Duas semanas em Roma – Irwin Shaw

Duas Semanas em Roma, publicado em 1960, narra a história de Jack Andrus, o típico homem moderno. Ex-astro de Hollywood, aceita quebrar sua rotina de ...
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Sinopse Duas Semanas em Roma, publicado em 1960, narra a história de Jack Andrus, o típico homem moderno. Ex-astro de Hollywood, aceita quebrar sua rotina de funcionário do governo para retornar ao cinema como um pequeno favor a Delaney, seu amigo dos velhos tempos. IRWIN SHAW começou sua carreira de escritor no anonimato, como redator de piadas para comediantes do rádio. Uma peça, Enterrar os Mortos, o fez imediatamente famoso. Seu primeiro romance, Deuses Vencidos, é uma das mais importantes obras literárias americanas, sobre sua experiência como soldado na Segunda Guerra Mundial.

O grande elefante tem, por natureza, qualidades raramente encontradas no homem, entre as quais a honestidade, a prudência, e um sentido de justiça e observância religiosa. Consequentemente, quando é lua nova eles se dirigem para os rios e ali se banham solenemente, limpando-se, e após terem assim saudado o astro voltam às florestas. Temem a vergonha e só se acasalam à noite e em segredo, e não se juntam novamente à manada sem primeiro se banharem no rio. LEONARDO DA VINCI, segundo PLÍNIO.



1 Era um dia frio e cinzento, sem vento. Antes do anoitecer, choveria. Sobre o aeroporto, no manto hibernal das nuvens, ouvia-se o gemido mecânico e espasmódico de aviões invisíveis. Apesar de ser o princípio da tarde, todas as luzes do restaurante estavam acesas. O avião de Nova York estava atrasado e uma voz ressonante anunciara pelos alto-falantes, em francês e em inglês, que o voo para Roma estava com meia hora de atraso. O ambiente sombrio normal nos aeroportos, esse misto de pressa e apreensão que já se tomou o ambiente das viagens, pois ninguém espera em conforto a saída de um avião, achava-se intensificado pelo tempo. A luz néon deixava todos com aparência de doente e de falta de sono. Sentia-se, no salão, que se cada um dos viajantes ali pudesse escolher de novo, provavelmente teria cancelado sua passagem e viajaria de trem, de navio ou de carro. Num canto do restaurante, cujas mesas estavam enfeitadas com as tristes insígnias das companhias de aviação que faziam escala em Orly, esperavam um homem e uma mulher, tomando café, olhando para duas criancinhas, um menino e uma menina, grudadas à janelona que dominava o campo. O homem era grande, com um rosto comprido e ossudo. Tinha uma cabeleira escura, bem escovada para trás, os cabelos cortados um pouco menos rente do que no corte à escovinha, com um ligeiro tom grisalho, que só podia ser observado bem de perto. Tinha olhos profundos e azuis, sob sobrancelhas grossas, e suas pálpebras eram pesadas e protegiam-lhe bem os olhos, dando-lhe um aspecto reservado e observador e um ar de juízo frio e sem emoções, ao contemplar o mundo. Ele se movia devagar e com cuidado, como alguém que se sentisse mais à vontade ao ar livre, de roupas velhas, e que tivesse passado muitos anos obrigado a viver em recintos fechados, um pouco pequenos para ele. Sua pele era pálida, em consequência de ter passado o inverno numa cidade cinzenta. O ar de paciência e bom humor estampado em sua fisionomia parecia ter sido aplicado, naquele dia, com bastante pressão. A distância, essas pequenas características não eram evidentes, e ele parecia ousado, saudável e bonachão. A mulher devia ter uns trinta e poucos anos, com um corpo bonito, agradavelmente vestido com um costume modesto. Tinha cabelos pretos e curtos, escovados para trás na última moda, e seus olhos grandes e cinzentos no triângulo branco do rosto eram habilmente realçados pela maquilagem. Havia uma elegância secreta em suas maneiras, um modo de se sentar muito reto, de se mexer com precisão, sem floreios, uma sensação de frescor em suas roupas, um tom de vivacidade na voz. Ela era francesa e tinha ar disso, parisiense, e demonstrava-o com uma sensualidade serena e razoável sempre presente em seu rosto, de mistura com a decisão e uma habilidade consciente de manejar as pessoas à sua volta com arte e tato. As duas crianças eram delicadas e arrumadas, e, se a família não fosse examinada muito minuciosamente, faria o tipo do grupo que os publicitários gostam de usar, com todos os componentes sorrindo muito, colorido num campo ensolarado, para demonstrar a segurança e o prazer das viagens áreas. Mas o sol não brilhava em. Paris havia seis dias, a luz néon do restaurante estragava tudo quanto tocava e no momento não havia ninguém sorrindo. As crianças tentaram limpar parte da janela, que estava raiada e embaçada. Através dela os aviões pareciam borrados e aquáticos, no pátio de manobras e nas pistas. — Aquele é um Vi-count — disse o menino à irmã. — É um turboélice. — Vai-caunt — corrigiu o homem. — É assim que se pronuncia em inglês, Charlie. — Ele tinha uma voz grave, grave e ressonante, condizente com seu volume.

— Vai-caunt — repetiu o menino, obediente. Ele tinha cinco anos. Era sério e estava vestido com capricho, para a partida do pai. A mulher sorriu. — Não se preocupe — disse ela. — Quando ele chegar aos vinte e um anos, terá aprendido a falar uma língua de cada vez. — Ela falava inglês com rapidez, com um ligeiro sotaque francês. O homem sorriu para ela, distraído. Ele tinha tentado ir sozinho ao aeroporto. Não gostava das cerimônias prolongadas das despedidas. Mas a mulher tinha insistido em levá-lo, com as crianças. “Elas adoram ver os aviões”, dissera ela, para dar apoio a seu gesto. Mas o homem desconfiava de que ela viera na esperança de que à última hora, na presença de todos eles, ele mudasse de ideia e desistisse da viagem. Ou, na pior das hipóteses — com a lembrança sentimental dos três, a mãe bonita com as duas criancinhas lindas a seu lado para lhe espicaçar as recordações —, que ele se apressasse e abreviasse a viagem ao máximo. Ele tomou o café amargo e olhou impaciente para o relógio. — Detesto aeroportos — disse ele. — Eu também — concordou a mulher. — A metade do tempo. Adoro as chegadas. — Estendeu a mão e tocou na dele. Sentindo-se obscuramente vítima de chantagem, ele pegou a mão dela e apertou-a. “Deus”, pensou ele, “estou com um humor de cão.” — É só por algum tempo — disse ele. — Estarei de volta muito breve. — Não muito breve — acrescentou ela. — Nunca é muito breve. — Quando eu crescer — dizia Charlie — só vou viajar em avions à réaction. — Jatos, Charlie — atalhou o homem, automaticamente. — Jatos — repetiu o menino, sem se virar da janela. “Tenho de ter cuidado”, pensou o homem. “Ele vai crescer com a ideia de que estou sempre ralhando com ele. Não é culpa dele falar metade em francês o tempo todo.” — Não o culpo — prosseguiu a mulher — por estar tão ansioso por deixar Paris com esse tempo. — Não estou tão ansioso — explicou o homem. — É só que eu tenho de ir. — É claro — replicou a mulher. Ele estava casado com ela há bastante tempo para saber que quando ela dizia “é claro”, assim, não queria dizer “é claro”. — É muito dinheiro, Hélène. — Sei, Jack. — Não gosto de aviões — disse a menininha. — Eles levam as pessoas embora. — É claro — observou o menino. — É para isso que eles servem. Boba. — Não gosto de aviões — repetiu a menininha. — É mais do que o salário de quatro meses — prosseguiu Jack. — Vamos poder comprar um carro novo, afinal. E ir para um lugar decente neste verão, para variar. — É claro — concordou ela. Ele tomou mais café e tornou a olhar para o relógio. — É pena — disse ela — que seja justamente agora. — Agora é que ele precisa de mim — explicou Jack. — Bom, você sabe melhor do que eu. — O que quer dizer com isso? — Não quero dizer nada. Só quis dizer que você sabe melhor do que eu. Nem conheço o homem. Ouço falar dele de vez em quando, só isso. Só que... — Só que o quê? — Só que se vocês são tão íntimos como você diz... — Éramos. — Eram. É engraçado que em todos esses anos ele nunca tenha se dado ao trabalho de procurá-

lo. — É a primeira vez que ele vem à Europa. Eu lhe disse... — Sei que você me disse. Mas ele já está na Europa há mais de seis meses. E nem sequer escreveu a você até a semana passada... — Isso é coisa muito antiga para que eu possa tentar explicar. — Papai — o menino virou-se da vidraça para o pai —, você já esteve em algum avião que tenha pegado fogo? — Estive — respondeu Jack. — O que aconteceu? — Apagaram o fogo. — Que sorte! — exclamou o menino. — Foi. O menino virou-se para a irmã: — Papai estava num avião que pegou fogo, mas ele não morreu. — Anne telefonou hoje de manhã — prosseguiu Hélène. — Disse que Joe estava uma fera por você partir agora. Joe Morrison era o chefe de Jack e Anne a mulher dele. Anne Morrison e Hélène eram amigas íntimas. — Eu disse a Joe na semana passada que queria tirar umas férias. Tenho direito a muitas férias. Ele respondeu que não se importaria. — Mas aí apareceu essa conferência e ele disse que precisava de você — replicou Hélène. — Anne contou que você foi muito obstinado com Joe a respeito disso. — Eu prometi que iria a Roma. Estão contando comigo lá. — Joe também conta com você. — Vai ter que se arranjar sem mim por umas duas semanas. — Você sabe como Joe é em matéria de lealdade... Jack deu um suspiro: — Eu sei como Joe é em matéria de lealdade. — Já mandou transferir gente por menos do que isso — continuou Hélène. — Podemos bem nos encontrar e Ancara ou no Iraque ou em Washington, no ano que vem, em setembro. — Washington! — exclamou Jack, fingindo-se horrorizado. — Céus! — Você gostaria de morar em Washington? — Não — respondeu Jack. — Quando eu tiver dezoito anos — dizia o menino — vou atravessar a barrière de son. — Vou dizer-lhe uma coisa — prosseguiu Hélène. — Você não está nada triste por ter que ir. Eu o venho observando estes últimos dias. Você está ansioso por ir. — Estou ansioso pelo dinheiro. — É mais do que isso. — Também estou ansioso por ajudar Delaney, se é que posso ajudá-lo. — Também é mais do que isso — observou ela. Seu rosto estava triste. “Resignado, lindo e triste”, pensou ele. — Você também está ansioso por me deixar. A nós. — Com a mão enluvada, mostrou as crianças. — Ora, Hélène... — Não para sempre. Não quis dizer isso — atalhou ela. — Mas agora. Por um pouco. Mesmo correndo o risco de que Joe Morrison fique zangado com você. — Não vou comentar isso. — Jack mostrou-se cansado. — Você sabe. Você não tem relações comigo há mais de duas semanas. — É por isso que não gosto que as pessoas me levem ao aeroporto. Conversas como esta...

— As pessoas... — Você. — Antigamente — continuou ela (sua voz era doce e séria, sem recriminações) —, antes de partir numa viagem, você tinha relações comigo meia hora antes da partida. Depois das malas arrumadas e tudo. Lembra disso? — Lembro. — Gosto mais da Air France — dizia o menino. — O azul é uma cor mais rápida. — Você ainda gosta de mim? — perguntou Hélène, em voz baixa, inclinando-se para ele sobre a mesa e olhando-o no rosto, curiosa. Ele a fitou. Objetivamente, sem emoção, ele percebia que ela era muito bonita, com seus olhos grandes e cinzentos, os maxilares altos e os cabelos fartos e escuros cortados curtos e juvenis. Mas no momento, pensou ele, não a amava. “No momento”, pensou, “não amo ninguém.” A não ser os dois filhos. E isso era quase automático. Embora não inteiramente automático. Ele tinha três filhos e só gostava desses dois. Dois em três. Uma média respeitável. — Claro que gosto de você — respondeu. Ela deu um sorrisinho. Ela tinha um sorriso encantador de mocinha, confiante e esperançoso. Em seguida, disse: — Volte em melhor forma. Então a voz em francês e inglês anunciou que se solicitava aos passageiros que passassem pela alfândega, pois o avião para Roma, voo 804, estava sendo anunciado. Aliviado, Jack pagou a nota, beijou os filhos, beijou a mulher, pronto para partir. — Divirta-se, chéri — ainda lhe disse Hélène, de pé, entre o garotinho e a menina loura e esguia de casaco vermelho. “No último momento”, pensou ele, “ela conseguiu dar a impressão de que eu vou sair de férias.” Jack apressou-se na alfândega, passando para o asfalto molhado a caminho do avião. Os outros passageiros já estavam subindo a rampa numa azáfama de fichas de embarque, revistas, casacos e bagagem de mão, de lona, com a marca da companhia de aviação. Quando o avião rodou pela pista para o ponto de levantar voo, ele viu a mulher e os filhos, já do lado de fora do restaurante, acenando para ele. Seus casacos eram alegres pontos coloridos na tarde cinzenta. Ele respondeu pela janela e depois se recostou no assento, aliviado. “Podia ter sido pior”, pensou, enquanto o avião acelerava para decolar. — Hora do chá. — Era a comissária, numa voz cheia daquele charme típico de companhia de aviação. — Que tipo de bolo vocês têm, meu bem? — perguntou a senhora idosa a caminho de Damasco. — Torta de cereja — respondeu a comissária. — Estamos passando sobre o Mont Blanc — anunciou o alto-falante, num sotaque do Texas. — Se olharem pelas janelas à direita, verão as neves eternas. — Quero uma torta de cereja e um bourbon com gelo — pediu a velhinha. Estava do lado esquerdo do avião e não se levantou para ver o Mont Blanc. — É um chá muito bonzinho. — Ela riu, a caminho de Damasco, vinda de Portland, Oregon, ousando fazer coisas numa altitude de sete mil metros que nunca faria em Portland, Oregon. — O senhor deseja alguma coisa, Mr. Andrus? — A comissária dirigiu seu sorriso para o lado do Mont Blanc. — Não, obrigado — disse Jack. Ele queria um uísque, mas quando ouviu a velhinha pedir bourbon sentiu um pequeno lampejo ascético de repugnância contra a ingestão contínua e sem sentido das viagens aéreas. Olhou para baixo, para a chapada branca do monte Branco, envolto em nuvens, rodeado pelos

dentes de pedra dos picos menores. Pôs seus óculos escuros e olhou para a neve cheia de sol, procurando o helicóptero destroçado em que dois alpinistas tinham sido abandonados à morte, quando sobreveio a tempestade e os guias e o aviador que tinham ido em socorro deles tiveram de procurar a cabana de refúgio para se salvarem. Não conseguiu ver o helicóptero. Os Alpes passavam lentamente abaixo, picos e mais picos, profundas sombras azuis, e um sol enorme e redondo, como uma tarde na Idade do Gelo, sem mortos à vista. Ele cerrou as cortinas e recostou-se e refletiu sobre os acontecimentos que tão surpreendentemente o haviam levado àquele avião. Sabia pelos jornais que Maurice Delaney estava em Roma, mas havia cinco ou seis anos que não tinha notícias dele, e foi com uma sensação de descrença que ouviu a voz da mulher de Delaney, Clara, na ligação inesperada de Roma, uma semana antes. — Maurice não pode falar neste momento — dissera Clara, depois das primeiras explicações. — Mas ele escreveu uma carta explicando direitinho a situação. Ele quer que você venha aqui imediatamente, Jack. Você é a única pessoa que pode ajudá-lo, diz ele. Está desesperado. Esse pessoal aqui o está deixando louco. Ele conseguiu que eles concordassem em lhe dar cinco mil dólares pelas duas semanas. Bastam? Jack riu. — De que você está rindo? — Piada particular, Clara. — Ele está contando com você, Jack. O que respondo? — Diga que vou fazer todo o possível para ir. Amanhã telegrafo a ele. No dia seguinte Morrison concordara em dispensar Jack pelas duas semanas e Jack passou o telegrama. Na carta, Delaney resumia o que queria que Jack fizesse para ele. Era tão pouco, e aos olhos de Jack relativamente tão sem importância, que para ele era inconcebível que alguém pagasse cinco mil dólares só por aquilo. Estava certo de que Delaney, tinha outros motivos para pedir que ele fosse a Roma, motivos que Delaney revelaria no momento oportuno. Enquanto isso, Jack se reclinava confortavelmente no assento de primeira classe, pago pela companhia, pensando com satisfação no fato de estar livre da rotina de seu trabalho e de seu casamento por duas semanas. Teria prazer em ver Delaney, que antigamente fora seu melhor amigo, e de quem ele gostava muito. “De quem ainda gosto”, corrigiu-se. “Fora tudo o mais”, pensou Jack, “com encrenca ou sem encrenca, qualquer coisa que tenha a ver com Maurice Delaney não será rotina.” Desabotoou o colarinho, para ficar mais à vontade. Ao fazê-lo sua mão tocou o volume da carta no bolso interno. Fez uma careta de desprazer. “É melhor resolver isso agora”, pensou ele. Provavelmente em Roma não teria tempo. Tirou do bolso do paletó a carta, que já tinha lido três vezes nos últimos dois dias. Antes de tornar a lê-la, olhou melancólico para o envelope, endereçado a ele na caligrafia artificialmente elegante de sua primeira mulher. “Três mulheres”, pensou ele, “e duas delas me estão aborrecendo.” Duas em três. A média repetida de hoje. Suspirou, e, retirando a carta do envelope, começou a ler. Caro Jack, Imagino que você esteja surpreso ao ter notícias minhas depois de tanto tempo, mas é uma questão que diz respeito a você, ou pelo menos deveria, tanto quanto a mim, desde que Steve é seu filho, bem como meu, apesar de você não se ter interessado muito por ele durante esses anos todos. O que ele fará com a vida dele devia preocupá-lo “um pouco”. [Jack tornou a suspirar quando chegou à ironia sublinhada. Os anos não tinham melhorado em nada o estilo de sua mulher.] Já fiz tudo o que é humanamente possível para influenciar Steve e nisso quase tive um esgotamento nervoso; e William,

que tem sido sempre muito afetuoso, correto e tolerante com Steve, mais do que muitos pais de fato que conheço, também fez o possível para que ele mudasse de ideia. Mas Steve, desde a infância, só tem demonstrado o maior e mais glacial desprezo pelas opiniões de William e nenhum de meus argumentos conseguiu melhorar seu procedimento. [Jack sorriu com maldade quando leu esse trecho, e continuou.] Quando Steve voltou da Europa depois de visitar você, no verão do ano passado, falou de você mais favoravelmente, ou, pelo menos, menos desfavoravelmente do que da maior parte das pessoas que ele conhece... [Jack sorriu de novo, desta vez com ironia.]... e ocorreu-me que neste momento de crise talvez você seja a pessoa indicada para escrever a ele e procurar aconselhá-lo. Não quero sobrecarregá-lo, mas o problema é demais para mim. Nestes últimos meses, em Chicago, Steve apaixonou-se por uma garota terrível, de nome McCarthy, e agora está dizendo que vai casar com ela. A moça tem vinte anos, uma joão-ninguém, de uma família inteiramente nula, sem tostão. Como se pode ver pelo nome, ela é irlandesa e imagino que tenha tido criação católica, embora, como Steve e todos os seus outros amigos, ela apenas ria com ironia quando se fala em religião. Como você sabe, Steve depende inteiramente da generosidade de William para todo o dinheiro que recebe, fora do mínimo que você manda para custear-lhe os estudos na universidade. Estou certa de que William não dará o dinheiro necessário para um rapaz que, afinal, nem é filho dele, e que tem demonstrado abertamente seu desprezo por ele desde os cinco anos de idade, para que ele possa montar casa com uma colega boba que conheceu em alguma festa por aqui, e devo dizer que não o culpo. Mais uma vez Jack se pilhou meditando sobre a rica confusão de estilo de sua primeira mulher, embora a ideia geral fosse bem clara. O que é pior [continuava a carta], é que a garota é uma dessas intelectuais fanáticas que nós dois conhecíamos na década de 30, cheia de ideias provocadoras malformadas e uma oposição rebelde à autoridade. Ela contagiou Steve e induziu-o a atividades muito perigosas. Ele é presidente de uma espécie de grupo que está sempre fazendo agitações contra as experiências com a bomba de hidrogênio e assinando todo tipo de manifestos, tornando-se de modo geral bem antipático às autoridades. Até isso acontecer, como você sabe, Steve ia indo maravilhosamente bem na universidade, e estava quase com uma bolsa de pesquisa garantida, depois de ter seu doutorado. Agora parece que estão começando a ter dúvidas quanto a ele e ele já foi avisado uma ou duas vezes por homens mais velhos no departamento, embora você possa imaginar como ele tenha reagido a isso, especialmente com aquela garota incentivando-o. O que é mais, como estudante que sempre se destacou, até hoje ele sempre escapou de ser convocado, como de rotina, mas agora ele está ameaçando inscrever-se como Opositor Consciente. Você bem pode imaginar o que isso significará para ele. Ele está num momento crítico de sua vida, e, se insistir em casar-se com essa moça e em suas atividades políticas idiotas, isso será a sua ruína completa. Não sei o que você poderá fazer, mas se ainda tiver algum amor por seu filho ou desejo de que ele seja feliz, pelo menos tentará fazer alguma coisa. Até mesmo uma carta poderia ajudar, partindo de você. Sinto muito que a primeira notícia de mim depois de tanto tempo seja tão perturbadora, mas não sei mais a quem recorrer. Como sempre, Júlia. Jack ficou com a carta na mão, vendo as páginas vibrarem levemente com o avião. “Como sempre”, pensou ele. O que quereria dizer com isso? Como sempre falsa, como sempre tola, como sempre incompetente, como sempre pretensiosa? Se o “como sempre” fosse uma boa descrição dela, não seria de admirar que Steve não lhe desse ouvidos.

Jack pediu à comissária que lhe desse papel de carta e, quando ela o trouxe, começou a escrever para o filho. “Querido Steve”, escreveu, e depois hesitou, vendo entre ele e o papel o rosto do filho, jovem, frio, esguio e inteligente. Steve fizera uma visita a ele e a Hélène no verão passado, bonito, distante, taciturno, observador. Falava francês espantosamente bem, para um rapaz que nunca tinha estado na França, fora cortês com todos, tinha bebido muito pouco, para alívio de Jack. Em termos simples, tinha explicado o assunto de sua tese, o que tornara Jack vagamente inquieto, e depois partira para a Itália com dois amigos de Chicago. Fora uma época difícil, apesar de não ter havido incidentes, e Jack se sentira aliviado quando Steve de repente anunciou sua partida. Jack não conseguira amar o rapaz, como ele esperava, um tanto tolamente, que pudesse, e o próprio Steve tinha sido apenas educado, não afetuoso. Ao partir para a Itália deixou Jack com um incômodo sentimento de culpa, de oportunidades perdidas, de insatisfação com o filho, consigo mesmo e com o rumo que sua vida tinha tomado. Agora, lá estava ele, sobre a alta espinha branca da Europa, obrigado a escrever uma carta que deveria ser afetuosa e diplomática, além de construtiva e instrutiva, para aquele rapaz frio e taciturno que estava, como dizia sua mãe, prestes a arruinar sua vida em Chicago; — Querido Steve [escreveu], acabo de receber uma carta perturbadora de sua mãe. Ela está preocupada com você e, pelo que posso saber daqui, com razão.. Não faz muito sentido eu explanar todos os motivos por que um rapaz de vinte e dois anos, sem dinheiro e com toda a vida pela frente, não deva casar-se. Eu, por mim, casei cedo, e você deve saber melhor do que ninguém o desastre que foi. Há um ditado grego que diz: “Só um homem tolo casa cedo e só uma mulher tola casa tarde”, e, por experiência própria, eu diria que pelo menos a primeira metade do adágio está certa. Eu esperaria, se fosse você, pelo menos até terminar os estudos e estar estabelecido em algum lugar. O casamento já arruinou mais rapazes do que a bebida. Se você for ambicioso, e acho que é, no fim ainda me agradecerá este conselho. Jack levantou os olhos da carta. De repente sentiu que a velhinha do outro lado do corredor o estava olhando fixamente. Virou a cabeça e deu-lhe um sorriso. Encabulada, ela olhou depressa para fora, pela janela a seu lado. Sua mãe escreve ainda [continuou Jack] que você está prejudicando seu futuro devido a certas atividades políticas na universidade. Talvez você tenha razão em suas opiniões e provavelmente tenha a convicção firme de que deve exprimi-las, mas procure compreender que hoje, para um rapaz que pretende fazer carreira como físico nuclear, pesquisador ou professor, ou ambos, uma oposição declarada à política governamental só pode ser perigosa. O Governo dos Estados Unidos está hoje sob uma pressão contínua, e os governantes (que, como você sabe tão bem quanto os outros, se ocupam atualmente de grande parte das pesquisas e financiamento de seu ramo de especialização) são agitados e desconfiados. O Governo também tem boa memória e não hesita em utilizar seus poderes para pressionar organizações ou pessoas que possam querer contratar alguém que tenha atacado sua posição num ponto tão vulnerável e controverso. Mais uma vez, nisso como no assunto do casamento, poderia ser ajuizado e esperar um pouco mais, até você ficar menos perigosamente exposto, antes de tomar qualquer decisão irrevogável. Do ponto de vista de realizações práticas, você poderia parar para considerar se o seu protesto agora, o protesto de um jovem inexperiente, seria de alguma utilidade real, ou se apenas o poderia expor aos castigos que o sistema está perfeitamente preparado e disposto a aplicar. Não é necessário, Steve, como os jovens costumam pensar, dizer tudo o que lhe vem à cabeça, abertamente e com um descaso completo pelas consequências. A estratégia e o tato não precisam ser confundidos com a submissão. Foi só recentemente que a reticência veio a ser considerada uma falta de caráter... Releu o que tinha escrito. “Lorde Chesterfield a seu filho”, pensou ele, aborrecido. “Tenho escrito muitos discursos para generais. Se eu realmente o amasse, esta carta seria inteiramente diferente.” Deixe-me exprimir mais detalhadamente o que realmente sinto [continuou ele]. Não é que eu não compreenda por que você se horroriza com a perspectiva de mais explosões nucleares, de mais uma guerra. Também eu estou horrorizado e gostaria de ver as experiências sustadas, a guerra evitada.

Compreendo que é porque os homens de ambos os lados estão falidos de ideias proveitosas que esses testes continuam, que a ameaça da guerra não desaparece. Mas até mesmo os falidos têm o direito de tentar sobreviver, nos termos em que puderem. O que nós, americanos, estamos fazendo talvez seja ditado por uma política de sobrevivência de falidos, mas quem nos oferece uma política melhor? Eu estou metido nessa política atual e, embora não esteja satisfeito com ela, tampouco me satisfaz qualquer alternativa apresentada até agora. Seu meio irmão Charlie exprimiu meus sentimentos a respeito do que estou fazendo melhor do que eu consegui exprimi-los. Quando um colega dele perguntou o que o pai dele fazia na vida, ele respondeu: “Meu pai trabalha para evitar que o mundo tenha outra guerra.” Jack sorriu sozinho, pensando no garotinho no aeroporto, franzino, contra a vidraça embaçada, dizendo: “Gosto mais da Air France. O azul é uma cor mais rápida.” Depois tomou a olhar para a carta, franzindo a testa, pensando se não seria melhor rasgá-la e procurar ver se Steve podia ir até Roma para eles terem uma conversa de homem para homem. Custaria pelo menos mil dólares, e, a julgar pelo que acontecera no verão passado, não adiantaria muito. Por isso, continuou: Não estou satisfeito com esta carta [escreveu], mas meus motivos para escrevê-la são puros. Quero salvá-lo de perigos que eu talvez enxergue mais claramente do que você e a que você não tem necessidade de se expor. Por favor, não seja impetuoso. Hesitou. Depois, escreveu depressa “seu pai afetuoso” e dobrou as páginas, colocando-as no envelope e endereçando-o. “Mais uma mentira”, pensou ele, “para voar pelo oceano a seiscentos quilômetros por hora.” Pôs a carta no bolso, para ser despachada depois, e recostou-se com a sensação de um dever desagradável cumprido de maneira respeitável, embora não muito brilhante. Fechou os olhos e tentou dormir, tentou esquecer toda a irritação e nervosismo dos últimos meses, que tinham culminado com o ataque de Hélène, a atitude fria de Morrison quando insistiu em que ele cumprisse a promessa de lhe dar folga para ir a Roma. “Para o diabo com tudo isso”, pensou ele, todos os seus problemas se misturando numa confusão desagradável em sua cabeça. “Não me importo se ele me mandar para Washington ou para a Mongólia ou para o Polo Sul, não me importo se meu filho se casar com a mulher barbada do circo e fugir para a Rússia com os últimos segredos da guerra química, não me importo se não dormir com minha mulher de hoje até o fim do século, não me importo, não me importo...” Aí ele dormiu, o sono agitado e conturbado do homem moderno, sobrecarregado, em viagens rápidas; o sono inquieto, nada reparador, vertical, dos viajantes de avião. A velhinha espiou por cima de seu bourbon para o homem adormecido. Desde que ele embarcara em Orly, ela o olhava furtivamente, quando achava que ele não estava olhando na sua direção. “Psiu”, disse ela para a comissária, que vinha pelo corredor com um travesseiro. — Quem é o cavalheiro, meu bem? — cochichou a velhinha, segurando o braço da comissária. — Já o vi em algum lugar. — O nome dele é Andrus, Mrs. Willoughby — disse a comissária. — Desembarca em Roma. A velhinha ficou olhando para o rosto adormecido. — Não — sacudiu a cabeça. — Sei que já o vi em algum lugar, mas não sei onde. Tem certeza de que o nome é Andrus? — Tenho, sim, Mrs. Willoughby. — A comissária sorriu educadamente. — Ele tem mãos brutais — continuou Mrs. Willoughby. — Mas tem um rosto marcante. Vou me lembrar. Das profundezas do passado. — Com certeza — disse a comissária, pensando: “Graças a Deus que eu vou saltar em Istambul.” — Tenho certeza de que você é muito moça para se lembrar — concluiu Mrs. Willoughby, confusamente, dispensando-a. A comissária afastou-se com o travesseiro e Mrs. Willoughby bebericou seu bourbon, olhando acusadoramente para as mãos brutais e o rosto generoso, quase lembrados, do outro lado do corredor.

Jack dormia agitado, mexendo-se no travesseiro, um homem grande com uma cabeça comprida e pesada, o lado do rosto que estava virado para Mrs. Willoughby compacto, irregular e marcado por uma cicatriz que descia em curva desde o cabelo grosso, escuro, pontilhado de cinza. “Trinta e sete, trinta e oito”, concluiu Mrs. Willoughby, cometendo o engano normal dos velhos, julgando as pessoas mais moças do que eram. Ela aprovava o tamanho dele. Gostava que os americanos fossem grandes, quando viajavam em outros países. Também aprovava as roupas dele, um terno cinza de corte largo e confortável que faz os europeus dizerem que os americanos não sabem se vestir, e uma gravata escura e macia. Mas a identidade dele lhe escapava. O nome que ela buscava estava na ponta da língua, exasperante, e ela sabia que não era Andrus. A falha em sua memória a fazia sentir-se insegura e velha. Quando Jack acordou, puxou as cortinas e viu que estavam perdendo altitude, aproximando-se de Roma. Desviando o olhar da janela, sentiu que a velhinha do outro lado do corredor estava olhando muito para ele, de testa franzida. . Endireitando-se no assento e apertando o cinto de segurança, achou que devia ter falado durante o sono e dito alguma coisa que a senhora não tinha aprovado. Na penumbra, as pistas luziam após uma chuvarada caída dos montes Albani; fiapos de nuvens, iluminados pelos últimos raios avermelhados do sol poente, corriam pelo céu estriado. Olhando pela vidraça, quando o avião se inclinou e os flaps desceram, Jack lembrou-se da cor de estanho, macia e densa, do céu de inverno de Paris, e gostou do contraste. “A chegada em quase qualquer parte da Itália”, pensou ele, “por qualquer meio de transporte, era uma coisa que levantava os ânimos e renovava o interesse da pessoa por coisas simples como o colorido, a chuva e as formas que o vento criava no céu”. Mrs. Willoughby fez um último exame minucioso da pessoa dele quando se dirigiu para o restaurante, onde os passageiros em trânsito deviam esperar enquanto o avião se reabastecia. Jack cumprimentou-a polidamente, levantando o chapéu, e quando se dirigiu para o balcão do exame de passaportes ele a ouviu dizer, com uma satisfação desaprovadora, “James Royal”. Ela disse isso a um senhor sírio que estava caminhando a seu lado. O senhor sírio, que entendia árabe e francês, disse as duas únicas palavras que conhecia em inglês, “muito bem”, transpirando com o esforço da amizade internacional — Pensei que ele estivesse morto — prosseguiu Mrs. Willoughby, caminhando com energia para o restaurante. — Tenho certeza de que alguém me disse que ele tinha morrido. Jack já estava quase saindo da alfândega, diante de um balcão onde um funcionário numa roupa listrada, deformada, marcava suas malas com um pedaço de giz, quando viu Delaney. Ele estava junto das portas de vidro que separam a sala da alfândega da sala de espera. Usava um bonezinho de tweed, como um vendedor irlandês de “barbadas” de corridas, e um casaco de tweed berrante, e seu rosto estava reluzente, queimado do sol, míope e com uma expressão de boas-vindas, do outro lado do vidro. Para Jack, ele em nada parecia um homem em apuros. Quando Jack notou o alívio que sentia ao ver Delaney ali, tão igual ao de quem ele se lembrava, percebeu como tinha receado rever o amigo, com medo das marcas que os anos poderiam ter deixado nele. Logo que Jack transpôs a porta, Delaney apertou-lhe efusivamente a mão, sorrindo, enquanto lhe dizia com sua voz grossa e rouca: — Eu disse a eles que diabo podiam todos ir para casa, mas eu não ia deixar você chegar aqui para ser recebido só por um motorista. — Agarrou a pastinha que Jack estava carregando. — Dê aqui — disse ele. — A não ser que seja tudo ultrassecreto e você seja espancado até a morte caso a deixe sair de suas mãos. Jack sorriu, caminhando ao lado do homenzinho robusto e com ar feroz, em direção ao estacionamento. — Para dizer a verdade, é o plano de batalha para o norte da Europa — brincou Jack. — Mas tenho mais seis cópias em casa, se perder esta. Enquanto o carregador e o motorista colocavam a bagagem de Jack na mala do carro, Delaney recuou e ficou olhando para Jack, pensativo, de testa franzida. — Você não tem mais cara de garoto, Jack — disse ele.

— Eu não tinha cara de garoto na última vez que você me viu — observou-lhe Jack, lembrandose do dia em que tinha ido à casa de Delaney para se‘ despedir. — Tinha, sim — replicou Delaney, sacudindo a cabeça. — Era contra a natureza, mas tinha. Um menino estragado. Mas um menino. Eu pensei que nunca havia de ver os cabelos grisalhos e as rugas. Cristo, não lhe vou pedir que comente a minha aparência. Choro quando por acaso me vejo no espelho ao fazer a barba. Ecco! — Voltou-se para o carregador, metendo-lhe moedas de cem liras nas mãos. — Vamos.



2 Correram para Roma na Fiat verde e barulhenta. O motorista era um rapaz de pele cor de oliva, com cabelos lindamente escovados e reluzentes e olhos tristes, de pestanas compridas e negras. Ele guinava o carro para um lado e outro no meio dos caminhões, motocicletas e Vespas, como um piloto de corridas, piscando os faróis com impaciência quando era momentaneamente obstruído na estrada estreita e esburacada junto ao hipódromo e aos muros do estúdio cinematográfico que Mussolini. tinha construído, em seus bons tempos, para desafiar Hollywood. — Pode ficar com o carro e o motorista — disse Delaney. — Sempre que quiser. Durante as duas semanas. Faço questão. — Obrigado — agradeceu Jack. — Mas se for causar transtorno, posso andar a pé. Gosto de andar a pé em Roma. — Tolice. — Delaney fez um gesto imperial com a mão. Ele tinha mãos pequenas, macias, surpreendentes, como as de um pianista criança, em contraste com seu corpo rude, curto e largo. — É preciso fazer essa gente sentir que você é importante. Senão, não querem nada com você e mijam no seu trabalho. Se você for bem superior, eles hão de se dobrar em sorrisos quando lhe pagarem os cinco mil dólares. — Sinceramente — disse Jack —, quero agradecer o... — Esqueça, esqueça. — Delaney tornou a fazer um gesto com a mão. — Você me está prestando um favor. — É muito dinheiro para mim, sabe? — continuou Jack. — Acredito em dar uma propinazinha aos nossos leais funcionários públicos. — Os olhinhos de macaco de Delaney, azul-gelo e claros, brilharam, divertidos. — Para os manter satisfeitos com sua triste sorte. Diga-me, quais são as informações secretas? Vamos ter uma guerra nos próximos dez minutos? — Creio que não — disse Jack. — Bom. Vou poder acabar o filme. — Como vai indo? — perguntou Jack. — Normal. Há certos dias em que tenho vontade de beijar todo mundo do set. Outros dias, quero meter uma bala na cabeça. Já passei por isso cinquenta vezes. A única diferença é que desta vez temos a mais um pequeno caos italiano, para tornar a coisa mais divertida. Tenho o texto aqui — mostrou uma pilha volumosa de papéis no assento a seu lado, grampeados — em papelão rosa fino. — Você pode dar uma olhada amanhã de manhã. — Não espere muita coisa — disse Jack. — Você sabe, não leio uma linha de diálogo há mais de dez anos. — Três dias depois que o enterrarem — prosseguiu Delaney —, você será um ator melhor do que o rapaz que tenho lá agora. — O que é que há com ele? — perguntou Jack. — Sempre achei que ele era bem bom. — Bebida — respondeu Delaney. — Afundando no uísque. A aparência dele é boa, embora isso desapareça dentro de um ou dois anos, mas não se entende uma palavra do que ele diz. A única coisa que eu quero de você é que faça uma trilha sonora simples, clara, sexy e compreensível para uma inteligência de doze anos. — Sorriu. Depois falou mais sério: — Você tem de ser bom, garoto. Tem de ser como nos velhos tempos, Jack... — Vou tentar — disse Jack, inquieto. Por um momento, ficou perturbado com a intensidade da

expressão dos olhos frios e azuis. Ali, havia um sinal desesperado e velado, um apelo frenético, inteiramente desproporcionado ao trabalho real que Delaney queria que ele fizesse. Pela primeira vez na vida, Jack teve a impressão de que Maurice Delaney um dia poderia fracassar. — Você vai ter de fazer mais do que tentar, garoto Jack — disse Delaney, calmamente. — O que você fizer pode fazer ou desfazer tudo. É a chave do filme. Foi por isso que o andei procurando por toda parte, porque você é o único que pode fazê-lo. Você vai ver quando ler e quando passar a parte que já filmamos, amanhã. — Maurice — Jack procurou aliviar a tensão repentina que tinha surgido no carro. — Você continua a levar os filmes a sério demais. — Não diga isso — replicou Delaney, asperamente. — Mas, depois de todos esses anos — protestou Jack —, você podia deixar um pouco... — No dia em que eu deixar um pouco, podem vir me buscar e me enterrar. Com minha permissão. — Nunca haverão de enterrar você. — É o que você diz — grunhiu Delaney, com selvageria. — Você leu alguma das críticas a meus últimos filmes? Viu os relatórios financeiros? — Não — respondeu Jack. Ele tinha lido algumas críticas mas resolvera ter tato. E não tinha visto os relatórios financeiros. Isso pelo menos era verdade. — Isso é que é um bom amigo. -=— Delaney sorriu abertamente, com um cinismo e malícia de macaco. — Mais uma coisa. — Ele olhou em volta, como se tivesse medo de ser ouvido. — Eu gostaria que você guardasse segredo disso. — Como assim? — Bom, ainda temos mais de uma semana de filmagens, e se Stiles perceber que não estamos usando sua própria voz de ouro poderá ficar aborrecido. — E será possível conservar em segredo uma coisa dessa, em Roma? — Por uma semana — disse Delaney. — Com sorte. Sim. Depois disso, ele que grite. Só chegamos ao set às onze e trinta da manhã e você e eu faremos o trabalho sujo antes disso. Você se importa de levantar de madrugada? — Você se esquece de que trabalho para o Governo — disse Jack. — O Governo levanta cedo hoje em dia? — perguntou Delaney. — Isso nunca me ocorreu. Deus, que vida você deve levar. — Não é tão má assim — comentou Jack, vagamente defendendo os últimos dez anos. — De qualquer forma, foi bondade deles lhe darem folga para me ajudar. Diga-lhes que pagarei mais uns cem mil dólares de impostos no ano que vem para mostrar minha gratidão. — Não se preocupe. — Jack sorriu. Os problemas de Delaney com o imposto sobre a renda tinham sido muito comentados nos jornais e alguém calculou que mesmo que ele vivesse até os noventa anos, entregando todos os seus vencimentos ao departamento, ainda terminaria devendo mais de duzentos mil dólares. — Eles me devem vários meses de licença. E eu estava ficando de tão mau humor que todos em Paris deram vivas quando parti. — Ele não queria preocupar Delaney com a verdade dos perigos que ele corria com Morrison devido à sua insistência em ir a Roma. — Trabalhando duro para proteger a civilização conforme a conhecemos, garoto? — perguntou Delaney. — Só noite e dia — respondeu Jack. — Deus! — exclamou Delaney. — Talvez devêssemos estourar tudo e acabar com tudo isso. Você acha que quando estourar eles vão pegar os arquivos do imposto sobre a renda? — Está tudo em microfilmes em cofres subterrâneos — desenganou-o Jack. — Ah, nem mesmo essa esperança. Não há escapatória. Escute, o que é que vocês fazem com

todos aqueles soldados em Paris? — Um pouco de tudo — esclareceu Jack. — Falo com parlamentares em visita quando meu chefe está ocupado, faço relatórios, minto aos jornalistas, acompanho fotógrafos de noticiários e os mantenho afastados de instalações secretas, escrevo discursos para generais... — Desde quando você aprendeu a escrever? — Não aprendi, mas qualquer pessoa que saiba quando usar dois rr sabe o suficiente para escrever discurso para um general. Delaney riu roucamente. — Como, diabos, você veio a se meter com uma coisa dessas? — Por acaso. — “Do jeito como me meti com todo o resto na vida”, pensou. Com Delaney, também. — Eu estava jogando tênis em St.-Germain, um domingo, e meu parceiro por acaso era um coronel da Força Aérea. Nós ganhamos. Ele queria me conservar como parceiro, por isso ofereceu-me um emprego. — Ora, vamos — disse Delaney. — Nem mesmo a Força Aérea pode ser assim tão displicente. Ele devia saber de alguma coisa a seu respeito. — Claro. Ele sabia que tinha estado metido no cinema em alguma ocasião e havia um projeto para fazer um documentário sobre as forças da nato, e uma coisa puxou outra... — Guido! — gritou Delaney para o motorista, que tinha acabado de escapar de bater num táxi. — Você nunca se perdoará se me matar. Lembre-se disso! O motorista virou a cabeça e sorriu muito, os dentes brilhando, perfeitos e felizes, os olhos imutavelmente escuros e cheios de tristeza. — Ele entende inglês? — perguntou Jack. — Não. Mas é italiano. É sensível às entonações emocionais. Diga-me, como vai sua família? Quantos filhos você tem? Três? — De quantos casamentos? — disse Jack. Delaney sorriu. — Do atual. Sei quantos você tem dos anteriores. — Dois. Um menino e uma menina. — Feliz? — Delaney olhou para ele, curioso. — Hummm — resmungou Jack. “Exceto nos aeroportos”, pensou, “e em certos outros lugares, em certas outras ocasiões.” — Talvez eu devesse ter-me casado com uma francesa — divagou Delaney. Ele se tinha casado quatro vezes e sua terceira mulher certa vez atirara nele num estacionamento com uma espingarda de caça. — Experimente um dia desses — disse Jack. — Quando eu terminar o filme, talvez vá visitá-lo em Paris — comentou Delaney. — Bem que eu gostaria de. um pouco de Paris. E uma rápida visão de felicidade doméstica. Se eu um dia terminar o filme. — Sobre o que é? — Jack indicou a capa de papelão rosa a seu lado. — O normal. — Delaney fez uma careta. — Ex-pracinha volta a Roma, a vida toda atrapalhada, e encontra a garota que ele amou quando voltou de Salerno. Paixão mediterrânea e culpa anglo-saxônica. Deus, as histórias estão ficando mais cansativas hoje. — Calou-se e ficou olhando melancolicamente para o ativo tráfego da noite. Jack olhou pela janela do seu lado. Estavam passando pela Igreja de Santa Maria Maggiore, maciça e imponente. — Um dia — disse Jack —, vou parar quando vier do aeroporto e ver o que realmente existe dentro desse prédio.

— Esta é a única cidade — comentou Delaney — em que nunca fico tentado a entrar numa igreja. — Riu, secamente. — Acredite ou não, eu ainda me confessava em 1942. Mas isso era na Califórnia. Um cardiologista me disse que eu ia morrer dentro de seis meses. Ficaram calados um pouco, a igreja desaparecendo atrás deles. Em seguida Delaney prosseguiu: — Ah, tivemos um bom pedaço juntos por alguns anos, nós dois. — Foi — concordou Jack. — Deus, nós demos sorte um ao outro. Por algum tempo, parecia que havia uma lei federal proibindo-nos de fazer qualquer coisa errada. — Deu um riso meio triste. — Depois teve de vir o raio da guerra. — Sacudiu a cabeça. — Talvez ainda possamos dar sorte um ao outro. De novo. É possível, não é? — É possível — concordou Jack. — Jesus! — disse Delaney. — Você era um rapaz maravilhoso, naqueles tempos. — Suspirou. — O raio da guerra — repetiu ele, baixinho. Depois olhou em volta, mais animado. — Bom, de qualquer forma, estamos vivos, os dois. Isto não é mau lugar para se estar vivo, Roma. Já esteve aqui antes? — Duas ou três vezes. Só alguns dias de cada vez. — Escute — disse Delaney. — Tem programa para hoje à noite? — Não — respondeu Jack. — Nenhuma estrelinha italiana de busto grande avisada para estar alerta para a Grande Noite? — Tenho de ficar lembrando a você — falou Jack, com calma — que agora eu trabalho para o Governo. Tudo isso já passou. — OK Venho buscá-lo daqui a uma hora. Pode tomar um banho e tirar a poeira da viagem do rosto. Tenho uma surpresa para você. — O que é? — perguntou Jack, quando chegou ao hotel e o porteiro abriu a porta do carro. — Você verá — respondeu Delaney misteriosamente, enquanto Jack saltava. — Prepare-se para uma noite engraçada. Encontro-o no bar daqui a uma hora. O motorista já tinha tirado as malas de Jack e o porteiro as colocava a um lado, debaixo do pórtico, enquanto o carro partia. Jack acenou para o vidro traseiro e virou-se para subir os degraus do hotel. Duas mulheres e um homem iam saindo da porta giratória e Jack esperou um momento enquanto eles ficavam ali enfileirados, bloqueando a entrada. As duas mulheres seguravam o homem, com solicitude, como se ele estivesse doente, e a mulher mais alta tinha o braço em torno da cintura do homem. Quando Jack começou a passar por eles, o homem de repente se soltou das mulheres e cambaleou na direção de Jack. Olhou para Jack um momento, sorrindo à toa, sem chapéu, despenteado, os olhos injetados. Depois tomou impulso e deu um soco no nariz de Jack. — Sanford! — gemeu uma das mulheres. A outra disse: — Oh, Deus! Jack perdeu o equilíbrio, as lágrimas subindo-lhe aos olhos, com a pancada. Teria caído se não fosse uma pilastra do pórtico atrás dele. Sacudiu a cabeça uma vez, para limpar os olhos, e se endireitou, levantando os punhos instintivamente e dando um passo na direção do homem que o golpeara. Mas era tarde. O homem tinha escorregado defronte da porta giratória e estava ali sentado, as pernas esparramadas, sorrindo para Jack como bobo, as mãos agitando-se lânguidas no ar, como um maestro regendo uma valsa. — Que diabo você pensa que está fazendo? — Jack ficou ali por cima do homem, tocando-o com a ponta do sapato, querendo que ele se levantasse para poder dar-lhe a resposta. — Arrivederci, Roma — disse o homem. As mulheres esvoaçavam em volta dele, puxando-o em vão pelos braços, fazendo barulhinhos reprovadores, sem conseguir movê-lo. Eram todos americanos: as mulheres, quarentonas e vestidas como matronas numa exposição de flores; o homem, de seus trinta e cinco anos, corpulento e amarrotado. — Oh, Sanford — disse a mulher mais alta, quase chorando. — Por que é que você faz essas

coisas? — Ela tinha na cabeça um chapéu chato, com duas gardênias costuradas. — Quer que chame um guarda, senhor? — Era o porteiro, de cara séria, ao lado de Jack. — Há um na esquina. — Oh, por favor... — exclamou a mulher das gardênias. — Deixe só que o filho da mãe se levante — disse Jack. Ele apalpou o nariz e sua mão ficou toda cheia de sangue. O homem esparramado nos degraus olhou para Jack, a cabeça balançando, o sorriso sabido e triunfante nos lábios. — Arrivederci, Roma — cantou ele. — Ele está bêbado — disse a mulher mais baixa. — Por favor, não dê nele. — Ela e a outra mulher conseguiram levantar o homem e ficaram em volta dele, protegendo-o, arrumando suas roupas, apoiando-o, cochichando com ele, suplicando a Jack e ao porteiro, interpondo-se entre Jack e o bêbado. — Ele está bebendo desde que chegamos à Europa. Oh, Sanford, você devia ter vergonha. — A mulher do chapéu falava depressa, em todas as direções. — Meu caro senhor, está sangrando muito. Espero que tenha um lenço, vai estragar seu belo terno cinza. Antes que Jack pudesse interromper, a mulher tinha pegado um lenço e o metia em sua mão. Quando Jack o levou ao nariz, a mulher mais baixa empurrou o bêbado para mais longe do perigo, murmurando: — Oh, Sanford, você prometeu ser bonzinho. Jack sentiu o lenço, macio e cheiroso, ensopando-se rapidamente em sua mão. Apesar do sangue, o perfume do lenço parecia conhecido, e ele ficou pensando naquilo enquanto ficava ali, cheirando, incerto. Um táxi parou junto ao pórtico e o homem e a mulher que saltaram dele olharam com curiosidade primeiro para Jack e depois para as duas mulheres e o bêbado, enquanto o homem pagava a corrida. Seus olhares frios e reprovadores fizeram Jack sentir, estupidamente, que, por um sentido de responsabilidade social, ele lhes devia uma explicação do que tinha acontecido. A mulher do chapéu tomou a mexer na sua bolsa, falando o tempo todo. — Prudence — disse ela, num cochicho alto, com sotaque de Boston —, ponha esse rapaz levado nesse táxi. Isto está virando uma cena. — Pegou uma nota de dez mil liras da bolsa e meteu-a no bolso de Jack. — Não há necessidade de chamar a polícia, há? Sinto imensamente. Isso é para mandar limpar o terno, é claro. — Ora, venha cá — disse Jack, tirando a nota do bolso e tentando devolvê-la à mulher. — Não quero... — Nem por sonhos — disse a mulher, recuando. Pegou uma nota de mil liras e deu-a ao porteiro, enquanto os recém-chegados entravam devagar no hotel, olhando para eles. — Por ser tão amável — explicou ela, com ares de grandeza. — Agora entre nesse táxi, Sanford. E peça desculpas ao senhor. — Foi isso que cantaram — disse o bêbado, batendo com a cabeça e rindo — quando o Doria afundou. — Não há nada a fazer com ele quando bebe — desculpou-se ainda a mulher. Com uma destreza atlética, ela empurrou o bêbado para dentro do táxi e bateu a porta. — Arrivederci, Roma — flutuou a voz do homem até eles, enquanto o táxi se afastava. — Navegação italiana. Enquanto a tripulação escapava nos barcos salva-vidas. O filho da mãe merecia. Viram a cara dele quando eu o esmurrei? Viram? Surpreendentemente, pelas vidraças abertas do táxi ouviu-se o som do riso das mulheres, alto, estridente, incontrolável, por cima do ronco do motor velho e do gemido dos pneus. — Está muito machucado, senhor? — perguntou o porteiro. — Não — respondeu Jack; sacudindo a cabeça, olhando para o táxi que desaparecia na rua. — Não foi nada.

— O cavalheiro é seu amigo? — O porteiro segurou com delicadeza o cotovelo de Jack quando ele se dirigiu para a entrada, quase como se estivesse com medo de que Jack, reagindo devagar, por fim caísse a seus pés. — Não, nunca o vi na vida. Sabe quem é ele? — Foi a primeira vez que vi o cavalheiro — explicou o porteiro. — E as senhoras. Sinto muito ter acontecido isso, senhor. — Seu rosto comprido, militar, sobre o casaco bem feito, estava aflito. — Espero que não haja resultados, senhor. — O que é isso? — Jack virou-se na porta giratória, sem entender. — O que quer dizer “resultados”? — Quero dizer reclamações à gerência, senhor, indagações sobre como aconteceu, etc., senhor — esclareceu o porteiro. — Não — disse Jack. — Não se preocupe. Não haverá resultados. — O senhor compreende — continuou o porteiro delicadamente. — Eles não eram italianos. Jack sorriu. — Eu sei. Esqueça-se. O porteiro, aliviado com essa absolvição nacional, cumprimentou-o meio duro: — Sou muito grato, senhor, por sua atitude. Espero que o seu nariz não tenha sofrido alguma lesão permanente. Ele fez girar a porta e Jack entrou no saguão do hotel, segurando o lenço ensanguentado junto do nariz, cheirando o perfume. Quando foi para o balcão, reconheceu-o. Era o mesmo perfume que sua mulher usava. “Femme”, disse ele consigo mesmo. “Femme.” Quando deu o nome e entregou o passaporte na recepção, o funcionário cumprimentou-o e sorriu com simpatia para ele. — Sim, Mr. Andrus, temos uma suíte reservada para o senhor. — Chamou um mensageiro e, enquanto esperavam, olhou para Jack com compreensão. — O senhor se machucou? — perguntou, fazendo por merecer seu dinheiro, seriamente preocupado com o bem-estar dos hóspedes que tinham suítes reservadas. — Não — respondeu Jack, tentando tirar o lenço do nariz. — Tenho uma tendência .para sangramentos nasais. É uma fraqueza de família. — Ah — disse o funcionário, com pena de toda a família de Jack. O sangue continuava a escorrer, de modo que Jack teve de subir no elevador segurando o lenço manchado diante do rosto. Ficou olhando sério para as costas do mensageiro, fingindo não reparar nas duas moças que também estavam no elevador e que olhavam para ele com curiosidade e cochichavam entre si em espanhol. Havia flores no salão da suíte e desenhos renascentistas de Roma nas paredes altas. Jack, lembrando-se do apartamentinho, pequeno e apinhado de coisas de crianças, com os tetos manchados, em Paris, sorriu de prazer diante da sala severa, vazia e elegante. Havia tanto tempo que não saía de casa que se tinha esquecido da alegria de solteiro, de estar sozinho num quarto de hotel. Deu uma gorjeta ao rapaz, entregando-lhe a carta para o filho. Em seguida, examinou o quarto de dormir e o banheiro enorme, de mármore, com duas pias. “Uma para mim”, pensou ele, displicente, “e uma para quem quer que seja.” Contemplou-se no espelho e viu que o nariz estava começando a inchar. Ele o tocou, para experimentar. Um esguichinho de sangue jorrou para dentro do branco da pia, manchando-a dramaticamente. Mas o nariz não parecia quebrado, nem parecia que ele fosse ficar de olho preto. — O filho da puta — murmurou ele, lembrando-se do bêbado esparramado defronte das portas giratórias, fora do alcance do castigo. Enfiou um pouco de papel higiênico dentro das narinas para fazer coagular o sangue e tocou a campainha para a camareira e o garçom. Abriu as malas e tirou uma garrafa de uísque, um roupão e um terno. Olhou para o terno, com olho crítico. A valise era anunciada, nos Estados Unidos, como tendo capacidade para três temos sem amarrotá-los. Segundo o anúncio, era

possível tirar-se um terno da mala e vesti-lo imediatamente, pois estaria impecavelmente conservado. Mas, de alguma forma, cada vez que Jack tirava um temo de uma mala, parecia que ele o tinha usado durante semanas como ninho de muitos cachorrinhos recém-nascidos. Fez uma careta quando pensou no quanto lhe custara a mala. O terno que ele estava usando estava fora de cogitações: cheio de manchas molhadas, marrons e alongadas, na frente. Ele próprio parecia a primeira pessoa que a polícia poderia prender dez minutos depois de cometido um crime. O garçom e a camareira entraram juntos — o garçom jovem e lépido e a caminho de coisas maiores em grandes salas de jantar, e restaurantes elegantes; a mulher, grisalha, velha e disforme, com um sorriso desdentado e gemido, e uma história de escadas de serviço, partos, privações, viuvez e pequenos furtos estampada em todos os traços de seu rosto. Jack pediu gelo ao garçom e deu à camareira o terno amarrotado para ser passado e o paletó que ele estava usando. — Per pulire, per favore — disse ele, satisfeito por se lembrar da palavra “limpar”. A camareira olhou espantada para o paletó no seu braço e tocou numa das manchas marrons. Virou-se para Jack, com um ar de pergunta. — Sangue — disse ele. Procurou lembrar-se da palavra em italiano, mas não conseguiu. — Sangue — repetiu ele mais alto. A camareira sorriu aflita, querendo agradar, sem compreender. — Va bene — disse ela. — Sangue — disse o jovem garçom, da porta, a voz superior, impaciente, em italiano. — Sangue. — Ah, si, si, sangue. — A camareira bateu com a cabeça grisalha e triste, como se devesse ter sabido disso logo de saída, como se todos os hóspedes daquele excelente hotel sempre chegassem com paletós manchados de sangue. — Súbito, súbito. — Ela trotou pela porta afora, acompanhando o garçom. Jack desfez as malas, enquanto esperava que o garçom voltasse com o gelo. Pendurou os outros ternos, esperando que* se desamassassem por si até de manhã, e colocou a fotografia da mulher e filhos, em sua moldura de couro, sobre a cômoda do quarto. Havia uma sacadinha na janela do quarto e ele foi até lá, mas a suíte era de fundos e o que ele podia ver eram só as janelas dos prédios do outro lado da rua estreita, lavadas pelas chuvas e cinzentas contra 0 céu da noite, que refletia o néon multicolorido de Roma. Lá de baixo vinha o som de um rádio tocando, alto, uma canção estridente, insistente, com um ritmo de rock-and-roll. Estava frio na sacada e ainda havia chuva no ar. Com os contornos sem graça dos prédios do outro lado da rua e a luz néon e o ritmo rude e desagradável da música, aquela poderia ser uma cidade qualquer numa noite de inverno na Era Americana. Na sacada do hotel, nada havia para lembrar que outrora César tinha governado a terra lá embaixo ou que Michelangelo tinha discutido com um papa na cidade ou que reis atravessaram a cidade para serem coroados a três quilômetros de distância. Sentindo frio, Jack entrou de novo no quarto, fechando as portas envidraçadas para não ouvir o rádio. Sobre a cômoda, viu a nota de dez mil liras amarrotada que a mulher o forçara a receber. Sorriu ao vê-la, pensando: “Já derramei sangue por menos do que isso.” Resolveu comprar um presente para os filhos com aquilo, antes de partir de Roma. Alisou a nota, dobrou-a com cuidado e guardou-a na carteira, não na parte do dinheiro, mas junto da carteira de motorista, para não misturá-la com o outro dinheiro. Quando o garçom chegou com o gelo, Jack se serviu de um uísque com água. Tirou os sapatos e sentou-se na beira da cama, tomando o uísque, cansado da viagem e incomodado com o nariz inchado. Sentado assim, com os olhos semicerrados, sentindo o gosto do sangue, uma imagem começou a formar-se lentamente em sua cabeça, a vaga recordação de outro momento, há muito tempo, em que se tinha sentado assim, só que era num banco de madeira, sentindo o gosto do sangue na garganta. Fechou os olhos completamente, para concentrar-se, e a imagem se tornou mais clara. Era numa tarde de primavera e ele sentia o perfume da grama molhada. Tinha dez anos e estava no campo de beisebol da escola e uma

bola o tinha atingido em cheio entre os olhos e ele tinha sangrado durante três horas, até o pai chegar a casa e pôr gelo na sua nuca e fazê-lo deitar-se de cabeça para baixo sobre a beira da cama. — Da próxima vez — dissera o pai, animado, enquanto a mãe se mexia por perto, preocupada —, você não vai tentar parar a bola com o nariz. — Ela deu um pulo errado, pai — explicara Jack, com voz grossa. — O mundo está cheio de pulos errados — comentara o pai, sem se alterar. — É uma lei da natureza. Aprenda’ a esperar por eles. Jack sorriu, lembrando-se, e sentiu-se melhor. O gosto do sangue, que agora o ligava à sua infância, o fez sentir-se mais moço. Largou o uísque pela metade e, pegando um pedaço de gelo do balde, deitou-se ria cama, segurando o gelo atrás da cabeça, na nuca. Ficou contente por ter pensado no pai, numa tarde de primavera, quando o pai era moço. Cochilou um pouco, sem se importar com a água gelada gotejando para dentro de seu colarinho. “Sangue, sangue”, murmurou ele consigo mesmo, sonolento, “Por que não me lembrei de uma palavra tão simples?”



3 Delaney não estava no bar quando Jack chegou lá. Tomara um banho de chuveiro e seu cabelo estava molhado, bem escovado, e ele estava com o terno passado; o nariz ainda inchado, mas o sangramento se estancara e o chuveiro o fizera sentir-se saudável e esperto, pronto para aproveitar a noite na cidade. O bar estava cheio de gente, muitos americanos, sólidos e de meia-idade, que mereciam os seus coquetéis depois de terem passado longas horas diante de estátuas e altares, visitando ruínas e arcos de triunfo e arranjando audiências com o papa. Todos os bancos do bar estavam tomados e Jack teve de ficar de pé e estender a mão, entre um homem e uma mulher que estavam ali sentados, para pegar o seu martini. — Ele disse que não entendia alemão — dizia a mulher, com um forte sotaque alemão. — Mas eu sabia que estava mentindo. Todos os judeus entendem alemão. — De onde você é? — perguntou o homem. — Hamburgo — respondeu a mulher. Era ruiva e estava com um vestido preto justo, decotado na frente. Era uma mulher gorducha, curvilínea, com uma cara esperta e perversa, mãos de fazendeira, grandes e avermelhadas. Jack estivera naquele — bar, à hora do coquetel, três ou quatro vezes nos últimos anos, e todas as vezes ele a vira ali... sua profissão estava na cara. Era um bar fino e ela esperava ser convidada, mas era óbvio que tinha uma combinação com o chefe do bar. “Os alemães”, pensou Jack, olhando para ela com aversão, “prontos para atender a todas as necessidades da Europa do pós-guerra. Pelo menos as prostitutas de Paris não têm um ar tão satisfeito consigo mesmas.” Deu as costas ao casal do bar, segurando o cálice na mão, olhando em volta da sala, sem poder enxergar o canto mais próximo por causa de um grupo de jovens italianos, muito bem barbeados e penteados, com colarinhos largos, imaculados, gravatas claras e paletós curtos, cintados. Estavam de pé junto dele, conversando a esmo, bonitos, vorazes, os olhos examinando abertamente todas as mulheres novas que entravam na sala, prontos para o dinheiro, o vício, o amor ou viagens. Olhando para eles, Jack sentiu uma pontada momentânea de inveja, de sua aparência, segurança, juventude, mas acima de tudo de sua franqueza. Como a maior parte dos americanos, Jack tinha a impressão de ter passado quase toda a vida reprimindo quase tudo o que sentia, e essa sinceridade italiana, inatingível, essa vivacidade anunciada e disponibilidade desavergonhada o faziam sentir-se inexperiente e tolamente inocente. Jack mudou de lugar, para poder ver além do grupo de rapazes. Com cuidado, ele foi examinando as fisionomias dos outros bebedores. Daí a pouco percebeu que estava procurando o homem que o havia esmurrado e as duas mulheres que estavam com ele. Aborrecido consigo mesmo, Jack deu de ombros. “O que eu faria se o encontrasse?”, pensou. Terminou o seu drinque e ia pedir outro quando viu Delaney entrando no bar, ainda com o mesmo casaco, mas com o boné enterrado no bolso, os cabelos claros de criança despenteados por cima da cara vermelha, marcada com as rugas do poder e do mau gênio. — Estamos atrasados — foi falando Delaney, sem cumprimentá-lo. — Vamos sair daqui. Detesto esta espelunca, de qualquer forma. Cheia de sanguessugas. — Olhou aborrecido para o grupo de italianos, para a prostituta alemã, para os americanos cansados dos monumentos. Jack pagou a bebida e saiu com Delaney.

