Headhunters – Jo Nesbo

Uma colisão entre dois veículos é uma questão de física básica. Tudo é imprevisível, mas todos os imprevistos podem ser explicados pela seguinte equaç...
Category: Policial

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Tradução de Kristin Lie Garrubo

2012

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

Nesbø, Jo, 1960N371r Headhunters / Jo Nesbø; tradução de Kristin Lie Garrubo. – Rio de Janeiro: Record, 2012. Tradução de: Hodejegerne Formato: ePub Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions Modo de acesso: World Wide Web ISBN 978-85-01-40300-1 (recurso eletrônico) 1. Literatura norueguesa. I. Garrubo, Kristin Lie. II. Título. III. Livro eletrônico CDD: 839.82 CDU: 821.111(481) Título original: Hodejegerne Copyright © Jo Nesbø, 2008 Publicado mediante acordo com Salomonsson Agency. Texto revisado segundo o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução, no todo ou em parte, através de quaisquer meios. Os direitos morais do autor foram assegurados. Editoração eletrônica da versão impressa: Abreu’s System Direitos exclusivos de publicação em língua portuguesa somente para o Brasil adquiridos pela EDITORA RECORD LTDA. Rua Argentina, 171 – Rio de Janeiro, RJ – 20921-380 – Tel.: 2585-2000, que se reserva a propriedade literária desta tradução __________________________________ Produzido no Brasil ISBN 978-85-01-40300-1 Seja um leitor preferencial Record. Cadastre-se e receba informações sobre nossos lançamentos e nossas promoções. Atendimento e venda direta ao leitor: [email protected] ou (21) 2585-2002.

Prólogo

Uma colisão entre dois veículos é uma questão de física básica. Tudo é imprevisível, mas todos os imprevistos podem ser explicados pela seguinte equação: força vezes tempo é igual a massa vezes a variação da velocidade. É só inserir as variáveis em forma de números e o resultado será uma história simples, verdadeira e cruel. Por exemplo, ela pode contar o que acontece se uma carreta com carga máxima, pesando 25 toneladas e andando a uma velocidade de 80 quilômetros por hora, atinge um automóvel de 1.800 quilos à mesma velocidade. Com base em variáveis como o ponto de impacto, a condição da carroceria e os ângulos entre os corpos, há uma infinidade de versões dessa história, mas elas têm duas características em comum: sempre são trágicas e é o automóvel que se dá mal. Há um silêncio estranho, consigo ouvir o vento soprar nas árvores e o rio transportar suas águas. Meu braço está paralisado e estou pendurado de ponta-cabeça, preso em carne e aço. Acima de mim, do chão, pingam sangue e gasolina. Abaixo, no teto xadrez do carro, há uma tesoura de unha, um braço decepado, duas pessoas mortas e uma valise aberta. O mundo não possui beleza, só produtos de beleza. A rainha branca foi destruída, eu sou um assassino e ninguém aqui dentro está respirando. Nem eu. Por isso vou morrer já. Vou fechar os olhos e desistir. É uma delícia desistir. Agora não quero esperar mais. Por isso tenho pressa de contar esta história, esta versão, esta narrativa sobre os ângulos entre os corpos.

Parte I

Primeira entrevista

1

Candidato

O candidato estava apavorado. Trajava uma armadura da loja Gunnar Øye: terno cinza Ermenegildo Zegna, camisa Borelli costurada à mão e uma gravata vermelho-borgonha com desenho espermático, Cerruti 1881, acho. Quanto ao calçado, eu tinha certeza: Ferragamo feito à mão. Eu mesmo já tive um par daqueles. Os papéis na minha frente mostravam que o candidato viera armado com um diploma da Escola Superior de Economia da Noruega, em Bergen, em que manteve uma média de quase dez, um mandato parlamentar pelo Partido Conservador e uma história de sucesso de quatro anos como diretorexecutivo de uma indústria norueguesa de porte médio. E mesmo assim Jeremias Lander estava apavorado. O suor brotava acima de seu lábio superior. Ele ergueu o copo de água que minha secretária havia colocado na mesa baixa posicionada entre nós dois. — Gostaria de… — falei, sorrindo. Não aquele sorriso aberto e incondicional que convidava uma pessoa totalmente desconhecida a se sentir à vontade, não o sorriso leviano. Mas o sorriso gentil, semicordial que, de acordo com a literatura, demonstra o profissionalismo, a objetividade e a abordagem analítica do entrevistador. É a ausência de envolvimento emocional que leva o candidato a confiar na integridade do entrevistador. E assim — de acordo com a literatura — o candidato também vai dar informações mais equilibradas, objetivas, já que lhe foi transmitida a sensação de que qualquer tentativa de dissimulação será desmascarada, qualquer afirmação exagerada será revelada, qualquer jogo tático será punido. Só que eu não dou aquele sorriso por causa da literatura especializada. Não dou a menor importância à literatura; ela não passa de papofurado com grau de qualificação variado. Tudo de que preciso é o manual de interrogatório de nove

passos de Inbau, Reid e Buckley. Não, estou sorrindo porque sou assim: profissional, analítico e sem envolvimento emocional. Sou um headhunter. Não é especialmente difícil. Mas sou o rei do jogo. — Gostaria de — repeti — ouvir você contar um pouco sobre sua vida fora do trabalho. — Será que existe? — A risada dele estava meio-tom mais aguda do que deveria. Além do mais, quando se faz uma piada numa entrevista de trabalho, é pouco adequado rir dela e olhar para o interlocutor para ver seu efeito. — Espero que sim — respondi, e a risada dele se transformou em pigarro. — Acho que é importante para os gestores dessa empresa que seu novo diretor-executivo tenha uma vida equilibrada. Eles estão procurando alguém que aguente ficar no cargo por vários anos, um tipo de fundista que saiba organizar sua corrida. Não alguém que se esgote em quatro anos. Jeremias Lander concordou enquanto bebia mais um gole de água. Ele era aproximadamente 14 centímetros mais alto que eu e três anos mais velho, ou seja, tinha 38 anos. Um pouco novo para o cargo. E ele sabia disso, e por isso havia tingido o cabelo de um grisalho quase imperceptível perto das têmporas. Já vi aquilo antes. Já vi de tudo. Vi um candidato que suava nas mãos chegar com talco no bolso direito do paletó e me oferecer o aperto de mão mais seco e branco possível. A garganta de Lander fez um gorgorejo involuntário. Anotei no guia da entrevista: Motivado. Voltado para soluções. — Então, você mora aqui em Oslo? — perguntei. — Sim, em Skøyen. — Você é casado com… — Folheei seus papéis, fazendo aquela cara de irritação que leva os candidatos a entender que conto com um pouco de iniciativa de sua parte. — Camilla. Somos casados há dez anos. Dois filhos em idade escolar. — E como você descreveria seu casamento? — perguntei, sem erguer os olhos. Dei-lhe dois longos segundos e, vendo que ele ainda não tinha formulado uma resposta, continuei: — Você acha que ainda vão estar casados daqui a seis anos, depois de você gastar dois terços de seu tempo acordado no trabalho? Ergui os olhos. A confusão estampada em seu rosto era a esperada. Eu tinha sido inconsistente. Vida equilibrada. Exigências de desempenho. Não fazia sentido. Quatro segundos se passaram antes que ele respondesse, o que é, no mínimo, um segundo demais: — Espero que sim. Um sorriso confiante, ensaiado. Mas não suficientemente bem-ensaiado. Não para mim. Ele estava devolvendo minhas próprias palavras, e eu até lhe daria um ponto se tivesse sido uma ironia intencional. Infelizmente, nesse caso era apenas a imitação inconsciente das palavras de alguém considerado superior em termos de status. baixa autoestima, anotei. E ele “esperava”, não sabia, não manifestava visões, não decifrava a bola de cristal, não demonstrava estar ciente de que a exigência mínima para qualquer executivo é dar a impressão de ser vidente.

Não improvisa. Não domina o caos. — Ela trabalha? — Trabalha, sim. Num escritório de advocacia no centro. — Das 9h às 16h todos os dias? — Sim. — E quem fica em casa se uma das crianças estiver doente? — Ela. Mas felizmente Niclas e Anders quase nunca ficam… — Quer dizer que vocês não têm empregada ou alguém que fique em casa durante o dia? Ele hesitou do jeito que os candidatos fazem quando estão em dúvida sobre qual será a resposta mais favorável. Mesmo assim, eles mentem com decepcionante raridade. Jeremias Lander fez que não. — Acha que se mantém em forma, Lander? — Sim, faço exercício regularmente. Nenhuma hesitação dessa vez. Todos sabem que as empresas querem executivos que não tenham um ataque cardíaco diante do primeiro obstáculo. — Corrida e esqui, talvez? — Acertou. A família inteira gosta de aproveitar a área verde das colinas de Oslo. E temos um chalé na serra, em Norefjell. — Entendi. E um cachorro também então? Ele fez que não. — Não? Alergia? Negação enérgica com a cabeça. Anotei: Possível falta de senso de humor. Em seguida, me reclinei na cadeira e juntei as pontas dos dedos das mãos. Um gesto exageradamente arrogante, é claro. O que posso dizer? Sou assim. — Quanto você diria que vale sua reputação, Lander? E como você a construiu? Ele franziu a testa já suada enquanto se esforçava para compreender. Dois segundos, então disse, resignado: — O que você quer dizer? Suspirei como se fosse óbvio. Olhei em volta, como se procurasse uma alegoria pedagógica que não tinha usado antes. E, como sempre, a achei na parede. — Você se interessa por arte, Lander? — Um pouco. Pelo menos, minha esposa se interessa. — A minha também. Você está vendo aquele quadro ali? — Indiquei Sara Gets Undressed, um quadro de mais de 2 metros de altura em vinil que retrata uma mulher de saia verde, de braços cruzados, tirando uma blusa vermelha pela cabeça. — Um presente da minha mulher. O artista se chama Julian Opie, e o quadro vale um quarto de milhão de coroas. Você tem alguma obra de arte nessa faixa de preço?

— De fato, tenho. — Parabéns. Se olhar para o quadro, é possível saber quanto vale? — Quando você o conhece, é possível. — Pois é. O quadro pendurado ali consiste em alguns poucos traços. A cabeça da mulher é um círculo, um zero sem rosto, e a coloração é monótona e sem textura. Além disso, foi feito num computador e pode ser impresso milhões de vezes simplesmente apertando uma tecla. — Nossa. — A única coisa, a única mesmo, que faz com que aquele quadro tenha o valor de um quarto de milhão é a reputação do artista. Ele tem fama de ser bom, o mercado acredita que ele é um gênio. Porque é difícil identificar o que é genial, é impossível saber com certeza. É assim com altos executivos também, Lander. — Entendi. Reputação. É uma questão de quanta confiança o líder inspira. Anotei: Não é idiota. — Exatamente — continuei. — Tudo é uma questão de reputação. Não apenas o salário do executivo, mas até o valor da empresa na bolsa. Qual é a obra de arte que você tem e qual o seu valor estimado? — É uma litografia de Edvard Munch, O broche. Não sei o preço, mas… Mexi a mão impacientemente. — A última vez que foi vendida num leilão, o preço chegou a uns 350 mil — informou ele. — E como vocês seguraram esse objeto de valor contra furto? — A casa tem um bom sistema de alarme — disse ele. — Da Tripolis. Todos os vizinhos usam essa empresa. — A Tripolis é boa, mas cara, eu mesmo uso seus serviços — falei. — Uns 8 mil por ano. Quanto você investiu na segurança de sua própria reputação? — O que você quer dizer? — Vinte mil? Dez mil? Menos? Ele deu de ombros. — Nem um tostão — afirmei. — Você tem um currículo e uma carreira que valem dez vezes mais do que o quadro sobre o qual estamos falando. Por ano. Mesmo assim, não tem ninguém para vigiar isso, nenhum zelador. Porque acha que não é necessário. Você acha que seus resultados com a empresa que dirige vão falar por si mesmos. Não é? — Lander não respondeu. — Bem — falei, inclinando-me para a frente e baixando a voz como se fosse lhe contar um segredo —, não é bem assim. Resultados são quadros de Opie, alguns traços simples mais alguns zeros sem rosto. Os quadros não são nada, a reputação é tudo. E é isso que podemos oferecer. — Reputação? — Você está aqui diante de mim como um entre seis bons candidatos a um cargo executivo. Acho

que você não vai ser o escolhido porque lhe falta reputação para esse tipo de cargo. Sua boca se abriu como que articulando um protesto — que não saiu. Joguei-me para trás na cadeira, que soltou um rangido. — Meu Deus, homem, você se candidatou a esse emprego! Você deveria ter usado um intermediário para indicá-lo a nós. Depois, quando entrássemos em contato, você deveria fingir que não estava sabendo de nada. Um alto executivo tem que ser caçado, não se entregar esquartejado numa bandeja. Vi que consegui o efeito desejado. Ele estava profundamente abalado. Isso não era uma entrevista que seguia o modelo tradicional, não era Cuté, Disc ou qualquer dos outros questionários estúpidos e inúteis que foram concebidos por psicólogos praticamente sem ouvido tonal e por especialistas em recursos humanos que eram desprovidos desses mesmos recursos. Baixei a voz mais uma vez. — Espero que sua esposa não fique decepcionada demais quando você contar isso para ela hoje à noite. Que o emprego dos sonhos lhe escapou. Que sua carreira ficará em stand-by este ano também. Como no ano passado… Ele teve um sobressalto. Golpe certeiro. Evidentemente. Isso era Roger Brown em ação, a maior estrela do recrutamento da atualidade. — O ano… passado? — Sim, não é mesmo? Você se candidatou ao cargo de diretor-presidente da Denja. Maionese e patê de fígado. Não foi você? — Pensei que essas coisas fossem confidenciais — disse Jeremias Lander em voz resignada. — São sim. Mas meu trabalho é fazer o mapeamento. E é o que faço, usando os métodos de que disponho. É imprudente se candidatar a cargos sem conseguir ser escolhido, sobretudo em sua situação, Lander. — Minha situação? — Seus papéis, seus resultados profissionais, os testes e a impressão pessoal que você passa me dizem que você tem o que é preciso. Tudo o que lhe falta é reputação. E o pilar para criar uma boa reputação é exclusividade. Candidatar-se a cargos a torto e a direito estraga a exclusividade. Você é um executivo que não procura desafios, mas o desafio. Aquele emprego único. E ele será oferecido a você. De bandeja. — Será oferecido a mim? — perguntou, ensaiando aquele sorriso simpático e torto outra vez. Não funcionou mais. — Gostaríamos de ter você em nosso portfólio. Você não vai se candidatar a outros empregos. Você não vai aceitar se outras empresas de recrutamento o procurarem com ofertas aparentemente atraentes. Você vai se manter fiel a nós. Ser exclusivo. Deixe a gente construir sua reputação e vigiá-la. Deixe a gente fazer por você o que a Tripolis faz por sua casa. Dentro de dois anos, você vai voltar para sua esposa com uma oferta de emprego ainda mais vantajosa que aquela que estamos discutindo agora. E

isso é uma promessa. Jeremias Lander passou o polegar e o indicador pelas mandíbulas cuidadosamente barbeadas. — Hum, essa entrevista está tomando um rumo que eu não esperava. A derrota o acalmara. Eu me inclinei em sua direção. Abri os braços. Virei as palmas das mãos para cima. Procurei seu olhar. Pesquisas provam que 78 por cento da primeira impressão numa entrevista de emprego se baseia na linguagem corporal e apenas 8 por cento no que você diz. O resto é tudo sobre roupa, o cheiro do sovaco e da boca, o que você tem nas paredes. Eu tinha uma linguagem corporal fantástica. E naquele momento ela transmitia abertura e confiança. Eu estava convidando Lander a se sentir à vontade. — Veja bem, Lander. O presidente do conselho de administração e o diretor financeiro do cliente vão vir aqui amanhã para uma reunião com um dos candidatos. Gostaria que eles tivessem uma reunião com você também. Meio-dia seria um bom horário? — Excelente. — Ele deu a resposta sem fingir que precisava conferir alguma agenda. Eu já gostava mais dele. — Quero que você escute o que eles têm a dizer e depois exponha educadamente os motivos por que não está mais interessado, explicando que esse não é o desafio que você estava procurando e lhes desejando boa sorte. Jeremias Lander inclinou a cabeça de lado. — Pular fora assim não será considerado leviano? — Será considerado ambicioso — afirmei. — Você será visto como alguém que conhece seu próprio valor. Uma pessoa cujos serviços são exclusivos. E isso é o início daquilo que a gente chama de… — Fiz um gesto com a mão. Ele sorriu. — Reputação? — Reputação. Temos um acordo? — Dentro de dois anos. — Garanto. — E como pode garantir isso? Anotei: Retoma logo a ofensiva. — Porque vou recomendá-lo para um dos cargos de que estou falando. — E daí? A decisão não é sua. Semicerrei os olhos. Minha mulher, Diana, dizia que essa expressão me deixava parecido com um leão preguiçoso, um soberano saciado. Eu gostava daquela comparação. — Minha recomendação é a decisão do cliente, Lander. — O que quer dizer? — Da mesma forma que você nunca deve se candidatar a um emprego que sabe que não vai

conseguir, eu nunca dei uma recomendação que o cliente não acatou. — É mesmo? Nunca? — Não que alguém se lembre. Se eu não estiver 100 por cento certo de que o cliente vai seguir minha recomendação, não recomendo ninguém e prefiro deixar a tarefa para um dos concorrentes. Mesmo se eu tiver três excelentes candidatos e 90 por cento de certeza. — Por quê? Sorri. — A resposta começa com “r”. Toda a minha carreira foi construída em cima disso. Lander balançou a cabeça e riu. — Dizem que você é terrível, Brown. Agora entendo o que querem dizer. Dei um sorriso e me levantei. — E agora sugiro que você volte para casa e diga a sua bela esposa que vai rejeitar esse emprego porque decidiu esperar por algo melhor. Aposto que você vai ter uma noite agradável. — Por que você está fazendo isso por mim? — Porque a comissão que seu empregador vai pagar para nós é um terço do seu primeiro salário anual bruto. Você sabia que Rembrandt costumava ir a leilões para aumentar o preço dos próprios quadros? Por que eu venderia você por dois milhões se, com um empurrãozinho na reputação, posso vender por cinco? Tudo o que exigimos é que você seja fiel à nossa empresa. Temos um acordo? — Estendi a mão. Ele a apertou ansiosamente. — Tenho a impressão de que essa conversa foi proveitosa, Brown. — Também acho — concordei, fazendo uma nota mental de lhe dar algumas dicas sobre apertos de mão antes de ele encontrar o cliente. Ferdinand foi entrando no meu escritório logo depois de Jeremias Lander ter ido embora. — Eca! — exclamou, fazendo uma careta enquanto abanava a mão. — Eau de camouflage. — Fiz que sim enquanto abria a janela para arejar o ambiente. O que Ferdinand quis dizer era que o candidato tinha passado perfume em excesso para ofuscar o suor nervoso que enche as salas de interrogatório de nosso ramo. — Mas pelo menos ele usava um Clive Christian — falei. — Comprado pela esposa. Assim como o terno, os sapatos, a camisa, a gravata. E foi ideia dela tingir suas têmporas de grisalho. — Como você sabe? — Ferdinand se instalou na cadeira onde Lander tinha se sentado, mas pulou dela com nojo estampado no rosto ao sentir o calor pegajoso que ainda permanecia no tecido do assento. — Ele ficou pálido como um defunto quando apertei o botão “esposa” — respondi. — Falei que ela ficaria decepcionada se ele lhe contasse que não conseguiu o emprego. — “O botão esposa!” De onde você tira essas coisas, Roger?

Ferdinand tinha se sentado em uma das outras cadeiras e colocado os pés na mesa de centro, uma cópia relativamente barata de uma Noguchi. Pegou uma laranja e enquanto a descascava um esguicho invisível se erguia, espalhando-se sobre sua camisa recém-passada. Ferdinand era incrivelmente descuidado para ser homossexual. E extremamente homossexual para ser headhunter. — Inbau, Reid e Buckley — respondi. — Você já disse isso antes — retrucou Ferdinand. — Mas o que exatamente é isso? É melhor que Cuté? Dei risada. — É o manual de interrogatório de nove passos do FBI, Ferdinand. É uma metralhadora num mundo de estilingues, uma ferramenta que abre o caminho, que não leva ninguém à prisão, mas dá resultados rápidos e tangíveis. — E que resultados são esses, Roger? Eu sabia o que Ferdinand queria, e não havia problema. Ele queria descobrir qual era minha vantagem, o motivo por que eu era o melhor e ele, por enquanto, não. Eu lhe dava o que ele precisava para conseguir isso. Pois as regras do jogo são assim, os conhecimentos devem ser compartilhados. Além disso, ele nunca seria melhor do que eu. Ele iria sempre se apresentar usando camisas que fediam a laranja e perguntar se alguém tinha um modelo, um segredo, um método mais eficiente que o dele. — Submissão — respondi. — Confissão. Verdade. Ele se baseia em princípios muito simples. — Como o quê? — Como começar perguntando ao suspeito sobre a família. — Ah — disse Ferdinand. — Eu também faço isso. Eles se sentem seguros quando podem falar sobre alguma coisa conhecida, alguma coisa próxima. Além disso, faz com que se abram. — Exatamente. Mas isso também torna você capaz de descobrir seus pontos fracos. O calcanhar de aquiles deles. Que vai ser útil para usar mais tarde durante o interrogatório. — Ih, que terminologia! — Mais tarde no interrogatório, quando vocês vão falar sobre aquilo que dói, aquilo que aconteceu, o assassinato de que ele é suspeito, aquilo que faz com que ele se sinta sozinho e abandonado por todos, querendo se esconder, aí você se certifica de ter colocado um rolo de papel-toalha na mesa, a uma distância que seja fora do alcance do suspeito. — Por quê? — Porque o interrogatório já atingiu seu crescendo natural e chegou a hora de apertar o botão dos sentimentos. Você vai perguntar o que os filhos dele vão pensar quando ficarem sabendo que seu pai é um assassino. E então, assim que as lágrimas encherem os olhos dele, você lhe estende o rolo de papeltoalha. Você deve ser aquele que compreende, aquele que quer ajudar, aquele a quem ele pode contar tudo que o faz sofrer. Aquele assassinato tão estúpido que simplesmente aconteceu, quase sem querer. — Assassinato? Não estou entendendo nada, cara. A gente recruta pessoas, não é isso que a gente

faz? Não tentamos condenar ninguém por assassinatos. — Eu tento — respondi, pegando a jaqueta que estava pendurada no espaldar da cadeira. — E por isso sou o melhor headhunter da cidade. Aliás, vou escalar você para a entrevista com Lander e o cliente amanhã ao meio-dia. — Eu? Saí do escritório e segui pelo corredor com Ferdinand caminhando aos saltinhos atrás de mim, enquanto passamos pelos 25 outros escritórios que compunham a Alfa, uma agência de recrutamento de médio porte que havia sobrevivido por 15 anos e gerava lucros anuais entre 15 e 20 milhões, os quais, depois de um dispêndio modesto demais com o bônus para os melhores entre nós, iam diretamente para o bolso do dono, em Estocolmo. — Você vai tirar de letra. As informações estão no arquivo. OK? — OK — disse Ferdinand. — Com uma condição. — Condição? Estou te fazendo um favor. — O vernissage que sua esposa vai ter na galeria hoje à noite… — O que tem? — Posso ir? — Você foi convidado? — Aí é que está. Fui convidado? — Provavelmente não. Ferdinand parou de repente e sumiu de meu campo de visão. Continuei andando, sabendo que ele estava ali, de braços pendurados, olhando para mim enquanto pensava que não seria desta vez que brindaria com espumante na companhia dos jet-setters de Oslo, das rainhas da noite, das celebridades e dos endinheirados; não sentiria aquele gostinho de glamour que cercava os vernissages de Diana, não faria contato com candidatos potenciais a emprego, cama ou outro tipo de relação pecaminosa. Coitado. — Roger? — Era a moça atrás do balcão da recepção. — Dois telefonemas. Um… — Agora não, Oda — falei sem parar de andar. — Vou ficar fora 45 minutos. Não pegue nenhuma mensagem. — Mas… — Eles ligam de volta se for importante. Moça bonita, mas ainda precisava de um pouco de treinamento, aquela Oda. Ou será que era Ida?

2

Setor terciário

O forte gosto salgado dos gases de escape no ar de outono me fez pensar em mar, exploração de petróleo e produto interno bruto. Os raios oblíquos do sol cintilavam nos vidros dos prédios comerciais, que lançavam sombras pontiagudas e retangulares sobre aquilo que um dia foi uma área industrial. Agora havia se transformado numa espécie de bairro urbanizado com lojas caras demais, apartamentos caros demais e escritórios caros demais de consultores caros demais. De onde eu estava, podia avistar três academias, todas lotadas desde a manhã até a noite. Um jovem de terno Corneliani e óculos de nerd requintado me cumprimentou com reverência quando passei por ele, e eu lhe respondi com um aceno condescendente. Não fazia ideia de quem era, só sabia que tinha de ser de alguma outra agência de recrutamento. Da Edward W. Kelley talvez? Só os headhunters cumprimentam outro headhunter com reverência. Ou para ser mais preciso: ninguém mais me cumprimenta, ninguém sabe quem sou eu. Em primeiro lugar, meu círculo social é limitado, exceto quando estou com minha esposa, Diana. Em segundo lugar, trabalho numa empresa que, assim como a Kelley, pertence a um grupo exclusivo, que evita os holofotes da mídia, da qual você pensa nunca ter ouvido falar até que um dia seja qualificado para um dos mais altos cargos deste país e, recebendo um telefonema nosso, percebe que aquele nome não lhe soa estranho: Alfa, onde foi que você ouviu esse nome? Foi em alguma reunião da cúpula do grupo, relacionado com a nomeação de um novo diretor de divisão? Quer dizer que você já ouviu falar de nós. Mas você não sabe nada, pois a discrição é nossa principal virtude. Além de ser a única. Porque é óbvio que a maior parte do negócio é mentira descarada, por exemplo, o mantra que uso como arremate da segunda entrevista: “Você é o homem que eu estava procurando para esse cargo. Sei que você é perfeito para esse cargo, o que significa que ele é perfeito para você. Acredite em mim.” Bem, não acredite em mim.

Pois é, eu achava que ele era da Kelley. Ou da Amrop. Com aquele terno, era certo que não podia ser de alguma das grandes, empresas pouco bacanas, não exclusivas, como a Manpower ou a Adecco. Mas tampouco de uma das superpequenas, chiques, como a Hopeland, aí eu saberia quem ele era. Poderia ser de alguma grande, mais ou menos bacana, como a Mercuri Urval ou a Delphi, ou então de alguma pequena, nada bacana, daquelas que só recrutam para o segundo escalão e apenas raramente recebem permissão para concorrer conosco, os caras grandes. E então perdem e voltam a recrutar gerentes de lojas e diretores financeiros. E cumprimentam com reverência pessoas como eu, alimentando a esperança de que um dia vamos nos lembrar deles e lhes oferecer um emprego em nossa empresa. Não existe nenhum ranking oficial dos headhunters, nenhuma pesquisa de opinião como no ramo das corretoras, tampouco festas do setor com prêmios para os melhores do ano, como no ramo da TV e da publicidade. Mas sabemos. Sabemos quem é o rei do jogo, quem são os candidatos ao trono, quem está prestes a cair. As façanhas ocorrem em silêncio, os enterros, no silêncio do túmulo. Mas o cara que acabou de me cumprimentar sabia que eu era Roger Brown, o headhunter que nunca fracassou ao indicar um candidato a um cargo, que se dispõe a manipular, forçar, arrombar e dar cabeçadas para garantir a colocação do candidato, que tem clientes que confiam cegamente em seu discernimento, colocando sem hesitação o destino da empresa nas suas — e apenas nas suas — mãos. Ou seja, não foi a Autoridade Portuária de Oslo que contratou um novo diretor de tráfego no ano passado, não foi a Avis que contratou o diretor para a Escandinávia, e definitivamente não foi a prefeitura que contratou os executivos da usina hidrelétrica de Sirdal. Fui eu. Decidi fazer uma nota do cara. Bom terno. Sabe a quem mostrar respeito. Liguei para Ove de um orelhão do lado da banca enquanto conferi o celular. Oito mensagens. Deletei-as. — Temos um candidato — disse quando Ove finalmente atendeu. — Jeremias Lander, Monolitveien. — Vou checar se é dos nossos. — Não, sei que é. Foi chamado para a segunda entrevista amanhã. Do meio-dia às 14h. Meio-dia em ponto. Me dê uma hora. Tomou nota? — Sim, senhor. Algo mais? — Chaves. Sushi & Coffee daqui a vinte minutos? — Meia hora. Fui andando pela rua de paralelepípedos em direção ao Sushi & Coffee. O motivo por que escolheram um pavimento que, além de fazer mais barulho, polui mais e ainda por cima é mais caro que o asfalto normal deve ter sido a necessidade de algo bucólico, a nostalgia por algo autêntico, duradouro e

genuíno. Pelo menos mais genuíno do que isso, esse bairro falso, onde uma vez se criaram, com o suor do rosto, produtos nascidos do fogo crepitante e das pesadas batidas de um martelo. O eco atual consistia no ruído das máquinas de café espresso e no tinido de ferro contra ferro nas academias. Pois esse era o triunfo do setor terciário sobre o operariado, o triunfo do design sobre o déficit habitacional, o triunfo da ficção sobre a realidade. E é o que eu gosto. Olhei para os brincos de diamante que me chamaram a atenção na vitrine da joalheria do outro lado da rua do Sushi & Coffee. Seriam perfeitos para as orelhas de Diana. E seriam uma catástrofe para minhas finanças. Afastei a ideia, atravessei a rua e passei pela porta do estabelecimento que, de acordo com o nome, prepara sushi, mas na realidade serve peixe morto. No entanto, não se podia reclamar do café deles. O restaurante estava meio cheio. Mulheres esbeltas, que acabaram de sair da academia, de cabelos loiros platinados, ainda vestindo as roupas de ginástica, pois não lhes ocorreria se expor às outras pessoas tomando banho numa academia. Curioso, na verdade, já que gastavam uma fortuna nesses corpos que celebravam o triunfo da ficção. Elas também pertenciam ao setor terciário, mais precisamente à criadagem que servia os maridos ricos. Se essas mulheres pelo menos fossem pouco inteligentes, mas, como parte dos cuidados com a beleza, elas eram formadas em Direito, Informática e História da Arte; elas deixaram a sociedade financiar anos de estudos universitários somente para acabar como brinquedos domésticos superqualificados, que estavam aqui trocando confidências sobre como manter seus sugar daddies convenientemente satisfeitos, convenientemente ciumentos e convenientemente apaixonados. Até que por fim os amarrariam com filhos. E é claro que depois dos filhos tudo muda, o equilíbrio de poder é virado de ponta-cabeça, e o homem está castrado e em xeque-mate. Filhos… — Um cortado duplo — encomendei, subindo em uma das cadeiras perto do balcão do bar. Contente, observei as mulheres no espelho. Eu era um homem sortudo. Como Diana era diferente dessas parasitas espertas e fúteis. Ela tinha tudo o que eu não tinha. Carinho. Empatia. Lealdade. Altura. Em resumo: ela era uma bela alma num belo corpo. Mas sua beleza não era do tipo perfeito, para isso as proporções eram singulares demais. Diana foi desenhada no estilo mangá, como aquelas figuras com cara de boneca das histórias em quadrinho japonesas. Tinha um rosto pequeno com uma boca pequenininha e delgada, nariz pequeno e grandes olhos um pouco surpresos que tendiam a ficar saltados quando ela estava cansada. Mas a meu ver eram exatamente os desvios do padrão que faziam sua beleza se destacar, tornando-a atraente. Então, o que a tinha levado a me escolher? O filho de um motorista, um estudante de economia cuja inteligência era um pouco acima da média, com perspectivas um pouco abaixo da média e uma altura bem abaixo da média. Cinquenta anos atrás, não me qualificaria como baixinho, pelo menos não na Europa em geral. E quem quiser ler um pouco de história antropométrica vai ver que apenas cem anos atrás 1,68m era exatamente a altura média na Noruega. Mas a evolução tinha se desdobrado contra mim. Uma coisa era ela, num momento de insanidade, ter me escolhido, outra, bem mais

incompreensível, era que uma mulher como Diana — que poderia escolher quem quisesse — continua me querendo todos os dias. Que tipo de cegueira misteriosa a impossibilitava de ver minha natureza vil e traiçoeira, minha fraqueza diante de qualquer adversidade, minha maldade estúpida diante de qualquer maldade estúpida? Será que ela não queria ver? Ou será que apenas minha astúcia e habilidade tinham feito com que meu verdadeiro eu fosse parar no ponto cego abençoado do amor? E é claro que também tinha a ver com o filho que eu por enquanto lhe havia negado. Que tipo de poder eu realmente tinha sobre esse anjo em forma humana? De acordo com Diana, desde a primeira vez que nos encontramos eu a encantara com minha mistura contraditória de arrogância e autoironia. Foi em Londres, numa festa estudantil escandinava. A primeira impressão de Diana havia sido que ela era exatamente como uma das mulheres sentadas aqui: uma loira beldade nórdica da zona oeste de Oslo que estudava História da Arte numa metrópole mundial, fazia alguns bicos como modelo, era contra a guerra e a pobreza e gostava de festas e de tudo que era divertido. Passaram-se três horas e uma meia dúzia de cervejas Guinness antes de eu entender que estava enganado. Em primeiro lugar, ela tinha um interesse genuíno por arte, quase ao ponto de ser uma nerd. Em segundo lugar, conseguia articular sua frustração por fazer parte de um sistema que travava guerras contra aqueles que se opunham ao capitalismo ocidental. Foi Diana quem me explicou que a exploração do Terceiro Mundo pelos países do Primeiro Mundo menos a ajuda ao desenvolvimento dava, e sempre dera, lucro. Em terceiro lugar, ela tinha senso de humor, de meu humor, algo que é um pré-requisito para que caras como eu consigam conquistar mulheres com mais de 1,70m. E em quarto lugar — e certamente era isso que havia sido decisivo para mim — ela não tinha aptidão para línguas, apenas para o raciocínio lógico. Seu inglês era, no mínimo, desajeitado, e, rindo, ela me contou que nem lhe passou pela cabeça tentar aprender francês ou espanhol. Então perguntei se ela tinha um cérebro masculino e gostava de matemática. Ela só deu de ombros, mas eu não desisti e lhe contei sobre as entrevistas de emprego na Microsoft, onde os candidatos são expostos, sem preparação, a um desafio de lógica. — Além de testar se o candidato consegue encontrar a solução, o objetivo é ver como ele lida com o desafio. — Vamos lá! — falou ela. — Números primos… — Espera! O que são números primos mesmo? — Números que só são divisíveis por eles mesmos e por um. — Ah é. — Ela ainda não estava com aquele olhar distante que as mulheres geralmente adotam quando números entram na conversa. Então continuei: — Números primos são muitas vezes dois números ímpares seguidos. Como 11 e 13, 17 e 19, 29 e 31. Entendeu? — Entendi. — Há possibilidade de que três números ímpares seguidos sejam números primos?

— Claro que não — disse ela, levantando o copo de cerveja até a boca. — É mesmo? Por que não? — Você está achando que sou burra? Numa sequência de cinco números seguidos, um dos números ímpares necessariamente precisa ser divisível por três. Pode continuar. — Continuar? — Sim, qual é o desafio lógico? Ela tinha tomado um grande gole do copo de cerveja e me fitou com uma curiosidade genuína e esperançosa. Na Microsoft, os candidatos tinham três minutos para provar matematicamente aquilo que ela me provou em três segundos. Na média, cinco em cada cem pessoas conseguiam isso. E acho que foi naquele exato momento que me apaixonei por ela. Pelo menos me lembro de ter anotado em meu guardanapo: Contratada. E eu sabia que precisava fazer com que ela se apaixonasse por mim enquanto ainda estávamos sentados ali, pois assim que eu me levantasse o feitiço seria quebrado. Por isso eu falei e falei tanto. Eu tinha falado até medir 1,85m. Tenho facilidade para falar. Mas ela tinha me interrompido quando eu estava no meu auge: — Você gosta de futebol? — V… você gosta? — perguntei, pego de surpresa. — O QPR joga na copa da liga contra o Arsenal amanhã. Interessado? — Claro — respondi. E queria dizer interessado nela, já que não ligo a mínima para futebol. Ela usou um lenço listrado azul e branco e gritou até ficar rouca sob a neblina outonal de Londres enquanto seu timinho pobre, o Queens Park Rangers, levava uma surra do irmão grande, o Arsenal, no estádio Loftus Road. Fascinado, estudei seu rosto entusiasmado e não entendi nada do jogo a não ser que o Arsenal tinha lindos uniformes brancos e vermelhos, enquanto o QPR usava listras transversais azuis sobre um fundo branco que faziam os jogadores parecerem pirulitos listrados correndo. No intervalo, perguntei por que ela não havia escolhido torcer para um grande time vencedor como o Arsenal em vez de para um clubinho patético como o QPR. — Porque eles precisam de mim — foi sua resposta. Séria. Eles precisam de mim. Vislumbrei uma sabedoria fora da minha compreensão naquelas palavras. Depois ela deu aquela risada dela, levemente gorgolejante, e esvaziou o copo plástico de cerveja. — São como um bebê indefeso. Olhe para eles. São tão bonitinhos. — Vestindo fantasias de bebê — falei. — Então, “deixai vir a mim os pequenos”, é esse seu lema? — Hum — respondeu ela, inclinando a cabeça de lado e baixando o olhar para mim com um largo sorriso. — Pode até se tornar isso. E a gente deu risada, uma risada alta e libertadora. Não me lembro do resultado do jogo. Ou, na verdade, me lembro: um beijo na frente de uma pensão rigorosa para moças, feita de alvenaria, em Shepherd’s Bush. E uma noite solitária e insone

recheada de sonhos delirantes. Dez dias mais tarde, à luz fugidia de uma vela enfiada numa garrafa de vinho sobre a mesinha de cabeceira dela, olhei para seu rosto embaixo de mim. Fazíamos amor pela primeira vez, os olhos dela estavam fechados, a veia da testa protuberante, a expressão do rosto variando entre fúria e dor enquanto seus quadris se chocavam com força contra os meus. A mesma paixão de quando ela demonstrou ao ver o QPR ser eliminado da copa da liga inglesa. Depois, ela disse que amava meu cabelo. Eu ouvia isso o tempo todo, mas parecia que estava escutando pela primeira vez. Passaram-se seis meses antes que eu contasse a ela que o fato de meu pai trabalhar no corpo diplomático não significava necessariamente que ele era diplomata. — Motorista — repetiu ela, puxando minha cabeça para baixo e beijando-a. — Isso quer dizer que ele pode emprestar a limusine do embaixador para nos levar da igreja? Eu não respondi, mas na primavera seguinte a gente se casou com mais esplendor do que pompa na igreja de St. Patrick, em Hammersmith. A ausência da pompa se devia ao fato de eu ter convencido Diana a ter um casamento sem parentes e amigos. Sem meu pai. Só nós, puros e inocentes. O esplendor foi por conta de Diana, que brilhava como dois sóis e uma lua. Por coincidência, o QPR subiu de divisão na mesma tarde e o táxi avançou a passos de tartaruga até seu alojamento em Shepherd’s Bush, passando por entre um desfile de faixas e bandeiras listradas como pirulitos. Tudo era perfeito. Foi só depois de termos mudado para Oslo que Diana mencionou filhos pela primeira vez. Olhei para o relógio. Ove deveria chegar agora. Levantei os olhos para o espelho sobre o bar e encontrei os de uma loira. Nossos olhares se fixaram um no outro por tanto tempo que poderíamos tirar a conclusão errada se quiséssemos. Bonita como uma atriz pornô, bom trabalho de cirurgia. Eu não queria. Por isso meu olhar passou adiante. Meu único caso vergonhoso tinha começado assim, com um olhar um pouco prolongado demais. O primeiro ato ocorreu na galeria. O segundo foi aqui no Sushi & Coffee. O terceiro, num pequeno apartamento na rua Eilert Sundt. Mas agora Lotte era um capítulo encerrado, e aquilo jamais, jamais aconteceria de novo. Meus olhos deram a volta pelo local e pararam. Ove estava sentado à mesa logo atrás da porta de entrada. Aparentemente, ele estava lendo o jornal Dagens Næringsliv. Uma visão engraçada por si só. Não só Ove Kjikerud era totalmente desprovido de interesse pelos preços das ações e pela maioria das coisas que se passavam na chamada sociedade como ele mal sabia ler. Ou escrever. Ainda me lembro de sua solicitação para o cargo de chefe de segurança, que continha tantos erros ortográficos que eu tinha caído na gargalhada. Desci do banco e fui até sua mesa. Ele tinha dobrado o Dagens Næringsliv e eu fiz um aceno para o jornal. Ele deu um breve sorriso para mostrar que estava disponível. Peguei o jornal sem uma palavra e voltei para meu lugar do lado do balcão. Um minuto mais tarde ouvi alguém sair e, quando olhei outra vez no espelho, Ove Kjikerud tinha sumido. Folheei o jornal até chegar à seção dos preços das ações, fechei a mão discretamente em torno da chave que estava ali, deixando-a deslizar para dentro do bolso

da jaqueta. De volta ao escritório, vi seis torpedos me aguardando no celular. Sem ler as mensagens, apaguei cinco delas e abri o de Diana: Lembre-se do vernissage hoje à noite, meu amor; você é meu amuleto da sorte. Ela tinha inserido um smiley com óculos de sol, um dos detalhes sofisticados do telefone Prada que eu lhe dera nesse verão, em seu aniversário de 32 anos. “O que eu mais queria!”, exclamou ela ao desembrulhar o presente. Mas nós dois sabíamos o que ela queria acima de tudo. A mesma coisa que eu não queria lhe dar. Ainda assim ela mentiu e me beijou. O que mais se pode querer de uma mulher?

3

Vernissage

Um metro e sessenta e oito. Não preciso de mais um psicólogo babaca para me dizer que existe uma espécie de compensação, que a baixa estatura instiga a pessoa a realizar coisas. Como se sabe, uma parte surpreendentemente grande das maiores criações do mundo é obra de homens pequenos. Nós conquistamos impérios, temos as ideias mais brilhantes, seduzimos as mulheres mais belas na tela do cinema; em resumo, sempre à procura dos sapatos de plataforma mais altos. Muitos idiotas descobriram que algumas pessoas cegas são bons músicos e que alguns autistas conseguem calcular raízes quadradas de cabeça, o que os levou à conclusão de que todas as deficiências são uma bênção disfarçada. Em primeiro lugar, isso é uma bobagem. Em segundo lugar, não sou nenhum anão, apenas um pouco mais baixo do que a média. Em terceiro lugar, mais de 70 por cento das pessoas que ocupam os cargos executivos mais altos têm uma altura acima da média de seu país. A altura também tem uma correlação positiva com inteligência, renda e popularidade. Quando indico alguém para um cargo executivo no setor privado, a altura é um de meus critérios mais importantes. Altura inspira respeito, confiança e autoridade. Pessoas altas são visíveis, não podem se esconder, são mastros varridos de impurezas, precisam se responsabilizar pelo que são. Pessoas baixas se movimentam no lodo, têm um plano oculto, um trabalho que tem a ver com o fato de serem baixas. É claro que tudo isso é besteira, mas, se indico um candidato para um cargo, não o faço porque aquela pessoa é a que vai fazer o melhor trabalho, mas porque é a pessoa que o cliente vai contratar. Eu lhes entrego uma cabeça boa o suficiente, acoplada ao corpo que eles querem. Meus clientes não são preparados para opinar sobre o primeiro item, mas conseguem ver o segundo com os próprios olhos. Assim como os super-ricos, supostos connoisseurs de arte, nos vernissages de Diana. Não são qualificados para opinar sobre o quadro, mas são capazes de ler a assinatura do artista. O mundo é

cheio de pessoas que pagam valores exorbitantes por quadros ruins de bons artistas. E por cabeças medíocres sobre corpos altos. Eu estava dirigindo meu novo Volvo S80, subindo pelas curvas da ladeira que levava à nossa casa bonita e um pouco cara demais em Voksenkollen. Eu a comprei porque Diana ficou com aquela expressão de sofrimento quando fomos ver a casa. A veia na testa, que costumava se dilatar quando fazíamos amor, se tornou azul e vibrante sobre seus olhos amendoados. Ela levou a mão direita ao cabelo curto, fino e cor de palha e colocou-o atrás da orelha direita como que para escutar melhor, para saber, através dos ouvidos, se seus olhos estavam certos, se essa era a casa que ela estava procurando. E, sem que precisasse dizer uma palavra, eu sabia que era. Até quando o brilho nos olhos dela se extinguiu porque o corretor contou que já recebera uma proposta um milhão e meio acima do preço inicial, eu sabia que precisava comprar aquela casa para ela. Porque essa seria a única dádiva que poderia remediar a situação depois que eu a convenci a não ter aquele filho. Não me lembro mais dos argumentos exatos que usei a favor do aborto, só que nenhum deles tinha sido verdadeiro. O fato era que, embora fôssemos duas pessoas ocupando 320 metros quadrados supercaros, não havia lugar para uma criança. Ou seja, não havia lugar para mim e uma criança. Eu conhecia Diana. Ela era, ao contrário de mim, perversamente monogâmica. Eu teria odiado aquela criança desde o primeiro dia. Então, em vez disso, eu tinha lhe oferecido um novo começo. Uma casa. E uma galeria. Virei e subi a rampa. O portão da garagem reconheceu o carro e se abriu automaticamente. O Volvo deslizou para dentro da escuridão fresca, e o motor expirou enquanto o portão se fechou atrás de mim. Saí pela porta lateral da garagem e segui o caminho pavimentado que levava à casa. A casa era uma obra-prima de 1937, projetada por Ove Bang, o funcionalista para quem os custos importavam menos que a estética, sendo, portanto, uma das almas gêmeas de Diana. Muitas vezes já pensei que poderíamos vender a casa, mudar para uma um pouco menor, mais modesta, mais prática até. Mas sempre que eu chegava em casa e via tudo como agora, com o sol baixo da tarde deixando seus contornos aparecerem com tanta nitidez, os desenhos de luz e sombra, a floresta outonal por trás resplandecendo feito ouro vermelho, eu sabia que seria impossível. Que eu não seria capaz de parar. Simplesmente porque eu amava Diana e não era capaz de outra coisa. E com isso vinha todo o resto: a casa, a dispendiosa galeria, as luxuosas provas de amor sem utilidade e o estilo de vida que não cabia no nosso orçamento. Tudo para aplacar o ardente desejo dela. Entrei na casa e tranquei a porta, tirei os sapatos, desativei o alarme dentro dos 20 segundos prescritos, antes que começasse a apitar na Tripolis. Diana e eu tivemos uma longa discussão sobre o código antes de chegarmos a um acordo. Ela queria que fosse “DAMIEN”, em homenagem a seu artista preferido, Damien Hirst, mas eu sabia que esse era o nome que ela tinha dado a nosso filho abortado, e por isso insisti em usar uma sequência aleatória de letras e números que não pudesse ser adivinhada. E ela se dera por vencida — como sempre que eu forçava a barra. Ou forçava a sua delicadeza. Porque Diana era delicada. Não fraca, mas delicada e flexível. Assim como o barro, em que a menor pressão

deixa uma marca. O curioso é que quanto mais ela cedia, maior e mais forte se tornava. E eu ficava cada vez mais fraco. Até ela pairar sobre mim como um anjo gigante, um céu de culpa, dívida e má consciência. E não importava quanto eu me esforçasse, quantas cabeças eu trouxesse para casa, quanto da verba de bônus da matriz de Estocolmo eu abocanhasse, nunca seria o suficiente para conseguir a absolvição. Subi a escada para a sala e a cozinha, arranquei a gravata, abri a geladeira Sub-zero e tirei uma garrafa de San Miguel. Não a Especial, mas a 1516, a cerveja superleve que Diana preferia porque é fabricada à base de cevada pura. Da janela da sala olhei para o jardim, a garagem e as casas dos vizinhos. Oslo, o fiorde, Skagerrak, Alemanha, o mundo. E descobri que já tinha esvaziado a garrafa de cerveja. Fui buscar mais uma e desci até o térreo para me trocar para o vernissage. Ao passar pelo Quarto Proibido, percebi que a porta estava entreaberta. Empurrei-a e imediatamente vi que Diana tinha colocado flores frescas junto à pequena figura de pedra sobre a mesa baixa que parecia um altar perto da janela. A mesa era o único móvel do quarto, e a figura de pedra tinha o aspecto de um monge criança com o sorriso satisfeito do Buda. Do lado das flores havia um par de sapatinhos de bebê e um chocalho amarelo. Entrei, tomei um gole da cerveja, me agachei e passei os dedos sobre a careca lisa e nua da figura de pedra. Era um mizuko jizo, figura que, segundo a tradição japonesa, protegia as crianças abortadas, ou mizuko — filhos das águas. Fui eu que comprei a imagem em uma fracassada viagem de negócios a Tóquio. Foi logo nos primeiros meses depois do aborto, enquanto Diana ainda estava abatida, e pensei que talvez pudesse consolá-la. O vendedor falava muito mal a minha língua para que eu captasse todos os detalhes, mas a ideia é que, com a morte do feto, a alma da criança volta a seu estado flutuante original, tornando-se um filho das águas, que — de acordo com uma pitada de budismo no estilo japonês — aguarda a reencarnação. Nesse meio-tempo, são realizadas as mizuko kuyo, cerimônias e oferendas simples que protegem a alma que está por nascer e, ao mesmo tempo, protegem os pais contra a vingança do filho das águas. Nunca contei a última parte à Diana. No início, eu fiquei feliz, parecia que ela havia realmente encontrado consolo na imagem de pedra. Mas, quando seu jizo se tornou uma obsessão e ela quis levá-lo para o nosso quarto, eu tive que bater o pé. E precisei dizer que ela não deveria fazer oferendas ou rezar para a figura. Acho que naquele caso não forcei sua delicadeza, pois eu sabia muito bem que era possível perdê-la. E Diana era imperdível. Entrei no meu escritório, liguei o computador, procurei na internet uma imagem em alta resolução do quadro O broche de Edvard Munch, também chamado de Eva Mudocci. No mercado legal, valia 350 mil. No meu, dificilmente mais que 200 mil. Cinquenta por cento para o receptador, vinte por cento para Kjikerud. Oitenta mil para mim. Era o esquema usual, não valia a pena e muito menos o risco. O quadro era em preto e branco, 58 cm x 45 cm. O tamanho perfeito para uma folha A2. Oitenta mil. Não era o suficiente para pagar a próxima prestação trimestral da hipoteca. E estava longe de cobrir o

déficit da galeria do ano passado, que eu prometera ao contador que pagaria até o final de novembro. Por algum motivo, estava demorando cada vez mais para aparecer um quadro decente. O último, Modelo de salto alto, de Søren Onsager, foi há mais de três meses, e ele não chegou a render 60 mil. Algo precisava acontecer logo. O QPR precisava marcar um gol de sorte, um passe desajeitado no ângulo, que, merecido ou não, levaria o time para o Wembley. Pelo que ouvi, essas coisas aconteciam. Dei um suspiro e mandei Eva Mudocci para a impressora.

