alinhados, de olhos fechados, com as mãos enfiadas nos seus mantos, revestindo a rampa. Ela questionava-se sobre quantos milhares de seguidores ele teria. Por fim, ela parou a alguns pés diante do seu trono e olhou para cima. Ele olhou para ela com olhos que pareciam antigos, azul-gelo, brilhantes. Ao sorrir para ela, o eu olhar não era caloroso. Eles eram hipnotizantes. Lembrava-a de estar na presença de Argon. Ela não sabia o que dizer, enquanto ele olhava para baixo; era como se ele estivesse a olhar para a sua alma. Ela ficou ali, no silêncio, à espera até que ele estivesse pronto. Ao seu lado, ela sentia Krohn contraído, igualmente apreensivo. "Gwendolyn do Reino Ocidental do Anel, filha do Rei MacGil, última esperança para a salvação do seu povo - e do nosso", pronunciou ele lentamente, como se estivesse a ler um manuscrito antigo, com a voz mais profunda que alguma vez ela tinha ouvido, soando como se ressoasse da própria pedra. Os olhos dele penetravam nos dela e a sua voz era hipnótica. Ao olhar para eles, ela perdeu todo a noção de espaço, tempo e lugar. Gwen já se sentia a ser sugada para dentro do seu culto de personalidade. Sentiase em transe, como se não conseguisse olhar para mais lado nenhum, mesmo se tentasse. Imediatamente, ela sentiu como se ele fosse o centro do mundo dela, e compreendeu de uma vez por todas como todas aquelas pessoas o tinham passado a venerar e a segui-lo.

Gwen olhava para ele, momentaneamente sem palavras, algo que raramente tinha acontecido com ela. Ela nunca se tinha sentido tão fascinada - ela, que tinha estado perante muitos Reis e Rainhas; ela, que ela própria era Rainha; ela, a filha de um Rei. Aquele homem tinha uma qualidade, algo que ela não conseguia descrever; por um momento, ela até se esqueceu porque tinha ido ali. Finalmente, ela limpou a sua mente o tempo suficiente para ser capaz de falar. "Eu vim", começou, "porque…" Ele riu-se, interrompendo-a, com um som curto, profundo. "Eu sei porque vieste", disse ele. "Eu sabia mesmo antes de tu saberes. Eu sabia da tua chegada a este lugar - de facto, eu soube mesmo antes de teres cruzado o Grande Desperdício. Eu sabia da sua partida do Anel, da tua viagem para as Ilhas Superiores e das tuas viagens pelo mar. Eu sei do teu marido, Thorgrin, e do teu filho, Guwayne. Eu tenho observado-vos com grande interesse, Gwendolyn. Há séculos, que eu vos observo." Gwen sentiu um arrepio ao ouvir as suas palavras, com a familiaridade desta pessoa que ela não conhecia. Ela sentiu um formigamento nos braços, pela sua coluna acima, indagando-se como é que ele sabia de tudo aquilo. Ela sentia-se que, estando na sua órbita, ela não conseguiria escapar mesmo se tentasse. "Como é que sabes isso tudo?", perguntou ela. Ele sorriu. "Eu sou Eldof. Eu sou tanto o início como o fim do conhecimento." Ele levantou-se e ela ficou chocada ao ver que ele era duas vezes mais alto do que qualquer homem que ela conhecia. Ele aproximou-se, descendo a rampa, e com os seus olhos tão hipnotizantes, Gwen sentiu como se não se conseguisse mover na sua presença. Era tão difícil concentrar-se diante dele, ter um pensamento independente. Gwen forçou-se a clarear o seu pensamento, a concentrar-se no que a tinha levado ali. "O teu Rei precisa de ti", disse ela. "O Cume precisa de ti." Ele riu-se. "O meu Rei?", repetiu ele com desdém. Gwen forçou-se a insistir. "Ele acredita que tu sabes como salvar o Cume. Ele acredita que tu lhe estás a esconder um segredo, um que poderia salvar este lugar e todas essas pessoas." "E estou", respondeu ele categoricamente. Gwen foi apanhada de surpresa com a sua imediata e franca resposta, e mal sabia o que dizer. Ela estava à espera que ele negasse. "Estás?", perguntou ela, espantada. Ele sorriu, mas não disse nada. "Mas porquê?", perguntou ela. "Porque é que não partilhas esse segredo?" "E porque é que haveria de o fazer?", perguntou ele. "Porquê?", perguntou ela, perplexa. "Claro que para salvar este reino, para salvar o seu povo." "E porque eu iria querer fazer isso?", pressionou ele. Gwen cerrou os olhos, confusa; ela não tinha ideia de como responder. Finalmente, ele suspirou. "O teu problema", disse ele, "é que tu acreditas que todos devem ser salvos. Mas é aí que estás enganada. Tu olhas para o tempo na lente de meras décadas; eu vejo-o em termos de séculos. Tu olhas para as pessoas como indispensáveis; eu vejo-as como meras engrenagens da grande roda do destino e do tempo." Ele aproximou-se ainda mais, com os seus olhos a arder. "Algumas pessoas, Gwendolyn, estão destinadas a morrer. Algumas pessoas precisam de morrer." "Precisam de morrer?", perguntou ela, horrorizada.

"Algumas devem morrer para libertar outras", disse ele. "Algumas devem cair para que outras possam ascender. O que torna uma pessoa mais importante do que outra? Um lugar mais importante do que outro?" Ela ponderou as suas palavras, cada vez mais confusa. "Sem destruição, sem desperdício, não era possível o crescimento. Sem as areias vazias do deserto, não pode haver nenhuma base sobre a qual construir as grandes cidades. O que é que é mais importante: a destruição, ou o crescimento que se segue? Não compreendes? O que é que é a destruição a não ser uma fundação?" Gwen, confusa, tentava entender, mas as palavras dele só aprofundavam a sua confusão. "Então vamos ficar parados e deixar o Cume e o seu povo morrer?", perguntou ela. "Porquê? Como é que isso te beneficiaria?" Ele riu-se. "Porque tudo tem sempre de ser por um benefício?", perguntou ele. "Eu não vou salvá-los porque não é suposto eles serem salvos", disse ele enfaticamente. "Este lugar, este Cume, não é suposto sobreviver. É suposto ele ser destruído. É suposto este Rei ser destruído. É suposto todas essas pessoas serem destruídas. E não me compete a mim estar no caminho do destino. Foi-me concedido o dom de ver o futuro - mas isso é um presente que eu não devo abusar. Eu não vou mudar o que vejo. Quem sou eu para me meter no caminho do destino?" Gwendolyn não conseguia deixar de pensar em Thorgrin, em Guwayne. Eldof sorriu largamente. "Ah, sim", disse ele, olhando diretamente para ela. "O teu marido. O teu filho." Gwen olhou para ele, chocada, questionando-se como é que ele tinha lido a sua mente. "Tu queres tanto ajudá-los", acrescentou ele, abanando a cabeça. "Mas às vezes não se pode mudar o destino." Ela corou e sacudiu as palavras dele, determinada. "Eu vou mudar o destino", disse ela enfaticamente. "Custe o que custar. Mesmo se eu tiver de desistir da minha própria alma." Eldof olhava para ela prolongada e duramente, estudando-a. "Sim", disse ele. "Vais, não vais? Eu consigo ver essa força dentro de ti. O espírito de uma guerreira." Ele examinou-a, e pela primeira vez ela viu um pouco de certeza na expressão dele. "Eu não esperava encontrar isso dentro de ti", ele continuou, humildemente. "Há uns quantos selecionados, como tu, que têm o poder de mudar o destino. Mas o preço que vais pagar é muito grande." Ele suspirou, como se sacudindo uma visão. "Em qualquer caso", ele continuou, "tu não vais mudar o destino aqui - não no Cume. A morte está a vir para aqui. O que eles precisam não é de um salvamento - mas de um êxodo. Eles precisam de um novo líder, para levá-los através do Grande Desperdício. Eu acho que já sabes que tu és esse líder." Gwen sentiu um arrepio ao ouvir as suas palavras. Ela não conseguia imaginar-se a ter força para passar por tudo aquilo novamente. "Como é que eu os posso levar?", perguntou ela, exausta só de pensar. "E para onde é que nos resta ir? Estamos no meio do nada.” Ele virou-se, caindo em silêncio, e quando começou a afastar-se, Gwen sentiu um súbito desejo ardente de saber mais. "Diz-me", disse ela, correndo e agarrando o braço dele. Ele virou-se e olhou para a mão dela, como se uma cobra lhe tivesse a tocar, até que, por fim, ela removeu-a. Vários dos seus monges precipitaram-se para fora das sombras e ficaram por perto, olhando para ela iradamente, até que, finalmente, Eldof acenou para eles, e eles retiraram-se. "Diz-me", disse-lhe ele: "Eu vou responder-te uma vez. Só uma vez. O que é que desejas saber?"

Gwen respirou fundo, desesperada. "Guwayne", disse ela, sem fôlego. "O meu filho. Como é que eu o tenho de volta? Como é que eu mudo o destino?" Ele olhou para ela longa e duramente. "A resposta tem estado diante de ti desde sempre, e ainda assim tu não vês." Gwen atormentou o seu cérebro, desesperada para saber, e, no entanto, ela não conseguia entender o que era. "Argon", acrescentou ele. "Ainda há um segredo que ele tem tido medo de te contar. É aí que a tua resposta está." Gwen ficou chocada. "Argon?", perguntou ela. "Argon sabe?" Eldof abanou a cabeça. "Ele não sabe. Mas o seu mestre sabe." A mente de Gwen rebobinou. "O seu mestre?", perguntou ela. Gwen nunca tinha considerado que Argon tinha um mestre. Eldof assentiu. "Exige que ele te leve até ele", disse ele, com inevitabilidade na sua voz. "As respostas que vais receber vão surpreender-te até mesmo a ti."

CAPÍTULO TREZE Mardig pavoneava-se pelos corredores do castelo com determinação, com o coração a bater com força ao contemplar com a sua mente o que estava prestes a fazer. Ele esticou o braço e com uma mão suada agarrou a adaga escondida na sua cintura. Ele percorria o mesmo caminho que havia percorrido um milhão de vezes antes - o caminho para ver o seu pai. A câmara do Rei não estava muito longe agora. Mardig fazia as curvas e contracurvas dos familiares corredores, passando por todos os guardas, que, ao verem o filho do rei, faziam a vénia em reverência. Mardig sabia que tinha pouco a temer deles. Ninguém tinha qualquer ideia do que ele estava prestes a fazer. E ninguém saberia o que tinha acontecido até muito tempo depois de o ato estar feito – e o reino era dele. Mardig sentia um turbilhão de emoções conflituantes enquanto se obrigava a colocar um pé na frente do outro, com os joelhos a tremer, forçando-se a manter-se determinado à medida que se preparava para fazer o ato que havia contemplado a sua vida inteira. O seu pai havia-o sempre oprimido, nunca havia concordado com ele, enquanto havia concordado os seus outros filhos guerreiros. Até havia concordado mais com a sua filha do que com ele. Tudo porque ele, Mardig, tinha escolhido não participar naquela cultura de cavalaria; tudo porque ele preferia beber vinho e perseguir mulheres - em vez de matar outros homens. Aos olhos do seu pai, isso fazia dele um falhanço. O seu pai havia desaprovado tudo o que Mardig fazia. Os seus olhos de desaprovação seguiam-no em cada esquina. Mardig havia sempre sonhado com o dia do ajuste de contas. E, ao mesmo tempo, Mardig poderia apoderar-se do poder para si mesmo. Todos esperavam que o reinado caísse nas mãos do seu irmão mais velho, Koldo, ou se não nas mãos dele, então nas mãos do irmão gémeo de Mardig, Ludvig. Mas Mardig tinha outros planos. Mardig virou a esquina e os soldados que guardavam a porta fizeram uma vénia em reverência, voltando-se para a abrir para si sem sequer lhe perguntar porquê. Mas, de repente, um deles parou, inesperadamente, virou-se e olhou para ele. "Meu senhor", disse ele, "o Rei não nos informou que ia haver visitas, esta manhã." O coração de Mardig começou a bater com força. Ele esforçou-se por parecer destemido e confiante; virou-se e olhou para o soldado, um olhar de legitimidade, até que, por fim, viu que o soldado parecia inseguro de si mesmo. "E eu sou um mero visitante?", questionou Mardig friamente, fazendo o seu melhor para parecer destemido. O guarda afastou-se rapidamente e Mardig entrou. Os guardas fecharam a porta logo a seguir. Mardig pavoneou-se até ao quarto, e, ao fazê-lo, ele viu os olhos de surpresa do seu pai, que estava de pé à janela e olhas pensativamente para o seu reino. Ele voltou-se para, confuso. "Mardig", disse o pai, "a que devo o privilégio? Eu não te chamei. Nem tu te incomodaste em visitarme em nenhuma das luas passadas - a menos que houvesse algo que queiras." O coração Mardig batia no seu peito. "Eu não te vim pedir nada, Pai", respondeu ele. "Eu vim para levar." O seu pai parecia confuso. "Para levar?", perguntou. "Para levar o que é meu", respondeu Mardig. Mardig atravessou a câmara com alguns passos largos, preparando-se, enquanto o seu pai olhava para ele, perplexo. "O que é que é teu?", perguntou. Mardig sentia as palmas das suas mãos a suar, com a adaga na sua mão, não sabendo se conseguia ir

até o fim. "O reino, claro", disse ele. Mardig libertou lentamente a adaga da palma da sua mão, querendo que o seu pai a visse antes de o esfaquear, querendo que o seu pai visse em primeira mão o quanto ele o odiava. Ele queria ver a sua expressão de medo, de choque e de raiva. Mas, quando o seu pai olhou para baixo, aquele não foi o momento que Mardig tinha esperado. Ele tinha esperado que o seu pai resistisse, lutasse também; mas em vez disso ele olhou para ele com tristeza e compaixão. "Meu filho", disse ele. "Tu ainda és meu filho, apesar de tudo, e eu amo-te. Eu sei que no fundo do teu coração, tu não queres fazer isto." Mardig estreitou os olhos, confuso. "Eu estou doente, meu filho", continuou o Rei. "Em breve, vou estar morto. Quando eu morrer, o Reino passará para os teus irmãos, não para ti. Mesmo se me matasses agora, não ganharias nada com isso. Continuarias a ser o terceiro na linha. Portanto, pousa a tua arma e abraça-me. Eu ainda te amo, como qualquer pai amaria." Mardig, numa súbita onda de raiva, com as mãos a tremer, saltou para a frente e enfiou a adaga no fundo do coração do seu pai. O seu pai ficou ali, com os olhos esbugalhados de incredulidade, enquanto Mardig o segurava apertado e o olhava nos olhos. "A tua doença fez de ti fraco, Pai", disse ele. "Há cinco anos eu nunca conseguiria ter feito isto. E um reino não merece um rei fraco. Eu sei que vais morrer em breve - mas isso não é suficiente breve para mim." Por fim, o pai dele, caiu no chão, imóvel. Morto. Mardig olhou para baixo, respirando com dificuldade, ainda em choque com o que tinha acabado de fazer. Ele passou a mão no seu manto, atirou a faca, e esta foi cair com um estrondo no chão. Mardig franziu a cara para o seu pai. "Não te preocupes com os meus irmãos, Pai", acrescentou ele. "Eu tenho um plano para eles, também." Mardig passou por cima do cadáver do seu pai, aproximou-se da janela e olhou para a capital lá em baixo. A sua cidade. Agora era toda sua.

CAPÍTULO CATORZE Kendrick ergueu a sua espada e bloqueou o golpe quando um Caminhante da Areia trouxe a sua garra afiada para baixo na direção do seu rosto. O golpe parou com um tinido e com faíscas a libertarem-se. Kendrick esquivou-se quando a criatura desviou as suas garras da espada e se atirou violentamente à sua cabeça. Kendrick girava e golpeava, mas a criatura era surpreendentemente rápida. A criatura recuou. A espada de Kendrick falhou por pouco. Em seguida, ela lançou-se para frente, saltando bem alto e caindo diretamente na direção de Kendrick - e, desta vez, ele estava preparado. Ele havia subestimado a velocidade da criatura, mas não iria fazê-lo uma segunda vez. Kendrick agachou-se e levantou a espada deixando a besta empalar-se a si própria, caindo diretamente na lâmina. Kendrick pôs-se de joelhos e virou a sua espada para baixo, cortando as pernas de dois Caminhantes da Areia quando eles vieram na sua direção. Ele então virou-se e deu um impulso para trás à sua espada, apunhalando um no intestino precisamente antes de aquele cair de costas. Os animais desciam sobre si vindos de todas as direções e Kendrick deu por si no meio de uma acesa batalha, com Brandt e Atme de um lado e Koldo e Ludvig de outro. Os cinco instintivamente apoiavam-se uns aos outros, formando um círculo apertado, de costas uns para os outros, golpeando, perfurando e pontapeando, mantendo as criaturas afastadas e protegendo-se uns aos outros. Eles lutavam sem parar sob os sóis abrasadores, sem nenhum lugar para se refugiarem no vasto espaço aberto. Os ombros de Kendrick doíam-lhe. Ele estava apoiado nos cotovelos em sangue, exausto da sua longa caminhada, exausto da batalha interminável. Eles não tinham reservas e nenhum lugar para onde ir, e todos lutavam pelas suas vidas. Os gritos enfurecidos daquelas bestas enchiam o ar quando elas desciam por todos os lados. Kendrick sabiam que tinham de ter cuidado; era uma longa caminhada de volta, e, se algum deles ficasse ferido, seria uma situação terrível. Enquanto lutava, Kendrick vislumbrou ao longe o rapaz, Kaden, ficando aliviado ao ver que ele ainda estava vivo. Ele lutava, com as mãos e braços amarrados atrás das costas, retido por várias criaturas. Vê-lo motivou Kendrick, fazendo-o lembrar-se da razão pela qual ele tinha ido ali. Ele lutava furiosamente, redobrando os seus esforços, tentando golpear todas aquelas bestas para conseguir chegar ao rapaz. Ele não gostava da forma como elas o estavam a tratar, e ele sabia que tinha de alcançá-lo antes que as criaturas fizessem algo precipitado. Kendrick gemeu de dor quando, de repente, sentiu um golpe no braço. Ele virou-se e viu uma criatura a dar balanço novamente, descendo com as suas garras afiadas, diretamente na direção da sua cara. Ele não conseguiu reagir a tempo e preparou-se, à espera que o golpe rasgasse a sua cara em duas – quando, de repente, Brandt lançou-se para a frente e perfurou a criatura no peito com a sua espada, salvando Kendrick no último momento. Ao mesmo tempo, Atme adiantou-se e cortou uma criatura exatamente antes de ela conseguir afundar as suas presas na garganta de Brandt. Kendrick, em seguida, girou, golpeando duas criaturas antes de elas descerem sobre Atme. Ele continuava às voltas sem parar, rodopiando e golpeando, lutando com todas as criaturas até à última. As criaturas caiam a seus pés, acumulando-se na areia. A areia estava vermelha de sangue. Kendrick vislumbrou pelo canto do olho, várias criaturas a agarrarem Kaden e a começarem a fugir com ele. O coração de Kendrick bateu com força; ele sabia que era uma situação terrível. Se ele os perdesse de vista, eles iriam desaparecer no deserto e eles nunca mais encontrariam Kaden. Kendrick sabia que tinha de ir atrás a correr. Ele soltou-se da luta, dando cotoveladas as várias criaturas para estas se afastarem, e perseguiu o rapaz, deixando os outros a lutar contra as criaturas. Várias criaturas perseguiam-no. Kendrick voltava-se, pontapeando e golpeando para os deter enquanto

continuava. Kendrick sentia-se arranhado por todos os lados, mas isso não o fazia parar. Ele teve que alcançar Kaden a tempo. Kendrick, vendo Kaden, sabia que tinha que pará-lo; ele sabia que só tinha uma oportunidade para o fazer. Kendrick tirou uma faca da sua cintura e atirou-a. Esta foi aterrar no pescoço de uma criatura, matando-a imediatamente antes de ela afundar as suas garras na garganta de Kaden. Kendrick irrompia bruscamente pela multidão, diminuindo a distância, correndo na direção de Kaden e esfaqueando outra imediatamente antes de ela conseguir acabar com ele. Kendrick tomou uma posição defensiva sobre Kaden, que estava deitado no chão, amarrado, enquanto matava os seus captores. À medida que mais criaturas se aproximavam de si vindas de todas as direções, Kendrick bloqueava-lhes as garras. Ele viu-se cercado, a golpear em todas as direções, mas determinado a salvar Kaden. Os outros, ele conseguia ver, estavam demasiado imersos na batalha para se apressarem a irem ter com Kaden. Kendrick ergueu a espada e golpeou as cordas do rapaz, libertando-o. "Toma a minha espada!", implorou Kendrick. Kaden tirou da bainha de Kendrick a curta espada extra, rodopiou e enfrentou o resto das criaturas, ao lado de Kendrick. Embora fosse jovem, Kendrick via que o rapaz era rápido, corajoso e ousado. Kendrick estava satisfeito por tê-lo ao seu lado, lutando contra as criaturas. Eles lutavam bem em equipa, abatendo criaturas por todos os lados. Mas, por muito que lutassem, havia demasiadas criaturas, e, em pouco tempo, Kendrick e Kaden ficaram completamente cercados. Kendrick estava a perder força e a ficar cansado dos ombros, quando, de repente, ele viu as criaturas começarem a cair e ouviu um grande grito de guerra por detrás delas. Kendrick ficou feliz ao ver Koldo, Ludvig, Brandt e Atme a passarem pelas fileiras e a matarem criaturas em todas as direções. Incentivado, Kendrick lutou novamente, fazendo um último esforço, com Kaden ao seu lado. Eles os seis, a lutarem juntos, estavam imparáveis, derrubando todas as criaturas. Kendrick estava ali, em silêncio, respirando com dificuldade na areia do deserto, fazendo um balanço; ele mal podia acreditar no que tinham acabado de fazer. Em torno deles, estavam as carcaças das bestas empilhadas, espalhadas por todos os lados, a areia vermelha de sangue. Ele e os outros estavam cobertos de feridas, arranhados - mas estavam ali todos, vivos. E Kaden, sorrindo de orelha a orelha, estava livre. Kaden aproximou-se e abraçou cada um deles, um por um, começando por Kendrick, olhando para ele profundamente. Ele guardou o abraço final para Koldo, o seu irmão mais velho, e Koldo abraçou-o também, com a sua pele negra enrugando-se ao céu. "Nem acredito que me vieste salvar", disse Kaden. "Tu és meu irmão", disse Koldo. "Onde mais é que eu poderia estar?" Kendrick ouviu um som, olhou e viu os seis cavalos que aquelas criaturas tinham sequestrado, todos amarrados juntos a uma corda - e ele e os outros trocaram olhares cúmplices. Como um, todos eles correram e montaram-se. Ainda mal sentados e já cavavam os seus calcanhares, incitando os animais a avançarem, de volta para o Desperdício, todos de volta para o Cume, de volta a casa, finalmente.

CAPÍTULO QUINZE Erec estava na popa do navio, ocupando a parte traseira da sua frota, e olhava para trás para verificar, mais uma vez, com ansiedade. Por um lado, ele estava aliviado por terem conseguido dizimar aquela aldeia do Império e por terem voltado pela bifurcação do rio em direção a Volusia, em direção a Gwendolyn; por outro lado, ele tinha pago um preço elevado, não apenas em homens perdidos, mas em perda de tempo - ele tinha dizimado qualquer que fosse a vantagem que tinha sobre o que restava da frota do Império. Ao olhar para trás, ele via-os a segui-los, demasiado perto, serpenteando o seu caminho rio acima, apenas a algumas centenas de jardas de distância, navegando com as bandeiras pretas e douradas do Império. Ele havia perdido a vantagem do seu dia sobre eles, e eles, agora, seguiam-no furiosamente, como um vespão a perseguir a sua presa, com os seus navios superiores, melhor tripulada, ficando cada vez mais próximos a cada rajada de vento. Erec voltou-se para trás e verificou o horizonte. Ele sabia, pelos seus vigias que Volusia ficava logo além da curva algures – no entanto, ao ritmo a que o Império estava a diminuir a distância, ele perguntava-se se a sua pequena frota chegaria a tempo. Ele começava a perceber que, se eles não chegassem a tempo, eles teriam que se virar e defender uma posição - e isso era algo que eles não conseguiriam vencer, estando tão vastamente em menor número. Erec ouviu um som que lhe fez levantar os cabelos na parte de trás do pescoço. Ele virou-se, olhou e viu algo que o deixou com um calafrio: uma onda de flechas do Império tinha sido libertada, e agora elas navegavam pelo ar, escurecendo o céu, dirigindo-se, num arco alto, para a sua frota. Erec preparou-se, vendo com alívio que o primeiro arremesso desembarcou na água ao seu redor, talvez a vinte jardas do seu navio, com o som das setas a bater na água a soar como pingos de chuva pesados. "FLECHAS!", gritou Erec, avisando os seus homens para se protegerem. A maioria deles fê-lo, e não demasiado cedo. Outra rajada seguiu-se logo de seguida, estas lançadas por bestas com maior alcance. Erec ficou horrorizado ao ver uma a alcançar o convés do seu navio e um dos seus soldados a gritar. Erec virou-se e viu-a presa à sua perna, furada por uma seta aleatória, a única com alcance suficiente. Erec sentiu uma onda de indignação - e de urgência. O Império estava perto; muito em breve eles seriam alcançados e, com frota de milhares de navios do Império, não havia simplesmente nenhuma maneira dos homens de Erec conseguirem ser melhores a combater. Erec sabia que tinha de pensar rápido. "Devemos virar e lutar, meu irmão?", perguntou Strom, chegando-se ao pé dele. Alistair olhou para trás, também, de pé calmamente ao lado dele. "Tu vais triunfar, meu amor", disse ela. "Eu vi isso." Erec sentiu-se encorajado pelas suas palavras, como sempre, e enquanto ele olhava e analisava a paisagem, teve uma ideia. "Às vezes", disse ele, "devemos sacrificar para alcançar algo maior." Erec virou-se para o seu irmão, confiante. "Embarca no navio ao nosso lado. Evacua-o e, em seguida, toma a retaguarda", ordenou ele. De seguida, ele agarrou o braço de Strom e olhou-o nos olhos. "Quando acabares", ele acrescentou, "lança chamas àquele navio e fá-lo navegar diretamente na direção da frota deles. Tu vais saltar para o meu navio antes das chamas tomarem conta dele." Os olhos de Strom arregalaram-se em apreço pelo plano. Ele entrou em ação, correndo e saltando do convés para o navio ao seu lado, executando as ordens do seu irmão. Ele começou a vociferar ordens, e os homens juntaram-se a si, entrando em ação e começando a abandonar o navio, saltando para o convés do navio de Erec. Erec conseguia sentir o peso do seu navio a aumentar.

"Mais remos!", gritou Erec, sentindo-os a abrandar. Ele duplicou o número de remadores a bordo, e todos eles puxaram, esforçando-se, e o navio de Eric começou a ganhar velocidade. "Espalhem-se!", ordenou Erec, apercebendo-se de que o seu navio estava a ir demasiado devagar. "Saltem para os outros navios!" Os seus homens fizeram como ele ordenou, saltando do seu barco para vários outros na sua frota, distribuindo o seu peso uniformemente entre os navios. Finalmente, o navio de Eric endireitou-se e ganhou velocidade. Erec virou-se para ver o último dos homens a saltar do navio de Strom. Strom ergueu uma tocha e correu de um lado ao outro do navio, colocando tudo em chamas e, de seguida, atirou-a com toda a sua força. A tocha pousou no mastro, acendendo-o, incendiando todo o navio com enormes chamas. Strom virou-se, saltou de volta para o navio do seu irmão e ficou ali, a observar o navio fantasma, em chamas, a afastar-se da corrente – diretamente para a frota do Império. "Remem!", gritou Erec, querendo ganhar mais distância do navio em chamas, do Império. Eles ganharam cada vez mais distância, acelerando rio acima. A frota do Império tentou desviar-se do caminho, virando - mas não havia nenhum lugar para onde navegar no minúsculo rio. O navio em chamas causou o caos. Eles atacaram-no, não percebendo que não era tripulado, desperdiçando preciosas flechas e lanças. O navio era atacado de todos os lados - mas nada conseguia impedir a sua passagem. Em pouco tempo, o navio, um naufrágio incandescente, flutuou precisamente em direção ao centro da frota do Império, O navio embateu nos outros, e enquanto os homens gritavam e saltavam para fora do caminho, as chamas começaram a lamber, espalhando-se por todos os lados, causando o caos naquela frota do Império. Em poucos instantes, vários outros navios estavam em chamas, com os seus soldados a lutarem para as apagarem. "SENHOR!", Erec ouviu alguém chamar. Erec virou-se e viu um dos seus homens a apontar, e, quando ele olhou para trás rio acima, ele foi atingido por uma visão inspiradora: uma cidade majestosa que não poderia ser outra senão Volusia. "Volusia", disse Alistair, com uma voz confiante, e Eric sentiu que assim era. Ele olhou para trás, viu que tinham ganho um tempo precioso - talvez horas - e ele sabia que eles tinham uma hipótese, embora escassa, de entrar na cidade e sair antes do Império conseguir apanhá-los. Ele virou-se e acenou para os seus homens. "Velas a toda a velocidade", ele ordenou. * A frota de Erec, navegando rio acima firmemente durante a maior parte do dia, finalmente contornou uma curva, com a corrente a apanhá-la. Ao fazerem-no, Erec olhava ao longe, em reverência à vista. À frente deles, espalhava-se o que só poderia ser Volusia. Uma cidade magnífica, a mais luxuosa que alguma vez já tinha visto, foi construída. Era construída de ouro, brilhando mesmo a partir dali, com os edifícios e ruas mais ordenadas e meticulosas que ele alguma vez tinha visto. Por toda a parte havia estátuas, em forma de uma mulher que parecia ser uma deusa, deslumbrante ao sol, e ele não podia deixar de se perguntar quem ela era e que culto a venerava. Acima de tudo, Erec foi surpreendido pelo seu porto brilhante, cheio de todos os tipos de navios e embarcações, muitos dourados, a brilhar ao sol, tão brilhantes que ele quase teve de desviar o olhar. O oceano rebentava nas suas margens. Erec conseguiu imediatamente ver que aquela era uma cidade de enorme riqueza e força. Ao observá-la, Erec também ficou surpreendido por outra coisa que viu: plumas negras de fumo. Elas

flutuava sobre a cidade, cobrindo-a como um cobertor em todas as direções. Ele não conseguia entender porquê. Estava a cidade em chamas? No meio de uma revolta? Sob ataque? Era desconcertante para ele. Como poderia uma tal cidade, tal bastião de força, estar sob ataque? Que força estava lá no Império suficientemente forte para atacar uma cidade do Império? E o que o preocupava acima de tudo: estava Gwendolyn envolvida? Erec semicerrou os olhos, perguntando-se se estava a ver coisas; mas à medida que se aproximavam, quando ele ouviu o som distinto de homens a chorar a sua morte, ele percebeu que ele estava certo. E ao olhar mais de perto, ele piscou os olhos, confundido. Parecia que o Império estava a atacar o Império. Mas porquê? Caiam homens por todos os lados, milhares de soldados proliferavam pelas ruas, pelas portas abertas na direção da cidade, saqueando-a. Aqueles invasores usavam a armadura do Império, mas de uma cor diferente - toda preta. Ele viu que eles também faziam esvoaçar uma bandeira distinta, e, ao olhar mais de perto, ele a reconheceu-a dos seus livros de histórias: Os Cavaleiros dos Sete. Erec ficou ainda mais perplexo. Os Cavaleiros dos Sete, se bem se lembrava, representavam todas as cornetas e espigões do Império, todas as províncias. O que é que eles estavam a fazer ali? Porque é que eles estavam a atacar uma cidade do Império? Estava uma guerra civil a rebentar? Ou pior, ele ponderou com medo: estavam eles todos ali para matar Gwendolyn? Ao se aproximarem, Erec sentiu-se aliviado, mas também com medo. Aliviado, porque sabia que os soldados de Volusia ficariam distraídos, ocupados, não tendo tempo para montar uma defesa enquanto ele entrava no porto deles. No entanto, ele também sentia medo ao avaliar a força e dimensão dos invasores, questionando-se se também teria que lutar contra eles. De qualquer das maneiras, ele teria de se preparar para a guerra. Erec olhou para trás e viu que o resto da frota do Império, depois de ter recuperado do seu navio em chamas, começava a diminuir novamente a distância. Não havia muito tempo; se ele ia invadir Volusia, para encontrar Gwendolyn, ele tinha de o fazer agora – quer estivesse ou não uma guerra civil a romper. "Estamos a entrar numa batalha de terceiros?", perguntou Strom, olhando ao longe, ao lado dele. Erec examinou o horizonte, perguntando-se. "Só há uma maneira de descobrir", respondeu ele. Ele via que os seus homens estavam igualmente confusos com o que viam, olhando todos para ele à espera de orientações. "REMEM!", gritou Erec para os seus homens. "MAIS DEPRESSA!" Eles ganharam velocidade, e, quando se aproximaram das docas, Erec viu algo que o paralisou: barras de ferro, tão espessas como árvores, bloqueavam o porto, com os seus espigões para baixo, a desaparecer nas águas. Aquela ponte levadiça de ferro, na água, era um portão para os canais da cidade, talvez construída para manter os invasores afastados em tempos de apuros. Mas não havia outra maneira de entrar. Erec percebeu imediatamente que se não a conseguissem passar, ficariam encurralados – a mercê do Império que se aproximava. "Podemos forçá-la?", perguntou Strom. Eric abanou a cabeça. "Os nossos navios iriam despedaçar-se", ele respondeu. Erec ficou ali a examiná-la, à procura de uma saída – quando, de repente, ele viu algo curioso, que o fez franzir a testa enquanto espreitava através do sol. Era um homem acima do peso, a correr, a respirar com dificuldade pelas ruas, que parecia muito fora de forma; ao lado dele estavam vários companheiros, que pareciam tão fora de forma quanto ele. Todos eles pareciam estar bêbados, e não se encaixavam ali. Claramente, não eram soldados. E pelas suas roupas não pareciam ser dali. Ao ver mais de perto, Erec percebeu, em choque, que reconhecia o homem: o Filho do Rei. Godfrey.

A confusão de Erec aprofundou-se. Godfrey? O que estava ele a fazer ali, no meio de uma guerra civil, correndo pela sua vida em direção ao porto, com a sua grande barriga de cerveja a liderar o caminho? No entanto, ao vê-lo a aproximar-se, Erec, semicerrando os olhos na direção do sol, sabia que era verdade. Godfrey estava ali. Tinha visto muitas coisas estranhas ao longo da sua vida - mas nada tão estranho quanto aquilo. * Godfrey cambaleava e corria para o porto, ofegando e arfando, sem saber que o seu corpo se conseguia mover tão depressa. Ele seguia os outros, Merek e Ario, e Silis e os seus homens, ofegantes, perguntando-se como é que conseguiam correr tão depressa. Os únicos mais lentos do que ele eram Akorth e Fulton - e isso não significava muito. O suor escorria-lhe para os olhos, pelas suas costas abaixo e Godfrey amaldiçoava-se, mais uma vez, por beber demasiadas canecas de cerveja. Ele fez um voto de que, se conseguisse sobreviver àquela provação, ele voltaria à boa forma física. Godfrey ouviu um grito atrás dele, virou-se e viu os soldados de Volusia a serem esfaqueados até à morte pelos exércitos invasores dos Cavaleiros dos Sete. Ele engoliu em seco quando, ao virar-se, viu ao longe, o porto reluzente de Volusia, sentindo-se a um milhão de milhas de distância. Ele não sabia se conseguiria fazê-lo. Custava-lhe tanto respirar que, por fim, teve que parar, ofegante. Imediatamente, Silis virou-se para trás e olhou para ele. "Vai sem mim!", disse ele. "Eu não consigo correr tão depressa." Mas Silis parou e virou-se. "Não", ela insistiu. "Uma vez foste-me salvar, e eu vou fazer o mesmo por ti." Ela correu para ele, passou um braço por cima do seu ombro, acompanhada pelos seus homens, que também foram ter com Akorth e Fulton, e começou a arrastá-lo. As costelas dele doíam-lhe enquanto eles corriam com ele pelas ruas, todas eles coxeando em direção ao porto de Volusia. Godfrey ouviu passos a correrem atrás dele, e, de repente, ela largou-o, virou-se e desembainhou a sua adaga. Ouviu-se um grito. Godfrey virou-se e viu que ela tinha esfaqueado um soldado na garganta, exatamente antes de ele conseguir esfaquear Godfrey nas costas. Ele olhou para ela com admiração; ela tinha-lhe salvado a vida. "Fico em dívida para contigo", disse-se ele, grato. Ela sorriu-lhe. "Não, não ficas", respondeu ela. Eles continuaram a correr, através do pátio totalmente aberto, através de todo o caos, mantendo sempre os olhos no porto, diante deles, repleto de navios reluzentes. Ao se aproximarem ouviram outro estrondo. Godfrey virou-se e viu um portão lateral no pátio a desabar, e centenas de Cavaleiros dos Sete a romper por ali. Os soldados da Volusia caiam à medida que a sua cidade era invadida, com os Cavaleiros cruéis e impiedosos, atacando e matando todos os que estavam no seu caminho – mesmo escravos indefesos. Eles erguiam tochas e incendiavam tudo. Godfrey percebeu que eles não iriam parar até arrasarem completamente aquela cidade. Ele não entendia porque, mas era evidente que eles se queriam vingar da própria Volusia. Godfrey afastou aquela visão, olhando para trás para o porto – e, de súbito, ficou apavorado. Os barcos para os quais eles se dirigiam foram, repentinamente, incendiados pelos Cavaleiros. Silis parou, também, juntamente com todos os seus homens, olhando em choque. Pela primeira vez desde que Godfrey a tinha conhecido, ela parecia estar perdida. Ficaram todos eles, a respirar com dificuldade, com as mãos nos quadris, vendo o seu futuro a

incendiar-se. Godfrey percebeu que agora estavam encurralados, e, em breve, todos mortos. Não havia nenhuma saída. "E agora?", perguntou Ario, voltando-se para Silis. "Como é que vamos sair daqui?", perguntou Merk. Silis olhava para todos os lados, observando o porto, com um olhar de pânico – e viu pelo olhar dela que aquilo era o fim - não havia nenhuma saída. Godfrey, com o coração a bater com força, examinou, ele próprio, o porto, à procura de qualquer sinal de esperança - apenas um navio vazio. Não havia nenhum. Mas ao perscrutar o horizonte, Godfrey viu algo ao longe que lhe chamou a atenção. Ele pestanejou, perguntando-se se estaria a ver coisas. Parecia haver uma pequena frota de navios serpenteando-se rio acima, navegando para o porto. Aquelas bandeiras... ele parecia reconhecê-las. Mas ele sabia que não poderia ser. Poderia? À medida que os navios se aproximavam, Godfrey semicerrou os olhou na direção do sol e viu que eram de facto aquelas que ele reconhecia: as bandeiras das Ilhas do Sul. Erec. O maior cavaleiro da Prata. Mas o que ele estava a fazer ali, em Volusia? O coração de Godfrey deu um salto de alegria e esperança. Erec. O melhor cavaleiro deles. Vivo. Ali. A navegar para Volusia. A sua garganta ficou seca de excitação. Godfrey sentiu uma súbita onda de confiança, sentiu pela primeira vez que eles podiam realmente conseguir – quando, de repente, ele percebeu que Erec estava a navegar para um beco sem saída. Ele viu o portão de ferro lá à frente, e, imediatamente, percebeu que Erec estava em perigo. Godfrey, com o coração acelerado, examinou o porto e viu a enorme manivela de ferro ao lado do portão - e ele soube, imediatamente, que se não a levantasse, Erec e os seus homens, perseguidos pela enorme frota do Império, ficariam em breve todos encurralados. Mortos. E então algo louco aconteceu: Godfrey já não temia por si. O medo tinha sido substituído pela urgência de salvar o seu amigo. Sem pensar, ele começou a correr, pelo meio de todo o caos, diretamente para o porto e para a tal manivela. "Onde vais?", gritou Silis horrorizada. "Salvar um irmão!", gritou Godfrey, olhando para trás enquanto corria. Godfrey correu sem parar, respirando com dificuldade, mas desta vez sem abrandar. Ele sabia que, ao correr assim pelo pátio ao ar livre ele ficava exposto, e, provavelmente, seria morto. Por alguma estranha razão, ele já não se importava. Em vez disso, ele manteve os olhos fixados nos navios de Erec, naquela manivela, determinado a salvá-los. Godfrey ficou surpreendido ao ouvir passos. Virou-se e viu os outros a correr ao lado dele, alcançando-o Merk sorriu-lhe, igualmente correndo o risco. "É melhor que saibas o que estás a fazer", ele gritou. Godfrey apontou para a frente. "Aqueles navios", gritou ele. "São do Erec. Temos de levantar aquele portão!" Godfrey olhou ao longe e viu a frota do Império a aproximar-se deles e ele correu mais rápido do que todos os outros, surpreendendo-se, ofegando numa última corrida até à manivela. Ele saltou, agarrou o seu enorme punho e puxou com toda a sua força. Mas a manivela não se deslocou. Os outros presos alcançaram-no, e, juntaram-se-lhe todos, Silis e os seus homens, Merek, Ario, e até mesmo Akorth e Fulton, todos eles inclinando-se sobre a manivela de ferro maciço e puxando com toda a sua força. Godfrey fez força e gemeu sob o seu peso, desesperado para salvar o Erec.

Vá lá, rezou. Lentamente, a manivela, com um grande rangido, começou a ceder. Gemia e protestava, mas movia-se, lentamente, e, ao fazê-lo, Godfrey viu o portão de ferro subir uma polegada. Soltaram todos a manivela, exaustos pelo esforço. "Está a ir muito devagar", observou Ario. "Nós nunca vamos abri-lo a tempo." Godfrey olhou e percebeu que eles estavam certos - a manivela era demasiado grande. De repente, ouviu-se um latido. Godfrey olhou para baixo e viu Dray a seus pés com uma corda na boca, latindo freneticamente. Ele percebeu que Dray estava a tentar-lhe dizer alguma coisa. Ele olhou e viu uma carruagem e vários cavalos, abandonados, a alguns pés de distância. Os seus olhos iluminaramse. "És um gênio, Dray", disse Godfrey. Godfrey explodiu em ação, enrolando uma extremidade da corda sobre a manivela e, depois, correu e enrolou a outra sobre a carruagem. Então, ele apanhou o chicote da parte de trás e chicoteou o grupo de cavalos uma e outra vez. "CAVALGUEM!", gritou Godfrey. Os massivos cavalos de guerra relincharam, empinaram-se e partiram com toda a sua força. De repente, a manivela começou a mover-se, uma e outra vez, cada vez mais rápido, enquanto os cavalos corriam cada vez mais para longe. Godfrey virou-se para o barulho do metal a gemer e ficou extasiado ao ver o portão de ferro a abrir-se largamente por baixo da água. Ele ficou emocionado ao ver os navios de Erec a continuarem a navegar diretamente na direção do portão, e, finalmente, a deslizarem através da passagem, que tinha a largura exata, e na direção do porto. "CHEGUEM-SE PARA TRÁS!", gritou Godfrey. Godfrey sacou da sua espada, correu para a frente e cortou a corda. A manivela girou furiosamente para o outro lado, e o portão de ferro começou a fechar-se novamente, selando o porto, assim que o último dos navios de Erec passou. Ouviu-se logo de seguida o som de navios a embaterem e a despedaçarem-se. Godfrey via, deslumbrado, vários navios do Império, logo atrás dos de Erec, a chocarem contra os portões de ferro e a partirem-se num milhão de pedaços. Centenas dos soldados do Império gritavam enquanto os seus navios eram empalados, caindo no porto, para fora de bordo. Godfrey via a alegria nos rostos de Erec e dos seus homens à medida que a frota deles navegava para o porto, em segurança lá dentro. Ouviu-se um grito de triunfo e de alegria. Godfrey sabia que os tinha salvado. Sentia-se exultante. Finalmente, daquela vez, ele tinha feito algo digno. * Erec navegou pelos portões, na direção do porto de Volusia, e os seus olhos arregalaram-se em descrença ao olhar e ver que tinha sido Godfrey a girar a manivela, com um cão aos seus calcanhares, a cortar a corda e a abrir aqueles portões, salvando-lhes a vida. Quando ele cortou a corda, os portões de ferro fecharam-se com força, deixando para trás o resto da frota do Império e deixando Erec e os outros livres dentro do porto e canais de Volusia. Ele e todos os seus homens soltaram uma aclamação e os navios do Império rachavam-se e estilhaçavam-se atrás deles. Erec olhou para Godfrey, sorrindo, vendo que ele estava ladeado por um grupo de pessoas que ele não conhecia. Sentiu um renovado sentido de otimismo. Se o irmão de Gwendolyn estava ali, talvez ela também estivesse. Erec observava a cidade com olhos de um soldado profissional. Ele ficou confuso ao ver batalha por todos os lados, uma cidade imersa no caos, os Cavaleiros dos Sete a inundarem a cidade através dos

portões e a invadir o que restava da cidade, matando o último vestígio de soldados da Volusia, que finalmente se viravam e fugiam. Eles tinham sido completamente derrotados. Mas porquê? Porque é que o Império iria atacar o Império? Com os Volusianos mortos e a cidade derrotada, soavam trombetas por toda a cidade. Erec viu os Sete a começarem massivamente a partir, deixando os portões da cidade tão rapidamente quanto haviam entrado. O vasto exército dos Cavaleiros dos Sete já estava a sair, voltando para o deserto e deixando para trás, apenas uma pequena força de talvez mil homens para matar e saquear o que restava dos Volusianos. Erec percebeu claramente que aquela guerra nunca tinha sido acerca de ocupar Volusia - mas sim acerca de uma vingança. Erec estudava as ruas da cidade, os pátios ao ar livre, e, no meio de milhares de cadáveres Volusianos, contou, talvez, várias centenas de Cavaleiros que restavam – aproximadamente o mesmo número de homens que ele tinha nos seus navios. Eles eram uma força viciosa de assassinos - mas em número igual e com os Volusianos mortos, Erec sabia que, pelo menos, ele tinha uma hipótese. Quando o navio de Erec atracou no porto, Godfrey e os seus homens atiraram cordas para ajudar o amarrá-lo. Erec saltou do convés, não esperando pela rampa - os Cavaleiros tinham-nos avistado e já estavam a avançar para o ataque. Erec sabia que não havia tempo. Ele pousou na calçada dourada. Ele foi acompanhado por Strom e todos os homens à sua volta fizeram o mesmo, saltando para baixo, baixando as rampas, fixando cordas e reunindo as suas armas, todos a bater no chão a correr e prontos para a batalha. Mesmo enquanto os Cavaleiros avançavam para o ataque, Erec observava os rostos, procurando Gwendolyn em toda a parte, querendo libertá-la; mas sem a vislumbrar, ele continuou, avançando para a frente, liderando os seus homens e preparando-se para a batalha. Houve um tremendo duelo quando os Cavaleiros dos Sete alcançaram os seus homens. O tilintar da armadura ouvia-se através do ar. Erec liderava o caminho, o primeiro na batalha, bloqueando uma machadada com o seu escudo, levantando a espada e golpeando, derrubando o primeiro cavaleiro. Erec sentia-se pronto para a batalha, especialmente depois de tudo o que se tinha passado no mar. Acompanhado pelo seu irmão, pelos seus homens e, até mesmo, por Godfrey e os outros, ele soltou um grande grito de guerra ao se atirar para o meio do mar de homens, preparado para arriscar tudo pela liberdade. Os Cavaleiros, bem treinados, vieram na direção dele a balançar. Se ele fosse um soldado regular, Erec certamente teria caído. Mas Erec estava muito bem treinado para isso; de facto, ele havia sido treinado desde o tempo que ele podia ir para batalhas como aquela. Ele erguia o seu escudo, que brilhava sob o sol, e bloqueava golpe após golpe, atordoando os seus oponentes. Ele também o usava como uma arma quando assim o entendia, esmagando a cabeça de alguns cavaleiros e os pulsos de outros, desarmando-os. Ele usava a sua espada, golpeando e perfurando - mas ele também usava os seus pés e mãos, pontapeando uns soldados para trás e dando cotoveladas noutros. Ele, sozinho, era um turbilhão de destruição. Os Cavaleiros focavam-se nele e atiravam a si em ondas. Ele baixava-se, esquivava-se e girava, golpeando um no estômago e esfaqueando outro no coração. Ele deu uma cabeçada noutro, depois atirouse para trás e esfaqueou um soldado atrás de si, exatamente antes de esse conseguir baixar um machado na direção da parte de trás da sua cabeça. Erec movia-se como um relâmpago, como um peixe a saltar para dentro e fora de água, defendendo e atacando, derrubando homens e liderando o caminho. Strom lutava ao lado dele, apoiado por outros homens das Ilhas do Sul. Eles lutavam pelas suas vidas, girando em todas as direções enquanto o exército se aproximava. Eles matavam homens, no entanto, alguns dos homens de Erec, ele sofria ao ver, caiam também. Erec estava cansado dos ombros e ele, em desvantagem numérica, começava a perguntar-se quanto

mais tempo é que os seus homens conseguiriam aguentar – quando, de repente, ouviu um grande grito vindo por detrás dos Cavaleiros. Instalou-se o caos no meio da multidão e consternação nas fileiras dos soldados. Erec olhou, confuso, e viu-os a serem atacados por detrás. Ele ouvia correntes a chocalhar e não conseguia entender o que estava a acontecer - até que olhou e viu dezenas de escravos, ainda algemados, a aparecerem pelas ruas de Volusia e a saltar para cima dos soldados por detrás. Eles atiravam-se a eles com as suas algemas, estrangulando-os, espancando-os, arrancando-lhes as espadas - e os Cavaleiros foram apanhados de surpresa. Entalados agora entre duas forças, eles não sabiam com que lado lutar. A batalha já não era deles. Os Cavaleiros caiam em massa e Erec e os seus homens, re-energizados, num último ímpeto, derrubavam-nos por todos os lados. Os que restavam tentavam de imediato virar-se e fugir - mas Erec e os escravos não os deixavam. Eles cercaram-nos, impediram-lhes a fuga e mataram cada um deles até ao último. Em poucos instantes, instalou-se um silêncio. Não havia nenhum som, a não ser o dos homens a gemer e a contorcerem-se nas ruas douradas de Volusia. Erec, ainda a respirar com dificuldade, com o coração a bater com força, procurava em todos os lugares por Gwendolyn, perguntando-se sobre o destino do seu povo. Mas ele não viu nenhum sinal dela. Godfrey veio a correr e Erec abraçou-o calorosamente. "Um rosto do Anel", disse Godfrey, em reverência. "Onde está Gwendolyn?", perguntou Erec. Alistair correu e abraçou Godfrey, também. Ela observou-o, perguntando. "Onde está o meu irmão?", perguntou ela. "Onde está Thorgrin? Onde estão todos os outros do Anel?" "Só restas tu?", perguntou Erec, cauteloso. Godfrey abanou a cabeça tristemente. "Quem me dera saber", respondeu ele. "A última vez que a vi, ela estava viva, com o nosso povo, e a caminho do Grande Desperdício." Erec processava a notícia, sentindo desanimado. Ele tinha tanto desejado e esperado encontrar e resgatar Gwendolyn ali. Ele percebeu que a sua jornada estava longe de terminar. De repente, irromperam duas pessoas da multidão, uma menina com olhos ferozes e um homem que se parecia com ela, talvez seu irmão, que corria a coxear. Eles correram até Godfrey, e ele virou-se e encarou-os, parecendo chocado. "Loti?", gritou ele. "Loc?" Eles abraçaram e Erec questionou-se quem eram. "Darius está aqui?", perguntou ela, apressada. Ele abanou a cabeça com gravidade. "Ele já foi há muito, levado para o Capitólio." Ela parecia desanimada. "Nós atravessámos o Desperdício. Nós vimos o caos em Volusia e esperámos pela nossa oportunidade para entrar. E então vimos-te." "Então, juntem-se a nós", disse Godfrey. "Vamos embarcar daqui, e, se houver alguma hipótese de encontrar Darius, nós vamos encontrá-lo." Eles assentiram, satisfeitos. "Talvez ainda possamos apanhar Volusia", disse Erec, voltando ao assunto em questão. Godfrey abanou a cabeça. "Eles partiram há luas atrás", Godfrey acrescentou. "Mas porquê?", perguntou. "Para onde é que eles estavam a ir?" Godfrey suspirou. "Eles embarcaram para o segundo Anel", disse ele. "O Cume. Eles pensaram que era a nossa única

esperança." Erec semicerrou os olhos, pensando sobre isso. "E onde é esse Cume?", quis saber Strom. Godfrey abanou a cabeça. "Eu nem sequer sei se existe", respondeu ele. "Se existe", disse Silis, dando um passo para a frente, "será nas profundezas do Grande Desperdício. Há cursos de água que se serpenteiam pelas profundezas do Império e que nos podem levar até lá. É um longo e indireto caminho, e, enquanto ele nos leva pelo Desperdício, pode nunca nos levar até ao teu Cume. Mas eu posso levar-te até lá – se tu e os teus navios estiverem dispostos." Erec avaliou aquela mulher e sentiu que ela era honesta e verdadeira. "Eu estou disposto", disse ele. "Quer esse Cume exista ou não, eu iria até aos confins da terra por Gwendolyn e pelos outros." "Mas como vamos fazê-lo?", perguntou Godfrey, voltando-se e virando-se para o porto. Erec virou-se e viu a frota do Império, para além dos portões de ferro, bloqueando a entrada para o porto. Silis chegou-se à frente e virou-se, investigando a cidade. "Esta cidade tem mais do que apenas uma mera saída de água", disse ela. "Afinal de contas, esta é a grande Volusia, a cidade da água. Eu conheço canais que nos podem levar à saída, pela parte de trás da cidade e para o porto do norte. Isso vai levar-nos para alto mar, e a partir daí podemos apanhar os canais que nos levarão para o Desperdício." Erec olhou-a nos olhos e, em seguida, examinou a cidade, vendo os canais a atravessarem-na, desde o porto, suficientemente largos para manter os seus navios em fila única, e percebeu que poderia ser o melhor plano que tinham. "E nós?", ouviu-se uma voz. Erec virou-se para ver dezenas de escravos ali de pé, ainda algemados, homens de todas as raças, os homens cujos rostos estavam todos gravados com a dor, homens que tinham sido abusados toda a sua vida pelo Império. Erec avançou solenemente, tão grato àqueles homens pela sua ajuda, ergueu a sua espada, e, ao atravessar as suas fileiras, uma de cada vez, ele cortou as algemas, cortando as suas ligações, libertandoos. "A vossa liberdade é agora vossa, para fazerem o que quiserem", disse Erec, "Eu, e todos os do meu povo, agradecemos-vos." Um dos escravos, um homem alto, de ombros largos e pele escura, adiantou-se e olhou-o bem nos olhos. "O que queremos com a nossa liberdade", disse ele, com uma voz profunda e corajosa, "é a vingança. Tu navegas por vingança – nós queremos acompanhar-te. Afinal, a tua luta é a nossa luta, também, e nós podemos reforçar as tuas fileiras." Erec analisou-o e viu nele o espírito de um grande guerreiro. Ele não podia negar a nenhum homem uma oportunidade para a liberdade, para a batalha, e Erec sabia que as suas fileiras, também, precisavam de se reconstituir, e que havia espaço nos seus navios. Ele assentiu, solenemente, deu um passo em frente e apertou a sua mão. O seu exército tinha crescido, Erec sabia, e, juntos, eles iriam navegar para esse tal de desperdício, encontrar Gwendolyn, e abater qualquer força do Império que se colocasse no seu caminho.

CAPÍTULO DEZASSEIS Thorgrin estava na proa do navio, segurando-se à amurada, e olhava para fora em antecipação enquanto as marés os puxavam mais profundamente para a escuridão da Terra do Sangue. Pela primeira vez desde que tinha começado aquela viagem, ele teve uma sensação de esperança, sentindo-se mais perto do que nunca de encontrar Guwayne. No horizonte, diante deles, surgiu o castelo do Lorde do Sangue, todo preto, parecendo ser feito de lama e emergir da paisagem enegrecida em toda a sua volta, como se uma explosão de lama tinha endurecido e tivesse ficado com uma forma de um castelo horrível. Um brilho sinistro vinha das suas janelas pequenas, em forma de fendas, que não o faziam parecer mais amigável, mas sim mais ameaçador. Thor conseguia sentir os males daquele castelo, mesmo a partir dali, e ele sentia, sem qualquer dúvida, que Guwayne estava além das suas portas. "Eu não gosto disso", ouviu uma voz. Thor olhou e viu Reece de pé ao lado dele, olhando ao longe, preocupado. Angel estava no seu outro lado, juntamente com Selese, O'Connor, Elden, Indra e Matus, todos eles alinhados, estudando o horizonte, capturados pela vista. "É demasiado fácil", disse Reece. "As águas estão demasiado calmas, a terra demasiado serena", Selese entrou na conversa. "Algo está errado." "Guwayne foi levada por um exército de criaturas", disse Matus. "Deve haver um batalhão de gárgulas a guardar este lugar, à nossa espera. Ou o próprio Lorde do Sangue. Alguma coisa. Mas em vez disso, não há nada. Estamos a navegar para uma armadilha?" Thorgrin indagava-se sobre a mesma coisa. Apesar da calma e gentil brisa, ele não conseguia relaxar; um sentido de melancolia pairava sobre eles como um cobertor, e o bater da água vermelho-sangue contra o casco, que os aproximava daquele lugar, só servia para aumentar a sua cautela. Diante deles as águas do oceano bifurcavam-se. Exatamente em frente estava o castelo preto, enquanto para a esquerda, uma forte corrente apressava-se, dirigindo-se para um horizonte que estava repleto de luz, com as águas a ficarem cada vez mais claras. "Parece ser a saída", disse O'Connor, voltando-se, e todos eles olharam para a esquerda, para a luz. Enquanto Thor seguia as águas, ele viu que a paisagem, também, mudava de preto para verde; ao longe, parecia que as águas se abriam de volta para o mar, delimitadas pelas cascatas de sangue. Eles tinham razão: parecia certamente que a liberdade era por aquele caminho. Thor virou-se e olhou para a frente: a liberdade da Terra do Sangue não era o que ele estava à procura. Ele queria Guwayne, custasse o que custasse. E Guwayne, ele sabia, estava em frente, mesmo no coração da terra de tristeza. Eles mantiveram-se no seu curso, continuando sempre em frente. Quando a névoa levantou, e, à frente do canal que se canalizava para um outro canal, longo e estreito, que levava até ao castelo, Thor olhou em frente e viu uma arqueada ponte levadiça de pedra e uma pequena guarita, a bloquear a entrada do canal. Com o caminho da entrada bloqueado, eles não tinham outra escolha a não ser parar o navio diante da ponte levadiça. Estavam todos perplexos com aquela entrada. Thor viu uma figura sozinha de pé na ponte levadiça, de frente para eles. O guardião era, estranhamente, uma mulher, desarmada, com cabelo vermelho longo da cor do mar, escorrendo pelos lados do seu rosto até tocarem na água. Ela ali estava a olhar para Thorgrin com os seus grandes olhos azuis brilhantes, perfeitamente imóvel, com pouca roupa. Thor olhava com espanto, hipnotizado. "Eu não gosto disto", disse Matus suavemente. "Uma mulher deixada sozinha para proteger o castelo? Deve ser um embuste."