— Estamos atrasados para o quê? — perguntou. — Você verá, você verá — disse Delaney, gostando do suspense. De repente, parou e olhou com curiosidade para Jack, os olhos apertados. — O que aconteceu com o seu nariz? — perguntou. — Um bêbado me deu um soco aí na porta do hotel — disse Jack, meio encabulado. — Quando? — Um minuto depois que você me deixou. — Você o conhece? — Nunca o vi mais gordo. Delaney sorriu. — Você não demorou muito a entrar na vida emocionante da Cidade Eterna, não foi? Estou aqui há cinco meses e ainda não me socaram. — Mas já está aqui há tempo suficiente para estar com batom no colarinho — comentou Jack, quando se dirigiam para a porta. Delaney levou a mão ao pescoço, com um ar culpado. — Ora, de onde pode ter isso aparecido? — Clara vai jantar conosco? — perguntou Jack, quando eles chegaram à porta. — Não! — Delaney não explicou mais nada. Entraram na Fiat verde, auxiliados pelo porteiro militar, que ficou olhando triste para o nariz de Jack, como se aquilo o fizesse lembrar-se de um pecado de sua juventude. Delaney ficou sentado reto no seu canto, olhando furioso para os carros que corriam como loucos pelas esquinas. — Deus! — exclamou ele. — Como esses italianos dirigem! Parecem garotos que querem bater o derby numa corrida de carrinhos. — Em todo caso — comentou Jack —, é melhor do que a maneira de os franceses dirigirem: como se quisessem chegar ao banco para retirar suas economias antes que o banco vá à falência. Uma vez perguntei a um francês por que é que dirigem assim; ele pensou um pouco e respondeu: “Bom, nós perdemos a guerra.” Delaney riu e disse: — Imagino que a essa altura você seja perito em franceses. — Ninguém é perito em franceses. Agora, Maurice, conte-me, aonde vamos? — “Se tiverdes lágrimas, preparai-vos para vertê-las agora.” Velha citação romana — disse Delaney. — Você logo verá. — Ele começou a entoar uma canção, sorrindo misteriosamente. Era uma antiga canção popular. Delaney tinha uma maneira rouca, quase sem tom, de dar as notas, _e Jack não reconheceu o que era, apesar de sentir que devia reconhecê-la e que tinha algum significado especial para ele. O carro parou defronte a um cinema. — Cá estamos — disse Delaney. Saltou e segurou a porta para Jack. —Espero que você não se importe de jantar mais tarde. — Ficou olhando firme para Jack enquanto este olhava para o cartaz na frente do cinema. — Ah, Cristo — murmurou Jack baixinho, ali defronte do cartaz, que anunciava um filme chamado The Stolen Midnight, dirigido por Maurice Delaney. No elenco, no cartaz, estava o nome James Royal, e nas fotografias pequenas coladas junto à entrada havia um close-up dele, vinte anos mais moço, antes do ferimento e do queixo mais pesado, esbelto, sorridente, mais bonito do que ele se lembrava de ter sido. — Que ideia! — Achei que podia interessá-lo — disse Delaney inocentemente. — Tanto quanto um enforcamento. — Agora Jack entendia por que Delaney tinha cantarolado a canção no carro. Era uma canção da década de 30, Walkin’ My Baby Back Home, e era tocada várias vezes no filme, tendo sido usada como tema para várias das cenas-chave pelo compositor da trilha

sonora do filme. — Foi o departamento de publicidade que arrumou isso — disse Maurice. — Famoso diretor dirigindo um filme em Roma, o público que veja o que ele fez quando moço. — Você já o viu? — Jack ficou olhando para a própria fotografia no papel lustroso, profusamente iluminado. — Não — disse Delaney. — Aliás, achei que era uma ideia simpática ficar ao seu lado quando o apresentassem. — Simpática — disse Jack. — Isso mesmo. Quando foi a última vez que você o viu? — Há uns dez ou quinze anos. — Delaney olhou para o relógio. — Para~ o diabo! — disse. — O filho da mãe está atrasado outra vez. Não vamos esperar por ele. Ele nos encontra depois do filme. — Quem? — perguntou Jack, acompanhando Delaney à bilheteria. — Um jornalista francês que está escrevendo um artigo sobre mim para uma revista de Paris — explicou Delaney, empurrando o dinheiro pelo guichê. Ele pegava no dinheiro italiano como se lhe irritasse a pele das mãos. — Diz que é um velho amigo seu. Jean-Baptiste Despière. — Sim, ele é meu amigo — concordou Jack, satisfeito. Conhecia Despière havia uns dez ou onze anos, e jogavam tênis juntos em Paris, sempre que Despière voltava de suas viagens; Jack sabia que Roma seria muito mais agradável com a sua presença. Despière o conhecera na primeira noite em que ele chegara a Roma, em 1949, e o fizera passear em volta do Coliseu, num fiacre, ao luar, com duas garotas americanas, bonitas, de dezenove anos, porque, dizia ele, todo mundo na primeira noite em Roma tinha de ver o Coliseu ao luar em companhia de duas moças americanas de dezenove anos. — camarada alegre, hão é? —-comentou Delaney, quando entraram no cinema. — Às vezes — disse Jack, lembrando-se de ocasiões em que Despière não tinha estado tão alegre. — Você podia dizer a ele — cochichou Delaney, com voz rouca, seguindo o vaga-lume na escuridão, tentando ser ouvido acima do ronco do jornal — que nos Estados Unidos os jornalistas chegam aos encontros na hora marcada. Sentaram-se perto da tela, porque Delaney tinha astigmatismo. Ele pôs uns óculos grossos, de aros de osso, que usava desafiadoramente e, sendo vaidoso, apenas quando era absolutamente indispensável. O jornal, narrado por uma entusiasmada voz italiana, era a mistura normal de desastres, procissões, pronunciamentos de políticos — árabes feridos reunidos na Argélia por tropas francesas, um motim no norte da Itália, a rainha da Inglaterra em visita a algum lugar, os destroços de um avião derrubado sendo inspecionados por homens fardados. Enquanto era exibido o jornal, Delaney ficou resmungando em tom de reprovação. Tinha metido um pedaço de goma de mascar na boca e Jack podia calcular, pelo barulho que ele fazia, o grau de sua aversão pelos acontecimentos e pessoas que passavam pela tela. — Que prelúdio para uma obra de arte — comentou Delaney em voz alta, quando o jornal terminou. — Derramamento de sangue e as caras de políticos. Gostaria que fizessem isso em Carnegie Hall. Apresentar um homem sendo torturado, seguido de um discurso de um senador do Mississípi sobre a questão do petróleo em alto-mar, e depois tocar a Sétima Sinfonia. O cinema... — Sacudiu a cabeça, exasperado, contemplando a arte a que tinha dedicado trinta anos de sua vida. Ouviram uma fanfarra retórica de música vinda da tela onde apareceu o título do filme. Jack sentiu uma sensação incômoda de impudicícia, quando viu o cartão com o nome James Royal impresso, sensação que tinha sentido todas as vezes em que vira aquele nome falso, vazio, altamente anunciado, impresso ou em luzes elétricas; uma sensação de que quase se esquecera nos anos decorridos desde o tempo em que, em cada cidade dos Estados Unidos, esse nome tinha brilhado nas marquises dos cinemas. O chefe do estúdio em Hollywood lhe dera o nome, apesar de Jack já ter representado no palco

em Nova York com seu próprio nome. — John Andrus — dissera Kutzer, o chefe do estúdio, sacudindo a cabeça. — Isso não serve. Não quero ofendê-lo, mas não parece americano. — Minha família veio para cá em 1848 — explicou Jack, calmamente. — Ninguém está impugnando nada — replicava o chefe do estúdio. — É apenas uma questão de negócios práticos, de como soará aos ouvidos nativos, como aparecerá nas luzes. Somos peritos nessas coisas, Mr. Andrus, confie em nós. — Confio em vocês — afirmou Jack, com um sorriso. Era moço e estava entusiasmado com a ideia da fama, mesmo com um nome suposto; tinha sido pobre como ator em Nova York, e estava ansioso pelo dinheiro que esse homem lhe podia oferecer. — Assim, de pronto, não me ocorre uma ideia. Volte amanhã... — O chefe do estúdio olhou para a agenda sobre a mesa. — Às dez e quinze da manhã, e terei um nome para você. Às dez e quinze do dia seguinte, Jack virou James Royal. Não tinha gostado do nome na ocasião e nunca chegara mesmo a gostar dele, mas parecia inofensivo, e o chefe do estúdio tinha cumprido a promessa e o nome iluminado aparecera em todas as cidades mais importantes, como ele dizia, e em enormes cartazes em todas as grandes artérias de tráfego. O chefe do estúdio também cumprira sua promessa quanto ao dinheiro e, durante alguns anos, Jack foi mais rico do que jamais pensara poder ser. Nunca mudou seu nome legalmente e, quando foi servir o Exército, alistou-se, com uma sensação de alívio e de ter voltado para casa, como John Andrus. Os outros nomes da produção e do elenco emergiram do passado, nomes nos quais ele não pensava havia anos. Walter Bushell, Otis Carrington, Genevieve Carr, Harry Davies, Charles McKnight, Lawrence Myers, Frederick Swift, Boris Ilenski (não muito americano, este, mas ele era músico e os músicos não precisam ter os nomes iluminados nem que soem bem aos ouvidos nativos), Carlotta Lee, uma dúzia de outros, nomes de pessoas que tinham morrido ou fracassado ou se tornado famosas ou desaparecido de vista, e o nome da mulher com quem ele se casara e de quem se divorciara. Sentado ali no escuro, Jack teve um desejo quase irresistível de fugir. Se estivesse sozinho, sabia que se teria levantado e corrido para fora do cinema, mas olhou para Delaney, afundado na poltrona ao lado dele, mascando sua goma com barulho, olhando friamente através dos óculos para a tela, e pensou: “Se ele aguenta, eu também posso aguentar.” Aí o filme começou e Jack não olhou mais para Delaney. A história era sobre um rapazinho numa cidade pequena, que se apaixonava por uma mulher mais velha, dona de uma livraria. No terceiro rolo, depois da meia-noite roubada que dava nome ao filme, e o discreto fade-out para os censores no quarto escuro por trás da livraria, o pecado deles era descoberto e começava o escândalo. A mulher era atacada e havia um melodrama estúpido sobre um crime que o rapaz cometeu para arranjar dinheiro, para ajudá-la a ficar na cidade. Havia um juiz bondoso e filosófico .que recuperou o rapaz, mostrando-lhe qual o seu dever, e uma despedida triste entre o rapaz e a mulher mais velha, chegando-se a um final-padrão em que o rapaz voltava para a garota sadia que lhe permanecera fiel durante todas as suas tribulações. Mas a bobagem da história e a rotina dos ingredientes não faziam diferença alguma, Jack assistia absorto ao filme, não porque fosse a ele, como rapaz de vinte e dois anos, que estivesse vendo (o rapaz lhe parecia tão estranho e remoto quanto qualquer das outras pessoas na tela) , nem porque estivesse vendo novamente, nas roupas ligeiramente cômicas de outra época, a bela mulher que tinha sido sua esposa e que ele tinha amado e depois odiado, mas devido à rapidez, à segurança, ao sentido de vigor e realidade que Delaney emprestava a todas as cenas, tanto as tolas como as boas, as cenas sossegadas e reais entre o rapaz e a mulher mais velha e as cenas de melodrama e sentimentalismo que a indústria impusera a todos eles. O filme tinha um estilo corrido e precipitado que levava tudo consigo de roldão, e mesmo, agora Jack podia ver por que tinha tido tanto sucesso; podia ver como é que Delaney fizera dele um astro, mesmo que isso não tivesse durado muito; podia ver por que o

filme sobrevivera e fora exibido repetidamente, no mundo inteiro, por tantos anos. Olhando para si mesmo, ficou surpreendido de ter sido tão bom ator. Era um pouco velho para o papel (supunha-se, no filme, que ele fosse um rapaz de dezenove anos, saído do ginásio), mas ele tinha conseguido captar os movimentos inseguros de um adolescente complicado, desabrochando, aos arrancos, para a maturidade. Era engraçado quando tinha de sê-lo, digno de pena quando devia e parecia estar sempre olhando para dentro de si e arrancando de dentro de si, com dor e risos, um retrato de si mesmo. Não se lembrava de ter sido assim tão bom. Depois disso, ele só fora bom assim nos dois outros filmes que tinha feito com Delaney, e sua recordação de si mesmo naquela época estava encoberta pelas lembranças de desempenhos piores, com outros diretores. Aquele também era o melhor filme de Delaney, feito quando ele estava no auge, confiante em sua sorte e desprezando firmemente tudo no mundo, a não ser o seu próprio talento; antes de ele começar a se repetir, antes das muitas esposas, antes do dinheiro graúdo, das entrevistas e dos problemas com o imposto sobre a renda. Quando o filme atingiu o clímax, a cena de noite na estação de trem, quando o rapaz emergiu da escuridão para esperar, com a mulher que ele tinha amado, pelo trem que a levaria embora e para longe de sua vida, Jack esqueceu-se de que estava numa cidade estranha, vinte anos depois, a oito mil quilômetros de distância da América, enterrada e inocente, de estações ferroviárias de cidades pequenas, de apitos distantes em terras aradas, de janelas de refeitórios iluminadas, de carregadores negros, táxis velhos esperando, com a chuva escorrendo, seus motoristas fumando no escuro e falando com vozes iguais e sem graça de contagens de beisebol e mulheres e vida difícil. Envolvido na tristeza do momento de ficção na tela, olhando para as fotos velhas e arranhadas, escutando a trilha sonora irregular, enquanto os dois amantes caminhavam devagar pela plataforma, aparecendo e desaparecendo nas vagas poças de luz das lâmpadas espaçadas da estação, ouvindo as meias-frases de saudade e despedida, ele não sentia mais que fosse a si próprio que estava vendo, representando um papel, nem que fosse uma mulher, com quem ele tinha vivido e que fora falsa com ele, que estivesse andando trôpega, por dois minutos desesperados e finais, ao lado da sombra juvenil na tela. Naquele momento, ele tinha novamente aquela idade e sabia o que significava ser jovem e abandonado num lugar daqueles. E tornou a sentir, com toda a intensidade do passado, o desejo poderoso e infindável pelo corpo da mulher cuja imagem, cheia e jovem e intocada pelo tempo, aparecia e reaparecia debaixo das lâmpadas da estação, o desejo que ele julgava ter desaparecido para sempre na traição e recriminações e tribunais de divórcio. Quando as luzes se acenderam, Jack permaneceu sentado, calado. Depois, sacudiu a cabeça, para se livrar do passado. Virou-se para Delaney, que estava afundado na poltrona, a mão na haste dos óculos, com um ar duro e amargo, como um velho lutador de luta livre que acaba de perder uma por pouco: — Maurice — disse ele, com brandura, com amor pelo outro e querendo realmente dizer o que dizia. — Você é um grande homem. Delaney ficou ali sem se mexer, quase como se não tivesse ouvido Jack. Tirou os óculos de aros grossos e ficou olhando para eles, símbolo de orgulho ultrajado, vaidade encurralada, visão turva e distorcida pela idade. — Eu era um grande homem — disse ele, asperamente. — Vamos sair daqui. Despière estava caminhando na calçada do lado de fora do cinema. Quando viu Jack e Delaney saindo com os últimos espectadores, correu logo para eles, sorridente. — Eu o vi, maestro — disse ele. — Jolissimo. As lágrimas ainda estão jorrando de meus olhos. — Atirou os braços em volta de Delaney e beijou-o em ambas as faces. Às vezes, Despière se divertia comportando-se como um francês num palco. Duas ou três pessoas que tinham assistido ao filme olharam curiosas para os três homens e Jack ouviu uma garota dizer “aposto que é ele” e sabia, como sempre, que tinha sido reconhecido, parcialmente. — Você precisa me contar como é que se sentiu — dizia Despière

— depois de todo esse tempo, vendo rolo e mais rolo maravilhoso passando. — Não lhe conto raio de coisa alguma — disse Delaney, afastando-se. — Não quero falar disso. Quero comer. Estou com fome. — Olhou para a rua, procurando o carro e o motorista. — Delaney — repreendeu-o Despière. — Você precisa aprender a ser mais amável com os seus admiradores entre os jornalistas. — Virou-se para Jack e segurou-lhe os braços com afeição: — Dottore, eu não tinha ideia de que fosse tão lindo quando era mocinho. Meu Deus, dottore, como as garotas deviam cair. — Despière falava italiano, inglês, alemão e espanhol, além de francês, e, quando estava com Jack na Itália, homenageava os costumes da terra chamando-o dottore. Na França, era monsieur le ministre, um reconhecimento irônico da situação de diplomata de Jack. — Você não estava cheio de orgulho ali, hoje? — Despière indicou o cinema. — Transbordando — respondeu Jack. — Não quer falar a respeito? — perguntou Despière, surpreendido. — Não. — Imaginem só — comentou Despière. — Se eu tivesse feito aquele filme, estaria andando pelas ruas de Roma com um cartaz nas costas anunciando: “Eu, Jean-Baptiste Despière, sou inteiramente responsável pelo...”

4 Despière era um homem lépido, esguio, seu corpo estreito e retangular disfarçado por ternos cintados e com enchimento nos ombros que obviamente tinham sido feitos sob medida em Roma. O rosto era pálido e brilhantemente vivo, com uma boca francesa, cínica e apertada, e olhos cinzentos, grandes e luminosos. O cabelo, preto e curto, era penteado para a frente, num estilo dos cafés de St.-Germain-desPrès. Era difícil descobrir-lhe a idade. Jack o conhecia havia mais de dez anos e ele parecia não ter envelhecido nada nesse período, mas Jack imaginava que estivesse beirando os quarenta. Morava nos Estados Unidos e, embora seu sotaque fosse visivelmente francês, tinha absorvido muita gíria americana, que ele usava bem e sem afetação. Participou da Força Aérea da França Livre durante a guerra, depois de fugir para Londres no momento da rendição, tendo servido como navegador num esquadrão que foi enviado à Rússia. Voltou da Rússia com o estômago estragado e estava sempre perguntando, especialmente aos americanos, se havia uma cura para úlcera que não atrapalhasse a bebida. Era um jornalista de sucesso e trabalhava para uma das melhores revistas da França, mas estava sempre endividado, em parte devido a ser descuidado com o dinheiro e a ser generoso, mas também porque às vezes se recusava a trabalhar por longos períodos. Sabia onde se localizavam todos os restaurantes e quem estava na cidade e quando, e os nomes de batismo de todas as garotas bonitas em evidência no ano. Era convidado para toda parte e recebia informações confidenciais de ministros, chefes de gabinete, funcionários e estrelas de cinema. Fazia seu caminho por meio de seu espírito e energia e tinha um número espantoso de inimigos. O carro chegou e todos entraram. Delaney não perguntou onde queriam comer, apenas resmungou o nome de um restaurante e se encolheu no seu canto. Ficou calado e não pareceu escutar nem o que Jack nem o que Despière disseram, a caminho do restaurante. — O caos começa de cima — dizia Despière, na mesa, no restaurante sossegado. — Nos edifícios grandes, oficiais, com as estátuas da Razão e da Justiça e os heróis antigos nos corredores. Onde você encontraria um cidadão comum suficientemente idiota para atacar o canal de Suez sem uma reserva suficiente de petróleo? — Ele riu, feliz. — Depois de um dia de luta, tiveram de racionar a gasolina por um ano. Você tem de ser muito bem escolhido por seus concidadãos para dirigir um Governo que possa ser assim tão esplendidamente idiota. O mais inepto dos reis, digamos Luís XVI, nunca teria dado um golpe de mestre como esse. Ou talvez seja só a França... — Deu de ombros. Olhou em volta, com prazer, para os outros fregueses do restaurante. — Ah, vocês não têm ideia do quanto é agradável sentar num restaurante e ter uma certeza razoável de que ninguém vai atirar uma bomba pela porta. — O que você quer dizer com isso? — perguntou Delaney. Ele tinha estado emburrado e calado, bebendo o vinho, ora ciscando o prato de pasta diante de si, ora esmigalhando cascas de pão, distraído, na toalha. — Nos últimos cinco anos — disse Despière, comendo com gosto —, já estive na Coreia, Indochina, Chipre, Marrocos, Argélia, Tunísia, Israel e Egito. Sou como um médico numa ambulância. Corro para todas as emergências. — Um desses dias você vai arranjar uma emergência de ser morto — resmungou Delaney. — Maestro, a brutalidade é seu maior encanto. — Despière sorriu, benévolo, por trás dos lábios finos. — A última vez foi em Philippeville, há uns seis meses. Três árabes passaram num táxi aberto e metralharam um desfile de modas. — Um o quê? — perguntou Jack, incrédulo.

— Um desfile de modas. — Despière serviu-se de mais um cálice de vinho. — Oito lindas garotas exibindo as últimas criações francesas, é assim que cada um liberta o seu país, hoje em dia. — Que diabo estavam fazendo em Philippeville? — perguntou Delaney. — Levando a mensagem de Paris para nossas possessões de Ultramar — respondeu Despière. — A elegância para todas as ocasiões. Chás, cercos, comícios comunistas, emboscadas, jantares de Estado, paradas da Legião Estrangeira, recepções para estadistas americanos em visita... Eles passaram pela frente do hotel e abriram fogo. Imaginem a corrupção da mente de um homem que atira em oito lindas garotas. — Acertaram em algumas? — perguntou Jack. — Não. Mas mataram seis pessoas que estavam sentadas num café ao lado. — E você? — perguntou Delaney. — Estava lá mesmo? — Eu estava lá. No chão, atrás de uma mesa — disse Despière, sorrindo. — Estou ficando muito prático em cair atrás de mesas. Não me espantaria se me dissessem que sou recordista mundial. Eu também estava presente em Casablanca quando o povo despejou gasolina em dois cavalheiros de que não gostava e ateou fogo neles. Sou muito bem pago, porque tenho uma queda para estar no local nos momentos exatos em que a civilização moderna se exprime de maneira típica. — Ergueu o cálice e olhou para o mesmo, com olhar crítico. — Gosto do vinho italiano. É o que é. Não finge que é veludo, como o vinho francês. Também gosto das cores italianas. Quando vi pela primeira vez as cores dos muros de Roma, numa manhã de verão, vi que tinha passado a vida toda aspirando por essa cidade, embora na época só tivesse dezessete anos. Reconheci a cidade desde o princípio. Da primeira vez que vim a Roma, com meu pai, quando era menino, entrei na cidade pela Ponte Flaminia, para a Piazza del Popolo. Havia centenas de pessoas em toda a piazza. Meu pai parou o carro e me levou para um bar de esquina para tomar café. a garota mais linda do mundo estava na caixa, vendendo aqueles bilhetinhos que a gente dá ao operador da máquina do café espresso. Fiquei ali sentado, apaixonado pela garota da caixa, e disse comigo mesmo, imediatamente: “Que lugar maravilhoso para se morar, rodeado de italianos. Virei aqui tomar café o resto da vida. Encontrei a cidade ideal.” Há cidades que a alma da gente reconhece à primeira vista. Estou certo, dottore? — Ele virou-se para Jack. — Está — concordou Jack, pensando em si e na primeira vez que tinha visto Paris, durante a guerra; o fascínio que a cidade exercera sobre ele, até que afinal, muito depois, ele tinha ido morar lá. — Existem homens — continuou Despière — que só conseguem viver plenamente em capitais de países que não o deles. Sou um desses. Imagino que o senhor, dottore, seja outro. Os felizes exilados. Agora, o maestro. — Apertou os olhos, olhando para Delaney, que tinha melhorado um pouco de humor durante a dissertação de Despière. — O maestro é um animal diferente. É invencivelmente americano. Isso significa que ele é brusco, displicente, constantemente preocupado e inquieto quando se encontra vivendo entre pessoas que não estão constantemente preocupadas. — Besteira — resmungou Delaney, mas estava sorrindo. — Ele nos deu agora uma resposta tipicamente amável — zombou Despière. — Quanto às cidades, Nova York. Eu também poderia viver feliz em Nova York. Embora ache que qualquer americano que consiga viver ali deva acabar com a alma aleijada. O que nós precisamos — declamou ele, com um gesto grandioso com a mão — É de um intercâmbio de cidades. Uma cidade deve ser considerada como uma universidade, aberta para estudantes qualificados e sérios, que devem viver lá por uns quatro ou cinco anos, aprendendo o que ela lhes puder ensinar, e que depois devem trocá-la por outros lugares, tornando a visitá-la de quando em quando para se aprimorarem em certos assuntos ou para encontros sentimentais. Em Paris — continuou ele, rindo —, eu me aprimoro em comédia e intrigas e camuflagem e desespero. Em Roma, em vinho, amor, arquitetura e ateísmo. Quando ficar velho, pretendo instalar-me numa fazenda perto de Frascati, para beber o vinho branco e, cada vez que sentir que a morte se aproxima, vir à cidade para tomar café na Piazza del Popolo... — Parou e olhou para Jack, intrigado.

— O que é que há, dottore? Jack estava sentado com a cabeça inclinada sobre o prato, o lenço no nariz. Estava cambaleando um pouco na cadeira e o lenço ia ficando vermelho. — Nada. Amanhã os verei. — Jack levantou-se, piscando, porque não estava enxergando muito bem. Procurou sorrir. — Desculpem. Acho melhor eu ir para casa. Despière ergueu-se de um salto: — Vou com você. Jack recusou-o com um gesto: — Prefiro que não venha. — Foi saindo do restaurante, com náuseas, esforçando-se por não vomitar, andar vacilante, sentindo que estava transpirando, não respondendo ao maître quando este lhe falou alguma coisa enquanto ele se dirigia para a porta. Lá fora, apoiou-se contra o prédio, respirando profundamente o ar da noite, sentindo o gosto do sangue. “Nunca fico doente”, pensou ele, com um ligeiro pânico, “nunca fico doente, o que estará acontecendo?” Tinha uma sensação sinistra de mudança, de estar passando de uma estação para outra, de uma corrente fria de repente passar por ele, de estar exposto e vulnerável a acidentes. De pé ali, abalado, sentindo seus lábios molhados de sangue, a cabeça inclinada para trás na pedra fria, ele teve uma sensação de sonho dos acontecimentos; palavras, pessoas sendo traduzidas em números e sendo somadas misteriosamente, interminavelmente por uma máquina invisível, silenciosa e contínua. “Se ao menos eu estivesse bêbado, saberia que de manhã estaria bom. Mas só bebi meio cálice de vinho fraco. Não veludo. O caos começa de cima. Onde está o homem que me bateu? ‘Arrivederci, Roma’... o homem cantando, bêbado e zombeteiro. Quando o Doria afundou.” Sacudiu a cabeça e o sangue parou, tão repentinamente quanto começara. Agora, sentiu que o ar frio da noite o reanimava. Não estava mais tonto nem enjoado, apenas cansado e vagamente apreensivo. Tinha de abrir muito os olhos e aspirar fundo e conscientemente para se assegurar de que não estava numa plataforma de estação, numa noite de chuva, se despedindo. Começou a andar de volta para o hotel, devagar, obrigando-se a pensar em dar um passo depois do outro e tomando resoluções sérias a respeito de coisas como meios-fios e não ser atropelado e se devia ou não comprar um jornal na banca iluminada da esquina. Ouviu uns passos de salto alto vindo atrás dele e uma mulher passou por ele na calçada e ele viu que era a prostituta alemã do bar. Hamburgo, lembrou-se, e as mãos grandes e avermelhadas. Lascivamente, ficou pensando na natureza das atividades daquelas mãos vermelhas naquela noite. A mulher estava de sapatos vermelhos. Andava depressa e dava a impressão de estar zangada, como se a noite a tivesse desapontado. Mais um número na soma. Jack foi para o hotel. Do bar lá embaixo vinha o ruído do rádio tocando uma canção que ele nunca tinha ouvido. Em cima, os corredores eram compridos, silenciosos e mal iluminados; os sapatos dos viajantes do lado de fora das portas eram como os últimos pertences de pessoas que foram executadas naquela tarde à hora do coquetel. Ele passou por vinte portas. Não havia som algum vindo de qualquer delas. Os hóspedes, trancados lá dentro, seguros com seus nomes sem modificações e vidas não divididas, dormiam secretamente, sem divulgar suas posições. Não havia sapatos vermelhos diante de nenhuma das vinte portas. Ele se certificou disso. Esqueceu-se do número de seu quarto e por um momento ficou estupidamente no meio do corredor abafado, dominado pela sensação de que nunca mais o haveria de encontrar. “Procure o quarto que tem um casaco manchado de sangue pendurado no armário. Não”, lembrou-se, “a velha o está limpando. ‘Per pulire, per favore, dottore.’ ” Aí teve uma ideia brilhante. Olhou para a chave. Havia uma grande etiqueta de plástico à qual estava presa a chave e na etiqueta havia um número: 654. Ficou bem impressionado com a própria sabedoria e a precisão fria e lógica de seus processos de raciocínio. Viajou espertamente pelo corredor, evitando ambas as paredes, e parou em frente do 654. Tinha a impressão de que nunca tinha estado ali,

mas que estivera em outra porta, com o mesmo número, e que importantes transações se tinham realizado ali. Empregados da noite, cometendo seus enganos noturnos. Onde tinha sido a outra porta? Em qual cidade? Nova York, Los Angeles, Londres? Havia um cheiro de louro e eucalipto, tropical e medicinal, no 654. Beverly Hills, lembrou-se ele, a cidade de Delaney, o castigo de Delaney, com a neblina entrando do Pacífico e uma garota num conversível tarde da noite e um cão no assento traseiro que latia, as presas à mostra, carnívoras, da Califórnia, do amor. Introduziu a chave na fechadura e entrou no quarto, de solteiro, sem crianças, que ele tinha certeza de nunca ter visitado antes, com o cheiro de eucalipto e louro. O vidro nas gravuras de Roma refletia a luz do lustre friamente, cortando a Roma medieval em fragmentos caóticos, ameias romboides, torres poligonais, irreconhecíveis para os mortos que a haviam construído. Dirigiu-se ao banheiro e ficou olhando para o próprio rosto, primeiro sobre uma das pias, depois sobre outra. “Uma para mim e uma para quem quer que seja.” Quase se~ reconheceu, como os fantasmas espectadores saindo dos cinemas ano após ano, e seu nome estava na ponta da língua. “Aposto que é ele”, disse ele, com voz de moça. Voltou ao quarto e olhou para o retrato da mulher e dos filhos. Tinha sido tirado nos Alpes, em férias para esquiar, e toda uma família estava ali sorrindo ao sol da montanha, os laços ensolarados da recordação. O helicóptero tinha caído, numa rajada de neve, na plataforma a três mil metros, com os homens mortos lá dentro, em posições educadas, esperando para serem fotografados. Sentou-se na cama e olhou para o telefone e pensou em si mesmo pegando o aparelho e dizendo: “Tomarei o avião da meianoite, ou da madrugada, ou o avião sem horário.” Mas não tocou no telefone. Despiu-se, pendurando as roupas com cuidado (os mentirosos que anunciavam que a valise não amarrotava três ternos). Deitou-se nu no escuro, entre os lençóis, dizendo consigo mesmo: “Manhã, manhã.” Pensou nos sapatos vermelhos e nas mãos vermelhas, alemãs, pegando em liras e carne. Depois dormiu. O touro urra em seu curral, mas o presidente, de veste negra, com um toucado berbere, entra na arena e declara que o touro não serve. O povo tenta despejar gasolina nele. É preciso, por um motivo que não está claro, tirar o touro de seu curral sem permitir que ele entre na arena. Dois funcionários, vestidos de branco, conduzem uma vaca branca, teoricamente viciada, para o corredor iluminado por um lustre de vidro, diante da entrada do curral do touro. A vaca está assustada e fica indócil e se atravessa no corredor. Os funcionários de roupas brancas lutam com a vaca branca para endireitá-la e apresentam sua parte mais apetitosa, ou de maior atração para o touro, para a entrada do curral. O touro urra lá embaixo. A vaca muge, em tenor depois em contralto, agita a cabeça de um lado para outro. O presidente, ainda vestido de preto, aparece, ileso, legalmente eleito, e levanta a porta de ferro do curral do touro. O touro sai, negro, encurvado, com chifres largos, como uma onda passando sobre a areia. A escuma, a espuma, o destroço, a onda encrespada, tragada pela maré, e o Funcionário Número Um, em-' palado, depois pisoteado, não mais branco. Depois da humanidade, o reino animal. O touro olha para a vaca branca, súplice, teoricamente viciada, opta pela morte contra a procriação, dobra as pernas delicadamente, enfia os chifres no flanco branco, aflito, tão apetitoso em outras ocasiões. A vaca branca não é mais branca, não mais está de pé, seu flanco não é mais aflito, sua súplica terminada. O touro está a seu lado, sonhando sob o lustre de vidro. Novamente, a vez da humanidade. O Funcionário Número Dois, vestido de branco, dispara pelo corredor, passa pela baia onde estou escondido, agachado atrás da porta de ferro trancada, junto de um homem que está com a cara virada e cujo nome está na ponta de minha língua. Os pés do funcionário no corredor fazem um ruído arrastado, de areia, como o barulho de uma escova de metal num tarol. Faz um barulho com a garganta. Água descendo por uma calha de lata.

Funcionário Número Dois foge para a baia ao lado da minha e tranca a poria, ofegante. O touro corre até a porta e olha para ela sem maldade. Depois a derruba. Da baia vizinha vêm os ruídos que se esperaria ouvir, fortes, explícitos, entremeados com imprecações a Cristo, enquanto o touro faz o trabalho que foi criado para fazer. Então o Funcionário Número Dois fica tão quieto quanto o Funcionário Número Um e tão quieto quanto a vaca branca. O touro reaparece no corredor, numa luz baça, e cheira inteligentemente a porta da baia em que estou agachado, junto do homem cuja cara está virada. Eu me encolho junto do ferro, sem respirar, vendo os dois lados de todas as questões, de todas as portas. O outro homem permanece rígido e imóvel. O touro resolve que os sapatos do lado de fora da porta são dados sem importância e vira-se para procurar diversões mais interessantes. Mas o homem com a cara virada passou dos limites de seu silêncio e imobilidade. Ele se mexe, faz barulho, suspira, espuma, geme. Eu o cutuco asperamente, reprovando-o, meu indicador se enterra até a junta entre a quarta e a quinta costelas. O touro para, volta à porta, descobre a humanidade do outro lado do ferro, Colombo ao largo da costa de Hispaniola, pássaros terrestres, o perfume de flores, água doce. O touro ar remete contra a porta. Esta estala, mas fica firme. O touro arremete outra vez e mais outra, os chifres se lascando, faíscas voando, a porta gemendo, o ritmo aumentando, tornando-se intolerável, poeira como chuva, o barulho como o grito de um jato próximo. Lanço o meu peso contra a porta, carne contra o ferro, tremendo com cada assalto, uivando sem palavras. O outro homem senta-se na palha amarela da baia, a cara virada. A porta resiste. O touro recua, considerando. Depois começa a pular, um leão alado, atlético, ambicioso, gazela de ferro, os cascos alteandose mais com cada salto, os chifres como tochas no espaço aberto acima da porta. Por fim, consegue passar as pernas dianteiras por cima do topo da porta. Fica ali dependurado, enchendo o espaço entre a porta e as traves do teto. Olha para mim e para o outro homem, que virou as costas e está sentado contemplando a parede dos fundos da baia. O touro olha para baixo, pensativo, com olhos calmos e fatais, e eu sei que aquele é o momento de distraí-lo, de cantar e dançar e rir. Vou para o centro do palco, bem no meio da baia, e olho sedutoramente para o touro, que pagou sua entrada e merece o melhor; começo a dançar e a cantar: sapateado, sapatilhas, moderno, clássico. Petrouchka, Lago dos Cisnes, minha cabeça rolando de um lado para outro, transpirando por todos os poros, a música chorando de minha garganta, tambores, violinos, trompa de pistões, ferrinhos, enquanto o touro olha com um interesse inteligente, encantado, pendurado das traves pelos chifres, as pernas dianteiras alçadas sobre a porta, arrumadas, primeira fila dos balcões. Estou cantando o refrão de Walkin’ My Baby Back Home pela terceira vez quando pressinto que o homem atrás de mim se virou e não está mais escondendo o rosto. Tenho de ver o rosto do homem, tenho de dizer “oh, amigo, não morra de rosto virado ...” e por um centésimo de sonho desvio o olhar dos olhos admiradores, plácidos, do touro, para ver o rosto do meu parceiro. Aí o touro se mexe, a porta estremece... São esses os sonhos de uma noite romana. Jack acordou. O quarto estava escuro e tranquilo. Nenhuma luz entrava pelas frestas das venezianas nem pelo espaço entre as cortinas. Estas farfalhavam suavemente a uma brisa ligeira. Ele permaneceu ali, quieto sob os lençóis, suando frio por causa do sonho, às portas da morte. Tinha a impressão de que, se o sonho tivesse durado mais um minuto, ele teria visto a cara do homem, e que seria a do bêbado que o havia esmurrado naquela noite. Em outro quarto, em Roma, o bêbado estava roncando, sorrindo em seu sono, satisfeito com o trabalho da noite. “Por que touros?”, pensou Jack. “Há três anos não vou à Espanha.”

Sentou-se, acendeu a luz e olhou para o relógio na mesinha de cabeceira. Quatro e quinze. Pegou um cigarro e acendeu-o. Raramente fumava e havia muitos anos não fumava no meio da noite, mas tinha de fazer alguma coisa com as mãos. Ficou espantado de que suas mãos não tremessem ao segurar o fósforo. Ficou ali sentado na beira da cama, os pés descalços tocando o tapete do hotel, pensando no sonho, ainda na presença da morte. “Não me acertou dessa vez”, pensou, “há de me acertar na próxima.” “O leão com chifres”, pensou ele, “a vaca branca.” A presença no quarto. Não era bom ficar sozinho com ela, às quatro e quinze da madrugada, e .o cigarro não era arma contra aquilo. Olhou para o telefone e pensou em ligar para a mulher em Paris. Mas o que lhe diria? “Tive um pesadelo. Mamãe, mamãe, tive um pesadelo em meu berço romano, e da próxima vez os chifres vão me pegar.” Pensou na confusão oceânica do sistema telefônico italiano e nas vozes altas e irritadas das telefonistas na central de Paris e no telefone tocando fora de hora no apartamento, na mulher se levantando e indo ao saguão onde ficava o telefone, assustada, com a luz mortiça da madrugada nas janelas. Desistiu da ideia de telefonar. Olhou para a cama desfeita e pensou em dormir. Depois, desistiu de dormir. Walter Bushell, lembrou-se ele, Carrington, Carr, McKnight, Myers, Davies, Swift, Ilenski, Carlotta Lee. O filme da noite anterior tinha feito a chamada do passado e ele se defrontava com nomes que se haviam afundado em sua memória, com as formas e vozes de pessoas que tinham morrido ou fracassado ou se tornado famosas ou desaparecido de vista. O vigia noturno vai murmurar a lista de chamada, numa trilha sonora arranhada. Os mortos, os desaparecidos, os feridos, os substituídos, os preparados para servir, adequadamente vestidos, com todas as condecorações. Estrela com listra, a cruz de celuloide, o cheque cancelado, o topete, a panqueca, a coroa de ferro dos imortais. O Primeiro Corpo de Andrus (ou seria o Segundo ou Terceiro ou Nono?), às vezes chamado Infantaria Real, os sobreviventes da travessia do rio Los Angeles, alinhados no palco do som, descanso na parada. Todos presentes e sem explicação. Primeiro os heróis, aqueles que tinham feito o supremo... Carrington. De terno preto e gravata preta, filosófico, ar de juiz. Morto em Berlim há muitos anos, no estúdio, trabalhando num filme (em todos os jornais — significou dezoito dias de refilmagem, custo extra de setecentos e cinquenta mil dólares). Homem alto, de fala macia, com ar de embaixador, cabelos brancos, nariz adunco, traços romanos, ídolo das matinês, que tivera de lutar contra a bebida a vida toda, e amante de grandes beldades durante trinta anos, morto nos braços de um assistente de cortador num quarto de hotel, entre as ruínas reconstruídas (Beije-me, Hardy, na cirurgia sangrenta de Trafalgar), sentado na cama e chamando por uma garota que ele conhecera quando tinha vinte anos, cem mulheres antes. McKnight, pequeno, hipocondríaco, violento nos salões e à beira das piscinas. Morto na guerra, esmagado por um tanque. Na ocasião em que filmavam The Stolen Midnight, ele era ator de pontas, procurando imitar Cary Grant, com quem se parecia ligeiramente. “Tenho o dom do espírito cômico”, dizia McKnight, repetindo, insistindo, implorando. “Eu teria sido formidável na década de 20, quando as pessoas ainda sabiam realmente rir.” Era baixo demais para ser um astro e quase morreu quando caiu de um cavalo na filmagem de um bangue-bangue da Universal, mas fora reservado para o tanque nas montanhas Atlas, deslocado no tempo, o espírito cômico. Lawrence Myers também estava morto. Pálido, de cabeça abobadada, precisando cortar o cabelo, com as mãos trêmulas de um homem de oitenta anos. Ele escreveu o texto e brigou amargamente com Delaney, que mudava todas as linhas. Era casado com uma mulher loucamente ciumenta, que cortava

as mangas dos paletós dele quando ele não chegava a casa pontualmente às sete horas da noite. Myers era magro e tinha aspecto de doente e era tuberculoso. Esbanjou todo o seu dinheiro e morreu aos trinta e três anos, num dia em que levantou da cama e da tenda de oxigênio para comparecer a uma reunião de texto na MGM, para uma comédia musicada. Eram esses os mortos, ou pelo menos os que se sabia terem morrido, os mortos lembrados, o que não incluía operadores, secretárias, cortadores, publicitários, guardas do estúdio, scriptgirls1, garçonetes da cantina do estúdio, que estavam todos vivos, animados, esperançosos, com planos para o futuro, na ocasião em que o filme foi feito, e que também poderiam ter sucumbido numa proporção previsível com o desgaste de vinte anos, de acordo com as tabelas de mortalidade de Jack. Para não falar nos vivos... Primeira entre os vivos, Carlotta... “Que diabo”, pensou Jack, sentado na beira da cama, um cigarro entre os lábios, “não vou passar por isso outra vez.” Levantou-se bruscamente, como um homem que sabe o que faz, e saiu descalço, arrastando um cobertor, para escapar do quarto de dormir, do sonho, dos mortos desencadeados. Acendeu todas as luzes da sala, o lustre de vidro, as lâmpadas da mesa, os apliques, e pegou o script de capa corde-rosa que Delaney lhe pedira para ler. Acomodou-se no sofá, tremendo um pouco debaixo do cobertor, e abriu o script. FADE-IN, DEPOIS DOS CRÉDITOS. Um avião quadrimotor aterrissando no Aeroporto de Ciampino, Roma. Choveu e as pistas ainda estão molhadas. O AVIÃO rola até o local do desembarque e os operadores correm com a rampa. A PORTA se abre e os passageiros começam a sair. Entre os passageiros encontra-se ROBERT JOHNSON. ELE caminha um pouco separado dos outros passageiros. ELE parece estar procurando alguma coisa. ELE se aproxima da câmera e vemos que é um homem de seus trinta e cinco anos, muito bonito, com olhos penetrantes e inteligentes. Jack suspirou ao ler as palavras velhas e conhecidas e tornou a pensar, sofrendo outra vez, no seu sonho, procurando analisar os símbolos. O touro, espalhando a morte, apaziguado momentaneamente pela canção e a dança, desviado de seus intuitos sinistros por palhaçadas e truques de revistas. O que seria aquilo? O público? Irracional, bruto, mortal, mantido a distância somente enquanto a gente dançasse e saltasse e gritasse para diverti-lo? Jack se lembrava do que sentia quando a cortina se abria nas noites de estreia e como ficava apavorado, sentado nas plateias nas pré-estreias de filmes em que representava — de boca seca, suando, com tremores elétricos nos cotovelos e joelhos. Seria por esse motivo — depois de tantos anos, ele estar voltando a tudo isso, mesmo que apenas por duas semanas e como a voz anônima e paga de uma sombra na tela — que ele tinha tido o sonho? E o homem de cara escondida, o inimigo trancado no mesmo lugar, defrontando-se com o mesmo perigo, paralisado pelo terror? E quando ele se virava para ver a cara do inimigo, a cara do medo, no momento exato do conhecimento, do reconhecimento, as portas eram arrombadas... ' Ele sacudiu a cabeça, fatigado. “Vou comprar um livro de interpretação de sonhos, amanhã”, disse ele consigo mesmo, zombeteiramente, em italiano. “Vou descobrir que devo evitar viajar por água ou por ar ou por terra e que um tio de quem nunca ouvi falar está prestes a me deixar uma grande fazenda na Argentina.” “Talvez tudo o que isso signifique”, pensou ele, “seja apenas que eu deva sair desse raio de lugar, largar os cinco mil dólares, largar Delaney, largar a minha mocidade, deixar enterrada a vida

enterrada. Talvez seja simples assim.” Mas ele continuou a ler obedientemente, sentindo compaixão e um pouco de vergonha por todos, inclusive ele, que procuravam a fama ou o dinheiro, ou uma fuga, ou divertimento, nesse triste empreendimento. Leu até o fim, rapidamente, virando as páginas impaciente, e depois deixou o script cair ao chão. Levantou-se, sentindo-se machucado com a noite, e foi até a janela. Abriu-a e olhou, sem prazer, para a madrugada que surgia fria e esverdeada sobre a ruãzinha romana, estreita e amarela. “Deus”, pensou ele, atormentado por recordações e pressentimentos, “quem me dera que essas duas semanas já tivessem passado.”



5 Eles estavam na sala escura, Delaney, Jack e a secretária de Delaney, assistindo à projeção do filme. Delaney passara para buscar Jack às sete e meia da manhã. Perguntou como Jack estava se sentindo e olhou com argúcia e preocupação para seus olhos injetados, mas deu um grunhido de satisfação quando Jack lhe disse, mentindo, que estava se sentindo bem. — Bom — disse Delaney. — Podemos começar logo a trabalhar. Como Delaney queria evitar que Stiles, o ator cuja voz Jack estava dublando, descobrisse o que estava sendo feito, eles tinham ido para outro estúdio, não aquele em que Delaney estava filmando a película. Delaney tinha posto óculos escuros e puxado o boné para baixo, numa tentativa conspiratória para ficar incógnito, embora todos que passassem por ele no estúdio dissessem bem alto: “Buon giorno, Signor Delaney.” A ninguém ele apresentou Jack, nem mesmo à mulher esguia, de meia-idade, de saltos baixos, que estava trabalhando como sua secretária e que se encontrava sentada logo atrás de Jack na sala de projeção. Enquanto as sequências rudemente cortadas passavam na tela, Jack via que, a despeito das queixas de Delaney na véspera, ele estava se divertindo ao ver o que havia filmado. Dava grunhidos de aprovação, riu alto duas ou três vezes, rompantes curtos e ásperos, bateu com a cabeça, meio inconscientemente, no clímax de duas cenas. Somente quando a imagem de Stiles aparecia na tela é que Delaney parecia estar sofrendo. Remexia-se no assento, abaixava a cabeça e olhava furioso para a tela, de esguelha, como se estivesse protegendo seus olhos de algum golpe. — O filho da puta — murmurava ele. — O filho da puta beberrão. Jack achou o filme muito pouco melhor do que o script que havia lido. Havia invenções felizes aqui e ali, de parte de Delaney, e momentos bons no desempenho de alguns dos atores, especialmente no de Barzelli, a garota que representava a heroína, mas o efeito geral era pesado, sem vida, e havia uma sensação de que todos ali já tinham feito a mesma coisa várias vezes. Stiles, conforme Delaney dissera, tinha boa aparência, mas sua fala, quando não estava insegura e quase incompreensível devido à bebida, estava forçada e dura, e até mesmo as indicações mais simples de paixão oferecidas pelo script estavam apagadas em seu desempenho. — Os raios dos italianos — grunhiu Delaney. — Não podem resistir a uma pechincha. Pegaramno pela metade do que ele costuma cobrar, de modo que não fizeram perguntas e contrataram-no. Por que é que você não cala a boca? — rosnou ele para a tela, onde Stiles dizia à moça que ele a amava mas que sentia que devia deixá-la pelo seu próprio bem. A exibição terminou de repente, no meio de uma sequência, pelo que Jack se lembrava de ter lido, em algum ponto do último terço da história. As luzes se acenderam e Delaney virou-se para Jack. — Bom, o que é que você acha? — perguntou. — Estou entendendo por que é que você quer a voz de outro para Stiles — disse Jack. — O filho da puta — xingou Delaney, quase automaticamente. — Cirrose do fígado ainda é bom demais para ele. E quanto ao resto? — Bom. — Jack hesitou. Afinal de contas, ele não via Delaney havia mais de dez anos e não tinha certeza de até que ponto poderia ser franco, depois da interrupção em sua amizade. Antigamente,

Delaney usava Jack como crítico em tudo o que fazia. No mundo de bajuladores e cavadores de ouro em que Delaney vivia, Jack tinha prestado um grande serviço ao amigo. Seus padrões eram juvenilmente severos, seu gosto rígido, seu faro aguçado para o que soava falso e pretensioso. Assim, ele tinha sido impiedosamente franco com Delaney, que de vez em quando o chamava de jovem esnobe, metido a superior. Dava-lhe, porém, ouvidos, e muitas vezes refazia o trabalho que Jack desaprovasse. Delaney fazia o mesmo com Jack, não o poupando por um momento sequer quando achava que Jack não estava fazendo o máximo. Eles tinham feito três filmes juntos em três anos, nessa combinação frouxa, informal e franca. Os filmes foram dos melhores da época e criaram o mito Delaney, do qual, de certo modo, ele ainda estava vivendo. Delaney nunca mais se aproximara desse nível. Ele e Jack tinham uma frase sardônica, simbólica, que usavam entre si, tanto para o seu trabalho quanto para o trabalho de outros, quando percebiam o pieguismo ou a falsa violência, ou pseudoprofundidade, tão fáceis de se impingir na Hollywood próspera daquela época. “É terrivelmente originar’, diriam eles um ao outro, arrastando as palavras afetadamente. Ou, se a ofensa fosse maior ainda, “é terrivelmente, terrivelmente original, meu caro...” Agora, depois de ver o filme que Delaney passara para ele na sala de projeção, Jack tinha vontade de dizer: “JÉ terrivelmente, terrivelmente original, meu caro...” Mas, lembrando-se da tensão na voz de Delaney no carro, na véspera, e do tremendo apelo que encobriam suas palavras, Jack sentiu que seria melhor tatear antes de apresentar qualquer crítica verdadeira. — O script é bem fraco — começou ele. — O script! — Delaney exclamou amargamente. — Pode repetir isso? — Quem o escreveu? — perguntou Jack. — Sugarman — respondeu Delaney, cuspindo o nome como se deixasse um gosto ruim na boca. — O patife. — Isso me surpreende — disse Jack. Sugarman tinha escrito três ou quatro boas peças nos últimos quinze anos, mas não havia qualquer vislumbre de seu talento no que Jack tinha lido na véspera ou visto naquele dia. — Ele veio para cá para passar três meses — explicou Delaney, acusadoramente — e foi a todos os museus e sentou-se nos cafés com todos os pintores e escritores sujos que infestam esta cidade e disse a todo mundo que eu era um filho da puta estúpido e que não escreveria uma linha de jeito a que eu pudesse filmar e eu acabei tendo de reescrever todo o raio do negócio. Escritores! A velha história de sempre. Pode ficar com Sugarman para você. — Sei — disse Jack, sem se alterar. Desde o momento em que começou a ter sucesso, Delaney tinha brigado com todos os escritores que tinham trabalhado com ele, e por fim tinha resolvido reescrever os scripts ele mesmo. Em Hollywood, tinha a reputação de ser um diretor que fracassara de tanto escrever, e os produtores que ficavam tentados a contratá-lo costumavam dizer ao agente dele: “Eu o contrataria, se pudesse arrancar-lhe o lápis das mãos.” Até o momento, ninguém conseguira arrancarlhe o lápis da mão. — Ainda está tosco — desculpou-se Delaney, indicando a tela. — Ainda hei de dar um jeito. Se não morrer exasperado com os italianos antes disso. — Ele se levantou. — Escute, Jack, fique aqui e passe o filme umas duas vezes e se familiarize com ele. Talvez você pudesse até ler o script outra vez hoje à tarde. Amanhã, então, às sete e trinta, começamos a dublagem. — OK. — Marquei um encontro por você com Despière — prosseguiu Delaney, colocando os óculos escuros. — No Doney’s. Dez para a uma. Ele quer umas informações de você para o artigo dele. Sobre os meus primeiros triunfos. — Delaney sorriu, vacilante. — Minta um pouco para ele, mostre que é meu

amigo. — Não tenha medo. Vou fazer você parecer uma combinação de Stanislavski com Michelangelo. — Faça como achar melhor. — Delaney riu e bateu no ombro de Jack. — Guido está esperando você lá fora com o carro. E hoje à noite há um coquetel às oito horas. Ele sabe o endereço. Mais alguma coisa que eu possa fazer por você? — No momento, não. Delaney tomou a lhe bater no ombro, paternal, amigo. — Até as oito — despediu-se ele. — Muito bem, Hilda — dirigiu-se à secretária. A mulher se levantou, dócil e simples, com seu casaco surrado, e o acompanhou para fora da sala de projeção. Jack respirou fundo e depois olhou para a tela com aversão, invejando Sugarman com seus três meses de museus e cafés e sua fuga para os Estados Unidos. Depois, Jack apertou o botão e a sala escureceu e mais uma vez as imagens nada convincentes começaram a passar pela tela, fingindo tragédia. Olhando para o homem cuja voz ele teria de simular, Jack pensou em Delaney, o encontro que ele lhe tinha marcado com Despière, e sorriu sozinho. Não fora um simples caso, Jack agora entendia, nem um desejo de servir a Jack, nem mesmo o desejo de melhorar o filme, que tinha feito Delaney chamar Jack a Roma, embora tudo isso tivesse contribuído. Delaney sabia que era seu amigo fiel, que se lembrava do Delaney de seus bons tempos, e ele queria tudo isso no artigo que Despière estava escrevendo. Apesar de sua aparência franca e rude, Delaney sempre fora um sujeito esperto e disfarçado. Era óbvio que ele não mudara. Manobrava as pessoas sutilmente para seu proveito e, tanto quanto podia, controlava o acaso. Mas, mesmo reconhecendo a manobra, Jack sentia apenas compaixão por Delaney, por este acreditar que precisava daquilo. Quando Jack conheceu Delaney, os jornalistas podiam escrever que éle era o Anticristo e que estuprava meninos de coro de igreja, e Delaney não se daria nem ao trabalho de atravessar uma rua para fazer mudar uma linha. A idade, pensou Jack, o fracasso... “Cinco mil dólares”, pensou Jack, olhando para o rosto tolo e bonito na tela. “Cinco mil dólares.” Despière estava sentado numa das mesinhas do lado de fora do Doney’s quando Jack abriu caminho pelo mundo de gente que se mexia devagar na hora do almoço, turistas, funcionários, artistas de cinema e garotas saudáveis da Via Veneto. O sol do meio-dia estava quente e por uma ou duas horas fazia todo mundo achar que Roma era um lugar maravilhoso para se estar no inverno; notava-se isso nas caras que passavam e nas vozes satisfeitas que falavam uma dúzia de línguas de todos os lados. — Sente-se— disse Despière, mostrando a cadeira ao lado da sua. — Aproveite o sol da Itália. — Jack sentou-se e pediu um vermute a um dos garçons de paletó branco que abriam caminho, irritados, pelos transeuntes, as bandejas com pequenas xícaras de café e garrafas finas de Campari e vermute. — Dottore, fiquei preocupado com você ontem à noite. Estava com cara de quem ia ter um troço sério. — Não — mentiu Jack, lembrando-se da noite que passou. — Não foi nada. Eu estava um pouco cansado, só isso. — Você tem boa saúde, dottore? — perguntou Despière. — Claro — respondeu Jack. — Parece um rochedo — prosseguiu Despière. — Seria muito decepcionante se um homem com a sua aparência fosse doente. Quanto a mim, o caso é outro. — Ele riu. — Quando os cientistas olham para mim, correm para seus laboratórios e trabalham dia e noite na pesquisa de algum soro, antes que seja tarde demais para salvar-me. Sabe que já tomei injeções feitas da placenta de mulheres que tinham acabado de dar à luz e de células sexuais de rapazes que morreram de desastre? — Para que você faz isso? — perguntou Jack, acreditando pela metade. — Para prolongar a minha vida — respondeu Despière, displicentemente, acenando para um homem e uma mulher loura que passaram pela mesa. — Você não acha que eu devia estar interessado em prolongar a minha vida?

— E dá resultado? Despière deu de ombros: — Estou vivo. O garçom colocou o cálice de Jack na mesa e serviu o vermute. Despière acenou para duas garotas de cabelos compridos e rostos pálidos, sem qualquer pintura, que estavam desfilando por ali, de folga de um estúdio de cinema para a hora do almoço. Ele parecia conhecer metade das pessoas que passavam pela mesa e cumprimentava a todos com o mesmo gesto lânguido e o mesmo sorriso simpático e brilhante. — Diga-me, dottore — disse Despière, esparramado na cadeira, falando sem tirar o cigarro da boca, de modo que tinha de apertar os olhos, por causa da fumaça que estava sempre lhe entrando nos olhos. — Diga-me, que tal a obra-prima de Delaney hoje? — Bom — respondeu Jack, com cuidado. — Ainda está aos pedaços. É um pouco cedo para dizer. — Quer dizer que é uma droga. — Despière parecia divertido. — Em absoluto — discordou Jack. Despière era seu amigo, Mas Delaney também o era, e não havia necessidade de sacrificar um pelo outro só por causa de um artigo de revista. — Acho que é capaz de dar um filme muito bom. — Acho bom — murmurou Despière. — O que quer dizer com isso? — Despière estava incomodando Jack, com aquilo. — Você sabe tão bem quanto eu, dottore, que nosso amigo Delaney está cambaleando nas cordas. Mais uma droga e ele jamais conseguirá fazer um outro filme em lugar algum. Nem em Hollywood, nem em Roma, nem no Peru... — Nada sei sobre isso — atalhou Jack bruscamente. — Não acompanho as revistas de cinema. — Ah! — exclamou Despière, com ironia. — Quem me dera ter o dom dele para inspirar lealdade aos amigos. —* Escute, Jean-Baptiste, como é que vai ser este artigo, afinal? Você vai arrasá-lo? — Eu? — Despière pôs a mão no peito com uma surpresa artificial. — Será que acham que sou um homem capaz dessas coisas? — Acham que você é homem capaz de muitas coisas. O que é que você vai dizer a respeito dele? — Ainda não resolvi. — Despière sorriu, implicando. — Sou apenas um pobre e honesto jornalista, servindo aos interesses da verdade, como os pobres e honestos jornalistas de toda parte. — Como é que vai ser? Despière deu de ombros: — Não vou cobri-lo de rosas, se é isso que você quer saber. Há dez anos que ele não faz um filme decente, você sabe disso, apesar de se comportar ainda como o sujeito que inventou a câmera de filmar. Vou fazer-lhe uma pergunta: ele sempre foi assim? — Assim como? — perguntou Jack, fingindo não entender. — Você sabe o que eu quero dizer. Importante, impaciente com os espíritos tacanhos com quem é obrigado a trabalhar, guloso de lisonjas, surdo às críticas, produzindo porcarias e achando que é uma maravilha, não dando crédito a ninguém por nada, invejando o trabalho de todos, esbanjando o dinheiro dos outros como Nero com sua citara, agarrando as mulheres dos outros como se tivesse uma licença do Haras Nacional Irlandês para trepar com todas as mulheres bonitas que aparecerem... — Pode parar — interrompeu-o Jack. — Já entendi. — Ele teve uma rápida visão da cara de Delaney quando aparecesse o artigo e ele arranjasse alguém para traduzi-lo do francês. Teria de avisar a Delaney para se afastar de Despière ou então procurar tratá-lo de maneira diferente. Ficou imaginando o que teria Delaney feito a Despière para despertar todo esse veneno e também ficou pensando o que poderia fazer para melhorar as coisas. Despière estava sorrindo para ele, apertando os olhos por cima do cigarro aceso entre seus lábios longos e finos, mexendo em seu cabelo à St.-Germain-des-Près, caído na testa, gozando o

vislumbre de ódio e destruição que estava dando a Jack, com um ar, apesar de tudo, de um menino pálido, doentio, bonito, que implicava com sucesso com o mundo adulto. — Diga-me, dottore, sou um francês sujo e indigno de confiança? — Você não o conhece realmente — disse Jack. — Ele não é nada do que você está pensando. Ou, pelo menos, se é, é apenas parte de sua personalidade. A pior parte. — Está bem, Jack. Estou ouvindo. Conte-me das partes boas do filho da mãe. Jack hesitou. Estava cansado e sua cabeça estava oca e pesada da noite sem dormir, sentia que as pessoas olhavam de maneira estranha para seu nariz inchado e a mancha roxa debaixo de um dos olhos e não estava disposto a defender ninguém, naquela hora. Estava com vontade de dizer a Despière que não gostava da malícia rápida e aérea com que os jornalistas serviam suas vítimas ao público. Depois, lembrou-se de Delaney no cinema na véspera, depois do filme, dizendo asperamente: “Eu fui um grande homem”, e sua confiança oca e vacilante em si mesmo, de manhã, na sala de projeção, quando lhe dissera: “Minta um pouco para ele, seja um bom amigo.” — Eu o conheci — começou Jack — antes da guerra, em 1937, quando eu participava numa peça que estava em experiência em Filadélfia... Ele parou. Despière sorria para duas moças que estavam de pé diante da mesa. Com sua falta de educação propositada, Despière não se levantou, mas ficou falando por cima da mesa, em italiano, olhando para as garotas. Elas estavam contra o sol e Jack não viu direito como eram. Ficou aborrecido por Despière estar falando com elas tanto tempo, de propósito, conforme pensou Jack, para adiar a história sobre Delaney. Jack levantou-se de repente. — Escute, Jean-Baptiste — disse ele, interrompendo-o. — Falo com você outra hora. Você agora está ocupado e eu... — Vamos, vamos. — Despière estendeu a mão e agarrou o braço de Jack. — Não seja tão impaciente. Você agora está em Roma, lembre-se, não em Nova York. Dolce far niente. De qualquer forma, as garotas querem conhecê-lo. Viram seu filme e estão transbordando de admiração. Não estão, meninas? — Qual filme? — perguntou Jack, tolamente. — The Stolen Midnight — respondeu Despière. — Miss Henken, Signorina Rienzi. — Muito prazer — falou Jack, com um mínimo de cortesia. Ele mudou um pouco sua posição, para tirar o sol da vista, e pela primeira vez viu as moças claramente. Sem patriotismo, presumiu que a mais feia fosse a americana. Tinha cabelos ruivos e pele seca, manchada, e um sorriso meio amargo nos lábios finos, como se tivesse experimentado muitas cidades e todo tipo de homem em seus trinta anos e estivesse conformada com o fato de ter sido maltratada por iodos. A outra era italiana, mais moça, com olhos escuros e lânguidos, cabelos longos e pretos e pele morena. Era alta e estava com um casaco bege de lã jogado sobre os ombros, por causa do calor, e estava ali de pé dramaticamente diante da mesa, plenamente consciente, Jack tinha certeza, do efeito marcante que seus cabelos compridos e corpo bem feito tinham sobre os homens que passavam. Ela sorria muito, os olhos irrequietos, observando e avaliando as outras pessoas, que bebericavam nas mesas, e tinha uma maneira de inclinar a cabeça que fazia o cabelo balançar, solto; Jack estava certo de que algum homem lhe dissera ser tal gesto provocante e bonitinho. Achou também que havia algo de satisfação consigo mesma e de estúpido no rosto comprido e sadio e no corpo macio. “Uma fêmea bruta e lustrosa”, concluiu ele, não gostando dela, “na ronda eterna e proveitosa.” Sua voz era rápida e musical, e havia uma nota nela que lembrava a Jack um pistonista tocando numa boate, baixinho e abafado. Também tinha o hábito de molhar o canto da boca com a ponta da língua a toda hora. Jack tinha certeza de que ela praticava esse detalhezinho do negócio em casa, a sangue-frio, diante do espelho, consciente da sugestão e promessa de sensualidade que evocava. Despière puxou uma cadeira da mesa vazia ao lado da deles e o garçom arranjou outra para a

garota ruiva. Elas se sentaram animadas, e não havia nada que Jack pudesse fazer senão sentar-se também. — Você deve ter muito o que conversar com Felice, Jack — disse Despière. — Vocês estão no mesmo negócio. — Quem é Felice? — perguntou Jack, sem gentileza. — Eu — disse a ruiva. — Surpresa desagradável, não? — E sorriu dolorosamente. — Ela também faz dublagens para o cinema — explicou Despière. — Versões inglesas. — Ah! — Jack ficou pensando por um momento se Despière tinha conhecimento de que seu trabalho em Roma devia ser um segredo. Depois, achou que Despière sabia e estava espalhando a notícia porque naquele dia estava de mau humor e contra Delaney. — É a primeira e última vez — disse Jack, sentindo que estava sendo mal apresentado por Despière por algum motivo lá dele. — Na verdade, eu falsifico cheques para ganhar a vida. — Deixe de bancar o importante com as meninas, dottore — disse Despière. — Elas o adoram. Não o adoram, meninas? — Mr. Royal — falou a italiana, em inglês, —-Já vi seu filme três vezes, esta semana. Choro como criança. — O inglês dela era mais lento do que o italiano, mais áspero, nada musical, não como o pistão tocando abafado tarde da noite, e, pelo sotaque, era óbvio que tinha tido contato com muitos americanos. — Meu nome não é Royal — disse Jack, pensando em como sair dali. — É Andrus. — Ele tem uma vida dupla — explicou Despière. — Nas horas vagas, escolhe locais para plataformas de lançamento de bombas de hidrogênio. As moças sorriam, educadamente confusas. — Procuro outros filmes seus — disse a garota italiana, inclinando a cabeça, cabelos caindo sobre um dos ombros —, mas parece que ninguém sabe onde são exibidos. — Não estão sendo exibidos em lugar algum — respondeu-lhe Jack. — Há mais de dez anos que não represento. — Que pena. — Ela disse aquilo como se estivesse realmente sentida. — Há tão pouca gente que tem alguma coisa... Os que têm não deviam parar... — Fiquei velho para o esporte — atalhou Jack. — Escute, Jean-Baptiste, ligue para mim mais tarde e nós... — Mais tarde estarei ocupado — disse Despière. — Jack estava me contando a respeito de Mr. Delaney. — Ele se virou para as duas garotas. — Sobre o tempo, há cem anos, em que ele era mais jovem. Prossiga, Jack. Estou certo de que as meninas hão de adorar isso. — Quando ele era jovem... — falou a garota, italiana. — Quando Mr. Delaney fez aquele filme, devia ser cheio de entusiasmo. — E hoje? — perguntou Jack. — Vi alguns de seus outros filmes. — A moça deu de ombros, como se desculpando. — Não são tão cheios de entusiasmo. Mas cheios de Hollywood, agora. Estou errada? — Não sei — respondeu Jack, pensando: “Vou andar muito ocupado aqui, vou ter de defender Maurice Delaney contra todo mundo que eu conhecer em Roma.” — Não vou muito ao cinema, hoje. — Mas olhou com um novo interesse para a garota. Não era tão tola quanto parecia. — Foi em Filadélfia antes da guerra, em 1937 — disse Despière, ajudando-o. — Você estava numa peça... Jack hesitou, aborrecido por Despière fazer de seu trabalho um acontecimento social, por levar sua vida diante de um público feminino constante. — Não creio que as garotas se interessem — começou ele. — Claro que sim — disse Despière. — Não é, meninas?

— Eu adoraria ouvir falar de Filadélfia em 1937 — falou a americana ruiva. — Eu tinha dez anos. Foi o melhor ano de minha vida. — Ela sorriu, com aversão para si mesma, seca, triste e desagradável. — E que idade tinha você, cara mia? — perguntou Despière à italiana. — E onde estava você em 1937? — Dois anos — respondeu ela, parecendo surpreendentemente encabulada. — E estava em San Sebastian, na Espanha. Se Mr. Royal, desculpe, Mr. Andrus, não quiser contar-nos, não é educado insistir. — Sou jornalista, lembre-se, Veronica — disse Despière. — Para um jornalista, insistir é respirar. “Não é mentira”, pensou Jack com azedume. “Veronica. É o nome dela. Veronica. É o passe básico com a capa numa tourada. San Sebastian, na Espanha.” Ele teve uma recordação fugaz, incômoda, do sonho da véspera, e a ligação o perturbou. — Tive uma ótima ideia, mes enfants, — Despière, desvencilhando-se languidamente de sua cadeira, levantou-se. — Vamos todos almoçar juntos e trocar os segredos de nossas vidas. Todos se levantaram, vacilando. — Se Mr. Andrus não se opõe... — disse Veronica, olhando séria para Jack, mais uma vez com aquela timidez jovem e inesperada. — Claro que não — falou Jack, cedendo. “Bom”, pensou, “tenho de almoçar em algum lugar.” — Sigam-me — ordenou Despière, tomando o braço de Veronica e saindo pela rua. — Vou leválos a um lugar aonde não vai um turista desde o século XII. Jack ficou para trás para pagar a conta. Foram mil e cem liras. Com Miss Henken a seu lado, ele acompanhou Despière e Veronica, pensando: “O filho da mãe deu um jeito de arranjar que alguém pague o almoço da garota dele também.”