Já que haveria champanhe, fui de táxi. Ao me sentar no carro, falei, como sempre, apenas o nome da galeria, só para testar a eficiência do nosso trabalho de marketing. Mas, como sempre, o motorista me olhou com ar indagador pelo espelho retrovisor. — Rua Erling Skjalgsson — expliquei suspirando. Diana e eu discutimos a localização muito tempo antes de ela optar pelo imóvel. Minha principal preocupação era que deveria ficar no eixo Skillebekk-Frogner, pois é ali que os clientes endinheirados e as outras galerias de certo nível se encontram. Para uma nova galeria, instalar-se fora do eixo pode significar uma morte prematura. Para Diana, o modelo a ser seguido era o da Galeria Serpentine, perto do Hyde Park, em Londres, e ela fizera questão de que a galeria não ficasse de frente para uma das grandes avenidas movimentadas, como Bygdøy Allé ou Gamle Drammensvei, mas numa rua tranquila que convidaria à contemplação. Além disso, uma localização reservada ressaltava o perfil exclusivo, indicando que era um lugar para os iniciados, os conhecedores. Eu tinha concordado, pensando que o aluguel talvez não fosse dos piores. Isso até ela acrescentar que o dinheiro economizado com o aluguel poderia ser investido em um salão para sediar as festas pós-vernissage. Aliás, ela já vira um local desocupado na rua Erling Skjalgsson que era perfeito, só que um pouco grande. Fui eu que tive a ideia do nome: Galleri E. O “E” se referia à rua Erling Skjalgsson, e, além do mais, fazia referência à galeria mais bem-administrada da cidade, a Galleri K. Com alguma sorte, isso mostraria que estávamos buscando os clientes endinheirados, exigentes e devidamente antenados. Eu não tinha usado o argumento de que, em norueguês, a pronúncia do nome indicaria que essa era a galeria. Diana não gostava desse tipo de trocadilho barato. Assinamos o contrato de aluguel, colocamos em andamento o trabalho extenso com a reforma e a ruína teve início. O táxi parou na frente da galeria e notei que havia mais carros das marcas Jaguar e Lexus que o normal estacionados ao longo das calçadas. Um bom sinal, embora uma possível explicação fosse que havia uma recepção em alguma das embaixadas da vizinhança ou que Celina Midelfart, a socialite famosa, estava dando uma festa em sua fortaleza reminiscente da antiga Alemanha Oriental. Quando entrei no local, os alto-falantes emitiam música ambiente dos anos 1980 num volume

confortavelmente baixo. Ela seria seguida pelas Variações Goldberg. Fui eu que gravei o CD para Diana. O local já estava razoavelmente cheio, apesar de ser apenas 20h30. Um bom sinal, a clientela da Galleri E normalmente só aparecia por volta das 21h30. Diana me explicara que vernissages abarrotados eram considerados vulgares, já meio cheio destacava a exclusividade. Minha experiência dizia, no entanto, que quanto mais gente, mais quadros vendidos. Acenei para a direita e a esquerda sem que ninguém me cumprimentasse de volta e me dirigi ao bar móvel. Nick, o barman fixo de Diana, me estendeu uma taça de champanhe. — Caro? — perguntei, provando as bolhas amargas. — Seiscentos — respondeu Nick. — É preciso vender um bom número de quadros — afirmei. — Quem é o artista? — Atle Nørum. — Sei como ele se chama, Nick, mas não sei como ele é. — Ali. — Nick inclinou sua grande cabeça cor de ébano para a direita. — Do lado de sua esposa. Só tive tempo de notar que o artista era um troncudo com barba. Porque ali estava ela. Calças brancas de couro que se agarravam às suas pernas longas e delgadas, fazendo-a parecer ainda mais alta do que de fato era. O cabelo liso estava solto dos dois lados da franja, que fora cortada reta, e esse emoldurado retangular reforçava a impressão da arte japonesa em quadrinhos. Sob os spots de iluminação, a blusa solta de seda brilhava num tom branco quase azulado sobre seus ombros estreitos e musculosos e os seios, que, em perfil, eram duas ondas perfeitamente desenhadas. Meu Deus, aqueles brincos de diamante teriam ficado tão bem nela! Com relutância, meus olhos desgrudaram dela e passaram pelo resto do local. O público estava em pé, conversando educadamente na frente dos quadros. Era o pessoal de sempre. Homens ricos e bemsucedidos do mercado financeiro (terno e gravata) e celebridades (terno com camiseta de grife) do tipo certo, daquelas que de fato realizaram alguma coisa. As mulheres (roupa de estilistas famosos) eram atrizes, escritoras ou políticas. E depois, é claro, tinha a turma de jovens artistas rebeldes, supostamente promissores e declaradamente sem recursos (calça jeans rasgada, camiseta com mensagem), aqueles que eu secretamente chamava de time QPR. No início, se eu torcia o nariz para alguns desses elementos na lista de convidados, Diana argumentava que era preciso um pouco de “tempero”, vida, algo um pouco mais perigoso do que os mecenas das artes, os investidores calculistas e aqueles que só estavam ali para cultivar sua imagem cultural. Tudo bem, mas eu sabia que os maltrapilhos ganharam acesso porque pediram gentilmente um convite a Diana. E, embora ela também entendesse que a presença deles era motivada pela busca de compradores para suas próprias obras, todos sabiam que ela nunca conseguia dizer não se alguém lhe pedisse um favor. Notei que vários deles, a maioria homens, lançavam olhares de esguelha na direção de Diana. Também pudera! Eles jamais conseguiriam conquistar uma mulher mais perfeita do que ela. Isso não era uma suposição, mas um fato inalterável e lógico, já que ela era a

mais perfeita de todas. E era minha. Até que ponto esse fato seria inalterável era algo em que eu tentava não pensar. Por enquanto eu me contentava com a ideia de que ela parecia sofrer de cegueira permanente. Contei os homens de gravata. Geralmente, eram eles que compravam. O preço atual do metro quadrado das obras de Nørum girava em torno de 50 mil. Com 55 por cento de comissão para a galeria, não era preciso vender muito para que a noite fechasse com lucro. Dito de outra forma, seria bom que fechasse com lucro mesmo, pois os Nøruns eram raros. Agora as pessoas estavam chegando em grande número, e eu tive que mudar de lugar para lhes dar acesso à bandeja de champanhe. Fui em direção à minha mulher e Nørum para contar a ele que eu era seu maior fã. Era uma afirmação exagerada, claro, mas não exatamente mentirosa. Sem dúvida, o cara era bom. Porém, quando eu ia estender a mão, o artista foi arrastado por um homem salivante que ele evidentemente já conhecia, sendo levado até uma mulher que dava risadinhas e parecia estar com vontade de fazer xixi. — Acho que está indo bem — falei, me posicionando do lado de Diana. — Oi, meu amor. — Ela sorriu para mim antes de acenar para as gêmeas, indicando que era para passar mais uma rodada com os petiscos. Nada de sushi. Eu tinha sugerido o novo serviço de catering da Algerie: comida norte-africana de inspiração francesa, muito quente. Com duplo sentido. Mas vi que ela mais uma vez tinha contratado o bufê do restaurante Bagatelle. Excelente comida também, sem dúvida. E três vezes mais cara. — Boas notícias, meu querido — disse ela, pegando a minha mão. — Você lembra que me contou sobre uma vaga naquela empresa em Horten? — A Pathfinder. O que tem? — Encontrei o candidato perfeito. Olhei para ela levemente surpreso. É claro que, como headhunter, eu às vezes usava o portfólio dos clientes de Diana e seu círculo, que incluía muitos executivos. E sem dor de consciência, afinal era eu quem financiava esse sorvedouro de dinheiro. O inusitado era a própria Diana ter sugerido um candidato específico para um cargo específico. Ela me pegou pelo braço, se inclinou mais perto e cochichou: — Ele se chama Clas Greve. Pai holandês, mãe norueguesa. Ou o contrário. De qualquer forma, ele parou de trabalhar três meses atrás e acabou de se mudar para a Noruega a fim de reformar uma casa que herdou. Em Roterdã, ele foi diretor-executivo de uma das maiores empresas da Europa na área de tecnologia GPS. Era um dos sócios, até que a empresa foi comprada pelos americanos no início do ano. — Roterdã — repeti, tomando um gole do champanhe. — Qual é o nome da empresa? — HOTE. Quase engasguei o champanhe. — HOTE? Você tem certeza? — Absoluta.

— E esse cara com nome de membro da nobreza era CEO? — Mesmo que Greve signifique conde, acho que não chega a ser… — Sei, sei, você tem o número desse cara? — Não. Dei um gemido. HOTE. A Pathfinder tinha mencionado essa empresa como um modelo para eles na Europa. Assim como a Pathfinder era agora, a HOTE tinha sido uma empresa pequena de tecnologia especializada no fornecimento de tecnologia GPS para a indústria de defesa na Europa. Um ex-diretorexecutivo de lá seria simplesmente perfeito. E era urgente. Todas as empresas de recrutamento dizem que só aceitam serviços sob a condição de exclusividade, já que esse é um requisito para trabalhar de forma séria e sistemática. Mas, se o incentivo for grande o suficiente, se o salário anual bruto começar a se aproximar dos sete dígitos, todos abrem mão de seus princípios. E o cargo de chefia na Pathfinder era algo muito grande, muito incentivador e muito concorrido. Três empresas de recrutamento haviam sido encarregadas da tarefa: Alfa, ISCO e Korn/Ferry International. Três das melhores. Por isso não era apenas uma questão de dinheiro. Quando trabalhamos de acordo com o princípio “no cure, no pay”, recebemos primeiro um valor único para cobrir as despesas e depois outro valor se o candidato apresentado por nós preencher os pré-requisitos que foram acordados com o cliente. Para receber o verdadeiro pagamento, porém, o cliente precisa contratar aquele que foi recomendado por nós. Acho justo até, mas nesse caso o xis da questão era simples: Vencer. Ser o rei do jogo. Ter sapatos de plataforma. Eu me encostei em Diana. — Escute, minha querida, isso é importante. Você tem alguma ideia sobre onde posso encontrá-lo? Ela riu. — Você é tão fofo quando se empolga, meu amor. — Você sabe… — Claro. — Onde, onde? — Ele está ali. — Ela apontou. Na frente de um dos quadros expressivos de Nørum — um homem sangrando vestido de capuz de bondage — estava uma figura delgada e ereta de terno. A luz do spot era refletida em seu crânio calvo e bronzeado. Ele tinha veias duras e nodosas nas têmporas. O terno era feito sob medida, devia ser da Savile Row. Camisa sem gravata. — Quer que eu o chame, amor? Fiz que sim e a segui com os olhos. Eu me preparei. Notei a reverência condescendente quando Diana se dirigiu a ele e apontou para mim. Os dois se aproximaram. Dei um sorriso, mas não largo demais, estendi a mão um pouco antes de ele chegar, mas não muito antes. Todo o corpo voltado para ele, os olhos fitados nos dele. Setenta e oito por cento.

— Roger Brown, prazer. — Pronunciei os dois nomes da maneira inglesa. — Clas Greve, o prazer é meu. Seu cumprimento havia sido formal e pouco norueguês, mas sua pronúncia era quase perfeita. A mão dele era quente e seca, o aperto, firme sem exagero, a duração, os recomendados três segundos. O olhar era calmo, curioso, atento, e o sorriso, desenvoltamente amigável. O único defeito foi ele não ser tão alto como eu esperava. Mal chegava a 1,80m, um pouco decepcionante, tendo em vista que os homens holandeses são os campeões antropométricos mundiais, com uma altura média de 183,4 centímetros. Soava um acorde de violão. Mais precisamente o acorde de abertura de “A Hard Day’s Night” dos Beatles, do álbum homônimo de 1964. Eu sabia, porque fui eu que o gravei como toque antes de presentear Diana com o celular Prada. Ela ergueu o aparelho fino e elegante até o ouvido, fez um gesto para se desculpar e se afastou de nós. — Fiquei sabendo que o senhor acabou de se mudar para cá, Sr. Greve? — Percebi que eu estava soando um ator de uma antiga novela de rádio, usando “senhor” aqui e ali, mas na fase introdutória da venda é importante se adaptar e manter um perfil modesto. A transformação viria em breve. — Herdei o apartamento da minha avó na Oscars Gate. Ficou vazio por alguns anos e estava precisando de uma reforma. — É mesmo? Ergui as duas sobrancelhas com ar sorridente, curioso, mas não intruso. Só o suficiente para que ele, se soubesse e seguisse os códigos sociais, desse uma resposta um pouco mais detalhada. — Pois é — disse Greve. — É uma pausa agradável depois de muitos anos de trabalho duro. Não vi nenhum motivo para não ir direto ao assunto. — Na HOTE, pelo que entendo. Ele me olhou levemente surpreso. — O senhor conhece a empresa? — A empresa de recrutamento onde trabalho tem como cliente um concorrente da HOTE, a Pathfinder. Já ouviu falar deles? — Muito pouco. Tem base em Horten, se não me engano. Pequena, mas competente, não é? — Já deve ter crescido bastante nos três meses em que o senhor esteve afastado do setor. — As coisas acontecem em ritmo acelerado no segmento de GPS — disse Greve, girando a taça de champanhe na mão. — Todos pensam em expansão. O lema é crescer ou morrer. — Já percebi isso. Talvez essa tenha sido a razão pela qual a HOTE foi vendida? O sorriso de Greve fez aparecer uma fina rede de rugas na pele queimada em torno dos olhos azuis pálidos. — Como se sabe, a maneira mais rápida de crescimento é por meio de aquisição. Os especialistas acham que aqueles que não estão entre as cinco maiores empresas de GPS estarão acabados daqui a

dois anos. — Parece que o senhor não concorda. — Na minha opinião, a inovação e a flexibilidade são os principais critérios de sobrevivência. E, enquanto houver capital suficiente, a capacidade de transformação rápida é mais importante do que o tamanho. Por isso preciso admitir que, embora eu tenha ficado rico por causa da venda da HOTE, eu era contra o negócio e renunciei ao cargo logo depois. Parece que não estou em sintonia total com o pensamento dominante… — Mais uma vez aquele sorriso rápido que suavizava o semblante severo, mas bem-cuidado. — Ou talvez isso seja apenas o guerrilheiro dentro de mim. O que você acha? Mudança para “você”. Bom sinal. — Só sei que a Pathfinder está procurando um novo líder — falei, fazendo um sinal para Nick nos trazer mais champanhe. — Alguém que possa resistir às tentativas de aquisição dos grupos internacionais. — Ah, é? — E, a meu ver, parece que você pode ser um candidato muito promissor para eles. Interessado? Greve deu uma risada. Era uma risada agradável. — Sinto muito, Roger, tenho um apartamento a reformar. Nome próprio. — Não quis saber se você está interessado no cargo, Clas. Só em conversar sobre ele. — Você não viu aquele apartamento, Roger. É antigo. E grande. Ontem encontrei outro quarto atrás da cozinha. Olhei para ele. Não era só por causa da Savile Row que o terno lhe caía tão bem, era porque ele estava em boa forma. Não, não em boa forma, em ótima forma seria a expressão correta. Não havia músculos salientes, somente a força vigorosa que discretamente se revela nas veias da nuca e do pescoço, na postura, na baixa frequência respiratória, nas artérias do dorso das mãos, que pareciam mangueiras azuis de oxigênio. No entanto, a rigidez dos músculos poderia ser detectada através do tecido do terno. Tenacidade, pensei. Tenacidade impiedosa. Já havia decidido: queria essa cabeça. — Você gosta de arte, Clas? — perguntei, estendendo-lhe uma das taças que Nick trouxe. — Sim. E não. Gosto de arte que mostre alguma coisa. Mas a maior parte daquilo que vejo postula uma beleza ou uma verdade que não está ali. Pode ser pensada, mas o talento comunicativo está ausente. Se não vejo beleza ou verdade, ela não está ali, simples assim. Um artista que alega ser malcompreendido é quase sempre um artista ruim que infelizmente foi compreendido. — Então estamos de acordo — falei, erguendo a taça. — Perdoo a falta de talento nas pessoas em geral, provavelmente porque eu mesmo fui tão parcamente dotado de talento — disse Greve, umedecendo bem de leve os lábios finos com o champanhe. — Mas não nos artistas. Nós, os sem talento, trabalhamos com o suor do rosto e pagamos para que eles possam brincar por nossa conta. Nada mais justo, deve ser assim mesmo. Mas sua

obrigação é brincar bem à beça. Eu já tinha percebido o óbvio, e sabia que os resultados dos testes e a entrevista aprofundada somente iriam confirmar a mesma coisa: aquele era o homem. Se a ISCO ou a Mercuri Urval tivessem dois anos para cumprir a tarefa, não conseguiriam encontrar um candidato tão perfeito. — Sabe de uma coisa, Clas? Precisamos ter uma conversa. É uma exigência de Diana. — Estendi-lhe meu cartão de visita. Ele não continha nenhum endereço, número de fax ou página de internet, somente meu nome, número de celular e “Alfa” em letras minúsculas num dos cantos. — Como já disse… — começou Greve olhando para meu cartão. — Escute — interrompi. — Ninguém em sã consciência contraria Diana. Não sei qual será o assunto da nossa conversa, pode ser arte. Ou o futuro. Ou reformas de casa. Por sinal, conheço alguns dos melhores e mais baratos profissionais de Oslo no ramo da construção. Mas vamos conversar, sim. Que tal amanhã, 15h? Greve me olhou sorridente por algum tempo. Depois passou uma mão fina sobre o queixo. — Eu achava que a ideia original dos cartões de visita era fornecer ao destinatário informações suficientes para fazer uma visita. Apanhei minha caneta Conklin, escrevi o endereço do escritório no verso do cartão e o vi desaparecer dentro do bolso do paletó de Greve. — Vai ser um prazer conversar mais com você, Roger, mas agora vou para casa recarregar as baterias para poder xingar carpinteiros em polonês. Mande lembranças para sua charmosa esposa. — Greve fez uma reverência rígida, quase militar, deu meia-volta e se dirigiu à porta. Diana chegou do meu lado enquanto eu o seguia com os olhos. — Como foi, querido? — Um exemplar fantástico. Basta olhar para a forma como ele anda. Como um felino. Perfeito. — Isso quer dizer… — Ele até conseguiu fingir que não estava interessado no cargo. Meu Deus, preciso ter aquela cabeça na parede, empalhada e com os dentes arreganhados. Cheia de alegria, ela bateu palmas como uma menininha. — Quer dizer que ajudei? Realmente ajudei? Eu me estiquei e pus o braço sobre o ombro dela. O local estava cheio, vulgarmente, deliciosamente cheio. — Você acaba de se tornar uma headhunter certificada, minha flor. Como estão indo as vendas? — Não estamos vendendo esta noite. Não te falei? Por um instante, torci para que tivesse ouvido errado. — É só… uma exposição? — Atle não quis se desfazer dos quadros. — Ela sorriu como se estivesse se desculpando. — Eu o entendo. Você também não iria querer perder algo tão lindo, não é?

Fechei os olhos e engoli em seco. — Você acha que foi uma ideia estúpida, Roger? — ouvi a voz preocupada de Diana perguntar e eu próprio responder: — Não, imagina. Depois senti os lábios dela em minha face. — Você é tão gentil, amor. E podemos vender mais tarde. Isso ajuda na construção da nossa imagem e nos torna exclusivos. Você mesmo frisou a importância disso. Forcei um sorriso. — Com certeza, amor. Exclusividade é bom. Ela se alegrou. — E sabe o que mais? Contratei um DJ para a festa pós-exposição! Aquele do clube Blå que toca soul dos anos 1970 e que você sempre diz ser o melhor da cidade… — Ela bateu as mãos e meu sorriso pareceu se soltar do rosto, cair e se espatifar no piso. Mas na imagem refletida em sua taça erguida de champanhe ele ainda estava no lugar. O acorde G11sus4 de John Lennon soou outra vez e ela se atrapalhou procurando o celular no bolso da calça. Eu a estudei enquanto ela tagarelava com alguém que queria saber se podia aparecer. — Claro que podem, Mia! Não, não há problema, é só trazer a neném. Você pode trocar a fralda no meu escritório. Juro que a gente quer barulho de bebê, isso só anima! Mas eu preciso segurar ela, você promete? Meu Deus, como eu amava aquela mulher. Passei os olhos pelo público outra vez. E parei abruptamente num rosto pequeno e pálido. Poderia ter sido ela. Lotte. Os mesmos olhos tristonhos que vi pela primeira vez aqui. Não era ela. Um capítulo encerrado. Mas a imagem de Lotte me perseguiu como um cão abandonado o resto da noite.

4

Anexação

– Você está atrasado — disse Ferdinand quando entrei no escritório. — E de ressaca. — Tire os pés da mesa — retruquei, contornei a escrivaninha, liguei o computador e puxei a corda da persiana. A luz ficou menos invasiva e eu tirei os óculos de sol. — Isso quer dizer que o vernissage foi um sucesso? — insistiu Ferdinand naquele tom agudo que ia direto ao centro de dor no cérebro. — Dançaram em cima das mesas — respondi, olhando para o relógio. Eram 9h30. — Por que as melhores festas sempre são aquelas que a gente perdeu? — suspirou Ferdinand. — Tinha alguém conhecido lá? — Você quer dizer algum conhecido seu? — Celebridades, seu tonto! — Tapinha no ar com gesto afeminado do pulso. Já parei de ficar irritado por ele insistir em parecer um número de um show de variedades. — Alguns — falei. — Ari Behn? — Não. Você ainda vai estar presente aqui na reunião com Lander e o cliente ao meio-dia hoje, não é? — Sim. Hans von Helvete estava lá? Vendela Kirsebom? — Saia daqui, preciso trabalhar. Ferdinand estampou uma expressão de ofendido, mas fez o que lhe pedi. Assim que a porta bateu atrás dele, eu já estava fazendo uma busca no Google sobre Clas Greve. Alguns minutos mais tarde, eu sabia que ele tinha sido diretor-executivo e sócio da HOTE por seis anos, ou seja, até a empresa ser comprada. Ele havia sido casado com uma modelo belga e foi campeão holandês de pentatlo militar em

1985. Na verdade fiquei surpreso por não haver mais informações. Bem, às 17h já teríamos passado por uma conversa, em que eu introduziria uma versão light de Inbau, Reid e Buckley e saberia tudo de que precisava. Antes disso, eu tinha um trabalho a fazer. Uma pequena anexação. Inclinei-me para trás e cerrei os olhos. Eu adorava o suspense do momento da ação, mas detestava a espera. O coração já estava batendo um pouco mais acelerado do que o normal. O pensamento insinuou-se: eu queria que fosse por algo que acelerasse o batimento cardíaco ainda mais. Oitenta mil. É menos do que parece. Valia menos nos meus bolsos do que a cota de Ove Kjikerud nos bolsos dele. Às vezes eu sentia inveja de sua vida simples, solitária. A primeira coisa que eu quis garantir quando o entrevistei para o emprego de chefe de segurança foi que ele não tivesse muitos ouvidos à sua volta. Como soube que ele era meu homem? Primeiro, por causa de sua atitude notavelmente defensivo-agressiva. Depois, porque se desviava de minhas perguntas como se conhecesse a técnica de interrogatório. Por isso fiquei quase surpreso ao conferir sua ficha sem encontrar registro de antecedentes criminais. Então liguei para uma mulher que consta de nossa folha de pagamento não oficial. Ela ocupa um cargo que lhe permite acesso ao arquivo de cancelamentos, o SANSAK, onde constam os registros de todos os que foram denunciados mas se livraram de processamento penal. E ela me contou que eu não havia me enganado, que Ove Kjikerud fora interrogado pela polícia tantas vezes que sabia de cor o manual de nove passos. No entanto, Kjikerud nunca havia sido condenado por crime nenhum, indicando que o homem não era um idiota, apenas fortemente disléxico. Kjikerud tinha uma estatura relativamente baixa e, assim como eu, uma vasta cabeleira castanha. Eu o convenci a cortar o cabelo antes de começar a trabalhar como chefe de segurança, explicando que ninguém confia num cara que parece um roadie de uma obsoleta banda de rock pesado. Mas não pude fazer nada com os dentes amarronzados cujo tom era resultante de rapé sueco. Nem com o rosto, uma pá de remo alongada, com uma mandíbula avantajada que às vezes me dava a sensação de que a dentadura manchada iria disparar de repente e arrebatar coisas no ar, quase como aquela criatura maravilhosa dos filmes Alien. Mas é claro que isso seria pedir demais de uma pessoa com as limitadas ambições de Kjikerud. Ele era preguiçoso, porém interessado em se tornar rico. E assim continuava a lista de embates entre os desejos e as qualidades pessoais de Ove Kjikerud: ele era um criminoso de índole violenta, colecionador de armas, mas na verdade queria ter uma vida de paz e harmonia. Ele desejava, sim, praticamente implorava por amigos, mas era como se as pessoas sentissem que havia alguma coisa errada e se mantivessem longe. E ele era um romântico sincero, incurável e decepcionado que buscava o amor entre as prostitutas. No momento estava perdidamente apaixonado por uma esforçada puta russa chamada Natasha, que ele se recusava a trair apesar de ela, até onde eu sabia, não ter qualquer interesse nele. Ove Kjikerud era uma mina flutuante à deriva, uma pessoa sem âncora, vontade própria ou força propulsora, alguém que se deixava levar pela correnteza de encontro a um desastre inevitável. Alguém que só poderia ser salvo por alguma outra pessoa que lhe jogasse uma corda

e desse rumo e significado à sua vida. Uma pessoa como eu. Uma pessoa que pudesse indicar um jovem sociável e trabalhador, sem antecedentes criminais, para o cargo de chefe de segurança. O resto tinha sido simples. Desliguei o computador e saí. — Estarei de volta daqui a uma hora, Ida. Na escada senti que havia soado errado. Definitivamente era Oda.

Ao meio-dia entrei no estacionamento em frente a um supermercado da rede Rimi, que, de acordo com meu GPS, ficava a quase 300 metros do endereço de Lander. O GPS era um presente da Pathfinder, e acredito que era para ser um tipo de prêmio de consolação se a gente não vencesse a concorrência e não encontrasse seu novo chefe. Eles fizeram uma breve introdução sobre o que realmente é GPS, ou Sistema de Posicionamento Global, explicando como uma rede de 24 satélites em órbita ao redor da Terra, com a ajuda de sinais de rádio e relógios atômicos, poderia localizar você e seu transmissor em qualquer lugar do planeta dentro de um raio de 3 metros. Se o sinal fosse captado por quatro satélites ou mais, o sistema até poderia fornecer a elevação, ou seja, informar se você estava sentado no chão ou na copa de uma árvore. Assim como a internet, o programa fora desenvolvido pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos com o objetivo de guiar mísseis Tomahawk, bombas Pawelow e outras frutas maduras para que caíssem na cabeça da pessoa certa. A Pathfinder também dera a entender que havia desenvolvido transmissores que tinham acesso a estações terrestres de GPS que ninguém conhecia, uma rede que funcionava em quaisquer condições climáticas e que podia atravessar grossas paredes. O presidente do conselho da empresa ainda explicara que para fazer o GPS funcionar era preciso levar em conta que um segundo na Terra não é um segundo para um satélite a todo vapor no espaço, pois o tempo é encurvado e o ritmo de envelhecimento é mais lento na imensidão. Os satélites simplesmente provaram a teoria da relatividade de Einstein. Meu Volvo entrou numa fila de carros da mesma faixa de preço e eu desliguei o motor. Ninguém iria se lembrar do carro. Peguei minha pasta preta e subi a ladeira até a casa de Lander. O paletó tinha ficado no carro e eu colocara um macacão azul sem marcas ou logotipos. O boné escondia o cabelo, e ninguém estranharia os óculos de sol, já que era mais um daqueles dias gloriosos de outono com que Oslo é abençoada. Mesmo assim, olhei para o chão ao passar por uma dessas moças filipinas que empurram os carrinhos de bebê para a vizinhança. Mas no pedaço de rua de Lander não havia alma viva. O sol refletia nas janelas panorâmicas. Olhei para o relógio Breitling Airwolf que Diana me dera no meu aniversário de 35 anos. Meio-dia e seis. Seis minutos se passaram desde que o alarme da casa de Jeremias Lander havia sido desativado, o que acontecera discretamente num computador da sala de controle da empresa de segurança, através de uma programação que fazia com que a interrupção não fosse registrada nos dados sobre paradas operacionais e quedas de luz. O dia em que contratei o chefe

de segurança da Tripolis tinha sido realmente afortunado. Fui até a porta da entrada, ouvindo o canto dos pássaros e o ganido dos cães ao longe. Durante a entrevista, Lander dissera que não havia nenhuma empregada, filhos adultos ou mulher que ficavam em casa, nem cachorro. Mas nunca se pode ter 100 por cento de certeza. Eu costumava trabalhar com 99,5 por cento como ponto de partida, e o meio por cento de incerteza era compensado pela liberação de adrenalina: eu via, ouvia e cheirava melhor. Peguei a chave que Ove me dera no Sushi & Coffee, a chave reserva que todos os clientes eram obrigados a deixar com a Tripolis em caso de arrombamento, incêndio ou falha no sistema enquanto o cliente estivesse fora. A chave entrou facilmente na fechadura e girou com um som oleado. Eu já estava dentro da casa. O discreto sistema de alarme na parede dormia de olhos plásticos fechados. Vesti as luvas, fixando-as com fita adesiva às mangas do macacão para que nenhum pelo de meu corpo caísse no chão. Puxei a touca de natação de baixo do boné e cobri as orelhas. O negócio é não deixar rastros de DNA. Certa vez Ove perguntou se não era melhor eu raspar a cabeça. Desisti de explicar a ele que, depois de Diana, meu cabelo era a última coisa de que eu estaria disposto a abrir mão. Eu tinha bastante tempo, mas mesmo assim passei depressa pelo corredor. Na parede sobre a escada que levava à sala havia retratos de crianças, que deveriam ser os filhos de Lander. Não consigo entender o que leva pessoas adultas a gastar dinheiro com versões constrangedoras de sua prole adorável, feitas por artistas de quinta. Será que gostam de ver as visitas corarem? A sala era mobiliada de um jeito caro, mas tedioso. Com a exceção da cadeira Pesce de um vermelho vivo que parecia uma mulher peituda de pernas abertas que acabara de dar à luz um filho: uma grande bola em que se podia descansar os pés. Dificilmente teria sido ideia de Jeremias Lander. O quadro estava pendurado sobre a cadeira. Eva Mudocci, a violinista britânica que Munch conhecera logo depois da virada do século passado. Já vi outros exemplares da litografia antes, mas foi só agora, sob essa luz, que vi com quem Eva Mudocci se parecia. Lotte. Lotte Madsen. O rosto do quadro tinha a mesma palidez e melancolia no olhar da mulher que eu havia riscado tão enfaticamente da memória. Tirei o quadro da parede e o deitei na mesa com o verso virado para cima. Usei a faca Stanley para cortar. A litografia fora impressa sobre papel bege e a moldura era moderna, ou seja, sem grampos ou tachas que teriam de ser removidos. Em suma, um trabalho dos mais simples. De repente o silêncio foi quebrado. Um alarme. Um pulso insistente cuja frequência oscilava de menos de mil hertz a 8 mil hertz, um som que cortava o ar e o ruído de fundo com tanto efeito que se podia escutá-lo a uma distância de centenas de metros. Gelei. Durou apenas alguns segundos, então o alarme vindo da rua foi interrompido. Provavelmente fora só um descuido do dono de algum carro. Continuei o trabalho. Abri a pasta, inseri a litografia e tirei a folha A2 com a Srta. Mudocci que eu imprimira em casa. Em quatro minutos ela estava instalada no quadro e pendurada na parede. Inclinei

a cabeça e olhei para o quadro. Semanas poderiam se passar sem que nossas vítimas descobrissem as falsificações mais ridiculamente simples. Na primavera deste ano substituí uma tela a óleo, Cavalo com pequeno cavaleiro, de Knut Rose, por uma imagem que eu escaneara de um livro de arte e ampliara. Passaram-se quatro semanas antes que o furto do quadro fosse denunciado. A Srta. Mudocci provavelmente seria desmascarada por causa da brancura do papel, mas isso poderia levar um bom tempo. E, até então, o furto seria impossível de datar, e a casa teria sido limpada tantas vezes que nunca encontrariam qualquer DNA. Pois eu sabia que procuravam DNA. No ano passado, quando Ove Kjikerud e eu fizemos quatro roubos em menos de quatro meses, o inspetor Brede Sperre — uma girafa loira exibicionista e ávida pela atenção da mídia — tinha aparecido no jornal Aftenposten afirmando que uma quadrilha profissional de ladrões de arte estava atuando na cidade. E, mesmo que não se tratasse de grandes valores, a Unidade de Furtos e Roubos, a fim de cortar o mal pela raiz, empregaria métodos de investigação que normalmente eram reservados a homicídios e graves crimes de drogas. Toda a população de Oslo podia ter certeza disso, afirmou Sperre, deixando a cabeleira com ar juvenil esvoaçar ao vento e fitando a lente da câmera com firmes olhos cor de aço, enquanto o fotógrafo o clicava. Obviamente, ele não tinha dito a verdade: que a prioridade foi imposta à polícia pelas pessoas que moravam nessas áreas residenciais, pessoas endinheiradas com influência política e vontade de proteger a si mesmas e seu patrimônio. Tive de admitir que levei um susto no início desse outono, pois Diana me contou que o policial boa-pinta dos jornais tinha passado pela galeria, querendo saber se alguém veio lhe indagar sobre seus clientes, sobre quem tinha quais obras em casa. O fato é que os ladrões pareciam estar plenamente informados sobre o que estava pendurado onde. Quando Diana me perguntou o motivo da minha ruga de preocupação na testa, eu lhe dei um sorriso torto respondendo que não gostava de ter um rival de quase 2m de altura. Para minha surpresa, Diana corou antes de dar risada. Voltei depressa para a porta de entrada, tirei cuidadosamente a touca de natação e as luvas e enxuguei a maçaneta da porta dos dois lados antes de sair e fechá-la. À luz imperturbável do sol lá fora, a rua estava com o mesmo ar de sossego diurno e secura outonal crepitante. A caminho do carro olhei para meu relógio. Meio-dia e quatorze. Era recorde. Minha pulsação estava acelerada, mas sob controle. Em 46 minutos Ove ativaria o alarme outra vez na sala de controle. E chutei que mais ou menos na mesma hora Jeremias Lander se levantaria de uma de nossas salas de entrevista, apertaria a mão do presidente do conselho de administração com uma última desculpa e deixaria nosso escritório, portanto estando fora de meu controle. Mas dentro de meu portfólio de candidatos. Assim como eu o instruíra, Ferdinand teria de explicar para Lander que era uma pena que este não tenha dado certo, mas para garantir um candidato tão bom como ele deveriam considerar um ajuste de uns 20 por cento na oferta salarial. Como é sabido, um terço de um bolo maior é, de fato, um valor maior. E isso era só o começo. Em duas horas e 46 minutos eu iria atrás de uma caça maior. Caça nobre. Eu

era mal pago, e daí? Foda-se Estocolmo e foda-se Brede Sperre, eu era o rei do jogo. Assobiei. As folhas estalavam debaixo de meus sapatos.

5

Confissão

Dizem que, em 1962, ao publicar Criminal Interrogation and Confession, os investigadores policiais Inbau, Reid e Buckley criaram o fundamento da técnica interrogatória, que desde então foi dominante no mundo ocidental. Na verdade, a técnica existia havia muito mais tempo, já que o manual interrogatório de nove passos de Inbau, Reid e Buckley simplesmente resumia a experiência centenária do FBI em arrancar confissões dos suspeitos. O método se mostrou extremamente eficaz, tanto para os culpados como para os inocentes. Depois que a tecnologia de DNA possibilitou a verificação posterior dos casos, foram detectados, em pouco tempo, centenas de inocentes condenados apenas nos Estados Unidos. Cerca de um quarto dessas sentenças falhas foi baseado em confissões geradas por meio dos nove passos, o que diz tudo sobre a excelência dessa ferramenta. Meu objetivo é fazer o candidato admitir que é um engodo, que não é apto para o cargo. Se ele passar pelos nove passos sem confessar, há motivos para crer que realmente se considere qualificado. E são esses os candidatos que estou procurando. Refiro-me sempre a “ele”, pois faz mais sentido aplicar o modelo de nove passos aos homens. De acordo com minha experiência nada insignificante, as mulheres raramente se candidatam a cargos para os quais não sejam qualificadas, e, de preferência, mais que qualificadas. E mesmo assim é a coisa mais fácil do mundo fazer uma mulher sucumbir e confessar que não tem o que é necessário. É claro que as confissões falsas também ocorrem entre os homens, mas não há problema. Afinal, eles não acabam na prisão, só perdem a oportunidade de um emprego de chefia em que a capacidade de resistir à pressão é uma das qualidades desejadas. Não tenho escrúpulos em usar Inbau, Reid e Buckley. É um bisturi num mundo de curas espirituais, ervas e divagações psicológicas. O primeiro passo é o confronto direto, e muitos confessam já nessa fase. O entrevistador deixa bem

claro que sabe tudo, que tem provas de que o candidato em questão não está qualificado. — É possível que eu tenha sido um pouco precipitado ao manifestar interesse em sua candidatura, Greve — disse eu, recostando-me na cadeira. — Verifiquei algumas coisas, e, pelo que descobri, os cotistas da HOTE acreditam que você falhou como líder. Você era fraco, lhe faltava garra, e deixou que a empresa fosse comprada. Ser comprada é justamente o que a Pathfinder teme, portanto acho que você entende que dificilmente será considerado um candidato sério. Mas… — sorridente, ergui a xícara de café — vamos apreciar o café e falar sobre outras coisas. Como está indo a reforma? Clas Greve estava sentado do outro lado da falsa mesa Noguchi, de costas eretas e os olhos fixos nos meus. Ele riu. — Três milhões e meio — respondeu. — Além das opções de ações, é claro. — Como disse? — Se o conselho da Pathfinder estiver com receio de que as opções possam me fazer embelezar a empresa para impressionar os potenciais compradores, você pode tranquilizá-los com uma cláusula de que as opções serão eliminadas em caso de uma aquisição por terceiros. Nenhum pacote de bônus por desligamento. Assim eu e o conselho teremos o mesmo incentivo. Construir uma empresa forte, uma empresa que devora em vez de ser devorada. O valor das opções é calculado de acordo com Black e Scholes e acrescentado ao salário fixo na hora de determinar o valor do terço de vocês. Dei o melhor sorriso que pude. — Temo que esteja partindo de pressupostos um pouco além da medida agora, Greve. São vários fatores aqui. Lembre-se de que você é estrangeiro e as empresas norueguesas geralmente preferem noruegueses, que… — Ontem, na galeria de sua esposa, você estava literalmente babando por mim, Roger. E tinha razão. Depois de sua proposta, me inteirei um pouco a respeito de sua situação e da situação da Pathfinder. E logo entendi que, embora eu seja cidadão holandês, vocês terão dificuldades em encontrar um candidato mais relevante que eu. O problema naquele momento era que eu não estava interessado. Mas 12 horas são bastante tempo para refletir sobre as coisas. Por exemplo, é possível chegar à conclusão de que, a longo prazo, os atrativos de uma reforma são limitados. — Clas Greve fechou as mãos bronzeadas na sua frente. — Está na hora de eu subir na sela outra vez. A Pathfinder talvez não seja a empresa mais atraente que eu possa encontrar, mas ela tem potencial, e uma pessoa com ideias e o conselho de seu lado será capaz de transformar aquela empresa em algo realmente interessante. No entanto, não é certeza que eu e o conselho compartilhemos a mesma visão, por isso sua tarefa na verdade deve ser a de nos unir o mais rápido possível para descobrir se faz sentido ir em frente. — Escute, Greve… — Não duvido que seus métodos funcionem para muitos, Roger, mas comigo você pode pular a parte do fingimento. E voltar a me chamar de Clas. Afinal, a gente só ia ter uma conversa agradável,

não é mesmo? Ele ergueu a xícara de café em gesto de brinde. Aproveitei a oportunidade para fazer uma pausa e ergui minha própria xícara. — Você está parecendo um pouco estressado, Roger. Vocês têm concorrentes nessa busca? Meu reflexo laríngeo tende a entrar em ação quando sou pego de surpresa. Tive que engolir depressa para não cuspir o café em Sara Gets Undressed. — Entendo que você precisa dar o máximo de si, Roger. — Greve sorriu, aproximando-se de mim. Senti o calor de seu corpo e um leve odor que me fez pensar em cedro, couro russo e cítrus. O perfume Declaration, da Cartier? Ou alguma outra coisa na mesma faixa de preço. — Não estou nem um pouco ofendido. Você é profissional e eu também sou. Naturalmente, você só quer fazer um bom trabalho para o cliente, afinal, é por isso que lhe pagam. E quanto mais interessante for o candidato, mais importante se torna testá-lo bem. Aquela afirmação sobre os cotistas da HOTE estarem descontentes comigo foi inteligente; eu também teria tentado algo assim se fosse você. Eu não podia acreditar no que ouvia. Primeiro, ele jogara o passo número um de volta na minha cara ao constatar que eu tinha sido desmascarado, que a gente deveria pular a parte do fingimento. E agora ele estava jogando o segundo passo, o que Inbau, Reid e Buckley chamam de “simpatizar com o suspeito normalizando o ato”. E o mais incrível é que, embora eu soubesse exatamente o que ele estava fazendo, a sensação se intensificava, aquela sensação sobre qual eu tinha lido tanto: a vontade do suspeito de abrir o jogo. Fiquei com vontade de rir alto. — Não estou entendendo muito bem o que você quer dizer, Clas. — Mesmo que eu tentasse parecer relaxado, escutei que minha voz tinha um som metálico e senti que meu raciocínio estava cambaleando. Não tive tempo de mobilizar um contra-ataque antes de a próxima frase soar: — Dinheiro não é minha motivação real, Roger. Mas, se quiser, podemos tentar dar uma pressionada no salário. Um terço de um bolo maior… … é um valor maior. Ele já tinha assumido o interrogatório completamente e ido do segundo para o sétimo passo: apresentar alternativas. Neste caso: fornecer uma motivação alternativa para fazer o suspeito confessar. A execução foi perfeita. É claro que ele podia ter levantado a questão de minha família, ter dito algo sobre o orgulho que meus pais falecidos ou minha esposa teriam ao saber como eu conseguira aumentar o salário, nossa provisão, minha própria base de bônus. Mas Clas Greve sabia que isso seria ir longe demais, é claro que sabia. Eu simplesmente acabara de encontrar um adversário à altura. — OK, Clas — me ouvi dizer. — Desisto. É isso mesmo. Greve se reclinou outra vez na cadeira. Ele vencera e agora expirava e sorria. Não triunfante, apenas satisfeito de que havia acabado. Acostumado a ganhar, anotei na folha, sabendo que a jogaria fora depois. O mais curioso é que não parecia nada com uma derrota, mas com um alívio. Sim, eu me sentia

simplesmente eufórico. — De qualquer forma, o cliente precisa dos dados costumeiros — afirmei. — Você se importa se dermos continuidade? Clas Greve fechou os olhos, juntou as pontas dos dedos das duas mãos e fez que não com a cabeça. — Muito bem — falei. — Então gostaria que você me contasse sobre sua vida. Eu anotava enquanto Clas Greve falava. Ele era o mais novo de três filhos. Cresceu em Roterdã. Era uma cidade portuária barra-pesada, mas a família era privilegiada, o pai tinha um cargo executivo na Phillips. Clas e as duas irmãs aprenderam norueguês durante as longas férias passadas na casa de veraneio dos avós no balneário de Son. Ele tinha uma relação tensa com o pai, que o considerava mimado e sem disciplina. — Ele tinha razão — Greve sorriu. — Eu estava acostumado a alcançar bons resultados na escola e nos esportes sem me esforçar. Mas por volta de uns 16 anos tudo me entediava, e comecei a procurar as chamadas companhias duvidosas, o que não é difícil encontrar em Roterdã. Não tinha amigos naquele meio, nem fiz amizades novas. Mas eu tinha dinheiro. Então embarquei numa experimentação sistemática de tudo o que era proibido: bebida, maconha, prostituição, pequenos assaltos e, aos poucos, substâncias um pouco mais pesadas. Em casa, meu pai acreditava que eu estava treinando boxe e por isso voltava para casa de rosto inchado, nariz escorrendo e olhos injetados de sangue. E eu passava cada vez mais tempo nesses lugares onde as pessoas me deixavam fazer o que eu bem entendesse, mas, antes de tudo, me deixavam em paz. Não sei se eu gostava da minha vida nova, as pessoas ao meu redor me viam como um ET, um moleque solitário de 16 anos que não conseguiam decifrar. Era justamente disso que eu gostava. Depois de algum tempo, meu estilo de vida começou a se refletir no rendimento escolar, mas eu não dava a mínima. Afinal, meu pai acordou. Talvez eu achasse que finalmente tivesse conseguido o que tinha desejado o tempo todo: a atenção de meu pai. Calmo e sério, ele conversava comigo, eu berrava em resposta. Algumas vezes eu podia ver que ele estava a ponto de perder o controle. Eu amava isso. Ele me mandou para morar com meus avós em Oslo, onde fiz os dois últimos anos do colegial. Como foi o relacionamento com seu pai, Roger? Anotei três palavras com “auto”. Autoconfiante. Autorrevelador. Autoconhecimento. — Eu e ele conversamos pouco — falei. — Éramos muito diferentes. — Eram? Quer dizer que ele faleceu? — Ele e minha mãe faleceram num acidente de carro. — De que ramo ele era? — Corpo diplomático. A embaixada britânica. Conheceu minha mãe em Oslo. Greve inclinou a cabeça e me observou. — Você sente falta dele? — Não. Seu pai está vivo? — Provavelmente não.

— Provavelmente não? Clas Greve respirou fundo e pressionou as palmas uma contra a outra. — Ele sumiu quando eu tinha 18 anos. Não voltou para o jantar. No trabalho falaram que ele havia deixado a empresa às 18h, como de costume. Minha mãe chamou a polícia depois de poucas horas. Eles agiram imediatamente, já que era uma época em que grupos terroristas de esquerda sequestravam executivos e empresários na Europa. Não tinha havido nenhum acidente de carro na autoestrada, ninguém chamado Bernhard Greve havia sido levado para o hospital. Ele não constava de nenhuma lista de passageiros, e o carro não fora encontrado em lugar algum. — O que você acha que aconteceu? — Não acho nada. Ele pode ter ido de carro até a Alemanha, se hospedado num motel com nome falso e falhado ao tentar se matar. Então, seguiu viagem no meio da noite, encontrou um lago negro no interior de um bosque e conduziu o carro para dentro do lago. Ou foi sequestrado no estacionamento na frente do escritório da Phillips por dois homens armados escondidos no banco de trás. Ele resistiu e levou uma bala no pescoço. O carro e meu pai foram levados a um desmanche na mesma noite, sendo prensados até formarem uma panqueca de metal e serem cortados em pedaços convenientes. Ou talvez ele esteja em algum lugar com um drinque de guarda-chuvinha numa mão e uma mulher comprada na outra. Tentei ver alguma coisa no rosto de Greve, escutar alguma coisa na voz. Nada. Ou ele tinha pensado nisso à exaustão, ou ele era apenas um durão insensível. Não sei o que eu preferia. — Você está com 18 anos e mora em Oslo — falei. — Seu pai está desaparecido. Você é um jovem com problemas. O que fazer? — Eu me formei na escola com louvor e me candidatei para o Comando da Marinha Real Holandesa. — Comando. Parece coisa de macho, tropa de elite? — Definitivamente. — O tipo de coisa em que só um em cem consegue entrar. — Mais ou menos isso. Fui chamado para os testes, esses em que passam um mês tentando fazê-lo desistir. E depois, se você sobreviver, passam quatro anos tentando fortalecê-lo. — Parece coisa de filme. — Pode crer, Roger, você nunca viu isso em qualquer filme. Olhei para ele. Acreditei. — Mais tarde entrei no grupo BBE de antiterrorismo em Dorn. Fiquei oito anos no grupo. Cheguei a viajar o mundo. Suriname, Antilhas Holandesas, Indonésia, Afeganistão. Exercícios de inverno em Harstad e Voss, na Noruega. Fui capturado e torturado durante uma campanha antidrogas no Suriname. — Soa exótico. Mas você manteve a boca fechada?

Clas Greve sorriu. — Fechada? Tagarelei feito uma fofoqueira. Os barões da cocaína não brincam de interrogatório. Eu me inclinei para a frente. — Não mesmo? O que fizeram? Demorando a responder, Greve me olhou pensativo com uma sobrancelha erguida. — Acho que isso é algo que você realmente não quer saber, Roger. Fiquei um pouco decepcionado, mas concordei com a cabeça e me reergui na cadeira. — Então seus companheiros foram fuzilados ou coisa parecida? — Não. Na hora do ataque às posições que traí, é claro que eles já haviam sido transferidos. Passei dois meses num porão onde sobrevivi comendo frutas podres e água cheia de ovos de mosquito. Quando o BBE me levou embora, eu pesava 45 quilos. Olhei para ele. Tentei imaginar como o torturaram. Como ele lidara com aquilo. E como tinha sido a versão de Clas Greve com 45 quilos. Diferente, é óbvio. Mas não tanto, não de verdade. — Não é de estranhar que você tenha saído — opinei. — Não foi por causa disso. Aqueles oito anos no BBE foram os melhores da minha vida, Roger. Em primeiro lugar, tem aquela coisa que você realmente vê em filme. O companheirismo e a união. Mas, além disso, foi lá que aprendi aquilo que seria meu ofício. — Que é? — Rastrear pessoas. No BBE havia algo chamado TRACK. Um grupo especializado em rastrear pessoas em todas as situações e lugares imagináveis do mundo. Foram eles que me localizaram naquele porão. Então eu me candidatei, fui admitido no TRACK e ali aprendi tudo. Desde a antiquíssima arte indígena de decifrar rastros até métodos de interrogatório de testemunhas e as mais avançadas ferramentas eletrônicas de rastreamento existentes. Foi assim que entrei em contato com a HOTE. Eles tinham desenvolvido um transmissor de sinais do tamanho de um botão de camisa. A ideia era fixar o dispositivo numa pessoa e depois seguir todos os seus movimentos através de um receptor, um daqueles que se via em filmes de espionagem na década de 60, mas que ninguém tinha conseguido fazer funcionar a contento. O botão da HOTE também se mostrou inútil: não resistia ao suor do corpo, nem a temperaturas abaixo de 10 graus negativos, e os sinais apenas atravessavam as paredes mais finas. Mas o chefe da HOTE gostava de mim. Ele não tinha filhos homens… — E você não tinha pai. Greve deu um sorriso condescendente. — Continue — pedi. — Depois de oito anos nas forças armadas, comecei meus estudos de engenharia em Haia, patrocinado pela HOTE. No decorrer de meu primeiro ano na empresa, criamos uma ferramenta de rastreamento que funcionava sob condições extremas. Depois de cinco anos, eu era o número dois da linha de comando. Depois de oito anos, assumi a chefia, e o resto você sabe.

Recostei-me na cadeira e sorvi o café. Já atingimos a meta. Tínhamos um vencedor. Eu até tinha escrito isso já. Contratado. Talvez tenha sido por isso que hesitei em continuar, talvez algo dentro de mim tenha dito que bastava. Ou talvez tenha sido outra coisa. — Parece que quer perguntar mais alguma coisa — disse Greve. Arranjei um pretexto. — Você não falou sobre seu casamento. — Falei sobre as coisas que importam — disse Greve. — Você quer saber do meu casamento? Fiz que não. E decidi encerrar. Mas naquele momento o destino interveio. Na forma de Clas Greve em pessoa. — Quadro bonito aquele que você tem aí — disse ele, virando a cabeça em direção à parede em cima dela. — É Opie? — Sara Gets Undressed — falei. — Um presente de Diana. Você coleciona arte? — Estou começando. Algo dentro de mim ainda estava dizendo não, mas era tarde demais, eu já tinha perguntado: — Qual é o melhor quadro que você tem? — Uma pintura a óleo. Acabei de encontrá-lo no quarto escondido atrás da cozinha. Ninguém da família sabia que a vovó tinha esse quadro. — Interessante — falei, sentindo o coração dar um salto estranho. Deveria ser o suspense que passei durante o dia. — Que quadro é? Ele me olhou longamente. Um pequeno sorriso se insinuou em sua boca. Ele formou os lábios para uma resposta, e eu tive um pressentimento estranho. Um pressentimento que fez meu estômago se contrair, assim como os músculos abdominais de um boxeador automaticamente se contraem ao prever um golpe. Mas seus lábios mudaram de forma. E todos os pressentimentos do mundo não poderiam ter me preparado para o que ele respondeu: — A caça ao javali de Cálidon. — A caça… — No decorrer de dois segundos minha boca ressecou. — Aquela caça? — Você conhece o quadro? — Se você está falando do quadro de… de… — Peter Paul Rubens — completou Greve. Eu me concentrei em uma única coisa. Não deixar a máscara cair. Mas era como se alguém piscasse um painel iluminado na neblina londrina do Loftus Road: o QPR acabou de mandar um passe desajeitado no ângulo. A vida virou de ponta-cabeça. Estávamos indo para o Wembley.

Parte II

Fechando o cerco

6

Rubens

Peter Paul Rubens. Por um instante, foi como se qualquer movimento, qualquer som do ambiente estivesse congelado. A caça ao javali de Cálidon, de Peter Paul Rubens. Obviamente, a coisa mais sensata a fazer seria pensar que se tratava de uma reprodução, uma falsificação fantástica e famosa que por si só poderia muito bem valer um milhão ou dois. Mas havia algo na voz, na ênfase, algo relacionado com a própria pessoa de Clas Greve, que não deixava nenhuma dúvida na minha cabeça de que esse era o original. O tema sangrento da caça da mitologia grega, o animal fantástico que era perfurado pela lança de Meléagro, o quadro que estava desaparecido desde o saque dos alemães à galeria da Antuérpia, cidade natal de Rubens, em 1941, e que até o final da guerra se acreditava e esperava estar em algum bunker em Berlim. Não sou nenhum grande conhecedor de arte, mas, por razões óbvias, às vezes entrava na internet e conferia as listas de quadros desaparecidos e procurados. E, naquelas listas, esse quadro tinha figurado entre os dez mais famosos havia mais de 60 anos, passando a ser quase uma mera curiosidade, pois se supunha que tivesse sido queimado juntamente com metade da capital alemã. Minha língua estava tentando se umedecer no céu da boca. — Você simplesmente deparou com um quadro de Rubens num quarto escondido atrás da cozinha de sua falecida avó? Rindo, Greve fez que sim. — Pelo que ouvi, essas coisas acontecem. Não que seja a melhor ou a mais famosa obra dele, mas com certeza vale alguma coisa. Fiz que sim calado. Cinquenta milhões? Cem? No mínimo. Apenas alguns anos atrás, outra tela recuperada de Rubens, O massacre dos inocentes, foi arrematada em leilão por 50 milhões de libras.