Lentamente, o barco deles parou diante dela. Enquanto eles ali flutuavam, ela olhava, com os olhos presos somente nos de Thor, sorrindo para ele. "Eu não sou uma mulher", corrigiu ela, claramente tendo ouvido o que eles tinham dito, "mas um guardião. O guardião para a única porta que existe, para o único Lorde de todos". Ela olhou diretamente para Thor, com um olhar tão intenso que quase o queimava. "O Lorde que detém o teu filho." Thor encolerizou-se, cheio de determinação, de indignação. "Desvia-te do meu caminho, mulher", ele ordenou, "que Deus me ajude, eu então vou matar qualquer um ou qualquer coisa que se meta no meu caminho até ao meu filho." Mas ela apenas sorriu em resposta, imóvel, sorrindo amplamente. "Vem até mim", disse ela. "Vem até mim e retira-me desta ponte - e o teu filho será teu." Thor, determinado, não perdeu tempo. Sem hesitar, ele correu para a frente no convés, saltou para cima da amurada e, em seguida, saltou do seu navio, para a ponte levadiça de pedra. "Thor!", gritou Angel, com uma voz de preocupação. Mas ele já estava em terra firme, na ponte de pedra, diante da mulher. Ele ficou ali, com um olhar desconfiado, com a mão no punho da sua espada, preparado para usá-la se necessário. Mas a coisa mais estranha aconteceu: ao estar ali, de frente para ela, Thor, lentamente, sentiu o seu coração a derreter por dentro. Uma sensação de entorpecimento apoderou-se do seu corpo, da sua mente, e, ao olhar para ela, começou a ter dificuldade em se concentrar. Era como se ela tivesse lançando um feitiço e ele estivesse, lentamente, a ficar sob o seu efeito. Ele pestanejou, tentando sacudi-lo, mas por muito que tentasse, ele já não conseguia pensar em feri-la. "Já está", disse ela com uma voz suave. "Ajoelha-te. Ajoelha-te diante de mim." Thor mal se apercebia do que estava a fazer. As suas pernas agiam por conta própria e ele ajoelhou-se diante dela. Ela estendeu a mão e ele sentiu as suas mãos suaves a percorrerem-lhe o cabelo. As suas mãos eram tão macias, a sua voz tão reconfortante. Ele percebeu que era impossível concentrar-se em qualquer outra coisa. "Thorgrin!", gritou Reece alarmada, enquanto o outro entrou na conversa também. Thor ouvia as vozes mas, ainda inebriado, sentia-se incapaz de desviar o olhar, incapaz de olhar para qualquer lado que não os olhos daquela mulher. "Tu não precisas deles, Thorgrin", disse ela, com uma voz tão suave, tão hipnotizante. "Envia-os de volta para casa. Deixa-os ir. De volta para a sua liberdade. Tu não precisas deles agora. Tu estás comigo agora. Tu estás em casa agora - a única casa que alguma vez precisarás. Tu vais ficar aqui comigo. Nesta ponte levadiça. Para sempre." Thor sentia-se a derreter cada vez mais no feitiço daquela mulher, acreditando em tudo o que ela dizia e não querendo estar em nenhum outro lugar. Tudo o que ela dizia fazia perfeito sentido. Porque é que ele haveria de querer estar noutro lugar? Ele agora estava em casa. Ele sentia-o. "Diz-lhes, Thorgrin", sussurrou ela, acariciando o seu rosto. "Diz-lhes para se irem embora sem ti." Thor virou-se para seus companheiros de viagem, mal os reconhecendo dado o seu estado de inebriação. "Vão", gritou ele. "Deixem-me aqui." "NÃO!", gritou Angel. "THORGRIN!" De repente, surgiu uma grande onda. Thor viu o navio a ser levado para longe de si. O navio bifurcou pelo rio abaixo, para o caminho para a liberdade, para fora da Terra do Sangue, com as correntes a moverem-se cada vez mais rapidamente. Em poucos instantes, foi ficando cada vez menor, desaparecendo, à deriva no horizonte e, quando as correntes o apanharam, Thorgrin sabia o navio nunca mais iria voltar. Mas Thorgrin já não se importava. Ele queria que o navio desaparecesse. Ele queria estar sozinho. Ele estava feliz nos braços daquela mulher e queria ficar assim para sempre.

Para sempre. "THORGRIN!", gritava Angel, já tão distante, um grito cheio de desespero, de saudade, enquanto desapareciam de vista, com o navio a ser levado para um outro mundo.

CAPÍTULO DEZASSETE

Volusia estava em cima dos baluartes da capital do Império, olhando para o vasto deserto diante de si riscado de escarlate pelo romper da aurora, assimilando a vista com admiração. Cercada por todos os seus generais e conselheiros, ela olhou e viu que todos eles tinham um olhar pálido. Ela não podia culpálos. Era uma magnífica vista diante deles: o mundo parecia um campo de batalha gigante. O mundo inteiro parecia estar coberto pelos cavaleiros dos Sete, com as suas distintas bandeiras pretas a voarem ao vento, com as suas reluzentes armaduras negras a cobrir o deserto como uma praga, não deixando um único espaço livre. Tal era diferente de tudo o que ela já tinha visto. Não era como a pequena força que tinha vindo antes; em vez disso, aquilo era o exército inteiro, todos os ativos do Império espalhados à sua frente. Eles eram tantos quantos os grãos de areia à beira-mar. Era como se o exército não tivesse fim. As bandeiras sozinhas, a voar tão alto por cima das tropas, eram grossas o suficiente para tapar o sol. Elas ondulavam-se selvaticamente, sendo o seu som audível mesmo a partir dali, apesar das suas linhas de frente estarem a várias centenas de jardas de distância. "Deusa?", perguntou um dos seus generais, com uma voz de pânico. "Eles têm a capital cercada. Não há como fugir desya vez. " "Também não há qualquer hipótese de conseguirmos resistir ao seu ataque", acrescentou outro. "Não por muito tempo." Volusia, querendo ver por si mesma, virou-se lentamente num amplo círculo, assimilando o panorama. Ela viu o exército preto a espalhar-se o máximo que conseguiam, cercando-os como um grande anel. Era o exército maior que ela alguma vez tinha visto - ela não sabia que tal força em números era possível. Mesmo sabendo que aquilo poderia ser o fim dela, ela sentia-se grata por estar viva para poder ter tal vista. Parecia não haver fim para o número de soldados que estavam vivos no mundo. "O teu feitiço não te vai ajudar agora", acrescentou um dos seus assessores. "Não sem os Volks. Não vais ter nenhuma magia à tua disposição – apenas força bruta. Seremos nós contra eles. É uma batalha que nunca conseguiremos vencer." "Até mesmo tentar uma defesa seria um suicídio", acrescentou um general. "Nós não temos escolha temos de nos render." "Levanta a bandeira branca e pede tréguas.", acrescentou um conselheiro, "Talvez eles mostrem misericórdia." Volusia permanecia ali, com um tenso silêncio a cair sobre eles, enquanto ela examinava o horizonte. "Este não é um mero exército, Deusa", disse um general. "Esta é a força de todo o Império, o poder do mundo, descendo sobre a nossa cidade. Levaste-nos à ruína. Rende-te. Não há outra escolha." Volusia olhava para o horizonte, tentando bloquear as suas vozes. Os seus pontos eram todos verdadeiros, ela sabia; sem os Volks, ela já não tinha o poder da feitiçaria. E, no entanto, de uma forma estranha, tal fazia Volusia feliz. Durante todo aquele tempo, ela tinha recorrido ao poder externo da feitiçaria dos outros. Desde sempre que ela tinha secretamente queria contar apenas com o seu próprio poder. Porque, no fundo, ela sentia, ela sabia, que ela era uma deusa, que ela era invencível. Que ela não precisava dos Volks. Que ela não precisava de ninguém. E agora, finalmente, tinha chegado o momento de provar a si mesma, de mostrar ao mundo o poder da grande Deusa Volusia. Mostrar-lhes que ela, e somente ela, conseguiria parar um exército, tinha poder suficiente dentro de si para parar o mundo inteiro. Após um longo silêncio, Volusia virou-se para os seus homens e sorriu. "Vocês estão enganados", disse ela. "São eles que não têm escolha. Todos se vão render a mim, a grande Deusa Volusia - ou todos eles vão pagar o preço." Todos olharam fixamente para ela, estupefactos, sem palavras.

Volusia não perderia mais tempo com eles. Aqueles homens nunca iriam entender até o verem por si mesmos. "Sozinha eu vou enfrentá-los", acrescentou. "Agora, abram os portões." Os seus generais, com as suas expressões congeladas de medo, olharam para ela como se ela fosse louca. Volusia virou-se e desceu das muralhas, pelos degraus de pedra, com todos os seus homens a seguirem-na apressadamente. Ela atravessou o pátio dourado da capital do Império. Cerimoniosamente, todos os seus soldados, todos os do seu povo, paravam o que estavam a fazer para vê-la ir. Ela caminhava sozinha na direção dos massivos portões da cidade, sentindo o seu destino a borbulhar dentro de si. Finalmente, tinha chegado o momento. Finalmente, tinha chegado o momento de mostrar ao mundo quem ela realmente era. Os enormes e arqueados portões dourados abriram-se lentamente, rangendo, enquanto dezenas de soldados viraram as manivelas. Ela caminhou na direção deles, com os primeiros raios de sol a passarem pela abertura, iluminando o seu rosto grotesco. Volusia continuou a andar, fora da segurança da capital, para o deserto, sentindo a calçada sob os seus pés a dar lugar à areia, que se esmagava sob as suas botas. Sozinha, lá fora, ela continuava a andar, lentamente, um passo de cada vez, sem olhar para trás. Volusia conseguia sentir sobre si os olhos de milhares dos seus próprios soldados, observando-a nervosamente de dentro da cidade capital - e sentia, mais ainda, os olhos dos milhões de soldados dos Cavaleiros dos Sete a parar e a olhar fixamente para ela. Ainda assim, ela nunca parou. Afinal, ela era uma deusa, e não pararia por ninguém. Ela não precisava de ninguém. Ela conseguiria assumir as forças do mundo sozinha. Soaram cornetas por todo o campo inimigo e Volusia observava todas as formações a entrarem em ação. Milhares de divisões reuniram-se, avançando para ataque com um grande grito de guerra, ávidas pela sua cabeça. Ansiosas para despedaçá-la. Ainda assim, ela continuou a andar. Ela deu mais um passo e outro. Volusia fechou os olhos, ergueu as mãos para o céu, inclinou-se para trás e soltou um grande grito. Ao fazê-lo, ela desejou que o mundo se curvasse à sua vontade. Ela queria que a Terra se dividisse diante de si, para engolir aquele exército. Ela ordenou aos céus para atacarem, às nuvens para se apressarem à sua vontade, aos relâmpagos para matar os homens deles. Ela queria que todo o poder no universo se apressasse em seu auxílio. Ela ordenou. Volusia ficou ali, cerrando os seus punhos, desejando e esperando enquanto os homens se aproximavam rapidamente, com o galope dos seus cavalos a fazer tremer o chão, enchendo os ouvidos dela. E, no entanto, nada acontecia. Não havia relâmpagos, nenhum tremor de terra; não havia nuvens. Em vez disso, havia apenas o som do silêncio. Um silêncio doentio e terrível. E ela, sozinha, estava prestes a ser destruída por um exército.

CAPÍTULO DEZOITO Darius ajoelhou-se ao lado do seu pai, segurando-lhe a cabeça entre as mãos, sentindo-se dominado pela emoção, enquanto o observava a morrer. O sangue saia-lhe do peito, onde a presa do elefante se tinha espetado, e escorria-lhe pela boca enquanto ele olhava para Darius com o olhar de um homem que dava os seus últimos suspiros. Darius sentia-se assolado com desespero, enquanto observava o seu pai a morrer nos seus braços. Ali estava aquele grande homem que tinha arriscado a vida por ele, que lhe salvara a vida, o maior guerreiro que, de longe, Darius havia conhecido. Depois de toda a sua vida a ansiar por ele, por fim, eles tinham tido a oportunidade de se conhecer. Estavam juntos ali, no campo de batalha. E, no entanto, o destino tinha tanto de amável quanto de cruel, já que arrancava para longe de si aquele homem, ainda mal tinham tido a oportunidade de se conhecerem. Darius teria dado qualquer coisa para ter a oportunidade de conhecer o seu pai, de descobrir como é que ele se tinha tornado um guerreiro tão hábil, como é que a vida o tinha levado até ali, para a arena da capital. Ele teria gostado de chegar ao fundo do mistério da sua vida e ao mistério da sua ausência na sua própria vida. Mas agora, isso nunca aconteceria. Levar o seu pai tinha sido a coisa mais cruel que o Império alguma vez lhe fizera - mais cruel ainda do que tirar a própria vida. "Pai", disse Darius, segurando as lágrimas enquanto o segurava nos braços. "Não me podes deixar. Agora não." Darius ouviu um grande estrondo, enquanto esperava por uma resposta, e, com o canto do olho, viu os elefantes a circundarem o estádio, com os seus grandes passos a abanarem-no, enquanto se preparavam para o atacar novamente. Darius sabia que não tinha muito tempo. Mas não se importava com isso naquele momento. Ele estava pronto para morrer ao lado do seu pai. O seu pai estendeu a mão e agarrou o seu pulso, sendo o seu aperto surpreendentemente forte, mesmo quando a sua força de vida começava a diminuir. "Estou orgulhoso que sejas meu filho", disse ele, com a voz rouca, a desaparecer. "Tão orgulhoso de tudo o que tens feito. Tu és um guerreiro melhor do que eu jamais poderia ter sido. Eu vejo isso nos teus olhos. Eu vou continuar a viver em ti. Luta por mim, Darius. Luta por mim." Os seus olhos fecharam-se e os seus braços ficaram moles. Morto. "NÃO!", gritou Darius, inclinando-se para trás, sentindo uma onda de tristeza. Darius queria afastar essa tristeza, mudar o mundo, voltar atrás e fazer tudo acontecer de forma diferente. Ele queria amaldiçoar o destino, amaldiçoar a sua vida, que tinha sido dura e cruel desde o dia em que ele tinha nascido. Mas ele sabia que, agora, nada poderia trazer de volta aquele homem que ele tinha amado e o único homem que restava que o tinha amado. Darius sentiu lágrimas quentes a escorrerem-lhe pelo rosto enquanto segurava a cabeça do seu pai, sentindo-se vazio, sentindo-se como se não lhe restasse mais nada no mundo que o fizesse viver. Ele conseguiu sentir o chão a tremer, quando os elefantes terminaram o seu cerco e avançaram para o atacar mas ele já não se importava. Uma parte dele já estava morta. Darius estava ali ajoelhado, com o seu pai deitado no chão e, lentamente, a dor dentro dele transformou-se noutra coisa. Raiva. Darius olhou para cima, frio, calculista, e, ao fazê-lo, ele agarrou a sua espada com força. Ele pensou no que eles tinham feito ao seu pai, das palavras finais do seu pai. Essas ressoavam-lhe na cabeça como um mantra, como uma ordem:

Luta por mim. Lentamente, Darius levantou-se. Ele virou-se para aqueles animais e preparou-se para marcar a sua posição final. Ele estava sedento, mais do que alguma vez havia estado na sua vida, de vingança. Ele iria morrer a tentar - mas ele não iria morrer, sem levar ninguém com ele. O chão tremia à medida que os dois elefantes se aproximavam, animais impressionantes e magníficos, todos pretos, sendo montados por soldados do Império. Eles ganhavam velocidade, como se esperassem pisá-lo. Darius sentiu toda a tristeza dentro de si a transformar-se numa fúria fria e violenta. Toda a raiva que ele já tinha tido na sua vida - no império, na sua vida, na sua aldeia, com a ausência do seu pai – estava a borbulhar. Era uma raiva maior do que o universo, uma raiva que ele não conseguia controlar. Uma raiva que fez com que todo o seu corpo ficasse quente. Ali estava Darius, um rapaz que se tinha tornado um homem, um homem, finalmente, sem nada pelo qual viver. Os seus amigos estavam mortos, o seu pai estava morto – ele já tinha perdido tudo e todos que ele havia conhecido ou amado, ou já lhe tinham sido levados. E agora, ele estava prestes a morrer também. Ele era um homem sem nada a perder. Mas havia uma coisa que ele ainda tinha, e tinha que em abundância: um desejo de vingança. Vingança pelo seu pai. Vingança pela sua vida. Darius estava de frente para os elefantes. Eles trovejavam na sua direção. Pela primeira vez na sua vida ele sentia-se sem medo. Sentia-se livre. Ele estava desejando derrotá-los. Enquanto ele estava ali, o tempo parecia lento, e algo que ele não entendia estava a acontecer com ele. A raiva borbulhava, tomando posse dele, transformando-se como um cancro no seu corpo. Ele estava tão poderoso, diferente de tudo o que ele já havia sentido. Ondas de energia apoderaram-se dele, da cabeça aos pés, de uma forma tão intensa que ele mal conseguia sentir a sua própria pele. Ele sentia o cabelo em pé e sentia-se como se fosse explodir. E então, aconteceu. Pela segunda vez na sua vida, Darius sentiu-se possuído por um poder, um poder que ele não controlava, um poder que ele tinha tido terror de reconhecer e abraçar, até então. Era um poder que ele não entendia. Um poder do qual ele tinha medo. Até então. O poder surgiu dentro de si e Darius deu por si a largar as suas armas. Instintivamente, ele soube que já não ia precisar delas. Ele sabia que o poder dentro de si, nas pontas dos seus dedos, era maior do que qualquer poder, maior do que qualquer coisa forjada em aço. Ao invés, Darius ergueu as palmas das mãos. Quando os elefantes avançaram na sua direção, ele levantou-os no ar, cada vez mais alto. Eles pretendiam matá-lo, Darius conseguia perceber isso. Mas Darius tinha outros planos. Ao levantar as palmas das mãos, Darius sentiu uma bola ardente de energia a emanar de cada uma das suas palmas. E quando ele levantou os braços, aconteceu a coisa mais louca: ele sentiu o peso de cada elefante nas suas palmas. Era como se ele os estivesse a segurar. E ao levantar mais os seus braços, ele viu a cena mais chocante da sua vida: os elefantes, atacando-o furiosos, começaram a levantar-se do chão. Os elefantes soltavam barritos com a sua tromba enquanto Darius os levantava cada vez mais alto no ar. Eles subiram cinco pés, depois vinte pés, depois trinta, depois uma centena, agitando as suas patas. Eles pairavam no ar, impotentes, à mercê do poder de Darius. A multidão ficou em silêncio sustendo a respiração, a olhar, sem ninguém perceber o que se estava a passar. Darius não lhes deu tempo para reagir. A raiva percorria-lhe os braços e os ombros. Rápida e decisivamente ele baixou os braços, pensando no seu pai, em todos os amigos que tinha perdido no campo de batalha. Ele sentiu o sangue deles a gritar da sepultura. Agora era a vez deles. Agora, era a vez

da vingança. Darius sentiu uma onda de energia dentro de si, um poder que podia mover montanhas. Ele aproveitou o poder pela primeira vez na sua vida, baixou os braços e arremessou os elefantes. Ele ficou impressionado ao vê-los a voar pelo ar, rodopiando, soltando barritos, agitando-se, enquanto se dirigiam, como cometas, para as arquibancadas de pedra no estádio. A multidão apercebeu-se tarde demais. Alguns levantaram-se, tentaram correr, mas tudo aconteceu demasiado depressa e não havia nenhum lugar para onde irem. As duas bestas colidiram com o estádio com um tremendo estrondo, abanando a arena como se tivesse sido atingida por um cometa. O impacto arrancou seções inteiras de pedra, matou centenas de pessoas de uma vez só. Os gritos de crueldade e alegria do Império tinham-se transformado agora em choros e gritos de terror. A multidão corria, tentando desesperadamente fugir, mas os elefantes caíam através das arquibancadas, rolando e rolando, esmagando mais milhares. A arena caiu no caos. Pessoas gritavam e corriam e o peso dos elefantes fazia colapsar seções inteiras de pedra, com a avalanche a matar mais centenas. Darius ficou ali, o último a restar no campo de batalha, chocado com o seu poder. O mundo, ele sentia, era dele.

CAPÍTULO DEZANOVE Stara enfiava os seus calcanhares nas costelas do cavalo, espicaçando para ir cada vez mais rápido, rasgando através do Grande Desperdício, determinada a não parar até atravessar aquele deserto, até atravessar o mundo e descobriu Reece. Ela sabia que ele estava algures no horizonte, para além do Desperdício, para além do mar, com Thorgrin, à procura de Guwayne. Ela sabia que as suas hipóteses de o encontrar eram remotas, que ela podia muito bem morrer ali no Desperdício. Mas ela não se importava. Por muito imprudente que fosse, ela sentia-se agora mais alegre, mais livre, do que se sentia há luas. Ela estava livre, finalmente, entusiasmada por estar longe do Cume, a cavalgar sob o céu aberto e a seguir os desejos do seu próprio coração. A segurança do Cume, cada momento que ela tinha estado ali, tinha sido um inferno para ela. Ela não queria segurança: ela queria Reece. O perigo não significava nada para ela, se tal ficasse entre ela e o homem que ela mais amava no mundo. Stara finalmente percebia que era o amor que importava mais que tudo no mundo - mais do que prazeres, riquezas e segurança, mais do que qualquer objeto que ela pudesse desejar. O que importava era o amor e a liberdade para exercer esse amor. E era isso o que ela tinha agora. Quer ela morresse ali no Desperdício, ou algures no mar, nada disso importava - contanto que ela pudesse ser livre para perseguir os desejos do seu coração. Stara galopava no cavalo, com a sua pele ainda ferida por ter corrido através da Parede de Areia, com os lábios secos, a garganta seca, a pele queimada do sol, e sem turbante, por ter caído há muito tempo. Ela não tinha parado para apanhá-lo, sabendo que, se parasse de se movimentar nem que fosse por um minuto, ela nunca iria continuar através do Desperdício. O cavalo sob ela estava, também, ofegante, em esforço, e Stara perguntava-se quanto mais tempo eles conseguiriam continuar. Ela sentia que, de alguma forma, o cavalo percebia a urgência da sua missão, e, sem qualquer estímulo, continuava a correr por conta própria. O cavalo continuava a avançar e Stara tentava seguir as indicações gerais que Fithe lhe dera, recordando-as como um mantra uma e outra vez na sua cabeça: atravessar a parede de areia, em seguida, seguir para o norte. Seguir a Estrela do Norte, que brilha de dia e de noite. Se sobreviveres, vais alcançar os canais. Lá, podes encontrar um navio escondido no porto, guardado para os momentos de fuga, escondido sob os galhos de salgueiros que crescem nas suas margens. Se eles ainda lá estiverem. A tua missão será longa e dura, e, provavelmente, não vais conseguir. Enquanto cavalgava, Stara olhava para cima sem parar à procura da Estrela do Norte, sabendo que estava algures lá no alto. Finas nuvens apareciam e desapareciam, e ela já nem sabia se estava a seguir o percurso. Ela estendeu a mão, instintivamente, e levantou o saco de água até à boca e apertou – no entanto, estava vazio, seco há muito tempo. Ela atirou-o, percebendo que não tinha nada. Stara cavalgava sem parar, com as pernas a doerem-lhe, com dores nas costas, com a cabeça a começar a inclinar-se, cansada demais para aguentar. Ela sentia-se a curvar, sentia que a qualquer momento ela podia cair do cavalo. Ela sabia que assim que o fizesse, ela estaria acabada. Reece, pensou, eu amo-te. Finalmente, quando ela pensava que já não conseguia continuar, ao ter a certeza de que podia morrer ali, ela sentiu o cavalo a abrandar e olhou para cima. Ela sentia que eles estavam a subir um cume, e, ao olhar para cima, ela pestanejou, perguntando-se se estava a ver coisas. Ela abanou a cabeça, percebendo que não estava, e o seu coração saltou dentro dela: lá, contra o sol poente, estava um corpo cintilante de água. Os pequenos rios serpenteavam em todas as direções, terminando no deserto. Os canais. Era uma vista surpreendente, e, ao aproximar-se, Stara foi dominada pela euforia. Finalmente, a

monotonia do Grande Desperdício, a monotonia que ela achava que nunca ia acabar, tinha chegado ao fim. De uma centena de rios convergiam riachos para uma piscina de água no limite do Desperdício, rodeada por um bosque de árvores de salgueiro, com os galhos pendurados bem para baixo, assim como Fithe lhe havia dito. O seu coração acelerou com o que via. Havia água. Havia um caminho para os rios, para o mar. Havia a estrada para Reece. Havia liberdade. Stara nem sequer precisava de esporear o cavalo, que também viu, aumentando o seu ritmo, correndo pelo cume abaixo, não abrandando até chegar ao bosque de árvores na borda da água. Stara estava tão grata pela sombra, apesar do pôr-do-sol. Ela desmontou e o cavalo inclinou-se com gratidão para a água. Ela caiu sobre as suas mãos e joelhos ao lado dele e começou a beber também. Stara engolia a água, ofegante; enquanto ela prendia a respiração, ela atirava a água fria para o seu rosto, pelo pescoço abaixo, para o seu cabelo, tirando de si a poeira do deserto. Ajoelhou-se ali por um momento, cansada demais para se mover, deleitando-se com o som dos ramos de salgueiro que se agitavam com a brisa fora da água. Por fim, o cavalo inclinou-se e lambeu-lhe o rosto, incitando-a a subir novamente. Stara recuperou a compostura e ao sentar-se em cima do cavalo, ela examinou a água, os ramos, olhando para ver se havia algumas embarcações ainda escondidas. Ao olhar, ela pensou ter visto algo escondido por trás de um grupo de árvores, enquanto os seus ramos balançavam ao vento. Ela correu até lá e empurrou para trás os ramos. Ela ficou feliz ao ver que ali estava uma pequena embarcação, balançando na água, amarrada à costa, grande o suficiente para aguentá-la e aguentar uma pequena deslocação. Tinha estado muito bem escondida debaixo das árvores e ela agradeceu a Deus por isso, sabendo que sem ela, ela iria morrer ali. Stara estava prestes a entrar, a empurrar, quando se lembrou do cavalo. Virou-se, caminhou até ele e acariciou o seu focinho, olhando nos seus olhos. Ele fez um gesto como se a segui-la para dentro do barco, mas ela abanou a cabeça. "É uma viagem só para mim, meu amigo", disse ela. Ele relinchou suavemente. "Eu nunca serei capaz de te agradecer", disse ela. "Estás livre agora. Vagueia pelo Desperdício, encontra um novo lar, não obedeças a nenhum homem. Tu és livre!" O cavalo inclinou-se e lambeu-lhe o rosto e ela beijou-lhe a cabeça. Ele virou-se e foi-se embora a correr, sem olhar para trás. Stara virou-se e escorregou para o barco. Ela extraiu a sua pequena adaga prateada, que ela tinha levado com ela desde o Anel, e num movimento rápido e decisivo, ela cortou a corda. As correntes apanharam a sua embarcação, e, quando ela içou a vela, começou a mover-se para o rio que ficava cada vez mais largo, ganhando velocidade, ao por do sol, em direção ao mar alto, e para algum lugar, rezava ela, em direção a Reece.

CAPÍTULO VINTE Gwendolyn caminhava pelos infinitos baluartes do castelo, com Krohn ao seu lado e Steffen ao pé de si, procurando Argon por todos os lados. Ela estava ansiosa por encontrá-lo, desde que tinha deixado a torre, desde que Eldof lhe tinha contado o que sabia. Ela estava à procura de Argon, mesmo antes de reportar de volta ao Rei, com pressa e desesperada. Eldof, afinal, havia declarado que o fim do Cume estava para breve, e que não havia nada que ela pudesse fazer para o deter. Ela sentia que o único que poderia realmente compreender, que poderia ter alguma maneira de o deter, seria Argon. Mais importante ainda, as palavras de Eldof não lhe saíam da cabeça. Ela pensava insistentemente naquilo que ele lhe tinha dito, sobre Argon saber como encontrar Thor, e sobre o mestre de Argon. Porque é que Argon lhe havia escondido aqueles segredos? O que é que ele estava a esconder? Quem era o seu mestre? Gwendolyn estava fortemente determinada em confrontar Argon, sem o largar até ele lhe contar a verdade. Ela tinha de saber o que ele estava a esconder. "Argon!", gritava ela, apelando aos céus. "Não te podes esconder de mim!" Ela já tinha ido à sua câmara, à torre em espiral, a todo o castelo, e ele não estava em lado nenhum. Ter-se-ia ido embora? "Minha senhora", disse Steffen, após um longo silêncio, com Gwen inclinando-se desanimada sobre uma muralha. "Eu verifiquei em todos os lugares, também. Ele não está em lado nenhum. E ninguém o viu ou ouviu nada sobre dele." Gwen virou-se e andou ainda mais depressa, caminhando pelas estreitas passagens de pedra, procurando lá em baixo, pela cidade, com o seu coração a bater com força, preocupada. Teria ele se ido embora de vez desta vez? Seria ele realmente capaz de se ir embora agora, naquele momento crucial, com todas as perguntas que ela tinha por responder? De repente, os sinos tocaram, ressoando por toda a cidade uma e outra vez, alto o suficiente para abafar tudo o mais, e assustando Gwen. Ela parou e virou-se, ouvindo todos os membros do Cume pararem e olharem para cima, sustendo coletivamente a respiração, horrorizados, com o incessante tocar dos sinos. Eles tocavam sem parar, de uma forma sinistra. Gwen percebeu imediatamente que algo não estava bem. "Minha senhora", disse Steffen, "aqueles sinos tocam pela morte." Ela sabia ser verdade no momento em que ele o disse, e ficou ali, imóvel, a olhar para baixo, observando enquanto o pânico tomava conta de toda a capital do Cume. "Mas de quem?", perguntou ela, perplexa. Steffen encolheu os ombros em resposta. Ela via o pânico a espalhar-se por todas as ruas do Cume. Ela persentia que coisas sombrias estavam prestes a acontecer. "O Rei!", gritou alguém lá de baixo. "O nosso Rei está morto!" O coração de Gwen gelou ao ouvir o choro irromper pelas ruas. Ela sentia como se tivesse sido esfaqueada nas vísceras. O Rei. Morto. Como é que podia ser? Gwen queria correr até lá abaixo, agarrar alguém, descobrir o que tinha acontecido; ela queria correr para o corpo do Rei, onde quer que estivesse, para ver por si mesma. Como poderia ser possível? Gwen sentia-se sobrecarregada com emoções opostas. Se ao menos ela tivesse ido direta para ele depois da torre, como tinha prometido, talvez ela o conseguisse ter salvado. Agora, era tarde demais. "VAI!", ordenou ela a Steffen. "Descobre o que aconteceu!" "Sim, minha senhora", disse ele, voltando-se e desatando a correr. Gwen olhou para baixo. Ela não conseguia evitar sentir que o caos já estava a começar a se espalhar,

que o fim do Cume já estava a chegar, tal como Eldof havia profetizado. Ela começava a sentir como se não houvesse mais nada que o parasse. Era como se a guerra já tivesse chegado. Agora ela tinha ainda mais pressa de encontrar Argon, antes que fosse tarde demais. "Às vezes encontra-se quando já não se está a procurar", disse uma voz sombria, enigmática. Gwen girou, ficando ao mesmo tempo assustada e aliviada por ver Argon ali a poucos metros de distância, olhando fixamente para ela. Ele usava o seu manto dourado, segurava o seu bastão, e quase que brilhava ao sol, iluminando o dia sombrio. "Eu pensei que te tinhas ido embora", disse ela. "Para algum outro lugar, para algum outro tempo." Ele olhava para ela, sem expressão. "Em breve", respondeu ele suavemente, "Eu irei." "Porque não me contaste?", perguntou ela, indignada, dando um passo para a frente. "Porque é que não me contaste sobre o teu mestre? Que sabias de uma maneira de encontrar Thorgrin?" Argon olhava fixamente para ela, e, pela primeira vez, ela conseguia ver que ele estava com um olhar de surpresa. "Quem te contou do meu mestre?", perguntou. "Porquê?", pressionou ela. "Porque é que não me contas sobre o segredo que estás a guardar? Porque é que me estás a manter afastada de Thorgrin? De Guwayne?" Argon desviou o olhar, com uma expressão de dor no seu rosto. "É verdade?", pressionou ela, sentindo que estava a chegar a algo. "Tens um mestre?" "Sim", respondeu ele finalmente. Ela olhou para ele, em choque. "Apenas um simples sim? Isso assusta-me." "O meu mestre é uma criatura da qual deverias ter medo", começou Argon, "Jurei nunca mais pôr os olhos em cima dele outra vez - e é um voto que pretendo manter.” "Mas ele pode levar-me até Thorgrin?", pressionou Gwen. Argon abanou a cabeça lentamente. "Não te aproximes dele, a menos que estejas preparada para perder a tua vida. Ele é imprevisível - e muito, muito perigoso." "Eu não me importo se perder a minha vida", ela implorou, dando um passo para a frente. "Não vês isso? Eu não tenho nenhuma vida agora sem Thorgrin e Guwayne. Como é que nunca conseguiste ver isso?" Argon observou-a por um longo tempo e, então, suspirou lentamente. "Sim, eu vejo", ele finalmente respondeu. "Você os seres humanos pensam de forma diferente de mim." Ela respirou, esperançada. "Então levas-me até ele?", perguntou ela. Argon virou-se e olhou para o céu ao longe. "Por ti…" A voz de Argon parou e Gwen ouviu um guincho vindo lá do alto do céu. Olhou para cima e ficou chocada com o que viu. Ela não conseguia acreditar nos seus olhos. Um dragão. Ela pensou que a sua mente lhe estava a pregar partidas, mas lá estava ele, um dragão, um pequeno, que se parecia exatamente com Ralibar, a circular sem parar, batendo as asas. Ao princípio, quando o dragão mergulhou em direção a eles, Gwen sentiu uma reação impulsiva de medo. Mas então, ao observá-lo cuidadosamente, ela sentiu que ele não estava ali para a magoar. Ele descia e subia, uma e outra vez, e ela percebeu que se ele quisesse podia matá-la. Mas não queria matá-la. Ele queria algo mais. Avisá-la, talvez. Ou dar-lhe uma mensagem. O dragão circulou uma última vez e, então, finalmente desceu, aterrando perto, talvez a vinte pés de

distância. Gwen ficou em choque ao olhar para ele de perto, ali sentado, tão orgulhoso. Ele guinchou, olhando diretamente para ela, e bateu as asas uma vez. Gwen, em reverência, olhou para ele, ofegante, em estado de choque. O que é que aquilo podia significar? "Vai", disse Argon. "Toca-lhe. Ele não te vai magoar. Os dragões não vêm aleatoriamente." Gwen deu um passo para a frente, devagar, e, hesitantemente, estendeu a mão e colocou-a no seu pescoço. Foi emocionante. Ela sentiu as suas escamas antigas, tão poderosas, duras sob os seus dedos. E o dragão guinchou. Gwen saltou para trás quando ele bateu as asas; no entanto, ele ficou no lugar e baixou a cabeça, e ela percebeu que ele queria que ela o acariciasse novamente. Ela aproximou-se, sentiu as suas escamas irregulares, e sentiu-se eufórica por ver um dragão real novamente. Estar tão próxima de um. Ainda mais, quando ela lhe tocou, ela sentiu-se chocada por lhe conseguir ler os pensamentos. Ela soube imediatamente que ele lhe tinha sido enviado por Thorgrin. Ela arfou. "Thorgrin está vivo", disse ela, cheia de esperança. "Ele mandou-a para mim." Argon um passo à frente com o seu bastão. "Sim", respondeu ele. "Ele quer que ela nos ajude", continuou Gwen. "Ele quer salvar-me. Levar-me até ele. " Gwen virou-se para Argon. "Eu não posso", disse ela. "Não com essas pessoas em perigo. Eu não posso abandoná-las. Eu fiz um voto ao Rei." "Então, para onde devemos levar este dragão?", perguntou Argon. "Para o teu mestre", respondeu ela, percebendo de imediato que era assim que deveria ser. "Tu e eu vamos montá-lo juntos. Tu vais levar-me até. Agora!", ela ordenou. Ela olhou para Argon, que hesitou. Gwen sabia que aquele era um momento crucial: ou ele aceitava, ou desapareceria para sempre. Lentamente, para sua surpresa, Argon avançou e saltou para cima do dragão. Ele estendeu-lhe a mão. Ela estendeu a mão e agarrou a dele. Ela sabia, ao fazê-lo, que reunir-se com o seu mestre, ouvir os seus segredos, mudaria a sua vida para sempre.

CAPÍTULO VINTE E UM Alistair estava na amurada do navio, acompanhada por Erec, Strom e os seus homens, e olhou para todos os seus novos companheiros com um sentimento de alegria: ali estava Godfrey, com Dray nos seus calcanhares, uma vista para os olhos doridos, uma das únicas vistas familiares do Anel, juntamente com Akorth, Fulton, a Merek, Ario, Loti e Loc, e os homens dela, todos aqueles que eles tinham resgatado de Volusia, acompanhados pelo seu cão, Dray. Não tendo ainda encontrado Gwendolyn, ver aquelas pessoas fazia-a sentir-se otimista, fazia-a sentir-se como se eles pudessem realmente encontrar Gwendolyn e alcançar o seu objetivo, apesar das incríveis probabilidades contra eles que havia. Pela primeira vez, Alistair sentiu que eles estavam a ficar mais perto de encontrar todos os outros, independentemente do que restasse dos exilados do Anel, e de os libertar de onde quer que eles estivessem no Império. Alistair percebeu a sorte que tinham tido, também, ao terem encontrado Godfrey e Silis; afinal, ela tinha-os ajudado a navegar para fora de Volusia, tinha-lhes mostrado a saída, e tinha-os levado para onde eles estavam agora, de volta ao oceano aberto, navegando para norte ao longo da costa do Império. Enquanto Alistair refletia, com a brisa do oceano a acariciar-lhe o rosto, ela percebeu que a jornada deles tinha sido épica; tinha havido muitos momentos em que parecia que eles não iriam sobreviver rio acima, em que parecia que nunca iriam abanar a frota do Império, em que parecia que nunca iriam chegaria a Volusia. No entanto, eles tinham-no feito, tinham conseguido resgatar Godfrey e escapar - e impedir a perseguição da frota do Império. Agora, ela observava o litoral em constante mudança - o oceano transformou-se num porto profundo, e esse porto dividiu-se em muitos canais, tudo levando de volta para o Império. Ela sentiu o navio a abrandar e viu os homens a baixarem as velas, parando os navios antes da encruzilhada. Alistair olhou para o sol a brilhar sobre a água, preocupada. Cada um daqueles canais poderia levá-los a qualquer lugar - e se eles escolhessem o errado, nunca iriam encontrar Gwendolyn. Ela via que todos tinham um olhar confuso; nenhum deles sabia qual o caminho por onde ir. Todos se viraram para Silis. "E agora, vamos por onde?", Erec perguntou-lhe. Ela examinou os canais e abanou a cabeça. "Quem me dera saber, meu senhor", disse-lhe ela, finalmente. "Eu não sei por onde foram Gwendolyn e os outros. Eu nem sei mesmo se o famoso Cume existe. Estes afluentes vão todos levar-te para as profundezas do Grande Desperdício, e, no entanto, cada um numa direção diferente. O Desperdício, lembra-te, é vasto. Se escolheres o caminho errado, ficas a mil milhas de Gwendolyn." Erec estava ali, perplexo, a olhar para as águas. Um longo silêncio abateu-se sobre eles, ouvindo-se apenas o som das águas a ondularem contra o casco, com o vento a passar. "Sinto muito, meu senhor", acrescentou ela. "Isto é tanto quanto eu sei. Eu trouxe-nos até aqui, e para fora de Volusia - mas a partir daqui, a decisão é tanto tua como minha." Erec olhou fixamente durante algum tempo e, em seguida, finalmente, virou-se para Alistair. Alistair olhava para a água, perguntando-se a si mesma. Dentro dela, ela conseguia sentir o seu bebé às voltas e a dar pontapés. Sentia-se confortada pela sua presença. Sentia como se ela lhe estivesse a dizer alguma coisa, aconselhando-a o caminho a seguir. Alistair fechou os olhos e procurou profundamente dentro de si mesma, convocando os seus próprios poderes. Ela tentou visualizar o seu irmão Thorgrin, Gwendolyn, lá fora, algures. Por favor, Deus, rezou ela. Envia-me a resposta. Alistair ouviu um guincho, lá no alto. Abriu os olhos e procurou nos céus. Lá em cima, circulando tão alto que ela mal a via, entrando e saindo pelas nuvens, estava Estopheles, o falcão de Thorgrin, a guinchar. Abruptamente ela desceu e, em seguida, subiu e, enquanto ela circulava, Alistair sentiu que o

pássaro estava a tentar transmitir-lhe uma mensagem. "Alistair?", perguntou Erec, quebrando o silêncio. Alistair sabia que dar-lhe conselhos a ele era uma responsabilidade sagrada. O destino daquele navio, de todas as pessoas que estavam com ela, de todos os exilados do Anel, dependia dela escolher corretamente. Alistair fechou os olhos, sentindo centenas de olhos sobre si. Deu um passo em frente e colocou as duas mãos sobre a amurada, sentindo a energia. Respirou fundo e focou-se. O seu mundo ficou muito calmo; ela ouvia as águas a baterem contra o casco do navio, a brisa ligeira no ar e o guincho de Estopheles. Gwendolyn, pensou ela, onde estás? Ali, Alistair começou a sentir as palmas das mãos a emitirem um calor. Lentamente, ela abriu os olhos, olhou para todos os afluentes e focou-se sobre um em particular: um rio sinuoso em direção a oeste, entre outros três. Estopheles, pensou ela. Se este é o rio, se este é o nosso caminho, desce a pique. Mostra-me. De repente, Estopheles desceu a pique, para choque de Alistair, exatamente sobre o mesmo rio para onde ela estava a olhar. "Ali", disse Alistair, apontando. "Aquele deve levar-nos até Gwendolyn." Erec estudou-a, com o cenho franzido. "Tens a certeza?", perguntou. Alistair assentiu, sentindo a certeza em cada parte do seu corpo. "Aquele rio deve levar-nos ao que resta do Anel. Eles precisam de nós agora. Mais do que nunca. Eu consigo senti-lo. Um perigo terrível está para vir." Ela virou-se para Erec, pálida, tentando apagar o inferno que ela tinha acabado de ver. "Eu não sei se eles estarão vivos quando nós lá chegarmos", disse ela. Erec olhava para ela horrorizado. Então, ele virou-se e vociferou novas ordens e os seus homens entraram em ação, com o seu navio imediatamente a ganhar velocidade e toda a frota a acompanhar. Alistair virou-se e olhou para o rio que se aproximava, e, ao fazê-lo, ela rezou. Por favor, Gwendolyn. Não morras. Estamos a ir. * Godfrey estava sentado na popa do enorme navio de Erec, encostado contra a amurada, com as pernas penduradas sobre a borda, enquanto navegavam. Dray estava deitado ao lado dele, com o seu segundo saco de vinho na mão, sentindo-se, finalmente, bem. Ao seu lado estavam sentados Akorth e Fulton, já no quarto saco cada um, e Merek no seu primeiro. Ario apenas olhava para as águas. Todos eles estavam, por fim, relaxados. Todos eles, após o caos, após o turbilhão, podiam respirar. Godfrey refletia ao olhar para as águas, tentando processar tudo. Ele não podia acreditar que tinha escapado dos horrores de Volusia, uma cidade na qual ele tinha a certeza que ia morrer - nem podia acreditar que ele tinha corrido para Erec e Alistair - ou que tinha conseguido ajudá-los a escapar, também. O fato de ele agora até estar sentado no navio deles, a caminho de encontrar Gwendolyn, era surreal. Era como se lhe tivesse sido dada uma segunda oportunidade na vida. Finalmente, pela primeira vez desde que tinha chegado ao Império, Godfrey estava otimista. Ele estava novamente em movimento, com um exército do seu próprio povo - e um exército de escravos libertados - e a caminho de salvar Gwendolyn e os outros. Ele bebeu outro gole de cerveja, deixando tudo subir-lhe à cabeça, não tendo percebido o quanto lhe tinha sentido a falta. No entanto, por outro lado, enquanto olhava ao longe, Godfrey também sentia medo; ele sabia que eles ainda estavam longe de casa, estavam a navegar na direção de perigos ainda maiores, indo cada vez mais

para as profundezas do Desperdício, na busca para encontrar a sua irmã, se ela ainda estivesse viva. Certamente, em breve, eles seriam tragados por exércitos hostis do Império, e, quanto mais para as profundezas fossem, mais difícil seria sair. Ele não sabia o que o futuro reservava. No entanto, pela primeira vez em algum tempo, ele não se importava. Agora, ele era parte de algo maior que ele mesmo, e ele sentia um impulso de missão, de propósito. Ele iria onde fosse preciso, arriscaria tudo o que preciso, para salvar a sua irmã. Godfrey bebeu outro gole, especulando sobre o futuro. E se eles voltassem para trás, em segurança, juntos novamente? O que é que ele faria com a sua vida, então? Havia uma parte de si, que se agitava bem lá no fundo, que ele não entendia, que lhe estava a dar alguma sensação de inquietação. Ele sentia-se a mudar. Se eles sobrevivessem a tudo aquilo, será que ele voltaria a passar os seus dias numa taberna? Ou faria algo mais? Será que ele se tornaria no filho responsável que o seu pai sempre tinha querido que ele fosse? Era uma horrível e chata sensação de responsabilidade que rastejava para cima dele, uma sensação de que a sua vida devia ser dedicada a algo maior, que ele odiava. Ele sentia que talvez ele estivesse a mudar, depois de tudo pelo qual tinha passado, tornando-se outra pessoa, alguém com quem ele troçaria enquanto rapaz das tabernas. Alguém muito sério. Alguém que não queria dedicar a sua vida à bebida e ao jogo. "Se alguma vez encontrarmos este Cume, como é que achas que serão as tabernas deles?", ouviu-se uma voz bêbeda. Godfrey virou-se e viu Akorth sentado ao seu lado, olhando fixamente para ele, com os olhos vidrados do vinho. "Eu suspeito que muito parecidas com as nossas", disse Fulton. "As tabernas em Volusia eram de primeira categoria", disse Akorth. "E a cerveja deles", acrescentou Fulton. "Era o suficiente para me fazer querer ficar e morrer ali." "Talvez devêssemos", disse Akorth. "Talvez morrêssemos, mas pelo menos teríamos um sorriso nos nossos rostos. Agora vamos navegar para onde?" Godfrey olhava para as águas enquanto eles navegavam, tentando não ouvir as suas vozes; ao invés, ele tentava refletir sobre todos os lugares onde havia estado, tudo o que havia visto. O que era tudo aquilo? Ele recordou os primeiros dias, quando tinham estados todos juntos na Corte do Rei, ele e Gwendolyn, Kendrick e Gareth, Reece e Luanda. O seu pai parecia tão invencível à data, tão todopoderoso. Como poderiam tais momentos de força e glória, um reino tão impermeável, ficarem reduzidos aquilo? Godfrey sentiu o forte vinho a subir-lhe à cabeça e começou a sentir tonturas. Ele sabia que haveria batalhas pela frente. Certamente, haveria uma batalha para salvar Gwendolyn, onde quer que ela estivesse, e uma batalha para escapar daquele lugar. Batalhas em que ele poderia muito bem morrer. As hipóteses ainda estavam esmagadoramente contra eles; eles eram ainda uma pequena frota no meio de um vasto império. Uma parte de Godfrey, o velho Godfrey, queria beber até ficar inconsciente, esquecer tudo aquilo. Queria ficar tão bêbado que, quando a batalha viesse, tal não iria fazer qualquer diferença porque ele iria estar completamente perdido. Mas o novo Godfrey, aquele que ele não entendia, a borbulhar dentro de si, estava a começar a sentirse de outra forma. Estava a incitá-lo a enfrentar os seus problemas, o que quer que estivesse por vir, com lucidez, com coragem. Com valentia. Lentamente, Godfrey levantou-se até alcançar a sua altura máxima. Ele olhou para as águas ao longe, deu um passo atrás, e atirou o saco ainda cheio de vinho. Ele observou-o a aterrar no rio com um salpicar satisfatório, afastando-se a flutuar. "O que é que fizeste?", perguntou um Akorth indignado, como se ele tivesse acabado de matar um

homem. "Estás louco?", gritou Fulton. "Eu teria bebido isso!" Mas Godfrey virou-se para ele, com um sorriso no rosto, sentindo clareza pela primeira vez na sua vida. Havia problemas pela frente - e ele ia enfrentá-los. "Não", respondeu ele. "Eu não estou louco. Eu estou acordado. Pela primeira vez na minha vida, eu estou acordado."

CAPÍTULO VINTE E DOIS

Volusia estava diante dos portões abertos da capital, com as palmas das mãos estendidas inutilmente diante de si, vendo, horrorizada, os Cavaleiros dos Sete a abaterem-se sobre si, a pouco mais de cinquenta jardas de distância. Era a morte, olhando-a no rosto, galopando na sua direção, e ela sentiu-a a chegar sem qualquer dúvida. Finalmente, ela estava prestes a morrer. Mas não era isso que a horrorizava mais. O que a enchia de um sentimento de pavor frio, ainda mais doloroso do que a morte a chegar, era a sua súbita perceção. Não era ela, afinal, uma deusa? Ela não conseguia entender. Ela tinha tentado invocar os seus poderes e tinha falhado. Porque é que o mundo não lhe tinha respondido? A menos que, discerniu Volusia com um buraco no estômago, tivesse tudo sido uma mentira, uma grande ilusão. E se ela não fosse uma deusa, afinal? E se ela fosse uma mera mortal, como toda a gente? E se todas as estátuas que ela havia erguido para si mesma, todos os serviços, as orações, o incenso, os feriados, a cultura que ela havia criado – tivessem todos sido falsos? A ideia de que ela era uma mera mortal, uma plebeia como qualquer pessoa, era a mais dolorosa da sua vida. Ela era alguém que podia sangrar e morrer. Alguém que não era toda-poderosa. Alguém cuja vida estava prestes a chegar a um fim. Encontrar a morte no rosto e não ser uma deusa, o que é que isso significaria? Volusia pensou em todas as pessoas que ela tinha torturado e morto ao longo da sua vida; ela sempre tinha pensado que não teria de responder por isso. Mas agora, e se todos eles estivessem à sua espera para cumprimentá-la do outro lado? E se a vida cruel que ela tinha levado não estivesse à espera para a enfrentar? Seria ela arrastada até ao mais baixo dos infernos? Ela fechou os olhos e desejou uma última vez que o universo lhe respondesse, que um raio trovejasse, que a terra se movesse. No entanto, nada aconteceu. Sem os Volks, ela não conseguia sequer mexer um grão de areia. Volusia ficou ali, congelada de terror e medo enquanto o exército se aproximava, com a metade do seu rosto derretido, odiando a vida, amaldiçoando alguma vez ter nascido. Imagens do passado passavam-lhe pela mente, e ela foi inundada com imagens da sua vida. Ela viu o dia em que assassinou a sua mãe; viu todas as maneiras com que tinha torturado pessoas; viu-se em criança, a ser chicoteada pela sua mãe, a ser-lhe dito que ela nunca iria ser nada na vida. Ela tinha certeza que tinha provado à sua mãe que estava errada, tendo chegado a governante, tendo tomado a capital, tendo-se tornado muito mais poderosa do que a sua mãe alguma vez tinha sido. Mas agora, finalmente, ela questionava-se se a sua mãe estava certa. Ela tinha falhado, como a sua mãe havia previsto. Ela era, afinal, apenas mais um mortal, esperando ser morta como todos os outros. Os gritos dos homens ficaram mais altos ao se aproximarem, tão perto agora. Em pânico, Volusia virou-se e olhou para trás em direção à cidade, perguntando-se se tinha tempo para voltar para trás. Mas quando olhou, ela ouviu algo a ranger, ficando horrorizada ao ver os seus generais e conselheiros ali, assistindo. Eles não saíram a correr para salvá-la, protegê-la - em vez disso, ficaram ali, deixando-a desprotegida, encalhada no meio do deserto para enfrentar um exército sozinha. Pior, eles começaram a fechar a porta. Volusia ficou horrorizada: as portas não foram estavam a ranger porque se estivessem a abrir, mas sim porque se estavam a fechar. Para a deixar do lado de fora da capital que ela havia tomado. E para a deixar isolada no lado de fora para sempre. Era o golpe final para o seu coração. Volusia virou-se e viu à sua frente os Cavaleiros dos Sete a avançarem para ela, agora quase a dez jardas de distância, com o som dos cavalos a bater nos seus ouvidos e os gritos dos homens a encher o ar. Eles vinham diretamente na sua direção, com as lanças estendidas. Ela questionava-se se eles iriam

abrandar e levá-la como prisioneira. Certamente, alguém tão valiosa quanto ela seria muito mais valiosa enquanto prisioneira. Mas, quando os seus rostos se aproximaram, ela viu que eles estavam gravados com sede de sangue, e ela percebeu que não haveria prisioneiros naquele dia. Eles não estavam a desacelerar, mas sim a acelerar, com as suas lanças afiadas, para baixo, apontadas diretamente para o seu peito. Um segundo depois ela sentiu-o: a ponta de uma lança afiada perfurou-a, e ela gritou, numa agonia maior do que nunca, quando a lança a atravessou, saindo pelas suas costas. Para adicionar insulto à injúria, era apenas um soldado comum que a tinha empalado, e ele sorriu com ironia, perfurando-a até ao punho da lança. À medida que as forças se aproximavam a toda a sua volta, Volusia sentia-se a cair para trás, com os braços estendidos, ainda viva, assolada de dores, morrendo uma morte cruel e impiedosa quando os cavalos começaram a atropelá-la. Era a morte que nunca terminava. Ela rezava pela morte, rezava para que a dor acabasse, e, ela sabia, que em breve, ela chegaria. Mas não em breve o suficiente. Porque agora ela era apenas uma mortal. Uma mortal, como qualquer outra pessoa. * Darius estava no centro da arena, observando o caos a espalhar-se ao seu redor, perguntando-se o que tinha acabado de fazer. Ele estava ali, a sentir o calor ainda a pulsar nas palmas das suas mãos, sentindo as suas veias a pulsar com um poder desconhecido, e questionava-se sobre si mesmo. Ele olhava para a destruição ao seu redor - os dois elefantes, mortos, esmagados contra as arquibancadas, os milhares de espetadores do Império mortos, a arena desfeita em pedaços, as pessoas a fugirem pelas suas vidas em todas as direções - e ele mal podia acreditar que tinha acabado de fazer tudo aquilo. Darius olhou para baixo para o cadáver do seu pai e sentiu uma nova onda de dor. Desta vez, porém, ele sentia-se desgastado. Convocar aquela energia tinha-lhe custado muito, e ele sentia que precisava de tempo para recuperar. Os seus braços e ombros estavam fracos, e ele sentia que não conseguia convocar a sua energia novamente. Agora, ele era apenas um ser humano normal, como qualquer outro soldado. Ao olhar à volta, para todo o caos, ele sabia que o tempo era essencial. Ele estendeu a mão, pegou na espada de um cadáver de um soldado do Império e cortou as suas correntes, libertando-se. Era agora ou nunca se ele quisesse escapar. Darius desapareceu no caos, fundindo-se com a multidão em fuga, serpenteando, sem ninguém lhe prestar atenção porque estavam todos a correr para se salvarem. Ele correu entre a multidão e quando ele olhou para a frente, ele viu uma fissura no estádio, uma fenda que dava para a cidade do Império, para a liberdade. Ele correu para lá, fundindo-se com a multidão, colidindo para a esquerda e para a direita sem se importar. Ele estava quase na saída, quando um soldado do Império virou-se e olhou para ele. E ele reconheceu o seu rosto. "O ESCRAVO!", gritou ele, apontando para Darius. "Ele…" Darius não o deixou terminar a frase. Ele sacou a espada, correu para a frente e esfaqueou-o antes que ele conseguisse dizer outra palavra. Outros se viraram e olharem para Darius, mas ele não esperou. Ele correu para a frente, entrando no túnel escuro, apenas a trinta jardas de distância da liberdade, vendo a luz no fim do mesmo. Ele correu o mais rápido que podia, tremendo com a adrenalina, e, finalmente, irrompeu pela abertura, para o ar livre e luz brilhante da cidade. Darius esperava ver os harmoniosos pátios abertos da capital, mas, em vez disso, ao olhar para a frente, ele viu algo que era confuso. Parecia que as pessoas na cidade estavam a voltar e a correr em

pânico. Corriam soldados para todos os lados, cruzando as ruas como se fugindo de um inimigo. Não fazia sentido. Porque iria alguém estar em pânico no meio da capital do Império, a cidade mais segura do mundo? Darius ouviu um grande tumulto para além dos muros da cidade, quase como se lá estivesse um exército, clamando para entrar. Nada fazia sentido. Nos enormes portões dourados da entrada para a capital, Darius via centenas de soldados alinhados, como se se estivessem a preparar contra ataques. Darius estava confuso. Que força lá fora, poderia estar a atacar a capital do império em si? E onde estava Volusia? Quem quer que fosse, queria todos aqueles soldados do Império dentro da capital destruída - e, ironicamente, isso era uma missão que Darius compartilhava. Quem quer que estivesse além daqueles portões, Darius queria ajudar a entrar, para destruir aquele lugar. Afinal de contas, não haveria melhor vingança pelo seu pai, pelo seu povo. Darius soube imediatamente que aqueles portões eram a chave: ele tinha de ajudar a abri-los, fosse qual fosse o custo, mesmo se tal significasse perder a sua vida. Darius correu para a frente, de espada erguida, e voltou as suas atenções para o grupo de soldados do Império amontoado diante da grande manivela dos portões. Havia uma meia dúzia deles, de costas para ele, a guardar a manivela - e nenhum à espera de um ataque por trás. Darius soltou um grande grito de guerra ao avançar e atirar-se ao grupo. Darius cortou um, esfaqueou outro, bateu na cara de outro com o punho da espada, pontapeou outro e deu uma cotovelada a outro na garganta. Alguns tentaram defender-se – mas era demasiado tarde. Darius era como um homem em chamas, arriscando, um turbilhão, já não se importando. Aquela manivela era a chave para abrir os portões, para ter aquela cidade destruída. E para isso, Darius, um homem sem nada a perder, daria qualquer coisa. Ao acabar com o último do grupo de soldados, Darius ergueu a espada e golpeou a corda pesada que fixava a manivela ao portão. Ele golpeava sem parar, mas ela era tão grossa que era preciso tempo. Quase a conseguir rasgá-la, de repente, ele foi agarrado por trás por um soldado do Império. Darius recuou e deu-lhe uma cotovelada no rosto, derrubando-o. O soldado aproximou-se novamente e fez embater o escudo no rosto de Darius, que cambaleou para trás e caiu. O soldado saltou para cima dele, e, em poucos instantes, Darius estava a lutar com ele. O soldado esticou os braços e começou a sufocar Darius, que com os olhos esbugalhados, sentiu-se a perder ar rapidamente. Darius agitava-se, tentando agarrar qualquer coisa. Ele sentiu um objeto no cinto do homem – e, então, agarrou-a, percebendo que era uma adaga. Ele puxou-o para trás e esfaqueou o homem nas costelas. O soldado gritou e saiu de cima dele a rebolar. Darius colocou-se de joelhos e apunhalou-o no coração. Darius, a respirar com dificuldade, limpou o sangue do seu lábio, e ao ouvir um grande clamor, ele olhou e viu que os outros soldados do Império o tinham visto. Todos eles começaram a virar-se e a avançar na sua direção, e, tendo em conta que eles estavam apenas a cinquenta jardas de distância, Darius sabia que tinha pouco tempo. Era agora ou nunca. Darius levantou-se rapidamente, ergueu a sua espada e golpeou a corda novamente - e novamente. Os soldados aproximavam-se, agora apenas a alguns pés de distância, todos com as espadas erguidas, prontos para matá-lo. Finalmente, ouviu-se um grande barulho e a corda rebentou. A corda saiu a voar sobre a muralha, a manivela começou a girar e os portões começaram a abrir-se lentamente. Os portões abriram-se cada vez mais e ouviu-se um grande grito do outro lado - o grito de um exército. Os soldados do Império que corriam em direção a Darius pararam nos seus trilhos e viraram-se para aquilo, também, com caras de pânico. De repente, pelos portões abertos passaram milhares de Cavaleiros dos Sete, agitando as suas

bandeiras pretas, vestindo a sua armadura negra brilhante, entrando com uma vingança, como se estivessem estado à espera para entrar desde sempre, como mil morcegos libertados do inferno. Eles avançaram diretamente para os soldados do Império, nunca abrandando, erguendo os seus manguais, dardos, lanças e alabardas, e cortando o seu caminho através das fileiras de homens numa tremenda colisão de armaduras. Era uma onda de força bruta e destruição, matando tudo no seu caminho. O Império não tinha a menor hipótese. Caiam homens por todos os lados, com os seus gritos a encherem o ar. Darius tinha uma grande sensação de alívio, de reivindicação. Ele tinha conseguido. Ele tinha ajudado a derrubar a capital do Império. Ele sentiu o seu pai a olhar para ele, a sorrir. Darius, no caminho da destruição, sabia que tinha de virar-se e correr. Mas, exatamente no momento em que se preparava para o fazer, de repente, olhou para cima e viu algo a vir na sua direção, sentindo uma dor tremenda na cabeça de lado. Ele ouviu um tinido de metal, percebendo que era um bastão que lhe havia sido atirado por um dos Sete. Darius saiu a voar para o chão. Ali deitado, com o seu mundo às voltas, ele sentia que começava a perder a consciência. Ele sentiu várias mãos ásperas a agarrarem-no por trás, não sendo capaz de oferecer resistência ao sentir que o estavam a algemar, com os seus pulsos e tornozelos amarrados atrás das costas. Antes de perder a consciência, ele ouviu uma voz singular e sombria a gritar no meio da multidão, e ele sabia que o seu destino tinha sido decidido por ele. "Tragam este escravo para os navios."