6 Miss Henken estava com uma expressão satisfeita e duvidosa — o ar de uma moça que só por acaso é convidada para almoçar fora. Jack ficou olhando para o casal em frente, a mão de Despière possessivamente no braço da moça, o riso deles flutuando por sobre seus ombros, íntimo, ligado. a garota tinha também pernas maravilhosas, compridas e rosadas nos seus sapatos de saltos altos, por baixo do casaco bege esvoaçante, e isso, estranhamente, tornou Jack ainda mais melancólico. “Aposto que vão encontrar uma desculpa para nos dar o fora depois do café”, pensou ele, com selvageria. “Para a sessão da tarde.” — Meu Deus! — falou Miss Henken, sem expressão, olhando para a moça à sua frente. — Por que eu não nasci também italiana? Jack olhou para ela com pena e repugnância. — Ela estará desgrenhada quando chegar aos trinta — disse ele, para consolar Miss Henken no desperdício de sua autocompreensão. Ela sorriu secamente e bateu em seu pobre busto chato. — Bem, eu tenho trinta anos. Não me importaria de ser assim. “Não vim a Roma para consolar os rejeitados”, pensou Jack, fazendo-se de duro, e calou-se. Mas de uma coisa ele tinha certeza: ia fazer Despière pagar o seu almoço e o de Veronica. Nem que fosse a única coisa que ele conseguisse, o dia todo. Por sua vez, Despière se enganara quanto a não ter havido turista algum no restaurante a que os levou, desde o século XII. Sentado do outro lado da sala estava um jovem casal, muito limpinho, sossegado, educado e americano, que parecia estar em lua de mel. Estavam estudando o menu muito sérios, e a mulher olhou para o garçom diante dela e disse: — Quero uma especialidade italiana. Omelete é uma especialidade italiana? — Jack teve vontade de ir beijar a testa dela, pura, séria, educada, linda e americana. Q lugar era um dos restaurantes italianos normais, feio, com a baía de Nápoles pintada de maneira berrante nas paredes, luzes modernistas horrorosas e tetos altos que pregavam peças com as vozes dos fregueses, sendo necessário a pessoa berrar para ser ouvida do outro lado da mesa. Despière pediu spaghetti alle vongole para todos, porque era a especialidade da casa. O garçom colocou um garrafão de vinho aberto na mesa e Despière disse: — Segundo Jack, há belezas ocultas no caráter de Maurice Delaney. Agora, ele as revelará para nós, para que eu possa dar um retrato completo do homem ao mundo. Jack começou devagar, procurando lembrar-se da noite, havia mais de vinte anos, em que ele conhecera Delaney, no camarim onde Lawrence Myers e a garota que depois se casaria com ele estavam sentados à luz dura da maquilagem. Era depois de um espetáculo na semana de experiência em Filadélfia, e Myers e a garota estavam sentados lado a lado num sofá quebrado, cor de barro, enquanto Jack limpava o rosto com creme de limpeza e uma toalha manchada, diante de um espelho. — Era a primeira peça de Myers — disse Jack. — Ele estava todo entusiasmado, porque a crítica tinha sido favorável e o público parecia gostar. Todo mundo já dizia que Harry Davies, o artista principal, ia ser um astro. Ele já morreu, o Davies. Myers também. — Jack parou, pensando por que achava que tinha de dizer aquilo, que pedras estava empilhando nos túmulos abandonados daqueles americanos perdidos, anunciando suas mortes em outro continente. Naquele momento, quando falou dele, Myers lhe parecia muito vivo, o rapaz pálido e nervoso de terno esmolambado, sentado ali ao lado da garota aflita, que parecia uma governanta em seu dia de folga. Ela amava Myers com tal ferocidade que

fez da vida dele uma cascata de tremendas cenas de ciúmes até o dia em que ele saiu da tenda de oxigênio para morrer. — Myers tinha feito amizade com Delaney e todo mundo sabia que Delaney estava na plateia para ver a peça — continuou Jack. — Delaney tinha acabado de dirigir seu primeiro filme de sucesso. Estava no leste, de férias, e deu-se ao trabalho de ir a Filadélfia para ver a peça e dar sua opinião a Myers. O garçom chegou com a comida e, enquanto servia a cada um da mesa, Jack semicerrou os olhos e lembrou-se da aparência de Delaney, entrando impetuosamente no camarim, vinte anos mais moço, rude e confiante, de voz rouca, vestido com displicência, mas com um caro sobretudo de pelo de camelo e uma echarpe de lã, esvoaçante como um estandarte, a cara avermelhada e furiosa, os movimentos espasmódicos com o excesso de vitalidade, como se nada do que encontrasse para fazer na vida o pudesse prender o suficiente para ele poder se mexer no ritmo das pessoas em volta dele. — O que ele disse foi o seguinte — prosseguiu Jack, quando o garçom se retirou e eles começaram a comer: — “Esqueça a crítica, Myers, você está liquidado. O que é que entendem em Filadélfia? Você vai ser massacrado em Nova York. Massacrado!” — Isso parece bem dele — riu Despière secamente, o garfo suspenso sobre o prato. — Isso é ele mesmo. — Ele estava sendo amigo — disse Jack, lembrando-se de como Myers tinha empalidecido à luz do camarim e como os olhos da garota dele ficaram cheios de lágrimas. — É melhor saber logo, melhor estar preparado, do que ir para Nova York cheio de esperanças e ver as esperanças desfeitas. Jack viu Veronica batendo a cabeça, compreendendo a respeito de falsas esperanças, sonhos mentirosos. Miss Henken comia depressa, com afinco, como se raramente comesse o suficiente; como se tivesse medo de que a qualquer momento as pessoas descobrissem que tinha havido um engano, que ela tinha sido convidada por acaso, e lhe pedissem que fosse embora. — Quais foram as outras coisas agradáveis que ele disse? — perguntou Despière. — Bom, aí chegaram o produtor e o diretor — continuou Jack. — Também eles queriam saber o que Delaney tinha a dizer. Delaney virou-se para eles e gritou: “Vão levar essa peça para Nova York? O que é que está havendo com o teatro? O pessoal do teatro não tem mais senso de honra? Não tem respeito, gosto, decência, amor ao seu ganha-pão?” — Jack ouvia ainda a voz áspera, ofegante, indignada, no camarim apinhado, lembrava-se de sua própria reação, sentado diante do espelho, ignorado naquela orgia de acusação, admirando Delaney porque também ele compreendia as falhas da peça e desprezava as pessoas à sua volta que se iludiam a respeito, por fraqueza ou sentimentalismo. — “Da primeira vez que eu vim a Nova York”, gritava Delaney, brandindo o punho no rosto do produtor (eu achei que ele ia bater no outro), “da primeira vez que eu vim a Nova York, se uma peça não fosse melhor do que isso, nós dávamos uma olhada, fugíamos para as montanhas e deixávamos o cenário para ser queimado pela limpeza pública. E agora, hoje, meu Deus, vocês têm a indecência de ficar aí e me dizerem que vão levá-la! Vergonha! Vergonha!” — Qual foi a reação do produtor? — perguntou Despière. — O produtor disse: “Mr. Delaney, acho que o senhor está bêbado.” Saiu correndo do camarim, o diretor atrás dele. — Jack riu, lembrando-se daquela corrida assustada, há tanto tempo. — Veja — disse Veronica. — Eu não lhe disse que naquela época era todo entusiasmado? — Ela estava tão interessada no que Jack ia contando que se esquecera de comer, e todo o tempo Jack sentia, enquanto falava, os olhos dela fixos em seu rosto. — E o coitado do filho da mãe do escritor? — perguntou Despière. — O que foi que ele fez? Saiu e se atirou dentro do rio? — Não — prosseguiu Jack. — Delaney o aconselhou a que se esquecesse dessa peça. De

qualquer forma, era a primeira peça dele e, conforme lhe disse Delaney, geralmente era uma boa coisa para um homem se a sua primeira peça fracassasse. Em seguida, contou-lhe como é que ele, Delaney, tinha andado pelos teatros durante sete anos até conseguir alguma coisa e como tinha sido expulso de seus dois primeiros filmes logo no princípio da filmagem. E acrescentou: “Escute, garoto, esta aqui não presta, mas você tem talento e no fim há de acertar.” Jack hesitou. Myers tinha talento, sem dúvida, mas no final ele foi infeliz, deu para beber e morreu aos trinta e três anos. Mas como é que Delaney haveria de saber disso naquela noite em Filadélfia? — Depois ele perguntou a Myers se tinha dinheiro. Myers riu um pouco e respondeu: “Sessenta e cinco dólares.” Delaney disse que o levaria com ele para Hollywood logo que a peça estreasse. Lá ele escreveria o roteiro do próximo filme de Delaney e no fim teria dinheiro para escrever uma outra peça. Disse-lhe também para fugir dos amigos e parentes na noite da estreia, em Nova York, e que fossem visitá-lo no hotel dele, para Myers não ter de falar sobre a peça. E foi justamente isso o que Myers e a garota dele fizeram. A noite de estreia foi um desastre, com pessoas saindo a partir do meio do primeiro ato, e a garota de Myers chorando na última fila. Além disso, era aniversário dela e ela tinha tirado licença do emprego, em Stamford, para comemorar com Myers. Porque, naturalmente, ela não acreditava em Delaney, e achava que a peça era a melhor do mundo desde Hamlet. E tudo dera tão errado! Então Myers e a garota foram para o hotel de Delaney, no Central Park South, e subiram para a suíte dele. Delaney estava sozinho, esperando por eles, com um bolo de aniversário com velinhas para a moça. Depois, ele os levou para o bar embaixo e os deixou meio embriagados. Aconselhou-os a não lerem as críticas do dia seguinte, porque poderiam aleijar um homem para sempre. Perguntou onde eles pretendiam passar a noite. Myers estava morando num apartamentinho sem aquecimento com dois atores, e não podia levar a garota para lá. Ela passaria a noite com uns tios, em Morningside Heights. Delaney lhes disse, então, que aquela noite não era noite para eles passarem separados. Levou-os à recepção e ordenou: “Escute, estes dois são meus amigos. Não são casados e quero que eles tenham um quarto grande, com vista para o parque, bem alto, onde seja sossegado, haja uma brisa fresca e de onde eles possam ver a Ponte George Washington e Jersey, da janela. Quero que tenham tudo quanto este hotel tiver para oferecer. Eles que peçam champanhe, caviar e faisão assado. Ponham tudo na minha conta.” Depois, despediu-se deles com um beijo, disse que teriam passagens para a Califórnia no voo principal, dois dias depois, e os deixou a sós. Jack parou, perdido na recordação daqueles dias distantes que sua própria voz tinha evocado, aquelas catástrofes esquecidas, esperanças perdidas, lágrimas derramadas, aquela robusta honestidade, aquele tratamento rude, humano e eficaz, aquela fé juvenil. Não lhes contou a respeito de si próprio naquela época, de Delaney contratá-lo, também, quase com displicência, sem elogios nem falsidade, nem lhes contou a respeito de sua mulher, sua primeira mulher, e de como ela detestava Delaney e detestava o que Delaney significava para Jack. Bom, isso não fazia parte da história e não iria bem num artigo de uma revista francesa. — Então — disse Jack, olhando para o prato e recomeçando a comer —, era assim a vida em Nova York há cem anos, quando eu era moço. — Se fosse eu, escreveria esse artigo assim mesmo, palavra por palavra, como ele contou — disse Veronica, e Jack sabia que ela não tinha afastado os olhos da cara dele. — E o que é que isso prova? — Despière deu de ombros. — Que nós todos éramos melhores quando éramos moços? Todo mundo sabe disso. — Talvez isso não fosse uma coisa assim tão má de ser escrita. Nada má até — falou Veronica, surpreendentemente. — Ele era um estouro com as mulheres — começou Miss Henken, mastigando, como se fosse um cavalo a pastar, o spaghetti e os mariscos. — Eu ouvi falar. Era comum. Ele tinha todas as que queria.

Escreva isso. É isso que as pessoas gostam de ler. — Escutem — disse Despière, grave. — Ela tem o dedo no pulso do público. — Aposto — falou Miss Henken, olhando com malícia de ruiva para Jack — que você, quando era moço, tinha também todas elas. — Farei uma lista para a senhorita, antes de partir de Roma — respondeu-lhe Jack, com desagrado. — Ele agora é um homem casado e um esteio do Governo. Não o perturbe com recordações lascivas — comentou Despière, rindo. — Eu só estava fazendo um elogio — desculpou-se Miss Henken, sentida. — Não se pode nem mais fazer um elogio a um homem? Jack encontrou o olhar de Veronica, por cima da mesa, e ela sorriu para ele, rápida e veladamente, inclinando a cabeça. “Veja”, pensou Jack, espantado, “ela não acha que sou tão mau assim, mesmo hoje.” Despière, que nada perdia, notou a comunicação quase imperceptível e recostou-se na cadeira, contemplando os dois, as pálpebras quase fechadas, decidindo, Jack percebeu, como iria fazer a garota e Jack pagarem por aquele momento. — Cuidado com o que você disser a este homem — começou ele, com preguiça. — A mulher dele é conhecida por seus ciúmes, além de sua beleza. Ela é tão bonita — continuou Despière — que, quando Jack sai da cidade, ela se torna a senhora mais popular de Paris. Por falar nisso, Jack, eu lhe contei? — Dirigiu-se a Jack: — Recebi um telefonema hoje de Paris de uma senhora e ela me disse que viu sua mulher ontem à noite. Não lhe contei? — Não — respondeu Jack. — Você não me contou. — Estava no L’Éléphant Blanc, às três horas da madrugada — prosseguiu Despière. — Dançando com um grego. A senhora não sabia quem ele era, mas era muito ligeiro, comentou ela. Disse ainda que Hélène estava muito linda. — Estou certo disso — falou Jack, bruscamente. — Eles são o casal mais feliz que conheço — disse Despière às garotas, completando sua vingança. — Não são, Jack? — Não sei — respondeu Jack. — Não conheço todos os seus outros amigos casados. — Se houvesse a menor possibilidade de êxito, Hélène seria justamente o tipo de garota a que eu me dedicaria. Ela em si é linda — fez um gesto simpático para Jack —, o marido é divertido, é muito cacete ter um caso com uma mulher que tenha um marido chato. Por mais atraente que ela seja, nunca compensa as horas que a gente tem de passar com ele, fingindo que é seu amigo'. Miss Henken riu, nervosa, impressionada por essa visão de boulevardier num mundo em que ela nunca seria aceita. Despière voltou feliz à comida, contente com seu triunfo seguro. Antes do café, ele olhou para o relógio e, dando um salto, disse: — Tenho de deixá-los, meus filhos, tenho um compromisso. Temos de almoçar juntos todos os dias. — Com um aceno, afastou-se da mesa. O proprietário veio apressado para junto dele e Despière abraçou o homem e foi com ele até a porta. O proprietário seguiu-o até lá fora para se, despedir dele. Jack, olhando furioso enquanto o outro desaparecia, ficou aborrecido consigo mesmo por ser tão lento e deixar Despière sair sem pagar a conta, ou pelo menos sua parte da conta. De repente, voltou-se para Veronica, para ver como ela estava reagindo, ao ser deixada assim por Despière, mas ela comia uma pera, feliz, sem se alterar. “Em algum ponto”, pensou Jack, “entendi qualquer coisa totalmente errado.” Depois, quando terminaram o café e Jack pediu, de má vontade, que lhe trouxessem a conta, o proprietário chegou e disse, com um largo sorriso, que já estava paga, que o Signor Despière dissera que o almoço era por conta dele, eram todos seus amigos aquela tarde. Quando saíram do restaurante, Miss Henken disse que tinha de ir à Cinecittà para saber de um

trabalho. Chamaram-lhe um táxi e ela foi embora com a expressão de uma mulher que sempre sai de todos os lugares sozinha. — Para onde vai? — perguntou Veronica, ali de pé, o casaco pendurado nos ombros, o que Jack reconhecia agora como uma atitude habitual de exibição. — Vou a pé até o hotel. Fica perto daqui. — Jack preparou-se para se despedir e ficou pensando se, por polidez, deveria pedir o número do telefone dela. “Para o diabo”, pensou, “eu não o ousaria.” — Posso ir andando com você? — pediu ela. “Ponta da língua outra vez”, reparou ele. — Claro — concordou Jack, e eles começaram a caminhar, lado a lado, sem se tocar. — É um prazer. Se você não está com pressa. — Nada tenho a fazer até as cinco horas — comentou ela. — E o que é que você terá que fazer, então? — perguntou Jack. — Eu trabalho. Numa agência de viagens. Mando as pessoas para lugares onde eu preferiria ir pessoalmente. O sol estava atrás de uma nuvem e as nuvens se amontoavam sinistramente, negras, ao norte, marchando sobre Roma, como se em ritmo de invasão. O vento fazia bater as beiras rasgadas dos cartazes contra as paredes ocres dos prédios com estalidos agudos. A chuva não tardaria. Passaram por uma porta onde uma mulher encurvada e coberta de farrapos, com uma criança suja no colo, estava mendigando. Segurando a criança em um dos braços, ela correu atrás de Jack, dizendo: “Americano, americano”, enquanto estendia a outra mão, imunda, como uma garra, para a caridade. Jack parou e deu-lhe uma moeda de cem liras. A mulher virou-se, sem uma palavra de agradecimento, voltando para a porta, onde tornou a agachar-se na pedra. Jack sentiu que a mulher estava olhando para ele, ingrata, insatisfeita, e achou que as cem liras que ele lhe dera não compensavam o calor da refeição que ele fizera havia pouco, a garota bonita a seu lado, o luxo dos aposentos do hotel para onde ele ia. — Isso serve para nos lembrar — disse Veronica, séria. — Mulheres assim. — Lembrar o quê? — Lembrar de como estamos perto da África aqui na Itália e como pagamos por isso. — Nos Estados Unidos também existem mendigos — comentou Jack. — Não do mesmo tipo — replicou a moça. Ela andava depressa, como se quisesse afastar-se da mulher com a criança. — Você já esteve nos Estados Unidos? — perguntou Jack. — Não — respondeu Veronica. — Mas eu sei. Caminharam mais calados um pouco, atravessaram uma rua, dobraram uma esquina, passando por uma vitrina de mercearia cheia de queijos, salsichas e garrafas de chianti embaladas em palha. — Você se importa — perguntou Veronica bruscamente, a voz baixa — que sua mulher estivesse dançando às três da manhã em Paris com outro homem? — Não — respondeu Jack, pensando, porém, que isso não era bem verdade. — Os americanos se casam melhor do que os italianos — falou Veronica, sem expressão, mas sem amargura. “Bom”, pensou Jack, sorrindo interiormente, “eu poderia discutir esse ponto.” E comentou: — De qualquer forma, é bem provável que ela não estivesse dançando às três da manhã. — Quer dizer que talvez Jean-Baptiste estivesse mentindo? — Inventando — corrigiu Jack. — Aquele homem é um malvado — disse Veronica. — Misturado com um homem muito bom. Aí, Jack sentiu seu lábio molhado e sabia que estava sangrando outra vez. Constrangido, ele parou, puxou o lenço e levou-o ao nariz. — O que foi? — Veronica olhou para ele, alarmada.

— Nada — respondeu ele, a voz meio abafada. — Sangue no nariz. — Tentou pilheriar a respeito: — Uma doença real. — Isso acontece sempre? À toa? — perguntou Veronica. — Só em Roma. Uma pessoa me esmurrou ontem à noite. — Esmurrou-o? — Ela parecia incrédula. — Por quê? — Não sei. — Jack sacudiu a cabeça aborrecido com a cena, com o sangue, que agora estava correndo. — Como aviso. — Ele ficou novamente deprimido e abalado, sentindo o peso, outra vez, na rua movimentada e de dia, dos sonhos, dos pressentimentos, as imagens dos mortos, a proximidade do perigo, a solidão e o medo da noite. — É melhor você ir para o hotel depressa — disse Veronica. Chamou um táxi e o ajudou a entrar, como um inválido. Sua mão estava firme e delicada no braço dele, e Jack ficou contente por não estar sozinho, dessa vez. No hotel, ela insistiu em pagar o táxi, pegou a chave da portaria e ficou junto dele no elevador, vigilante, pronta a segurá-lo, como se estivesse com medo de que ele caísse. O sangue continuava a correr. No elevador, procurando parecer educado, sem sangue, comum, por causa do rapaz alto de farda que apertava os botões, Jack teve uma curiosa imagem retardada, bem nítida. Ele tinha a certeza de que, quando estava esperando no meio do saguão que Veronica apanhasse a chave, tinha visto Despière e uma mulher de vestido azul, sentados juntos, falando muito animados, no salão comprido e vazio que se estendia a partir do saguão. Agora, subindo na gaiola dourada de andar para andar, ele tinha certeza de que a certa altura Despière tinha levantado os olhos, reconhecendo-o, e depois baixado a cabeça. — Você os viu? — perguntou ele a Veronica, que estava protetoramente junto dele. — Quem? — Despière e uma mulher. No salão. — Não — respondeu Veronica, olhando para ele de maneira estranha. — Não vi ninguém. — Não tem importância — disse Jack, com voz arrastada. — Nenhuma importância. — “Agora os vivos também me perseguem e em pleno dia”, pensou ele. No quarto do hotel, tirou o paletó, desabotoou o colarinho, tirou a gravata e deitou-se na cama. Veronica pendurou o paletó no armário, como uma dona de casa caprichosa, procurou um lenço limpo na gaveta da cômoda e deu-o a ele. Depois, ficou um momento de pé ali, seu contorno vago na penumbra do quarto de cortinas cerradas, já com o ruído da chuva contra as vidraças. Em seguida, deitou-se ao lado dele, sem uma palavra, e o segurou nos seus braços, confortando-o. Ficaram ali deitados em silêncio, escutando a chuva, na obscuridade morna, ondulosa, aguada da tarde escura. Depois, ele deixou cair o lenço do rosto, porque não precisava mais dele, virou a cabeça e beijou o pescoço de Veronica, apertando bem os lábios na pele firme e quente, isolando-se de tudo que não fosse aquele quarto, aquele momento, aquela cama, esquecendo-se de presságios e pressentimentos, ferimentos e sangue, recordações e lealdades. Ele se virou, deitando-se de costas, a cabeça dela no seu ombro, os cabelos compridos — uma mancha escura contra o brilho fosco e escuro de sua pele. Lentamente, voltou a si, lentamente voltou a ser o hóspede do apartamento 654, marido, pai, são, responsável, distante, razoável. Olhou para o rosto de Veronica, em sombras a seu lado, o rosto de uma estranha, o rosto de uma moça que, não mais do que duas horas antes, ele achara estúpido e satisfeito, complacente. Ela estava deitada de olhos bem abertos, olhando para o teto, com um sorriso plácido e visível nos lábios. “Sim”, pensou ele, “na verdade, há realmente algo de estúpido no rosto dela.” Lembrou-se do primeiro juízo que fizera a seu respeito na mesa de rua defronte do café — uma fêmea bruta e lustrosa. Sorriu, pensando: “Que utilidades maravilhosas têm as fêmeas brutas e lustrosas.” Eles continuaram deitados, quietos. Lá fora, a chuva, o barulho de Roma, abafados por paredes,

cortinas, venezianas e janelas. Jack riu sozinho, baixinho. — Por que você está rindo? — perguntou ela, sem se mexer, murmurando-lhe ao ouvido. — Estava rindo por ser tão esperto — disse ele. — Por que tão esperto? — Eu tinha adivinhado tudo — disse ele. — No almoço. Que você ia embora, no fim, com JeanBaptiste. — Você achava que eu era a garota dele? — Achava. Não é? — Não — disse ela. — Não sou a garota dele. — Pegou a mão de Jack e beijou a palma. — Sou sua garota. — Quando foi que você resolveu isso? — perguntou ele, satisfeito e surpreso com a declaração rápida, pensando: “Há quanto tempo não me acontece nada parecido!” Aí foi a vez de Veronica rir. — Resolvi há duas noites. — Mas você nem me conhecia há duas noites. Nem sabia que eu existia. — Eu não o conhecia, mas sabia que você existia. Sabia muito bem que você existia. Vi seu filme, sabe? Você era tão bonito, tão capaz de amar, que eu me tornei sua garota em meia hora, sentada sozinha num cinema. “Talvez mais tarde”, pensou Jack melancolicamente, “eu vá achar graça disso, quando me lembrar, mas não estou com vontade de rir agora.” — Mas, meu bem, eu era vinte anos mais moço naquela época. Era mais moço do que você é hoje — explicou Jack. — Eu sei — concordou ela. — Hoje não sou o mesmo — continuou ele, com pena, sentindo que essa garota linda, simples, ligeiramente boba, estava sendo lesada, lesada pelo tempo e pela enganadora durabilidade do celuloide, e ele de alguma forma se estava aproveitando indevidamente disso. — Não sou o mesmo nem um pouco. — Quando eu estava sentada no cinema, eu sabia como seria se você dormisse comigo. Jack riu, asperamente: — Acho que devo lhe devolver o dinheiro. — O que quer dizer com isso? — Quero dizer que você pagou por alguma coisa que não ganhou — respondeu ele, retirando o braço, deixando que a cabeça dela caísse sobre o travesseiro. — Você estava pagando por um rapaz de vinte e dois anos, que desapareceu há muito tempo. — Não — falou Veronica devagar. — Eu não estava pagando por nada. E ele não desapareceu, como você diz, o rapaz de vinte e dois anos. Quando eu estava no restaurante, escutando você a falar sobre Delaney e seu pobre amigo da peça, vi que aquele rapaz ainda estava lá. — Aí ela riu e chegou mais perto dele, cochichando-lhe no ouvido: — Não, não estou dizendo toda a verdade. Não é exatamente como eu imaginava no cinema. É melhor, muito melhor. Riram juntos. “Graças a Deus pelos fãs”, pensou Jack, pensamento vil. Tornou a abraçá-la, sua mão prendendo-se nos cabelos escuros e ásperos. “Bom”, pensou ele, “maravilhoso, e eu que pensei já ter recebido meu salário por aquele filme há muito tempo. Agora parece que eu tenho o que a Associação de Artistas de Cinema chama de direitos residuais. Ricos direitos residuais.” Virou-se para ela e pôs a mão sobre seu corpo. — O que é que você quer? — murmurou ela. — Alguma especialidade italiana — respondeu. — Isso é uma especialidade italiana?

7 Ouviu que batiam. Abriu os olhos com relutância. O quarto estava escuro e, por um momento, ele ficou flutuando no tempo, sem saber onde estava, que horas do dia ou da noite eram, sem se incomodar, feliz em profundezas macias e sem hora. Depois ouviu de novo as batidas, tímidas, e viu a porta da sala abrir-se numa fresta, por onde um raio de luz amarela penetrou no quarto. Lembrou-se, então, que estava na cama do apartamento 654, no hotel em Roma, e viu que estava sozinho. — Entre — ordenou, puxando as cobertas para cima, pois estava nu debaixo da roupa de cama amarfanhada. A porta abriu mais e ele viu que era a camareira, velhinha, com seu paletó. Ela ficou ali sorrindo, desdentada, segurando o paletó no cabide como um troféu de caça: “Veja o que peguei hoje na selva romana: um paletó americano, manchado de sangue americano.” — La giacca — disse ela, num gemido feliz. — La giacca del signore. È pulita*. Arrastou-se pelo tapete, envolta num leve aroma de suor de velha, e pendurou a roupa no armário, acariciando-a como se fosse um bichinho de estimação. Jack queria dar-lhe uma gorjeta, mas não podia sair da cama nu diante da velha. Ela não ficaria chocada, ele tinha certeza (que cenas ela devia ter presenciado, andando pelos quartos de hotel em Roma durante trinta anos, uma toalha no braço; que surpresas despidas de corpo e alma), mas teria de esperar uma outra ocasião para suas cem liras. — Grazie — disse Jack, encolhido debaixo das cobertas, consciente do ligeiro perfume do corpo de Veronica que ficara nos lençóis. — Grazie tante. — Prego, prego — gemeu ela, os olhos correndo pelo quarto, percebendo tudo, sem perder qualquer pista, Holmes de tetas, de avental azul, compilando seu interminável e tormentoso dossiê de escadas dos fundos naquela cidade cristã. Ela se retirou do quarto, de costas, privada de suas cem liras, sua cara uma acusação à mesquinhez eterna dos ricos, a pobreza novamente, e não inesperadamente, mais empobrecida. Ela não fechou a porta e Jack a ouviu passando pela sala resmungando sozinha, o som de sua passagem como um eco de avó do rugido que o povo deve ter emitido junto aos muros do Kremlin em 1917. Ele ouviu a porta do salão fechar-se e esticou-se satisfeito na cama quente, escutando o ruído do vapor nos aquecedores, deixando que a recordação da tarde o envolvesse deliciosamente. “Bom”, pensou ele, “não foi assim tão mau que o nariz começasse a sangrar, que desculpa ela teria para subir ao quarto? Da próxima vez que eu vir o bêbado que me socou, talvez eu aperte a mão do filho da mãe.” Estendeu a mão, acendeu a luz da mesa de cabeceira e olhou para o relógio. Sete horas. Insônia, existem curas para isso. Não havia sinal de que Veronica tivesse estado lá, a não ser que se considerasse um sinal a fragrância leve que se agarrava aos lençóis. Ele não sabia quando ela havia saído. Lembravase de ter ouvido uma francesa dizer que era falta de educação um homem dormir depois de fazer amor. “Oh, seu americano mal-educado, selvagem”, pensou ele, satisfeito, “ah, seu comanche.” Pensou na esposa e examinou-se para ver se tinha algum sentimento de culpa. Sentiu muitas coisas, deitado ali na cama quente e desfeita, mas não se sentia culpado. Nos oito anos em que estivera casado com Hélène, não tinha tido relações com outras mulheres. Tinha pensado nisso várias vezes, é claro, e tentado uma ou duas vezes, mas sempre havia recuado à última hora. Não por um senso de moral — seu senso de moral era dirigido em outras direções, e ele tinha passado por casamentos demais e visto demais casamentos dos outros para acreditar que a fidelidade física fosse a regra, e não a exceção, na época e nos lugares em que ele vivia. Até aquela tarde ele tinha sido fiel a Hélène porque... Porque a amava? Havia ocasiões, como a da tarde no aeroporto, em que ele não a amava nada. Porque se sentia culpado por não conseguir amá-la bastante, e se mantinha escrupulosamente dentro das aparências do

casamento, esperando que algum dia sua substância se materializasse? Porque ele era grato pela bondade dela, por sua beleza e seu amor por ele? Por já ter-se casado muitas vezes e ter sofrido e feito os outros sofrerem demais? Porque, depois de toda aquela confusão, ele se satisfazia com o conforto, a rotina, e astuciosamente renunciava à paixão? “Bem”, pensou ele, “esta tarde o conforto e a rotina foram esquecidos, e bem esquecidos.” Mas se houvesse algum perigo de ele se apaixonar por Veronica, disse consigo mesmo, ele não a teria deixado subir a seu quarto. Mas, assim sendo — ele se mexeu na cama, com preguiça, virando-se para o lugar onde tinha estado a cabeça de Veronica e onde dois fios de cabelo compridos marcavam o travesseiro —, assim sendo (oh, acidente bondoso), ninguém seria prejudicado, e talvez até muito beneficiado. “Que diabo”, pensou ele, “são só duas semanas.” Quanto a Hélène (dançando — dizia-se, inventava-se, telefonava-se, mentia-se ou não se mentia), ele não tinha a menor certeza do que é que ela fazia. Era parisiense, a religião dela à moda francesa, em outras palavras, quase não funcionava nesses assuntos — ela era linda e atraente aos homens, tinha tido vários casos de que ele sabia, antes de casar-se com ele, e provavelmente outros que ele ignorava, saía de casa quase todas as tardes, nos afazeres vagos e flexíveis que as mulheres inventam para si em Paris, e ele não procurava saber como ela passava o tempo. Ele sabia que, se entrasse num salão em Paris e a visse pela primeira vez, acharia normal que ela fosse uma mulher que tivesse amantes. “Se ela os tem”, pensou ele, com a tolerância do prazer recente esquentando as veias, “e não me conta a respeito, e se isso a faz sentir-se tão bem quanto eu me sinto agora, melhor para ela.” Atirou fora as cobertas e saiu da cama, assobiando baixinho. Acendeu a luz do lustre e olhou para a cômoda, procurando um bilhete de Veronica. Nada viu. Ele tinha certeza de que ela não iria embora sem deixar o endereço e o telefone, e foi até o salão, nu e descalço, para procurar. Mas nada encontrou. Deu de ombros, sem se preocupar. “Talvez seja melhor assim, amor e adeus, talvez ela seja mais esperta do que eu pensava.” Ele voltou para o quarto, ainda assobiando. Foi quando percebeu o que estava assobiando: Walkin’ My Baby Back Home. Parou de assobiar e foi para o banheiro. Quando acendeu a luz, viu, escrito com batom acima de uma das pias, um grande V vermelho. Ele sorriu, olhando para aquilo. “Não”, pensou, “isso não é adeus. O telefone vai tocar.” Satisfeito, abriu a torneira para o banho. No banheiro havia um espelho grande diante do qual ele se postou a se contemplar, pensativo, de pé, despido, com o vapor do banho subindo em nuvens por trás dele. Quando era moço, passava muito tempo olhando para seu corpo no espelho. Tinha jogado futebol no colégio e nos primeiros tempos da universidade, até que rompeu uma cartilagem no joelho e os médicos lhe disseram que deixasse de jogar, senão se arriscava a ficar manco para o resto da vida. Naquela época, tinha um corpo de atleta, e olhava para o espelho com um orgulho quase encabulado, pelos ombros largos e bem feitos, os músculos retesados no estômago, as pernas compridas e pesadas, tão bem formadas que a gente podia ver os músculos se moverem debaixo da pele lisa. Quando entrou para o teatro, exercitava-se no ginásio quatro vezes por semana, lutando nos sacos, fazendo barra, de modo que, fossem quais fossem as exigências de seus papéis, seu corpo estava pronto para reagir com graça e totalmente. Depois da guerra, porém, depois de ter ficado no hospital, depois que todos os músculos ficaram moles devido aos meses sob morfina, e com as cicatrizes dos enxertos ainda rubras na pele, e a modificação estranha e grossa de seu maxilar, ele passou a evitar olhar para si, para se poupar ao sofrimento. Desde então, quando um espelho o surpreendia, num vestiário ou num quarto de dormir estranho, ele se contemplava com desagrado, observando criticamente o peso crescente, o engrossamento com os anos. Ele se havia recuperado plenamente — a flacidez de inválido desaparecera e seu corpo tinha um aspecto vigoroso e sadio —, mas sentia que perdera a graça e a flexibilidade. O corpo do rapaz que tinha corrido pelo campo e saltado alto no ar para receber passes era apenas uma recordação, submerso na brutalidade do tempo. Mas agora ele contemplou seu corpo com aprovação. Lembrando-se de como ele lhe servira bem

naquela tarde, olhou para sua imagem despida com novos olhos. “Não é tão mau assim”, pensou, com um sorriso interior de vaidade, “o monopólio da mocidade não é tão completo assim — afinal de contas, um corpo foi feito para ser utilizado por muito tempo, e nem todas as modificações da maturidade são para pior. Se eu perdesse uns cinco quilos”, pensou, olhando para sua cintura com olho crítico, “não seria nada mau. De qualquer forma, ainda não tenho barriga e as linhas importantes permanecem firmes.” Entrou na banheira funda e antiquada e ficou ali por muito tempo, voluptuosamente pondo mais água quente a todo minuto, sentindo o suor desintoxicador escorrendo-lhe pela testa. Deitado ali, viu o grande v de batom no espelho por cima da pia, agora cheio de vapor, e pensou num meio de convencer a camareira a deixá-lo ali, durante as duas semanas de sua estada. Depois, ao se vestir, achou que se estava sentindo bem demais para ir a um coquetel. Desceu e deu ordens ao porteiro para dizer ao motorista que não iria precisar dele naquela noite. Em seguida, foi para o bar e pediu um martini, contente por estar sozinho e diante da perspectiva de passar a noite solitário. O mesmo grupo de jovens italianos que estava no bar na véspera estava ali de novo, mas dessa vez Jack o suportou com benevolência, sem inveja. Terminou seu drinque e saiu do hotel, caminhando devagar pela avenida cercada de árvores, olhando as vitrinas, o sobretudo aberto, apesar do frio cortante no ar. Meio por acaso, ele se pilhou dirigindo-se para o cinema onde estavam apresentando The Stolen Midnight. Quando chegou ao cinema, parou diante dele e olhou para as suas fotos com curiosidade, mas sem emoção, sem pesar. Olhou para as fotos de Carlotta e ficou imaginando onde e como estaria ela, depois de todos aqueles anos, e o que sentiria se ela entrasse numa sala em que ele estivesse. Por um minuto, ficou tentado a entrar e ver novamente o filme, para estudar o seu antigo ser na penumbra e procurar descobrir o que havia nele, vinte anos antes, para cativar Veronica. Mas resolveu não fazê-lo, achando que já tinha sucumbido a suficiente narcisismo por um dia. Jantou tranquilamente, num restaurante pequeno e deserto. Lembrando-se dos cinco quilos, não comeu pão nem pasta. Depois do jantar, caminhou até o Forum, parando para tomar um espresso e um cálice de conhaque italiano doce. O Forum, trancado à noite, por trás de seus portões, estava deserto e sombrio, à luz pálida de uma lua crescente; um vento fresco o fez abotoar a gola do casaco junto ao pescoço. Naquele momento, ali, sem chapéu, no vento do inverno, ele teve uma sensação gostosa de estar desligado, em intimidade consigo mesmo. Naquele momento, ninguém no mundo inteiro sabia onde ele estava. Fossem quais fossem os direitos que tivessem sobre ele, por mais que precisassem dele ou o quisessem, enquanto permanecesse ali seria inatingível, dono de si. “Estou no coração da Europa, nas raízes do continente, sozinho”, pensou ele, “isolado entre as ruínas.” Lembrou-se de umas linhas das orações de Cícero que tinham sido pronunciadas naquele local, reverberando naquelas pedras. “O têmpora, o mores! Senatus haec intelligit, consul videt; hic tamen vivit. Vivit? Immo vero etiam in senatum venit, fit publici consili particeps, notat et designai oculis ad caedem unum quemque nostrum.” Latim de ginásio, e o “burro” rabiscado em sua carteira de colégio em casa, quando ele tinha quinze anos. Ó tempos, ó costumes! O senado sabe dessas coisas, o cônsul as vê. No entanto, esse homem vive. Vive, disse eu? Não somente vive como vem ao senado, toma parte do conselho público. Destaca e marca com o olhar cada um de nós para a morte. Depois estrangularam Cícero, longe da cena de seus triunfos, depois que o aplauso morreu. Pobre velho, como ele devia estar arrependido de suas talentosas palavras quando chegaram para matá-lo. “Sou romano”, pensou ele, repetindo uma brincadeira que fazia quando era criança, em que fechava os olhos de noite, na cama, e dizia consigo mesmo: “Sou um esquimó, meu iglu está quentinho, as focas estão uivando no gelo”, ou: “Sou Nathan Hale, vêm enforcar-me de manhã”, ou: “Sou Jubal Early, num cavalo preto, montando pelas fileiras da União”. “Sou romano”, pensou ele, “e Cristo acabou de nascer e de ser crucificado, embora durante a minha vida eu não saiba de nada disso. Já jantei e o vento

dos Apeninos está cheio do inverno e eu bebi vinho demais e escutei um homem de Atenas tocar flauta, acompanhado por um rapaz à lira. O silêncio e a escuridão diante das escadarias do Senado agora são duplamente bem-vindos por causa disso. Amanhã, dizem que Augusto vai aparecer e haverá jogos, e o gladiador com a rede e o tridente enfrentará um leão africano. Nesse instante, pode-se ouvir o rugido das feras, trancadas em suas jaulas de pedra sob o chão do Coliseu. O homem com a rede e o tridente, imagina-se, está quieto no momento, consertando a rede e verificando os nós, afiando seu espeto comprido, contemplando a manhã seguinte.” “‘Romano, você caminha no ar frio da meia-noite, rodeado por altos pilares de mármore, pensando nos homens violentos e inclementes, os astutos voluptuosos de toga que enchem o local durante o dia, e você sente como tudo isso é permanente e indestrutível, como essa semente de pedra cresce e floresce, dias a fio, nesses montes baixos e centrais.’” Ouviu passos a distância e viu os vultos de dois guardas, em silhueta contra a luz de um poste. Os guardas pararam e olharam para ele. Jack podia adivinhar-lhes a suspeita eterna ao olharem-no, esperando que ele desse um passo em falso, pulasse um muro, se abaixasse para pegar um fragmento de mármore, embolsasse um caco desfeito da história. Os guardas o americanizaram, tiraram-lhe sua fantasmagórica cidadania romana. Os olhos estavam sobre ele, ele não era mais inatingível; o mundo mais uma vez o reivindicava; estava sujeito a buscas e a ser agarrado, e podia ser obrigado a declarar a sua identidade. O ruído das rodas de carruagens morreu num murmúrio a distância, os leões se calaram e suas jaulas se abriram ao luar, na arena vazia; a música ao longe vinha de um bar e era um disco tocando Trumpet Rag. Nada de gaitas nem liras sob o olhar dos guardas, e as Vespas roncavam pelas ruas, controladas por eles. Cristo e Cícero estavam mortos há dois mil anos e só o vento vindo das montanhas do norte era o mesmo. Jack caminhou junto ao muro, olhando para a pavimentação irregular (sangue, sandálias, rodas de bronze). Os guardas olhavam para ele, pensando talvez que, se fosse preciso, eles o pegariam outra noite. Já tinha andado bastante quando encontrou um táxi e voltou para o hotel. Atravessou a rua, dirigindo-se à banca de jornais diante do hotel, fantástica com beldades do cinema nas capas de revistas. Comprou o Tribune de Paris e olhou para as pilhas de brochuras em inglês de cores berrantes, arrumadas a um lado da banca. Um livro chamou-lhe a atenção, por causa da sobriedade da capa, entre as senhoras recostadas reluzentes e os cavalheiros de revólver que anunciavam a literatura em inglês que naquele ano se oferecia para venda em Roma. Pegou o livro escuro e viu que eram os poemas de Catullo, traduzidos por um poeta inglês. Depois do devaneio no Forum, Jack achou que Catullo era uma descoberta adequada e comprou o livro. ' Atravessou a rua e entrou no hotel. Quando pegou a chave na portaria, sentiu um leve desapontamento, porque não havia recado para ele. “Pelo jeito”, pensou, entrando no elevador, “hoje vou me contentar com Catullo.” Jack estava sentado no salão, sem paletó, sem sapatos, o colarinho desabotoado, lendo: “Veja aonde vão os jovens. Saltam leves para cima, e não é por nada, escutem! É bom ouvi-los cantar. Hymen, Ó Hymen, aqui, Ó Hymenaeus!”, quando o telefone tocou. Deixou que tocasse duas vezes, gostosamente antecipando o som da voz que ouviria quando pegasse o fone. Depois estendeu a mão para o fone e disse: — Alô. — Mr. Andrus? — uma voz de homem, do outro lado. — Sim. — O senhor não me conhece — começou a voz. — Meu nome é Robert Bresach. Queria saber se o senhor pode receber-me por um momento, Mr. Andrus. — A voz era educada, americana e educada, e parecia jovem. Jack olhou para o relógio. Era mais de meia-noite. — Não pode ser de manhã? — perguntou. — Sou amigo de Mr. Despière — disse o homem. — É realmente bem urgente.

Jack deu um suspiro: — Está bem. Apartamento 654. Desligou, aborrecido. Era bem coisa de Despière ter amigos que insistiam em falar com alguém no quarto do hotel à meia-noite. Jack levou Catullo para o quarto de dormir. Sentia-se meio encabulado de deixá-lo aberto numa mesa, o único livro na sala, além de um Baedeker de 1928, que ele tinha encontrado numa banca, à margem do Sena, e tinha levado consigo na esperança de ter algum tempo para bancar o turista. Se o sujeito fosse observador e contasse a Despière que tinha visto o livro, este certamente pensaria que Jack tivesse arrumado o livro propositadamente, para impressionar as visitas. Bateram à porta do salão e Jack foi atender. Encontrou um homem alto, com um sobretudo de tecido grosso, cáqui. — Entre — convidou-o Jack, afastando-se para que o homem pudesse passar pelo pequeno vestíbulo para a sala. Jack fechou a porta e acompanhou-o. Na sala, o homem virou-se e enfrentou Jack. Era moço, tinha cabelos louros e curtos, e era muito bonito, com o mesmo tipo de traços regulares nítidos, intensos e ossudos que o seu filho, Steve. Ficou, por um momento, olhando para Jack com curiosidade, através de óculos sem aros, a fisionomia séria, os olhos azuis penetrantes e graves. Em seguida, disse: — Vou matá-lo, Andrus.

8 “Ele disse outra coisa”, pensou Jack, de pé ali, sorrindo intrigado para o rapaz louro de casaco cáqui; mas parecia que tinha dito: “Eu vou matá-lo.” — O que foi que você disse? — perguntou Jack. O rapaz tinha as mãos nos bolsos fundos do casaco. Agora, ele tirou as mãos dos bolsos. Na mão direita, um canivete. Jack ouviu um estalo e viu a lâmina feia, pesada, de aço fosco, refletindo a luz do lustre. A mão do rapaz estava tremendo, assim como o reflexo no aço. Ele nada disse, apenas ficou ali no meio do quarto, alto e volumoso no casaco grande, o rosto rígido, olhos fitos no rosto de Jack, com uma expressão que era de certo modo tocante e com um quê de súplica. “Era disto”, pensou Jack, “era disto que se tratava — o muro, o sangue, o sonho, o pressentimento, a sensação de estar sendo avisado, a recapitulação dos mortos. A faca estava por detrás de tudo.” — Guarde esse raio de coisa — ordenou Jack, rudemente. A porta atrás dele, que dava para o corredor, estava fechada, e, por mais depressa que ele se virasse e corresse, o rapaz o apanharia antes que pudesse sequer abrir a porta. E esta abria para dentro do quarto, o que era ainda pior. O rapaz ficou quieto, só o ligeiro tremor da faca em sua mão demonstrava a tensão sob a qual ele se encontrava. Abriu a boca ligeiramente, aspirando o ar com um ruidozinho fraco e regular, como um suspiro. Estava fazendo um esforço consciente para respirar com calma. Não se ouvia mais ruído algum. As janelas fechadas, as cortinas puxadas, as portas pesadas e as paredes grossas do velho hotel cortavam qualquer barulho de vida fora da sala. Se ele chamasse por socorro, pensou Jack, mesmo que conseguisse evitar que o garoto o atacasse por um ou dois minutos, não havia quase probabilidade alguma de que alguém o escutasse. Em dois ou três filmes em que ele representara, havia muito tempo, passavam-se cenas como aquela — Jack, desarmado, enfrentando um homem com uma faca que queria matá-lo. Nos filmes, ele sempre escapava, dando um salto repentino sobre o punho do assassino, espertamente derrubando uma lâmpada e descontrolando o assaltante, derrubando uma mesinha com um pontapé e mergulhando a sala no escuro. Ao ver as cenas depois, no filme, a ação sempre parecia bastante razoável. Mas o que acontecesse ali, naquela noite, não estaria no filme depois, e a faca, com seus reflexos trêmulos, era de aço e não' de borracha, nem seria posta de lado com um simples gesto do diretor do estúdio. — Onde está ela? — perguntou Bresach. — Está lá dentro? — Ele fez um gesto para o quarto, duro, espasmódico, mexendo a faca. — Onde está quem? — perguntou Jack. — Não brinque comigo — continuou Bresach. — Não vim para brincarem comigo. — Sua voz era profunda, de barítono, com um timbre agradável e claro, nada feita para ameaças. — Veronica. — Não — disse Jack. — Ela não está lá dentro. — Está mentindo para mim? — Vá ver você mesmo — disse Jack, displicente. Sabia que não podia mostrar ao rapaz que estava com medo. O rapaz olhou, com incerteza, para a porta do quarto. Sua boca contorceu-se e Jack viu um músculo mexendo em seu rosto. Ele tinha um rosto magro e os ossos eram salientes, fazendo sombras triangulares em suas faces. — Está bem — concordou Bresach. E, aproximando-se de Jack: — Vá na frente. Jack hesitou por um momento. Ali, na sala, onde só havia espaço vazio entre os dois, ele estava à

mercê da faca. No quarto, com um pouco de sorte, podia pôr a cama entre ambos, aproximar-se inocentemente de uma lâmpada, talvez até apanhar a pesada mala de couro que estava lá, para usar como escudo ou arma. Virou-se e foi depressa para o quarto, Bresach logo atrás. Só a lâmpada de cabeceira estava acesa, e o quarto em penumbra, a sombra apenas cortada pela luz branca do banheiro, que entrava pela porta semiaberta. Logo que Jack entrou no quarto, viu uma diagonal do v vermelho que Veronica tinha rabiscado no espelho sobre a pia. Jack afastou-se da porta do banheiro, em direção ao imenso armário que ocupava um dos lados do quarto. Bresach seguiu-o de perto. — Pare de andar — ordenou Bresach. Jack parou. Não tinha a cama entre Bresach e ele, mas a mala pesada de couro estava agora a apenas alguns passos e, se Bresach o atacasse, havia uma chance de poder agarrar a mala a tempo. Bresach estava de pé junto da grande cama de casal, agora arrumada para a noite, com os cobertores e o lençol dobrados em triângulo aos pés. Havia dois travesseiros, lado a lado, bem estofadinhos. — Então foi aqui que aconteceu — disse Bresach, tocando a cama com o joelho. Oscilava um pouco e sua cabeça pendia ligeiramente de um lado para outro, enquanto falava. Pela primeira vez Jack percebeu que ele tinha bebido. — Teve uma tarde agradável, Mr. Andrus? — perguntou asperamente, sua boca se torcendo para um lado e para baixo, outra vez no que parecia ser um trejeito natural e desfigurante. — Trepa bem, não, a nossa Veroniquinha? — Com um gesto repentino, ele virou as cobertas com a faca. — Aqui mesmo, nessa cama — repetiu. — Nessa cama. — Seus olhos se encheram de lágrimas, e estas, em vez de tranquilizarem Jack, faziam o rapaz parecer ainda mais perigoso do que antes. — Nada mau para um homem ver em sua cama, hem? Veronica com as pernas abertas. — Pare com isso — interrompeu-o Jack, mas sem esperança de que suas palavras 'tivessem qualquer efeito sobre o rapaz em lágrimas. — De que adianta falar assim? — Adianta muita coisa — disse Bresach. Agora ele estava brandindo a faca a esmo, num gesto duro e oratório. — Quero ter a cena, entende? A cena exata. Estou interessado na moça e quero saber exatamente o que lhe está acontecendo. Quando você meteu nela, ela murmurou “oh, Deus”? Hein? Estou sendo um canalha quando lhe digo que ela sempre faz isso comigo? — Deu um sorriso espasmódico, chorando. — É sua severa educação católica. Santificando a união. — O sorriso, as lágrimas transformaram-se num riso torturado. — Ela disse “oh, Deus”? — Não vou conversar com você enquanto você não largar o raio dessa faca — falou Jack com firmeza. — Largo a faca quando eu bem entender. — Bresach tomou a brandi-la, feito doido. — E já sei onde vou enterrá-la. — Abaixou-se e passou a mão esquerda pelo lençol, acariciando-o. — Bem aqui — murmurou. — Bem aqui. — Levantou a cabeça, fixando os olhos azuis em Jack. — Ela pôs a língua no seu ouvido quando você estava trepando com ela? Sabe a palavra para trepar em italiano? Onde está ela? — Pouco a pouco, ele já estava aos gritos. — Ela me deixou, onde está agora? Aproximou-se mais de Jack, o rosto bonito e ossudo coberto de lágrimas. Jack deu meio passo atrás e pôs a mão na alça da mala de couro, preparado para agarrá-la e atirá-la. — Você deve ter sido um bocado bom hoje à tarde aqui — disse Bresach. — Deve ter sido uma maravilha, mesmo, pois ela não pôde nem esperar para se vestir e ir a casa e começar a arrumar as malas para me deixar. Não podia esperar... — ele cochichava. — O que é que você é, seu filho da mãe, um touro, um garanhão? Conhece uma garota no almoço, dá uma trepada com ela, porque tem uma hora livre numa tarde, e isso muda toda a vida dela. Amor, diz ela, amor, amor. O que é que você tem aí? — A faca de repente desceu abaixo do nível do cinto e Jack sentiu seus testículos se comprimirem em espasmos elétricos, apertados. — Deve ser uma maravilha, o raio da oitava maravilha do mundo. Abra as calças; quero vê-lo, quero prestar minhas homenagens à oitava maravilha do mundo. — Bresach agora estava ofegante e seus lábios se entreabriam num esgar animalesco, seu braço todo tremia e ele ficava abrindo e fechando a mão convulsivamente, de modo que a faca se movia como doida.

Jack apertou mais a alça da mala. Ficou com o braço direito dobrado diante do corpo, protegendo-se, e os olhos fixos na faca. Se o rapaz se movimentasse, ele ia lançar-se contra ele, atirando a mala e procurando o punho da faca com a mão direita. — Escute — disse Jack, tranquilizando-o. — Você está muito perturbado agora, não sabe o que está fazendo. Use um pouco de tempo para pensar a respeito e depois... — Onde está ela? Onde você a escondeu? — Bresach olhou em volta como um alucinado. Com um movimento violento, abriu a porta do grande armário, como se tivesse a súbita convicção de que a moça estivesse escondida ali. Os ternos de Jack estavam pendurados em seus cabides. — Vamos, Andrus — disse Bresach, implorando. — Diga-me onde ela está. Tenho de saber onde ela está. — Não sei onde ela está — respondeu Jack. — E, mesmo que soubesse, não lhe diria. Não enquanto você estiver agitando essa faca na minha frente. — Não adianta falar com você — falou Bresach, com a voz arrastada. Tirou os óculos e enxugou os olhos úmidos na manga do casaco. A fazenda dura fez um barulho áspero em sua testa. — Nem sei por que me incomodei tanto tempo. Para que é que eu vou perder mais tempo? Devia tê-lo espetado no momento em que entrei pela porta. Em todo caso, nunca é tarde demais. Nunca é tarde para uma boa ação. “Lá vem”, pensou Jack. Sua mão na alça da mala estava escorregadia, devido à transpiração. Esperou, tenso, que o rapaz agisse. Aí, o telefone tocou. Ficaram ambos parados, imóveis, o barulho gelando-os. O telefone tornou a tocar. O rapaz olhou para ele, inseguro. “Não tem prática de assassinatos”, pensou Jack, sem nexo. “Como eu. Somos dois novatos. Isso não é coisa para amadores.” — Atenda — ordenou Bresach, finalmente, a voz trêmula. — Provavelmente é ela. Diga-lhe que suba. Atenda! Jack foi para a mesa de cabeceira, passando por Bresach. Pegou o fone, segurando-o junto do ouvido, para que Bresach não pudesse ouvir a voz do outro lado. — Alô — disse Jack. Surpreendeu-se com a calma de sua voz. — Delaney — respondeu a voz de Maurice. — Onde é que você se meteu a noite toda? Eu pensava que você vinha ao coquetel. — Não pude ir — falou Jack, sentindo os olhos do rapaz examinando-o desconfiados. — Sinto muito. — É ela? — cochichou Bresach. Jack hesitou. Depois, fez que sim. — Diga que suba. Já, já — cochichou Bresach. — Escute — dizia Delaney. — Há comigo umas pessoas que eu queria que você conhecesse. Estamos aqui no saguão. Você tem aí alguma coisa para beber? — Claro — disse Jack. — Suba... — olhou para Bresach — querida. — O quê? O que foi que você disse? — perguntou Delaney irritado, e Jack teve medo de que a voz alta pudesse ser ouvida no quarto, apesar de estar apertando o aparelho contra o ouvido. — Eu disse para você subir. Lembra-se do número do quarto? — perguntou Jack, com voz clara. — Meia, cinco, quatro. — Desligou e virou-se para enfrentar Bresach. — Agora — disse ele calmamente, parecendo muito mais confiante do que se sentia. — Agora, talvez possamos resolver isto como seres humanos razoáveis. — Passou por Bresach, que estava vacilante junto da cama, a faca pendendo frouxa de sua mão, e foi calmamente para o salão. Bresach deu um salto atrás dele e correu para a porta que dava para o corredor, bloqueando-a. — Nada de truques — gritou ele. — Cale a boca — falou Jack, fatigado. Sentou-se na poltrona junto da qual estavam seus sapatos. Calçou-os devagar, com dificuldade, porque os sapatos eram justos e ele não tinha uma calçadeira. O

calcanhar do sapato direito se dobrava e ele levou quase um minuto, chegando a esfolar o dedo, até conseguir calçar o sapato. Amarrou os cordões bem apertados e esticou-se na poltrona, olhando para os sapatos, que eram pesados, com solas grossas, e que mais tarde poderiam revelar-se úteis. Um pontapé bem dado com aqueles sapatos grossos poderia tirar o espírito de briga de qualquer homem. — Beba alguma coisa — disse Jack, displicentemente, indicando uma mesa junto da janela onde havia uma garrafa de uísque escocês e uma de bourbon. — Pode fazer bem aos seus nervos. — Não se preocupe com os meus nervos — resmungou Bresach, parecendo um estudante briguento e inseguro. — Não há nada de errado com os meus nervos. — Você está maluco — continuou Jack. — Sabe, se andar por aí procedendo assim, vão pegar você, levá-lo e trancafiá-lo como louco. Até mesmo na Itália — Jack começava, surpreendentemente, a divertir-se —, mesmo na Itália, há limites. O rapaz suspirou. Parecia cansado e esgotado. O casaco duro parecia grande demais para ele, como se fosse feito para um homem maior. — Ah, Cristo! — murmurou ele. — Ah, Cristo! — Olhou para a faca em sua mão, vacilando. Depois fechou-a devagar e guardou-a no bolso. — Devolva. Por favor, devolva. Bateram à porta e, antes que qualquer dos dois se pudesse mexer, a porta se abriu e Delaney entrou no quarto com duas mulheres de casacos de peles e três homens. Um dos homens estava com um chapéu cinza com uma fita marrom estreita. — Vista seu paletó — ordenou Delaney. — No elevador, as moças resolveram que querem ir dançar. — Ele parou e olhou para Bresach. Bresach estava olhando para o grupo, as mãos afastadas do corpo, os dedos abertos, como se prevenindo contra a possibilidade . de que o atacassem em massa. Sua boca estava contorcendo-se de novo e ele tinha um ar desapontado e lamentável. Ficou olhando como míope para o corredor, por cima dos ombros das mulheres, como se houvesse algum engano, e mais uma visita, a que ele esperava, estivesse naquele momento entrando pela porta. Delaney continuava a olhar, curioso, para Bresach, quando Jack se levantou e sorriu para o grupo. — Escute, Jack — continuou Delaney, ainda olhando para Bresach. — Você me chamou de querida pelo telefone? — Sim, acho que sim. No momento, eu me estava sentindo muito afetuoso para com você. Bresach torceu a cabeça com amargura em direção a Jack. — Seu filho da mãe — murmurou ele. Depois mergulhou para a porta, através dos visons. Jack ouviu o som de seus passos sumindo, enquanto ele corria pelo corredor. — Eh, quem é esse aí? — perguntou Delaney. — Um velho amigo — respondeu Jack. — Volto já. Só quero me arrumar um pouco. As garrafas estão aí. — Ele indicou a mesa junto da janela e foi para o quarto, fechando a porta atrás de si, deixando suas visitas debaixo do candelabro da sala. Foi para o banheiro e olhou para sua cara no espelho. Tinha a testa coberta de gotas de suor e as faces estavam repuxadas de fadiga, como se tivesse acabado de correr mais de um quilômetro morro acima. As mãos lhe tremiam quando abriu as torneiras da pia e molhou o rosto e os cabelos com água gelada, repetidamente, tossindo nas mãos molhadas com espasmos nervosos. Enxugou-se bem esfregando o rosto para ficar corado. Em seguida, penteou-se com esmero, arrumou a gravata, o rosto enquadrado no espelho pelos dois lados do v de batom. No quarto, vestiu o paletó, ouvindo o som do riso das mulheres na sala ao lado. Antes de dirigir-se para lá, puxou as cobertas da cama, reparando que Bresach tinha rasgado os lençóis com a faca. “Isso vai ser uma coisa para a velhinha decifrar amanhã de manhã”, pensou Jack, “quando vier arrumar o quarto: procurar punhais americanos escondidos.” Catullo permanecia ali aberto, virado na cômoda. “Veja aonde vão os jovens. . Ele foi para a sala para ser apresentado a seus convidados.

9 A boate era escura e decorada como um palácio do Renascimento, com tapeçarias nas paredes. Velas em castiçais dourados iluminavam suavemente as mesas cheias. Ficava no andar superior de um prédio do século XVI, perto do Tibre. No térreo, havia um barzinho com um pianista negro. No segundo andar, um restaurante, com um trio de cordas. No andar de cima, outro bar pelo qual era preciso passar para se chegar à boate propriamente dita. Nesse bar, Jack reconheceu alguns dos rapazes de cabelos lustrosos que ele vira duas noites seguidas no bar de seu hotel. Ainda estavam assim tarde da noite, incansáveis, jovens, ávidos, corruptos, um fio contínuo de cor na noite romana. Jack sentou-se na mesa do canto, nas sombras, escutando a música da orquestra, já no seu terceiro uísque e feliz por isso, sentindo-se agradavelmente distante das pessoas em volta dele. Uma das mulheres de vison era Barzelli, a estrela do filme que Delaney estava dirigindo. Ela estava junto de Delaney na outra ponta da mesa, bebendo champanhe. Suave e metodicamente alisava-lhe a coxa, debaixo da mesa, com uma expressão de tédio, vazia, em seu rosto moreno, nobre e lindo, como se depois do expediente ela não se pudesse dar ao trabalho de falar ou entender inglês. Ao lado dela, a outra mulher de visom, uma loura magra de seus quarenta e cinco anos, de cabelos tintos e um vestido juvenil, de rendas, também bebia champanhe. O nome dela era Mrs. Holt, e estava um pouco embriagada. De vez em quando, olhando para os dançarinos que ondulavam, num vaivém, sob as faixas de luz âmbar de pequenos refletores artisticamente ocultos na sala, Mrs. Holt enxugava uma lágrima com um imenso lenço de renda. Defronte dela, estava Tucino, o produtor do filme. Era um homenzinho de olhar napolitano, que teria sido suficientemente bem-parecido para poder ser herói de seus próprios filmes se fosse dez centímetros mais alto. No seu inglês rápido e rude, inclinado sobre a mesa, falava violentamente com Delaney, sem ligar para o que se passava debaixo dela. Na ponta da mesa, onde se encontrava Jack, havia outro italiano, de nome Tasseti, homem atarracado e quadrado, com uma cara de gangster triste. Era o guarda-costas, ou assistente, ou primeiroministro de Tucino; de vez em quando, virava-se na cadeira e examinava a sala com um olhar líquido e perigoso, à espreita de possíveis assassinos, credores ou candidatos a papéis, indesejáveis, entre os clientes sombrios da boate. Não falava inglês e ficava ali pacientemente, não se aborrecendo, de vez em quando dizendo algumas palavras a Jack num francês primitivo, sicilianizado. Finalmente, o outro homem era o que estava de chapéu de abas largas. Era marido de Mrs. Holt, americano de Oklahoma, e de vez em quando dizia, nos tons mais simpáticos do mundo: “Rapaz, não há nada igual à Itália.” Quando via a mulher enxugando as estranhas lágrimas, abria-se num sorriso largo e amoroso para ela, levantava a mão até os olhos e fazia-lhe um sinal alegre com os dedos. Tinha seus cinquenta anos, era enrugado, crestado e magro, como um capataz veterano numa fazenda da região das secas. Nos intervalos entre os “rapaz, não há nada igual à Itália”, ele contou a Jack que tinha investido no filme de Delaney e estava pensando em fundar uma companhia para fazer mais três filmes na Europa com Delaney e Tucino. Parece que Mr. Holt possuía uma companhia de petróleo e tinha parte de poços no Texas e nas margens do golfo Pérsico, bem como em Oklahoma. Ele falava devagar, com uma cortesia quase encabulada de garoto de fazenda, e sempre que o nível do copo de Jack ou de Tasseti baixava um pouco, ele insistia em lhes servir mais uísque da garrafa que o garçom deixara para eles na mesa. Normalmente, Jack teria fugido de um grupo desses, com sua mistura de sexo, investimento, intrigas e bebida. Mas agora, depois do que lhe tinha acontecido naquela noite, sorrindo automaticamente uma vez por minuto para Mr. Holt, dizendo “Oui, vous avez raison” ou “Oui, c’est exacte” a Tasseti, admirando a beleza etrusca de Barzelli sem ter necessidade de falar com ela, vagamente empolgado

diante das belas mulheres de vestidos vaporosos que esvoaçavam sombriamente pela pista de dança, a combinação das pessoas, o lugar, a hora, eram relaxantes, tranquilizadores. Ali não havia rapazes chorosos e vingativos, nem camas a serem rasgadas com facas. No seu terceiro uísque, na melodiosa noite renascentista, Jack teria ficado contente de ficar ali, como espectador distante e intocado, até que a aurora atingisse as vidraças. Se alguma coisa lhe despertava compaixão, agora, era apenas Clara, a esposa de Delaney, sozinha num quarto barroco alugado, seus direitos sobre Delaney sendo habilmente acariciados até ao esquecimento pela mão de camponesa famosa, experiente, na perna do marido dela. Tinha sido intenção de Jack, ao ouvir a voz de Delaney no telefone do hotel, solicitar o auxílio dele para lidar com Bresach. Delaney era especialista em escândalos, como todos os homens que já tinham tido poder em Hollywood, e seria útil como conselheiro. Mas agora, embalado pela música e pelo álcool, Jack resolveu que trataria daquilo sozinho. Bresach tornava-se meio vago, improvável, uma aparição grotesca e transitória, um vulto da noite que, chorando e com uma arma ridícula, desaparecia tão repentinamente quanto aparecera. Era impossível a Jack acreditar, no calor do uísque e da música cubana, que havia apenas uma hora a sua vida tinha corrido perigo. A manhã resolveria tudo. Era provável, pensou ele, que Veronica se arrependesse de seu ímpeto e, levando suas malas de volta ao apartamento em que morava com o rapaz, pedisse perdão e, assim, terminasse tudo. No momento, Jack meditava naquilo sem emoção. “Não tenho mais vinte e cinco anos”, pensou ele, “não morro de inveja. Nem de mim nem dos outros.” — Não fiz isso sem ser aconselhado, sabe? — dizia Holt. — Não sou como certas pessoas. Não pago um advogado caríssimo de Nova York, cem mil dólares por ano, para depois lhe dizer que vou pensar. Quando pago a um homem, eu lhe dou ouvidos. E ele me mostrou, preto no branco, que eu podia investir meio milhão por ano, por cinco anos, e, mesmo que eu perdesse tudo, ainda saía ganhando. Há uma coisa sobre o Governo: pagam a um pobre-diabo dez mil dólares por ano para arranjar um meio de nos tirar o dinheiro, sem pensar que estamos pagando cem mil a algum sujeito para salvá-lo de nós. Ora, é lógico, quem há de se sair melhor, um cérebro de dez mil por ano ou um de cem mil? — Claro — concordou Jack, pensando: “Estou pagando muito caro por este uísque.” — Você quer morar na Europa com sua mulher, diz esse cara — continuou Holt, em seu sotaque chão e agradável de Oklahoma. — O negócio é descobrir um meio de viver na Europa que não lhe custe um centavo sequer. É lógico, não é? — Claro — concordou Jack. — Naturalmente, eu e a Mamãe não queremos morar aqui o ano inteiro. Seis, sete meses, no tempo bom, é claro. Bom, a coisa mais importante nesses dias é viver de maneira a deduzir do imposto de renda. Legalmente e dedutivelmente. Alimentação, bebida, viagens, empregados, diversões, tudo à custa do velho Tio Sam. Ora, diga, o que é mais legal do que fazer filmes em Roma com um produtor cinematográfico italiano até os ossos, como Mr. Tucino aqui? Homem brilhante, Mr. Tucino. — Holt sorriu, reluzindo num esplendor de dentes postiços impecáveis, por trás da cabeça de Mr. Tucino, satisfeito por Tucino lhe permitir ter uma opinião tão boa a respeito dele. — Sabe que em 1945 ele vendia os excedentes do Exército americano, em uma carroça de burro, nas ruas de Nápoles? — Não, não sabia disso — disse Jack. — Sapatos, cobertores, louça de cantina, rações e,um ferro-velho, para dizer a verdade. Mas um ferro-velho de visão. Gosto de homens de visão — falou Holt, no tom solene de um presidente de conselho numa assembleia anual. — Gosto de homens de iniciativa, que se fizeram por si. Posso olhar dentro dos olhos deles e eles podem me olhar nos olhos. De qualquer raça, Mr. Andrus, de qualquer raça. Ele é italiano, mas veja o que fez de sua vida. Não é como esses condes degenerados que a gente encontra por aqui. — Holt olhou para a pista de dança friamente, seus lábios apertados puritanamente, à americana, demonstrando que desconfiava de que ali houvesse uma alta percentagem de condes degenerados.