Mais de meio bilhão de coroas. Eu precisava de água. — Aliás, não foi totalmente inesperado que minha avó tivesse arte escondida — disse Greve. — É que ela era muito bonita quando jovem, e, assim como praticamente toda a alta sociedade de Oslo durante a ocupação, ela confraternizava com os oficiais alemães das mais elevadas patentes. Com um deles em especial, um coronel interessado em arte. Na época que morei aqui, ela muitas vezes me contou sobre ele. Disse que ele lhe dera obras de arte para que as escondesse até o fim da guerra. Mas ele deu o azar de ser executado por membros da resistência nos últimos dias do confronto. Paradoxalmente, vários de seus carrascos faziam parte do grupo que bebera de seu champanhe enquanto a posição dos alemães parecia melhor. Eu não acreditava totalmente nas histórias de minha avó, até que os trabalhadores poloneses encontraram essa porta atrás das estantes do quarto de empregada contíguo à cozinha. — Fantástico — murmurei sem querer. — Não é? Ainda não verifiquei se é o original, mas… Mas é, pensei. Coronéis alemães não colecionavam reproduções. — Seus peões viram o quadro? — perguntei. — Viram, mas duvido que tenham entendido de que se trata. — Não se iluda. O apartamento tem alarme? — Entendo o que você quer dizer. E a resposta é sim, todos os apartamentos do prédio têm um acordo coletivo. E nenhum dos pedreiros tem chave, já que só trabalham das 8 às 16h por exigência do regulamento interno do condomínio. E enquanto estão lá eu geralmente estou junto. — Acho que deve continuar assim. Sabe a que empresa o alarme está ligado? — Trio alguma coisa. Aliás, eu tinha pensado em perguntar para sua mulher se ela conhece alguém que poderia me ajudar a identificar se é mesmo um Rubens original. Você é o primeiro com quem falo sobre isso, espero que não comente nada com ninguém. — Claro que não. Vou perguntar a ela e te ligo de volta. — Obrigado, fico grato. Por enquanto só sei que, mesmo sendo autêntico, não figura entre seus quadros mais conhecidos. Dei um breve sorriso. — Que pena. Mas vamos voltar para a questão do cargo. Gosto de agilizar o trabalho. Que dia você acha que pode ter a reunião com a Pathfinder? — Qualquer dia. — Bem. — Pensava enquanto me debrucei sobre minha agenda. Trabalhadores das 8 às 16h. — Deve ser mais conveniente para a Pathfinder se eles puderem vir a Oslo depois do horário comercial. Horten fica a pouco mais de uma hora de carro, então se a gente achar um dia esta semana por volta das seis da tarde, tudo bem? — disse isso no tom mais leve possível, mas a música desafinada feria os ouvidos.

— Com certeza — respondeu Greve, que parecia não ter notado nada. — Desde que não seja amanhã — acrescentou, pondo-se de pé. — Amanhã deve ser um prazo curto demais para eles também — concordei. — Ligarei para o número que me deu. Acompanhei-o até a recepção. — Pode pedir um táxi, Da? — Tentei decifrar pela expressão de Oda ou Ida se ela aceitou a abreviação, mas Greve me interrompeu: — Obrigado, vim com meu próprio carro. Mande lembranças à sua esposa. Vou aguardar uma ligação sua. Ele me estendeu a mão, que agarrei com um largo sorriso. — Vou tentar ligar hoje à noite, pois amanhã você está ocupado, não é? — Sim. Não sei por que não parei aí. O ritmo da conversação, a sensação de que o diálogo chegara ao fim me disseram que eu deveria encerrar o encontro com um “até mais tarde”. Talvez fosse uma sensação, um pressentimento, talvez naquele momento o medo já se tivesse insinuado em mim, me deixando especialmente cuidadoso. — Pois é, uma reforma é uma atividade que exige muito — comentei. — Não é isso — respondeu ele. — Amanhã pego o voo da manhã para Roterdã. Vou buscar meu cão, que ficou na quarentena. Só estarei de volta tarde da noite. — Ah, sim — falei, soltando sua mão para que ele não sentisse como gelei. — Qual a raça do seu cachorro? — Niether terrier. Cão farejador. Mas agressivo como um cão de briga. Uma boa opção para se ter em casa para quem possui esse tipo de quadro, não é? — Com certeza — concordei. — Com certeza. Cão. Eu odiava cães. — Tá bom — ouvi Ove Kjikerud dizer do outro lado da linha. — Clas Greve, Oscars Gate 25. Tenho a chave aqui. Entrego no Sushi & Coffee daqui a uma hora. O alarme será desativado amanhã às 17h. Vou achar uma desculpa para trabalhar até tarde. Aliás, por que um prazo tão apertado? — Porque depois de amanhã terá um cachorro no apartamento. — OK. Mas por que não no horário comercial, como de costume? O jovem de terno Corneliani e óculos de nerd requintado estava vindo pela calçada em direção ao orelhão. Virei de costas para que não tivesse de cumprimentá-lo e aproximei a boca do fone. — Quero ter certeza de que não haja trabalhadores no local. E você vai ligar para Gotemburgo imediatamente pedindo a eles uma reprodução decente de Rubens. Há muitas, mas diga que a gente

precisa de uma boa. E que eles devem ter a tela pronta assim que você chegar com a litografia de Munch hoje à noite. O prazo é curto, mas é imprescindível que eu tenha a reprodução em mãos amanhã, entendeu? — Sim, sim. — E então pode contar a Gotemburgo que vai voltar amanhã à noite com o original. Você se lembra do nome do quadro? — Lembro sim. Caça ao javali da Catalunha. Rubens. — Close enough. Você tem certeza absoluta de que podemos confiar nesse receptador? — Jesus, Roger. Pela centésima vez, sim! — Só estou perguntando! — Me escuta agora. O cara sabe que se enganar alguém uma única vez ele está fora do jogo para o resto da vida. Ninguém castiga um ladrão com mais severidade que um ladrão. — Certo. — Só uma coisa: preciso adiar a última viagem a Gotemburgo por 24 horas. Não era um problema. Já fizemos isso antes. Rubens estaria seguro dentro do forro, mas mesmo assim senti os pelos da nuca se arrepiarem. — Por quê? — Vou ter uma visita amanhã à noite. Mulher. — Vai ter que adiar isso. — Sinto muito, mas não dá. — Não dá? — É Natasha. Mal acreditei no que estava ouvindo. — A puta russa? — Não chame ela assim. — Não é isso que ela é? — Jamais chamei sua esposa de gata siliconada, não é? — Você está comparando minha esposa a uma prostituta? — Falei que não chamo sua esposa de gata siliconada. — Melhor para você. Diana é toda natural. — Você está mentindo. — De jeito nenhum. — OK, I’m impressed. Mas de qualquer forma não posso ir antes de amanhã à noite. Estou na lista de espera de Natasha há três semanas e vou filmar o encontro. — Filmar? Você está brincando. — Tenho que olhar para alguma coisa até a próxima vez. Só Deus sabe quando vai ser.

Soltei uma gargalhada. — Você é louco. — Por que você diz isso? — Porque você ama uma puta, Ove! Nenhum homem de verdade pode amar uma puta. — E o que você sabe sobre isso? Gemi. — E o que pretende dizer à sua amada quando mostrar a porra da filmadora? — Ela não sabe nada sobre isso. — Câmera escondida no guarda-roupa? — Guarda-roupa? Minha casa tem circuito completo de videovigilância, cara. Nada que Ove Kjikerud me contava sobre ele mesmo me surpreendia mais. Já havia me dito que passava a maior parte de seu tempo livre na frente da TV em sua casinha, situada no alto de Tonsenhagen, na orla da floresta. E que gostava de atirar na tela se havia algo que realmente não suportava. Ele se gabara de suas pistolas austríacas da marca Glock, ou “damas”, como ele as chamava, por não serem dotadas de cão, peça que se levanta antes da ejaculação. Para os tiros na TV, Ove usava balas de festim, mas uma vez ele esqueceu que tinha colocado um carregador com munição de verdade e acabou despedaçando a tiros uma TV de plasma da Pioneer, novinha em folha, que valia 30 mil contos. Se não atirava na TV, disparava contra uma casinha de corujas que ele mesmo afixara a um tronco no bosque logo atrás da casa. E, certa noite, quando estava na frente da TV, ele escutou um barulho nas árvores do lado de fora, abriu a janela, fez pontaria com um rifle Remington e abriu fogo. A bala atingiu um animal no meio do crânio, e Ove teve de tirar do freezer todas as pizzas congeladas. Nos seis meses seguintes o cardápio havia sido bife de alce, hambúrguer de alce, guisado de alce, almôndegas de alce e costeletas de alce até que, um belo dia, ele não aguentou mais, esvaziou o freezer pela segunda vez e o encheu de novo com pizzas prontas. Todas essas histórias eu julgava totalmente críveis. Mas isso… — Circuito completo de videovigilância? — Trabalhar na Tripolis traz certas vantagens, não é? — E você pode simplesmente ligar aquelas câmeras sem que ela perceba? — Isso mesmo. Eu busco ela, a gente entra na casa. Se 15 segundos se passarem sem eu desativar o alarme com a senha, as câmeras começam a rodar na Tripolis. — E o alarme começa a uivar no seu apartamento? — Nada disso. Alarme silencioso. Evidentemente eu conhecia o conceito: o alarme apenas disparava na Tripolis para que os ladrões não se assustassem enquanto a empresa ligava para a polícia e, dentro de quinze minutos, aparecia no local com o próprio pessoal. O objetivo era pegar os ladrões em flagrante antes de eles fugirem com o butim; caso contrário, eles provavelmente seriam identificados na filmagem.

— Já avisei aos caras de plantão que não é para entrar em ação, entendeu? Que é só relaxar e apreciar o que se passa nos monitores lá na central. — Você quer dizer que os caras vão ficar assistindo você e a pu… Natasha? — A gente deve espalhar alegria. Mas cuidei para que a câmera não cubra a cama, ela é um espaço privado. Vou fazer Natasha tirar a roupa no pé da cama, na poltrona do lado da TV, entendeu? Ela toma a direção, é isso que é bom. Vou fazer ela se sentar ali e se tocar. Ângulo perfeito da câmera, trabalhei um pouco na iluminação. Então eu posso tocar punheta fora da câmera, entendeu? Para mim, já tinha passado do limite das informações que eu queria receber. Pigarreei. — Então você vem buscar Munch esta noite. E Rubens na noite depois de amanhã, certo? — Claro. Está tudo bem com você, Roger? Você parece estressado. — Está tudo bem — respondi passando o dorso da mão sobre a testa. — Está tudo muito bem. Desliguei e saí do orelhão. O tempo estava fechando, mas mal percebi isso. Pois tudo estava bem. Eu seria multimilionário. Pagaria para me livrar, me livrar de tudo. O mundo e tudo nele contido, incluindo Diana, seriam meus. Ressoou um estrondo ao longe, parecendo uma gargalhada profunda. Em seguida caíram as primeiras gotas de chuva, e as solas de meus sapatos batiam alegremente contra os paralelepípedos enquanto eu corria.

7

Grávida

Eram 18 horas, a chuva havia parado, e, no horizonte, ouro escorria para dentro do Fiorde de Oslo. Entrei na garagem com o Volvo, desliguei a ignição e esperei. Assim que o portão se fechou acendi a luz interna do carro, abri a pasta preta e tirei o espólio do dia. O broche. Eva Mudocci. Deixei o olhar deslizar sobre o rosto dela. Munch deve ter sido apaixonado por ela, senão não teria sido capaz de retratá-la assim. Desenhá-la como Lotte, captar a dor calada, a ferocidade silenciosa. Praguejei baixinho, inspirei o ar com força e um som sibilante saiu por entre os dentes. Em seguida, abri o forro do teto em cima da minha cabeça. Era uma invenção própria, destinada a esconder quadros que atravessariam fronteiras nacionais. Simplesmente soltei o forro interno do teto do ponto onde estava fixado na borda superior do para-brisa. Colei duas fitas de velcro por dentro, e, depois de fazer alguns cortes finos em torno da lâmpada da frente, eu tinha o esconderijo perfeito. O grande desafio de transportar quadros grandes, sobretudo pinturas secas a óleo, é que eles devem ficar em posição horizontal e não ser enrolados, pois há risco de a pintura rachar e o quadro estragar. O transporte, portanto, exige espaço, e a carga é bastante conspícua. Mas, com uma superfície de teto de aproximadamente 4m2, havia espaço suficiente, mesmo para os quadros maiores, que assim ficavam escondidos de aduaneiros zelosos com cães, cujos faros felizmente não foram treinados para encontrar pintura e verniz. Inseri Eva Mudocci dentro do forro, fixei o revestimento com o velcro, saí do carro e subi até a casa. Na porta da geladeira havia uma mensagem de Diana dizendo que tinha saído com sua amiga Cathrine e que chegaria em casa por volta da meia-noite. Faltavam quase seis horas. Abri uma San Miguel, me sentei na cadeira perto da janela e comecei a esperar por ela. Peguei outra garrafa e pensei em num trecho que decorei do livro de Johan Falkberget, o que Diana tinha lido para mim quando eu

estava com caxumba: “Todos bebemos conforme a sede.” Eu havia ficado de cama com febre e bochechas e orelhas doloridas, parecendo um baiacu suado enquanto o médico olhava para o termômetro e dizia que “não era nada muito grave”. E também não parecia tão grave. Foi só depois de ser pressionado por Diana que o médico a contragosto mencionou palavras feias como meningite e orquite, o que ele, ainda mais a contragosto, traduziu como inflamação nos testículos. Mas imediatamente acrescentou que era “muito improvável neste caso”. Diana lia para mim e colocava compressas frias em minha testa. O livro era A quarta vigília da noite, e, já que não tinha outra coisa com que ocupar meu cérebro ameaçado de infecção, eu prestava bastante atenção. Notei em especial duas coisas. Primeiro, o padre Sigismund, que desculpa o bêbado com a frase “todos bebemos conforme a sede”. Talvez porque eu mesmo achasse consolo nesse conceito da humanidade: se essa for sua natureza, está tudo bem. O segundo foi uma citação das Explicações de Pontoppidan, um livro que os jovens da época precisavam decorar para a catequese, onde se afirma que um ser humano pode matar a alma de outro ao infectá-la e rebaixá-la no pecado, assim privando-a da salvação. Encontrei menos consolo nisso. E a ideia de macular as asas de um anjo fez com que eu nunca tivesse inteirado Diana de tudo o que eu fazia para adquirir uma renda adicional. Durante seis dias ela cuidou de mim, algo que me agradou e atormentou ao mesmo tempo. Pois eu sabia que não teria feito a mesma coisa por ela, pelo menos não por causa de uma caxumba insignificante. Então, quando finalmente perguntei a ela por que o fazia, minha curiosidade era genuína. Sua resposta foi simples: — Porque te amo. — É só uma caxumba. — Talvez eu não tenha a chance de te mostrar isso mais tarde. Você tem uma saúde de ferro. Tinha soado como uma acusação. E no dia seguinte eu de fato saí da cama, fui para uma entrevista de trabalho numa empresa de recrutamento chamada Alfa e lhes contei que seriam idiotas se não me contratassem. E sei por que fui capaz de falar isso com invencível autoconfiança. Pois não há nada que faça um homem crescer além de sua altura corporal como uma mulher dizendo que o ama. E, não importa o quão mal contada a mentira dela for, sempre terá uma parte dele que sentirá gratidão a ela por causa disso e que lhe guardará certa medida de amor. Peguei um dos livros de arte de Diana, li sobre Rubens e o pouco que estava escrito a respeito de A caça ao javali de Cálidon, estudando a pintura com atenção. Depois deixei o livro de lado e tentei planejar passo a passo a operação do dia seguinte. Naturalmente, um apartamento em um prédio residencial significava o risco de encontrar vizinhos na escadaria. Potenciais testemunhas que poderiam me ver de perto. Mas apenas por alguns segundos. E não desconfiariam de nada naquele momento, não notariam o rosto, já que eu estaria de macacão e

entraria num apartamento que estava sendo reformado. Do que eu tinha medo então? Eu sabia do que tinha medo. Ele me lera como um livro aberto durante a entrevista. Mas quantas páginas? Será que ele desconfiava de algo? Bobagem. Ele reconhecera uma técnica interrogatória que ele próprio tinha aprendido no exército, era só isso. Busquei meu celular e liguei para o número de Greve para lhe contar que Diana não estava, que o nome de algum perito que pudesse verificar a autenticidade do quadro teria que esperar até que ele estivesse de volta de Roterdã. A voz telefônica de Greve disse: “Please leave a message”, e foi o que fiz. A garrafa de cerveja estava vazia. Cogitei um uísque, mas desisti da ideia, não queria acordar de ressaca amanhã. Uma última cerveja, tudo bem. Estava na metade da garrafa quando me dei conta do que estava fazendo. Tirei o celular do ouvido e me apressei a interromper a chamada. Eu tinha digitado o número de Lotte, que estava disfarçado num “a” discreto no registro de contatos, um “a” que me fizera tremer as poucas vezes em que havia aparecido no visor do celular. Nossa regra determinava que era eu quem ligava. Entrei no menu de contatos, encontrei o “a” e apertei “apagar”. “Tem certeza de que quer apagar?”, respondeu o telefone. Olhei para as alternativas. O “não” covarde e desleal e o “sim” mentiroso. Apertei “sim”, sabendo que o número dela estava gravado em meu cérebro de uma maneira indelével. O que isso significava eu não sabia, nem queria saber. Mas iria desvanecer. Desvanecer e desaparecer. Obrigatoriamente.

Diana chegou cinco minutos antes da meia-noite. — O que você fez hoje, meu amor? — perguntou, aproximando-se da cadeira, sentando-se na lateral e me abraçando. — Nada demais — respondi. — Entrevistei Clas Greve. — Como foi? — Ele é perfeito, com a exceção de ser estrangeiro. A Pathfinder disse claramente que quer um norueguês como chefe, até fizeram afirmações públicas sobre sua preocupação em ser uma empresa norueguesa em todos os sentidos. Por isso preciso convencê-los antes. — Mas nisso você é o melhor do mundo, né? — Ela me beijou na testa. — Até ouvi outros falarem de seu recorde. — Que recorde? — O homem que sempre consegue contratar o candidato que indica, claro. — Ah, esse — respondi, fingindo estar surpreso. — Você deve conseguir dessa vez também.

— Como estava Cathrine? Diana passou uma mão por meu cabelo denso. — Fantástica. Como sempre. Ou, ainda mais fantástica que de costume. — Um belo dia ela vai morrer de felicidade. Diana debruçou o rosto no meu cabelo e falou em meio aos fios: — Ela acaba de descobrir que está grávida. — Então talvez a vida dela não fique tão fantástica por algum tempo. — Besteira — murmurou ela. — Você bebeu? — Um pouquinho. Vamos brindar a Cathrine? — Vou para a cama, estou morta de cansaço depois de todo esse papo de felicidade. Você vem? Estando curvado atrás dela no quarto de dormir, abraçando-a e sentindo sua coluna vertebral contra o peito e a barriga, de repente me dei conta de algo que percebi ter pensado desde a entrevista com Greve. Que agora poderia engravidá-la. Que agora eu finalmente estava em terra, em solo firme, que um filho jamais poderia me desbancar. Pois com Rubens eu enfim seria o leão, o soberano de que Diana falava. Aquele insubstituível chefe de família. Não que Diana tivesse duvidado disso antes, mas eu tinha minhas próprias dúvidas. Duvidei da minha capacidade de ser o guardião do ninho que Diana merecia, pensando que justamente um filho seria capaz de curar sua abençoada cegueira. Mas agora ela poderia ver, poderia me ver por completo. Pelo menos, uma parte maior de mim. O ar frio e cortante vindo da janela aberta fez a pele sobre o edredom se eriçar e senti a ereção chegar. Mas a respiração dela já era profunda e regular. Soltei-a. Ela se encolheu, segura e indefesa como um bebê. Saí da cama num pulo. Pelo visto, o altar de mizuko não tinha sido tocado desde ontem. Normalmente, não se passava um único dia sem que ela fizesse alguma mudança visível: trocar a água, colocar uma nova vela, flores frescas. Subi até a sala e me servi uma dose de uísque. O assoalho estava frio perto da janela. O uísque era um Macallan 30 anos, um presente de um cliente satisfeito. A essa altura, sua empresa estava cotada na bolsa. Olhei para a garagem lá embaixo, banhada pelo luar. Ove devia estar a caminho. Ele se trancaria dentro da garagem e entraria no carro, pois tinha uma chave reserva. Tiraria Eva Mudocci, a colocaria na pasta e caminharia até seu próprio carro, que estaria estacionado a uma distância segura, longe o suficiente para que ninguém o associasse com nossa casa. Ele dirigiria até o receptador em Gotemburgo, entregaria a tela e estaria de volta de manhãzinha. Mas agora Eva Mudocci não me interessava, um trabalhinho irritante a ser despachado. Voltando de Gotemburgo, Ove deveria trazer uma razoável reprodução da caça ao javali de Rubens e a colocar dentro do forro do Volvo antes de nós ou os vizinhos acordarmos.

No passado, Ove tinha usado meu carro para as viagens até Gotemburgo. Nunca falei com o receptador, e ele nem deveria saber que havia outras pessoas envolvidas além de Ove. Era assim que eu queria as coisas, o menor número possível de pontos de contato, o menor número de pessoas que em algum momento pudessem chamar a atenção para mim. Mais cedo ou mais tarde, os criminosos sempre eram pegos, e aí o que importava era existir a maior distância possível entre eles e eu. Por isso eu cuidava de nunca ser visto em público conversando com Ove Kjikerud e de usar um orelhão sempre que precisava entrar em contato com ele. Não queria que qualquer número meu estivesse em seu histórico de chamadas quando ele fosse pego. Uma cabana afastada, localizada na região de Elverum, servia de palco para a divisão do dinheiro e o planejamento estratégico. Ove alugava a cabana de um eremita caipira, e a gente chegava em carros separados. E foi a caminho dessa cabana que me dei conta do risco que estava correndo ao deixar Ove usar meu carro para transportar os quadros até Gotemburgo. Eu acabara de passar por uma blitz de velocidade onde vi a Mercedes dele, uma 280 SE de quase 30 anos, preta e cuidadosamente polida, estacionada do lado de uma viatura policial. E percebi que ele era um desses motoristas notórios com pé pesado que são incapazes de respeitar o limite de velocidade. Eu o instruíra a retirar do para-brisa o dispositivo eletrônico de pagamento automático de pedágio sempre que ele dirigia meu Volvo para Gotemburgo, pois a passagem no pedágio com o dispositivo era registrada, e eu não queria explicar para a polícia o motivo de tantas passagens noturnas pela rodovia E6. Mas, ao ver a Mercedes de Ove naquela blitz a caminho de Elverum, entendi que ali residia o maior risco: a polícia poderia parar seu velho conhecido e pé-pesado Ove Kjikerud a caminho de Gotemburgo e querer saber que diabo ele estava fazendo no carro do respeitável... headhunter Roger Brown. E dali em diante tudo seriam más notícias. Pois Kjikerud contra Inbau, Reid e Buckley só poderia ter um desfecho. Achei que poderia vislumbrar algo que se movimentava na escuridão ali perto da garagem. Amanhã era o Dia D. O dia de devaneios. O dia da definição. O dia da desmobilização. Pois, se tudo corresse de acordo com o plano, esse seria o último golpe. Eu teria atingido a meta, estaria livre e teria me safado. A cidade cintilava auspiciosa ali embaixo. Lotte atendeu depois do quinto toque. — Roger? — Cuidadosa, delicada. Como se fosse ela que estava me acordando e não vice-versa. Desliguei. E esvaziei o copo de uísque num gole só.

8

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Acordei com uma dor de cabeça terrível. Eu me ergui sobre os cotovelos e vi o delicado traseiro de Diana, de calcinha, apontando para o ar enquanto ela remexia a bolsa e os bolsos da roupa que tinha usado na véspera. — Está procurando alguma coisa? — perguntei. — Bom dia, meu amor — disse ela, mas percebi que não era um bom dia. E eu concordava. Saí da cama e fui até o banheiro. Eu me olhei no espelho e sabia que o resto do dia deveria ser melhor. Teria que ser melhor. Iria ser melhor. Abri o chuveiro e entrei debaixo do jato gelado enquanto ouvi Diana praguejar em voz baixa dentro do quarto. — And it’s gonna be… — gralhei por pura teimosia: — PERFECT! — Estou saindo agora — gritou Diana. — Te amo. — E eu amo você — gritei, mas não sei se ela conseguiu me escutar antes de a porta bater atrás dela. Às 10 horas eu estava no escritório tentando me concentrar. Minha cabeça parecia um girino transparente e pulsante. Registrei que Ferdinand, havia diversos minutos, abria a boca, articulando o que eu imaginava serem palavras de interesse variado. E mesmo que a boca ainda estivesse aberta, ele tinha parado de movimentá-la e, em vez disso, estava olhando para mim com uma expressão que eu interpretava como sendo de expectativa. — Repita a pergunta — mandei. — Estou dizendo que está tudo bem se eu fizer a segunda entrevista com Greve e o cliente, mas você precisa me contar um pouco sobre a Pathfinder primeiro. Não sei nadinha, vou parecer um idiota! — Nesse ponto a voz subiu naquele falsete ridiculamente obrigatório.

Suspirei. — Eles fazem transmissores minúsculos, quase invisíveis, que podem ser fixados nas pessoas para rastreá-las por meio de um receptor acoplado ao sistema de GPS mais avançado do mundo. Serviço de prioridade dos satélites nos quais a empresa tem participação, etc. Tecnologia de ponta, ou seja, um candidato a aquisição por terceiros. Leia o relatório anual. Algo mais? — Já li! Tudo sobre os produtos é classificado como sigiloso. E o fato de Clas Greve ser estrangeiro, como vou fazer esse cliente aparentemente nacionalista engolir isso? — Não cabe a você fazer isso, pode deixar comigo. Não se preocupe tanto, Ferdy. — Ferdy? — É, já pensei um pouco nisso. Ferdinand é comprido demais. Tudo bem? Ele me olhou incrédulo. — Ferdy? — Não na presença dos clientes, é óbvio. — Dei um largo sorriso e senti a dor de cabeça aliviar. — Estamos prontos, Ferdy? Estávamos. Até a hora do almoço eu fiquei mastigando analgésicos e olhando para o relógio. No almoço fui até o joalheiro do outro lado da rua do Sushi & Coffee. — Estes daí — falei, apontando para os brincos de diamante na vitrine. Ainda tinha limite no cartão. Por pouco. E a superfície de camurça da caixinha carmim era macia como o pelo de um filhote de cachorro. Depois do almoço continuei mascando analgésicos e olhando para o relógio. Exatamente às 17 horas estacionei rente à calçada da rua Inkognitogata. Foi fácil encontrar uma vaga; pelo visto, tanto os trabalhadores quanto os moradores estavam a caminho de casa. A chuva já passava e as solas de meus sapatos estavam no asfalto. A pasta parecia leve. A reprodução tinha sido de qualidade média, a um preço de 15 mil coroas suecas, excessivamente cara, por razões óbvias, mas a essa altura do campeonato isso pouco importava. Se há uma rua elegante em Oslo, essa rua é Oscars Gate. Os edifícios compõem um amálgama de estilos arquitetônicos, em sua maior parte neorrenascentistas. Com fachadas com desenhos neogóticos e jardins de entrada plantados, foi aqui que os diretores e os altos funcionários moraram no final do século XIX. Um homem com um poodle de coleira estava vindo em minha direção. Nada de cão de caça aqui no centro. O homem olhou através de mim. Coisa de centro de cidade. Entrei no número 35, de acordo com a busca de endereço na internet, um prédio cuja arquitetura era “uma variante hanoveriana do estilo medieval”. Mais interessante era a informação de que a

embaixada espanhola não estava mais localizada ali, portanto eu provavelmente estaria livre de câmeras de vigilância inconvenientes. Não se via ninguém na frente do edifício, que me recebeu calado com janelas escuras. A chave que recebi de Ove deveria funcionar tanto no portão do prédio como na porta do apartamento. Pelo menos a parte do portão estava certa. Subi as escadas depressa. Decidido. Não pesado, nem leve. Uma pessoa que sabe aonde está indo e não tem nada a esconder. Eu estava com a chave pronta para que não ficasse remexendo na frente da porta do apartamento, já que esse tipo de coisa se escuta facilmente num edifício antigo e sem isolamento acústico. Segundo andar. Nenhum nome na porta, mas eu sabia que era aqui. Porta dupla com vidro fosco. Eu não estava tão calmo como tinha imaginado, pois meu coração batia contra a parte interna das costelas, e errei o buraco da fechadura. Ove uma vez me contara que a primeira coisa que a pessoa perde quando está com medo é a habilidade motora fina. Ele tinha lido isso num livro sobre luta corpo a corpo, que falava como a capacidade de carregar uma arma desaparece quando se enfrenta outra arma. Mesmo assim, a chave acertou o buraco na segunda tentativa. E girou, inaudível, suave e perfeita. Apertei a maçaneta e puxei a porta para mim. Empurrei-a. Mas ela não quis abrir. Puxei de novo. Caralho! Será que Greve tinha instalado uma fechadura a mais? Será que todos os meus sonhos e planos se despedaçariam aqui por causa de uma porra de uma fechadura adicional? Puxei a porta com toda a minha força, quase em pânico. Ela se soltou do caixilho com um estalido e o vidro ficou reverberando na moldura enquanto ecoava pelo corredor. Entrei num movimento deslizante, fechei a porta com cuidado e tomei fôlego. E de repente aquele pensamento que me ocorreu ontem à noite parecia idiota. Será que eu não sentiria saudades desse suspense a que tanto me havia acostumado? Ao inspirar, o nariz, a boca e os pulmões se encheram de solventes, tinta látex, verniz e cola. Passei por entre as latas de tinta e os rolos de papel de parede no hall de entrada e segui para a parte interna do apartamento. Papel pardo sobre o piso xadrez de carvalho, lambri na metade da parede, pó de gesso, antigas janelas que aparentemente seriam trocadas. Uma sala depois da outra do tamanho de pequenos salões de baile. Achei a cozinha semipronta contígua à sala do meio. Linhas rígidas, metal e madeira maciça, indubitavelmente cara, eu chutava que era Poggenpohl. Entrei no quarto de empregada, e ali estava a porta atrás das estantes. Já tinha me preparado para que pudesse estar trancada, mas também sabia que nesse caso haveria ferramentas no apartamento que serviam para arrombá-la. Não foi necessário. As dobradiças rangiam em tom baixo e admoestador enquanto a porta se abriu. Entrei num cômodo escuro, vazio e alongado, tirei a lanterna de dentro do macacão e conduzi o cone de luz amarelo-fosca ao longo das paredes. Ali dentro havia quatro quadros pendurados na parede. Três deles eram desconhecidos para mim. O quarto não. Posicionei-me em frente ao quadro e senti a mesma secura na boca de quando Greve falara o título. A caça ao javali de Cálidon. A luz parecia irradiar das camadas subjacentes de tinta de quase 400 anos de idade. Juntamente

com as sombras, ela dava contorno e forma à cena de caça; segundo a explicação de Diana, isso se chamava claro-escuro. O quadro tinha um efeito quase físico, um magnetismo que sugava, era como estar na presença de uma pessoa carismática que você só conhece de nome e de fotos. Eu não estava preparado para toda essa beleza. Dos livros de arte de Diana, reconheci as cores dos quadros de caça mais recentes e mais famosos do artista, A caça ao leão, A caça ao hipopótamo e ao crocodilo, A caça ao tigre. No livro que li ontem estava escrito que este era o primeiro quadro de Rubens com o tema da caça, o verdadeiro ponto de partida para as obras-primas que viriam depois. A deusa Ártemis, querendo se vingar da negligência que os habitantes tinham mostrado, enviou o javali a Cálidon para matar e pilhar os moradores. Mas no final foi o melhor caçador de Cálidon, Meléagro, que abateu o javali com sua lança. Olhei para o corpo nu e musculoso de Meléagro, para a expressão de ódio em seu rosto, que me fazia lembrar alguém, para a lança que estava sendo inserida no corpo da fera. Tudo tão dramático e ainda assim piedoso. Tão desnudo e ainda assim recôndito. Tão simples. E tão valioso. Tirei o quadro da parede, levando-o para a cozinha e deitando-o sobre a bancada. Como era esperado, a antiga moldura possuía um bastidor sobre o qual a tela era fixada. Peguei as duas únicas ferramentas que tinha trazido e de que precisava: um furador e um alicate de corte. Cortei a maioria das tachas, extraí aquelas que seriam reutilizadas, soltei o bastidor e usei o furador para desprender os grampos. Estava mais desajeitado que de costume, talvez aquilo que Ove tinha dito sobre a habilidade motora fina afinal fosse verdade. Mas vinte minutos depois a reprodução estava por fim instalada na moldura e o original se encontrava dentro da pasta. Pendurei o quadro no lugar, fechei a porta, verifiquei que não tinha deixado vestígios e saí da cozinha com uma mão suada firmemente segurando a alça da pasta. No momento em que passei pela sala do meio, lancei um olhar para fora da janela e vi de relance uma copa de árvore semidespida. Parei. As folhas rubras que ainda sobravam fizeram a árvore parecer incandescente aos raios solares oblíquos que se derramavam entre as nuvens. Rubens. As cores. Eram as suas cores. Foi um momento mágico. Um momento de triunfo. Um momento de transformação. Um daqueles momentos em que se vê tudo com tanta nitidez que as decisões que antes pareciam difíceis de repente se tornam óbvias. Eu queria ser pai, planejei contar isso a Diana só à noite, mas de repente eu sabia que esse era o momento certo. Agora, aqui, no próprio palco do crime, com Rubens debaixo do braço e essa árvore bela e majestosa na minha frente. Esse era o momento que seria fundido em bronze, a memória perpétua que eu e Diana teríamos juntos e que resgataríamos nos momentos difíceis. A decisão que ela, imaculada, acreditaria ter sido tomada num momento de clarividência e sem outro ensejo senão o amor por ela e por nosso futuro filho. E só eu, o leão, o chefe de família, conheceria o segredo sombrio, de que a garganta da zebra fora mordida depois de uma emboscada, que o chão estivera coberto de sangue antes de a caça ter sido depositada à frente deles, meus inocentes. Sim, agora nosso amor seria consolidado dessa forma. Peguei o celular, tirei uma das luvas e apertei o número de seu telefone

Prada. Tentei formular a frase na cabeça enquanto estava aguardando a conexão. “Vou te dar um filho, minha amada.” Ou: “Minha querida, me deixe te dar…” Soou o acorde G11sus4 de John Lennon. “It’s been a hard day’s night…” Isso mesmo, isso mesmo. Sorri exaltado. Até que, de repente, me dei conta. De que eu estava ouvindo isso. De que algo estava totalmente errado. Abaixei o telefone. E um pouco distante, mas bem nítido, ouvi os Beatles começarem a tocar “A Hard Day’s Night”. O toque dela. Meus pés pareciam estar cimentados no papel pardo do piso. Em seguida começaram a se movimentar em direção ao som enquanto meu coração dava fortes batidas de timbal. O som vinha de trás de uma porta entreaberta que dava para o corredor do lado de dentro das salas. Abri a porta. Era um quarto de dormir. A cama, no meio do quarto, estava arrumada, mas era nítido que tinha sido usada. No pé dela, havia uma mala e do lado, uma cadeira com algumas roupas sobre o espaldar. Um terno estava pendurado num cabide no guarda-roupa aberto. O terno que Clas Greve usara na entrevista. De algum lugar no quarto, Lennon e McCartney cantavam a duas vozes com uma energia que eles jamais reencontrariam em álbuns posteriores. Olhei em volta. E ajoelhei. Agachei-me. E ali estava. O telefone Prada. Embaixo da cama. Deve ter caído da calça dela. Provavelmente quando ele a arrancou dela. E ela não tinha dado falta do telefone até… até… Visualizei seu traseiro tentador hoje de manhã, a procura frenética nas roupas e na bolsa. Eu me levantei outra vez. Rápido demais, pelo visto, pois o quarto começou a girar. Encostei-me à parede. A secretária eletrônica ligou, e ali estava a voz chilreante: “Olá, aqui é Diana. Não estou com o telefone no momento…” Bem que era verdade. “Mas você sabe o que fazer…” Sei. Em algum lugar do meu cérebro registrei que tinha me segurado com a mão sem luva e que portanto precisava me lembrar de limpar a parede. “Tenha um dia maravilhoso!” Isso, porém, seria difícil. Bipe.

Parte III

Segunda entrevista

9

Segunda entrevista

Meu pai, Ian Brown, foi um jogador de xadrez ávido, mas não especialmente talentoso. Aos 5 anos, aprendera a jogar com seu próprio pai. Lia livros sobre xadrez e estudava partidas clássicas. Mesmo assim ele não me ensinou a jogar xadrez até eu completar 14 anos e o período de maior facilidade de aprendizagem já ter passado. Mas eu levava jeito para o jogo e, com 16 anos, ganhei dele pela primeira vez. Ele sorriu como se estivesse orgulhoso de mim, mas sei que odiou a derrota. Ele posicionou as peças outra vez e iniciamos a partida de revanche. Como de costume, eu jogava com as peças brancas, ele me fazia acreditar que assim me dava uma vantagem. Depois de alguns lances ele se desculpou e foi até a cozinha, onde eu sabia que ia tomar um gole da garrafa de gim. Aproveitei sua ausência para trocar a posição de duas peças, e ele não descobriu nada ao voltar. Quatro lances mais tarde, olhava boquiaberto para minha rainha branca, que enfrentava seu rei preto, percebendo que estaria em xequemate no próximo lance. Era tão engraçado vê-lo assim que não me contive e desatei a rir. E vi pela expressão de seu rosto que ele se dera conta do que tinha acontecido. Então ele se ergueu e derrubou todas as peças do tabuleiro com um soco. Depois me bateu. Meus joelhos falharam e caí, mais pelo medo do que pela força da pancada. Ele nunca me batera antes. — Você trocou as peças — rosnou. — Filho meu não joga sujo. Senti o gosto de sangue na boca. A rainha branca estava no chão à minha frente. Perdera um pedaço de sua coroa por causa do tombo. O ódio queimava como fel na minha garganta e no meu peito. Apanhei a rainha quebrada e a coloquei de volta sobre o tabuleiro, seguida das outras peças. Uma por uma. Coloquei-as exatamente na posição anterior. — Sua vez, pai. Pois é isso que o jogador com o ódio mais frio faz se está prestes a ganhar e o adversário

inesperadamente lhe bate no rosto, o atinge num lugar onde dói, encontra seu medo. Ele não perde a visão do tabuleiro, mas esconde o medo e se atém ao plano. Respira, reconstrói, continua o jogo e alcança a vitória, saindo de lá sem gestos triunfantes. Eu estava sentado na ponta da mesa vendo a boca de Clas Greve se movimentar. Vi como as faces se esticavam e soltavam, formando palavras que aparentemente eram inteligíveis para Ferdinand e para os dois representantes da Pathfinder — pelo menos, todos os três estavam assentindo com visível satisfação. Como eu odiava aquela boca. Odiava aquelas gengivas rosa-cinzentas, os sólidos dentes tumulares, sim, a própria forma desse repugnante orifício: um corte reto com dois ganchos apontando para cima e indicando um sorriso, o mesmo sorriso gravado com que o tenista sueco Bjørn Borg encantara o mundo. E com que Clas Greve agora estava seduzindo sua futura empresa, a Pathfinder. Mais que tudo, porém, eu odiava seus lábios. Aqueles lábios que tocaram os lábios de minha esposa, a pele de minha esposa, provavelmente seus mamilos rosados e certamente seu sexo encharcado e escancarado. Imaginei que era possível ver um pelo pubiano loiro numa fissura da parte carnuda do lábio inferior. A essa altura eu estava calado havia quase meia hora enquanto Ferdinand, com empenho imbecil, repetia de memória as perguntas idiotas do guia de entrevista como se fossem de sua própria autoria. No início, Clas Greve tinha respondido dirigindo-se a mim. Mas aos poucos entendeu que eu estava ali apenas como juiz-assistente passivo, não anunciado, e que sua tarefa hoje era convencer os outros três com o evangelho segundo Greve. Entretanto, a intervalos regulares, ele me enviava olhares breves e indagadores, como se pedisse uma indicação sobre qual era meu papel. Depois de algum tempo, os dois da Pathfinder, o presidente do conselho de administração e o diretor de informação, vieram com suas perguntas, que naturalmente giravam em torno do tempo que ele trabalhara na HOTE. E Greve relatou como ele e a HOTE tinham conduzido o desenvolvimento do TRACE, um líquido ou gel parecido com verniz que continha aproximadamente cem transmissores por milímetro e que podia ser aplicado em qualquer objeto. A vantagem desse verniz transparente era sua quase invisibilidade, e, assim como o verniz comum, ele se fixava com tanta aderência ao objeto que era impossível se livrar dele sem o uso de um raspador de tinta. A desvantagem era que os transmissores, por serem tão minúsculos, não conseguiam emitir sinais fortes o suficiente para penetrar nos materiais que os envolvessem, caso esses fossem mais densos que o ar, tais como água, gelo, lama ou camadas de pó extremamente espessas às quais os veículos usados em guerra no deserto podem estar expostos. Paredes, no entanto, mesmo aquelas de alvenaria grossa, raramente representavam algum problema. — Verificamos que os soldados em quem aplicamos o TRACE desapareciam de nossos receptores se ficassem muito sujos — disse Greve. — Ainda não temos a tecnologia que deixa os transmissores microscópicos fortes o bastante. — Na Pathfinder temos essa tecnologia — disse o presidente do conselho. Ele era um homem de uns 50 anos, com cabelos ralos, que a intervalos irregulares virava o pescoço como se tivesse medo de

que enrijecesse ou tivesse abocanhado algo grande que não conseguia engolir. Desconfiei que se tratasse de uma doença muscular cujo desfecho é um só. — Mas infelizmente não temos a tecnologia do TRACE. — Tecnologicamente falando, a HOTE e a Pathfinder formariam um casal perfeito — disse Greve. — Exatamente — retrucou o presidente com sarcasmo. — Com a Pathfinder fazendo o papel de dona de casa e recebendo alguns trocados miseráveis de salário. Greve deu uma risadinha irônica. — Tem razão. Além disso, será mais fácil para a Pathfinder adquirir a tecnologia da HOTE do que vice-versa. Por isso acho que há apenas um caminho viável para a Pathfinder, que é fazer a viagem por conta própria. Vi os representantes da Pathfinder se entreolharem. — De qualquer forma, Greve, seu CV é impressionante — disse o presidente. — Mas nossa preocupação é que nosso diretor-executivo seja um stayer, um… como é que vocês chamam isso na gíria de recrutamento? — Agricultor — apressou-se a dizer Ferdinand. — Um agricultor, sim. Uma boa metáfora. Ou seja, alguém que cultive aquilo que já está ali, que continue construindo tijolo por tijolo. Que seja assíduo e paciente. E você tem um histórico que é… bem, espetacular e dramático, mas não mostra se você tem a persistência e a tenacidade que buscamos num executivo. Com ar sério, Clas Greve prestara atenção ao presidente do conselho, e agora fazia que sim com a cabeça. — Primeiro, gostaria de dizer que sou da mesma opinião quanto ao tipo de executivo que a Pathfinder deve procurar. Segundo, não demonstraria interesse por esse desafio se não achasse que me encaixo nesse tipo. — E você se encaixa? — atreveu-se a dizer, acanhado, o outro representante da Pathfinder, um tipo delicado que, antes de se apresentar, eu tinha indicado como diretor de informação. Já contratei um bom número deles. Clas Greve sorriu. Um sorriso cordial que não só suavizou seu rosto empedernido como o transformou por completo. A essa altura, eu já tinha visto esse seu truque algumas vezes, um truque que buscava mostrar o menino travesso que ele também era capaz de personificar. Tinha o mesmo efeito que o toque físico recomendado por Inbau, Reid e Buckley, o ato íntimo, a declaração de confiança, aquilo que diz “agora estou me expondo”. — Deixem-me contar uma história. — Greve sorriu. — É uma história de algo que acho difícil de admitir. É que detesto perder. Sou daquele tipo que fica chateado se perder num jogo de cara ou coroa. Houve risadas na sala. — Mas espero que isso também diga algo sobre paciência e perseverança — continuou. — Certa vez

no BBE eu estava caçando um traficante relativamente insignificante no Suriname… — Vi que os dois da Pathfinder inconscientemente se inclinaram um pouco para a frente. Ferdinand serviu mais café nas xícaras e me lançou um sorriso confiante de vitória. A boca de Clas Greve se movia. Rastejava-se adiante. Roía aquilo que não tinha o direito de roer. Será que ela havia gritado? É claro que sim. Diana simplesmente não conseguia se conter, era uma presa fácil de seu próprio apetite sexual. A primeira vez que fizemos amor eu tinha pensado na escultura de Bernini na capela Cornaro: Êxtase de santa Teresa. Em parte por causa da boca entreaberta de Diana, a expressão de dor, quase de agonia, no rosto, a veia esticada e a ruga de concentração na testa. E em parte porque Diana gritou, e eu sempre pensei que a santa carmelita extática de Bernini gritasse no momento em que o anjo retirava a flecha de seu peito e estava prestes a reinseri-la. Pelo menos é assim que me parece, dentro-fora-dentro, uma imagem da penetração divina, a copulação em sua forma mais sublime. Mas nem uma santa poderia gritar como Diana. O grito dela era um prazer doloroso, a ponta de uma flecha contra o tímpano que deixava o corpo todo arrepiado. Era um grito longo e plangente, um tom que apenas subia e descia, como um aeromodelo. Tão penetrante que eu, depois da primeira relação sexual, acordei com zumbido nos ouvidos, e, depois de três semanas fazendo amor, achei que estava sentindo os primeiros sintomas de tinido, uma constante queda-d’água, ou pelo menos uma cachoeirinha, acompanhada de um zunido intermitente. Certa vez, manifestei minha preocupação com a audição, obviamente como uma piada, mas Diana não achou graça nenhuma. Pelo contrário, ficou horrorizada e quase começou a chorar. E quando fizemos amor novamente, senti suas mãos em torno de meus ouvidos, algo que primeiro entendi como uma carícia um pouco incomum. Mas, ao perceber que ela segurava as mãos em concha sobre os ouvidos, formando dois quentes protetores de audição, entendi que ato de amor era aquele. Do ponto de vista puramente acústico, o efeito era limitado — o grito ainda se aprofundava direto no córtex cerebral —, mas bem maior do ponto de vista emocional. Não sou um homem que chora com facilidade, mas, ao gozar, desatei a soluçar feito criança. Provavelmente porque sabia que ninguém, ninguém mesmo, me amaria tanto quanto essa mulher. Então, ao olhar para Clas Greve nesse momento, tendo certeza de que ela havia gritado nos braços dele também, tentei não pensar na pergunta que se seguia. Mas assim como Diana, eu tampouco conseguia me conter: Será que ela protegera os ouvidos dele? — Em geral, o rastro passava por mata densa e pântanos — estava dizendo Clas Greve. — Marchas diárias de oito horas. Mesmo assim ficávamos sempre um pouco para trás, ele sempre nos escapava por um triz. Os outros desistiram um por um. Febre, disenteria, mordidas de cobra ou exaustão, pura e simples. E o cara era, como já disse, relativamente insignificante. A selva corrói sua sanidade. Eu era o mais jovem, ainda assim foi para mim que no final transferiram o comando. E o machete. Diana e Greve. Ao estacionar o Volvo na garagem depois de ter saído do apartamento de Greve, cheguei a cogitar a possibilidade de fechar os vidros, deixar o motor ligado e aspirar o óxido de carbono,

ou monóxido, ou que raio que é que se aspira; pelo menos dizem que é uma morte tranquila. — Depois de seguir seu rastro durante 63 dias por 320 quilômetros das piores paisagens que se pode imaginar, nossa equipe de caçadores se resumira a mim e um jovem calouro de Groningen, que era burro demais para enlouquecer. Obtive contato com o quartel-general e consegui que eles mandassem um niether terrier por helicóptero. Conhecem a raça? Não? É o melhor cão rastreador do mundo. E desmedidamente leal, ele ataca tudo o que você indicar, não importando o tamanho. Um amigo para sempre. Literalmente. O helicóptero lançou o cachorro, um filhote de pouco mais de um ano, no meio da selva da enorme área de Sipaliwini, onde eles também lançam a cocaína. No entanto, o lugar da entrega acabou sendo a 10 quilômetros de distância de nosso esconderijo. Seria um milagre não só se ele conseguisse nos localizar, mas se sobrevivesse por 24 horas na selva. Ele levou menos de duas horas para nos encontrar. Greve se inclinou para trás na cadeira. Tinha controle total agora. — Dei-lhe o nome de Sidewinder. Em homenagem ao míssil guiado por calor, sabem? Eu amava aquele cachorro. Por isso tenho um niether terrier até hoje, fui buscá-lo na Holanda ontem; por sinal, é o neto de Sidewinder. Depois do furto no apartamento de Greve, quando voltei para casa, à noitinha, Diana estava na sala assistindo ao noticiário da TV. Havia uma coletiva de imprensa com o inspetor Brede Sperre atrás de um monte de microfones. Ele estava falando de um homicídio. Pelo visto, um homicídio já solucionado. Um homicídio que ele sozinho desvendou. A voz de Sperre tinha um chiado masculino, como um rádio com ruído de estática, interrupções no nível do sinal de áudio, uma máquina de datilografia com uma letra desgastada que mal se delineia no papel. “O autor do crime será apresentado amanhã. Mais alguma pergunta?” A essa altura, todos os traços da zona leste foram apagados de sua fala, mas, de acordo com o Google, ele jogou basquete pelo time de Ammerud durante oito anos. Havia se formado na Academia de Polícia como o segundo melhor aluno de seu ano. Numa entrevista publicada em uma revista feminina, ele se recusara, por motivos profissionais, a responder se tinha uma namorada, pois uma eventual namorada poderia receber atenção indesejada da mídia e dos elementos que ele caçava. Mas nada nos retratos em estilo pin-up da mesma revista, camisa semidesabotoada, olhos semicerrados, sorriso semi-insinuante, indicava uma namorada. Eu tinha me posicionado atrás da cadeira de Diana. — Agora ele entrou para a Polícia Judiciária — informou ela. — Homicídios e esse tipo de coisa. É claro que eu já sabia disso, semanalmente fazia uma busca no Google sobre Brede Sperre para ver o que ele estava fazendo, se dava alguma declaração nos jornais sobre a caça à quadrilha dos ladrões de arte. Além disso, indagava sobre Sperre nos momentos oportunos. Oslo não é uma cidade grande. Eu sabia das coisas. — Que pena para você — falei num tom leve. — Então não vai ter mais visitas dele na galeria. Ela deu risada e ergueu o olhar para mim, e eu baixei o olhar para ela, sorri, e nossos rostos estavam

de ponta-cabeça um em relação ao outro. E por um momento pensei que aquela história com Greve não tinha acontecido, que era só algo que eu mesmo pintara para mim em cores um pouco vivas demais, assim como a maioria das pessoas de vez em quando tenta imaginar o que seria a pior coisa que poderia acontecer, sem outro motivo senão sentir como seria se acontecesse, se seria possível suportar aquilo. E, como para confirmar que só se tratava de um sonho, eu disse que tinha mudado de opinião, que ela tinha razão, que a gente realmente deveria fazer uma reserva para aquela viagem a Tóquio em dezembro. Mas ela me olhou surpresa, dizendo que não podia fechar a galeria logo antes do Natal, afinal era a época mais movimentada. E ninguém ia para Tóquio em dezembro, pois fazia muito frio lá nesse período. Que tal na primavera?, perguntei. Eu poderia fazer a reserva das passagens. E ela respondeu que isso seria fazer planos com antecedência um pouco exagerada, não seria melhor só esperar e ver no que ia dar? Claro que sim, respondi, dizendo que ia dormir, que estava muito cansado. E, ao descer para o térreo, entrei no quarto de bebê, fui até a figura do mizuko jizo e me ajoelhei. O altar ainda estava intocado. Fazer planos com antecedência um pouco exagerada. Ver no que ia dar. Depois tirei a pequena caixa vermelha do bolso, passei a ponta dos dedos sobre a superfície lisa e a coloquei do lado do pequeno Buda de pedra que vigiava nosso filho das águas. — Dois dias mais tarde achamos o traficante de drogas num pequeno vilarejo. Ele estava escondido na casa de uma moça estrangeira, muito jovem, que, conforme descobriríamos mais tarde, era sua namorada. Costumam arranjar esse tipo de mocinha com aparência de inocente e depois usá-la como mula. Até a menina ser pega na alfândega e condenada à prisão perpétua. Haviam se passado 65 dias desde o início da caça. — Clas Greve tomou fôlego. — Por mim, poderia ter durado outros 65. Foi o diretor de informação que quebrou o silêncio que se seguiu: — E vocês prenderam o homem? — Não só ele. Ele e a namorada nos deram informações suficientes para que mais tarde conseguíssemos prender 23 de seus colegas. — Como… — começou o presidente do conselho. — Como se prende um… facínora desse tipo? — Nesse caso foi pouco dramático — disse Clas Greve pondo as mãos atrás da cabeça. — A igualdade entre os sexos chegou ao Suriname. Quando invadimos a casa, ele tinha deixado as armas na mesa da cozinha e estava ajudando a namorada com uma máquina de moer carne. O presidente do conselho caiu na gargalhada e olhou para o diretor de informação, que obedientemente entoou uma risada intermitente, embora mais cautelosa. O coro ganhou três vozes com as risadas gritantes e agudas de Ferdinand, que se encaixaram no topo da escala. Estudei os quatro rostos vazios no tempo em que pensei no quanto queria ter uma granada de mão naquele exato momento. Depois que Ferdinand encerrou a entrevista, eu me encarreguei de acompanhar Clas Greve enquanto os outros três faziam uma pausa antes do resumo final. Levei Greve até as portas do elevador e apertei o botão.