CAPÍTULO VINTE E TRÊS Os Supremos Lordes dos Cavaleiros dos Sete estavam na sua câmara, reunidos de pé, iluminados pelo óculo lá no alto, que lançava sombras absolutas nos seus rostos, ao saírem da escuridão. Eles entraram no pequeno círculo de luz na torre, que de outra forma estaria às escuras, algo que não serviria a menos que fosse um momento muito importante. Agora era um desses momentos. Os homens chegaram-se à frente, com rostos envelhecidos, pálidos e enrugados, lentamente removendo os capuzes das suas faces, cada face mais horrenda do que a outra, revelando os seus sorrisos cruéis. Cada um deles tinha olhado para a cara do outro durante mil anos, e cada um deles sabia o que o outro estava a pensar. E naquele dia, todos sabiam que, alguma coisa que iria mudar o destino do Império para sempre, tinha acontecido. "A lua de sangue subiu", disse o líder, com a sua crepitante e antiga voz, como um fogo sem fim. "O tempo que tem sido profetizado chegou. Agora é o momento de acabar com todos os momentos, o tempo em que o Império pode ficar completo. Volusia foi destruída. A Capital foi tomada novamente. Os exilados do Anel foram encontrados e estão prestes a ser destruídos. E, a maior novidade de todas." Um longo silêncio desceu sobre o grupo, enquanto eles esperavam ansiosamente. "O Cume foi descoberto." Os outros suspiraram. "O último bastião da rebelião em todo o Império foi encontrado", acrescentou. "E agora será nossa. Temos de enviar um exército imediatamente, o maior exército que conseguirmos reunir - e, então, o Império terá controlo completo para sempre." O Lorde deu um passo atrás para fora do círculo, e, ao fazê-lo, outro dos lordes deu um passo à frente. "As quatro cornetas e dois espigões estão atrás de ti", disse ele. "Nós agimos como um só." O Mestre dos Lordes conseguia senti-los a todos a olhar para ele, à espera da sua palavra final. Ele ficou ali por um longo tempo, respirando, sentindo os antigos com ele a incitá-lo ao poder supremo. Ele sabia que, em breve, o Império não teria inimigos que restassem. Ele sorriu largamente. "Chegou o momento, meus senhores", disse ele lentamente, com o seu sorriso a crescer, "de obliterar o Cume e tudo o que lá está. Chegou o momento de eles aprenderem o verdadeiro poder do Império."

CAPÍTULO VINTE E QUATRO Angel estava agarrada à amurada enquanto estava na popa do navio, a olhar para a Terra do Sangue que se desvanecia à medida que as correntes os puxavam rio abaixo, para longe de Thorgrin. Ela esforçava-se para o ver à medida que ele desaparecia de vista, preso nos braços daquela mulher nos portões para o castelo. Ao afastar-se a flutuar, ela sabia, ela apenas sabia que, se ela não parasse aquele navio de alguma forma, ela seria levada para longe dele para sempre. A corrente levava-os em direção à liberdade, finalmente, para longe daquela terra de trevas. Mas Angel não queria liberdade - ela queria Thorgrin, vivo, com eles. Ela sabia que ele ficaria preso ali, para sempre, junto com o seu filho, Guwayne. Ela não lhe podia virar as costas. Thorgrin tinha salvado a sua vida, tinha-a resgatado daquela ilha, e ela nunca esquecia uma gentileza. A vida sem lealdade não significava nada para Angel. "Thorgrin!", gritou ela, uma e outra vez, determinada a levá-lo de volta. Ela sentiu braços a contê-la enquanto ela gritava. Ela virou-se e viu Reece e Selena a segurá-la com compaixão, preocupados com ela. "Estas correntes são muito fortes", disse Reece, com uma voz cheia de angústia. "Não há nada que possamos fazer." "NÃO!", gritou Angel, recusando-se a aceitá-lo. Sem pensar, ela soltou-se deles, saltou por cima da amurada, mergulhando para fora de bordo, diretamente para as águas lá em baixo. Angel sentiu o ar a passar por si ao mergulhar, de cabeça, no mar de sangue. Imersa no líquido espesso, ela vinha à superfície, lutando contra as correntes com tudo o que tinha, para fazer o seu caminho até Thorgrin. Ela sentia-se a ficar mais fraca, começando a afogar-se. Ela fechou os olhos enquanto se agitava. "Angel!", gritou Selese por detrás dela. Angel ouviu respingos na água, ao pé de si, e viu que Selena tinha atirado uma corda. "Agarra-a!", gritou Selese. "Vamos arrastar-te de volta para o barco!" Mas Angel recusou. Ela não abandonaria Thorgrin. Em vez disso, ela quis, com toda a sua força e toda a sua alma, que as correntes a levassem até Thorgrin. Não por si, mas por ele. E então algo estranho aconteceu. Enquanto nadava, de repente, ela sentiu as correntes a reverterem, levando-a de volta para Thorgrin. Era como se a sua força de vontade tivesse sido forte o suficiente para mudar o mar. Angel nadava sem parar, sentindo que o seu amor por Thorgrin, a sua determinação para salvá-lo, a levava pelas marés. Era tão forte, não havia nada que o conseguisse impedir. Angel alcançou a ponte levadiça de pedra, agarrou a pedra escorregadia, e escalou até à superfície, arranhando as suas mãos e joelhos. Ajoelhou-se ali, respirando com dificuldade, coberta com as águas vermelhas pegajosas do mar de sangue. Olhou para cima. Lá sentado, talvez a 10 pés de distância, estava a feiticeira, com Thorgrin no colo, de olhos bem abertos, como se estivesse em transe. A mulher olhou para Angel em estado de choque, como se não estivesse nunca à espera. A mulher lentamente tirou Thorgrin do seu colo e levantou-se, endireitando-se, enquanto Angel se punha de pé, também. As duas ficaram ali, enfrentando-se uma à outra. "Ousas transgredir os portões do Senhor dos Mortos", disse ela encolerizada. "Thorgrin nunca vai sair daqui. O que é que te faz pensar que vais sair daqui, também?" Mas Angel, determinada, olhou para ela, sem medo. Ela já tinha enfrentado a morte muitas vezes na

sua breve vida, com a sua doença, e isso tinha-lhe incutido a falta de medo. "Eu sou imune aos teus encantos", respondeu Angel. "Eu não sou um homem. Eu sou uma mulher. E os teus encantos não funcionam em mim." A mulher fez má cara, uma vez que deve ter percebido que Angel, de pé ali, desafiante, estava certa; certamente, os seus poderes eram inúteis contra ela. Angel apercebeu-se que ela devia ter sido a primeira pessoa na vida daquela mulher, que ela não conseguia tocar. A mulher soltou um grito de raiva, enquanto se chegava depressa à frente, com as garras para fora, como se para desfazer Angel em pedaços. Angel não conseguiu reagir a tempo - e não havia para onde correr na estreita ponte levadiça de pedra. Ela preparou-se ao sentir, de imediato, a mulher a lutar contra ela, em cima dela, agarrando-a e atirandoa para baixo para a pedra. Quando a mulher lhe agarrou o rosto, Angel agarrou os cabelos da mulher e puxou-os com toda a sua força, até que, finalmente, ela gritou de dor e Angel foi capaz de se desviar, rebolando. Angel levantou-se e pontapeou a mulher com força, forçando-a a desviar-se do seu caminho, a rebolar. De seguida, ela correu diretamente para Thorgrin. Ele estava lá, ainda amarrado pelo feitiço invisível. Angel chegou ao pé dele e ajoelhou-se, desesperada, já que a mulher começava a voltar para trás. "Thorgrin!", gritou ela, sacudindo-o. "Sou eu! Angel! Volta para mim." Mas, para seu horror, Thorgrin apenas ali estava, indefeso, com os olhos vidrados, enquanto olhava para o céu das trevas. Angel sentia-se desesperada. "Thorgrin, por favor!", gritou ela. De repente, ela sentiu umas garras a cravarem-se no seu tornozelo. Virou-se e viu a mulher a agarrá-la. De repente, a mulher empurrou-a e ela deu por si a deslizar para trás ao longo da pedra. Angel conseguiu virar-se e, ao fazê-lo, ela olhou bem para o rosto da mulher, ficando horrorizada. Já não estava lá uma mulher bonita; em vez disso, as suas verdadeiras cores tinham saído com a sua raiva. Agora, ela era um demónio feio, com uma cara verde, coberta de verrugas. Ela lançou-se para cima de Angel, pousando em cima dela, colocando ambas as mãos na sua garganta. Ela apertou e começou a sufocá-la de verdade. Angel, ofegante, estendeu as mãos e agarrou-lhe os pulsos, tentando o seu melhor para tirar a grotesca mulher de cima de si. Mas era inútil; ela não era forte o suficiente. Aquela mulher era um demónio e Angel sabia que iria morrer nas suas mãos. "Thorgrin!", chamou Angel, fraca, ofegante. "Ajuda-me! Por favor!" Angel estava a perder ar. Ela sentia-se a ficar fraca, sabia que, em momentos, ela estaria morta. Mas ela não se arrependia; pelo menos ela tinha morrido a lutar por Thorgrin. De repente, Angel começou a respirar novamente, ao ver a mulher sair a voar de costas de cima dela. Ela pestanejou, confusa, ofegante, ficando aliviada ao ver Thorgrin a correr para a frente e a tirar a mulher de cima dela. Angel levantou-se num ápice e Thor correu para os braços dela. "Angel", disse ele, claramente recuperado. "Trouxeste-me de volta. O teu amor trouxe-me de volta." Ambos se viraram e enfrentaram a mulher que, ao se levantar, começou a transformar-se em algo mais. O seu corpo esticava-se enquanto ela crescia sem parar, a uma grande altura, a trinta pés, o seu corpo verde, viscoso, com a cara de um demónio. Ela levantou um pé enorme e trouxe-o para baixo, como se para esmagar os dois. Thor agarrou Angel e atirou-se para fora do caminho com ela no último momento. O pé do demónio desceu bem ao lado deles. Angel sentiu o vento, e, quanto o pé bateu na pedra, o mundo tremeu. Bateu com um impacto suficiente para esmagar a ponte levadiça de pedra, partindo-a em pedaços. Angel e Thor caíram da ponte, que entrou em colapso em torno deles numa grande avalanche e

estrondo de pedra. Ela caiu pelo ar, e, um momento depois, ela encontrava-se submersa novamente, de volta para o mar de sangue, com Thorgrin ao seu lado. Eles chapinhavam e agitavam-se, já que agora, a corrente, muito mais fortes, levava-os numa corrida rio abaixo, para longe do castelo, de volta para o navio. Era como ser apanhado nos rápidos. Os dois debatiam-se nas águas espumantes, com o mar claramente chateado, querendo expulsá-los da Terra do Sangue. Ao longe, Angel conseguia ver o demónio ainda de pé sobre a ponte, rugindo, enfurecido, querendo ajustar contas. Eles foram pelo rio abaixo e, enquanto ela se segurava a Thorgrin, os dois davam o seu melhor para permanecer à tona. "Thorgrin, a corda!", gritou uma voz. Angel virou-se e viu uma corda a passar, e, ao olhar para cima, ela viu o navio deles, Reece e os outros na amurada, a olhar para baixo em desespero. Thorgrin esticou o braço para a apanhar, falhando por pouco - mas Angel, mais perto da corda, conseguiu agarrá-la. Ela agarrou-se à vida e Thor agarrou-se a ela, e os dois, finalmente, pararam, agarrados à corda, presos ao navio. Ela segurava-se com força enquanto os outros os puxavam, uma mão de cada vez. Em poucos instantes, chegaram perto o suficiente para que Reece e os outros se aproximassem, os agarrassem e os puxassem de volta para o convés. Angel e Thorgrin ficaram ali ajoelhados, cuspindo as águas de sangue, respirando com dificuldade, enquanto os outros os ajudavam a levantar e os abraçavam. Thor virou-se para Angel com um olhar de profunda gratidão nos seus olhos. Angel ficou emocionada ao ver que eles já não estavam vidrados. "Eu nunca serei capaz de te agradecer", disse ele. Eles abraçaram-se e os outros juntaram-se a eles. As correntes que rugiam levavam o seu navio para longe, em direção a um horizonte de luz, em direção à liberdade, e para longe de Guwayne, para longe da Terra do Sangue.

CAPÍTULO VINTE E CINCO Gwendolyn voava nas costas de Lycoples, com Argon atrás dela. Os dois voavam há horas sobre o Grande Desperdício. Ela mal podia acreditar onde estava. Pouco tempo antes, presa no Cume, tudo parecia impossível; mas agora, voando nas costas de um dragão novamente, a caminho para ver o mestre de Argon, para aprender sobre Thorgrin, para descobrir o segredo, ela sentia-se novamente liberta - e cheia de esperança. Sentia-se como se o mundo fosse dela. Gwendolyn voava e olhava para o interminável Desperdício espalhado lá em baixo, para os contornos, sempre em mutação, das terras do Império, tão mortais e, ainda assim, tão bonitas. Dali de cima, a terra parecia um gigantesco trabalho de arte, com a extensão das areias vermelhas do deserto a estenderem-se em todas as direções, subindo e descendo, nada a não ser o vazio a encaixotar o Cume, tanto quanto se conseguia ver. Iluminada por dois sóis, era incrivelmente bela, se deserta, com as areias vermelhas a refletir e a absorver a luz, com o terreno a mudar muitas vezes para estéreis penhascos de pedras e revertendo para pedra e areia. De vez em quando, lá muito abaixo, ela reparava em pequenos grupos nómadas de escravos ou criaturas a caminharem pelo deserto, parando e catrapiscando os olhos na direção deles, provavelmente, ela imaginava, questionando-se sobre o que seria aquilo a voar lá em cima. Gwen não tinha ideia para onde estavam a ir e, então, ela seguiu as indicações de Argon quando ele encaminhou Lycoples para norte, para o Pico do Norte, para a terra onde ele disse que o seu mestre residia. Depois de tantas horas de voo, cobrindo tantos milhares de milhas, voando a uma velocidade tal que mal conseguia recuperar o fôlego, Gwen não conseguia evitar questionar-se o quão longe o Pico do Norte era, e se o mestre de Argon estaria realmente lá. Ela estava animada para se encontrar com ele mas também tinha uma sensação de medo. Afinal, Argon tinha avisado que conhecê-lo poria em risco as suas vidas. Gwendolyn agarrava as escamas do dragão com força, segurando-se enquanto o dragão voava, entrando e saindo das nuvens e, ao fazê-lo, ela perdia-se nos seus pensamentos. Uma parte dela queria tomar as rédeas e fazer o dragão voltar para trás e voar diretamente para Thorgrin, para Guwayne, onde quer que estivessem. Ela queria voar para longe de tudo aquilo, para longe dos problemas do Cume, para longe do Império e dos seus problemas, de volta para o mar aberto; ela queria encontrar o seu marido e o seu filho, para viverem algures, feliz com eles, em paz. Mas ela sabia que não podia. Ela tinha uma responsabilidade. Ela havia prometido ajudar o Rei, o povo do Cume, e os seus exilados do Anel ainda estavam lá, também. Ela ainda tinha as responsabilidades de uma rainha, e, mesmo se ela fosse uma rainha no exílio, não podia virar as costas ao seu povo. Enquanto voavam, Gwen perguntava-se em antecipação como que é que seria o mestre de Argon. Ela não podia sequer imaginar quão poderoso ele poderia ser, alguém poderoso o suficiente para treinar Argon. O que ele é que ele teria a dizer? Seria ele capaz de ajudá-la a reunir-se com Thorgrin? E qual era o segredo que ele estava a esconder? Gwen sentia que era importante, que era o segredo que Argon lhe escondia desde que ela o tinha conhecido. Que tinha a ver com o destino do próprio Anel. Eles deslizaram para baixo por entre as nuvens, e, ao fazerem-no, Gwen conseguiu ver algo lá em baixo que fez o seu coração acelerar. Ali, no horizonte, a desolação do Grande Desperdício dava lugar a uma nova paisagem. Era um terreno diferente de qualquer um que ela já tinha visto, com a água a cintilar sob o sol; parecia que a terra se tinha partido em pedaços, pareciam mil pequenas ilhas a flutuar em águas rasas, próximas umas das outras. Era como se o Desperdício se tivesse partido em mil pequenos lagos, pequenas ilhas de terra entre eles, ligadas por passadiços de areia e rocha. Lycoples desceu a pique lá para baixo, aos círculos, e quando o fez, os olhos de Gwen quase cegaram

com o brilho da água. Ela via aquele novo terreno a esticar-se sem fim, e perguntou-se: Poderia ser aquele o lugar? De repente, Lycoples guinchou, empinou-se e desceu, surpreendendo Gwen. Lycoples parou logo na entrada para as ilhas, pousando numa grande rocha plana. "O que é, Lycoples?", perguntou ela, enquanto o dragão ali estava, a guinchar, mas recusando-se a decolar novamente. Argon lentamente desmontou do dragão. Em seguida, virou-se e esticou o braço na direção da mão de Gwendolyn. "Esta terra é o domínio do meu mestre", explicou. "Não são permitidos dragões aqui. Ela só pode ir até aqui. Temo que temos de atravessar o resto a pé." Gwendolyn agarrou a mão dele enquanto desmontava. Ainda em cima do dragão, ela virou-se e olhou para a vasta paisagem de lagos comunicantes e ilhas, parecendo que se esticavam para sempre, até onde ela conseguia ver, como se o mundo tivesse sido partido num milhão de pedacinhos. Ela olhou para baixo e viu que a água era rasa, mal chegava a um pé de profundidade, e ela questionava-se acerca da sua natureza Ali, ela percebeu, podia-se efetivamente caminhar sobre a água. "O meu mestre exige que as visitas vão a pé", disse Argon, enquanto se virava e olhava para Gwendolyn, com uma expressão de preocupação, uma expressão que ela nunca antes lhe tinha visto. "Este é um lugar de poder, Gwendolyn", acrescentou. "Um lugar diferente de qualquer um onde já tenhas estado. Se o meu mestre ainda aqui estiver, tu podes não sobreviver ao encontro. Tens a certeza que isto é um risco que estás disposta a correr?" Gwen sentia-se apreensiva enquanto olhava para ele, percebendo a finalidade da sua decisão - não ter dúvidas ao pensar em Thorgrin, em Guwayne. Ela assentiu lentamente, resoluta. Argon olhou para ela com sinceridade, assentindo finalmente. "Muito bem", disse ele. "Caminha perto de mim. Estás a entrar numa terra que é mais magia do que substância. Não te desvies do caminho. E tu", disse ele, voltando-se para Lycoples, "espera por nós aqui. Isto é, se voltarmos." * Gwendolyn caminhava com Argon entre os milhares de ilhas, seguindo-o enquanto ele atravessava os passadiços feitos de pedra e areia, que ligavam as pequenas ilhas como pedras num grande lago, sentindo-se como se estivesse a entrar num sonho. Enquanto ela caminhava, cada um dos pequenos lagos ficava com uma cor diferente, mudando de azul para amarelo, escarlate, rosa, branco, fazendo com que todo aquele lugar parecesse que estava a respirar, fazendo com que aquele lugar se sentisse vivo. A determinado momento, Gwen ia entrar na água, vendo que aquela tinha apenas algumas polegadas de profundidade, mas Argon deteve-a. "Aquela água parece pouco profunda", disse ele, "mas não é. É uma ilusão. Entra nela, e irás mergulhar nas profundezas da eternidade, sem nunca mais seres vista ou ouvida" Gwendolyn olhou para baixo para a água transparente, com o chão apenas a algumas polegadas da superfície, e ficou chocada. Ela começava a perceber o quão traiçoeiro aquele local era. Eles caminhavam há horas. Estava tudo estranhamente silencioso, exceto os gritos distantes de pássaros exóticos e o som de animais estranhos a respingar na água, que Gwendolyn nunca conseguia ver. O segundo sol já começava a pôr-se e uma leve névoa começou a cair, a espalhar-se por todo o lado como um cobertor. Estranhamente, não obscurecia a visão, mas, em vez disso, tornava-a mais brilhante, fazendo com que o próprio ar parecesse como se estivesse a cintilar, vivo. O céu estilhaçava-se num milhão de pequenos arco-íris, e, enquanto ela andava, com uma pesada humidade no ar, ela conseguia

sentir a energia intensa ali. Era como se ela estivesse a entrar num reino diferente, numa dimensão diferente da vida, e ela sentia que aquele era o lugar mais poderoso onde ela alguma vez iria estar. Gwendolyn, com as pernas a doerem-lhe, com o seu coração acelerado em antecipação por ir encontrar o mestre de Argon, começava a questionar-se o que aconteceria se não o encontrassem. Ela estava a morrer de vontade de fazer perguntas a Argon, mas ela segurou a língua, sabendo que ele falaria quando estivesse pronto. "O meu mestre viveu aqui durante mil séculos", disse finalmente Argon, quebrando o silêncio, com uma voz profunda e sombria. "É um lugar de nascimento e também de morte. É o lugar onde o próprio mundo foi formado." Gwen questionava-se se havia de perguntar. "E quem é o teu mestre?", perguntou ela finalmente, morrendo de vontade de saber. Argon fez uma pausa. "Ele é da mesma matéria com que a Terra foi formada", respondeu ele finalmente. "Ele é mais criatura do que humano. Menos humano até que eu. Ele é algo diferente, algo muito mais poderoso: … ele é um Paragon." Um Paragon. Gwen ficou chocada com o termo, um que ela só tinha ouvido falar ao ler os livros antigos. Ela nunca tinha pensado que esse termo realmente existia. "Eu tinha pensado que eles eram só um rumor", disse ela. "Coisas de lenda." Argon abanou a cabeça. "A maioria estão mortos", reconheceu ele. "Mas um ainda sobrevive." Gwen ficou estonteada com a notícia. Lembrava-se de ler sobre os míticos Paragon, uma raça ainda mais poderosa que os druidas, que diziam ser um dos pilares que tinham formado e sustentado o mundo. Eles supostamente teriam o poder de ver não só o passado e o futuro, mas também de controlar e moldar o tempo. Havia rumores de que eles estariam no nível abaixo de Deus. Ela esforçou-se para recordar o que os livros tinham dito. "Lançados para fora das fileiras do céu pelo próprio Deus, depois de excederem o seu poder", disse Argon, lendo a sua mente. Gwen ficou perplexa quando ele mergulhou tão facilmente na sua mente. "É verdade?", perguntou ela. Ele continuou a caminhar, permanecendo em silêncio, e ela suspeitou que ele nunca iria responder. O seu sentido de apreensão aprofundou-se. De tudo o que ela tinha lido, um encontro com um Paragon significava uma morte certa. Ainda assim, ela continuava a andar, cheia de determinação por causa de Thor, de Guwayne, mas o tempo todo a perguntar-se se aquilo seria uma boa ideia. Ela caminhava sem parar, atravessando uma ilha após a outra, sentindo-se como se estivesse a andar há anos. Gwen virou-se e olhou para trás enquanto caminhava. Ela já não conseguia ver Lycoples, já não via o lugar onde eles tinham entrado. Tudo tinha desaparecido do horizonte que parecia imensamente longe. Ela e Argon estavam sozinhos, no fundo daquela terra mágica, longe demais para voltar. E, quando o sol ficou mais baixo, ela não conseguia deixar de pensar se alguma vez regressaria. À medida que caminhavam, Gwen começou a sentir-se como se estivesse a perder a noção da realidade, e ela estava desejando quebrar a monotonia. "Lembras-te do meu pai?", perguntou ela finalmente a Argon, perdendo-se nos pensamentos, nas memórias, e desesperada por uma conversa. "Às vezes, e tenho vergonha de o dizer, eu não lembro. Eu tento tanto ver o seu rosto, mas não consigo. O meu passado às vezes... parece como se fosse um mundo distante." Argon permaneceu em silêncio durante muito tempo e Gwen não sabia sequer se ele iria responder. Depois de passado bastante tempo, ela começou a questionar-se se ela teria sequer feito a pergunta.

"Lembro-me dele muito bem", disse Argon. "Ele era um bom Rei, mas um homem melhor. Ele tinha um coração grande o suficiente para o Reino." Ao ouvir as palavras dele, Gwendolyn sentiu ainda mais falta do seu pai. "De todos os seus filhos", continuou Argon, algum tempo depois, "era de ti de quem ele mais gostava." Gwendolyn ficou surpreendida com as suas palavras. "De mim?", ecoou ela. "Mas eu sou uma rapariga. Kendrick é o mais velho e o líder da Prata. Reece é um guerreiro com a Legião. Luanda era uma rainha e a filha mais velha. Porque é que dirias que era de mim de quem ele mais gostava?" Argon abanou a cabeça. "Tu falas do que os teus irmãos fizeram - não de quem eles eram. A essência de uma pessoa é algo totalmente diferente. Sim, eles eram todos bons à sua própria maneira, mas tu tinhas todas as suas características combinadas. Tu eras mais do que uma guerreira – eras também uma líder." Ele caminhou em silêncio por um longo período de tempo, enquanto ela contemplava as palavras dele. "O teu pai foi o que eu tive de mais parecido com um irmão", disse Argon. "Mas há uma razão pela qual eu não sinto a falta dele: porque ele continua a viver em ti." Gwendolyn sentiu-se tocada pelas palavras dele, e ela teve um desejo súbito de voltar para o Anel. "Argon", disse ela, "já alguma vez te perguntaste se…" De repente, ela parou quando Argon segurou o seu bastão contra o peito e parou. Ele olhava com cautela. Gwen olhou para os lagos e ilhas perante eles, perguntando-se o que é que estava a acontecer. Para ela nada parecia diferente. Argon lentamente baixou o bastão e, enquanto ali estavam, a escutar, à espera, Gwen conseguia ver o medo genuíno no rosto dele. Ela espreitou para a névoa cintilante, sem fôlego, até que, finalmente, devagar, as águas começaram a ondular. As águas ondularam loucamente até que, seguidamente, se ouviu o barulho da água, emergindo das profundezas, como um vulcão em erupção, uma criatura que só poderia ser um Paragon. O coração dela parou com o que estava a ver. Parecia um homem, mas era duas vezes mais largo e alto, e emergiu parecendo uma pilha de lama. Lentamente, a lama caiu, deslizando pelos seus lados. Ele ia ficando cada vez alto à medida que ela observava, duas vezes mais alto novamente. Por fim, ele estava todo de fora, parecendo um esqueleto com carne translúcida e olhos enormes, brancos e brilhantes que a aterrorizavam. Ele fazia um barulho horrível vindo bem dentro de si, cada vez que respirava. Ele esticou o pescoço para baixo até ao nível dos olhos deles, olhando para eles fixamente, franzindo o cenho, apenas a algumas polegadas da cara de Gwendolyn – e ela estava cheia de medo. Ele finalmente inclinou-se para trás, de pé a balançar no lugar, com os seus braços e pescoço a contorcerem-se como cobras, nunca estático. "Vocês perturbam-me nas profundezas", vociferou ele, numa voz tão profunda e alta como a de uma centena de homens, fazendo tremer o mundo enquanto falava. Ele virou-se para Argon e a sua carranca aprofundou-se "Voltaste para o teu mestre. Mas tu já não és bem-vindo aqui." Argon corou. "Perdoe-me, meu mestre", respondeu ele. Pela primeira vez na sua vida, Gwen viu Argon ajoelhar-se e baixar a cabeça. Gwendolyn seguiu o seu exemplo, ajoelhando-se e inclinando a cabeça, também. Gwen ouviu o seu distinto rosnar, viu o Paragon abrir a boca e rosnar, e, por um momento, ela sentiu que seriam mortos. Mas então ele pareceu parar, reconsiderar. "Levantem-se", disse ele. Eles levantaram-se e, quando Gwen olhou para ele, ele parecia irado. Ele permanecia alto e olhava

para baixo para Gwendolyn com tal intensidade que quase lhe queimava os olhos. "Porque é que vieste ter comigo?", perguntou ele a Gwendolyn, com uma voz reverberante. "Tenho de encontrar o meu marido", respondeu Gwen. "E o meu filho." O Paragon ficou ali durante um longo tempo, fazendo um som como se fosse um rosnar que viesse de dentro do seu peito, e ela questionava-se se ele alguma vez iria responder. "O teu filho está perdido", disse ele, "nos braços do Mestre do Sangue.” Gwendolyn sentiu como se uma faca se tivesse espetado no seu coração ao ouvir aquelas palavras, ao sentir a certeza das mesmas. Ela teve uma sensação horrível de perda e luto. "Deve haver uma maneira de o recuperar!", implorou ela. "Por favor. Eu daria qualquer coisa! Mesmo a minha própria alma." O Paragon parou durante um longo tempo, movendo o seu olhar entre Argon e ela. "Há sempre uma maneira", disse ele. "Afinal de contas, o mundo é uma criação. E a criação não é estática." Gwen ponderou as suas palavras, tendo um sentimento de esperança. "O que é que isso significa?", perguntou ela, desesperada. Mas o Paragon virou-se para Argon, ignorando-a. "O fim dos dias chegou", disse ele a Argon. "O teu tempo na terra está quase no fim. Fui eu quem te trouxe para a frente e sou eu que te devo levar de volta. Já sabias que era assim – e é por isso que não me querias ver." Argon olhava fixamente para ele, com uma expressão de medo. "Não te preocupes", continuou o Paragon. "Eu não te vou levar agora. Mas vou em breve. Muito, muito em breve. Escolhe a tua morte com cuidado." Argon assentiu e olhou para baixo, abatido. O Paragon voltou-se para Gwendolyn. "Fizeste um voto, não foi?", perguntou-lhe ele. Gwen olhou para ele, confusa. "Um voto ao Rei do Cume. Tu prometeste salvar o seu povo. Fosse qual fosse o custo. Levá-los para fora do Cume se o seu reino fosse destruído." Gwendolyn concordou. "Fiz", disse ela. "Chegou o momento. O Rei está morto, morto pelo seu próprio filho." Gwendolyn engoliu em seco, horrorizada ao ouvir que tinha sido o próprio filho. "O Cume conforme o conheces", acrescentou o Paragon, "deixará de existir. Enquanto falamos está a ser invadido por hordas que o mundo nunca viu." Ele fez uma pausa, inclinando-se para perto. "Tu, Gwendolyn, és a última esperança. Tu podes salvar estas pessoas, liderá-las no seu êxodo. Tu pensas que o teu destino era o êxodo do Anel - mas isso era apenas um aquecimento. O teu verdadeiro destino é o êxodo do Cume. Ainda não cumpriste a tua missão na vida – ainda nem sequer começaste." Gwen olhava para ele, tentando entender. "Mas para onde é que eu posso levar essas pessoas?", perguntou ela. "O Cume está cercado por nada. Eu só os levaria pelo Grande Desperdício, para a morte. E quem sou eu para liderar tal grande nação?" O Paragon inclinou para trás o seu pescoço, contorceu-o, virou-o e curvou-o invertido antes de se voltar para ela. Gwen não entendia de todo aquela criatura, sentindo-se cheia de medo na sua presença, um medo e pavor que ela não conseguia entender. "Ou", continuou o Paragon, "podes escolher não salvar o Cume. Podes ir no teu dragão pelo mar até Thorgrin. Podes encontrá-lo e ficar com ele para sempre. A escolha é tua." Gwendolyn pensou. O seu coração saltou ao pensar em ver Thorgrin de novo, tão facilmente ao alcance. Mas ela considerava seu o voto, percebendo que não poderia quebrá-lo.

"Fiz um voto", disse ela. "Foi um voto sagrado. Isso significa mais do que a minha vida. Mais até do que Thorgrin." O Paragon acenou de volta em aprovação. "Ótimo", disse ele. "Isso é o que te diferencia. Tu és rainha por mérito, porque as tuas escolhas merecem que sejas. É por isso que deves liderar esta gente." "Mas eu ainda não entendo", disse Gwen. "Para onde é que eu os posso levar?" O Paragon fez uma pausa. "Não sabes?", perguntou. "A resposta tem estado à tua frente desde sempre." Ela olhava fixamente para ele, em branco. Então, de repente, uma imagem surgiu na sua cabeça. Ela estava espantada. "O Anel!?", perguntou ela, sem fôlego. Ele assentiu. A mente de Gwen estava acelerada, em perplexidade. "Mas como?", perguntou ela. "O Anel está destruído. E encontra-se do outro lado do mar, a meio caminho do outro lado do mundo." "E o Escudo?", Argon entrou na conversa, parecendo, também ele, surpreso. "Também não existe." "Sem o Escudo", Gwen acrescentou: "Nós não conseguiríamos conter as hordas do Império." O Paragon inclinou-se para trás e riu-se. "Receio que seja ainda pior do que isso", disse ele. "Os milhões de soldados do Império que estão à espera para te atacar são o menor dos teus perigos. Há uma força muito maior do que eles fixada na tua destruição." Gwendolyn aguardava, sentindo medo. "Os sombrios", disse ele. "Liderados pelo Lorde do Sangue. Pela criatura que tem o teu filho. O grande exército está a aumentar. Um exército ainda maior do que o Império já conheceu. Eles são uma força imparável." "Então não há esperança", disse Gwen, recorrendo ao medo. "Estamos todos condenados a morrer." "Eu achei que tinhas mais esperança do que isso", disse o Paragon, em desaprovação. "Há sempre esperança." "Mas como?", perguntou Gwen. "Como podemos voltar ao Anel sem Escudo?" O Paragon voltou-se para Argon. "Tu foste o meu melhor aluno", disse ele. "Tu sabes a resposta. Está bem dentro de ti. Tem estado sempre um pouco além do teu entendimento, sempre foi um segredo um pouco fora do teu alcance. É a única coisa que te roí, o único segredo que te soneguei durante todos estes séculos. A única coisa que não se podia saber até ser o momento certo. Mas agora, chegou a hora." Argon olhava para ele com medo e curiosidade. "Qual é, meu mestre?", perguntou. "Qual é o segredo que eu ainda tenho de aprender?" O Paragon fez uma pausa durante algum tempo, com os seus braços a agitarem-se como cobras, virando o seu pescoço de uma maneira e de outra - até que, finalmente, ele parou e ficou imóvel. Ele olhou para Argon. "O Anel do Feiticeiro", disse ele. "Tu nunca percebeste completamente o que significa. Pensaste sempre que era o Escudo. Mas o Anel do Feiticeiro, meu aluno, tem dois significados. Sim, é o Anel, o Escudo sobre o Desfiladeiro. Mas há um outro significado. Outro anel.” Argon semicerrou os olhos, espantado, enquanto o Paragon se inclinou para a frente e o olhou nos olhos. "Um outro anel?", perguntou Argon. O Paragon assentiu. "Um anel real", disse ele.

Gwen e Argon prenderam a respiração, arrebatados com a revelação. "O Anel do Feiticeiro é também um objeto. Um anel mágico, formado no início dos tempos. É a única coisa que pode parar o Lorde do Sangue, a única coisa que pode restaurar o Escudo para sempre, restaurar o Anel, restaurar o Reino que em tempos tiveste. Este anel é a tua única esperança de salvação." "E onde é que podemos encontrar esse tal anel?", perguntou Gwendolyn. "Eu irei a qualquer lugar. Eu farei qualquer coisa." O Paragon abanou a cabeça. "Encontra-se na Terra do Anel", disse ele, "mas não é para tu encontrares. É uma missão que apenas uma pessoa no mundo pode assumir. É um Anel que apenas uma pessoa no mundo pode usar." Os olhos de Gwendolyn iluminaram-se com compreensão. "Thorgrin", disse ela. O Paragon assentiu. "E como saberá ele onde está o Anel?", perguntou ela. "Ele vai saber", ele respondeu. "Dentro de si, ele vai saber." De repente, Gwendolyn percebeu outra coisa. "O dragão", disse ela, montando as peças todas. "Ela veio para que eu a pudesse enviar de volta para o outro lado do mar, para Thorgrin. Para que eu pudesse entregar esta mensagem, para contar a Thorgrin acerca do Anel." O Paragon assentiu. "Mas se eu o fizer", continuou Gwendolyn, "então eu vou ter de desistir do dragão. Quando ele me deixar no Cume, não terei dragão para me ajudar. Vou ter que levar as pessoas para fora a pé." O Paragon ficou em silêncio, e, finalmente, Gwendolyn compreendeu. Tudo fazia sentido: adiante havia um teste supremo para si e para Thorgrin. Dois lados da mesma moeda, ambos necessários para restaurar o Anel. "E o meu filho?", perguntou ela. "O Anel é a única coisa que pode salvá-lo agora", o Paragon respondeu. "Se Thorgrin não conseguir encontrá-lo - e, o mais provável, é que ele não consiga – não restará nada de vocês." O Paragon, de repente, levantou os braços para o céu, soltou um grito que dividiu a terra e, em seguida, igualmente depressa, afundou-se sob as águas, com a água a borbulhar e a sibilar a toda a sua volta, não deixando nada para além de fumo e neblina. Gwendolyn e Argon olharam um para o outro, percebendo que ainda tinham pela frente os seus maiores testes.

CAPÍTULO VINTE E SEIS Kendrick galopava através do Grande Desperdício, ao lado de Brandt, Atme, Koldo, Ludvig e agora Kaden, os seis deles a avançarem, depois do seu confronto com os Caminhantes da Areia, de volta para a segurança do Cume. Kendrick estava exultante, assim como os outros, todos eles tão aliviados por terem encontrado Kaden a tempo, e por o estarem a levar para casa ileso. Eles estavam a cavalgar arduamente desde que o tinham resgatado, durante todo o dia e toda a noite. Kendrick e os outros sentiram a urgência de voltarem para o Cume. Finalmente, depois de horas de monotonia, a paisagem começou a mudar. Kendrick, para seu alívio, viu a Parede de Areia a aparecer no horizonte, e ele sabia que o cume não estaria muito atrás dela. "Eu ainda não os vejo", disse Ludvig. Kendrick olhava para o horizonte e também não via nenhum sinal de Naten e dos outros; ele estava surpreendido. Aqueles cavaleiros do Cume haviam prometido ir ter com eles, com os cavalos. Kendrick sabia que os cavaleiros do Cume eram honrados e suspeitava que Naten estivesse por trás daquilo. Talvez ele não quisesse que Kendrick voltasse, e ele sabia que, não tendo ido ter com eles, provavelmente já não iriam. Mas mal ele sabia que eles tinham encontrado os seus próprios cavalos, tinham encontrado o seu próprio caminho de volta. Ele suspeitava que eles teriam um inferno para pagar quando voltassem. Enquanto cavalgavam, Kendrick reparou nas expressões de Koldo e de Ludvig, e parecia que eles estavam mais magoados com a traição do seu povo do que Kendrick. "Então eles não vieram ter connosco", Koldo respondeu, desapontado. Ludvig bufou. "Deveríamos estar surpreendidos?", perguntou ele. "Naten é um fala-barato e ameaça outros. Mas quando é preciso enfrentar as coisas, ele é um cobarde." "Quando voltarmos ele tem de ser disciplinado", Koldo respondeu. "Ele deixou-nos ali à mercê da morte e deve ser feita justiça." Koldo virou-se para Kendrick. "Foste amável em aturá-lo", disse ele. "Lamento que ele te tenha dado um momento tão difícil. Agradecemos-te por te juntares a nós nesta missão, uma missão que nem sequer era tua. Não te conseguimos agradecer o suficiente." Kendrick assentiu de volta, com um respeito e admiração mútuas por Koldo e Ludvig. "Nem todos os membros de um tribunal se regem pelos mesmos valores", ele respondeu. "O mesmo acontece no Anel. Foi uma honra acompanhar-te nesta missão. Afinal, o que faz um irmão é a honra igual, a coragem - e vocês os dois são os meus irmãos hoje." Eles cavalgavam sem parar e o som ficava cada vez mais ensurdecedor à medida que se aproximavam da Parede de Areia, com Kendrick a semicerrar os olhos quando a areia lhe começava a bater até mesmo a partir dali. Kendrick embrulhou-se na manta que Koldo lhes tinha dado, enrolando-se uma e outra vez, até que finalmente, quando eles entraram, ele cobriu o rosto, também. Lembrou-se de, ao tê-la atravessado uma vez a cavalgar, o quão áspera aquela Parede de Areia poderia ser. Ele não estava ansioso para passar por ela outra vez. O ruído atingiu um nível febril, abafando tudo o mais. Kendrick, de repente, viu-se imerso num muro de areia, num tornado estacionário. A areia arranhava-o de todos os ângulos possíveis. Era quase impossível de ver. Kendrick arfava por ar, com o ar e a areia tão intensos enquanto ele passava a galopar com os outros. Ele sentia-se como se aquilo nunca fosse acabar. Kendrick finalmente emergiu do outro lado, juntamente com os outros, avançando novamente a céu aberto, pelo deserto aberto. Ele suspirou de alívio. A luz do sol ofuscante abatia-se sobre ele e ele não se

importava - ele estava apenas feliz por estar novamente ao ar livre. E ao olhar para os lados, viu os outros a desembrulharem-se, também, e podia ver a alegria e alívio nos seus rostos, de todos eles. Os seus cavalos estavam arranhados, mas ainda vivos. Mas Kendrick também reparou nas expressões assustadas nos seus rostos enquanto eles olhavam para a frente. Virou-se, olhando em frente, querendo saber o que eles estavam a ver. Ao fazê-lo, Kendrick ficou de boca aberta em estado de choque. Lá, mais à frente, estavam os picos do Cume, no horizonte - e no início ele ficou aliviado ao vê-los. Mas diante deles, entre o seu grupo e o seu lar, ele avistou algo que o encheu de medo, algo que ele nunca tinha esperado ver na sua vida. Era algo que os fez a todos parar abruptamente nos seus cavalos. Ficaram todos ali, a respirar com dificuldade, olhando fixamente, sem palavras. "Não é possível", disse Koldo. Kendrick estava a pensar a mesma coisa. Porque lá, diante deles, estava o maior exército que jamais tinha visto, milhões de soldados, vestindo armaduras negras brilhantes, espalhando-se em todas as direções, de costas voltadas para Kendrick. Kendrick conseguia ver que eles estavam todos a prepararem-se para invadir o Cume por todos os lados. Eles pululavam como formigas num círculo enorme, aproximando-se dos picos. Kendrick ouviu um barulho e, ao virar-se, viu a irromperem pela Parede de Areia, mais milhares destes soldados, e mais a derramar a cada segundo. Eles tinham bandeiras distintas e ele lutava para entender quem eles eram, quem poderia estar a mobilizar um ataque ao cume. "Os Cavaleiros dos Sete", anunciou Koldo, com uma voz grave. "Eles carregam todo o peso dos exércitos do Império", disse Ludvig, desanimado. "Se eles descobriram o Cume, estamos acabados." Kendrick ficou ali, com o seu coração a bater com força, percebendo que eles estavam certos. Kendrick também percebeu que eles estavam num posição pouco comum, agora, sendo capazes de testemunhar aquilo por trás, sem a sua presença ter ainda sido detetada pelo Império. Eles não podiam, é claro, qualquer que fossem as suas hipóteses, virarem-se e irem-se embora, não com os seus irmãos lá dentro, não com Gwendolyn lá. Todos eles trocaram olhares, e, silenciosamente, todos eles estavam a pensar o mesmo. Eles teriam de encontrar uma maneira de atacar. "Temos de encontrar um caminho de volta para entrar", disse Koldo, "e ajudá-los a defender. Mesmo que isso signifique perdermos as nossas vidas." "Os nossos irmãos vão todos morrer lá dentro", disse Kendrick. "E nós vamos morrer a defendê-los." "E como é que vamos entrar?", perguntou Brandt. "Eles têm o Cume cercado." Kendrick viu Koldo e Ludvig a examinarem a paisagem, os contornos do Cume, e, de seguida, eles trocaram um olhar de cumplicidade. "Por trás daquela formação rochosa, muito longe das fileiras dos soldados", disse Koldo, apontando, "encontra-se um túnel, escondido. Vai por debaixo do Cume. Foi construído para momentos como este. Podemos alcançá-lo sem sermos detetados. Vamos rapidamente e vamos juntar-nos aos nossos irmãos, antes que os soldados nos detetem." Koldo esporeou o seu cavalo e todos se juntaram a ele, correndo sob o céu do deserto, para o Cume, para os seus irmãos, para a maior batalha das suas vidas - para a valentia.

CAPÍTULO VINTE E SETE Thorgrin estava sentado no convés do navio, com a cabeça entre as mãos, cotovelos nos joelhos, totalmente desanimado. Após as correntes os terem tirado da Terra do Sangue, das trevas, através das cascatas sangue e de volta ao mar aberto, eles agora navegavam sem rumo, no vasto oceano aberto. Thor sentia-se como se toda a sua vida estivesse à deriva afastando-se dele. O sol brilhava, iluminando tudo, e Thor sabia que ele devia estar feliz por estar de volta sob um céu aberto, longe da escuridão da Terra do Sangue. Mas Thorgrin não sentia nada parecido com alegria; ao invés disso, sentia-se como se, pela primeira vez na sua vida, ele tivesse falhado uma missão. Ele havia-se esforçado para resgatar o seu filho, e ele tinha falhado a sua missão. Ele não tinha conseguido alcançar o seu bem mais precioso no mundo, não tinha conseguido vencer um inimigo, uma terra, mais poderosos do que ele. Ele tinha estado, de facto, destinado a morrer lá, ele sabia, e se não fosse Angel, ele ainda lá estaria agora, preso para sempre. Agora, ali estava ele, à deriva no mar com o resto da Legião, demasiado desanimado para continuar, apesar de todos eles olharem para ele à procura de liderança. Pela primeira vez na sua vida, ele sentiu-se paralisado, sentiu sem propósito, sentiu que não tinha nada para oferecer. Ele tinha falhado com o seu filho, e não via qual era o objetivo de continuar. Ele sabia que não havia caminho de volta para a Terra do Sangue, sabia que era um lugar intransponível para ele. Ele ainda não era suficientemente forte exatamente como Ragon tinha avisado. Era humilhante para Thor perceber que havia inimigos lá fora mais fortes do que ele, que havia limites para o seu poder, mesmo quando o seu próprio filho estava em jogo. E, acima de tudo, atormentava-o pensar em Guwayne preso lá, nas garras do Lorde do Sangue e dos seus seres sombrios, para ser moldado para qualquer propósito maléfico que eles tivessem para ele. O seu próprio filho, levado para longe de si; um pai incapaz de salvar o seu filho. Thorgrin estava ali sentado segurando a cabeça, odiando-se. Ali sentado, Thor revia incessantemente na sua cabeça o que tinha corrido mal, e como é que ele poderia ter feito as coisas de forma diferente. O navio balançava sobre as ondas e ele sentia-se desorientado, como se não houvesse nenhuma razão para continuar sem Guwayne. Ele não podia voltar para Gwendolyn sem ele, uma falha - ele nem sequer conseguiria viver consigo mesmo como um fracasso. E, ainda assim, ele não via nenhuma outra maneira. Ele sentia-se desesperado pela primeira vez na sua vida. "Thorgrin", ouviu-se uma voz suave. Thor sentiu uma mão reconfortante no seu ombro e, ao olhar para cima, ele viu Reece de pé sobre ele. Reece sentou-se ao seu lado, bem disposto, claramente a tentar consolá-lo. "Fizeste tudo o que podias", disse ele. "Chegaste mais longe do que qualquer outra pessoa", ouviu-se outra voz. Thor virou-se e viu Elden a aproximar-se e a sentar-se no seu outro lado. Ele ouvia a madeira a ranger no convés, e ele olhou para cima e viu também O'Connor, Matus, Selese, Indra e Angel, todos a reuniremse em torno dele. Ele via nos olhos deles a sua preocupação, o quanto eles se importavam com ele. Sentiu-se envergonhado; eles sempre o tinham visto como sendo tão forte, como sendo tão seguro de si mesmo, como sendo um líder. Eles nunca o tinha visto assim. Ele não sabia como agir; ele já não sabia como ser com ele mesmo. Thor abanou a cabeça. "O meu filho ainda está para além do meu alcance", disse ele, com a voz de um homem destroçado. "É verdade", respondeu Matus. "Mas olha à tua volta. Estamos todos vivos. Tu sobreviveste. Nem tudo está perdido. Vamos todos viver para lutar outro dia. Vamos conseguir alguma outra missão."

Thorgrin abanou a cabeça. "Não há missão sem o meu filho. Nada faz sentido." "E Gwendolyn?", perguntou Reece. "E os exilados do Anel? Eles precisam de nós, também. Temos de encontrá-los e salvá-los, onde quer que estejam." Mas Thor não conseguia suportar o pensamento de enfrentar Gwendolyn, de regressar a todos eles como sendo um fracasso. Lentamente, ele abanou a cabeça. "Deixem-me", disse ele a todos, sendo mais duro do que queria. Ele sentia todos a olharem para si, claramente surpreendidos por ele ter falado com eles daquela maneira. Nunca o havia feito antes. Ele via a dor nos seus rostos. Imediatamente, ele sentiu-se culpado, mas estava muito dormente dentro de si mesmo e muito envergonhado, para enfrentar qualquer um deles. Thor olhou para baixo, incapaz de olhar para eles, e começou a ouviu gemidos e o convés a ranger. Pelo canto do olho, ele viu que todos o estavam a deixar, atravessando para o outro lado do navio, deixando-o sozinho. Thor sentiu um buraco no estômago; ele desejava ter agido de outra forma. Ele desejava ter-se conectado, ter recuperado a liderança, superado aquilo. Mas aquela missão falhada magoava-o profundamente. Thor ouviu um guincho distante. Ele procurou nos céus, perguntando-se se estaria a imaginar. Parecia o guincho de um dragão. Poderia ser? Era Lycoples? Quando ele olhou para cima, à procura, o coração de Thor, de repente, deu um salto ao ver Lycoples a descer a pique para baixo, rompendo as nuvens e circundando o navio, guinchando, batendo as suas asas. Ele conseguia ver algo pendurado nas suas garras, e, ao olhar para o sol, protegendo os olhos, ele esforçou-se para descobrir o que era. Parecia ser um pergaminho. Momentos depois, Lycoples desceu a pique e pousou no convés diante de si, abrindo as suas asas lentamente. O dragão olhou diretamente para ele e ele conseguia ver a ira, o poder neles, olhando para eles em desafio, com um sentido de propósito. Ele queria ir e abraçá-la, para verificar o pergaminho, mas ele sentia-se muito apático para o fazer. Os outros, porém, aglomeraram-se todos ao redor do dragão no convés, mantendo a distância. "O que está no pergaminho?", perguntou Angel. Thorgrin abanou a cabeça. Angel, impaciente, levantou-se e correu para Lycoples, estendendo a mão timidamente e tirando-lhe o pergaminho das garras. Lycoples guinchou baixinho, mas não resistiu. Angel desenrolou-o e olhou lá para dentro. "É da Gwendolyn", disse ela, virando-se para Thorgrin e pondo-o nas suas mãos. Thor sentiu-o nos seus dedos, o pergaminho resistente, e sentia-o tão frágil; ele mal podia acreditar que o pergaminho tinha atravessado o mundo. Tê-lo nas mãos, de alguma forma tirou-o do seu devaneio, e sem intenção, ele começou a ler: Meu Querido Thorgrin: Se o pergaminho te encontrar, quero que saibas que ainda vivo, e que eu penso em ti a cada momento que respiro. Eu conheci o mestre de Argon, e ele falou-me de um Anel. O Anel do Feiticeiro. É este anel que precisamos para nos encontramos novamente, para salvar Guwayne, para recuperar a nossa pátria e voltarmos todos para o Anel. É só tu podes encontrar este Anel. Thorgrin, precisamos de ti agora. Eu preciso de ti agora. Lycoples vai-te levar para o Anel. Junta-te a ela. Fá-lo por mim. Pelo nosso filho.

Thorgrin baixou o pergaminho, com os olhos turvos, levado pela emoção de ter recebido um objeto de Gwendolyn, por ouvir a sua voz, a sua mensagem, na sua cabeça. Thor olhou para Lycoples, que estava lá, à espera. Uma parte dele sentiu-se energizado, renovado com um novo propósito, pronto para partir. Mas outra parte dele ainda se sentia muito arrasada, exausta demais para continuar. Qual era o objetivo, quando o Lorde do Sangue ainda existia, alguém lá fora que ele nunca iria vencer? "Bem?", pressionou Angel, olhando para ele, esperando por uma resposta. Angel pegou no livro e lê-o impaciente. De seguida, ela olhou para Thor. "Estás à espera de quê?", perguntou ela. Thorgrin estava ali sentado, apático, deprimido. Um longo silêncio caiu sobre eles e, por fim, ele apenas abanou a cabeça. "Eu não posso ir", disse ele, numa voz desanimada. Todos os outros olharam para ele em choque. "Mas eles precisam de ti", insistiu Angel. "Sinto muito", disse Thorgrin. "Eu tenho desiludido toda a gente. Eu sinto muito." Ele sentiu-se terrivelmente mal ao dizer aquelas palavras. Ele não conseguia suportar ver o olhar de deceção nos olhos de Angel. Os outros cruzaram o convés, mais uma vez dando-lhe espaço, mas Angel ficou ao seu lado e aproximou-se. Ele viu-a a olhar para ele com os seus olhos cheios de alma e sentiu-se envergonhado. "Lembras-te quando eu te contei sobre a Terra dos Gigantes?", perguntou ela. "O lugar que pode ter a cura para a minha lepra?" Thorgrin assentiu, lembrando-se. "A Terra dos Gigantes é uma metáfora", disse ela. "Não é uma terra real. É um lugar onde os grandes vivem. É este o lugar sobre o qual Gwendolyn fala. Eu sei, porque eu tenho ouvido falar nele toda a minha vida – o lugar sobre o qual há rumores de poder ter não só a cura para a lepra, mas também o Anel do Feiticeiro." Thor olhava para ela, perplexo. "Não compreendes?", pressionou ela. "Se encontrares este anel, ele pode não só salvar os outros – pode salvar-me, também. Não podes fazer isso por mim?" Thor olhava para ela. Ele queria ajudá-la, queria ajudá-los a todos - mas algo dentro de si fazia com que ele se sentisse para baixo, com que ele não conseguisse continuar. Sem intenção, ele olhou para baixo. Angel virou-se, com um olhar de traição nos seus olhos, e foi, irada, para o outro lado do convés. Thor fechou os olhos, sofrendo, sentindo uma dor no peito. Então, por alguma razão, ele pensou na sua mãe. Porquê, mãe? Porque é que eu falhei? Porque é que os meus poderes encontraram os seus limites? Porque é que eu te dececionei? Ele fechou os olhos, tentando imaginar o rosto da sua mãe, à espera de uma resposta. Mas não ouve nenhuma. Ele concentrou-se com toda a sua força. Eu nunca te pedi nada, Mãe. Peço-te agora. Ajuda-me. Ajuda-me a salvar o meu filho. Desta vez, ao fechar os olhos, Thorgrin viu a sua mãe ao fundo do seu passadiço aéreo com um sorriso no rosto, olhando para ele com compaixão. Thorgrin, disse ela, tu não falhaste. Tu não podes falhar. O que tu vês como um fracasso é apenas uma desilusão. Compreendes? Uma falha é o que tu defines que seja. Thorgrin abanou a cabeça com o pensamento, a braços com as suas palavras. Não. Eu falhei. O meu filho está sem mim.

Está?, perguntou a sua mãe. Nunca mais o vou encontrar. Não?, perguntou ela. Nunca é muito tempo. Na vida, nós falhamos. A vida não seria a vida sem fracassos. Perdas. Derrotas. Mas não é a derrota que nos define. É o que fazemos depois da derrota. Vais desintegrar-se e cair, Thorgrin? Isso é falha. Ou vais levantar-te e erguer-te? Serás suficientemente corajoso para voltares a levantar-te? Terás coragem para lutar novamente? Isso é vitória. Algo se agitou dentro de Thorgrin, e ele percebeu que ela estava certa. Coragem, bravura, honra, valentia - não tinha nada a ver com vitória ou derrota. Tinha a ver com a coragem de tentar, de lutar por aquilo em que se acredita, coragem de enfrentar o inimigo, por muito formidável que ele seja. De repente, Thorgrin sentiu uma nova onda de energia a apoderar-se de si e sentiu-se a rejeitar a onda de tristeza que o oprimia desde que tinha deixado a Terra do Sangue. Ele estava de pé, elevando-se em toda a sua altura, sentindo-se cada vez mais forte, mais ousado, até ficar de pé, altivo e orgulhoso. Thor começou a atravessar o convés, na direção de Angel, e, ao fazê-lo, os outros na Legião devem têlo sentido, porque todos se viraram e observaram-no a ir, e, desta vez, os olhos deles estavam cheios de alegria ao vê-lo de pé, altivo e orgulhoso. Ele estava de volta ao velho Thorgrin. Thor foi até Angel, chamou-a tocando-lhe no ombro. Ela virou-se e os seus olhos iluminaram-se, também. Ele ajoelhou-se e abraçou-a. Chegou a cabeça atrás e olhou-a nos olhos. "Eu vou encontrar o Anel do Feiticeiro", disse ele. "Ou vou morrer a tentar." Ela abraçou-o e ele abraçou-a de volta. Depois, ele levantou-se, virou-se e solenemente, um a um, abraçou cada membro da Legião. Thor virou-se e viu Lycoples, dois guerreiros, com os olhos a brilhar. Ele conseguia ver a determinação no seu rosto. Agora, ele sentia-se determinado. Eles iriam cavalgar, de bom grado, juntos até aos confins da terra. Thor virou-se para os outros. Todos eles estavam lá, prontos para vê-lo a partir. Todos olhavam para ele com esperança de serem liderados. "Vão todos zarpar para o Anel", disse ele, com uma voz novamente cheia de confiança. "Encontrem-se comigo lá. Eu vou encontrar este Anel do Feiticeiro, vou voltar ao Anel, e lá, ficaremos unidos para sempre. Eu vou encontrar este anel, ou vou morrer a tentar." O grupo olhava para ele solenemente, com um longo silêncio a cair sobre eles. "E se não voltares?", perguntou Matus. Thor olhou para ele com gravidade. "Eu volto", respondeu ele. "Desta vez, independentemente do que aconteça, eu volto."