— Isto é que é bom no negócio de cinema, rapaz — continuou Mr. Holt, alegremente. — O tipo de gente interessante que a gente conhece. — Sem dúvida — concordou Jack. — O tipo é interessante. — Mr. Delaney, por exemplo. Onde se poderia conhecer um homem tão interessante quanto Mr. Delaney? — Holt premiou Delaney com um sorriso, como já premiara Tucino. Delaney estava sentado, conversando com Tucino, inconsciente da onda de aprovação dirigida a ele da outra ponta da mesa, sua coxa sob a mão macia, cheia de anéis, de sua estrela. Jack também olhou para Delaney, mas com menos aprovação. Dez anos antes, Delaney não estaria sentado ali, nesciamente satisfeito com aquela carícia secreta e calculada. Dez anos antes, ele teria agarrado a mão, zangado, e posto essa mão em cima da mesa para todos verem e teria dito à mulher para deixar de fazer papel de boba em público. — E aquela moça linda — continuou Holt, indicando Barzelli com um gesto reverente da cabeça. — A gente vê as estrelas de cinema na tela e nunca poderia supor que fossem gente simples e bondosa como ela. E agradecidas. — Holt bateu na mesa com os dedos, para frisar o que dizia. Como a maioria dos homens que têm muitos favores a distribuir, ele colocava a gratidão bem alto na lista das virtudes. — Ora, é quase patética a maneira como aquela moça é grata a Mr. Delaney. Ela me disse, confidencialmente, que ele é o único diretor que a compreendeu. Disse-me que representaria nos seus três próximos filmes de graça, só pelo prazer de poder trabalhar com ele. “Sem dúvida”, pensou Jack, olhando para o rosto entediado e lânguido de Barzelli. “De graça. Pelo menos até que o empresário dela chegue com o contrato.” — Mamãe a adora — prosseguiu Holt. — Como é? — perguntou Jack, achando que tinha perdido a ligação. — Desculpe. — Mamãe — repetiu Holt. — Mrs. Holt. — Ah! — disse Jack, esperando sair do assunto cinema para outro. — Vocês têm filhos? — Não — disse Holt, suspirando. Mrs. Holt estava enxugando os olhos de novo, ao mesmo tempo que tomava sua sexta taça de champanhe. Holt apertou os lábios num arrulho e remexeu os dedos para ela, como uma babá distraindo um bebê num carrinho. — Não — repetiu ele. — Não temos filhos. Isto é uma maravilha para ela. Quero dizer, morar aqui em Roma. Vai aos museus todos os dias. Não há uma igreja que ela não tenha visitado. Ela é católica, mas além disso é artista. Era professora de piano em Tulsa, quando me casei com ela. Lá em casa temos dois pianos de cauda. Aqui moramos num palazzo, mas o piano está quebrado. Os alemães o ocuparam durante a guerra. “Talvez”, pensou Jack, “eu deva me levantai daqui e voltar ao hotel e chamar Bresach outra vez. A conversa estava mais divertida, com faca ou sem faca.” * — Mamãe tem muita vontade de que eu funde uma companhia com Mr. Tucino e Mr. Delaney. Um contrato para três filmes — disse Holt, saboreando a linguagem desse mundo mágico. — Além de viver no estrangeiro, num palazzo, deduzindo do imposto de renda, ela tem um irmão... bem, sabe como são os irmãos, às vezes. — Ele sorriu, como se desculpando. — Mais moço, sabe, não é mau rapaz, mas nunca encontrou o lugar ideal para seu talento. Ficou comigo uns dois anos, mas afinal os meus sócios deram o basta. O que vamos fazer com ele aqui é torná-lo produtor assistente, quer dizer, o camarada que... Ele me custa vinte, vinte e cinco mil por ano agora, dinheiro batido, depois dos impostos. Mas se for produtor assistente pode ganhar cinquenta mil por ano e isso não me custará um tostão. E Mamãe vai ficar muito feliz — concluiu Holt com brandura. Jack teve uma nova e súbita visão de Holt: a do minerador rude, eficiente, trabalhador, perfurador, jogador, patrão, chegando a casa de volta do escritório em Oklahoma City, onde se travavam lutas gigantescas e impérios tremiam e mudavam de mãos em cada dia de trabalho, para encontrar sua mulher frágil e dipsomaníaca batucando num dos dois pianos de cauda, com uma garrafa de uísque no chão a seu lado e o irmão vagabundo com mais uma história de má sorte, e mais um pedido para mais dez mil dólares (“os últimos, eu juro...”). E o beijo delicado e afetuoso, o livro de cheques absolvente, de

sacrifício, deixando toda a dureza e resolução à porta, a assinatura no cheque e uma declaração de amor perene e repetida pela mulher triste, destruída e perdida que ele desposou. Jack esqueceu-se de todas as futilidades que fora forçado a escutar até ali e sorriu com compaixão para Holt, vendo o rosto enrugado do fazendeiro, a careca incipiente, os olhos confusos e simpáticos. Uma expressão curiosa, refletida, passou por um momento pela fisionomia de Holt, como se ele tivesse percebido a mudança em Jack. Inesperadamente, deu um tapinha nas costas da mão de Jack, num gestozinho rápido de compreensão. “Não devo subestimá-lo”, pensou Jack, “existe um homem hábil e sensível por trás da cara do capataz de fazenda, por trás das banalidades. Ele não chegou ao golfo Pérsico sendo idiota.” — Quero exprimir aqui, neste momento, como nós todos lhe somos gratos por ter concordado em vir aqui para nos ajudar assim, Mr. Andrus, em nossa triste situação com Mr. Stiles — disse Holt, com solenidade. — Foi uma surpresa agradável para mim — disse Jack, com sinceridade. — Mr. Delaney me contou tudo a seu respeito — continuou Holt -—, e estou muito satisfeito por ter esta oportunidade de lhe dizer pessoalmente o que penso. Sei que o senhor está trabalhando para o Governo, em Paris. — Para a nato — corrigiu Jack. — É a mesma coisa — afirmou Holt, pondo de lado todas as distinçõezinhas mesquinhas de funções e organização entre as pessoas que eram pagas pelos cofres públicos. Ele riu, os dentes postiços reluzindo. — Espero que não ache ser seu dever relatar tudo o que eu disse aqui hoje sobre impostos etc. — Suas opiniões sobre os impostos, Mr. Holt, vão para o túmulo comigo. Holt riu espontaneamente. — Quem me dera ter mais gente como você no governo, com o seu senso de humor, Jack. — Ele apertou os olhos, inseguro, para Jack. — Não tem importância se o chamar de Jack? Sabe, lá em Oklahoma, no negócio do petróleo... — Claro — concordou Jack. — E todos me chamam Sam — continuou Holt, quase com timidez, como se estivesse pedindo um favor. — Claro, Sam. — Ecco! — disse Tasseti, franzindo a cara para a pista de dança. — La plus grande putain de Roma. La Principessa. — Ele franziu a boca, como se fosse cuspir. Jack olhou para a pista. Uma moça de vinte anos, com um rabo de cavalo louro esvoaçando nos ombros nus e vestido branco, puro, estava dançando com um homenzinho baixo e gordo de seus trinta anos. — O que foi que ele disse? — perguntou Holt. — O que disse o italiano? — Ele disse: “Lá está a maior puta de Roma” — traduziu Jack. — “A Princesa.” — É mesmo? — falou Holt, sem expressão. Educadamente, esperou um momento antes de se virar e, depois, olhando rapidamente para a moça, comentou: — Ela tem uma aparência muito boa. Uma bela moça. — Elle fait tutto — disse Tasseti. — Elle couche avec son fratello. — O que foi que ele disse agora? — perguntou Holt. Jack hesitou. “Bom, Sam”, pensou ele, “você agora está em Roma, aprenda o que dizem os nativos.” — Disse que ela faz de Judo — respondeu Jack, sem expressão. — Dorme com o irmão. Holt ficou completamente parado. Um rubor lento foi subindo pelo seu colarinho e incendiou o rosto e a testa.

— Não acho que as pessoas devam falar essas coisas dos outros — comentou ele, engolindo em seco. — Estou certo de que é apenas mais um desses fuxicos sem base alguma. — Olhou preocupado para a ponta da mesa, em direção à mulher. — Ainda bem que Mamãe não ouviu isso. Teria estragado a noite dela. Com licença, Jack. — Levantou-se, deu a volta à mesa e puxou uma cadeira de outra mesa, sentando-se protetoramente junto a Mrs. Holt, sorrindo para ela e pegando-lhe a mão. Um instante depois, quando a Princesa e seu par deixaram a pista, Holt levou a mulher para o meio da sala e começaram a dançar. Dançavam muito bem, observou Jack, com surpresa; Holt, reto e leve, fazia os movimentos complexos de uma rumba com uma experiente eficiência. “Ele deve ter levado horas tomando aulas”, pensou Jack. “Tudo para afastá-la da garrafa.” — Ecco! — disse Tasseti pesadamente, mostrando um homem de cabelos brancos e cara de cardeal que estava dançando com uma garota de vestido vermelho. — Le plus grand voleur de Roma. Ouviram-se as gargalhadas de Delaney e Barzelli na outra ponta da mesa, onde Tucino tinha acabado de contar uma história. Tucino sentou-se para trás sorrindo. Delaney falou: — Venha para cá, Jack, e escute esta. — Jack levantou-se, feliz por poder escapar de Tasseti e seus sombrios juízos sicilianos sobre a clientela da boate. Delaney puxou uma cadeira para Jack no canto da mesa e disse: — Marco estava contando a respeito do pai dele. Conte a Andrus a história do seu pai, Marco. — Allora... — disse Tucino, sorrindo feliz, esperto e cheio de energia como um colegial, usando as mãos, falando em seu inglês fluente de vaudeville italiano. — Allora, meu pai, o nome dele é Sebastiano. Ele tem setenta e três ou setenta e seis anos, cabelos brancos como a neve, anda reto como um rifle, toda a vida perseguiu as garotas, é louco por garotas, vem do sul, entende, deixou louca minha mãe durante cinquenta anos. No seu último aniversário, ela disse a ele: “Este ano, Sebastiano, eu acho que desisto de você de vez, não aguento mais as suas mulheres, um homem de sua idade.” Fez ele jurar na frente do padre, antes de darmos presentes a ele: não mais garotas. Eu dei a ele uma Fiat e uma câmera Leica pelo aniversário. Ele foi a São Pedro e tirou vários retratos. Mas, claro, ele nunca desistiu das garotas. Vem ao estúdio me visitar em meu escritório todas as tardes, toma um café comigo, me mostra os retratos de São Pedro. É uma tradição, um hábito, às cinco horas, depois da siesta. Todo dia os trabalhadores do estúdio veem ele entrar pelo portão. Vem pelo portão, todo dia; ele sabe que eles o vigiam, e levanta um dedo, assim, pra cima. — Tucino levantou o braço acima da cabeça com o indicador da mão direita apontado paia, o teto. — Sabem o que quer dizer? Não? Mas os trabalhadores sabem, e eles riem todos os dias. Diariamente, eu escuto o riso lá embaixo de meu escritório junto do portão e sei que daí a dois minutos meu pai vai entrar pela porta de meu escritório. Sabem o que quer dizer? Quer dizer que meu pai teve uma garota uma vez. Os trabalhadores o adoram, riem com ele, dizem: “O velho Sebastiano é um homem vivo, vai viver até os cem anos.” Aí, um dia... — Tucino curvou-se dramaticamente em sua cadeira, os ombros caídos, os olhos baços, a senilidade encarnada, morte à porta. — Um dia, papai chega à minha porta, mas sem aviso, sem riso nos portões antes. Ele aparece cinzento, como se vem do enterro do melhor amigo, o amigo que vai direto para o inferno. Tomamos café como sempre. Ele não me mostra foto alguma. Sai andando devagar. Depois, passa um, dois meses, e meu pai vem cada tarde, andando devagar, sem riso no portão, os trabalhadores agora olham para ele tristes, dizem “Pobre Sebastiano, ele não vive até os cem, sorte se chegar à primavera”. Vejo minha mamma, ela parece dez, vinte anos mais moça. Engorda, ri como moça, compra três chapéus novos com flores, começa a jogar bridge. Tenho pena do papà, não está mais reto como um rifle, quase não usa a Fiat, me faz pensar, “Ah, é triste ver o papà chegar ao inverno”. Eu procuro fazer ele ir ao médico, mas ele me diz: “Cale essa boca suja. Não preciso de criança para me dizer como viver minha vida.” É a primeira vez em minha vida que meu pai fala mal comigo. Eu calo a boca. Fico triste e calo a boca. Aí hoje, esta tarde, às cinco horas, escuto a maior gargalhada no portão, aplausos, como herói de guerra voltando. Olho pela janela. Meu pai entrando pelo portão, reto como rifle, cabelos pretos eriçados, sorriso no rosto de orelha a orelha, mão levantada. Está fazendo o V. — Tucino sorriu com ternura. — Dois dedos para

cima hoje. Delaney riu e Jack riu também. “Afinal de contas”, pensou, “o pai não é meu.” Mas Barzelli, apesar de ter acabado de ouvir a história, recostou-se na cadeira e deu uma gargalhada rude e prolongada, de camponesa, vulgar, robusta, surpreendente e quase masculina, saindo daquela garganta esguia e daquela boca perfeita e feminina. Arrogante, italiana, linda, segura de si, estava no másculo mundo mediterrâneo, participando de seus triunfos. A velha com seus três chapéus novos e suas tardes de bridge e seus juramentos forçados nada tinha a ver com ela. Jack olhou para o relógio e levantou-se. — Acho melhor ir andando, se vamos começar a trabalhar às sete e meia da manhã — disse ele. Delaney fez um gesto displicente: — Não há pressa, Jack. Para o diabo com a manhã. Começaremos às dez. — Mesmo assim — falou Jack. Ele observou a contraçãozinha fria nos olhos de Tucino diante do adiamento displicente de Delaney. Os olhos do produtor, imediatamente velados, anunciavam que era o tempo dele, o dinheiro dele que Delaney estava gastando, e, se as coisas andassem mal entre eles no futuro, Tucino pegaria aquilo para usar como alavanca na discussão. Jack apertou a mão de Barzelli, que olhou para ele sem interesse. Ele não era produtor, nem diretor, não lhe podia dar mais close-ups nem um contrato melhor, e ela percebera desde o primeiro cumprimento no quarto do hotel que ele não iria cortejá-la. Dificilmente ela se lembraria do nome dele. Foi até a outra ponta da mesa para se despedir de Tasseti. Este estava virado em sua cadeira, olhando com desprezo por cima dos dançarinos para um grupo de homens e mulheres do outro lado da sala. Quando apertou a mão de Jack, disse asperamente, indicando o anfitrião da mesa distante: — Ecco, le plus grand pédéraste de Roma. Jack sorriu, pensando: “Três por três, todos os pecados em ordem romana, prostituição, roubo e perversão, num arranjo preciso. Tasseti teve um dia perfeito, como deve estar feliz!” Jack deu a volta à pista de dança, acenando adeus para os Holt, que agora estavam dançando grudadinhos ao som de On the Street Where You Live. Eles pararam de dançar e foram até Jack. — Jack, será que pode me dar um minuto? — pediu Holt. — Eu gostaria de falar com você. — Claro — concordou Jack. — Boa noite, Jack — disse Mrs. Holt, a voz frágil e ensopada em álcool. Sorriu nebulosamente para ele. — Sam esteve me dizendo como ele gostou ’ de você, como você é compreensivo. — Ora, obrigado, Mrs. Holt — agradeceu Jack. — Bertha — disse Mrs. Holt, em tom de súplica. — Por favor, tenha a bondade de me chamar de Bertha. — Fez uma sombra de uma careta faceira. — “Mrs. Holt” me faz sentir tão velha... — Claro — disse Jack. — Mmm... Bertha. — Arrivederci, Jack — disse ela, e flutuou no braço de Holt para a mesa, onde o marido a depositou numa cadeira, como um tesouro recém-escavado, fragilizado pela erosão dos anos. Em seguida, Holt voltou para junto de Jack, lépido, com a respiração normal, mesmo depois de toda a dança. — Vou acompanhá-lo até a porta — disse Holt, formalmente. — Se me permite. Quando saíram da sala, Jack olhou para trás, justamente a tempo de ver Barzelli meter a mão novamente debaixo da mesa. Jack e Holt desceram, passando pelo restaurante fechado no segundo andar, pelo quadro de um nu no patamar, até o nível da rua, onde havia um barzinho com um pianista negro tocando suavemente para um casal americano que discutia baixinho num canto. — Vou dizer-lhe uma coisa — disse Holt, quando Jack pegou seu sobretudo da portaria. — Estou com vontade de tomar um pouco de ar. Quer andar um pouco? — Gostaria muito — concordou Jack. Agora, que já estava a caminho do hotel, viu que não tinha pressa alguma de enfrentar os quartos vazios (ou talvez não vazios) e o problema do sono.

Eles saíram para a noite, Holt pegando o sobretudo e o chapéu de abas largas e colocando-o bem reto em sua cabeça com a calva incipiente. Lá fora, os motoristas conversavam, encolhidos em seus sobretudos, e uma mulher disforme com uma cesta de violetas esperava os namorados no escuro. Um fiacre, o cavalo cochilando sob uma manta, à luz de uma lâmpada de querosene, estava encostado na parede oposta. Jack e Holt dobraram a esquina e andaram pela margem do rio, donos da Roma adormecida. — Bertha não gosta de ir para casa antes de a orquestra parar de tocar — disse Holt, rindo, tolerante. — Você ficaria surpreendido se soubesse quantas vezes por ano eu vejo o amanhecer. — Espiou o Tibre. — Não é grande coisa como rio, é? “O Tibre tumultuoso em atrito com suas margens” — citou ele, surpreendentemente. — Sabe, acho que eu poderia nadar nele, mesmo de armadura. Acho que Shakespeare nunca chegou a olhar bem para ele. — Sorriu, encabulado com essa audaciosa reflexão literária. — Gente engraçada, esses italianos. Moram nesta cidade como a gente em qualquer outro lugar. Como se aqui jamais tivesse acontecido algo. Jack caminhou em silêncio, olhando por cima do rio para o vulto escuro do Palazzo di Giustizia, pensando em seu quarto de hotel, esperando que Holt dissesse o que tinha para dizer. Holt pigarreou, sem jeito. — Estávamos conversando lá — ele indicou o prédio atrás deles, onde ficava a boate —, a respeito de você trabalhar para o Governo. Jack não se deu ao trabalho de corrigi-lo. Ele prosseguiu:,. — O que eu quero dizer é que é provável que você conheça gente na embaixada aqui. — Algumas pessoas — disse Jack. — Estive lá uma dúzia de vezes no último mês. Tratam-me muito bem, não me entenda mal, não podiam ser mais educados e gentis, mas... — Deu de ombros. — Nunca é demais conhecer alguém que realmente esteja dentro do negócio, não é? — Não — concordou Jack, sem se comprometer, pensando qual seria a encrenca de Holt com o Departamento de Estado em que ele pudesse ser útil. — Sabe, o que estamos tentando fazer é adotar uma criança, Mamãe e eu. — Holt parecia acanhado, quase um pouco culpado, quase como se confessasse que ele e a mulher estavam planejando um crime. — Você nem imagina quantas dificuldades existem para. isso. — Adotar uma criança? — perguntou Jack. — Aqui? Holt respondeu, secamente, constrangido: — Como eu já disse antes, na boate, acho que posso dizer, honestamente, que já venci quaisquer preconceitos de raça que pudesse ter. Sendo nascido e criado em Oklahoma... — ele parou. — Quero dizer — sua voz agora era desafiadora —, o que é que há de errado com as crianças italianas? — Nada — falou Jack, depressa. — Mas não seria mais fácil adotar uma criança em sua terra? Holt tossiu, sem jeito, levou as duas mãos ao chapéu e ajeitou-o melhor no meio da cabeça. — Nós temos... humm... alguns problemas, alguns probleminhas, em nossa terra — disse por fim. — Jack, acho que posso ser franco com você. Senti isso lá na mesa. Você é um homem compreensivo. Delaney me disse que você também é pai de dois filhos... — Três — corrigiu Jack automaticamente. — Três — repetiu Holt. — Perdão. Você sabe como é. As mulheres precisam de filhos. Há algo de vazio na vida de uma mulher se ela não... Ah, que diabo, não preciso lhe dizer. Ela passa a procurar outras coisas para encher esse vazio... — A voz dele sumiu e Jack tornou a ter a visão da garrafa ao lado do piano. — E, por algum motivo, não fomos abençoados — continuou Holt. — Os médicos dizem que somos perfeitamente sadios, pessoas normais, mas não fomos abençoados. Não é tão raro quanto se pensa. A gente olha em volta e vê o mundo cheio de crianças, famintas, abandonadas — a voz dele estava dura e amarga ao contemplar a fecundidade insensível e sem merecimento dos pobres. — E nunca se tem

uma ideia de quantos lares são vazios e condenados a permanecer vazios. E, com todos os cientistas, todas as vacinas, toda a penicilina, todas as bombas de hidrogênio e foguetes para a Lua, nada há a fazer. Ah, as coisas que experimentamos ... — Holt olhou por cima do rio escuro, deslizante, com seu cheiro do campo, seu odor de lodo de inverno e de grama molhada e gelada entre as margens de concreto. — Que diabo, você é um. homem adulto — disse ele, com dureza. — Você gerou filhos, não é como se eu fosse chocá-lo. Gás nas trompas, o ritmo da fertilidade, tomar a temperatura às seis da manhã e depois tentar... — Ele parou. Parecia estar engasgado. Depois continuou em seu sotaque de Oklahoma, calmo, sem expressão, tom de conversa: — Chegamos até a tentar a inseminação artificial, num consultório médico. Nada. Pobre Bertha — desabafou ele, em sua voz vinte anos de amor e pena, levados de um continente a outro. — Você só a viu por uma ou duas horas, de modo que pode não ter notado... mas... — Hesitou um pouco, depois continuou: — Ela... bom, se se tratasse de um homem, você diria que ela era um homem dado à bebida. Um homem muito dado à bebida. — Não — disse Jack. — Não notei. — Bem, ela é uma dama, claro — continuou Holt. — Podia beber da manhã à noite sem dizer nada que não fosse correto e direito, uma palavra cruel, ou imprópria, ou que não pudesse ser pronunciada nas melhores casas, mas, não adianta querer disfarçar, Jack, está ficando pior, cada ano. Se ela tivesse uma família... um filho... — Ainda assim não entendo — falou Jack, intrigado. — Por que havia de ser difícil encontrar um bebê para adotar nos Estados Unidos? Holt respirou fundo. Deu dez passos calado. Finalmente disse: — Bertha é católica, conforme eu acho que já lhe falei. — Sim. — E eu nasci e me criei batista, e, se hoje sou alguma coisa, sou batista. Nos Estados Unidos, o pessoal que dirige os orfanatos dá muito valor a essas coisas. Quer dizer, o sistema é: católicos para famílias católicas, protestantes para famílias protestantes, até os judeus... — Ele parou, com medo de ter dito alguma coisa que não tencionava dizer. — Claro, não tenho nada contra os judeus. Nada tenho contra nenhum deles — prosseguiu, cansado. — Em princípio, estou certo de que estão com a razão. Na maior parte dos casos. Talvez se eu me convertesse ao catolicismo... Bertha nunca me pediu, claro — acrescentou ele depressa. Não pense que ela pediria alguma coisa assim. Aliás, nós nunca nem conversamos a respeito, nem por sombra. Mas, em particular, devo confessar que houve ocasiões em que fiquei tentado a chegar para Bertha e dizer: “Mamãe, leve-me para o padre mais próximo para aprender o catecismo.” Estavam passando por uma igreja, as portas de bronze medievais fechadas para a noite, a igreja fechada e escura, não preparada para responder a perguntas, nem acolher suplicantes, nem absolver pecados, até raiar o dia. Holt olhou pensativo para as portas imensas e implacáveis e o santo esculpido, numa pose de bênção, em seu nicho a um lado do portal. — São poderosos — murmurou ele. — Poderosos. — Sacudiu a cabeça, sacudindo o catolicismo romano de baixo do chapéu de uma vez por todas. — Não sou grande coisa como batista. Às vezes passo anos sem chegar perto de uma igreja, a não ser para ir a um enterro ou a um casamento. Mas não sou católico. Não posso dizer a ninguém que o seja, nem que o serei. Um homem não pode fazer isso, não é, Jack? Seja qual for o suborno. “É uma pergunta engraçada, feita em Roma”, pensou Jack, contemplando todos os deuses que tinham sido derrubados ali, repudiados, instalados, alterados, engolidos, e por que subornos. — Não, acho que não — concordou Jack, porque sabia que era isso que Holt queria ouvir. —. Não obstante, parece que de vez em quando ouço falar de gente de religiões diferentes adotando crianças... — Acontece — disse Holt. — De vez em quando. Mas não comigo.

— Por que não? — Delaney não lhe contou a meu respeito? — perguntou Holt, desconfiado. — Não. — Imagino que não seja assim tão interessante. — Holt riu asperamente. — Só para mim. É bem interessante para mim. — Ele abotoou o sobretudo, como se estivesse com frio. — Sou um delinquente, Jack — falou, sem expressão. — Estive preso. Cumpri uma pena de seis anos em Joliet, Illinois, por roubo a mão armada. — Oh, Cristo! — exclamou Jack, sem querer. — É isso. Oh, Cristo! — repetiu Holt. — Sinto muito — desculpou-se Jack. — Você nada tem que sentir. Assaltei uma loja de ferragens, quando tinha vinte anos, e tirei cento e vinte dólares da caixa. Topei então com um guarda que não estava de serviço, que estava entrando na loja para comprar um martelo e pregos, e que, em vez disso, pegou a mim. E não era a primeira vez que eu fazia uma coisa dessas — disse Holt, asperamente. — Eu já tinha dois delitos em minha ficha antes disso, e eles não sabiam nem da metade. E agora — disse ele, bruscamente — estou tentando adotar um garotinho em Livorno. Todos em casa me disseram que seria fácil. — riu, pesaroso. — Seria de supor que fosse fácil, não é? Superpopulação, lares desfeitos pela guerra, estão sempre gritando que têm um excesso de cinco milhões de habitantes, têm de emigrar. — Sacudiu a cabeça diante de sua antiga ingenuidade. — Mas, Senhor, você ficaria horrorizado, e uso a palavra propositadamente, horrorizado, se eu lhe contasse a que degradação a pessoa tem de se submeter só para dar a um bastardinho gringo uma casa com piscina e sete empregados e uma educação em Harvard. — Parou e olhou em volta, apertando os olhos, perdido na cidade adormecida. — Acho melhor eu ir voltando — disse ele. — Bertha vai ficar preocupada. — Se houver alguma coisa que eu possa fazer... — começou Jack. — Não quero tomar seu tempo — atalhou Holt. — Sei que você está aqui para fazer um trabalho importante e que é um homem ocupado. Mas se você por acaso for até a embaixada e houver um amigo seu que se dê bem com os italianos... — Ele olhou para o relógio. — Já é tarde. Talvez um dia desta semana possamos jantar juntos, você, eu e Bertha, e eu lhe direi o que já fiz, as pessoas com quem falei... — Claro — concordou Jack. — Você é um bom rapaz. Estou contente por termos tido essa conversa. Vou dizer-lhe francamente que a princípio receei não fosse gostar de você. Mas agora gosto muito de você. Muito — concluiu ele, animadamente. Virou-se e foi pela rua para a boate, o delinquente-milionário com seus seis anos em Joliet, Illinois, com sua tolerância cuidada pelos italianos, órfãos, católicos, judeus, protestantes, ferros-velhos, com seu chapéu de abas largas, seus poços de petróleo, sua vida dedutível num palazzo romano. Ereto e desamparado, passou pela igreja fechada e implacável, voltando para a mulher que seria chamada homem dado à bebida se fosse homem, e que só podia ser arrancada da garrafa (acreditava-se) por dedos de bebê. Jack ficou olhando para o vulto alto, de ombros largos, debaixo do chapelão, o civil agora comprometido com os processos de lograr o imposto sobre a renda e com a inseminação artificial, desaparecendo sob os postes de iluminação estrangeiros, ao lado do rio onde tinha certeza de poder nadar até mesmo de armadura, a despeito do testemunho da literatura. “Lá em Paris”, pensou Jack, com pesar, “eu só me preocupo com coisinhas insignificantes, como se os russos vão ou não lançar a bomba antes do fim do ano...” Olhando para Holt até ele se tornar um pontinho anônimo na perspectiva de pedras, concreto, postes de luz e árvores mortas, Jack entendeu por que Delaney tanto insistira para ele conhecer o homem do petróleo e a mulher. Delaney queria alguma coisa de Holt — o contrato de três filmes poderia

restabelecer seu prestígio e suas finanças para os próximos dez anos —, e, em troca, ele estava pronto a oferecer qualquer favor dentro de suas possibilidades. Se Jack, por intermédio de Delaney, pudesse conduzir os Holt pelos labirintos da burocracia ítalo-americana e conseguir para eles o bebê de Livorno, a gratidão de Holt seria uma coisa certa. Jack riu, pensando: “É Despière e o artigo, tudo de novo. Delaney nunca para. Ele manobra noite e dia. Talvez eu devesse pedir um aumento. Andrus, o ator-pra-toda-obra, chame em caso de emergências civis, artísticas e alcoólicas.” Aí, o riso morreu-lhe nos lábios. Delaney sempre havia manobrado, é verdade, mas em uma escala grandiosa e por prêmios altos. Quando Jack o conhecera em moço, ele nunca teria descido a essa mesquinha barganha de favores. Hoje, com toda a sua onda, Delaney estava lutando pela vida e o sabia, e procurava desesperadamente qualquer coisa que o pudesse salvar. “Bem, se é disso que ele precisa, ou pensa que precisa”, pensou Jack, “farei o possível para ajudá-lo. E, se depois ele precisar mais, farei o possível para ajudá-lo, então.” Ao mesmo tempo que compreendia tudo isso, Jack também compreendia que não era só por causa de Delaney que ele estava nessa cidade, a pedido de Delaney. Também se encontrava ali por sua própria causa. Delaney fazia parte da imagem da melhor época da vida de Jack, os anos felizes de antes da guerra, quando ele amava Delaney como um filho poderia amar um pai; um irmão, outro irmão; o soldado, o soldado que lutava a seu lado, seus destinos dependendo da coragem recíproca, de sua habilidade e resistência. Ao salvar Delaney, ele estava salvando a imagem mais pura de sua juventude. Se Delaney passasse a ser miserável e derrotado, Jack também passaria a ser miserável e derrotado. “Hei de salvá-lo”, pensou Jack, impiedosamente, “nem que isso o mate. Não sei como vou consegui-lo, mas hei de salvá-lo.” “Vão ser duas semanas cheias”, pensou ele, dirigindo-se para o hotel, passando por janelas de venezianas fechadas, igrejas trancadas, fontes brincando em praças sombrias e desertas, templos destroçados e muros em ruínas que tinham guardado os cidadãos da cidade dois mil anos antes. “Divirta-se, chéri”, lembrou-se da voz da mulher no aeroporto. Quando chegou ao hotel, hesitou do lado de fora. Dois guardas caminhavam sérios pela rua, passando pela entrada. Jack olhou para eles, especulando, pensando: “Como é que se diz, em italiano, ‘meus caros amigos, há pouco, hoje à noite, um rapaz ameaçou matar-me. Querem ter a bondade de subir comigo e espiar embaixo de minha cama?’ ” Os guardas passaram. Por um momento, Jack considerou a ideia de ir passar a noite em outro hotel, onde pudesse dormir algumas horas sem se perturbar com a ideia de que Bresach pudesse encontrá-lo. Depois, de manhã, resolveria o que fazer a respeito dele. A ideia era tentadora. Mas ele sacudiu a cabeça, irritado, aborrecido com os argumentos da covardia. Entrou no hotel e pegou a chave. Não havia recados. Quando chegou ao apartamento, entrou sem hesitar. As luzes estavam acesas, como ele as havia deixado. Ninguém na sala. Percorreu o resto da suíte. Ninguém. Voltou à sala, trancou a porta, apagou a luz e começou a despir-se ao voltar para o quarto. A cama estava fria, quando se deitou, e ele estremeceu: “Se Delaney não tivesse telefonado na quele momento exato, onde estaria eu agora?” Ficou ali deitado, sentindo o calor voltando, pouco a pouco, debaixo das cobertas, sobre o lençol cortado. — Hymen, O Hymenaeus — disse ele baixinho, no escuro. Fechou os olhos e esperou que o sono chegasse.



10 A manhã foi má. Acordou tarde, com dor de cabeça e ressaca da bebida da véspera. Teve de tomar banho e vestir-se depressa, para não se atrasar para a sessão de dublagem no estúdio. Não havia recado de Veronica na portaria e, quando ele saiu do hotel para tomar o carro em que Guido esperava defronte, pensou ter visto Bresach, inclinado numa loja do outro lado da rua, olhando para a porta do hotel. Pelo menos era um homem de casaco cáqui, visto rapidamente no meio do tráfego, sinistro, à espreita. Delaney estava esperando por ele, com a secretária, na sala de projeção, impaciente, os olhos injetados da falta de sono. — Cristo, Jack — disse Delaney quando ele entrou na sala. — Não temos dez anos para fazer esse trabalho. Jack olhou para o relógio e respondeu: — Só estou cinco minutos atrasado, Maurice. — Cinco minutos — repetiu Delaney. — Cinco minutos. Vamos trabalhar. — Ele deu sinal e a sala ficou escura. Lá estava Stiles novamente, resmungando, na tela. “Eu voltei”, dizia Stiles, “era sofrimento demais para mim. Estou infeliz desde o dia em que a deixei.” Jack suspirou. — Deixe as críticas — falou Delaney. — Basta pensar em como dizer as linhas sem fazê-lo parecer um idiota completo. A voz dele estava brusca e áspera. Jack ficou aliviado por seu instinto tê-lo avisado, na véspera, para não ser sincero demais com Delaney em suas opiniões sobre o filme. “Vou ter de tocar isso de ouvido”, pensou Jack, “e agarrar o momento oportuno para ser sincero, quando chegar. Se é que chegará algum dia.” Trabalharam na cena curta durante uma hora, ensaiando, sem nada gravar. Mesmo aos ouvidos de Jack, o som de sua voz repetindo as falas soava comum e falso. Delaney ficou ali sentado, sem ajudar, sem sugerir qualquer modificação, apenas grunhindo e fazendo sinal para o operador tornar a passar a cena e dizendo a Jack: “Agora, vamos tentar mais uma vez.” No fim de uma hora, nada do que dizia parecia fazer sentido a Jack, nem ter qualquer relação com a linguagem que qualquer ser humano pudesse empregar em qualquer situação. De repente, Delaney disse: — Bom, vamos tentar pô-lo na trilha. E agora, Jack, pelo amor de Deus, procure pensar no que está fazendo. É uma grande confissão, uma declaração de amor. Esse camarada sonhou com essa garota durante dez anos e agora ele a vê pela primeira vez, por acaso. Não pode parecer que está dizendo que vai comer talharim ao jantar. — Um momento, Maurice — falou Jack. — Talvez isso não dê certo. Talvez se tenha passado muito tempo e eu tenha perdido o dom. Talvez nunca o tenha tido. — Você o tinha, tinha sim — afirmou Delaney impaciente. — De qualquer forma, se você quiser arranjar outra pessoa, eu me retiro já. Antes de perdermos mais tempo, seu e meu. Tomo o avião da tarde para Paris e talvez todo mundo fique muito mais feliz. — Não tenha tanta pressa de desistir, que diabo! — disse Delaney. — Depois de uma hora. Que é que há com você? Onde acha que eu estaria hoje se desistisse assim?

— Só queria que você soubesse que não está preso a mim, se não quiser estar. — Ora, Jack... — Maurice sorriu para ele, com simpatia, querendo cativá-lo. — Você não vai ficar sentido comigo, vai? Cristo, você é o único ator com quem eu consegui fazer amizade, só porque você sempre se comportou como homem, não como um desgraçado de um... — Ele parou e sorriu para a secretária, sentada na fila atrás deles. — Desculpe, Hilda, eu ia dizer um palavrão. Depreciativo de seu sexo. Extremamente depreciativo. É uma palavra que tem sido usada para descrever atores sensíveis e artísticos há muitos séculos. — Ele deu um tapinha amigo no ombro de Jack. — Não está tão ruim assim, Jack. Há de melhorar. Com certeza. — Espero que sim — concordou Jack. — Mas, se não melhorar, vai fazer assim tanta diferença? Afinal de contas, é apenas um papelzinho de uma fita inteira... — Parou. Ainda não era o momento oportuno para dizer a Delaney que ele tinha estudado o roteiro e o filme, que já tinha sido realizado, que havia muitas outras coisas que não estavam boas, que deviam ser modificadas ou cortadas completamente e que eram, na opinião de Jack, mais importantes do que a simples substituição da voz de Stiles pela sua, por melhor que fosse essa substituição. — Não é apenas um papelzinho do filme — disse Delaney. — Já lhe disse isso. É a chave de tudo. E, mesmo que fosse apenas um papelzinho, ainda assim poderia ser justamente o ponto que faria a diferença entre uma obra de arte e uma porcaria. Você sabe tão bem quanto eu, Jack, que nada é sem importância. — Ele falava com uma ênfase fanática, firme em sua opinião. — Um quadro, uma fala, um movimento num momento crítico, num filme de duas horas, podem estourar a gente. Ou podem ganhar o dia. Isso faz parte da natureza do cinema, Jack. Por que você acha que trabalho tão duro em cada pequeno detalhe? — Eu sei que teoricamente isso é verdade — disse Jack, pensando: “Não admira que ele ainda pareça tão jovem. Os fanáticos não envelhecem.” — Mas desta vez... — Desta vez e todas as vezes — afirmou Delaney, categórico. — Agora, vamos começar tudo de novo. Trabalharam mais uma meia hora, Jack conscienciosamente procurando dar vida às linhas, mas sem sucesso. No meio de uma fala, Delaney levantou a mão e as luzes se acenderam. — Basta por hoje — disse ele. — Não adianta — repetiu Jack. — Não desanime. — Delaney sorriu, de bom humor. Depois olhou bem para Jack: — Está com alguma preocupação? Jack hesitou. — Não — disse finalmente. — Não estou com nada me preocupando. — Sujeito de sorte — concluiu Delaney. — Vamos almoçar? Mais uma vez Jack hesitou. — Espere que eu ligue para o meu hotel primeiro. Tenho um compromisso mais ou menos marcado. Jack telefonou para o hotel. Havia um recado para ele: “A Signorina Rienzi ia almoçar no Ernesto’s, Piazza dei Santissimi Apostoli. Estaria lá à uma hora e teria prazer se o Signor Andrus pudesse ir encontrá-la.” — Obrigado — disse Jack ao telefone, e desligou. — Tenho um compromisso para almoçar — desculpou-se ele com Delaney. Delaney fixou nele um olhar penetrante, por um momento. Jack ficou imaginando o que seu rosto teria revelado, que prazer, que antecipação, que receios, enquanto falava ao telefone. Com um grunhido, Delaney pegou seus papéis e eles saíram, sob uma chuvinha fina, para onde os dois carros os esperavam, estacionados junto ao prédio da sala de projeção. — Jack, Holt falou com você ontem à noite? — perguntou Delaney.

— Um pouco — respondeu Jack. — Você pode ajudá-lo? — Vou falar com algumas pessoas. Delaney acenou com a cabeça, satisfeito. — É um bom sujeito, o Holt. Seria bom se pudéssemos ajudar o coitado. Jack não falou no contrato de três filmes. — Farei o possível — disse e levantou a gola do seu sobretudo. A chuvinha estava fria. — Obrigado — agradeceu Delaney. — Ele gostou muito de você, conforme disse. Falou-me que você tinha um bom coração, quando voltou para a mesa ontem à noite. — Isso mesmo, é o que eu sou — disse Jack. — Um sujeito de bom coração, — Eles vão dar um coquetel na casa deles hoje. Pediram-me especialmente para convidar você. — Estarei lá. — Não como ontem, Jack — comentou Delaney, em tom de aviso. — Dessa vez apareça. — Não como ontem — concordou Jack, pensando, “espero que não como ontem”. — Guido sabe o endereço. — Delaney entrou no carro com Hilda e partiram. No carro, a caminho da Piazza dei Santissimi Apostoli, Jack descobriu que Guido sabia falar francês e os dois fumaram cigarros para comemorar a descoberta: agora, podiam comunicar-se. Suas primeiras conversas foram comuns e superficiais. Guido disse que aprendera francês quando estava servindo no Exército italiano perto de Toulon, na guerra, e Jack usou o dom da língua francesa para explicar que o tráfego em Paris era pior do que em Roma, e o tempo, em geral, mais feio. Mas um novo e agradável sabor de humanidade agora enchia a Fiat verde. Jack ficou satisfeito ao observar que, quando Guido tinha oportunidade de falar, dirigia mais devagar e desafiava a morte menos vezes. “No final das contas”, pensou Jack, “pode bem ser que a língua francesa ainda venha a salvar-me a vida.” Ela estava sentada na sala dos fundos, de encontro a uma parede branca, defronte da porta. Vestia as mesmas roupas da véspera e estava olhando ousadamente para um grupo de três homens sentados do outro lado da sala. Quando Jack se aproximou, pouco antes de ela virar a cabeça para cumprimentá-lo, pensou: “Onde quer que ela esteja, e o que quer que esteja fazendo, está em comunicação constante com o sexo masculino.” Ela sorriu para ele e ele ficou perturbado com o brilho franco e animalesco de seu sorriso. Sabendo que os três homens o observavam, Jack sentiu o mesmo tipo de constrangimento que sentia quando rapazinho, ao sair com garotas que fossem louras demais ou com formas ou roupas muito espalhafatosas. Nessas ocasiões, ele pensava: “Só há uma razão por que estou saindo com essa garota, e todos aqui sabem qual é.” Sentou-se na cadeira ao lado dela e, tocando-lhe na mão, disse; — Estou louco por uma garota que não deixou o endereço nem o telefone. Você tem ideia de onde poderei encontrá-la? Só quando terminaram o almoço e estavam tomando café é que Jack perguntou: — Você se mudou ontem. Para onde? — Como é? — perguntou Veronica, espantada. — Ontem à noite — falou Jack, muito sério —, quando você me deixou, enquanto eu dormia no hotel, você voltou ao lugar onde estava morando, arrumou suas coisas e se mudou. Onde você está agora? Veronica olhou para ele, assustada, e perguntou: — Como é que você sabe de tudo isso? Jack lhe contou a respeito da visita de Bresach, sem omitir nada, descrevendo a faca, as lágrimas, a loucura no quarto. Enquanto ele falava, a expressão de Veronica ficou mais dura, inclemente, cheia de desprezo. — Il cafone — disse ela. — O que quer dizer isso? Ela deu de ombros.

— Muitas coisas ruins, todas misturadas. Estúpido, covarde... — Como é que ele sabia a meu respeito? — perguntou Jack. — Eu disse a ele. Por quê? Você se opõe? — Bem, neste momento eu não me oponho — disse Jack, com brandura. — Mas houve uns segundos, ontem à noite, quando ele estava brandindo aquela faca... — Já que você quer saber... — Havia uma sugestão de beicinho na maneira de ela apertar os lábios. Foi o único jeito de ele me deixar sair de casa. Senão, teria feito uma cena horrível. Teria me seguido. Ele me prometeu que, se eu contasse com quem tinha estado, o nome do homem, só o nome do homem, me deixaria ir. E prometeu que não importunaria a quem quer que fosse. — Talvez ele ache que meter uma faca nas costelas de um homem no meio da noite não seja importuná-lo — comentou Jack. — Não brinque — disse Veronica. — Ele é capaz de fazê-lo. — Ela riu asperamente. — E eu que pensava que, estando com um bom rapaz americano, estaria fugindo de toda essa loucura de ciúmes italianos. — Quem e ele? — perguntou Jack. — O que ele está fazendo em Roma? Qual a sua ligação com ele? Veronica abriu a boca e depois fechou-a, calando-se. O rosto bonito e inexpressivo adquiriu uma expressão de sonsa, dissimulada, enquanto ela pensava nas perguntas dele e resolvia se diria ou não a verdade. — Para que você quer saber tudo isso? — perguntou ela, adiando o problema. — Se um homem tentasse matá-la, você não gostaria de saber tudo o que pudesse sobre ele? — Está em Roma há quase dois anos — disse Veronica. — Tem uma espécie de pensão, pequena, do Exército americano. Ele diz que a família dele é muito rica, mas parece que não lhe mandam muito dinheiro. Diz que veio para cá para aprender sobre cinema. É louco pelo cinema italiano. Quer ser diretor, ou produtor, ou coisa assim. Foi por causa dele que fui ver aquele filme em que você representa. — Ela sorriu, maliciosa. — Ele disse que eu tinha de ver você representar. Pois bem, eu o vi, não foi? — Oh, Deus! — murmurou Jack. — Ele faz traduções do italiano para o inglês — continuou Veronica. — Ganha um dinheirinho extra assim. — Ele tem talento? — perguntou Jack, curioso. — Ele acha que sim. Segundo ele, tem mais talento do que qualquer outra pessoa em Roma. — Há alguém mais que ache que ele tem talento? — Ah. ele anda por aí com um grupo grande de jovens atores, escritores e gente assim, todos famintos, de quem nunca ninguém ouviu falar, e que lhe ficam dizendo que ele é um gênio. — Ela riu, com desprezo. — Eles detestam todo mundo. Só gostam de gente igual a eles, de quem nunca ninguém ouviu falar, também. Escreveu uma história que não consegue vender a ninguém, mas, quando os seus amigos falam dela, parece até que ele acabou de escrever A Divina Comédia. — O que é que você acha? — Se é assim que são os gênios, eles que procurem outras mulheres. Eu não — respondeu ela. — Há quanto tempo você o conhece? — Há um ano, mais ou menos. — Há quanto tempo está vivendo com ele? Ela hesitou, pesando novamente, Jack percebia, a verdade e a mentira. — Só há três meses — disse finalmente. — Ele me perseguia sem cessar. Ele é muito bonito — disse, desculpando-se. — É, sim — concordou Jack.

— Eu disse a ele que não o amava — continuou "Veronica, a voz gemendo um pouco, de maneira desagradável, os olhos mexendo-se inquietos, falsamente, como se agora não estivesse falando com Jack, e sim com o amante abandonado, explicando-se, pondo a culpa nele. — Eu disse a ele que fazia questão de ser livre, de sair com outros homens quando quisesse. Ele concordou, claro, mas depois que me teve... — Ela deu de ombros. — Parecia até italiano — falou ela, com amargura. — Eu não podia nem dizer “olá” a um homem na rua. Tragédia. Não admira que ele goste de Roma, aquele... É um italiano de coração. E agora essa da faca... — Ela fez um muxoxo de escárnio, sibilante. — Eu gostaria de dizer-lhe umas verdades. O que é que ele quer que eu faça? Dormir com ele apaixonada por outro homem? E eu que achava que os americanos tivessem orgulho! — Você disse a ele que estava apaixonada por mim? — perguntou Jack, sem acreditar. — Claro que sim. — As mãos de Veronica, macias, longas e gordinhas, brincavam com o fecho da bolsa. — E o que foi que ele disse a isso? — perguntou Jack. — A mesma coisa de sempre. — Ela tornou a fazer g muxoxo de escárnio. — Chamou-me de prostituta. Estou-lhe dizendo, deviam fazer dele cidadão italiano honorário. — Ele a ameaçou também? — Não. Ainda não — disse Veronica, displicente. — Isso vem depois. — O que é que você vai fazer? — perguntou Jack. Ele teve uma visão desagradável de Veronica deitada numa poça de sangue, e os jornais, e o testemunho no julgamento. “Pelo menos”, pensou ele, “com tudo isso, eu devia dizer-lhe que a amo. Pelo menos um pouco.” — O que vou fazer? — Ela deu de ombros. — Nada. Simplesmente não direi a ele onde moro e ele não me encontrará. — Ele irá ao lugar onde você trabalha — disse Jack. — Já esteve lá — disse Veronica. — Hoje de manhã. Eles me avisaram. Tenho um amigo lá e ele me avisou. Vou tirar férias. Não vou trabalhar nas próximas duas semanas. — Ela sorriu para ele, com suavidade. — Vou me dedicar a você. Preciso de umas férias de qualquer forma. Seria bom... — Ela cobriu a mão dele com a sua e brincou com os dedos dele. — Seria bom se pudéssemos ir para algum lugar por duas semanas. — Seria bom — concordou Jack, sem sentir aquilo, sem gostar da ideia de passar duas semanas sozinho com ela. — Só que eu não posso tirar as duas semanas. Tenho de ficar aqui. Ele sabe onde eu estou. Mesmo que eu me mude, ele me poderá encontrar em dez minutos. — O que eu acho é que você deveria ir à polícia. Diga que ele o ameaçou com uma faca. Eles o trancafiam por duas semanas e nós não seremos importunados por ele. Jack afastou sua mão, propositadamente. — Qual é mesmo o seu nome, senhora? — perguntou ele. — De Medici? Borgia? — O quê? — perguntou Veronica, intrigada. — O que você disse? — Nada. Por enquanto, vamos deixar a polícia — disse Jack. — Eu só estava querendo ser prática — comentou Veronica, sentida. — Deixe-me fazer-lhe outra pergunta. O que e que você vai fazer quando terminarem as duas semanas e eu for embora? — Depois eu penso nisso — disse ela, com simplicidade. Jack suspirou. “Diabo de Despière”, pensou ele, irracionalmente. “Ele tinha de dizer alô a todo mundo na Via Veneto, ontem à tarde.” — Há outra coisa que podíamos fazer — disse Jack. Engoliu em seco e falou numa voz sem expressão: — Podíamos desistir. Ela parecia uma criancinha castigada. — Você quer fazer isso?

Jack hesitou. Qualquer resposta que desse não seria a verdade. — Não. Veronica sorriu e lambeu o canto da boca com a língua. “Com o tempo”, pensou Jack, “se eu chegar a conhecê-la bem, vou fazê-la parar com isso.” — Não achava que você quisesse — disse ela. Rapidamente, espanou umas migalhas da frente da saia. — Ah, vou escrever-lhe uma carta dizendo que ele se comporte como homem. Vou escrever uma carta tão dura que talvez isso o faça acalmar-se. — Talvez — disse Jack, duvidando. De repente, agora que tinha tomado uma decisão, ele a queria muito. Sentado ali, segurando a mão dela, olhando para o pescoço liso e moreno surgindo do v aberto de seu suéter, a recordação da tarde da véspera invadiu-o avassaladoramente. — Vamos para o meu hotel. Veronica sacudiu a cabeça. “Oh, Deus”, pensou ele, “agora ela vai ser coquete. Isso é demais.” — Não — disse ela. — Ele deve estar lá, vigiando. O porco. — Bom, então vamos à sua casa. Ela tornou a sacudir a cabeça. — Não podemos. Estou numa pensãozinha de família. Não o deixariam subir. Está cheia de padres alemães, muito moralistas. — O que fazemos então? — perguntou Jack. — Esperamos até ficar escuro e encontramos um arbusto sossegado no Jardim Borghese? — Amanhã, vou mudar-me para a casa de uma amiga. Ela trabalha o dia inteiro e o apartamento fica vazio. — E o que faremos até amanhã? — perguntou Jack. Veronica riu. — Você não pode esperar? — Não. — Nem eu. — Ela olhou para o relógio. — Vou estar ocupada por mais umas duas horas. Estarei no seu apartamento às cinco horas. — Eu pensei que você tinha dito que ele deve estar lá, no meu hotel. Vigiando — disse Jack. — Não às cinco horas. — Como é que você sabe? — Às cinco horas, todos os dias, ele vai ao analista — disse Veronica, pegando suas coisas e levantando-se. — Não há nada que o impeça de ir. Não se preocupe. Ele não estará lá. — Ela se inclinou e beijou-o. — Deixe que eu saia primeiro. Espere uns cinco minutos. Por via das dúvidas. Jack ficou olhando enquanto ela se dirigia para a porta, os cabelos longos e escuros caídos sobre os ombros, os quadris balançando um pouco mais do que de costume, porque Jack estava olhando, porque dois garçons estavam olhando, os pés estreitos nos sapatos romanos, pontudos e de saltos altos, fazendo um sapateado rítmico e provocante no chão de mosaicos. “Deus do céu”, pensou Jack, quando a porta se fechou atrás dela e ele se recostou para esperar os cinco minutos, “em que fui me meter? E valerá a pena?”

11 Quando saiu do restaurante, pediu a Guido que o deixasse na embaixada e depois deu-lhe folga até as oito da noite. Curioso, perguntou a Guido o que pretendia fazer com seu tempo livre. — Vou para casa, brincar com meus três filhos — respondeu Guido, sério. — Eu também tenho três filhos. — É a razão de viver — falou Guido, e partiu, compenetrado. O fuzileiro de guarda na entrada era jovem, alto, e lembrava a Jack turmas de formatura de ginásio. Tinha condecorações do Pacífico, da Coreia, a Estrela de Prata e o Purple Heart. Seu rosto era rosado, e sorriu para Jack com simpatia e inocência. Parecia moço demais para ter estado em qualquer das guerras e sadio demais para ter sido ferido. Havia alguma coisa no tamanho dele e em suas cores que fez Jack se lembrar de Bresach. “Que traições você sofre quando não está de serviço”, pensou Jack, entrando no prédio, “que portas você guarda nas suas folgas, quando é que vai ao seu analista?” Jack deu o nome à moça da recepção e disse quem ele queria ver. Dois minutos depois estava na sala de imprensa, numa algazarra de máquinas de escrever, sentado diante de Hanson Moss, rapaz que tinha estado vários anos em Paris antes de ser transferido para Roma. A comida italiana estava fazendo Moss engordar, e ele tinha um ar confortável, amarrotado e sem ambição, por trás da mesa empilhada de jornais italianos. Depois de cinco minutos de banalidades em que trocaram informações a respeito de suas famílias, Jack explicou que estava em Roma numas férias curtas. Moss reclamou que os jornais italianos atacavam a política americana todos os dias, igual aos franceses, só que em prosa pior. Finalmente, Jack lhe disse por que tinha ido procurá-lo: — Há um homem que eu conheço, de nome Holt. De Oklahoma. Dono de uma companhia de petróleo'.- Talvez umas duas companhias de petróleo. — O serviço diplomático faz o máximo por uma companhia de petróleo — disse Moss, sério. — Todo italiano sabe disso. Qual e o problema? Pegaram-no trocando uma nota de cinco dólares no mercado negro? — Ele quer adotar uma criança — disse Jack. — Para que ele quer isso? — perguntou Moss. — Souvenir de sua viagem à Itália? Jack explicou, em poucas palavras, alguns dos problemas de Holt. Não achou necessário referir a Moss os seis anos em Joliet. — Deve haver alguém aqui que possa tratar dessas coisas — disse Jack. — Achei que você saberia dizer-me. Moss coçou a cabeça. — Imagino que Kent, lá do consulado, seja quem você procura. Você o conhece? — Não, acho que não — respondeu Jack. Moss pegou o telefone e discou um número. — Mr. Kern? — falou ele. — Aqui é Moss, do gabinete do adido de imprensa. Tenho um amigo aqui que tem um problema. Mr. Andrus, nato em Paris. Está aqui brevemente, de visita. Poderia recebê-lo já? Obrigado. — Desligou. — Engraxei as engrenagens — disse ele. — Diga a seu amigo que, se ele tiver um pocinho de petróleo velho que não esteja andando muito bem, terei muito prazer em cuidar dele. — Direi — brincou Jack, levantando-se. — Ah, espere um pouco... — Moss estava remexendo nos papéis de sua mesa e encontrou um cartão gravado. — Samuel Holt — leu ele. — É esse? — É. — Fui convidado para um coquetel na casa dele hoje à noite. — Ele olhou bem para o cartão. —

Palazzo Pavini. Chique, hem? Você vai? — Vou — respondeu Jack. — Então, até logo mais. Seja discreto com Kem. É um bolha. Kern era um homem grande, com cara triste, cabelos ralos, nariz grande e o tom de pele de quem tem doença de estômago. Usava um temo preto e diplomático, colarinho engomado. Sua mesa estava numa ordem rigorosa, com um recipiente entrada e outro saída, onde os papéis estavam arrumados geometricamente. Tinha olhos tristes e desconfiados, com uma borda amarelada, e estava sentado à sua mesa com o ar de um homem que aterrorizava as secretárias e que só dava vistos de entrada para os Estados Unidos com a maior relutância. Nos anos em que Jack tratou com órgãos governamentais, tinha visto caras como a de Kern muitas vezes, e os donos dessas caras sempre eram gente que considerava todos os estrangeiros como Inimigos reais ou em potencial dos Estados Unidos. Sabia dos fatos por trás das alianças, é o que anunciava a cara de Kern, e não eram agradáveis. Ele escutava os verdadeiros tons por baixo das vozes melífluas dos candidatos, via a falsidade e o interesse próprio em seus corações. — Qual o seu interesse neste caso, Mr. Andrus? — perguntou Kern, depois que Jack acabou de explicar quem eram os Holt e por que queriam adotar uma criança. A pergunta e o tom em que foi feita insinuavam claramente que qualquer interesse que Jack tivesse nisso provavelmente seria corrupto. — Interesse nenhum, na verdade — explicou Jack. — É só que Mr. Holt é meu amigo... — Ah! — disse Kern. — Um amigo. Conhece-o há muito tempo? — Não — disse Jack. Não podia dizer que tinha conhecido Holt na véspera à meia-noite. — Achei apenas que uma palavra pessoal talvez ajudasse ... pudesse apressar um pouco as coisas. — Uma palavra pessoal. — Kern fazia a frase soar como uma proposta de propina. — Sei. Na verdade, apesar de não termos uma política estabelecida, não aprovamos muito esse tipo de transação. Crianças, diferenças de religião... — Kern estendeu as mãos com cuidado e sinistramente sobre a mesa polida. — Sempre pode haver repercussões desagradáveis. Mas, se ele é seu amigo e o senhor é amigo de Hanson Moss... Entre nós, é claro, há várias pessoas do lado italiano que eu poderia abordar. — Seria muita bondade sua — disse Jack, ansioso por ir embora. Kern olhou pensativo para Jack. — O senhor estaria disposto a garantir o caráter de seu... dos candidatos, naturalmente? Jack hesitou por um momento. Em seguida, afirmou: — Naturalmente. — Isso poderia pesar na balança — disse Kern, sonoramente. Abriu uma gaveta e pegou um dossiê, colocando-o diante de si. — Para falar a verdade, o caso já chegou à minha mesa. Os papéis preliminares. Ele abriu o dossiê e examinou-o por um momento, em silêncio. — Existem certas condições que os candidatos têm de satisfazer. Primeiro, os requisitos médicos. — Tenho certeza de que eles são perfeitamente sadios — disse Jack, depressa. — O Governo italiano — disse Kern, os olhos baixos, lendo as folhas diante dele — exige que o marido do casal que solicita a criança tenha mais de cinquenta anos e apresente um atestado de um médico italiano, devidamente testemunhado, de que é incapaz de ter um filho seu. Em outras palavras, de que seja cem por cento estéril. — Kern deu um sorriso sem graça a Jack. — O senhor acha que o seu amigo é capaz de obter esse atestado? Jack levantou-se. — Se o senhor não se importa, Mr. Kern, acho que gostaria de pedir a Mr. Holt que venha falar com o senhor pessoalmente. — Ele estava disposto a fazer muita coisa por Maurice Delaney, mas achava que sua obrigação não incluía garantir a absoluta esterilidade de milionários. .... Muito bem — concordou Kern, levantando-se também. — O senhor terá notícias minhas. Ao se dirigir para o hotel, teve uma absurda sensação de alívio por ter ficado livre de Kern e ter saído do gabinete do sujeito. '‘Gabinetes do Governo", pensou ele com desagrado, lembrando-se do seu. “São as verdadeiras sementeiras da rebelião e da anarquia.”

Jack estava abrindo a porta de sua suíte quando ouviu um barulho no corredor deserto. Uma porta que dava para uma copa de serviço, a uns seis metros atrás dele, de repente se abriu e, quando Jack se virou, viu Bresach saindo depressa da copa, avançando sobre ele de emboscada entre as pias e cafeteiras, o casaco cáqui aberto e esvoaçando. — Oh, Deus! — murmurou Jack, aborrecido, dirigindo-se a Bresach, segurando a pesada chave em sua placa plástica na mão, como uma arma. — Não comece. Bresach parou. — Estava esperando por você — disse, piscando os olhos, nervoso, por trás dos óculos. — Não estou armado. Não precisa ter receio. Verdade. Não estou com a faca. — A voz dele implorava. — Juro por Deus que não estou com a faca. Pode me revistar. Só quero falar com você. Verdade. — Ele levantou as mãos acima da cabeça. — Reviste-me. Verá. Jack hesitou por um momento. — Está bem. Entre — disse finalmente. — Não quer me revistar? — perguntou Bresach. Continuava de braços para cima, o casaco aberto. Estava com calças de veludo amarrotadas e uma camisa azul pesada, de trabalhador, sem gravata, e um paletó de tweed marrom, grosso e desbotado. Usava sapatos velhos, fechados e arranhados, do Exército. — Não, não quero revistá-lo. — Bresach deixou cair os braços, parecendo quase desapontado, enquanto Jack abria a porta e entrava. Bresach acompanhou-o devagar. Jack tirou o sobretudo e jogou-o sobre uma cadeira, virou-se e encarou-o. — Agora — perguntou-lhe Jack, bruscamente —, o que deseja? — Havia um relógio dourado na parede sobre a porta e Jack viu que eram quatro e cinco. Se Veronica fosse pontual e chegasse às cinco horas, ele teria de trabalhar depressa para fazer o rapaz sair dali. — Você se importa se eu me sentar? — perguntou Bresach, a voz vacilante. — Sente-se, sente-se. — Bresach tinha um ar fatigado, exausto, como um estudante que passou muitas noites em claro preparando-se para um exame em que acha que vai ser reprovado. Era impossível não ter uma certa pena dele. — Quer um uísque? — Obrigado. — Bresach sentou-se numa cadeirinha. Encabulado, cruzou as pernas e pôs a mão no tornozelo do pé levantado, como um homem fazendo uma pose rígida para um retrato. Jack serviu-lhe um uísque com um pouco de soda de uma garrafa que fora aberta na véspera e estava choca. Serviu um pouco de uísque para si e depois deu o drinque a Bresach. Este levantou o copo desajeitadamente. — Salute — disse ele. — Salute — repetiu Jack. Beberam. Bresach bebeu com avidez, acabando um quarto do copo num sorvo longo. Pôs um braço sobre o encosto da cadeira, no que pareceu um esforço consciente para parecer estar à vontade. — Tem um bom quarto aqui — disse Bresach, gesticulando com o copo. — Você se trata. — Veio aqui para admirar o quarto? — perguntou Jack. — Não — disse Bresach, com humildade. — Claro que não. Foi... foi só para iniciar conversa. Depois de ontem. Devo dizer-lhe uma coisa, Mr. Andrus. — Olhou com atenção para Jack, através dos óculos, como um estudante que tem má vista sentado nos fundos da sala de aula, tentando decifrar uma fórmula rabiscada no quadro-negro. — Não estou com minha faca aqui hoje. Mas isso não significa que eu não a traga de uma outra vez. E que não a use. Só queria que soubesse disso. Jack afundou numa poltrona, o copo na mão, encarando o rapaz, enquanto dizia: — Obrigado. Bondade sua me avisar. — Não quero que tenha ilusões a meu respeito — disse Bresach, em sua voz baixa, agradável e ansiosa. — Não quero que pense que o perdoei ou que pode me pregar alguma peça.