— Convincente — falei, juntando as mãos na frente da calça de terno e olhando para cima, para o visor dos andares. — Você está tendo grande sucesso com sua arte de sedução. — Sedução, não sei. Suponho que você não vê marketing pessoal como algo desonesto, Roger. — De jeito nenhum. Eu teria feito exatamente a mesma coisa se fosse você. — Obrigado. Quando vai escrever a recomendação? — Hoje à noite. — Bom. As portas do elevador se abriram; entramos, ficamos em pé e aguardamos. — Só queria saber — continuei. — Aquela pessoa que vocês estavam perseguindo… — Sim? — Por acaso não era a mesma pessoa que tinha te torturado no porão? Greve sorriu. — Como você percebeu isso? — Foi um chute. — As portas do elevador se fecharam. — E você se contentou apenas em fazer a apreensão? Greve ergueu uma sobrancelha. — Acha que é difícil acreditar? Dei de ombros. O elevador se colocou em movimento. — O plano era matar o cara — admitiu Greve. — Será que tinha tanto do que se vingar? — Tinha. — E como se responde a um homicídio nas forças armadas holandesas? — Cuidando para que não seja descoberto. Curare. — Veneno? Como em flechas envenenadas? — É o que os caçadores de cabeças na nossa parte do mundo usam. Supus que o duplo sentido foi intencional. — Você esconde no colchão do sujeito uma solução de curare dentro de uma bolinha de borracha do tamanho de uma uva com uma agulha de seringa pontiaguda, quase invisível. Quando ele se deita, a agulha perfura sua pele ao mesmo tempo em que o peso do corpo pressiona o veneno, que está na bolinha de borracha, espalhando-o pelo seu corpo. — Mas, pelo jeito, ele estava em casa — falei. — E, além disso, tinha uma testemunha, naquela menina. — Exatamente. — Então como você conseguiu fazer com que ele entregasse seus camaradas? — Fizemos um trato. Meu colega o segurou, enquanto forcei a mão dele dentro do moedor de carne, dizendo que iríamos moê-la e deixá-lo ver nosso cão comer a carne moída. Aí ele falou.

Fiz um gesto de compreensão enquanto visualizava a cena. As portas do elevador se abriram e fomos andando até a porta da entrada. Segurei a porta para ele. — E daí, depois de ele ter falado? — E daí? — Greve olhou para o céu, franzindo os olhos. — Você cumpriu sua parte do trato? — Eu… — disse Greve, tirando do bolso de peito os óculos de sol Maui Jim de titânio e colocandoos — ... sempre cumpro minha parte do trato. — Uma simples apreensão, então? Isso valia dois meses de caça e o risco da própria morte? Greve riu baixinho. — Você não está entendendo, Roger. Desistir de uma caçada nunca é uma opção para alguém como eu. Sou como meu cachorro, um resultado de genes e adestramento. O risco não existe. A partir do momento que disparo, sou um míssil guiado por calor que não se deixa parar por nada, que no fundo busca sua própria destruição. Dê uma conferida no seu currículo universitário de Psicologia. — Ele pôs uma mão em meu braço. — Mas não fique espalhando o diagnóstico. Fiquei parado segurando a porta. — E a menina? Como você a fez falar? — Ela tinha 14 anos. — E? — O que você acha? — Não sei. Greve suspirou fundo. — Não sei de onde você tirou essa impressão de mim, Roger. Não faço interrogatório com menores de idade. Levei-a pessoalmente a Paramaribo, comprei uma passagem aérea com meu salário de soldado e a coloquei no primeiro voo de volta para a casa dos pais antes que a polícia surinamesa pusesse as mãos nela. Fiquei observando-o enquanto ele andava a passos largos em direção a um Lexus GS 430 prata no estacionamento. Era um dia de outono deslumbrantemente lindo. No dia do meu casamento havia chovido.

10

Defeito no coração

Toquei a campainha de Lotte Madsen pela terceira vez. É verdade que seu nome não estava escrito no painel da entrada, mas já toquei a campainha da porta da rua Eilert Sundt tantas vezes que sabia que era dela. A noite e a temperatura caíram cedo e depressa. Eu estava tremendo de frio ali fora. Quando telefonei para ela do trabalho depois do almoço perguntando se podia visitá-la por volta das 20h, ela havia demorado a responder. E quando me respondeu, com apenas um monossílabo, entendi que tinha quebrado uma promessa feita a si própria: a de não ter mais nada com esse homem que a abandonara tão categoricamente. A fechadura do portão fazia um zunido, e eu abri a porta bruscamente, como se tivesse medo de que essa fosse minha única chance. Subi as escadas, para não arriscar subir de elevador com algum vizinho bisbilhoteiro que passaria o tempo me olhando e tirando conclusões precipitadas. Lotte já estava com a porta entreaberta, e vislumbrei seu rosto pálido lá dentro. Entrei e fechei a porta. — Aqui estou outra vez. Ela não respondeu. Não era seu costume. — Como você tem passado? — perguntei. Lotte Madsen deu de ombros. Ela estava com a mesma cara da primeira vez que a vi: um filhote assustado, pequeno e frágil com olhos de cão, castanhos e medrosos. Dos dois lados do rosto pendiam cabelos oleosos e sem vida, a postura era encurvada, roupas informes e sem cor que davam a impressão de que ela era uma mulher que gastava mais tempo tentando esconder do que valorizar o corpo. O que ela não tinha motivos para fazer: Lotte era esbelta, bem-talhada, e tinha a pele lisa e perfeita. Mas

irradiava uma submissão do tipo que imagino ser comum em mulheres que sempre serão espancadas, sempre serão abandonadas, nunca terão o tratamento que merecem. Talvez tenha sido isso que despertou algo em mim que até então eu não sabia que possuía, um instinto de proteção. Além dos sentimentos menos platônicos que se tornaram o ponto de partida para nossa breve relação. Ou caso. Caso. Relação é presente, caso é passado. A primeira vez que vi Lotte Madsen foi no verão, num dos vernissages de Diana. Lotte estava do outro lado da sala, tinha o olhar fixado em mim e reagiu um pouco tarde demais. Pegar as mulheres no flagrante dessa forma é sempre lisonjeiro, mas, ao ver que o olhar dela não tinha a intenção de retornar para mim, fui até o quadro que ela estava olhando e me apresentei. Mais por curiosidade, é óbvio, já que, levando em consideração minha natureza, sempre fui espantosamente fiel a Diana. As más línguas poderiam alegar que minha fidelidade antes era baseada mais em análise de risco do que em amor. Que eu sabia que Diana jogava numa divisão superior a mim do ponto de vista da atração e que era claro que eu não poderia correr esse tipo de risco a não ser que estivesse disposto a jogar nas divisões mais baixas de agora em diante. Talvez. No entanto, Lotte Madsen era da minha divisão. Ela parecia uma artista alternativa, e eu automaticamente supus que era isso mesmo, ou a namorada de um. Seria a única explicação para uma calça molenga de veludo cotelê marrom e uma blusa cinza, apertada e sem graça, terem acesso ao vernissage. Mas descobri que ela era uma compradora. Não por conta própria, naturalmente, mas para uma empresa na Dinamarca que iria montar novos escritórios na cidade de Odense. Ela era tradutora freelance do norueguês e do espanhol: folhetos, artigos, manuais de instruções, filmes e um ou outro livro técnico. A empresa figurava entre seus clientes mais frequentes. Ela falava baixo e com um sorrisinho inseguro, como se não compreendesse que alguém quisesse gastar seu tempo falando com ela. Logo me senti atraído por Lotte Madsen. Sim, acho que “atraído” é a palavra. Ela era bonitinha. E pequena, 1,59m. Nem precisava perguntar, tenho um bom olho para alturas. Ao ir embora naquela noite, estava levando o número de telefone dela para mandar as fotografias de outros quadros do artista em exposição. Naquele momento eu mesmo acreditava em minha própria sinceridade. A segunda vez que nos encontramos foi para um cafezinho no Sushi & Coffee. Expliquei a ela que preferia mostrar versões impressas dos quadros em vez de enviá-los por e-mail porque a imagem do monitor, assim como eu, mente. Depois de mostrar rapidamente as imagens, contei que estava infeliz com meu casamento, mas que suportava por me sentir obrigado devido ao amor ilimitado de minha esposa por mim. É o clichê mais velho na configuração homem-casado-dá-cantada-em-mulher-solteira e vice-versa, mas tive a impressão de que ela não o ouvira antes. Na verdade, nem eu tinha ouvido isso, mas pelo menos ouvi falar desse clichê e supunha que funcionaria. Ela olhou para o relógio dizendo que precisava ir embora, e eu perguntei se poderia dar uma

passada uma noite dessas e lhe mostrar outro artista que seria um investimento muito melhor para seu cliente em Odense. Hesitante, ela concordou. Levei uns quadros ruins da galeria e uma garrafa de um bom vinho tinto da adega. Naquela noite de verão, Lotte tinha parecido fadada à derrota desde o momento em que abriu a porta para mim. Contei-lhe algumas histórias engraçadas de gafes minhas, daquele tipo que aparentemente colocam você numa luz desfavorável, mas na verdade mostram que você tem autoconfiança e sucesso de sobra e se pode dar ao luxo da autoironia. Ela me contou que era filha única, tinha passado a infância e a adolescência mudando de um país para outro com os pais, já que o pai era engenheiro-chefe numa empresa internacional que construía hidrelétricas. Ela não pertencia a nenhum lugar em especial, a Noruega era um país tão bom como qualquer outro. Era isso. Para alguém que conhecia tantas línguas, ela falava pouco. Tradutora, pensei. Gosta mais das histórias dos outros que de suas próprias. Ela me perguntou sobre minha esposa. “Sua esposa”, dizia ela, mesmo que certamente soubesse o nome de Diana, já que recebera o convite para o vernissage. Dessa forma ela facilitava as coisas para mim. E para si mesma. Contei a Lotte que o casamento tinha sofrido um baque quando “minha esposa” ficou grávida e eu não quis ter o filho. E, segundo ela, a convenci a fazer um aborto. — E você a convenceu? — Provavelmente. Vi alguma coisa acontecer no rosto de Lotte e perguntei o que foi. — Meus pais me convenceram a fazer um aborto. Porque eu era adolescente e a criança não teria um pai. Até hoje os odeio por causa disso. A eles e a mim mesma. Engoli. Engoli e expliquei. Nosso feto tinha síndrome de Down. Oitenta e cinco por cento de todos os pais que descobrem isso optam pelo aborto. Eu me arrependi tão logo falei isso. O que eu pensava? Que a informação sobre a síndrome de Down tornaria mais compreensível a Lotte o fato de eu não querer ter um filho com minha própria esposa? — É bem provável que sua esposa perdesse o filho espontaneamente — tinha dito Lotte. — A síndrome de Down muitas vezes é acompanhada de um defeito no coração. Defeito no coração, pensei, agradecendo-lhe secretamente por fazer meu jogo, por mais uma vez facilitar as coisas para mim. Para nós. Uma hora mais tarde a gente tinha se despido e eu estava comemorando uma vitória que, para uma pessoa acostumada a vencer, com certeza pareceria banal, mas que me fez ir às nuvens por vários dias. Semanas. Mais exatamente três e meia. Eu tive uma amante. Que abandonei depois de 24 dias. Vendo-a agora, na minha frente no hall de entrada, aquilo parecia completamente irreal.

Hamsun escreveu que nós, os seres humanos, nos saciamos de amor. O que nos é servido em porções grandes demais não queremos. Será que somos tão banais assim? Evidentemente. Mas não foi isso que aconteceu comigo. O que aconteceu foi que fiquei com crise de consciência. Não porque não podia retribuir o amor de Lotte, mas porque amava Diana. Tinha sido uma conclusão inevitável, mas a gota d’água foi um episódio um tanto bizarro. Era final de verão, o vigésimo quarto dia de pecado, e tínhamos ido para a cama no apertado apartamento de dois cômodos na rua Eilert Sundt. Antes disso, tínhamos conversado a noite inteira, ou melhor, eu tinha discursado. Explicado e descrito a vida como a vejo. Sou bom nisso, tenho um estilo Paulo Coelho, ou seja, um jeito que fascina aqueles que são fáceis de impressionar intelectualmente e irrita os mais exigentes. Os olhos castanhos e melancólicos de Lotte estavam grudados em meus lábios, devorando cada palavra, e eu podia literalmente ver como ela entrava em meu mundo de divagações caseiras, como o cérebro dela transformava meus raciocínios em seus, como ela se apaixonava por minha mente. Da minha parte, eu já me apaixonara pelo encantamento dela, os olhos leais, o silêncio e o gemido de amor baixinho, quase inaudível, que era tão diferente da gritante serra elétrica de Diana. A paixão amorosa tinha me deixado num estado de constante excitação sexual por três semanas e meia. Então, quando finalmente interrompi meu monólogo, a gente apenas se entreolhou, eu me inclinei para a frente, pus uma mão em seu seio, um estremecimento a envolveu — ou talvez me envolveu — e corremos em direção ao quarto e à cama da IKEA de 101 centímetros de largura com o nome convidativo de Brita. Nessa noite, os gemidos tinham sido um pouco mais altos que de costume, e ela disse alguma coisa em dinamarquês em meu ouvido que não entendi, já que o dinamarquês, objetivamente falando, é uma língua difícil — as crianças dinamarquesas demoram mais a falar que quaisquer outras crianças na Europa —, mas de qualquer forma achei aquilo extremamente excitante e acelerei o ritmo. Normalmente, Lotte era um pouco sensível a essas aceleradas, mas dessa vez ela me agarrou pelas nádegas e me puxou para ela, algo que interpretei como um desejo de maior intensidade tanto no ímpeto como na frequência. Obedeci, enquanto concentrava os pensamentos em meu pai no caixão aberto durante o enterro, um método que já se mostrou eficaz contra a ejaculação precoce. Ou, nesse caso, nenhuma ejaculação sequer. Mesmo que Lotte dissesse que usava a pílula, a ideia de uma gravidez me dava palpitações. Eu não sabia se ela costumava atingir o orgasmo quando a gente fazia amor, seu luto comedido e contido me fez supor que um orgasmo somente se manifestaria como pequenas reverberações na superfície, algo que simplesmente poderia me passar despercebido. E ela era uma criatura delicada demais para que eu quisesse sujeitá-la a algum estresse ao perguntar. Por isso eu estava completamente despreparado quando aconteceu. Senti que tinha de parar, mas me concedi um último impulso forte. E senti como se tivesse acertado alguma coisa lá no fundo. O corpo dela se enrijeceu ao mesmo tempo que os olhos e a boca se esbugalharam. Em seguida houve um estremecimento, e por um breve momento de desatino fiquei com medo de que tivesse desencadeado um ataque epiléptico. Então senti algo quente, ainda mais quente que sua vagina, envolvendo meu sexo, e no próximo instante uma inundação contra

minha barriga, nádegas e bolas. Eu me ergui sobre os braços e olhei incrédulo e chocado para o ponto onde nossos corpos estavam acoplados. Sua vagina se contraiu como se quisesse me expelir, ela gemeu profundamente, uma espécie de mugido que jamais ouvi, e depois veio a próxima onda. A água saía dela aos jorros, brotando entre nossos ossos do quadril e escorrendo para o colchão que ainda não havia tido tempo de absorver a primeira onda. Meu Deus, pensei, eu a perfurei. Em pânico, o cérebro buscava uma relação causal. Ela está grávida, pensei. E eu acabei de perfurar aquela bolsa onde fica o feto, e agora toda a merda está escorrendo para o colchão. Meu Deus, estamos nadando em vida e morte, é um filho das águas, mais um filho das águas! É certo que li sobre os chamados orgasmos molhados da mulher; OK, talvez eu tivesse visto isso em algum filme pornô também, mas achava que aquilo era mentira, ilusão, uma fantasia masculina de ter uma parceira ejaculadora equivalente. Tudo o que consegui pensar ali na cama era que isso representava a retribuição, o castigo dos deuses porque eu convencera Diana a fazer aquele aborto: que eu matara mais uma criança inocente com meu pinto imprudente. Saltei para o chão e arranquei o cobertor da cama. Lotte se sobressaltou, mas não prestei atenção em seu corpo encolhido e nu, olhei apenas para a mancha escura que ainda se espalhava sobre o lençol. Lentamente me dei conta do que havia acontecido. Ou, ainda mais importante, do que felizmente não tinha acontecido. Mas o mal já estava feito, era tarde demais, não havia mais volta. — Preciso ir — constatei. — Isso não pode continuar. — O que você vai fazer? — sussurrou Lotte de sua posição fetal, em voz inaudível. — Sinto muito mesmo — falei. — Mas preciso ir para casa e pedir a Diana que me perdoe. — Mas ela jamais te perdoará — sussurrou Lotte. Não ouvi nenhum som do quarto enquanto, no banheiro, enxaguava o cheiro dela das mãos e da boca para depois sair, fechando a porta atrás de mim com cuidado. E agora, três meses depois, eu estava no seu hall de entrada, sabendo que dessa vez quem tinha olhos de cão era eu e não Lotte. — Você pode me perdoar? — perguntei. — Ela não conseguiu? — perguntou Lotte sem entonação. Mas talvez fosse apenas a entonação do dinamarquês. — Nunca lhe contei o que aconteceu. — Por que não? — Não sei — respondi. — Há grande probabilidade de que eu tenha um defeito no coração. Ela me olhou longamente. E vislumbrei a sombra de um sorriso no fundo de seus olhos castanhos, melancólicos demais. — Por que você está aqui? — Porque não consigo te esquecer. — Por que você está aqui? — repetiu ela com uma firmeza que nunca ouvi antes.

— Só acho que a gente deveria… — comecei, mas fui interrompido. — Por quê, Roger? Suspirei. — Não devo mais nada a ela. Ela tem um amante. Um longo silêncio se seguiu. Lotte fez um bico sutil. — Ela partiu seu coração? Fiz que sim. — E agora quer que eu o remende para você? Até então, nunca tinha ouvido essa mulher de poucas palavras se expressar com tanta facilidade e desenvoltura. — Você não conseguiria fazer isso, Lotte. — Provavelmente não. Você sabe quem é o amante dela? — Um cara que se candidatou a um emprego que não vai conseguir. A gente não pode falar de outra coisa? — Só falar? — Você decide. — Pois é. Só falar. E isso vai caber a você. — Sim. Trouxe uma garrafa de vinho. Ela balançou a cabeça quase imperceptivelmente. Depois deu meia-volta e eu a segui. Fiquei falando até acabar a garrafa de vinho e adormeci no sofá. Acordei com a cabeça no colo dela, que acariciava meu cabelo. — Sabe qual foi a primeira coisa que notei em você? — perguntou ao perceber que eu estava acordado. — O cabelo — respondi. — Já te disse isso antes? — Não — falei, olhando para o relógio. Eram 21h30. Estava na hora de ir para casa. Bem, as ruínas de uma casa. Eu estava com medo. — Posso voltar? — perguntei. Percebi sua hesitação e disse: — Preciso de você. Sabia que não era um argumento de peso. Aliás, foi emprestado de uma mulher que preferia o QPR porque o clube a fazia se sentir útil. Mas era o único argumento que eu tinha. — Não sei — respondeu ela. — Preciso pensar um pouco a respeito.

Quando cheguei em casa, Diana estava na sala, absorta num livro grosso. Van Morrison cantava “… someone like you make it all worth while”, e ela não me ouviu até eu estar logo na sua frente lendo o título da capa em voz alta: — A gênese da criança. Ela teve um sobressalto, mas sorriu e apressou-se a enfiar o livro na estante que ficava atrás dela. — Você demorou a chegar, amor. Fez alguma coisa agradável ou só trabalhou? — Os dois — respondi e fui até a janela da sala. A garagem estava banhada pelo luar, mas ainda faltavam muitas horas para Ove buscar a tela. — Fiz algumas ligações e pensei um pouco sobre a recomendação de candidato para a Pathfinder. Ela bateu palmas de entusiasmo. — Que emocionante. Vai ser aquele que eu ajudei… ah, como é o nome dele? — Greve. — Clas Greve! Como estou ficando esquecida. Espero que ele compre um quadro bem caro de mim quando souber. Acho que mereço isso, não? Ela riu alegremente, esticou as pernas esbeltas e bocejou. Era como se uma garra tivesse apertado meu coração, esmagando-o feito uma bexiga de água. Precisei me virar depressa em direção à janela outra vez para que ela não percebesse a dor em meu rosto. A mulher que eu tinha julgado incapaz de me trair não só conseguia manter as aparências como fazia seu papel igual a uma profissional. Engoli em seco e esperei até ter certeza de que tinha controle de minha voz. — Greve não é a pessoa certa — falei enquanto estudava seu reflexo na janela da sala. — Vou indicar outro candidato. Semiprofissional. Pois ela não conseguiu lidar tão bem com essa. Vi seu queixo cair. — Você está brincando, amor. Afinal, ele é perfeito! Você mesmo disse… — Eu me enganei. — Se enganou? — Para minha satisfação, ouvi um tom ligeiramente estridente se insinuando em sua voz. — Pelo amor de Deus, o que você quer dizer? — Greve é estrangeiro. Mede menos de 1,80m. E sofre de sérios transtornos de personalidade. — Menos de 1,80m? Meu Deus, Roger, você mede menos que 1,70m. É você que tem transtornos de personalidade! Aquilo doeu. Não a parte sobre transtornos de personalidade, aí ela poderia até estar certa. Eu me esforcei para manter a voz calma. — Por que tanta impetuosidade, Diana? Eu também nutria esperanças a respeito de Clas Greve, mas ver as pessoas nos decepcionarem e não atenderem a nossas expectativas é algo que acontece o tempo todo. — Mas… mas você está enganado. Você não enxerga isso? Ele é o homem certo! Virei-me para ela, ensaiando um sorriso condescendente.

— Preste atenção, Diana, sou um dos melhores no que faço. E o que faço é avaliar e selecionar as pessoas. Às vezes, faço uma avaliação errada na minha vida particular… Vi um leve tremor em seu rosto. — Mas nunca no trabalho. Nunca. Ela estava calada. — Estou morto de cansaço — falei. — Não dormi muito bem. Boa noite.

Na cama, ouvi os passos dela no andar de cima. Inquietos, de um lado para o outro. Não escutei vozes, mas sabia que ela tinha o costume de andar assim enquanto falava ao celular. Chamou minha atenção pois era uma característica das gerações que cresceram antes da comunicação sem fio. Nós nos movimentávamos ao falar no telefone como se ainda nos fascinasse que aquilo era possível. Li em algum lugar que o homem moderno gasta seis vezes mais tempo para se comunicar do que nossos antepassados. Quer dizer que nos comunicamos mais, mas será que nos comunicamos melhor? Por exemplo, por que eu não confrontava Diana com o fato de que eu sabia que ela e Clas Greve tinham estado juntos no apartamento dele? Era porque eu sabia que ela não seria capaz de comunicar a razão, que eu de qualquer maneira ficaria à mercê de minhas próprias conjecturas e suposições? Ela podia, por exemplo, me contar que foi um encontro casual, um escorregão, mas eu sabia que não era assim. Nenhuma mulher tenta manipular seu marido a dar um emprego bem-remunerado a um homem porque ela fez sexo casual com o sujeito. Mas é claro que havia outros motivos para manter segredo. Enquanto eu fingia não saber nada sobre Diana e Greve, ninguém podia me acusar de parcialidade na avaliação de sua candidatura, e, em vez de ser forçado a deixar a recomendação da Alfa nas mãos de Ferdinand, eu poderia ter minha pequena vingança patética em paz. Além disso, havia obviamente a questão de como eu explicaria minha desconfiança. Afinal, era fora de cogitação revelar a Diana que eu era um ladrão acostumado a assaltar as casas dos outros. Eu me virei na cama, prestando atenção a seus saltos agulha, que emitiam sinais incompreensíveis de código morse para mim. Eu queria dormir. Queria sonhar. Queria fugir. E acordar e ter esquecido tudo. Pois é claro que esse era o motivo mais importante por que eu não tinha dito nada a ela. Enquanto aquilo não fosse dito, ainda havia a possibilidade de esquecer. De dormir e sonhar de forma que, ao acordarmos, aquilo tivesse desaparecido, se tornado algo abstrato, cenas de algo que só estava em nossas cabeças, da mesma categoria dos pensamentos e fantasias desleais que configuram a infidelidade diária de todas as relações amorosas, até as mais profundamente intensas. Ocorreu-me que, se ela estava falando ao celular, obrigatoriamente teria comprado um novo. E se eu visse o novo telefone isso seria a prova concreta e irrefutável de que aquilo não tinha sido apenas um sonho.

Quando ela finalmente entrou no quarto e se despiu, eu queria estar dormindo. Mas um pálido feixe de luar que atravessava as cortinas me deixou ver quando ela desligou o celular antes de enfiá-lo no bolso da calça. E era o mesmo. Um Prada preto. Talvez tivesse sido apenas um sonho mesmo. Senti o sono me agarrar e começar a me puxar para baixo. Talvez ela tivesse comprado um igual. A descida foi interrompida. Ou talvez ele tivesse achado o telefone dela e eles tivessem se encontrado de novo. Subi, rompi a superfície outra vez e soube que, essa noite, não conseguiria mais dormir. À meia-noite eu ainda estava acordado e, através da janela aberta, pensei ter ouvido um fraco ruído da garagem que podia ser Ove chegando para buscar o Rubens. Mas mesmo tentando não consegui escutar se ele foi embora. Talvez eu estivesse dormindo, afinal de contas. Sonhei com um mundo submarino. Pessoas felizes e sorridentes, mulheres e crianças mudas com balões de fala que subiam murmurantes de suas bocas. Nada que indicasse o pesadelo que me aguardava do outro lado do sono.

11

Curare

Levantei às 8 horas e tomei o café da manhã sozinho. Para quem dorme o sono dos culpados, Diana dormia surpreendentemente bem. Eu mesmo só tive umas poucas horas de descanso. Às 9h45 desci até a garagem e me tranquei lá dentro. De uma janela aberta na vizinhança reconheci a banda Turboneger, não por causa da música, mas por causa da pronúncia do inglês. A luz do teto se ligou automaticamente, iluminando meu Volvo S80, que, majestoso, mas submisso, aguardava seu senhor. Apertei a maçaneta e logo levei um susto. Havia uma pessoa sentada no banco do motorista. Passado o primeiro susto, vi que era o rosto alongado de pá de remo de Ove Kjikerud. Evidentemente, os plantões noturnos dos últimos dias fizeram efeito, pois ele estava ali de olhos fechados e boca semiaberta. E, pelo visto, seu sono era pesado, pois quando abri a porta ele não reagiu. Usei a voz do curso de sargento que fiz por três meses contra a vontade de meu pai: — Bom dia, Kjikerud! Ele nem pestanejou. Inspirei para sugar um pouco da alvorada, mas percebi que a lona do forro estava aberta e a ponta do quadro de Rubens aparecia. Um frio repentino, parecido com aquele causado por uma leve nuvem de primavera passando pelo sol, me fez estremecer. E, em vez de fazer mais barulho, agarrei seus ombros e o sacudi de leve. Novamente nenhuma reação. Sacudi com mais força. Sua cabeça dançava frouxa de um lado para o outro sobre os ombros. Coloquei o polegar e o indicador no ponto do pescoço onde achei que passava a aorta, mas foi impossível avaliar se a pulsação que senti vinha do seu coração ou do meu, que de repente batia descontroladamente. Mas ele estava frio. Frio demais, não é? Com dedos trêmulos, abri suas pálpebras. E aquilo tirou minhas dúvidas. Recuei sem querer ao ver as pupilas pretas me fixando num olhar inerte. Sempre me julguei uma pessoa capaz de raciocinar em situações de crise, alguém que não entra em

pânico. É claro que o motivo pode ser que na minha vida nunca houve situações críticas o suficiente para causar pânico. Com a exceção de quando Diana ficou grávida, e aquela vez entrei em pânico com muita facilidade. Talvez eu fosse uma pessoa neurótica afinal. De qualquer forma, agora surgiam pensamentos definitivamente irracionais. Como, por exemplo, que o carro precisava de uma lavagem. Que a camisa de Ove Kjikerud — com a logomarca da Dior — provavelmente tinha sido comprada numa de suas viagens de férias à Tailândia. E que Turboneger na verdade era o que todo mundo achava que não era, uma banda de nerds. Mas entendi o que estava acontecendo, que eu estava prestes a perder o controle, e fechei os olhos com força, soprando os pensamentos para fora da cabeça. Em seguida abri os olhos outra vez e tive de admitir que uma pequena esperança chegou a se insinuar. Mas não, os fatos reais eram os mesmos, o corpo de Ove Kjikerud ainda estava ali. A primeira conclusão era simples: Ove Kjikerud tinha que sumir. Se alguém o achasse ali, tudo viria à tona. Com determinação, empurrei Ove Kjikerud em direção ao volante, me encostei à sua coluna, segurei-o em torno do peito e o arrastei para fora. Ele era pesado, e seus braços foram levados para cima como se ele tentasse se esquivar de minhas mãos. Eu o ergui de novo e consegui segurá-lo outra vez, mas a mesma coisa se repetiu, suas mãos se agitavam em meu rosto e um dedo se enganchou no canto de minha boca. Senti uma unha roída raspar minha língua e cuspi em desespero, porém o sabor acre de nicotina ficou. Eu o soltei no chão da garagem, abri o porta-malas, mas, quando ia levantá-lo, só a jaqueta e a camisa falsa me acompanharam, e ele próprio ficou sentado no cimento. Praguejei, coloquei uma das minhas mãos na parte de dentro do cinto da calça dele, dei um puxão e o mandei de cabeça para dentro do bagageiro de 480 litros. Sua cabeça atingiu o fundo com um baque suave. Bati a tampa do porta-malas e passei uma mão na outra do jeito que se costuma fazer depois de um trabalho manual bem-feito. Voltei para o banco do motorista. Não havia qualquer vestígio de sangue no assento, que era revestido de uma capa de bolinhas de madeira do tipo usado por taxistas no mundo inteiro. De que porra Ove morreu? Parada cardíaca? Derrame cerebral? Overdose de alguma coisa? Cheguei à conclusão de que, a essa altura, procurar um diagnóstico amador era perda de tempo. Eu me sentei e senti que curiosamente as bolinhas de madeira do assento ainda guardavam o calor de um corpo humano. O assento era a única coisa valiosa que herdei de meu pai, ele o usava por causa das hemorroidas, e eu, para me prevenir contra essa porcaria no caso de uma predisposição genética. Uma dor repentina em uma das nádegas me fez ter um sobressalto e bater o joelho com força contra o volante. Fiz uma manobra para sair do carro. A dor já tinha desaparecido, mas sem dúvida foi uma picada. Eu me curvei sobre o assento olhando com atenção, no entanto, por causa da fraca iluminação interna, não consegui ver nada fora do comum. Será que foi um marimbondo semimorto que saiu rastejando? Não no final do outono. Algo cintilava entre as fileiras de bolinhas. Eu me inclinei ainda mais. Uma ponta fina e aguda de metal, quase invisível, se destacava. Às vezes o cérebro raciocina depressa demais para que a consciência consiga acompanhá-lo. Essa é a única explicação que tenho para o vago pressentimento que

fez meu coração disparar já antes de eu ter levantado o assento e ter visto aquilo. Era do tamanho de uma uva, sim. E de borracha, exatamente do jeito que Greve tinha explicado. Não completamente redondo, o fundo era achatado, sem dúvida para que a agulha do topo sempre apontasse para cima. Segurei a bolinha de borracha perto da orelha e a sacudi, mas não ouvi nada. Para minha sorte, parecia que todo o conteúdo tinha sido injetado em Ove Kjikerud assim que ele se sentou em cima dela. Esfreguei minha nádega e verifiquei. Estava um pouco tonto, mas quem não estaria depois de ter carregado o corpo de um colega que foi espetado na bunda por uma agulha de curare, uma arma letal que, com toda a probabilidade, tinha sido destinada a mim? Senti vontade de dar uma risada, o medo às vezes tem esse efeito sobre mim. Fechei os olhos e respirei. Profundamente. Concentrei-me. A risada sumiu, a raiva surgiu. Toda essa porra era inacreditável. Ou não? Não seria exatamente a maneira como um homem psicótico e violento como Clas Greve faria para tirar um marido do caminho? Dei um forte chute no pneu. Uma vez, duas vezes. A ponta de meu sapato John Lobb ficou com uma mancha cinza. Mas como Greve conseguiu acesso ao carro? Como aquele filho da mãe… A porta da garagem se abriu e a resposta entrou.

12

Natasha

Da porta da garagem, Diana estava olhando para mim. Pelo visto, ela tinha colocado a roupa às pressas e seu cabelo estava todo bagunçado. Sua voz era um sussurro quase inaudível: — Meu amor, o que aconteceu? Eu a encarei, com a mesma pergunta zunindo em meu cérebro. E senti meu coração, já partido, se desfazer em pedaços ainda menores pelas respostas que recebi. Diana. Minha Diana. Não poderia ser outra pessoa. Foi ela que colocou o veneno embaixo do assento. Ela e Greve tinham sido cúmplices nisso. — Vi isto aqui despontar do assento quando fui entrar — falei, mostrando a bolinha de borracha. Ela se aproximou de mim e pegou a arma do crime com cuidado. Um cuidado revelador. — Você viu essa agulha? — disse ela, sem conseguir esconder o ceticismo na voz. — Tenho um olhar afiado — respondi, mas acho que ela não percebeu ou ligou para a amargura do duplo sentido. — Que sorte que você não se sentou em cima — continuou, estudando o dispositivo. — O que é isso? Já disse que ela era uma profissional. — Não sei — falei em tom leve. — O que você veio fazer aqui? Ela olhou para mim, sua boca foi se abrindo, e por um instante fitei os olhos dela num vazio completo. — Eu… — Sim, querida? — Eu estava na cama e ouvi você descer para a garagem, mas o carro não ligou, nem foi embora. Aí

fiquei preocupada e quis saber se havia algum problema. E de certa forma tive razão. — É só uma pequena agulha, querida. — Uma agulha assim pode ser perigosa! — Pode? — Você não sabe? HIV, raiva, todos os tipos de viroses e infecções. Ela deu um passo em minha direção. Reconheci pelos movimentos, pelo modo como o olhar se suavizava, pelos lábios que faziam beicinho, que ela ia me abraçar. Mas o abraço foi interrompido, algo a deteve, algo em meu olhar, talvez. — Ah é — disse ela, baixando o olhar para a bolinha de borracha, deixando-a sobre a bancada de marceneiro que eu nunca iria usar. Em seguida ela deu um passo rápido em minha direção, me envolveu em seus braços, se curvou um pouco para compensar a diferença de altura, deitou o queixo do lado de meu pescoço e passou a mão esquerda por meu cabelo. — Fico um pouco preocupada com você, sabe, meu tesouro. Era como receber o abraço de um estranho. Tudo com ela era diferente agora, até o cheiro. Ou será que era o cheiro dele? Era repugnante. Sua mão passava de um lado para o outro em um movimento de massagem, como se ela passasse xampu em mim, como se seu entusiasmo com meu cabelo nesse exato momento atingisse níveis inusitados. Tive vontade de bater nela, estapeá-la. Estapeá-la, para poder sentir o contato, o estalido de pele contra pele, intuir a dor e o susto. Em vez disso, fechei os olhos e deixei que ela continuasse, deixei que ela me massageasse, me suavizasse, me agradasse. Talvez eu seja um homem muito doente. — Preciso ir trabalhar — avisei, vendo que ela parecia não querer parar. — Preciso ter a recomendação pronta até o meio-dia. Mas ela não quis me soltar, e enfim tive que me desvencilhar de seu abraço. Vi algo brilhar no canto de seu olho. — O que foi? — perguntei. Mas ela não respondeu, só balançou a cabeça. — Diana… — Tenha um bom dia — sussurrou ela com um leve tremor na voz. — Te amo. Então ela saiu pela porta. Eu estava a ponto de correr atrás, mas fiquei parado. Consolar sua própria assassina, qual era o sentido disso? Qual era o sentido de qualquer coisa? Então entrei no carro, soltei o ar com um longo suspiro e me olhei no retrovisor. — É preciso sobreviver, Roger — sussurrei. — Assumir o controle e sobreviver. Enfiei o Rubens de volta dentro do forro, fechei, liguei o carro, ouvi o portão da garagem se levantar atrás de mim, saí de ré e fui dirigindo devagar pelas curvas em direção à cidade. O carro de Ove estava estacionado rente à calçada a 400 metros de distância. Bom, ele poderia ficar

ali semanas a fio sem que ninguém se importasse, até a chegada da neve e das máquinas limpa-neve. Eu estava mais preocupado com o fato de ter um corpo no bagageiro de que precisava me desfazer. Refleti sobre a questão. Paradoxalmente, era agora que minha cautela no trato com Ove Kjikerud seria plenamente recompensada. Assim que eu desovasse o corpo em algum lugar, ninguém conseguiria fazer alguma ligação entre nós. Mas onde? O primeiro lugar que pensei foi o incinerador de lixo de Grønmo. Eu precisava encontrar alguma coisa para embrulhar o corpo, depois chegar com o carro bem perto do incinerador, abrir o bagageiro e deitar o cadáver na rampa. Dali ele iria diretamente para dentro do mar de fogo faiscante. Entre as desvantagens estava o risco de haver outras pessoas jogando lixo à minha volta, sem mencionar os funcionários que vigiavam o incinerador. E se eu mesmo queimasse o corpo num lugar afastado? Parece que a inflamabilidade do corpo humano é relativamente baixa, li que na Índia eles estipulam uma média de dez horas para a cremação de um cadáver. E se eu voltasse para casa depois que Diana tivesse ido à galeria e finalmente usasse a bancada de marceneiro e o serrote de ponta que meu sogro me deu de presente de Natal sem nenhuma ironia aparente? Cortar o cadáver em pedaços manejáveis, embrulhá-los em plástico juntamente com uma ou duas pedras e depois afundar os pacotes em algum das centenas de lagos das florestas nos arredores de Oslo? Dei vários socos fortes em minha testa. Que merda eu estava pensando? Cortar para quê? Primeiro: já vi tantos episódios de CSI que sabia que isso seria pedir para ser descoberto. Uma manchinha de sangue aqui, uma marca dos dentes da serra do sogro ali e eu estaria em apuros. Segundo: por que se esforçar para esconder o corpo? Por que não achar uma ponte relativamente deserta e jogar os restos mortais de Kjikerud por sobre o parapeito? Possivelmente, o cadáver subiria até a superfície e seria encontrado, mas e daí? Nada poderia me ligar ao homicídio, eu não conhecia ninguém chamado Ove Kjikerud e nem sabia soletrar “curare”. Acabei escolhendo Maridalen. De carro, ficava a apenas dez minutos da cidade, havia uma profusão de lagos e rios e, numa manhã no meio da semana, o lugar era bastante ermo. Liguei para Ida-Oda dizendo que chegaria tarde hoje. Andei meia hora e passei alguns milhões de metros cúbicos de mata e dois daqueles vilarejos de Capim-Gordura que ficam a uma distância escandalosamente curta da capital da Noruega. Mas ali, numa estradinha de terra, estava a ponte que eu estava procurando. Parei o carro e esperei uns cinco minutos. Não se viam nem se ouviam pessoas, carros ou casas, só um ou outro grito frio de um pássaro. Corvo? Algo preto, pelo menos. Tão preto como a água calma e misteriosa que estava apenas 1 metro abaixo da ponte rasteira de madeira. Perfeito. Saí e abri a tampa do bagageiro. Ove estava do jeito que eu o tinha deixado, com o rosto para baixo, os braços ao longo do corpo e uma dobra no quadril que deixou o traseiro sobressair. Lancei um último olhar em volta para garantir que estava sozinho. Então agi. Com rapidez e eficiência. O baque do cadáver atingindo a superfície da água foi surpreendentemente tímido, quase uma

pequena borbulha, como se o lago tivesse optado por ser meu cúmplice nesse ato escuso. Inclinei-me sobre o corrimão e olhei lá embaixo para a água calada e fechada. Tentei pensar no que faria agora. E enquanto fazia isso era como se visse Ove Kjikerud emergir, subindo em minha direção: um rosto verde-pálido, com olhos delirantemente esbugalhados, que queria chegar à superfície, um fantasma com lama na boca e feno-do-mar nos cabelos. Tive tempo de pensar que precisava de um uísque para acalmar os nervos assim que o rosto quebrou a superfície da água e continuou subindo para mim. Gritei. E o cadáver gritou, um som estertorante que parecia esvaziar de oxigênio o ar à minha volta. Em seguida sumiu outra vez, tornando a ser engolido pela água negra. Olhei fixamente para a escuridão lá embaixo. Aquilo tinha acontecido? É claro que aquela merda tinha acontecido, o eco ainda reverberava sobre as copas das árvores. Joguei-me sobre o parapeito. Segurei o ar, esperando meu corpo ser envolvido pela água gelada. Um choque se propagou dos calcanhares até a cabeça. E descobri que estava em solo firme, com água até um pouco acima da cintura. Ou seja, eu não estava pisando em solo totalmente firme, algo embaixo de um dos meus pés se movimentava. Apalpei dentro da água lamacenta, agarrei algo que primeiro pensei ser feno-do-mar, pois senti o couro cabeludo embaixo, e o puxei para mim. O rosto de Ove Kjikerud apareceu de novo, piscando água pelos cílios, e, mais uma vez, ali estava aquele estertor profundo de um homem que respira desesperadamente. Era demais. E por um instante tive vontade de soltá-lo outra vez e simplesmente me mandar dali. Mas não podia fazer isso, podia? De qualquer forma arrastei-o até a beira do lago no final da ponte. A consciência de Ove teve outro lapso e fui obrigado a lutar para manter sua cabeça acima da água. Várias vezes estive a ponto de perder o equilíbrio, andando sobre o fundo macio e escorregadio que balançava debaixo de meus sapatos John Lobb já estragados. Mas em alguns minutos consegui manobrar nós dois até a beira do lago e depois para dentro do carro. Encostei a testa no volante e tomei fôlego. O pássaro demoníaco cacarejou com desdém no momento em que as rodas patinaram sobre a ponte de madeira e nós escapamos de lá.

Como já mencionei, nunca fui à casa de Ove, mas tinha seu endereço. Abri o porta-luvas, peguei o GPS preto e digitei o nome da rua e o número, evitando por um triz o carro que vinha no sentido contrário. O GPS calculou, deduziu e minimizou o trajeto, de forma analítica e sem envolvimento emocional. Até a voz feminina, suave e comedida, que começou a me guiar, soou completamente impassível à situação. Eu disse para mim mesmo que também precisava ficar assim. Agir de forma correta, mecânica, não cometer erros bobos. Meia hora mais tarde eu estava no endereço. Era uma rua estreita e sossegada. A casinha velha de

Kjikerud era situada no topo, encostada a uma parede verde de floresta escura de abetos. Parei o carro na frente da escada, passei os olhos rapidamente pela casa, constatando mais uma vez que a arquitetura feia não é uma invenção moderna. Ove estava no assento do meu lado, feio também, lembrando o monstro das águas, lívido e tão encharcado que sua roupa gorgolejou quando procurei nos seus bolsos e enfim encontrei um molho de chaves. Recorrendo a sacudidas, consegui reanimá-lo um pouco e ele me fitou com olhos embaçados. — Você consegue andar? — perguntei. Ele me olhou como se eu fosse um alienígena. A mandíbula estava ainda mais avantajada que de costume, fazendo-o parecer um cruzamento entre as figuras de pedra da Ilha da Páscoa e Bruce Springsteen. Dei a volta no carro, arrastei-o para fora e o apoiei na porta. Destranquei a porta com a primeira chave que escolhi ao acaso, pensando que a sorte finalmente estava mudando, e o empurrei para dentro. Eu estava prestes a entrar quando me lembrei. O alarme. Em hipótese alguma eu queria ter guardas da Tripolis pululando aqui dentro agora, nem transmissão de câmera ao vivo de mim com um Ove Kjikerud semimorto. — Qual é a senha? — gritei no ouvido de Ove. Ele deu um solavanco e quase escapou de minhas mãos. — Ove! A senha? — Uh? — Preciso desativar o alarme antes de ele disparar! — Natasha… — murmurou ele de olhos cerrados. — Ove! Acorda! — Natasha… — A senha! — Eu lhe dei uma boa bofetada e de supetão ele arregalou os olhos: — É o que estou falando, seu idiota. NATASHA! Eu o soltei, ouvindo seu baque no chão enquanto corri para a porta da entrada. Encontrei a caixa do alarme escondida atrás da porta; minha experiência já me ensinou onde os montadores da Tripolis gostam de instalar os alarmes. Uma pequena luz vermelha piscou, mostrando que fazia a contagem regressiva para acionar o alarme. Digitei o nome da puta russa. E no momento em que ia inserir o último “a” lembrei que Ove era disléxico. Só o diabo sabe como ele soletrava o nome dela! Mas meus 15 segundos estavam se esgotando, era tarde demais para perguntar a ele. Apertei o “a” e fechei os olhos, preparando-me para o som. Aguardei. Não veio som algum. Tornei a abrir os olhos. A luz vermelha tinha parado de piscar. Dei um suspiro e evitei pensar em quantos segundos de margem me restaram. Reiniciei minha passagem pela casa e vi que Ove tinha sumido. Segui seus rastros molhados até uma

sala. Aparentemente, ela servia de sala de estar, oficina, sala de jantar e quarto de dormir. Havia uma cama de casal embaixo de uma janela de um lado, uma TV de plasma embutida na parede do outro e, no meio, uma mesa de centro com restos de pizza numa caixa de papelão. Na parede lateral, havia uma bancada de torno com uma espingarda de cano serrado na qual ele evidentemente estava fazendo um trabalho de modificação. Ove tinha se arrastado para a cama, e agora estava ali, gemendo. De dor, eu imaginava. Não tenho a mínima noção sobre o que o curare faz com o corpo humano, mas sei que não é nada bom. — Como você está? — perguntei ao me aproximar dele. Chutei algo que rolou sobre o assoalho desgastado, olhei para baixo e vi que o piso em torno da cama estava cheio de cartuchos vazios. — Estou morrendo — gemeu ele. — O que aconteceu? — Você se sentou em cima de uma agulha de curare no assento do carro. — CURARE! — Ele ergueu a cabeça e cravou os olhos em mim. — Você quer dizer o veneno curare? Eu estou com a porra do curare no meu corpo? — Sim. Mas pelo visto não o suficiente. — Não o suficiente? — Para te matar. Ele deve ter errado a dosagem. — Ele? Ele quem? — Clas Greve. A cabeça de Ove caiu outra vez sobre o travesseiro. — Caralho! Não me diga que você se fodeu! Você nos entregou, Brown? — De forma alguma — falei, puxando uma cadeira até o pé da cama. — Aquela agulha no assento do carro tinha a ver com… outra coisa. — Outra coisa que não a gente ter depenado o cara? Que porra seria essa? — Prefiro não falar sobre isso. Mas ele estava atrás de mim. Ove berrou. — Curare! Preciso ir para o hospital, Brown, estou morrendo! Por que você me trouxe pra cá, caralho? Ligue agora para a emergência! — Ele acenou para algo sobre a mesa de cabeceira que primeiro pensei ser apenas uma escultura de plástico mostrando duas mulheres nuas na posição 69, mas depois percebi que também se tratava de um telefone. Engoli em seco. — Você não pode ir para o hospital, Ove. — Não posso? Preciso! Não entende que estou morrendo, seu imbecil? Morrendo! Falecendo! — Escuta. Quando descobrirem que você está com curare, vão ligar correndo para a polícia. Curare não é coisa que o médico prescreve, estamos falando do veneno mais letal do mundo, da mesma laia de cianídrico e antraz. Você vai acabar indo diretamente para a cadeira de interrogatório da Polícia Judiciária.

— E daí? Não vou abrir o bico. — E como vai explicar isso, então? — Vou inventar alguma coisa. Balancei a cabeça. — Você não tem chance, Ove. Nenhuma, se eles usarem Inbau, Reid e Buckley. — O quê? — Você vai falar. Você tem que ficar aqui, não entende? Você já está melhor mesmo. — E que porra você entende disso, Brown? É médico, por acaso? Não, você é um filho da mãe de um headhunter, e meus pulmões estão prestes a queimar neste exato momento. Tem um furo no meu baço e daqui a uma hora os rins vão entrar em colapso. Tenho que ir para um hospital AGORA, caralho! Ele estava semiereto na cama, mas eu dei um pulo e o forcei para baixo outra vez. — Escuta aqui, vou achar algum leite na geladeira. O leite neutraliza o veneno. Não seriam capazes de fazer outra coisa por você no hospital. — Além de me encher de leite? Ele tentou se levantar de novo, mas eu o empurrei bruscamente de volta, e de repente parecia que o ar estava saindo dele. As pupilas foram subindo para o crânio, a boca ficou semiaberta e a cabeça caiu no travesseiro. Eu me inclinei sobre seu rosto e constatei que ele exalava um bafo nojento de fumo em cima de mim. Depois comecei a andar pela casa à procura de alguma coisa que poderia lhe aliviar a dor. O que achei foi munição. Literalmente. O armário de remédios, devidamente adornado com uma cruz vermelha, estava cheio de caixas que, de acordo com os rótulos, continham cartuchos com balas de calibre 9 milímetros. Nas gavetas da cozinha havia diversas caixas de munição, algumas rotuladas “festim”, o que a gente no curso de sargento tinha chamado de pum, cartuchos sem carga. Devem ter sido esses que Ove usava para atirar nos programas de TV de que ele não gostava. Homem doente. Abri a geladeira e ali, na mesma prateleira da caixa de leite desnatado, havia uma pistola prateada. Tirei a pistola. O cabo estava gelado. A marca, Glock 17, estava gravada no aço. Sopesei a arma. Pelo visto, não tinha trava de segurança, mesmo assim havia uma bala na câmara. Em outras palavras, era possível só pegar a pistola e atirar imediatamente — por exemplo, se você estivesse na cozinha e recebesse uma visita inesperada e indesejável. Olhei para cima, para as câmeras de vigilância no teto. Percebi que Ove era muito mais paranoico do que eu imaginara até então. Talvez agora fosse o caso de algum diagnóstico. Levei a pistola e a caixa de leite comigo. No mínimo, eu poderia usar a arma para conter Ove se ele se tornasse rebelde outra vez. Passei pela sala e descobri que ele estava sentado na cama. O desmaio não passava de um teatrinho. Na mão ele segurava uma mulher de plástico, curvada e fazendo um gesto de lamber. — Vocês precisam mandar uma ambulância — disse ele em alto e bom som ao telefone, desafiando-

me com o olhar. Evidentemente, ele se achava no direito de fazer isso, já que na outra mão estava segurando uma arma que eu conhecia dos filmes. Pensei em gueto, em brigas de gangues, crimes blackon-black. Em resumo: era uma Uzi. Uma metralhadora que é tão pequena, manejável, feia e efetivamente letal que nem tem graça. E ela estava apontada para mim. — Não! — berrei. — Não faça isso, Ove! Eles vão ligar para a polí… Ele atirou. Soou como pipoca numa panela. Tive tempo de pensar nisso, tempo de pensar que essa era a música que acompanharia a minha morte. Senti algo passando pela minha barriga e olhei para mim mesmo. Vi o esguicho de sangue jorrando de meu flanco e atingindo a caixa de leite que eu segurava na mão. Sangue branco? Percebi que era o contrário, que a caixa de leite que tinha sido perfurada. Automaticamente, com um tipo de resignação, ergui a pistola, um tanto surpreso porque ainda era capaz de fazer isso, e disparei. O ruído impulsionou minha raiva: afinal, o estalo era mais potente que o daquela porra da Uzi. E a metralhadora gay de fabricação israelense também se calou abruptamente. Abaixei a pistola a tempo de ver Ove me encarar com uma ruga na testa. E ali, logo em cima da ruga, havia um furinho preto. Em seguida, a cabeça dele caiu muda para trás, atingindo o travesseiro com um baque suave. A raiva finalmente se apagou, eu não parava de piscar, era como ter uma imagem de TV passando na retina. Algo me disse que Ove Kjikerud não faria mais reaparições.