CAPÍTULO VINTE E OITO Naten estava na plataforma, ressentido, enquanto ela subia cada vez mais para cima pelos lados do pico do Cume, com os seus homens a puxarem as cordas. A madeira deteriorada oscilava e rangia. Os cavalos empinavam-se ao lado deles, todos ansiosos para descerem do outro lado e aventurarem-se pelo Grande Desperdício na busca pelos seus irmãos de armas, por Koldo, Ludvig, Kendrick e os outros. Naten estava amargurado. Naten estava ali a cismar. Ele tinha feito tudo ao seu alcance para convencer os soldados a não voltarem para lá, abandonarem os seus irmãos e, especialmente, Kendrick e os seus homens, e para permanecerem ali, na segurança do Cume. Naten desprezava Kendrick e os outros; ele não queria aqueles exilados do Anel ali. Ele detestava pessoas de fora e queria que as coisas fossem como eram antes de eles chegarem. Ele não se importava que Koldo e Ludvig não voltassem, também - isso só lhe daria maior poder nas fileiras do exército do Cume. "É a sepultura deles que eles estão a cavar", disse Naten amargamente, tentando convencer os seus homens uma última vez. Todos eles - os outros seis soldados – solenemente, mantiveram-se indiferentes. "Irmos agora para lá é uma loucura", continuou Naten. "Nós nunca os vamos encontrar. Demorámos muito tempo a reagrupar. E mesmo se o fizermos, nesta altura, eles já devem certamente estar mortos. Devemos matar-nos a nós próprios também? Será que isso beneficiaria o Cume? O Cume precisa de nós aqui agora. Vocês sabem-no." Mas os seus homens olhavam silenciosamente, sorumbáticos, sem vontade de ceder. Finalmente, um deles encolheu os ombros. "Temos ordens", disse um deles. "Não podemos abandonar a missão. Se eles retornarem, nós seremos presos." "Nós não abandonamos os nossos irmãos", acrescentou outro. Naten ficou em silêncio, encolerizando-se, odiando aquela missão. Ele próprio deveria tê-los matado a todos, antes, quando tinha tido essa hipótese. Agora ele estava sem alternativa, condenado a regressar lá. A plataforma subia cada vez mais. Naten atormentava-se, desesperado para arranjar um esquema que, de alguma maneira, resolvesse aquela situação. Ao pensar incessantemente, surgiu-lhe uma ideia: quando chegasse ao chão do deserto, quando os outros não estivessem a olhar, ele iria esfaquear os cavalos nos seus ventres. Ninguém saberia que tinha sido ele. E com os cavalos a morrer, eles não teriam escolha; eles teriam de voltar para trás. Naten sorriu com o seu pensamento; era a estratégia perfeita. À medida que a plataforma continuava a subir, ele ficava com mais medo, mas, no entanto, estava ansioso para implementar o seu plano. Quando se aproximaram do pico do cume, Naten tinha um sorriso no rosto - ele seria mais esperto que todos eles. Ele era-o sempre. A plataforma parou finalmente no pico do Cume, abanando quando as portas de madeira se abriram e os cavalos e homens saíram. Nathan liderou-os, sendo o primeiro a sair, certificando-se de que estava na frente assumindo o comando da missão, não deixando ninguém retirar-lhe essa tarefa. Ele caminhava energicamente enquanto pensava no seu novo plano. Os outros, ao lado dele, agarrados aos cavalos extras que eles estavam a levar de volta para Koldo, Ludvig, Kendrick e os outros - e Naten sorria presunçosamente para si mesmo, sabendo que eles nunca teriam oportunidade de os usar. Naten continuava a fingir, caminhando através da ampla plataforma, no pico do Cume, e indo para o outro lado distante, onde iriam embarcar na plataforma seguinte e descer. Ele olhava ao longe, apreciando a vista do outro lado do cume, o vasto céu aberto, a sensação de eternidade. Dali de cima, ele

sentia que dominava o mundo. Naten finalmente chegou ao outro lado e, ao fazê-lo, parou, ansioso por se divertir. Ele tinha sempre adorado aquele lugar mais do que qualquer outro no mundo, onde poderia ficar à beira do precipício e sentir-se como se estivesse a olhar para a eternidade. Mas desta vez, enquanto ali estava, Naten percebeu imediatamente que algo estava errado. Ele olhou ao longe e não viu nenhuma plataforma à espera de eles. Pela primeira vez desde sempre, não estava lá. Ele olhou para baixo, perplexo, e, ao fazê-lo, ele ficou ainda mais perplexo ao ver a plataforma a subir, subindo para cumprimentá-lo. Não fazia sentido – naquele momento, não havia nenhuma patrulha para levar para cima. Quem poderia estar a fazê-la subir? Antes de Naten conseguir entender o que estava a acontecer, a plataforma parou no topo. E antes que ele conseguisse registar o que estava a acontecer, as suas portas abriram-se, e ele viu caras que não reconhecia a olharem fixamente para si. Caras, percebeu ele tarde demais, que nem sequer eram humanas. Caras que eram o inimigo. Naten ficou de boca aberta, em estado de choque e horrorizado, ao perceber que, diante de si, estava uma plataforma repleta de soldados do Império, Cavaleiros dos Sete, todos armados e mortíferos - os primeiros invasores que alguma vez alcançaram o solo do Cume. O prenúncio de um vasto exército que estava por vir. Antes de conseguir reagir, Naten viu, enquanto o tempo abrandava, um deles erguer uma longa lança e empurrá-la através da sua barriga, com a sua lâmina a perfurar-lhe o peito. Ele estava em agonia enquanto a dor o percorria. Que ironia, pensou: era a mesma morte que ele tinha imaginado para os seus cavalos. Naten começou a cair, silenciosamente, sem palavras, ao longo da borda do penhasco, caindo para baixo em direção à morte, a primeira vítima da guerra. Durante a queda, à sua espera lá em baixo para receber o seu cadáver, ele teve a visão final da sua vida: milhões e milhões de soldados do Império, preparando-se para ascender, preparando-se para destruir o Cume de uma vez por todas.

CAPÍTULO VINTE E NOVE Gwendolyn estava no pico do Cume, na ampla plataforma de pedra, que ela em tempos tinha visitado com o rei, a examinar o céu. Argon estava ao lado dela, Steffen no outro lado e Krohn aos seus calcanhares, enquanto ela observava o horizonte, observando Lycoples a desaparecer. Depois de Lycoples os ter levado de volta do mestre de Argon e os ter deixado, a ela e a Argon, ali, no topo do Cume, Gwen tinha ordenado a Lycoples para ir e encontrar Thorgrin e transmitir-lhe a mensagem dela. A última esperança deles era que ele encontrasse o Anel do Feiticeiro. E Gwendolyn, por muito que quisesse, por razões egoístas, não poderia manter Lycoples ali com ela. Então ela tinha desistido da sua oportunidade para escapar, e, em vez disso, tinha escolhido marcar uma posição ali, com o Anel, de não abandonar o seu povo, o seu voto, independentemente dos perigos que viessem. Gwen não se arrependia. Não estava na sua forma de ser abandonar o seu povo, e ela tinha prometido ao Rei ajudar o seu povo, tendo a intenção de manter essa promessa. Ela poderia ter sido deixada lá em baixo por Lycoples, na segurança da capital, do outro lado do lago, longe das linhas de frente da invasão que estava para acontecer - mas ela não era assim. Se uma guerra estava a chegar, era ali que ela queria estar, na linha de frente, reunindo as tropas, preparando-se. Gwen sentiu a vibração do coração, sentindo um formigamento nas mãos, nos braços, ao preparar-se mentalmente para a batalha. Ao sobrevoar o Grande Desperdício, ela tinha visto com espanto, terror e fascínio o infindável número de tropas do Império, todos a marchar para o Cume – parecia que o mundo inteiro se estava a reunir para destruir o lugar. Era um sentimento surreal estar a voar diretamente para o coração do problema, e não para longe dele. Era como se Lycoples os tivesse largado lá em baixo bem no olho do furacão. E ela sabia que, se as profecias do mestre de Argon fossem verdade, nada iria deter o Império, e o Cume seria destruída, em pouco tempo. Mas Gwen não era de desistir facilmente, nem de acatar profecias. Desde que tinha chegado, ela tinha, pelo contrário, feito tudo ao seu alcance para reunir as tropas do Cume, todos os cavaleiros do Rei, para ajudar a defendê-lo. A princípio, ela tinha tentado levá-los a acatar as suas palavras e evacuar o Cume, mas eles não quiseram ouvi-la, e ela sabia que nunca seria capaz de forçar aquelas pessoas a evacuar a casa onde viviam há séculos e partir para o desconhecido. Especialmente quando não havia ainda nenhum inimigo à vista. Muitos deles ainda viviam em negação de que o Império iria atacar. Então, Gwen fez a segunda melhor coisa que poderia fazer. Ela fez soar todas as cornetas, que continuavam a soar mesmo naquele momento, enquanto ela estava ali, todas a soarem em coro, uma e outra vez, reunindo todos os cavaleiros em nome do Rei, ordenando-lhes que todos se reunissem no pico do Cume. As pessoas, ainda em choque com a notícia da morte do Rei, tinham escutado procurando liderança, especialmente com os filhos mais velhos do Rei ainda ausentes e sabendo que Gwendolyn estava a agir de acordo com a vontade do antigo Rei. Pelo menos ele tinha deixado isso muito claro aos seus comandantes, antes de morrer. Agora todos os bravos cavaleiros do Cume estavam no topo daquele amplo planalto, alinhados até onde ela conseguia ver, com as suas armaduras a brilharem ao sol, todos a aguardar o seu comando. Era toda a força do Cume, todos alerta em silêncio há horas. No entanto, agora todos eles estavam a começar a olhar para ela com ceticismo, à medida que as cornetas iam soando uma e outra vez e outro conjunto de reforços chegava à plataforma. Perante todos eles estava Ruth, a filha mais velha do Rei, mais altiva e feroz do que todos eles, detendo, na ausência do seu irmão, o respeito de todos os homens. Ela deu um passo para a frente, finalmente, e olhou para Gwendolyn ferozmente. "O meu pai está morto", disse ela, com uma voz profunda e forte. "Não é o momento de reunir os

nossos homens nos picos do Cume para uma invasão de fantasia." Gwen olhou para ela com firmeza, admirando a sua coragem. "A invasão é real", disse Gwen. Ruth franziu a testa. "Então, onde está esse exército? Mostra-mos e eu matá-los-ei. Nenhum exército, mesmo se nos encontrar, consegue escalar os picos do Cume. Nós temos todas as vantagens do mundo. Mas não há nenhum exército – tu estás a seguir uma fantasia. Tens feito os nossos homens desperdiçarem tempo aqui. É hora de voltar para a capital e enterrar o meu pai. Os meus irmãos devem voltar em breve, e é Koldo, o mais velho, que deverá ficar ao comando. Juntamente com o teu Kendrick. Tu és uma sonhadora." Gwendolyn suspirou; ela não poderia culpá-la. Ela podia sentir o quão impaciente os homens estavam, tudo por causa das certezas dela, e ela sabia que não poderia manter um exército ali à espera para sempre - especialmente sem nenhum inimigo. Pensou em Mardig, lá em baixo na capital, na sua recusa em juntarse aos cavaleiros, e indagou-se sobre o que ele de mal estaria a tramar lá em baixo, depois de assassinar o seu pai. Certamente se eles regressassem ele tentaria tomar o poder e impedir qualquer defesa do Cume. A menção a Kendrick, também, fez com que Gwen pesasse nele, nas batalhas que haviam lutado juntos, e, mais do que nunca, ela desejava que ele estivesse ali, ao seu lado, desejava que ele já tivesse regressado do Desperdício. Ela poderia usá-lo para ajudar a liderar aquela batalha. Mais do que tudo, ela estava preocupada com ele: morreria ele lá fora? "A minha senhora não é uma sonhadora", entrou, de rompante, Steffen na conversa, tenso, defendendoa. "Se a minha senhora diz que haverá uma invasão, então vai haver. Deves aprender a respeitar…" Mas Gwen colocou uma mão no ombro de Steffen e calou-o. Ela apreciava a sua lealdade, mas ela não queria inflamar ainda mais a situação. Naquele preciso momento uma outra plataforma de homens parou no cimo da encosta do Cume, e Gwen ficou perplexa ao ver aparecer Mardig, já ladeado por vários dos assessores do antigo Rei. Ele franziu a testa para Gwen enquanto marchava na direção dela. "O que é isto?", gritou ele, em desaprovação. "Eu não aprovei isto. Tu não tens direito e nenhuma autoridade para reunir os homens do meu pai." "Eu tenho todo o direito", respondeu ela, sentindo repulsa ao ver aquele assassino. "O teu pai deu-me esse direito." Mardig parou diante dela e fez uma careta. "O meu pai não te deu nada", disse ele. "Eu estou no comando agora. Agora que os meus irmãos se foram, eu sou o mais velho do Rei. E eu ordeno que todos vocês", disse ele, voltando-se para os seus homens,"voltem para a capital." Ele virou-se para Gwen. "E prendam esta mulher!", acrescentou, apontando para ela. Os homens permaneciam ali. Havia uma grande tensão no ar, com todos os homens claramente sem saber o que fazer. Krohn rosnava, posicionando-se entre Gwen e Mardig. Steffen pôs a mão no punho - e Gwen sabia que não seria aprisionada sem uma luta. De repente, Gwendolyn ouviu um som, como uma flecha a zunir. Ela olhou e viu um dos homens do séquito de Mardig, com o rosto congelado em estado de choque, com uma seta na garganta. Seguiu-se um estrondoso grito de batalha, uma comoção como se fosse uma centena de trovões - e, de repente, o caos estava instalado. Gwen virou-se e ficou absolutamente chocada ao ver a plataforma a subir do outro lado do Cume e dezenas de soldados a aparecerem, vestidos com as armaduras negras do Império. Mal colocaram os pés no chão, dezenas de outros homens apareceram, escalando pelos lados da plataforma com ganchos fixantes. Todos soltaram um grito, sacaram as suas espadas e avançaram na direção dos cavaleiros dela. Mal tinham começado quando dezenas de outros soldados apareceram por trás deles – em ondas

consecutivas. Gwen viu os seus cavaleiros ali, atordoados; claramente, eles não estavam à espera daquilo. Como poderiam? Nunca, nem uma vez, na sua história tinham sido invadidos. "AO ATAQUE!", gritou Gwen, agitando-os para fora do seu estado letárgico e levando-os para a frente, enquanto desembainhava a sua espada, para enfrentar os atacantes. As trombetas soaram, com mais urgência agora, e os cavaleiros dela responderam ao seu comando, despertando e apressando-se para deter os invasores. Seguiu-se um grande confronto de armaduras. Era uma guerra sem tréguas, feroz, sangrenta, batalha corpo-a-lado. Os homens lutavam com espadas e escudos, machados e martelos, derrubando-se uns aos outros por todos os lados. Gwen arremessou uma lança, matando um soldado feroz antes que ele conseguisse levar um machado para baixo na direção da sua cabeça. Depois, ela ergueu o seu escudo quando um outro soldado avançou para ela com um martelo. A força do golpe fez com que o seu braço tremesse e fê-la cair de joelhos, e, quando o seu atacante levantou o martelo novamente, ela pensou que não conseguiria resistir a mais um golpe. Ouviu-se um rosnado. Gwen olhou e viu com gratidão Krohn a avançar para atacar, saltar para o ar, e grampear as suas mandíbulas no pescoço do atacante, atirando-o para o chão de costas. Assim que Gwen conseguiu recuperar, outro soldado apareceu, levantando uma espada e baixando-a na direção do seu rosto. Ela preparou-se, incapaz de bloqueá-la a tempo – ouvindo-se novamente o ressoar do metal. Ela desviou-se a rebolar viu, com gratidão, que Steffen a tinha bloqueado com a sua espada, poupando-a do golpe fatal. Steffen, em seguida, oscilou a sua espada ao redor e cortou as pernas do soldado. A batalha continuava para trás e para a frente, com os cavaleiros atordoados do Cume lentamente a ultrapassarem o choque e lutando pelas suas vidas. "LUTEM PELA VOSSA PÁTRIA!", gritou Ruth. Ruth lutava com mais ferocidade do que a maioria dos homens, e ela liderava um contingente de cavaleiros à medida que eles golpeavam através da multidão, balançando e golpeado por todos os lados, derrubando atacantes. Ela não parava de golpear, avançando pelas suas fileiras como um turbilhão, até que chegou ao último soldado, que tinha acabado de subir a falésia, e deu-lhe um pontapé com força – atirando o primeiro soldado do Império, a gritar, de volta pela encosta por onde tinha vindo. Gwen, recuperando o fôlego, notou movimento pelo canto do olho. Ela voltou-se para o lado e viu Mardig a fugir. Ela mal podia acreditar nos seus olhos – ali ia ele, o cobarde, girando sem parar, com o pânico nos seus olhos, de volta para a segurança da encosta do Cume. Pior ainda, quando lá chegou, ele ficou sozinho com a única plataforma vazia, embarcando e preparando-se para descer sozinho, para escapar. "DETENHAM-NO!", gritou Gwen. Vários dos seus soldados viraram-se para persegui-lo - mas já era tarde demais. Ele já estava a baixar as cordas. Já fora de alcance, desceu rapidamente, sozinho, deixando-os a todos abandonados lá em cima e fugindo da batalha como o cobarde que ele era. Gwen estava cheia de ódio e aversão. Não havia nada que ela odiasse mais do que cobardia. Gwendolyn virou-se e procurou Argon, ansiando pela sua ajuda. Mas ele não estava em lado nenhum. De alguma forma, ele tinha desaparecido. Gwen percebeu que agora estava sozinha, e sozinha por uma razão - ela tinha de vencer aquela luta com os seus próprios méritos. Ela olhou para trás e viu os seus cavaleiros começarem a dominar a terra lá atrás, detendo a linha das fileiras do Império que escalavam as paredes como formigas. Ela examinou o campo de batalha e percebeu de imediato o seu ponto fraco: o Império estava a usar a plataforma, depositando um carrinho após o outro cheio de soldados, reforçando as suas fileiras. Ela sabia que eles tinham de colocar um fim àquilo.

"A PLATAFORMA!", exclamou Gwen. Ela preparou-se mentalmente, tirou de um cadáver uma espada sangrenta, e correu para o campo de batalha, levantando o seu escudo. Ela correu diretamente para o grosso dos homens, erguendo o escudo enquanto os soldados a atacavam por todos os lados. Krohn e Steffen acompanharam-na, protegendo-a de cada lado, e, graças a eles, ela lançou-se incólume através das fileiras, salva de vários hematomas e arranhões. Gwen finalmente aproximou-se do outro lado do planalto, dirigindo-se para a plataforma, chegando, mais uma vez, com mais soldados. Ruth viu o que ela estava a fazer e juntou-se a si com vários homens. Eles atacaram, lutando contra a nova safra de soldados, corpo-a-corpo, à medida que eles saíam da plataforma. Gwen sabia que aquela era a sua oportunidade. Enquanto estavam todos distraídos, ela tinha de acabar com aquela plataforma que lhes trazia mais soldados a cada segundo. Gwen avançou de forma imprudente, sem querer saber das consequências, renunciando à proteção dos outros. Um ataque terrível de uma espada arrancou-lhe o escudo mão e feriu-lhe o pulso; ainda assim ela continuou a correr. Outro soldado dirigiu-se a ela, golpeando. Ela esquivou-se - mas não sem antes ele lhe dar um golpe no braço. Ela gritou de dor, mas continuou a correr, agarrando a ferida para estancar o sangramento. Gwen correu obstinada até à plataforma. Depois, num último movimento desesperado, ela levantou a espada, saltou para a frente e cortou as cordas. Ela teve um sentimento de satisfação ao cortar a corda. De seguida, ouviu-se o som da madeira a ranger, seguido do som da madeira a soltar-se da pedra e a cair pelo ar, como um meteoro prestes a bater na terra. Gwen avançou até a borda e olhou pela encosta, quase não acreditando no que tinha acabado de fazer. Ela viu a plataforma a cair pela encosta abaixo, ainda cheia de dezenas de soldados do Império, todos eles a gritar. Caiu como um pedregulho, aterrando com um estrondo, matando dezenas de homens quando caiu sobre eles, esmagando-os. Ao princípio Gwen ficou exultante, sentindo que ela tinha feito uma diferença enorme na batalha; mas, em seguida, ali de pé, respirando com dificuldade, ela olhou por cima da beira do precipício e viu exatamente onde a plataforma tinha aterrado, o que estava lá em baixo - e o seu coração parou. Ali, espalhado lá em baixo, tanto quanto os olhos conseguiam ver, estava o maior exército, a maior força de homens reunidos, que ela alguma vez já tinha visto. Estendia-se até ao horizonte em todas as direções. Era um mar preto de multidão. Ela nem conseguia ver o chão. Deviam lá estar um milhão de homens. Talvez mais. E quando ela se inclinou para trás e olhou por cima dos penhascos, olhou pelo íngreme Cume abaixo, ela viu outros milhares, tudo preto, a escalar com ganchos um passo de cada vez, a escalar os penhascos e espalhando-se sobre a pedra como hera. Era um exército em movimento, todos a subir para os matar. Era imparável. Sem limites. Gwen percebia agora o que estava a acontecer: o Império, com tantos homens à sua disposição, poderia dar-se ao luxo de usar aqueles homens como forragem. Eles nunca iriam parar. Se morressem mil, eles simplesmente enviavam outros mil. Estes homens eram dispensáveis. Gwen percebeu imediatamente, com um buraco que se aprofundava no seu estômago, que aquela era uma batalha que nunca conseguiria ganhar. Ainda assim, isso não significava que ela fosse desistir. Ela era filha do seu pai, e ela nunca o tinha visto recuar de uma batalha. Gwen observou ainda outro saldado a subir o Cume, fazendo-se puxar para cima na sua corda, e, ao fazê-lo, ela foi a primeira a avançar, erguendo a sua bota e pontapeando-o no peito, atirando-o para trás, a cair, a agitar-se, na direção do seu exército a uma centena de pés lá em baixo. Ao redor dela, os seus homens seguiam o seu exemplo, encontrando inspiração na sua liderança. Às

suas fileiras juntaram-se Steffen e Ruth e as suas dezenas de cavaleiros, mesmo Krohn, todos a lutar para chegar mesmo à beira do penhasco. Quando o conseguiam, pontapeavam, esfaqueavam e davam socos nos homens atirando-os lá de cima. Alguns dos homens dela erguiam pedras e atiravam-nas, esmagando o crânio dos homens que subiam o cume, enquanto outros atiravam lanças. Gwen encontrou um arco descartado, fez mira e disparou várias setas pelo penhasco abaixo, derrubando dezenas de outros. Eles faziam recuar fileiras de soldados do Império - mas também deixavam os seus flancos expostos aos soldados que já tinham conseguido subir até ao cume. Gwen gritou quando um soldado do Império golpeou o seu outro braço. Ela virou para ele quando ele estava prestes a esfaqueá-la no peito e, em seguida, Krohn saltou para frente e afundou as suas presas no pulso do homem, cortando-lhe a mão. Ao redor dela, no entanto, os seus homens não tiveram tanta sorte, e muitos caíram, esfaqueados por trás, enquanto lutavam contra as fileiras de novos soldados que se aproximavam. Tal deixava aberturas para que muitos soldados do Império conseguissem escalar e subir com sucesso para o planalto, juntando-se às suas fileiras. Por toda a parte, Gwen via ganchos fixantes a surgirem ao longo da beira, escavados na rocha, lançados lá de baixo por setas, do outro lado do cume. Dezenas de ganchos pousavam a cada momento que passava. Os soldados do Império, uns atrás dos outros, escalavam o seu caminho. Os homens de Gwen lutaram gloriosamente durante horas, não recuando, matando mais homens do que exércitos poderiam, atirando milhares de soldados do Império para trás sobre a beira dos penhascos. Mas, mesmo assim, eles eram apenas humanos, e começaram a ficar cansados sob os sóis, esgotados pelas frescas fileiras do Império. As fileiras dos cavaleiros do Cume de Gwen começaram a encolher – e as suas fileiras eram muito mais preciosas do que as do Império. Uma dúzia dos seus homens caíram - e isso transformou-se em duas dúzias e, depois em três. A luta continuava sem parar, com centenas de soldados do Império a serem derrubados, a morrerem, sendo empurrado para trás - mas centenas de mais soldados continuavam a aparecer por detrás deles. Gwen lutou até as costelas lhe doerem por tentar recuperar o fôlego – mas havia sempre mais homens. Eles eram como uma maré que não podia ser interrompida. Mais soldados do Império avançavam, escalando os penhascos, assumindo o planalto e começando a empurrar os homens dela ainda mais para trás na plataforma, na direção da encosta do Cume. Em pouco tempo, tantos soldados do Império haviam escalado do seu lado que Gwen e os seus homens já não conseguiam mais chegar à beira distante, já não tendo mais a vantagem de os conseguir pontapear quando eles chegavam ou lutar, atirando-os para baixo. Quanto mais ficavam afastados da beira – ao princípio cinco pés, depois dez, depois vinte e depois trinta – tanto que, em pouco tempo, estavam a metade do caminho, Gwen e os seus homens rastejavam para trás na direção da sua própria beira, da sua própria queda, da sua própria morte. Gwen, com o coração a bater, suando sob os sóis que se desvaneciam, apercebeu-se que estava a perder. Ao redor dela, cada vez mais homens dos seus caíam, com o preto do Império a encher o mundo. A plataforma estava escorregadia, vermelha do sangue que corria e eles estavam a perder. Um soldado deu um pontapé a Krohn, fazendo-o cair, fazendo-o gemer, enquanto Steffen ficou preso a lutar com dois soldados ao mesmo tempo. Isso deixou Gwen sozinha. Ela ergueu o escudo e bloqueou um golpe feroz de um enorme soldado do Império, mas foi tão forte que ela perdeu o escudo. Ele era tão rápido. Ele avançou e pontapeou-a no peito, e a sua bota enorme atirou-a pelos ares, sem fôlego, caindo de costas sobre na dura rocha. Ela sentiu como se as suas costelas estivessem partidas. Gwen olhou para cima e viu-o de pé sobre ela, franzindo a testa, erguendo a sua espada, prestes a matá-la. Ao trazer a sua espada para baixo, Gwen viu a sua vida em retrospetiva. Ela sabia que estava prestes a morrer. Ela viu o rosto do seu pai, pedindo-lhe para continuar, pedindo-lhe para ser forte. E ela ainda

não estava pronta para morrer. Gwen levantou o pé e no último segundo, pontapeou com força o soldado entre as pernas. Ele gemeu e deixou cair a espada, e ela levantou-se num ápice e agarrou-o pela parte de trás da cabeça, dando-lhe uma joelhada no rosto. Ele caiu para o lado, imóvel, e Gwen sentiu-se renascer. Ela ainda não estava acabada. Só então, Gwen persentiu movimento pelo canto do olho. Virou-se, demasiado tarde, e viu uma espada a vir na direção do seu rosto. Ela preparou-se para o golpe - quando, de repente, ouviu-se um distintivo ressoar de uma espada a parar a outra, apenas a polegadas do seu rosto. Gwen olhou e ficou chocada ao ver, a poucos pés de distância, Kendrick, bloqueando o golpe, girando a espada ao redor, e, de seguida, esfaqueando o soldado no coração. Ela olhou e viu que ele tinha acabado de chegar pela encosta do Cume - juntamente com ele, Brandt, Atme, Koldo, Ludvig e Kaden. "Têm de recuar!", gritou Kendrick. "Todos vocês! Não há tempo! Venham connosco!" Gwen assistiu em choque quando Kendrick e os outros se lançaram à batalha com uma nova força, bloqueando e golpeando, poupando muitos dos homens dela e empurrando dezenas de soldados do Império para trás. Eles trouxeram uma nova energia para a batalha, permitindo que os homens dela recuperassem o fôlego - e mais importante, ficassem revigorados. Gwen ficou muito feliz e aliviada por vê-los de volta do Desperdício, por saber que eles ainda estavam vivos. Gwendolyn ouviu um grito. Virou-se e viu horrorizada que o primeiro dos seus próprios homens tinha sido empurrado para trás, sobre o lado deles do cume, arremessado para a sua morte. Agora restavam apenas alguns pés entre as pessoas dela e a beira, e o tempo deles estava a acabar. "Temos de evacuar!", gritou Kendrick. "Nós temos de ir, Gwendolyn! Não podemos vencer aqui em cima!" "Nós não podemos!", gritou Gwendolyn. "Eu prometi ao Rei defender o Cume e o seu povo!" "Não podemos defendê-los aqui em cima!", gritou Koldo. "Já não é defensável!" Gwen sabia que eles estavam certos, e, por fim, assentiu. "HOMENS, TEMOS DE NOS RETIRAR!", gritou Koldo aos cavaleiros do seu pai. Gwen via todos a olharem para ele com grande respeito. Ela estava aliviada por ele estar ali, para conduzir os homens do Cume na batalha, tal como o seu pai teria desejado. Imediatamente, os homens dele começaram a mobilizar-se. A sua presença por si só inspirava-os, e, ao recuarem lentamente, um passo de cada vez, fizeram um esforço fantástico, lutando com energia renovada, derrubando soldados por todos os lados. Eles lutavam gloriosamente, matando dezenas, reunindo quando as trombetas soavam à sua volta. Ao recuarem e chegarem praticamente à beira do penhasco, Gwen viu que já não havia plataforma Mardig tinha-a conquistado, tinha-os deixado a todos sem meios de volta para baixo. Tudo o que restava eram as cordas, ainda pendurada nas vigas que as seguravam. Ela olhou para baixo e viu-as a balançar, suspensas centenas de pés. "SALTAR!", ordenou Koldo. À volta dela, os homens deles viraram-se e saltaram, agarrando as cordas, deslizando por todo o caminho abaixo, para longe, muito longe, centenas de pés abaixo. Gwen baixou-se e apanhou Krohn. E então ela ficou ali, hesitando. "TEM DE SER, minha senhora!", gritou Kendrick. De repente, ela sentiu o braço forte de Kendrick à volta da sua cintura, e ele saltou. Quando ela deu por isso eles estavam a voar pelo ar, através do Cume, em queda livre, agitando-se, desejando uma corda, uma corda de salvação final antes de caírem no esquecimento.

CAPÍTULO TRINTA Thorgrin corria pelo ar nas costas de Lycoples, agarrando as suas escamas, incitando-a a avançar, e, pela primeira vez em muito tempo, sentia-se vivo novamente. Ele sentiu-se orientado por um objetivo, libertado da Terra das Trevas, sabendo que Lycoples o estava a levar para a Terra do Anel, sabendo que em breve ele teria uma oportunidade de encontrar o objeto sagrado que poderia mudar o destino da humanidade para sempre. Thorgrin conseguia sentir a emoção no corpo do dragão, aquele animal antigo que carregava o sangue de Ralibar e Mycoples, cujo poder antigo dizia-lhe a ela exatamente para onde ir. Eles voavam, passando sobre vastas extensões de mar, sentindo-se como se estivessem a voar para o fim do mundo. Thor sentia o poder de Lycoples a percorrê-lo, e ele sentia a sua própria pele com formigueiro, sabendo, que a cada nuvem que passava iam ficando cada vez mais perto do lugar que lhe cederia a ele o Anel do Feiticeiro. Thor sabia que não seria fácil; ele sabia que o que estava diante de si ia ser o maior teste da sua vida. A sua cabeça girava ao pensar nisso. O Anel do Feiticeiro. O único necessário para recuperar o Anel para sempre. O anel que, só ele, o escolhido, poderia usar. E ainda assim ele sabia que viria com um preço. Ele sabia que ia ser fortemente guardado, e ele rezou para que estivesse ao nível do teste. Ele também sabia que, de alguma forma, encontrar aquele anel aumentaria o seu poder, seria o seu julgamento final para se tornar um Mestre Druida. Para se tornar o Rei dos Druidas. Thor fechou os olhos enquanto continuava a andar, respirou fundo, e imaginou o rosto da sua mãe. Ele conseguia senti-la consigo e sabia que iria precisar dos seus poderes, da sua ajuda, para ajudá-lo a passar por aquela situação. Lycoples guinchou, acordando Thor dos seus pensamentos, e quando mergulhou para fora das nuvens, Thor olhou para baixo e ficou impressionado com o que viu: lá em baixo, no meio de um mar de nuvens, ele viu uma série de penhascos, formando um círculo. As suas paredes eram irregulares, projetando-se para o ar, mas no seu topo estava um círculo estreito e regular, como o lábio de um vulcão. Dali de cima, parecia um anel, talvez com uma milha de diâmetro, com névoa, nevoeiro e nuvens no interior, e neblina ao redor. O passadiço circular no topo era estreito, suficientemente largo para Thorgrin e não muito mais. Thor percebeu imediatamente que aquele era o lugar que detinha o Anel. Era o cenário mais incomum que já havia visto. Thor persentiu que teria que caminhar ao longo dele, em círculo, em anel. Imediatamente, ele sentiu-se apreensivo. Que tipo de anel era aquele? Não havia nenhum sinal de um objeto sagrado, do Anel do Feiticeiro. Era apenas um anel de rochas emergindo das nuvens, com uma passagem estreita que serpenteava em torno de um grande e perfeito círculo, sem pessoas, sem destino, à vista. Thor não viu criaturas das quais se tivesse de defender, nenhum feiticeiro à sua espera para o cumprimentar. Ele não viu armas ou escudos, nem estruturas de qualquer tipo. Nada, para além daquele anel maciço massivo de rocha, tentando-o a aterrar lá em baixo e a percorrê-lo. Mas porquê? Porquê andar num círculo enorme? O que era aquele lugar? De súbito, Lycoples desceu a pique, guinchando, batendo as asas, apontando para a plataforma no topo da rocha, e Thor sabia que tinha encontrado o lugar. Ele sentiu o poder no ar, uma vibração que o percorria. Lentamente, despertou em Thor o pensamento de que aquele local era apenas parcialmente real - e que existia parcialmente existia noutra dimensão, nas profundezas dos canais da sua própria mente. De certa forma, era como a Terra dos Druidas, uma terra criada parcialmente pela sua própria mente. No entanto, era parcialmente real, também. Ele sentiu que estava a entrar num outro reino, um reino muito mais

perigoso do que a realidade. Era um reino de magia. Parecia uma armadilha. Iria ser necessário a sua maior batalha, ele sabia, porque ele não iria lutar contra um adversário de fora. Ele estaria a lutar pelo interior da sua mente. Ele estaria a lutar contra si mesmo. Lycoples pousou na borda da rocha e Thor rapidamente desmontou, de pé com receio sobre a estreita plataforma topo dos penhascos. Olhando em volta, ele viu os penhascos recortadas a desaparecer por entre as nuvens, e viu apenas nuvens no centro. A passagem era estreita – apenas alguns pés de largura - e ele sabia que se desse um passo errado em qualquer direção, cairia no nada para a eternidade. Thor virou-se para Lycoples. Ela olhou para ele, esticando o pescoço para a frente, olhando intensamente para ele. É aqui que eu te deixo, ele ouviu-a dizer na visão da sua mente. Esta é a viagem de um guerreiro. Uma viagem só para ti. Thor olhou para ela, sentindo profundamente apreensivo. "Velho amigo", disse Thor, "para onde vais?" Thor aproximou-se e tocou nas escamas do seu rosto, mas, quando o fez, ele ficou chocado ao ver que ela tinha desaparecido. Thorgrin virou-se, olhando ao redor, perguntando-se onde ela estava, perguntando-se o que aquele lugar era exatamente. Ali, ele sentia-se profundamente com medo, mais intenso do que em qualquer outro lugar onde já tivesse estado. O inimigo ali, ele sentiu, era invisível. Ele teria preferido enfrentar um covil de monstros, um Lorde do Sangue, até mesmo as portas do inferno, do que aquele lugar. Porque ele temia que aquele fosse um lugar que o faria confrontar-se a si próprio. "O teu treino está quase completo, jovem Thorgrin", a voz de Argon fez-se, de repente, ouvir. Thor rodopiou, chocado, procurando ao redor por Argon, mas não o viu em lugar nenhum. "Argon?", chamou Thor, com a sua voz a ecoar. "Onde estás?" "Eu estou em todos os lugares e em lugar nenhum", respondeu Argon. "A questão é: onde estás?" "Onde está o Anel?", gritou Thor. "Onde está o Anel do Feiticeiro?" Fez-se um longo silêncio e então, finalmente, a voz de Argon ecoou novamente. "O Anel só pode ser encontrado, só pode ser usado, por alguém que o merece. Aquele que se tornou um Mestre Druida. O Rei dos Druidas. Isso é o que significa ser Rei. Tens de passar o seu nível final, o seu teste final." "E o que é esse teste?", perguntou Thor. "Se conseguires ganhar", disse Argon: "se te conseguires derrotar a ti mesmo, então o Anel será teu." Thor franziu a testa. "Mas como é que eu me posso derrotar?", perguntou. Fez-se silêncio. Thor olhou ao redor, mas não se ouviu mais nenhum som. Havia apenas o som das nuvens, do vapor entrando e saindo no vento. De repente, ouviu-se um ruído de armas. Thor saltou, assustado. Ele girou, chocado ao ver um guerreiro a poucos metros de distância, aparecendo da névoa, de frente para ele. A sua armadura de prata brilhava no nevoeiro, e, quando aquele fino cavaleiro levantou a viseira, Thor ficou sem fôlego ao ver que estava diante de si próprio. Thor agarrou o punho da Espada dos Mortos, desembainhou-o lentamente e levantou o seu escudo. Em seguida preparou-se, quando o seu duplo avançou na sua direção. O seu duplo trouxe a sua espada para baixo, com um golpe destinado a matar. Thor ergueu a Espada dos Mortos e bloqueou, fazendo voar faíscas - e ele ficou surpreendido com o quão poderoso o golpe tinha sido. Thor ficou chocado ao ver que o seu duplo, também, empunhava a Espada dos Mortos. O seu duplo trouxe a sua espada ainda mais para baixo, quase tocando no seu pescoço, e Thor, a lutar, finalmente rodopiou e tirou-lhe a espada do caminho. Quando o fez, Thor perdeu o equilíbrio e parou antes de cair sobre a beira.

O duplo de Thor aproveitou-se disso e correu para a frente antes de Thor conseguir recuperar o equilíbrio, e pontapeou Thor nas costelas. Thor soltou um grito ao escorregar para fora da encosta e começar a deslizar pela rocha abaixo. Ele esticou o braço, agitando-se, conseguindo agarrar a beira com uma mão, e segurou-se, em suspensão. Ele olhou para trás e viu que estava prestes a escorregar para o nada. Thorgrin puxava-se para cima com toda a sua força, esforçando-se, quando o seu duplo apareceu diante de si e ergueu a espada, preparando-se para acabar com ele. Thor sabia que a sua vida estava em jogo e que tinha de agir rápido. Num movimento rápido, ele puxou-se para cima, balançou as pernas ao redor e, com toda a sua força, pontapeou o seu duplo por trás do joelho, fazendo-o cair. O seu duplo caiu para trás, para o lado das falésias, caindo pela névoa, com a sua armadura a tilintar sem parar, desaparecendo nas nuvens. Thorgrin ajoelhou-se ali, ofegante, esfregando as costelas onde tinha sido pontapeado. Tinha sido um confronto rápido, feroz e inesperado, e havia-o apanhado de surpresa. Teria ele realmente batido nele? Ele tinha batido em si mesmo? Thor olhou para a esquerda e para a direita, cauteloso, procurando mais inimigos, mas não havia nenhum. Ele levantou-se lentamente e ficou ali, sozinho, perplexo, sentindo instintivamente que, para encontrar as respostas que estava à procura, ele tinha de caminhar por aquele anel, caminhar pelo círculo completo. Completá-lo. Thor começou a caminhar, um passo de cada vez, entrando e saindo da névoa que lhe bloqueava a visão às vezes. Ele olhou para baixo, procurando por toda parte um anel, um qualquer objeto sagrado, mas não havia nenhum. Ele perguntou-se se iria encontrá-lo e onde é que ele poderia estar escondido. Thor caminhava, cauteloso, e ouviu um leve tinir de armaduras, cada vez mais forte. Espreitou pela névoa e ficou chocado ao ver vários outros duplos de si a avançarem para si, em fila indiana, erguendo, cada um, machados de batalha. Eles saíam da névoa. Thor sabia que não conseguia evitá-los - e que eles iriam provocar a luta da sua vida. Ao avançarem, Thor teve uma súbita perceção: ao tentar opor-se a eles, estava a opor-se a si próprio. Ele perderia. De repente, ele discerniu que aqueles duplos eram, em parte, uma criação sua. Aquele lugar era uma criação sua. Quanto mais poder ele lhes dotasse na sua mente, mais poder eles teriam. A única maneira de derrotá-los, ele percebeu, seria não os reconhecer. Não lhes dar poder. Para perceber que eles eram a sua própria criação - e para parar de criá-los. Assim, Thorgrin, em vez de atacar, em vez de defender, ficou muito quieto. Ele nem sequer os confrontou. Ele fechou os olhos e ficou muito quieto enquanto levantava as palmas das suas mãos para os lados, sentindo o calor a pulsar dentro delas. Na sua mente, ele tinha optado por criar uma realidade diferente: ele não via guerreiros hostis a atacarem-no; em vez disso, ele não via nada. Névoa. Silêncio. Ele via os guerreiros a cair pelo penhasco e a desaparecer para sempre. Ele substituía a violência pela paz, pela harmonia. Thor abriu os olhos, mas, sentindo o seu poder a incendiar-se dentro de si, ele deixou de se preparar quando o primeiro soldado se chegou ao pé dele, levando o machado para baixo na direção da sua cabeça. Ele sabia que era mais forte do que isso. Mais forte do que acreditar que o que estava diante dele era real. Thor forçou-se a ficar focado, centrado, e ver uma realidade diferente, até mesmo ao último segundo. Era o esforço mais difícil da sua vida uma vez que cada pedaço dele lhe gritava para se defender. Mas ele sabia que tinha de manter a sua mente forte. Ele sabia que, se a sua mente não fosse forte o suficiente, ele seria morto por aquele adversário. Thor ficou ali calmamente e a olhar fixamente, acreditando em si mesmo, no poder da sua mente, e, no último segundo, o seu duplo liderando o ataque inclinou-se para o lado e caiu do penhasco, caindo com um alto ressoar da armadura. Atrás dele, um por um, todos os outros duplos caíram, também,

desaparecendo pelo penhasco abaixo, no meio da névoa. Thor continuou a andar adiante corajosamente, e, ao circular pelo Anel, outras dezenas daqueles duplos apareciam da névoa. Mas Thor caminhava bem pelo meio em direção a eles, mantendo-se centrado, sentindo o calor nas palmas das mãos, tendo fé em si mesmo, dando um passo após o outro numa caminhada de fé, e os cavaleiros separavam-se, caindo em ambos os lados dos penhascos. Finalmente, eles pararam de aparecer. Finalmente, havia paz enquanto ele caminhava. Silêncio. Ele havia-os derrotado. Ele tinha-se derrotado a si próprio. Thor estava lentamente a perceber que o único poder que restava superar no universo era o poder da sua mente. Ele estava a começar a perceber que a maior fonte de poder no universo não estava do lado de fora algures, mas dentro de si mesmo. Era a fronteira final e a mais extraordinária, o bem infinito, que ele mal tinha começado a tocar. Era a coisa mais assustadora do mundo e a mais inspiradora. Thorgrin continuava a andar, indo sem medo adiante, a meio caminho ao redor do círculo. A névoa levantou. O sol começou a aparecer, com raios de luz a descerem sobre ele em escarlate, e quando o passadiço ficou iluminado, ele parou. Ele viu que, diante de si, havia um buraco no passadiço com cerca de vinte pés. Thorgrin percebeu que aquilo era também um teste. Era um teste de fé, fé para atravessar aquilo. Era a sua fé suficientemente forte? Era a sua crença em si mesmo, na sua mente, forte o suficiente? Era forte o suficiente para dar um passo para o nada? Thorgrin percebeu que precisava de ser. Isso era o que significava passar no teste final. Isso era o que significava dominar-se a si mesmo. Isso era o que significava tornar-se o Rei dos Druidas. E isso era o que era necessário para ser digno do Anel do Feiticeiro. Thorgrin fechou os olhos, respirou fundo, e caminhou para a frente. Deu o passo final, um passo fatal para fora da borda, para o nada. Ao fazê-lo, ele desejou imaginar um resultado diferente. Ele recusou-se a ver a si mesmo a cair. Em vez disso, ele viu-se parado no ar, a andar. A visualização de Thor tornou-se tão forte na sua mente que ele já não ficou surpreendido ao dar o passo fatídico no ar e sentir-se sobre o que parecia ser um terreno firme. Ele olhou para baixo e viu que era ar, névoa – e, no entanto, estava lá de pé. Thor continuou a andar no ar, atravessando o fosso, continuando em torno do anel, um pé após o outro, até, por fim, alcançar novamente pedra. Ele tinha conseguido. Ele continuou a andar, sentindo-se estimulado por um poder que nunca tinha sentido antes, um poder que o arrebatava completamente. Sentia-se mais forte do que nunca, não mais temendo qualquer adversário, mas sim dando-lhes as boas-vindas. Não mais temendo-se a si próprio – mas sim dando a si próprio as boas-vindas. E quando terminou de percorrer o círculo, ele sentiu que tinha completado, sentiu como se tivesse completado algo dentro de si mesmo. Finalmente, depois de todos aqueles anos, de todas aquelas batalhas e de todas aquelas conquistas, ele já não tinha medo. Finalmente, ele tinha uma fé suprema em si mesmo. De repente, a névoa levantou completamente e o sol rompeu, reluzente, num milhão de cores, como um arco-íris ao redor de Thorgrin. Ao permanecer no lugar onde tinha concluído o círculo, ele sentiu o mundo a abrir-se diante de si, percebendo que estava exatamente no lugar onde havia começado. Thor olhou ao longe e viu um passadiço, de repente, a surgir, uma passagem em arco feita de pedra, bifurcando-se para fora do círculo, curvando-se, levantando-se, cada vez mais alto, para fora da névoa. No final da mesma, estava um castelo feito de pedra, situado na ponta de um penhasco. Ele sentia o poder que emanava dele, mesmo a partir dali. Era o castelo que assombrava os seus sonhos desde que ele se conseguia lembrar. Parecia o castelo da sua mãe - mas diferente. Ele viu um objeto único a brilhar ao sol, a reluzir, esperando por ele diante da porta brilhante do

castelo. Ele sabia, ele simplesmente sabia, quando deu o primeiro passo, que, no final do passadiço, ao completar aquele caminho final do seu teste final, o Anel do Feiticeiro estaria à sua espera.

CAPÍTULO TRINTA E UM Darius abriu os olhos lentamente, com a sua cabeça lancinante. Olhou ao redor na escuridão, tentando orientar-se. Ele estava de bruços, com o rosto plantado um piso feito de madeira dura. Cheirava a água do oceano. O seu mundo balançava para cima e para baixo. Ele viu raios da luz do sol a entrar pelas ripas, e percebeu, repentinamente, que devia estar na parte inferior do convés de um navio. Darius tentou sentar-se, alarmado, mas ao mover os seus braços e pernas, ele sentiu-os restringidos por grossas algemas de ferro, com as correntes a rasparem na madeira. Com a sua cabeça a latejar, os olhos a doerem-lhe, mesmo sob a luz fraca, ele tentou sentar-se e pôr a cabeça entre as mãos, tentando entender onde estava. O que tinha acontecido. Era tão difícil lembrar-se. O ranger da madeira enchia o ar, e, enquanto o seu mundo balançava, lentamente, para cima e para baixo, Darius percebeu que estava no mar, nas enormes ondas do mar, a ser levado sabe Deus para onde. Ele era prisioneiro de alguém. Mas de quem? Darius ouvia gemidos a toda a sua volta e, ao olhar ao redor, lentamente ajustando-se à luz fraca, ele ficou surpreendido ao ver centenas de outros, como ele, acorrentados ao convés, com o barulho do suave rastejar das correntes a encher o ar. Ao tentar mover-se, para obter uma visão melhor, com o seu corpo desfeito em dores, ele percebeu que agora ele era um escravo - que eles eram todos escravos. Isso só poderia significar uma coisa: eles eram prisioneiros do Império. Darius coçou a cabeça e tentou pensar. De alguma forma, ele tinha acabado ali, nos porões daquele navio. De alguma forma, ele havia sido capturado. Darius fechou os olhos, tentando atenuar a dor, obrigando-se a lembrar. Ele viu o rosto do seu pai, lembrando-se de estar na arena... na capital do Império... do seu pai morrer nos seus braços... lembrouse, em choque, do seu ímpeto de poder, da sensação emocionante que Darius nunca iria esquecer. Ele lembrou-se de ter visto aqueles elefantes a serem lançados pelo ar, destruindo a arena... Lembrou-se de escapar, abrindo os portões da cidade, permitindo que os Cavaleiros dos Sete entrassem, para destruir a capital. Em seguida, ele próprio, a ser agredido. Darius esfregou o rosto, percebendo que tinha ficado inconsciente, acorrentado, durante a invasão da capital. Dado o tamanho daquele exército, porém, ele tinha sorte em estar vivo. Ele era um escravo outra vez, ironicamente. Um escravo do Império. Mas desta vez, um escravo dos Cavaleiros dos Sete. Mas para onde é que eles o estavam a levar? "ESCRAVOS! DE PÉ!", explodiu, de repente uma voz. O porão inundou-se com uma violenta luz solar do oceano quanto enormes portas de madeira foram subitamente abertas lá no alto, entrando dezenas de soldados do Império. Darius ouviu o estalo de um chicote e, de repente, saltou de dor ao sentir o açoite do chicote nas suas costas, sentindo como se a sua pele lhe tivesse sido arrancada. Ele virou-se e viu fileiras de soldados do Império a invadir o porão. Vários avançaram, ergueram espadas e baixaram-nas. Darius preparou-se, à espera de ser morto; mas em vez disso, ouviu um retinir e sentiu as suas algemas a serem cortadas. Umas mãos ásperas agarraram-no e colocaram-no de pé. Ele imediatamente sentiu-se fraco, com náuseas, tonturas, perguntando-se quando teria sido a última vez que tinha comido. Com um pontapé nas costas, Darius cambaleou para a frente, juntamente com centenas de outros prisioneiros. Dezenas de soldados escoltavam-nos duramente, levando-os para fora do porão escuro e para cima na direção da luz do andar superior. À medida que Darius cambaleava com os outros, ele lembrava-se do seu poder, tentando convocá-lo

novamente. Mas por alguma razão que ele não conseguia entender, ele não conseguia. Fosse o que fosse que ele tinha, tinha-o perdido mais uma vez. Ele percebeu que talvez precisasse de tempo para que ele recarregasse. Darius semicerrou os olhos e levou as mãos ao rosto ao tropeçar pelas escadas acima na direção da dura luz solar. Ele caiu no convés quando um soldado o empurrou e ele tropeçou sobre os outros. Outro soldado agarrou-o e levantou-o duramente. Ele olhou ao redor, tentando orientar-se. Examinou o navio e viu centenas de soldados do Império a patrulhar os conveses de um navio massivo de guerra, comandando centenas de galeotes acorrentados a bancos e forçados a remar. Dezenas de escravos estavam acorrentados a canhões ao longo do navio, enquanto outras dezenas eram forçadas a fazer o trabalho duro, esfregando as plataformas, içando as velas ou fazendo o que quer que os soldados, de chicotes na mão, ordenassem. Darius olhou ao longe, para além da amurada, e viu que aquele navio de guerra era apenas um pontinho numa vasta frota de navios de guerra do Império, milhares deles enchendo o horizonte, a navegarem todos juntos para algum lugar. Ele indagava-se para onde seria. "Move-te, escravo!", comandou um soldado do Império que, de seguida, lhe deu uma cotovelada nas costelas. Darius cambaleou para a frente com um grupo de escravos e deu por si a ser agarrado com força e levado até um banco cheio de escravos, todos caídos sobre os seus remos - nenhum deles se movia. Darius olhou atentamente e viu as chicotadas nas suas costas expostas, queimadas do sol, e questionou-se porque é que nenhum deles estava em movimento. Teriam adormecido a remar? A sua pergunta ficou respondida quando um soldado avançou, cortou as correntes uma a uma, agarrando-as e empurrando cada escravo para trás. Darius ficou chocado ao ver que todos caíram para trás, moles, de costas no convés. Mortos. Mais soldados chegaram-se à frente e içaram os cadáveres, um a um, levando-os depois para a amurada e atirando-os sobre a borda. Darius viu os corpos a respingar na água e viu as correntes a levarem-nos rapidamente. Antes de submergirem, ele viu vários tubarões a virem à superfície e a leválos subitamente, arrastando-os para o fundo. Darius olhou para o banco vazio, coberto de sangue, onde os escravos mortos ainda há pouco estavam sentados, com uma sensação de pavor. Ele perguntou-se quanto tempo é que eles haviam lá estado, quanto tempo é que eles haviam demorado a prepará-los para a morte. Antes de conseguir chegar a alguma conclusão, ele foi empurrado para baixo para um lugar vago e realgemado, com as suas correntes presas ao banco onde os escravos mortos tinham acabado de estar. Os seus pulsos estavam acorrentados aos remos, assim como os outros escravos acabados de se sentar ao lado dele. De repente, ele foi chicoteado nas costas, sentindo um rasgo terrível de dor a percorrer-lhe o corpo. "REMEM!", gritou um comandante. Todos os outros escravos começaram a remar. Darius juntou-se a eles, chicoteado esporadicamente e querendo fazer com que tudo aquilo acabasse. Ele sabia que um inferno tinha sido substituído por outro. Em breve, ele iria morrer ali. Darius olhou para o mar e estudou o horizonte, estudou o ângulo dos sóis, e percebeu que estavam a ir para leste. E, de repente ocorreu-lhe: aquilo apenas poderia significar uma coisa. Eles, aquela vasta frota, todo o Império, só poderia estar a ir para um lugar: O Anel. Uma guerra estava a chegar. A maior guerra de todos os tempos. E ele, Darius, a lutar pelo lado errado, ficaria encalhado precisamente no meio dela.