Jack largou o copo com calma na mesa ao lado de sua poltrona. “Talvez seja este o momento de pegá-lo e lhe dar uns socos na cabeça. Com força. Ministrar-lhe o que os franceses chamam um corretivo severo. Talvez isso tirasse algumas dessas ideias malucas da cabeça dele.” Bresach era alto, mas magro, dentro daquele casaco volumoso, e os ossos de seu pulso, espetados das mangas de lã esgarçada, eram finos e não pareciam fortes. Desde a guerra que Jack não entrava numa luta de socos, mas ele era um homem forte, com braços e ombros pesados, mãos grossas, e tinha lutado bastante quando menino. Lutara boxe por prazer em ginásios, até ser ferido, e tinha a certeza de que mesmo agora ainda não estava muito fora de forma. Além disso, não seria preciso ser um campeão mundial de peso-pesado para dar uma lição em Bresach. Três ou quatro golpes bem dados e pronto. Jack sacudiu a cabeça, rejeitando a ideia. Se Bresach fosse maior e mais forte, ele poderia fazê-lo. Mas, mesmo em menino, Jack procurava não bater em ninguém que não pudesse com ele. Detestava os prepotentes em todos os ramos, físico e moral, e até mesmo a ideia de que um pouco de violência agora pudesse evitar maiores violências depois não conseguia induzi-lo a erguer-se, ir até onde estava Bresach e dar nele. — Bom. Se eu estou entendendo bem, você está me avisando que se reserva o direito de me assassinar no futuro — disse Jack. — Sim — concordou Bresach. — O que o fez declarar um armistício hoje? — perguntou Jack. — Eu queria conversar com você — falou Bresach, sério. — Há certas coisas que preciso saber. — O que o faz pensar que vou conversar com você? — Está aqui, não está? Deixou-me entrar. Está falando comigo, não está? — Escute, Bresach, vou fazer algumas ameaças também. Dentro de dois minutos, posso pegar o telefone e avisar ao gerente que quero que ele mande a polícia a este quarto para prender você. Você estaria numa encrenca dos diabos se eu jurasse que você anda ameaçando me matar, sabe? — Você não fará isso. — Não tenha assim tanta certeza. — Então tudo viria a público — disse Bresach, calmamente. — Estaria nos jornais. Sua mulher descobriria. O pessoal para quem trabalha. Por quanto tempo você conservaria seu emprego no governo se saísse nos jornais que você se meteu em encrenca em Roma por estar dormindo com uma moça italiana? “Magriça ou não”, pensou Jack "talvez eu deva dar uma surra nele.” — Não — repetiu Bresach. — Você não vai chamar a polícia. — Ele bebeu com sede. — Isso eu calculei. — Acabou a bebida e largou o copo. — Viu Veronica hoje? — Vi. Almoçamos juntos. Quer saber o menu? — Como está ela? — Bresach inclinou-se para a frente, pesquisando a fisionomia de Jack para ver se ele estava falando a verdade. — Está viçosa — disse Jack, com crueldade, para se vingar das dissertações de Bresach sobre a mulher e o emprego. — Está nos primeiros e belos arroubos do amor. — Não zombe de mim. — Bresach procurou tornar sua voz ameaçadora, mas o efeito era de magoado e triste. — Onde está ela agora? Onde está morando? — Não sei e, se soubesse, não lhe diria. — O que ela falou de mim? Jack hesitou. Passara o seu m omento de crueldade. — Ela nada disse a seu respeito — mentiu ele. — Não acredito — disse Bresach. — Não minta. Já estou bem nervoso. Se mentir, não respondo pelo que farei... — Se vai me ameaçar, enxoto-o daqui neste instante. — Está bem, está bem. — Bresach estendeu as mãos, como um treinador num campo de beisebol

avisando um corredor para ficar na base. — Vou ficar calmo. Farei um grande esforço para ficar calmo. Não vim aqui para lutar com você. Tenho umas perguntas a fazer. Perguntas inteiramente razoáveis. Só quero respostas sinceras. Tenho alguns direitos — disse ele, desafiadoramente. — Não tenho certos direitos? Pelo menos respostas a algumas perguntas. — O que você quer saber? — perguntou Jack. O rapaz estava sofrendo, tão obviamente, estava tão despido e exposto à dor, que o instinto de Jack o levava a acalmá-lo o mais possível. — Primeiro, a pergunta importante. — O queixo de Bresach caiu no peito e ele murmurava quase incompreensivelmente dentro de sua gola aberta. — Você a ama? Jack hesitou, procurando não tanto exprimir a verdade, o que seria fácil e simples de fazer, como dizer o que provocasse menos dor em Bresach. — Que diabo, Andrus — disse Bresach, em voz alta. — Não fique aí inventando histórias. Só o que tem a dizer é sim ou não. — Bom, então, não — disse Jack. — Então, para você ela e apenas uma... uma distração. — Se isso o faz se sentir melhor, ter você rondando por aí faz isso muito menos uma distração. — Você já disse a ela? — insistiu Bresach. — Disse o quê? — Que não a ama. — O assunto ainda não foi discutido. — Eu a amo — disse Bresach, sem expressão. Ficou olhando para Jack como se esperasse ver a sua reação. Jack ficou calado. Bresach esfregou as mãos uma na outra nervosamente, aquecendo-as. — Não vai dizer nada? — O que quer que eu diga? Aleluia, você a ama? — Quero que ela se case comigo — murmurou Bresach. — Já pedi dez vezes. É só um detalhe técnico que nos impede de estarmos casados agora. — O quê? — perguntou Jack, curioso. — Um detalhe técnico. Ela é católica. A família dela é devota. Eu sou ateu. Nem mesmo por ela eu aguentaria aquela balela hipócrita... — Sei — disse Jack, lembrando-se de Holt e a mulher. “A religião”, pensou ele, “é mais complicada em Roma do que em qualquer outro lugar do mundo.” — Mas ela estava vacilante — disse Bresach. — Ela vai visitar a família em Florença todos os fins de semana e eles a perseguem e a fazem ir à missa. Mas era apenas uma questão de tempo. É só isso. Ela sabe que eu faria tudo por ela. Sabe que não posso viver sem ela. Tolice — disse Jack, asperamente. — Qualquer pessoa pode viver sem outra. — Isso e nojento — disse Bresach. Levantou-se de um salto e começou a andar pela sala. — Nojento. É cínico. Sem coração. Isso e uma das coisas que eu detesto, quando se envelhece como você — disse ele. — Eu me mataria antes de me deixar ficar cínico e frio assim. Se é assim que eu vou me sentir, prefiro morrer antes dos trinta. Quando você era moço, quando tinha a minha idade, aposto que não era assim. Já o vi. Já o vi nos seus filmes. Antes de você apodrecer. Jack vigiava Bresach com cuidado, preparado para qualquer movimento repentino e perigoso, agora que Bresach estava de pé e livre da cadeira. Sentiu que estava ficando zangado outra vez. Parte do motivo para isso é que, de certo modo, Bresach tinha razão — quando ele tinha vinte e cinco anos, não teria dito que qualquer pessoa podia viver sem outra. — Cuidado com o que diz — avisou Jack. — Estou pronto a escutá-lo, embora não saiba bem por que, mas não a permitir que me insulte. — Ela era virgem quando a conheci — disse Bresach, alto, as palavras se embaralhando todas. — Só depois de quatro meses é que eu tentei beijá-la. No dia em que ela se mudou para o meu quarto, eu

senti que, afinal, a minha vida teria sentido. Aí, ela conhece você e em meia hora você a rouba de mim. Um velho como você — zombou ele de Jack, a boca repuxada para baixo no tique que o afetava quando ele se exaltava. — Gordo, casado... — Bresach fez a palavra “casado” soar como o nome secreto de alguma perversão odiosa. — Complacente. Um funcionário de gabinete. Um homem que tinha talento, verdadeiro talento, e não teve a coragem de se agarrar àquilo. Um homem que cedeu. Um homem que fica num escritório o dia todo imaginando meios de fazer explodir o mundo... — Parece que você tem uma ideia um tanto sinistra de minhas funções na NATO. Talvez você esteja lendo demais os jornais comunistas. — E tudo isso aparece em sua cara — continuou Bresach, alucinado, andando de um lado para outro, na sala. — A rendição, a corrupção, os golpes, a sensualidade. Você é feio! — Ele gritava. — Você é um velho feio! E ela me deixou por você! Vou lhe dizer uma coisa — gritou ele, feito louco. — Eu sou bonito! Pergunte a ela você mesmo, pergunte se ela não disse que sou bonito. Jack riu, forçado a isso pela descrição surpreendente que Bresach fazia de si mesmo. — Isso mesmo, ria — disse Bresach, de pé, ameaçadoramente, sobre Jack. — Era isso que eu devia esperar de um homem como você. Qualquer palavra verdadeira, qualquer descrição verdadeira de como são as coisas o constrange, e por isso você ri. Esse riso de coquetel, de bar, esse riso diplomático, esse riso gasto. Um dia esse raio de riso vai engasgar vocês todos. — Você está delirando, menino — disse Jack, calmamente. — Acho melhor você sair daqui. — O que foi que você prometeu a ela? — perguntou Bresach. A cara dele estava mortalmente pálida, a não ser dois pontinhos redondos de cor escaldante em seus maxilares. Por um momento, Jack ficou pensando se o rapaz estaria doente, se o verdadeiro motivo de sua ida para Roma não seria porque era tuberculoso. “Keats em seu leito de agonia no aposento acima da Escadaria de Espanha, as senhoras inglesas pintadas, falando animadamente demais nas casas de chá, evitando os fatais invernos londrinos, tossindo nervosamente em seus lenços.” Ele teve um impulso de dizer ao rapaz para ir consultar um médico. — O que foi que você ofereceu a ela naquele raio de almoço? — gritava Bresach. — Que truque usou? O que fez com ela? Embriagou-a? O que foi que lhe deu? Dinheiro, joias? Que mentiras lhe contou? Disse que se divorciaria de sua. mulher e casaria com ela e a levaria de volta para os Estados Unidos? — Vamos acertar as coisas — disse Jack, corrigindo-o, levantando-se. — Não disse nada a ela e não lhe ofereci nada. Nunca nem me ocorreu que eu a quisesse. Se você está tão louco pela verdade, essa é a verdade: ela se meteu em minha cama sem ser convidada. Se quer saber — disse Jack, inflexivelmente, avançando sobre o rapaz, querendo livrar-se dele de uma vez por todas —, ela foi voluntária. Uma voluntária entusiástica. Bresach olhou para ele furioso e pulou de repente, soltando o braço. O golpe foi louco e lento e Jack automaticamente esgueirou-se, esmurrando Bresach no lado da cabeça. Ao dar o murro, Jack recuou um pouco, não querendo machucar Bresach demais. Mas até o meio golpe abalou o rapaz. Ele não caiu, mas cambaleou, estendeu as mãos cegamente para a frente, procurando manter o equilíbrio, e deu uns passos para trás, virando-se. Acabou contra a parede, debaixo de uma das gravuras da Roma medieval, a cabeça inclinada contra a parede, a face torcida com a pressão. — Oh, Cristo! — murmurou Jack, olhando para ele, envergonhado com o que tinha feito, com o reflexo defensivo que o fizera esmurrar o rapaz. Bresach ficou naquela posição estranha e torcida contra a parede, encurvado, recuperando-se, de costas para Jack, respirando com dificuldade. — Desculpe — disse Jack. Ele tocou na fazenda grossa do casaco cáqui no ombro de Bresach. — Não tive intenção... — Você tem tanta sorte... — murmurou Bresach, falando para a parede, sem mover a cabeça, encostado ao reboco. — Você tem tudo. Eu não tenho nada. Ela não significa nada para você. Você nem a

quer. Há dez mil garotas em Roma. Garotas mais bonitas. Por que não a devolve a mim? Naquele momento, sozinho na sala com o rapaz sofredor em quem batera, Jack sentiu que de bom grado lhe daria Veronica de volta, se pudesse. Ou pelo menos diria que procuraria dá-la de volta. Naquele momento, ele não sentia o menor interesse por Veronica. Era só quando ela estava ali, junto dele, com seus olhos ousados e seus truquezinhos de sacudir o cabelo, de lamber o canto da boca, de tocar seus dedos com aqueles dedos longos e macios, que ele a desejava. “Se não tornasse a vê-la”, pensou ele, “a esqueceria em dois dias.” No momento, ele estava mais aborrecido com ela do que outra coisa por tê-lo envolvido nessa encrenca ridícula com Bresach. Mas, claro, não podia dizer isso, nem a ela nem ao rapaz. Tampouco poderia dizer ao rapaz, por mais magnânimo que quisesse ser, que lhe entregaria sua garota. Depois do que Veronica dissera a respeito de Bresach no almoço, era difícil imaginar que ela voltasse para ele. “Existem possessões”, pensou ele com tristeza, “que nem mesmo os mais generosos entre nós podemos transformar em presentes.” — Quer mais um drinque? — perguntou Jack, desanimado, tornando a tocar o ombro de Bresach. Bresach endireitou-se, depois virou-se e enfrentou Jack. O lado esquerdo de seu rosto estava arranhado e vermelho. — Não quero nada de você — murmurou ele. — Cometi um erro. Cometi um grande erro hoje. Eu devia ter trazido minha faca. Ele levantou a gola do casaco em volta das orelhas e saiu do apartamento. Jack deu um suspiro e esfregou os dedos da mão direita. Por um momento, tinham ardido, mas o golpe fora tão leve que sua mão agora estava normal. Ele foi até a janela e olhou para baixo, para a estreita rua romana, onde uma Alfa Romeo estava rugindo como um leão diante de um sinal vermelho e uma garota de uniforme de garçonete se apressava pela calçada com três xícaras de café numa bandeja de prata. Pensou em sair e deixar um bilhete para Veronica, dizendo que tinha tido um chamado. Depois ocorreu-lhe que o motivo por que admitia essa retirada se relacionava com a última ameaça de Bresach, e uma sensação quase infantil de desafio diante de uma aposta o levou a resolver ficar e esperar por ela. — Seu velho feio — murmurou ele, lembrando-se. Furioso, foi para o espelho grande sobre a lareira e contemplou-se. Estava ficando escuro e o reflexo de seu rosto era sombrio e misterioso. Seu rosto era triste, pensativo, marcado pela experiência, e os olhos eram claros e vivos. “Não, não sou um velho feio.” Procurou em seu rosto traços de complacência, cinismo, rendição. “Não, o rapaz está mentindo.” Ou, pelo menos, mentindo em parte. Ou, com pouca sorte, profetizando uma cara que poderia, se não tomasse cuidado, aparecer no futuro. “Bom, então”, disse ele consigo mesmo, “tomaremos cuidado.” — Depois que se passa três dias na Itália, contemplando esses rostos mediterrâneos — dizia o compositor americano —, não se aguenta mais olhar para rostos americanos. Parecem tão inacabados! — Era convidado da academia por um ano e tinha escrito música bem boa, Jack se lembrava. Jack achava que um homem que compunha música boa como a dele devia ter mais senso e não dizer essas coisas. Com um copo de uísque na mão, Jack voltou para o bar, na extremidade do imenso salão de seda vermelha do Palazzo Pavini, naquele momento cheio dos amigos dos Holt, amigos de amigos, pessoas que trabalhavam no filme de Delaney, um punhado de estrelinhas, jornalistas, gente de embaixada, dois padres irlandeses de Boston, um bando de universitárias excursionando pela Europa, alguns rapazes da embaixada, três ou quatro divorciadas que moravam em Roma porque seu dinheiro de pensão rendia mais na Itália, um publicitário de uma companhia de aviação e dois pilotos, acompanhados de comissárias francesas, um grupo de médicos ingleses e americanos que estava em Roma para uma conferência sobre doenças dos ossos, o bando costumeiro de jovens italianos, com seus belos ternos, que contavam entre eles com uma boa proporção de títulos (os condes degenerados de Holt) e que rodeavam as duas mais bonitas das universitárias americanas, dizendo piadas em particular, desprezando com superioridade o resto dos convidados, um animado homem de Chicago, meio calvo, que se dizia conselheiro de

investimentos para firmas americanas que queriam fazer negócios na Europa, e que, comentava-se, era da CIA, dois ou três ítalo-americanos representando as grandes companhias em Roma, peritos em câmbio e reservas de hotéis e concessões da polícia e de confiança para mandar flores para as mulheres de gente importante que chegasse a Roma. Havia ainda dois casais judeus de meia-idade que acabavam de voltar de Telaviv e um plantador de algodão egípcio, cujas terras tinham sido confiscadas por Nasser, e duas senhoras inglesas de rosto magro e olhos ardentes que fingiam que nunca tinham sido tuberculosas, que quase conseguiam viver da datilografia e que bebiam tudo o que lhes era oferecido. Havia ainda um ator que tinha sido acusado de ser comunista em Hollywood, seis ou sete anos antes, e que não conseguia mais encontrar trabalho nos Estados Unidos, porque, quando ele confessou e denunciou seus amigos, sua moda tinha passado e os produtores e diretores o haviam esquecido. Ele aprendeu o suficiente de italiano para representar papéis secundários em filmes italianos, e,depois de anos de luta, o Departamento de Estado afinal lhe tinha conseguido um passaporte normal. Tucino também estava lá, com seu amigo Tasseti, e Barzelli, e Delaney e Clara, sua mulher. Stiles estava meio inseguro junto do bar, com um sorriso superior e fixo nos lábios. Jean-Baptiste Despière estava no meio da sala, formando um grupo de três com Moss, o amigo de Jack da embaixada, e um jovem diretor cinematográfico italiano que tinha conquistado um importante prêmio em Veneza, no ano anterior. No meio de tudo aquilo, os Holt passeavam de braços dados, corados com sua hospitalidade, sorrisos encabulados passando por suas fisionomias, satisfeitos porque em Oklahoma nunca teriam podido dar uma festa como aquela. Mrs. Holt ainda não estava bêbada.

12 O volume das conversas no salão enfeitado estava ao nível do terceiro drinque, uma base de risos masculinos submersos e floreados pelo coro em massa dos sopranos, estridentes com o álcool. Caçadores e caçadoras, excitados com a abundância de caça, atirando ao mais leve movimento dentro da folhagem internacional de conversas; os convidados se moviam agitados, procurando novas posições vantajosas. Quando Jack era mais moço, quando era solteiro ou divorciado ou procurava mulheres, de vez em quando ele se divertia nesses aglomerados sem sentido de pessoas que não tinham a menor relação umas com as outras, que provavelmente nunca mais se veriam, que não atendiam a nenhuma necessidade social nem compunham qualquer padrão social coerente. Ou, antes, o padrão era formado e rompido todas as noites entre sete e dez horas, toda uma sociedade turbulenta, flutuando no álcool, nascida e enterrada, chegando e partindo, amando, copulando, desesperando-se, ferindo, lisonjeando e conspirando noite após noite nas capitais do mundo. Naquela noite, Jack não estava interessado e pensava em qual seria a primeira oportunidade que teria para sair sem melindrar os Holt. Ele tinha convidado Veronica para ir com ele, mas ela recusara. “Tenho uma ligação com você por duas semanas”, dissera ela, quando se despediram no hotel naquela tarde, “e quero que seja particular. Não quero desperdiçá-la numa dessas festas. Não quero nem falar com mais ninguém, essas duas semanas.” Ele tinha marcado um encontro com ela para jantar às nove e meia e ficou chocando seu único uísque, conscientemente permanecendo sóbrio para ela, pensando que talvez fosse o único homem naquela sala que tinha sido ameaçado de morte naquela tarde. — Telaviv está uma maravilha — dizia uma das matronas de Nova York. — Até os carteiros são judeus. — Eu, por exemplo — dizia o jovem diretor cinematográfico no grupo de Moss e Despière, falando francês, por causa de Moss —, tenho os dois ingredientes do italiano completamente misturados. Vejam a parte posterior de minha cabeça. — Ele virou de um lado para outro, mostrando a parte posterior da cabeça. — Chata. Nasci em Veneza, de pai veneziano. O italiano do norte é realmente suíço, alpino, tirolês, bávaro, a linha chata, severa, não especulativa, um tanto antiestética. Mas meu rosto, minha mãe nasceu na Calábria, vejam os olhos tristes, escuros, de órfão, o espírito do sul, o humor, os rasgos repentinos de energia, os longos períodos de langor. O italiano do norte é prático, continuamente enérgico, e,como a maior parte das pessoas que são por demais atualizadas, não é muito interessante em si. Os sulistas são os sonhadores, os filósofos, os pensadores abstratos, os não-realizadores, os bisões intelectuais remanescentes da Itália, que, por si sós, nunca teriam construído um dínamo elétrico ou mantido uma locomotiva em funcionamento, que ainda continuariam a lavrar a terra com um arado de madeira e uma junta de bois e um burro. É a combinação dos dois elementos, o sonho e os dedos, que produz a mistura explosiva e esperançosa do italiano, a decadência de repente explodindo em alguma ideia nova e surpreendente. Dom Quixote e Edison, Henry Ford e Benedetto Croce. A qualquer momento, somos capazes de descobertas espantosas. Mesmo agora podemos ensinar muita coisa à Europa. Por exemplo, vejam como nos recuperamos muito mais depressa do que todos os outros, depois da guerra. Por quê? Porque admitimos imediatamente que fomos vencidos. A derrota é tão natural quanto outra coisa qualquer aos italianos. É como o tempo, e nós a aceitamos. Isso não deu certo, dizemos a nós mesmos, vamos passar a outra coisa. Os franceses, por outro lado, os franceses razoáveis — ele olhou zombeteiramente para Despière —, ficam fingindo que não foram derrotados. Estão sempre numa posição de desafio, ficam à escuta de uma voz que diga: “Vocês perderam.” Os franceses estão tão ocupados em defender o passado, em termos ilusórios, que ainda não passaram ao presente. Vou contar mais uma coisa

a respeito de italianos e franceses. O mundo perdoou nossos pecados, a nós, italianos, porque nós nos perdoamos tão depressa. Os franceses não foram perdoados, ouçam a amargura nas vozes de seus amigos ingleses e americanos, até hoje, porque os franceses não conseguem se perdoar nada. Nem Stavisky, nem Blum, nem a Linha Maginot, Pétain, Laval, Doriot, a Milícia, nem mesmo De Gaulle, enquanto os italianos se perdoam alegremente, não só suas derrotas, mas também suas vitórias, Adis Abeba bem como Guernica, Albânia e Grécia, Mussolini e o rei, a invasão da França e a rendição secreta depois da Sicília. Jack ficou escutando a voz inteligente e de sotaque saindo da boca romana, móvel, pensando: “Onde estava você, amigo, quando Mussolini aparecia na sacada? Você não levantou o braço bem alto?” — Quanto aos alemães — continuou o diretor, gesticulando, rindo, divertindo-se com seus argumentos, sua plateia de ex-inimigos —, eles, é claro, não precisam se perdoar nada. Eles tinham razão, eles acham, sempre tiveram razão, os fatos não o comprovam? E só se curvaram diante da força superior. São um povo de sorte, os alemães. São sustentados pelas duas forças raciais mais poderosas: a noção de sua virtude e a autocomiseração... Jack passou adiante, afastando-se do dilúvio de meias-verdades, do homem prolixo e bonito, com sua juba de cabelos negros como carvão, sua disposição arrumadinha e satisfeita de categorias — norte, sul, cabeças chatas, cabeças redondas, os sonhadores, os dedos, os derrotados e os não-derrotados, os perdoados e os não-perdoados, tudo claro e organizável depois do terceiro drinque. Clara Delaney, sozinha, encostada a uma parede de brocado, fingia sorrir à conversa de um grupo junto dela, que falava italiano. Encontrou o olhar de Jack e acenou para ele. Ele foi até junto dela e beijou-a no rosto. Era uma mulher feia, macilenta, amarelada, magra e angulosa, bem passada dos quarenta, que tinha sido secretária de Delaney durante dois dos outros casamentos dele. Tinha olhos proeminentes ligeiramente hipertiroidianos, escuros, famintos, que pareciam permanentemente ofendidos. — Como vão as coisas, Jack? — perguntou ela, sua voz seca, sem música. — Como vai a família? Como é que você tem essa cara tão jovem? Nunca mais foi aos Estados Unidos? Jack respondeu às perguntas como pôde, observando que, enquanto ele falava, Clara espiava nervosamente por cima do seu ombro, olhando para Delaney, Barzelli e Tucino, que estavam conversando juntos, no bar. “Não mudou nada em todos esses anos”, pensou Jack, “Clara, sempre sozinha, fazendo sua patrulha solitária, sofrendo suas feridas solitárias, espionando o marido de longe, como um soldado observando a ação de forças inimigas no campo.” — Você gosta de Roma? — perguntou Jack, caindo imediatamente na banalidade, o tributo inevitável do mundo a Clara Delaney. — Detesto — disse Clara. — São tão falsos! Nunca se ouve uma palavra sincera. E é a mesma velha história com ele indicou Barzelli e o marido, com um movimento amargo da cabeça. — A doença da estrela. Não consegue ficar longe delas. Se ele fizesse um filme com os ubanguis, seria obrigado a ir para a cama com a negra que fizesse o papel de rainha dos canibais. — Ora, Clara — disse Jack, acalmando-a. — Estou certo de que você está inventando coisas. — Ah! — Clara deu um grunhido curto, os olhos amarelados fixos no marido. — Inventando coisas! Se eu lhe contasse onde encontrei manchas de batom! Clara nunca tinha sido famosa como mulher que guardasse seus problemas para si, e Jack viu que os anos não a haviam tornado mais discreta. Ele fez um barulhinho compreensivo, sem se comprometer, ansioso por evitar mais revelações. — Vou lhe contar, Jack — continuou Clara, em voz dissonante. — Se ele não precisasse tanto de mim, eu o teria abandonado há anos. Juro que sim. Por Deus, se este filme for um sucesso, acho que o farei. Aí, ele vai ver quem vai segurar a mão dele, paparicá-lo e dizer-lhe como ele é formidável quando saírem as críticas, não importa o que digam os filhos da mãe. Sabe, quando o último filme dele estreou em Nova York, ele ficou sentado no quarto e chorou como um bebe durante três dias. É aí que ele me

chama — disse ela, com uma satisfação fria. — É aí que ele me chama de seu único amor. diz que morreria sem mim. Quando está magoado e sangrando e sem saber para onde foi tudo. Agora, olhe para ele. O dinheiro está entrando, nesses meses, todo mundo está dizendo sim, Signor Delaney, não Signor Delaney, como quiser, Signor Delaney, e ouvindo as histórias dele e rindo de suas piadas. Ele se esquece de que em algumas ocasiões já chorou durante três dias, esquece o que me deve, está tão petulante que nem se preocupa em limpar o batom quando chega a casa, de noite. — Ora, Clara — disse Jack, sentindo-se obrigado, por amizade, a dizer uma palavra apaziguadora. — Não vá dizer que você não sabia que ele era um homem difícil, quando se casou com ele. Você, melhor do que ninguém. — Eu sei, eu sei — disse Clara. — Os anos em que menti por ele para todas aquelas mulheres. Tal e qual aquela Hilda dele hoje mente para mim. Mas seria de supor que um dia ele havia de desistir, não? Que havia de melhorar. Afinal, ele está com cinquenta e seis anos. E você? — Ela olhou para Jack com dureza. — Você não leva a sua mulher ao desespero, leva? — Nós temos nossos problemas, como todo mundo — disse Jack com cuidado. — Ninguém tem os problemas que eu tenho — falou Clara, positiva. — Veja só aquela. — A sua boca encrespou-se numa careta de desagrado ao indicar Barzelli, de pé junto de Delaney, o ombro dela justamente tocando o dele. — Aquela italiana gorda e vulgar. Gostaria de ver como ela estará quando tiver a minha idade. E são desavergonhados. Deixam que todos saibam. O raio da cidade inteira. Ele não se importa com o que possam dizer dele. Isso era uma das melhores coisas que ele tinha, pensou Jack, ele nunca se importava com o que alguém pudesse dizer dele. — Não que ele precise sair de casa — continuou Clara. — Ele é louco por mim. Pergunte a cie, ele lhe dirá. Deus sabe. não sou nenhuma beleza, nem nunca fui, mas ainda tenho corpo de mocinha... — Ela parou e ficou olhando furiosa para Jack, para ver se ele a contrariava, dizendo-lhe que ela não tinha corpo de mocinha. Jack acendeu um cigarro, complicadamente. — Nós temos um relacionamento apaixonado — disse Clara em voz alta. — Como amantes jovens, no vigor da mocidade. Nunca se sacia de mim. — Ela hesitou. — Às vezes — acrescentou. — Em certos meses. “Roma”, pensou Jack, inquieto. “Todo mundo se confessa, em Roma. A mim. Deve haver uma expressão especialmente absolvente em minha fisionomia, hoje em dia.” — E não é só isso — continuou Clara, capítulo mil no interminável livro do amor, autocomiseração, autojustificativa, ciúmes, desejo, posse, que ela iniciou no dia em que entrou, jovem sem beleza, no escritório do estúdio em Hollywood e disse: “Mr. Delaney, mandaram-me da sala das estenógrafas.” Ela baixou a voz, como se tivesse informações secretas, só para os ouvidos de Jack, e ele teve de chegar mais perto para ouvi-la, por cima do barulho das conversas em volta deles. — Há o trabalho. Quem você acha que o ajuda com os textos? Quem você acha que o ajudou a reescrever este filme? “Ah!”, pensou Jack, “criminosos por toda parte, escrevendo seus crimes conjuntos e anônimos.” — Nós pensamos como um só — cochichou Clara. — Quando trabalhamos juntos, estamos ainda mais juntos do que quando estamos na cama. E aí ele vai para o set e há outra daquelas prostitutas gordas remexendo o traseiro para ele e é como se eu tivesse morrido. Ele se esquece dos dias e noites de trabalho, ele se esquece... — Ela fungou. Em seguida, ela se animou, propositadamente. — Não gosto de reclamar. Nunca reclamei na vida e não vou começar agora. E, desta vez, vai valer a pena. Você leu o roteiro, não leu? Viu o filme? — Vi — respondeu Jack. — É lindo — disse Clara, implorando. — Não é lindo? — Sim — concordou Jack. — Lindo. — Vai fazer muita diferença, este filme — disse Clara, quase confidencialmente. — Vai levá-lo

para cima. Você não acha? — Sem dúvida — concordou Jack. Nada havia em seu relacionamento com Delaney que o obrigasse a ser sincero com a mulher dele. — Sabe, estão atrás dele para assinar um contrato de três filmes bem aqui em Roma — disse Clara, com orgulho. — Mr. Holt me contou alguma coisa a respeito. — Estou procurando um apartamento com contrato de um ano. Com uma boa cozinheira. Ter algum motivo para ele voltar para casa de noite. Se ele tiver uma coisa segura assim, tenho uma esperança de que ele há de se acalmar mais. Os últimos anos têm sido tão... — Ela parou, olhando pensativa para o outro lado da sala, para Delaney e Barzelli. — Sabe o que eu vou fazer, Jack? Vou sair daqui. Ele detesta achar que estou sendo dominadora. Vou sair sem ninguém ver. É preciso saber lidar com um homem assim, Jack, saber quando se tem de ficar junto dele e quando não se tem. Não diga a ninguém que vou embora. — Ela se esgueirou para a porta no meio dos convidados e desapareceu, sem ninguém notar. Duas horas depois, Delaney poderia olhar em volta, vagamente, pensando onde ela estaria, e depois dar de ombros e ir embora com Barzelli, aliviado por não ter de inventar uma desculpa para mandar a mulher sozinha para casa. Jack suspirou. “E já houve uma época em que eu acreditava que as pessoas fossem às festas para se divertir.” Sentiu alguém pegando de leve em seu braço. Era Mrs. Holt, acompanhada como sempre do marido. — Foi muita gentileza sua vir — disse Mrs. Holt, em sua voz fina e de desculpa. — Deve haver tanta coisa que o senhor tem para fazer em Roma, tantas pessoas para ver... — Em absoluto — disse Jack, apertando a mão de Holt. Este estava com um smoking de seda selvagem, obviamente feito em Roma, e Mrs. Holt era a única mulher presente que estava de vestido longo. Era de um azul jovem, frágil, combinando com sua voz, e seus ombros estavam cobertos por um xale de tule. Suas mãos estavam sempre esvoaçando para cima, pois ela ficava arrumando e rearrumando o xale. — Não conheço muita gente — disse Jack. — E, por falar nisso, Sam, a respeito daquele assunto de que falamos ontem à noite... — Ah, sim — disse Holt, com um olhar rápido e preocupado, de esguelha, para a mulher. — Se for muito trabalho... — Falei com uma pessoa do consulado — continuou Jack. — Um Mr. Kern. Talvez você pudesse ir conversar com ele. Acho que talvez ele possa ajudar em alguma coisa. Holt ficou radiante. — Isso foi muito gentil de sua parte, Jack — disse ele. — Agir assim tão depressa. — Ele precisa de algumas informações — prosseguiu Jack, não se achando preparado para avisar nada de mais definido a Holt. — Achei melhor você falar com ele pessoalmente. — Claro, claro — concordou Holt. — É sobre os papéis para a adoção — explicou ele a Mrs. Holt. — Elas tem olhos tão tristes — disse Mrs. Holt, e seus olhos também se encheram de lágrimas. — São tão educadas que é de partir o coração. Não consegui dormir a noite toda, depois da última visita. Pobres senhoras e cavalheiros, naquelas roupas pretas horríveis. Gostaria de levá-los todos para mim. — Jack — disse Holt —, gostaria de lhe fazer uma pergunta. Você está comprometido com o Governo para toda a vida? — Bem — respondeu Jack, intrigado. — Eu não pensei muito nisso. Eles não têm nada que me possa prender, se é isso que quer dizer... — Termino quando voltar. Estamos no século XX, as atrocidades antes da arte. — Olhou para o relógio. — Estou atrasado. — Bateu no braço de Jack e sorriu para ele, seu sorriso doce, jovem e amigo,

sem malícia, virou-se e foi andando pelo meio dos convidados para sua guerrinha secreta, figurinha dura e emproada em seu terno romano bem talhado. Jack o viu sair e observou que ele não se despediu de ninguém. Jack pegou o volume em seu paletó. O peso o perturbou. “Se eu não voltar, abra o envelope.” Obedecendo a um impulso repentino, Jack foi andando entre o pessoal para a porta, para seguir Despière. “Se um homem vai para uma guerra, por menor que ela seja”, pensou ele, “seu amigo pode deixar um coquetel e acompanhá-lo. Pelo menos parte do caminho. Pelo menos até o táxi.” Mas quando ele se aproximou da porta um grande grupo de convidados ia entrando, bloqueando o caminho e, antes que ele pudesse passar, sentiu que uma mão o agarrava com força pelo cotovelo, prendendo-o. Jack virou-se e viu que era Stiles, sorrindo para ele fixamente, junto dele, a mão firme em seu braço. — Olá, irmão — cumprimentou-o Stiles. — Estive querendo falar-lhe a noite toda. — Em outra ocasião, se não se importa. — Jack procurou afastar-se sem chamar muito a atenção das pessoas em volta, mas Stiles, que era um homem grande, agarrou-o com mais firmeza. — Isso não é maneira de tratar um velho amigo, irmão. Não me diga que não se lembra de mim, Mr. Royal. — Lembro-me de você, sim — disse Jack. Ele deu um puxão no braço e livrou-se, mas Stiles deslizou, com uma agilidade surpreendente, para interpor-se entre ele e a porta, bloqueando-a. Os dois homens se defrontaram. Stiles conservava no rosto o sorriso de bêbado, turvo e brigão, satisfeito e feliz de fazer uma cena. “Não vale a pena”, pensou Jack. “A publicar um livro sobre a guerra, cujo vilão era um capitão do Exército americano. — Jack... — Era Despière, tocando no braço dele. — Eu estava esperando que você viesse hoje. — Não tive oportunidade de falar com você — disse Jack, apertando-lhe a mão. — Estava ocupado tentando imaginar se eu era um bisão de cabeça redonda ou um Henry Ford de cabeça chata. Despière riu. — Gosto dele, daquele italiano. Pelo menos ele tem teoria. Você nem imagina quanta gente eu conheço hoje em dia que se recusa a ter qualquer teoria. — Ah, por falar nisso — disse Jack, forçando-se a falar com displicência —, conheci um rapaz que se diz seu amigo. Um garoto de nome Bresach. — Bresach? — Despière franziu as sobrancelhas, num esforço de memória, e mexeu nas franjas de cabelo que lhe caíam na testa. — Amigo meu? — Foi o que ele disse. ...... Ah, sei. Já o vi algumas vezes com Veronica. — Olhou para Jack com malícia. — Rapaz muito bonito. Veronica é louca por ele. — Foi o que ele me disse — disse Jack, sem se comprometer. — O que é que ele queria? — Nada. Conheci-o por acaso. — Cuidado com ele. Uma vez, ele tentou suicidar-se no banheiro de alguém. É um rapaz muito dramático. Já o vi dar um bofetada na cara de Veronica, porque ela sorriu para um velho amigo num restaurante. — E o que foi que ela fez? — perguntou Jack, não acreditando em Despière. — Ela parou de sorrir aos velhos amigos. — Despière olhou em volta e puxou Jack para um canto. — Quer fazer um favor para mim, Jack? — perguntou, a voz displicente como sempre, mas os olhos sérios, pesquisando o rosto de Jack. — Claro — respondeu Jack. — O que é? Despière pós a mão dentro do bolso do paletó e puxou um envelope comprido, selado.

— Guarde isso para mim por um pouco. — Entregou o envelope a Jack. — Guarde-o, guarde-o. Jack pôs o envelope, que era gordo e bojudo, dentro do bolso. — Quer me dizer o que fazer com ele? — perguntou depois. — É só guardá-lo. Quando eu voltar, pode devolvê-lo. — Como assim, quando você voltar? — Vou para a Argélia amanhã — disse Despière. — Telegrafaram-me do escritório hoje de manhã. Há uma história que querem que eu faça. Vou ficar fora só uns seis ou sete dias. Você ainda estará aqui, não? — Sim. — O jornal quer umas duas mil palavras sobre como são cruéis as atrocidades argelinas — disse Despière. — Sou o redator de atrocidades. Nenhuma revista decente hoje em dia pode dispensar um desses redatores. Obrigado, você é um bom rapaz. — Quer me contar mais alguma coisa? Despière deu de ombros. — Bom... — disse ele, devagar — se eu não voltar, abra o envelope. — Ora, Jean-Baptiste — começou Jack. Despière riu e disse: — É uma guerrinha de nada, eu sei, mas parece que estão usando pólvora de verdade. De qualquer forma, os redatores de atrocidades têm de pensar em todas as eventualidades. E mais uma coisa: não diga a ninguém que eu vou para a Argélia. A ninguém — repetiu ele, devagar. — Onde quer que diga que está — perguntou Jack — se alguém perguntar? — Em St.-Moritz. Ouvi dizer que a neve estava ótima. Vou ficar com uns amigos. Mas você não sabe o nome deles. — E o artigo sobre Delaney? — Termino quando voltar. Estamos no século XX, as atrocidades antes da arte. — Olhou para o relógio. — Estou atrasado. — Bateu no braço de Jack e sorriu para ele, seu sorriso doce, jovem e amigo, sem malícia, virou-se e foi andando pelo meio dos convidados para sua guerrinha secreta, figurinha dura e emproada em seu terno romano bem talhado. Jack o viu sair e observou que ele não se despediu de ninguém. Jack pegou o volume em seu paletó. O peso o perturbou. “Se eu não voltar, abra o envelope.” Obedecendo a um impulso repentino, Jack foi andando entre o pessoal para a porta, para seguir Despière. “Se um homem vai para uma guerra, por pequena que ela seja”, pensou ele, “seu amigo pode deixar um coquetel e acompanhá-lo. Pelo menos parte do caminho. Pelo menos até o táxi.” Mas quando ele se aproximou da porta um grande grupo de convidados ia entrando, bloqueando o caminho e, antes que ele pudesse passar, sentiu que uma mão o agarrava com força pelo cotovelo, prendendo-o. Jack virou-se e viu que era Stiles, sorrindo para ele fixamente, junto dele, a mão firme em seu braço. — Olá, irmão — cumprimentou-o Stiles. — Estive querendo falar-lhe a noite toda. — Em outra ocasião, se não se importa. — Jack procurou afastar-se sem chamar muito a atenção das pessoas em volta, mas Stiles, que era um homem grande, agarrou-o com mais firmeza. — Isso não é maneira de tratar um velho amigo, irmão. Não me diga que não se lembra de mim, Mr. Royal. — Lembro-me de você, sim — disse Jack. Ele deu um puxão no braço e livrou-se, mas Stiles deslizou, com uma agilidade surpreendente, para interpor-se entre ele e a porta, bloqueando-a. Os dois homens se defrontaram. Stiles conservava no rosto o sorriso de bêbado, turvo e brigão, satisfeito e feliz de fazer uma cena. “Não vale a pena”, pensou Jack. “A essa altura é provável que eu não consiga mais pegar Jean-Baptiste, de qualquer jeito.” — O que é que há? — perguntou Jack, com rispidez. Ele se sentia constrangido em presença do

ator, tolamente culpado. — Achei que talvez você e eu pudéssemos ter uma conversinha simpática — disse Stiles. Ele tinha uma maneira curiosa de falar, lábios duros, quase sem mover a boca, o disfarce da noite do bêbado. — A respeito de arte e desempenhos e assuntos conexos. Sou um velho admirador seu. Quando comecei a representar procurava falar como você. — Ele riu com vontade. — E agora estão lhe pagando para falar como eu. As pequenas ironias da vida, hem, Jack? — Ele oscilou, seu rosto chegando perto do de Jack, o cheiro do gim forte em seu hálito, a bebida em seu copo derramando e manchando suas calças, sem ele perceber. — Você não vai negar isso, vai, Jack? As sessõezinhas secretas na sala de dublagem. Você tinha reputação de ser um sujeito honesto, não vai negar isso, vai? — Não vou negar nada — disse Jack. — Você viu meu desempenho. Na verdade, você deve ser o maior especialista em meu desempenho, hoje — disse Stiles, em voz bem alta. — Tem alguma sugestãozinha para eu melhorar? — Tenho — disse Jack. — Entre para os Alcoólicos Anônimos. — Grande ajuda — disse Stiles. — Grande ajuda. Parece até minha maldita mãe. — Ele bebeu seu martini, fazendo barulho. — Diga-me, como vai soar a minha voz? Sincera e perturbada? Patética e corajosa? Viril e trágica? As garotas vão gostar, Jack? Meu destino está em suas mãos, Jack. Não brinque com isso. — Não estou brincando com nada — disse Jack. — Talvez, quando o filme aparecer, eu o processe por deformação de personalidade. — Stiles riu alto de sua piada. — Meio milhão de dólares. Bem que era bom ter meio milhão de dólares. Especialmente quando se espalhar a notícia de que tiveram de trazer um funcionário para ler as minhas falas em Roma. Puxa, isso vai aumentar o meu cartaz lá em casa, não vai? — Pare de chorar — disse Jack, aborrecido com o ator de mau hálito, manchado de gim, que o agarrava e fazia caretas junto de seu rosto. — Você só pode culpar a si mesmo. — As palavras mais tristes da língua ou da pena — disse Stiles, rindo de boca aberta, a saliva borbulhando nos lábios. — Você só pode culpar a si mesmo. — Ele mexeu a mão e roçou o ombro de Jack com o copo, que caiu no chão, despedaçando-se. Stiles nem olhou para baixo. — Bem feito — disse ele, olhando em volta, belicoso. — Os filhos da mãe não me convidaram. Sou o pária fedorento da companhia. Sou o leproso de Roma. Mas eu vim assim mesmo. Eles não tiveram a coragem de dizer: “Dê o fora, parceiro, esta festa é para senhoras e cavalheiros.” Vim por sua causa, Jack. Sou um velho fã, Jack, e vim por sua causa. Não está comovido? — Por que não vai para casa dormir? — aconselhou-o Jack. — Você não sabe de nada, Jack. — Stiles sacudiu a cabeça, triste. — Um homem feito como você e não sabe de nada. Ainda falta um litro para eu dormir, rapaz, um bom litro... — Então, divirta-se. — Jack começou a se afastar, mas Stiles tornou a segurá-lo, a mão trêmula mas apertada na manga de Jack. — Espere um minuto, Jack — disse Stiles. — Tenho uma proposta a lhe fazer. — A voz baixou até um cochicho rouco e a pele de bêbado em volta de sua boca tremeu frouxamente: — Vá embora. Saia dessa cidade. Diga àquele filho da mãe do Delaney que você pensou melhor. Diga que é muito orgulhoso. Diga que sua mulher está à morte. Qualquer coisa. Vá hoje, hem, Jack? Não lhe vou perguntar quanto lhe estão pagando, mas eu pago o mesmo. Para não fazer nada. Do meu bolso — disse ele, desesperado, os olhos injetados piscando, como se estivesse tentando conter as lágrimas. — Vá tirar umas férias. À minha custa. Se você fizer isso, juro que não toco numa gota até terminar o filme... — Ele parou. Deixou a mão cair da manga de Jack. Riu alto e limpou a boca. — Ora, eu estava brincando. Que diabo, não lhe daria nem dez centavos. Era uma piada, rapaz, só queria ver o que você diria. Que raio de diferença faz para mim? O filme é uma droga mesmo. Talvez eu o contrate como meu fantasma pessoal. Pode me dublar em todos os meus filmes. Provavelmente me dará uma nova vida. Divirta-se em Roma, rapaz. — Ele deu um

tapa no ombro de Jack e depois caminhou, de costas retas, para uma janela, abriu-a e ficou ali, olhando para a rua ventosa e escura, aspirando o ar, sorrindo. Jack queria sair naquela hora, apesar de ser cedo, para encontrar-se com Veronica, mas viu que Delaney o chamava. Abriu caminho por entre o perfume e as conversas, passando por dois médicos que bebiam suco de grapefruit em taças de champanhe. “Há um homem aqui”, dizia um dos médicos, com sotaque de Minnesota, “que diz ter efetuado curas extraordinárias de colite. Com uma alimentação de purê de batata durante cinco dias. De duas em duas horas por cinco dias. Mais nada. Quatro quilos por dia.” — O que é que aquele filho da mãe lhe estava dizendo? — perguntou Delaney quando Jack chegou perto dele e sorriu para Tucino, Barzelli e Tasseti. — Stiles. — Ele reclamou porque não foi convidado para vir aqui hoje — disse Jack. — Mas isso não impediu o filho da mãe de vir, não é? — disse Delaney. — Disse mais alguma coisa? — Ofereceu-se para me pagar para sair da cidade hoje — disse Jack. — Para parar a dublagem. — Ah, ele sabe — grunhiu Delaney. — Maurice — disse Tucino, com um sorriso tolerante. — O que é que você acha? Estamos em Roma. Há três mil anos que ninguém guarda um segredo em Roma. — Se ele me der mais trabalho no estúdio, dou-lhe um soco — disse Delaney, olhando furioso para a figura distante de Stiles, postado diante da janela alta. Tucino olhou para Stiles, com pouco caso. — O ator não vai dar trabalho — disse ele. — O salário dele está com um mês de atraso. Ele vai passar fome. — Se a gente pudesse voltar atrás, eu votaria a favor da Lei Seca — disse Delaney. — Especialmente para atores e escritores. — Deu de ombros, esquecendo-se de Stiles. — E Clara — disse ele, brigão. — Vi que ela lhe estava enchendo os ouvidos. O que é que há com ela? — Ela está pensando em arranjar uma boa cozinheira para você ter algum motivo para voltar para casa de noite. Uma refeição substancial. — Ah, meu Deus! — gemeu Delaney, enquanto Barzelli ria baixinho. — Uma cozinheira. Vou lhe contar, vou acabar me isolando numa cela de eremita e só saio para o primeiro dia de filmagem. — Com certeza — disse Jack. — Jack, meu amigo — disse Tucino, alisando a manga de Jack. — Estou muito feliz. Maurice me disse que você está indo muito bem na dublagem, muito apaixonado. — Maurice é um mentiroso — disse Jack. — Isso todos nós sabemos — disse Tucino. — Maurice é um mentiroso. Do contrário, o que estaria fazendo em Roma? — Ele riu, encantado com sua cidade. — Olá, Jack. — Sem ser observado, Brutton, o ator que não podia mais trabalhai1 em Hollywood, juntara-se ao grupo. Deu um tapa no ombro de Jack, com animação e nervosismo, e deixouse ficar ali, a mão estendida, um sorriso inseguro no rosto moreno e tenso. — Lembra-se de mim, não, Jack? — Claro — respondeu Jack, apertando-lhe a mão. — Ouvi dizer que você estava em Roma — disse Brutton. Tinha uma voz rouca e apressada, e percebia-se que ele se esforçava para que ela parecesse animada e cheia de uma confiança espontânea, mas não tapeava ninguém, muito menos a ele mesmo. Sua testa estava coberta de suor. Dava a impressão de uma pessoa que está tentando entrar num acontecimento esportivo com uma entrada falsificada. — Todo mundo acaba em Roma hoje em dia, não é, Jack? — riu muito e Jack sabia que ele lastimava estar fazendo esse barulho. — Olá, Mr. Delaney. — Virou-se para Maurice, estendendo a mão. — Estive pensando quando e que vai resolver que precisa de um bom ator e me chamar. Ainda falo inglês, sabe?

— Olá, Brutton — falou Maurice, sem expressão. Ignorou a mão estendida. O suor brilhava na testa de Brutton e ele piscava os olhos. — Minha mão está estendida, Mr. Delaney — disse ele. — Estou vendo — respondeu Delaney. Tasseti aproximou-se um pouco mais de Delaney, assistindo com prazer e interesse. Eram estas as cenas que empolgavam Tasseti, e ele sorriu um pouco, pronto para proteger seus patrões, castigar, cumprir seu destino de cão de fila. Brutton deixou cair a mão. Respirou ofegante, assobiando. — Jack apertou a minha mão — disse Brutton com voz estridente. — Ele não é soberbo para isso. Ele que, além de tudo, trabalha para o Governo. — Jack é diplomata — falou Delaney, olhando para Brutton friamente. — Ele tem que apertar a mão de qualquer filho da puta que pedir. — Tenha cuidado — disse Brutton, alto e numa voz vazia. — Não permito que as pessoas falem assim comigo. Delaney deu-lhe as costas e disse a Barzelli, tocando-lhe no braço com carinho: — Você está linda hoje, querida. Gosto de seu novo penteado. Brutton manobrou de jeito a enfrentar Delaney outra vez e Jack viu os dedos de Tasseti se torcerem, esperançosos, aguardando o primeiro momento de violência. — Vou dizer-lhe o que penso de você — disse Brutton a Delaney, em voz rouca. — Acho que você e um simpatizante comunista secreto. Ainda há muitos de sua laia em Hollywood, não pense que não. Da última vez que estive lá, fui ao Chasen’s, estava passando por uma mesa e olhava para o outro lado quando alguém me derramou um copo de bebida... Havia seis deles lá, homens importantes na indústria, contribuintes do Partido Republicano. Quando pedi que me dissessem quem tinha feito aquilo, eles riram ... — Acalme-se — disse Jack, envergonhado por Brutton, pela indústria cinematográfica, pelos americanos em sua terra e no estrangeiro. Pôs uma mão na manga de Brutton. O homem estava tremendo. — Delaney não poderia ser nada de secreto. E todo mundo sabe que ele passou anos sendo contra os comunistas, enquanto você ia às reuniões todas as terças de noite. Por que você não vai para casa? — A comissão me absolveu — continuou Brutton, obcecado. — Quando eu prestei meu depoimento, eles apertaram a minha mão e disseram que eu era um americano leal e patriota, que tinha reconhecido o seu erro e o tinha retificado com coragem. Posso mostrar-lhe a carta. — A comissão absolveria até um micróbio de tifo, se ele denunciasse os outros micróbios de tilo, como você fez — escarneceu Delaney. — Se quer saber de uma coisa, Brutton, acho que bem no fundo você continua a ser comunista, se é que é alguma coisa. Você é bastante estúpido para isso. Você é um covarde leal e patriota e berrou para salvar a sua pele e denunciou uma porção de pobres filhos da mãe, que eram seus melhores amigos e nunca fizeram algo pior do que assinar um papel dando vivas ao Exército russo em 1944. Tenho pena de você, mas não aperto a mão das pessoas por pena. se você está “duro” e precisa de esmola, vá ao meu escritório amanhã e lhe dou um dinheirinho. Porque, por princípio, eu acho que devo tentar conservar vivos todos os atores, até mesmo os maus como você, pois ganho a vida à custa deles. Agora dê o fora, já perturbou bastante. — Eu devia dar-lhe uma surra — murmurou Brutton, mas manteve as mãos dos lados do corpo. — Experimente — disse Delaney, calmamente. — Algum dia. — Virou-se para Barzelli. — Vamos tomar um drinque, querida — disse ele. Pegou o braço dela e foi para o bar. Tasseti sorria, observando Brutton com prazer. Tucino deu de ombros, enquanto dizia: — Para dizer a verdade, nunca vou entender a América. Brutton enxugou a testa com um lenço verde de seda, os olhos esquivos, quase chorando, olhando

de rosto para rosto. — Ele é um egomaníaco — disse Brutton, em voz alta. — Esperem até que tenha de prestar contas. — Sorriu, mostrando os dentes, dolorosamente. — De que adianta levar a sério um egomaníaco? — Gesticulou, num horrível esforço para parecer à vontade. — Até qualquer hora, Jack. Vou convidá-lo para jantar. Para você ver como vivem os pobres. — Pela última vez, olhou em volta, suplicante. Ninguém disse nada. Tasseti pôs as mãos nos bolsos, desapontado por não ter havido necessidade de violência. Brutton virou-se e caminhou, numa tentativa vã de parecer desembaraçado, para um canto da sala em que duas estrelinhas italianas conversavam juntas, e pôs o braço possessivamente em volta dos ombros delas, começando a falar-lhes. Seu riso fez-se ouvir asperamente pela sala, alto, por sobre o barulho da conversa. — O que foi? — perguntou Tasseti, em seu francês siciliano quase incompreensível. — Delaney tirou alguma garota do ator? — Provavelmente — respondeu Jack. — Em alguma ocasião. — Apertou as mãos de Tucino e Tasseti e encaminhou-se para a porta. Bastava de festa para ele. No saguão, esperando que lhe trouxessem seu sobretudo, viu uma das bonitas universitárias americanas sentada num banco de mármore encostada à parede, soluçando. Seu lábio estava sangrando e ela o enxugava com um lenço de papel cor-de-rosa. Duas de suas amigas se postaram à sua frente, com um ar sério, procurando escondê-la da vista dos convidados que chegavam ou partiam. Educadamente, Jack evitou olhar para ela depois do primeiro momento e foi só no dia seguinte que ele soube que ela tinha estado num quarto com um dos jovens italianos, Conde Qualquer Coisa, que a tinha atirado na cama e lhe mordido o lábio quando ela não o deixou beijá-la. Foram precisos dois pontos para costurar a ferida.

13 Rajado por uma lua em quarto crescente, o Mediterrâneo batia suavemente na praia. Jack e Veronica estavam sentados de encontro a uma duna, protegidos de possíveis ventos, aquecidos em seus casacos, o ar ameno, fora da estação. Era quase meia-noite e apenas algumas luzes brilhavam na colônia de casas desertas no inverno, lá na praia. Quando Veronica sugeriu irem jantar em Fregene, a ideia pareceu boa a Jack, depois do calor e confusão da festa dos Holt. Jantaram numa pequena trattoria de interior, comida simples, e beberam uma garrafa de vinho tinto. Depois, tinham ido pela beira da floresta de pinheiros junto da praia até esse trecho isolado de areia. A fragrância misturada de sal e pinho os envolvia, ali sentados, o braço de Jack passando em volta da cintura de Veronica, os dois olhando para o leve reflexo da lua na água à sua frente. “O título desse quadro", pensou Jack, com prazer, “seria Dois Namorados à Beira-Mar". Naquele momento, Delaney, Barzelli, Stiles e Brutton, todas as brigas e problemas pareciam distantes e sem importância. — Estive pensando — disse Veronica — que talvez eu deva ir a Paris. Ela esperou um pouco, a cabeça encostada no ombro de Jack. Este sabia que ela estava esperando que ele dissesse: “Sim, você devia ir para Paris.” Mas não o disse. — Estou ficando cansada de Roma — continuou ela. — E, de qualquer forma, não vou conseguir fugir de Robert para sempre. E ele vai acabar tornando a minha vida insuportável. — Na festa, Despière me disse que uma vez viu Bresach dar-lhe uma bofetada, num restaurante. É verdade? — perguntou Jack. — É. — Veronica deu uma risada. — Uma vez. — O que foi que você fez? — Eu disse a ele que se tornasse a fazer aquilo eu o deixaria. Ele nunca mais fez, mas mesmo assim eu o deixei. — Ela tornou a rir. — Ele bem que podia ter-se dado esse prazer. — Ela juntou um pouco de areia em sua mão livre e depois deixou-a escorrer devagar, como uma ampulheta. — Eu falo francês. Podia arranjar um emprego numa agência de viagens. Milhões de franceses vêm à Itália todos os anos. — Hesitou um pouco. — Sempre desejei morar em Paris. Eu podia arranjar um apartamentinho e você me visitaria. Jack se mexeu um pouco, constrangido. Teve uma visão de si mesmo, apressando-se para sair cedo do escritório, praguejando à direção de seu carro no meio do tráfego emaranhado da tarde em Paris, subindo as escadas bambas de um prédio decadente de St.-Germain-des-Près, indo para a cama com Veronica, procurando não olhar para o relógio e, depois, cedo demais para um amante e não cedo demais para um marido, despedindo-se dela (o pesar e a acusação, pronunciados ou não, na porta semiaberta) para correr para casa a tempo de beijar Hélòne e dar boa-noite aos filhos antes de eles irem para a cama, e dando as respostas certas e cautelosas quando Hélène, enquanto tomassem o drinque antes do jantar, fizesse a pergunta: “Como foi o seu dia hoje?” — Cinq à sept, era como os franceses o chamavam, e tanto homens como mulheres pareciam manejar aquilo com habilidade e prazer. — Você prefere que eu não vá a Paris — insistiu Veronica. — Claro que não. — Jack não estava propriamente mentindo. — Por que você diz isso? — Você ficou calado, esquisito. “Ah, Deus”, pensou Jack, “mais uma mulher para pesar os meus silêncios.” — Eu sou boba — disse Veronica. — Não quero aceitar as nossas limitações. — O que você quer dizer com isso? — perguntou Jack.

— No momento em que eu o levar a Ciampino e o deixar no avião, é essa a nossa limitação. — Ela sorriu no escuro. — O que os livros de geografia chamam de um limite natural. O Reno, os Alpes. Ciampino é nosso Reno, nossos Alpes, não é? — Olhe, Veronica. — Jack falava com cuidado. — Tenho uma mulher em Paris. E eu a amo. — “Para as finalidades desta conversa”, pensou, “a frase é bastante precisa.” Veronica fez um gesto de desprezo e disse: — Estou ficando farta de homens que dormem comigo e me dizem como gostam das suas mulheres. — A repreensão foi devidamente anotada — falou Jack. — Nunca mais direi a ninguém o quanto eu amo minha mulher. — Em todo caso, pelo menos é diferente dos homens italianos. Eles sempre nos dizem o quanto detestam suas mulheres. E a verdade é que geralmente detestam mesmo. Não existe divórcio na Itália ®, de modo que eles podem se dar ao luxo de dizer a suas amantes que detestam suas mulheres. Os americanos têm de ter mais cuidado. Ficaram calados um pouco, sem jeito e antagônicos. Depois, Veronica começou a cantarolar baixinho: “Volare, oh, oh! Cantare... oh, oh, oh, oh! Nel blu, dipinto di blu, felice di stare lassu.“ — Estou voando, estou cantando... — Ela riu asperamente. — Canções de amor para o turismo. — Assobiou dois ou três compassos, com escárnio, desafinada de propósito, depois tirou a mão da de Jack e deixou a canção morrer no silêncio. Jack sentiu que estava ficando zangado com Veronica, com suas exigências mutáveis e cada vez maiores, sua zombaria fina... — Ainda há pouco você disse uma coisa sobre a qual eu gostaria de conversar — começou ele. — O que é? — perguntou Veronica, displicente. — Você disse que estava ficando farta de homens que dormem com você e dizem o quanto gostam das suas mulheres. — Isso mesmo — confirmou Veronica. — Isso o ofende? — Não — respondeu Jack. — É só que Bresach disse que você era virgem quando ele a conheceu. Veronica riu. — Os americanos acreditam em qualquer coisa. É sua forma de otimismo. Por quê? — perguntou ela, desafiadora. — Você preferia que eu fosse virgem quando conheci Robert? — Não acho que tenha coisa alguma a ver comigo — disse Jack. — Só estava curioso. Você se importa que eu lhe faça essas perguntas? — Claro que não. — Ela pegou a mão dele e beijou os dedos, de leve. — Despière me disse que uma vez Bresach tentou se suicidar. — Ele sentiu Veronica ficar rígida a seu lado. — É verdade? — De certo modo — disse ela. — É. — Foi por sua causa? — Não, realmente. Ele se tratava com um psiquiatra aqui, muito antes de me conhecer. Para desistir de se matar. Um austríaco de Innsbruck, Dr. Gildermeister. — Ela fez uma voz grossa e teutônica para pronunciar o nome, com desdém. — Tive de ir a ele também, depois que fui morar com Robert. Sabe o que ele me disse? “Devo avisá-la, moça, de que Robert é um mecanismo de equilíbrio muito delicado." Que novidade! — acrescentou ela, de repente parecendo americana. — Diretamente de Innsbruck. — Que mais ele disse? — Que Robert era potencialmente violento, que sua violência poderia se voltar contra si próprio ou contra mim. "Volare, cantare” — cantou ela. Virou-se e pôs as braços em volta de Jack e puxou-o, fazendo-o cair por cima de seu corpo, enquanto ela caía na areia. — Não saí com você hoje — murmurou

ela — para falar de mais ninguém. — Beijou-o e acariciou-lhe o rosto com seus dedos. — Sabe do que eu gostaria? Que você me amasse agora. Aqui. Por um momento, Jack ficou tentado. Depois pensou em ficar despido ali na areia fria, a areia nas roupas e o risco de serem encontrados por alguém que estivesse passeando na praia. “Não”, pensou ele, “isso e para os mais jovens.” Beijou Veronica de leve e sentou-se. — Outro dia, querida — desculpou-se ele. — Numa noite quente, num verão. Veronica permaneceu deitada, sem se mover, os braços atrás da cabeça, olhando para as estrelas. Depois, com um movimento brusco, ela se pôs de pé. — Num verão — disse ela, olhando para ele, de cima. — Tome cuidado. Dia virá em que eu vou parar de tomar todas as iniciativas. — Sua voz estava zangada, e ela sacudiu a saia, sem cuidado, tirando a areia, sem olhar para Jack, quando este também se levantou, irresoluto, já meio arrependido de sua cautela. Sem uma palavra, Veronica virou-se e começou a caminhar depressa pelas dunas em direção ao carro, estacionado debaixo de uma árvore. Jack a seguiu mais devagar, admirando, apesar de sua irritação com ela e consigo, a maneira graciosa com que ela se movia, pela areia macia, descalça, os sapatos na mão. Entraram no carro e Jack ligou o motor. Ele tinha dado a Guido a noite de folga quando Veronica sugeriu irem para a praia. As luzes projetadas na frente do carro faziam as árvores de ambos os lados parecerem envolventes e ameaçadoras. A estrada era estreita e esburacada. Ele dirigia devagar, em silêncio, consciente de Veronica encostada na porta da direita, mantendo uma distância calculada entre eles. Só depois, já na rodovia principal para Roma, é que ela falou: — Diga-me. Quantas vezes você já se casou? — Por que você quer saber? — Não precisa dizer, se não quiser. — Três vezes. — Meu Deus! — murmurou ela. — Isso mesmo — disse Jack. — Meu Deus. — Isso é normal nos Estados Unidos? — Não propriamente — disse Jack. — Como é que era a sua primeira mulher? — Por que você quer saber? — perguntou Jack. — Gostaria de saber como é que você vai falar de mim quando terminarmos. Como era ela? Bonita? — Muito bonita — disse Jack. Um carro se aproximava deles por trás, a grande velocidade, as luzes piscando. Jack esperou até que ele passasse antes de continuar: — Também foi um desastre. — É isso também que você vai dizer de mim, depois? — perguntou Veronica. — Não. Nunca disse isso a respeito de minhas outras mulheres. Só da minha primeira esposa. — Por que se casou com ela? — Não pude tê-la de nenhum outro modo — disse Jack, apertando os olhos diante dos faróis, espiando o passado morto, com suas decisões incompreensíveis, seus sacrifícios improfícuos, seus desejos imperiosos e mortos. — Você então não sabia que ela era um desastre? — Veronica encolheu as pernas embaixo de si no assento, de frente para ele, interessada, gostando das revelações que ele fazia, o brilho das intrigas femininas em seus olhos. — Tinha desconfianças — continuou Jack. — Mas eu me forcei a ignorá-las. De qualquer forma, pensei que, depois de casados, eu poderia mudá-la. — Mudá-la como?

— De ser uma mulher estúpida, mesquinha, ambiciosa, ciumenta, sem talento... — E conseguiu? — Claro que não. — Jack riu, distante. — Ela ficou pior. — E ela realmente não queria dormir com você a não ser que você se casasse com ela? — perguntou Veronica, incrédula. — Sim. — O que é que ela era? Italiana? Jack riu alto e afagou o joelho de Veronica. — Você é uma garota engraçada — disse ele. — Parece que acha que se alguma coisa não presta deve ser italiana. — Tenho meus motivos — disse Veronica. — Ela era italiana? — Não. Veronica sacudiu a cabeça, admirada. — Eu tinha a impressão de que essas coisas nunca aconteciam nos Estados Unidos. — Tudo acontece nos Estados Unidos. Como em qualquer outro lugar. — E valeu a pena, afinal? — perguntou Veronica, curiosa. — Quero dizer, casar por isso... — Não. Claro que não. — O que foi que você fez quando se apaixonou por outra pessoa? — Peguei o avião. Eu estava em Hollywood e minha mulher e meu filho estavam em Nova York... — Ah! — interrompeu-o Veronica. — Havia um filho? — Sim. Eu peguei o avião, fui a Nova York e disse a minha mulher que tinha encontrado outra pessoa e que ia ter um caso com ela. — Espere um pouco — disse Veronica, sem acreditar. — Quer dizer que contou a sua mulher antes de o negócio acontecer? — Foi — disse Jack. — Por quê? — Eu tinha um estranho sentido de honra — disse Jack. — Naquele tempo. — E ela lhe deu o divórcio... assim? — Claro que não. Já lhe disse que ela era estúpida, mesquinha e ambiciosa. Ela me deu o divórcio seis meses depois, quando quis se casar com outra pessoa. — E o filho? É homem? Jack fez que sim. — Onde está agora? — perguntou Veronica. — Na Universidade de Chicago. Está com vinte e dois anos. — Como é que ele é? Jack não respondeu logo. “Que pergunta”, pensou ele, “como é o seu filho?” — Muito inteligente — disse depois, desconversando. — Está tirando PhD em física. — PhD... — repetiu Veronica. — O que é isso? — Doutor em Filosofia. — Ele gosta de você? Jack hesitou outra vez e depois respondeu: — Não. Não, realmente. Os doutores em filosofia não gostam dos pais, hoje em dia. Vamos falar de outra coisa. — Por quê? Falar de seu filho o entristece? — Acho que sim — disse Jack. — E aquela mulher do filme? — perguntou Veronica. — Como é o nome dela? — Carlotta Lee. — Você não se casou com ela?

— Casei. — Ela lhe agradou? Jack sorriu do modo como Veronica fez a pergunta, traduzindo literalmente do italiano. — Sim — respondeu. — Ela me agradou muito. — Mas você também se divorciou dela? — Veronica sacudiu a cabeça, intrigada. — Deve ser duro divorciar-se de uma mulher bonita como ela. — Não tão duro assim. Para começar, ela já não era tão bonita quando nos separamos. Lembrese, houve uma guerra nesse meio-tempo. E depois, ela era mais velha do que eu... — Mesmo assim... — Ela encontrou meios de tornar a coisa menos difícil — disse Jack. — Como dormir com todos os meus amigos, todos os meus inimigos, todos os meus conhecidos, todos os conhecidos de qualquer pessoa... — Ela devia ser muito infeliz — disse Veronica baixinho. — Pelo contrário, isso a tornava muito feliz, até. — Hoje você a detesta? — Talvez. De qualquer forma, eu me lembro de que a detestava naquela época. — E sua mulher atual? — Pensei que você não queria que eu falasse dela. — Mudei de ideia — disse Veronica. — Não me diga como você gosta dela. Conte como ela é. — Ela é baixa, linda, com uma voz suave, musical e francesa. Ela tem uma boa cabeça cheia de truques, feminina, amorosa. Cuida de mim, me manobra e faz as crianças se comportarem bem quando necessário. Quando a conheci, ela me pareceu reunir todas as virtudes da França e do caráter francês. — E agora? — perguntou Veronica. — O que você pensa dela agora? — Não mudei muito a minha opinião — respondeu Jack. — E no entanto você dorme com outras mulheres — disse Veronica, desafiando-o. — Não — afirmou Jack. — Ora, Jack. — Era a primeira vez que Veronica o chamava pelo nome. — Lembre-se com quem está falando. — Lembro — disse Jack. — Você é a primeira. Veronica sacudiu a cabeça, admirada. — Há quanto tempo vocês estão casados? — Oito anos. — E nada em todo esse tempo? — Nada — afirmou Jack. — Até você. — E então, comigo... depois de me conhecer só por uma hora e meia?... Um velho de bicicleta apareceu ao lado da estrada e Jack desviou-se dele com cuidado, diminuindo a marcha. Não tentou explicar a Veronica, nem a si mesmo, o que lhe tinha acontecido, depois de oito anos, na tarde chuvosa após o almoço com Despière e Miss Henken. Parecera inevitável, correto, necessário. Tinha acontecido sem ele o querer ou prever. — Depois de conhecê-la só por uma hora e meia — repetiu ele, e calou-se. Fosse o que fosse fazer naquela noite, não ia expor as complicações de seu relacionamento com sua mulher, sua incapacidade, desde o início, de se entregar completamente, o sentimento de culpa por não amá-la suficientemente, a frequente sensação de tédio, de estar sendo abafado e preso pela rede de domesticidade e rotina conjugal que ela astuciosamente armava em volta dele. Não ia contar a essa garota sua sensação de alívio ao deixar Hélène no aeroporto, tampouco que não sentira o menor desejo por ela durante as duas semanas antes de sua partida, nem dos outros intervalos semelhantes que existiam como manchas mortas e cinzentas em sua vida com Hélène. Vagamente, sentia que esses fatos eram um

desdouro para ele e o seriam ainda mais, a seus olhos e aos de Veronica, se ele fosse suficientemente desleal para exprimi-los num momento como aquele. — Você vai contar a sua mulher a respeito de mim quando voltar para Paris? — Acho que não — disse Jack. — Você não e tão estranhamente honrado hoje em dia quanto o era quando moço. — A voz de Veronica adquirira um tom de dureza e zombaria. — É isso? — É isso — concordou Jack. — Hoje não sou uma porção de coisas que eu era quando moço. — Sua mulher o deixaria, se descobrisse? — Acho que não. — Jack riu. — Lembre-se, ela é francesa. Veronica ficou calada um pouco. — Teria sido bom tê-lo conhecido quando você era moço — disse ela, baixinho. — Provavelmente não — discordou Jack. — Eu era arrogante, convencido, e estava tão interessado em ser honesto comigo mesmo que não hesitava em magoar as pessoas... — Robert é assim — disse Veronica secamente. — Assim mesmo. Quer dizer que você era como ele? — É provável. Sob certos aspectos. Só que nunca ameacei matar ninguém. Nem nunca tentei me matar. Veronica inclinou-se mais para perto dele, olhando bem para de, séria, à luz rápida dos faróis que os varriam vindos em sentido contrário. — Eu me pergunto o que terá acontecido com você — disse ela. — Eu me pergunto, também — disse Jack. — Muitas vezes. — Você está desiludido consigo mesmo? — perguntou ela. — Não — respondeu ele, devagar. — Acho que não. — Você faria as coisas de modo diferente, se pudesse voltar atrás? Jack riu. — Que pergunta. Claro que sim. Todos não fariam? — Você acha que daria mais certo? — Não. É provável que não. — Mas você mudou de vida completamente — disse ela. — Quero dizer, você começou como ator e agora é uma coisa inteiramente diferente, um... um burocrata, uma espécie de político... — Um ator bêbado, hoje — falou Jack, lembrando-se de Stiles —, me chamou de funcionário. — Seja o que for — insistiu Veronica. — Você desistiu do que era no princípio, aquilo em que você alcançara sucesso, fama... — Não desisti exatamente — explicou Jack. — Fui mais ou menos forçado a isso. Quando voltei da guerra meu rosto estava todo torcido num nó, de um dos lados. Pelo menos, a câmera o mostrava torcido. E eu tinha estado afastado muito tempo. As pessoas quase tinham esquecido de mim. — Ainda assim — insistiu ela. — Depois de algum tempo você poderia ter arranjado papéis... Estou certa disso. — Imagino que sim. Sim — afirmou ele, com convicção. — Eu poderia ter continuado, se quisesse. Mas vi que não estava mais interessado. A chama divina de Hollywood — havia ironia na sua voz — estava apagada. Depois da guerra, e quase dois anos no hospital, depois de Carlotta... — Ele deu de ombros. — A guerra desviou meu interesse para outras coisas. A Europa. Eu nunca tinha estado antes na Europa e, depois da guerra, ela ficou me atraindo. De qualquer maneira, não é tão raro assim. Há muita gente que é artista, de um tipo ou de outro, quando é moça. Depois, se têm sorte e compreendem que pelo menos para eles é só isso, é parte de ser jovem, como poder correr muito ou ficar acordado a noite toda sete dias seguidos, fecham a porta a isso. — Sem pesar? — perguntou Veronica.