13

Metano

Eu estava pisando fundo na rodovia E6, com a chuva martelando no para-brisa e os limpadores se arrastando desesperadamente de um lado para o outro no vidro da Mercedes 280 SE de Ove Kjikerud. Eram 13h15, apenas quatro horas haviam se passado desde que me levantei e já tive tempo de sair ileso de uma tentativa de homicídio encenada por minha esposa, jogar o corpo de meu parceiro num lago, resgatar o mesmo corpo, que àquela altura estava são e salvo, depois o tal sujeito são e salvo tentou me balear, em seguida, por um golpe de sorte, acertei o dito-cujo com uma pistola, fazendo com que ele novamente se tornasse um corpo e eu, um assassino. E eu estava só na metade do caminho para Elverum. A chuva respingava no asfalto como leite batido, e eu me inclinei automaticamente sobre o volante para não perder a placa da saída da rodovia. Pois o lugar para onde eu estava indo não possuía um endereço possível de digitar no GPS da Pathfinder. A única coisa que fiz antes de ir embora da casa de Ove Kjikerud foi vestir umas roupas secas que encontrei num armário, pegar a chave de seu carro e esvaziar sua carteira de dinheiro e cartões de crédito. Eu o deixei do jeito que estava, prostrado na cama. Se o alarme fosse acionado, a cama era, afinal, o único lugar da casa sem monitoramento por câmera. Também levei a pistola Glock, já que parecia prudente não deixar a arma do assassinato no local do crime. E o molho de chaves, incluindo a da casa e a do nosso ponto de encontro fixo, uma cabana na região de Elverum. Era um lugar de contemplação, planejamento e visões. E era um lugar onde ninguém me procuraria, porque ninguém sabia de sua existência. Além disso, era o único local para onde eu poderia ir, a não ser que quisesse envolver Lotte no caso. E o caso, que raio era realmente o caso? O caso era que eu estava sendo caçado por um holandês louco, cuja profissão era justamente a caça de seres humanos. E, depois de algum

tempo, seria caçado pela polícia, se eles fossem apenas um pouquinho mais espertos do que eu supunha. Se era para eu ter alguma chance, precisava dificultar as coisas para eles. Por exemplo, fora necessário trocar de carro, pois há poucas coisas que identificam uma pessoa de forma mais inequívoca do que os sete caracteres da placa. Depois de ouvir o bipe do alarme, que se ativou automaticamente assim que saí e tranquei a porta da casa de Ove, fui dirigindo de volta, em direção à minha própria casa. Estava ciente de que Greve poderia estar me aguardando ali, por isso estacionei numa rua lateral a alguma distância. Deixei minhas roupas molhadas no bagageiro, tirei Rubens do forro duplo e o inseri na pasta, tranquei o carro e saí dali. Avistei o carro de Ove no lugar onde o tinha visto de manhã, abri a porta, pus a pasta no assento do meu lado e rumei para Elverum. Ali estava a saída. Ela aparecia de repente, e tive de me concentrar para frear com cuidado. Baixa visibilidade, aquaplanagem, era fácil levar uma batida de outro carro na traseira, e a essa altura eu não estava precisando de tiras nem de lesão cervical. De repente eu estava no campo. Chumaços de neblina pendiam sobre as fazendas e os prados ondulantes dos dois lados da estrada, que gradualmente se tornava mais estreita e sinuosa. Eu estava no meio do esguicho de água lançado pelos pneus de uma carreta que fazia propaganda das cozinhas Sigdal, e foi um alívio quando a próxima saída apareceu e passei a ter a estrada só para mim. Os buracos no asfalto ficaram cada vez maiores e mais frequentes, e as fazendas, menores e menos frequentes. A terceira saída. Estrada de terra. A quarta. Sertão maldito. Galhos baixos carregados de chuva raspavam o carro como os dedos de um cego identificando um desconhecido. Depois de vinte minutos andando a passos de tartaruga, parei. O mesmo intervalo de tempo que tinha se passado desde a última vez que vi uma casa. Puxei o capuz do moletom de Ove sobre a cabeça e saí correndo na chuva, passando o celeiro com o anexo estranhamente inclinado. De acordo com Ove, isso era porque Sindre Aa, o eremita rabugento e caipira que morava ali, era tão pão-duro que não construíra o alicerce para o anexo, e este, no decorrer dos anos, afundara dentro do solo argiloso, centímetro por centímetro. Eu mesmo nunca tinha falado com o desgraçado do caipira, quem cuidava disso era Ove, mas eu o vira de longe algumas vezes e reconheci a figura magra e curvada na escada da sede. Só Deus sabe como ele tinha ouvido o carro chegar em meio ao temporal. Um gato gordo roçava em suas pernas. — Bom dia! — chamei bem antes de chegar à escada. Não houve resposta. — Bom dia, Aa! — repeti. Ainda nada. Parei na chuva ao pé da escada e esperei. Com passos cuidadosos, o gato desceu os degraus a meu encontro. E eu que havia pensado que os gatos detestavam chuva. Ele tinha olhos amendoados como os de Diana e se esfregava em mim como se eu fosse um velho conhecido. Ou, talvez, como se eu fosse um desconhecido total. O caipira baixou a espingarda. De acordo com Ove, Aa usava a mira telescópica da velha espingarda para ver quem estava chegando, já que era pão-duro demais para comprar um

binóculo de verdade. Mas, pela mesma razão, ele nunca se dera ao luxo de comprar munição. Ao que parecia, então, era totalmente inofensivo. Além disso, desconfiei que o procedimento com a espingarda tinha o desejado efeito de limitar o número de visitantes. Aa cuspiu sobre o corrimão. — Onde tá o Kjikerud, Brown? — Sua voz rangia como uma porta não lubrificada, e “Kjikerud” foi cuspido como se fosse um esconjuro. Eu não fazia ideia de onde ele tinha tirado meu nome, mas certamente não era de Ove. — Ele vem mais tarde — falei. — Posso estacionar meu carro dentro do celeiro? Aa cuspiu de novo. — Não é barato. E não é seu carro, é o do Kjikerud. Como ele vai chegar aqui? Respirei fundo. — Esquiando. Quanto você quer? — Quinhentos pela diária. — Quinh… entos? Ele riu com desdém. — Vocês podem ficar de graça ali embaixo na estrada. Da carteira de Ove, puxei três cédulas de duzentas coroas e subi a escada onde Aa me aguardava com a mão ossuda estendida. Ele enfiou o dinheiro numa carteira bojuda e tornou a cuspir. — Posso pegar o troco depois — falei. Ele não respondeu, só bateu a porta com força ao entrar. Entrei de ré no celeiro e, na escuridão, quase empalei o carro na fileira de afiados dentes de aço de uma ensiladeira. Felizmente, a ensiladeira, que estava acoplada à traseira do trator azul Massey Ferguson de Sindre Aa se encontrava na posição elevada. Então, em vez de perfurar o para-lama traseiro ou furar os pneus, a parte inferior da máquina arranhou a tampa do bagageiro, me alertando a tempo de evitar que dez lanças de aço atravessassem o vidro de trás. Estacionei do lado do trator, peguei a pasta e subi correndo até a cabana. Por sorte, a floresta de abetos era tão densa que não deixava passar muita chuva, e, depois de me trancar dentro da rústica cabana de toras, meu cabelo ainda estava surpreendentemente seco. Pensei em acender a lareira, mas desisti da ideia. Já que tinha tomado a providência de esconder o carro, não fazia sentido mandar sinais de fumaça indicando que havia gente na cabana. Só então percebi o quanto estava faminto. Pendurei a jaqueta jeans de Ove sobre uma cadeira na cozinha, vistoriei os armários e, por fim, encontrei uma única lata de ensopado de carne que tinha sobrado da última vez que Ove e eu estivéramos aqui. Nas gavetas, não havia talheres nem abridor de latas, mas consegui furar a tampa de metal com o cano da pistola Glock. Sentei-me e usei os dedos para ingerir o conteúdo gorduroso e

salgado. Depois observei a chuva lá fora que caía sobre a floresta e o pequeno terreiro entre a cabana e o banheiro seco. Entrei no quarto de dormir, enfiei a pasta com Rubens embaixo do colchão e me deitei na cama de baixo do beliche para pensar. Não deu para pensar muito. Deve ter sido toda a adrenalina daquele dia, pois de repente abri os olhos e entendi que tinha dormido. Olhei para o relógio. Eram 16 horas. Peguei o telefone celular e vi que havia oito chamadas não atendidas. Quatro de Diana, que provavelmente se fingia de esposa preocupada, e, com Greve à escuta sobre o ombro, queria perguntar onde, pelo amor de Deus, eu estava. Três de Ferdinand, que deveria estar no aguardo da recomendação, ou, pelo menos, das instruções sobre o próximo passo a ser dado no caso da Pathfinder. E uma que não reconheci de imediato porque excluíra o número da lista de contatos. Mas não da memória e do coração. E, enquanto olhava para o número, ficou claro para mim que eu — uma pessoa que, no decorrer de seus mais de trinta anos neste planeta, acumulou um número suficientemente grande de amigos da faculdade, ex-namoradas, colegas e contatos de negócios para ter uma rede de contatos que preenchia dois megabytes no Outlook — só conhecia uma única pessoa em quem podia confiar. Uma moça com quem, a bem dizer, eu só tinha me relacionado durante três semanas. Ou melhor, com quem tinha transado durante três semanas. Uma moça dinamarquesa de olhos castanhos que se vestia como um espantalho, respondia com monossílabos e tinha um nome de cinco letras. Não sei para qual de nós isso era mais trágico. Liguei para o serviço de consulta à lista telefônica e pedi um número no exterior. A maioria das centrais telefônicas na Noruega encerra o expediente às 16 horas, pois, no país da menor jornada de trabalho, do mais generoso orçamento de saúde pública e do maior índice de licenças por doença do mundo, a essa altura, quase todos os funcionários já foram para casa, estatisticamente para um cônjuge doente. A central telefônica da HOTE atendeu como se fosse a coisa mais natural do mundo. Eu não tinha nenhum nome ou departamento, mas me arrisquei. — Can you put me through to the new guy, dear? — New guy, Sir? — You know. Head of technical division. — Felsenbrink is hardly new, Sir. — To me he is. So, is Felsenbrink in, dear? Quatro segundos mais tarde eu estava falando com um holandês que não só estava trabalhando, mas que soava bem-disposto e educado, apesar de o relógio já mostrar 16 horas e 1 minuto. — I’m Roger Brown from Alfa Recruiting. — Verdade. — Mister Clas Greve has given us your name as a reference. — Mentira. — Right — disse o homem, não parecendo nada surpreso. — Clas Greve is the best manager I’ve ever worked with. — So you… — comecei.

— Yes, Sir, my most sincere recommendations. He is the perfect man for Pathfinder. Or any other company for that matter. Hesitei. Mas mudei de ideia. — Thank you, Mister Fenselbrink. — Felsenbrink. Any time. Enfiei o telefone no bolso da calça. Não sabia por quê, mas algo me dizia que eu acabara de cometer um erro estúpido. Lá fora a água caía sem dar trégua e, na falta de coisa melhor para fazer, peguei o quadro de Rubens e o estudei à luz que entrava pela janela da cozinha. O rosto furioso do caçador Meléagro no momento em que empala a presa. E descobri quem ele me fizera lembrar a primeira vez que vi o quadro: Clas Greve. Algo me veio à cabeça. Uma coincidência, é claro, mas Diana certa vez me contou que o nome Diana era o nome romano da deusa da caça e da fertilidade, que em grego se chamava Ártemis. E foi Ártemis que mandara o caçador Meléagro, não foi? Bocejei e me imaginei em um papel na história do quadro antes de lembrar que estava misturando as bolas. Era o contrário, Ártemis mandou a fera. Esfreguei os olhos, ainda estava com sono. De repente me dei conta de que algo havia acontecido, algo havia mudado, mas eu estivera tão absorto na pintura que não tinha percebido. Olhei pela janela. Era o som. A chuva tinha parado. Coloquei a pintura de volta na pasta e decidi escondê-la em algum lugar. Teria que deixar a cabana para fazer compras e cuidar de outros afazeres, e definitivamente não confiava em Sindre Aa, aquela víbora. Olhei em volta, espiando pela janela, e dei com os olhos no banheiro seco. O forro era feito de tábuas soltas. Ao passar pelo terreiro, senti que deveria ter vestido a jaqueta. A primeira noite de geada estava para vir a qualquer momento. O banheiro seco era um alpendre com apenas o essencial: quatro paredes, frestas entre as tábuas proporcionando ventilação natural e uma caixa de madeira na qual fora feito um buraco redondo coberto por uma tampa quadrada, rudemente talhada. Peguei três rolos de papel higiênico e uma revista com a foto do cantor Rune Rudberg, cujas pupilas eram pontinhos pretos, e subi na caixa de madeira. Eu me estiquei em direção às tábuas que estavam soltas sobre as vigas e desejei pela enésima vez ter mais alguns centímetros no corpo. Mas enfim consegui despregar uma tábua, enfiar a pasta do lado de dentro e repor a tábua. E enquanto estava ali, de pernas abertas sobre a privada, fitei os olhos numa fresta entre as tábuas e congelei. A essa altura, o silêncio lá fora era completo, apenas um ou outro pingo das árvores carregadas de chuva. Mesmo assim, não ouvi um único ruído, nenhum galho quebrando, nenhum passo chapinhando pelo caminho lamacento. Nem sequer o ganido do cão ao lado de seu dono no meio da floresta. Se eu estivesse sentado dentro da cabana, não os teria visto, pois estariam num ângulo cego em relação às janelas. O cão parecia um aglomerado de músculos, mandíbulas e dentes, embrulhado na

carroceria de um pugilista, somente menor e mais compacto. Deixe-me repetir: odeio cães. Clas Greve estava trajando um poncho de cores de camuflagem e um boné militar verde. Ele não tinha armas nas mãos, e o que havia embaixo do poncho só posso adivinhar. De repente entendi que esse era o lugar perfeito para Greve. Ermo, nenhuma testemunha, perfeito para esconder um cadáver. De repente o cão e seu dono se movimentaram de forma sincronizada, como que obedecendo a um comando inaudível. Meu coração disparou de medo, mesmo assim não consegui senão olhar com fascínio para a rapidez e o completo silêncio com que se deslocaram pela floresta, até a parede da cabana e ao longo dela, e depois — sem hesitação — para dentro da porta, que deixaram escancarada. Eu sabia que só teria alguns segundos antes de Greve descobrir que a cabana estava vazia. Ele encontraria a jaqueta sobre o espaldar da cadeira denunciando minha presença por perto. E… merda!… veria a Glock que tinha ficado no banco da cozinha, do lado da lata vazia de ensopado de carne. Meu cérebro estava trabalhando arduamente e só conseguia chegar a uma conclusão: eu estava sem tudo, sem arma, sem possibilidades de fuga, sem planos, sem tempo. Se eu começasse a correr, demoraria no máximo dez segundos para que tivesse vinte quilos de niether terrier em meu encalço e nove milímetros de chumbo no crânio. Em resumo, eu estava na merda. Meu cérebro sugeriu entrar em pânico. Mas em vez disso ele fez algo que eu não o tinha julgado capaz de fazer. Ele simplesmente parou e deu um passo para trás. Para “ir à merda”. Um plano. Um plano desesperado e, em todos os sentidos, nojento. Mas mesmo assim um plano que tinha um forte argumento a seu favor: era o único. Peguei um miolo de rolo de papel higiênico e o enfiei na boca. Apertei meus lábios o máximo que pude em torno dele. Depois abri a tampa da privada. O fedor me acometeu. Havia uma distância de 1,5m até o tanque, que continha uma mistura fluida de excrementos, urina, papel higiênico e a água pluvial que escorria pelo lado interno das paredes. Era preciso dois homens para carregar o tanque até o lugar de despejo na floresta. Aquele trabalho era um pesadelo. Literalmente. Ove e eu só aguentamos fazer isso uma vez, e nas três noites seguidas sonhei com merda balançando de um lado para o outro. E, pelo visto, Aa também tinha desistido, já que o tanque de 1,5m de profundidade estava transbordando. O que por acaso era perfeito para mim. Ao deparar com isso, nem mesmo um niether terrier poderia cheirar outra coisa senão bosta. Equilibrei a tampa da privada em cima da cabeça, pus as palmas de cada lado do buraco e desci lentamente. Mergulhar em merda era uma sensação surreal, sentir a leve pressão de bosta humana contra o corpo enquanto afundava com os pés esticados. A tampa da privada se fechou assim que a cabeça passou pela borda do buraco. É possível que meu olfato já estivesse sobrecarregado; ele tinha no mínimo tirado férias, e eu só registrei uma intensificação da atividade nos canais lacrimais. A primeira camada, a mais líquida, era gelada, porém mais para baixo havia um calor relativo, possivelmente

devido a diversos processos químicos. Havia lido algo sobre a formação de gases de metano em banheiros secos desse tipo, que seria possível morrer de intoxicação se você inalasse esses gases em excesso. Eu estava pisando em terra firme e me agachei. As lágrimas escorriam pela face e o nariz estava pingando. Deitei a cabeça para trás, cuidei para que o cilindro de papelão apontasse em linha reta para cima, fechei os olhos e tentei relaxar para vencer a ânsia de vômito. Depois me acocorei com cuidado. Os canais auditivos se encheram de merda e silêncio. Eu me forcei a respirar pelo miolo de papel higiênico. Funcionou. Nada de descer mais agora. Obviamente, seria uma morte bastante simbólica, encher a boca e a garganta, afogar-se na velha bosta de Ove e minha mesmo, mas eu não sentia qualquer necessidade de uma morte irônica. Queria viver. Como se fosse de muito longe, ouvi a porta se abrir. Havia chegado a hora. Senti as vibrações de passos pesados. Batida de pé. E depois houve um silêncio. Passos arrastados. O cão. A tampa foi tirada. Eu sabia que nesse exato momento Greve estava olhando para mim. Para dentro de mim. Ele estava olhando para dentro da abertura de um miolo de papel higiênico que levava diretamente às minhas entranhas. Respirei o mais baixinho que pude. O papelão do miolo já estava molhado e macio, eu sabia que logo ficaria amassado, se tornaria permeável, se esmagaria. Depois soou um baque. O que foi aquilo? O próximo ruído era inconfundível. Uma explosão repentina que se transformou num tom intestinal sibilante e plangente antes de se extinguir. O ponto final foi posto com um suspiro de alívio. Merda, pensei. E era isso mesmo. Alguns segundos mais tarde, ouvi um barulho e senti um novo peso sobre meu rosto inclinado para cima. Por um instante, a morte parecia uma alternativa aceitável, mas essa sensação não durou muito. Na verdade, era um paradoxo: eu nunca tivera menos motivos para viver, e ainda assim nunca o desejara mais ardentemente. Então houve um gemido mais prolongado; pelo visto, ele estava fazendo esforço. Tomara que não acertasse meu tubo de ar improvisado. Senti o pânico me invadir, de repente parecia que eu não estava recebendo ar suficiente pelo miolo de papel higiênico. Um novo barulho. Eu estava tonto e os músculos da coxa doíam por causa da posição contraída. Eu me endireitei um pouquinho. Meu rosto rompeu a superfície. Não parei de piscar. Estava olhando diretamente para o traseiro branco e peludo de Clas Greve. E contra a pele branca se delineava um pau sólido, sim, mais que sólido, simplesmente impressionante. E já que nem o medo da morte pode afugentar a inveja fálica de um homem, pensei em Diana. E eu sabia que se Clas Greve não me matasse primeiro, eu o mataria. Greve se levantou, a luz foi penetrando no buraco e vi que tinha alguma coisa errada, que alguma coisa estava faltando. Fechei os olhos e me abaixei novamente. A tontura era quase esmagadora. Será que eu

estava morrendo de intoxicação por gás metano? Houve um longo silêncio. Será que tudo tinha acabado? Eu estava no meio de uma inalação e de repente senti que não havia nada ali, que eu estava aspirando o nada. O suprimento de ar tinha sido bloqueado. Os instintos primários assumiram o controle e eu comecei a me debater. Precisava subir! Meu rosto rompeu a superfície no mesmo momento em que escutei uma batida. Pisquei repetidas vezes. Estava escuro em cima de mim. Depois ouvi passos pesados, a porta se abrindo, passos arrastados, e a porta se fechando. Cuspi o miolo de papel higiênico e vi o que tinha acontecido. Algo branco caíra sobre a abertura: era o papel higiênico que Greve usara para se limpar. Eu me ergui sobre a borda do tanque e olhei pelas frestas entre as tábuas a tempo de ver Greve mandar o cachorro para a floresta enquanto ele próprio entrava na cabana. O cão foi em direção ao pico da montanha. Eu o segui com os olhos até ele sumir na floresta. E, imediatamente, talvez por eu ter deixado o alívio e a esperança de salvação se insinuarem por um instante, me escapou um soluço involuntário. Não, pensei. Não ter esperanças. Não sentir. Sem envolvimento emocional. Analítico. Vamos lá, Brown. Raciocinar. Números primos. Manter o foco no tabuleiro. OK. Como será que Greve me achou? Como ele poderia saber, caralho? Diana nunca ouvira falar desse lugar. Com quem ele falou? Nenhuma resposta. Bem. Que chances eu tinha? Eu precisava fugir dali e tinha duas vantagens: já começara a escurecer e, com um traje de merda cobrindo todo o corpo, meu cheiro seria camuflado. Mas eu estava com dor de cabeça, a tontura só piorava e não seria possível esperar até ficar totalmente escuro. Escorreguei pela parte externa do tanque e meus pés aterrissaram na encosta do lado de trás do banheiro seco. Eu me agachei e mirei a orla da floresta. De lá poderia rastejar até o celeiro e escapar com o carro. Eu tinha as chaves do carro no bolso da calça, não tinha? Fui verificar. No bolso esquerdo só tinha algumas cédulas, o cartão de crédito de Ove e as chaves de minha própria casa e as da de Ove. Lado direito. Soltei um suspiro de alívio quando os dedos encontraram as chaves do carro embaixo do celular. O celular. Claro. Os celulares são localizados por estações de base. É verdade que só identificam a área, não um local específico, mas, se as estações de base da Telenor registraram meu telefone exatamente aqui, não haveria muitas alternativas. A casa de Sindre Aa é a única dentro de um perímetro de vários quilômetros. Obviamente, isso significava que Clas Greve tinha um contato no departamento operacional da Telenor. Mas nada mais me surpreendia. Eu estava começando a entender as coisas. E Felsenbrink, que parecia estar esperando um telefonema meu, confirmou a suspeita. Não se tratava de um triângulo amoroso envolvendo eu, minha esposa e um holandês fogoso. Se eu estivesse certo, a encrenca em que tinha me metido era maior do que jamais poderia imaginar.

14

Massey Ferguson

Estendi a cabeça com cuidado e olhei para a cabana. Os vidros estavam escuros e não revelavam nada. Quer dizer que ele não tinha ligado a luz. Bem. Eu não podia permanecer aqui. Esperei até haver um sopro de vento nas árvores e então corri. Sete segundos depois alcancei a orla da floresta e fiquei escondido atrás das árvores. Mas aqueles sete segundos quase me derrubaram, os pulmões doíam, a cabeça latejava, e eu estava tão tonto como na primeira e única vez que meu pai me levou ao parque de diversões. Foi no meu aniversário de 9 anos, esse era o presente, e meu pai e eu éramos os únicos visitantes, com a exceção de três adolescentes meio embriagados que dividiam uma garrafa de CocaCola com um líquido transparente dentro. Meu pai, em seu norueguês furioso e macarrônico, pechinchou o preço da única atração que estava aberta, uma máquina infernal, cujo objetivo aparente era arremessar a criança num movimento giratório contínuo até que ela vomitasse o algodão-doce e, com sorte, fosse consolada por seus pais com pipoca e refrigerante. Eu me recusei a arriscar a vida naquela geringonça, mas meu pai insistiu e ele mesmo me ajudou a fixar o cinto que iria me salvar. E agora, um quarto de século depois, eu estava de volta àquele parque de diversões sujo e surreal, onde tudo fedia a urina e trapaças e eu sentia medo e enjoo o tempo todo. Um riacho gorgolejava do meu lado. Tirei o celular e o joguei na água. Vê se me rastreia agora, seu índio filho da mãe. Em seguida, trotei sobre o solo macio da floresta em direção ao sítio. A escuridão já caíra aqui entre os pinheiros, mas não havia outra vegetação, por isso era fácil me locomover. Depois de uns dois minutos, vi a luz externa da casa sede. Corri um pouco mais antes de sair da floresta, de modo que o celeiro ficasse entre mim e a casa. Havia motivos de sobra para acreditar que Aa exigiria uma explicação se me visse nesse estado e que um telefonema para o delegado seria o próximo passo. Eu me esgueirei até o portão do celeiro e levantei a tranca. Empurrei o portão e me meti ali dentro.

A cabeça. Os pulmões. Pisquei para a escuridão, mal conseguindo vislumbrar o carro e o trator. Afinal, que raio de efeito tinha o gás metano? Será que causava cegueira? Metano. Metanol. Tinha alguma coisa aí. A respiração ofegante e o ruído leve, quase inaudível, de patas atrás de mim. Então o som sumiu. Entendi o que era, mas não tive tempo de me virar. Ele já havia pulado. O silêncio era absoluto, até meu coração tinha parado de bater. No próximo instante tombei para a frente. Não sei se um niether terrier conseguiria saltar e meter os dentes no pescoço de um jogador de basquete de altura média. Mas eu — acho que já comentei isso — não sou exatamente um jogador de basquete. Por isso, caí de cabeça, a dor explodindo em meu cérebro. Unhas arranhavam as minhas costas, ouvi o som de carne cedendo com um gemido e ossos estalando. Meus ossos. Tentei agarrar o bicho, mas os membros não obedeciam, era como se as mandíbulas cravadas em meu pescoço bloqueassem toda a comunicação com o cérebro, as palavras simplesmente não chegavam. Eu estava deitado de bruços e nem consegui cuspir a serragem que entrava em minha boca. Uma pressão contra a aorta torácica. O cérebro estava sendo esvaziado de oxigênio. O campo de visão se estreitava. Logo perderia a consciência. Então, era assim que eu ia morrer, na bocarra de uma massa canina horrenda. Era no mínimo desolador. Era o suficiente para deixar qualquer um com raiva. A cabeça começou a queimar, um calor gélido encheu todo o corpo, infiltrando-se até a ponta dos dedos. Um júbilo amaldiçoador e uma força súbita e vibrante que dava vida e prometia morte. Eu me levantei com o cão pendurado no pescoço e pendendo sobre as costas feito uma estola viva. Cambaleante, agitei os braços, mas ainda não conseguia atingi-lo. Sabia que a explosão de energia era a última e desesperada tentativa do corpo de sobreviver, era uma última chance, e logo eu seria nocauteado. A essa altura, meu campo de visão estava reduzido ao início de um filme de James Bond, naquela parte que tocam a abertura — ou, no meu caso, o remate — e tudo está preto, salvo um pequeno buraco redondo no qual se vê um cara de smoking apontando uma pistola para você. E por esse buraco vi um trator azul da marca Massey Ferguson. E um último pensamento chegou a meu cérebro: eu odiava cães. Cambaleante, virei-me de costas para o trator, deixando o peso do cachorro transferir o ponto de equilíbrio do peito dos pés para os calcanhares, e dei uma forte guinada para trás. Caí. Os dentes afiados de aço da ensiladeira nos receberam. E entendi pelo som de pele canina rasgada que não deixaria este mundo sozinho. Meu campo de visão se afunilou e o mundo ficou todo preto. Devo ter ficado desacordado por algum tempo. Estava deitado no chão olhando para dentro de uma goela canina aberta. O próprio corpo do cão parecia flutuar no ar e estava encurvado como que em posição fetal. Dois dentes de aço penetravam a coluna do cão. Eu me pus de pé, o celeiro estava girando e tive de dar alguns passos de apoio. Coloquei

uma mão na nuca e senti um fluxo de sangue fresco saindo do ponto em que o cão tinha furado o pescoço. E entendi que estava prestes a perder o equilíbrio mental, pois em vez de me jogar dentro do carro fiquei parado olhando com fascínio. Eu tinha criado uma obra de arte. Cão de Cálidon no espeto. Era realmente bonito. Sobretudo o fato de que na morte ele manteve a boca aberta. Talvez o choque lhe tivesse travado a mandíbula, ou talvez esse tipo de cão sempre morresse assim. De qualquer forma, eu me deliciava com sua expressão, ao mesmo tempo furiosa e embasbacada, como se ele, além de ter vivido uma vida canina um pouco curta demais, tivesse de suportar essa última afronta, essa morte humilhante. Quis cuspir nele, mas minha boca estava seca demais. Consegui tirar as chaves da Mercedes do bolso e cambaleei até o carro de Ove, abri a porta e girei a chave na ignição. Nenhuma reação. Tentei outra vez pisando no acelerador. Totalmente morto. Franzi os olhos para enxergar através do para-brisa. Gemi. Então saí e empurrei o capô do motor. Agora já estava tão escuro que mal distingui os fios cortados que estavam em pé. Não fazia ideia de sua função, mas provavelmente eram vitais para o pequeno milagre que faz os carros andarem. Ah, aquele meioalemão desgraçado! Tomara que Clas Greve ainda estivesse na cabana aguardando meu retorno. Mas ele deveria estar se perguntando onde estava o animal. Calma, Roger Brown. OK, o único meio para eu sair daqui agora era o trator de Sindre Aa. Isso não seria nada rápido, Greve me alcançaria facilmente. Por isso precisei achar o carro dele — o Lexus prata deveria estar em algum lugar ao longo da estrada — e inutilizá-lo da mesma forma que ele fizera com a Mercedes. Andei depressa até a sede, quase esperando que Sindre Aa fosse sair para a escada; vi que a porta de entrada estava entreaberta. Mas ele não veio. Bati na porta e a empurrei. No guarda-vento, vi a espingarda, com a mira telescópica encostada à parede, do lado de um par de botas de borracha enlameadas. — Aa? Não soava como um nome, parecia que eu estava pedindo que alguém continuasse uma história. O que de certa forma era o caso. Por isso continuei a andar pela casa enquanto repetia insistentemente o monossílabo idiota. Achei que percebi um movimento e me virei. O sangue que ainda sobrava em mim gelou. Um monstro preto e bestial de duas pernas parou no mesmo instante que eu e olhou de volta com olhos brancos arregalados que reluziam em meio ao preto. Levantei a mão direita. Ele levantou a esquerda. Levantei a esquerda, ele, a direita. Era um espelho. Soltei um suspiro de alívio. A bosta tinha se solidificado e me cobria por inteiro, os sapatos, o corpo, o rosto, o cabelo. Continuei adiante. Empurrei a porta da sala. Ele estava sentado numa cadeira de balanço com um sorriso estampado no rosto. O gato gordo estava deitado no seu colo e franzia os olhos amendoados e meretrícios de Diana para mim. O gato se levantou e pulou para o chão. As patas atingiram o solo suavemente e ele veio balançando os quadris em minha direção até fazer uma parada repentina. Ele deve ter percebido que eu não estava cheirando a rosas e lavanda. Mas, depois de uma breve hesitação, ele foi andando até mim mesmo assim, fazendo

um ronrom baixo e convidativo. São animais adaptáveis os gatos, sabem quando precisam de um novo provedor de comida. É que o anterior estava morto. O sorriso de Sindre Aa se devia ao fato de que os cantos de seus lábios tinham recebido uma extensão de bordas ensanguentadas. Uma língua azul-ferrete saía do rasgão na bochecha, e vislumbrei a gengiva e os dentes do maxilar inferior. Sentado ali, o caipira rabugento me lembrava um bom e velho Pac-Man, mas provavelmente não era o novo sorriso de orelha a orelha a causa da morte. É que duas linhas parecidas, com bordas ensanguentadas, desenhavam um “x” em seu pescoço. Estrangulamento por trás com um garrote, ou seja, um fio de náilon fininho ou um arame. Respirei ofegante pelo nariz enquanto meu cérebro, sem ter sido solicitado, fez uma reconstrução rápida: Clas Greve passou pelo sítio e viu as marcas dos pneus do meu carro saindo da estrada e entrando no terreiro lamacento. Talvez ele tivesse continuado, estacionado a alguma distância, voltado a pé, olhado para dentro do celeiro e confirmado que o carro estava ali. Com certeza, Sindre Aa já estava na escada. Desconfiado e astuto. Cuspindo e dando respostas vagas quando Greve perguntou por mim. Será que Greve ofereceu dinheiro? Será que os dois entraram? De qualquer forma, Aa devia estar alerta, pois, assim que Clas Greve pôs o garrote sobre sua cabeça por trás, Aa teve tempo de baixar o queixo, evitando que o garrote cingisse o pescoço. Eles lutaram, o fio deslizou para dentro da boca e Greve apertou, rasgando as faces do velho. Mas Greve era forte e, no final, conseguiu enfiar os fios mortíferos no pescoço do caipira desesperado. Uma testemunha silenciosa, um assassinato silencioso. Mas por que Greve não simplificara as coisas usando uma pistola? Afinal, o vizinho mais próximo ficava a quilômetros de distância. Talvez para não me alertar sobre sua vinda? Eu me dei conta do óbvio: ele simplesmente estava desarmado. Praguejei baixinho. Agora ele tinha uma arma, eu lhe forneci uma nova arma letal ao deixar a Glock na mesa da cozinha da cabana. Que grande idiotice. Notei o som de gotas caindo e vi que o gato havia se posicionado entre minhas pernas. A ponta da língua rosada entrava e saía como uma flecha, lambendo o sangue que caía da extremidade de minha camisa para o chão. Uma fadiga entorpecente começou a me invadir. Respirei profundamente três vezes. Precisava me concentrar. Continuar a pensar, agir, era a única coisa que podia afastar o medo paralisante. Primeiro, precisava encontrar as chaves do trator. Andei sem rumo de um quarto para outro, abrindo bruscamente as gavetas. No quarto de dormir achei uma caixa de cartuchos vazia. No corredor, achei um cachecol, que amarrei com força em torno do pescoço, e o sangue pelo menos parou de gotejar. Mas nada das chaves do trator. Olhei para o relógio. Greve ainda deveria estar procurando o cão. Por fim voltei para a sala, me inclinei sobre o corpo de Aa e vasculhei seus bolsos. Ali! Estava escrito “Massey Ferguson” no chaveiro. Eu estava sem tempo, mas não podia me dar ao luxo de ser desleixado, precisava fazer tudo corretamente. Assim que encontrassem Aa, isso se tornaria o palco de um homicídio e eles iriam procurar vestígios de DNA. Corri até a cozinha, molhei uma toalha e enxuguei meu sangue do piso de todos os cômodos por onde tinha passado. Limpei possíveis impressões digitais de todos os lugares onde tinha encostado. Quando cheguei ao guarda-vento e estava

prestes a sair, a espingarda chamou minha atenção. Será que eu finalmente teria um pouco de sorte? Será que afinal haveria um cartucho na câmara? Agarrei a espingarda e simulei o que imaginei serem os movimentos de carregar, puxando e fazendo força até ouvir o clique do fecho, culatra ou seja lá que raio que se chamava, até, enfim, conseguir abrir a câmara onde uma pequena nuvem vermelha de ferrugem se destacava da escuridão. Nenhum cartucho. Escutei um barulho e olhei para cima. O gato estava na soleira da cozinha colocando os olhos em mim com uma mistura de tristeza e acusação: não era possível que eu simplesmente o deixaria ali? Praguejando, dei um chute em direção à criatura desleal, que se assustou e desapareceu em direção à sala. Em seguida, limpei a espingarda depressa, colocando-a de volta antes de sair e fechar a porta com um chute. O trator ligou com um berro. E continuou berrando enquanto eu saía do celeiro. Não me preocupei em fechar o portão, pois ouvi o que o trator estava berrando: “Clas Greve! Brown está tentando escapar! Vamos depressa!” Pisei fundo no acelerador. Fui dirigindo pelo mesmo caminho pelo qual tinha chegado. A essa altura já estava escuro como breu, e a luz dos faróis do trator dançava sobre a estrada esburacada. Em vão procurei o Lexus, ele tinha de estar parado em algum lugar! Não, agora eu não estava pensando direito, ele poderia ter deixado o carro um pouco mais adiante. Bati meu rosto com uma mão. Piscar, respirar, não cansado, não acabado. Isso aí. Pisar fundo. Um rugido insistente, contínuo. Para onde? Para longe daqui. A luz dos faróis se estreitou, a escuridão aproximou-se. Mais uma vez a falta de visão periférica. Logo a consciência me falharia. Respirei o mais fundo que pude. Oxigênio para o cérebro. Tenha medo, fique alerta, mantenha-se vivo! O rugido monótono do motor ganhou um tom secundário mais agudo. Eu sabia do que se tratava e apertei o volante com mais força. Era outro motor. A luz atingiu meu espelho. O carro se aproximou por trás sem pressa. E por que não? Estávamos completamente sozinhos no meio do nada, tínhamos todo o tempo do mundo. Minha única esperança era mantê-lo atrás de mim, impedindo que ele bloqueasse o caminho. Eu me posicionei bem no meio da estrada de terra e me inclinei sobre o volante no intuito de me tornar o menor alvo possível para a Glock. Saímos de uma curva onde a estrada de repente se endireitou e ampliou ao mesmo tempo. E, como se conhecesse o lugar como a palma de sua mão, Grave pisou no acelerador e chegou ao meu lado. Joguei o trator para a direita a fim de forçá-lo para fora da pista. Mas foi tarde demais, ele passou por um triz. Rumando para fora da estrada, virei o volante em desespero e cantei os pneus no cascalho do acostamento. Ainda me mantive na estrada. No entanto, um farol azul

piscou para mim. Pelo menos, dois vermelhos. As luzes de freio do carro da frente me mostraram que ele tinha parado. Parei, mas permaneci sentado com o motor ligado. Não queria morrer ali, sozinho numa porra de uma roça, feito uma ovelha muda. Minha única chance agora era fazê-lo sair do carro e depois atropelá-lo de uma vez, pegando-o com as monstruosas rodas traseiras e esmagando-o como biscoito de gengibre sob o peso daquele monstro. A porta do lado do motorista se abriu. Dei uma leve pisada no acelerador com a ponta do sapato para sentir a rapidez com que o motor respondia. Nada rápido. Senti vertigens, minha vista começou a se turvar outra vez, mas vi uma pessoa sair e vir em minha direção. Foquei a vista enquanto me agarrava à consciência com desespero. Alto, magro. Alto, magro? Carl Greve não era alto e magro. — Sindre? — What? — falei, embora meu pai tivesse martelado em minha cabeça que o correto era dizer “I beg your pardon?”, “Sorry, Sir?” ou “How can I accommodate you, Madam?” Deslizei até a metade do assento. Meu pai proibira minha mãe de me segurar no colo. Falou que deixaria o moleque mole. Você está me vendo agora, pai? Fiquei mole? Posso sentar no seu colo agora, papai? Ouvi um sotaque norueguês maravilhoso cantar com certa hesitação na escuridão: — Are you from the… eh, centro de acolhimento de asilados? — Centro de acolhimento? — repeti. Ele já estava do lado do trator e eu olhei de soslaio enquanto me agarrava ao volante. — Ah, desculpe — disse ele. — Você parece um… um daqueles… Você caiu na esterqueira? — Sim, tive um acidente, sim. — Estou vendo. Eu te parei porque vi que era o trator de Sindre. E porque tem um cão pendurado na ensiladeira. Então minha concentração não valia grande coisa. Ha-ha. Simplesmente me esqueci da porra do cão, viu, pai? Falta de sangue para o cérebro. Excesso de… Perdi a sensação nos dedos, os vi escorregar do volante. Aí desmaiei.

15

Horário de visita

Acordei no céu. Tudo era branco e um anjo olhava com ternura para mim. Estava deitado sobre a nuvem e perguntou se eu sabia onde estava. Fiz que sim, e ela disse que alguém queria falar comigo, mas que não tinha pressa, ele podia esperar. Sim, pensei, ele pode esperar. Pois quando souber o que fiz, vai me expulsar daqui imediatamente, me expulsar de toda essa brancura macia e deliciosa, e vou cair sem parar até chegar ali embaixo, ao lugar que pertenço, na forja, na fornalha, no eterno banho ácido de meus pecados. Fechei os olhos e sussurrei que preferia não ser perturbado ainda. O anjo fez um gesto de compreensão, me deixou ainda mais aconchegado dentro da nuvem e desapareceu sobre tamancos ressoantes. Antes de a porta bater atrás dela, o som de vozes no corredor chegou até meus ouvidos. Senti a atadura em torno de meu pescoço. Alguns momentos fragmentados surgiram na memória. O rosto do homem alto e magro sobre mim, o banco de trás de um carro que andou em alta velocidade por estradas sinuosas, dois homens de uniforme branco de enfermagem me acomodando numa maca. O chuveiro. Tomei banho deitado! Água quente, deliciosa; depois apaguei outra vez. Tive vontade de fazer a mesma coisa agora, mas meu cérebro me comunicou que esse luxo era muito temporário, a areia da ampulheta ainda escorria, a terra ainda girava, o curso dos acontecimentos era inevitável. Só resolvi esperar um pouco, segurar o ar por um instante. Pensar. Pois é, pensar dói, é mais fácil deixar de pensar, conformar-se, não se rebelar contra a força da gravidade do destino. É só que há algo tão irritante com o curso trivial e estúpido das coisas que simplesmente perdemos o controle.

Por isso pensamos. Não era possível que quem estivesse esperando lá fora fosse Clas Greve, mas naturalmente poderia ser a polícia. Olhei para o relógio. Eram 8h. Se a polícia já tivesse descoberto o corpo de Sindre Aa e suspeitasse de mim, seria pouco provável que comparecesse com um homem só e, ainda por cima, ficasse aguardando educadamente do lado de fora do quarto. Talvez fosse um agente da polícia que apenas queria perguntar o que tinha acontecido, talvez por que o trator ficou largado ali no meio da estrada, talvez… Talvez eu tivesse esperanças de que fosse a polícia. Talvez eu estivesse farto de tudo, talvez a única coisa que restasse era salvar minha vida, talvez eu devesse contar a eles toda a verdade. Eu me questionei sobre o que realmente estava sentindo. E senti o riso borbulhar dentro de mim. IMAGINA! No mesmo instante a porta se abriu, os ruídos do corredor chegaram até meu leito e um homem de jaleco branco entrou com ar determinado. Ele franziu os olhos, conferindo um bloco de notas. — Mordida de cão? — perguntou ele, erguendo a cabeça e me olhando sorridente. Eu o reconheci no mesmo instante. A porta se fechou e estávamos a sós. — Lamento não poder esperar mais — sussurrou. Clas Greve ficava bem de jaleco branco de médico. Só Deus sabe onde ele o arranjou. Só Deus sabe como me encontrou. Até onde eu sabia, meu celular estava num riacho. Mas tanto Deus como eu sabíamos o que esperar. E como que para confirmar isso, Greve enfiou a mão no bolso do jaleco e sacou uma pistola. Minha pistola. Ou mais exatamente: a pistola de Ove. Com exatidão extrema: uma Glock 17 com balas de chumbo de 9mm que se deformam ao atingir o tecido corporal, estilhaçando-se de modo que o volume total de chumbo leva consigo uma quantidade desproporcional de carne, músculos, ossos e massa cerebral, e o chumbo, depois de ter atravessado o corpo, cola na parede atrás da vítima de um jeito não muito diferente de um quadro de Barnaby Furnas. A pistola apontava para mim. Dizem que a boca fica seca nessa situação. Fica mesmo. — Espero que você não se importe de eu usar sua pistola, Roger — disse Clas Greve. — Não trouxe minha própria para a Noruega. Hoje em dia, aviões e armas dão muita confusão. E eu nem poderia ter previsto… — ele abriu os braços — isso. Além do mais, é bastante prático o fato de que essa bala não possa ser ligada à minha pessoa, não é mesmo, Roger? Não respondi. — Não é? — repetiu ele. — Por que… — comecei com uma voz rouca como o vento do deserto. Greve aguardou a continuação com uma cara de genuína curiosidade. — Por que você está fazendo tudo isso? — sussurrei. — Só por causa de uma mulher que acabou de conhecer? Ele franziu a testa. — Está falando de Diana? Você sabia que eu e ela…

— Sim — interrompi para não ter de escutar a continuação. Ele deu uma curta risada. — Você é idiota, Roger? Realmente acredita que isso tem a ver com ela, eu e você? Não respondi. Que já tinha entendido. Que não se tratava de coisas triviais como a vida, os sentimentos e as pessoas amadas. — Diana era apenas um meio, Roger. Fui obrigado a usá-la para chegar até você. Já que você não mordeu a primeira isca. — Chegar até mim? — Você, sim. Nós planejamos isso há mais de quatro meses, desde que ficamos sabendo que a Pathfinder iria procurar um novo diretor-executivo. — Nós? — Adivinhe. — A HOTE? — E nossos novos donos americanos. Para dizer a verdade, estávamos num aperto financeiro quando eles nos procuraram no início do ano. Por isso tivemos de aceitar algumas condições para aquilo que talvez parecesse uma aquisição, mas que na verdade foi uma operação de resgate. Uma das condições era que a gente conseguisse lhes entregar a Pathfinder também. — Entregar a Pathfinder? Como assim? — Você sabe o que sei, Roger. Que, embora sejam os acionistas e o conselho de administração que formalmente tomam as decisões numa empresa, os diretores-executivos são os que mandam. São os que, no final das contas, decidem se e para quem a empresa será vendida. Eu mesmo geri a HOTE conscientemente, fornecendo ao conselho de administração o mínimo de informação e o máximo de insegurança para que eles sempre optassem por confiar em mim. Algo que, diga-se de passagem, serviu a seus interesses da melhor forma. O xis da questão é que qualquer diretor razoavelmente competente, contando com a confiança do conselho, vai poder manipular e convencer um bando de sócios semiinformados a fazer o que ele bem entender. — Você está exagerando. — Será? Pelo que eu saiba, seu ganha-pão consiste exatamente em levar na lábia esses tais conselhos. É claro que ele tinha razão. E isso confirmava a suspeita que eu tivera depois de o Sr. Felsenbrink, da HOTE, recomendar tão abertamente Greve como chefe de sua maior concorrente. — Então a HOTE quer… — comecei. — Sim, a HOTE quer assumir o controle da Pathfinder. — Por que os americanos colocaram isso como pré-requisito para salvar vocês da enrascada? — O dinheiro que nós, como donos da HOTE, recebemos está bloqueado numa conta até as condições da aquisição estarem preenchidas. Mas é óbvio que nada do que a gente está falando agora consta por escrito em lugar algum.

Fiz um gesto lento de concordância. — Então toda aquela coisa de você se demitir em protesto contra os novos donos foi apenas uma encenação para você se apresentar como um candidato confiável para assumir o comando da Pathfinder? — Exatamente. — E assim que você assumir o cargo de diretor-executivo da Pathfinder, sua missão é forçar a empresa a passar para as mãos dos americanos? — Não sei se “forçar” é a palavra certa. Daqui a alguns meses, quando a Pathfinder descobrir que sua tecnologia não é mais um segredo para a HOTE, eles próprios vão perceber que estão sem chance sozinhos, que uma cooperação será a melhor solução. — Isso porque você terá vazado secretamente toda essa tecnologia para a HOTE? O sorriso de Greve era fino e branco como uma solitária: — Como já disse, é o casamento perfeito. — O casamento forçado perfeito é o que você quer dizer, né? — Se quiser. Mas, com uma combinação das tecnologias da HOTE e da Pathfinder, pegaremos todos os contratos militares de GPS no hemisfério ocidental. E um ou outro no oriente também… Para isso vale um pouquinho de manipulação, não acha? — E vocês então acharam que eu seria a pessoa indicada para te garantir o cargo? — De qualquer forma, eu seria um forte candidato, não é? — Clas Greve se posicionou perto do pé da cama com a pistola na altura do quadril e as costas viradas para a porta. — Mas queríamos ter certeza. Rapidamente descobrimos quais empresas de recrutamento a Pathfinder tinha contatado e pesquisamos um pouco. Ficou claro que você tem uma reputação e tanto, Roger Brown. Dizem que se você recomenda um candidato o negócio está fechado. Pelo visto, você tem algum recorde. É óbvio então que a gente queria passar por você. — Estou honrado. Mas por que você simplesmente não entrou em contato direto com a Pathfinder, dizendo que estava interessado? — Vamos lá, Roger! Sou ex-diretor do grande lobo mau das aquisições, você já se esqueceu disso? Se eu fosse me apresentar a eles, os alarmes iriam tocar. Eu precisava ser “descoberto”. Por exemplo, por um headhunter. E depois eu precisava ser convencido. Era a única maneira pela qual pareceria crível que eu chegava à Pathfinder sem más intenções. — Entendi. Mas por que usar Diana, por que não me procurar diretamente? — Agora você está se fingindo de bobo, Roger. Você teria tido a mesma suspeita. Você não confiaria em mim, nem morto. Ele tinha razão de que eu estava me fingindo de bobo. E ele era bobo. Bobo e tão orgulhoso de seus planos geniais e gananciosos que não conseguia resistir à tentação de ficar aqui se gabando disso até alguém entrar por aquela porta maldita. Pois alguém precisava vir logo. Afinal, eu estava, por assim

dizer, doente! — Você me atribui motivos nobres demais em meu trabalho, Clas — falei, pensando que onde já se viu executar alguém que o chama pelo primeiro nome? — Indico aqueles candidatos que acredito que vão conseguir o cargo, e eles não são necessariamente aqueles que considero os melhores para a empresa. — No entanto — disse Greve, franzindo a testa —, até mesmo um headhunter como você não chega a ser tão amoral, não é? — Pelo visto, você conhece pouco sobre a minha posição. Deveria ter mantido Diana fora disso. Isso parecia divertir Greve. — Deveria? — Como você conseguiu fisgá-la? — Você realmente quer saber, Roger? — Ele tinha levantado a pistola um pouquinho. Um metro. Entre os olhos? — Estou morrendo de vontade de saber, Clas. — Como você quiser. — Ele tornou a baixar a pistola um pouco. — Passei pela galeria dela diversas vezes. Comprei algumas coisas e, depois de um tempo, passei a seguir as recomendações dela. Eu a convidei para tomar um café. Conversamos sobre tudo, sobre coisas profundamente pessoais, do jeito que só estranhos podem conversar. Sobre problemas conjugais… — Vocês falaram sobre nosso casamento? — deixei escapar. — Com certeza. Sou um homem divorciado, por isso sou cheio de compreensão. Por exemplo, compreendo que uma mulher bonita, completamente madura e fértil como Diana não consegue suportar que seu marido não lhe queira dar um filho. Ou que ele a convença de fazer um aborto porque a criança tem síndrome de Down. — Clas Greve deu um largo sorriso parecido com o de Aa na cadeira de balanço. — Sobretudo porque eu mesmo adoro crianças. O sangue e o juízo abandonaram minha cabeça, deixando um único pensamento: eu precisava matar aquele homem na minha frente. — Você… você disse a ela que queria ter filhos. — Não — disse Greve, baixinho. — Disse que queria ter os filhos dela. Tive de me concentrar para falar em voz comedida. — Diana nunca me abandonaria por um charlatão como… — Eu a levei até meu apartamento e mostrei meu suposto quadro de Rubens a ela. Eu estava confuso. — Suposto? — Sim, obviamente o quadro não é original, só uma cópia muito boa e antiga, pintada na época de Rubens. De fato, por muito tempo os alemães pensaram que fosse verdadeiro. Minha avó me mostrou o quadro quando eu era jovem e morava ali. Lamento ter sido forçado a mentir para vocês quanto à

autenticidade. A notícia deveria ter tido algum efeito sobre mim, talvez, mas eu já estava tão devastado emocionalmente que só a registrei. Ao mesmo tempo, entendi que Greve não descobrira que o quadro tinha sido trocado. — De qualquer forma, a cópia cumpriu sua função — disse Greve. — Ao ver aquilo que ela ainda acha ser um Rubens de verdade, Diana deve ter concluído ali mesmo que eu não somente poderia lhe dar um filho, mas também seria capaz de sustentar ela e a criança de maneira bastante adequada. Ou seja, lhe dar a vida com que sonha. — E ela… — Naturalmente, concordou em cuidar para que seu futuro marido conseguisse um cargo executivo capaz de trazer a respeitabilidade que deveria acompanhar o dinheiro. — Você está dizendo… aquela noite na galeria… foi um teatro do começo ao fim? — É claro. Só que não atingimos o objetivo com a facilidade que queríamos. Quando Diana me ligou contando que você decidiu não me indicar… — Ele revirou os olhos com uma ironia teatral. — Você pode imaginar o choque, Roger? A decepção? A raiva? Simplesmente não consegui entender por que você não gostava de mim. Por quê, Roger, por quê, o que lhe fiz? Engoli em seco. Ele parecia absurdamente relaxado, como se tivesse todo o tempo do mundo para colocar aquela bala no crânio, no coração ou em qualquer parte do corpo que ele escolhesse. — Você é baixo demais — falei. — Como? — Então você fez Diana colocar aquela bolinha de borracha com curare no carro? Ela me mataria para me impedir de escrever a recomendação que eliminaria você? Greve franziu a testa. — Curare? É interessante saber que você está convencido de que sua esposa estaria disposta a cometer um homicídio só por um filho e alguns florins. Não tenho certeza, mas você até pode ter razão. Só que não foi isso que pedi a ela. A bolinha de borracha continha uma mistura de Ketalar e Midazolam, um anestésico de ação rápida, porém tão forte que não é exatamente inofensivo. O plano era que você fosse anestesiado ao se sentar no carro de manhã e que Diana levaria você até o lugar combinado. — Que tipo de lugar? — Uma cabana que aluguei. Por sinal, não muito diferente daquela onde esperava encontrá-lo ontem à noite. Porém com um proprietário mais simpático e menos curioso. — E ali eu seria… — Persuadido. — Como? — Você sabe. Um pouco de aliciamento. Se necessário, uma leve ameaça.

— Tortura? — A tortura tem seus lados divertidos, mas em primeiro lugar detesto infligir dor física a alguém que não seja eu mesmo. E em segundo lugar, depois de certo estágio, é um meio menos eficiente do que se pensa. Portanto, não, não muita tortura. Apenas a medida certa para você sentir o gosto, o suficiente para despertar o medo irracional da dor que todos trazemos dentro de nós. Pois é o medo, não a dor, que torna a pessoa disposta a colaborar. Por isso o interrogador determinado e profissional não passa da tortura leve, associativa… — ele arreganhou os dentes — … pelo menos de acordo com os manuais da CIA. Melhor que o modelo do FBI que você usa, não é, Roger? Senti que o suor havia se formado por baixo da atadura do pescoço. — E o que você pretendia? — Que você escrevesse e assinasse uma recomendação de acordo com nossos desejos. Iríamos até colocar o selo no envelope e enviar a carta pelo correio em seu nome. — E se eu me recusasse? Mais tortura? — Não somos desumanos, Roger. Se você se recusasse, a gente simplesmente te seguraria ali. Até que a Alfa tivesse encarregado um de seus colegas da tarefa de escrever a recomendação. E esse provavelmente seria aquele seu colega. Ferdinand, não é esse o nome dele? — Ferdy — disse eu, fechando a cara. — Exatamente. E ele parecia relativamente positivo. E o presidente do conselho e o diretor de informação, idem. Você não teve a mesma impressão, Roger? Não concorda que a única coisa que de fato poderia ter me parado era um parecer negativo, e, nesse caso, um do próprio Roger Brown? Como você percebe, não teria sido necessário machucá-lo. — Você está mentindo — falei. — Estou? — Você não tinha planos de me deixar vivo. Para que me soltaria, correndo o risco de eu te entregar? — Eu poderia fazer uma boa oferta. Vida eterna em troca de silêncio eterno. — Maridos rejeitados não são homens de negócios ajuizados, Greve. E você sabe disso. Greve esfregou o cano da pistola no queixo. — É verdade. Sim, tem razão. A gente provavelmente teria te matado. Mas pelo menos esse era o plano que contei a Diana. E ela acreditou em mim. — Porque ela quis acreditar. — O estrogênio é cego, Roger. Não pensei em mais nada para dizer. Por que não aparecia ninguém, porra? — Achei uma placa de NÃO PERTURBE no mesmo guarda-roupa onde encontrei este jaleco — disse Greve, como se tivesse lido meus pensamentos. — Acho que penduram a placa do lado de fora quando os pacientes estão usando o urinol.