CAPÍTULO TRINTA E DOIS Gwendolyn gritava enquanto voava pelo ar, caindo pela encosta do Cume, tentando alcançar a corda suspensa à sua frente enquanto segurava Krohn com o seu outro braço. Gwen conseguiu agarrá-la por pouco. Kendrick agarrou a corda ao seu lado. Ela balançava freneticamente, agarrando-se à vida, com as palmas das mãos a queimarem quando ela começou a deslizar pela encosta do Cume abaixo a toda a velocidade. Krohn agarrava-se a ela com as suas patas. Ao redor dela, Gwen via os sobreviventes também a deslizarem pelas cordas, entre eles, Kendrick, Brandt, Atme, Koldo, Ludvig, Brandt, Atme, Kaden e Ruth, juntamente com dezenas de soldados do Cume, todos a descer a uma velocidade vertiginosa, tudo o que restava da força de combate que tinha marcado uma posição contra a invasão do Império. Eles desciam tão rapidamente que Gwen mal conseguia recuperar o fôlego. Ao olhar para baixo, ela viu que ainda lhes faltava descer centenas de pés. Ela estava otimista, quando, de repente, ouviu gritos ao seu redor. Gwen olhou e viu um dos seus homens a gritar, e ficou chocada ao ver uma flecha no ombro dele; ele largou a corda e caiu a pique, agitando-se, todo o caminho até à sua morte. Ela olhou para cima e viu os soldados do Império na beira dos penhascos, disparando setas para baixo na direção deles. Ela sentiu uma a zumbir ao passar perto da sua cabeça. Em seguida, ouviu outro grito e viu outro dos seus a cair várias centenas de pés, até à sua morte lá em baixo. Gwen começou a deslizar mais rapidamente. O seu coração batia com força quando as lanças eram, também, arremessadas para ela, estremecendo cada vez que elas falhavam por pouco, rezando para que nenhuma lhe acertasse. Os seus homens estavam a ser atingidos à sua volta, enquanto desciam. O seu contingente estava a diminuir. O seu estômago encolheu-se quando ela se obrigou a deslizar mais rapidamente, quase em queda livre. Ao aproximarem-se do fundo, ainda a uns bons cinquenta pés de distância, Gwen ouviu mais gritos. Ela olhou e viu que os soldados do Império estavam agora a cortar as cordas. Vários dos seus homens seguravam-se às cordas, agora inúteis, enquanto caíam para a morte. Gwen olhou para baixo e viu o chão a aproximar-se rapidamente, repleto de cadáveres. Ela agarrou a corda com força, tentando retardar a sua descida, apesar da dor nas mãos, não querendo partir as pernas. Ela começou a abrandar, e estava a cerca de 20 pés do fundo - quando, de repente, ela sentiu a sua corda a ser cortada. A corda perdeu toda a tensão. Gwen caiu, agitando-se juntamente com Krohn, diretamente para o chão. Ao fazê-lo, ela fez pontaria para um monte de cadáveres, esperando amortecer a sua queda. Gwen aterrou sobre os corpos, com o vento a bater-lhe, sentindo novamente como se tivesse partido as costelas. Ela caiu, rolando sobre eles e sobre o chão duro, provocando uma nuvem de poeira e pó, parando, por fim, de costas, com Krohn a gemer próximo de si. À sua volta ela via os outros a aterrar, também, com as suas armaduras e tinir enquanto rolavam. Gwendolyn lentamente colocou-se de gatas, sentindo como se as suas costelas estivessem partidas. Ela ajoelhou-se ali, respirando com dificuldade. Krohn aproximou-se e lambeu-lhe o rosto, e ela estendeu a mão e acariciou-o. De repente, uma lança pousou no chão ao lado de Gwen e, quando ela olhou para cima, viu que a chuva de armas não tinha cessado. Rapidamente ela levantou-se e começou a correr, para ajudar Kendrick e os outros a levantarem-se, para que corressem juntamente com ela. Lentamente, todos se reuniram, coxeando. Em seguida, correram, afastando-se para longe dos penhascos mortais. Doía-lhe deixar para trás tantos companheiros mortos, mas eles não tinham escolha. Gwen olhou e viu o lago diante deles. Ela e os outros correram para os barcos. Eles saltaram lá para

dentro, todos eles ainda cobertos de terra, acumulando-se em vários barcos e desembarcando. Todos eles começaram a remar, a distanciar-se dos penhascos e dos soldados do Império, alguns dos quais já estavam a começar a segui-los. Gwen olhou para a costa, viu barcos vazios, e, de repente, ela percebeu. "Esperem!", gritou Gwen. "Os outros barcos!" Kendrick, no barco mais próximo, virou-se com os outros e percebeu. Ele parou o seu barco, virou-o e levantou-se. Ele arremessou uma lança. Brandt, Atme, Koldo, Ludvig, Kaden e Ruth, que estavam ao seu lado, atiraram as suas lanças, também. Eles perfuraram os barcos, um de cada vez, e os seus soldados seguiram o exemplo; alguns arremessavam lanças, enquanto outros remavam junto aos barcos e empunhavam manguais, provocando-lhes buracos, até começarem a afundar. Gwen via com satisfação os barcos a afundarem. Eles viraram-se e todos remaram mais rápido, ganhando distância da costa, com as setas do Império a continuarem a cair na água ao redor deles. Em breve, porém, eles estavam a umas boas cem jardas da costa, e as setas e lanças inimigas caíam infrutiferamente na água por trás deles. Gwen virou-se e viu os soldados do Império já a chegarem à praia - mas ficavam ali, parados, vendo todos os barcos a afundarem-se. Pelo menos ela tinha conseguido algum tempo, o tempo suficiente, ela rezava, para reunir os sobreviventes na capital e para os tentar convencer a evacuar. No entanto, Gwen ainda não tinha nenhuma ideia para onde e como evacuar. Afinal, a cidade era cercada por aquele lago, e enquanto o mesmo dissuadia os atacantes, também fazia com que escapar fosse impossível. E mesmo se o fizessem, havia o Desperdício a seguir. Parecia impossível. Eles remavam sem parar. Krohn estava aos seus pés. A mente dela girava com retrospetivas da batalha. Gwen começou a ver a cidade capital do Cume, lá à frente. Ela conseguia ouvir o badalar dos sinos, conseguia ver as pessoas a andarem de um lado para o outro no porto, e ela percebeu que tinham pela frente um caminho difícil – e isso na hipótese de eles sobreviverem. Koldo remava ao lado dela, com Kendrick e os outros. Gwen virou-se para ele. "O teu pai em tempos pediu-me para ajudar a evacuar o seu povo", disse-lhe Gwen, "se esse dia alguma vez chegasse. Mas ele está morto agora e tu és o primogénito, o que te deixa no comando. Estas são as tuas pessoas. Eu não te quero tirar o lugar." Koldo olhava para ela, sério, com um olhar de respeito. "O meu pai era um grande homem", respondeu ele, "e eu respeito os seus desejos. Ele sabia que eras tu que devias levar-nos daqui para fora, e és tu que o deves fazer. Posso liderar os meus homens, e tu podes liderar as pessoas. Podemos liderar juntos." Gwendolyn assentiu, aliviada; ela tinha sempre respeitado muito Koldo. "E, assim, onde é que podemos ir?", perguntou ela. "O teu pai tinha uma rota em mente?" Koldo observou a costa quando eles se aproximaram, ficando mais perto da cidade, e suspirou. "Houve sempre um plano de fuga para o Cume", disse ele, "para o dia em que fôssemos descobertos. Aí reside um túnel, escondido debaixo do castelo. Passa por baixo de água, debaixo destes lagos, sob o próprio Cume, atravessando para o outro lado das falésias, na direção do Desperdício. A partir daí, seguiríamos para norte, através do Desperdício, para os rios, que vão dar, se não formos descobertos, ao mar aberto. A partir dai, é uma incógnita. Mas pelo menos conseguimos escapar – assumindo que conseguimos reunir todo o nosso povo a tempo. E assumindo que eles estão dispostos a isso." Gwendolyn assentiu, satisfeita com a ideia. "Mostra-me", disse ela. * Gwen correu através da caótica capital do Cume, com os sinos a tocar, as cornetas a soar, os seus

cidadãos a gritar, correndo em todas as direções. Era um pandemónio total. Uma vez que o Cume nunca tinha sido invadido antes, os seus cidadãos não tinham ideia do que fazer. Muitos estavam a apoderar-se de alimentos, levando-os com ambos os braços para casa, trancando as portas, trancando-se em suas casas. Gwen abanou a cabeça. Se eles realmente pensavam que algumas fechaduras simples poderiam manter fora o Império, eles não tinham ideia do que estava para vir para eles do outro lado do Cume. Gwen já tinha vislumbrado soldados do Império a atravessarem a água, nas duas barcaças improvisadas que tinham construído. Eles eram barcos lentos, largos, achatados, feitos de tábuas de madeira amarradas, carregando toneladas de soldados – porém, moviam-se, empurrados por longas varas, e, em breve, eles estariam ali. Tudo o que ela via ali no Cume seria, em pouco tempo, exterminado para sempre. Gwen continuou a correr, cruzando a cidade com Kendrick, Brandt, Atme, Koldo, Ludvig, Kaden, Ruth, Steffen e Krohn, todos eles se separando e tentando encurralar as pessoas para o castelo - abaixo do qual, Koldo lhe tinha dito, estava o túnel. Alguns dos cidadãos tinham-na ouvido - contudo Gwen ficou angustiada ao ver que a maioria não tinha. Eles ignoraram-na, alguns em negação, recusando-se a acreditar que o Cume seria alguma vez descoberto, invadido; enquanto outros pensavam que podiam defender-se ou esperar que acabasse. Outros, ainda, perderam toda a esperança, não vendo saída, ficando sentados onde estavam, nas ruas, recusando-se a ceder. As pessoas reagiam de forma muito diferente em tempos de aflição, Gwen percebeu, o que a deixava perplexa. Tendo terminado de encurralar um grupo de várias centenas de cidadãos, o melhor que conseguia fazer, Gwen levou-os para o castelo. Quando ela chegou à entrada, no entanto, e se encontrou com Kendrick e o seu grupo de cidadãos, ela parou à porta, lembrando-se. "O que é?", perguntou Kendrick. Gwen percebeu que ainda tinha uma missão antes de se poder ir embora. "Jasmine", explicou ela. Gwen sabia que iria encontrar Jasmine nas entranhas da biblioteca, alheia a tudo o que estava a acontecer ali; ela provavelmente não tinha ideia. Gwen não podia ir-se embora sem ela. "Eu volto", disse a Kendrick. Kendrick olhou para ela preocupado. "Onde vais? Não temos tempo." Gwen abanou a cabeça, apressando-se. "Há mais uma pessoa que eu preciso salvar." Gwen saiu a correr pelo pátio real, não tendo tempo para explicar, rompendo pelas ruas, com os olhos postos na biblioteca, correndo na sua direção. De repente, Gwen sentiu-se agarrada. Virou-se e viu um cidadão em pânico, um homem de grandes dimensões, o desespero no rosto, parando Gwendolyn e tentando tirar a bolsa das moedas para fora do seu cinto. Ele apontou-lhe um punhal e fez cara de mau, mostrando os dentes ausentes. "Dá-me o que tens antes de eu cortar a tua garganta!", ele ordenou. Gwen estava demasiado horrorizada para reagir, percebendo que tinha sido apanhada de surpresa, quando sentiu a lâmina pressionada contra ela. Um momento depois, ela ouviu um rosnar e Krohn apareceu, lançando-se sobre o homem e afundando os dentes no seu rosto. O homem gritava enquanto Krohn o imobilizava no chão, sacudindo-o até ele finalmente parar de se mover. Gwen acariciou as costas de Krohn que tinha o seu pelo ainda espetado. "Fico em dívida para contigo", disse ela, mais grata do que nunca. Gwen continuou a correr, com Krohn ao seu lado que tinha o sangue a escorrer-lhe das presas. Por fim, chegou a biblioteca real, entrando de rompante. Estava escuro, o que apanhou Gwen desprevenida. As preocupações do mundo ficavam lá fora. Estava

aparentemente pacífica. Uma parte de Gwen sentia que poderia simplesmente fechar as portas, esquecer as suas preocupações e fingir que o mundo exterior era pacífico. Mas ela sabia que era uma ilusão. Havia morte e guerra fora daquelas portas, mesmo que não se conseguisse ouvir ali dentro. E estava a ir na direção de todos. "Jasmine!", gritou ela. A sua voz ecoava nos corredores vazios daquele lugar solene. Gwen procurava pelos corredores, passando por todos os livros, e não via nenhum sinal dela. O seu coração momentaneamente agitou-se em pânico: e se ela não a encontrasse? "Jasmine!", gritou ela novamente, começando a correr pelos corredores. Ela não podia deixá-la para trás, custasse o que custasse. Mal tinha acabado de virar numa esquina quando, de repente, Gwen ficou de frente com Jasmine, que ficou ali a olhar para ela surpreendida com um livro na mão. "Eu ouvi-te", disse ela. "Eu estava a ler. Porque é que é esse pânico todo, de qualquer das formas? Eu estava no meio de um volume sobre… " Gwen agarrou o seu braço, virou-se e começou a correr com ela. "Não há tempo", ela disse, "nós estamos sob ataque." "Ataque?", repetiu Jasmine, com voz de surpreendida. Gwen continuou a correr, arrastando Jasmine com ela - quando Jasmine, de repente, afastou a mão de Gwen e correu para uma pilha de livros. "Onde vais!?", perguntou Gwen, exasperada. "Aqueles são os meus livros favoritos", gritou ela. "Eu não posso sair sem eles!" Gwen suspirou. "Esta é a tua vida", exclamou Gwen, exasperada. Jasmine ignorou-a, correndo pelo corredor, enquanto Gwen esperava impacientemente. Por fim, ela finalmente agarrou em dois pequenos livros encadernados em couro, virou-se e correu de volta. "Os livros são a minha vida", contrariou Jasmine, enquanto as duas se viraram e começaram novamente a correr. "Sinto muito", Jasmine acrescentou, enquanto corriam. "Mas eu preferia morrer do que ficar sem eles." Juntas, as duas estouraram para fora das portas da biblioteca e para as ruas luminosas, barulhentas e caóticas. Gwen viu o rosto de Jasmine esmorecer ao ver o caos ao seu redor. "O que aconteceu à minha cidade?", perguntou Jasmine. "Poderia um povo realmente estar assim com tanto medo?" Gwen agarrou na sua mão e as duas continuaram a correr, tecendo o seu caminho dentro e fora das multidões, com Krohn a acompanhá-las enquanto corriam em direção ao castelo. Quando se aproximaram dele, Gwen viu as suas portas maciças já meia fechadas, apenas mantidas abertas por Kendrick e Steffen, que estavam ali, a olhar ao longe, impacientemente à espera que elas regressassem. Os seus rostos iluminaram-se ao vê-la, e quando ela irrompeu pelas portas juntamente com Jasmine, eles rapidamente fecharam-nas, com uma pancada reverberante. Gwen deu por si numa enorme multidão de pessoas aglomeradas lá dentro. Ela atravessou a multidão e reuniu-se com Koldo nos enormes corredores do castelo. "Eu achei que não ias conseguir", Koldo sorriu. "Não poderíamos ter esperado muito mais tempo." Gwen sorriu de volta. "Nem eu queria que o fizesses", respondeu ela. "Onde está a Mãe?", perguntou Jasmine a Koldo. Koldo olhou para ela e piscou, como se tivesse acabado de se aperceber. Gwendolyn, também, de repente, lembrou-se da rainha, ficando em pânico. "Nós não nos podemos ir embora sem ela", declarou Jasmine. "Ela deve estar no seu quarto. Ela nunca

iria sair do seu quarto, especialmente em tempos de aflição." Jasmine, de repente, virou-se, correu desenfreadamente pelo meio da multidão, dirigindo-se para a grande escadaria. "Jasmine!", gritou Koldo. Mas ela já se tinha ido embora. Gwen sabia que não podia deixá-la, nem à Rainha, e, sem pensar, ela foi atrás dela – com Krohn atrás de si. Gwen corria desenfreadamente pelos degraus de mármore acima, três de uma vez, contorcendo-se por corredores a fora, até que finalmente irromperam, sem fôlego, na câmara da Rainha. De início, Gwen ficou surpreendida ao ver que ninguém estava de guarda, a porta entreaberta - mas, depois, ela percebeu que não devia estar: já toda a gente tinha evacuado naquele momento. Gwen ficou chocada ao entrar e encontrar a rainha ali, com a sua filha ao seu colo, emocionada, à janela, acariciando-lhe os cabelos. A Rainha tinha lágrimas nos olhos. "Mãe!", disse Jasmine. "Minha Rainha!", entrou Gwen na conversa. "Tens de vir agora! O Império avança!" Mas a Rainha limitou-se a ficar a li sentada, enquanto elas avançaram para si. "O meu marido", disse ela, suavemente, com uma voz cheia de tristeza. "Ele está morto. Morto pela mão do meu filho." Gwen sentiu a sua dor, entendendo demasiado bem, de uma Rainha para outra. "Sinto muito", disse Gwen. "Sinto, realmente. Mas deves vir connosco agora. Vais morrer aqui." Mas a Rainha apenas abanou a cabeça. "Esta é a minha casa", ela respondeu. "Este é o lugar onde o meu marido morreu. E é aqui que eu vou morrer." Gwen ficou ali, chocada. No entanto, estranhamente, ela compreendeu. Aquela era a única casa que a Rainha havia conhecido, e, com o corpo do seu marido ali, ela não conseguia continuar. "Mãe!", Jasmine gritou, agarrando o seu braço, inconsolável. Mas a sua mãe limitou-se a olhar para ela, sem expressão. "Não há vida para mim sem o meu marido", disse ela. "Esta era a minha vida. Era boa. Vão em frente sem mim. Salvem-se." "Mãe", disse Jasmine a chorar, abraçando-a com força. "Não podes!" A Rainha abraçou-a também, enquanto acariciava o cabelo da sua outra filha, e chorava enquanto o fazia. "Vai em frente, Jasmine. Eu amo-te. Fica com Gwendolyn. Ela vai ser uma mãe para ti agora." Jasmine gritou, segurando a sua mãe, não a querendo largar. Ela até deixou cair os livros para segurála. Finalmente, porém, a Rainha sacudiu-a e colocou os seus livros de volta nas suas mãos. "Leva os teus livros. Vai com Gwendolyn. E lembra-te de mim. Lembra-te deste lugar não pelo que ele é agora, mas pelo que era. Vai!", ordenou ela com firmeza. Jasmine, devastada, permanecia ali. Gwen adiantou-se e agarrou-a pelo braço. Ela virou-se com ela e correu, depois de olhar pela última vez para a Rainha. Eles acenaram uma para a outra, Rainha para Rainha, e Gwendolyn, por muito que não o desejasse, compreendia. * Gwendolyn, a segurar a mão de Jasmine, correu desenfreadamente pelos corredores, com Krohn nos seus calcanhares, contorcendo-se e virando. Em seguida, desceu a correu vários degraus de cada vez, na esperança de alcançar os outros. Quando chegaram ao fundo ela viu que os principais corredores do

castelo estavam agora vazios, as pessoas já tinham ido através do castelo para o túnel. Gwen virou pelos corredores, ouvindo o seu barulho ao longe e correu para alcançá-los, com Krohn a correr com elas. Finalmente, ela e Jasmine alcançaram Kendrick, Steffen, Koldo e os outros cavaleiros, sozinhos com as várias centenas de exilados que restavam do Cume, todos eles a seguirem Koldo para uma vasta câmara, ao fundo de um longo corredor no castelo. "Mulheres e crianças primeiro!", gritou Koldo, como a multidão a pressionar para a frente, ansiosa, correndo para continuar. Ao longe, fora das muralhas do castelo, Gwen conseguia ouvir o caos nas ruas da cidade a agravar-se. Ela perguntava-se se o Império estaria a aproximar-se. Ela sabia que o seu tempo era curto. Vários dos homens de Koldo viraram manivelas e abriram uma porta de aço enorme, que rangeu, e as mulheres e crianças correram para a frente. Mas antes de conseguirem entrar, ali, de repente, apareceu um homem a correr pelo meio da multidão, passando por eles. Uma arfada espalhou-se através da multidão. Gwen ficou horrorizado ao ver que era Mardig, correndo apressado para chegar primeiro que todos dentro do túnel. Mardig passou por eles a correr, pela fenda da porta aberta – então, com a mesma rapidez, ele estendeu a mão e começou a puxar as portas, numa tentativa de fechá-los atrás dele e manter todos os outros presos do lado de fora. Gwen ficou indignada com a sua cobardia, com a sua crueldade, como todos os outros. Kendrick, mais próximo dele, foi o primeiro a reagir. Ele saltou para a frente, atirando-se por entre as portas antes que elas se fechassem, sabendo claramente que, se ele não o fizesse, as portas seriam fechadas para sempre, e que todos eles ficariam presos ali para morrer, deixando apenas que Mardig escapasse. Kendrick ficou entre as portas, mas elas estavam a fechar-se sobre ele, e, por um momento, parecia que ele seria esmagado. De repente, Krohn rosnou e correu para a frente, saltando pelo ar e atirando-se a Mardig, forçando-o a largar as portas. Os irmãos de Kendrick, seguidamente, aproximaram-se e ajudaram, todos a empurrar com força as portas para trás. Koldo aproximou-se, agarrou Mardig pela camisa e puxou-o para fora, atirando-o para o chão. Ele ficou ali, com as mãos para cima, a tremer. "Não me mates!", ele gritou, com a voz embargada. Koldo olhou para baixo com desdenho. "Tu não mereces a morte", ele respondeu. "Tu mereces pior." "Traíste-nos", disse Ludvig, em choque. "Os teus irmãos." Mardig olhou com desdém para eles. "Vocês nunca foram meus irmãos. Somos oriundos do mesmo pai - e isso é tudo. Isso não faz de ti meu irmão." "Ele matou o Rei", disse Gwen, dando um passo para a frente. Um arfar propagou-se através da multidão. Ela olhou para baixo para ele. "Diz-lhes", disse-lhe ela. "Diz-lhes o que fizeste." Mardig olhou de volta com desdém. "O que é que importa agora mais uma morte?", perguntou. Koldo, com desdém, deu um passo para frente e colocou a sua bota no peito de Mardig, olhando para ele com repugnância. "A morte seria algo demasiado bom para ti", ele fervia. "Tu querias poder, querias este castelo e deverias tê-lo. Deves ficar aqui neste castelo, enquanto todos nós nos vamos embora, enquanto o Império invade. Será teu – todo teu. Eles irão decidir o que fazer contigo", sorriu ele. "Estou certo de que eles

vão ter muitas ideias." Vários soldados aproximaram-se e levantaram Mardig, acorrentando-o a uma parede de pedra. Ele foi obrigado a ficar ali e a ver as portas de aço a abrirem-se mais, revelando uma escadaria de pedra, e as mulheres e crianças, agarrando tochas, a passarem, cada vez mais para o fundo. "NÃO!", gritou Mardig. "Vocês não me podem deixar aqui! Por favor!" Mas todos o ignoraram enquanto continuavam a entrar para dentro do túnel. Gwen esperou até o último deles entrar, com Kendrick, Steffen, Illepra e o seu bebé e os outros ao seu lado. Ela fez uma pausa, virou-se e olhou ao longe uma última vez para o castelo. O barulho era ensurdecedor agora, com o Império a irromper. Eles estavam nos seus portões e, em breve, Gwen sabia, tudo seria destruído. Ela partilhou um olhar com os outros, os últimos que restavam eram poucos. Todos eles assentiram solenemente uns aos outros e, então, todos eles entraram pelas portas de aço pouco antes de ela se fechar e trancar-se atrás deles. E a última coisa que ela ouviu, antes de as portas ficarem fechadas para sempre, foram os gritos de Mardig, ecoando pelo castelo vazio.

CAPÍTULO TRINTA E TRÊS Thorgrin caminhava lentamente até ao passadiço, com a névoa a evaporar-se à sua volta e o sol a romper com os seus raios a descerem. Um raio de luz iluminava-o enquanto ele caminhava – e ele olhava com admiração para o castelo à sua frente. As suas portas e janelas estavam cheias de luz, e, à sua porta, estava o Anel do Feiticeiro. Depois de ter completado o círculo, Thor sentia-se como um homem mudado. Pela primeira vez na sua vida, ele já não sentia necessidade de uma arma, percebendo que o poder que estava dentro dele era muito maior do que isso. Ele tinha dentro de si o poder de criar a realidade - e o poder de recusar a realidade que via. Ele tinha o poder de perceber que tudo e todos que ele via diante de si - amigos, inimigos, irmãos e adversários - eram criações da sua própria mente. Ele sabia que era nas profundezas da sua mente que estavam as terras mais poderosas. Enquanto caminhava no passadiço, ele sabia que era real – e, no entanto, ele também sabia que aquela terra estava dentro da sua própria mente. As paredes entre o que era real e o que estava na sua mente estavam a esbater-se - e, pela primeira vez, ele estava a aperceber-se o quão finas aquelas paredes eram. Eram dois lados da mesma moeda, intrincados um no outro. E a cada passo que dava, ele andava cada mais para as profundezas da sua própria mente, ele sabia, como um sonho acordado. Ao chegar ao fim do passadiço e olhar para cima, ele viu a sua mãe ali de pé, com os braços estendidos, sorrindo. Ele sentiu-se como se estivesse em casa. Ele sabia que tinha completado uma jornada sagrada, que estava pronto para o próximo e último nível. Ele percebia agora que a sua primeira viagem à Terra dos Druidas era apenas uma introdução, não uma conclusão; ele havia deixado algo inacabado. Desta vez, porém, era um retorno final. O retorno de um guerreiro vitorioso. Um guerreiro que se tinha dominado a si próprio. Thor parou diante do castelo enquanto terminava de atravessar o passadiço e ficou na plataforma de pedra, perto dela, perto do anel que estava aos pés dela. Ele parou e olhou. A luz que emanava dela era intensa e ele conseguia sentir o seu amor e aprovação. "Thorgrin, meu filho", disse ela, com uma voz que o colocou imediatamente à vontade. "Passaste todos os testes. Ganhaste para ti mesmo o que eu não te consegui dar." Ela estendeu os braços e ele chegou-se à frente e abraçou-a, e ela abraçou-o também. Ele sentiu o poder do mundo a percorrê-lo. Quando ele deu um passo trás e olhou para ela, ela sorriu para baixo. "Quando eu te vi pela primeira vez, eu queria tanto avisar-te de todos os perigos e tribulações que estavam perante ti", disse ela. "As perdas que irias sofrer, as vitórias que iria alcançar. Mas eu não podia. Era para que tu aprendesses e para que tu descobrisses." Ela respirou fundo. "Eu vi-te a alcançares o esplendor. Tu és um verdadeiro guerreiro. Compreendes agora o segredo?", perguntou ela. "Compreendes a essência do poder?" Thor pensava em tudo aquilo cuidadosamente, sentindo a resposta para o enigma. "A essência do poder está dentro de nós", ele respondeu. Ela acenou de volta em aprovação. "A essência do poder não está nas armas", continuou ele. "As armas requerem alguém para as criar - e o verdadeiro poder vem de dentro. O verdadeiro poder exige que não nos apoiemos em mais ninguém." Ela sorriu, com os olhos a brilhar, e assentiu. "Aprendeste mais do que aquilo que alguma vez eu te poderia ensinar", ela respondeu. "Agora, meu filho, estás pronto. Agora, tu és um mestre. Agora, tu és o Rei dos Druidas." Ela ergueu uma longa e fina espada de ouro, que brilhava ao sol. "Ajoelha-te", ordenou ela.

Thorgrin ajoelhou-se e baixou a cabeça diante dela, com o seu coração a bater com força. Ela baixou a ponta da espada, tocando cada um dos seus ombros levemente. "Agora levanta-te, Thorgrin", disse ela. "Levanta-te, Rei dos Druidas." Thor levantou novamente, e, ao fazê-lo, sentia-se diferente. Mais velho. Mais forte. Imparável, cheio de energia do mundo. Ela deu um passo para o lado e gesticulou. Os olhos de Thor arregalaram-se quando viu, deitado sobre um pequeno pedestal dourado atrás dela, o Anel do Feiticeiro. "Chegou o momento de completares o teu destino", disse ela, "e aceitar o anel que vai mudar a tua vida." Ela fez um gesto para ele dar um passo adiante. "É uma caminhada que consegues fazer sozinho", disse ela. "É um anel para ti, e apenas para ti." Thor deu um passo adiante, sem fôlego, ao se aproximar do Anel, apenas a alguns pés de distância. Uma luz brilhava dele, tão brilhante que, ao princípio, ele teve de levar as mãos aos olhos. Ao se aproximar, ele viu que era trabalhado num metal que ele não conseguia discernir, parecendo ser platina, riscado com um único e fino anel preto ao meio, parecendo ser feito de diamantes negros. Brilhava tão intensamente, que fazia com que o sol parecesse escuro. Thor parou diante dele e estendeu a mão trémula, temendo o poder que saia dele, sentindo que usá-lo mudaria a sua vida para sempre. "Deves usá-lo na tua mão direita, Thorgrin", disse-lhe a sua mãe. "No teu dedo indicador." Thorgrin estendeu a mão e colocou-o sobre o seu dedo. Assim que o Anel tocou na sua mão, ele sentiu-se vivo, verdadeiramente vivo, pela primeira vez. Ele sentiu um tremendo calor a derramar do Anel, através do seu dedo, das suas veias, do seu braço, do seu ombro, espalhando-se através do seu peito, até ao seu coração. Era como se um calor o estivesse a preencher, um fogo nas suas veias, um poder que ele não reconhecia. Era como a energia do sol, a enchêlo até ao máximo da sua capacidade, fazendo-o sentir-se tão poderoso, fazendo-o sentir-se como se ele pudesse levantar o céu. Era como o poder de mil dragões. A sua mãe olhava para ele, e ele podia ver no seu rosto que ela o vi-a de forma diferente. Ele próprio o sabia: ele era diferente agora. Ele já não se sentia como um rapaz, ou mesmo como um homem. Sentiase maior do que um cavaleiro, maior do que um guerreiro, maior do que um Druida. Sentia-se como um mestre. Sentia-se como um rei. Sentia-se como o Rei dos Druidas. Ali, Thor sentia-se pronto para assumir o Lorde do Sangue. Ele sentia-se pronto para assumir todo o seu exército. "Tu és o escolhido, Thorgrin", disse a sua mãe. "O teu povo conta contigo agora. Cumpre com o teu destino. E cumpre com o deles também." Thorgrin aproximou-se para abraçá-la, mas, de repente, ela tinha desaparecido. Thor ficou ali, pestanejando, confuso, e, ao procurar ao redor, o castelo tinha desaparecido. O passadiço também. Em lugar disso, ele agora estava em cima de um penhasco solitário, vazio, na borda do mundo, na borda do nada, nada além de um mar de nuvens ao redor dele. Thor ouviu um guincho e viu Lycoples sentado a pouca distância dele, olhando para ele com os seus intensos olhos amarelos, esperando. Ela olhava para ele, para o anel no seu dedo, e ele conseguia ver o novo respeito nos seus olhos. Thor olhava de volta, sentindo o seu poder a par com o dela. Com um único salto, ele saltou para as costas dela, sentindo um poder igual ao do dragão - e ainda maior. "Vamos", ele ordenou, "e vamos recuperar o meu filho." Quando ela bateu as asas e levantou voo, Thor sentiu a emoção da batalha diante de si. Desta vez, ele

estava pronto. Finalmente, ele estava pronto.

CAPÍTULO TRINTA E QUATRO Reece estava na proa do navio, acompanhado por O'Connor, Elden, Indra, Matus, Angel e Selese, liderando os seus irmãos da Legião na ausência de Thor. Enquanto eles navegaram rumo a leste, ele concentrava-se no destino que estava diante deles: o Anel. Ele estava algures lá fora no horizonte, e, à medida que se aproximavam a cada momento, o seu coração batia mais depressa só de pensar nele. Finalmente, depois de todo aquele tempo afastado, ele estava a voltar para casa. Casa. Era uma palavra que tinha já há muito tempo perdido o seu significado. Reece sentia uma grande pressão para alcançar o Anel antes que fosse tarde demais. Ele sabia que Thorgrin voltaria, iria encontrá-los lá e precisaria da ajuda deles. Afinal de contas, o Anel ainda não estava de volta às mãos deles, e isso significava que eles estariam a ir para a batalha – na verdade, a maior batalha das suas vidas - da mesma forma que tinham ido quando o deixaram. Era provável que todo o Império caísse sobre o Anel, e Reece sabia que era provável que fosse uma batalha à qual eles não conseguiriam sobreviver - mesmo com Thorgrin e o seu dragão. E, ainda assim, o pensamento de lutar pela sua terra natal entusiasmava Reece, por muito desoladoras que fossem as probabilidades. A ideia de ter uma hipótese de habitá-la novamente, reconstruí-la, começar uma nova vida mais uma vez naquele lugar onde ele tinha sido criado, onde tinha todas as suas memórias, fazia-o sentir-se completo, fazia-o sentir-se novamente vivo. Mesmo se ele morresse na batalha, era uma causa pela qual ele ficaria feliz em dar a sua vida. Afinal, o que mais se poderia ter no mundo, se não se tivesse uma casa? Ao navegar, o navio parecia vazio sem Thorgrin, sem o seu dragão. Sentiam a falta da presença deles. Agora, todos confiavam a Reece a liderança, e ele sabia que iria ser difícil fazer um trabalho tão bom quanto o seu antecessor. Ele tinha sempre ido para as batalhas com o seu melhor amigo ao seu lado, e não tê-lo lá, fazia-o sentir-se mais sozinho. No entanto Selese estava ao lado dele, mal tendo saído de ao pé de si desde que ela se tinha juntado a eles no navio. Reece tinha-se acostumado a ela como uma presença constante, tão grato por ter tido uma segunda hipótese com ela. Os dois haviam navegado juntos por quase metade do mundo, desde que ela tinha emergido da Terra dos Mortos. Reece agora não conseguia imaginar a sua vida sem ela. Ele estava tão grato por a ter de volta, por ter uma oportunidade de corrigir os seus erros, por ter uma segunda oportunidade com ela no campo do amor. Reece virou-se e viu Selese a olhar para ele. Os olhos dela eram de um azul angelical, parecendo, mais do que nunca, ainda mais bonitos à luz da manhã. Ela olhou para ele, tão serena como sempre, uma qualidade etérea dela. Na verdade, desde que ela tinha deixado a Terra dos Mortos, era como se uma parte dela não estivesse realmente ali. Quando ela olhou para ele desta vez, os olhos dela lacrimejaram. Reece conseguia sentir uma intensidade especial no seu olhar; ele sentiu, imediatamente, que algo estava errado. "O que é, meu amor?", perguntou ele, preocupado, enquanto lhe segurava a mão. Ela olhou-o nos olhos. "Este tempo que tivemos juntos transformou a minha vida", disse ela, segurando a mão dele. Reece sentiu uma pontada de preocupação com as suas palavras, com a sua finalidade. "O que é que queres dizer?", perguntou ele, lutando para entender. "Foi-nos dada uma segunda oportunidade, não percebes?", disse ela. "Era suposto eu ter ficado lá em baixo, na Terra dos Mortos, e tu trouxeste-me de volta. O teu amor trouxe-me de volta." Ela fez uma pausa, e, no silêncio que se seguiu, ele perguntou-se onde é que ela estava a ir com aquela conversa. "Mas eu fiz um acordo", ela, por fim, continuou, "um preço que eu tinha de pagar. Eu sabia que não

suposto eu ficar contigo outra vez para sempre. Sempre foi suposto ser passageiro. Apenas uma oportunidade para retificarmos o que havíamos perdido." Reece olhou para ela, com o seu coração a bater com força, com uma sensação de mau agouro a aprofundar-se. "Do que é que estás a falar, meu amor?", perguntou ele. Ela olhou para o horizonte, e os seus olhos, tão claros, cheios de lágrimas, quase brilhavam. "O nosso tempo juntos chegou ao fim", disse ela, virando-se e olhando para ele, com os olhos a lacrimejar. Ela estendeu a mão e tocou no seu rosto, acariciando-o. A pele dela era tão macia. "Mas eu quero que tu saibas que eu sempre te amei", acrescentou ela, enquanto ele ficava destroçado. "E vou sempre amar-te. Eu vou sempre olhar por ti. E vou sempre estar contigo." Reece agarrou a mão dela com tanta força quanto conseguiu, não a querendo deixar ir. "Não te podes ir embora agora", suplicou ele, com uma onda de desespero a abater-se sobre si. "Não é justo. Eu não vou deixar que o faças.” Ele apertou ainda com mais força, tentando segurá-la, mas mesmo assim, ele sentiu a mão dela a escapar, a desaparecer, como se não restasse nada onde se agarrar. Ela sorriu por entre as lágrimas. "Nunca me podes deixar ir", disse ela. "Nem eu a ti. Ficaremos juntos para sempre." Selese inclinou-se e beijou-o, e ele beijou-a de volta. Ele sentia os seus próprios olhos a lacrimejar, enquanto sentia que ela se afastava dele. "Eu tenho de ir, meu amor", disse ela suavemente, a chorar. "A vida está a vir para ti. Uma nova vida. Mas para vir uma vida nova, às vezes, a morte deve vir primeiro." Selese afastou-se dele. Reece sentiu-a a escorregar por entre os dedos quando ela recuou até à amurada. Então ela gentilmente caiu para trás, por cima da amurada, para dentro de água. Estranhamente, Reece não ouviu nenhum respingar. "Selese!", gritou Reece. Reece correu para a amurada. Os outros, alarmados com a sua voz, correram para lá, também. Ele alcançou a amurada e olhou por cima, preparado para saltar atrás dela. Mas ele viu que ela já estava impossivelmente longe do navio, flutuando de costas, com os braços estendidos, um sorriso no rosto. Uma névoa passava, com cor de arco-íris, envolvendo-a, abraçando-a, obscurecendo-a. Momentos depois, ela desapareceu sob a superfície, e ele sabia, ele simplesmente sabia, que ela se tinha ido embora de ao pé de si para sempre. "SELESE!", gritou ele em agonia, agarrando-se à amurada com tanta força que os seus dedos ficaram brancos. Ele espreitou para a névoa, perguntando-se como é que o universo a podia levar para longe dele, e ao fazê-lo, ele ficou chocado ao ver outra coisa a surgir da névoa, flutuando em direção ao navio. Reece olhou duas vezes, perguntando-se se estava a ver bem. Vinda da névoa aproximava-se uma pequena embarcação, um pequeno barco com uma única vela, esfarrapada. Lá dentro estava um corpo, imóvel. A corrente transportou-o para fora da neblina e diretamente na direção do seu navio, até que, por fim, bateu contra o casco. Reece olhou, perplexo – e, ao fazê-lo, o seu coração parou de espanto. A morte traz a vida. A respiração de Reece ficou presa na sua garganta. Ele olhou para baixo e viu ali deitada, imóvel, uma mulher que ele, em tempos, tinha amado. Ali, sozinha no vasto mar, inconsciente, estava Stara.

CAPÍTULO TRINTA E CINCO Gwendolyn corria apressadamente pelo túnel com os outros, centenas deles que se movimentam através da escura e cavernosa passagem, a única luz lançada das tochas que saltavam nas mãos dos soldados. Gwen liderava o grupo, ao lado de Koldo, fugindo pela sua vida com o resto do Cume, liderando-os cada vez mais para o fundo de um túnel que ela apenas rezava que os levasse até à liberdade. Kendrick e os seus homens corriam ao lado dela, juntamente com Steffen e vários outros, Krohn aos seus calcanhares. Eles giravam e viravam pelo túnel sem fim. Vozes de medo ecoavam na escuridão e ela percebeu o quão perigoso aquilo era. Naquele preciso momento, ela e centenas de outros corriam bem por baixo dos lagos, num túnel que não era usado há séculos, que poderia desabar a qualquer momento. O túnel ecoava estranhamente com o som do caos, do pânico, das pessoas a fugir da sua terra natal na direção de uma obscuridade desconhecida, com nada mais do que tochas a iluminar o caminho, esperando que, de alguma forma, tal levasse à liberdade. E acima dos seus sons, ainda mais sinistro, estava o som distante de outra coisa: pancadas nas portas de metal. O Império estava a tentar atirá-las abaixo, para entrar, para segui-los. Eles batiam implacavelmente. Era como se batessem no coração de Gwen. Gwendolyn olhou para frente, não vendo nada para além de escuridão, perguntando-se se eles iriam escapar a tempo - ou se aquele túnel os levava mesmo para a liberdade. "Tens a certeza de que não está fechada?", perguntou ela a Koldo, que estava a correr ao lado dela. Ele abanou a cabeça tristemente. "Eu não tenho certeza de nada", respondeu ele sombriamente. "O túnel foi construído antes da época do meu pai. O meu pai nunca teve oportunidade de usá-lo. Nenhum de nós teve. É um caminho para escapar – e nós nunca tivemos de escapar." Gwen teve uma sensação de mau agouro. "Estás a dizer que pode levar à morte?", perguntou Kendrick. "Pode", respondeu ele. "Mas por detrás de nós, não te esqueças, está a morte certa." Continuaram todos a correr, acompanhando o seu ritmo. Ouviram um tremendo estrondo por detrás deles, ao longe, o suficiente para fazer Gwen saltar. Ecoava e crescia para fora das paredes, soando como se as portas de metal não só tivessem sido deitadas abaixo, mas também destruídas. Pior ainda, tal foi logo seguido por uma aclamação - a alegria de milhares de soldados em busca de sangue, pelo túnel adentro. Gwen ficou aterrorizada; ela sabia que eles haviam passado. Eles já se estavam a aproximar depressa. Ela conseguia ouvir as suas vozes, demasiado perto. Eles, afinal, tinham um exército profissional, tinham cavalos. Gwen, por outro lado, tinha uma enorme multidão de civis, difícil de controlar, movendo-se muito lentamente, apesar dos melhores esforços dela. Ao virarem outra esquina, Gwen esforçou-se para ver na escuridão – mas, ainda assim, não havia mais nada para além de mais túnel. "Devemos marcar uma posição e lutar!", gritou Koldo, agarrando na sua espada, com uma expressão de determinação. Mas Gwen estava igualmente determinada; ela já havia estado em evacuações antes. "Não!", ela respondeu. "Se lutarmos, vamos todos morrer aqui. Atrás de nós está a morte certa. À nossa frente encontra-se o único caminho para a liberdade.” Koldo parecia hesitante, deliberando. "Você és uma líder agora, Koldo", acrescentou. "Tu deves decidir como o teu pai decidiria - não como um guerreiro decidiria. Essas pessoas são tuas. Eles são da tua responsabilidade. Eles não têm o luxo de

decisões valentes. Tu deves pensar no bem geral. Não devemos parar." Ela conseguia ver que Koldo consentiria, embora infeliz. Atrás deles, o barulho das vozes do Império aumentava. "Só dou mais uma curva no túnel", disse ele. "Se a saída não aparecer, então vamos virar-nos e enfrentá-los. E vamos morrer como homens - não como cães virados de costas para eles." Gwendolyn corria juntamente com o grupo, o coração a bater com força, rezando para que ao virarem houvesse uma mudança no túnel, algo, qualquer sinal de esperança, à frente. Ela sabia que se eles parassem e lutassem contra o Império, iriam todos morrer ali, presos no subsolo. Ela não se importava de morrer - mas ela odiava ver todos aqueles inocentes a morrer, e ela sentia-se responsável por eles. Gwen era toda pela valentia; e, no entanto, ela sabia que os grandes líderes tinham de escolher as suas batalhas. Enquanto rainha, ela tinha estado nessa posição muitas vezes. Koldo podia ser um grande comandante, mas ele nunca tinha tido de pensar como um governante. E ser um governante, às vezes, era humilhante. Eles viraram a esquina. Gwen ofegava por ar, com os seus pulmões a matá-la, não tendo certeza quanto mais conseguiria ir. Ao fazerem-no, ela ficou aliviada ver, ao longe, um raio de luz. Mais à frente havia uma pequena abertura no túnel, que levava até ao chão do deserto. Estava apenas a cem jardas de distância. Koldo olhou para ela, e ela conseguia ver o alívio no seu rosto também. Ele acenou para ela com respeito. "Uma decisão sensata, minha senhora", admitiu ele. Com a cacofonia do Império a aumentar cada vez mais por detrás deles, eles correram para salvar as suas vidas, todos eles acelerando o ritmo na reta final, chegando rapidamente à saída. Gwen deu um passo para o lado com os outros guerreiros e deixou as mulheres e as crianças passarem, seguidos por todos os cidadãos. Quando todos já tinham passado, Gwen preparava-se para sair - quando Koldo levantou uma mão e fez um gesto. Gwen olhou para cima, seguiu o seu dedo e viu, no alto da parede, uma roda de ferro enorme, enferrujada com a idade. "Antes de irmos", disse Koldo, "porque é que não lhes deixamos um pequeno presente de despedida?" Gwen olhou para ele interrogativamente. "O que tens em mente?", perguntou ela. Ela ouviu um grito e olhou para trás por cima do ombro, ficando em pânico ao ver o exército do Império a virar a esquina, agora à vista e correndo diretamente na direção deles. "O túnel encontra-se por baixo dos lagos", disse ele, "e aquela roda abre as válvulas.” Ele olhava para ela com uma expressão séria. "Nós podemos inundar este lugar", acrescentou. Gwen olhou para a roda lá em cima em reverência. "Não vai mantê-los para trás para sempre", disse ele, "mas vai dar-nos tempo." Gwendolyn abanou a cabeça em aprovação, e, ao fazê-lo, os seus homens entraram em ação. Eles seguiram o exemplo de Koldo e uma dúzia dos seus melhores guerreiros, incluindo os irmãos de Koldo e Kendrick, saltaram para a roda, puxando a sua manivela de ferro enferrujado. Eles puxaram com toda a sua força e, ao princípio, nada aconteceu. Gwen virou-se e olhou com apreensão para o exército que se aproximava deles, agora a menos de cem jardas de distância. Em seguida, virou-se e olhou para trás para a saída do túnel. Uma parte dela queria deixá-la ali e correr para a liberdade - mas uma outra parte sabia que tinha que fazer aquilo para garantir a segurança deles. Os homens puxou novamente, esticando e gemendo com o esforço - e desta vez ouviu-se um rangido.

Gwen ficou entusiasmada ao ver as rodas começarem a mover-se. Ao princípio, moveu-se algumas polegadas – depois muitas mais. Os homens deram um puxão enorme, gritando, e, de repente, a roda girou num círculo completo. Ouviu-se o som de uma válvula de aço a abrir, seguido por água a correr. Gwen virou-se e viu, impressionada, a água começar a verter para fora a partir dos canos de cada lado da caverna. Os homens puxavam e viravam o volante, girando-o em vários círculos. De repente, a água saiu a jorrar, inundando o túnel. A água fazia barulho e crescia em todas as direções. Gwen puxou Koldo e Kendrick pelos braços percebendo que a sua saída deles em breve ficaria bloqueada. "JÁ CHEGA!", gritou ela. Eles viraram-se e correram com ela, esforçando-se para se levantarem e saírem do túnel, conseguindo por pouco chegar à saída enquanto o nível da água subia, e à medida que mais válvulas se abriam e água jorrava através delas. Lá fora, na segurança do Desperdício, com todos os outros sobreviventes, Gwen parou com os guerreiros na entrada do túnel e olhou para trás uma última vez. No interior, a água jorrava como um rio através do túnel, e os soldados do Império paravam, congelados de medo, virando-se para fugir. Mas era tarde demais. Os gritos deles aumentavam, ecoando, ao serem engolidos pela água como uma maré. Gwen virou-se e olhou para Koldo, Kendrick, e os outros, e eles olharam para ela, todos compartilhando um olhar de satisfação enquanto se viravam e montavam os seus cavalos com os outros. Começaram todos numa jornada para longe dali, para longe do Cume e algures para norte, em direção à liberdade. * Gwendolyn esporeou o seu cavalo, instando-o a ir mais rápido, animada com a visão diante de si ao atravessar com a grande multidão o Desperdício. Eles haviam cavalgado o dia todo, e agora, diante deles, estava a visão que Koldo prometera que viria: ali, no horizonte, estava os Lagos de Cristal, os lagos de água que se ramificavam para todos os rios do Império. Era um vasto corpo de água, quase translúcida, a brilhar, a refletir os sóis do deserto, e, agora, finalmente, estava a várias centenas de jardas de distância. Ela estava tão agradecida por isso; ela não sabia quanto mais tempo é que aquela multidão conseguiria ter tolerado o Desperdício. Gwen estava em êxtase com o quão meticulosamente o Rei tinha planeado aquela rota de fuga do Cume, preparado para uma contingência como aquela. Ela olhou ao longe e viu todos os navios no horizonte, escondidos nas margens por detrás dos galhos das árvores de salgueiro, e ela percebeu que o rei tinha planeado tudo. Ele sabia que não seria suficiente para o seu povo sair pelo túnel para o Desperdício. Ele sabia que, em caso de uma invasão, o seu povo teria de fugir para algum lugar distante, pelo Império. E aquelas dezenas de navios à beira da água representavam a tábua de salvação deles, os bilhetes de saída. Gwendolyn olhou para a vista com alívio; eles iriam finalmente ter uma forma de sair dali, de volta para fora do Império, para longe do Cume. Eles teriam navios e rios que os levariam para águas abertas, para o mar aberto, para uma hipótese de liberdade. Ela não podia deixar de pensar nas palavras do mestre de Argon, de ela liderar aquelas pessoas de volta para o Anel, e o seu coração acelerou com o pensamento. Estava tudo a acontecer. Parecia surreal. E a ideia de embarcar numa viagem para voltar para casa, depois de todo aquele tempo, deixava-a em êxtase. Preenchia-a com um novo propósito - especialmente se isso significasse uma oportunidade para se reunir com Thorgrin e Guwayne novamente. Eles pararam sob o arvoredo ao lado dos navios, eles e os seus cavalos sem fôlego. Os sóis, estavam

agora baixos no céu, e Gwen observava as centenas de pessoas a desmontarem dos cavalos, ajoelhandose para a água, lavando o rosto e pescoço, bebendo e fazendo o seu caminho para os navios, em reverência. Os navios permaneciam escondidos, tal como o Rei devia ter planejado no alto da sua sabedoria, perfeitamente abrigados atrás das árvores e em grandes cavernas cheias de água. A menos que se soubesse que eles estavam ali, eles nunca seriam encontrados. Havia dezenas de navios, as suficientes para transportar todas aquelas pessoas. Gwen sentia o Rei a olhar para baixo, e ela estava em êxtase com a sua capacidade de previsão. Gwen olhou para trás, para fora o Grande Desperdício, e pensou nos milhares de soldados do Império algures lá fora, certamente a persegui-los. Até então, tudo estava vazio e calmo, mas ela questionava-se quanto mais tempo demoraria até eles serem todos apanhados. Ela sabia que não havia muito tempo. "Achas que a inundação os matou a todos?", perguntou ela a Koldo que surgiu ao seu lado. Ele abanou a cabeça, olhando para trás com gravidade. "Aquelas válvulas apenas funcionam algum tempo", disse ele. "A primeira onda de água vai matar a linha de frente. Mas o resto vai conseguir passar em breve. Eles agora devem estar, provavelmente, do outro lado do Desperdício." "Mas eles não têm navios", disse Ludvig, aproximando-se deles. Koldo olhou para ele. "O Império é imparável", respondeu ele. "Eles vão encontrar uma forma. Eles têm um milhão de homens; eles têm ferramentas. Eles podem construir navios." Ele suspirou e estudou a paisagem. "Eles estão, talvez, a meio dia de distância de nós. Com um dia sem vento, sem as nossas velas do mastro cheias, eles conseguem apanhar-nos." "Então não há tempo a perder", disse Kendrick, juntando-se a eles e caminhando para os navios. Juntaram-se todos a ele. "Vamos cada um assumir o comando de um navio diferente", Koldo sugeriu, olhando para Gwen, Kendrick, Ludvig e Kaden. "Nós precisamos de líderes fortes em cada um." Todos eles concordaram e separaram-se, cada um indo em direções diferentes e embarcando nos navios a vela, grandes o suficiente para levar talvez uma centena de homens. Quando Gwen chegou ao dela, Steffen ao seu lado e Krohn aos seus calcanhares, ela estendeu a mão, agarrou a longa escada de corda suspensa, e deu impulso para cima. Quando ela chegou ao topo, virou-se, e Steffen entregou-lhe Krohn. Em pouco tempo, os dois estavam lá em cima passando sobre a amurada para o convés. Dezenas de soldados e cidadãos do Cume seguiram-nos, todos a encher os navios, um de cada vez. Todos colaboravam, percebendo a urgência, cada um deles determinado a trabalhar para içar imediatamente as velas ou agarrar os remos. Estavam todos em silêncio como uma máquina com uma afinação perfeita, unidos no desejo de fugir para tão longe do Império quanto possível, cada um deles determinado a encontrar uma nova terra, para fazer uma outra vida. "E para onde é que devemos ir agora?", ouviu-se uma voz. Gwen virou-se e viu um cidadão do Cume, uma mulher a segurar uma criança pequena, a olhar para ela com um rosto cheio de esperança. Ela viu atrás de si uma pequena multidão, todos a olhar para ela com esperança, à procura de respostas. Gwen sentiu uma grande responsabilidade em liderá-los bem. Ela olhou para os outros navios, e viu Koldo e os outros a olhar para ela, também, todos em silêncio. Gwen sabia que tinha chegado o momento de lhes dizer. "Nós vamos navegar para o Anel!", anunciou perentoriamente, com uma voz autoritária, impressionando-a até mesmo a si própria. Era a voz do seu pai. Ela via o olhar de surpresa nas caras deles - especialmente na cara de Kendrick, Brandt e Atme, do seu povo.

"Era desejo do teu pai", disse Gwendolyn para Koldo. "que eu liderasse o teu povo até à segurança. O Anel é o único lugar que eu conheço." "Mas está destruído!", disse Brandt. Gwen abanou a cabeça. "Pode ser reconstruído", ela respondeu. "O Império desocupou-o. Conquistámo-lo. É nosso." "Mas o Escudo está em baixo!", disse Atme. Gwen suspirou. "Não vai ser fácil", disse ela. "Mas tem sido profetizado. O Anel, um dia, vai erguer-se novamente." Gwen desejou, mais do que nunca, que Argon estivesse ali agora, com ela, a explicar. Mas como de costume, ninguém sabia dele. "Há um Anel sagrado", ela continuou. "O Anel do Feiticeiro. Thorgrin, ainda agora, o procura. Temos de navegar adiante. Se ele o encontrar a tempo, ele encontra-nos lá, e pode ajudar-nos a restaurar o Anel.” "E se a tua profecia estiver errada?", perguntou Ludvig. "E se Thor não encontrar esse Anel?" Gwendolyn sentiu um silêncio pesado ao olharam todos para ela. "É um salto de fé que devemos tomar", disse ela. "No entanto, a vida é sempre um salto de fé." Ficaram todos em silêncio, percebendo os desafios que os esperavam. Koldo assentiu de volta com gravidade. "Eu respeito a decisão da Rainha!", gritou ele, e Gwen apreciou ele ter usado aquele título. Fazia-a sentir-se como se ela fosse, de facto, uma Rainha novamente. E se eles estavam a regressar ao Anel, talvez, na verdade, ela fosse. As pessoas, satisfeitas, continuaram, movimentando-se, içando as velas e empurrando. Em pouco tempo, o navio estava em movimento. Gwen sentia as correntes a capturarem-no, levando-o. Ela olhou para trás e viu, com alívio, a costa do Desperdício a ficar cada vez maior. Gwendolyn foi até à proa do navio, olhando para as águas adiante, emocionada ao sentir o movimento por baixo de si, o suave subir e descer do navio. Enquanto isso, as suas novas pessoas reuniam à sua volta esperançosas. Ela sentia-se como um messias, levando o seu povo para um novo horizonte, uma nova casa, um lugar para finalmente serem livres.

CAPÍTULO TRINTA E SEIS Thorgrin rasgava pelo ar nas costas de Lycoples, voltando da Terra do Anel, sentindo o poder a irradiar do Anel do Feiticeiro que usava no seu dedo, segurando as escamas do dragão. Thor sentia-se uma pessoa diferente ao usá-lo, como uma versão maior de si mesmo, mais forte, mais poderoso - capaz de fazer qualquer coisa. Ele sentia a energia do Anel a pulsar-lhe no dedo e estava impressionado com a luz brilhante que emanava dele. Ele nunca tinha encontrado nenhum objeto mais poderoso na sua vida. Usá-lo era arrebatador, como se ele estivesse perdido no próprio universo do Anel. Ele também se sentia capacitado, como se entendesse pela primeira vez o que significava estar vivo. Ele sabia que o Anel representava uma grande vitória, o culminar de todos os ensaios, testes e treinos, que ele já tivera, todos os obstáculos que ele tinha superado, todos os contratempos dos quais ele não havia recuado. Era mais do que um Anel de poder: era um Anel de destino. Um anel de conclusão. Thorgrin acelerava pelos céus, sabendo que tudo era possível agora. Ele sabia que qualquer inimigo que tivesse sido demasiado forte, quaisquer lugares que tivessem sido demasiado escuros, ele agora tinha o poder de enfrentar. E os seus ensaios ainda não tinham acabado. Eles estavam, de facto, apenas a começar. O Anel do Feiticeiro, ele percebeu, exigia um preço: exigia o melhor de quem a usava, exigia que se superassem a si próprios, enfrentando cada vez maiores inimigos, maiores provações. Para Thorgrin isso significava enfrentar o seu pior inimigo, enfrentar o lugar que ele tinha derrotado, o único lugar de onde ele tinha fugido: a Terra do Sangue. Isso significava regressar, enfrentar o Lorde do Sangue novamente, tentando mais uma vez salvar Guwayne. Significava voltar para o lugar da sua derrota, e ter a coragem de enfrentá-lo mais uma vez, agora que ele era uma pessoa diferente. E se ele vivesse, Thor sabia que o Anel, iria, então, exigir dele mais uma responsabilidade sagrada: regressar ao próprio Anel, para a terra do seu nascimento, lutar para levá-lo de volta, salvar Gwendolyn e os exilados. Ele sentia o Anel do Feiticeiro a chamá-lo para lá, a exigir que o fizesse. Mas primeiro ele tinha de salvar Guwayne. "Mais rápido, Lycoples!", gritou Thorgrin ao seu amigo, com o seu coração a bater em antecipação enquanto o horizonte começava a mudar. Lycoples, capacitado pela presença do Anel, voava mais rapidamente do que Thorgrin se conseguia lembrar, baixando a cabeça com Thor agarrando as suas escamas, e explodindo através das nuvens. Mais à frente, Thor viu a paisagem mudar: os céus brilhantes chegaram a um fim abrupto e eles encontraram as cachoeiras de sangue, com a entrada arrepiante para a Terra do Sangue. Thor sentiu um momento de apreensão, recordando as suas falhas passadas naquele lugar. Lembrou-se de como era entrar num mundo demasiado forte para ele, a ser atacado por crises de loucura, por uma sedutora. Era um lugar de escuridão que não conhecia limites, um lugar que ele não tinha sido forte o suficiente para enfrentar. Mas isso era o velho Thorgrin. Agora, tendo passado os seus testes finais e usando o Anel do Feiticeiro, ele era mais forte. Estava na hora de ele se colocar à prova, enfrentar os seus demónios. E o mais importante, o seu filho estava para além daquela muralha - ele não podia abandoná-lo. Ele iria resgatá-lo, ou morrer a tentar. Lycoples guinchava à medida que eles se aproximavam das cachoeiras de sangue, hesitante, e Thorgrin lembrou-se de ela, antes, ser incapaz de entrar. Mas daquela vez, ele sabia, seria diferente. Desta vez, eles tinham o Anel. "Avante, Lycoples", sussurrou Thor. "Tu agora és intocável." Thor estendeu a mão que tinha o Anel, e, ao fazê-lo, uma aura de luz vermelha lentamente se espalhou e envolveu-os, como uma bolha.

Lycoples estendeu as suas grandes asas e gritou. Thor podia sentir a sua hesitação; mas ela confiava nele. Baixou a cabeça e voou em frente com fé. Thor sentiu-se envolto em sangue quando ambos entraram nas cachoeiras. Eles ficaram imersos nas águas que caíam com um barulho ensurdecedor, salpicando tudo ao seu redor. Mas a aura espalhava-se sobre eles e a água fazia aí ricochete sem causar danos, mantendo-os seguros e secos, voando através dela como se fossem uma nuvem. Passado pouco tempo, eles saíram do outro lado, para alívio de Thor. Lycoples guinchou de alegria, com a vitória, quando eles irromperam na Terra do Sangue. Era um contraste gritante. Ali, as nuvens eram baixas, espessas, pesadas, pretas e sinistras. Não havia sol e a terra abaixo era sombria, coberta de cinzas, como Thor se lembrava. Thor sentiu-se tenso ao vê-la, lembrando-se de tudo o que tinha acontecido - mas ele obrigou-se a continuar a voar. Eles voavam sobre o mar de sangue, acelerando por paisagens de árvores mortas, de lava seca. Toda a terra parecia carbonizada e desolada, como se nada pudesse viver ali. Eles voavam sem parar, tão rápido que Thor mal conseguia recuperar o fôlego, cobrindo mais terreno num minuto do que tinham coberto em dias com o navio. Lá em baixo, de vez em quando, Thor via um monstro solitário na paisagem, olhando para cima e rugindo para eles. Ele sabia que se eles estivessem lá em baixo, o que o monstro mais gostaria de fazer seria desfazê-los em pedaços. Finalmente, Thor viu o lugar que tinha assombrado os seus pesadelos: o castelo do Lorde do Sangue. Ele ficou tenso ao vê-lo. Ali estava no horizonte, como lama que havia subido da terra e endurecido, com as suas sinistras luzes brilhantes lá dentro. Thor conseguia sentir a sua soturnidade, mesmo a partir dali. E, ainda assim, o seu coração acelerou, com cada fibra do seu ser em chamas, por saber que o seu filho estava além daquelas paredes. Lycoples voou sem parar, pelos portões estragados, por cima dos canais sinuosos que iam até lá. Ele estava agora mais longe do que alguma vez tinha estado na Terra do Sangue, para lá do Estreito da Loucura, para lá da Feiticeira, e ele sabia que não havia mais nada agora entre ele e o castelo. Thor esperava que Lycoples voasse diretamente para a porta do castelo - mas ela surpreendeu-o ao parar a várias centenas de jardas antes, como se tivesse atingido uma parede invisível, mergulhando a pique. Ele percebeu que era uma espécie de bolha de feiticeiro, ainda mais poderosa do que a bolha lançada pelo Anel. Quando Lycoples se preparou para pousar, Thorgrin percebeu, que ela não conseguiria ir mais longe. Thor desmontou quando Lycoples os deixou na estrada que conduzia ao castelo. Ele olhou para a estrada à sua frente. Era longe. A estrada era feita de suave tijolo enegrecido, com a sua trajetória brilhante ladeada de tochas e espigões, cada um empalado por uma cabeça decepada. Thor olhou para Lycoples e ela olha de volta. Ele sentiu que ela queria continuar - mas não conseguia. Eu espero por ti aqui, disse ela com a sua mente. Tu vais regressar, guerreiro. Com o teu filho. Thorgrin estendeu a mão, acariciou-lhe a cabeça e virou-se para o castelo. Ele desembainhou a Espada dos Mortos com o seu toque diferenciado, virou-se e deu o primeiro passo pela estrada, sabendo que teria de ir sozinho. Thor caminhou e, em seguida, correu pelo caminho, passando todas as cabeças empaladas de outros que tinham sido tolos o suficiente para ir até ali. Ele correu com todas as suas forças, sabendo que o seu filho estava naquela torre, desesperado para colocar os olhos sobre ele novamente. Enquanto corria, aproximando-se da ponte levadiça de pedra que cruzava um fosso, Thor olhou para baixo e viu que o chão da ponte levadiça estava repleto de espigões, e as águas enegrecidas do fosso estavam a fazer parceria com rápidos jacarés e criaturas horrendas que não reconhecia. Ele viu-os a devorar carne humana, com partes do corpo a flutuar na água. Ao olhar para cima, aproximando-se da ponte, ele viu dois guardas de pé diante dela, vestidos com a sua armadura preta, duas vezes tão altos quanto ele, segurando alabardas longas enquanto guardavam a

entrada. Thor nunca abrandou; ele continuou a correr, com a espada desembainhada, e, quando eles entraram em ação, erguendo as suas alabardas e dando balanço para ele, ele sentiu o poder do Anel a impeli-lo para a frente. Mais rápido do que ele já tinha sido, mais forte do que ele já tinha sido, Thor saltou para o ar – mais alto do que nunca, voando sobre as cabeças dos soldados. Com um golpe limpo, ele cortou uma cabeça e, em seguida, saltou sobre a ponte e cortou a outra. As alabardas deles caíram no solo, sem causar danos, e ambos colapsaram, mortos. Thor olhou para os espigões diante de si e deu um salto a correr. Num único salto ele saltou sobre a ponte levadiça, sobre todos os espigões, aterrando diante da porta do castelo. Thor examinou-a. Era uma porta imensa, com trinta pés de altura, concebida num enorme arco, feita de ferro e madeira. Mas Thor não se sentia intimidado por ela. Em vez disso, ele estendeu a mão, agarrou o batente e, puxando com a força de um gigante, ele arrancou a porta das dobradiças, com o poder do Anel a percorrê-lo enquanto o fazia. Era hora de dar o troco. Quando arrancou a porta, Thor enfrentou uma escuridão sombria, o interior iluminado apenas pelo fraco brilho laranja das tochas. Uma corrente de ar gelada correu para ele, húmida e fria, sentindo como se fossem almas a serem libertadas do inferno. Ouviu-se um leve gemido e uivo no ar, como se Thorgrin estivesse a entrar noutro reino do inferno. Thor correu para dentro, recusando-se a ceder aos seus medos, pensando apenas no seu filho. Ele correu através da escuridão, com a sua espada desembainhada, pronto para qualquer coisa, e, de repente, ouviu o grito do que parecia ser uma gárgula. De repente, Thor, detetou movimento, olhou para cima e viu uma das criaturas mais horrendas da Ilha de Ragon, uma que tinha raptado Guwayne, pendurada do teto, de cabeça para baixo. Os seus olhos amarelos e brilhantes fixaram-se nele, assustados com a sua presença, e o seu rosto, de repente, contorceu-se num esgar de raiva, enquanto lançava as suas garras, descia do teto a pique para ele, guinchando. Thor reagiu, com o Anel a aumentar a sua velocidade e reflexos. Ele deu um passo para a frente ao encontro da criatura, golpeando com a Espada dos Mortos e cortando a criatura ao meio. Thor correu através do castelo, praticamente sem desacelerar para se orientar, percebendo vagamente que aquele lugar era feito de lama e pedra, com os seus muros deformados. Ele percorreu vastas câmaras abertas, com os seus passos a ecoar, e por corredores estreitos e contorcidos, cujo piso era feito de barro; ele saltou por cima de correntes de lava e correu por salas vazias com paredes feitas de antigo granito preto. Ele passou a correr por um arco enorme, dando por si numa câmara com um teto tão alto que ele nem sequer o conseguia encontrar. Thor ouviu uma grande cacofonia, mais alta do que o som da sua própria respiração, do seu coração a bater. Ele percebeu que tinha ido de encontro a um ninho de gárgulas. A câmara iluminou-se com os seus incandescentes olhos amarelos, e todos eles guincharam e começaram a descer na sua direção. Era como se ele tivesse perturbado o seu ninho. Thor golpeava um após o outro, à medida que enormes morcegos vinham na sua direção. Ele estava totalmente focado, sentindo o Anel a impeli-lo, golpeando habilmente cada um deles, baixando-se e esquivando-se das garras que vinham na direção do seu rosto. Ele atacou um, cortando-lhe as asas, esfaqueou outro, baixou-se e, em seguida, golpeou para trás e derrubou ainda mais outro com o punho da espada. Sentia-se mais hábil do que nunca, com o Anel a dar-lhe uma flutuabilidade, um poder diferente do que ele alguma vez havia conhecido. Era quase como se o Anel lhe estivesse a dizer quando atacar antes de ele o fazer. Thor continuou a correr através daquela caverna, correndo cegamente para a frente, sem saber para onde estava a ir, onde o seu filho estava, mas sentindo o Anel a incitá-lo. Ele era como um animal

selvagem a acelerar por ali afora, capaz de ver, ouvir e reagir dez vezes mais depressa do que nunca. Ele lutava enquanto corria, até ficar, finalmente, fora da câmara. Thor emergiu noutra sala cavernosa e ficou chocado com o que viu. Aquele quarto estava iluminado com correntes de lava a correr ao longo da sua borda, deixando sair luz suficiente para ver enquanto elas chispavam e sibilavam - Thor desejava não ter visto. Os guinchos das gárgulas eram mais intensos ali, e, quando ele olhou para cima, viu milhares delas escurecendo o teto, com as suas asas esvoaçantes, enchendo os seus ouvidos, como uma gruta de morcegos cruzando a sala. Thor sabia que deveria estar com medo - mas não estava. Ele não sentia medo. Ele sentia-se focado. Com intensidade. Ele sabia que estava a enfrentar os seus piores inimigos, e, em vez de querer fugir, ele sentia-se privilegiado por poder ter a oportunidade de os enfrentar. Thor movia-se mais depressa do que jamais poderia imaginar, mais rapidamente do que até mesmo ele conseguia controlar. A Espada dos Mortos era como um ser vivo na sua mão, orientando-o para cortar, rodopiar, girar e esfaquear, permitindo-lhe atirar criaturas ao chão, ao golpear pela sala, numa única onda de destruição, derrubando gárgulas em todas as direções. Presas afiadas projetavam-se do punho da espada e elas expandiam-se e matavam criaturas, também. Mas Thorgrin sabia que era o Anel que o levava a lutar noutro nível. Quando os ombros de Thor começaram a enfraquecer, a cansar-se, exaustos de girar, cortar, reagir, golpear tantas coisas daquelas, ele sentiu o Anel a disparar uma onda de energia até ao seu braço, refrescando-o, renovando o seu ombro tenso, como se ele tivesse acabado de chegar à batalha. Quando várias gárgulas o atacaram por trás e Thor não conseguiu voltar-se para reagir a tempo, ele sentiu o Anel a virar e a dirigir o seu braço. Perplexo, ele viu o Anel a disparar uma esfera de luz que atirou as gárgulas para o outro lado da sala. Os seus cadáveres acumularam-se ao redor das gárgulas que começaram a perceber o inevitável. Elas recuaram, dezenas delas. Era tudo o que restava dos milhares de gárgulas, recuando até aos cantos longínquos da caverna, agora com medo de Thorgrin. Thorgrin finalmente parou de lutar, respirando com dificuldade. Examinou a câmara na quietude. À frente, ao longe, do outro lado da câmara, ele reparou numa série de passos em granito preto que iam para cima, esculpidos numa montanha. E, ao olharem para cima, na sua parte superior, ele viu um imenso trono, com vinte pés de largura, coberto de diamantes negros, e ele sabia que era o trono do Lorde do Sangue. No entanto, estava vago. Thor estava confuso, perguntando-se porque é que o Lorde do Sangue não estava ali. Talvez ele não estivesse à espera de Thor, nunca tivesse pensado que ele conseguiria chegar ali, à sua câmara interna. E, quando Thorgrin ouviu um grito repentino, olhou novamente para cima, com o corpo em alerta máximo, e examinou a câmara de perto. Ele ficou ainda mais chocado com o que viu: ali, sentado ao lado do trono, escondendo-se nas sombras, estava um berço de ouro a brilhar. Guwayne. Ouviu-se um choro. Thorgrin ficou aliviado. Guwayne. Ele estava realmente ali, vivo, ileso, ao lado do trono. Thor não hesitou. Ele irrompeu numa corrida, apressando-se pelos degraus, subindo três, quatro, cinco, seis de cada vez, até chegar ao topo. E, ao passar a correr pelo trono, Thor parou, de repente, sentindo a coisa mais estranha acontecer. Era como se o trono fosse magnético. Era como se quisesse que Thor se sentasse nele. Governasse. Se tornasse o Rei dos Mortos. Thor parou diante dele, tremendo, mal capaz de resistir ao seu poder. Ele olhou para trás e para a frente, entre ele e Guwayne, sabendo que deveria agarrar em Guwayne e sair. Mas, ali, os seus joelhos ficaram fracos. Ele sentiu o Anel a vibrar no seu dedo, tentando ajudá-lo, e ele sabia que estava preso num teste supremo de vontade. Era um teste ainda mais duro do que enfrentar o Lorde do Sangue: ele estava a confrontar-se a si próprio. Aos seus mais profundos e sombrios impulsos.