— Não há quase nada que eu tenha feito na vida que eu não lamente, de uma maneira ou de outra — falou Jack, pensativo. — Você não é assim também? — Acho que não — respondeu Veronica. — Não. — Você não se arrepende de ter brigado com Robert, por exemplo? Ou de ter começado com Robert? Mais tarde, não vai se arrepender de mim? — Não. Não do jeito que você quer dizer. — Ela passou a ponta da unha pelo braço dele, do ombro ao punho, arranhando a fazenda da manga. — Você sente pesar por sua primeira mulher? — Claro. De cem maneiras diferentes. — Carlotta? — Terrivelmente. — Também de cem maneiras? — De mil. — E quantas outras? Quantas outras mulheres? Jack riu. — Montes — disse ele. — Você foi um menino levado, não foi, em seu tempo? — Ela agora fazia beicinho, lembrandolhe desagradavelmente sua primeira impressão dela nos primeiros dez minutos em que a viu. — Fui um menino muito levado em meu tempo — concordou ele. — Mas nunca lhe vou contar a respeito. — Você não vai ficar zangado comigo agora, vai? — Não, claro que não. — Sabe, na verdade, por que eu fiz todas essas perguntas? — indagou Veronica, a voz ainda muito baixa. — Por quê? — Porque, se eu souber mais a seu respeito — agora ela estava séria —, você vai desaparecer mais devagar depois que partir. Será mais real para mim. Vai custar mais a parecer um sonho esse tempo que nós temos... é um mau motivo? — Não, querida — falou Jack, com brandura. — É um motivo muito bom. . — Eu não ficaria zangada v se você me fizesse perguntas. Ficaria muito feliz. Eu gostaria que o sonho durasse mais para você, também... Qualquer pergunta que você queira. Veronica parecia estar esperando; esperando, ele sentiu, para julgar a qualidade do sentimento dele por ela pelo tipo de perguntas que ele faria. Ele sentiu uma certa culpa por tê-la considerado tão superficialmente até então, tão no presente, sem qualquer desejo real de saber mais a respeito dela do que ela revelara até aí, casualmente, sem indagações da parte dele. Saber, ele sentia, é envolver-se. Subconscientemente, Veronica também compreendia isso, ele estava certo, e insistia em ser conhecida, sabida, numa necessidade cega e feminina de envolvimento. — No almoço, outro dia, eu queria fazer-lhe uma pergunta. — Sim? — Você disse que, quando tinha dois anos, estava em San Sebastian, na Espanha... — Ah, isso. — A voz dela era murcha, desapontada. Obviamente, não era esse o tipo de pergunta que ela esperava. — Imaginei que isso fosse durante a Guerra Civil Espanhola — disse Jack. — E foi. — Agora ela estava impaciente, desinteressada. — Que diabo você estava fazendo na Espanha durante a Guerra Civil? — Meu pai era militar de carreira — disse ela, displicente.

— No Exército espanhol? — perguntou Jack, confuso. Veronica riu. — Vocês não tinham jornais nos Estados Unidos em 1937? — perguntou ela. — No Exército italiano. Meu pai estava não intervindo ao lado de Franco. Não se lembra de nada disso? — Claro que sim — disse Jack. — Só que nunca me ocorreu que fizessem disso um negócio de família. — Meu pai era muito doméstico — disse Veronica. — Ele amava a família. E como era coronel, mandou que fôssemos entregues a ele na Espanha. — Como foi aquilo? Você se lembra? — É uma coisa engraçada — disse Veronica. — Todos os americanos que eu conheço, quando conto que meu pai lutou por Franco na Espanha, ficam imensamente interessados. Pensei que as pessoas tivessem esquecido tudo isso. Tanta gente já morreu depois disso... — Foi uma guerra muito interessante para os americanos — afirmou Jack secamente. — Ainda estamos sofrendo por causa dela, se você quer saber a verdade. — Engraçado — disse ela. — Nós, não. — Talvez, quando a gente luta numa guerra pessoalmente, passe mais depressa. — Mas como foi? Veronica deu de ombros. — Não me lembro de muita coisa. Lembro-me da praia. Era uma boa praia para crianças. Há uma ilha no meio da baía, para onde íamos de barco. E os melões. Os melões eram deliciosos. Hoje, muitas vezes, quando como melão num restaurante, de repente me sinto outra vez como menininha na Espanha. “Ela se lembra de melões na guerra”, pensou Jack, lembrando-se de suas próprias recordações amargas daquela época, lembrando-se de seus colegas que tinham morrido naqueles anos. “Talvez”, pensou ele, “mortos pelo pai de Veronica, aquele homem doméstico.” — Onde está o seu pai agora? — perguntou. — Morreu — disse ela, calmamente. “Um ponto para nós", pensou Jack, sem caridade. de algum modo, a ideia do coronel, comodamente lutando sua guerra, de uma villa à beira-mar em San Sebastian (“ele a punha no colo entre os tiroteios?”), matava o impulso de compaixão que Jack geralmente sentia quando pensava em todos os mortos, tombados de todos os lados, nas guerras do seu tempo. — Ele foi morto na Espanha? — perguntou. — Não — disse Veronica. — Ele foi ferido lá, mas não gravemente. Foi ferido na Etiópia, também. Ele estava sempre na frente. Era muito corajoso, todos me dizem. Na verdade, ele foi dos primeiros homens do Exército italiano a serem mortos na Segunda Guerra Mundial. Estávamos em Tripoli com ele. O general dele tinha acabado de voltar de uma entrevista com Mussolini, e este jurou ao general que a Itália não ia entrar na guerra. Isso foi no verão em que a França estava caindo. Minha mãe deu uma festa para festejar porque nós não íamos entrar na guerra. Eu estava com um vestido rosa, luvas brancas, e ajudei a servir os bolinhos com as bebidas. Depois, é claro, estávamos na guerra e uma semana depois meu pai morreu. Ele estava num avião desarmado, inspecionando as posições diante dos ingleses, quando foi abatido. “Três guerras”, pensou Jack, cinicamente, “três vezes atingido. Evidentemente ele estava no negócio errado, o pai de Veronica. Muitas festas.” — Meu pai detestava Mussolini — continuou Veronica. — Naturalmente, ele nunca disse isso a mim nem a minha irmã. Éramos muito pequenas. Mas ele tinha um diário e eu o li depois... “A doença dos coronéis”, pensou Jack, “diário.” Veronica prosseguiu: — O motivo por que o general dele foi procurar Mussolini naquela ocasião foi para dizer-lhe que não havia equipamento nem

homens suficientes no norte da África para enfrentar os ingleses. Ele e meu pai escreveram um longo relatório juntos. Está tudo no diário de meu pai. É assim que sempre foi com o Exército italiano — disse ela, com amargura. — Não havia suficiente equipamento, então eles usavam os homens e estes eram mortos. Não era como no seu Exército. — Houve muitos mortos em nosso Exército também — disse Jack. — Você sabe o que eu quero dizer — continuou Veronica. — Na Itália, era tudo corrupção e propaganda. Fardas vistosas, paradas, discursos imponentes, Mussolini rugindo e mentindo e fazendo caretas. E, depois disso, munição que não servia nas armas, ou tanques sem gasolina, ou oficiais que estavam dançando quando deviam estar aprendendo a ler mapas. Os ingleses também mataram meu irmão na África. Ele tinha dezoito anos. Ele também estava na festa que minha mãe deu em Tripoli, para comemorar a notícia que Mussolini deu ao comandante de meu pai de que não haveria guerra. — Veronica pegou um cigarro da bolsa e acendeu-o. Jack olhou para ela riscando o fósforo e viu que a chama estava oscilando, que a mão dela tremia, desdizendo o tom firme, igual e sem emoção de sua voz. — Eu lhe digo, um dia eu terei de viver em outro lugar que não a Itália. Era tarde quando eles pararam em frente ao hotelzinho de Veronica. A pracinha em que ficava o hotel estava deserta. O hotel era pequeno. A porta da frente estava aberta, e o saguão, estreito, bem iluminado. Quando Jack apagou os faróis do carro, defronte ao hotel, viu o porteiro da noite sentado numa cadeira de braços de madeira, de costas para a rua, olhando para seu reflexo num grande espelho que havia pregado na parede dos fundos do saguão. O porteiro da noite era moço, muito bonito, e devia levar bem meia hora para pentear seu cabelo numa perfeição tão reluzente e negra. Admirando-se pensativamente, satisfeito com o brilho e abundância de seu cabelo, esteticamente contente com a testa morena e lisa, os olhos escuros e inteligentes, a forma generosa da boca, o queixo pronunciado, o pescoço esculpido e forte, romano, o porteiro deixava passarem as horas da noite sem tédio ou aborrecimento, feliz no reflexo vivo e imutável de sua pessoa no espelho polido, espelho compensador. Não havia padres alemães à vista, no momento. — Veja só aquilo — comentou Veronica, irritada. — Em qual outro lugar no mundo você veria coisa igual? E ele não vai ficar nem um pouco encabulado quando eu entrar e o encontrar assim. Vai me entregar a chave como se estivesse me entregando duas dúzias de rosas e, antes que eu acabe de subir a escada, estará de volta àquela cadeira. Jack riu. — Para dizer a verdade, é um dos espetáculos mais simpáticos que já vi em Roma. — Não me é nada simpático — resmungou Veronica. Ela começou a abrir a porta para saltar. Jack debruçou-se e segurou-a. Pôs o braço em volta dela e beijou-a. Por um momento ela ficou tensa, sem querer, depois cedeu, segurou o rosto dele entre as mãos e beijou-o, ávida. — O que eu gostaria de fazer é entrar com você — disse ele. Ela sacudiu a cabeça. — Ele não deixará. — Eu o suborno. — Ele perderia o emprego. Os padres andam pelos corredores como ratos. — Então volte para o meu hotel. — Aposto que Robert está lá esperando neste minuto — disse ela. — Não. — Tenho uma ideia brilhante — disse Jack. — Vou alugar um quarto por esta noite. Agora mesmo. Veronica pensou um pouco. Depois sorriu. — Know-how americano. Não admira que vocês tenham vencido a guerra. Vamos. Eles saltaram do carro e entraram no saguão. Devagar, virando-se com relutância do espelho, o porteiro levantou-se e cumprimentou-os com um "Buona sera, signorina", foi calmamente, mas com

dignidade, para trás do balcão para pegar a chave dela. — Diga que quero um quarto grande com banheiro — disse Jack. Em italiano, Veronica fez o pedido. O porteiro pareceu ficar triste, desesperado. Debruçou-se sobre o croqui do hotel, que estava pregado numa tabuleta, e estudou-o como se fosse um mapa indicando a posição de um tesouro oculto. Sacudiu a cabeça. O tesouro tinha sido levado por outros. Em italiano, a voz grave de pesar, ele falou com Veronica. — Não adianta — traduziu ela. — Está lotado. Ele terá grande prazer em reservar-lhe um quarto para amanhã... — Grande coisa — disse Jack, bruscamente. — Você vai para o apartamento de sua amiga amanhã, não vai? — Vou. — Veronica estava sorrindo diante da frustração dele, gozando-a, achando que era um elogio a ela. — Não importa — disse Jack, ao porteiro. — Não importa nada. — Scusi, signore. — Uma expressão de dor operística atravessou o rosto moreno e bonito do porteiro ao perceber que naquela noite em Roma ele era um obstáculo ao amor internacional. — Desolato. — Também eu estou desolato — disse Jack. — Você nem imagina como estou desolato. — Virou-se para Veronica. — Quando vamos nos ver de novo? — Eu lhe telefono amanhã de manhã — disse ela. — Quando me mudar para o apartamento. — Vou sair de manhã. Vamos almoçar juntos. Veronica concordou. — No mesmo restaurante — disse Jack. — Ernesto’s. Estou passando a gostar muito daquele restaurante. Uma e quinze. — Ótimo — disse ela. Apertou a mão dele, o porteiro olhando interessado. — Sinto muito por esta noite. Mas eu avisei, não foi? — Você me avisou. Ela riu. — A culpa é toda sua — disse ela. — Teve uma boa proposta na praia. — Vá dormir — disse Jack. A despeito do porteiro, ele a beijou no rosto. Ele e o porteiro ficaram olhando enquanto ela começava a subir a escada, requebrando-se um pouquinho demais, seus saltos altos batendo uma promessa tentadora nos degraus de mármore. Jack olhou para o porteiro. O rosto do rapaz brilhava com um desejo simples, eloquente e infantil, enquanto ele olhava as pernas de Veronica desaparecerem pela escada. — Boa noite, amigo — despediu-se Jack. — Buona notte, signore — respondeu o rapaz, suspirando. Quando Jack entrou no carro e acendeu os faróis, o porteiro já estava de volta à sua cadeira de madeira diante do espelho do saguão, contemplando novamente, com gratidão e admiração, a sua imagem esplêndida. “Os padres tornaram a vencer”, pensou Jack, ligando o motor e virando o carro bruscamente em direção ao seu hotel. “O que se poderia esperar, em Roma?"

14 Estou numa sala muito iluminada e há muita fumaça. Haverá outra sala, não tão iluminada, também com muita fumaça, mas isso será depois, e mais perigoso. Agora é só a fumaça de muitos cigarros, de cinco homens sentados em volta de uma mesa, de fardas amarfanhadas, jogando cartas. A sala está quente, porque as cortinas de blackout estão cerradas, as janelas fechadas, e estamos jogando pôquer. Eu perco. Par de valetes e eu perco. Apostas na mesa. Só se pode apostar o que se tem diante de si. O homem à minha direita tem três dez e ele apanha as notas de libras com um sorriso aberto, os dentes muito brancos. Olho para os outros cinco homens e de repente percebo que estão todos mortos. O ganhador morto na praia algumas semanas depois, os outros sobrevivendo a isso, mas igualmente mortos em seus leitos de civis, câncer, suicídio, alcoolismo. As notas de libras farfalham, o cabineiro de um braço só traz outra garrafa de uísque do mercado negro, o dinheiro troca de mãos. No momento, sei que vou perder cento e vinte libras antes de acabar o jogo e Londres inteira vai feder com a fumaça dos incêndios que os aviões alemães vão atear mais tarde, naquela noite. Agora está escuro outra vez e estou me aproximando de uma cabana de madeira no fim de uma alameda de pinheiros. Sinto o cheiro de barro molhado, uísque derramado, algo medicinal. Através de frestas nas tábuas da cabana, a luz foge para a noite. Desço os degraus. Fico espiando. Dois imensos homens, calvos, de aventais brancos manchados, estão trabalhando sobre uma mesa, conversando jovialmente. Aí vejo em que estão trabalhando. É o corpo de um homem, muito branco, e eles o estão retalhando em pedaços grandes. Os homens de avental sob a luz forte não me dão atenção. Quero fugir dali mas não posso. Não posso porque sou eu mesmo que estou ali na mesa, debaixo das facas. Quero grifar mas não sai som algum. Fico dominado pela tristeza e de repente me sinto aliviado, quase alegre. Acabou-se, penso eu, com um lampejo de alegria. Consegui. Acabei. O trabalho está feito. Nada mais pode me acontecer. Não há mais nada a recear. Os sinos fúnebres estão dobrando. Sinto uma umidade refrescante em meu rosto... Os sinos tornam-se um sino só, a cabana de madeira torna-se um quarto de hotel, a umidade em seu rosto torna-se sangue. Ele acordou. O telefone estava tocando ao lado da cama. No escuro, ele tateou para achar o interruptor da luz. Quando o encontrou e acendeu a luz, olhou automaticamente para o relógio de viagem, sobre a cômoda, e viu que eram quase três e meia. Pôs a mão no rosto. Seu nariz estava sangrando. Cobriu-o com um lenço. Pegou o fone, com o receio de sempre, o nervoso pressentimento de más notícias que uma campainha tocando àquela hora sempre traz consigo. Era uma ligação de Paris e, logo depois, ele ouviu a voz da mulher, clara, desperta, calma. No momento em que ela disse “alô”, ele viu pelo tom de voz que não eram más notícias, e logo começou a ficar ressentido de ser acordado por ela. — Tentei ligar mais cedo, mas a telefonista disse que você não estava. Não lhe disseram que eu queria falar com você? — perguntou ela. — Estou na Itália — respondeu Jack. — Não dizem nada à gente. Ela riu, a mais de mil quilômetros de distância. “O meio da noite não significa nada para as mulheres”, pensou Jack com ressentimento, “cias podem dormir o dia todo.” — Aconteceu alguma coisa? — perguntou ele. Tirou o lenço do nariz, experimentando. O sangue era só um fio. — Não — disse ela. — Só que eu estava com saudades e queria ouvir sua voz. Você chegou agora? “Espionando”, pensou Jack aborrecido. — Não — respondeu ele —, já estava dormindo há horas.

— Bom, eu liguei à uma hora e eles disseram... — Cheguei à uma e cinco. Quer uma declaração escrita? — Ora, Jack... — A voz dela parecia magoada. — Não está zangado porque eu quis falar com você, está? — Claro que não. — No íntimo, ele deu graças porque o hotel de Veronica estava infestado de padres. Se Hélène tivesse ligado a noite toda sem encontrá-lo, seriam necessárias explicações desagradáveis. — Tem-se divertido, chéri? — perguntou Hélène. — Enormemente. — Está sozinho? — A voz dela estava ficando gelada. — Por que você pergunta? — disse ele, sua consciência limpa tornando-o briguento. — Você está esquisito, nada natural. — Você adivinhou — falou ele, friamente. — Não estou sozinho. Estou com cinco músicos cubanos aqui e estamos todos fumando maconha. — Foi só uma pergunta — disse Hélène, com dignidade. — Não precisa me morder. — Desculpe — disse Jack. — É só que acordar no meio da noite assim... — Está bem — concordou Hélène. — Vou deixar você dormir em paz. E não vou telefonar outra vez. Você pode me telefonar... — Deixe de ser boba, querida — desculpou-se Jack, fingindo um carinho que no momento não sentia. — Pode me ligar à hora que quiser. — Como vai o trabalho? — Bem. Estou horrível, mas acho que vão me pagar assim mesmo. — Tenho certeza de que você não está nada horrível — disse Hélène. — Moça, estou aqui no local e eu sei. — Está infeliz, chéri? “E se eu disser a ela: ‘Sim, estou infeliz?’”, pensou ele. “Tenho sonhos de morte, estou sangrando, e não consegui um quarto no hotel de minha amante hoje’, o que é que ela diria então?” — Em absoluto — respondeu. — Por que você pergunta? — Por nada — disse Hélène. — O tom de sua voz. Intuição... — Não. Estou bem. De verdade. — Como vai seu amigo, Mr. Delaney? Já resolveu todos os problemas dele? — Não exatamente — respondeu Jack. — Ele ainda não me contou todos os problemas dele. — O que é que ele esta esperando? — Hélène parecia impaciente. — Não sei — disse Jack. — O momento psicológico. A mudança da lua. Uma queda na bolsa. Uma elevação no nível da dor. Não se preocupe, ele me dirá no momento oportuno o que o está preocupando. — Diga-lhe que faça isso logo — recomendou Helene. — Quero que você volte para casa. — Fez-se um silêncio do outro lado do fio, como se ela estivesse esperando que ele dissesse alguma coisa. Depois, ela continuou: — Vou contar quem mais está querendo que você volte. Joe Morrison. Anne me disse que cada dia ele está resmungando mais por sua causa. E, quando lhe perguntei se ela achava que havia perigo de sermos transferidos para algum outro lugar depois do verão, ela ficou muito misteriosa. — Por que vocês, as duas senhoras, não cuidam de suas vidas? — perguntou Jack, com aspereza. — Isso é assunto entre Joe Morrison e eu. — Se você for transferido para alguma selva — disse Hélène, alteando a voz —, não acha que se trata da minha vida também? Ou você pretende largar a mim e às crianças em Paris por três ou quatro anos? — Desculpe — disse Jack, cansado. A alusão a Morrison tinha trazido de volta a sensação de

tédio e irritação que ele sentia com seu trabalho nos últimos meses, e ficou aborrecido com Helene por lhe lembrar isso. No momento, ele estava pouco ligando se tornaria a ver Morrison outra vez, e a ideia de estar à mercê dos estados de espírito de Morrison o fazia sentir-se amarrado e ressentido. — Acho que estou um pouco nervoso. Faça um favor. Quando você telefonar outra vez, não fale em Joe Morrison. — De que você quer que eu fale? — perguntou ela, com hostilidade. — Nossa feliz vida de casados — disse ele, num tom insípido. — Nossos filhos. Por falar nisso, como vão eles? — Bem. Só que Charlie levou um susto hoje. — O que foi? — perguntou Jack depressa, alerta às encrencas. — Ele pensou que estivesse grávido hoje à tarde — disse Hélène. — O quê? — Ele pensou que estivesse grávido. Chegou para mim na hora do almoço, enquanto eu estava trabalhando, era o dia de folga da empregada, e me perguntou como é que nasciam as crianças. Eu estava tão ocupada que o despachei e disse que contaria em outra hora. Mas ele continuou me amolando, fiquei impaciente com ele, afinal de contas há uma hora para tudo, e eu disse: “Ah, nascem das orelhas das pessoas...” — Isso parece uma coisa razoável para contar a uma criança — disse Jack, delicadamente troçando com ela. " — De qualquer forma, ele foi para o colégio e quando voltou para casa disse que não estava se sentindo bem e deitou na cama. Fui vê-lo uma hora depois e ele estava segurando a orelha. Parece que esteve com dor de ouvido estes dois dias, pois entrou água no ouvido dele, durante o banho. E ele me disse: “Agora sei por que minha orelha está doendo. Vou ter um bebê!” Jack riu pra valer. Depois de um minuto, Hélène também riu. — Espero que você explique as coisas a ele — disse Jack. — Eu tentei — disse Hélène. — Dei todas as informações precisas. Mas acho que ele não me acreditou. Ainda estava segurando a orelha quando foi dormir hoje. Jack tornou a rir. — Diga que eu explico tudo a ele quando voltar. — Eu queria que você estivesse aqui agora — disse Hélène, baixinho. — Eu também — disse Jack. — Mas não vai demorar, querida. — Cuide-se — murmurou ela. — Durma bem. Divirta-se... Sois sage. — Dê beijos nas crianças — disse ele e desligou devagar. O telefonema, lembrando antigos laços continuados, responsabilidades, preocupações, o perturbou. Hélène era diferente das outras mulheres, por não gostar de discussões, e raramente trazia à baila os problemas fundamentais. Perspicaz e dotada de grande intuição, ela preferia deixar as coisas como estavam, agir de modo indireto, estabelecer contracorrentes, deixar que o tempo resolvesse. Mas agora o telefonema, com seu toque de aspereza e reprovação, veio lembrar, a Jack uma ocasião, um ano antes, em que Hélène, sem parecer a mesma, forçou os dois a uma cena, da qual nenhum ainda se havia recuperado totalmente. Eles tinham jantado com Anne e Joe Morrison num bistrô atrás do Théâtre Sarah Bernhardt e Joe Morrison bebera vinho demais. Ele não costumava beber muito, mas, quando bebia, falava mais alto do que de hábito e ficava duro em suas opiniões. Era um homem alto e magro, que a distância parecia ter entre trinta e cinco e quarenta anos, mas de perto seu rosto mostrava uma rede de rugas que nenhum homem de menos de cinquenta podia ter adquirido. — Jack — dizia ele, debruçado sobre a mesa, brincando com seu cálice. — Você é um enigma. Anne, eu não digo sempre que Jack é um enigma? — Só quando você bebe demais — disse Anne, placidamente.

— O enigma é: por que um homem como você, com tanta coisa na cabeça, esperto como você é, fica parado num lugar? — Morrison olhou para Jack de modo penetrante, quase com hostilidade. — Por toda parte, à sua volta, você vê os homens se mexendo, progredindo, homens com a metade do seu valor, mas esforçando-se, fazendo o que é preciso, planejando as coisas com dez anos de antecedência, melhorando... enquanto você... — Ele sacudiu a cabeça. — Você e como um corredor que todo mundo sabe que pode correr muito, mas que nunca se dá ao trabalho de fazê-lo. Por que será? — Eu faço o necessário — disse Jack, apaziguadoramente. — Não de verdade — disse Morrison. — Ou só superficialmente. — Você não acha que cumpro os meus deveres? — perguntou Jack. — Claro que sim — respondeu Morrison. — Tanto quanto qualquer outro. Talvez melhor do que os outros. Mas não tão bem quanto você poderia fazê-lo. Vou-lhe dizer o que é, você não... não... — Ele procurou o termo. — Você não se envolve. Você fica distante. Faz a jogada certa, mas dá a impressão de que não se importa a mínima se for adiante ou não. — Morrison tinha jogado futebol quando moço, e, quando bebia, as imagens de vestiário enchiam sua conversa. — Às vezes, por Cristo, é difícil saber se você está no jogo ou na arquibancada, sem ao menos preocupar-se em torcer pelo time. Que diabo, Jack, que diabo acontece com você? — Sou frio, homem, sou frio — disse Jack, esperando fazer Morrison calar-se com sua displicência. Ele viu que Hélène estava concordando com a cabeça, quase imperceptivelmente, durante a falação de Morrison, e também queria acabar com aquilo. — Todos os rapazes são assim, hoje. Nós nos recusamos a vibrar. — Ah, Cristo! — disse Morrison, zangado. Virou-se para Hélène. — E você? — perguntou.— Você é casada com ele. O que é que você pensa? Hélène hesitou um momento, olhando para Jack, curiosa. Depois riu, e disse: — Acho que foi Anne quem disse a última palavra, Joc. Você bebeu muito. — OK, OK — disse Morrison, conformado, recostando-se. — Não querem falar a respeito. OK Mas um dia vão ter de enfrentar isso. Os dois. Saíram do restaurante pouco depois e Jack e Hélène foram para casa. Havia uma atmosfera de tensão no carro, e,embora nenhum dos dois falasse, uma sensação de antagonismo e disputa. Jack estava deitado na cama, no quarto, olhando para o teto, pensando se não seria melhor tomar um comprimido para garantir o sono, quando Hélène veio do banheiro, de pijama, penteando o cabelo. Jack não olhou para ela, nem mesmo quando ela foi para a cama e se sentou na beira, junto dele, ainda passando o pente pelos cabelos curtos e escuros. Lá fora, na ponte, ouviam-se os carros passando depressa e intermitentemente sobre o rio, o barulho abafado pelas venezianas e cortinas. — Jack — disse ela. — Sabe, Joe Morrison tinha razão hoje... — A respeito de quê? — Jack forçou-se a parecer sonolento, desinteressado. — A respeito de você. — Ouvia-se o ruído do pente passando pelos cabelos. — E não só em seu trabalho. — Tinha? Por que você não disse que concordava com ele, quando perguntou? — Você sabe que eu não faria isso — disse ela baixinho. — Eu sei. — Jack — disse ela, puxando a cabeça dele delicadamente, para ele ser obrigado a olhar para ela. — Por que você se casou comigo? — Para melhorar o meu francês. — Jack... — Ela passou os dedos de leve debaixo dos olhos dele, tocando as rugas de falta de sono, idade, preocupação. — Não brinque. Por que você se casou comigo? — Olhe no espelho — disse ele. — Ele lhe dará uma boa resposta.

Ela suspirou, tirou a mão do rosto dele e foi para a penteadeira, começando a limpar o rosto com creme, de costas para ele. Ele olhou para ela, especulando, perturbado com a pergunta dela. Era a primeira vez em sete anos de casada que ela dizia alguma coisa assim. Por que e mesmo que ele se casara com ela? Solidão, fadiga, tédio com as repetições previsíveis e constantes por que um homem passava inevitavelmente, quando não era casado, mas gostava de mulheres e saía com elas? Ele a desejava. Isso ele sabia. Ele a admirava. Isso ele sabia. Entre as mulheres que ele conhecia, ela, mais que todas, tinha um objetivo são, prático, possível e sadio para sua vida. Ela era inteira. Queria amar e ser amada, queria ser leal e exigir lealdade, não tinha dúvidas quanto à validez da felicidade que se podia ter com o casamento, os cuidados com um marido, ter filhos. E com tudo isso ela era alegre e ágil, uma companheira confortável e divertida, amante amorosa, administradora calma e solucionadora de crises domésticas. Mas, se na ocasião de seu casamento ele fosse obrigado a dizer que a amava, não poderia honestamente dizê-lo. E talvez nem agora ele pudesse dizê-lo. Pelo menos, se fosse julgar o amor pelo que sentiu nos primeiros anos com Carlotta, não poderia dizê-lo. Da penteadeira, de costas para ele, Helene disse: — Você não se envolve, disse Joe. E ele tinha razão, Jack. — Eu vi que você estava concordando. — Sinto muito — disse ela. — Mas é verdade. E quando ele disse que você é distante, também tinha razão. Atencioso e distante. Às vezes, eu tinha vontade de que você não fosse tão atencioso sempre. É como se estivesse compensando alguma coisa pela qual se sente culpado. Às vezes, tenho a impressão de estar cochichando para você do outro lado de um grande campo aberto e não podemos atravessá-lo para chegar um junto do outro, nem podemos ouvir bem o que nos estamos dizendo. Ou que estamos de dois lados de um muro grande e grosso... Ele fechou os olhos, sofrendo, para não ver suas costas lisas e esguias, os lindos braços levantados, a cabecinha bonita... — O que e,Jack? — perguntou ela, em voz baixa, repetindo Joe Morrison. — É minha culpa? Eu posso fazer alguma coisa? Ele ficou de olhos fechados e, como não era culpa dela e não havia nada que ela pudesse fazer, ele disse, com brutalidade: — Dê-me um comprimido para dormir, por favor. — Vá para o diabo! — gritou ela. Jack suspirou na cama romana, pensando em como tinha fracassado com as pessoas que ele amava. O escuro seria melhor. Quando estendeu a mão para apagar a luz, ouviu passos que se aproximavam pelo corredor. Quem quer que fosse, pareceu hesitar diante da porta. “Bresach”, pensou Jack, retesando-se. Mas os passos continuaram e tudo ficou quieto. Jack deixou a luz acesa mais um pouco, enquanto escutava. Na cômoda, ele viu o envelope grosso que Despière deixara com ele e disse consigo mesmo que tinha de lembrar-se de o colocar num lugar seguro logo de manhã. Agora, estava bem desperto e teve vontade de ler, mas o único livro no quarto era Catullo e Catullo não era de seu agrado, no momento. Com um gesto decidido, apagou a luz. Tinha de se levantar às quinze para as sete da manhã e estar pelo menos suficientemente descansado para procurar seguir as direções de Delaney na sala de dublagem. Fosse o que fosse que ele fizesse ou em que se envolvesse nessas duas semanas, amor, recriminação, assassinato, ele tinha de procurar merecer seus cinco mil dólares. “Tenho uma noção burguesa de honestidade comercial”, pensou, zombando de si, “valor dado por valor recebido.” Fechou os olhos conscienciosamente, por causa de Delaney. Mas nunca se sentiu tão desperto. Lembrou-se da voz de Hélène no telefone, a ligeira cadência da França, discreta e encantadora, incorporada à língua inglesa. “Estou ficando farta de homens que dormem comigo”, disse a outra voz, “e me contam como gostam das mulheres.” No escuro, ele pensou em Hélène, ainda acordada na escuridão

continental a mais de mil quilômetros, com o pensamento nele, perturbada por causa dele, obscuramente informada pela telepatia do amor que as coisas não iam bem com ele. Imaginou-a deitada arrumadinha em sua cama, em seu pijama de menino, pequena, linda, quentinha, o cabelo enrolado (ela sempre aproveitava as viagens dele para dar atenção aos cabelos), pensando nele, ligada a ele por seus mil laços e fios, escutando os sons do quarto pegado, onde dormiam as crianças. Sólida, competente e cautelosa, sua mulher estava deitada no centro da teia familiar, preocupada, protetora, afetuosa, aproveitando, oferecendo suas secretas orações da noite pelos perigos da ausência, rezando pela volta dele, pela saúde, segurança, normalidade, amor... Se estivesse na cama ao lado dela, disse ele consigo, não teria jogado aquela partida de pôquer de fantasmas, não teria visto os homens calvos de avental em seus trabalhos sinistros. Jack encostou de leve o lenço empapado ao seu rosto. O sangramento parecia estar acabando. Lembrou-se de seu sonho, pensando: “Como são sábias as esposas ao rezarem nas horas inquieta^ depois da meia-noite.” Não querendo examinar o sonho, com seus jogadores mortos que tinham sido seus amigos, e o significado horrendo do corpo na mesa, ele se forçou a pensar no filho, naquele momento dormindo com a mão no ouvido, ameaçado. Jack sorriu, a morte agora expulsa por aquela mãozinha. Ele se lembrou de uma tarde, no inverno, em que, voltando ao trabalho. entrou no banheiro onde o filho estava se enxugando depois do banho. Ele beijou a cabeça molhada, olhando sério, enquanto o garoto enxugava mal o corpo liso e forte. De repente, o guri virou-se para ele com um sorriso de conspirador. — Papai — disse ele, tocando a ponta do pênis com um dedo, falando numa voz ressonante e orgulhosa. — Isto sou eu. — É verdade — concordou Jack, com gravidade. — Isto é você. Aos cinco anos, apanhamos a sabedoria no ar, as revelações do vento, os sábios da raça sussurram confiantes em nossos ouvidos. Deitado acordado no quarto sombrio, cheio de sonhos, Jack se tocou. “Isto sou eu”, murmurou ele, sorrindo, juntando-se ao filho na magia masculina, expulsando as forças das trevas, usando a cerimônia secreta que seu filho, em sua sabedoria e inocência, linha descoberto, para escapar das vis e covardes tentações do olvido. Mas a magia não era bastante poderosa. Quando fechou os olhos, não conseguiu dormir, e as recordações atiçadas pelo sonho e por sua conversa com Veronica no carro começaram a amontoar-se nele... Também houve vários mortos em nosso Exército... A casa da fazenda estava pegando fogo. Era feita de pedra, mas havia uma quantidade espantosa de coisas dentro dela que se tinha incendiado quando a bomba estourou. Ele estava dormindo no chão da cozinha. Quando acordou, foi lançado através de uma parede e uma perna estava quebrada e havia um cobertor em chamas em volta de sua cabeça e nenhum dos outros homens que estavam na casa com ele estava à vista. Tinham tido mais sorte do que ele. Tinham escapado, no escuro. Na confusão, não o viram, e depois disso já era tarde e ninguém podia chegar perto da casa. Ele levou cinco horas para se arrastar pelo quarto e chegar à janela. Desmaiou várias vezes, com o cheiro de sua própria pele e de seus cabelos queimados enchendo-lhe as narinas, o pé completamente torcido e a fumaça sufocando-o. Mas tinha muita certeza de que não queria morrer e usou as unhas de sua mão sã para se arrastar pelo chão esburacado da casa de fazenda. Por fim, chegou à janela e se levantou para poder espiar pelo parapeito. O campo defronte da casa estava sendo esporadicamente varrido pela metralhadora, mas alguém viu a cabeça dele aparecendo no parapeito e foi buscá-lo. Ele não se lembrava de nada disso, porque, quando o puxaram pelo parapeito, ele tornou a desmaiar. Aí, deram-lhe morfina e as semanas seguintes foram um borrão vago e flutuante e ele nunca descobriu quem tinha ido buscá-lo, nem se estava vivo ou morto. Depois, os dois anos em hospitais, as dezoito operações e o jovem médico

que disse: “Essa mão nunca mais servirá para na da” ... E Carlotta, com seus imensos buquês de flores pelo telégrafo, e pouca coisa mais... Vejam aonde vão os jovens. Saltam leves para cima, e não é por nada. Escutem! E bom ouvi-los cantar, Hymen, O Hymenaeus, Hymen, aqui, O Hymenaeus. Foi uma festa de casamento curiosa. Era de supor que casamentos como aquele se realizavam no mundo inteiro, mas, enquanto estava acontecendo, a pessoa tinha a impressão de que era especial de Hollywood, que só em Hollywood é que duzentas e cinquenta pessoas se reuniriam para comemorar o casamento de duas pessoas que se haviam divorciado, casado com outras, divorciado delas e se casado uma com a outra novamente. Em qualquer outro lugar, seria de supor, os heróis teriam pelo menos procurado alguma cidadezinha obscura do interior e se casado sossegadamente (e, como se viu, impermanentemente) diante de um juiz de paz e duas testemunhas. Mas não em Hollywood. Não em 1937. Eram duzentos e cinquenta convidados, com fotógrafos e jornalistas e chefes de estúdios e os elencos completos dos dois filmes em que o noivo e a noiva estavam trabalhando no momento, e a noiva com um vestido branco deslumbrante que lhe tinha sido dado de presente pelo departamento de roupas do estúdio. Delaney era o anfitrião. Naquela ocasião era casado com a mulher que depois lhe daria um tiro com uma espingarda de caça. Ela não trabalhava no cinema e, para não se entediar, dava festas. Era bonita, frívola e,por sorte, atirava mal. Delaney, que não gostava de festas, mas que as pagava para manter a paz na família, passou a maior parte da noite no bar, jogando gin rummy. O noivo, Otis Carrington, alto, elegante, sorridente, com uma bela voz, estava sentado entre duas de suas ex-mulheres, na escadaria colonial. Bebia café preto de uma xícara grande, porque estava lutando contra o álcool. Nem olhava para a mulher com quem se casara de tarde e dizia para as ex-mulheres: “Não preciso ir a um psiquiatra. Eu sei o que é que há comigo. Eu gostei de minha irmã até os trinta anos, até o dia em que descobri que afinal podia vencer a bebida.” Ele também disse: “O dia em que eu vi que teria de acabar deixando de beber foi a manhã em que acordei em Nápoles. Tinha ido a uma festa em Chicago vinte dias antes e acordei em Nápoles, num camarote de primeira classe, cheio de flores e garrafas de uísque vazias, e nem me lembrava de ter atravessado o oceano. Na verdade, nem me lembrava de ter chegado à Estação Dearborn.” Quando sóbrio, ele era delicado, espirituoso, atencioso e mais educado do que qualquer outro homem que Jack conhecesse. Mas, quando sob o efeito do álcool, sabia-se que linha arrebentado bares, acabado com festas, representações dramáticas, casamentos, velhas amizades, reuniões políticas. Nos seus últimos anos, quando, depois de meses de abstinência, sentia que ia tomar uma bebedeira, contratava um corpulento acompanhante masculino para segui-lo e reduzir a violência até que ele ficasse muito cansado e doente para continuar. Às vezes, o acompanhante ficava de serviço duas semanas a fio. Carrington era daquela velha linhagem de atores, naquela época já em vias de desaparecimento, que se comportavam como atores, libertinos, de roupas espalhafatosas, galantes, imprevidentes, dados a gestos. No primeiro dia da guerra, em 1917, ele tinha saído do teatro em que estava representando em Nova York, posto uma flor na lapela de seu temo caríssimo e,de bengala na mão, tinha ido até o posto de recrutamento mais próximo, para se alistar como soldado raso. Nascido numa outra época, criado em escolas diferentes, menos românticas, não obstante, Jack admirava Carrington tremendamente. Quando sua própria guerra chegou (foi no meio de um filme), foram necessários todos os argumentos de Delaney e as súplicas de seu empresário para que ele não seguisse o exemplo de Carrington. Uma vez, no estúdio, um jovem ator chegara a Carrington e lhe pedira para dizer, numa' frase curta, qual o segredo de ser um bom ator. Carrington fingiu pensar profundamente, esfregando o nariz grande e impressionante, muito sério, e respondeu: “Mostre-se encantado, meu filho, mostre-se encantado.” Nessa noite de casamento, Carrington também falou da noite do seu primeiro casamento com a noiva. “Foi numa festa ainda mais brilhante do que esta”, disse Carrington a suas ex-mulheres, sentado

entre elas, bebendo seu cafe, “e por acaso passei por trás de um sofá em que minha nova esposa estava sentada com um conde inglês, que eu conheci quando estava representando em Londres, e ela dizia: ‘Claro, meu bem, todos sabem que Carrington é impotente.’" Ele riu de bom humor, pensando naquelas festividades distantes, primaveris. Jack passou a maior parte da noite discutindo. Na verdade, parecia que desde que ele chegara a Hollywood, dois meses antes, passava quase todas as noites discutindo. Havia muitas coisas a discutir, é claro, mas em geral o que as pessoas discutiam nos salões de Beverly Hills, naquela época, era sobre como os filmes eram bons ou maus e sobre a Guerra Civil Espanhola. “Fazer um bom filme aqui”, disse Jack, baseado na maturidade de sua experiência de dois meses como ator, “é pura sorte. se alguém disser uma palavra verdadeira num filme, é o mais puro acidente. Não se pode ofender ninguém, nem os ricos, nem os pobres, nem o trabalho, nem o capital, nem os judeus, nem os gentios, nem as mães, nem os padres, nem os políticos, nem os industriais, nem os ingleses, nem os alemães, nem os turcos, nem ninguém. O letreiro em cima de todos os portões dos estúdios é covardia, escrito em letras de fogo. Por isso ninguém diz uma palavra de verdade sobre nenhum assunto. Desde que vim para cá, quase não encontrei ninguém com mais de vinte anos que não se tenha casado pelo menos duas vezes e, no entanto, todos os filmes que aparecem são um poema em louvor da monogamia. Todo mundo entre o oceano Pacífico e a prefeitura de Los Angeles está procurando fazer dinheiro com tanto afinco que só tem tempo para respirar aos domingos e,no entanto, a se acreditar nos filmes, o único meio de se ser feliz é viver num sótão com doze dólares por semana. Aqui, noventa por cento das pessoas têm tanto medo de Hitler que têm pesadelos com ele todas as noites do ano, mas em nenhum dos filmes que eu vi até agora houve uma sugestão de que ele possa ser mais perigoso do que a minha tia. À hora de almoço, no Lucey’s Bar, há mais conversas contra Franco do que nas trincheiras em Madri, e todas as vezes que alguém anuncia que vai fazer um filme sobre a Guerra Civil na Espanha, uma carta de um seguidor do Padre Coughlin acaba com isso. Cristo, esta sala está cheia de gente que passou a maior parte de suas vidas trapaceando, desrespeitando as leis, dormindo com as mulheres dos outros, e no entanto estão todos gordos, felizes, respeitados como eles só, e ficam a fazer filmes em que o crime nunca compensa, em que o criminoso e sempre castigado, em que uma moça tem de morrer ou acabar numa vida de vergonha se dormir com o noivo antes de se casar. É a primeira vez na história da arte que tanta gente, tanta riqueza e tanto talento e maquinaria se reuniram num lugar para criar um disfarce completo... a máscara de um bilhão de dólares, o grande sorriso feliz americano ...” De pé, no meio da sala, com um smoking novo feito para ele sob medida pelo alfaiate que Delaney lhe apresentara, rodeado de gente bonita, bronzeada, perfumada, bem vestida, cujos nomes estavam sempre nos jornais, Jack tagarelava feliz, embriagado com o champanhe do casamento, a que não estava habituado, divertindo-se, discursando, ditando a lei, confiante em si e sem ligar para as consequências. Ele tinha um desdenhoso sentimento de superioridade com relação às pessoas famosas que o escutavam, algumas encabuladas, concordando com ele, outras vermelhas e detestando-o. Eles eram ávidos de dinheiro, pensava ele, e fariam tudo para ganhá-lo ou conservá-lo, enquanto ele, sem contas no banco, sem ações nem títulos, sem imóveis nem participações em companhias de petróleo, tendo à disposição apenas sua juventude e seu talento, acreditava que não ligava a mínima se fosse rico ou pobre. Era o mesmo que ser invencivelmente sadio e passar por dentro de uma enfermaria de incuráveis, os incuráveis que gulosamente se alimentavam do veneno que os matava. Enquanto ele falava, de copo na mão e com a sensação gostosa da roupa nova nos ombros, estava vendo Carlotta Lee, entre os outros, olhando para ele com um sorrisinho secreto nos lábios. O sorriso parecia dizer que ela o estivera julgando e que por fim chegara a uma opinião, naquela noite, e que a opinião agradaria a ele. Ele a beijara naquela tarde, mas só no set, diante de cem atores, extras, operadores, e não lhe havia dito mais que algumas poucas palavras, fora das necessidades do roteiro, desde que começara a trabalhar no filme, mas naquela tarde ele resolvera que estava apaixonado por ela, e o sorriso, secreto e convidativo no

meio da comemoração, parecia dizer: “Sim, por certo/’ Era o tipo de noite com que ele sonhara para si, em todo o desajeitamento e hesitações da adolescência, e ele a estava aproveitando ao máximo. Era frívola e ostentosa, e os argumentos, em tal ocasião e lugar, eram apenas exercícios verbais, e ele sabia que, depois de três ou quatro noites assim, isso o chatearia para sempre, mas naquela noite ele estava aproveitando ao máximo. — Ora, escute aqui — disse um homem de nome Bernstein, que tinha produzido dúzias de filmes e que estava escutando o que Jack dizia com uma careta aborrecida em sua cara pesada, bronzeada. — Você está fazendo um filme, no momento, com Delaney, não está? — Estou — disse Jack, acenando com a cabeça para Delaney, que se aproximou do grupo. — Imagino que essa seja a santa exceção — falou Bernstein, com escárnio. — Imagino que seja uma grande obra de arte. — Não — disse Jack. — É uma porcaria, como todo o resto. Fez-se um ligeiro silêncio, e aí Delaney riu, e todos riram com ele, com exceção de Bernstein. Delaney deu um tapinha no ombro de Jack. — O rapaz só está aqui há dois meses — comentou ele. — O vocabulário dele ainda está forte. Ele há de se atenuar. — Que diabo você está fazendo aqui, se é isso que acha? — perguntou Bernstein, briguento. — Por que não volta para a Broadway com o resto dos comunistas? — Estou aqui para fazer o meu pé de meia, Mr. Bernstein — disse Jack, implicando com o homem, divertindo-se com a raiva dele. — Depois, dentro de um ou dois anos, vou comprar uma fazenda, criar vacas e cultivar orquídeas, e me retirarei da vida pública. — Uma fazenda — disse Mr. Bernstein. — Essa é nova. Vou esperar para ver o seu filme, rapaz. Talvez você possa retirar-se da vida pública mais depressa do que pensa. — Ele se afastou, um patriota indignado do país mágico e belo criado a cada dia nos palcos de som que ele amava e dominava. — Quantos anos você tem, Jack? — perguntou Delaney. — Vinte e dois. — ótimo — disse Delaney. — Você ainda pode falar como fala. Mas diga tudo agora. Porque, aos vinte e três anos, será intolerável. — Com um sorriso, ele passou .adiante, pequeno, duro, experiente, para investigar a história de que um poeta inglês estava embriagado com crème de menthe na cozinha e fazendo propostas indecorosas ao mordomo. Carlotta estava sorrindo mais francamente, a opinião em seus olhos compridos, verdes, cada vez mais clara. — Acho que esta festa já era — disse Carlotta. — Acho que está na hora de me levar para casa. E você? — Também — concordou Jack. E foi só isso que ele fez naquela noite. Levá-la a casa e deixá-la à porta. Naquela noite. Eu tinha um curioso senso de honra. Naquele tempo. Outra noite. Eles estavam trabalhando nos exteriores, no terreno dos fundos, e já passava das onze quando terminaram. Mais uma vez, Carlotta pediu que Jack a levasse a casa, porque seu carro estava na oficina para colocarem uma nova grade depois de um acidente. Ela dirigia bem, mas muito depressa, e o carro dela estava sempre na oficina para concertos. Eles foram para casa, calados, subindo a estrada sinuosa pelo canyon. De vez em quando, o cão de Carlotta, um imenso pastor belga que ela levava a quase toda parte, se debruçava no assento traseiro e lambia a nuca de sua dona. Ela o empurrava, impaciente, dizendo: “Que diabos, Buster, controle-se.” Então o cão se aquietava, magoado, de boca aberta, ofegante, a língua caída, até não conseguir mais controlar o seu amor e repetir o gesto. Carlotta ficou olhando de esguelha para Jack, um misto de curiosidade e divertimento estampado

em seu rosto triangular, pálido e vivo. Várias vezes, desde a noite do casamento, Jack tinha surpreendido aquela mesma expressão, zombeteira, convidativa, tudo ao mesmo tempo, no rosto de Carlotta. Por motivos particulares, Jack sempre que podia evitava ficar a sós com ela, ou olhar demais para ela, mas aquele rosto, transbordante de vitalidade, de violenta sensualidade loura, de sugestão de divertimento malicioso, perseguia-o nos sonhos e atormentava-o acordado. — Você não parece ter qualquer dificuldade em se controlar, não 6? — perguntou Carlotta. — Não é como o pobre Buster aqui, babão, coração na língua. — O que você quer dizer com isso? — perguntou por sua vez Jack, embora soubesse muito bem o que ela queria dizer. — Nada — respondeu Carlotta, rindo. — Nada em absoluto. O que é que você fazia no leste? Fez um juramento sagrado de ser mal-educado com as estrelas de cinema? — se fui mal-educado — falou Jack, forçado —, sinto muito. Desculpe. — Você foi mal-educado com todo mundo, aqui — disse Carlotta, com displicência. — E gostam bastante de você por isso. Isso aqui é a Alameda do Masoquismo. Quanto mais apanham, mais gostam. Não mude, isso prejudicaria o seu charme. Ela tinha uma maneira estranha de falar. Fora criada no Texas, numa família de sete filhos, sendo o pai um perfurador de poços de petróleo que tinha viajado por todo o Estado, como um cigano com sua ninhada, mas não havia nem vestígios de sotaque nativo em sua fala. Ela estudara com afinco durante dois anos com professores de dicção, e agora, quando falava, parecia uma moça que tivesse frequentado as melhores escolas do leste e que tivesse conscientemente corrigido todos os maneirismos mais afetados de linguagem que aprendesse lá. A voz em si era baixa, controlada, e ela fazia os homens ficarem constrangidos e vacilantes em sua presença, como se estivesse pronta, a qualquer momento, a ridicularizar qualquer estupidez ou pretensão. No set, era concentrada, inteligente, egoísta, feroz na defesa de seus interesses, confiante em seu talento e impiedosa diante de fraudes. Delaney tinha dito a Jack no princípio: “Farei o possível para protegê-lo dela, mas você também tem de ter cuidado. Ela o varrerá da tela, se relaxar por um minuto.” O corpo dela, que era famoso, e com justiça, e que parecia flexível, macio e juvenil, ela o mantinha rijo, numa forma de atleta. Seguia um regime de comida e bebida como o de um campeão de peso-pesado em período de treinamento. Tinha vinte e seis anos e, quando queria, podia passar convincentemente por dezoito. Ela tinha lido muito, sem qualquer planejamento ou discriminação, como para compensar a falta de instrução do tempo em que acompanhava o pai, e a mente dela era um saco de retalhos de fatos e citações das fontes mais surpreendentes. Ferozmente dedicada à sua carreira, nunca se casara. Todas essas coisas, quando tinham sido reveladas a Jack nas semanas anteriores, precipitaram-no rapidamente pelos estágios de admiração, desejo, e, por fim, amor. Mas ele ainda nada dissera. Jack dirigiu o carro até a casa branca esparramada em cima do morro e freou. O cão começou a gemer atrás, ansioso por saltar. — Oh, Cristo! — exclamou Carlotta. — O que é que há? Carlotta mostrou um Cadillac estacionado no jardim. — Tenho visita — disse ela. — Você não pode entrar. — Por que não? — perguntou Jack. — A visita ficaria com ciúmes. — Quem é ele? — Jack olhou para o carro, especulando. Era grande, novo e rico, mas em Hollywood isso nada significava. Quando muito significaria apenas que alguém tinha conseguido juntar mil dólares para o sinal e estava esperando que tudo corresse bem. Ele mesmo tinha um Ford conversível, de segunda mão.

— Quem é ele? — perguntou Carlotta, incrédula. — Você não sabe? — Não. — Está brincando? — Devia saber? Carlotta riu e,inclinando-se, o beijou na testa, depressa, enquanto dizia: — Pela ignorância, acima e além das exigências de Hollywood. — Depois, ela lhe disse o nome do dono do Cadillac. Era Kutzer, o chefe do estúdio, o homem que lhe dera o pseudônimo de James Royal. — Eu pensei que todo mundo soubesse — disse Carlotta, com displicência. — Já dura desde dois dias antes do Dilúvio. — Você gosta dele? — perguntou Jack. — Pare de chorar, Buster — disse Carlotta para o cachorro. — Você gosta dele? — repetiu Jack. Kutzer tinha pelo menos quarenta anos, era casado e pai de dois filhos. Estava ficando calvo, tinha uma barriguinha, e era temido e ridicularizado no estúdio, como todos os outros homens na mesma posição em Hollywood. Jack nunca ouvira alguém dizer que gostasse dele. — Vamos dizer assim — falou Carlotta: — hoje, não gosto dele. — Bom, dê-lhe lembranças — disse Jack, secamente. — Boa noite. Carlotta abriu a porta e depois fechou-a, desafiadoramente. — Não quero dizer boa noite. Quero beber alguma coisa. — Tenho certeza de que você encontrará uma garrafa lá dentro — falou Jack, mostrando a casa. — Quero beber alguma coisa com você. Sozinha com você. E não seja tão emproado que nem um raio de um garoto de vinte e dois anos. Sente-se e fique quieto, Buster. — Ela se aconchegou no ombro de Jack. — Sabe o caminho daqui para a sua casa, Jack? Jack tornou a olhar para a casa, secreta e escura com suas cortinas cerradas, e para o carro, reluzente e caro no jardim. Depois, virou o Ford depressa e voltou pela estrada sinuosa. Jack morava no lado errado de Beverly Hills, abaixo da linha do bonde, num bairro em que chamavam apartamento de “pátio". O prédio tinha a forma de um quadrado oco, com uma entrada por um arco e um grande jardim complicado atravessado por caminhos de cascalho. Quando ele parou o carro, viu que o proprietário de um bangalô do outro lado da rua estava diante de sua casa, em mangas de camisa e de suspensórios, seriamente regando seu gramado. Era difícil saber que amor pela terra ou que horror de sua própria lareira teria levado seu vizinho a essa cerimônia à meia-noite. Eles saltaram do Ford C, o cão cheirando diante deles, passaram pelo arco para o jardim central. Algumas janelas estavam iluminadas e de uma delas vinham os compassos de Valencia, tocada por uma orquestra de dança, no rádio. Do jardim vinha um aroma úmido de louro e eucalipto. Jack abriu a porta de seu apartamento e cerrou as cortinas, para que, quando acendesse a luz, os vizinhos não pudessem espiar para dentro. Antes que ele pudesse ligar o interruptor, Carlotta colocou-se entre ele e a parede e ficou ali, esperando no escuro. — Bom, então... — começou ela. Ele a tomou nos braços e beijou-a. Enquanto a segurava, sentiu o cachorro cheirando indagadoramente as suas pernas. Lembrou-se de seus outros beijos, no set, sob as luzes, as câmeras, os olhos dos outros atores, cabeleireiros, operadores de som e eletricistas. “Pelo menos estamos reduzindo o público”, pensou ele, cinicamente, “já estamos só em um cão.” A ideia tirou o prazer do beijo. Como se tivesse adivinhado um pouco o que ele estava pensando, Carlotta afastou-se dele e apertou um botão na parede. Ouviram um zumbido, mas nada de luz. — O que foi isso? — perguntou ela, assustada. — Você ligou o aquecimento — explicou ele. Em seguida, acendeu uma lâmpada numa mesa junto da janela e viu, com surpresa, que ela ainda estava com a maquilagem da filmagem da noite. Ele se

esqueceu de que os dois tinham vindo diretamente do estúdio. Olhou para sua imagem no espelho. Sua cara estava sem idade, cor de cera, irreal. Quando ele se virou do espelho, ela estava sentada no sofá pesado, estilo das missões, com as pernas encolhidas. — Você me prometeu uma bebida — disse ela. Ele foi à cozinha e trouxe uma garrafa de uísque, dois copos e um jarro de água. Carlotta estava olhando em volta com uma careta de desprazer. Ele viu que se tinha esquecido de como o quarto alugado mobiliado era feio e nu. — Quando as pessoas chegam aqui — disse Carlotta —, sempre escolhem lugares como este para morar. Eu os chamo antilares. — Ela aceitou o copo e tomou um longo trago. — Nós dois estamos com caras horríveis — disse ela, tocando a sua maquilagem. — Não é, Buster? O cão estava deitado no meio da sala, olhando para ela, e abanou o rabo, batendo-o no chão de ladrilhos nu, quando ouviu o seu nome. — As pessoas têm medo de assentar raízes aqui — continuou ela, falando depressa. Pela primeira vez, desde que lhe tinha sido apresentado, Jack sentiu que ela parecia nervosa e constrangida. — Têm a impressão de que a terra debaixo de toda essa grama verde e insalubre e que as piscinas são envenenadas. — Indicou com o copo a mobília escura, trabalhada, e as paredes verdes de estuque. — Este lugar precisa é de um toque feminino, como dizem nos filmes. — Ela olhou para ele com incerteza, como quem pergunta, os cabelos louros caindo soltos sobre o suéter que estava usando. — Não houve nenhum toque feminino, houve? — Não — disse Jack, sentado na beira da mesa, olhando-a, tendo o cuidado de manter distância dela. — É o que me dizem — disse ela. — É o que me dizem. Também me dizem que você é casado. É verdade? — É — respondeu ele. — Cada dia estão pegando o pessoal mais moço. — Carlotta esticou as pemas no sofá, os dedos se tocando num V. Descansou a cabeça no braço alto do sofá, segurando o copo nas duas mãos. — Onde está ela, sua mulher? — Em Nova York. — Como é que ela o soltou assim? — Não quis vir comigo. Está trabalhando. — Em quê? — Numa peça. Ela é atriz. — Ah, Deus! — exclamou Carlotta. — E essa peça não acaba nunca? Você pediu a ela para vir com você? — Pedi. — E ela não quis? — Não. — Como é o nome dela? Quero dizer, o nome artístico? — Você nunca ouviu falar nela — disse Jack. — Ninguém nunca ouviu. É um papel secundário. — E mesmo assim, ela não quis vir?... — Não. Ela é muito séria. — Ah! Ela é boa? — Não. Ela é péssima. — Ela sabe disso? Jack sacudiu a cabeça, enquanto respondia: — Não. Ela se julga a Sarah Bernhardt americana. Carlotta riu com malícia.

— Você já disse a ela? — Disse o quê? — Que ela é péssima. — Já. — E o que foi que ela disse? Jack riu, penosamente. — Disse que eu tinha inveja do talento dela, que eu não tinha talento, que eu não sabia o que significava ser dedicado à minha arte e que, de qualquer maneira, eu só prestava mesmo era para Hollywood. — Dias felizes no teatro de Nova York — disse Carlotta. Acabou de beber e pôs o copo no chão ao lado dela. O cachorro se levantou e foi até lá cheirar, esperançoso. — Quanto tempo mais? — perguntou Carlotta, tornando a estender-se preguiçosamente no sofá, os braços acima da cabeça — você acha que seu casamento vai durar? — Dois dias — respondeu Jack. — Quando foi que você decidiu isso? — Hoje. — Por quê? — Você sabe por quê. Ela então se levantou e foi postar-se diante dele, tocando-lhe o ombro de leve com a mão, os olhos verdes e grandes muito vivos e sombrios na máscara, da maquilagem. — Eu não vim aqui só para beber alguma coisa, sabe? — murmurou ela. — Eu sei. Venha, agora vou levá-la para casa. Ela recuou e ficou olhando para ele, franzindo a testa, procurando compreender. — Você é um raio de rapaz — disse finalmente. — Escute aqui. Vou levá-la para casa agora, vou tomar um avião para Nova York amanhã e vou dizer à minha mulher que estou apaixonado por você e que quero me divorciar e que vou me casar com você assim que puder. Carlotta segurou-lhe o rosto nas mãos, olhando dentro dos olhos dele, como para certificar-se de que ele não estava brincando. — Sou apenas uma meninazinha pobre, simples e corrupta que veio para Hollywood na mais tenra idade, Jack — disse ela, sorrindo meio torta. — Não sei se aguento toda essa pureza... Ele a beijou com carinho, selando as suas palavras. — E eu? — disse ela, com aspereza. — O que é que eu faço enquanto tudo isso acontece? — Você retira os Cadillac de seu jardim — disse Jack. — De uma vez por todas. Carlotta recuou um pouco e, tocando-lhe os lábios, insegura, murmurou: — Isso parece bastante justo. Quando eles saíram e entraram no Ford com o cão, o homem de suspensórios continuava a regar seu gramado da meia-noite. Ficou olhando para cies do outro lado da rua, espantado, Jack tinha certeza, de que tivessem saído tão depressa. Diga-me, quantas vezes você já se casou? Três vezes. Meu Deus! Isso mesmo. Meu Deus. Isso é normal nos Estados Unidos? Não propriamente. — Você é desumano — disse Julia, de pé no meio da sala, as pernas afastadas, numa pose de ingênua, o rosto contorcido e cheio de ódio. O apartamento era na Rua 12, oeste. Era num prédio velho,

de tetos altos e paredes descascadas, e Julia tinha pendurado cortinas de juta cor de laranja desde a última vez em que ele estivera lá. Comprara também uma mobília feia, tubular. No quarto ao lado, a criança estava chorando, mas ninguém lhe deu atenção. — Você só fica dizendo como quer viver sua vida honestamente — disse ela, em voz alta. — Não se iluda. Não é honestidade. É vaidade e dureza de coração. Você pisoteia qualquer pessoa para conseguir o que quer. Sua mulher. Seu filho. Por que não podia ter seu caso em Hollywood com essa vagabunda velha, ficar quieto e voltar para casa, para sua mulher, como todo mundo faz? Ah, não, você não. Tem até de me contar com antecedência. Meu Deus, que tipo de homem é você? O Sir Galahad da alcova. — A voz dela estava áspera e sarcástica, mas até mesmo em sua própria casa, lutando pelo que ela considerava seus direitos conjugais, ela parecia uma má atriz, numa má peça, fingindo ser áspera e sarcástica. Naquele momento, era impossível lembrar-se de que ele algum dia acreditara amá-la, que a achava linda, até que eles tinham estado juntos no calor da mesma cama e se estendido os braços com desejo e afeto. — Não adianta discutirmos a respeito, Julia. — Jack procurava manter a voz calma e razoável. — É o único jeito para mim. Tomo conta de você, do bebê e... — Você não precisa tomar conta de ninguém — disse ela. Agora, ela estava chorando, e ele se espantou de não sentir pena alguma, só irritação, diante daqueles soluços falsos, daquelas lágrimas jovens e quase autenticamente tristes. — Não vou lhe dar o divórcio — chorou ela. — Vou ficar bem aqui e vou tomar conta do bebê e quando você cair em si estarei esperando por você. E estarei melhor sem você, também. Você não estará aqui para minar minha confiança em mim, zombando de mim, dizendo que não presto, que nunca hei de prestar. Quando você voltar, eu estarei em cima, estarão me oferecendo todos os papéis femininos da Broadway... Quando você voltar, eu é que vou tomar conta de você! Jack suspirou. Ele não queria envolver-se nisso outra vez. Ela tinha a mesma obstinação e impulso que Carlotta, mas, porque em Carlotta isso se juntava ao talento, tornava Carlotta admirável. A ambição de Julia, sua capacidade de trabalho, sua fé em si só a tornavam idiota. — Julia — disse ele, sem conseguir evitar avisá-la —, se você tivesse juízo, desistiria. Desistiria antes que fosse tarde demais. Encontraria um homem bom e se casaria com ele e se dedicaria a ser uma mulher e mãe decente. — Saia — gritou ela. — Saia de minha casa. Ele foi até o quarto e olhou para o filho, que chorava no berço. "Pedirei perdão a você quando você for um pouco mais velho", pensou ele. No momento, só o que ele conseguia sentir era pesar porque o filho tivesse nascido. Não beijou o rostinho vermelho e úmido no travesseiro enfeitado e saiu do apartamento com alívio. Duas horas depois, estava no avião rumo à Califórnia. Volare, oh, oh... Cantare, oh, oh, oh, oh. ,. Manhã de verão, no jardim da casa branca em cima da estrada sinuosa do canyon. A mesa posta para o café, debaixo do guarda-sol listrado. A correspondência colocada arrumadinha em dois pacotes ao lado dos grandes copos de suco de laranja, roteiros, enredos, envelopes do serviço de recortes, cartas, para M. James Royal e Miss Carlotta Lee, como o primeiro ato de uma peça, logo depois de a cortina subir, os atores esperando para entrar em cena, esperando justamente o suficiente para terminarem as palmas dirigidas ao bonito cenário. O céu azul da Califórnia, naqueles dias ainda livre do smog, um fundo magnífico para o bosque de abacateiros, com suas folhas formais, brilhosas, e seus frutos pesados, redondos, como o desenho de um pomar feito por uma criança. O perfume de laranjas e limões ao sol das dez da manhã. Agora, os dois estavam sentados um defronte do outro, Carlotta de calças e uma camisa azul de homem, com as mangas arregaçadas até os cotovelos, Jack de sandálias, calças e um suéter macio de lã; um diante do outro, olhando-se por cima das flores no meio da mesa, por cima da correspondência

arrumadinha, vinda do mundo exterior, insignificante e sem importância. Jack ficou sentado vendo Carlotta abrir um envelope, seus movimentos rápidos e precisos, a pele reluzindo debaixo da luz rosada, sob o guarda-sol listrado. Ela olhou para ele. — Em que você está pensando? — perguntou. — Estou pensando em ontem à noite, e outras noites, e como você é maravilhosa e como estou enlaçado, enroscado, cativado, extasiado, imerso, alegremente impregnado de sexo pecador, e em como você foi esperta em sair dos campos petrolíferos de seu pai e em como eu fui esperto em sair dos secadores de ameixa de meu pai. Carlotta riu. — Não me diga que isso foi espontâneo — disse ela. — Claro que não — concordou Jack. — Eu o compus enquanto fazia a barba, como uma espécie de cantochão pré-café. Você não gosta? — Continue — pediu ela. — Amanhã de manhã — disse ele. — Meus poderes de composição estão esgotados por hoje. Oh, raios, lá vem essa peste de cão. Buster chegou, pulando, de volta de seu passeio matinal pelo mato do canyon. Dançou em volta da mesa, latindo numa saudação histérica. — Oh, cale-se, Buster — ordenou Carlotta, dando-lhe um pedaço de torrada com mel. Buster tinha sido motivo de uma discussão quando Jack se mudara para lá. — Ele tem de sair do quarto enquanto nos amamos — dissera Jack. — Ele é muito sossegado — falara Carlotta. — Não me importa se é sossegado ou não. Ele fica ali, respirando e espiando. Tenho sempre a impressão de que ele ou vai me morder na bunda ou vender a história aos jornais. — Ele é um cão muito discreto. Vai achar que somos antipáticos, se o trancarmos do lado de fora. — Vou acabar ficando impotente — lamentava-se Jack. — Nesse caso, ele sai. Mas ele vai latir. — Não importa. Pode latir. Buster tinha latido durante duas noites, mas afinal desistiu, aborrecido. Agora, ficava do lado de fora da porta, respirando, como dizia Jack. — Está um dia lindo — disse Carlotta, olhando para o céu sem nuvens. — Sabe o que seria gostoso fazer? Pegar o carro e ir para a praia, nadar e almoçar lá, só nós dois, e... O telefone, que tinha um fio comprido que ia da casa à mesa, começou a tocar. — É sua vez — disse Carlotta, com uma careta. Jack atendeu. — Alô — disse ele. — Você leu o negócio novo? — Era Delaney, como sempre sem perder tempo com preliminares. — Eu li o negócio novo — respondeu Jack. — Então? — É terrivelmente original, meu caro — disse Jack, arrastando a voz. — Seu filho da mãe — falou Delaney, sem se exaltar. — Que diabo é que você entende? Você nunca passou de calouro em inglês. Tem o gosto literário de um açougueiro. É um atleta grosseiro, que não sabe a diferença entre Henry James e um cômico. Sua ideia do melhor filme do mundo é Rebecca of Sunnybrook Farm. Se seu pai não tivesse sido tão danado de pão-duro, teria inscrito você num curso de dez anos de leitura corretiva para crianças retardadas. — Jack recostou-se confortavelmente em sua cadeira, sorrindo. — Já está reduzido a pó, seu fazendeiro de ameixas? — perguntou Delaney.