Agora, o cano estava apontado diretamente para mim, e vi o dedo dele se curvar em torno do gatilho. Ele não tinha levantado a pistola; pelo visto, ia atirar do quadril assim como James Cagney fazia com pontaria fabulosamente certeira nos filmes de gângster dos anos 1940 e 50. Infelizmente, algo me disse que a pontaria de Clas Greve também pertencia à categoria das fabulosamente certeiras. — Em minha opinião, isso se encaixa na definição — disse Greve, que já tinha apertado os olhos um pouco no aguardo do estalo. — Afinal, a morte é um assunto privado, não é? Fechei os olhos. Tive razão o tempo todo: estava no céu. — Com licença, doutor! A voz ecoou no quarto. Abri os olhos. E vi que havia três homens atrás de Greve, do lado da porta, que estava se fechando. — Somos da polícia — disse a voz que pertencia àquele que estava à paisana. — Trata-se de um caso de homicídio, e infelizmente tivemos de ignorar a placa na porta. Vi que meu anjo salvador de fato tinha certa semelhança com o referido James Cagney. Mas talvez isso fosse só por causa do guarda-pó cinza. Ou por causa do remédio que eles me deram, pois seus dois colegas vestidos de uniformes policiais pretos com faixas refletoras xadrez (que me faziam pensar em macacões infantis) tinham um aspecto ainda mais inverossímil: idênticos como duas gotas de água, gordos como porcos, altos como torres. Greve se enrijeceu e me fitou com olhos furiosos, sem se virar. A pistola, que estava escondida dos policiais, ainda apontava para mim. — Espero que não estejamos incomodando com esse homicidiozinho, doutor — disse o policial, que trajava roupas civis, sem esconder sua irritação porque o cara vestido de branco parecia ignorá-lo completamente. — De forma alguma — respondeu Greve, ainda de costas para eles. — O paciente e eu já acabamos. — Ele puxou o jaleco de médico para o lado e enfiou a pistola no cós da frente da calça. — Eu… eu… — comecei, mas fui interrompido por Greve. — Pode ficar tranquilo. Vou manter sua esposa Diana informada sobre seu estado. Pode deixar que cuidamos dela. Entendeu? Fiquei piscando. Greve se inclinou sobre a cama e passou a mão em meu joelho por cima do edredom. — Vamos ser delicados. Entendeu? Fiz um gesto mudo que sim. Sem dúvida, devia ser efeito do remédio, isso simplesmente não estava acontecendo. Greve se endireitou e sorriu. — Por sinal, Diana tem razão. Você tem um cabelo e tanto. Greve se virou, baixou a cabeça com os olhos fixados no bloco de papel e disse baixinho ao passar pelos policiais.

— Por ora, ele é seu. Assim que a porta se fechou atrás de Greve, James Cagney adiantou-se. — Meu nome é Sunded. Fiz um gesto lento com a cabeça e senti a atadura cortar a pele de meu pescoço. — Chegaram no horário nobre, Sundet. — Sunded — repetiu ele com seriedade. — “Ded” no final. Sou investigador de homicídios da Polícia Judiciária de Oslo e fui chamado para cá. A Polícia Judiciária é… — Sei o que é a Polícia Judiciária — disse eu. — Bem. Estes dois são Endride e Eskild Monsen, da polícia de Elverum. Impressionado, medi os dois da cabeça aos pés. Duas morsas gêmeas usando uniformes idênticos e bigodes idênticos de pontas viradas. De fato, era muita polícia junta. — Primeiro vou lhe explicar quais são seus direitos — começou Sunded. — Espera! — exclamei. — O que quer dizer isso? Sunded sorriu cansado. — Isso, Sr. Kjikerud, quer dizer que o senhor está sendo detido. — Kji… — mordi minha língua. Sunded acenou com algo que reconheci como um cartão de crédito. O cartão de Ove. Do meu bolso. Sunded ergueu uma sobrancelha inquisidora. — Que droga — emendei. — Estão me detendo por quê? — Pelo homicídio de Sindre Aa. Olhei para Sunded enquanto ele, com suas próprias palavras e linguagem corriqueira — em vez da ladainha dos direitos humanos, parecida com o pai-nosso, dos filmes americanos — explicou o direito a um advogado e o de ficar calado. Ele concluiu, explicando que o médico-chefe já dera a luz verde para me transferirem assim que eu acordasse. Afinal, eu só tinha levado alguns pontos na nuca. — Tudo bem — falei antes de ele terminar a explicação. — Vou com vocês de bom grado.

16

Viatura 01

Descobri que o hospital ficava numa área campestre um pouco afastada de Elverum. Senti um alívio ao ver os prédios brancos com aspecto de colchões desaparecerem atrás de nós. Ainda mais porque não vi nenhum Lexus prata. Estávamos num Volvo velho, mas bem-cuidado, cujo som do motor era tão envenenado que suspeitava de que tenha sido carro de rachas antes de se transformar em viatura da polícia. — Onde estamos? — perguntei do banco traseiro, esmagado entre os imponentes Endride e Eskild Monsen. Minha roupa, ou seja, a roupa de Ove, tinha sido enviada à lavanderia, então uma enfermeira me emprestara um par de tênis e um conjunto de moletom verde com as iniciais do hospital, dando ordens estritas de devolvê-lo bem-lavado. Além disso, eu tinha recebido todas as chaves e a carteira de Ove. — Hedmark — disse Sunded, do banco supostamente apelidado de gunshot seat pelas gangues afroamericanas; o assento do carona. — E para onde estamos indo? — Não é da sua conta — rosnou o jovem motorista espinhento, me lançando um olhar gélido pelo retrovisor. Bad cop. Jaqueta preta de náilon reforçado e letras amarelas nas costas. “Clube Ko-daw-ying de Elverum.” Imaginei que fosse uma arte marcial muito misteriosa e muito nova, mas mesmo assim muito antiga. E que sua mastigação frenética de chiclete fora responsável pela musculatura superdesenvolvida da mandíbula, desproporcional em relação ao resto do corpo. O espinhento era tão franzino e tinha ombros tão estreitos que seus braços formavam um “V” quando segurava as mãos no volante, como agora. — Mantenha os olhos na estrada — disse Sunded baixinho.

Espinhento murmurou alguma coisa e olhou carrancudo para a faixa de asfalto que formava uma linha reta e cortava a paisagem cultivada extremamente plana. — Estamos indo para a delegacia de Elverum, Kjikerud — disse Sunded. — Vim para cá de Oslo e vou te interrogar hoje e, se necessário, amanhã. E depois de amanhã. Espero que você não crie problemas, pois não gosto de Hedmark. — Ele tamborilou os dedos sobre uma malinha de viagem com jeito de valise, que Endride tivera de passar para a frente porque no banco de trás simplesmente não havia lugar para nada além de nós três. — Não sou de criar problemas — falei, sentindo meus dois braços adormecerem. A respiração dos gêmeos Monsen era sincronizada, o que significava que, a cada quatro segundos, eu era esmagado feito um tubo de pasta de dente. Pensei em pedir para que um deles mudasse de frequência respiratória, mas desisti. Depois de ter enfrentado a pistola de Greve, aquilo de certa forma parecia seguro, me levava de volta à infância, para quando me deixavam ir com meu pai no trabalho porque minha mãe estava doente e eu ficava sentado entre dois adultos sérios, mas gentis, no banco traseiro da limusine da embaixada. E todos eram bem-vestidos, mas ninguém tão chique quanto meu pai, que usava chapéu de chofer e conduzia o carro com elegância e calma. E depois meu pai comprava sorvete e dizia que eu tinha me comportado como um verdadeiro gentleman. O rádio chiou. — Psiu. — Espinhento quebrou o silêncio do carro. — Mensagem para todas as viaturas de patrulha — rangeu uma voz feminina anasalada. — As duas viaturas de patrulha — corrigiu Espinhento, aumentando o volume. — Egmon Karlsen relatou o roubo da carreta… O resto da mensagem se perdeu nas risadas de Espinhento e dos gêmeos Monsen. Seus corpos balançaram, sacudiram e me deram uma massagem agradável em todos os sentidos. Pelo visto, os remédios ainda estavam fazendo efeito. Espinhento pegou o comunicador e falou: — Karlsen parecia sóbrio? Câmbio. — Não totalmente — respondeu a voz feminina. — Então saiu para beber de carro e se esqueceu disso. Ligue para o bar Bamsepub, com certeza o caminhão está parado na frente. Carreta de 18 rodas com “Cozinhas Sigdal” na lateral. Câmbio e desligo. Ele pendurou o comunicador de volta e achei que o clima no carro tinha ficado notavelmente mais leve, por isso aproveitei a oportunidade: — Captei que alguém foi assassinado, mas posso perguntar o que isso realmente tem a ver comigo? A pergunta foi recebida com silêncio, mas pude ver que Sunded estava refletindo. E de repente ele se virou para o banco de trás e pôs os olhos em mim. — Está bem, vamos acabar logo com isso. Sabemos que foi você que fez isso, Sr. Kjikerud, e você não

tem a menor chance de escapar. Temos um corpo e uma cena de crime, além de provas que te ligam a ambos. Eu deveria estar chocado, amedrontado, sentindo o coração saltar, afundar ou o quer que seja que ele faz quando se ouve um policial triunfante dizer que possui provas que condenarão você à prisão perpétua. Mas não senti nada disso. Pois não ouvi um policial triunfante, mas a técnica de Inbau, Reid e Buckley. Primeiro passo. Confrontação direta. Ou, como se diz no manual: no início do interrogatório, o investigador deve deixar totalmente claro que a polícia sabe tudo. Usar “nós” e “a polícia”, nunca “eu”. E “saber”, não “achar”. Distorcer a autoimagem do interrogado, tratar pessoas de baixo nível por “senhor” e pessoas de alto nível pelo nome próprio. — E cá entre nós — continuou Sunded, baixando a voz de uma maneira que aparentemente sinalizaria familiaridade: — Pelo que tenho ouvido, a morte de Sindre Aa não foi nenhuma perda. Se você não tivesse dado fim àquele rabugento, é de esperar que algum outro o fizesse. Reprimi um bocejo. Segundo passo. Simpatizar com o suspeito normalizando o ato. Sunded continuou, já que eu não respondi. — A boa notícia é que, com uma confissão rápida, posso te dar um desconto na pena. Opa, a Promessa Concreta! Era uma tática que Inbau, Reid e Buckley proibiam terminantemente, uma armadilha jurídica de que só os mais desesperados lançavam mão. Não havia dúvida de que esse homem queria sair logo de Hedmark e voltar para casa. — Então, Kjikerud, por que você fez isso? Olhei pela janela. Campo. Fazenda. Campo. Fazenda. Campo. Riacho. Campo. Deliciosamente sonífero. — E aí, Kjikerud? — Ouvi os dedos de Sunded tamborilarem na valise. — Você está mentindo — falei. O tamborilar parou. — Repita. — Você está mentindo, Sunded. Não faço ideia de quem é Sindre Aa, e vocês não têm nada para me incriminar. Sunded deu uma breve risada que parecia um cortador de grama. — Não mesmo? Então me conte onde você esteve durante as últimas 24 horas. Você nos fará esse favor, Kjikerud? — Talvez — respondi. — Se vocês me contarem do que se trata tudo isso. — Dê uma boa palmada nele — cuspiu Espinhento. — Endride, dê… — Cale a boca — disse Sunded calmamente, virando-se para mim. — E por que iríamos lhe contar isso, Kjikerud? — Porque então eu talvez queira falar com vocês. Senão vou ficar calado até a chegada do meu advogado. De Oslo. — Vi a boca de Sunded se apertar e coloquei mais lenha na fogueira. — Talvez

amanhã, se tivermos sorte… Sunded inclinou a cabeça de um lado, me observando como se eu fosse um inseto que ele avaliava se ia incluir em sua coleção ou se ia apenas esmagar. — Tudo bem, Kjikerud. Começou com um telefonema recebido por seu companheiro de assento sobre um trator abandonado no meio da estrada. Encontraram o trator e um bando de gralhas que faziam um banquete na ensiladeira. Àquela altura já haviam devorado todas as partes moles do cão. O trator pertencia a Sindre Aa, mas, por motivos óbvios, ele não atendeu quando foi chamado, por isso alguém foi até lá e o encontrou na cadeira de balanço, onde você o tinha colocado. No celeiro, achamos uma Mercedes que estava com o motor violado e placas dizendo que é sua, Kjikerud. No fim, a delegacia de Elverum associou o cão morto a um relatório hospitalar de rotina sobre um homem semiconsciente e coberto de bosta que foi levado ao hospital com uma mordida feia de cachorro. Eles telefonaram, e a enfermeira de plantão informou que o homem tinha estado inconsciente, mas em seu bolso encontraram um cartão de crédito com o nome de Ove Kjikerud. E aqui estamos. Acenei, concordando. Então eu sabia como eles me encontraram. Mas como diabos Greve conseguira me achar? Essa pergunta tinha sido remoída sem resultado por meu cérebro em seu estado entorpecido, tão entorpecido que só agora me veio à cabeça a ideia assustadora: será que Greve tinha contatos dentro da polícia local também? Alguém que lhe arranjou a entrada no hospital antes dos policiais? Não! Afinal, os policiais entraram sem mais nem menos no quarto e me salvaram. Errado! Foi Sunded quem fez isso, o homem de fora, da Polícia Judiciária de Oslo. Senti uma incipiente dor de cabeça quando o próximo pensamento surgiu: se fosse do jeito que eu temia, que segurança eu teria numa cela de detenção preventiva? De repente, a respiração sincronizada dos gêmeos Monsen não parecia mais tão reconfortante. Nada era reconfortante; pelo visto, não havia mais ninguém neste mundo em quem eu poderia confiar. Ninguém. Talvez com a exceção de um. O cara de fora. O homem da valise. Eu precisava abrir o jogo, contar tudo a Sunded, fazer com que ele me levasse a outra delegacia. Indubitavelmente, a de Elverum era corrupta, provavelmente havia pelo menos um informante aqui nessa viatura. O rádio chiou outra vez. — Viatura 01, atenção. Espinhento agarrou o comunicador. — Pois não, Lise? — Não há nenhuma carreta do lado de fora do bar. Câmbio. É claro que contar tudo a Sunded significava ter que me entregar como ladrão de arte. E como convencê-los de que eu tinha atirado em Ove em legítima defesa, aliás, quase acidentalmente? Um homem tão dopado pela poção sedativa de Greve que deveria ter visto tudo dobrado. — Se liga, Lise. Pergunte por aí. Ninguém consegue esconder 18 metros de carro nessa cidadezinha, OK?

A voz que retornou soava ofendida: — Karlsen diz que você costuma achar a jamanta para ele, você que é policial e cunhado dele. Câmbio. — Que porra que nada! Esqueça, Lise. — Ele diz que não está pedindo muito, você ganhou a irmã menos feia dele. Fui sacudido pelas gargalhadas ressonantes dos gêmeos Monsen. — Fale para aquele maluco que hoje pelo menos temos trabalho policial de verdade a fazer — rosnou Espinhento. — Câmbio e desligo. Realmente não tinha ideia de como jogar esse jogo. Era só uma questão de tempo antes de eles descobrirem que minha identidade era outra. Será que deveria lhes contar isso já ou seria um trunfo para ter na manga e usar depois? — Então é sua vez, Kjikerud — disse Sunded. — Fiz uma pequena pesquisa sobre você. É um velho conhecido. E, de acordo com nossos registros, é solteiro. O que o médico quis dizer ao falar que cuidaria de sua esposa? Diana, não foi isso? O trunfo já se foi. Suspirei e olhei pelo vidro lateral. Terras incultas, terras cultivadas. Nenhum carro vindo no sentido contrário, nenhuma casa, só a nuvem de poeira de um trator ou de um carro ao longe. — Não sei — respondi. Eu precisava pensar com mais clareza. Mais clareza. Precisava enxergar o tabuleiro. — Qual era sua relação com Sindre Aa, Kjikerud? Ser tratado por esse nome estranho estava começando a me encher. E eu estava prestes a responder quando me dei conta de que havia me enganado. Outra vez. A polícia acreditava que eu era Ove Kjikerud! Aquele era o nome que lhes tinha sido informado sobre a pessoa internada no hospital. Mas se passaram essa mensagem a Clas Greve, por que Greve procurou essa pessoa com o nome de Kjikerud no hospital? Ele nunca ouvira falar de nenhum Kjikerud, ninguém no mundo inteiro sabia que Ove Kjikerud tinha qualquer coisa a ver comigo, com Roger Brown. Aquilo simplesmente não fazia sentido. Ele deveria ter me encontrado de outra forma. Vi a nuvem de poeira se aproximar. — Você escutou minha pergunta, Kjikerud? Primeiro, Greve me achou na cabana. Depois no hospital. Mesmo que eu não estivesse com o celular. Greve não tinha nenhum contato, nem na Telenor, nem na polícia. Mas como seria possível então? — Kjikerud! Alô! A nuvem de poeira da rua lateral estava se movendo a uma velocidade maior do que aparentava a distância. Vi o cruzamento mais adiante e de repente me veio a ideia de que a nuvem estava vindo de encontro a nós, que estávamos em rota de colisão. Tomara que o outro veículo estivesse ciente de que nós estávamos na via preferencial.

Mas talvez Espinhento devesse dar-lhe uma dica e usar a buzina. Dar-lhe uma dica. Usar a buzina. O que Greve tinha dito no hospital? “Diana tem razão. Você tem um cabelo e tanto.” Fechei os olhos e senti as mãos dela passando pelo meu cabelo ali na garagem. O cheiro. Ela tinha tido um cheiro diferente. Ela estava cheirando a ele, a Greve. Não, não a Greve. À HOTE. Vindo de encontro a nós. E como se fosse em câmera lenta, tudo se encaixou. Por que eu não o entendera antes? Abri os olhos. — Estamos em perigo de vida, Sunded. — O único que está em perigo aqui é você, Kjikerud. Ou qualquer que seja seu nome. — O quê? Sunded olhou pelo retrovisor e levantou o cartão de crédito que havia me mostrado no hospital. — Nesta foto, você não se parece com o cara chamado Kjikerud. E, conferindo o arquivo de cancelamentos a respeito de Kjikerud, constatamos que ele tem 1,73m. E você tem… o quê 1,65m? Houve um silêncio no carro. Fixei os olhos na nuvem de poeira que se aproximava rapidamente. Não era nenhum carro. Era uma carreta com reboque. Já estava tão perto que eu conseguia ler as letras na lateral. Cozinhas Sigdal. — Tenho 1,68m — emendei. — Quem diabos é você, afinal? — resmungou Sunded. — Sou Roger Brown. E à esquerda está a carreta roubada de Karlsen. Todos viraram a cabeça para a esquerda. — Que porra está acontecendo? — resmungou Sunded. — O que está acontecendo — respondi — é que aquela carreta está sendo conduzida por um cara chamado Clas Greve. E ele sabe que estou neste carro e seu objetivo é me matar. — Como… — Ele tem um rastreador GPS que o torna capaz de me encontrar onde quer que eu esteja. E é o que ele tem feito desde hoje de manhã, quando minha mulher passou a mão por meus cabelos na garagem. Uma mão cheia de um gel que contém transmissores microscópicos e gruda ao cabelo de um jeito que não é possível tirá-lo, nem lavando. — Pare com essa baboseira! — rosnou o investigador da Polícia Judiciária. — Sunded… — sussurrou Espinhento. — É a carreta de Karlsen. — Temos que parar este carro agora e dar meia-volta — afirmei. — Senão ele vai nos matar a todos. Pare! — Continue! — ordenou Sunded. — Não está entendendo o que está prestes a acontecer! — gritei. — Logo estará morto, Sunded. Sunded ensaiou sua risada de cortador de grama, mas parecia que a grama estava alta demais. Pois agora ele também estava vendo que já era tarde demais.

17

Cozinhas Sigdal

Uma colisão entre dois veículos é uma questão de física básica. Tudo é imprevisível, mas todos os imprevistos podem ser explicados pela seguinte equação: força vezes tempo é igual a massa vezes a variação da velocidade. É só inserir as variáveis em forma de números e o resultado será uma história simples, verdadeira e cruel. Por exemplo, ela pode contar o que acontece se uma carreta com carga máxima, pesando 25 toneladas e andando a uma velocidade de 80 quilômetros por hora, atinge um automóvel de 1.800 quilos (incluindo os gêmeos Monsen) à mesma velocidade. Com base em variáveis como o ponto de impacto, a condição da carroceria e os ângulos entre os corpos, há uma infinidade de versões dessa história, mas elas têm duas características em comum: sempre são trágicas, e é o automóvel que se dá mal. Às 10h13, quando a carreta conduzida por Clas Greve atingiu a viatura 01, um Volvo 740, modelo 1989, um pouco à frente do assento do motorista, o bloco do motor, ambas as rodas dianteiras e as pernas de Espinhento foram empurradas lateralmente através da carroceria ao mesmo tempo que o carro foi jogado para o ar. Nenhum air bag foi acionado, já que eles não eram instalados nos Volvos antes de 1990. A viatura da polícia — que já dera perda total — passou deslizando sobre a estrada, bem acima da mureta do acostamento, aterrissando do lado dos abetos que formavam um denso arvoredo ao longo do rio no fundo da encosta. Antes de a viatura 01 abalroar as primeiras copas das árvores, ela completara dois saltos-mortais e meio com um parafuso e meio. Não havia nenhuma testemunha que pudesse confirmar o que estou dizendo, mas é fato que foi exatamente isso que aconteceu. Como já disse, é uma simples questão de física. Assim como o fato de que a carreta continuou, sem danos significativos, atravessando, impassível, o cruzamento, onde freou com um estridente chiado de metal. A carreta bufou feito um dragão assim que os freios finalmente se soltaram, mas o cheiro de borracha

chamuscada e lona de freio a disco queimada pairou sobre a paisagem por vários minutos. Às 10h14, os abetos pararam de balançar, a poeira se assentou, a carreta estava parada com o motor ligado enquanto o sol continuava a brilhar impávido sobre os campos de Hedmark. Às 10h15, o primeiro carro passou pelo local do crime, provavelmente sem que o motorista percebesse nada além de que havia uma carreta na estrada lateral de terra e que algo que poderiam ser cacos de vidro se esmigalhava debaixo dos pneus. Ele não via nenhuma indicação de que haveria uma viatura da polícia capotada e escondida ali embaixo das árvores que ladeavam o rio. Sei tudo isso porque eu estava deitado numa posição que me permitia constatar que tínhamos capotado e estávamos escondidos da estrada pelas árvores da beira-rio. Os horários são informados neste relato com a crença de que o relógio de Sunded, que fazia tique-taque logo na minha frente, estava funcionando perfeitamente. Pelo menos acho que era dele o relógio que estava pendurado no pulso de um braço decepado, que saía de um pedaço de guarda-pó cinza. Uma lufada de vento trouxe o cheiro de resina da lona de freio e o som do motor a diesel no ponto morto. Do céu sem nuvens, os raios de sol cintilavam por entre as árvores, mas à minha volta estava chovendo. Gasolina, óleo e sangue. Pingando e escorrendo. Todos estavam mortos. Espinhento não tinha mais espinhas. Nem rosto, por sinal. O que sobrou de Sunded estava dobrado como uma figura de papelão, eu podia vê-lo espreitar entre suas próprias pernas. Os gêmeos pareciam relativamente inteiros, mas haviam parado de respirar. O fato de que eu mesmo estava vivo se devia unicamente ao dom da família Monsen de preencher massa corporal e moldá-la como perfeitos air bags. Mas os mesmos corpos que salvaram minha vida estavam prestes a me tirá-la. A carroceria inteira estava prensada, e eu pendia de ponta-cabeça do banco. Um de meus braços estava desimpedido, mas eu me encontrava tão espremido entre os dois policiais que não conseguia me mover nem respirar. Meus sentidos, porém, estavam funcionando perfeitamente, por enquanto. Eu era capaz de ver a gasolina gotejar, de senti-la escorrer para dentro das minhas calças, percorrer meu corpo e sair pela gola, e de escutar a carreta que estava lá em cima na estrada, bufando, pigarreando e dando solavancos enquanto aguardava. E entendi que ele, Clas Greve, estava sentado ali, pensando e avaliando a situação. Vendo no rastreador GPS que eu não me movimentava. Pensando que, de qualquer forma, deveria descer e verificar se todos estavam mortos. Por outro lado, seria difícil se locomover ladeira abaixo e ainda mais difícil subir de volta. Seria possível alguém sobreviver àquela batida? Mas seria muito mais fácil dormir tranquilo depois de ter certeza, depois de ver tudo com os próprios olhos. Vá embora, rezei. Vá embora. A pior parte de estar totalmente consciente era que eu podia imaginar o que aconteceria se ele me encontrasse embebido em gasolina. Vá embora. Vá embora! O motor a diesel da carreta cacarejava como se tivesse uma discussão consigo mesmo.

A essa altura, tudo o que acontecera estava muito claro para mim. Greve não tinha se aproximado de Sindre Aa na escada para perguntar onde eu estava, ele conseguia ver isso no visor de seu rastreador GPS. Era necessário acabar com Aa simplesmente porque ele tinha visto Greve e seu carro. Mas enquanto Greve subia o caminho até a cabana, eu havia me deslocado para o banheiro seco, e, já que não me achou dentro da cabana, ele conferiu o rastreador GPS novamente. E, para sua surpresa, descobriu que meu sinal tinha sumido. Pois naquele momento os transmissores no meu cabelo estavam mergulhados em bosta, matéria que, como se sabe, os transmissores da HOTE não possuem sinais fortes o suficiente para penetrar. Eu, o idiota, tivera mais sorte do que merecia. Então Greve tinha mandado o cão me procurar, enquanto ele próprio ficou à espera. Ainda sem sinais. Pois a merda que secara em torno dos transmissores continuou bloqueando os sinais enquanto eu visitei o celeiro, o cadáver de Sindre Aa e fugi com o trator. Só no meio da noite o rastreador GPS começou a receber sinais outra vez. Àquela altura eu estava em cima de uma maca no chuveiro do hospital, recebendo um banho que tirou a bosta de meu cabelo. E Greve entrou no carro, chegando ao hospital quando amanheceu. Só Deus sabe como ele roubou a carreta, mas certamente não teve problemas em me reencontrar, eu, Brown, o retardado balbuciante que literalmente estava implorando para ser pego. Os dedos do braço decepado ainda seguravam a alça da valise. O relógio em seu pulso tiquetaqueava; 10h16. Em um minuto eu perderia a consciência. Em dois, sufocaria. Tome uma decisão, Greve. E foi isso o que ele fez. Ouvi a carreta arrotar. A velocidade rotacional baixou. Ele tinha desligado a ignição, estava vindo para cá! Ou… será que engatou a marcha? Um rugido baixo. O chiado de cascalho sob pneus carregando 25 toneladas. O rugido aumentou. E aumentou. E ficou mais baixo. Desapareceu na paisagem rural. Extinguiu-se. Fechei os olhos e agradeci. Não morreria queimado, mas apenas de falta de oxigênio. Não é das piores maneiras de morrer. O cérebro fecha as portas, uma por uma, a pessoa fica sonolenta, anestesiada, para de pensar e assim os problemas desaparecem. De certa forma, lembra a ingestão de alguns drinques fortes. Sim, pensei: posso aguentar morrer assim. A ideia quase me fez rir. Eu, que toda a minha vida tentara me tornar o oposto de meu pai, terminaria minha vida como ele, nos destroços de um carro. E quão diferente dele eu realmente tinha sido? Depois de ter crescido a ponto de aquele filho da puta bêbado não poder mais me agredir, eu comecei a agredi-lo. Da mesma forma que ele tinha agredido minha mãe, sem deixar marcas visíveis. Por exemplo, recusei de forma educada sua oferta de me ensinar a dirigir, lhe informando que não estava interessado em tirar a carteira de habilitação. Dei uma cantada na filha feia e mimada do embaixador, que meu pai levava

para a escola todo dia, com o único propósito de levá-la em casa para jantar e assim o humilhar. E me arrependi ao descobrir que, entre o prato principal e a sobremesa, mamãe chorava na cozinha. Eu me candidatei a uma vaga numa escola em Londres que ouvi meu pai descrever como uma escola maldita de mauricinho frequentada pelos parasitas da sociedade. Mas ele não se ofendeu tanto quanto eu esperava. Aquele canalha esperto até conseguiu sorrir com aparente orgulho ao saber da minha matrícula. Portanto, quando ele, mais tarde naquele outono, me perguntou se ele e mamãe poderiam fazer a viagem da Noruega para me visitar no campus, recusei, argumentando não querer que meus colegas descobrissem que meu pai não era nenhum grandalhão do corpo diplomático, mas um simples motorista. Tive a impressão de que aquilo atingiu um ponto sensível. Não no sentido de sensibilidade, é claro, mas de dor. Quinze dias antes do meu casamento, liguei para mamãe dizendo que me casaria com uma moça que conhecera, explicando que seria uma coisa simples, só nós e um casal de padrinhos. Mas que ela seria bem-vinda se viesse sem papai. Mamãe ficou zangada, dizendo que naturalmente não poderia ir sem ele. Almas nobres e fiéis muitas vezes são aleijadas pela lealdade para com as pessoas mais desprezíveis. Sim, sobretudo para com as desprezíveis. Na verdade, Diana deveria conhecer meus pais naquele verão, depois do final do semestre, mas três semanas antes de sairmos de Londres recebi a notícia sobre o acidente de carro. Foi no caminho de volta do chalé, disse o policial na linha telefônica que chiava. Noite, chuva, alta velocidade. A estrada velha fora desviada temporariamente, em função da construção da autoestrada. Uma nova curva, talvez pouco lógica, mas sinalizada com placas de perigo. O asfalto recém-colocado absorvia a luz, sem dúvida. Uma máquina de terraplenagem estacionada. Interrompi o policial dizendo que deveriam fazer um teste de bafômetro em meu pai. Só para que pudessem confirmar o que eu já sabia: que ele tinha matado mamãe. Aquela noite, sozinho num bar de Baron’s Court, foi a primeira vez que enchi a cara. E chorei em público. A noite que enxaguei as lágrimas no fedorento mictório, vi o rosto frouxo e embriagado de meu pai no espelho rachado. E me lembrei do brilho atento e calmo em seus olhos depois de ter socado as peças de xadrez, atingindo a rainha que rodopiou no ar — dois saltos-mortais e meio — antes de cair no chão. Depois ele me batera. Só aquela única vez, mas me batera. Um tapa na orelha. E então vi em seu olhar aquilo que mamãe chamava a Doença. Era um monstro hediondo, gracioso e sedento de sangue que residia atrás de seus olhos. Mas também era ele, meu pai, carne da minha carne e sangue do meu sangue. Sangue. Algo nas profundezas de meu ser, algo que havia muito tempo estivera por baixo de todas as camadas de negação, subiu até a superfície. Uma memória difusa de um pensamento que não quis mais se deixar reprimir. Ele assumiu forma mais consistente. Foi dolorosamente formulado. Tornou-se verdade. A verdade que eu até agora conseguira manter a distância, mentindo para mim mesmo. Pois

não era o medo de ser desbancado por um filho que me fez não querer ter filhos. Era o medo da Doença. O medo de que eu, o filho, também a tivesse. Que ela estivesse alojada ali, atrás de meus olhos. Eu tinha mentido para todos. Tinha dito a Lotte que não quis ter o filho porque ele tinha uma falha, uma síndrome, uma anomalia cromossômica. Mas a verdade é que o portador da anomalia era eu. Tudo estava fluindo agora. Minha vida tinha sido um espólio de defunto, e agora o cérebro já cobrira os móveis, fechara as portas, se preparara para desligar a energia. Fluidos pingavam e escorriam, inundavam meus olhos, passando sobre a testa, penetrando a linha do cabelo. Ser sufocado por dois balões humanos. Pensei em Lotte. E ali, no limiar, vislumbrei algo. Vi luz. Vi… Diana? O que aquela traidora estava fazendo aqui? Balões… Minha mão livre, suspensa, se moveu até a valise. Meus dedos dormentes soltaram os de Sunded da alça e abriram. A gasolina pingava de mim e caía dentro da bolsa enquanto eu remexia nela, tirando uma camisa, um par de meias, uma cueca e uma nécessaire. Era só isso. Abri a nécessaire com a mão livre e esvaziei o conteúdo sobre o forro do teto do carro. Pasta de dente, um barbeador, band-aid, xampu, um saco plástico transparente que ele com certeza usava nos controles de segurança dos aeroportos, vaselina… ali! Uma tesoura, uma daquelas coisinhas pontudas com a ponta ligeiramente curvada que certas pessoas, por algum motivo, preferiam aos modernos cortadores de unha. Tateei com a mão o corpo de um dos gêmeos, passando sobre o abdômen, o peito, tentando encontrar um zíper ou botões em sua roupa. Mas eu estava a ponto de perder a sensibilidade, e os dedos não queriam obedecer às ordens do cérebro nem mandar informações até ele. Então agarrei a tesoura e enfiei a ponta na pança de… bem, vamos dizer que foi Endride. O tecido de náilon cedeu com um ruído chiado de libertação e se abriu, revelando uma barriga protuberante socada dentro do tecido azul-claro da camisa de policial. Rapidamente cortei a camisa, e a barriga, coberta de pele branca azulada e peluda, apareceu. Eu já tinha chegado à parte que me afligia. Mas a ideia da possível recompensa — poder viver, respirar — ofuscou todas as outras, e brandi a tesoura com toda a força, enfiando-a na barriga logo acima do umbigo. Retirei a tesoura outra vez. Nada aconteceu. Estranho. Havia um nítido furo na barriga, mas nada saía dela, nada do que eu imaginara que fosse aliviar a pressão sobre mim. O balão estava tão estufado como antes. Dei outro golpe. Um novo furo. Um novo poço seco. Brandi a tesoura possuído de fúria. Glub-glub. Nada. De que porra esses gêmeos foram feitos? Será que eram pura banha? Será que a epidemia de obesidade mataria a mim também? Outro carro passou na estrada lá em cima. Tentei gritar, mas me faltava ar. Com minhas derradeiras forças enfiei a tesoura na pança, mas dessa vez não a retirei, simplesmente não aguentei. Depois de um tempo, comecei a movimentar a tesoura, afastando o polegar do indicador

e depois juntando os dois outra vez. Fui cortando e avançando para dentro. Era surpreendentemente fácil. E aí algo aconteceu. Um fio de sangue brotou do orifício, correndo sobre a barriga, desaparecendo embaixo da roupa, reaparecendo no pescoço barbudo, correndo sobre o queixo, sobre os lábios e sumindo dentro de uma das narinas. Continuei a cortar. Freneticamente. E descobri que o ser humano de fato é uma criatura frágil, pois se abriu num movimento deslizante, assim como acontecia quando trinchavam baleias na TV. E isso apenas com uma tesourinha! Não parei até a barriga ter uma fenda que se estendia da cintura até as costelas. Mas a quantidade de sangue e vísceras que eu esperava sair aos borbotões não se manifestou. E subitamente meu braço ficou dormente, perdi a tesoura e um velho conhecido retornou: a perda da visão periférica. Conseguira ver apenas o forro do teto. Tinha um desenho xadrez em tons cinzentos. As peças estragadas estavam espalhadas a minha volta. Desisti. Fechei os olhos. Era uma delícia desistir. Senti a força da gravidade me puxar para baixo em direção ao centro da terra, primeiro a cabeça, como um bebê saindo da incubadora de sua mãe, eu seria espremido até sair, a morte era um novo nascimento. Sentia até as contrações, contrações trêmulas que me massageavam. Vi a rainha branca. Ouvi o som e o líquido amniótico que respingava no chão. E o cheiro. Meu Deus, o cheiro! Nasci e minha nova vida começou com uma queda, uma batida na cabeça e depois escuridão completa. Escuridão completa. Escuridão. Oxigênio? Claridade. Abri os olhos. Eu estava deitado de costas e, acima de mim, vi o banco onde eu e os gêmeos estivéramos presos. Portanto, eu estava deitado sobre o forro do teto do carro, sobre o tabuleiro de xadrez. E eu respirava. Havia um fedor de morte, de vísceras humanas. Olhei em volta. Parecia um matadouro, uma salsicharia. Mas o estranho era que, em vez de fazer o que é da minha natureza, reprimir, negar, fugir, era como se meu cérebro se expandisse para captar a verdadeira dimensão das impressões sensoriais. Decidi permanecer ali. Aspirei o cheiro. Olhei. Escutei. Apanhei as peças do chão. Coloquei-as em sua posição no tabuleiro, uma por uma. Por fim levantei a rainha branca quebrada. Estudei-a. Depois a coloquei bem em frente ao rei negro.

Parte IV

Seleção

18

Rainha branca

Eu estava sentado nos destroços do carro olhando fixamente para o barbeador. A gente pensa em coisas estranhas. A rainha branca estava quebrada. Aquela que usei para colocar meu pai, minhas origens, sim, toda a minha vida anterior em xeque-mate. Ela, que dizia que me amava, e a quem eu tinha jurado, não importando se fosse mentira, que parte de mim sempre a amaria só por ela ter dito isso. Ela, a quem eu tinha chamado de cara-metade porque realmente acreditara que ela era minha face de Jano, a metade boa. Mas eu me enganara. E eu a odiava. Não, nem isso: Diana Strom-Eliassen não existia mais para mim. Mesmo assim eu estava sentado dentro dos destroços de um carro, com um barbeador na mão e um único pensamento na cabeça: Será que Diana me amaria sem meu cabelo? Como já disse, a gente pensa em coisas estranhas. Por isso afastei o pensamento e apertei o botão de ligar. O aparelho, que pertencera a Sunded, o homem cujo nome soava como uma profecia em inglês — “soon dead” (morto em breve) — vibrava na minha mão. Eu seria transformado. Queria ser transformado. O velho Roger Brown não existia mais. Pus mãos à obra. Quinze minutos depois olhei para mim mesmo no pedaço que restava daquilo que tinha sido o retrovisor. Como temi, não era nada bonito de se ver. Minha cabeça parecia um amendoim com casca, alongada e um pouco mais fina no meio. O crânio raspado reluzia pálido e branco sobre a pele mais bronzeada do rosto. Mas era eu mesmo: o novo Roger Brown. Entre minhas pernas estavam as mechas de cabelo. Empurrei-as para dentro do saco plástico transparente, que, por sua vez, enfiei no bolso de trás da calça de uniforme de Eskild Monsen. Ali encontrei também uma carteira com algum dinheiro e um cartão de crédito. E, como eu não tinha

planos de ser rastreado por usar o cartão de crédito de Ove Kjikerud, decidi levar a carteira comigo. Eu tinha achado um isqueiro no bolso da jaqueta preta de náilon reforçado de Espinhento e mais uma vez cogitei se deveria pôr fogo nos destroços do carro, que já estavam marinados em gasolina. Isso atrasaria o trabalho de identificação dos corpos e, talvez, me daria um dia de tranquilidade para agir. Por outro lado, a fumaça faria com que o alarme soasse antes de eu ter saído da área, enquanto, sem fumaça e com um pouco de sorte, muitas horas poderiam se passar antes de alguém encontrar os destroços do carro. Olhei para a superfície mutilada onde o rosto de Espinhento uma vez estivera e tomei a decisão. Gastei quase vinte minutos tirando as calças e a jaqueta dele para depois vesti-lo com meu conjunto de moletom verde. E é estranho com que rapidez a gente se acostuma a cortar carne humana. Cortei fora a pele dos dois dedos indicadores (não me lembrava se as impressões digitais eram feitas usando a mão direita ou a esquerda) de Espinhento com a eficiência concentrada de um cirurgião. Por fim cortei um pouco no polegar também para que as feridas das mãos dele parecessem mais aleatórias. Ao terminar, me afastei dois passos dos destroços e estudei o resultado. Sangue, morte, silêncio. Até o rio marrom do lado do matagal parecia congelado em imobilidade muda. Era uma instalação digna do artista plástico Morten Viskum, se eu tivesse uma câmera teria tirado uma foto e a enviado a Diana, sugerindo que a pendurasse na galeria. Como um aviso sobre o que estava por vir. Pois o que foi que Greve tinha dito? É o medo, não a dor, que torna a pessoa disposta a cooperar.

Eu estava andando pela estrada principal. É claro que corria o risco de Clas Greve passar por ali e me ver. Mas isso não me preocupava. Primeiro, ele não reconheceria o cara careca com jaqueta preta de náilon com “Clube Ko-daw-ying de Elverum” escrito nas costas. Segundo, essa pessoa tinha um andar diferente do andar daquele Roger Brown que ele conhecera, mais lento e ereto. Terceiro, seu rastreador GPS mostrava claramente que eu ainda me encontrava nos destroços do carro e não me deslocara 1 metro sequer. Obviamente. Afinal de contas, eu estava morto. Passei por uma fazenda, mas continuei caminhando. Um carro passou por mim, reduziu a velocidade, talvez se perguntando quem eu era, mas acelerou e desapareceu na límpida luminosidade outonal. Ali no campo o cheiro era bom. Terra e capim, pinhal e esterco de vaca. As feridas no pescoço doíam um pouco, mas a rigidez no corpo me deixava à medida que eu caminhava. Eu dava passos largos, fazendo respirações profundas e revigorantes. Depois de uma meia hora de caminhada, eu ainda estava no mesmo campo interminável, mas vi uma placa azul e um abrigo ao longe. Uma parada de ônibus. Quinze minutos mais tarde subi num ônibus cinza, paguei a passagem com dinheiro da carteira de Eskild Monsen e fiquei sabendo que o ônibus ia para Elverum, de onde havia uma linha de trem até Oslo. Instalei-me num assento em frente a duas trintonas de cabelos loiros platinados. Nenhuma delas

dignou-se a olhar para mim. Cochilei, mas acordei com o som de uma sirene e a desaceleração do ônibus, que encostou à beira da estrada. Um carro da polícia com as luzes azuis acesas nos passou. A viatura 02, pensei, percebendo que uma das loiras me observava. Ao enfrentar seu olhar, notei que ela instintivamente quis desviar os olhos, que eu tinha sido direto demais, que ela me achava feio. Mas ela não conseguiu. Dei um sorriso torto e me virei para a janela.

O sol também brilhava sobre a cidade natal do antigo Roger Brown quando o novo desceu do trem às 15h10. Porém, um vento gelado soprava para dentro das bocarras abertas das mutiladas esculturas de tigres que adornavam a praça em frente à Estação Central de Oslo quando atravessei a praça na diagonal e continuei em direção à rua de Skippergata. Os traficantes e as putas da Tollbugata me olharam, mas não gritaram suas ofertas para mim como faziam com o antigo Roger Brown. Na frente da entrada do Hotel Leon, parei e olhei para a fachada cujo reboco tinha se esfarelado, deixando manchas brancas. Embaixo de uma das janelas, havia um pôster prometendo quartos a quatrocentas coroas por noite. Entrei e fui até a recepção. Ou recpeção, como estava escrito na placa pendurada sobre o homem atrás do balcão. — Pois não? — disse ele em vez do padronizado “bem-vindo” a que eu estava acostumado nos hotéis que o antigo Roger Brown frequentava. O rosto do recepcionista ostentava uma película de suor como se ele tivesse trabalhado duro. Bebido café. Ou só fosse nervoso por natureza. O olhar fugidio indicava a última opção. — Tem um quarto simples? — perguntei. — Tenho. Por quanto tempo? — Uma noite. — Inteira? Nunca entrara no Hotel Leon antes, mas já passara de carro algumas vezes e suspeitei que ofereciam quartos por hora àquelas que faziam amor de forma profissional. Ou seja, àquelas mulheres que não tinham beleza ou inteligência suficiente para usar seu corpo a fim de conseguir uma casa projetada por Ove Bang e sua própria galeria de arte em Frogner. Fiz que sim. — Quatrocentos — disse o homem. — Pagamento antecipado. — Ele tinha um sotaque sueco, daquele pelo qual os vocalistas de bandinhas de baile e os pastores evangélicos têm predileção, por alguma razão. Joguei o cartão bancário de Eskild Monsen na mesa. Por experiência, sei que os hotéis não estão nem aí para a semelhança da assinatura, mas, por via das dúvidas, tinha ensaiado uma imitação

razoável no trem. O problema era a foto. Ela mostrava um cara de queixo redondo com longos cabelos encaracolados e barba preta. Nem mesmo a baixa luz pôde esconder o fato de que não havia a mínima semelhança entre a foto e o homem que estava à frente do recepcionista, de rosto estreito e cabeça recém-raspada. Ele estudou o cartão. — Você não parece com o cara da foto — disse, sem erguer os olhos do cartão. Esperei. Até que ele fosse obrigado a erguer os olhos e encarar os meus. — Câncer — falei. — O quê? — Quimioterapia. Ele piscou três vezes. — Três sessões — acrescentei. Seu pomo de adão pulou quando engoliu. Pude ver que vacilou. Por favor! Eu tinha que me deitar numa cama logo, o pescoço doía pra caramba. Não tirei meus olhos dele. Mas ele desviou os seus de mim. — Sinto muito — disse, segurando o cartão de crédito em minha direção. — Não posso me meter em encrencas, estão de olho em mim. Você tem cash? Fiz que não. Uma nota de duzentas coroas e uma moeda de dez eram tudo o que me sobrara depois da passagem de trem. — Sinto muito — repetiu ele, esticando o braço por completo, como que numa posição suplicante, de forma que o cartão tocou meu peito. Agarrei o cartão e saí bruscamente. Não fazia sentido tentar outros hotéis, pois se não aceitavam o cartão no Leon tampouco o aceitariam em outros lugares. E na pior das hipóteses chamariam a polícia. Passei ao plano B. Eu era novo, um estranho na cidade. Sem dinheiro, sem amigos, sem passado ou identidade. As fachadas, as ruas e as pessoas que nelas andavam pareciam mais indiferentes a mim do que tinham parecido a Roger Brown. Uma fina camada de nuvens se instalara na frente do sol e a temperatura havia baixado mais alguns graus. Perto da estação de trem tive que me informar para saber qual ônibus ia até Tonsenhagen, e, quando entrei no ônibus, o motorista por algum motivo falou comigo em inglês. Entre o ponto de ônibus de Tonsenhagen e a casa de Ove, havia algumas subidas cansativas, mesmo assim eu estava sentindo frio quando finalmente passei em frente da casa. Demorei alguns minutos dando voltas na área para ter certeza de que não havia polícia na vizinhança. Depois fui rapidamente até a entrada, destranquei a porta e entrei.

Estava quente ali dentro. Aquecedores controlados por termostato e tempo. Digitei “Natasha” para desativar o alarme e entrei no cômodo que fazia as vezes de sala de estar e quarto. O cheiro era o mesmo da outra vez. Louça suja, roupa de cama sem lavar, óleo para armas e enxofre. Ove estava deitado na cama do jeito que eu o havia deixado no dia anterior. Parecia que fazia uma semana. Achei o controle remoto, me deitei na cama do lado de Ove e liguei a TV. Passei pelas notícias de teletexto, mas não havia nada sobre viaturas desaparecidas ou policiais mortos. Obviamente, a polícia de Elverum já desconfiava de algum problema e teria iniciado uma busca, mas provavelmente queriam esperar o máximo possível antes de divulgar o desaparecimento de uma viatura, caso tudo não passasse de um engano banal. No entanto, mais cedo ou mais tarde eles encontrariam a viatura. Quanto tempo levaria para que descobrissem que o cadáver de moletom verde e sem as pontas dos dedos não era o detido Ove Kjikerud? No mínimo, um dia. No máximo, dois. Eram coisas sobre as quais eu naturalmente não tinha a mínima noção. E o novo Roger Brown tampouco sabia algo sobre os procedimentos da polícia, mas pelo menos entendia o que a situação exigia: tomar decisões firmes baseadas em informações incertas, agir com risco em vez de titubear até que fosse tarde demais, e permitir a dose certa de medo para aguçar os sentidos, mas sem deixar que o paralisasse. Por isso fechei os olhos e dormi. Quando acordei o noticiário dizia que eram 20h03. Nas últimas notícias havia a informação de que pelo menos quatro pessoas, entre as quais três policiais, morreram num acidente de carro nos arredores de Elverum. O desaparecimento da viatura fora informado hoje de manhã e os destroços encontrados hoje à tarde num matagal perto do rio Trekkelva. Uma quinta pessoa, também policial, estava desaparecida. De acordo com a investigação, ele possivelmente teria sido lançado para fora do carro e caído no rio, onde já foi iniciada uma busca. A polícia pediu ao público informações sobre o motorista de uma carreta roubada com a inscrição “Cozinhas Sigdal”, encontrada estacionada numa estrada florestal a 20 quilômetros do local do acidente. Ao se darem conta de que o desaparecido era Kjikerud, mais cedo ou mais tarde viriam para cá. Eu precisava encontrar outro lugar para dormir esta noite. Respirei fundo. Depois me inclinei sobre o cadáver de Ove, peguei o telefone na mesa de cabeceira e disquei o único número que eu sabia de cor. Ela atendeu no terceiro toque. Em vez de seu costumeiro “Olá” tímido, mas caloroso, Lotte respondeu com um “sim?” quase inaudível. Desliguei imediatamente. Tudo o que eu queria saber era se ela estava em casa. Com sorte, ela ainda estaria mais tarde esta noite. Desliguei a TV e me levantei. Depois de procurar por dois minutos, achei duas pistolas, uma no armário do banheiro e uma

espremida atrás da TV. Escolhi a pequena pistola preta de trás da TV e fui até a gaveta da cozinha, de onde tirei duas caixas, uma com munição carregada e uma rotulada blanks. Enchi a câmara com balas, carreguei a pistola e a travei. Depois enfiei a pistola no cós da calça do jeito que vi Clas Greve fazer. Entrei no banheiro e devolvi a primeira pistola. Depois de fechar a porta do armário, fiquei observando minha própria imagem no espelho. O formato fino e as linhas marcantes do rosto, a nudez brutal da cabeça, o brilho intenso, quase febril do olhar, e a boca, descontraída e determinada, calada e expressiva. Não importava onde eu acordasse amanhã de manhã, seria com um homicídio na consciência. Homicídio premeditado.

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Homicídio premeditado

Estou andando na minha própria rua. Na escuridão noturna, fico embaixo de um arvoredo olhando para minha própria casa, para as luzes da janela, para um movimento perto das cortinas que talvez seja minha esposa. Um vizinho passa caminhando com seu setter inglês e olha para mim, vendo um estranho numa rua onde a maioria se conhece. O homem desconfia, o setter rosna baixinho, o faro dos dois lhes diz que eu detesto cães. Pois os animais, assim como os seres humanos, se mantêm unidos contra intrusos e alheios aqui no topo da colina onde se entrincheiraram, muito acima da confusão da cidade e seu emaranhado de interesses e planos. Aqui em cima eles só querem que as coisas continuem do jeito que estão, pois as coisas vão bem, tudo está bem, as cartas não devem ser redistribuídas. Não, deixe os ases e os reis nas mãos em que estão, a incerteza prejudica a confiança dos investidores, a estabilidade das condições estruturais garante a produtividade, que, por sua vez, beneficia a sociedade. É preciso criar algo antes de distribuí-lo. É estranho pensar que a pessoa mais politicamente conservadora que já conheci era um motorista cujo trabalho se resumia a transportar pessoas que ganhavam quatro vezes mais do que ele e o tratavam com aquela condescendência que apenas a polidez mais impecavelmente correta consegue exprimir. Certa vez papai disse que se eu virasse socialista não seria mais bem-vindo em sua casa, e a mesma coisa se aplicava a minha mãe. Verdade que não estava sóbrio ao falar isso, mas era mais uma razão para supor que aquilo deveria ser interpretado ao pé da letra. Ele acreditava que o sistema de castas na Índia tinha lá suas vantagens e que nós, de acordo com a vontade de Deus, nascíamos dentro da nossa condição social, sendo nossa maldita obrigação passar nossas miseráveis vidas ali mesmo. Ou, como responde o sacristão do romance A quarta vigília da noite à sugestão do padre Sigismund de que se tratem por “tu”, “Sacristão é sacristão. E padre é padre”.

Portanto, minha revolta, a revolta do filho do motorista, foram os estudos, a filha de um homem rico, os ternos da Ferner Jacobsen e a casa no bairro elegante de Voksenkollen. Não deu certo. Pois meu pai teve a impertinência de me perdoar, sendo tão esperto que até se fingiu de orgulhoso. E eu sabia, ao soluçar feito uma criança no enterro, que não estava chorando a morte de minha mãe, senão sentindo raiva de meu pai. O setter e o vizinho (estranho, não me lembrava mais como ele se chamava) foram engolidos pela escuridão e atravessei a rua. Nenhum carro desconhecido estava estacionado ali, e, ao apertar meu rosto contra o vidro da garagem, vi que ela também se encontrava vazia. Esgueirei-me rapidamente para dentro do negrume cru, quase palpável, do jardim e me posicionei sob as macieiras, onde sabia que ninguém me enxergaria da sala. Mas eu conseguia vê-la. Diana estava andando de um lado para o outro. Os movimentos impacientes e o telefone Prada grudado em seu ouvido me fizeram supor que ela estava tentando ligar para alguém que não atendia. Ela estava usando calça jeans. Ninguém vestia jeans como Diana. Apesar de estar com uma blusa de lã branca, ela apertava o braço livre sobre o peito como se estivesse com frio. Se há uma queda brusca de temperatura, as casas grandes construídas na década de 1930 demoram a aquecer, não importando quantos aquecedores sejam instalados. Esperei até ter certeza absoluta de que ela estava sozinha. Verifiquei que a pistola estava na cintura da calça. Respirei fundo. Isso seria a coisa mais difícil que eu já fizera. Mas sabia que conseguiria fazêlo. O novo eu conseguiria. Talvez tenha sido por isso que as lágrimas vieram, porque o desfecho já era certo. Deixei as lágrimas correrem soltas. Escorriam como carícias cálidas pela face enquanto eu me concentrava em ficar quieto, não aspirar o ar descontroladamente, não soluçar. Depois de cinco minutos, eu estava vazio e enxuguei as bochechas. Em seguida, apressei-me até a porta da entrada, destrancando-a sem fazer barulho. Do lado de dentro, no hall de entrada, fiquei parado à escuta. Era como se a casa estivesse prendendo a respiração, a única coisa a quebrar o silêncio eram os estalidos dos passos dela no assoalho da sala lá em cima. E logo eles também findariam. Eram 22 horas e, atrás da porta entreaberta, vislumbrei um rosto pálido e um par de olhos castanhos. — Posso dormir aqui? — perguntei. Lotte não respondeu. Não era seu costume. Mas ela fitou os olhos em mim como se eu fosse um fantasma. Também não era seu costume fitar os olhos em ninguém nem parecer assombrada. Ensaiei um sorriso torto e passei a mão pela cabeça lisa. — Me livrei de… — procurei a palavra — … tudo. Ela piscou duas vezes. Então abriu a porta e eu entrei rapidamente.