Tu, Thorgrin, estás destinado a estar aqui, ecoou uma voz. Estás destinado a ser rei. O Rei das Trevas. Senta-te e sente a sede do poder. Abraça-nos, governa aqui e podes ter poderes além dos teus sonhos. Senta-se e, finalmente, sê Rei. O Anel queimava cada vez mais o dedo de Thor e ele inclinou-se para a frente, quase incapaz de conter os seus desejos, prestes a sentar-se no trono. Mas então, no último momento, Thor sentiu um abrasador lampejo de força a percorrer o anel e o seu corpo, empurrando-o para longe, como se estivesse a ser picado. Ele virou-se e afastou-se para longe dele. "NÃO!", gritou ele. Em vez disso, Thor virou-se para Guwayne, apenas a pés de distância. O seu coração batia com força e ele avançou para abraçá-lo, preparando-se, temendo que poderia, como da última vez, encontrá-lo vazio. Ele não iria aguentar outra deceção. Mas, quando Thor se baixou ficou extasiado por ver Guwayne no berço - e baixou-se, pegou nele e segurou-o, sentindo-se esmagado de emoção. Guwayne chorava enquanto Thorgrin o segurava, sentindo as lágrimas dele a escorrerem-lhe pelo seu próprio rosto, eufórico para segurá-lo novamente, para vê-lo vivo, saudável, ileso. Thorgrin segurava-o apertado, sentindo-se claro o poder de Guwayne a percorrê-lo enquanto ele estava ali. Ele sentia que ele era uma criança muito poderosa, mais poderosa até do que Thor jamais seria. Ele sentia dentro de Guwayne uma força para o bem ou para o mal, e ele estremecia, ao recordar a profecia de que o seu filho iria transformar-se em escuridão. Ele rezava para que isso não fosse verdade. Desde que ele estivesse vivo, Thorgrin faria tudo o que conseguisse para protegê-lo, para evitar isso. Quando Thorgrin levantou Guwayne do berço, quando virou as costas ao trono, de repente, todo o castelo, como se furioso, começou a tremer. As paredes começaram a desmoronar-se, a tremer e cair, como se Thorgrin tivesse roubado o seu bem mais precioso. As gárgulas começaram a descer do teto, a voar para longe, a fugir da sala, e pedras começaram a cair e o chão começou a tremer. Thor percebeu que tinham pouco tempo. Ele agarrou Guwayne com firmeza, virou-se e fugiu da câmara, apressando-se a descer os degraus quatro de cada vez, correndo de volta pela sala cavernosa, esquivando-se das pedras que caiam enquanto ele subia, todas elas caindo ao lado dele numa cacofonia de poeira. Thor girava e virada ao longo do seu caminho pela escuridão, de volta para baixo pelos túneis, correndo pela sua vida quando o castelo começou a desmoronar-se ao seu redor, com Guwayne a gritar nos seus braços. Mas, desde que ele segurasse Guwayne com firmeza, nada mais importava para ele. Thor viu a saída para o castelo à frente e viu as paredes a desabar ao seu redor, deixando apenas uma pequena lasca pela qual escapar. Ele acelerou a sua corrida na ponta final. Um momento depois, Thor emergia para fora do castelo, atingido abruptamente por uma pedra que colidiu com o seu ombro, fazendo-o cambalear. Mas ele continuou a correr, sem nunca parar, e, assim que ele atravessou, todo o castelo se desmoronou numa enorme avalancha de rocha. Thorgrin corria sem parar, fugindo da avalancha que se espalhava, deixando um monte de entulho, correndo pela sua vida. Ele saltou para trás sobre a ponte de espigões, correu de volta pelo caminho, o longo trilho a levá-lo de volta para Lycoples. O chão tremia, como se toda a Terra do Sangue se estivesse a desmoronar, e uma fissura no chão começou a abrir-se logo atrás de Thor. Espalhou-se cada vez mais amplamente, perseguindo-o à medida que ele ia, uma grande brecha a abrir-se para as entranhas da terra. Thor corria para salvar a sua vida, sabendo que estava apenas a um passo da morte. Thor olhou para cima e viu Lycoples à espera. Quando a alcançou, saltou para as suas costas, sem abrandar. Ela guinchou e levantou, tão ansiosa para ir como ele. Assim que o fez, a fissura espalhou-se pelo chão exatamente no lugar onde eles tinham acabado de estar. Thor sabia que se tivessem esperado apenas mais um segundo, seria o fim deles.

Thor segurou-se a Lycoples, agarrando Guwayne, que finalmente se calou nos seus braços. Voando no ar, segurando o seu filho, partindo para longe daquele lugar, sentiu-se novamente restaurado. Ele mal podia acreditar. Ele tinha conseguido. Desta vez, ele tinha ganho. Eles aceleravam pelo ar. Thorgrin e Lycoples ambos sabiam para onde estavam a ir. Ainda havia um lugar no mundo para eles irem. Um lugar que seria o palco de uma guerra épica. Um lugar onde, Thor sabia, o Lorde do Sangue e todos os seus exércitos seguiriam. O lugar onde Gwendolyn, os irmãos dele da Legião e todo o seu povo o aguardava. Estava na hora de voltar para casa. Estava na hora, finalmente, de lutar pelo Anel.

CAPÍTULO TRINTA E SETE O Lorde do Sangue surgiu do seu sono, desorientado, em choque completo. Ele tinha sentido o seu castelo a abanar em torno dele, despertando-o do seu sono, tinha sentido uma grande perturbação na força, tinha sentido imediatamente que alguém tinha penetrado no seu espaço sagrado. Era impossível. Nunca ninguém se tinha aproximado do seu castelo - muito menos entrado à força dentro dele. Não em mil milénios. Ao princípio, o Lorde do Sangue assumiu que tinha tido um pesadelo. Mas como as paredes continuaram a tremer e a desmoronar-se ao seu redor, bem nas profundezas, ele depressa percebeu que ele não tinha sido. Foi uma perturbação diferente de tudo o que ele já havia sentido. E quando ele se sentou, em posição, persentiu imediatamente que o rapaz tinha desaparecido. Guwayne. O Lorde do Sangue soltou um grito horrível e levantou-se, repentinamente, levantando o punho e partindo a pedra. Ele voou pelo chão, explodindo para fora do rochedo na direção das câmaras acima. Enquanto ali estava, num quarto agora cheio de entulho, ele estava perturbado. Ao redor dele, quase todos as suas gárgulas preciosas jaziam mortos, esmagadas, contorcendo-se. As poucas que restavam estavam a guinchar e a voar em círculos. Ele virou-se imediatamente e olhou para cima, para o seu trono, para o berço - e com uma sensação de horror e medo, viu que o seu trono estava esmagado e que o berço estava vazio. Alguém tinha levado a criança. O Lorde do Sangue encolerizou-se ao perceber de imediato quem era: Thorgrin. Ele tinha levado o seu filho. Ele tinha levado a sua joia mais preciosa, aquela criança-poder que ele tinha esperado criar como se fosse seu filho, que ele tinha preparado para se tornar o maior Lorde das trevas de todos eles. Que ele iria usar para governar o mundo - exatamente como as profecias tinham proclamado. No entanto, ele não entendia como aquilo era possível. Ele era mais poderoso do que Thorgrin; ele já o havia derrotado uma vez. Thorgrin não tinha aquele tipo de poder - a menos que, percebeu ele, Thorgrin, de repente, tivesse recuperado o sagrado Anel do Feiticeiro. Tinha? O Lorde do Sangue gritava em agonia, vendo a missão de toda a sua vida destruída, sentindo as suas veias a arder em fúria, com um desejo de vingança. Ele soube imediatamente o que tinha de fazer: encontrar Thorgrin. Acabar com ele. Recuperar a criança. E ele soube imediatamente que havia apenas um lugar para onde Thorgrin o poderia ter levado: o Anel. Ele saltava, à medida que as paredes continuavam a desabar, e, desta vez ele atravessou a correr saindo diretamente pelo outro lado do seu castelo, para a luz do dia, partindo a rocha com o punho. Ele emergiu no chão, fora do seu castelo, e, imediatamente, olhou para cima e procurou os céus. Lá, ao longe, no horizonte distante, ele viu Thorgrin. Ele estava a voar para longe nas costas de um dragão, a segurando algo. Guwayne. O seu filho. O Lorde do Sangue uivou de fúria, com o rosto contorcido em agonia. Ele sabia que só havia uma coisa que ele poderia fazer: reunir o seu exército. Ele colocou as palmas das mãos para fora e para o lado, virou-as, e, lentamente, levantou-as, cada vez mais alto. Ao fazê-lo, a paisagem de cinzas e lama começou a rastejar, a contorcer-se, a ganhar vida. Ali, lentamente, um exército emergiu da terra preta. Um exército de mortos-vivos, emergindo como se de um campo de ovos, saindo do solo com as suas longas e hediondas garras vermelhas e puxando-se a eles próprios para cima. Eles eram parecidos com as gárgulas, mas cinco vezes maiores, com escamas enegrecidas, corpos peludos e longas e viscosas presas. Eles tinham asas, tão compridas quanto os seus

corpos, e caudas igualmente longas, que se faziam bater pesadamente contra o solo. Eles olhavam para o Lorde do Sangue com os olhos alaranjados e brilhantes, milhares deles, aguardando o seu comando, babando-se, gritando. Querendo matar alguma coisa. Qualquer coisa. Thorgrin tinha feito um erro grave. O Lorde do Sangue não era nenhum feiticeiro primitivo. Não era nenhum rei local. Ele era o Lorde de todos os Lordes, o único que poderia erguer um exército da poeira, o tal que nunca ninguém havia derrotado. O tal que tinha punido qualquer um que ousara desafiá-lo. Thorgrin tinha provocado uma série de acontecimentos que o mundo nunca havia conhecido. Ele iria segui-lo até aos confins do mundo, até que a terra fosse cauterizada com as suas criaturas, e despedaçá-lo - e ao seu filho - em pedaços. Estava na hora de destruir o mundo. E a primeira paragem na sua missão só poderia ser num lugar: O Anel.

CAPÍTULO TRINTA E OITO Gwen e o seu povo navegavam a uma boa velocidade rio abaixo, apanhando o vento, as correntes cada vez mais fortes, navegando cada vez mais para leste, com os sóis a baixarem no céu, já sem se verem as margens do Desperdício. Gwen olhou para baixo para Krohn aos seus pés, olhou para Steffen ao seu lado, olhou para Koldo, Ludvig, Kaden, Ruth e Kendrick que tripulavam os navios ao lado dela, e ela sentia-se afortunada. A realidade deles estava a começar a instalar-se: tinham escapado. Contra todas as probabilidades, eles tinham fugido do Cume, tinham salvado centenas e tinham conseguido chegar a alto mar. Eles iam a uma boa velocidade, com as velas cheias, as marés do rio a puxá-los para fora na direção do mar, que ela sabia estar algures no horizonte. Ela sabia que quando alcançassem o mar aberto, eles ficariam longe do continente do Império, mais longe das suas garras e cada vez mais perto do Anel. No entanto, por agora, enquanto eles ainda navegavam por aqueles rios estreitos, com a terra do Império de cada lado, com outros rios ainda a alimentarem aquele vindos de todas as direções, Gwen ainda estava muito alerta. Eles giravam e viravam pela paisagem do Império. Gwendolyn sabia que ainda não podia relaxar; eles ainda estavam bem dentro de território hostil. Eles ainda estavam vulneráveis a ataques de todos os lados. E se o Império bloqueasse o seu caminho, ou os apanhasse antes de eles conseguirem chegar a mar aberto, eles iriam morrer ali, naquela terra. Gwen ouviu o barulho de água a cair mais à frente. Olhou sob a luz fraca e viu as correntes do rio a mudarem. Eles estavam a aproximar-se de um cruzamento, vários grandes rios do Império a fundirem-se naquele local, ampliando o rio e fortalecendo a corrente. Ela ficou aliviada ao ver as marés a ficarem mais fortes, sabendo que iriam ganhar ímpeto - mas ficou ansiosa ao ver aquele rio a ser alimentado por dezenas de rios. Os navios do Império podiam chegar de lugar do Império. Ao fundirem-se naquele novo rio, quando as correntes os apanharam, o navio balançou freneticamente. De repente, Gwen ouviu um som de corneta distante, ficando apreensiva. Era um som que ela reconhecia bem: a corneta de guerra do Império. Gwendolyn olhou para trás e viu algo que lhe congelou o sangue: mil setas enegreciam o céu, como um bando de morcegos, subindo num arco alto e, em seguida, caindo diretamente na sua direção. "BAIXEM-SE!", gritou ela. Eles protegeram-se à medida que as setas iam caindo nas águas atrás deles, respingando como um cardume de peixes. Gwen olhou para cima e suspirou de alívio ao ver as setas a caírem logo após a frota. Mas, de seguida, o seu coração parou ao ver dezenas de navios do Império a perseguirem-nos, aproximando-se vindos de todos as diferentes rios, quase a alcançarem-nos. Os navios deles eram mais elegantes e mais rápidos. Ela percebeu que rapidamente eles os alcançariam. Gwen percebeu que as suas hipóteses tinham acabado de se reduzir para quase nenhumas. Eles não conseguiam lutar contra aquela frota - não com os seus escassos números, armas e navios. E, ainda assim, ela não conseguia tolerar pensar em ser capturada novamente pelo Império. Ela olhou para os outros navios, para Koldo, Kaden, Ludvig e Kendrick, e viu o mesmo olhar desconsolado nos seus rostos. Eles estavam todos preparados para lutar – e, ainda assim, todos eles sabiam que isso significava a derrota. Antes de conseguirem dar comandos, Gwen encolheu-se ao ouvir, repentinamente, mais setas a subir pelo ar – no entanto, naquele momento, ao olhar para cima ela ficou confusa: as setas vinham da sua frente, passando sobre o seu navio na outra direção. Teriam sido cercados, flanqueados por ambas as direções? Gwen virou-se, esperando ver mais navios do Império – e ela ficou chocada e feliz ao ver que era algo totalmente diferente. Ela mal podia acreditar que aquelas eram pessoas que ela conhecia,

reconhecia, amava. Pessoas do Anel. Erec sorriu de volta, ao lado dele, Alistair - e Godfrey do outro lado dele, Dray aos seus calcanhares. Todos eles estavam na proa, e Erec comandava uma frota de soldados das Ilhas do Sul, juntamente com uma frota de escravos libertados do império. Ela viu, com admiração e esperança, Erec a navegar na sua direção, ordenando à sua frota para disparar flechas para o Império. As flechas navegavam pelo ar, sobre a sua frota, e na direção dos distantes navios do Império. Elas enfiaram-se em dezenas de soldados do Império, que gritavam e começavam a cair - e o coração de Gwendolyn pulava de alegria. Agora eles tinham uma batalha. * Erec estava na proa do navio, com o coração acelerado de alegria por ver novamente Gwendolyn e os outros exilados do Anel, juntamente com Kendrick e os seus outros companheiros dos membros de Prata, cada um com os chefes do seu próprio navio, juntamente com várias centenas de pessoas que ele imaginava só poderem ser exilados do Cume. Ele nunca tinha pensado que iria voltar a ver os membros do Anel, especialmente ali, tão longe de casa, e ficou para além de eufórico ao ver que Gwendolyn ainda estava viva. Ele tinha andado a lutar para a encontrar há mais tempo do que se conseguia lembrar, e, depois de a ter perdido em Volusia, ele começava a questionar-se se alguma vez mais a iria voltar a ver. Mas Erec já estava focado, no modo de batalha, e os seus olhos estavam fixados na frota do Império que avançava para os seus irmãos de armas. Ele não perdeu tempo a instruir os seus homens: "FOGO!", gritou ele novamente. Os seus homens dispararam outra rajada de flechas, usando as suas bestas de longo alcance projetadas para situações como aquela. Ele via com satisfação as flechas a navegarem pelo ar, por cima da frota de Gwen, cada vez mais altas num grande arco, todo o caminho até à frota do Império. Ele ficou satisfeito ao ver um convés a ser bombardeado e os soldados a distraírem-se de atacar Gwendolyn. No entanto, Erec sabia que aquilo não era suficiente - havia centenas de navios do Império e ele sabia que precisava de fazer um movimento ousado para resgatar a tempo Gwendolyn e os outros. Erec imediatamente examinou a paisagem com o olhar de um soldado profissional, reparando em como o Grande Desperdício crescia em altura ao longo do rio, elevando-se em penhascos íngremes ao longo da margem do rio. Ao examinar as encostas, ele viu pedras enormes empoleiradas precariamente no meio delas, tendo uma ideia: se ele conseguisse acertar naquelas pedras, talvez conseguisse que elas caíssem no rio e destruíssem a frota do Império. Elas iriam acabar com dezenas de navios, e, se ele soltasse um número suficiente delas, obstruir o rio e represá-lo por trás de Gwendolyn. Erec virou-se para os seus homens. "Apontar para as rochas!", ele ordenou, apontando. Para demonstrar o seu ponto, Erec apressou-se pelo convés, tirou repentinamente uma besta das mãos de um dos seus homens, apontando para cima e disparando – e os seus homens observavam, confusos. A flecha alojou-se por baixo de uma pequena pedra. Erec viu com satisfação a rocha a soltar-se e a cair pelo penhasco abaixo, ganhando impulso, saltando e, finalmente embatendo contra o casco de um navio do Império. O navio balançou, com um buraco de lado, e, momentos depois, começou a inclinar-se e a afundar. Os homens de Erec, percebendo, fizeram pontaria e dispararam contra os rochedos. Muitas flechas ricocheteavam inofensivamente - mas as suficientes fizeram impacto. Em breve, muitas pequenas pedras começaram a rolar ladeira abaixo, arrancando outras, criando pequenas avalanchas. Pouco a pouco, elas foram obstruindo o rio. Mas, enquanto as pequenas pedras eram claramente um incómodo para o Império, os grandes

pedregulhos não saíam do sítio. Erec percebeu que sem os desalojar, eles nunca iriam conseguir obstruir o rio e eliminar os navios. Erec viu os navios do Império a aproximarem-se de Gwen e dos outros; eles combatiam gloriosamente, sem vacilar com os ataques, ripostando a cada rajada de flechas. Apesar de serem menos, eles estavam a conseguir-se defender – até ao momento. Mas Erec viu mais centenas a aproximarem-se, viu o céu escurecer com mais flechas do Império, viu mais pessoas do seu povo a cair e sabia que, em pouco tempo, Gwen e os seus homens seriam derrotados. Ele sentiu que tinha de fazer algo. Ali, desesperado, Alistair aproximou-se dele. Ele viu aquele olhar sereno e confiante nos seus olhos. Ele sabia que ela estava a convocar os seus poderes. De olhos fechados, com as palmas das mãos voltadas para cima, Erec viu-a a obter força, uma ligeira auréola a aparecer ao seu redor. Ele conseguia sentir o seu poder a emanar. De repente, Alistair abriu os olhos, levantou as palmas das mãos e lançou-as para a frente, cada palma virada em sua direção. Erec observou uma bola de luz a sair de cada palma, cada uma para um lado diferente do rio, para os pedregulhos enormes sobre as falésias. Houve um grande estrondo, os penhascos estremeceram. Erec via com perplexidade as pedras a serem desalojadas. Elas começaram a rolar, cada vez mais rápido, acelerando pelos penhascos, levando toneladas de rocha consigo, criando uma avalancha. Todos os olhos do Império se viraram e olharam para cima, vendo a devastação que estava a ir na sua direção, rolando pelos penhascos abaixo. Eles tentaram fugir, voltar para trás, mas os seus navios eram muito grandes e pesados. Eles não tinham para onde ir à medida que as pedras, umas após as outras, rebolavam diretamente para eles, uma avalancha enorme trovejando em direção ao rio. Gritos enchiam o ar à medida que as pedras embatiam contra os navios, com a sua madeira a rachar, a fragmentar-se. Um de cada vez, os navios deles estavam a ser destruídos. Centenas de soldados agitavam-se ao cair ao mar, nas correntes. Os navios do Império que não eram atingidos, não conseguiam, ainda assim, escapar na represa. Outras centenas de pedras caíam diante deles, parando o rio num monte enorme, impedindo que mais navios passassem e fazendo com que ficassem no meio de uma grande nuvem de poeira. Em pouco tempo, o rio fechou-se atrás de Gwendolyn e o Império não conseguia persegui-los. Erec navegou até a frota de Gwendolyn. As duas frotas encontraram-se, todos radiantes a sorrir. Ele correu e saltou para o navio dela. Eles abraçaram-se, seguidos por todos os seus homens, saltando de uns navios para os outros, com as duas frotas a misturarem-se, todos eles agora a serem um poder unificado. Ele viu Gwendolyn a abraçar o seu irmão Godfrey e ele adiantou-se e abraçou Kendrick, Brandt e Atme, os seus irmãos de armas da Prata. Ele encontrou-se com Koldo e os outros, e observou Alistair a abraçar Gwendolyn. Ele mal podia acreditar. Depois de todo aquele tempo à procura, parecia surreal. Eles estavam juntos novamente. Ele sabia que, juntos como uma única força, eles conseguiriam - eles conseguiriam serpentear o seu caminho para fora daquele Império, na direção do mar aberto e voltar para casa. Eles abraçaramse, com lágrimas de alegria nos olhos, com aqueles elementos fraturados do Anel novamente juntos. Lentamente, Erec sentia o passado a voltar para eles. Ele sentia-se otimista pela primeira vez em tanto tempo quanto se conseguia lembrar e sabia que nada os iria impedir agora. Agora todos eles iriam para o Anel, por Thorgrin, pela sua pátria, - ou iam morrer a tentar.

CAPÍTULO TRINTA E NOVE Reece estava no convés do navio, de costas contra a amurada, segurando Stara nos seus braços, assim como o tinha feito a noite toda, ainda a sentir-se como se estivesse num estado surreal. Tanta coisa tinha acontecido com ele nas últimas vinte e quatro horas que ele mal conseguia processá-las. Ele olhou para cima, com os olhos turvos, para o sol nascente, tendo estado acordado a noite toda a sonhar que Selese chegava ao pé de si vinda da água, misturando-se com sonhos sobre Stara. Ele olhou para baixo, agora com a primeira luz, sentindo alguém nos seus braços, e, ainda assim, ficou maravilhado ao ver que era Stara e não Selese. Selese tinha-o deixado verdadeiramente. E igualmente chocante, Stara tinha verdadeiramente aparecido. O navio navegava a um ritmo constante, com as suas velas cheias pois eles tinham apanhado o vento da manhã, subindo e descendo nas enormes ondas do oceano aberto. Reece sentia o cheiro do ar do oceano e estava maravilhado com o quão misteriosa a vida era. A sua mente girava com os acontecimentos do último dia. Por um lado, Reece sabia, desde o dia em que Selese emergira da Terra dos Mortos, que o seu tempo com ele era limitado. Ela tinha sempre tido uma qualidade etérea, e bem no fundo ele sabia que ela iria deixá-lo um dia. No entanto, ele permitiu-se cair em negação, acreditando, de alguma forma, que ia conseguir agarrá-la para sempre. O seu tempo com ela era muito curto; ele não tinha visto o fim a vir tão cedo. E isso deixava-o com um sentimento de tristeza. E ele ainda ficou mais confuso quando viu Stara aparecer. Era como se Selese se tivesse sacrificado por Stara, como se cada uma tivesse ficado com algum tempo da outra, em algum ciclo cármico do destino. Tinha sido um ato de altruísmo por parte de Selese, Reece sabia, o último ato de altruísmo de uma miúda que o amara inteiramente desde o dia em que se conheceram. Selese sabia que não poderia estar com ele para sempre – assim, antes de deixar o mundo, ela encontrou para ele alguém que podia. Stara, inconsciente quando ele a encontrou, ainda estava inconsciente nos seus braços, assim como tinha estado durante toda a noite. Ele questionava-se se ela já teria acordado. Era bom segurá-la novamente, mantê-la aquecida, mantê-la viva. Ele segurou firmemente o seu corpo flácido, uma parte dele ainda a imaginar que era Selese. E, no entanto, ele sabia que era aquilo que Selese queria: amar Stara agora era amar Selese. A segurar Stara, Reece começou lentamente a perceber o quanto ele tinha sentido a falta dela, também, todo aquele tempo. Qual era o mal de amar duas pessoas ao mesmo tempo? Ele desejava que fosse de outra forma, mas ele tinha de admitir que amava. E agora que Selese se tinha ido embora, tudo o que restava a Reece era Stara e ele estava determinado em mantê-la viva, qualquer que fosse o custo. E em aprender a amá-la mais uma vez. Por muito que ele sofresse por Selese, Reece sabia, afinal, que era aquilo que ela queria. Reece inclinou-se e beijou a testa de Stara, segurando-a, desejando silenciosamente que ela voltasse para ele. Ele não conseguia acreditar que ela tinha voltado para ele, tinha atravessado o mundo por ele, sozinha; ele não conseguia imaginar os perigos que ela tinha enfrentado, os sacrifícios que ela tinha feito. Ele estava para além de emocionado. Ele viu o quanto ela o amava e como ela estaria literalmente disposta a atravessar o mundo para ele. "Amo-te, Stara", sussurrou-lhe ele. "Volta para mim, por favor." Era um sentimento que ele tinha repetido muitas vezes durante toda a noite, olhando para os seus bonitos olhos, mesmo enquanto fechados, e questionando-se, desejando. Mas agora, ao ver a luz da manhã, Reece, pela primeira vez pensou tê-los visto a estremecer. E, ali a observar, ele ficou surpreendido ao vê-la, lentamente, a abrir os olhos. Os olhos azuis-claros e lacrimejantes de Stara olharam para ele, a brilhar, tão cheios de vida, de amor - e ao fazerem-no, ele lembrou-se o quanto a amava. Eles eram tão bonitos, tão hipnotizantes, como ele

lembrava, aqueles olhos que haviam assombrado os seus sonhos desde que eram crianças - e ele apaixonou-se por ela novamente. Reece, com os seus próprios olhos a lacrimejar, sentiu-se renascer, e não podia acreditar o quão eufórico ele estava por vê-la viva, de volta aos seus braços. "Reece?", perguntou ela baixinho, com a voz rouca. "Eu consegui?" Reece sorriu com alegria e uma lágrima caiu-lhe dos olhos quando ele se inclinou e a beijou nos lábios. Ela levantou a cabeça e beijou-o de volta. Ele conseguia sentir o amor dela por ele. "Conseguiste, meu amor", disse ele. Ela segurou a mão dele e ele segurou a dela. "Atravessaste o mar sozinha?", perguntou ele perplexo. Ela sorriu e assentiu, com lágrimas a escorrerem-lhe pelo rosto. "Atravessei", respondeu ela. "Eu procurei-te por todo o mundo. Rezei a Deus para que, se eu não te encontrasse, então, deixasse que as águas me levassem.” Reece segurou as lágrimas, arrebatado pelas suas palavras, por ela o amar assim tanto. Mais uma vez, ele sentia a ligação que eles tinham tido desde crianças. Essa ligação nunca tinha deixado completamente de existir. E apesar de ter passado tanto tempo, era como se fosse ontem. Reece olhou para os olhos dela e viu uma coisa estranhíssima - ele via algo a mover-se dentro deles, e, durante um fugaz momento, era como se o espírito de Selese estivesse dentro dela, como se Selese olhasse através dos olhos de Stara também. Ele sentiu fortemente o espírito de Selese, vivendo através de Stara. Ele já não se sentia o conflito. Sentia que amar Stara seria amar Selese também. "Amo-te, Reece", disse ela, sentando-se, olhando-o nos olhos e segurando a sua bochecha. "E sempre te amarei." Eles beijaram-se. O calor estava a voltar, e, pela primeira vez desde a morte de Selena, o coração de Reece estava restaurado novamente. Enquanto navegavam para o Anel, cada vez mais próximos, ele sabia que uma grande guerra estava à frente deles, talvez a maior batalha da sua vida. Ele esperava e rezava para que eles pudessem reconstruir o Anel, para que ele pudesse começar a vida de novo na sua terra natal, com Stara ao seu lado. Que eles pudessem um dia ter a sua própria família. Mas quer vivessem ou morressem, por agora, pelo menos, estar novamente junto com Stara, fazia-o sentir-se realmente vivo.

CAPÍTULO QUARENTA Erec estava na popa do navio, com Alistair ao seu lado e Strom perto, olhando ao longe enquanto os dois sóis começavam a cair no mar aberto, sentindo-se vivo, com um maior sentido de propósito do que ele se conseguia lembrar. Desde os seus dias na Prata, na corte do Rei MacGil, que ele não se sentia assim. Ele não se tinha apercebido da dimensão do sentimento de perda do qual vinha a sofrer desde que tinha deixado a sua casa, deixado o anel, deixado a companhia dos seus irmãos, da prata, deixado o Tribunal do Rei e o Rei MacGil. Desde então, ele apercebeu-se, um pedaço do seu coração, da sua alma, tinha estado sempre ausente. Mas agora ele tinha a hipótese de ter tudo de volta, de restaurar a vida que ele conhecia e amava. Agora, finalmente, ele podia ver um futuro para si mesmo, um lugar no mundo onde ele se sentisse em casa. O seu futuro não estava nas Ilhas do Sul; ele percebeu-o naquele momento. Isso pode ter sido onde ele nasceu, onde o seu povo estava - mas isso não a sua casa. Casa, ele percebia agora, era onde ele tinha sido educado; onde ele tinha aprendido a lutar, onde ele tinha conhecido os seus irmãos e lutado lado a lado com eles; onde ele conheceu e se apaixonou por Alistair. Casa era a terra pela qual ele tinha arriscado a sua vida a defender. Era a sua terra adotiva, talvez - mas era a casa. O pensamento de voltar lá agora, de ter uma hipótese de a retomar, fazia-o sentir-se vivo novamente como nada mais tinha feito. Erec arriscaria tudo só por uma hipótese de voltar ao Anel novamente. Erec sentia que as Ilhas do Sul não eram lugar para o seu povo agora. O Anel precisava de ser reconstruído e o Anel precisava de homens e mulheres para preenchê-lo. Eram necessários guerreiros. E ele não se conseguia lembrar de melhores guerreiros do que o seu povo das Ilhas do Sul. Havia chegado a hora, ele sabia, enquanto Rei das Ilhas do Sul, de unir os seus povos. O Anel, de qualquer maneira, precisaria deles para o retomar. Eles poderiam ajudar a lutar pela sua nova casa. Eles não tinham nenhuma opção de permanecer isolacionistas agora, de qualquer maneira; se o Anel estava perdido, todos eles estariam perdidos. Se o Império derrotasse o Anel, eles iriam virar, com todas as suas forças, para as Ilhas do Sul a seguir, o último bastião da liberdade no mundo. Perder o Anel seria perder tudo. Razão pela qual ele iria velejar lá primeiro, reunir o seu povo e convencê-los a navegar para o Anel com ele, para se juntarem à batalha com ele e o seu povo e ajudar a reforçar Gwendolyn. Foi por isso que ele se tinha separado da frota de Gwendolyn – para que ele pudesse voltar com um exército ainda maior. "Não estamos a navegar para Norte?", perguntou Strom, colocando-se ao seu lado. Erec virou-se e viu Strom de pé ao lado dele, com Alistair no seu outro lado, muito grávida. Ele conseguia ver o olhar de confusão no rosto de Strom. "Mas devemos navegar para sul para alcançar as Ilhas do Sul pela manhã", acrescentou Strom. Erec assentiu. "Eu sei, meu irmão. Mas ainda não estamos a voltar para as Ilhas do Sul." Strom pestanejou, confuso. Erec olhou para as águas à frente. À distância, ele viu a Coluna do Dragão, trazendo-lhe de volta memórias que preferia esquecer. "Então para onde é que estamos a ir?", perguntou Strom. Erec apontou para o horizonte. "Uma injustiça, que deve ser corrigida, foi realizada aqui", disse Erec. Erec apontou para um remoto afloramento de rochas no horizonte, saído do oceano, com dezenas de navios ancorados no seu porto. Ele conseguia lentamente ver o olhar de reconhecimento no rosto do seu irmão. A ilha de Krov. "Aqueles navios em tempos tiveram de se esconder na cobertura da escuridão", disse Erec. "Agora

Krov tem-los ancorados abertamente, impunemente, sem medo de ninguém. Isso é por causa do acordo que ele fez com o Império." Erec levantou um monóculo na direção dos seus olhos, conseguindo ver os navios, mesmo a partir dali, a transbordar de tesouros. Ele entregou o monóculo a Alistair, que espreitou e, em seguida, entregou-o a Strom, que espiou e assobiou. "A recompensa de Krov", disse Erec, "por nos vender. Não só ele tem proteção do Império, como agora também tem mais riquezas do que jamais poderia sonhar." Strom olhou através do monóculo, de boca aberta em estado de choque. "E pensar que confiávamos nele", disse Strom. Erec suspirou. "Todos os erros voltam para ti, um dia", disse ele. "Chegou o momento de ele pagar pela sua traição. Eu nunca esqueço um amigo - e eu nunca esqueço um inimigo." O olhar de Strom mudou para um olhar de admiração, e, lentamente, o seu sorriso alargou-se. Ele aproximou-se e deu uma palmadinha no ombro de Erec. "Estou a começar a lembrar-me porque gosto de ti, irmão." Erec virou-se para Alistair, a quem ele agora consultava sobre todas as coisas. "Eu sei que nos leva para fora do nosso caminho", disse ele, "e eu sei que o nosso tempo é curto. Mas eu sinto-o fortemente", disse ele. Ele esperava que ela o tentasse dissuadir, convencê-lo a abandonar a ideia, ir diretamente para as Ilhas do Sul e, depois para o Anel, para deixar a vingança sozinha. Mas em vez disso, ela virou-se para ele com um olhar de determinação, um olhar de acordo que o surpreendeu. "Nós vivemos num mundo injusto, meu senhor", disse ela. "E todo o mal que corrijas, cada pequeno pedaço de justiça, pode ajudar a endireitar o mundo." "Então concordas?", perguntou ele, surpreendido. Ela assentiu com a cabeça. "Seria errado afastares-te." Ele olhou para ela, amando-a naquele momento mais do que nunca, e ele sabia que tinha casado com a mulher certa. Um guerreiro, como ele. Erec assentiu, satisfeito. "Vamos esperar pela cobertura da escuridão", disse ele. "Hoje à noite, vamos atacar." * Erec navegava no escuro oceano, iluminado apenas pela lua cheia, levando a sua frota discretamente, enquanto cortam silenciosamente através da água. Com toda a sua frota disciplinada, silencioso como ele tinha ordenado, o único som que pairava no ar era o das ondas a bater contra o seu barco, o do vento à noite e o grito ocasional de uma gaivota. E, é claro, o barulho das ondas a bater contra as rochas afiadas da ilha de Krov. À medida que Erec se aproximava da frota de Krov, ancorada no porto, o seu coração acelerava e ele tinha o sentimento familiar que tinha antes de entrar numa batalha. Os seus sentidos eram aumentados; ele ficava mais focado, mais intenso. Ele bloqueava tudo, exceto a estratégia diante de si. Erec aproximava-se de meia dúzia de navios de Krov, balançando sem levantar suspeitas. E ele teve um ótimo vislumbre: os marinheiros descansavam no convés, adormecidos, bêbados, de pés para cima, tão indisciplinados como o seu comandante. Os marinheiros estavam caídos contra o convés, sacos vazios de vinho nas suas mãos, sem suspeitar de nada. Os próprios conveses estavam a transbordar de pilhagens e resgates, e ninguém se incomodava em vigiar. Eles não tinham nenhum motivo para tal; eles

agora tinham a proteção do Império. Erec ardia indignado. Aqueles homens o haviam vendido, a ele e ao seu povo, para cativeiro. Tinhaos deixado para morrer - e tudo por algumas pilhas de ouro. Erec dirigiu os seus navios exatamente ao longo dos navios de Krov, com o coração a bater enquanto se mantinha em silêncio, esperando que não foram descobertos. Cada rajada de vento levava-os para mais perto, e, quando se aproximaram, ele podia sentir os seus homens, podia sentir o seu irmão Strom ao lado dele, a ficarem impacientes. "Ainda não", sussurrou Erec. Os seus homens obedeceram, esperando, aproximando-se tanto que conseguiam ver o branco dos olhos dos marinheiros, a tensão tão espessa que podia ser cortada com uma faca. Ainda assim, eles navegaram cada vez mais para perto, até ficarem apenas a alguns passos de distância, todos aguardando o comando de Eric. "Agora!", disse Erec num sussurro áspero. Os homens de Erec atiraram as suas cordas, ganchos no final, de forma rápida e habilmente sobre as amuradas dos outros navios. Quando os seus ganchos travaram sobre as amuradas dos outros navios, eles todos puxaram os seus navios para ao pé uns dos outros. Quando estavam perto o suficiente, Erec liderou o caminho, saltando por cima da amurada para o navio de Krov. Enquanto eles corriam pelo convés, lentamente, os homens de Krov despertaram, vendo os invasores, mas Erec não lhes deu tempo para reagir. No momento em que o fizeram, ele correu para eles e bateulhes com o punho da sua adaga, esmagando-os no crânio e deixando-os inconscientes. Ele não queria que eles ficassem alerta para a sua presença - e ele, também não os queria ver mortos, ou, mesmo sendo aqueles traidores merecedores de morte. Os homens dele fizeram o mesmo, tal como Erec havia instruído, nocauteando homens por todos os lados. Os homens de Erec, liderados por Strom, espalharam-se por todos os outros navios da frota, atingindo outros homens, aniquilando-os de forma rápida e silenciosamente, arrasando os navios antes deles saberem o que os tinha atingido. Erec tinha escolhido o navio que ele sabia ser de Krov, e, com a certeza suficiente, ele descobriu-o onde sabia que ele iria estar - dormindo perto da proa ao lado de um barril vazio de vinho, com duas mulheres nuas deitadas a dormir nos seus braços. Com todos os marinheiros de Krov contidos, Erec caminhou lentamente, com confiança, diretamente para Krov, com as suas botas a ecoar através do convés, até ficar em cima dele. Erec desembainhou a sua espada e baixou-a até a ponta tocar na base da garganta dele Ele ficou lá, à espera, a sorrir com grande satisfação, e Krov, de repente, abriu os olhos, sentindo a ponta do metal na sua garganta e olhou para Erec em pânico. Erec sorriu com grande satisfação, finalmente sentindo-se vingado. "Encontramo-nos de novo, velho amigo", disse Eric. Krov tentou sentar-se, para alcançar a sua espada, mas Erec empurrou a lâmina com mais força, pisoulhe o pulso e Krov encostou-se para trás. Ele ergueu as mãos, tremendo, enquanto as duas mulheres acordavam, gritando e saiu a correr. "Como é que se libertaram?", perguntou Krov. "Eu tinha certeza de que vocês estavam mortos." Erec sorriso ainda mais. "Essa tem sempre sido a tua ruína", respondeu Erec. "Tu tens demasiadas certezas de tudo. Os valentes não morrem, meu amigo. Somente os traidores." Krov engoliu em seco, aterrorizado. Ele lambeu os lábios. "Não me mates!", gritou ele com a voz a tremer. "Eu dou-te tudo o que tenho!" Erec sorriu. "Dás?", retorquiu ele. "Nós já tirámos todo o teu ouro, as tuas armas, tudo o que é teu. O que é que te

resta que nos possas dar?" Krov engoliu em seco, sem saber o que dizer. "Quanto a matar-te", continuou Erec, "Eu acredito que seria muito civilizado. Eu tenho outra coisa bastante diferente em mente. Levanta-te, velho amigo.” Krov levantou-se, inseguro, vestindo apenas calções, tremendo de frio, com a sua barriga gorda e peluda exposta. "Por favor!", choramingava Krov, soluçando, com um ar patético ao luar. "Tu vais ser poupado", disse Erec. "Podes voltar para a tua casa. Tu e todos os teus homens. Mas nós vamos levar os teus navios. Agora vai!" Erec cutucou-o com a espada, e Krov, de pé contra a amurada, olhou para o mar, chocado. "Queres que eu nade?", perguntou Krov, apavorado. Ele virou-se e olhou para a sua ilha, a centenas de jardas de distância, o mar negro e frio. "Eu não tenho roupas", disse Krov. "Estas águas estão geladas. Eu iria congelar até à morte. O mesmo aconteceria aos meus homens. E há tubarões! Nós não vamos conseguir regressar." Erec sorriu. "Eu diria que estás certo", disse Erec. "As hipóteses de conseguires são remotas. Praticamente nenhuma. Aproximadamente as mesmas hipóteses que nos deste quando nos vendeste. Agora vai!" Erec aproximou-se e deu um pontapé a a Krov quando ele se virou. Krov saiu a voar sobre o navio, gritando, caindo na água gelada, vestindo apenas calções e botas. Por todo o navio, os homens de Erec empurraram ao mar os homens de Krov, despindo-os das suas armas em primeiro lugar. Os seus salpicos encheram o mar ao redor deles. Erec observava com grande satisfação Krov e os seus homens a começarem a nadar desajeitadamente, voltando para a sua ilha, já a tremer, mal capaz de recuperar o fôlego nas enormes ondas. Tinha sido feita justiça. Erec virou e observou com orgulho todos os novos navios que tinha capturado, todas as pilhagens, o ouro, as armas, a armadura... Ele sabia que iria servir o Anel, o seu novo exército, a sua nova pátria, bem. Muito bem na verdade. Era agora tempo de recuperar os seus homens, voltar para o Anel e preparar-se para a maior batalha da sua vida.

CAPÍTULO QUARENTA E UM Darius gritou de dor quando mais um chicote lhe bateu nas costas, sentindo-se como se estivesse a arrancar-lhe a pele. Ele agarrou o remo diante de si até os seus dedos ficarem brancos, tentando alcançar ao redor e lutar também, mas parado pelas suas algemas. Ele prendeu a respiração, tentando controlar a dor - enquanto o chicote rachava novamente, visando o escravo acorrentado ao lado dele. Darius esperava que o escravo gritasse, e ficou chocado por ele ter ficado em silêncio. Ele não sabia como é que um homem poderia suportar tal dor em silêncio. Até que ele olhou para ele e viu o homem caído ao lado dele. Morto. Darius olhou para ambos os seus lados e viu todos os outros escravos acorrentados, todos eles agora mortos. Ele tinha de alguma forma sobrevivido a todos eles, e não tinha percebido que eles tinham há muito tempo parado de se mover, fazendo com que remar para ele agora fosse ainda mais difícil. Quer tenha sido o calor a matá-los, ou o sol, ou o trabalho, ou o chicote, ou a falta de comida e água, ou a exaustão, Darius nunca saberia. Mas morrer, naquelas condições, seria um alívio. Darius, no entanto, estava determinado a não morrer. Ele pensou para onde aquela frota do Império estava a navegar – para leste, na direção do Anel, para matar Gwendolyn e os outros - e ele estava determinado a permanecer vivo. Ele iria permanecer vivo por tempo suficiente, ele decidiu, para fazer tudo o que conseguisse para sabotar os esforços do Império. Darius puxou a remo, com as palmas das mãos desgastadas, com as costas cobertas de suor e sangue. Um vigia do Império levantou o chicote para o chicotear novamente. Darius preparou-se, sem saber quantas mais chicotadas iria aguentar - quando, de repente, o vigia parou a meio caminho da chicotada, segurando o chicote bem alto, por cima da cabeça, congelado. O soldado olhou para o horizonte, como se surpreendido com a visão, e Darius virou-se, também, e olhou. Darius olhou pelo sol, com o suor a arder-lhe nos olhos, e, ao longe, ele distinguiu, em choque, uma pequena frota de navios no horizonte. Quando ele olhou mais de perto, ele ficou ainda mais surpreendido ao vê-los com uma bandeira, a do Império, a esvoaçar. Voava orgulhosamente, batendo ao vento, e o coração de Darius ficou animado e orgulhoso ao ver que era a bandeira de Gwendolyn. As cores do anel. De repente, soaram cornetas do Império por toda a frota, e o navio eclodiu em comoção quando soldados do Império vociferavam comandos e os soldados assumiam posições acima e abaixo do convés. As velas subiram mais alto, o navio ganhou velocidade. O coração de Darius bateu com força ao ver que eles se aproximavam da frota desprevenida de Gwendolyn. Ainda faltavam talvez cem jardas para ir. O navio de Darius, de repente, tremeu com o som de tiros de canhão; Darius olhou e viu um enorme canhão, manuseado por soldados perto da proa do navio, a fumegar, tendo acabado de disparar. Ele observou com trepidação, uma vez que a bala do canhão voou pelo ar, diretamente para o navio de Gwendolyn, e ficou aliviado ao vê-la aterrar aquém, salpicando na água. Mas eles ajustaram os canhões, e ele sabia que, na vez seguinte, Gwen podia não ter a mesma sorte. "Este é o teu dia de sorte, escravo!", disse, de repente, um vigia. Darius sentiu as mãos ásperas de um soldado do Império a agarrá-lo por trás, puxando para trás os seus pulsos, e abrindo as algemas nos seus pulsos e tornozelos. "Para os canhões!", gritou ele. O soldado empurrou Darius, fazendo-o voar para a frente até ele cair de cara no convés, dolorosamente. Ele então pegou nele e empurrou-o novamente, fundindo-o com um grupo de outros escravos todos a ser levado às pressas para diferentes estações da batalha. Darius era empurrado com força pelo convés, e, quando deu por si, tinha sido empurrado para uma estação de canhão.

Na estação estavam vários soldados do império e um outro escravo, todos eles de joelhos, olhando para fora. Um dos soldados agarrou-o rudemente e fê-lo ajoelhar diante do canhão. "Tenta alguma coisa, escravo", vociferou ele, "e sentirás a minha espada através do teu coração." Outro soldado inclinou-se para a frente. "Vês aquelas balas, escravo?", disse o soldado. "Vais encher o canhão com elas. Agora mexe-te!" Ele bateu em Darius no lado da cabeça. Darius baixou-se e colocou uma bala de canhão com os braços a tremer. Era tão pesada e as palmas das mãos suadas, que mal conseguia segurá-la, especialmente no seu estado enfraquecido - e o outro escravo, vendo o esforço que fazia, inclinou-se e ajudou-o. Aquele escravo tinha a pele pálida e branca. Ele olhou para Darius com um olhar de medo. Enquanto os soldados do Império voltavam a examinar o mar, Darius, ajoelhado ali, olhava subrepticiamente para o seu navio, para a frota do Império, começando a formular uma ideia. Ele sabia que aquela era a sua oportunidade - era agora ou nunca. Ele virou-se para o outro escravo e deu-lhe um olhar de confiança. "Ao meu sinal, faz como eu digo", sussurrou ele. Os olhos do outro escravo arregalaram-se e ele abanou a cabeça freneticamente. "Eles vão nos matar", disse ele. Darius agarrou com força o pulso do homem, percebendo que precisava de lhe transmitir confiança. "De outra forma nós vamos morrer", disse ele. "Queres morrer como um cobarde? Ou como um guerreiro?" Ele segurou o pulso do homem, até que finalmente ele relaxou. Os seus olhos estreitaram-se gradualmente e Darius conseguia ver uma crescente confiança emergir nele - e, então, ele assentiu rapidamente. "Mexe-te, escravo!", gritou um soldado, batendo na parte de trás da cabeça de Darius. Darius, com a ajuda do outro escravo, estendeu a mão e colocou a bala no canhão aberto, e, ao fazerem-no, um soldado do Império rapidamente fechou o tampo com força. Outro soldado acendeu uma tocha e começou a baixá-lo para o longo fusível. Darius sentiu o outro escravo a olhar para à procura de orientações e ele abanou a cabeça. "Ainda não", ele sussurrou. A tocha aproximou-se. Darius sabia que ele não podia permitir que o fusível fosse aceso. Finalmente Darius assentiu. "Agora!" Darius estendeu a mão e agarrou a adaga pendurada no cinto do soldado do Império e, em seguida, enfiou-a no seu coração. Ele então girou e cortou a garganta do outro soldado do Império que estava atrás dele, antes que ele conseguisse reagir, e ele caiu, largando a tocha. Quando o outro soldado do Império avançou para ele, Darius ficou orgulhoso ao ver o outro escravo a saltar para o seu caminho, atirando-o ao chão. Enquanto rebolavam, Darius inclinou-se e esfaqueou o soldado no coração. Outro soldado do Império apareceu, erguendo um chicote. O outro escravo arrancou-o das suas mãos, atirou-o ao chão e saltou para cima dele, colocando a mão sobre a sua boca, estrangulando-o. No entanto, o soldado do Império era forte, e, enquanto ele se contorcia, Darius aproximou-se e ajudou - até que, finalmente, o homem parou de se mover. Darius girou e agarrou a tocha. Depois, virou-se e procurou em todos os lugares, escondendo-se no abrigo da estação de canhão, certificando-se de que ninguém os tinha visto. O outro escravo juntou-se a ele, freneticamente, e limpou o suor da testa. "Segura a tocha", disse Darius. O escravo agarrou a tocha com uma mão trémula, e Darius, com toda a sua força, virou o canhão pesado. Ele encostou o seu ombro no canhão, gemendo com o esforço, até que, finalmente, conseguiu

desviá-lo do navio de Gwendolyn, agora apenas a vinte jardas de distância; em vez disso, ele conseguiu apontar para dentro, em direção ao seu próprio navio. Os olhos do escravo arregalaram-se quando ele percebeu. "Queres viver para sempre!?", disse Darius, com um sorriso enlouquecido. "Ei, tu!", ouviu-se uma voz. Darius voltou-se e viu que um grupo de soldados do Império os tinha visto, avançando na direção deles enquanto eles seguravam a tocha. "Fazê-lo!", gritou Darius. O escravo baixou a tocha com as mãos trémulas e acendeu o pavio, à medida que os soldados do Império avançavam para os atacar. "PAREM-NOS!", gritou o soldado. Mas era tarde demais – uma enorme explosão fez balançar o navio. Darius voou para trás enquanto o canhão rugia ao seu lado, indo contra a amurada. A bala foi disparada diretamente para o convés. O som da madeira a fragmentar-se encheu o ar quando a bala entrou por um lado e saiu pelo outro, caindo na água. O navio balançou e começou, imediatamente, a inclinar-se, com dezenas dos seus soldados mortos com o impacto da bala e dos estilhaços de madeira. Enquanto o navio mergulhava no caos, os soldados que avançavam na direção deles, lentamente, olharam para eles novamente, começando a atacar. Darius sabia que aquela era a sua última oportunidade. "Vamos!", gritou ele para o escravo, e, sem esperar, virou-se, correu pelo convés e saltou para cima da amurada. Ele fez uma pausa, vendo a queda de vinte pés de altura para as ondas. Mas, então, o outro escravo juntou-se a ele e ele sentiu um renovado sentido de coragem. "Queres viver para sempre?", ecoou o escravo, e, com o seu próprio sorriso enlouquecido, ele saltou para fora de bordo, agarrando o braço de Darius e levando-o consigo. Ao caírem nas águas geladas, Darius veio à superfície ao lado do escravo, arfando por ar. Ele olhou para cima e viu o navio de Gwen lá à frente - e ele nadou pela sua vida. Encontrava-se, talvez, a vinte jardas de distância agora, e Darius só rezava para que Gwen os visse e percebesse que eles eram amigáveis. "Parem aqueles escravos!", gritou um soldado do Império por detrás. Darius olhou para trás e viu vários soldados do Império a juntarem-se no convés do navio que se afundava, erguendo os seus arcos e disparando. Várias setas aterraram perto de Darius na água, e ele encolhia-se à medida que se aproximavam. Mas, de repente, o navio virou-se de cabeça para baixo, afundando-se, e as setas pararam de ir. Os soldados gritavam. Ao mesmo tempo, Darius chegou ao casco do navio de Gwendolyn. Ele flutuava ao lado do navio, o escravo com ele. Ele olhou pelo casco acima, que tinha vinte pés de altura, esperando e rezando para que Gwen o visse. Ele estava a perder a força. Os outros navios estavam a aproximar-se e não havia nenhuma forma de ele o trepar. "Gwendolyn!", ele gritou. O navio continuava a navegar, deixando-o a flutuar na sua esteira. Darius começou a ficar desesperado. Ele percebeu que, depois de tudo o que se tinha passado, iria morrer ali. Mas enquanto flutuava ali, pensando que tudo estava perdido, de repente, ele viu o rosto de Kendrick na popa, e viu que o rosto dele se iluminou ao reconhecê-lo. "Darius!", gritou ele. Imediatamente, foi-lhes atirada uma corda, e Darius e o escravo esticaram-se e agarraram-na, segurando-se com força enquanto eram puxados para cima, um comprimento de corda a cada vez.

Darius, com um puxar final, pousou no convés, o escravo ao lado dele. Ele estava ofegante, tossindo água para fora, sentindo-se exausto, mas um grande sentimento de satisfação. Ele mal podia acreditar: ele tinha escapado. Ele estava realmente ali. Finalmente, a liberdade era sua mais uma vez. Ali, a tossir água do mar, com o escravo ao lado dele a fazer o mesmo, ele sentiu uma língua no seu rosto, ouviu um gemido. Ele olhou, eufórico, ao ver o seu velho amigo Dray novamente. Ele beijou-o e acariciou-lhe a cabeça. Dray saltou para cima dele. Ele questionava-se como é que ele tinha conseguido ali chegar. Darius olhou e viu Gwendolyn e Kendrick a juntarem-se ao redor com todos os outros. Mãos fortes baixaram-se e puxaram-no para cima. Ele abraçou Kendrick, todo molhado, e depois Gwendolyn. "A última vez que te vi", disse Gwendolyn, "estavas a caminhar para Volusia para proteger o teu povo. Foi um ataque ousado." Darius baixou a cabeça, sobrecarregado com tristeza ao lembrar-se. "Os meus amigos não conseguiram, minha senhora", disse ele. "Não", disse ela. "Mas tu conseguiste." Ele examinou-a; ela parecia mais velha, mais forte, do que quando ele a vira pela última vez. "E da última vez que eu te vi, minha senhora", disse ele, "estavas a aventurar-te para o Desperdício para encontrares ajuda para nós." Ele sorriu. "E encontraste, afinal de contas", acrescentou. "Um pouco tarde - mas precisamente quando eu precisava dela." Todos sorriram e abraçaram-se. "E quem é este?", perguntou Gwen. Todos se viraram para o outro escravo, e ele sorriu-lhes. "Honestamente não sei", disse Darius. "Nós nunca nos apresentámos. Mas ele salvou-me a vida. " "Assim como tu salvaste a minha", respondeu ele. "O meu nome é Tinitius. Importam-se que eu me junte a vocês?" Ele deu-lhe um aperto de mãos, e Kendrick sorriu. "És mais do que bem-vindo à nossa causa", ele respondeu. O rosto de Darius ficou sombrio, serio novamente. "O meu povo desapareceu todo, minha senhora", disse ele. Gwen fez uma pausa. "Nem todos eles", ela respondeu, enigmaticamente. Ele olhou para ela, sem entender, quando, de repente, a multidão se desviou e uma miúda aproximouse, fazendo derreter-lhe o coração. Os olhos de Darius arregalaram-se em choque e alegria. Ela correu para a frente, passando por todos os outros, e abraçou-o. "Darius", disse ela ao ouvido dele, abraçando-o com força, com as lágrimas quentes a escorrerem-lhe pelo seu pescoço. Ele abraçou-a com força, quase não acreditando que era possível. "Eu pensei que tivesses morrido", disse ele. Lori abanou a cabeça. "Não", respondeu ela. "Eu vivi por ti." Darius abraçava-a firmemente e o navio de Gwen ganhava velocidade, navegando para longe do ataque do Império. Ele sentia que tudo estava certo no mundo novamente. Pela primeira vez em tanto tempo quanto ele se conseguia lembrar, ele estava com pessoas que ele amava, de volta para a coisa que ele tinha mais parecida com uma casa - e numa missão que significava tudo para ele. Ele daria a sua vida para defender Gwendolyn, Kendrick, todas aquelas pessoas – os seus irmãos adotivos – e, acima de tudo,

para os ajudar a recuperar o Anel. Ele agradeceu a Deus por uma coisa acima de tudo: que, vivesse ou morresse, ele estaria lá para lutar mais uma guerra.