— Estou recostado e bebendo meu suco de laranja na presença da mulher mais linda do mundo — respondeu Jack. — Sexo ininterrupto roubou-lhe os poderes de raciocínio — disse Delaney. — Diga isso à moça. — Vou fazer isso mesmo — concordou Jack, sorrindo. — Diga-me — continuou Delaney. — Não que faça a menor diferença o que um pobre ator analfabeto pense, mas é terrivelmente original, ou terrivelmente, terrivelmente original? — Varia — disse Jack, amavelmente. — Às vezes é um, outras vezes é outro. — Estou pensando uma coisa indizível a respeito de sua mãe — falou Delaney. Depois, suspirou. — Acho que você tem razão, Jack. Encontre-se comigo ao meio-dia, e vamos até a praia, almoçamos e veremos se conseguimos juntar umas ideias para dar àquele cabeça de piolho do Myers para reescrever. — Estarei lá — disse Jack, e desligou. Carlotta estava olhando para ele, indagadoramente. — Nada de praia hoje? — perguntou ela. — Não com você — respondeu ele. — Vou lá com Delaney. — Se eu fosse mulher de verdade, ficaria com ciúmes. — Se você fosse esse tipo de mulher de verdade, eu não estaria sentado aqui. — Sabe, acho que você é o primeiro homem a quem Maurice Delaney já deu ouvidos, em toda a vida dele. — Eu dou ouvidos a ele. — Ele está habituado a isso. — Iremos à praia amanhã, se fizer um dia bonito. — se fizer um dia bonito e Delaney não precisar de você. — Se Delaney não precisar de mim. — Em todo caso — disse Carlotta, mordendo uma torrada —, é uma sorte eu ter as minhas caridades e meus cachimbos de ópio para as tardes longas e solitárias. Jack riu e começou a ler a correspondência. Havia uma carta de Julia. Era a primeira, desde que ele a deixara, quatro meses antes. Ele quase a separou, para ler sozinho, mas achou que era covardia, por isso a abriu logo. Querido Jack [ele leu, na letra elegante, quase impressa, artificial]. Fui procurar um advogado e em breve pedirei o divórcio. Não vou pedir dinheiro algum, pois conheci um homem por quem me apaixonei e vou casar com ele assim que ficar livre. Estou providenciando para ter a custódia da criança, naturalmente. Como não desejo um divórcio em Nova York, onde eu teria de usar o adultério como motivo, o que seria desagradável para a criança, quando ela crescesse e começasse a fazer perguntas, vou para Reno. Naturalmente, espero que você pague as despesas necessárias. Julia. “Por que ela fica dizendo a criança?”, pensou Jack, irritado. “Sei o nome dele.” Depois, sua irritação desapareceu, quando penetrou o significado da carta. — Onde você quer se casar? — perguntou a Carlotta, que estava impacientemente percorrendo a sua correspondência. — Como é que é? — perguntou ela. Ele lhe deu a carta. Ela a leu, sem expressão. — Onde ela aprendeu a escrever cartas? — perguntou Carlotta, depois que terminou a leitura. — Na escola de comércio? — Pessoalmente, acho que é a melhor carta que já recebi em toda a minha vida — desabafou Jack. — Você fez bem em deixá-la — falou Carlotta. — É uma idiota. — Como você pode saber por uma carta? — perguntou Jack. — Não pedir dinheiro — falou Carlotta, comendo a torrada. — Ela podia ter explorado você ao

máximo. — Você vai me pedir dinheiro quando nos divorciarmos? — perguntou Jack, rindo. — Um braço e uma perna — respondeu Carlotta. — Nesse caso, acho melhor ficarmos casados. — Acho que sim. — Ela foi para junto dele e beijou-lhe a cabeça, despenteando-o com os dedos. — Na Califórnia, eu acho — disse Jack. — Há manhãs lindas na Califórnia. Você não acha? — Eu acho, também. — Ela tornou a beijá-lo e voltou para seu lugar para acabar o café. E aquela mulher do filme?... Você não casou com ela? Casei. Ela lhe agradou? Sim, ela me agradou muito. — Isso nunca teria acontecido — dizia o cabineiro de um braço só, com sua voz de cockney —, se eu tivesse dormido em minha cama, mas minha tia Penélope estava nos visitando e minha mãe insistiu para ela passar a noite lá, de modo que fui para a casa de meu amigo Alfred, na outra rua, e dormi lá. Depois, quando começou o reide, pulei da cama para abrir a janela e escutei o raio do assobio. A bomba caiu três casas adiante e o chão todo subiu e desceu como um gato se encolhendo. Havia um grande espelho na parede e eu vi quando ele veio caindo em cima de mim, devagar, como câmera lenta no cinema, rodando, e eu vi quando ele cortou meu braço, bem acima do cotovelo... Era outro jogo de pôquer no mesmo hotel e havia dinheiro novo. Um tenente da Força Aérea, recém-chegado dos Estados Unidos, jovem e entusiasmado, divertindo-se, com duas missões fáceis cumpridas e sentindo-se viril, esbanjava seu soldo de voo por todos os lados. — Verdade — dizia o tenente. — Nunca houve uma licença como aquela. Acho que não vesti as calças duas vezes em três dias. Eu estava em Victorville, no deserto, e, antes de partir para Los Angeles, um camarada me deu um número de telefone e me disse para ligar para lá: dizia-se que a moça comparecia, prontamente, logo, e com o velho espírito agressivo. Por isso, eu telefonei para ela. Ela perguntou: “Como é o seu nome?”, e eu respondi: “Tenente Dineen, madame.>’ Então, ela disse: “Tenente Dincen, apresente-se às dezoito horas”, e eu me apresentei. Ela era um pouco velha, talvez trinta anos, mas bonita e hábil. Mal me deu tempo de acabar a bebida e nós não paramos em nosso trabalho nem para jantar até as onze e meia. Ela estava no intervalo entre dois filmes, disse, de modo que tinha tempo, e nós andamos por aquela casa branca, em cima do canyon, inteiramente nus, a não ser a aliança dela, durante três dias triunfantes, com aquele imenso cão policial nos seguindo, espiando. Eu disse a ela: “Moça, se isso é guerra, que venham os inimigos.” E ganhei a gratidão eterna de toda uma esquadrilha de b-17 quando passei o número do telefone, quando parti. — Três réis — disse Jack, com voz firme. — O bolo é meu. — Puxou seus ganhos. Setenta e duas libras. — Ela tem mais de trinta anos, tenente. Tem trinta e dois anos. Pouco depois, ele foi para a sala ao lado, deu um telefonema e mais tarde foi dormir com outra mulher, pela primeira vez desde que se casara com Carlotta. Em suas cartas para casa, ele não mencionou o jovem tenente nem a esquadrilha de b-17 e, quando escrevia a Carlotta dizendo que a amava, era verdade, ele estava sendo sincero. Tinha sofrido demais com os ciúmes de Julia para poder dar-se a esse luxo consigo. Dizia a si mesmo que era a guerra e que quase tudo numa guerra tinha de ser feio, triste e complicado, inclusive o casamento. Mas os últimos laços de castidade de sua mocidade foram afrouxados e ele foi para a cama com todas as garotas ávidas que enchiam Londres naquele auge da guerra. Ele deitava com as bonitas com uma emoção extra de prazer estético e com as feias com um pouco de pena, mas com todas ele sentia vontade e prazer e foi muito requisitado quando se soube de sua mudança de atitude, embora se recusasse a dizer a qualquer delas, por mais linda ou querida ou satisfatória que fosse, que a amava. Isso, e só isso, ele se reservou. Quando houve a invasão e ele teve de partir com a unidade fotográfica do Corpo de

Sinaleiros, para a qual tinha sido designado porque era do cinema, na vida civil, deixou Londres com um grande suspiro de pesar, porque havia umas trezentas ou quatrocentas garotas com quem ainda não tinha dormido. Jack soube que o avião do jovem tenente explodiu em sua quinta missão, sobre o Ruhr. Não foram avistados paraquedas. Apostas na mesa. Só se pode apostar o que se tem diante de si... A enfermaria estava tranquila, a luz da noite, fraquinha, estava acesa sobre a porta na extremidade do quarto, os roupões marrons estavam dependurados numa linha arrumada atrás das camas, um homem roncava baixinho, outro homem se remexia agitado e resmungava alguma coisa parecida com Savannah. Jack estava acordado. A dor agora era sólida e onipresente. Grandes martelos pareciam estar batendo, em ritmo, em seu pescoço, pelo meio do corpo, no ar em volta dele. Quando se mexia no travesseiro, tinha a sensação de que sua cabeça era feita de plástico fino e transparente e estava sendo lenta e brutalmente enchida de gás fervendo. Queria gritar, mas não gritou. Havia mais quinze homens dormindo na enfermaria e ele não queria acordá-los. Esperou. “Se não parar dentro de cinco minutos”, pensou ele, “vou tornar a tocar.” Dois minutos depois, apertou o botão. Pareceu-lhe que se passaram duas ou três horas até que a enfermeira apareceu. Não a reconheceu. Era nova na enfermaria, mocinha e nervosa, com medo de não estar fazendo as coisas direito. — O senhor já tomou seu comprimido, tenente — murmurou ela. '— Por que não vai dormir? Seja bonzinho. — Tocou o travesseiro dele, com pena. — Estou morrendo — disse ele. — Ora, vamos — animou-o a enfermeira. — Não deve entregar-se assim. — Tomou a tocar o travesseiro. Ela devia ter a impressão, por algum motivo, de que tocar o travesseiro a fazia ter mais jeito de enfermeira. — Acho bom você chamar um médico e dizer a ele que estou morrendo. — O médico o examinou às oito horas, tenente — disse a enfermeira, procurando ser paciente, mas com um tom aborrecido. — Ele disse que era apenas uma ligeira inflamação e que de manhã o veria outra vez. Agora, Jack viu que conhecia a enfermeira. Ela já tinha ido ali três vezes naquela noite, atendendo a seus chamados, e ele se lembrou de que ela parecia uma secretária do escritório do pai, que sempre arquivava papéis importantes nas gavetas erradas. Parecia-lhe estar olhando para ela através de uma névoa vermelha, mas agora se lembrava dela, porque se lembrava de que ela tinha dito a mesma coisa nas três vezes naquela noite. Era um sábado de noite e o hospital só estava com metade do pessoal, por causa do fim de semana, e ela era nova demais para querer assumir a responsabilidade de parecer estar contrariando os médicos. Se o médico disse, às oito horas, que a inflamação não era grave e podia esperar até de manhã, isso equivalia a uma ordem direta, para a enfermeira. Além disso, a enfermaria estava cheia de homens que estavam, em teoria, convalescentes. Não era de supor que fosse morrer, especialmente no meio da noite, quando ela estava de serviço. Por isso ela tornou a tocar o travesseiro e saiu. Jack esperou mais um minuto, depois mexeu-se devagar, usando sua mão boa para ajudar, até que se sentou na beira da cama. Quando, porém, tentou levantar-se, suas pernas cederam e ele caiu, ou melhor, diminuiu — flutuou, até o chão. Ficou ali, procurando pensar no meio da névoa vermelha. Depois de algum tempo, levantou a mão boa e puxou as cobertas da cama junto dele. — Wilson — murmurou. — Wilson. Escutou um movimento na cama quando Wilson acordou e o procurou. — Wilson — sussurrou. — Onde diabo está você? — perguntou Wilson. Em seguida, a cabeça de Wilson apareceu na beira da cama e,um minuto depois, com muito cuidado, porque ainda estavam tirando estilhaços de metal

das pernas dele, abaixo do joelho, Wilson já se encontrava no chão ao lado de Jack. — Escute, Wilson — murmurou Jack. — Se eu não vir um médico agora, vou morrer. Wilson não era como a enfermeira. Para começar, estava nos hospitais havia mais tempo do que ela e sabia o que podia acontecer dentro deles. Ele concordou com a cabeça e foi andando devagar até a outra extremidade do quarto, onde havia duas cadeiras de rodas. Levou uma para onde Jack estava deitado. Gastaram dez minutos, ambos suando e com as mãos sujas de graxa, para conseguir pôr Jack na cadeira. Em seguida, descalço e gemendo com o esforço de andar, Wilson empurrou a cadeira, saindo do quarto para o corredor comprido e vazio. Não havia ninguém à vista, nem no corredor nem em qualquer das salas de serviço. Todo mundo estava ou fora, para o fim de semana, ou dormindo, ou tomando café, ou cuidando de casos urgentes em outras alas do prédio. — Você sabe aonde quer ir? — perguntou Wilson, ofegante, inclinado sobre as costas da cadeira. Ele era texano, com um sotaque carregado. Sua família tinha uma fazenda perto de Amarillo, e via-se, quando ele ficava estendido na cama, olhando para suas pernas arrebentadas, que estava pensando como seria quando tentasse montar de novo. O jipe dele tinha passado por cima de uma mina, na Itália, e todos diziam que ele tinha sorte de estar vivo. — Não — respondeu Jack, procurando focalizar os olhos no túnel mal iluminado, que parecia vermelho, contraindo-se e expandindo-se. — Leve-me para o médico mais próximo. Os corredores saíam em ângulos diferentes daquele em que estavam, como um labirinto, habilmente planejados. O hospital era novo e concebido com muito engenho, mas era preciso conhecer a chave. Depois de certo tempo, os dois tiveram a impressão de que poderiam continuar a andar para sempre, a borracha das rodas chiando no chão de linóleo escuro, acompanhada pelos passos penosos e arrastados de Wilson e sua respiração agoniada, por quilômetros de portas fechadas ou luzes enganadoras de vãos desertos, lavatórios e cozinhas vazias, andar para sempre, perdidos, sem ver ninguém, em espiral pela noite quieta, vazia, do hospital. Finalmente, encontraram uma porta com um vidro fosco e dentro havia uma luz. Essa luz parecia pequenina para Jack, muito longe, clara, e com um círculo vermelho. Com um último empurrão, acompanhado de um gemido, Wilson encostou a cadeira na porta e esta se abriu. Sentado a uma mesa diante da porta, estava um homem com as insígnias de coronel nos ombros da túnica aberta. Era pequeno, grisalho, e estava debruçado sobre papéis na mesa, lendo, com óculos de aros de aço. Wilson sentou-se na única cadeira junto da mesa, exausto. — Coronel — murmurou ele. — Coronel... O coronel nada disse. Olhou depressa para Wilson, em seguida aproximou-se de Jack e, com dedos leves e rápidos, começou a desfazer a atadura que lhe envolvia a cabeça. Examinou o ferimento do queixo por alguns segundos, tocando em Jack de leve. Depois, deu um assobio baixinho e, voltando para a mesa, discou um número no telefone: “Aqui é o Coronel Murphy. Prepare a sala de operações número 2. Vamos operar dentro de vinte minutos.” O balão de plástico estava agora esticado ao máximo com seu gás ardente, mas Jack sorriu ao coronel, porque este tinha acreditado nele. O coronel também acreditava que ele ia morrer. Agora, porém, ele estava nas mãos do coronel, e não ia mais morrer. Afinal de contas, era esse o objetivo da guerra de Jack — não morrer. Ela tem mais de trinta anos, tenente. Tem trinta e dois anos. Isso nunca teria acontecido se eu tivesse dormido em minha cama... — Não sei por que não podem transferi-lo para a Califórnia — dizia Carlotta. — Afinal de contas, lá também há hospitais. Aí eu podia vê-lo o tempo todo. Virgínia! Meu Deus! Quantas vezes a pessoa pode ir à Virgínia? Eu só consegui desta vez porque estava fazendo uma apresentação pessoal em Washington.

Era outra estação. A guerra já tinha acabado havia muito tempo, parecia. Junto com os outros homens que estavam ainda no hospital, Jack sentia que os civis que iam visitá-los ficavam impacientes com eles por serem tão teimosos, por se agarrarem por tanto tempo a um período que já terminara, como crianças mimadas que se recusam a crescer e aceitar suas responsabilidades de adultos. Wilson tinha exposto o caso, por todos, depois de uma visita de um parente. “Filho”, dissera ele, “estamos sujando o território americano. Somos apenas uns destroços insalubres que alguém importou da Europa por engano.” Continuavam a tirar pedaços de metal das pernas dele. Jack e Carlotta estavam sentados debaixo de uma árvore, nos jardins do hospital. Estava florido, quente e agradável, se a pessoa se abstraísse e não se importasse com os roupões marrons. Dali, tinham uma vista de montanhas azuis ao longe e ainda não fazia muito calor. Jack já conseguia andar, e seu queixo, embora torcido e ainda em carne viva, estava mais ou menos curado. Ainda tinha de se submeter a duas operações no queixo — atendendo ao que os médicos chamavam de motivos plásticos —, e ele acabara de saber que a primeira estava marcada para a manhã seguinte. Mas nada disse a respeito a Carlotta. Não queria estragar a tarde. Carlotta só tinha duas horas para passar ali e ele não queria estragálas. Ela estava mais velha, é claro. Estava engordando demais e já descia o morro em Hollywood, só conseguindo papéis inferiores em filmes inferiores, com grandes cortes nos salários e reclamando das mocinhas que apareciam. Jack, vendo seu pescoço mais grosso, o tom de cabelo morto, tingido demais, a cintura apertada artificialmente, a expressão de reclamação em seus olhos e o tom do fracasso em sua voz; lembrou-se da voz do jovem tenente, em Londres, dizendo que ela era velha, tinha trinta anos, mas que era bonita e hábil. Mas ele nada disse a respeito de nada disso, como não mencionou a operação do dia seguinte. Limitou-se a ficar ali sentado no banco, ao lado dela. sem ao menos tocá-la, pensando: “Eu te amo, eu te amo, eu te amo.” Obstinadamente, ele tinha certeza de que não fora poupado à morte na casa incendiada, não tinha sobrevivido a meses de morfina e horas nas mesas de operação e à viagem na cadeira de rodas, com Wilson, para perder Carlotta ou a essência de seu sentimento por ele. Ele voltaria ao jardim, às folhas heráldicas do pomar de abacates, com as frutas como desenho de crianças, à fragrância das laranjeiras e limoeiros. Nas novas manhãs da Califórnia, pacatas e clementes, eles reconstituiriam o prazer que tinham criado um para o outro. — É tão injusto você ter sido ferido desse jeito — dizia Carlotta. — Todo mundo já está de volta a essa altura e ninguém se lembra mais da guerra. Não é como se você estivesse na infantaria ou coisa assim, aí as pessoas esperam ser feridas. Mas no Corpo de Sinaleiros! O que você estava fazendo tão perto do fogo? Jack sorriu, cansado. — Dormindo — respondeu ele. — A situação estava um tanto confusa. — Não aguento vê-lo assim, querido — disse Carlotta, sua voz tremendo. — Tão magro, tão fatigado, tão... tão aquiescente. Fico lembrando de como você era petulante, arrogante... — Ela sorriu, trêmula. — Tão simpático e impossível, dizendo a todo mundo o que pensava deles. — Prometo ficar impossível outra vez, quando sair daqui. — Tivemos uns bons anos, não foi, Jack? — Carlotta parecia estar implorando o assentimento dele, como se sem isso os anos não tivessem sido verdadeiros, nem bons, nem tivessem existido. — Cinco anos bons, antes de você partir para o raio da guerra. — Vamos ter muitos anos mais — prometeu ele. — Eu garanto. — Não sei. — Ela sacudiu a cabeça, incerta. — Tudo parece tão mudado. Até o clima. A neblina hoje não parece sumir antes do meio-dia, a maior parte do tempo, e nunca vi tanta chuva... Parece que nunca mais consigo resolver as coisas direito.

Eu era tão segura de mim... e estou começando a ter um aspecto tão estragado... Jack interrompeu-a: — Você está linda. — Diga isso ao meu público — falou ela com amargura. Puxou a saia, que estava se juntando na cintura. — Tenho de emagrecer. — Você tem estado com Maurice? — perguntou Jack. — Como vai ele? — Há um boato de que o estúdio vai rescindir o contrato dele. Seus dois últimos filmes foram verdadeiras drogas. Ele falou nisso quando esteve aqui? — Não. Delaney o visitara duas vezes no hospital, mas seus encontros tinham sido constrangidos. No princípio da guerra, Delaney tinha pedido uma patente no Exército, a qual fora recusada, por motivos que nunca revelou a Jack, e o hospital cheio de feridos pareceu ter um efeito perturbador sobre ele. Falou coisas desconexas, evitou qualquer referencia a seu trabalho, fez perguntas a Jack sobre a guerra, cujas respostas não pareceu escutar. Apesar de ter vindo de Nova York especialmente para visitar Jack, pareceu apressado e distraído durante as duas visitas e deu a impressão de ter ficado aliviado quando chegou a hora da partida. — Sabe o que ele teve a audácia de me propor? — disse Carlotta. — Que eu devia mudar-me para mais perto do hospital, para estar disponível sempre que você pudesse me ver. Foram essas as palavras dele. Disponível. Eu respondi a ele que isso seria a última coisa no mundo que você havia de querer. — Carlotta pegou a trousse e olhou para o próprio rosto, com desagrado. — Eu linha razão, não tinha? — Claro — concordou Jack. — Aí, eu pedi um emprego a ele. Disse que eu voltasse depois de perder cinco quilos e ficar na Lei Seca dois meses. Quando se começa a descer, naquela cidade, as pessoas acham que podem dizer o que lhes passa pela cabeça — concluiu Carlotta, Com amargura. — Como vai Buster? — perguntou Jack, procurando mudar o assunto, distrair Carlotta de seu triste autoexame. — Morreu. — Ela começou a chorar. — Não tive coragem de escrever-lhe isso. Alguém o envenenou. Vou lhe contar, a Califórnia não é mais o que era. Está ficando cheia da gente mais horrível, malvada... “A testemunha canina morta”, pensou Jack com tristeza, vendo a mulher enxugar os olhos. “Morto o voyeur lupino, com suas alegres recordações carnais de dias mais felizes.” — Sinto muito — disse ele, afagando a mão de Carlotta. — Eu gostava muito dele. — Agora que o cachorro estava morto, isso era verdade. — Foi a única coisa realmente querida para mim que perdi na guerra — disse Carlotta, chorando. “Afinal”, pensou Jack, “todos devem esperar perder alguma coisa numa guerra.” Ele queria saber consolar a mulher. Queria poder convencê-la de que, quando ele voltasse, as coisas iam mudar, o clima ia melhorar, a Califórnia não estaria mais cheia de gente horrível e malvada, que ela não teria só papéis inferiores em filmes inferiores, que o seu salário voltaria ao que era, sua confiança em si também. Mas naquele momento chegou Wilson em seu roupão marrom, para ser apresentado à mulher famosa e linda de seu companheiro de enfermaria, e não houve tempo para consolos. Enxugando as lágrimas, Carlotta sorriu para Wilson, numa imitação muito boa do sorriso ousado e cativante que ela tinha levado do Texas para a costa, havia tantos anos, e que fora tão importante para o seu sucesso. Se Wilson notou que ela estava chorando, sem dúvida pensou que fosse por causa de Jack. — Miss Lee — disse Wilson, educadamente, equilibrando-se em suas pernas destruídas. — Quero dizer-lhe que a admiro desde menino... — Wilson estava com vinte e quatro anos — e sempre achei que a senhora era a mulher mais desejável que já tive a sorte de ver. — Ora, veja — falou Carlotta. Mais uma vez ela parecia o que era quando Jack a conheceu,

alegre, perigosa e segura de si. — Isso não é uma coisa agradável de se ouvir? Ela não ficou as duas horas. Quando partiu, ainda restava bem uma meia hora de folga. Disse que tinha medo de perder o trem para Washington. Hoje em dia ela não podia se dar ao luxo de se atrasar. Não era como nos velhos tempos, quando estava por cima e podia fazer qualquer negócio. Naquela noite, depois que apagaram as luzes e já o tinham preparado para a operação, no dia seguinte, Jack chorou. Era a primeira vez, desde que tinha sido ferido, que as lágrimas lhe vinham. Na Califórnia, eu acho, há manhãs lindas na Califórnia. Você não acha? — Fique para almoçar — disse Clara Delaney, deitada num colchão de borracha em frente da casa, na areia, tomando banho de sol. Estava com um maiô muito reduzido e quase negra do sol. Jack se surpreendeu, como sempre acontecia quando ele a via com roupas reveladoras, com a firmeza de seu corpo e a robusta beleza de suas linhas, debaixo da cara de secretária particular, dura e desiludida. — Maurice está por aí, em algum lugar. — Ela indicou o oceano, vagamente. — Se não se afogou. Carlotta está com você? — Não — respondeu Jack. — Não está comigo. Saltou o muro baixo que separava o pátio dos Delaney da praia e foi até a beira da água. Era uma manhã de dia de semana, e a curva branca da praia de Malibu, com sua vistosa franja de casas apertadas umas contra as outras, estava quase deserta. O mar se mostrava bravo, com muitas ondas grandes, que se arrebentavam, perdiam a força e recuavam, com um silvo perigoso, esverdeado, para quebrar-se novamente em espuma branca, de encontro às outras vagas que vinham. Ao longe, Jack viu um pontinho. Delaney estava nadando firme, paralelo à praia, o pontinho escuro descendo e subindo com as ondas que vinham arrebentar. Jack acenou e, depois de algum tempo, Delaney o viu, acenou-lhe também e começou a voltar. Por um ou dois minutos, parecia que Delaney não ia conseguir. A correnteza o puxava e ele ficou preso justamente na arrebentação, sua cabeça desaparecendo a toda hora. Finalmente, “pegou um jacaré" numa onda, chegando à praia. Levantou-se, a água atingindo-lhe os joelhos, um vulto forte e queimado, como um peso leve dos tempos antigos, meio cheio com o tempo, mas não demais, divertido com os assaltos do oceano Pacífico contra ele. Saiu da água sorrindo, os olhos ligeiramente injetados, devido ao sal, e apertou a mão de Jack, com a sua ainda pingando, antes de se abaixar para pegar uma imensa toalha felpuda branca que estava na areia, com a qual começou a esfregar vigorosamente seu cabelo ruivo e ralo. Depois, enrolou-a em volta do corpo, como uma toga. — Você devia ter vindo mais cedo — disse ele. — Podíamos ter nadado juntos. A água está ótima. — Um dia desses, Maurice, se você continuar a ir tão longe sozinho, vão encontrar um diretor afogado em algum lugar nessa praia. Delaney riu, acrescentando: — Isso será divertido para muita gente, hem? Quer um café? — Quero conversar com você. Estou com um problema. — Quem não está? — falou Delaney e olhou para a casa. — Clara ainda continua lá? — Continua. — Vamos dar uma volta. Lado a lado, caminhando pela areia dura logo abaixo da linha de algas da maré alta, eles foram andando pela praia. A uns trinta metros, na água, uma fila de pelicanos voava em círculo em torno de uma onda, alguns centímetros acima da água. — Estou pensando em desistir — confidenciou Jack. — Quero seu conselho. — Desistir como? de quê? — Casamento — respondeu Jack, olhando para os pelicanos. — Carreira. Tudo. — Hummm. — Delaney acenou com a cabeça. Parou, pegou uma pedra e a atirou, o braço para o lado, para que ela fosse tocando a água de raspão. Quando ele fazia uma coisa assim, era espantoso como

parecia jovem, tão hábeis e vigorosos eram todos os seus movimentos. — Eu já esperava por isso — disse em seguida, sem olhar para Jack. — Carlotta anda fazendo o diabo, não 6? — É. Hoje ela voltou para casa às oito da manhã. — Você perguntou onde ela esteve? — Não. Mas ela insistiu em me dizer. — Chegou a esse ponto? — Sim. — O que você disse a ela? — Quando voltei para cá, depois de sair do hospital, eu disse a ela que tinha sabido das coisas que ela fez durante a guerra, mas não a culpava nem a condenava. Que diabo, estive fora mais de cinco anos. Só o que eu queria, disse eu, era que nós dois esquecêssemos tudo aquilo e recomeçássemos tudo, procurando voltar ao que éramos... — O guerreiro inocente — falou Delaney. — E ela, o que achou disso? — Achou que estava ótimo, era o que ela queria também. Por uns dois meses, foi como era antes. De qualquer forma, quase como era antes. Aí, ela começou a desaparecer nas festas, e a sumir de tarde... Você sabe como as mulheres fazem aqui. Ontem à noite, ela completou, ficou fora a noite toda... — Ela quer o divórcio? — Não. Diz que ainda gosta de mim. — Jack sorriu, cansado. — E, de certo modo, gosta mesmo. Os outros homens não parecem significar coisa alguma para ela. Pelo menos, não individualmente. En masse, sim. — Você tem ideia de por que ela faz tudo isso? — Tenho minhas teorias, naturalmente. — Jack sacudiu a cabeça, com pesar, obrigando-se a falar. porque não aguentava mais guardar tudo para si. — É tão diferente do que ela era quando a conheci, quando casei com ela, até eu ir embora... Sabe, até me conhecer, ela só tinha andado com um homem, Kutzer. Quando eu soube dele, achei que era a coisa típica de Hollywood, a garota ambiciosa dormindo com o produtor por causa dos bons papéis e da publicidade. Mas não era nada disso, eu descobri. Ela andava com ele e com mais ninguém, durante sete anos. Ela o amava. Com ela, ele nunca foi o cafajeste que era com todo mundo. Era bom e delicado, diz ela, compreensivo e honesto. E, devo dizer, quando ela disse a ele que queria casar-se comigo, ele se portou muito bem. Não a ameaçou nem procurou me prejudicar e, você sabe, naquela ocasião, teria sido a coisa mais fácil do mundo para ele acabar comigo. Desde então tem sido um bom amigo para nós dois. E comigo, até eu ir para a guerra, ela nunca olhou para outra pessoa. Como eu. Estou certo disso. — É — concordou Delaney. — É verdade. — riu, com azedume. — Vocês eram um casal nada normal. Então, o que é que você acha que aconteceu? — Primeiro, ela ficou só... Ela não suporta ficar sozinha. Depois, começou a sentir que estava decaindo... Teve pouca sorte com dois ou três filmes e começaram a passar por cima dela e escolher outras moças para papéis que ela achava que deviam ser dela. Não preciso dizer-lhe como era ambiciosa. Posso entender como isso devia magoá-la. E começou a ficar alucinada com a ideia de envelhecer. Acho que instintivamente procurou uma reafirmação na cama, já que a perdera diante das câmeras. Bom, e se é isso que a pessoa procura, não a encontra em uma cama só. Então fica experimentando outras camas, imagino. Delaney concordou. Coçou a cabeça pensativo, revolvendo os cabelos ruivos, cheios de sal, de modo que ficaram em pé, como espetos. — Bom, doutor — disse ele. — Acho que não é preciso radiografia. O diagnóstico parece bem claro. Mas, e você? O que é que você vai fazer?

— Vou dar o fora. Não posso ajudá-la. Se eu ficar aqui, vou acabar odiando-a. Estou no fim — confessou Jack. — Eu sabia, em 1944, que um dia você ia chegar para mim e me dizer isso — falou Delaney. — Estive numa festa com sua querida esposa e ela chegou para mim e disse: “Maurice, ouvi dizer que você é quem trepa melhor nessa cidade.” — Delaney riu brutalmente. — Não era verdade, é claro, mas a sugestão era obvia. — Não vou perguntar-lhe o que aconteceu depois disso — disse Jack, com calma. — Não — disse Delaney. — Não pergunte. Eles pararam e olharam para o mar. Os pelicanos agora estavam voltando, em suas asas firmes, quase sem se mexer, beirando uma longa onda verde. — Eles devem ter algum motivo para fazer isso o dia inteiro — comentou Delaney, com um gesto de cabeça para os pelicanos. — Mas, em minha opinião, estão só se mostrando. E como se estivessem dizendo: “Quando estamos parados, não somos grande coisa, mas na crista de uma onda somos os tais.” Eles provavelmente são membros secretos da Sociedade dos Atores Cinematográficos. — Enrolou-se melhor na toalha. Vinha um vento do norte pela praia e uma neblina alta que tornava o sol pálido e aguado. Então, Delaney disse: — Quer mudar-se para cá e ficar conosco? Isso aqui é bom no verão e, durante a semana, quase não há ninguém por aqui. Você pode se refazer em paz. Ha um quarto de hóspedes em cima da garagem, e você não precisa nem me ver, se não quiser. — Obrigado, mas acho que não. Acho que vou para o leste por algum tempo e depois talvez volte à Europa. — Tem algum filme para fazer na Europa? — Não. Acho que não quero mais fazer filmes — falou Jack, devagar. — Para começo de conversa, nunca conseguirei voltar ao ponto em que eu estava antes da guerra. Não com essa cara. — Ele tocou o queixo. — Ainda há muitos papéis. Como aquele que você leu para mim e que recusou no ano passado. Talvez não consiga papéis principais, por algum tempo, mas... — Não presto mais, Maurice — disse Jack, muito quieto. — Você sabe disso, não sabe? — Bom... — Você sabe — insistiu Jack. — Sim — disse Delaney. — Você me ofereceu aquele papel por amizade. — De certo modo, sim. — Não estou mais interessado. Talvez seja a guerra. Não sei. Agora tudo me parece uma droga. Agora, ser ator não parece mais trabalho de gente grande, para mim. Acho que sinto isso porque nunca realmente cheguei a ser um ator. Fui ator por acaso... — Deu de ombros. — Tanto faz se eu sair do mesmo jeito que entrei. — O que você vai fazer na Europa? — Sabe, andei falando com algumas pessoas — começou Jack, encabulado. — Sobre o que os quakers, os “amigos”, estão fazendo lá... refugiados, reabilitação, esse tipo de coisa. Acho que na Europa, este ano, não vai fazer muita diferença se a cara de um sujeito estiver arrebentada um pouco aqui ou ali. De qualquer forma, passamos tanto tempo estourando o raio do lugar que talvez seja uma boa coisa dar uns dois anos para procurar remendá-lo... Delaney riu. — Nada como uma mulher infiel para levar um homem às boas obras — disse ele. — De qualquer maneira — continuou Jack —, vou resolver depois que estiver em Nova York. — Como é que você está de dinheiro? — perguntou Delaney. — Tenho minha pensão — respondeu Jack. — Cento e noventa dólares por mês. E há um salário

para esse trabalho. E meu agente me fez comprar umas ações antes da guerra, quando eu era tão rico que não sabia o que fazer com o dinheiro. Ele me diz que elas quase triplicaram de valor. Se eu as vender, devo receber entre cem e cento e vinte mil... Não vou morrer de fome. — Ah, que desperdício... — Delaney sacudiu a cabeça, com pena. — Nós íamos tão bem, você e eu. Tínhamos tudo arrumadinho. Parecia que a nossa sorte não ia acabar nunca. Só que não era somente sorte. Tínhamos um grande segredo. Não mentíamos um ao outro e sabíamos trabalhar juntos. A maldita guerra — disse ele, com uma amargura calma. — Durante toda a guerra eu tinha um plano para nós. Pensei que, quando você voltasse, nós pudéssemos fundar uma companhia independente juntos, nós dois, e realmente mostrar como e que se faz filme. Se você tivesse voltado em 1945, como todo mundo, com o rosto inteiro, teria sido uma sopa, eles teriam se precipitado para nos dar o dinheiro... — Em todo caso, eu não voltei em 1945 com o rosto inteiro. — E agora... — disse Delaney, esfregando o lado da cabeça, pensativo — ...eu não consigo arranjar financiamento nem para um curta-metragem de três minutos anunciando preservativos. — Isso é só temporário, Maurice. Você sabe disso. Há muita gente que quer você. — Claro. Muita gente me quer. Nas condições deles. Para fazer as porcarias deles. — Deu de ombros, acrescentando displicente: — Isso vai mudar. Sempre muda. E, quando mudar, eu vou lá, arranco você de onde estiver e vamos fazer uns filmes que vão arrasar os filhos da mãe. — Ele riu. — É só deixar um endereço, para eu não perder tempo procurando você. — Eu deixo o endereço — murmurou Jack. Foi difícil dizer as palavras. “Cristo”, pensou ele, com raiva, “desde o hospital que eu estou sempre a ponto de chorar.” — Enquanto isso, se você precisar de dinheiro... Jack sacudiu a cabeça, olhando para a areia. — Afinal, o que é que você quer de mim? — perguntou Delaney. — Foi você quem me trouxe para cá — disse Jack. — Quero que me diga que está na hora de eu ir embora. — Vá — falou Delaney, com aspereza. — Vá depressa. Quem me dera poder ir com você. E não espere. Arrume suas malas e vá hoje à tarde. Atravesse a fronteira da Califórnia até a meia-noite. Não olhe para trás. — A voz dele estava amarga e estridente, como se se sentisse responsável pelo que tinha acontecido com Jack e com a garota maravilhosa que Carlotta tinha sido quando ele a conheceu; como se Jack tivesse cristalizado para ele todos os receios, fracassos e traições por que ele mesmo passara, que presenciara, infligira, naquele lugar. — Não discuta com ela. Não discuta com ninguém. Mas vá. Eles não se apertaram as mãos. Depois de um momento, Jack deixou Delaney ali em pé, senatorial e oracular em sua toalha como uma toga, à beira do mar revolto. Jack passou entre duas casas próximas para chegar à estrada, onde seu carro estava estacionado, porque não queria dizer adeus a Clara. Quando ele chegou em casa, Carlotta tinha saído. Arrumou duas malas depressa, deixou um bilhete e começou a dirigir para o leste às duas da tarde. — Você fez bem em deixá-la. É uma idiota. — Como você pode saber por uma carta? — Não pedir dinheiro. Podia ter explorado você ao máximo. — Estive conversando com os advogados de Miss Lee — dizia Mr. Garnett. — Receio que o senhor esteja em dificuldades, Mr. Andrus. — Mr. Garnett era um homem de fala macia, meio calvo, cujo escritório de advocacia não se especializava em casos de divórcio. Jack tinha uma aversão irracional por advogados divorcistas, assim como por médicos que anunciavam ser especializados em doenças venéreas. — Ela está pedindo uma quantia enorme. Os advogados dela conseguiram um mandado judicial bloqueando sua conta bancária e todos os seus haveres a vigorar de dois dias atrás, alegando que o

senhor não tem renda regular que possa garantir uma pensão alimentar. Além disso, alegam que o senhor pretende deixar o país, e sua mulher, como a ofendida, deve ser protegida. — Mas isso é ridículo — gritou Jack. — Sou eu que estou pedindo o divórcio. — Ele não tinha alegado adultério porque não queria arrastar a coisa na lama. Tinha imaginado um divórcio quieto, educado, inofensivo. — Como é que ela pode esperar conseguir alguma coisa de mim? — indagou. — Ela está alegando conduta imprópria, Mr. Andrus — disse Mr. Garnett. Em voz baixa, acrescentou: — E receio que possa prová-lo. — Meu Deus, todo mundo sabe, na Califórnia, que ela andou dormindo com todo mundo menos o porteiro do estúdio. — O senhor pode provar isso. Mr. Andrus? — Não posso prová-lo, mas qualquer pessoa... — Ela pode provar conduta imprópria de sua parte, Mr. Andrus — disse Mr. Garnett, olhando, com ar respeitável, para os papéis na mesa diante dele. — Os advogados dela me informam que mandaram segui-lo enquanto o senhor esteve em Nova York e que têm provas. — Oh, Cristo! — exclamou Jack. Ele tinha encontrado uma garota da Cruz Vermelha, que conhecera na Inglaterra, e, mais por estar só do que por outra coisa, tinha passado algumas noites no apartamento dela. Sem prazer. — Naturalmente, o senhor também poderia contratar detetives para seguir sua mulher, embora eu imagine que ela vá ser muito discreta até o caso ser julgado. Mas ainda assim poderia valer a pena arriscar. Conheço uma agência muito boa na Califórnia que tem tido resultados excelentes, e... — Não — interrompeu-o Jack. Ele pensou no café da manhã no jardim, há tanto tempo. Por coisa alguma ele poderia pôr a polícia para vigiar a mulher que se tinha sentado diante dele naquela manhã. — Não — repetiu ele, com voz arrastada. — Esqueça isso. — Há um aspecto favorável na situação — continuou Mr. Garnett. — Ela não pode tocar em sua pensão. O governo mantém isso inviolável. — O bom e inviolável Tio Sam — zombou Jack, levantando-se. — Eu gostaria de ter suas instruções a respeito do assunto — disse Mr. Garnett. — Como o senhor quer contestar o caso? — Não o conteste — falou Jack. — Nem estarei aqui. Estarei na Europa. — Conheço a firma que está representando sua mulher — prosseguiu Mr. Garnett. — São bastante... bastante impiedosos. Poderá ser difícil chegar a qualquer acordo com eles, a não ser que o senhor ao menos ameace defender-se e apresente contra-acusações... E se sua esposa foi tão... tão indiscreta... no passado, como o senhor diz, pode bem ser possível, mesmo agora, obter testemunho de registros de hotéis, empregadas, motoristas e outras testemunhas desse tipo. — Não — repetiu Jack. — Nada. Dê o que ela quer. Procure guardar alguma coisa para mim, mas, se não der certo, dê tudo. — Sinto muito, Mr. Andrus — falou Mr. Garnett. Ele se levantou para se despedir. — Ah, mais uma coisa. Sua mulher ainda reclama o carro em que o senhor veio para Nova York, e acredito que ela esteja providenciando para que ele seja confiscado. Naturalmente, tomarei as medidas contrárias necessárias. Jack riu como louco. — Dê-lhe o carro — disse ele. — Não vou poder nem pagar a gasolina. Dê tudo à senhora. Salvar a manhã no jardim, pensou ele, ao sair do escritório do advogado, não ia ser fácil. Resuma a noite. Dentro em pouco a aurora vai surgir sobre as ruínas, os monumentos e as antenas de televisão de Roma, e está na hora de fazer o balanço da memória. Vozes esquecidas falaram, velhas canções foram ouvidas, fantasmas se juntaram e separaram, velhas feridas foram abertas e sangraram de novo, o presente da noite romana revelou uma plataforma frágil e perigosa nas colunas despedaçadas do

passado, os mortos fizeram sua aparição rápida, os dedos erguidos num aviso gnômico... De toda essa companhia alegre e brava... A morte. A presença estava novamente no quarto com ele, respirando no travesseiro a seu lado, paciente, esperando. Ele se sentia assaltado. Os golpes da noite o haviam minado, os primeiros sinos das igrejas de manhã foram as explosões finais sob as muralhas. Toda a sua vitalidade, toda a saúde interior e inconsciente que o fizera atravessar feridas e hospitais, fracassos e perdas de amor, pareciam estar se esvaindo. Com o sangue novo e fresco em seus lábios, ele teve a sensação de que uma voz lhe murmurava ao ouvido, entre o sono e a vigília: “Você não sairá de Roma vivo.” “Veronica”, pensou ele. “Por que ela não está aqui? Que diabo, por que ela não está aqui?” Fechou os olhos, apertando-os, e lembrou-se daquele corpo cheio, envolvente. Ele se contorceu tristemente com desejo. “Se ela estivesse aqui”, pensou ele febrilmente, “tudo seria diferente.” É madrugada em Roma. Aqui e ali, ouve-se o ruído de uma Vespa, mandando contra os muros. Os sinos de várias igrejas, entre elas Sant'Andrea della Valle, Santa Maria Sopra Minerva, Santissima Trinità dei Monti, San Luigi dei Francesi, Santa Maria della Pace, saúdam o novo dia, depois da noite de pesadelo. A missa está sendo celebrada na Igreja de Santa Maria in Trastevere, para cinco velhas de xales pretos, reumaticamente curvadas sobre o chão de pedra, frio e varrido pelo vento, escutando o jovem padre sonolento dizer Kyrie eleison, Kyrie eleison, Christe eleison, Christe eleison, Kyrie eleison, Kyrie eleison, antes de partirem para o seu trabalho diário, esfregando chãos nos hospitais, prédios comerciais, hotéis. O mercado está sendo armado junto ao Palazzo Farnese, flores e alcachofras da Sicília, as laranjas vermelhas e sogliole e cefali e triglie do Mediterrâneo, os triângulos, como tijolos, de queijo parmesão, a mortadela, os salames e os ovos brancos e úmidos de mozzarella empilhados na palha. Os últimos fregueses alegres estão saindo da boate de porão do mulato na Via Veneto, rindo alto, falando meia dúzia de línguas e ligando seus carros com um ronco de motores na rua azulada. O bêbado Jack, com os dedos um pouco inchados, dorme inquieto em seu quarto de hotel a três ruas dali, receando a manhã, mesmo em sonho já preparando as primeiras duas aspirinas, os primeiros Alka-Seltzer, o primeiro Bloody Mary do novo dia. Os guardas de serviço na Via Botteghe Oscure, defronte da sede do Partido Comunista e da casa do embaixador da Espanha, encostam-se ao muro, protegendo-se do vento, e ficam pensando se alguém irá fazer motim hoje e que cabeças terão de ser espancadas. O fuzileiro naval de guarda em frente da Embaixada americana espera seu substituto, feliz por estar na guarda da noite, porque de noite os estudantes não fazem passeatas diante da Embaixada, para manifestar sua desaprovação quanto aos acontecimentos do Egito, da Hungria ou da Argélia. Sonolento, o fuzileiro fica pensando por que será que os estudantes italianos acham que precisam demonstrar sua desaprovação às revoltas, na África e Europa central, por meio de marchas e agitação de bandeiras diante da Embaixada americana, em Roma. O Tibre corre em suas margens de pedra passando pelo Castel Sant'Angelo e o Palácio da Justiça, por baixo de pontes de pedra, um riacho estreito e domado demais para ter corrido por toda aquela história, em seu caminho para o mar, passando por Ostia, por Ostia Antica, que já foi um movimentado porto de duzentos mil habitantes e agora é apenas ruínas escavadas, e um teatro aberto e restaurado nos campos verdes de inverno, estendendo-se até as praias de lava negra. Os caminhões passam roncando pela Piazza Colonna, com os jornais da manhã anunciando escândalos e crises. Os operários começam a erguer palanques de madeira para uma parada, na avenida que dá para o Coliseu. Sente-se um cheiro de café, vindo dos bares que ficam abertos a noite toda. As últimas prostitutas deixam, com relutância, a Piazza Barberini, onde a fonte brinca sem cessar, a água cascateando pelos ombros musculosos, a cabeça e a cauda de peixe, viradas para cima, da figura de bronze do mar e da terra. E em toda a cidade há a movimentação das mulheres que se levantam da cama para comprar pão,

fazer o café, preparar as crianças para o colégio; há os grunhidos reprimidos e não ouvidos dos homens que se vestem, duros, suarentos do trabalho da véspera, mal pagos, preparando-se para o salário de fome de hoje. A aurora clara, de inverno, do Mediterrâneo, verde-pálido e rosa-frio, loca os muros construídos às pressas de Parioli, construídos pelos milionários de Mussolini e aumentados pelos milionários do Plano Marshall, toca a cúpula do Vaticano, os topos dos salgueiros nos Jardins Borghese, toca a cabeça descoberta de Garibaldi, na grande estátua do janículo, com uma luz pacífica ilusória, de esperança. A luz mediterrânea infiltra-se no quarto do hotel onde Jack está deitado, de olhos ardendo, desperto, preso nas malhas do passado, lembrando-se de vozes de outras eras... Ele olhou para o relógio. Hora de levantar-se. Levantou-se e fez a barba. Seu rosto estava desfigurado à luz forte do banheiro e ele se cortou no queixo. O corte não parava de sangrar. Vestiu-se, sentindo-se confuso e desajeitado. Pegou o envelope de Despière e colocou-o dentro de uma gaveta da cômoda, debaixo de umas camisas. Lembrou-se de pegar os óculos escuros para escapar ao exame detalhado de Delaney. Quando ia saindo, viu um envelope debaixo da porta do salão. Curvou-se, meio tonto, para apanhá-lo. Não tinha nome nem endereço. Era de um papel fino e ele sentiu que, dentro, só havia uma folha. Abriu-o, sabendo que devia ser algum novo ataque, alguma última incursão na noite. Andrus Tele leu. Estava escrito em tinta vermelha, numa letra nervosa e rabiscada]. Encontrei uma citação que poderá interessar-lhe. E de Plínio, citada por Leonardo da Vinci em seus cadernos. Você está interessado em história natural? Aí está... "O grande elefante tem, naturalmente, qualidades raramente encontradas no homem, a saber, a honestidade, prudência, um sentido de justiça e de observância religiosa. Consequentemente, quando a lua é nova eles se dirigem para os rios, ali se banham solenemente, limpando-se, e, tendo assim saudado o astro, voltam às florestas. "Temem a vergonha e só se acasalam de noite e em segredo, e não se juntam novamente à manada sem primeiro se banhar no rio.” Lembre-se do elefante, Andrus, tema a vergonha, limpe-se. Bresach. Jack ficou olhando ocamente para a folha fina de papel com a escrita vermelha. Era Bresach rondando lá fora, pensou ele. Ele estava louco, seria capaz de tudo. Só um louco iria ao quarto de uma pessoa às três horas da manhã para entregar uma mensagem daquelas. Dobrou a carta com cuidado e guardou-a no bolso. Foi preciso muita força de vontade para abrir a porta para o corredor. Mas os dias eram suportáveis. Às noites é que era preciso sobreviver.

15 Jack esperou no restaurante até as duas e trinta, almoçou e demorou-se no café, mas Veronica não apareceu. Saiu do restaurante e foi para o hotel, mas lá não havia recado para ele. Estava irritado com ela e, por um momento, pensou em esquecê-la e subir para dar um cochilo. Estava exausto da noite da véspera, e a sessão com Delaney, na sala de dublagem, tinha sido desagradável e cansativa. Delaney zangara-se com ele e fora sardônico sobre a sua aparência: — Cristo! Se você vai ficar acordado, trepando a noite toda, como é que espera fazer o trabalho direito? Ele tinha dado uma resposta brusca a Delaney e procurado concentrar-se desesperadamente; mas não fora possível livrar-se dos efeitos da noite. Sabia que precisava de sono, mas sabia também que não conseguiria dormir se não procurasse encontrar Veronica. Deu a Guido o nome do hotel aonde levara Veronica na véspera. Guido devia ter almoçado bem, pois estava expansivo e falador, embora Jack preferisse que ele o deixasse cochilar em paz no assento traseiro. — A Fiança — disse Guido, correndo até um sinal de tráfego e pisando no freio a meio metro de um velhinho que, com uma pasta, atravessava a rua. — A França, isso é que é país. — Ele falava em francês, o laço comum dos dois. — São abençoados, os franceses. Têm tudo. Todas as riquezas do solo, todos os minerais, todas as mulheres mais lindas. E não estão amontoados. Isso é a bênção deles. Controlam os nascimentos. Não é como aqui, como este insensato incubador italiano, onde todos os dias as nossas mulheres parem mais vinte mil desempregados. Ora, a França tem até de importar os trabalhadores. — Ele sacudiu a cabeça diante da glória inacreditável dessa situação. — Imagine um país desses. O ser humano é rei. — Suspirou alto. — Eu devia ter ficado lá. Quando meu batalhão italiano partiu, eu devia ter tido o bom senso de desertar e ficar lá. Depois, eu poderia ter-me feito prisioneiro e depois me tornava cidadão. Os meses mais felizes de minha vida eu passei perto de Toulon. Meu capitão era um bandido; ele nos arrendava para uma senhora por quem estava apaixonado e que tinha um vinhedo, e nós trabalhamos nas vinhas na primavera e no verão. A senhora, que era dona do vinhedo, era uma aristocrata. Ela nos disse: “Meus pobres filhos, vocês vão perder a guerra e em breve muitos de vocês estarão mortos, por isso bebam todo o vinho que puderem agora.” O vinho daquela costa é pesado e forte, e ela compreendia quando tínhamos de dormir debaixo das oliveiras, nas tardes quentes, e nunca contava ao capitão. Se for absolutamente necessário trabalhar — disse Guido, com autoridade —, é sempre melhor trabalhar para um aristocrata. Guido tinha dito a Jack que ganhava mil e seiscentas liras por dia, e só era pago nos dias em que de fato trabalhava. Isso significava mais ou menos dois dólares e meio por dia, e ele tinha três filhos para alimentar. Mas, de manhã, a camisa dele estava sempre limpa e engomada, a gravata arrumada, os sapatos engraxados, o cabelo reluzente e cuidado. Ele dirigia segundo a teoria italiana. Assim que se punha à direção, presumia que todos os outros motoristas fossem covardes e todos os pedestres ágeis como gazelas, de modo que arremetia a Fiat verde, com toda a velocidade possível, nos cruzamentos e em cima dos outros carros, na esperança de que os outros motoristas pisassem no freio apavorados, ou que se desviassem. Ele se lançava sobre todos os pedestres, até homens de uma perna só, de muletas, ou velhos com criancinhas, esperando que eles, de alguma maneira milagrosa, saltassem para longe do perigo, no último momento. Contou a Jack, com orgulho, que, em todos os seus anos de motorista, nunca tinha nem arranhado o para-lama de um carro. Como outros princípios absurdos na Itália, o de Guido parecia funcionar, a maior parte do tempo. — Quando vejo os jornais — continuou Guido —. e leio sobre as dificuldades por que a França

está passando, fico muito triste. Especial mente na Argélia. Fico triste por eles, e fico triste porque, nos jornais italianos, é fácil perceber o que pensam os jornalistas. “Nós fomos expulsos da África, tivemos o nosso Mussolini, agora é a sua vez, o seu Mussolini esta a caminho. Agora vamos passar sermões em vocês.” Naquele momento, Jack ficou com pena de Guido saber falar francês. — Eles não podem vencer na Argélia — continuou Guido. Com o tipo de trabalho dele e as longas horas à espera dos fregueses, tinha muita oportunidade de ler todos os jornais e refletir sobre a situação mundial. — É uma guerra de guerrilhas, e, para vencer esse tipo de guerra, é preciso estar-se preparado para usar o terror, para destruir tudo. Os franceses usam o terror, é claro, mas são por demais civilizados para ir até o fim, de modo que vão perder. Só os russos e alemães seriam capazes de não perder. Mas quem é que quer ser russo ou alemão? — Você faz parte de algum partido político? — perguntou Jack, interessado contra a vontade. Guido riu, melodiosamente. — Eu trabalho dia e noite — respondeu. — Quando teria tempo de pertencer a um partido político? — Mas você vota, não é? — Claro. — Por que partido? — O Partido Comunista — falou Guido, prontamente. — É natural. Quando se ganha mil e seiscentas liras por dia, em que partido se pode votar? — O carro estava parado num sinal e ele se virou para Jack. — Não quis ofendê-lo — disse, com cortesia. — Na verdade, é uma prova de meu respeito pelo senhor, Mr. Andrus, eu lhe contar isso. Quando os outros americanos me perguntam em quem eu voto, sempre respondo que é nos monarquistas. Os americanos parecem gostar mais disso. Mas o senhor já morou na França, compreende a Europa, apesar de ser um americano rico. Não há motivo por que eu não possa lhe dizer a verdade. Ele voltou à sua direção. No sinal seguinte, tornou a virar-se: — Naturalmente, não sou comunista. Só voto para mostrar o meu desprezo. Quando eles chegaram ao hotel de Veronica, Jack entrou no saguão, mais ou menos esperando ver o porteiro da noite ainda sentado diante do espelho, adorando a sua imagem. Mas ali estava um homem de cara severa, cora o distintivo característico de porteiro na gola da farda. Não falava inglês nem francês e só o que disse quando Jack lhe deu o nome de Veronica foi: “La signorina è partita.” O italiano de Jack não dava para descobrir mais do que isso, mas um padre alemão, que vinha descendo a escada, teve pena dele e disse que falava inglês, e se ofereceu para servir de intérprete. — Entendi — disse Jack ao padre — que a Signorina Rienzi partiu. Poderá ter a bondade de perguntar se ela deixou algum endereço? Ele viu o porteiro sacudir a cabeça quando o padre traduziu a pergunta. — Pergunte — pediu Jack — a que horas ela partiu. — Alle dieci — disse o velho. — Dez horas — disse Jack ao padre. — Compreendi. — A garganta dele estava começando a ficar muito seca. — Pergunte se ela foi sozinha ou se havia um senhor com ela. Num italiano pesado, teutônico, o padre traduziu. O porteiro agora parecia aborrecido com o interrogatório, e começou a fazer anotações numa série de fichas na mesa. — Si — respondeu ele. — Pergunte se ele sabe como era a aparência do cavalheiro. Se era um jovem americano de óculos, com um sobretudo cáqui... Quando o padre traduziu a pergunta, o homem olhou friamente para Jack. Não havia dúvidas

quanto ao que ele achava de estrangeiros de meia-idade que perseguiam jovens virgens italianas com tamanha persistência. Ele falou com o padre num tom mais alto e ríspido. — O porteiro diz que tem mil outras coisas para fazer, além de tomar descrições de visitas ao albergo — traduziu o padre. Aí o telefone tocou e o velho começou a falar irritada e prolixamente com a pessoa do outro lado do fio. Jack esperou um pouco e depois viu que não ia conseguir nada de satisfatório ali. Agradeceu ao padre, que sorriu para ele, para mostrar que tinha prazer em ser útil e que não tinha má vontade contra Jack por este ter ganho a guerra. Jack saiu para a pracinha em frente ao hotel, onde Cuido estava polindo os faróis da Fiat com um pano. Ficou no quarto a tarde toda, maldizendo-se por não ter conseguido de Veronica o endereço da amiga com quem ela devia ficar. Ninguém lhe telefonou e às seis horas ele teve a certeza de que alguma coisa horrível tinha acontecido a ela. Tomou a ler o bilhete louco que Bresach enfiara por debaixo da porta, durante a noite, e sentiu um tremor de apreensão. Achava sinistro o fato de Bresach agora o evitar. “Se eu não tiver notícias dela até amanhã de tarde, vou à polícia.” Naquela noite, acordou várias vezes com o ruído de campainhas de telefone. Mas, quando abria os olhos, o quarto estava em silêncio, não havia campainha alguma. De manhã, ele sabia que teria de encontrar Bresach. Mas as únicas pessoas de que ele se lembrava que sabiam onde morava Bresach eram Veronica e Jean-Baptiste Despière. E Veronica tinha sumido e Despière estava na Argélia, à cata de atrocidades sem endereço conhecido. Antes de sair para o estúdio, Jack desceu ao saguão e procurou, sem grandes esperanças, na lista de telefones de Roma. Não havia Bresach nenhum. Nem ele esperava que houvesse. A manhã lhe reservava uma surpresa. Sem qualquer transição, ele de repente se sentiu confiante e à vontade, tendo atuado muito bem nas cenas que estava dublando. — Você está inspirado, menino — comentou Delaney, feliz. — Você está ótimo. Eu lhe disse que só precisava era de um bom sono, não disse? — Sim — concordou Jack. — E você disse. Naquela tarde, ele foi à Embaixada para ver se alguém ali sabia onde morava Bresach, ou se ele teria deixado ali o seu endereço, como deviam fazer todos os americanos que morassem em Roma por mais de três meses. Mas também não tinha muita esperança disso. Bresach não era o tipo de rapaz que se preocupasse com a Embaixada americana. Quando eslava saindo da Embaixada, encontrou Kern. Ele estava vestido de cinza escuro, e, como sempre, com o ar de quem acaba de falar de igual para igual com o chefe de um Estado poderoso. Parou e sorriu seu sorriso levemente desagradável para Jack. — Estive vendo o caso de seu amigo — disse ele. — Como é? — perguntou Jack, confuso. Estava tão concentrado, pensando em Veronica, que foi só com esforço que conseguiu entender do que Kern falava. — Seu amigo Holt — disse Kern. — Ele esteve aqui me procurando e eu disse que faria o possível. — Ah, ótimo — disse Jack. — Obrigado. — Tinha esquecido completamente de Holt e suas tentativas de adotar uma criança. Tanta coisa acontecera desde sua conversa com Kern que tudo aquilo parecia remoto, apagado pelo tempo. — Eu estava esperando que me telefonasse — disse Kern, lenta e portentosamente sacudindo sua cabeça amarelada. — Pensei que podíamos tomar um drinque juntos. — Eu pretendia fazer isso — desculpou-se Jack, querendo ir embora. — Mas estive muito ocupado. — Vou receber umas pessoas depois do jantar hoje à noite em minha casa — continuou Kern. — Pode ser que lhe interesse. São todos italianos. Imagino que não conheça muitos italianos, não é?

— Demais — disse Jack, aborrecido com o sujeito pelo oferecimento pretensioso de italianos, como um caçador que convida para jantar o faisão que acabou de caçar. — Imagino que esteja brincando — disse Kern. — Estou. — Faço sempre questão de centralizar o mais que posso a minha vida em tomo das pessoas do país onde estou servindo — prosseguiu Kern, fazendo as palavras parecerem uma reprimenda a Jack e gente como ele que, sugeria Kern, desperdiçavam seu tempo frivolamente com simples americanos. — Mesmo no Oriente Médio, onde era bem mais difícil, eu mantive esse hábito. Gostaria de vir? — Acho que não vou poder hoje — respondeu Jack. — De qualquer forma... — Kern pôs a mão no bolso, tirou a carteira e ofereceu um cartão. — Este é meu endereço. Veja se pode ir. Estaremos lá até bem tarde. — Obrigado — falou Jack, guardando o cartão no bolso. — Vou tentar. Bem, até logo. Eu... — Descobri uma coisa curiosa sobre seu amigo — disse Kern. — Não sei se você sabe. — O quê? — perguntou Jack, impaciente. — Ele foi delinquente. Cumpriu sentença na prisão. Sabia disso? Jack hesitou um momento, diante daquele olhar de açafrão, sardônico. “Para o diabo, ele não me vai fazer mentir.” — Sim. Eu sabia. Kern balançou a cabeça, com uma espécie de prazer triste. — Mas não achou que devia me contar? — perguntou ele. — Estava disposto a deixar que eu me responsabilizasse por ele diante de meus amigos italianos neste assunto extremamente delicado? — Ora, que diabo! — falou Jack, impaciente. — Ele esteve na cadeia quando tinha vinte anos. Tudo isso é história antiga. Ele hoje é um esteio de respeitabilidade. Isso é assim tão importante? — Você tem uma noção esquisita do que é importante e do que não é, Andrus — disse Kern. — Foi Holt quem lhe contou isso? — Não. — Kern sorriu com uma satisfação sombria. — Descobri por mim mesmo. Nas minhas investigações. — Olhou para Jack com desconfiança. — Fico pensando se haverá alguma outra informação de interesse de que você esteja a par, Andrus, que eu deva ter, antes de prosseguir nisso. “A mulher dele é dipsomaníaca. Isso é de interesse. Mas raios me partam se eu lhe disser isso. Descubra em suas investigações, irmão.” — Ele tem um coração bondoso e generoso — falou Jack. — Isso é de interesse? Kern fungou. — Dificilmente. — Estendeu a mão. — Procure vir hoje à noite, se puder. A vista de meu apartamento é a mais bonita de Roma. — Ele seguiu, gravemente, embaixadoramente, para dentro da Embaixada. Jack saiu depressa, não querendo encontrar mais alguém que pudesse fazê-lo perder tempo. Ficou telefonando para o hotel, perguntando se havia recados para ele, mas nunca havia recados, e, por fim, as telefonistas, reconhecendo-lhe a voz, ficavam irritadas quando a ouviam. Bebeu inúmeras xícaras de café, sentado do lado de fora do Doney’s, na Via Veneto, apesar de estar frio, porque tinha a esperança de que Miss Henken, que ele tinha conhecido ali ao mesmo tempo que Veronica, pudesse aparecer e dar-lhe a informação de que precisava. Mas Miss Henken não apareceu. Foi quando estava sentado ali, na mesinha, bebendo o décimo café da tarde e sentindo-se quase bêbado de tanta cafeína concentrada, que pensou no Dr. Gildermeister. “Às cinco horas, todas as tardes”, ele se lembrou da voz de Veronica falando, “ele vai ao analista.” E, em outra ocasião, na praia em Fregene: “Dr. Gildermeister. Um austríaco de Innsbruck. ‘Devo avisá-la, moça, de que Robert é um mecanismo de um equilíbrio muito delicado.’ Que novidade! Diretamente de Innsbruck.”