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Ressurreição

Acordei e olhei para o relógio. Eram 8 horas. Estava na hora de começar. Eu tinha pela frente o que chamam de um grande dia. Lotte estava deitada de lado com as costas viradas para mim, embrulhada nos lençóis que ela preferia ao edredom. Do meu lado da cama, deslizei para fora e me vesti depressa. Estava um frio do cão, e eu me senti congelando. Fui até o corredor na ponta dos pés, coloquei a jaqueta, o gorro e as luvas e entrei na cozinha. Em uma das gavetas encontrei um saco plástico que enfiei no bolso da calça. Ao abrir a geladeira, pensei que era meu primeiro dia acordando como assassino. Um homem que tinha atirado numa mulher. Parecia algo saído dos jornais, um caso daqueles pelos quais eu passava por cima, já que histórias assim eram sempre dolorosas e banais. Tirei uma caixa de suco de toranja cor-de-rosa e estava a ponto de colocá-la na boca. Mas mudei de ideia e peguei um copo do guarda-louça. Não é preciso deixar tudo desabar só porque você cometeu um assassinato. Depois de esvaziar o copo, enxaguá-lo e colocar o suco de volta na geladeira, fui para a sala e me sentei no sofá. A pequena pistola preta que estava no bolso da jaqueta pinicava minha barriga, e eu a peguei. Ela ainda cheirava, e eu sabia que aquele cheiro me lembraria para sempre do que fiz. Da execução. Um tiro tinha sido o suficiente. À queima-roupa, no momento em que ela ia me abraçar. Eu tinha atirado em meio àquele abraço e a atingido no olho esquerdo. Será que era intencional? Talvez. Talvez eu quisesse lhe tirar algo, assim como ela tentara me tirar tudo. E aquela mentirosa traiçoeira abraçou o chumbo, a bala fálica a penetrou assim como eu já a penetrara. Nunca mais. Agora ela estava morta. Os pensamentos vinham assim, em frases curtas, constatando fatos. Bem, eu precisava continuar a pensar assim, manter a frieza, não dar brecha às emoções. Ainda tinha algo a perder. Ergui o controle remoto e liguei a TV. Não tinha nenhuma novidade no teletexto, a redação não deveria estar de plantão tão cedo. Ainda passava a notícia dos quatro corpos que seriam identificados

durante o dia de amanhã, ou seja, hoje, e que uma pessoa ainda estava desaparecida. Uma pessoa. Mudaram a informação de que era “um policial”, não foi? Será que isso significava que já estavam cientes de que o desaparecido era o detido? Talvez sim, talvez não, não havia qualquer menção de alguém sendo procurado pela polícia. Inclinei-me sobre o braço do sofá e agarrei o fone amarelo do telefone fixo de Lotte, aquele que eu sempre imaginara perto de seus lábios vermelhos quando eu ligava. A ponta de sua língua bem perto de meu ouvido enquanto ela os molhava. Disquei 1881, pedi dois números e interrompi a telefonista tão logo ela disse que eu ouviria uma gravação: — Gostaria de ouvir os dois números de você pessoalmente em caso de eu ter alguma objeção contra a inteligibilidade da fala — declarei. Recebi os dois números, memorizei-os e pedi que me transferisse para o primeiro. A central telefônica da Polícia Judiciária atendeu no segundo toque. Eu me apresentei como Runar Bratli e disse que era um parente de Endride e Eskild Monsen, a família me pedira que buscasse as roupas deles. Mas ninguém tinha dito onde eu deveria comparecer, nem a quem me dirigir. — Um momento — disse a telefonista, que me colocou na espera. Escutei uma versão surpreendentemente boa na flauta de Pã de “Wonderwall” e pensei em Runar Bratli. Ele era um candidato que eu uma vez deixara de recomendar para um cargo executivo, embora sem dúvida fosse o mais bem qualificado. Além de alto. Tão alto que, durante a última entrevista, ele reclamara de ser obrigado a ficar curvado na sua Ferrari, um investimento que ele, com sorriso de moleque, admitiu ter sido um capricho infantil, certamente coisa da crise dos 40 ou algo assim. E eu tinha anotado: Aberto, autoconfiança suficiente para expor sua própria tolice. Em outras palavras, tudo tinha corrido de acordo com o manual. Com a exceção do comentário que ele soltou a seguir: “Quando bato a cabeça no teto do carro, quase que tenho invej…” Ele tinha cortado a frase ali, transferido o olhar para um dos representantes do cliente e continuado com alguma coisa sobre trocar a Ferrari por um daqueles utilitários, que a gente deixa a esposa dirigir. Todos em torno da mesa deram risada. Eu também. E não revelei com o menor gesto que tinha completado a frase dele “… inveja de você que é tão baixinho”. E eu acabara de riscá-lo da recomendação. Infelizmente, ele não possuía nenhuma obra de arte interessante. — As roupas estão no Instituto Médico-Legal. — Era a voz da telefonista outra vez. — Quero dizer, no Hospital Universitário em Oslo. — É? — falei, tentando não exagerar a ingenuidade. — Por quê? — É rotina quando há suspeita de crime. Parece que a viatura foi atropelada pela carreta. — Entendi — falei. — Deve ser por isso que pediram minha ajuda. Eu moro em Oslo, sabe? — A mulher não respondeu. Eu podia imaginá-la revirando os olhos e tamborilando as unhas compridas, cuidadosamente pintadas, no tampo da mesa. Mas é claro que eu poderia estar errado. Ser headhunter

não significa necessariamente ser conhecedor da natureza humana ou ter aptidão especial para a empatia. Pelo contrário, acho que para quem quiser chegar ao topo nesse ramo isso pode ser uma desvantagem. — Você poderia avisar à pessoa certa do Instituto Médico-Legal que estou a caminho? — perguntei. — Como já disse, meu nome é Runar Bratli. Percebi sua hesitação. Obviamente, a tarefa não constava de sua descrição de cargo. As descrições de cargo no setor público geralmente são um lixo, posso garantir, pois as leio toda hora. — Não tenho nada a ver com isso, só estou ajudando — acrescentei. — Por isso espero que alguém me receba e eu possa acabar logo com essa história. — Vou tentar — disse ela. Desliguei e disquei o segundo número. Atenderam no quinto toque. — Pois não? — A voz soava impaciente, quase irritada. Pelos ruídos de fundo, tentei identificar onde ele estava. Na minha casa ou em seu próprio apartamento. — Bu! — falei e desliguei. E com isso Clas Greve tinha sido alertado. Eu não sabia o que ele faria, mas pelo menos ligaria seu GPS para verificar onde o fantasma se encontrava. Voltei para o vão da porta. Na escuridão do quarto mal enxerguei o contorno do corpo dela debaixo do lençol. Resisti a um impulso súbito: tirar a roupa, me enfiar embaixo dos lençóis outra vez, me aconchegar ao corpo dela. Em vez disso, tive uma estranha sensação de que tudo que havia acontecido não tinha nada a ver com Diana, mas comigo. Fechei silenciosamente a porta do quarto e saí. Assim como quando cheguei, não encontrei ninguém na escada a quem dizer “bom dia” ou “boa noite”. Ao sair na rua, tampouco vi alguém retribuir meus acenos amigáveis com a cabeça, ninguém olhou para mim ou confirmou minha existência de qualquer outra forma. Eu me dei conta de que a sensação era esta: eu não existia. Estava na hora de tornar a existir. O Hospital Universitário fica numa das suaves colinas de Oslo, elevado sobre a cidade. Antes de sua construção, havia apenas um pequeno manicômio no local, nome que foi trocado para “estabelecimento para os doentes mentais”. Depois para “hospício” e a seguir para “clínica psiquiátrica”. E assim por diante, à medida que as pessoas comuns entendiam que o novo termo também se referia à loucura pura e simples. Pessoalmente, nunca entendi esse jogo de palavras, mas os que decidem isso devem acreditar que as pessoas em geral são um bando de idiotas preconceituosos e devem ser enganadas na medida do possível. Não que não possam ter razão, mas foi um alívio ouvir a mulher atrás da parede de vidro dizer: — Você vai descer até o porão dos cadáveres, Bratli.

Pelo visto, ser cadáver não é problema. Ninguém chama a atenção para o ultraje de ser chamado de cadáver, para o fato de que, apesar de tudo, uma pessoa morta possui outras qualidades além de estar morta, e que a palavra cadáver a reduz a um pedaço de carne em que o coração por acaso não bate mais. E daí? Ou talvez seja porque os cadáveres não podem reivindicar status de minoria, já que representam uma infeliz maioria. — É só descer a escada ali — disse ela, apontando. — Vou ligar para lá e dizer que está chegando. Segui sua orientação. Meus passos ressoavam entre as paredes brancas e vazias; fora isso, o lugar era muito silencioso. Ali, no fundo de um longo corredor branco e estreito do andar de baixo, havia um homem vestido de roupa verde de hospital, com um dos pés dentro de uma porta aberta. Ele poderia ser um cirurgião, mas algo em sua postura exageradamente relaxada, ou talvez o bigode, me disse que pertencia às camadas mais baixas da hierarquia. — Bratli? — gritou ele tão alto que parecia uma ofensa consciente contra os que estavam dormindo naquele andar. O eco ribombava alarmante para a frente e para trás no corredor. — Sou eu — respondi, me apressando até ele para que não houvesse necessidade de mais gritaria. Ele segurou a porta aberta para mim e eu entrei. Era um tipo de vestiário. O homem foi à minha frente até um armário e o abriu. — Ligaram da Polícia Judiciária dizendo que você viria buscar as coisas dos rapazes Monsen — disse ele, ainda com aquele vozeirão desmedido. Fiz que sim com a cabeça. Meu pulso batia mais forte do que eu esperava. Mas não tão forte quanto temia. Afinal, essa era uma fase crítica, o ponto fraco do plano. — E quem é você? — Primo de terceiro grau — falei suavemente. — Os parentes próximos me pediram que buscasse as roupas dos dois. Só as roupas, não os objetos de valor. Com cuidado, eu tinha escolhido a expressão “parentes próximos”. É certo que poderia soar excessivamente cerimonioso, mas, já que não sabia se os gêmeos Monsen eram casados ou tinham pais vivos, teria de usar uma expressão genérica que cobrisse todas as possibilidades. — Por que a própria Sra. Monsen não vai levar a roupa? — perguntou o assistente. — Afinal, ela está vindo para cá por volta do meio-dia. Engoli em seco. — Não deve aguentar a ideia de todo aquele sangue. Ele sorriu ironicamente. — Mas você aguenta? — Aguento — falei simplesmente, torcendo para que não houvesse mais perguntas. O assistente deu de ombros e estendeu uma folha fixada a uma prancheta. — Assine para a entrega aqui. Rabisquei um “R” com uma linha ondulada atrás, seguido de um “B” com uma ondinha igual e um

pingo final em cima do “i”. O assistente olhou pensativo para a assinatura. — Você tem uma carteira de identidade, Bratli? Eu temera isso. O plano estava rangendo nas juntas. Dei um tapinha nos bolsos da calça e estampei um sorriso de desculpas no rosto. — Parece que deixei a carteira no carro, lá embaixo, no estacionamento. — Você não quer dizer lá em cima? — Não, lá embaixo. Estou no Centro de Pesquisas. — Tão longe assim? Vi sua hesitação. Naturalmente eu tinha previsto esse cenário. Se eu fosse instruído a buscar a carteira de identidade, eu simplesmente sairia sem retornar. Nenhum desastre, mas não teria alcançado o objetivo de minha ida até ali. Aguardei. E as primeiras duas palavras já me indicaram que a decisão tinha sido contrária aos meus interesses. — Sinto muito, Bratli, mas temos que ser precavidos. Não me leve a mal, mas casos de homicídio atraem um monte de indivíduos esquisitos. Com interesses muito estranhos. Eu me fingi de surpreso. — Você quer dizer que… que tem gente que faz coleção de roupas de pessoas assassinadas? — Você nem imagina o que as pessoas são capazes de inventar — disse ele. — Ao que eu saiba, você nunca viu os Monsen, só leu sobre o caso no jornal. Desculpe, mas precisamos parar por aqui. — Tudo bem, logo estarei de volta — declarei, indo em direção à porta. Onde parei como se tivesse me lembrado de algo e joguei minha última carta. Mais precisamente: o cartão de crédito. — Agora estou me lembrando — falei, colocando a mão no bolso de trás da calça. — A última vez que Endride me visitou, ele esqueceu comigo seu cartão de crédito. Talvez você possa entregá-lo à mãe dele quando ela vier… Estendi o cartão ao assistente, que o recebeu olhando para o nome e a foto do jovem barbudo. Não me apressei, mas estava prestes a sair pela porta quando finalmente ouvi sua voz atrás de mim: — Para mim, está bom, Bratli. Olha aqui, pode levar as coisas. Eu me virei, aliviado. Peguei o saco plástico que tinha trazido no bolso da calça e soquei a roupa ali dentro. — Pegou tudo? Apalpei o lado de fora dos bolsos de trás da calça do uniforme de Endride. Senti que ainda estava ali, o saco plástico com meu cabelo raspado. Fiz que sim. Tive que me controlar para não correr ao sair dali. Eu tinha ressuscitado, já existia outra vez, e aquilo criou um estranho júbilo interno. As rodas giravam de novo, o coração batia, o sangue e o destino circulavam. Subi a escada aos saltos, passei a mulher atrás da parede de vidro com passos leves e estava com a mão na maçaneta da porta quando ouvi uma voz conhecida atrás de mim.

— Olá, Mister! Espere aí! Claro. Tinha sido fácil demais. Eu me virei lentamente. Um homem, também conhecido, vinha em minha direção. Ele segurou um crachá de identificação. A paixão secreta de Diana. E eu pensei o pensamento herético: Estou frito. — Polícia Judiciária — anunciou o homem com voz grave de comandante de avião. Ruído esférico, interrupções do sinal de áudio. — Posso conversar um pouco com o senhor? — Como uma máquina de datilografia com uma letra desgastada. Dizem que inconscientemente formamos uma imagem das pessoas que vemos em filmes ou na TV como sendo maiores do que são na vida real. Isso não era o caso de Brede Sperre. Ele era ainda maior do que eu havia imaginado. Eu me forcei a ficar parado enquanto ele se aproximou de mim. Logo ele se avultou sobre mim. De lá do alto, sob uma cabeleira loira com jeito de moleque, cortada e domada para parecer naturalmente revolta, um par de olhos cor de aço olhava para baixo, para mim. Uma das coisas que eu sabia sobre Sperre era que ele teria tido um caso com um político norueguês, muito conhecido e muito masculino. É claro que boatos de homossexualidade são a prova conclusiva de que uma pessoa se tornou celebridade, o próprio selo de autenticidade, por assim dizer. Mas acontece que quem me contara isso, um dos modelos masculinos do barão Von Bulldog que tinha implorado até conseguir entrar nos vernissages de Diana, alegou que ele próprio se deixara sodomizar pelo “deus da polícia”, como ele reverentemente o tinha chamado. — Pode falar — falei com um sorriso rígido, esperando que a fobia de penetração não se revelasse em meus olhos. — Muito bem, Mister, acabo de ouvir que o senhor é primo de terceiro grau dos rapazes Monsen e os conhece bem. Talvez o senhor possa nos ajudar a identificar os corpos? Engoli em seco. O modo de tratamento respeitoso e o “Mister” meio jocoso na mesma frase. Mas o olhar de Sperre era neutro. Será que estava brincando o jogo de status ou ele só o fazia automaticamente, quase como um reflexo profissional? Ouvi minha própria voz gaguejante repetir “identificar?” como se o conceito fosse completamente desconhecido para mim. — A mãe deles estará aqui em algumas horas — disse Sperre. — Mas o tempo que conseguirmos economizar… Apreciaríamos sua ajuda, vai só demorar alguns segundos. Eu não queria. Meu corpo resistia e meu cérebro exigia que eu me recusasse e me mandasse dali. Pois eu tinha sido restituído à vida. Eu, quero dizer, o saco plástico com cabelo que eu estava carregando, era uma pessoa que tinha tornado a se movimentar no receptor GPS de Clas Greve. Era só uma questão de tempo antes de ele retomar a caça, eu já podia farejar o cheiro do cão no ar, sentir o pânico se alojar. Mas outra parte do meu cérebro, aquela que tinha a voz do novo eu, falava que eu não podia me recusar. Que isso despertaria suspeitas. Que só demoraria alguns segundos. — Claro — falei prestes a sorrir antes de me lembrar que seria interpretado como uma reação imprópria diante da tarefa de identificar os próprios parentes.

Voltamos pelo mesmo caminho pelo qual eu tinha chegado. O assistente me acenou com um riso galhofeiro quando passamos pelo vestiário. — O senhor deve se preparar, pois os falecidos estão em péssimo estado — disse Sperre, abrindo uma pesada porta de metal. Entramos no necrotério. Senti calafrios. Tudo naquela sala fazia lembrar uma geladeira: paredes, teto e piso brancos, alguns poucos graus acima de zero e cheiro de carne que passara da data de validade. Os quatro cadáveres estavam numa fileira, cada um sobre uma mesa metálica. Os pés despontavam dos lençóis brancos e constatei que as convenções do cinema tinham um fundamento na realidade; de fato, havia uma plaquinha de metal amarrada no dedão de cada um. — Pronto? — perguntou Sperre. Fiz que sim. Ele arrancou dois dos lençóis, com a rapidez e elegância de um mágico. — Acidentes de trânsito — disse o policial balançando sobre os calcanhares. — A pior coisa. Difícil de identificar, como você pode ver. — De repente, me veio uma vaga impressão de que Sperre estava falando excepcionalmente devagar. — Era para ter cinco pessoas no carro, mas só encontramos estes quatro corpos. Provavelmente o quinto caiu no rio e foi levado embora pela água. Fitei os olhos neles, engoli em seco e respirei com dificuldade pelo nariz. Fingindo, é claro. Pois mesmo nus, os gêmeos Monsen tinham um aspecto melhor agora do que tiveram nos destroços do carro. Além disso, não fedia aqui dentro. Não cheirava a fezes gasosas, não havia qualquer odor de sangue e gasolina ou fedor de tripas humanas. Tinha ficado claro para mim que as impressões visuais são superestimadas, que os sons e os cheiros aterrorizam os sentidos de maneira muito mais eficaz. Por exemplo, o estalido quando o crânio de uma mulher morta, que acaba de levar um tiro no olho, atinge o assoalho. — São os gêmeos Monsen — sussurrei. — Pois é, até aí conseguimos chegar à mesma conclusão. A questão é… Sperre fez uma longa — realmente longa — e calculada pausa. Meu Deus. — Qual deles é Endride e qual é Eskild? Apesar da temperatura invernal da sala, eu estava molhado de suor por baixo da roupa. Será que ele estava falando tão devagar de propósito? Será que era um novo método de interrogatório que eu não conhecia? Meus olhos passaram sobre os corpos despidos e encontraram a marca que eu deixara. A ferida que se estendia das costelas e sobre a barriga ainda estava aberta e tinha crostas negras de sangue nas bordas. — Este é Endride — afirmei, apontando. — O outro é Eskild. — Hum — murmurou Sperre contente e fazendo anotações. — O senhor deve ter conhecido os gêmeos muito bem. Nem os colegas deles que estiveram aqui conseguiram distinguir um do outro.

Respondi com um gesto triste. — Éramos muito próximos. Sobretudo ultimamente. Posso ir embora agora? — Com certeza — disse Sperre, mas continuou fazendo anotações de um modo que não era exatamente um convite para eu sair sem mais nem menos. Olhei para o relógio atrás de sua cabeça. — Gêmeos idênticos — disse Sperre e continuou escrevendo. — Irônico, não é? — O que aquele filho da puta estava escrevendo? Um era Endride, o outro Eskild, quantas palavras eram necessárias afinal para descrever isso? Eu sabia que deveria evitar fazer qualquer comentário, mas não me contive: — O que é irônico? Sperre parou de escrever e ergueu os olhos. — Nascidos no mesmo segundo do mesmo ovo. Mortos no mesmo segundo no mesmo carro. — Não há ironia nisso, há? — Não? — Nenhuma que eu possa ver. — Hum. Você tem razão. “Paradoxo” deve ser a palavra que eu estava procurando. — Sperre sorriu. Senti o sangue começar a ferver. — Tampouco há qualquer paradoxo nisso. — Mas pelo menos é estranho. Tem certa lógica cósmica, não acha? Perdi o controle, vi os nós dos dedos empalidecerem quando apertei o saco plástico, e ouvi minha voz tremer: — Nenhuma ironia, nenhum paradoxo, nenhuma lógica cósmica. — O volume aumentou. — Só uma simetria aleatória de vida e morte que nem é tão aleatória, já que eles, assim como tantos outros gêmeos idênticos, optavam por passar muito tempo em proximidade imediata um do outro. Um raio caiu, eles estavam juntos. Ponto final. A última parte eu quase gritei. Sperre me olhou com ar pensativo. Ele tinha colocado o indicador e o polegar em cantos opostos da boca e agora os passou pelo queixo. Conheci aquele olhar. Ele era um dos poucos. Ele tinha o olhar do interrogador, o olhar capaz de detectar mentiras. — Bem, Bratli — disse ele. — Há algo o incomodando? — Sinto muito — falei, dando um sorriso murcho e sabendo que precisava dizer alguma verdade agora, algo que não seria registrado pelo detector de mentiras que me fitava no rosto. — Tive uma briga com minha mulher ontem à noite, e agora esse acidente. Estou um pouco fora de mim. Sinto muito mesmo. Agora vou me retirar daqui. Dei meia-volta e saí. Sperre disse alguma coisa, talvez uma palavra de despedida, mas ela foi ofuscada pela porta de metal

batendo atrás de mim e emitindo um tom grave que ressoou pela sala.

21

Convite

Na parada do Hospital Universitário subi no bonde, paguei o condutor em dinheiro e disse “até o centro”. Ele deu um sorriso torto enquanto me dava troco; provavelmente o preço seria o mesmo qualquer que fosse meu destino final. É claro que eu tinha viajado de bonde antes, quando era pequeno, mas não me lembrava muito bem dos procedimentos. Sair pela porta de trás, manter o bilhete pronto para inspeção, apertar o botão de parar com antecedência, não perturbar o condutor. Muitas coisas mudaram. O barulho dos trilhos era menos ruidoso e as propagandas nas paredes, mais ruidosas e extrovertidas. As pessoas nos assentos, mais introvertidas. No centro, troquei de meio de transporte, pegando um ônibus que me levou na direção nordeste. Fui informado de que podia usar o passe do bonde. Fantástico. Por uma mixaria eu navegava pela cidade de uma maneira que não sabia ser possível. Eu estava em movimento. Um pontinho que piscava no dispositivo GPS de Clas Greve. Era como se eu fosse capaz de sentir sua confusão: que porra está acontecendo, estão deslocando o cadáver? Saí do ônibus em Årvoll e comecei a subir as ladeiras em direção a Tonsenhagen. Poderia ter descido mais perto da casa de Ove, mas tudo o que eu fazia agora era proposital. Nessas áreas residenciais, reinava a tranquilidade da manhã. Uma velhinha corcunda tropeçava pela calçada, puxando uma mala de rodinhas rangendo sem lubrificação. Mesmo assim, ela sorriu para mim como se o dia fosse lindo, o mundo, maravilhoso, e a vida, bela. O que será que Clas Greve estava pensando agora? Que um carro fúnebre deveria estar transportando Brown até a casa de sua infância ou coisa parecida? Mas que porra de lentidão repentina era essa, será que havia um congestionamento? Duas “aborrescentes”, com maquiagem pesada e mascando chiclete, com mochilas e calças apertadas que empurravam o problema da obesidade para cima e para a frente, estavam vindo em minha direção.

Elas me fuzilaram brevemente com os olhos, mas não pararam de falar em voz alta sobre algo que pelo visto as indignava. No momento em que passei por elas, peguei a frase: “injusto, velho!” Meu palpite era que elas estavam matando aula, indo para uma confeitaria em Årvoll, e que a injustiça não se referia ao fato de que 80 por cento dos jovens da mesma idade não tinham dinheiro para comprar os pães doces de creme de baunilha e uvas-passas que elas logo devorariam. E me ocorreu que, se Diana e eu tivéssemos tido o bebê daquela vez, ela — eu estava convencido de que era uma menina, não importando que Diana já o chamasse de Eyolf — um dia teria me encarado exatamente com aqueles olhos cheios de rímel e gritado que era injusto, velho, que ela e a amiga queriam viajar para Ibiza porque, afinal de contas, elas já estavam no ensino médio! E que eu… acredito que eu teria aguentado isso. A rua passava por um parque com um laguinho no meio e eu peguei um dos caminhos de terra que levavam a um bosque do outro lado. Não porque se tratava de um atalho, mas para que o pontinho no GPS de Greve se deslocasse fora das ruas do mapa. Cadáveres podem ser transportados por carros, mas não se movimentam fora das estradas. Seria a confirmação da suspeita plantada na mente do caçador de cabeças holandês sobre minha ligação hoje de manhã, feita do apartamento de Lotte: que Roger Brown tinha ressuscitado dos mortos. Que Brown não tinha ficado imóvel no necrotério do Hospital Universitário assim como aparecia no GPS, mas provavelmente numa cama de hospital no mesmo prédio. Mas não anunciaram no noticiário que todos os que estavam no carro faleceram, como…? Talvez a empatia não seja meu forte, mas sou um bom juiz de inteligência, tão bom que sou chamado para contratar os altos executivos das maiores empresas da Noruega. Por isso, enquanto estava contornando o laguinho, passei mentalmente pelo provável raciocínio de Clas Greve naquele exato momento. Era simples. Ele tinha de ir atrás de mim, precisava me despachar, ainda que isso agora envolvesse um risco muito maior do que antes. Pois eu não era mais alguém que só poderia impedir os planos da HOTE de assumir o controle da Pathfinder, eu era uma testemunha capaz de metê-lo na cadeia pelo assassinato de Sindre Aa. Isto é, se eu vivesse tempo suficiente para o caso ser levado ao tribunal. Em resumo, eu lhe enviara um convite que ele não podia recusar. Eu tinha chegado ao outro lado do parque, e, ao cruzar o aglomerado de bétulas, passei os dedos pela fina casca branca que se soltava, pressionando-os levemente contra a robustez do tronco, curvando-os de forma que as unhas raspavam sobre a superfície. Cheirei as pontas dos dedos, parei, fechei os olhos e aspirei o perfume enquanto lembranças da infância, brincadeiras, risadas, admiração, alegre assombração e descobertas invadiram minha mente. Todas as pequenas coisas que eu pensava ter perdido, mas que obviamente estavam ali, encapsuladas; elas não desapareceram, eram filhos da água. O velho Roger Brown não fora capaz de reencontrá-las, mas o novo seria. Quanto tempo o novo viveria? Não muito. Mas não havia problema, ele viveria suas últimas horas com intensidade muito maior do que o velho vivera todos os seus 35 anos.

Eu estava com calor quando finalmente avistei a casa de Ove Kjikerud. Fui até a orla da floresta e me sentei num cepo de onde tinha uma boa visão da rua com as casas geminadas e os prédios residenciais. E constatei que as pessoas da zona leste não têm uma vista tão diferente dos habitantes da zona oeste. Todos víamos o prédio dos Correios e o Hotel Plaza. A cidade não parecia nem mais feia nem mais bonita. A única diferença era que daqui se via a zona oeste. O que me fez pensar naquilo que os críticos disseram quando Gustave Eiffel construiu sua famosa torre para a Exposição Universal de Paris, em 1889: que a vista mais bonita de Paris era da Torre Eiffel, porque era o único lugar de onde não se via a Torre Eiffel. E pensei que ser Clas Greve talvez fosse assim, que para ele o mundo deveria parecer um lugar um pouco menos horroroso. Porque ele não podia ver a si próprio através dos olhos das outras pessoas. Através dos meus, por exemplo. Eu o via. E eu o odiava. Odiava-o com uma força e intensidade tão espantosas que quase me assustavam. Mas não era um ódio turvo, pelo contrário, era um ódio puro, sincero, quase inocente, assim como imagino que os cavaleiros das cruzadas devem ter odiado os ímpios. E por isso eu era capaz de sentenciar Greve à morte com o mesmo ódio deliberado e ingênuo do devoto cristão americano que manda seu próximo, assassino condenado, ao abate. E, sob muitos aspectos, esse ódio era um sentimento esclarecedor. Por exemplo, ele me fez compreender que meu sentimento em relação ao meu pai não era ódio. Raiva? Sim. Desprezo? Talvez. Compaixão? Com certeza. E por quê? Por motivos diversos. Mas agora vi que, no fundo, a causa da minha raiva era que eu me sentia como ele, eu tinha a propensão para me tornar exatamente igual a ele: um espancador de esposa beberrão e sem dinheiro que pensava que o leste era o leste e nunca poderia se tornar o oeste. E agora eu havia me transformado nele, definitiva e plenamente. O riso borbulhava dentro de mim, e eu não fiz nada para estancá-lo. Não antes que ele ressoasse entre os troncos das árvores, um pássaro decolasse de um galho acima de mim e eu visse um carro subindo pela estrada. Um Lexus GS 430. Ele chegou mais rápido do que eu esperava. Eu me pus em pé depressa e desci até a casa de Ove Kjikerud. Quando estava no topo da escada, prestes a inserir a chave na fechadura, olhei para minha mão. O tremor era quase imperceptível, mas eu o vi. Eram os instintos, o medo primordial. Clas Greve é o tipo de animal que inspira medo nos outros animais. Acertei o buraco da fechadura na primeira tentativa. Virei a chave, abri a porta e me apressei a entrar. Ainda não havia cheiro. Eu me sentei na cama, empurrando meu corpo para trás até estar encostado à cabeceira e à janela. Verifiquei que o edredom cobria Ove, que estava deitado do meu lado. Esperei. Os segundos tiquetaqueavam. E o coração. Dois batimentos cardíacos por segundo.

Não é preciso dizer que Clas Greve era cauteloso. Ele queria certificar-se de que eu estava sozinho. E, mesmo que estivesse sozinho, a essa altura ele sabia que eu não era tão inofensivo como ele tinha pensado no início. Primeiro, era provável que eu estivesse envolvido no sumiço de seu cão. Segundo, ele deveria ter ido até lá, visto o corpo dela, e agora sabia que eu era capaz de matar. Não ouvi a porta se abrir. Não ouvi seus passos. Só vi que ele de repente estava na minha frente. A voz era suave e o sorriso pedia desculpas sinceras: — Me desculpe por entrar sem pedir licença, Roger. Clas Greve estava vestido de preto. Calça preta, sapatos pretos, blusa preta de gola alta, luvas pretas. Na cabeça, um gorro de lã preto. A única coisa que não era preta era a Glock prateada. — Sem problemas — falei. — É horário de visita.

22

Filme mudo

Dizem que a percepção de tempo da mosca, a razão por que ela percebe a palma de uma mão que se precipita em sua direção como entediantemente lenta, é que a informação que recebe pelos olhos multifacetados lhe fornece uma quantidade de dados tão grande que a natureza teve de equipá-la com um processador super-rápido para que pudesse lidar com tudo em tempo real. O silêncio reinou absoluto na sala por vários segundos. Quantos não sei. Eu era uma mosca, e a palma da mão estava vindo. A pistola Glock de Ove Kjikerud estava apontada para meu peito. O olhar de Clas Greve, para minha careca. — Ah — disse ele finalmente. Aquela sílaba continha tudo. Tudo sobre como nós, os seres humanos, fomos capazes de conquistar a terra, dominar os elementos, matar seres que nos são superiores em termos de velocidade e força. A capacidade do processador. O “ah” de Clas Greve veio no final de uma avalanche de pensamentos, buscas e triagens de hipóteses e deduções inexoráveis que, juntos, levaram à conclusão inevitável: “Você raspou o cabelo, Roger.” Clas Greve era — como já foi dito — uma pessoa inteligente. Obviamente ele tinha feito mais do que constatar o fato banal de que meu cabelo foi removido, deduzindo também quando, onde e por que aquilo tinha acontecido. Isso eliminava toda a confusão, respondia todas as perguntas. Portanto ele acrescentou, mais como uma conclusão do que uma pergunta: — Nos destroços do carro. Fiz que sim. Ele se sentou na cadeira perto do pé da cama, inclinou a cadeira para a parede de trás, sem desviar o cano da pistola 1 centímetro de mim.

— E depois? Você plantou o cabelo num dos cadáveres? Enfiei a mão esquerda no bolso da jaqueta. — Pare aí! — gritou ele, e vi o dedo apertar o gatilho. Não havia cão erguido. Glock 17. Uma dama. — É a mão esquerda — falei. — OK. Devagar. Tirei a mão lentamente e joguei o saco plástico com o cabelo em cima da mesa. Greve fez um gesto lento de assentimento sem tirar os olhos de mim. — Então você entendeu — disse ele — que os transmissores estavam em seu próprio cabelo. E que foi ela quem os colocou ali para mim. Foi por isso que você a matou, não foi? — Você sentiu isso como uma perda, Clas? — perguntei, me inclinando para trás. Meu coração martelava, mesmo assim eu me sentia estranhamente relaxado nesse momento de despedida. A angústia mortal da carne e a serenidade do espírito. Ele não respondeu. — Ou ela só era, qual foi a expressão que você usou, um meio para atingir a meta? Uma despesa para a aquisição de renda? — Por que você quer saber isso, Roger? — Porque quero saber se pessoas como você realmente existem ou são apenas ficção. — Pessoas como eu? — Pessoas incapazes de amar. Greve riu. — Se você quiser uma resposta, é só se olhar no espelho, Roger. — Amei alguém — afirmei. — Talvez tenha imitado o amor — disse Clas. — Mas será que realmente foi amor? Tem provas disso? Eu só vejo provas do contrário, que você negou a Diana a única coisa que ela queria além de você. Um filho. — Eu teria dado isso a ela. Ele riu outra vez. — Então você mudou de ideia? Quando isso aconteceu? Quando você se tornou o marido penitente? Foi ao descobrir que ela transava com outro homem? — Acredito na penitência — respondi baixinho. — Na penitência. E no perdão. — E agora já é tarde demais — concluiu ele. — Diana não recebeu nem seu perdão nem seus filhos. — Tampouco os seus. — Jamais tive a intenção de dar qualquer filho a ela, Roger. — Não, mas se você quisesse, nunca seria capaz de fazê-lo, não é mesmo? — Claro que seria capaz. Pensa que sou impotente? Ele falou depressa. Tão depressa que só uma mosca perceberia o nanossegundo de hesitação.

Inspirei. — Já te vi, Clas Greve. Te vi… da perspectiva da minhoca. — Que porra sem sentido está dizendo agora, Brown? — Já vi seus órgãos reprodutivos mais de perto do que gostaria. Vi sua boca se abrir lentamente e continuei: — Num banheiro seco nos arredores de Elverum. A boca de Greve parecia articular algo, mas nada saiu. — Foi assim que te fizeram falar quando estava no porão no Suriname? Violência contra os testículos? Pancadas? Facadas? Não lhe tiraram o desejo, só a capacidade reprodutiva, não é? O que sobrou das bolas parece ter sido costurado com linha grossa. — A boca de Greve estava fechada. Uma linha reta num rosto petrificado. — Isso explica a caça fanática a alguém que você mesmo caracterizou como um traficante relativamente insignificante na selva, Clas. Sessenta e cinco dias, não foi isso? Pois foi ele, não é verdade? Foi ele quem cortou sua masculinidade. Quem lhe tirou a capacidade de criar cópias de você mesmo. Ele lhe tirou tudo. Quase. Por isso você lhe tirou a vida. E eu entendo isso. Pois é, era o terceiro passo da segunda fase de Inbau, Reid e Buckley: sugerir um motivo moralmente aceitável para o crime. Mas eu não precisava mais da confissão dele. Em vez disso, ele teve a minha. De antemão. — Entendo, Clas, pois pretendo matar você pelo mesmo motivo. Você me tirou tudo. Quase. A boca de Greve fez um som que percebi era para ser uma risada. — Quem é que está segurando a pistola aqui, Roger? — Vou te matar como matei aquele seu cão maldito. Ele cerrou os dentes e vi os músculos da mandíbula se contraírem, vi os nós dos dedos empalidecerem. — Você nunca chegou a ver o que restou do cão, não é? Ele terminou seus dias como comida para gralhas. Empalado na ensiladeira do trator de Aa. — Você me dá nojo, Roger Brown. Está aí cheio de moral enquanto você mesmo é um assassino de animais e um infanticida. — Você tem razão. Mas se enganou sobre o que me disse no hospital. Que nosso filho tinha síndrome de Down. Pelo contrário, todos os testes mostravam que era saudável. Convenci Diana a fazer um aborto simplesmente porque não quis compartilhá-la com ninguém. Já ouviu coisa mais infantil? Nada mais nada menos que ciúmes de uma criança não nascida. Suponho que não recebi amor suficiente na infância, o que você acha? Talvez você tenha passado pela mesma coisa, Clas? Ou será que já nasceu malvado? Acho que Clas não percebeu a pergunta, pois me fitou com aquela expressão pasmada, indicando que o cérebro se matava de trabalhar. Reconstruindo, seguindo as ramificações da árvore de decisões

para trás, em direção ao tronco, à verdade, ao ponto em que tudo começou. E o encontrou. Uma simples frase no hospital. Algo que ele mesmo tinha dito: “fazer um aborto porque a criança tem síndrome de Down”. — Então me conte — falei, vendo que ele entendera. — Você chegou a amar alguém além de seu cão? Ele ergueu a pistola. Só sobravam três segundos da breve vida do novo Roger Brown. Os olhos azulgelo de Greve brilhavam e a voz suave era apenas um sussurro: — Tinha pensado em te dar um simples tiro na cabeça em deferência à sua atuação como uma presa digna de um caçador, Roger. Mas, pensando bem, acho que vou voltar ao plano original. Atirar no estômago. Já te contei sobre tiros no estômago? A bala perfura o baço e faz o ácido gástrico vazar e passar queimando por todas as outras vísceras. Aí vou esperar até você me implorar para te matar. E você vai me implorar, Roger. — Talvez seja melhor parar com a conversa e atirar, Clas. Talvez não seja bom esperar tanto quanto esperou no hospital. Greve deu outra risada. — Ah, acho que você não deve ter convidado a polícia para cá, Roger. Você matou uma mulher. Você é tão assassino quanto eu. Isso é entre mim e você. — Pense bem, Clas. Por que você acha que arrisquei ir até o Instituto Médico-Legal e os enganei para que me entregassem aquele saquinho ali com cabelo? Greve deu de ombros. — Simples. Isso constitui prova de DNA. Provavelmente a única coisa que eles tinham e que poderia ser usada contra você. Pois eles acham que o nome de quem procuram é Ove Kjikerud. A não ser que você queira reaver sua juba vistosa. Talvez fazer uma peruca com ela? Diana me contou que o cabelo era muito importante para você. Que você o usava para compensar a altura. Ou deveríamos antes dizer a pequenez? — Correto — falei. — Mas errado. Às vezes acontece que o caçador de cabeças esquece que a cabeça que está caçando é capaz de pensar. Não sei se pensa melhor ou pior sem cabelo, mas nesse caso a cabeça atraiu o caçador para uma armadilha. Greve piscou devagar e vi seu corpo tensionar; ele estava desconfiado. — Não vejo qualquer armadilha, Roger. — Ela está aqui — disse eu, arrancando o edredom de meu lado. Vi seus olhos caírem sobre o cadáver de Ove Kjikerud. E sobre a metralhadora Uzi que estava deitada em seu peito. Ele reagiu com velocidade relâmpago, apontando a pistola para mim. — Não tente nada, Brown! Conduzi as mãos para a metralhadora. — Não! — gritou Greve.

Levantei a arma. Greve disparou. A explosão encheu a sala. Apontei o cano para Greve. Ele tinha começado a se levantar da cadeira e disparou mais uma vez. Eu apertei o gatilho. O apertei por completo. Houve um rugido rouco de chumbo que rasgou o ar, as paredes de Ove, a cadeira, a calça preta de Clas Greve, a musculatura perfeita das coxas por baixo, rasgando a virilha e, com sorte, o sexo que tinha penetrado Diana, a protuberância dos músculos abdominais e os órgãos que eles deveriam proteger. Ele caiu de volta na cadeira e a pistola bateu no chão. De repente, havia silêncio outra vez, agora só restava o som de um cartucho vazio rolando sobre o assoalho. Deitei a cabeça de lado e olhei para ele. Ele me fitava de volta com olhos negros de choque. — Agora você não vai passar no exame médico da Pathfinder, Greve. Sinto muito. Nunca vai poder roubar aquela tecnologia. Não importa sua meticulosidade. Na verdade, foi aquela maldita meticulosidade que o derrubou. Greve gemia algo inaudível em holandês. — Foi sua meticulosidade que te convenceu a vir aqui — declarei. — Para a última entrevista. Pois sabe o quê? Você é o homem que eu estava procurando para essa função. Uma função para a qual não só acho, mas sei que você será perfeito. E isso significa que a função é perfeita para você. Pode confiar em mim, Sr. Greve. Ele não respondeu, apenas olhou para seu próprio corpo. O sangue tinha tornado a blusa preta ainda mais preta. Então continuei: — Você está contratado como bode expiatório, senhor Greve. Como o homem que matou Ove Kjikerud, ou seja, a pessoa deitada ao meu lado. — Dei um tapinha na barriga de Ove. Greve gemeu e levantou a cabeça um pouco. — Que baboseira é essa que você está falando? — Sua voz soava desesperada e ao mesmo tempo grogue, sonolenta. — Ligue para a ambulância antes de você se tornar assassino outra vez, Brown. Pense bem, você é um amador, nunca vai escapar da polícia. Ligue agora e vou te salvar também. Olhei para Ove. Ele parecia muito tranquilo do jeito que estava deitado. — Mas não sou eu que te matarei, Greve. É o tal de Kjikerud, você não entende isso? — Não. Mas, meu Deus, ligue para a maldita ambulância, você não vê que vou sangrar até a morte! — Lamento, é tarde demais. — Tarde demais? Você vai me deixar morrer? Alguma outra coisa tinha se insinuado em sua voz. Será que poderia ser choro? — Por favor, Brown. Não aqui, não deste jeito! Estou te implorando, estou te rogando. Era choro mesmo. As lágrimas escorriam pela face. Não era de estranhar, se o que ele tinha dito sobre tiros no estômago fosse verdade. Vi o sangue pingar de dentro das pernas de sua calça e em cima dos sapatos Prada recém-engraxados. Ele tinha implorado. Não conseguiu manter a dignidade na

morte, a despeito da nobreza de seu nome. Ouvi falar que ninguém consegue, que aqueles que parecem conseguir só estão apáticos pelo choque. Naturalmente, a parte mais humilhante para Greve era que havia tantas testemunhas do seu colapso. E que haveria mais. Quinze segundos depois de eu destrancar a porta de Ove Kjikerud e entrar na sala sem digitar “Natasha” no alarme, as câmeras de vigilância começaram a gravar, e o alarme soou lá na Tripolis. Imaginei como eles tinham se apinhado em volta do monitor, olhando incrédulos para o filme mudo de Greve, o único ator visível, vendo-o abrir a boca, mas não ouvindo o que dizia. Vendo-o atirar, vendo-o ser atingido e amaldiçoando Ove por não ter uma câmera que mostrasse a pessoa na cama. Olhei para o relógio. A essa altura, quatro minutos se passaram desde que o alarme disparou e provavelmente três minutos desde que alertaram a polícia. Por sua vez, a polícia teria ligado para o grupo Delta, que era a unidade usada em operações armadas. E cuja mobilização demorava algum tempo. Tonsenhagen também ficava a certa distância do centro. Suposições, é claro, mas as primeiras viaturas da polícia dificilmente estariam aqui em menos de quinze minutos. Por outro lado, não havia motivos para prolongar isso. Greve já havia disparado duas balas das dezessete que tinha no pente. — Tudo bem, Clas — falei, abrindo a janela logo atrás da cabeceira. — Você vai ter uma última chance. Pegue a pistola. Se consegue me balear, você também deve conseguir ligar sozinho para a ambulância. Ele me lançou um olhar vazio. Um vento gélido invadiu a sala. O inverno tinha chegado de vez. — Vai lá — sugeri. — O que você tem a perder? Parecia que a lógica disso penetrou seu cérebro confuso pelo choque. E com um movimento rápido, muito mais rápido que eu pensei ser possível, levando em consideração seu estado, ele se jogou de lado no chão e agarrou a pistola. As balas da metralhadora, de chumbo, um metal maleável, pesado e tóxico, desenterravam fragmentos de madeira do assoalho entre seus pés. Mas antes que a chuva de balas o atingisse novamente, antes que passasse sobre seu peito, atravessasse o coração e perfurasse ambos os pulmões que expiraram ofegantes, ele teve tempo de dar um tiro. Um único tiro. O som vibrava entre as paredes. Em seguida o silêncio voltou. O silêncio mortal. Só o vento cantava baixinho. O filme mudo se transformou num fotograma, congelado na temperatura abaixo de zero que se insinuara na sala. Acabou.

Parte V

Um mês depois, a última entrevista

23

Notícias da Noite

A música de abertura do programa de atualidades Notícias da Noite era um simples riff de violão que remetia os espectadores à bossa-nova, quadris balançando e drinques coloridos, não a tragédias, política e problemas sociais desoladores. Ou, como esta noite, ao crime. A curta música de abertura assinalava que se tratava de um programa sem enfeites desnecessários, que focava no conteúdo e ia direto ao ponto. Provavelmente era por isso que o programa começava com a imagem da câmera, pendurada no guindaste do Estúdio 3, filmando os convidados de cima e depois descendo num movimento de varredura que acabava com o close do rosto do apresentador Odd G. Dybwad. Nesse mesmo momento, como de costume, ele levantou os olhos dos papéis e tirou os óculos de leitura. Aquilo tinha sido ideia do produtor, talvez pretendendo dar a impressão de que a notícia a ser discutida era tão recente que o próprio G. Dybwad mal teve tempo de lê-la. Odd G. Dybwad tinha um cabelo cheio cortado à escovinha, fios grisalhos nas têmporas e um daqueles rostos de quarentão. Ele aparentara 40 ao fazer 30, e 40 agora que havia completado 50. Possuía mestrado em Ciências Sociais, era analítico, verbalmente inteligente e tinha uma tendência ao estilo tabloide. É provável que esse atributo não tenha sido decisivo para que a diretoria da emissora lhe desse um programa de debates, mas sim seu trabalho como âncora do noticiário durante quase duas décadas. Em grande parte, sua função consistira em ler textos já preparados com a entonação e a expressão facial adequadas, vestindo o terno e a gravata certos; mas, no caso de G. Dybwad, a entonação, a expressão facial e a gravata foram tão acertadas que lhe renderam maior credibilidade do que qualquer outra pessoa da contemporaneidade norueguesa. E credibilidade era o que se precisava para conduzir um programa como Notícias da Noite. Curiosamente, o fato de Odd afirmar amar seus

índices de audiência e divulgar que ele, não a diretoria da emissora, era quem promovia as matérias mais comerciais nas reuniões da redação parecia apenas reforçar a sua inexpugnabilidade. Sua ideia era ter uma abordagem com potencial de elevar os ânimos e as emoções, não as dúvidas, a ambivalência e a argumentação racional, coisas que cabiam melhor em matérias de jornal. Quando a mídia lhe fazia perguntas sobre isso sua resposta sempre era: “Por que deixar os debates sobre a família real, adoção por parte de pais homossexuais e as fraudes da Previdência Social aos programas levianos se podemos abordá-los no Notícias da Noite?” O programa era um sucesso absoluto e transformara Odd G. Dybwad num astro. Tanto que, depois de um divórcio público e traumático, pôde se casar com uma das jovens estrelas femininas da emissora. — Esta noite, vamos discutir dois assuntos — disse ele com uma voz levemente trêmula de uma emoção reprimida enquanto seu olhar penetrante aparecia na tela da TV. — Primeiro, vamos recapitular um dos casos de homicídio mais dramáticos da história do país. Depois de um mês de intensa investigação, a polícia finalmente acredita ter desvendado todos os mistérios do chamado caso Greve, que envolve um total de oito mortes. Um homem foi estrangulado em seu sítio nos arredores de Elverum. Quatro policiais foram atropelados por uma carreta roubada. Uma mulher foi baleada em sua casa em Oslo. Os dois personagens principais se mataram a tiros numa casa no bairro de Tonsenhagen, também aqui em Oslo. Como já se sabe, o último drama foi filmado porque a casa em questão possuía um sistema de alarme e câmeras de vigilância, e as cópias dessas gravações já vazaram e estão circulando na internet há algumas semanas. G. Dybwad intensificou o páthos de sua fala: — E como se isso não fosse o suficiente, no centro desse caso bizarro há um quadro mundialmente famoso. Desde a Segunda Guerra, A caça ao javali de Cálidon, de Peter Rubens, está desaparecido e até quatro semanas atrás se acreditava que o quadro estivesse perdido, mas então foi encontrado num… — nesse ponto G. Dybwad ficou tão empolgado que gaguejou de leve — … num… num… banheiro seco norueguês! Depois dessa introdução, Odd G. Dybwad teve de fazer uma pequena escala antes de alçar voo outra vez. — Temos um convidado que vai nos ajudar a fazer um balanço do caso Greve: Brede Sperre. G. Dybwad fez uma pausa minúscula, já que essa era a deixa para que o produtor na sala de controle mudasse para a câmera 2. O produtor escolheu um quadro de plano americano do único convidado no estúdio, um homem alto, loiro e bonito. Terno caro para ser um funcionário público, camisa aberta, botões de madrepérola, provavelmente um look criado pela estilista da ELLE com quem ele estava transando secretamente, ou quase secretamente. Nenhum espectador do sexo feminino trocaria de canal tão cedo. — Você esteve à frente da investigação da Polícia Judiciária nesse caso de homicídios. Levando em consideração sua experiência de quase quinze anos, você já chegou a ver algo parecido?