CAPÍTULO QUARENTA E DOIS Gwendolyn cruzou o convés do seu navio, acompanhada por Kendrick, Steffen e, agora, por Darius. Ela estava emocionada por tê-los ali com eles, enquanto se dirigia para a proa. O seu último encontro com a frota do Império tinha sido demasiado perto, e ela sabia que, se não tivesse sido Darius e o seu jeito com o canhão, eles podiam não estar vivos agora. Ela alcançou a amurada e examinou o horizonte, com os outros ao seu lado, com centenas de membros do Cume por trás dela, enchendo o seu navio e preenchendo os outros três navios da sua frota, cada um manobrado por Koldo, Ludvig e Kaden – e o seu coração saltou ao ver, no horizonte, o contorno de uma massa de terra, que ela conhecia como a palma da sua mão: O Anel. Gwen foi em êxtase e a sua garganta ficou seca. Ela sentiu uma onda de alegria a percorrê-la diferente de todas as que ela já havia tido. A sua terra natal. Mesmo destruída, ela ainda era a sua casa, e agora, finalmente, estava dentro de alcance novamente. Tal restaurou-lhe o coração, fazendo-a sentir-se como se houvesse um propósito para a vida novamente, uma oportunidade para todos eles para estarem juntos e construírem uma vida novamente. Gwen viu o brilho nos olhos de Kendrick, também, em Brandt e Atme, e ela podia ver que se sentiam da mesma maneira. Ela também viu os olhares de admiração nos olhos de Koldo, Ludvig, Kaden e Darius - e todos aqueles do Império e do Cume que nunca antes tinham posto os olhos em cima do Anel. As suas margens, mesmo a partir dali, eram tão bonitas, tão misteriosas, com penhascos que se erguiam no ar, emolduradas por pedras irregulares, uma exuberante floresta verde por detrás e uma névoa que pairava sobre tudo. Acima de tudo, a sua costa circular, chamava a atenção, fazendo com que se sentisse, mesmo a partir dali, como um lugar muito especial, como uma terra mágica que subia do mar. "Portanto, não é apenas um mito", disse Koldo, estudando-o com admiração. "O famoso Anel do Feiticeiro existe realmente." Gwendolyn sorriu para Koldo. "Finalmente", disse Ludvig, "os dois lados da família McGill, o Cume e o Anel, devem estar unidos numa só pátria!" Gwendolyn estava a sentir o mesmo, e, mais do que tudo, ela queria celebrar, especialmente porque ela sabia que estar ali, no Anel, significava que ela poderia ver Thorgrin novamente. Ela rezava para que Lycoples tivesse entregado a mensagem, e encontrado o Anel e o filho deles, e que fosse ter com ela ali. Ela rezava com todo o seu coração - nada mais faria a sua alegria tão completa. Mas, de repente, o devaneio de Gwen foi quebrado quando soaram trombetas no horizonte por detrás dela. Ela virou-se e olhou para trás. O seu coração parou ao ver que o horizonte estava repleto, mais uma vez, com os navios do Império, que se haviam todos reunido e ido atrás dela até ali. Havia centenas deles daquela vez, uma massiva frota negro a cobrir o horizonte, acenando as bandeiras pretas do Império e aproximando-se depressa – demasiado depressa. Os navios do Império eram superiores aos deles. Gwendolyn sabia que eles iriam alcançá-los em breve. Ela olhou para trás e para a frente, avaliando o quão longe o Anel estava, e quão longe o Império estava, e perguntou-se se eles iriam conseguir fazê-lo a tempo. Seria por pouco. "E se eles nos alcançam antes de chegarmos ao Anel?", perguntou Kendrick, estudando o horizonte juntamente com ela. "Eles são mais do que nós numa proporção de 10 para 1, minha senhora", disse Darius. "Temos de alcançar o Anel antes deles." Kendrick voltou-se e observou o horizonte criticamente. "E mesmo se o fizermos", disse ele, "chegaremos apenas à beira do Anel, a Wilds. Nós ainda teremos

de atravessá-los - e mais ainda, atravessar o Desfiladeiro." "E de que é que vai servir atravessar o Desfiladeiro sem um escudo?", perguntou Steffen. "Este não é o Anel que em tempos conhecemos. Este terreno está desprotegido. O Império andará atrás de nós. Nós não vamos conseguir ir à frente deles. Em algum momento, teremos de ficar e lutar." Gwen, pensando a mesma coisa, olhou para cima e procurou o céu, esperando, observando, esperando mais do que tudo ouvir o grito de um dragão, ver Thorgrin a regressar para ela. Thorgrin, por favor. Nós precisamos de ti agora. Mais do que nunca. Por favor, volta para nós, para uma última batalha. Pelos velhos tempos. Mas ela ficou destroçada por não ver nem ouvir nada. Apenas nuvens escuras e ondulantes, que escureciam a cada momento, como se os céus estivessem zangados, como se soubessem o derramamento de sangue que estava prestes a acontecer. Gwen voltou-se para os outros, resoluta. Ela estava sozinha, como sempre, e ela iria encontrar uma maneira de lutar sozinha. "Se devemos lutar contra todo o Império", disse ela, com uma voz firme, "então vamos lutar. E se vamos morrer, então vamos morrer. A batalha diante de nós é uma batalha pela nossa pátria, por nós mesmos, pela nossa liberdade. Se ganhamos ou perdemos pouco importa: a oportunidade para a batalha é que é o dom. "Levantem as velas!", gritou ela, virando-se para os seus homens. "Peguem nos remos!" Steffen e os outros esforçaram-se para seguir o seu comando, transmitindo-o pelos outros navios, enquanto os homens corriam para içar as velas ainda mais e para puxar os remos com mais força. Todos eles redobraram os seus esforços, com a sua frota a ganhar velocidade à medida que eles navegavam pelo Anel, tentando chegar a terra. Gwen olhava, desesperada, vendo a frota do Império a arrastar-se em direção a eles como uma praga, sabendo que havia pouco que pudesse fazer. Ela virou-se e olhou para o Anel, estudando o litoral, e teve uma ideia. "Dirijam-se para nordeste!", gritou ela. "Para a Baía Rasa!" Eles alteraram a sua direção e Kendrick surgiu ao lado dela, estudando o litoral iminente do Anel. "A Baía Rasa tem a forma de uma ferradura, minha Rainha", disse ele. "Se entrarmos, mesmo se conseguirmos, estaremos aprisionados lá dentro." Ela assentiu. "E o Império também", ela respondeu. Ele olhava para ela, confuso. "Isso vai forçá-los a afunilar", respondeu ela. "É um gargalo. Um milhão de navios não cabe de uma só vez. Algumas dezenas, talvez - e estes irão estreitar as possibilidades." Kendrick acenou de volta, claramente satisfeito. "Foi por isso que o Pai te escolheu a ti", disse ele com aprovação. O coração de Gwen acelerou ao ver a terra do Anel apenas a várias centenas de jardas de distância, com os fortes ventos costeiros a aproximá-los. A Baía Rasa projetava-se, com duas longas penínsulas de ambos os lados, como uma ferradura, com uma abertura estreita com menos de cinquenta jardas. Ela navegou o seu navio, levando a frota direitamente para o seu interior. Ao entrarem nas suas calmas águas, protegidas ali das correntes de vento e mar, os outros navios navegaram ao lado dela, com Koldo, Ludvig e Kaden a olharem para trás, aguardando orientações no que era, para eles, uma nova terra. Gwendolyn estudou a topografia do Anel, ficando chocada ao ver o quanto ele tinha mudado desde que tinham saído. Os Wilds estavam agora cobertos, com a sua floresta densa e escura, inclinando-se, crescendo para a água, mais grossa e mais preta do que ela já tinha visto. Claro, fazia sentido; as patrulhas da Prata não iam lá há luas para limpá-la, e os Wilds, ela sabia, provavelmente estavam cheios de bestas selvagens novamente. Isso não tornava a sua caminhada para o Desfiladeiro mais fácil.

Outra corneta soou e Gwen virou-se para ver a frota do Império a aproximar-se, entrar na baía, aprisionando-os ali, na vanguarda da sua frota, uma dúzia de navios, a entrarem ao mesmo tempo. Ela virou-se e viu a costa ainda a cem jardas de distância, e ela sabia que não iria conseguir lá chegar a tempo. Sentia-se destroçada. Ali estavam eles, tão perto de casa depois de todo aquele tempo. Ela queria mais do que tudo desembarcar. Porque é que o Império não lhe podia ter dado, a ela, mais uma hora de liderança? Apenas uma hora para desembarcar na terra natal, para senti-la sob os seus pés, mais uma vez? Isso destroçava-a. Ela sabia que, naquele momento, seria preciso um milagre, e ela procurou nos céus novamente, esperando por algum sinal de Thorgrin. Mas, novamente, não havia nenhum. Ele ficou desanimado. Teria ele conseguido? Estava ele, também, perdido dela? Gwen cerrou os dentes e resignou-se à batalha diante de si. Eles teriam que tomar uma posição; eles não tinham escolha. Iriam todos morrer ali, ela sabia – e, no entanto, não havia lugar onde ela preferisse morrer do que a lutar pelo Anel. Pelo menos eles não teriam uma morte estrangeira, uma morte solitária numa terra estranha, no desperdício do Império, em terras desconhecidas, tão longe de casa. Ela morreria ali, onde o seu pai tinha morrido, e o seu pai antes dele. "Nós lutamos!", gritou ela, virando-se para os seus comandantes. Todos podiam ver a gravidade da sua expressão. Um ar sombrio caiu sobre eles e todos sabiam que tinha chegado o momento. Estava na hora de colocarem nos seus rostos as suas expressões de batalha. Mal ela tinha emitiu o comando quando o primeiro tiro apareceu através da proa. Gwen olhou para cima ao ouvir o assobio de mil flechas, e ela viu o céu a escurecer com a primeira rajada do Império. "Escudos!", gritou ela. Todos os seus homens, preparados para aquilo, levantaram os seus escudos e colocaram-se de joelhos em formações apertadas, aconchegados. Gwen juntou-se a eles, puxando Krohn com firmeza para perto de si, levantando o seu escudo de grandes dimensões, colocando-se de joelhos juntamente com a parede de soldados. A batida das setas na madeira ouvia-se ao seu redor, quando as setas pousavam no convés como chuva, algumas caindo na água, não os alcançando - mas a maioria batia na madeira. Gwen sentia o seu braço a estremecer sempre que alguma atingia o seu escudo. Ela surpreendeu-se com a força com que as setas batiam, mesmo de tão longe. Finalmente, tudo ficou em silêncio, a rajada terminou, e ela e todos os seus homens lentamente se levantaram e olhou ao longe. "ARQUEIROS!", ordenou ela. Dezenas dos seus arqueiros chegaram-se à frente, levantando os seus arcos em linhas puras. "APONTAR PARA AS VELAS!" Os seus homens fizeram o que ela ordenou, disparando de volta, e o céu enegreceu-se de novo, desta vez com as suas próprias flechas, voando de volta para o porto. Os seus homens apontavam para o alto, algo que o Império claramente não estava à espera, enquanto todos eles se protegiam em baixo e as setas navegavam inofensivamente sobre as suas cabeças. Nem eles estavam à espera do dano que causou: milhares de flechas perfuraram as velas, enchendo-as com buracos, deixando-as em farrapos; passado pouco tempo, as velas agitavam-se freneticamente ao vento, inúteis. Imediatamente, os seus navios perderam velocidade, e, apesar de continuarem a avançar, tal estava longe de ser rápido. Os navios de Gwen, por outro lado, continuavam a navegar a toda velocidade, e, quando outra rajada de flechas do Império voltou a ser disparada contra eles, desta vez eles estavam fora de alcance, com a maioria das flechas a desembarcar inofensivamente no mar. Mas alguns dos homens dela gritaram,

perfurados, apesar dos seus escudos, com demasiadas flechas a conseguirem passar. Ela sabia que o tempo era curto. Gwendolyn olhou para trás para a costa, mais perto, mas ainda longe o suficiente. Ela sabia que tinha de levar aquela luta para a terra; ali, em mar aberto, eles estavam desprotegidos. Mas ao virar-se, ela via cada vez mais navios do Império a entrarem para o porto, e ela sabia que as hipóteses não eram boas. "FOGO!", gritou ela. Os seus homens atiraram outra rajada de flechas, estas na direção dos soldados, com Gwen a pegar num arco e a disparar junto com eles. Ela assistiu com satisfação que mais do que um soldado do Império tinha sido atingido e caído. Mas uma rajada do Império veio de volta para eles. Gwen e os outros protegeram-se mais uma vez. As rajadas continuavam de um lado para o outro, com os navios do Império a deslizarem cada vez mais perto, até que Gwen, finalmente, olhou para trás e viu a costa apenas a vinte jardas de distância. Os seus homens estavam a morrer, e ela sabia que tinha de conseguir. Eles estavam tão perto agora. Ela quase que conseguia sentir a terra sob os seus pés e, se a água não fosse ainda tão profunda, ela mandaria os seus homens saltar. De repente, Gwen ouviu um barulho que a aterrorizou. Era um barulho de um fusível a ser aceso. Ela virou-se e ficou perplexa ao ver um canhão do Império a ser virado e apontado diretamente para eles. "BAIXEM-SE!", gritou ela. Mas era tarde demais: ouviu-se um barulho estrondoso a cortar o ar, seguido de um eco, e, de repente, uma explosão de madeira. Tudo era um caos. O navio ao lado de Gwen ficou em pedaços, com dezenas dos seus homens a morrer, a gritar quando caíam ao mar, alguns em chamas. O barco de Kaden, imediatamente, começou a afundar-se, com metade dos homens a deslizarem pelo convés abaixo, caindo sobre a borda e na água. Kaden caiu com eles, ajudando-os a reunirem-se e a manterem-se à tona. Gwen e os seus homens imediatamente atiraram cordas e ajudaram-nos a subir para o navio, salvando aqueles que não estavam muito feridos. O Império aproveitou-se da fraqueza deles e disparou outra rajada de flechas, apontando para aqueles que escalavam o navio. Quando os homens estavam a ser puxados de volta para cima, mais do que um, foram empalados por flechas do Império, escorregando de volta para a água, mortos. Gwen virou-se e viu a situação a ficar incontrolável, com cada vez mais navios do Império a entrarem no porto e muitos deles com canhões. Ela viu um soldado com uma tocha inclinando-se para acender um outro fusível e ela sabia que, num momento, outro dos seus navios seria abatido. Gwen observava, querendo tomar medidas, mas sabendo que não tinha tempo. Ela ficou chocada ao ver uma lança a passar pelas costas dele e a sair do outro lado. O soldado ficou ali, atordoado, e, de repente, caiu de cara, deixando cair a sua tocha sem causar danos no convés. Gwen não conseguia entender o que havia acontecido, e perguntou-se se estaria a ver coisas - quando, de repente, ela viu um único navio, que parecia ser um navio pirata comandado, com uma bandeira que ela reconhecia, a avançar pelas fileiras do Império. O seu coração disparou ao reconhecer as pessoas a bordo – ali, na proa, estava Reece, apoiado por O'Connor, Elden, Indra, Matus, Stara e Angel. Eles navegaram sozinhos, cortando as fileiras dos navios do Império por detrás. Claramente, a frota maciça do Império não estava à espera de ser atacada por trás por um único navio. Reece e os outros entraram de cabeça no perigo, arremessando lanças por todos os lados, abatendo dezenas de soldados do Império antes de eles sequer percebessem o que estava a acontecer. Eles tinham como objetivo aqueles canhões manobráveis, poupando Gwendolyn. Eles cortaram caminho, entre navios, enquanto passavam por entre as fileiras e entravam na baía. Eles nunca abrandaram, mesmo quando o Império apanhou o vento e disparou flechas contra eles. Eles dispararam de volta e continuaram a navegar, com o seu comandado navio pirata, mais elegante e rápido

do que todos os outros, a navegar até ao navio de Gwendolyn. Gwendolyn percebeu imediatamente que aquela era a distração que ela e os seus homens tão desesperadamente precisavam; ela já não se podia dar ao luxo de ficar ali, a trocar rajadas com o Império, que continuava a aproximar-se. Nem se podiam dar ao luxo de correr para a costa - que nunca conseguiriam fazê-lo a tempo - o que deixaria Reece e os outros sozinhos no porto, vulneráveis a ataques. Em vez disso, eles tinham de fazer o que era contraintuitivo, e que, provavelmente, o Império nunca esperaria: eles tinham de atacar. "VOLTAR!", gritou Gwen: "E ATACAR!" Os homens dela olharam para trás com expressões atordoadas - mas nenhum hesitou em executar o seu comando. Todos os seus navios viraram-se lentamente e navegaram, diretamente na direção da frota do Império. Os comandantes do Império da dúzia, ou quase, de navios diante dela, olharam para trás, perplexos, claramente não estando à espera daquilo; imediatamente, eles agitaram-se para manusear os seus canhões. E isso era exatamente o que Gwen queria que eles fizessem. Ela sabia que se ela se aproximasse o suficiente, isso tornaria os seus canhões inúteis, com o ângulo de manobra demasiado apertado para disparar. Isso daria a Gwen e ao seu povo a vantagem, forçando os seus navios a lutar entre si, um em um, permitindo que os seus homens lutassem corpo-a-corpo. Eles poderiam embarcar nos navios do Império e matá-los à queima-roupa - e uma vez dentro dos navios do Império, a frota mais forte seria bloqueada, uma vez que o Império não podia disparar contra o Império. Gwen viu os olhares de espanto e consternação nas caras dos soldados do Império quando a sua frota se aproximou deles. Eles viraram os seus canhões freneticamente, e ela conseguia ver o seu olhar de espanto quando perceberam que o ângulo era muito apertado. "FOGO!", gritou ela. As fileiras de arqueiros dela disparavam rajada após rajada, matando o Império atordoado à queimaroupa, enquanto Kendrick e os outros arremessavam lança após lança. Momentos depois os navios dela atingiram os deles, batendo neles abruptamente com um solavanco e, ao fazerem-no, dezenas dos seus homens atiraram as suas cordas e ganchos, amarrando os navios uns aos outros, enquanto dezenas de outros, com as espadas desembainhadas, soltaram um grande grito de guerra e seguiram Kendrick, Koldo, Ludvig, Kaden, Ruth, Darius - e até mesmo, Gwen ficou surpreendida ao ver, Godfrey, enquanto todos eles, sem quererem saber das consequências, saltaram para os navios do Império, com Dray a seguir Darius. Ao mesmo tempo, o navio de Reece alcançou o deles, e Reece e a Legião juntaram-se, saltando para dentro dos navios do Império. Os soldados do Império atordoados mal sabiam como reagir - e ficou claro que a última coisa no mundo que eles estavam preparados era para um ataque direto. Os homens de Gwen corriam por todo o navio do Império, subindo e descendo os conveses, cada um concentrado noutro soldado do Império, a combatê-los um a um. Eles golpeavam e esfaqueavam enquanto corriam, espalhando-se pelo navio despreparado como uma tempestade. Darius gritou e abordou dois soldados, derrubando-os ao chão e perfurando-os antes de atirar as suas espadas para longe e esfaqueálos. Gwen conseguia ver a vingança contra os vigias nos seus olhos. Ele era uma máquina de matar homens, levantando-se e desatando a correr pelo navio, matando soldados do Império por todos os lados, com Dray aos seus calcanhares, matando todos aqueles que se atreviam a chegar perto demais. Os homens do Cume também não eram preguiçosos. Liderados por Koldo, Ludvig, Kaden e Ruth, eles desembarcaram nos conveses do Império com um grande grito de guerra e nunca abrandaram, apunhalando o Império atordoado por todos os lados, correndo através das suas fileiras e indo de encontro aos soldados quando eles avançavam para os atacar. Kendrick, Brandt e Atme lideravam o que

restava da Prata, junto com mais soldados do Cume, e Gwen estava orgulhosa de ver, que Godfrey se juntou a eles. Todos eles lutavam de forma brilhante, empunhando espadas, machados, manguais e lanças, apanhando os soldados do Império de surpresa e perseguindo-os. Os soldados eram mais do que eles e lutavam intensamente - mas eles não correspondiam às capacidades superiores de luta da Prata. Até mesmo Godfrey conseguiu sair-se bem, esquivando-se debaixo de um golpe de espada, levantando o seu escudo e atacando um soldado do Império na cabeça. Ele então agarrou o soldado desorientado por detrás e atirou-o ao mar. Reece e a Legião atacaram os navios do Império do outro lado, lutando para se encontrar com Kendrick no meio. Reece lutava como um homem possuído, como um homem a lutar pela sua terra natal, baixando-se e rebolando para se desviar dos vários golpes, e empunhando a sua alabarda de forma brilhante, que cintilava sob o sol à medida que vários homens eram esfaqueados. Indra atirou a sua lança, matando dois soldados de uma só vez e, em seguida, correu e extraiu-a, atirando-a novamente. Elden girou o machado de batalha para os lados e, com um grande golpe, atirou dois soldados do Império sobre a amurada para o mar. Matus girou o mangual, arrancando as espadas de mãos antes que pudessem causar danos, e, em seguida, empalou soldados no peito. E O'Connor empunhava o seu arco como se aquele estivesse vivo, disparando pelo navio fora e salvando os seus irmãos antes que fossem atingidos. Gwendolyn juntou-se, saltando para o navio com os outros e levando o resto dos seus homens, com Krohn ao seu lado, rosnando e matando vários soldados quando eles se aproximavam. Quem Krohn não matasse, Steffen matava, com o tinir das espadas ao redor dela enquanto ele bloqueava golpes de todos os lados. Gwen corria perante o seu povo, elevando o seu arco e disparando três flechas, matando três soldados do Império, que a atacavam de três lados. Agora que os homens de Gwen tinham embarcado no navio do Império, ela imaginou que eles ficariam seguros do mar de flechas disparadas da frota do império. Mas ela ficou chocada ao ouvir o seu assobio característico, quando outra rajada aterrou no navio ao seu redor. Ouviam-se gritos quando os soldados ao seu redor eram abatidos - não apenas dela, mas os soldados do Império, também, mortos pelo seu próprio povo, pelas suas próprias flechas, atingidos nas costas. Gwen baixou-se, desviando-se por pouco de uma flecha, que passou muito perto dela e encontrou um alvo na garganta de um soldado. Seguiu-se outra rajada. Gwen não podia acreditar que o Império ia continuar a disparar contra o seu próprio povo, matando o máximo possível dos seus próprios homens e dos dela. Eles eram implacáveis; eles não se preocupavam com os seus próprios homens, contando que os matassem. Seguiram-se mais rajadas, ouvindo-se mais gritos, sem nenhum lugar para se esconderem; as fileiras do Império começaram a emagrecer, assim como as dela. Mesmo com os seus homens a lutar de uma forma brilhante, todos eles corpo-a-corpo, todos eles levando a batalha para o Império, mesmo com ela tendo assumido o controlo de vários navios do Império, ainda assim, com todas essas flechas, a maré estava a voltar-se contra eles. Cada vez mais navios do Império entravam no porto. Cada vez mais flechas eram atiradas para baixo e Gwen percebia que tinha levado aquela luta tão longe quanto conseguiam. Eles haviam chegado mais longe, tinham feito mais do que qualquer um poderia ter esperado deles, mas agora parecia que já não havia mais movimentações que se pudessem fazer. Gwen gritou quando uma seta lhe perfurou o braço, esfolando-o. Ela estendeu a mão e sentiu o sangue a escorrer-lhe - e quando ela baixou a guarda, dois soldados do Império avançaram na sua direção para a atacar, levantando as suas espadas e trazendo-as para baixo antes que ela tivesse tempo de reagir. O som de metal ressoava e ela foi regada com faíscas quando Steffen de um passo à frente e bloqueou o golpe de um soldado. Em seguida, virou-se e esfaqueou-o no estômago. Ao mesmo tempo, Krohn, ao lado dela, rosnava, saltava e cravava os dentes na garganta do outro soldado, forçando-o a deixar cair a espada e prendendo-o ao chão. Gwen, com o braço a sangrar e com dores terríveis e com muitos dos seus homens mortos ou feridos,

olhou para o porto, preenchido cada vez mais de negro, sabendo que aquilo era uma causa perdida. Eles haviam chegado tão perto – e, no entanto, estavam tão longe. Eles iam morrer ali, naquele porto; ela tinha a certeza. Ela olhou para cima e procurou nos céus, não vendo nenhum sinal de Thorgrin, do dragão e ficou desconsolada. Ela procurou por toda parte por Argon, mas não viu nenhum sinal dele. Estava tudo acabado agora. Então, de repente, olhando para o horizonte uma última vez, Gwen viu algo que a encheu de esperança, com a possibilidade. Lá, a brilhar no horizonte, surgiu uma frota de navios dourados, aproximando-se do Império por trás. Devia haver centenas deles e a sua bandeira, ela ficou feliz ao ver, era uma que ela reconhecia: as Ilhas do Sul. Ela soube imediatamente que apenas poderia haver uma pessoa a liderar aquela frota, e quando ela olhou, viu que ele estava, na verdade, de pé na proa do navio principal. Lá, a brilhar sob o sol na sua armadura dourada, estava Erec. E ele tinha trazido um exército com ele. * Erec correu para a frente no convés do seu navio, com as suas veias a bombearem adrenalina, ladeado por Strom e os seus homens enquanto conduzia a frota das Ilhas do Sul, com dezenas de navios, milhares dos melhores guerreiros do mundo, todos prontos dar as suas vidas para ter de volta o Anel. Todos prontos para deixar as Ilhas do Sul para trás e fazer do Anel a sua nova casa, - ou morrer a tentar. Erec navegava para a Baía Rasa, esperando conflitos - no entanto, ele não esperava que ela estivesse numa situação tão precária. O seu coração caiu ao vê-la encurralada, cercada, ao ver milhares de navios do Império a bloquearem o seu caminho. Ele tinha tido a esperança de alcançá-la mais cedo. A frota dele movia-se rapidamente agora como eles tinham içado as velas para mastro cheio, com os seus homens a remar pelas suas vidas, remando para salvar Gwendolyn. A única vantagem que eles tinham era que o Império não esperava um ataque por trás; Erec esperava que eles não os vissem a chegar até ser tarde demais. Erec navegou a sua frota para a baía, atacando a parte traseira da frota do Império como uma tempestade repentina, e, quando eles avançaram sobre eles, ele gritou o seu primeiro comando. "FOGO!" De um lado para o outro nos seus navios, os seus homens disparavam flechas e arremessavam lanças, transformando o céu negro com as suas armas que assobiavam pelos ares. Elas aterravam com uma precisão mortal e centenas de soldados do Império caíram. Estavam tão preocupados em atacar Gwendolyn diante deles que estavam lamentavelmente despreparados para lidar com um ataque por trás. Erec não lhes deu hipótese de se organizarem. Ele colocou os seus navios em modo de batalha completa, dirigindo-os a todos para o seguirem em fila única, e para forçarem um caminho através do bloqueio do Império. Ele liderava o caminho. Com o seu casco com ponta de ferro, ele colidiu com o primeiro navio do Império, criando um buraco no seu lado e enviando dezenas dos seus homens ao mar com a colisão. O navio do Império inclinou-se e balançou desviando-se do caminho, e quando o navio de Erec passou a navegar, todos os seus homens dispararam flechas e lanças, matando todos os seus soldados à queima-roupa antes que eles pudessem montar uma defesa. Com uma abertura criada na frota do Império, Erec continuou a quebrar o bloqueio, com os seus navios a seguirem-no, até que finalmente ele emergiu do outro lado, na Baía Rasa. Ao passarem, os soldados do Império, com os seus navios nas proximidades, dispararam de volta; alguns tentaram saltar

para o navio de Erec, mas Erec e Strom lideraram os seus homens numa defesa, dando um passo para a frente e esfaqueando e golpeando os atacantes, chutando-os para trás sobre a amurada, de volta ao mar. Os soldados das Ilhas do Sul eram demasiado duros, tinha visto muitas batalhas, para que pudessem ser dissuadidos por qualquer inimigo e desistissem. Eles viviam para dias como aquele, batalhas como aquela. Era com o que sonhavam quando eram crianças. Os homens de Erec lutavam como homens que tinham a vida em risco e, em pouco tempo, os soldados do Império perceberam o erro que tinha feito ao tentar entrar no navio. As águas estavam cheias de soldados do Império feridos e que se debatiam, com os seus salpicos omnipresentes a encher o ar. Alistair estava no convés, perto de Erec, e quando mais do que um soldado do Império rompia as fileiras e avançava para ela, assumindo que tinha encontrado um cenário fácil, ela, ali de pé posicionada, calmamente levantava a palma da mão e apontava-a para os homens. Ao fazê-lo, os soldados paravam nos seus trilhos, caindo para trás e aterrando achatados de costas, mortos. Erec olhava por cima da batalha, e não estava preocupado para ela; ele conseguia ver que o seu poder tinha sido restaurado, e que ela estava mais forte do que nunca. Os homens do Império não se conseguiam aproximar dela. A frota de Erec avançava na direção da Baía Rasa, e ele dirigia os navios para os navios do império que estavam a rodear Gwendolyn e os seus homens. Ele embateu neles, irrompendo pelo bloqueio e, por fim, libertou-a e fechou o espaço, para que ele e os seus navios agora se juntam-se com os dela, todos eles uma força unificada, enfrentando o Império juntos. Erec viu o olhar emocionado no rosto de Gwendolyn, nos rostos de todos os seus homens, Kendrick, Brandt, Atme, todos os seus irmãos de Prata. Ele conseguia ouvir os gritos de alegria dos seus homens ao terem irrompido e juntando-se à batalha mesmo a tempo. No entanto, eles não tiveram tempo para comemorar. A frota do Império estava a reagrupar-se rapidamente, atacando novamente. Erec virou-se e viu mais centenas de navios a passarem para a Baía. "E agora, Rainha?", perguntou ele a Gwendolyn, sabendo que a sua decisão seguinte iria decidir o resultado daquela batalha - e confiando nela, como faria o seu pai, para decidir bem. Respeitá-la, afinal, era como respeitas o rei MacGil, um homem que Erec tinha amado. Todos os comandantes olhavam para Gwendolyn e quando ela olhou para trás e para a frente da frota do Império para as margens do Anel, Erec podia ver que ela tinha chegado a uma decisão. "Junta todos os nossos navios", anunciou ela, "e incendeia-os." Erec ficou, a princípio, chocado com o seu comando; mas enquanto observava os navios do Império a encher o porto, ele percebeu que a ideia dela era brilhante. Um grande incêndio iria criar um gargalo, impedir o porto por um tempo e manter as forças do Império na baía; seria dar-lhes tempo suficiente para desembarcar e nadar para a costa, e fazer com que ganhassem algum tempo, até, para entrar no Anel. Eles também não poderiam vencer aquela batalha em terra; mas a pé, pelo menos, na pátria que conheciam, poderiam travar a luta das suas vidas. Queimar os navios era um ato ousado. Era a decisão corajosa de um bom líder. "Minha Rainha", disse Koldo, "se nós queimarmos os nossos navios, não temos mais nada. Temos apenas o Anel, e nenhuma outra escolha." Gwendolyn concordou. "E é exatamente por isso que devemos fazê-lo", ela respondeu. "O Anel é a nossa casa agora. Para a vida ou para a morte. Não pode haver outra opção." Erec ouviu as cornetas, viu o Império a reagrupar, e viu-os a posicionar os canhões nos seus navios; ele sabia que seria apenas uma questão de tempo até que eles disparassem. Gwen assentiu e Erec gesticulou para os seus homens, assim como fizeram todos os outros comandantes, e eles rapidamente acenderam e distribuíram tochas. Todos eles tocaram com as tochas nas velas, no convés, em qualquer superfície que encontrassem. E, em breve, os navios estavam em chamas.

Uma parede maciça em chamas propagava-se na direção deles. Gwen juntou-se aos outros e todos eles saltaram do navio, para o mar, milhares do seu povo a entrar nas águas, nadando para a costa, para a sua casa nova e definitiva. Agora, eles não tinham escolha. * Reece cortava e golpeava o seu caminho através dos Wilds, eufórico por estar de volta ao Anel, com o seu coração a bater com força enquanto corria ao lado dos seus irmãos, todos eles fazendo o seu caminho tão rápido quanto conseguiam a partir da costa. Não muito atrás, na Baía Rasa, o Império, ele sabia, estava a reagrupar-se, perseguindo e fazendo o seu caminho, mais perto a cada momento. Reece e os outros não tinham um segundo a perder. Reece corria ao lado dos seus irmãos da Legião e Stara, Gwendolyn, Kendrick e todos os outros. Ele cortava a moita e estava surpreendido com o crescimento selvagem das plantas e ervas no Anel desde que tinham saído. Ramos enormes bloqueavam o caminho, arranhando-os de todas as maneiras. Ao passar, ele segurou a mão de Stara com a mão livre; ela ainda fraca de sua jornada. Era surreal estar de volta de novo ao Anel e era surreal, depois de todo esse tempo, estar de volta ao lado da sua irmã, para se reunir com os seus irmãos, Kendrick e Godfrey, com os membros de Prata, Erec, Brandt e Atme. Ele estava ansioso para passar algum tempo com eles, mas agora, não havia tempo. Eles estavam todos muito ocupados correndo pelas suas vidas, tentando distanciar-se do Império e chegar ao Desfiladeiro. Ele sabia que eles estavam numa situação desesperada; enquanto verificava por cima do ombro, ele viu grandes nuvens de fumo negra a subir no horizonte, o que restava da sua frota em chamas. Ele já conseguia ouvir os gritos e cornetas ao longe. Ele suspeitava que o Império já estivesse em torno dos navios em chamas e atingido a costa. Suspeitava que em breve eles iriam alcançá-los, e que seria apenas uma questão de tempo até que eles estivessem em número bem menor em terra. Reece olhou para a frente, a correr parecia que há horas, coberto de suor. Ele sabia que em breve eles iriam chegar ao Desfiladeiro. Mas e a seguir? O Escudo já não existia; eles não tinham nada para protegê-los das hordas do Império. Mesmo se eles conseguissem atravessar o desfiladeiro, eles seriam todos mortos dentro do Anel, ou forçados a fugir novamente. Ele se perguntava o que Gwendolyn engendrado. Enquanto corria, Reece persentiu movimento com o canto do olho, e, de repente, ele viu uma besta, alta, do tamanho de um gorila, com pele lisa verde, garras longas e olhos vermelhos brilhantes, a saltar para fora da floresta. Ela saltou diretamente para Stara, e Reece reagiu. Ele aproximou-se, oscilou a sua espada, e cortou-a ao meio antes das suas garras a despedaçarem. Era a décima besta do género que ele matava na última hora. A estrada estava repleta de carcaças daquelas coisas. Como se o povo não tivesse o suficiente com que se preocupar, eles agora também tinham de considerar os milhares de animais que vagueavam pelo Wilds. Através das árvores grossas, Reece vislumbrava o céu. Ele observava-o, esperando por um sinal de Thor, de Lycoples. Ele sentia muita falta do seu melhor amigo. Mas ele não estava em lado nenhum. Reece sentia falta do seu amigo, mas ele estava resignado a ter de lutar aquela batalha final sozinho. Eles viraram numa esquina e, quando atravessaram os bosques escuros, Reece olhou à distância e ficou impressionado com a vista diante deles: o Desfiladeiro. A visão deixou-o sem fôlego, como sempre tinha feito. Olhando para ele agora, era como se fosse a primeira vez que ele lhe punha os olhos em cima, uma enorme fenda na terra, que se estendia tão longe quanto conseguia ver, com a névoa à roda dentro dele. Isso fê-lo sentir-se minúsculo no universo.

Eles correram para o Travessia de Leste, uma ponte sem fim que atravessava o Desfiladeiro. No passado, a ideia de atravessar para o outro lado teria feito com que ele se sentisse seguro, sabendo que quando eles atravessavam, eles seriam protegidos pelo Escudo. Mas agora, com o escudo em baixo, era como qualquer outra ponte, deixando-os tão vulneráveis a ataques como em qualquer outro lugar. Pararam todos, reunindo-se na base da ponte, com Gwendolyn à frente e todos a olhar para ela. Era um grande grupo de pessoas, compreendendo Kendrick e a antiga Prata; Erec e os homens das Ilhas do Sul; Gwendolyn e Koldo e os exilados do Cume; e, claro, o próprio Reece e os seus irmãos da Legião. Era toda uma nação pronta para começar a vida novamente, empenhados em voltar a entrar no Anel. "Mulheres e crianças primeiro!", gritou Gwendolyn. "Os idosos, os jovens e todos os cidadãos que não podem lutar - todos vocês atravessem agora, entrem no Anel. O resto de nós, todos aqueles que podem lutar, vão ficar aqui a proteger o vosso caminho até vocês terem atravessado". "Vocês não podem!", gritou um cidadão. "Venham connosco! O Império avança com um milhão de homens, enquanto vocês são apenas centenas. Como é que nós podemos atravessar e deixar-vos aqui, entregues à vossa morte?" Gwendolyn abanou a cabeça com firmeza. "Atravessem!", ela ordenou. "Entrem bem para as profundezas do Anel, encontrem refúgio. Vamos matar tantos quanto conseguirmos. Talvez eles parem connosco." "E se não tiverem sucesso?", perguntou outro cidadão. Gwen olhou para trás, sombria, séria no dia silencioso, com o único som a ser o do vento uivante. Reece podia ver a determinação no rosto da sua irmã. "Então morreremos juntos num último ato de coragem", ela respondeu."Agora vão", ordenou Gwen aos seus homens. Eles chegaram-se à frente e empurraram as pessoas para a ponte; mas o povo estava ali, claramente não querendo sair do lado de Gwen, dedicado a ela como um líder. Koldo adiantou-se e encarou-os. "Pela autoridade do meu pai", ele explodiu, "Rei do Cume, eu ordeno ao meu povo para que vá! Atravessem essa ponte!" No entanto, o seu povo ficou ali também, imóvel. "E todos vocês das Ilhas do Sul", gritou Erec. "Vão!" No entanto, o seu povo permanecia ali, também, ninguém disposto a ceder. "Se morreres aqui, então nós vamos morrer aqui contigo!", gritou alguém de volta, ouvindo-se um grito de aprovação entre as pessoas. No entanto, de repente Reece ouviu um barulho atrás dele, que lhe levantou o cabelo na parte de trás do seu pescoço. Ele virou-se e viu, irrompendo para fora da floresta, para a clareira, o exército do Império. Era uma visão inspiradora - milhares deles irromperam pelos Wilds, soltando um grande grito de guerra, de espadas erguidas e aproximando-se deles. Atrás deles, surgiram mais milhares; era como se toda a floresta estivesse preenchida com eles, fileiras de soldados a marchar em frente, parecendo que a própria morte lhes havia aparecido. De costas para o Desfiladeiro, os exilados do Anel, do Cume, e das Ilhas do Sul - todos eles, estavam encurralados. Eles não tinham para onde correr. "VÃO!", gritou Gwen, de frente para o seu povo. Desta vez, a sua voz carregava uma grande autoridade, e, desta vez, eles ouviram. As mulheres e crianças, os idosos, os aleijados, todos aqueles cidadãos incapazes de lutar, finalmente, viraram-se e começaram a correr através da ponte, indo para o continente do Anel. "Fechar as posições!", gritou Gwendolyn aos seus soldados que ficaram para trás. Kendrick e os seus cavaleiros, Erec e os seus guerreiros, Alistair, Koldo, Ludvig, Kaden e os seus cavaleiros, Reece e a sua Legião, o seu irmão Godfrey e os seus amigos, Darius, Steffen - e todos os guerreiros que podiam lutar - todos eles se aproximaram, à volta de Gwendolyn como uma forte parede,

todos eles a bloquear a entrada para a ponte, preparando-se para um ataque. Reece, de pé ao lado da sua irmã, virou-se para Stara e Angel, que ainda permanecia ao seu lado. "Vai", ele incitou a Angel. "Vai com os outros!" Mas ela ficou ali e abanou a cabeça. "Nunca!", disse ela. Reece virou-se para Stara. "Vai", disse ele. "Imploro-te." Mas ela olhou para ele como se ele fosse louco - e com um toque distinto, ela desembainhou a sua espada. "Tu esqueces-te quem eu sou", disse ela. "O meu pai era um guerreiro; os meus irmãos eram guerreiros. Fui criada nas Ilhas de Cima, uma nação de guerreiros. Sou melhor guerreira do que tu. Podes correr se quiseres - mas eu vou ficar aqui." Reece sorriu para ela, lembrando-se porque gostava dela. Quando o Império trovejou mais perto, todos eles estavam ali unidos, todos preparados para marcar uma última posição juntos. Todos sabiam que não conseguiriam - e, no entanto, nenhum deles se importava e nenhum deles perdeu determinação. Apenas poder estar ali naquele campo de batalha hoje, Reece sabia, era um dom. Ganhando ou perdendo, havia-lhes sido concedido o dom da batalha. Apenas uma pessoa, Reece percebeu, estava a faltar; apenas uma outra pessoa tornaria tudo aquilo completo. Era o homem pelo qual o seu coração lhe doía muito, era o seu melhor amigo, o seu parceiro na batalha: Thorgrin. Reece olhava para o céu, esperando, desejando – e, ainda assim, não havia nada. Os gritos do Império estavam mais altos, a corrida deles agitava o chão, à medida que eles se aproximavam cada vez mais perto... Em breve, eles estariam apenas a alguns pés de distância, avançando a toda a velocidade, tão perto que Reece conseguia ver o branco dos seus olhos. Ele preparou-se, antecipando um golpe terrível quando vários soldados do Império levantaram as suas espadas e se concentraram nele. Stara um passo à frente, desembainhou o seu arco, mirou e disparou - matando um soldado apenas a alguns pés de distância, o primeiro a derramar sangue na batalha. Os primeiros golpes do Império vieram como uma parede, como uma avalancha. Reece levantou a espada e escudo, bloqueando vários golpes de uma só vez de todos os lados. Ele virou-se com o seu escudo e bateu na cabeça de um e, em seguida, continuou a girar e esfaqueou um no intestino. Mas isso deixou o seu flanco exposto, e um outro soldado atingiu-o na caixa torácica com o seu escudo, mandandoo para o chão, com a cabeça à roda por causa da pancada. O campo de batalha estava cheio com o som estridente das armadura, das espadas, com a cacofonia de duas paredes de metal a colidir umas com as outras, enquanto os homens lutavam uns com os outros pelas fileiras acima e abaixo, num cenário violento, sangrento, lutando corpo-a-corpo, nenhum deles cedendo uma polegada. O ar foi rapidamente preenchido com o som dos gritos dos homens, enquanto corpos caiam e manchavam de sangue o chão. Sob o comando de Koldo, Ludvig e Kaden, os soldados brilhantes do Cume não esperaram pelo Império, atacando eles próprios, com espadas e machados, derrubando uma dúzia de homens antes do Império conseguir reagrupar. Quando os soldados do Império chegaram até eles, balançando para as suas cabeças, eles baixaram-se e deixaram-nos passar a voar por si e, em seguida, viraram-se e golpearam, com a sua dinâmica a deixá-los cair de cara na lama. Kaden foi especialmente impressionante, bloqueando o golpe de um soldado antes que ele matasse o seu irmão Ludvig e, depois, esfaqueando o homem no intestino. Ludvig olhou para o seu irmão mais novo com surpresa e gratidão. "Salvaste-me", disse Kaden. "Não te esqueceste de mim no deserto. Achavas realmente que não eu te iria recompensar?" Erec levou os seus homens das Ilhas do Sul com uma estratégia diferente, todos eles alinhados na sua

armadura dourada, perfeitamente disciplinados, uma unidade perfeitamente afinada ao avançarem para a frente e, sob o comando de Erec, todos lançaram lanças juntos. Uma parede de lanças navegou através do ar, derrubando dezenas de soldados do Império que se aproximavam e fazendo com que os soldados do Império por trás deles tropeçassem e caíssem nos seus corpos. Mal se tinham reagrupado quando os soldados do Erec lançaram uma nova rodada de lanças – e depois outra. Quando eles ficaram sem lanças, Erec e os seus homens correram para a frente com um grito, puxando as suas espadas, e esfaqueando os feridos onde caíssem - antes de se virarem para a onda de atacantes seguintes. Erec baixou-se e evitou vários golpes. Em seguida, chutou um soldado, deixando-o para trás. Em seguida, virou-se e cortou a cabeça do outro. Ele usou seu escudo como uma arma, também, esmagando e atordoando os seus adversários antes de prosseguir com a sua lâmina. Ele era uma força imparável, um exército de um homem só. E os seus homens, Strom na vanguarda, eram quase tão bons quanto ele. Gwendolyn, de pé no meio de tudo aquilo, levantou o seu arco, atirando vários soldados ao chão antes de eles se aproximarem de si. Em torno dela estavam Kendrick, Brandt e Atme de guarda, olhando por ela. Quando Gwen ficou sem flechas e os soldados do império se aproximaram muito, Kendrick deu um passo adiante, golpeando-os, mantendo-os afastados, com Brandt e Atme e o resto da Prata a juntarem-se, reunindo-se em torno da sua Rainha. Steffen parou bem ao lado deles, guardando Gwendolyn de todas as direções, cortando e combatendo qualquer homem que chegasse muito perto. E se alguém escorregasse por entre as fendas, Krohn pulava uma e outra vez, derrubando um soldado após o outro, enquanto girava em torno de Gwendolyn. Alistair ficou perto de Gwen e ela estendeu as palmas das mãos, virando-as para os soldados, disparando bolas vermelhas de luz. Elas derrubavam soldados por todos os lados, atirando-os ao chão a dez pés de distância. Godfrey fez o seu melhor para lutar, empunhando uma espada desajeitadamente ao lado de Akorth, Fulton, Ario e Merek. Mas ele não era um guerreiro, e depois de alguns golpes desajeitados, ele logo encontrou-se fora de equilíbrio, cambaleando, exposto. Um soldado particularmente grande deu um passo adiante, fez uma careta e ergueu um machado de batalha - e Godfrey sabia que ele estava prestes a morrer. Houve um ruído de metal. Godfrey olhou com gratidão e viu Darius a segurar a espada, bloqueando-a, poupando a sua vida. Merek correu para a frente, também, e esfaqueou o soldado no intestino. E quando outro soldado se lançou para as costas expostas de Darius, Dray correu e mordeu o seu tornozelo. Ario empunhava a sua funda, assim como Angel, e os dois abateram dezenas de soldados. Akorth e Fulton tentavam lutar, mas em pouco tempo os seus escudos foram-lhes arrancados, e eles, também, estavam à beira da morte. Mas Dray avistou-os e correu para a frente, poupando-os, rosnando ao morder os seus atacantes, dando a Akorth e a Fulton a oportunidade de se apressarem e fugirem. De Koldo a Erec, a Kendrick, a Darius, a Alistair, a Gwendolyn, todos eles estavam ali a lutar juntos, ombro a ombro, um muro de guerreiros unidos na vontade, unidos no amor pela sua terra natal, nenhum desistindo, nenhum recuando. Todos eles lutavam pelo Anel, pelo último lugar que eles tinham no mundo, aquela terra que era mais do que apenas um lugar. Mas, quando os sóis se afundaram mais e as horas se misturavam, Reece, exausto, com o suor a fazer arder-lhe os olhos, coberto de sangue, com pilhas de corpos aos seus pés, sentiu os seus ombros cansados. Ele estava a abrandar, ficando descuidado; o seu tempo de resposta não era tão rápido e ele começou a dar balanço apaticamente. Quando olhou em volta, notou que todos os seus homens estavam a ficar cansados. Mais e mais gritos de morte ecoaram - e não do lado do Império. As suas fileiras estavam a diminuir. Reece gritou quando recebeu um golpe no pescoço, mas ele obrigou-se a desviar isso da sua mente.

Stara avançou e esfaqueou o agressor no intestino com a sua lança. Era um consolo pequeno. Sabendo que ia morrer, uma parte de Reece, contra a sua vontade, esperava que aquela ferida acabasse com ele, que aquilo tudo finalmente acabasse - enquanto que outra parte dele esperava que aquele dia nunca terminasse. Ele queria matar tantos homens quanto conseguisse antes de ir, para morrer com honra, lutar até ao seu último golpe de espada, a maior batalha que ele iria lutar na sua vida, ele sabia. Mas quando mais uma onda de novos soldados do Império surgiu da floresta, ele não sabia quanto tempo mais poderia durar. Por favor, Deus, ele rezou: empresta-me força para os meus ombros. Permite-me levantar a minha espada uma última vez. Dá-me a força para morrer com honra. * Godfrey segurava a sua espada com duas mãos trémulas, com Akorth, Fulton, Merek e Ario ao lado dele, Darius por perto com Loti e Dray aos seus calcanhares, e ele obrigou-se a manter-se firme, a superar os seus medos. O Império continuava a avançar em ondas intermináveis, como se não houvesse nenhum fim para os soldados no mundo, um novo muro de homens vindo para matá-lo. Ele sabia que aquele era o fim e uma parte dele, tremendo de medo, queria acabar logo com aquilo, virar-se e correr. Mas outra parte dele obrigou-se a ficar forte, não querendo saber das consequências. Ele estava cansado de correr, de ter medo, como tinha sido sempre durante toda a sua vida. Alguma coisa tinha mudado dentro dele, e agora que, especialmente, ele estava de volta à sua terra natal, àquele lugar onde a sua família tinha lutado tão bravamente, por tantas gerações, ele estava a ter uma perceção. Ele percebeu que tinha vindo a resistir toda a sua vida: resistir ao seu pai, resistir aos seus irmãos, resistir ao seu papel na família real, resistir à vida de um guerreiro. Resistir à responsabilidade. Resistir à valentia. Pela primeira vez na sua vida, ele percebeu quanta energia toda aquela resistência levava. Pela primeira vez, olhando a face da morte, ele não queria mais resistir - queria participar. Para abraçar a sua família. Para abraçar a sua linhagem. Para se tornar um herói como o seu pai, como os seus irmãos. Ele queria honra. A Honra, ele percebeu, tinha sempre persistido bem na sua frente, mas fora de alcance. Ele tinha sempre tido medo de chegar e agarrá-la, abraçá-la. Mas agora, finalmente, percebia como era fácil. Para alcançar a honra, só tinha de agir com honra, agir de forma honrosa. Podia abraçar a honra a qualquer momento. A honra está sempre à espera, como um pai, que nunca deixa de acreditar em ti. Godfrey deu um passo adiante com um grande grito de guerra, libertando todo o seu medo reprimida, a sua raiva, o seu desejo de se proteger. Ele levantou a sua espada e trouxe-a para baixo num soldado do Império que ia esfaqueá-lo e, ao fazê-lo, ele cortou através da armadura do soldado e golpeou-o no peito. Ele estava surpreendido com a sua própria força, a sua própria velocidade. Aquele soldado tinha o dobro do seu tamanho, e, certamente, tinha matado muitos homens. Godfrey olhou para baixo, chocado, quando o soldado caiu diante de si. Ele não podia acreditar no que tinha acabado de fazer; ele era um estranho para si mesmo. E ele gostava desse estranho. Ao lado dele, Darius lutava de forma brilhante, serpenteando-se entre os soldados, matando o Império com uma vingança, dois, três, quatro de cada vez, enquanto do outro lado dele, Loti atirava lanças e o seu irmão Loc, mesmo coxeando, empunhava com a sua mão boa, um longo facalhão, abatendo soldados à sua volta. Merek e Ario lutavam como homens possuídos, com Merek a cortar homens com o seu punhal e Ario atirando com a sua funda e desarmando os soldados. Akorth e Fulton, a determinada altura, pareceram perder a coragem e começar a retirar-se para a ponte com todos os outros cidadãos, mulheres e crianças. Mas Godfrey ficou surpreso e feliz por vê-los ter uma mudança de coração, vê-los voltar atrás e atirarem-se para a batalha. Eles estavam acima do peso, desajeitados, fora de equilíbrio, mas eles

usaram o seu peso bem, conseguindo derrubar vários soldados ao chão. Rolando no chão, eles usaram grandes rochas que encontraram e usaram-nas para bater nos seus atacantes até aqueles ficarem inconscientes. Godfrey, com as veias a bombear adrenalina, com a emoção de batalha, com o senso de propósito de defender a sua família, a sua única pátria, finalmente sentia um senso de propósito no mundo. Sentia-se mais do que nunca perto do seu pai, mais perto do seu povo, de Kendrick e dos cavaleiros. Pela primeira vez, sentia-se como um deles. Pela primeira vez ele entendia, finalmente, o que significava cavalaria. Significava não ceder aos medos; significava perder-se a si próprio no campo de batalha; significava abrir mão da vida por aqueles que se amava. Pela primeira vez, Godfrey estava com falta de ar, coberto de feridas - e não se importando. Ele ia morrer naquele dia, ele tinha a certeza disso - especialmente à medida que irrompiam da floresta ondas frescas de soldados do Império - e, mesmo assim, ele não se importava mais. Ele morreria, pelo menos, com valentia. * Gwendolyn estava perto da borda do Desfiladeiro, empurrada para trás todo o caminho até a borda, como o foram todos os seus homens, todos lutando pelas suas vidas, mas não sendo capaz de conter a maré do Império. Os dois sóis quase a porem-se. Eles tinham estado a lutar o dia inteiro, tinham apresentado uma defesa mais heróica do que ela jamais poderia ter sonhado, e por isso, ela estava tão grata. Mas agora, a maré tinha virado. Ela ouviu um gemido e viu vários soldados do Império a pontapearem Krohn e a baterem-lhe com os seus escudos; ela viu Kendrick esfaqueado no braço, quando uma meia dúzia de soldados do Império o cercaram; ela viu Darius cair de joelhos, esmagado por um martelo de guerra no ombro; ela viu Dray apanhar com uma seta na sua pata, caindo; e ela viu Erec e os seus homens, Koldo e os seus homens, todos os do seu povo a serem empurrados para trás numa onda imparável. Em breve, ela sabia, não haveria nenhum lugar para se protegerem. Apenas a alguns pés, iriam todos ser empurrados sobre a borda do Desfiladeiro, para a morte abaixo. Gwendolyn, num ato final de desespero, olhou para cima, procurou nos céus, e rezou. Thorgrin, meu amor. Onde estás? Eu preciso de ti agora. Eu preciso de ti mais do que nunca. Gwen observava, os olhos fixos no céu, quando um soldado Império se adiantou, levantou um escudo e arrancou-lhe o arco e a flecha da mão e, em seguida, bateu-lhe na cabeça. Ela cambaleou e caiu de costas, dormente demais para sequer sentir mais a dor. Ela olhou para cima a partir daquela posição estratégica, procurando os céus, com os seus ouvidos a tilintar, o mundo inteiro parecendo atordoado. Ela tentou concentrar-se, com a sua visão embaciada, quando viu um soldado do Império ficar em cima dela e levantar uma espada com ambas as mãos. Ela sabia que a sua hora havia chegado. Mas enquanto ela continuava a olhar para cima, para além dele, por cima do ombro dele, Gwen tinha certeza que tinha visto algo. No início, ela pensou que era os seus olhos a brincar com ela. Mas então, quando olhou de perto, o seu coração pulou de alegria. Ela sentiu vontade de chorar. Porque de lá, rompendo as nuvens, a mergulhar a pique com um olhar de vingança, de fúria - de absoluta confiança – vinha um homem que ela amava e conhecia como se amava a ela própria. Ele era a soma de todas as suas esperanças e sonhos, de tudo o que ela sempre tinha querido, e ele estava ali. Finalmente ali. Ali, a voar, descendo para ela, estava Thorgrin.