— Todo caso é um caso — respondeu Brede Sperre com autoconfiança patente. Não era preciso ser clarividente para saber que seu celular estaria abarrotado de mensagens depois. Uma mulher querendo saber se ele era solteiro e teria vontade de tomar um cafezinho com uma pessoa interessante, mãe solteira, residente nos arredores de Oslo, carro próprio e muito tempo livre na semana seguinte. Um jovem rapaz que gostava de homens mais velhos e determinados. Alguns pulariam as preliminares e mandariam logo uma foto. Uma foto de que gostassem, sorriso bonito, recém-saído do cabeleireiro, roupa chique, decote adequado. Ou sem rosto. Ou roupa. — Mas é claro, oito pessoas assassinadas não é coisa corriqueira — continuou Sperre. Acrescentando, ao perceber que o eufemismo soava indiferente demais: — Nem aqui, nem em países comparáveis com a Noruega. — Brede Sperre — disse G. Dybwad, que sempre fazia questão de repetir os nomes dos convidados logo no início para que os espectadores os gravassem. — Esse é um caso que despertou interesse internacional. E, embora tenha envolvido a morte de oito pessoas, suponho que essa atenção se deva sobretudo ao papel-chave desempenhado por um quadro famosíssimo? — Bem, pelo menos é um quadro famoso entre os conhecedores de arte. — A essa altura acho que podemos afirmar com segurança que o quadro já atingiu fama internacional! — exclamou Odd G. Dybwad, tentando captar o olhar de Sperre, talvez para relembrá-lo da conversa que tiveram antes do programa, de que os dois formavam um time cujo objetivo era colaborar para relatar uma história extraordinária. Rebaixar a fama do quadro era a mesma coisa que tornar a história menos extraordinária. — De qualquer forma, o quadro de Rubens deve ter sido uma peça-chave quando a Polícia Judiciária teve de montar o quebra-cabeça por conta própria, sem a ajuda de sobreviventes nem testemunha. Não é mesmo, Sperre? — É sim. — O relatório final da investigação será apresentado amanhã, mas agora mesmo você já pode expor a nossos espectadores os fatos do caso Greve, toda a sequência de eventos, do início ao fim. Brede Sperre fez que sim. Mas, em vez de começar a falar, ele levantou o copo de água e tomou um pequeno gole. G. Dybwad deu um largo sorriso no canto direito da imagem. Possivelmente, os dois combinaram esse teatrinho, essa pausa que fez com que os espectadores deslizassem até a ponta do assento de seus sofás, de olhos e ouvidos atentos. Ou talvez Sperre tivesse assumido a direção. O policial pousou o copo e respirou fundo. — Como você já sabe, antes de começar na Polícia Judiciária, eu fazia parte da Unidade de Furtos e Roubos e cheguei a investigar, em especial, os muitos furtos de arte aqui em Oslo nos últimos dois anos. As similaridades indicavam que uma quadrilha estivesse por trás de todos os roubos. Àquela altura já estávamos de olho na empresa de segurança Tripolis, pois a maioria das casas onde houve furtos possuía alarmes antirroubo dessa empresa. E agora sabemos que uma das pessoas responsáveis pelos furtos trabalhava justamente na Tripolis. Ove Kjikerud tinha acesso às chaves das residências roubadas,

além de ser capaz de desligar os alarmes. E, pelo visto, Kjikerud também encontrou uma maneira de apagar os relatórios de interrupção no sistema do registro de dados. Supomos que foi o próprio Kjikerud que realizou a maior parte dos arrombamentos. Mas ele precisava de uma pessoa com conhecimentos sobre o mundo das artes, que falasse com outros entusiastas da arte em Oslo e conseguisse informações sobre quem possuía quais quadros. — E é aqui que entra Clas Greve? — Exatamente. Ele próprio tinha uma bela coleção de arte em seu apartamento na Oscars Gate e frequentava a cena dos conhecedores de arte, sobretudo o círculo em torno da Galleri E, onde várias pessoas o viram. Ali ele conversava com pessoas que possuíam pinturas valiosas ou que lhe forneciam informações sobre quem as possuía. Então Greve encaminhava essas informações a Kjikerud. — O que Kjikerud fazia com os quadros depois de realizar os furtos? — Por meio de uma fonte anônima, conseguimos chegar a um receptador em Gotemburgo, um velho conhecido da polícia que já confessou seu contato com Kjikerud. Durante interrogatórios, o receptador contou aos nossos colegas policiais na Suécia que soube de Kjikerud pela última vez quando este telefonou para avisar que estava a caminho com o quadro de Rubens. O receptador disse que achava difícil acreditar que fosse verdade. E, afinal, nem o quadro nem Kjikerud apareceram em Gotemburgo… — Não? — entoou G. Dybwad com gravidade trágica. — Pois o que aconteceu? Sperre ensaiou um sorriso torto antes de continuar, como se achasse o tom melodramático do apresentador um pouco ridículo. — Parece que Kjikerud e Greve decidiram deixar o receptador de lado. Talvez tenham resolvido vender o quadro por conta própria. Vale lembrar que o receptador fica com 50 por cento do valor da venda, e dessa vez o valor era muito diferente do das outras telas. Como chefe de uma empresa holandesa de tecnologia que, entre outras coisas, fazia negócios com a Rússia e outros antigos países comunistas, Greve tinha um monte de contatos, nem todos tão lícitos assim. E essa era a chance para Greve e Kjikerud alcançarem a independência pelo resto da vida. — Mas, a julgar pelas aparências, Greve era uma pessoa bem abastada. — A empresa de que era sócio estava passando por dificuldades financeiras, e ele acabara de perder o cargo de diretor-executivo. Evidentemente, ele tinha um estilo de vida que exigia uma boa renda. Por sinal, sabemos que ele havia se candidatado a um cargo numa empresa norueguesa de Horten. — Então, Kjikerud não compareceu ao encontro marcado com o receptador porque ele e Greve decidiram vender o quadro por conta própria. O que aconteceu em seguida? — Até encontrar um comprador, eles precisavam esconder o quadro num lugar seguro. Por isso foram para uma cabana que Kjikerud, havia alguns anos, alugava de Sindre Aa. — Nos arredores de Elverum. — Isso mesmo. Os vizinhos dizem que a cabana era pouco usada, mas de vez em quando dois

homens passavam por lá. No entanto, ninguém chegou a cumprimentar qualquer um dos dois, que, pelo visto, se escondiam ali. — E vocês acreditam que os dois eram Greve e Kjikerud? — Eles eram extremamente profissionais e excepcionalmente cuidadosos no trato entre si, não queriam deixar qualquer rastro que ligasse um ao outro. Não temos nenhuma testemunha que os tinha visto juntos em momento algum e nenhum registro telefônico que mostre alguma comunicação entre os dois. — Mas aí aconteceu um imprevisto? — Pois é. Não sabemos exatamente o quê. Foram juntos até a cabana para esconder o quadro. Não é estranho que parceiros que antes confiavam um no outro começassem a desconfiar, tendo em vista o valor desse quadro. Talvez tenham começado a brigar. E provavelmente estavam sob efeito de drogas, pois encontramos traços de drogas nos exames de sangue dos dois. — Drogas? — Uma mistura de Ketalar e Midazolam. Substâncias fortes e muito incomuns entre os drogados de Oslo, por isso nosso palpite é que se trata de algo que Greve deve ter trazido de Amsterdã. A combinação talvez os tenha deixado imprudentes e tenha os levado, no final, a perder completamente o controle. O que terminou com o assassinato de Sindre Aa. Depois… — Um momento — interrompeu G. Dybwad. — Você poderia explicar aos espectadores exatamente como aconteceu esse primeiro homicídio? Sperre ergueu uma das sobrancelhas como que manifestando certo desagrado com a desesperada sede de sangue do apresentador, antes de ceder: — Não, só podemos fazer conjeturas. Talvez Kjikerud e Greve tenham levado a comemoração até a casa de Sindre Aa, onde se gabaram do famoso quadro que haviam furtado. E Aa reagiu tentando ou ameaçando alertar a polícia. Em consequência disso, Clas Greve o matou com um garrote. — E um garrote é...? — Um fio fininho de metal ou náilon que se aperta em torno do pescoço da vítima, impedindo o suprimento de oxigênio ao cérebro. — E a vítima morre? — Hum… sim. Um botão foi apertado na sala de controle e, no monitor que mostrava o que era transmitido para os milhares de televisores do país, Odd G. Dybwad fazia um gesto lento de compreensão enquanto olhava para Sperre com uma mistura calculada de nojo e gravidade, como se estivesse absorvendo a informação. Um, dois, três segundos. Três anos televisivos. A essa altura, o produtor deveria estar suando. E então Odd G. Dybwad quebrou o silêncio: — Como vocês sabem que foi Greve quem o matou? — Provas técnicas. Mais tarde, no bolso da jaqueta do corpo de Greve, encontramos o garrote. Nele,

havia sangue de Sindre Aa e vestígios de pele de Greve. — E vocês têm certeza de que tanto Greve como Kjikerud se encontravam dentro da sala de Sindre Aa por volta da hora da morte? — Temos. — Como sabem disso? Há outras provas técnicas? Sperre se remexia. — Há. — Quais? Sperre pigarreou e olhou rapidamente para G. Dybwad. Talvez tivessem discutido sobre esse ponto. Sperre pode ter pedido que evitassem entrar em detalhes, mas G. Dybwad deve ter insistido na importância dos detalhes para dar “corpo” à história. Sperre se preparou para continuar: — Encontramos vestígios no cadáver de Sindre Aa e em volta dele. Vestígios de excrementos. — Excrementos? — interrompeu G. Dybwad. — Humanos? — Isso mesmo. Enviamos o material para análise de DNA. A maior parte correspondia ao perfil de DNA de Ove Kjikerud. Mas alguma coisa também era de Clas Greve. G. Dybwad gesticulou. — O que diabo será que aconteceu lá, Sperre? — Naturalmente, é difícil saber os detalhes, mas, ao que parece, Greve e Kjikerud passaram… — nova preparação — … seu próprio excremento no corpo. Algumas pessoas fazem isso mesmo. — Em outras palavras, nesse caso estamos falando de pessoas muito doentes? — Como já foi dito, eles tinham ingerido drogas. Mas, sim, indubitavelmente, é um comportamento… hum, aberrante. — Pois é, e a história não acaba aí, né? — Não. Sperre parou assim que G. Dybwad levantou o indicador, o sinal combinado para o investigador fazer uma pausa mínima — apenas o suficiente para que os espectadores tivessem tempo de digerir a informação e se preparar para o que estava por vir. Em seguida ele continuou: — Sob o efeito das drogas, Ove Kjikerud inventa de fazer uma brincadeira sádica com o cão que Clas Greve tinha levado. Ele o empala nos dentes de uma ensiladeira. Mas como era um cão de briga, no calor da batalha, Kjikerud sofre profundas mordidas no pescoço. Depois disso, Kjikerud anda de trator pela área, levando a ensiladeira e o cão preso nas garras. Pelo visto, ele está tão dopado que mal consegue manter o trator na estrada e acaba sendo parado por outro motorista, que, sem ter a menor ideia do que está acontecendo, faz o que qualquer cidadão responsável se sentiria na obrigação de fazer: coloca o ferido Kjikerud em seu carro e o leva até o hospital. — Que contraste… de qualidade humana — exclama G. Dybwad.

— Tem razão. Foi esse motorista quem nos contou que encontrou Kjikerud coberto de fezes. Ele pensou que Kjikerud tivesse caído no monturo, mas o pessoal do hospital que deu banho no homem nos informou que eram excrementos humanos, não animais. Eles têm alguma experiência com… com… — E o que fizeram com Kjikerud no hospital? — Kjikerud estava semiconsciente, mas deram banho nele, fizeram um curativo na ferida e o puseram na cama. — E foi no hospital que encontraram traços de drogas no sangue dele? — Não. Fizeram exames de sangue, mas, quando a investigação chegou a esse ponto, já haviam sido destruídos, de acordo com o protocolo do hospital. Encontramos os traços de drogas no sangue durante a necropsia. — Muito bem, mas vamos voltar um pouco. Kjikerud se encontra no hospital e Greve ainda está no sítio. O que acontece a seguir? — Naturalmente, Clas Greve desconfia de algum problema, já que Kjikerud não volta. Ele descobre que o trator sumiu, pega seu próprio carro e começa a andar pela região em busca do comparsa. Supomos que Greve estava com um rádio de polícia em seu carro, pelo qual ficou sabendo que a polícia tinha encontrado o trator e, de madrugada, o corpo de Sindre Aa. Nesse momento, Greve está em apuros. Ele não sabe onde está o comparsa, a polícia já descobriu o cadáver de Aa, o sítio é local de crime, e, na busca pela arma do assassinato, a polícia poderia achar o quadro de Rubens. O que será que Greve estava pensando? Sperre hesitou. Por quê? Os relatórios policiais sempre evitam fazer suposições sobre o que as pessoas pensam, limitando-se a referir o que os envolvidos comprovadamente fizeram ou disseram. No máximo, relatam o que disseram que pensaram. Mas nesse caso ninguém disse nada. Por outro lado, Sperre sabia que era obrigado a oferecer alguma coisa ao público, dar corpo à história, para que… para que… Talvez ele nunca se permitisse concluir completamente aquele raciocínio, pois suspeitava do que havia no final dele. Que ele gostava de ser aquele para quem a mídia ligava, aquele com quem os programas queriam conversar quando buscavam um comentário ou uma explicação, ele gostava dos gestos de reconhecimento ao encontrar as pessoas na rua, das fotos no celular. Mas, se ele parasse de oferecer o que eles queriam, a mídia iria parar de procurá-lo. Então, no fundo, aquilo se resumia ao quê? Integridade versus a atenção dos holofotes, o respeito dos colegas versus a popularidade junto ao público? — Greve pensa… — disse Brede Sperre — … que a situação está difícil. Ele está andando de carro para lá e para cá, procurando, e o dia amanhece. Então ele ouve no rádio da polícia que Ove Kjikerud será detido, a polícia vai buscá-lo no hospital para que seja interrogado. E agora Greve sabe que a situação vai de mal a pior. Pois ele está ciente de que Kjikerud não é durão, que a polícia vai pressionálo, que Kjikerud talvez receba uma oferta de redução de pena se dedurar o parceiro e que ele

obviamente não assumirá a culpa pela morte de Sindre Aa. — Lógico — concorda G. Dybwad, inclinando-se para a frente e incentivando seu interlocutor. — Então Greve percebe que a única saída é resgatar Ove Kjikerud da polícia antes do interrogatório. Ou… Sperre não precisava do indicador discreto de G. Dybwad para saber que esse era o momento certo para mais uma pequena pausa. — Ou matá-lo na tentativa de resgate. Era como se os sinais da TV crepitassem no ar do estúdio, tão ressecado por holofotes que poderia pegar fogo a qualquer momento. Sperre continuou: — Então Greve começa a procura de um veículo para pegar emprestado. E num estacionamento ele depara com a carreta abandonada. Sua experiência da unidade de elite holandesa o ensinara como se liga um motor. Ele ainda está com o rádio da polícia e, pelo visto, já estudou o mapa o bastante para saber que caminho a viatura policial com Kjikerud vai pegar do hospital até o centro de Elverum. Ele os aguarda na carreta, numa estrada lateral… G. Dybwad interveio com uma antecipação dramática do que está por vir. — E em seguida ocorre a maior tragédia desse caso. — Pois é — disse Sperre, olhando para baixo. — Sei que esse é um ponto muito doloroso para você, Brede — acrescentou G. Dybwad. Brede. Primeiro nome. Essa era a deixa. — Close-up de Sperre agora — disse o produtor no fone de ouvido para a câmera 1. Sperre respirou fundo. — Quatro excelentes policiais foram mortos na colisão que se seguiu, incluindo um colega próximo de mim, Joar Sunded, da Polícia Judiciária. O zoom foi feito com tanta sutileza que o espectador comum não percebeu como o rosto de Sperre gradativamente preencheu uma parte maior da tela de TV, mas apenas notou a atmosfera mais densa, a intimidade, a sensação de familiaridade com esse policial valente e comovido. — A viatura é jogada sobre o meio-fio e desaparece embaixo das árvores, perto do rio — interveio G. Dybwad. — Mas, miraculosamente, Ove Kjikerud sobrevive. — Sim. — Sperre está pronto outra vez. — Ele consegue sair dos destroços, sozinho ou com a ajuda de Greve. E acompanha Greve no carro deste de volta a Oslo, depois de deixarem a carreta. Mais tarde, a polícia encontra a viatura e percebe que há um corpo faltando, o que leva a pensar que pode ter acabado no rio. Além disso, Kjikerud vestira um dos corpos com sua própria roupa e por um tempo isso criou confusão sobre quem estava desaparecido. — Mas, embora Greve e Kjikerud por enquanto estejam seguros, a paranoia está tomando conta dos dois, não é? — É. Kjikerud está ciente de que Greve, ao guiar a carreta para atropelar a viatura policial, pouco se

importava com sua sobrevivência. E Kjikerud se dá conta de que corre risco de vida, pois Greve tem pelo menos dois bons motivos para se livrar dele. Primeiro, por ele ser testemunha do assassinato de Aa, segundo, porque assim Greve não vai precisar dividir o lucro do quadro de Rubens. Ou seja, ele sabe que Greve vai atacar tão logo a oportunidade se apresente. Interessado, G. Dybwad se inclinou para a frente. — E com isso passamos ao último ato desse drama. Eles chegam a Oslo, e Kjikerud volta para sua casa. Mas não para relaxar. Ele sabe que precisa agir primeiro; comer ou ser comido. Então, de seu arsenal imenso de armas, ele pega uma pequena pistola preta, uma… uma… — Rohrbaugh R9 — completa Sperre. — Nove milímetros, semiautomática, seis balas no pen… — E ele — interrompeu G. Dybwad — leva essa pistola para onde acha que Clas Greve se encontra. Isto é, na casa de sua amante. Não é? — Não temos certeza do tipo de relação que Greve teve com essa mulher. Mas sabemos que tiveram contato regular, que se conheceram e que as impressões digitais de Greve foram encontradas, por exemplo, no quarto dela. — Pois Kjikerud vai até o endereço da amante de Grave e está com a arma pronta assim que ela abre a porta — disse G. Dybwad. — Ela o deixa entrar no hall, onde leva um tiro disparado por Kjikerud. Depois ele vasculha o apartamento procurando Clas Greve, mas ele não está. Kjikerud deita a mulher morta na cama e volta para sua própria casa. Ele faz questão de ter uma arma por perto onde quer que esteja, mesmo na cama. E então Clas Greve aparece… — Não sabemos como ele conseguiu entrar, possivelmente abriu a fechadura com gazua. De qualquer modo, ele não sabe que, ao entrar, aciona o alarme silencioso, ligando as câmeras de vigilância da casa. — Isso significa que a polícia tem imagens do que se passa a seguir, o último confronto entre esses dois criminosos. E, para quem não tiver estômago de procurar essas cenas na internet, você poderia contar brevemente o que acontece? — Eles começam a atirar um no outro. Primeiro, Greve dispara dois tiros com sua Glock 17. Por incrível que pareça, ele erra a pontaria dos dois. — Incrível? — A uma distância tão pequena, sim. Afinal, Greve era um soldado treinado de comando. — Então, ele acerta a parede em vez do alvo? — Não. — Não? — Não, não havia balas na parede ou perto da cabeceira da cama. Ele acerta a janela, ou melhor, ele nem acerta a janela, pois ela está escancarada. Ele atira para fora. — Para fora. Como vocês sabem? — Porque encontramos os projéteis da pistola do lado de fora.

— Ah é? — Na floresta atrás da casa. Numa casinha de corujas pendurada num tronco ali. — Sperre ensaiou um meio-sorriso do jeito que os homens fazem quando eles próprios pensam que estão dando pouca importância a uma história de sucesso. — Entendi. E então? — Kjikerud começa a retribuir os tiros com uma metralhadora Uzi que tem na cama. Como vemos no filme, as balas atingem Greve na virilha e no abdômen. Ele perde a pistola, mas a recupera a tempo de disparar um terceiro e último tiro, que atinge Kjikerud bem na testa sobre o olho direito. A bala provoca lesões cerebrais maciças. Mas não é assim como as pessoas aprendem nos filmes, que qualquer tiro na cabeça causa morte instantânea. Nesse caso, Kjikerud consegue disparar uma última rajada antes de morrer. E essa mata Clas Greve. Um longo silêncio se seguiu. O diretor de gravação provavelmente mostrava um dedo a Odd G. Dybwad, o sinal de que faltava um minuto no cronograma e estava na hora de concluir e encerrar. Odd G. Dybwad se inclinou para trás na cadeira, mais relaxado agora. — Isso quer dizer que a Polícia Judiciária nunca duvidou de que tudo tenha acontecido dessa forma? — Não — respondeu Sperre, fixando os olhos em G. Dybwad. Depois ele abriu os braços. — Mas é claro, sempre haverá dúvidas sobre os detalhes. E um pouco de confusão. Por exemplo, o médicolegista que foi ao local do crime afirmou que a temperatura do cadáver de Kjikerud tinha caído excepcionalmente depressa, e, de acordo com as tabelas normais, ele estipularia o momento da morte para o dia anterior. Mas aí os policiais lembraram que a janela atrás da cama estava aberta quando chegaram. E, afinal, esse era o primeiro dia de geada sazonal em Oslo. Esse tipo de incerteza surge sempre, faz parte do nosso trabalho. — Pois é, mesmo que não possamos ver Kjikerud nas filmagens, a bala está alojada em sua cabeça… — Proveniente da pistola Glock que Greve usou para atirar, sim. — Sperre sorriu de novo. — As provas técnicas são o que vocês da mídia gostam de chamar de “esmagadoras”. G. Dybwad deu um sorriso adequadamente largo enquanto juntava os papéis que estavam à sua frente, a deixa do encerramento. Agora só faltava agradecer a participação de Brede Sperre, olhar diretamente para a lente da câmera 1 e introduzir o segundo assunto da noite, uma nova rodada sobre os subsídios agrícolas. Mas ele parou com a boca semiaberta e assumiu um olhar introspectivo. Uma mensagem no fone? Algo que ele esqueceu? — Para finalizar, Sperre — disse G. Dybwad, calmo, hábil e experiente. — O que vocês realmente sabem sobre a mulher que foi baleada? Sperre deu de ombros. — Não muito. Como foi dito, achamos que ela pode ter sido amante de Greve. Um dos vizinhos diz que o viu frequentar o apartamento dela. Ela não tem antecedentes criminais, mas, através da Interpol,

ficamos sabendo que ela foi envolvida num caso de narcotráfico muitos anos atrás, época em que ela e seus pais moraram no Suriname. Lá ela era namorada de um dos barões do tráfico, mas ele foi morto pelas tropas de elite holandesas e ela ajudou a desmantelar o resto da quadrilha. — Então ela não foi condenada? — Ela era menor de idade. E estava grávida. As autoridades mandaram a família de volta a seu país de origem. — Quer dizer para…? — Para a Dinamarca, sim. Ela passou a morar lá depois, levando, pelo que sabemos, uma vida tranquila. Até aparecer em Oslo três meses atrás. Onde teve um fim trágico. — Falando em fins, agora vamos nos despedir de você, Brede Sperre. — Tirando os óculos, os olhos fixados na câmera 1. — Será que a Noruega deve cultivar seus próprios tomates a qualquer custo? A seguir, em Notícias da Noite, vamos falar com…

Com o polegar esquerdo, apertei o botão de desligar do controle remoto, e a imagem da TV implodiu. Normalmente, eu teria feito isso com o polegar direito, mas aquele braço estava ocupado. E, mesmo que estivesse a ponto de adormecer por causa de falta de circulação, não queria movimentá-lo por nada neste mundo. É que o braço estava apoiando a cabeça mais linda que conheço. A cabeça se virou para mim e a mão dela tirou o edredom para me ver melhor. — Aquela noite, você realmente dormiu na cama dela depois de baleá-la? Do lado dela? Que largura você disse que tinha aquela cama? — Cento e um centímetros — respondi. — De acordo com o catálogo da IKEA. Os grandes olhos azuis de Diana me fitaram com horror. Mas, se eu não estivesse enganado, havia ali certa admiração também. Ela estava vestindo um négligé transparente, uma criação de Yves SaintLaurent, que, ao acariciar minha pele como fazia agora, dava uma sensação de frescor, mas que se transformava em ardor com a pressão de meu corpo contra o corpo dela. Ela se ergueu, apoiada nos braços. — Como você a baleou? Fechei os olhos e gemi. — Diana! Fizemos um acordo de não falar sobre isso. — Sim, mas estou pronta agora, Roger. Prometo. — Querida, escute aqui… — Não! Amanhã o relatório policial vai sair, e aí vou saber os detalhes de qualquer forma. Prefiro ouvir isso de você. Suspirei. — Certeza?

— Certeza absoluta. — No olho. — Qual? — Esse. — Pus o indicador em sua sobrancelha esquerda delicadamente arqueada. Ela fechou os olhos e respirou profunda e lentamente. Inspirando e depois expirando. — Com o que você atirou? — Uma pequena pistola preta. — Onde…? — Encontrei a pistola na casa de Ove. — Passei o dedo ao longo da sobrancelha em direção à lateral do rosto, acariciando seus altos ossos malares. — E foi lá que a pistola acabou ficando também. Naturalmente, sem minhas impressões digitais. — Onde vocês estavam quando atirou nela? — No hall de entrada. A respiração de Diana já estava notavelmente mais acelerada. — Ela disse alguma coisa? Estava com medo? Entendeu o que estava acontecendo? — Não sei. Dei o tiro assim que entrei. — O que você sentiu? — Tristeza. Ela deu um leve sorriso. — Tristeza? De verdade? — De verdade. — Mesmo que ela tivesse tentado te atrair para a armadilha de Clas? Meu dedo parou. Até agora, um mês depois de tudo ter acabado, eu não gostava que ela usasse o primeiro nome dele. Mas é claro que ela tinha razão. A missão de Lotte tinha sido se tornar minha amante, era ela quem iria me apresentar a Clas Greve e me convencer a chamá-lo para uma entrevista de emprego na Pathfinder para depois assegurar que eu o recomendasse. Quanto tempo demorou para eu morder a isca? Três segundos? E eu tinha me debatido incontrolavelmente enquanto ela me puxava na linha. Mas aí algo surpreendente acontecera. Eu a larguei. Um homem amava sua esposa tanto que, por vontade própria, abriu mão de uma amante dedicadíssima que não lhe fazia qualquer exigência. Muito surpreendente. E eles tiveram que mudar os planos. — Devo ter sentido pena dela — falei. — Acho que fui apenas o último de uma série de homens que traíram Lotte no decorrer de sua vida. Senti Diana ter um pequeno sobressalto quando pronunciei o nome. Ainda bem. — Vamos falar de outra coisa? — sugeri. — Não, quero falar sobre isso agora. — OK. Vamos falar sobre como Greve te seduziu e te convenceu a assumir o papel da pessoa que

iria me manipular. Ela riu baixinho. — Por mim, tudo bem. — Você o amou? Ela se virou para mim e me olhou longamente. Repeti a pergunta. Ela suspirou e se aconchegou em mim. — Eu estava apaixonada. — Apaixonada? — Ele queria me dar um filho. Por isso me apaixonei. — Tão simples assim? — Sim. Mas não é simples, Roger. É claro que ela tinha razão. Não era nada simples. — E você estava disposta a sacrificar tudo para ter essa criança? Até a mim? — Sim, até você. — Mesmo se significasse que eu teria de pagar com minha vida? Ela bateu a têmpora levemente em meu ombro. — Não, isso não. Você sabe muito bem que eu pensava que ele só fosse te convencer a escrever aquela recomendação. — Você realmente acreditava nisso, Diana? Ela não respondeu. — Realmente, Diana? — repeti. — Sim, pelo menos acho que sim. Você precisa entender que eu queria acreditar naquilo. — Tanto que aceitou colocar a bolinha de borracha com Midazolam no assento do carro? — Sim. — E ao descer até a garagem sua intenção era me levar para o lugar onde ele me convenceria, não é? — Já falamos sobre isso, Roger. Ele disse que era a maneira menos arriscada para todas as partes. É claro que eu deveria ter entendido que era loucura. E talvez eu tivesse entendido mesmo. Não sei o que mais posso te contar. Ficamos deitados, cada um absorto nos próprios pensamentos e ouvindo o silêncio. No verão era possível escutar a chuva e o vento nas folhas das árvores do jardim, mas agora não. Agora tudo estava despido. E silencioso. O único consolo era que a primavera viria outra vez. Talvez. — E por quanto tempo você esteve apaixonada? — Até me dar conta do que eu estava fazendo. Aquela noite quando você não chegou em casa… — E aí? — Eu só queria morrer.

— Eu não quis dizer apaixonada por ele — emendei. — Quis dizer por mim. Ela riu baixinho. — Não posso saber antes de eu não mais estar apaixonada por você. Diana quase nunca mentia. Não porque não sabia mentir, ela era uma mentirosa divina, mas porque ela não queria se incomodar. Pessoas bonitas não precisam de cascas, não precisam aprender todos os mecanismos de defesa que nós, outros, desenvolvemos para nos proteger contra rejeições e decepções. Mas, se mulheres como Diana decidem mentir, o fazem pronta e eficientemente. Não porque são menos éticas que os homens, mas porque dominam essa parte da traição melhor. E era justamente por isso que eu tinha procurado Diana naquela última noite. Porque sabia que ela seria a candidata perfeita para o trabalho. Depois de destrancar a porta, permanecer no hall e escutar seus passos no assoalho por um tempo, subi a escada até a sala. Ouvi seus passos pararem, o telefone cair na mesa de centro, a voz murmurante e chorosa dizer “Roger…”, vi as lágrimas brotarem em seus olhos. E não fiz nada para impedi-la quando ela me agarrou. “Graças a Deus, você está vivo! Tentei te ligar o dia inteiro, ontem e hoje… Onde você estava?” E Diana não estava mentindo. Ela chorava porque pensava que tinha me perdido. Porque tinha mandado eu e meu amor embora assim como mandaria um cão ao veterinário para ser sacrificado. Foi o que meus instintos me diziam. Mas, como já foi dito, eu não sou nenhum grande conhecedor da espécie humana, e Diana é uma mentirosa divina. Por isso, quando ela foi ao banheiro para limpar as lágrimas, peguei seu telefone para conferir que realmente era meu número que ela tinha tentado ligar. Só para ter certeza. Quando ela voltou, eu lhe contei tudo. Absolutamente tudo. Onde eu tinha estado, quem eu tinha sido, o que tinha acontecido. Os furtos de obras de arte, o celular dela embaixo da cama no apartamento de Clas Greve, Lotte, a dinamarquesa que me fez cair como um patinho. A conversa com Greve no hospital. Aquela que me fizera entender que ele conhecia Lotte, que ela era a aliada mais próxima dele, que quem passou o gel com os transmissores em meu cabelo não foi Diana, mas a moça pálida de olhos castanhos com os dedos mágicos, a tradutora que falava espanhol e gostava mais das histórias dos outros que da sua própria. Que eu tivera o gel no cabelo já na noite antes de encontrar Kjikerud no carro. Enquanto eu lhe contava a história, Diana me fitara com olhos arregalados, mas sem abrir a boca. — No hospital, Greve me disse que eu te convenci a fazer o aborto porque o bebê tinha síndrome de Down. — Down? — Era a primeira coisa que Diana dizia em vários minutos. — De onde ele tirou essa ideia? Eu não disse… — Sei. Foi algo que inventei ao contar sobre o aborto para Lotte. Ela me falou que seus pais a forçaram a fazer um aborto quando era adolescente. Então inventei aquela história de síndrome de Down pensando que ela talvez tivesse uma opinião mais favorável de mim.

— Então ela… ela… — Pois é — falei. — Ela é a única pessoa que poderia ter contado isso a Clas Greve. Esperei. Deixei-a digerir tudo. Depois inteirei Diana do que aconteceria agora. Ela me olhou assustadíssima e gritou: — Não posso fazer isso, Roger! — Pode, sim — rebati. — Você pode e deve, querida — falou o novo Roger Brown. — Mas… mas… — Ele mentiu para você, Diana. Ele não pode te dar filho nenhum. Ele é estéril. — Estéril? — Eu vou te dar aquele filho. Prometo. Mas só se você fizer isso por mim. Ela tinha se recusado. Chorado. Implorado. E depois tinha prometido. Mais tarde naquela noite, antes de ir até o apartamento de Lotte para me tornar um assassino, instruí Diana, sabendo que ela cumpriria a missão. Imaginei como ela iria receber Greve, o sorriso deslumbrante, falso, o conhaque já no copo que estenderia a ele para fazer um brinde pela vitória, pelo futuro, pelo filho ainda não concebido. O qual, ela iria insistir, deveria ser concebido o mais rápido possível, essa noite, agora! Dei um sobressalto ao sentir Diana beliscar um de meus mamilos. — Você está pensando tanto em quê? Puxei o edredom para cima. — Naquela noite. Greve veio para cá. Deitou-se do seu lado, onde eu estou agora. — E daí? Você passou aquela noite deitado do lado de um cadáver. Eu tinha evitado perguntar a ela sobre isso, mas não estava aguentando mais: — Vocês fizeram sexo? Ela riu baixinho. — Você se conteve por bastante tempo, querido. — Fizeram ou não? — Vou dizer o seguinte: aquelas gotas de Midazolam que sobraram na bolinha de borracha e que consegui espremer dentro do drinque de boas-vindas dele fizeram efeito mais rápido do que eu tinha pensado. Assim que acabei de me arrumar e entrei no quarto, ele já estava dormindo feito uma criança. Na manhã seguinte, no entanto… — Retiro a pergunta — falei depressa. Diana acariciou minha barriga e riu outra vez. — Na manhã seguinte, ele estava muito acordado, não por minha causa, mas por causa de um telefonema que o tinha despertado. — Minha advertência.

— Isso. De qualquer forma, ele se vestiu e foi embora imediatamente. — Onde ele tinha guardado a pistola? — No bolso da jaqueta. — Ele conferiu a pistola antes de sair? — Não sei. De qualquer jeito, ele não teria percebido a diferença, o peso era praticamente o mesmo. Afinal, só troquei as primeiras três balas do pente. — Sim, mas as balas de festim que eu te dei têm um “F” vermelho na parte de trás. — Se tivesse conferido, só iria pensar que significava “frente”. A risada de nós dois enchia o quarto. Eu me deliciei com o som. Se tudo desse certo e o teste de tornassol nas tirinhas de papel fosse positivo, em pouco tempo o quarto se encheria da risada de três pessoas. E desalojaria o outro som, o eco que ainda me acordava de noite. Os disparos de Greve, o fogo do cano da pistola, a fração de segundo em que eu pensava que Diana não tivesse trocado as balas, que ela tivesse mudado de time outra vez. E depois, o eco, o tilintar dos cartuchos vazios que pousavam no assoalho, o qual já estava coberto de velhos cartuchos vazios, de verdade e de festim, antigos e novos, tantos que a polícia não seria capaz de distingui-los mesmo suspeitando de que a filmagem contasse uma história mentirosa. — Você teve medo? — perguntou ela. — Medo? — Sim, você nunca me contou qual foi a sensação. E você não aparece nas imagens… — Imag… — Eu me afastei um pouquinho para ver o rosto dela: — Você quer dizer que entrou na internet e viu a gravação? Ela não respondeu. E pensei que ainda havia muito o que eu não sabia sobre essa mulher. Que talvez tivesse mistérios ali para uma vida inteira. — Senti medo, sim — respondi. — De quê? Você sabia que a pistola dele não tinha… — Só as primeiras três balas eram de festim. Eu precisava fazer com que ele disparasse todas as três e a polícia não encontrasse balas de festim no pente e entendesse o jogo, não é? Mas ele poderia ter tido tempo de disparar algumas das verdadeiras, também. E poderia ter trocado o pente antes de chegar. E poderia ter trazido um cúmplice sem eu saber. Houve um silêncio. Antes de ela perguntar em voz baixa: — Então, você não estava com medo de outra coisa? Eu sabia que ela estava pensando a mesma coisa que eu. — Estava — concordei e me virei para ela. — Estava com medo de mais uma coisa. Sua respiração era rápida e quente em meu rosto. — Que ele pudesse ter matado você durante a noite — continuei. — Greve não tinha qualquer plano de iniciar uma família com você, e você era uma testemunha perigosa. Eu sabia que estava

colocando sua vida em perigo ao sugerir que você fosse a isca aquela noite. — Eu sabia que estava em perigo o tempo todo, querido — sussurrou ela. — Por isso dei a ele o drinque de boas-vindas assim que pôs o pé aqui dentro. E não o acordei até você ligar para o celular dele. Eu sabia que ele estaria com pressa depois de ouvir a voz do fantasma. E, além disso, eu tinha trocado as primeiras três balas de sua pistola, não é verdade? — É verdade — concordei. Como já disse, Diana é uma mulher cuja relação com números primos e lógica é desembaraçada. Ela passou a mão na minha barriga. — Além disso, gostei de você ter conscientemente colocado minha vida em risco… — Ah é? Ela passou a mão mais para baixo, sobre meu órgão sexual. Fechou os dedos em torno de meus testículos, sopesando-os, apertando com cuidado as duas bolsas de espermatozoides. — O equilíbrio é absolutamente essencial — disse ela. — Isso vale para todas as relações boas e harmoniosas. Equilíbrio na culpa, equilíbrio na vergonha e na má consciência. Mastiguei o que ela falou, tentei digeri-lo, deixar o cérebro assimilar essas ideias um tanto desmedidas. — Você quer dizer… — comecei, desistindo e começando outra vez. — Você quer dizer que se pôs em risco de vida por minha causa… que isso… — … seria o preço certo a pagar pelo que fiz com você, sim. Da mesma forma que a Galleri. E foi o preço certo para você pagar pelo aborto. — E você está pensando assim faz tempo? — Claro. Você também. — Exatamente — respondi. — Penitência. — Penitência, sim. É um meio muito subestimado para alcançar a paz de espírito. Ela apertou meus testículos com um pouco mais de força e eu tentei relaxar, saborear a dor. Aspirei o perfume dela. Era delicioso, mas será que eu alguma vez seria capaz de cheirar algo que abafasse o fedor de excrementos humanos? Eu alguma vez seria capaz de ouvir algo que pudesse sufocar o som dos pulmões perfurados de Greve? Depois parecera que ele me fitava com olhos vidrados e injustiçados enquanto eu apertava o dedo frio de Ove contra a coronha e o gatilho, tanto da Uzi como da pequena pistola preta Rohrbaugh, com a qual eu tinha baleado Lotte. Será que eu alguma vez seria capaz de comer algo que camuflasse o gosto da carne morta de Ove? Eu tinha me inclinado sobre ele na cama e deixado meus caninos afundarem em seu pescoço. Tinha apertado as mandíbulas até perfurar sua pele e o gosto de cadáver encher minha cavidade bucal. Quase não havia sangue, e, depois de reprimir a vontade de vomitar e enxaguar minha saliva, eu contemplara o resultado. Provavelmente, poderia passar por uma mordida de cão para um investigador que estava procurando justamente isso. Então eu saíra pela janela aberta atrás da cabeceira da cama de Ove para não aparecer no filme. Eu caminhara

depressa pela floresta, encontrando trilhas, caminhos. Cumprimentara educadamente as pessoas que estavam fazendo caminhada. O ar, que esfriava à medida que eu subia, me mantivera fresco até eu chegar ao topo da colina de Grefsen. E ali eu havia me sentado, olhando para as cores outonais que o inverno já começara a sugar da floresta lá embaixo, para a cidade, o fiorde, a luminosidade. A luminosidade que sempre anuncia a chegada da escuridão. Senti o sangue fluir para meu membro, fazendo palpitar no punho dela. — Vem cá — sussurrou ela bem pertinho do meu ouvido. Eu a possuí. Sistemática e completamente, assim como faz o homem que tem um trabalho a fazer. Que gosta de seu trabalho, mas ainda assim o vê como um trabalho. E ele trabalha até a sirene tocar. A sirene toca e ela põe as mãos de forma cuidadosa e protetora em volta de seus ouvidos, e ele está liberado e a enche da semente quente da vida, mesmo que o lugar já esteja ocupado. E depois ela dorme, e ele fica deitado escutando a respiração dela e sentindo a satisfação de um trabalho bem-feito. E sabendo que nunca será igual a antes. Mas que pode ser parecido. Que pode ser uma vida. Que ele é capaz de cuidar dela. Cuidar deles. Que ele é capaz de amar alguém. E, como se isso não causasse um deslumbramento grande o suficiente, ele até encontra um sentido no amor, um porquê, um eco de uma justificativa dada num jogo de futebol sob a neblina londrina: “Porque eles precisam de mim.”

Epílogo

A primeira neve tinha chegado e ido embora. Na internet, li que uma opção de compra e os direitos de exibição do quadro A caça ao javali de Cálidon foram vendidos em leilão em Paris. O comprador era a galeria Getty de Los Angeles, que, a partir de agora, poderia expor o quadro e — a não ser que durante os dois anos do período de opção um dono até então desconhecido aparecesse e reivindicasse a pintura — utilizar a opção de compra permanente. Havia algumas breves frases sobre a origem do quadro, que, por muitos anos, tinha sido objeto de discussão. Será que era uma cópia ou um original de outro pintor? Afinal, não havia fontes mostrando que Rubens alguma vez tinha pintado um javali de Cálidon. Mas já havia consenso entre os especialistas de que Rubens era o autor. Não estava escrito nada sobre o preço ou o local onde a pintura surgiu, nem que o Estado norueguês era o vendedor. Diana tinha se dado conta de que seria difícil administrar a galeria sozinha agora que se tornaria mãe. Depois de me consultar, ela decidiu procurar um sócio que tomaria conta da parte prática, como, por exemplo, a gestão financeira, para que ela pudesse se concentrar na arte e nos artistas. Além disso, nossa casa fora colocada à venda. Chegamos à conclusão de que uma casa geminada, um pouco menor, numa área com mais verde, seria o melhor lugar para uma criança crescer. E eu já tinha recebido uma oferta bastante alta. Era de uma pessoa que telefonou tão logo viu o anúncio no jornal, pedindo uma visita particular naquela mesma noite. Eu o reconheci assim que abri a porta. Terno Corneliani e óculos de nerd requintado. — Talvez não seja a melhor de Ole Bang — comentou ele depois de correr de um cômodo a outro comigo a tiracolo. — Mas vou ficar com a casa. Quanto você quer? Mencionei a cotação do anúncio de imóvel em exposição. — Mais um milhão — disse ele. — Prazo depois de amanhã. Falei que avaliaríamos sua oferta e o acompanhei até a porta. Ele me estendeu o cartão de visita. Nenhum título, só o nome e um número de celular. O nome da empresa de recrutamento estava escrito em letras tão minúsculas que era praticamente ilegível.

— Me diga — falou ele na soleira. — Você não costumava ser o rei do jogo? — E, antes de eu ter tempo de responder: — Estamos pensando em expandir. Talvez nós entremos em contato. Nós. Letras minúsculas. Deixei o prazo expirar sem mencionar nada sobre a oferta para o corretor ou para Diana. Também não tive notícias de “nós”. Já que tenho como princípio nunca começar a trabalhar antes de o dia estar claro, nesse dia específico, como na maioria deles, fui o último a chegar ao estacionamento da Alfa. “Os primeiros serão os últimos.” Um privilégio que eu mesmo criei e implementei, um privilégio que apenas é concedido ao melhor headhunter da empresa. A posição também implica que ninguém se atreve a pegar sua vaga no estacionamento, embora, no papel, ela esteja sujeita à mesma regra de “atendimento por ordem de chegada” das outras vagas. Mas nesse dia havia um carro estacionado na minha vaga mesmo assim. Um Passat desconhecido; com certeza, um de nossos clientes que pensavam não haver problema em estacionar ali só porque havia uma placa com “Alfa” na corrente atrás da vaga. Algum tonto que não tinha capacidade de ler a placa grande perto da entrada onde estava escrito estacionamento para clientes. Apesar disso, senti uma leve insegurança. Será que alguém da Alfa também chegou à conclusão de que eu não era mais… Não completei o pensamento. Enquanto, irritado, eu procurava outra vaga, um homem saiu a largos passos do prédio e continuou mais ou menos na direção do Passat. Parecia o jeito de andar de um dono de Passat, decidi, e dei um suspiro de alívio. Pois estava claro que não se tratava de um concorrente para a vaga, mas de um cliente. Ostensivamente, posicionei meu carro na frente do Passat e aguardei com certa esperança. Apesar de tudo, talvez eu tivesse a oportunidade de xingar um idiota. E, de fato, o homem bateu de leve em meu vidro lateral, e eu estava olhando para um casaco na altura da cintura. Esperei um pouco antes de apertar o botão do vidro, que desceu devagar, mas ainda assim um pouco mais rápido do que eu gostaria. — Escuta… — começou ele antes de ser interrompido por minha ensaiada fala arrastada: — Entããão, como posso ajudá-lo hoje, meu senhor? — falei, sem lhe dirigir um olhar sequer e me preparando para dar uma lição revigorante sobre como ler placas. — Você se importaria de afastar o carro um pouquinho? Você está impedindo minha saída. — Parece que quem está impedindo minha entrada é o senh… Finalmente, os ruídos atmosféricos atingiram meu cérebro. Olhei pela janela e para cima. Meu coração quase parou. — Claro — falei. — Um momento só. — Procurei freneticamente o botão que fecharia o vidro outra vez. Mas era como se minha habilidade motora fina tivesse me abandonado. — Espere aí — disse Brede Sperre. — Não nos encontramos antes?

— Duvido — respondi, tentando conferir à voz um timbre baixo de calma e despreocupação. — Tem certeza? Estou convencido de que já nos encontramos. Merda, como ele seria capaz de reconhecer o suposto primo de terceiro grau dos irmãos Monsen no Instituto Médico-Legal? Aquela versão era careca e se vestia como um caipira. A presente versão tinha cabeleira abundante, vestia terno Ermenegildo Zegna e camisa Borelli engomada. Mas eu sabia que não podia ser persistente demais na negação e colocar Sperre na defensiva, fazendo-o se concentrar tanto que lembrasse. Respirei fundo. Eu estava cansado, mais cansado do que deveria estar hoje. Esse era um dia em que eu teria que mostrar serviço. Fazer jus à reputação que eu uma vez tivera. — Quem sabe? — emendei. — Para falar a verdade, você também me parece vagamente familiar… Primeiro, ele parecia um pouco perplexo com essa contraofensiva. Então ensaiou o sorriso charmoso de moleque, aquele que lhe dava tanta compatibilidade com a mídia visual. — Você deve ter me visto na TV. As pessoas me dizem isso o tempo todo… — Exatamente, deve ter sido na TV que você me viu também — acrescentei. — Ah é? — disse ele, curioso. — Que programa? — Deve ter sido seu programa então. Já que você acha que nos encontramos. Pois a tela da TV não é uma janela de verdade pela qual podemos nos ver, não é? De seu lado da câmera ela deve ser praticamente… um espelho? Sperre parecia levemente confuso. — Estou brincando — falei. — Vou tirar o carro. Tenha um ótimo dia! Acionei o botão para fechar a janela do carro e dei ré. Havia boatos de que Sperre estava transando com a nova mulher de Odd G. Dybwad. Boatos de que tinha transado com a ex também. E, aliás, de que estava transando com o próprio Dybwad. Ao sair do estacionamento, Sperre parou antes de virar, de modo que ficamos frente a frente por dois segundos, cada um dentro de seu carro. Vi seu olhar. Ele me olhou como alguém que tinha acabado de ser enganado e só agora estava se dando conta disso. Eu acenei educadamente. Em seguida, ele acelerou e desapareceu. E eu olhei no retrovisor e sussurrei: “Olá, Roger.” Entrei pela porta da Alfa e soltei um estrondoso “Bom dia, Oda!”. Vi Ferdinand vir correndo para mim. — Então? Chegaram? — perguntei. — Sim, estão prontos — disse Ferdinand, saltitando atrás de mim pelo corredor. — Além disso, um policial passou aqui. Alto, loiro e bem… hum, bonito. — O que ele queria? — Saber o que Clas Greve disse sobre si mesmo nas entrevistas que fez aqui. — Mas ele já morreu há tempo — falei. — Estão investigando aquele caso ainda? — Não o caso de homicídios. É sobre aquele quadro de Rubens, não conseguem descobrir de quem

ele o roubou, ninguém se manifestou. Agora estão tentando averiguar com quem ele teve contato. — Você não leu o jornal de hoje? Agora começaram a duvidar outra vez se é um Rubens original. Talvez não se trate de um furto, mas de uma herança. — Fala sério! — O que você disse para o policial? — Naturalmente, eu lhe dei nosso relatório das entrevistas. Não me parece que ele tenha encontrado qualquer coisa de interesse ali. Ele disse que voltaria a entrar em contato se precisasse. — E pelo visto você está torcendo para que ele faça isso? Ferdinand deu sua risada aguda. — De qualquer forma — acrescentei. — Você cuida disso, Ferdy. Confio em você. Vi como ele se estufou e murchou, como a responsabilidade o fez crescer e o apelido o fez encolher. Equilíbrio é tudo. Então tínhamos chegado ao final do corredor. Parei na frente da porta e conferi o nó da gravata. Estavam ali dentro sentados, prontos para a última entrevista. O endosso automático. Pois o candidato já fora nomeado, já estava contratado, era só o cliente que não estava totalmente consciente disso ainda, pensando que tinha algum poder de decisão. — Então você manda o candidato entrar daqui a exatamente dois minutos — ordenei. — Cento e vinte segundos. Ferdinand concordou e olhou para seu relógio. — Só uma coisinha — falou. — O nome dela é Ida. Abri a porta e entrei. Houve um arrastar de cadeiras quando eles se levantaram. — Peço desculpas pela demora, senhores — falei, apertando as três mãos que se estenderam para mim. — Mas alguém pegou minha vaga no estacionamento. — Não é uma coisa enervante? — disse o presidente do conselho da Pathfinder, virando-se para seu diretor de informação, que assentiu vigorosamente com a cabeça. O representante dos empregados também estava presente, um cara de blusa vermelha com gola em V e uma camisa branca, barata, por baixo, indubitavelmente um engenheiro do tipo mais desgostoso. — Como o candidato tem uma reunião de conselho ao meio-dia, que tal colocarmos mãos à obra? — anunciei ao me sentar na ponta da mesa. A outra ponta já havia sido preparada para o homem sobre quem, daqui a meia hora, haveria consenso absoluto de que seria o próximo diretor-executivo da Pathfinder. A iluminação foi preparada para valorizar sua aparência, a cadeira era do mesmo tipo das nossas, mas tinha pés um pouco mais compridos, e sobre a mesa eu tinha deixado a pasta de couro que comprara para ele, uma com suas iniciais, e uma caneta Mont Blanc de ouro. — Com certeza — disse o presidente do conselho. — Aliás, tenho uma confissão a fazer. Como você já sabe, gostamos muito de Clas Greve depois daquela entrevista.

— É verdade — concordou o diretor de informação. — Pensávamos que vocês tinham encontrado o candidato perfeito. — Ele era estrangeiro, sim — disse o presidente do conselho enquanto seu pescoço se torcia feito uma cobra —, mas falava norueguês como um nativo. E, enquanto você o estava acompanhando até a saída, dizíamos um para o outro que afinal de contas os holandeses sempre levaram mais jeito nos mercados de exportação do que nós aqui. — E que talvez pudéssemos aprender com alguém cujo perfil de gestão era mais internacional — complementou o diretor de informação. — Por isso, quando você voltou dizendo que não tinha certeza se ele era o homem certo apesar de tudo, bem, então ficamos muito surpresos, Roger. — É mesmo? — É, pensamos simplesmente que seu discernimento deixava a desejar. Eu nunca disse isso antes, mas chegamos a cogitar a possibilidade de rescindir o contrato com vocês e entrar em contato direto com Greve. — Então foi isso que pensaram? — perguntei com um sorriso torto. — O que desejamos saber — interveio o diretor de informação, trocando olhares com o presidente do conselho e dando um breve sorriso — é como você conseguiu perceber que havia alguma coisa errada? — Como você sabia instintivamente aquilo para o qual estávamos completamente cegos? — perguntou o presidente do conselho com um forte pigarro. — Como alguém consegue ser tão bom conhecedor da natureza humana? Balancei a cabeça lentamente. Empurrei meus papéis 5 centímetros para a frente sobre a mesa e me reclinei na cadeira de espaldar alto, que se ajustou — não muito, só um pouco — para trás. Olhei pela janela. Para a luz. Para a escuridão que viria. Cem segundos. A sala estava em silêncio total. — É apenas meu trabalho — respondi. Do canto do olho vi que os três trocaram gestos eloquentes. E acrescentei: — Além disso, àquela altura eu já tinha começado a pensar num candidato que era melhor ainda. Os três se viraram para mim. E eu estava pronto. Imagino que essa deve ser a sensação que o regente tem nos segundos antes de iniciar o concerto, sentindo os olhares de todos os membros da orquestra sinfônica colados em sua batuta, ouvindo, atrás de si, o murmúrio animado do público emudecer lentamente. — Por isso chamei vocês aqui hoje — declarei. — O homem que vocês vão conhecer é a nova estrela ascendente, não só do firmamento de gestão norueguês, mas do firmamento internacional. Na última rodada, eu achava que fosse impraticável conseguir arrancá-lo do cargo que ocupa, afinal de contas ele é o Pai, o Filho e o Espírito Santo daquela empresa. Passei os olhos de um rosto a outro.

— Mas, sem querer prometer demais agora, acho possível dizer que talvez tenha conseguido fazer com que ele esteja começando a cogitar a possibilidade. E se conseguirmos convencê-lo… — Revirei os olhos para sugerir um sonho quente, uma utopia, mas todavia… E, como era esperado e inevitável, o presidente do conselho e o diretor de informação se aproximaram de mim. Até o representante dos empregados, que tinha estado de braços cruzados, os colocou na mesa e se inclinou para a frente. — Quem? Quem? — sussurrou o diretor de informação. Cento e vinte. A porta se abriu. E ali estava ele, um homem de 39 anos, vestindo um terno da loja Kamikaze, situada na rua de Bogstadveien, onde a Alfa tem 15 por cento de desconto. Logo antes de mandá-lo entrar, Ferdinand tinha mergulhado sua mão direita em talco cor de pele, já que, como sabemos, ele sofre de suor nas palmas. Mas o candidato sabia o que fazer, pois eu o instruíra, dirigindo a encenação até o mínimo detalhe. Ele tingira o cabelo nas têmporas de um tom grisalho quase imperceptível e uma vez tinha sido dono de uma litografia de Edvard Munch chamada O broche. — Apresento-lhes Jeremias Lander — anunciei. Sou headhunter. Não é especialmente difícil. Mas sou o rei do jogo.

Este e-book foi desenvolvido em formato ePub pela Distribuidora Record de Serviços de Imprensa S. A.

Headhunters: Página do livro no Skoob http://www.skoob.com.br/livro/277426-headhunters Trailer do filme que é baseado no livro http://www.youtube.com/watch?v=lstA1-opBz4 Site oficial do Autor http://jonesbo.com/ Wikipédia (Informações do filme) http://en.wikipedia.org/wiki/Headhunters_(film) Página no Facebook https://www.facebook.com/jonesboauthor Wikipédia http://pt.wikipedia.org/wiki/Jo_Nesb%C3%B8 Resenha sobre o livro http://colecaonegra.blogspot.com.br/2011/03/headhunters-de-jo-nesb.html

Sumário

Capa Rosto Créditos Prólogo Parte I | Primeira entrevista 1 | Candidato 2 | Setor terciário 3 | Vernissage 4 | Anexação 5 | Confissão Parte II | Fechando o cerco 6 | Rubens 7 | Grávida 8 | G11sus4 Parte III | Segunda entrevista 9 | Segunda entrevista 10 | Defeito no coração 11 | Curare 12 | Natasha 13 | Metano 14 | Massey Ferguson 15 | Horário de visita 16 | Viatura 01 17 | Cozinhas Sigdal Parte IV | Seleção 18 | Rainha branca

19 | Homicídio premeditado 20 | Ressurreição 21 | Convite 22 | Filme mudo Parte V | Um mês depois, a última entrevista 23 | Notícias da Noite Epílogo Colofon Saiba mais

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