CHAPTER FORTY THREE Thor corria nas costas de Lycoples mais rápido do que alguma vez ele tinha corrido, agarrando as suas escamas com uma mão e segurando Guwayne com a outra, e quando ele pediu a ela para ir mais rápido, ele rezou para que não fosse tarde demais. Ele tinha atravessado metade do mundo desde que tinha fugido da Terra do Sangue com Guwayne, em êxtase por poder segurar novamente no seu filho - e desesperado para chegar a Gwendolyn e aos outros a tempo de levar de volta o Anel. De fato, ao voar, o Anel do Feiticeiro latejava no seu dedo, e ele sabia que ele estava a puxá-lo para a sua terra natal, como se estivesse ansioso para voltar lá ele próprio. Eles voaram sem parar durante toda a noite sob a luz da lua cheia, através do amanhecer, através de um outro dia e agora, finalmente, através do cair do sóis. Tudo junto, ele havia sentido o Lorde do Sangue e o seu exército atrás dele, perseguindo-o. Ele sabia que ele teria de enfrentá-los em breve. Mas o tempo não era agora. Agora, em primeiro lugar, ele tinha de alcançar o Anel a todo o custo. Ele correu para leste, sabendo que o seu amado Anel estava em algum lugar no horizonte, ansioso para colocar os olhos nele novamente, aquele lugar para onde ele nunca pensou que fosse voltar. Ele pensava em ver Gwendolyn, Reece, Kendrick e a Legião e todos os seus irmãos de armas de novo, todos eles esperando por ele, precisando dele - e ele sentiu uma urgência para além de qualquer que ele já havia sentido. Ele só esperava que não fosse tarde demais, e que não estivessem já mortos. Guwayne chorava em seus braços, e Thor imaginava a alegria de Gwendolyn ao vê-lo novamente, ao estarem finalmente juntos. Ele sentia-se orgulhoso por ter cumprido a missão de ter recuperado o Anel do Feiticeiro, mas também por ter recuperado o seu filho. Ele havia prometido, há muitas luas, que não regressaria a ela de mãos vazias, sem o filho deles – e não regressou. Thor ouviu atrás de si, em algum lugar no horizonte, os terríveis gritos das criaturas do Lorde do Sangue, levantadas a partir das profundezas do inferno, uivando como o tinham feito durante toda a noite. Ele sabia que tinha provocado uma força ainda mais forte do que a do Império, e ele sabia que haveria um preço a pagar. O seu exército iria segui-lo em qualquer lugar, e Thor assumiu que iria encontrá-lo, que todos iriam convergir no Anel. Faria uma batalha épica com o Império ainda mais. Thor podia sentir o destino do Anel pendurado na balança, e ele sabia que poderia ir de qualquer maneira. Ele tinha um grande poder agora, com o Anel do Feiticeiro e Lycoples debaixo dele - mas o Império tinha um vasto número e o alcance do Lorde do Sangue estava para além de todo o poder. Thor sentiu que estava a voar para o seu destino, o dia em que ele foi escolhido, a batalha que ele nasceu para lutar. A sua vida inteira, tudo que tinha aprendido, toda a sua formação, tudo levava até o momento final. Aquela seria a batalha decisiva para si mesmo e para o seu povo. Quando Lycoples mergulhou através das nuvens, de repente, a massa de terra do Anel ficou à vista, e o coração de Thor bateu mais rápido ao ver lá de cima a sua antiga casa, perfeitamente redonda com suas margens irregulares e altas falésias. Ele passou a voar sobre a sua longa costa, com as suas bordas serrilhadas de pedras, elevando-se acima do oceano, sobrevoou os Wilds, o longo trecho de madeiras escuras para além dele, tão rápido que mal conseguia respirar. Então, finalmente, a paisagem abriu-se para além dela, e Thor ficou sem fôlego, como sempre, ao ver o abismo do Desfiladeiro abrir-se, o lugar mais místico na terra, com a longa ponte que atravessava para o continente do Anel. Quando ele olhou para baixo, Thor ficou ainda mais chocado ao ver o que parecia ser um milhão de homens, soldados do Império que estouravam através dos desertos, um mar de negro a aproximar-se do Desfiladeiro. E ele ficou aterrorizado ao ver que eles estavam a atacar. Ali, de costas para o Desfiladeiro, estava todos os que ele amava no mundo, preparando uma defesa heróica. Ali estavam Reece, a Legião, Kendrick, Erec, a sua irmã, Alistair - e acima de tudo, no meio, o seu coração alegrouse ao ver, estava Gwendolyn. Ela estava de costas, olhando para cima, com um soldado do Império de pé

sobre ela, prestes a matá-la. "PARA BAIXO, LYCOPLES!", gritou Thor. Lycoples não necessitava de estímulo. Gritou, como se ela também o tivesse visto, e mergulhou quase diretamente para baixo, com o estômago de Thor a cair enquanto segurava Guwayne com força, agarrando Lycoples com a mão livre. Eles mergulharam cada vez mais para perto da Terra, Thor desejando que Lycoples fosse mais rapidamente, e, quando eles quase atingiram o chão, eles estavam tão perto agora que Thor conseguia ver os rostos apavorados em todos eles, lá em baixo, olhando para cima e olhando a morte de frente . E Thor ficou ainda mais chocado quanto Lycoples, de repente, abriu a boca e, pela primeira vez desde que ele a tinha conhecido, ela rugiu. De repente, seguiu-se um fluxo de fogo quando Lycoples esticou o seu pescoço para trás e respirou com toda a sua fúria. O fogo choveu como a mão de Deus - e tudo mudou no campo de batalha abaixo. Ela apontou para o inimigo, com cuidado para evitar Gwen e o seu povo. Centenas de soldados do Império ficaram, de repente, em chamas, gritando, agitando-se. Ela voava pelas suas fileiras, respirando fogo uma e outra vez, dizimando uma onda de soldados do Império após a outra. Thor ficou especialmente aliviado ao ver Gwendolyn levantar-se, poupada do golpe fatal de espada mesmo a tempo. Ele conseguia vê-la a olhar para ele com amor e esperança, especialmente quando o viu a segurar Guwayne e mais do que tudo, ele queria estar com ela, também. Mas primeiro, eles tinham mais trabalho a fazer. Lycoples, depois de dizimar os milhares de soldados do Império no Desfiladeiro, hoje uma enorme parede de fogo, virou-se para os Wilds, para as fileiras do Império que saíam de lá e que, agora, estavam a tentar virar-se, para se protegerem nas árvores e esconderem-se. Não haveria onde se esconderem, entretanto. Lycoples mergulhou baixo, voando sobre as copas das árvores. Thor ficou aterrorizado quando eles chegaram tão baixo que quase lhes tocavam. Abaixo, correndo debaixo das árvores, estavam as divisões dos soldados do Império, momentos antes tão confiantes, prontos para destruir o Anel, e agora correndo para se esconder. Lycoples abriu as suas mandíbulas e soltou uma torrente de chama, pondo os Wilds em chamas. Grandes gritos surgiram quando ela matou soldados do Império aos milhares, colocando toda a floresta em chamas. O fogo subiu para o céu, espalhando-se por todo o caminho até a base do Desfiladeiro. Alguns soldados do Império tentaram sem convicção resistir, atirando flechas, atirando lanças ou levantando escudos para os seus rostos. Mas Lycoples estava a mover-se demasiado rapidamente e as suas chamas derretiam-nos a todos. As armas humanas eram inofensivas para ela. Thor, nunca a tendo visto assim, ficou surpreendido com o quão poderosa ela se tinha tornado. Logo, porém, veio um ruído áspero, e Thor olhou para baixo e percebeu que, ao abrir a boca, Lycoples era incapaz de respirar mais chama. Ela tentou de novo e de novo, mas não saíram mais chamas. Ela ainda era jovem, Thor percebeu, um bebé dragão, e ela precisava de tempo para se recuperar. Thor olhou para baixo e viu, com consternação, dezenas de milhares de mais tropas do Império no seu caminho, marchando através do Wilds. Era inacreditável, depois de toda aquela destruição, as ondas de homens não paravam de chegar. Thor circulou de volta com ela, percebendo que ele precisava colocar Gwendolyn e os outros em segurança antes da próxima onda de soldados chegar. Quando eles voaram de volta para a clareira, ao longo da borda do Desfiladeiro, Thor sentiu o Anel do Feiticeiro a vibrar na sua mão. Ele sabia que aquele anel deveria ser capaz de restaurar o Escudo - e enquanto voava sobre ele, ele esperava vê-lo voltar, como nos dias antigos. Mas isso não aconteceu. Thor estava confuso. Ele circulou pelo Desfiladeiro uma e outra vez, sentindo

o Anel do Feiticeiro a vibrar, esperando que o Escudo subisse. Por alguma razão que ele não entendia, isso não aconteceu. Ele percebeu que algo estava faltando; que havia algo mais que ele precisava para concluir. Thor voltou para o seu povo com um profundo senso de apreensão. Sem o Escudo, e com mais Império a caminho - e o exército do Lorde do Sangue - e com Lycoples incapaz de respirar fogo, o seu povo foi todo deixado numa posição precária. Ele teria de colocá-los em segurança rapidamente. Lycoples desceu, com Thor dirigindo-a para pousar perante Gwendolyn, e, assim que o fizeram, dezenas aglomeraram-se em torno deles. Todo o seu povo estava ali, sobreviventes atordoados, olhando para a parede de fogo, salvos por Thorgrin e Lycoples e os olhos cheios de gratidão. A todos eles tinham sido dada uma segunda vida. Thor desmontou e, segurando Guwayne, correu e abraçou Gwendolyn. Ele segurou-a firmemente, um alívio momentâneo no meio da carnificina e chamas ardentes. Ele conseguia sentir Gwen a chorar sobre o seu ombro enquanto ela o segurava apertado. Ela inclinou-se para trás e beijou Thorgrin ao olhar profundamente para os seus olhos, num beijo que parecia que durava para sempre. Era surreal segurá-la nos seus braços novamente, estar de pé ao lado dela, no mesmo lado do mundo, depois de tanto tempo, depois de tanto acontecer - depois que parecia tão certo que eles nunca mais se iriam ver novamente. Ela abraçou-o de novo, segurando-o como se tivesse medo de o perder novamente. Ela finalmente olhou para baixo, e Thor estendeu a mão e entregou-lhe Guwayne, todo embrulhado. Ela lentamente levantou o seu cobertor e, então ela explodiu em soluços novamente ao vê-lo, pegando-lhe e apertando-o com força. Ela segurava-o como se nunca mais o fosse deixar ir. Os outros vieram a correr para a frente - Reece, Kendrick, Erec, a sua irmã, Alistair, a Legião - e um a um, ele abraçou todos. Krohn correu para a frente, também, saltando sobre ele, lambendo-o, e Thor abraçou-o como um irmão. Vê-los a todos ali, juntos, todos num só lugar e prestes a tomar de volta a sua terra natal deixava-o animado. Mais do que qualquer coisa, ele queria falar com todos e cada um deles. Mas Thor, de repente, ouviu um barulho, virou-se e olhou ao longe. O seu coração caiu para ver, emergindo das florestas ardentes, mais milhares de soldados do Império - a próxima onda de recrutas, prontos para sangue. Eles eram imparáveis. Thor sentiu o Anel do Feiticeiro a vibrar no seu dedo e a Espada dos Mortos a vibrar enquanto ele a agarrava, e ele sabia que Lycoples tinha levado aquilo até tão longe quanto conseguia - o resto era com ele agora. Thor virou-se e agarrou os ombros de Gwen com urgência. Ele podia vê-la e todos os outros olhando para os Wilds em estado de choque, como se surpreendido por mais soldados ainda poderem estar a chegar. Como se tivessem todos a celebrar demasiado cedo. "O Escudo", disse Thor apressadamente. "Não está recuperado." Gwen olhou para ele e ele podia ver o medo nos seus olhos - ela sabia o que isso significava. "Eu não entendo", disse ela. "O Anel. O Anel de Feiticeiro. Era suposto que…" Thor abanou a cabeça. "Não funcionou", disse ele. "Algo está a faltar." Ela olhou para ele, chocada. "Tu não tens tempo", continuou Thor. "Tu e todos os outros – tens de atravessar agora, para o outro lado do Desfiladeiro. Esta batalha, o que resta dela, é minha agora. Leva o nosso filho, leva estas pessoas, e atravessa." Ela olhou para ele, com terror e saudade nos seus olhos. "Eu jurei nunca mais me separar de ti outra vez", disse ela. "Seja qual for o custo." Ele abanou a sua cabeça. "Eu só posso lutar esta batalha sozinho", disse ele. "Se quiseres ajudar-me, atravessar. Proteger as

pessoas do outro lado. Deixa-me lutar aqui. Esta é a minha guerra agora. E leva Lycoples contigo. A Espada dos Mortes chama por mim, e eu não te posso ter perto de mim quando ela o faz." Ela olhou para ele e a sua expressão, lentamente, transformou-se numa de entendimento. Outro grito de batalha encheu o ar, e os soldados do Império, vendo Lycoples aterrar, incapaz de respirar fogo, foram encorajados. Eles correram-se naquele momento para eles. "VAI!", Thor gritou. Gwendolyn finalmente pareceu entender, e liderou os outros que se viraram e, finalmente atenderam o seu pedido, atravessando rapidamente o Desfiladeiro para proteger os outros que estavam no outro lado, com Lycoples a juntar-se a eles. Thorgrin, ali de pé sozinho, de frente para o exército que chegava, estava desejando que começasse. Ele sentiu o Anel do Feiticeiro a pulsar no seu dedo, sentiu a Espada dos Mortos a latejar na sua mão, e ao desembainhá-la, ela fez um som agudo que parecia atravessar o mundo. A espada estava pronta desesperada - por uma luta. Bem acima, Thor ouviu um grito e olhou para cima e viu Estopheles, a seu velha amiga, circulando, e sentiu-a com ele, sentiu a presença do Rei MacGil com ele, de todos aqueles que lutaram e morreram pelo Anel. E, à medida que milhares de soldados avançavam, Thor sentiu a espada a ganhar vida na sua mão, incitando-o. Tu és um guerreiro, incitava a espada. Tu nunca defendes. Tu nunca esperas pelos teus inimigos! Tu atacas! De repente, Thor avançou para ataque, soltando um grande grito de batalha de sua autoria, mergulhando na multidão, balançando a espada como uma coisa possuída. Ele nunca se sentira tão poderoso, nunca se sentira a mover-se com tal velocidade. A cada golpe, ele matava vinte soldados do Império. Ele batia sem parar, movendo-se como um furacão, matando-os às dúzias, sentindo sua espada a ganhar vida, como uma extensão do seu braço. Ele sabia que aquela era a batalha que tinha sido feita para ele e para a sua espada. Thorgrin sentia-se maior que ele próprio, maior do que alguma vez já se tinha sentido. Estimulado pelo poder do Anel e da espada, ele era como um canal para as energias deles. Ele deixava-os dominar o seu corpo, e quando a luz a brilhar emanava do Anel, ele sentia-se a lançar-se sobre o campo de batalha como um relâmpago, derrubando centenas de soldados de cada vez. Ele movia-se tão depressa, mesmo não entendendo o que estava a fazer. Nenhum dos soldados do Império, apesar de serem em muito maior número, tinha qualquer hipótese. Era como se tivessem todos caminhado para um tsunami. Enquanto antes havia barulho, gritos e caos, agora havia paz, silêncio e quietude. Thor pestanejava várias vezes, respirando com dificuldade, coberto de sangue, tentando entender o que tinha acontecido. Ele olhou em volta e viu ao seu redor, em círculos, montes de cadáveres. Todas as divisões do Império que o tinham atacado. Todos elas, mortas. Thorgrin lentamente voltou a si, numa ténue névoa. Ele virou-se e olhou para trás sobre a ponte e viu, do outro lado, expressões chocadas de Gwendolyn e dos outros, todos a olhar para ele como se ele fosse um deus. Ele havia, sozinho, matado uma divisão inteira de tropas do Império, dez mil homens, pelo menos. Todas as ondas do Império tinham, finalmente, parado. Finalmente, eles já não estavam a ser perseguidos. Mas mal teve aquele pensamento, Thor, de repente, ouviu um barulho horrível nos céus, como um estrondo de trovão, e quando olhou para cima, ficou horrorizado. Ele soube imediatamente que tinha ganho a batalha mais épica da sua vida - apenas para que aquela batalha fosse substituída por outra ainda mais épica que estava para vir. Porque, ao olhar para cima, Thor viu um exército de criaturas do inferno - e à sua cabeça, o Lorde do Sangue com o rosto contorcido em fúria.

Dezenas de milhares das suas criaturas, maiores do que as gárgulas, menores do que os dragões, pretas, peludas, a guinchar, estavam a convergir por trás dele, descendo a pique, diretamente para Thor. Finalmente, eles tinham-no apanhado. Por fim, ele teria de pagar o preço por ter roubado Guwayne. Eles vinham na sua direção como um exército da morte, com as garras estendidas. Thor sabia que estava a começar a batalha da sua vida. Thor estava ali, vendo-os a vir na sua direção e sentiu a Espada da Morte a zumbir nas suas mãos, incitando-o a lutar. Não há nenhum inimigo grande demais para ti, jovem guerreiro! Instou a espada. E na sua mão, segurando a espada, ele sentiu o Anel do Feiticeiro a latejar, enviando-lhe um calor pelo seu braço a incitá-lo a lutar. A primeira gárgulas desceu e Thor golpeou-a, uma e outra vez. Ele não parava de golpear as ondas de gárgulas que mergulhavam sucessivamente, com as garras para fora, na direção do seu rosto, golpeandoas, girando para todos os lados. Ele cortou garras, cabeças, braços; ele esfaqueou-as, rodopiou, sentindo o poder do Anel do Feiticeiro a encorajá-lo à medida que ele as fazia cair à dúzia. Elas caíam à volta dele, acumulando-se em pilhas, nenhuma capaz de o tocar. Mas, de repente, Thorgrin ouviu gritos terríveis a crescer atrás dele. Virou-se e viu ao longe Gwendolyn e todas as suas pessoas do outro lado do Desfiladeiro, preparando-se à medida que as gárgulas desciam na direção deles, também. Surgiram mais milhares de gárgulas, cercando-os por todos os lados, impossibilitando-os de fugir. Thorgrin não temia por si mesmo - mas temia pelo seu povo, especialmente quando os via começarem a cair. Thorgrin sabia que, apesar de tudo, apesar dos poderes da Espada dos Mortos, do Anel do Feiticeiro, ele estava a perder aquela batalha. Ele não seria capaz de salvar o seu povo a tempo. O que ele precisava, ele sabia, era do Escudo restaurado. Era a única maneira de protegê-los. Mas havia algo que estava a faltar, um enigma final, uma peça final do puzzle. "ARGON!", gritou Thor, voltando-se para os céus. "Onde estás tu!? Eu preciso de ti agora!" Não houve resposta. Thor virou-se, procurando em todas as direções. "ARGON!", ele insistiu. "O que é que me está a escapar? O que é que eu preciso para ser digno?" De repente, Thorgrin sentiu uma presença atrás dele e virou-se, vendo Argon a aparecer, sozinho no centro da ponte. Ele ficou ali, de frente para ele, segurando o seu bastão, olhando fixamente para ele, com os olhos tão brilhantes que ofuscavam os sóis. Enquanto estava ali, hipnotizado, Thor, de repente, sentiu-se a ser arranhado por uma gárgula sentido, de seguida, um puxão na mão. Ele ficou horrorizado ao sentir outra gárgula a arrancar-lhe a Espada dos Mortos da sua mão, e lavá-la consigo, cada vez para mais longe dele, voando para cima até desaparecer nos céus. Thor ficou ali, agora indefeso, sabendo que ele estava a falhar. Ele perderia aquela batalha épica para sempre. Ele correu para Argon, pela da ponte, apressando-se para encontrá-lo. Ele viu Argon lentamente a fechar os olhos, virar as palmas das mãos e levantá-las para o céu. Ao fazê-lo, um raio de sol foi disparado dos céus, iluminando-o. "Thorgrin", disse ele com a sua voz a crescer tão poderosa que ressoou como um trovão, ecoando em todo o Desfiladeiro, rolando até mesmo por cima do som das gárgulas. "O Anel do Feiticeiro pode trazer de volta o Escudo, mas não pode fazê-lo sozinho. Ainda te falta uma peça do puzzle. Um pedaço de ti mesmo, de que te esqueceste." Ele abriu os olhos e olhou diretamente para Thorgrin, agora a curta distância, com um olhar tão intenso, que eram mais medonhos do que as hordas da terra. E depois ele disse: "A Espada do Destino". Thor olhou para Argon em estado de choque.

"Eu pensava que estava destruída", disse Thor. "Estava", disse Argon. "Mas o Anel do Feiticeiro pode trazê-la de volta. A arma do Escolhido será sempre tua. O que protegeu este Desfiladeiro deve ser devolvido. Apenas o Anel do Feiticeiro pode ergue-la - e um sacrifício." Thor olhou, intrigado. "Um sacrifício?", perguntou. "Eu faço qualquer coisa." Argon abanou a cabeça. "Não é para tu fazeres." Thor olhava para ele, perplexo. "É o meu sacrifício, Thorgrin", disse Argon. "Eu posso erguer a espada - se eu desistir da minha vida." Thor começou a perceber o que ele estava a dizer, sentindo-se invadido por uma sensação de medo, de perda. Argon. O seu mentor. O seu professor. Quem ele respeitava mais do que qualquer pessoa no mundo. Ele tinha estado com ele na sua jornada desde o início, antes mesmo de ele se ter aventurado à Corte do Rei. Quem ele havia conhecido quando era apenas um rapaz, um rapaz que não conhecia o seu poder. Aquele que o tinha encorajado a seguir o seu destino, que lhe tinha dito que ele poderia ser algo, alguém, maior. O único que tinha sido um verdadeiro pai para ele. "NÃO!", gritou Thor, percebendo. Thor correu para ele, a pouca distância, tentando agarrá-lo para salvá-lo a tempo. Mas era tarde demais. Argon caminhou para a amurada e, lentamente, graciosamente, mergulhou com os braços bem abertos para o lado. Thor ficou horrorizado ao vê-lo mergulhar. Quando o fez, o eixo de luz seguiu-o, rodando com diversas cores. "ARGON!", gritou Thorgrin. Argon caiu para baixo num mergulho de cisne, diretamente para as névoas do Desfiladeiro, desaparecendo da vista de Thorgrin para sempre. Thorgrin sentiu o coração despedaçado, enquanto observava, sabendo que, daquela vez Árgon tinha realmente ido-se embora para sempre. E Thor ficou igualmente chocado ao ver a elevar-se para fora da névoa, exatamente onde Argon tinha caído, uma única arma, iluminada pelo eixo da luz. Ergueu-se cada vez mais e, em seguida, flutuou diretamente para ele, para a palma da sua mão. Encaixavam na perfeição. A Espada do Destino. Era sua, outra vez.

CAPÍTULO QUARENTA E QUATRO A Espada do Destino vibrava e pulsava na mão de Thor, e, enquanto o Anel do Feiticeiro brilhava, Thor sentia-se a ter um poder diferente de qualquer outro que ele já tivera conhecido. Ele sentia uma vontade de vingança para acabar com aquela guerra, por si, por Gwendolyn, pelo Anel, por Argon. Thor virou-se e, encarando as gárgulas com uma nova energia, entrou em ação. Ele saltou no ar, golpeando selvaticamente, atacando-os nos seus próprios termos, e passando por eles como manteiga, com os seus gritos a encherem o ar quando ele os derrubava em todas as direções. Eles caíam em montes à volta dele, até que as gárgulas sobreviventes finalmente viraram-se e foram-se embora com medo, a voar. Thorgrin ficou ali no centro da ponte. O seu povo ainda estava a ser atacado no Anel e ele persentiu que o Escudo estava quase pronto para se elevar novamente. Mas ainda havia uma última tarefa que ele tinha de executar. Os céus trovejavam e todas as gárgulas restantes rapidamente se separaram enquanto a mergulhar por ali abaixo apareceu o inimigo de Thor: o Lorde do Sangue. Ele pousou diante de Thorgrin no centro da ponte, segurando uma alabarda maciça, zombando para ele, com duas vezes o tamanho de Thor, todo músculo. Thor manteve-se firme, de frente para ele, empunhando a Espada do Destino. Ele sabia que aquela seria a batalha mais importante que ele já tinha alguma vez lutado. Aquela que o definia para sempre. A única que decidia o destino do seu povo. Thor conseguia ver os exércitos alinhados em ambos os lados, observando aquela luta épica, sabendo que os resultados iriam ditar o futuro para os dois. Quando o Lorde do Sangue se aproximou, Thor estava de guarda, lembrando-se que havia sido derrotado por ele uma vez, e sentindo dentro de si uma energia maléfica, pior do que qualquer outra que ele já tivesse conhecido. Thor encarou-o, examinou-o, e sentiu algo – e, de repente, compreendeu. "Tu és o meu pai, renascido", disse Thor, percebendo. "Tu és Andronicus". O Lorde do Sangue sorriu para ele com um sorriso maligno. "Eu avisei-te que te assombraria", ele respondeu, "que o meu espírito continuaria a viver. Que terias de me enfrentar uma última vez. Agora vou matar-te de uma vez por todas e levar de volta o que é meu - a minha linhagem - Guwayne." Thor, cheio de fúria ao pensar, sentiu a Espada do Destino a fazer-lhe cócegas na palma da mão. Ele atirou-a de um lado para o outro, para a frente e para trás, de palma para palma, pronto. "Vamos nos reunir então, Pai", disse ele. "Finalmente, deixemos que pai e filho se abracem!" Thorgrin levantou a espada e o Lorde do Sangue levantou a alabarda, e os dois correram um para o outro, encontrando-se no centro da ponte como carneiros, num confronto de armas, com um ressoar do metal a ecoar por todo o Desfiladeiro. Eles andavam de um lado para o outro, com Thor a golpear e o Lorde do Sangue a bloquear, cada um com uma arma poderosa o suficiente para destruir o mundo, e cada uma combinava bem contra a outra. Thor sentia que aquela era uma batalha épica entre a luz e a escuridão, uma que tinha em balanço o próprio destino do mundo. Ele estava a enfrentar, ele sabia, o mais poderoso demónio no mundo, mais poderoso até do que todo o Império. Thor sentiu que o Lorde do Sangue era uma amálgama de forças obscuras, todas libertadas dos cantos mais escuros do mundo e reunidos num só ser. Enquanto lutavam, cortando e bloqueando, Thor baixando-se e girando, ele sabia que o Escudo nunca seria restaurado até que o Lorde do Sangue tivesse terminado, até ele derrotar aquele último e pior inimigo. Ele também estaria a derrotar o seu pai, e um pedaço de si mesmo. "Não me podes derrotar", disse o Lorde do Sangue, ao bloquear um golpe da Espada do Destino,

virando a sua alabarda de lado e depois empurrando Thor, fazendo-o tropeçar para trás. "Porque eu sou tu. Procura bem no fundo e conseguirás senti-lo. Eu sou a escuridão dentro de ti." Ele correu para a frente, balançando a alabarda e Thor ficou surpreendido com o quão rápido a alabarda desceu, cortando o ar apesar de ser tão grande, tão difícil de segurar nas suas mãos. Se ele tivesse sido qualquer outra pessoa, Thor sabia que aquele golpe teria-o cortado ao meio. Mas algum instinto alertou Thor, impulsionado pelo Anel do Feiticeiro, que lhe permitiu desviar-se do caminho, saltando no último segundo. A alabarda falhou por pouco, com Thor sentindo o vento da mesma. Os olhos do Lorde do Sangue arregalaram-se surpreendidos, como se ele não estivesse à espera daquilo. Ele então virou-se, ergueu a alabarda e trouxe-a para baixo com ambas as mãos, como se para cortar Thor ao meio. Thor saltou para trás e a alabarda alojou-se na pedra da ponte, enfiando-se quase a um pé de profundidade, cortando a pedra, com o som a ecoar das paredes do Desfiladeiro, como se trovões tivessem acabado de trovejar. O Lorde do Sangue rosnou, furioso; Thor estava certo da sua arma estar presa, mas o Lorde do Sangue surpreendeu-o ao arrancá-la sem problemas, como se não fosse nada, e atacar novamente. Quando a alabarda desceu novamente na direção da sua cabeça, desta vez Thor levantou a Espada do Destino e bloqueou o golpe com um tinido, fazendo com que voassem faíscas por toda parte, segurando-a em cima. O tinir foi tão alto que ecoou ao longo dos penhascos do Desfiladeiro. O Lorde do Sangue dava balanço à alabarda, à volta, uma e outra vez, e de um lado para o outro. Thor bloqueou todas as vezes e ficou surpreendido ao perceber que era difícil bloquear cada golpe, tão poderoso, mesmo com o Anel do Feiticeiro, mesmo com a Espada do Destino. Ele percebeu que qualquer um desses golpes teria cortado um exército ao meio. Eram duas forças titânicas, duas armas titânicas embatendo uma na outra. Thor, depois de ser apoiado por dezenas de golpes, sentiu um calor a começar a aumentar nas palmas das suas mãos, sentiu o poder da Espada do Destino a começar a crescer dentro de si. A espada obrigouo a levantar os braços num um gesto rápido, fazendo com que ele a balançasse ao redor e para baixo, com ambos os braços acima da cabeça, e a fizesse descer na direção do Lorde do Sangue. A espada desceu com mais poder e força do que nunca e com uma velocidade maior, e ele tinha certeza de que iria cortar o Lorde do Sangue em dois. Mas ele virou a alabarda e bloqueou. Thor ficou perplexo ao vê-lo capaz de parar o golpe, embora com as mãos trémulas. Thor viu a expressão chocada na cara do Lorde do Sangue e sabia que ele estava surpreendido pois não esperava um golpe com tal força. Eles continuavam de um lado para o outro, balançando, bloqueando, defendendo-se, baixando-se, esquivando-se, cortando e esfaqueando. Nenhum deles poderia pousar um golpe. Eles estavam perfeitamente combinados, com os seus grandes tinidos a tocar sem parar, como duas montanhas a colidirem uma com a outra, enquanto eles se empurravam de um lado para o outro pela ponte do Desfiladeiro. Quando Thor bloqueou um ataque em cima da sua cabeça, com os braços a tremer, começando a cansar-se, o Lorde do Sangue surpreendeu-o imediatamente dando balanço à roda para um segundo golpe. Thor bloqueou, mas ficou em desequilíbrio, tropeçando para o lado na direção da borda do parapeito de pedra que revestia a ponte. Antes que Thor se conseguisse reagrupar, sentiu, de repente, umas mãos ásperas a agarrá-lo por trás, sentiu-se a ser içado no ar, e deu por si sem peso, lá no alto, a olhar para baixo por cima da borda do Desfiladeiro. Thor conseguiu ouvir o seu povo suster a respiração, milhares deles, enquanto a sua vida estava pendurada a balançar. E um momento depois, Thor sentiu-se a voar sobre a borda, lançando para o abismo.

CAPÍTULO QUARENTA E CINCO Enquanto voava pelo ar, Thor, de repente, sentiu o Anel do Feiticeiro a pulsar no seu dedo. Ele sentiu um poder incrível a irradiar a partir dele, a controlar-lhe a mão e o braço e a guiá-lo. Forçou-o a dar balanço ao braço à volta, incrivelmente rápido, para alcançar e agarrar o parapeito de pedra com uma mão. Thor ficou perplexo ao encontrar-se agarrando à pedra e, no mesmo movimento, balançando-se a si próprio de volta para cima e ao redor para a ponte. Quando o fez, ele chutou o Lorde do Sangue no peito, e ele, claramente não estando à espera, tropeçou para trás e caiu no chão. Thor conseguia ouvir o seu povo a aclamar. Thor atacava e bloqueava, pronto para acabar com ele, mas o Lorde do Sangue surpreendeu-o, rolando e bloqueando. Ele então girou a alabarda à roda na direção dos pés de Thor. Thor saltou, tendo a alabarda falhado por pouco. O Lorde do Sangue levantou-se e os dois enfrentaram-se, mais uma vez golpeando e bloqueando, com faíscas a sair das armas, enquanto eles se empurravam mutuamente de um lado para o outro. "Eu sou mais forte do que tu, Thorgrin", disse o Lorde do Sangue, entre golpes. "A escuridão é mais forte do que a luz!" Ele fez descer a alabarda e Thorgrin bloqueou. Mas, desta vez, o golpe foi mais forte, e, enquanto ele empurrava, a alabarda aproximava-se cada vez mais do rosto de Thor. Com as mãos a tremer, Thor mal a conseguia deter. "Cede", rosnou o Lorde de Senhor. "Cede à doce escuridão e junta-te a mim para sempre!" Thor conseguiu empurrar o golpe para trás, afastando-o. Mas, ao mesmo tempo, o Lorde do Sangue surpreendeu Thor por, imediatamente, dar balanço à sua alabarda, com a velocidade de um raio, vinda por debaixo da espada de Thor para cima e conseguindo arrancá-la para fora das suas mãos, desarmando-o. Thor ficou apavorado quando a Espada do Destino saiu a voar pelos ares, girando sobre a sua extremidade final e, depois, deslizando pelo chão de pedra da ponte Desfiladeiro. Thorgrin ficou ali, de frente para ele, desarmado, com o Lorde do Sangue entre ele e a sua espada, sorrindo para ele um sorriso maligno. Thor percebeu que não precisava da espada. Ele não precisava de qualquer arma; ele tinha todo o poder que precisava dentro de si mesmo. Thor lançou-se para frente e, sem medo, atirou-se ao Lorde do Sangue, derrubando-o para o chão. O Lorde do Sangue foi apanhado de surpresa pelo movimento repentino e a sua alabarda saiu a voar quando ele caiu, batendo na pedra. Os dois rebolaram pela pedra. Thor tentava imobilizar o Lorde do Sangue mas ele era o dobro do seu tamanho e todo musculado. Quando, finalmente, o conseguiu imobilizar, o Lorde do Sangue conseguiu rebolar e, depois, imobilizar Thor. O Lorde do Sangue segurou-o para baixo, sufocando-o e, quando Thor estendeu as mãos e agarrou-lhe os pulsos, detendo-o, as suas enormes garras afiadas desceram diretamente para a sua garganta. Thor, que estava a ficar sem ar, entrava e saía do seu estado de consciência. Ele lutava com tudo o que tinha, mas percebeu que estava a perder. A força da escuridão era predominante. O Anel do Feiticeiro brilhava menos intensamente, como se ele, também, estivesse a morrer. Thor sentia-se a ficar mais fraco. Passavam-lhe imagens pela mente. Ele viu a sua mãe, o castelo dela, o passadiço. Ele viu-se a ajoelhar diante dela, pedindo perdão. "Perdoa-me, Mãe", disse ele. "Eu falhei. Eu perdi para sempre." Ela colocou a sua mão na testa dele. "Tu não falhaste, Thorgrin. Não até admitires o fracasso."

"Ele é demasiado forte para mim", disse Thorgrin. "Eu perdi o segredo. Eu não sei como vencer a escuridão. A minha fé não coincide com a dele." Ela sorriu. "É a tua última lição, Thorgrin", disse ela. "É o segredo final que te tem vindo a faltar todo este tempo. O tal que precisas de ganhar para sempre." Thorgrin olhava para ela, entrando e saindo do seu estado de consciência por estar a ser sufocado. "Diz-me, Mãe", disse ele. "Não é o poder", disse ela. "Não é o poder que faz um grande guerreiro." Thor pestanejou, sentindo a sua energia vital a vazar. "Mas então o que é, mãe?" Ela sorriu. "É o amor , Thorgrin. É o amor que nos faz poderosos. O amor pela tua família. O amor pelo teu povo. O amor pelo teu país. O amor pela honra. E acima de tudo, o amor por ti mesmo. Esse é o poder que te falta. É um poder ainda maior do que o ódio." Thor pestanejou várias vezes, percebendo e sentindo o seu corpo a ficar quente. De repente, Thor abriu os olhos, sentindo o Anel a pulsar no seu dedo, vendo a sua luz a brilhar mais intensamente. Ele olhou para a cara do Lorde do Sangue, que olhava para ele com uma cara franzida, e, finalmente, Thorgrin compreendeu. Ele entendeu o segredo para a batalha. O segredo para o poder. E, de repente, ele sentiu um poder insuperável. Thor, dando balanço aos seus braços, arrancou as mãos do Lorde de Sangue da sua garganta e tirou-o de cima de si, fazendo-o cair de costas na pedra. O Lorde do Sangue virou-se e olhou para trás em estado de choque. Ele levantou-se com dificuldade, e, pela primeira vez, Thor conseguia ver na sua cara que ele estava verdadeiramente com medo. O Lorde do Sangue agitou-se atrás da sua alabarda, correndo para ela e agarrando-a com as duas mãos ao encarar Thor. Thor, sentindo-se todo-poderoso, caminhou até à Espada do Destino, baixou-se a apanhou-a, sabendo que nada o poderia deter agora. Os dois estavam ali, frente a frente, e o Lorde do Sangue soltou um grito de batalha feroz, levantou alto a sua alabarda e atacou Thor. Ele deu balanço na direção de Thor e, desta vez, Thor bloqueou-a facilmente com a Espada do Destino. As suas armas soavam e faziam faíscas sempre que ele atacava Thor, uma e outra vez, balançando para a esquerda e para a direita. Mas desta vez, algo tinha mudado: Thor reagia mais rapidamente, bloqueando os golpes facilmente. Thor sentia-se mais poderoso do que nunca e bloqueava cada golpe como se fosse nada. O Lorde do Sangue reparou, também, olhando para Thor com um medo crescente no seu rosto. Finalmente, o Lorde do Sangue estava ali, respirando com dificuldade, consumido. Thor, porém, não estava cansado de todo. Ele aproximava-se, golpeando uma e outra vez, com os seus golpes mais poderosos do que nunca. O Lorde do Sangue levantava a sua alabarda e bloqueava-os, mas dificilmente a tempo, fracamente. A cada golpe da espada, o seu tempo de reacção tornava-se mais lento. Thor empurrava-o mais para trás e era cada vez mais difícil para ele levantar, sequer, a sua alabarda. Finalmente, Thor deu um grande golpe, e, ao fazê-lo, ele arrancou a alabarda das mãos do Lorde do Sangue. A alabarda saiu disparada, sobre a sua extremidade final, pelo ar, por cima do parapeito, e mergulhando pelo Desfiladeiro abaixo. O golpe também conseguiu atirar o Lorde do Sangue de costas ao chão. Ele ficou ali, a olhar para Thorgrin, chocado. Aterrorizado. Declaradamente, ele nunca tinha esperado por aquilo. Thor estava em cima dele, calmo, relaxado, mais forte do que nunca. Ele tinha conquistado algo dentro

de si mesmo, e, pela primeira vez na sua vida, ele sentia-se livre. Destemido. Invencível. O Lorde do Sangue deve ter percebido isso, porque ele olhou para Thor como se soubesse que algo tinha mudado dentro dele. Ele ergueu as mãos sem força. "Tu não me podes derrotar, Thorgrin!", gritou ele. "Põe a tua espada no chão e aceita-me!" Mas Thor avançou, levou atrás a Espada do Destino, e, com um impulso definitivo, mergulhou-a no coração do Lorde do Sangue. O impulso continuou e a espada alojou-se na pedra com um barulho tremendo, como um terramoto. Toda a ponte, todo o Desfiladeiro, a estremecer, como se Thor tivesse enfiado a espada na coluna vertebral do próprio mundo. As multidões em ambos os lados do Desfiladeiro prenderam a respiração enquanto o Lorde do Sangue estava ali, deitado de costas, a olhar para o céu com um olhar de surpresa. Morto. De repente, as nuvens escuras acima separaram-se e apareceu uma nuvem preta em funil, a girar para baixo vinda do céu como um tornado. Desceu exatamente na direção do corpo do Lorde do Sangue, agarrou nele, e levou-o para longe, girando, na direção do vazio. Quando ele morreu, de repente, todas as suas criaturas, em ambos os lados do Desfiladeiro, mesmo aquelas que estavam a atacar as pessoas de Thor, explodiram em chamas, morrendo também. Todo o seu exército desapareceu, juntamente com ele. Thor sentiu o Anel do Feiticeiro a pulsar na sua mão. Ele estendeu a mão, ergueu lentamente o seu dedo anelar, sabendo que a hora havia chegado. Ele apontou-o para baixo na direção do Desfiladeiro, que, lentamente, começou a tremer. Uma parede de luz vermelha e roxa ergueu-se da névoa, a rodopiar, subindo cada vez mais; ao aumentar a sua velocidade, espalhou-se, por todo o Desfiladeiro, brilhando com várias cores diferentes à medida que ficava cada vez mais sólida. Thor ficou aliviado ao perceber: o Escudo. Estava, depois de todo aquele tempo, restaurado. Thor viu do outro lado do Desfiladeiro novas hordas de soldados do Império a tentarem atravessar a ponte, para atacá-lo a si e ao seu povo. Mas ele observava com alegria quando eles embatiam no Escudo e morriam no local. O seu povo, finalmente seguro, soltou uma grande aclamação. E Thor, ele próprio, não conseguia evitar sorrir. O Anel, finalmente, estava protegido. Era um novamente.

DOZE LUAS DEPOIS

CAPÍTULO QUARENTA E SEIS Gwendolyn estava na janela do seu quarto, na parte de cima do castelo recém construído no centro da recém construída Corte do Rei. Ela segurava Guwayne e olhava para o esplendor da cidade que estava a ser erguida, sentindo-se muito feliz. Lá em baixo, pedra a pedra, tijolo a tijolo, construção a construção, a Corte do Rei estava a ser reconstruída sobre as suas fundações, no que sobrava delas, restauradas, e o que já não existia era construído de memória. Mais ainda, eles haviam espalhado as suas fundações originais, de modo que a capital tinha agora o dobro do tamanho que tinha no tempo do seu pai. As ruas estavam movimentadas, com pessoas alegres a passearem por elas, com trabalho, com indústria, com um propósito. Um ar de paz, de conforto, espalhava-se pela cidade. Grupos intermináveis de novos cavaleiros passeavam pelas ruas repavimentadas com novas calçadas, na sua armadura brilhante, fazendo o seu caminho para lá e para cá nos recém construídos campos de treinos e pistas de combate e no Salão de Prata. Eles também andavam apressados para lá e para cá no novo Salão de Armas, escolhendo entre uma infindável variedade de armas e armaduras recém forjadas. Ela viu Erec, Kendrick, Brandt e Atme entre eles, acompanhados pelas novas fileiras de Prata e por dezenas de cavaleiros das Ilhas do Sul, todos a rir, empurrando-se uns aos outros, com alegria verdadeira nos seus rostos. Do outro lado do novo pátio de mármore, repleto com uma fonte de ouro no seu centro, Gwen examinava o novo Salão do Cume, com mais centenas de cavaleiros a fervilharem lá dentro. Koldo, Ludvig, Kaden, Ruth e o resto da força de combate da elite do Cume permanecia do lado de fora, os dois lados da família MacGil unidos a partir das duas extremidades da terra. Dois exércitos, agora um, e mais forte do que nunca. Gwen pensou no pai, do orgulho que ele teria por vê-los todos assim, por ver a Corte do Rei assim novamente. O boom na construção e a prosperidade tinham-se espalhado por todos os cantos do Anel, que vinha sendo lentamente a ser novamente habitado ao longo daquelas últimas doze luas - mesmo pelas Terras Altas. Sem os McClouds ali, já não havia mais tensão nos dois lados das montanhas, mas sim harmonia e paz, todos eles uma nação, içando a mesma bandeira. Todos os dias, cidadãos espalhavam-se para novas cidades, reconstruindo as antigas, ou iniciando novas. Ouviam-se martelos e bigornas por toda a parte, enquanto uma nova vida se propagava, como uma força que não poderia ser parada. Mesmo todas as vinhas e pomares, completamente ardidas apenas um ano antes, estavam agora, sob o olhar atento de Godfrey, a florescer novamente, dando mais fruta e vinho do que nunca. Gwen ficou surpreendida ao perceber que o Anel, estava mais magnífico do que nunca. Mas aquilo tudo não era sequer o que fazia com que Gwendolyn estivesse assim feliz. O que enchia o seu coração até transbordar era, não só estar de volta a casa, mas mais importante ainda, estar novamente ao lado de Thorgrin e ter Guwayne de volta nos seus braços. Ela segurava-o com força e olhava para os seus brilhantes olhos cinzentos, para o seu cabelo loiro, e mal podia acreditar que ele hoje fazia um ano de idade. Ele era uma criança incrivelmente bela, e não passava um dia em que ela não passasse todo o tempo que conseguia com ele, sendo mais feliz com ele do que com qualquer outra coisa. Depois de tudo o que tinham passado, ela podia dar valor, mais do que nunca, ao que significava estar afastada dele. Ela jurou que isso nunca mais iria acontecer novamente. Soavam sinos ao longe, harmoniosos, tranquilos. Gwen lembrava-se porque é que estava ainda mais feliz naquele dia do que na maioria dos outros dias. Porque hoje, depois de tanta confusão, de tantos obstáculos, tanto tempo separados, ela iria oficialmente casar-se com o seu amor, Thorgrin. O coração de Gwen batia mais depressa só de pensar, e ela olhou para baixo e viu a cidade resplandecente naquele dia, com as pessoas a correrem em todas as direções, enquanto os preparativos do casamento enchiam a cidade. As portas estavam a ser cobertas com rosas, as ruas contornadas com pétalas, barris de vinho a

rebolarem para os campos e bancos eram colocados diante deles. Malabaristas, músicos e trovadores estavam a juntar-se em grupos, preparando-se, enquanto os cozinheiros estavam a labutar sobre cubas de carne. E no centro de tudo, inúmeras cadeiras estavam a ser alinhadas diante do mais belo altar que Gwen alguma vez tinha visto, com dez pés de altura e coberto com rosas brancas. Milhares de pessoas, todas vestidas com as suas melhores vestimentas, surgiam através das portas meia-construídas da cidade, todos aguardando ansiosamente o grande momento. Era um casamento condizente com uma Rainha - e muito mais do que isso. Hoje era um dia muito especial. De facto, o dia mais especial na história do Anel – porque naquele dia, não só ela e Thorgrin se casariam, como mais outros seis casais se juntariam a eles: Erec e Alistair, Reece e Stara, Kendrick e Sandara, Godfrey e Illepra, Elden e Indra e Darius e Loti. Já estava a ser chamado o Dia histórico dos Sete Casamentos, um que ficaria famoso na história do Anel para sempre. Fez com que Gwen se recordasse, há muitas luas, da profecia de Argon: tu vais passar por uma escuridão, seguida por uma alegria, uma alegria tão grande que vai fazer toda a escuridão parecer luz. "Minha Rainha?", ouviu-se uma voz. Gwendolyn virou-se e olhou para o outro lado do seu aposento. O seu coração deu um salto ao ver Thorgrin ali de pé, vestido com as suas melhores vestimentas, vestindo um longo robe de veludo preto por cima da sua armadura, mais bonito do que alguma vez ela o tinha visto. Ele olhava para ela de cima abaixo e os seus olhos brilhavam com orgulho e alegria. "O teu vestido", disse ele. "é o mais lindo que eu já vi." Gwen sorriu, lembrando-se do seu vestido de casamento, esquecendo-se que ela já o tinha vestido, e, quando ele se aproximou, ela caminhou para ele, segurando Guwayne, e eles inclinaram-se e beijaram-se. "Posso acompanhar-te até ao altar?", perguntou ele, com um sorriso no rosto e os olhos a brilhar. Ela sorriu de volta. "Não há nada que eu gostasse mais." * Enquanto Thor caminhava com Gwendolyn, os dois de mãos dadas enquanto caminhavam, ele apreciava o tempo deles juntos e sozinhos. Gwendolyn tinha entregue Guwayne a Illepra para ela o segurar durante as cerimónias, e os dois, sempre tão ocupados com um milhão de assuntos da Corte, da reconstrução, finalmente tinham um momento calmo antes da grande cerimónia. Thor queria passar tempo sozinho com ela, antes de eles voltarem a ser o centro das atenções. "Para onde vamos, meu lorde?", perguntou ela com um sorriso, enquanto ele a levava para longe do recinto de casamento. Ele sorriu-lhe maliciosamente. "Eu queria roubar algum tempo sozinho com a minha rainha. Espero que não te importes?" Ela sorriu-lhe e apertou-lhe a mão. "Nada me faria mais feliz", respondeu ela. Eles caminharam, tecendo o seu caminho através da corte, passando por multidões de pessoas que sorriam e faziam meia vénia à sua passagem, retirando os seus chapéus, todos a sorrir de orelha a orelha, todos em êxtase para o grande dia. Thor conseguia ver todos os trombeteiros alinhados, todos os rapazes a prepararem o fogo de artifício para a grande noite que estava por vir. Ele conseguia ver as tochas sendo iluminadas pelo corredor, mesmo ainda estando o sol a pôr-se, e ele conseguia ver milhares de pessoas a porem-se nos seus lugares. Os sinos continuaram a tocar suavemente, como se para significar festas que nunca terminariam. "Thor, olha!", gritou uma menina animada. Thor virou-se ao ouvir a voz familiar, e ficou emocionado, como sempre, ao ver Angel, a correr para

cima dele, radiante, com a sua nova amiga Jasmine ao seu lado. Thor ficou especialmente feliz por ver Angel perfeitamente saudável, curada da sua lepra, desde que ele havia recuperado Anel do Feiticeiro e erguido o Escudo. Feliz, radiante, saudável, ela era uma criança diferente. Especialmente agora, que ela tinha uma nova melhor amiga, Jasmine - que parecia igualmente encantada por a ter. Jasmine nunca deixou de carregar os livros dela, e Angel, faminta de livros de todos os anos que tinha passado numa ilha, nunca se cansava de ouvir os longos monólogos académicos de Jasmine. "Gostas do meu vestido?", perguntou ela, animada. "Será que vamos fazer de meninas das flores perfeitas?", ecoou Jasmine. Thor sorriu ao vê-las às duas em bonitos vestidos de seda branca, com rosas brancas nos seus cabelos, ambas tão animadas. "Não poderiam estar mais perfeitas", disse ele. "Vou-me casar só para ver vocês as duas a percorrem o corredor tão bonitas como estão!", acrescentou Gwen. Ambas riram-se com prazer e orgulho. "Krohn está a tentar chamar a tua atenção!", acrescentou Angel. Thor ouviu um gemido e olhou para baixo e viu Krohn aos seus calcanhares, lutando para recuperar o atraso. Ele claramente queria a atenção de Thor. Ele virou-se e viu, não muito longe, os cinco novos filhotes de Krohn, com a sua mãe, um leopardo fêmea. Thor sorriu largamente, percebendo o quão orgulhoso Krohn estava, e deu-lhe umas palmadinhas na cabeça, inclinou-se e beijou-o. Ao fazê-lo, Thor ouviu um guincho ciumento. Olhou para cima e viu Lycoples, de repente, precipitarse para baixo, muito maior agora do que nunca, aterrar diante deles e baixar a cabeça, esperando. Thor e Gwen aproximaram-se, acariciaram-no e Thor riu. "Não sejas ciumento", disse ele a Lycoples. Lycoples guinchou, bateu as asas e, em seguida, partiu, circulando alto do céu. "Vamos persegui-la!", gritou Angel em delírio, e os dois saíram a correr, rindo, tentando perseguir o trilho de Lycoples no céu. Thor pegou a mão de Gwen novamente e continuaram a andar. Thor levava Gwen a um local que era sagrado para ele. Os Penhascos Kolvian. Aquele lugar tinha sobrevivido à guerra, à grande invasão, e era muito igual ao que tinha sempre sido, transmitindo a Thor uma sensação de paz. Aquele sempre tinha sido um lugar especial para ele, o lugar onde haviam enterrado o Rei MacGil, um lugar para onde ele podia fugir, ter paz, consolo, e olhar ao longe, a partir do ponto mais alto, sobre o Reino. Thor segurava a mão de Gwen enquanto os dois ali estavam, olhando ao longe juntos, para o vasto céu vazio, para os sóis a porem-se, ambos vermelhos, o céu riscado com um milhão de cores, tão perfeito para o dia do casamento deles. Olhando ao longe, era como se o mundo estivesse a nascer de novo. Como se a esperança estivesse a surgir novamente. Ali, longe das multidões, sozinhos, tranquilos, apenas eles os dois, Thor conseguia sentir a palma de Gwen na dele, e ele refletia. Ele foi inundado com memórias. Lembrou-se da sua primeira aparição na Corte do Rei, chegando ali apenas como um rapaz, ficando tão intimidado por aquele lugar; lembrou-se da primeira vez que viu Gwendolyn, e como tinha ficado com a língua presa; lembrou-se de quando conheceu Reece, lembrou-se da sua adesão à Legião. Lembrou-se do A Centena, da sua formação, de todos os homens com quem ele tinha aprendido, com quem tinha lutado. Lembrou-se das aulas de Argon, o seu conselheiro, e era uma presença que ele sentia muita falta. Pensou na sua jornada, como ele tinha começado sendo apenas como mais um rapaz com grandes sonhos, um rapaz sem riquezas, sem conexões, sem habilidades especiais. Um rapaz de quem se tinham rido quando ele chegou ali – e, no entanto, quem agora, de alguma forma, tinha conseguido tudo. Ele sentia, acima de tudo, uma profunda gratidão. Ele sabia que tinha sido muito abençoado.

Thor lembrou-se, também, de toda a escuridão. Lembrou-se dos ensaios, dos assassinatos, dos demónios, da destruição. O longo e frio exílio. Lembrou-se de todas as vezes em que ele tinha a certeza que não iria conseguir, certo de que não conseguiria ir mais longe. Pensou em todas as dificuldades, e, apesar de tudo, ele percebeu que se lhe fosse dada a hipótese, ele não hesitaria em escolher fazer tudo mais uma vez. Porque as suas missões não eram nunca por causa de riquezas, ou ganho, ou títulos, ou fama, ou poder - elas eram sempre por uma questão de honra. Era a honra que o guiava e que sempre o guiaria. Acima de tudo, ele lembrou-se de quanto amava Gwendolyn. Ela tinha estado com ele desde o início, tinha arriscado com ele, apenas um rapaz, apesar da posição dele, apesar da sua classificação – e o amor dela nunca vacilou. Ela continuou a amá-lo todo o caminho, através da separação, nunca tendo desistido de ter esperança, de sobreviver, ele tinha certeza disso, para que pudessem estar juntos novamente. Tinha sido o seu amor, ele percebeu, que o tinha sustentado acima de tudo, que o tinha feito prosseguir para a frente por todos aqueles tempos difíceis, que lhe tinha dado uma razão para viver. De alguma forma ele sempre soube que eles estavam destinados a ficar juntos, e que nada, nenhum exército, nenhum exílio, nenhuma guerra, jamais iria mantê-los separados. Agora, ali, segurando a mão dela, vendo o pôr-do-sol, Thor estava maravilhado com a forma como tudo tinha formado um círculo completo, com a forma como a vida era misteriosa. "O que é, meu lorde?", perguntou Gwen, apertando a sua mão. Thor abanou a cabeça e sorriu, virando-se para ela. "Estou apenas a lembrar-me, meu amor." Ela olhou para o pôr-do-sol, também, e assentiu, compreendendo. "Eu penso no meu pai neste lugar", disse ela com tristeza. "Tanto que nós perdemos. E, no entanto, ganhamos tanto." Thor podia sentir o espírito do Rei MacGil a pairar sobre eles em aprovação, juntamente com o de Argon. Ele pensou em todos que ele tinha amado e perdido, e sentiu a sua mãe com eles também. Finalmente, as suas missões tinham acabado. No entanto, ele também se questionava. Ele sabia que o Escudo era forte, sabia que todas aquelas forças do Império lá fora nunca mais poderiam penetrá-la. Ele sabia que não tinha nada a temer, fora ou dentro do Anel. Eles estavam mais seguros do que alguma vez tinham estado mesmo no tempo do Rei MacGil. No entanto, ele também não podia deixar de pensar nas profecias, do preço que teria de pagar pelo seu sacrifício. Da profecia sobre o seu filho, Guwayne, que um dia ele iria subir para se tornar um lorde da escuridão, mais poderoso até do que Thorgrin. Thor olhou para o Anel do Feiticeiro no seu dedo, para a Espada do Destino no seu cinto, e perguntava-se se isso poderia ser possível. Ele estremeceu, pensando no dia. Imaginou Guwayne, tão puro, tão inocente, pensou no seu intenso amor por ele, e ele não podia imaginar como poderia ser possível. Apenas palavras de feiticeiro, pensou. Thor sacudiu a profecia da sua mente, sacudiu todos os pensamentos escuros da sua mente. Agora não era um momento para preocupações. Agora era um momento de alegria. Alegria inequívoca. "Thorgrin! Gwendolyn!" Thor virou-se com Gwen, e ficou emocionado ao ver um grupo de homens e um grupo de mulheres, todos vestidos com as suas melhores vestimentas, a aproximarem-se: os noivos e as noivas. Kendrick, Erec, Reece, Darius, Elden e Godfrey caminhavam num grupo, com Dray aos seus calcanhares, enquanto Sandara, Alistair, Stara, Loti, Indra e Illepra caminhavam noutro. Os seis outros casais, todos prontos para se casarem juntamente com eles hoje. Illepra segurava Guwayne e Alistair segurava a sua bebé, agora quase com um ano de idade, a bebé mais bonita que Thor alguma vez tinha visto, com os olhos azul claros, brilhando como os da sua mãe.

Thor sabia que ela iria crescer com Guwayne, que ela, a filha da sua irmã, teria um destino indissoluvelmente ligado com o do seu filho. Ele não conseguia evitar pensar o que seria das próximas gerações. Godfrey estendeu um saco de vinho a Thorgrin, enquanto Illepra deu um a Gwendolyn, e Thor conseguia ver que todas as futuras noivas - e futuros noivos – já todos seguravam um. Quando o sol começou a se pôr, todos eles tinham imensa alegria nos seus rostos, os rostos cheios de expectativas do glorioso casamento que estava para vir. Godfrey ergueu o seu saco para um brinde e todos os outros se inclinaram à frente. Eles estavam ali contra o sol poente, com Thor a olhar para os seus rostos, iluminados com a última luz do dia, aquelas pessoas que ele amava e respeitava o máximo. Era um privilégio, ele percebeu, ser capaz de lutar ao seu lado. "O que há de melhor na vida?", perguntou Godfrey, colocando a pergunta a todos. Todos ficaram em silêncio e, ao ponderarem a questão, um após o outro, gritaram: "Verdade!" "Sacrifício!" "Dever!" "Valentia!" "Coragem!" "Honra!" Thor entrou na conversa. De repente, ouviu-se um guincho solitário, lá no alto. Thor olhou para cima e viu Lycoples a circular, apoiado por Estopheles, os dois espalhando as suas asas. "Está resolvido, então!", disse Godfrey. Todos assentiram e ergueram os sacos ainda mais para cima. "À honra!", exclamou Thorgrin. "À HONRA!", responderam todos, com os seus brindes a ecoarem para além das falésias do Anel - e ecoando na eternidade.

NOTA DA AUTORA É para mim uma honra que você tenha lido os 17 livros do Anel do Feiticeiro. Para aqueles que se questionam sobre o que o futuro reserva para Guwayne, o conto épico vai ser contado um dia, na sua própria série, O FILHO DO FEITICEIRO. Mas essa série não está planeada para breve. Agora é tempo de eu me focar numa nova série, com novas personagens, novos cenários, um novo mundo e um enredo completamente novo. Deixe-me que seja a primeira a convidá-lo para a minha nova série de fantasia épica: REIS E FEITICEIROS.

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ASCENSÃO DOS DRAGÕES (REIS E FEITICEIROS—LIVRO 1) "Reúne todos os ingredientes para um sucesso instantâneo: enredos, intrigas, mistério, cavaleiros valentes e relacionamentos que florescem repletos de corações partidos, decepções e traições. O livro manterá o leitor entretido por horas e agradará a pessoas de todas as idades. Recomendado para a biblioteca permanente de todos os leitores de fantasia." --Books and Movie Reviews, Roberto Mattos (referente a Em Busca de Heróis) Da autora Besteseller Morgan Rice surge uma nova série de fantasia épica: A ASCENSÃO DOS DRAGÕES (REIS E FEITICEIROS - Livro 1). Kyra, uma miúda de 14 anos que sonha em tornar-se uma guerreira famosa, como o seu pai, é uma arqueira melhor que todos os outros. Enquanto luta para entender as suas habilidades especiais, a sua misteriosa força interior, e que segredo lhe está a ser sonegado desde que nasceu, ela percebe que é diferente dos demais e que o destino dela é especial. Mas o seu povo vive sob a dedo opressivo dos nobres, e quando ela atinge a maioridade e o lorde local a quer levar, o pai dela concede-a para casamento para a salvar. Mas Kyra recusa-se e começa a sua própria jornada, por uma floresta perigosa, onde ela encontra um dragão ferido - e inicia uma série de eventos que mudarão o reino para sempre. Enquanto isso, Alec, um rapaz de 15 anos, sacrifica-se pelo seu irmão, assumindo o seu lugar durante a convocação e sendo levado para as Chamas, uma parede de fogo com cem metros de altura, para impedir o avanço do exército de trolls em direção ao Norte. Do outro lado do reino, Merk, um mercenário que luta para deixar o seu passado escuro para trás, atravessa a floresta para se tornar um Vigilante das Torres e ajudar a proteger a Espada de Fogo, a fonte de todo o poder mágico do reino. Mas os Trolls

também querem a Espada - e eles têm outros plano, preparando-se para uma invasão em massa que poderia destruir o reino para sempre. Com esta forte atmosfera e personagens complexos, A ASCENSÃO DOS DRAGÕES é uma saga de cavaleiros e guerreiros, reis e senhores, honra e coragem, magia, destino, monstros e dragões. É uma história de amor e corações partidos, de decepções, ambição e traições. O melhor do género de fantasia, convidando-nos para um mundo que vivirá connosco para sempre, um que irá apelar a todas as idades e géneros. “[Uma] fantasia épica de entretenimento.” —Kirkus Reviews (referente a Em Busca de Heróis) “O início de algo notável está lá.” --San Francisco Book Review (referente a Em Busca de Heróis) “Repleto de ação… A escrita de Rice é sólida e a premissa intrigante.” --Publishers Weekly (referente a Em Busca de Heróis) “Uma fantasia espirituosa… Apenas o princípio do que promete ser uma série de literatura juvenil épica.” --Midwest Book Review (referente a Em Busca de Heróis)

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Acerca de Morgan Rice

Morgan Rice é a best-seller nº1 e a autora best-selling do USA TODAY com a série de fantasia épica O ANEL DO FEITICEIRO, composta por dezassete livros; do best-seller nº1 da série OS DIÁRIOS DO VAMPIRO, composta por onze livros (a continuar); do best-seller nº1 da série TRILOGIA DA SOBREVIVÊNCIA, um thriller pós-apocalíptico composto por dois livros (a continuar); e da nova série de fantasia épica REIS E FEITICEIROS. Os livros de Morgan estão disponíveis em edições áudio e impressas e as traduções estão disponíveis em mais de 25 idiomas. TRANSFORMADA (Livro n 1 da série Diários de um Vampiro), ARENA UM (Livro n 1 da série A Trilogia da Sobrevivência) e EM BUSCA DE HERÓIS (Livro n 1 da série O Anel do Feiticeiro) e A ASCENÇÃO DOS DRAGÕES (Reis e Feiticeiros – Livro n 1) estão disponíveis gratuitamente no Amazon! Morgan adora ouvir a sua opinião, pelo que, por favor, sinta-se à vontade para visitar www.morganricebooks.com e juntar-se à lista de endereços eletrónicos, receber um livro grátis, receber ofertas, fazer o download da aplicação grátis, obter as últimas notícias exclusivas, ligar-se ao Facebook e ao Twitter e manter-se em contacto!

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