Jack levantou-se de um salto e pôs uma nota de quinhentas liras para pagar os cafés debaixo de um pires na mesa, para ela não voar. Entrou e foi à cabine telefônica, esperando impaciente enquanto um rapaz de casaco de couro corria as páginas de um catálogo, tomando nota de nomes e endereços num caderninho preto e sebento. Maldosamente, Jack achou que ele tinha o jeito de um ladrão profissional preparando uma lista de vítimas para a próxima temporada. Finalmente, o sujeito acabou e Jack abriu a página no G. Era verdade que na Europa quase nunca se podia encontrar alguém na lista telefônica, em qualquer cidade, mas um médico, principalmente um psicanalista, devia ter seu nome e endereço às ordens do público. Jack se espantou ao notar que suas mãos estavam trêmulas e, quando afinal encontrou o nome, as letras pareciam confundir-se diante de sua vista na luz fraca e ele teve que se debruçar, bem junto da página, para ler “Gildermeister, Dr. J.C.”, e um endereço na Vila Monte Parioli e o número do telefone. Começou a discar, mas parou. Olhou para o relógio. Eram três e quinze. “Às cinco horas, todas as tardes”, dissera Veronica. Hesitou e, finalmente, resolveu esperar até as cinco para falar com Bresach pessoalmente. No caminho de volta para o hotel, quase foi atropelado por um homem numa Vespa, que sorriu com bondade, perdoando Jack quando este pulou para a calçada. Em Paris, o homem quase certamente teria gritado "sale con” para ele, depois de um incidente desses. Afinal, havia certas vantagens em se estar na Itália. Havia uma carta aérea do filho à espera na portaria. Abriu a carta assim que entrou em seu apartamento, lendo-a junto da janela aberta, com o sol batendo nas páginas datilografadas: Papai, acabei de ler a carta que você me escreveu do avião, e não adianta disfarçar o que sinto a respeito, nem procurar ser delicado. Eu a detestei. O mais, detesto todo o modo de vida que torna possível a um pai escrever uma carta dessas a um filho. “Oh, Cristo!”, pensou Jack, “hoje não!” Por um momento, pensou em amassar a carta e jogá-la longe. Depois forçou-se a continuar. Antes de tudo — a respeito de Miss McCarthy. Eu lhe asseguro que, se nós nos casarmos, vamos fazer com que dure. Não preciso dos conselhos de um sensualista cínico que levou uma vida obviamente promíscua para me guiar em matéria de amor. Não pense que, porque você quase nunca se deu ao trabalho de me ver, eu esteja completamente desinformado a seu respeito. Jack sorriu com pesar ao ler aquilo. “A mãe contou a ele as verdades da vida”, pensou ele. “Minha vida. Se ele soubesse o que verdadeiramente tem sido. Talvez eu lhe escreva a verdade — que não é a promiscuidade que eu lamento, e sim as ocasiões, demasiadas, de abstinência. Veremos o que o puritano tem a dizer a isso." Quanto às minhas chamadas atividades políticas [continuava a carta], é óbvio que você foi instruído no assunto por minha mãe, que é uma mulher histericamente nervosa, estado que, não tenho dúvidas, você fez o possível para agravar. Ela está casada com um homem tímido, de terceira classe, cujos resmungos não poderiam ser levados a sério nem por uma criança inteligente de dez anos de idade. Quanto a você, o cargo que ocupa, e do qual parece se orgulhar tanto, torna suspeito tudo o que você diz. Todo o seu trabalho, a vida mole que você leva em Paris com sua mulher frívola, tudo isso depende de você ser um subordinado dócil do sistema. Os generais querem bombas maiores e

experiências maiores? Você tem de atendê-los. O nível de radiatividade está aumentando perigosamente em todo o mundo? Você tem de fazer de conta que isso é propaganda dos comunistas e alarmistas profissionais. A maior parte das pessoas sensatas pensa que dar armas atômicas aos alemães é o mesmo que entregar um revólver armado nas mãos de um criminoso louco? Você tem de fingir que acha que os alemães são uma gente bondosa e branda, cuja reputação foi denegrida por uma conspiração de vilões. No verão passado, saí de Paris tão abruptamente porque não queria ter de dizer-lhe essas coisas. Agora, porém, sua carta me forçou a escrever o que eu sinto. Você me aconselha a ser reticente. Como você, suponho. Sua reticência foi comprada e, em sua carta, você sugere qual o preço que eu poderei esperar pela minha. Vou. dizer-lhe: se nós iodos fôssemos tão baratos quanto você, nossa reticência nos levaria muito depressa a um mundo de aberrações e ruínas. Você escreve que o Governo está perfeitamente preparado e disposto a aplicar castigos aos homens que se opõem a sua política. Ao dizer isso, sei que você pretendia conseguir que eu deixasse de me opor a essa política, embora eu a considere desumana e suicida. Em resposta, usarei exatamente o mesmo argumento com você para procurar conseguir fazê-lo sair do sistema, em que Iodos os seus atos, por mais insignificantes e inofensivos que sejam em si, são um voto tácito de apoio e aprovação. Você não está num cargo suficientemente elevado para poder opor-se à política de dentro. Só o que pode fazer é obedecer. Se você acha que está obedecendo a ordens sensatas e razoáveis, que nos conduzirão a um mundo pacífico e sadio, é um idiota e não quero ter nada a ver com você. Se obedece por timidez e amor ao conforto, é um covarde e não quero ter nada a ver com você. Se você resolver, a qualquer momento, sair disso e voltar aos Estados Unidos, onde isso conta, e dizer o que pensa, ficarei muito feliz em tratá-lo como meu pai. Steve.

As folhas do papel aéreo tremiam nas mãos de Jack quando ele terminou. Sentia-se magoado e arrasado. “Foi isso o que eu comecei”, pensou ele, “na noite em que olhei para o berço na Rua 12 e fiquei com pena de ele ter nascido.” “É o fim de meu filho.” Amassou a carta, atirando-a numa cesta. Sentou-se na beira da mesa, as mãos trêmulas. Não havia resposta possível. O muro de arrogância, de ódio, por fim revelado, era impossível de transpor. Os argumentos calmos e razoáveis que poderiam ser usados, com tanta justiça, para atacar o ponto de vista do filho não teriam qualquer efeito. Lembrou-se, aborrecido, da descrição que o filho fazia de Hélène. Sua mulher frívola. “O idiota. Ela é alegre, não frívola. Mesmo aos vinte e dois anos, um homem devia saber ver a diferença.’' “Eu devia estar-me sentindo pior”, pensou Jack, olhando para a bola de papel amassado na cesta. “Um pai normal estaria desesperado.” Ele estava zangado e com pena, nada mais. Naquela tarde, para ele era mais importante encontrar uma mocinha que conhecera por acaso numa rua de Roma e que tinha desaparecido do que chegar a um entendimento com seu filho. Talvez numa outra tarde tudo isso se modificasse. Talvez numa outra tarde achasse que teria de procurar o filho e dar-lhe a sua resposta. Mas não nessa tarde. Foi para o quarto, pegou o roteiro do filme de Delaney e deitou-se na cama para estudar as cenas que teria de fazer no dia seguinte. Às cinco em ponto, ligou para o número do Dr. Gildermeister. Depois de três toques, atendeu uma voz de homem: — Pronto. — Signor Bresach, per favore — disse Jack. O homem falou uns trinta segundos, num italiano, até Jack podia ver, com forte sotaque alemão. — O senhor fala inglês? — perguntou Jack.

— Falo. — Eu gostaria de falar com Mr. Bresach, por favor. — Não está aqui — respondeu o homem, impaciente. — É o Dr. Gildermeister? — É o Dr. Gildermeister. Quem é o senhor? O que deseja? — Aqui é um amigo de Mr. Bresach, doutor — falou Jack. Falava depressa, porque tinha a impressão de que o outro estava prestes a desligar. — Eu sei que Mr. Bresach vai ao seu consultório todos os dias às cinco horas. — Bom, ele não está aqui agora — disse o homem, irritado. — Não vem aqui há três dias. No cérebro de Jack um pequeno alarme soou, estridente, diante dessa notícia. — Ah, sei — falou, aparentando displicência. — É uma pena. Trata-se de um trabalho que apareceu, e sei que Mr. Bresach se interessaria. — Um trabalho? Que tipo de trabalho? — Uma companhia cinematográfica está... — começou Jack. — Sei, sei — cortou o homem. — Mas ele não está aqui. — Será que o senhor poderia me dar o telefone dele? — Ele não tem telefone. — Poderia, então, dar o endereço? — Silêncio do outro lado. Jack esperou, tenso. — Ora, por que não? — Gritou o endereço. Jack o anotou. — E já que vai falar com ele — acrescentou o homem, furioso —, diga-lhe, por favor, que é um absurdo faltar três dias. Absurdo. Isso não é maneira de um homem doente se comportar. Diga-lhe que estou esperando por ele, estou preocupado com ele e que o espero aqui amanhã. — Eu direi. Obrigado. — Jack desligou.

16 O endereço que o Dr. Gildermeister deu a Jack era de um prédio numa rua estreita, de calçamento de pedras, sem calçadas, não longe do Palazzo Farnese. A casa era escura, antiga, uma fonte rachada pingava no pátio, as janelas junto da escadaria de mármore gasto estavam quebradas e no saguão havia um cheiro úmido de inverno, com um rio frio passando sobre pedras. Anjos de massa lascados, enegrecidos de fuligem, davam mostras de que num passado distante os moradores da casa tinham combinado a piedade e a fortuna. As pesadas portas de madeira negra nos patamares pareciam entradas de prisão. Junto com o cheiro de gatos e de inverno, havia o cheiro especial, de queijo azedo, da miséria italiana. Bresach morava no quarto andar. Jack ficou defronte da porta pesada, demorando um pouco mais do que o necessário para recuperar o fôlego depois da subida. Finalmente, bateu à porta. Enquanto esperava, escutou crianças brincando no andar de baixo e um rádio berrando: “Volare, oh, oh!... Cantare... oh, oh, oh, oh!” Era difícil imaginar Veronica, com seus cabelos longos, reluzentes e suas roupas coloridas, subindo essas escadas e usando sua chave para entrar no apartamento por trás da porta suja. Jack tornou a bater. A porta se abriu, como se quem estivesse ali atrás estivesse aguardando em silêncio, na esperança de que a batida não se repetisse e a porta não precisasse ser aberta. Havia um homem de pé na entrada do que parecia ser um túnel escuro, com a porta meio aberta. Mas não era Bresach. O homem era alto, um pouco curvo, usava óculos, estava de suéter e tinha uma cara de intelectual, delicada, e olhos fracos e indagadores. — Sim? — disse o homem. Por trás dele, na outra extremidade do túnel que agora Jack viu ser um saguão de entrada que conduzia em ângulo reto para um quarto, vinha o som de uma máquina de escrever, rápida e nervosa. — Estou procurando Robert Bresach — disse Jack. — Ele está? — Adiantou-se um pouco, preparado para meter um pé no vão da porta caso o homem tentasse fechá-la. Mas o homem apenas falou para o túnel: — Robert, uma pessoa quer vê-lo. — O homem tinha um sotaque não muito forte, difícil de localizar, no momento. A datilografia parou. — Diga que entre. — Ouviu-se a voz de Bresach. O homem de suéter sorriu com simpatia e fez um pequeno cumprimento quase obsequioso, abrindo a porta e mandando Jack entrar. A datilografia recomeçou e Jack foi andando pelo saguão, que estava cheio de roupas dependuradas, entre elas o casaco cáqui. Entrou no quarto. Era pequeno e irregular, mas havia duas grandes janelas dando para uma sacada com uma grade de ferro, de onde se tinha uma vista confusa de terraços, vinhas com suas raízes expostas, roupa lavada, telhados e o céu da tarde, cheio de suaves nuvens cinzentas, com manchas de um azul mais profundo, sobre a cidade de Roma. Diante de uma das janelas havia uma mesinha à qual Bresach estava sentado, de costas para a entrada, datilografando com atenção, debruçado e olhando para uma pilha de manuscritos que ele parecia estar copiando ou traduzindo. Não se virou. Estava fumando e evidentemente tinha fumado muito, pois o ar ali dentro estava bastante enfumaçado. Havia uma cama grande, coberta com um pedaço de brocado velho, e uma mesa a um canto, onde ficavam um fogareiro elétrico e uma cafeteira, duas ou três cadeiras de pau, uma delas quebrada, uma pia e mais roupas dependuradas, em ordem, em cabides, numa das paredes. Livros pelo chão. Acima da cama, havia uma grande pintura de um animal não muito reconhecível, em amarelo e preto, numa atitude de êxtase ou de terror, e um crucifixo de madeira dourada

e lascada, de cerca de meio metro, encostado a um canto. O dourado já tinha caído quase todo do corpo do Cristo, cujos membros adquiriram uma textura desconcertantemente irregular, que sugeria, muito realisticamente, carne. No quarto não se via um sinal sequer de que alguma mulher tivesse jamais morado ali. Só havia uma porta, e o quarto era todo o apartamento. “Se uma moça como Veronica fosse morar com você num lugar desses”, pensou Jack, “naturalmente você acreditaria que ela o amasse.” — Robert — chamou a voz baixa, de sotaque, do homem de suéter. Ele acompanhara Jack ao quarto. Bresach terminou uma página e, arrancando-a da máquina, colocou-a em cima de uma pilha no chão. Depois, ele se virou. Olhou muito sério para Jack, apertando os olhos através dos óculos. Estava com a barba grande, e seu aspecto, embora juvenil, parecia cansado e em dificuldades. — Veja quem está aqui — disse secamente. — O que é que há, não gostou do meu recado? — Ele não se levantou. — Quero falar com você — disse Jack. — Está bem — concordou Bresach. — Fale. — Pegou um cigarro, de um maço amassado, e atirou o maço para o homem de suéter. Não o ofereceu a Jack. — Acho melhor falarmos a sós — disse Jack, olhando para o homem de suéter, que estava acendendo o cigarro com muito cuidado, pondo a mão em concha em volta do fósforo de cera como se estivesse numa ventania. — Max pode ouvir o que você tiver a dizer — disse Bresach. Em seu território ele parecia seguro de si, displicente, sardônico. — Não tenho segredos para Max. Max, este é Mr. Andrus. Já lhe falei dele. — Muito prazer — falou Max, esboçando um cumprimento. — Robert já me falou muito a seu respeito. — Não havia ironia nem repreensão na voz do homem. — Max mora aqui — disse Bresach. — Ele se mudou quando metade da cama vagou inesperadamente. Você não vai querer expulsar um sujeito de sua própria casa, não é, Andrus? — Robert — falou Max. — Eu poderia perfeitamente ir para o saguão e fumar lá meu cigarro, enquanto... — Fique onde está — interrompeu-o Bresach em voz alta. Em seguida, olhando com maldade para Jack através dos óculos, perguntou: — Como vai a ardente meia-idade hoje? Jack sentou-se numa cadeira, perto de Bresach. — Quando você parar de brincar, eu falo com você — disse ele. — Desde que Max se mudou para cá, isto aqui está cheio do riso de crianças. Max é húngaro, e todos sabem que os húngaros são famosos por sua alegria. Estamos economizando para comprar um violino para ele, para termos música. Ele deixou todos os violinos dele em Budapeste, quando os russos entraram com os tanques. — Bresach — falou Jack —, por que você parou de ir a Gildermeister há três dias? — Hein? — Bresach fez um movimento nervoso, espasmódico, com os ombros, e apagou o cigarro quase inteiro num cinzeiro sobre a mesa. — De que é que você está falando? — Telefonei para o médico — explicou Jack. — Foi assim que descobri seu endereço. Ele está preocupado com você. — Está, é? — falou Bresach, sem expressão. — Pois bem, eu estou preocupado com ele. Na Itália, não há loucos suficientes para manter um psiquiatra. Prometi que quando o maldito do meu pai morrer e me deixar seu dinheiro, eu pago a passagem dele para os Estados Unidos. Cinquenta dólares por hora, foi o que prometi a ele. Na Park Avenue. — Por que você não vai ao consultório há três dias? — repetiu Jack, olhando bem para o rapaz. — Que diabos você tem a ver com isso? — exclamou Bresach. — Olhe, estou ocupado. Estou

traduzindo um livro de seiscentas páginas do italiano e meu italiano é uma droga. Prometi fazê-lo em quatro semanas. Deixe-me em paz. — Onde está Veronica? — perguntou Jack baixinho. — O que você fez com ela? — Eu? Do que você está falando? — Onde está ela? — Jack se levantou. Ele adoraria pegar o rapaz sardônico, sorridente, por seu pescoço magriço e estrangulá-lo para arrancar a verdade. Naquele momento, ele compreendeu, pela primeira vez, o sadismo dos policiais que espancam prisioneiros para arrancar confissões. — Como eu vou saber onde ela está? Não a vejo desde o dia em que ela saiu daqui. — Por que você parou de ir ao Gildermeister? — Que diabos isso tem a ver com você? — O tique nervoso o fez repuxar o canto da boca. — Se quer mesmo saber, fiquei farto do velho. Ele estava começando a bancar Deus. Já estou cheio disso. Achei que tinha chegado a hora de dar um descanso à minha pobre psique. — Levantou-se de repente e abriu a janela. — Ah, que cheiro ruim — disse ele. — Toda essa fumaça. — Espiou por cima dos telhados. — Tentar encontrar alguém nessa cidade — murmurou ele, com amargura. Virou-se para Jack. — Se alguma coisa aconteceu a ela, você vai pagar. Isso eu juro. Da próxima vez, você não escapará. — Robert — falou Max, baixinho. — Eu estava procurando esquecer toda essa maldita coisa — gritou Robert para Jack. — Tentei tudo, e agora eu estava experimentando isso. De repente, vem você e começa tudo outra vez. O que é que você quer de mim? A não ser que Bresach fosse o melhor ator do mundo, concluiu Jack, ele nada tinha a ver com o desaparecimento de Veronica. Aquilo era tranquilizante, quase que eliminava a possibilidade de violência; mas Veronica continuava desaparecida. Agora, o sentimento de responsabilidade de Jack pela moça estava misturado ao de irritação. Se não estivesse morta, poderia ter mandado algum recado. A não ser que... a não ser o quê? — Ex-amantes não eram o único perigo a que se expunham as moças em Roma, nem em lugar algum. Havia a considerar os perigos melodramáticos, como sequestro, assassinato, e os perigos prosaicos, como ser atropelada por um carro ou adoecer de repente. Se naquele momento Veronica estivesse deitada, inconsciente, num hospital, não havia motivo algum para as autoridades notificarem Bresach ou Jack. O que quer que lhe acontecesse, Jack sabia que não podia deixar a cidade sem encontrá-la. — Eu lhe fiz uma pergunta — gritou Bresach. — O que quer de mim? — Quero que me ajude a encontrá-la — respondeu Jack. Bresach ficou olhando para ele com um ar lúgubre. Depois riu. O riso parecia mais uma tosse estrangulada do que propriamente um riso. — Cristo, isso é uma piada, não é? O que o faz pensar que eu ia querer ajudá-lo a encontrá-la? — O fato de que, se não a encontrarmos, você perderá toda a esperança de tê-la de volta algum dia. O tique repuxava a boca de Bresach. Seus olhos frios e loucos estavam fixos em Jack. Naquele momento, Jack viu como Bresach esteve perto de enfiar-lhe a faca naquela primeira noite e como bastaria pouca coisa para levá-lo a usá-la agora. — OK — disse Bresach, em voz rouca. — OK, seu filho da mãe desgraçado e razoável, vou ajudá-lo. — Bom — disse Jack, calmamente. — Você conhece os amigos dela. Vamos começar a telefonar para eles, agora. Bresach sentou-se, fatigado. A energia dele parecia vir em rajadas nervosas, repentinas, num ritmo irregular. — Já falei com todos. Dez vezes. Não sabem onde ela está. Ou, se sabem, não querem me dizer. — De qualquer forma, podemos tentar — insistiu Jack. — E a família dela? Você me disse que

eles moram em Florença e ela os visita nos fins de semana. — A mãe e a irmã moram em Florença. Com o marido da irmã. Mas não estamos no fim da semana. — Você tem o número do telefone da mãe dela? — A mãe dela não tem telefone. Nunca pude falar com ela. — Então vamos passar um telegrama — disse Jack. — E depois disso comecemos a telefonar. Foram a um hotelzinho ali perto para mandar o telegrama. Max foi junto. Jack estava aliviado com a presença dele, pois era como um escudo entre ele e Bresach. Este tinha vestido o casaco cáqui sobre a camisa. Max, que não tinha sobretudo, apenas enrolara uma echarpe de lã vermelha no pescoço e pusera um chapéu verde, peludo e desbotado. O porteiro atrás do balcão estava ocupado com dois turistas suíços de sobretudo de couro preto, e eles tiveram bastante tempo para redigir o telegrama. — Se eu o assinar — explicou Bresach — e Veronica estiver lá ou eles se comunicarem com ela, nunca hão de me responder. Não gostam mesmo de mim, apesar de não me conhecerem, porque sou um pagão imundo ou porque tenho pretensões a Veronica ou coisa que o valha, e ficarão encantados com uma oportunidade de me atrapalhar. Se você o assinar... — Ele ficou olhando para Jack, pensativo. — Acha que Veronica teria dito alguma coisa à família dela sobre você? — Duvido muito — respondeu Jack. — Não, as moças não vão em casa dizer às mães tementes a Deus que estão dormindo com o marido de outra mulher. Por isso, se você o assinasse, assim sem mais nem menos, eles nem saberiam do que você estaria falando. Além disso, não queremos que a família fique alarmada e vá correndo à polícia, não é? — Sorriu para Jack, com malícia. — Eles poderiam vir com perguntas como: “Quais são precisamente suas relações com a moça, Mr. Andrus?” — Iremos à polícia, se for preciso — falou Jack. Depois, pensou um pouco, pegou um formulário de telegrama do balcão e escreveu: “Um amigo de sua filha, Jean-Baptiste Despière, contou que ela está interessada em trabalhar para uma agência de viagens em Paris. A agência com a qual trabalho está procurando uma moça que fale italiano, francês e inglês. Peço telegrafar-me endereço e telefone de sua filha para poder falar-lhe.” Em seguida, assinou e escreveu o nome de seu hotel. — Acho que isso vai resolver — disse, entregando o papel para Bresach. — É melhor traduzi-lo. Bresach leu a mensagem. — Ela também fala espanhol. — Ponha isso, também. — Desaparecida em quatro línguas — comentou Bresach. Sacudiu a cabeça. O espevitamento e bazófia tinham sumido e ele agora estava desamparado e triste. Traduziu a mensagem, entregou-a ao homem por trás do balcão e recusou-se a deixar que Jack pagasse. — Estou mais interessado do que você em encontrá-la — disse ele, teimoso. — Não importa o que você diga. Jack e o húngaro estavam de pé num barzinho de luz néon e cromados, com uma imensa máquina dourada de espresso. O telefone ficava nos fundos do bar e eles viam Robert enfiando uma ficha atrás da outra, pacientemente discando, pacientemente explicando, desligando resignado e começando tudo outra vez em suas rondas de telefonemas para os amigos de Veronica. Jack estava bebendo conhaque; e o húngaro, vermute. Do outro lado do bar, havia uma máquina de pinball americana, em volta da qual um grupo de rapazes assistia ao jogo. A máquina fazia um barulho de engrenagens e soavam campainhas quando a bola batia nos postes. — Ele é um cavalheiro de bom coração — disse Max, indicando Robert. — Não é frequente encontrar tanta doçura de alma num homem tão moço. Já o conheço há mais de um ano, desde que vim para cá, e ele me deu comida, roupas, e agora me acolheu em sua casa. Apesar de termos de dormir na mesma cama. Mas ele sabia que eu estava morando num quarto com mais quatro pessoas e que dormia no chão. Devo confessar que ele me fez modificar completamente o meu juízo sobre os americanos.

— Tome cuidado — disse Jack, bebendo o seu conhaque adocicado. — Nem todos os americanos são assim. — Depois, acrescentou: — Graças a Deus. — Ele é um rapaz que nasceu para sofrer — continuou Max. baixinho. — Por isso, é delicado com o sofrimento dos outros. É uma pena o caso da moça. Ele a ama tanto! Demais. Sem dúvida, foi por isso que ela o deixou. Mesmo quando se ama tanto assim, é preciso esconder um pouco. Para a autoconservação. Ele queria possuir todos os minutos da vida dela. Isso a gente não faz. Deve-se beber o vinho do amor mas também se deve deixar um pouco no cálice. Jack olhou para o homem com curiosidade e respeito. O que Max dissera pareceu-lhe, no momento, uma das coisas mais sensatas que ele tinha ouvido a respeito do amor, há muito tempo. — Diga-me — falou Jack. — Como é que você fala inglês tão bem? Max sorriu ao responder: — Tenho cinquenta anos. Quando eu era menino, minha família era rica. Naquele tempo, quando se era rico, tinha-se uma babá inglesa. E, além disso, estudei na Inglaterra durante dois anos. — Você estava na Hungria durante a guerra? — perguntou Jack, curioso. Era uma pergunta que ele fazia a todos os europeus cujos países tinham estado do lado da Alemanha entre 1940 e 1945. — Qual guerra? — perguntou Max. — A Segunda Guerra Mundial. — Não lhe ocorrera que um húngaro pudesse considerar os poucos dias sangrentos do levante de Budapeste uma guerra. — Não. Eu não estive na Hungria durante toda a Segunda Guerra Mundial. Saí em 1943, quando ainda era possível viajar um pouco pela Europa. Fui para a Áustria e depois, uma noite, atravessei a fronteira para a Suíça, clandestinamente. — Foi assim tão fácil? — perguntou Jack, sem poder acreditar. — Não tanto. Eu subornei um guarda da estrada de ferro e ele nos trancou num vagão de bagagem. — Nós? — perguntou Jack. — Quantos vocês eram? — Sete — respondeu Max, com simplicidade. — Minha mulher, minha irmã, o marido dela e os três filhos. Eu dei ao guarda, em Buchs, uma garrafa de conhaque e meio maço de cigarros. Era só o que tínhamos. “Sete vidas”, pensou Jack, “por uma garrafa de conhaque e dez cigarros. O preço subiu, desde então.” — Os suíços foram admiráveis — disse Max, defendendo a Europa. Ele sorriu com melancolia. — É verdade que minha firma ainda tinha algumas propriedades no país, e nós podíamos pagar o nosso sustento. Ele me permitiram escolher o meu local de internamento. Escolhi uma estação de esqui. Quando a guerra terminou eu já era um bom esquiador. — Então você voltou para a Hungria? — Claro — disse Max. — Estava muito animado lá... por algum tempo. Tínhamos duas grandes fábricas, fábricas de lã, e eu as recuperei. Por algum tempo. Depois, quando os comunistas tomaram conta, eu continuei como gerente. — Como é que era trabalhar para os comunistas? — perguntou Jack. Max riu baixinho. — Não era tão ruim. No princípio. Depois, eles começaram a castigar. Davam-nos cotas impossíveis de serem atingidas. No princípio, ainda era possível discutir com eles. Depois, mais tarde, se não se satisfazia a cota, podia-se ser preso por sabotagem. O que a maior parte dos homens fazia era dizer que os seus subordinados imediatos eram responsáveis pela sabotagem. Estes, por sua vez, culpavam os subordinados deles. E assim por diante. Afinal, reduzia-se a dois ou três homens das máquinas, que seriam mandados para a cadeia. Aí, ficava-se em paz por um ou dois meses. Depois, todo o processo se repetia.

— Oh, Cristo! — murmurou Jack. Ele viu Bresach enfiar sua décima ficha no telefone nos fundos do bar. — Como é que se pode viver assim? Max deu de ombros, girando o vermute, pensativo, em seu cálice. Depois respondeu: — As pessoas vivem como podem. Afinal de contas, atualmente, a metade do mundo está vivendo assim. — Deu um sorriso como que de desculpas. — Eu não conseguia fazê-lo. Não podia mandar gente para a cadeia para ficar de fora eu mesmo. Talvez fossem todos aqueles anos com a babá inglesa. Eu sabia que tinha de sair dali. Por isso, quando houve a revolução, eu atravessei a fronteira. Não foi tão mau. Sempre adorei a Itália. Jack sacudiu a cabeça, pensando nos muitos exilados do século XX, as fronteiras atravessadas e novamente atravessadas debaixo dos canhões, as fugas anônimas e repetidas. — Sua mulher também está aqui em Roma com você? — perguntou ele. — Não. Ela morreu há cinco anos. Na Hungria. Estou inteiramente só. — O que você acha que vai acontecer na Hungria? — perguntou Jack. — Nada — respondeu Max. — Isto é, vai ficar pior. E no fim, é claro, quando eles acharem que estão suficientemente fortes, os russos vão lançar a bomba. Sobre todo o mundo. — Você não vê outra saída? Max sorriu e perguntou: — Você vê? — Não sei — respondeu Jack, pensando: “Talvez Steve deva vir aqui conversar com este homem antes que ele escreva mais cartas.” — É importante ser otimista. — É mais fácil para os americanos, talvez. Ser otimista, quero dizer. Claro, vocês tiveram sua oportunidade e não a aproveitaram. Logo depois da guerra, vocês é que deviam ter lançado a bomba. — Não podíamos fazer isso. Max deu de ombros. — Imagino que devem ter tido suas razões. Não obstante, era a única coisa que os poderia ter salvo. Bresach saiu da cabine telefônica, voltando ao bar. — Ninguém a viu — disse ele. — E agora? — Beba alguma coisa — falou Jack. — Está com cara de quem está precisando. Dessa vez, todos beberam conhaque. Já passava das oito horas; Jack olhou para os outros dois, o homem curvo, com ar de intelectual, de voz suave, com a echarpe vermelha de lã, perdido na Europa, e o rapaz exausto e torturado. Sentiu-se ligado a eles, responsável por eles. De repente, pareceu-lhe muito importante que eles, os três, não se separassem. Além disso, ele sabia que tinha de adiar a hora inevitável em que ficaria sozinho de noite. — Tive uma ideia — falou Jack. — Está na hora do jantar. Deixem-me levá-los para jantar. Max olhou para Bresach, indagando. — Por que não? — disse Bresach. — Por que você não nos alimentaria? É o mínimo que pode fazer. Leve-nos a um bom restaurante. Tomaram outro conhaque e foram jantar.

17 Foi Bresach quem escolheu o restaurante. Ele nunca tinha estado lá, mas ouviu Veronica falar dele uma vez. Veronica dissera que não tinha gostado e que jamais voltaria lá. Supondo que, se Veronica estivesse em Roma ainda, ela evitaria os lugares onde tivesse estado com Bresach ou com Jack, Bresach fixou-se naquele, que a ouvira condenar. Ela não estava lá. Era uma trattoria insignificante, e a comida nem melhor nem pior do que se podia encontrar em cem outras trattorie da cidade, e Jack teve de concordar com Bresach em que Veronica devia ter um outro motivo para querer afastá-lo dali. Beberam duas garrafas de vinho tinto, a cara de Bresach tomou-se vermelha e ele falava o tempo todo. Tanto ele como Max, Jack notou, devoraram a comida com voracidade. Embora estivesse quente no restaurante, Bresach conservou seu sobretudo, porque não estava de paletó. — Quando saí do Exército — dizia Bresach —, disse a meu pai que fosse para o diabo. Tinha uma pensão de cinquenta dólares por mês e conheci um sujeito que estava tentando filmar um documentário em Nova York e... — Por que lhe deram uma pensão? — perguntou Jack, intrigado. — Em que guerra você combateu? — Guerra nenhuma — respondeu Bresach. — Não sou do tipo heroico. Fui ferido num ensaio. Esse é mais o meu estilo. Um morteiro explodiu nas manobras e quase perdi o joelho. Mas fizeram um bom trabalho nele. Só manco quando chove. Meu pai ficou uma fúria. Escreveu para todo mundo. Achou que o país não estava demonstrando o devido respeito, deixando que o filho dele ficasse ferido daquele modo. Chegou a ser amável comigo por duas semanas. Deu-me setenta e cinco dólares para tirar férias em Cape Cod. Mas usei a maior parte para pagar um mês de aluguel de um quarto na Rua 4, oeste, e depois dei-lhe a notícia de que não ia entrar para o maldito negócio dele. — Em que negócio ele está? — perguntou Jack. — Fabrica caixas de papelão. É o rei das caixas de papelão. Ele fala nas caixas de papelão com uma luz mística nos olhos. No que lhe diz respeito, é a capacidade de fazer caixas de papelão que diferencia os homens dos animais. Quando eu disse que não ia trabalhar com ele, foi como se o filho do bispo dissesse ao pai que não acreditava na existência de Deus. Tivemos uma cena que durou a noite toda. Ele disse que eu queria brincar de cinema porque era preguiçoso demais para trabalhar e só queria viver às voltas com mulheres vulgares e homossexuais. Disse que nunca me daria um tostão e me deserdaria. A ideia que ele tem de pai remonta às tribos de Israel. Ele e Mr. Barrett teriam sido os melhores amigos de todos os tempos. Minha mãe ficou num canto, torcendo as mãos e chorando. As noites em nossa casa pareciam tiradas diretamente de Stella Dallas. No meio dos maiores discursos dele, eu não podia deixar de dar uma gargalhada. Cada vez que eu fazia isso, ele se virava para minha mãe e dizia: “Viu o que você fez?” E aí minha mãe chorava outra vez. Acho que a minha pobre mãe deve ser detentora do recorde de todas as lágrimas femininas derramadas nos Estados Unidos. E o seu pai? — perguntou ele. — O que foi que ele disse quando soube que você queria ser ator? — Ele disse: “Seja um bom ator” — falou Jack. — Eu lhe disse, da última vez que o vi, que você nasceu com sorte — falou Bresach com amargura. — Até tem um pai assim. — Ei! — exclamou Jack. — Ele já morreu. — Mais sorte ainda. — Bresach serviu-se de mais vinho. A toalha de mesa em frente dele estava

vermelha do vinho que ele derramara antes. — Como foi que você veio parar na Itália? — perguntou Jack. Não queria falar do pai. — Bom, o sujeito que estava fazendo o documentário ficou sem dinheiro. Por fim, eu estava fazendo de tudo, carregando as câmeras, arranjando crédito na companhia de revelação dos filmes, trabalhando na sala de cortes. Vinte horas por dia. Sem receber. Passei algum tempo comendo a vinte centavos por dia. Depois, a nada. Peguei pneumonia. Minha mãe pediu meu corpo às autoridades e levoume para casa para cuidar de mim. Meu pai nunca entrou no quarto. Estava esperando que eu chegasse a ele de joelhos, pedisse perdão e lhe dissesse que finalmente tinha visto a luz e que dali em diante dedicaria a minha vida a caixas de papelão. Mas, enquanto eu me restabelecia da pneumonia, resolvi vir para a Itália. Os italianos estavam fazendo os únicos filmes que não levavam um sujeito honesto a vomitar na sala de projeção. Se a pessoa fosse séria em matéria de filmes, este era o único lugar em que se poderia aprender. Sabe por que os italianos fizeram bons filmes? Porque eles têm prazer uns nos outros, abertamente e desavergonhadamente. Eles têm prazer em todo italiano, no seu todo — em seus vícios e absurdos, bem como em suas virtudes. Eles veem a piada no enterro, a corrupção na virgem, a santidade e a impiedade no mesmo altar. Quando um artista americano olha para um outro americano, sua primeira reação é um estremecimento de nojo. Isso está bem até certo ponto, mas não serve como base de toda uma arte. — O que lhe deu tanta certeza de que queria fazer cinema? — perguntou Jack, curioso. — A grande arte do século XX — disse Bresach com convicção — virá do cinema. É apenas um começo, os primeiros passos incertos. — Bresach agitava as mãos, entusiasmado, obcecado com sua visão. — Toda a beleza, toda a tragédia deste século vai acabar sendo posta em filmes e todas as outras artes vão decair em volta do cinema. O Shakespeare deste século será um diretor de cinema. E ele não estará trabalhando apenas para alguns milhares de pessoas, isoladas numa língua. Vai trabalhar para o mundo inteiro. Falará diretamente, sem palavras, para milhões, e todos o compreenderão. Índios, chineses, o russo rude na Sibéria, o felá, o peão, o cule, o escravo de fábrica... — Bresach já estava quase incoerente. — As luzes se apagam no celeiro reformado mais malcheiroso do ponto mais remoto da terra e ele vai direto a cada coração, e mostrará o que é ser um homem vivo, negro, mulato, amarelo ou branco, o que há de esperança. Será o irmão querido deles, seu professor, seu criador, o artista que os diverte, o amor deles. Vejam Chaplin. Quem em nossos dias já teve um império como o de Charlie Chaplin? Eu sou ambicioso. Desejo aquele império. — Bresach riu roucamente. — E, naturalmente, nós o enxotamos, naturalmente o exilamos. Para o mundo inteiro ele representava a melhor coisa vinda dos Estados Unidos no século XX, de modo que nós não o suportamos. Não suportamos seu riso ligeiro, malicioso, fraternal, divino, de modo que nos expurgamos dele. Vocês conhecem um homem chamado McGranery? Jack hesitou, procurando lembrar-se. Em seguida, disse: — Conheço. Era o procurador-geral que assinou o mandado que exilava Chaplin dos Estados Unidos. — Aí está! — disse Bresach, triunfante, agitando os braços, derramando mais vinho. — McGranery é imortal. Se ele não tivesse condenado Chaplin, seu nome teria desaparecido como urina de cachorro numa pedra quente. Mas agora sua fama está garantida. Ele mostrou ao mundo como eram os americanos. McGranery, McGranery — entoou ele, feito louco —, todos, viva McGranery, a imortal e sempre viva memória de McGranery, a cuja imagem e semelhança somos feitos! — Acalme-se — pediu Jack. — Todos estão olhando para você. Bresach olhou com altivez para os outros fregueses do restaurante. Havia um gordo careca com sua mulher gorda, olhando para cima, com sua lasagna, sorrindo sem saber de que se tratava, e uma mesa com quatro homens de meia-idade que tinham parado de comer para olhar para Bresach com expressões aborrecidas. Bresach ergueu a mão numa saudação fascista. — II Duce! — disse ele. — Trieste, Fiume. Bella Nizza.

Encabulados, os outros tinham baixado os olhos e voltado à comida. — Veronica também reclamava quando eu falava nos restaurantes — disse Bresach. — Ela dizia que eu faço tanto barulho que devo ter sangue de italiano. — Bom, o que foi que lhe aconteceu desde que veio para cá? — perguntou Jack. Queria evitar que Bresach falasse sobre Veronica. Mas não era só isso: ele também estava curioso. De alguma maneira, com os conhaques e o vinho e sua busca unida à moça desaparecida, sentia-se mais que nunca envolvido com o rapaz, e interessado pelos fatos da vida dele, quase como se Bresach fosse um irmão muito mais moço que estivera longe por muito tempo, ou um filho crescido. — O que me aconteceu? — Bresach riu amargamente. — Nada. Niente. Redigi um roteiro. E tive uns dois dias de trabalho, como extra, num filme sobre Nero, com armadura e capacete de lata, e durante duas semanas permitiram que eu fosse buscar café e sanduíches para a segunda unidade de uma companhia de Hollywood que estava filmando umas cenas externas em Veneza. — Você aprendeu alguma coisa? — Aprendi que a gente tem que ter sorte — falou Bresach. — Alguém já leu o que você fez no roteiro? — perguntou Jack. — Sim. Fui muito elogiado. — Ele riu amargamente. — É bom demais, dizem eles, para ser feito comercialmente. — Deixe que eu o leia — pediu Jack. — Por quê? — perguntou Bresach. — Talvez eu possa ajudá-lo. — Não aceito dinheiro — disse Bresach. — Sou puro com relação a meus inimigos. — Ora, bolas — falou Jack. — Em primeiro lugar, não sou seu inimigo. Depois, não vou lhe dar dinheiro algum. — O que, então? — Talvez eu consiga que Delaney o leia. Se ele gostar, talvez o contrate como assistente. Ele está quase acabando um filme, mas ainda falta a maior parte dos cortes, dublagem e música. Delaney é muito bom em tudo isso. Você podia aprender muita coisa com ele. E é quase certo que ele faça outro filme aqui muito em breve. — Enquanto falava, Jack estava pensando que Delaney talvez lucrasse mais daquela associação do que Bresach. A violência de Bresach e sua fé ingênua no valor do cinema poderiam reacender em Delaney alguma coisa que tinha morrido havia muito tempo. — Delaney. — Bresach fez uma careta. — Não diga mais nada — disse Jack, em tom de ameaça. — Quer que eu fale com ele ou não? — Por que você está fazendo isso, Jack? — perguntou Bresach. — Por qual culpa? — Mas que diabo! — reclamou Jack. — Quantas vezes tenho de dizer que não me sinto culpado de nada em relação a você? — Se eu aceitar, compreenda que o favor não me coloca como seu devedor — falou Bresach, formal mente. — Estou começando a compreender por que seu pai ficou tão exasperado e por que sua mãe chorava — disse Jack. Surpreendentemente, Bresach sorriu, um sorriso de menino, implicante, satisfeito. — Estou começando a enervá-lo — falou ele. — Bom. No fim vou conseguir que você me deteste. Estamos progredindo. Jack suspirou. — Fale com ele, Max. — Robert — disse Max, — não existe lei alguma que determine que você precise ser completamente impossível em todas as ocasiões. — Quero que fique tudo bem claro e entendido entre nós — explicou Bresach. — É só isso. Não quero trechos confusos.

— Está bem, falo com Delaney a seu respeito — disse Jack. — Pelo que possa valer. Você acha que tem talento? — Sou um monstro de talento — respondeu Bresach, serio. Jack riu. — Esse maldito riso outra vez — comentou Bresach. — Desculpe — falou Jack. Ele não tinha intenção de ferir o rapaz, mas a risada escapou automaticamente. Era um riso brando, até nostálgico, pois Jack reconhecia em Bresach a feroz falta de modéstia e certeza dos não experimentados, os jovens, os não provados, os não feridos, os não descobertos. — Na verdade, estou rindo porque eu poderia ter dito a mesma coisa se alguém me tivesse feito a mesma pergunta quando eu tinha a sua idade. — Você jogou tudo fora — disse Bresach. — Por quê? — Seja educado, Robert — disse Max. — O cavalheiro não lhe quer mal. — Por quê? — insistiu Bresach, sem ligar para Max. — Eu lhe escrevo uma longa carta — respondeu Jack. — Por que você o trocou? Seu emprego em Paris? — Bresach riu asperamente. — Uma organização de desajustados obsoletos, fingindo que podem salvar o mundo com paradas e declarações beligerantes aos jornais e que caem num silêncio profundo e constrangido quando ouvem o sujo riso da realidade do lado de fora do gabinete? O que foi que você fez, Jack, quando os tanques entraram em Budapeste? Onde estava você quando a esquadra britânica estava na entrada do canal de Suez? Que planos brilhantes você imaginou quando os paraquedistas torturaram os felás da Argélia? Que críticas profundas e elucidantes você faz quando Nasser incita todos em redor dele a assassinarem todos os outros em redor dele? Eu o conheço. Conheço vocês todos... — continuou Bresach, como alucinado. — Todos vocês, de bunda mole, voz mole, cabeça mole, que manobram, assistindo ao século XX, fazendo barulhinhos educados, suaves, cochichando nos coquetéis, para abafar o som das experiências atômicas, o pulsar das bombas, os gritos no rádio, os apelos de socorro por parte de homens que deviam ser seus amigos e que são assassinados entre o terceiro e quarto martini... — Faço o que posso. — Jack não acreditava bem no que dizia, abalado, malgrado sua vontade, pela violência do ataque do rapaz e pelo eco amargo, em suas palavras, da recriminação da carta de Steve. — Que diabo, seja o que for que eu fizer, é melhor do que aqueles filmes idiotas em que eu aparecia. — Não — disse Bresach, em voz alta. — Você era um bom ator. Era honesto. Não fazia parte da conspiração sem cabeça e otimista. Se não estava salvando ninguém, pelo menos estava salvando a si mesmo. Juntou à população do mundo uma alma salva. Isso não é de desprezar. Dava pelo menos esse tanto de luz. E agora, o que e que você faz? Passa a vida espalhando as trevas militares e a confusão política. Diga honestamente. Jack, quando você tinha vinte e dois anos, quando fez aquele primeiro filme, teria procedido da maneira como procedeu aqui em Roma? — Eu dormia com as garotas quando tinha vinte e dois anos, se é a isso que você se refere. — Você sabe muito bem que não é disso que estou falando. Você está casado, não está? — Você sabe que sim. — O que é que você conta a sua mulher? — indagou Bresach. — Diz que a ama? — Pare com isso — disse Jack. — Continue sua preleção sobre política. — Está bem — continuou Bresach, num tom razoável e amigo. — Você diz a ela que a ama. Mas faz uma reserva mental. Ponha isso em números. Uma reserva de dez por cento? Vinte por cento? Que diria? Duas semanas por ano em Roma, talvez mais umas duas semanas em Londres ou em Washington, por assuntos de Estado, com as Veronicas sempre em abundância, e isso supondo-se que você seja fiel em Paris, e não sei por que vou presumir isso... — Você está sendo insultuoso, Robert — falou Max.

— Nós estamos além dos insultos, Jack e eu — respondeu-lhe Bresach. — Estamos no ponto do assassinato. Estamos no ponto em que a verdade nos olha de cara. — Ele tomou a virar-se para olhar para Jack. — O que estou dizendo é que toda a sua vida se baseia num sistema de não comprometimento. Compromete-se com amor até certo ponto, mas não totalmente, no seu trabalho também, mas naturalmente só um idiota completo poderia se comprometer totalmente nesse setor. O homem de partes, em partes, o homem moderno, indigno, inútil, inconstante, fragmentado e vândalo. Minha linguagem está forte demais? — Está — respondeu Jack. — Mas pode continuar. — A propósito da religião — prosseguiu Bresach —, e que assunto para se abordar na cidade de Roma! Você e religioso? — Não. — Vai à igreja? — De vez em quando. — Ah! Claro. O funcionário público. Desde que os republicanos estão no poder, tem havido um fluxo de piedade domingo de manhã em direção aos quadros superiores. Acredita em Deus? — Tenho de pular isso — disse Jack. — Lembre-se, não tenho muito tempo. Tenho de partir para Paris em alguns dias. — Em teoria, o que você é? — perguntou Bresach. — Protestante? — Luterano, se é que sou alguma coisa. Bresach balançou a cabeça, concordando. — Se é que é alguma coisa. A sua mulher? Jack hesitou. — Católica. — E seus filhos? — Por enquanto, eles vão à missa. — Ah! — exclamou Bresach, com um triunfo frio. — Por enquanto eles são presa da superstição, da opressão, dos malditos mitos, da intolerância, ignorância, idolatria, coisas que ao pai aborrece. Por enquanto. Você vê, Max — Bresach olhou furioso para o húngaro —, este homem, que foi escolhido de toda a imensa população desta terra para atormentar a minha vida, não tem nem a coragem de ser ateu, recusou-se até mesmo a praticar o pequenino ato de honra que lhe permitiria manter-se em fé com o seu não Deus. É um simulador e adaptador. Se o pegarem de surpresa, poderão vê-lo de dedo para o ar, verificando o vento. Em alguns dias ele quase chega a fazer o sinal-da-cruz. Pior ainda, permite que seus filhos inocentes e desamparados façam o sinal-da-cruz. Ele compõe, ele hesita, sorri de seus defeitos, faz pilhéria dos dons que deixou escapar por entre os dedos, movimenta-se como uma enguia pelos interstícios da sociedade, ganha o seu salário aproveitando-se do medo de todos de que vamos ser destruídos amanhã de manhã, trai a mulher quando viaja, trai-se a si mesmo quando respira. Naturalmente, as mulheres o amam e se jogam a seus pés, porque ele só se entrega em parte, e que mulher consegue resistir ao homem parcial? Ele se mete na cama como às vezes se mete na igreja, não chegando a acreditar naquilo, mas gostando do som do coro, dos movimentos da congregação, venha, amém, as coxas abertas, amém, o saco de lavagem, amém, bendito seja o vosso nome, amém, casado, solteiro, amém, amém! — Ele fala assim quando está sóbrio? — perguntou Jack. — Muitas vezes — respondeu Max. — Vocês devem ter umas noites divertidas em casa — comentou Jack. — Não brinque — falou Bresach, asperamente. — Estou atacando você. Tempo virá em que você vai sentir os golpes, em que vai chorar de dor e remorso... — Ele colocou um pouco de pimenta-do-reino no queijo, no prato à sua frente. — É feito de leite de búfalo — comentou ele, em tom de conversa. — Sabia disso?

— Não — respondeu Jack. — Eu sempre soube que queria morar num lugar em que ordenhavam os búfalos — disse Bresach, pegando com o garfo um pedação do queijo e enfiando-o na boca. — Em nossa terra, nós nos livramos dos búfalos e de Charlie Chaplin. Avante, McGranery. — Não comece outra vez, Robert — pediu Max. — Então, quando eu melhorei — disse Bresach, calmamente, como se não tivesse havido interrupção na história dele e de sua família —, fiz chantagem com minha mãe e a obriguei a empenhar um anel e me dar o dinheiro para eu vir para a Itália. Disse a ela que se eu não estivesse lançado no cinema dentro de um ano, voltaria e ficaria fabricando caixas de papelão o resto de minha vida e haveria de honrar pai e mãe como um bom rapaz. Por falar nisso, Andrus, o que seu pai fazia? — Tinha uma pequena fábrica de secar frutas na Califórnia. — Deus, como as pessoas passam a vida — comentou Bresach. — Ele tinha um sentimento sagrado com relação às frutas secas? — Não — respondeu Jack. — Era apenas um meio de ganhar a vida. Ele não levava os negócios muito a sério. Desde que ganhasse o suficiente para sustentar a família e comprar os livros que queria, para ele bastava. — Ele era americano? — Era. — Foi uma sorte ele morrer antes de McGranery pegá-lo. — Robert — disse Max, ameaçadoramente. — Estou aprendendo tudo o que posso sobre o homem que para mim é o homem mais importante do mundo — disse Bresach. — John Andrus. Aliás James Royal. O homem duplo. Ele é os dois homens mais importantes do mundo para mim, porque me roubou a coisa que eu queria e precisava mais que tudo no mundo. Ele é o Adversário, o Demônio da Perda, o Elemento Destruidor. — Bresach agora estava falando como um louco, os olhos quase fechados, o suor lhe escorrendo pelo rosto. — Quando eu o encaro, vejo o meu pai, a fábrica de caixas de papelão, vejo uma porta se fechando em minha cara, vejo o meu amor desaparecendo por mil ruas escuras e desconhecidas, vejo a minha cama com um homem perseguido dentro dela, não a moça afetuosa que devia estar lá e que se foi. Olho para ele e me lembro do dia em que tentei me matar... Para mim é de importância vital que o pai dele tenha secado frutas na Califórnia. Preciso descobrir todos os segredos dele. — Você está completamente bêbado — disse Jack. — Até isso é possível — concordou Bresach, calmamente. — Mas, bêbado ou sóbrio, você também tem que saber a meu respeito. Você está envolvido comigo. Somos os elementos mais importantes em nossas vidas. Estamos enroscados um no outro como cobras brigando. Você é um homem civilizado. O que fizer comigo terá de fazer em são conhecimento. No final, aconteça o que acontecer, você não deve poder dizer consigo mesmo: “Eu não sabia. Foi um acidente.” — Bebeu o resto do vinho e serviu-se mais, enchendo o copo até em cima com o vinho arroxeado e rude. As mãos dele tremiam e o gargalo da garrafa, com o selo da cidade de Roma, tiniu nervosamente contra o copo. — Estou desesperado, e você tem que saber disso. — Robert — disse Max, em voz baixa. — Já é tarde. Está na hora de ir para casa. — Se Veronica não estiver lá, não tenho casa. Sem ela eu sou zero, sou menos duzentos e setenta e três graus centígrados e um décimo, quando os prótons param seus movimentos dentro do átomo. Cristo, quem diria que uma coisa dessas poderia acontecer em Roma? Veronica... — Ele respirou fundo. — Onde estará ela? — perguntou ele, impertinente. — Preciso dela. Talvez ela esteja sentada numa mesa num restaurante no quarteirão vizinho. É de enlouquecer. Devíamos estar nas ruas cheirando para ver se encontrávamos o perfume dela, como cães de fila. Eu menti para você na outra noite, Jack. Disse que havia dez mil mulheres mais bonitas do que Veronica. Foi uma mentira barata, desprezível e covarde, e

eu disse aquilo porque a queria demais. Estava mendigando por ela. Não existe nenhuma mulher mais bonita do que Veronica. — Ele meteu a mão no bolso do casaco cáqui e, tirando a faca, colocou-a na toalha manchada, entre ele e Jack. — Aí está ela, entre nós, seu filho da puta — disse ele, a voz sufocada. — Robert — falou Max. baixinho. — Isso não adianta. Guarde a faca. Bresach tocou a faca, sorrindo torto para Jack. Depois, surpreendentemente, guardou a faca. — É o símbolo do pênis desembainhado e ereto — comentou ele, calmo. — Nos sonhos que eu sonho. Como vê, não desperdicei completamente o meu tempo com o Dr. Gildermeister. — Da próxima vez que você me encontrar, tenha cuidado — disse Jack. — Eu poderei estar armado com um revólver. — Estará? — Bresach balançou a cabeça, amavelmente. — Sim, isso seria uma coisa sensata a fazer, não? — Levantou-se de repente. — Vou embora — disse ele, muito reto e com uma firmeza extrema e consciente. — Pague a conta, Jack. Amanhã eu lhe falo sobre o encontro com Delaney. Deu meia-volta e saiu do restaurante, andando duro. Max levantou-se, remexendo na echarpe. — É tarde — disse ele. — Não se preocupe. Eu lhe levarei o roteiro. Obrigado por um jantar excelente. Agora, se me dá licença... — Ele pegou seu chapéu verde e surrado do cabide, colocou-o na cabeça e desapareceu.

18 O comprimido para dormir. Lindo tubo plástico transparente, solúvel, verde-jade à luz da lâmpada de cabeceira, lealmente carregando sua carga, três grãos de paz, pelas horas escuras e perigosas. Para tornar navegável a jornada da noite para a manhã, ao homem moderno. Mas nesse sono de drogas, que sonhos virão... Eram necessárias outras medidas. A garrafa. Haig's, Dewar, Black and White, Johnny Walker, velhos amigos de confiança, a serem encontrados em todos os bons bares, em Roma ou fora de Roma. O mergulho do alto, de membros pesados, que se dá à meia-noite, para o esquecimento. Álcool mais barbiturato de sódio-etil-butil é igual a seis horas de esquecimento e, afinal de contas, o que há de melhor do que o esquecimento? Durma agora, pague depois. Só por um momento, depois de apagar as luzes, antes que a droga aja completamente sobre o corpo exausto e agitado, há o breve dedilhado da memória a se suportar, uma sensação de perda, desejo, culpa... E de manhã, um atropelo alucinado e rápido de sonhos, com o telefone locando e a telefonista esperando para dizer, conforme suas ordens: “Sono le sette, Signor Andrus”, para você chegar ao estúdio na hora. E a benzedrina para passar o efeito do soporífero, e o Alka-Seltzer para passar o efeito do uísque e o café preto para ter coragem e para as mãos não tremerem demais enquanto você faz a barba. Durma agora. Pague depois. Manhã de domingo. Jack desceu tarde para o saguão. Bresach estava esperando por ele, magro, pálido, bem barbeado, desdenhoso das mulheres vestidas demais que passavam pelo saguão a caminho da igreja. Jack olhou para ele com algo semelhante ao ódio. Max cumprira a promessa. Tinha levado o roteiro de Bresach. E era brilhante, sobre três refugiados húngaros e um jovem estudante americano que moravam num quarto em Roma, cedido a eles por uma solteirona inglesa maluca, que morava na Itália desde menina. As experiências de Max evidentemente figuravam nele. Era triste, engraçado, violento, e havia uma história de amor grotesca e patética entre um dos refugiados e uma moça americana que excursionava pela Europa em companhia da mãe. Tudo era feito nos termos mais simples e limpos, com uma impressionante franqueza de imagens e linguagem, com uma firmeza e controle que tornavam quase impossível acreditar que tivesse sido criado por um rapaz que antes disso não tivera quase nada a ver com produção de filmes. Olhando para Bresach no saguão e lembrando-se do roteiro, do qual ainda não falara com o rapaz, Jack se sentiu ressentido e injustamente responsável com essa nova revelação dos recursos de Bresach. Agora ele não era só responsável, embora não por sua culpa, pelo desastre de Bresach com Veronica, mas era responsável também por sua excelência, seu talento, seu futuro. Foi com uma sensação de estar preso e sufocado que viu Bresach atravessar o saguão em sua direção, mal nutrido, vulnerável, exigindo, perseguindo. — Fui pontual — disse Bresach. Era uma acusação. — É o que vejo — respondeu Jack. Ele foi à portaria e deixou a chave. O porteiro entregou-lhe dois envelopes. Jack abriu o primeiro. Era uma comunicação do Serviço de Telégrafos Italiano informando que seu telegrama para a mãe de Veronica não tinha sido entregue porque a destinatária não era conhecida no endereço. “Uma boa coisa para uma manhã de domingo”, pensou Jack. “Para animar o domingo romano.” Quando ele e Bresach saíram para a rua, onde Guido os esperava com o carro, Jack entregou a

mensagem aberta a Bresach, sem comentários. Bresach parou e estudou-a, sacudindo a cabeça. Jack abriu o outro envelope. Era um telegrama. Dizia: NÃO SE PREOCUPE, QUERIDO, BEIJOS, VERÔNICA. Tinha sido mandado de Zurique às dez e trinta da noite da véspera. Jack leu-o duas vezes, procurando um código, uma mensagem oculta. “Isso significa apenas”, pensou ele, “que ontem à noite, às dez e trinta, ela estava viva em Zurique.” Quando Bresach se aproximou, Jack meteu o telegrama no bolso. — Não entendo isso — comentou Bresach, dobrando a comunicação da companhia de telégrafos. — Esse é o endereço que ela me deu. — Você mandou algum telegrama ou carta para lá? — perguntou Jack. — Não — respondeu Bresach. — Era só para emergência. Nunca houve emergência. Até agora. E o outro? Era alguma coisa? — Não — disse Jack. Eles entraram no carro. Guido desceu a avenida ensolarada, cheia, mesmo tão cedo, de famílias domingueiras. “Mais tarde”, pensou Jack, “talvez eu lhe mostre o telegrama. Depois de ter uma chance para pensar a respeito. Zurique. Quem é que vai a Zurique? Para que as pessoas vão a Zurique?” Bresach sentou-se encolhido em seu sobretudo cáqui num canto, franzindo a cara para fora do carro. Estavam passando por uma igreja recém-construída, com suas pedras claras, cruas e deslocadas, entre os muros gastos de cada lado. Os atrasados se apressavam em subir a escada para a missa, e Bresach olhou para eles como se o tivessem insultado. — É disso que esta cidade precisa — disse ele. — Mais igrejas. — Tirou os óculos, limpou-os com violência na gravata e depois tomou a colocá-los. — Isto é uma perda de tempo, procurar Delaney. Estamos em lados opostos de um abismo. — Por que você não espera para ver? — Você entregou o meu roteiro a Delaney? — Entreguei. — Ele leu? — Não sei. — Você leu? — Li — disse Jack. Ele esperou que Bresach perguntasse o que achou dele. Mas ele só fungou um pouco no seu canto e disse, como criança: — Não sei por que é que eu o deixo me convencer a fazer as coisas. — Quer descer aqui? — perguntou Jack, exasperado, sabendo que era só mau humor e retórica, que ele não podia deixar Bresach saltar ali nem em lugar algum. Bresach hesitou. — Ora, que diabo! — disse ele. — Já vim até aqui. — Espiou a rua: — Eu entendi você dizer que Delaney morava em frente ao Circus Maximus. — E mora — disse Jack. — Esse camarada está indo para Parioli. — Bresach indicou Guido, no assento de motorista. — Calma — falou Jack. — Você não está sendo sequestrado. Delaney está lá agora tendo aula de equitação. Era a única hora em que ele podia falar com você. — Aula de equitação? — rosnou Bresach. — O que ele pretende fazer? Galopar para a Guerra dos Cem Anos? — Ficou calado, de mau humor, por algum tempo. — Você dorme de noite? — perguntou. — Durmo — respondeu Jack. Não falou dos comprimidos nem do uísque. — Pois eu não — disse Bresach, de mau humor. — Fico deitado e escuto os pesadelos de Max e a acordo quando ele chega a uma fronteira. Vou dizer uma coisa. Se eu não tiver notícias dela esta

semana, vou procurar a polícia. — Ficou olhando raivoso para Jack, como se o desafiasse a discutir. — Não precisa ir à polícia — disse Jack. — Eu tive notícia dela. — Quando? — Hoje de manhã. — Onde ela está? — Bresach o olhava atentamente, desconfiado. — Em Zurique. — O quê? — Zurique. — Não acredito — disse Bresach. Jack pegou o telegrama e entregou-o a Bresach. Ele o leu, lábios apertados numa linha dura e fina, depois amassou-o e guardou-o no bolso. — Querido... — comentou ele. — Você tem alguma ideia de onde ela possa estar em Zurique? — perguntou Jack. Bresach sacudiu a cabeça, sombrio. — Não tenho ideia nenhuma de onde ninguém possa estar. — Pegou o telegrama amassado do bolso e estudou-o com muito cuidado, desamassando-o. — Bom, pelo menos ela está viva. Está satisfeito? — Claro. Você não? — Não tenho certeza — disse Bresach, olhando para o papel em seu joelho. — Eu me apaixono uma vez em toda a minha vida e tem de ser por uma pessoa assim. — Ele tocou no telegrama, com amargura. — Tive três meses de felicidade com ela. O que é que você acha? É o limite? É a ração? E depois disso, desespero sem limites? Diga, e você? Suponhamos que você nunca mais tenha notícia dela. Suponhamos que este telegrama seja a última notícia que você vai receber dela em sua vida, Zurique, escapou para Zurique, o que acontece? O que fará você? Voltará para Paris e viverá sua vida burguesa com sua mulher e filhos e se esquecerá dela? — Não a esquecerei — disse Jack. — Andrus, você sabe alguma coisa a respeito do amor? — Sei alguma coisa. Sei que não acaba com um telegrama. — Com que acaba, então? Quem me dera saber. Você conhece a história do garoto espartano com a raposa? — perguntou Bresach. — Conheço. — Aquilo tem mais significado do que parece — disse Bresach. — É uma alegoria, cheia de símbolos, não é o que parece significar, absolutamente. A raposa é o amor, e você tem de escondê-lo e não o exibe porque não pode exibi-lo. Está trancado dentro de você e a princípio ele o lambe, de brincadeira, depois dá uma mordidinha para experimentar, depois gosta do sabor e depois começa a comer de verdade... — Não fique tão cheio de autocomiseração — falou Jack. — Isso é uma das piores coisas de sua geração. — Que se dane a minha geração — disse Bresach. — Não pertenço a ela nem ela me pertence. Eu e a raposa, é a isso que eu pertenço. — Cuidadosamente, ele dobrou o telegrama e depois atirou-o pela janela. Ele voou e retorceu-se, como uma folha, livre na avenida ventosa e ensolarada. — Não se preocupe, querido. A mensagem do ano. Você já esteve em Zurique? — Já. — Para quê? — Eu ia esquiar — disse Jack. — Esquiar. — Bresach fez uma careta. — Você é muito saudável para o meu gosto. Não há sinais externos de podridão. Não aguento gente assim.

— Cale a boca. — Alguém já lhe disse que você parece um imperador romano? — perguntou Bresach. — Quero dizer, mulheres que queriam agradá-lo ou artistas bêbados nas festas? — Não — respondeu Jack.. — Pois parece. Há mil bustos de pedra e bronze espalhados por Roma que parecem ter sido feitos em sua família. O nariz grande, o pescoço grosso e brutal, os maxilares carnudos, a boca sensual, confiante em si, a expressão de comando, vazia. "Todos eram hábeis na disciplina religiosa, peritos em estratégia, inclementes e ricos". — Bresach apertou os olhos por trás dos óculos, puxando pela cabeça com um esforço evidente. — Isso é de Flaubert — disse ele —, descrevendo os governantes de Cartago, mas serve para os imperadores de Roma e para você também. Com uma cara como a sua, eu seria pelo menos comandante de um corpo de Exército ou presidente de uma companhia siderúrgica. — Pois não sou — disse Jack. — Sou um subsecretário num subescritório. — Talvez você esteia aguardando a sua oportunidade. — Bresach riu provocadoramente. — Talvez no ano que vem você floresça e tenha quarenta mil homens sob as suas ordens. Você me desapontará se não o fizer. Jack. “Peritos em estratégia, inclementes e ricos.— repetiu ele. — Você acha que a cara americana está se movimentando em sua direção, Jack? — Você é tão americano quanto eu — disse Jack. — Você acha que a cara americana está se movimentando em sua direção? — Não — respondeu Bresach. — Eu sou um rejeitado. Sou fora de série. Se pudessem fazê-lo legalmente, eles cassariam minha cidadania. Sou torturado, míope e cético. Sou feito de material de exilados. — Besteira. Bresach tomou a rir. — Há alguma coisa no que você diz, Jack. — O carro deu uma guinada violenta, para se desviar de uma Vespa que saiu em disparada de uma rua lateral, com um rapaz e uma moça, ambos bem inclinados para fazer a curva. Bresach gritou para eles em italiano, zangado. — O que foi que você disse? — perguntou Jack. — Eu disse: “Por que não estão na igreja?” — respondeu Bresach. Ele ainda estava zangado. Pegou um maço de cigarros amassado e acendeu um. Pela primeira vez, Jack reparou que os dedos compridos de Bresach estavam amarelados de nicotina. — Você já pensou no que quer dizer a Delaney? — perguntou Jack. Ele se sentia responsável pela entrevista e queria que ela saísse bem, ou pelo menos decorosamente, e o estado de espírito de Bresach agora era inquietante. Ele levara Bresach à sala de projeção, na véspera, para ver o filme que já estava composto. Ficou olhando para Bresach enquanto rodavam o filme, mas uma vez na vida Bresach tinha ficado quieto e sem expressão durante uma hora e meia e tinha saído sem dar qualquer opinião. — Você está com medo do que eu posso dizer ao grande homem? — perguntou Bresach. — Não — disse Jack. — Só quero que fique nos limites das relações humanas normais. — Não se preocupe. Serei razoável. Nem que morra. Afinal de contas, preciso do trabalho. — O que você vai dizer a ele sobre o filme? — perguntou Jack, curioso. — Não sei — disse Bresach. — Ainda não resolvi. — Jogou fora o cigarro. — Zurique é uma cidade grande? — perguntou. — Trezentos ou quatrocentos mil — respondeu Jack. — Coisa assim. — Todo mundo diz que a polícia suíça é ótima para encontrar pessoas — comentou Bresach. — Sabem em que cama todo mundo na Suíça está dormindo, cada noite. É verdade? — Mais ou menos. — Acho que vou de avião para Zurique hoje à noite — disse Bresach. — Pegá-la cantando feito tirolesa à margem do lago. Você me empresta o dinheiro para o avião?

— Não. — Parece o meu pai. — Com esse insulto, Bresach se encolheu no seu canto, a cabeça virada, e não falou mais até chegarem à academia de equitação. Delaney estava saltando obstáculos de sessenta centímetros num ruão grande e fogoso. O cavalo não estava inquieto, de início, mas depois de quinze minutos com Delaney, já mordia o freio, espumava, recuando e dançando de lado diante de cada obstáculo. “Ele tem o mesmo efeito sobre os atores”, pensou Jack com tristeza. “Basta ele passar um quarto de hora com qualquer coisa viva e o terror e o motim erguem as cabeças.” Jack e Bresach estavam encostados na parte superior da cerca que fechava a grande arena. Bresach tinha nos lábios um ligeiro sorriso de deboche ao olhar para Delaney sacolejando no ruão. Em contraste com os outros cavaleiros, que estavam elegantemente vestidos de culotes de lã diagonal, botas e paletós de tweed inglês, Delaney estava com um jeans surrado, camisa de flanela vermelha sem gravata e botinas de camurça. O instrutor de equitação, um italiano pequeno, de seus sessenta anos, botas lustrosas, paletó cintado impecavelmente passado, a tira em volta do pescoço apertada e sem rugas, ficava no centro, dizendo pacientemente em inglês: “Calcanhares para baixo. Signor Delaney, para baixo!”; e: “Afrouxe as rédeas, signore, por favor. Não puxe, por favor. A pressão sempre firme e igual. Não bata os calcanhares. Não confunda o animal, por favor.” Bresach riu, ao lado de Jack. — Não confunda o animal — murmurou ele. Delaney tornou a saltar, perdeu um estribo, puxou loucamente na rédea e o cavalo saiu andando de lado. Delaney quase caiu e Bresach tornou a rir. — Por ora, Signor Delaney — disse o instrutor —, talvez seja conveniente descansar um pouco. Deixar o animal respirar. Um cavalariço pegou a rédea do ruão. Delaney saltou, duro, e disse ao instrutor: — Da próxima vez, vou saltar aquele. — Apontou para um obstáculo de um metro de altura. O instrutor sacudiu a cabeça. — Não creio que seja propriamente o... — Vou saltar aquele. — Delaney bateu no ombro dele, tirou as luvas e foi para onde estavam Jack e Bresach. Ele estava rindo, divertindo-se, e tinha um ar corado e sadio do exercício. Transpirava, e o vapor subia da testa dele no ar frio e ensolarado. Jack apresentou-o a Bresach, e Delaney disse, apertando a mão de Bresach: — Prazer em conhecê-lo. Ainda não li o seu roteiro, mas Jack me disse que você é um rapaz inteligente. — Maurice — disse Jack —, o que você está fazendo, aprendendo a saltar obstáculos na sua idade? — É exatamente por isso — disse Delaney. — A minha idade. É para não ficar velho. Cada ano, eu procuro aprender uma coisa nova. Para compensar as coisas que estou perdendo, as coisas que não faço mais tão bem. Acho que posso continuar a progredir como cavaleiro até os sessenta e cinco anos. Toda a ideia de a pessoa se sentir jovem é que se sinta cada vez melhor nas coisas. Estou certo? — Ele olhou para Bresach. — Eu estou ficando cada vez pior em tudo — falou Bresach. Delaney riu, de bom humor, e disse: — Na sua idade, você pode se dar ao luxo de dizer coisas assim. — O que você vai aprender no ano que vem? — perguntou Jack. — Paraquedismo? — Francês — disse Delaney. — Quero dirigir um filme em francês antes dos sessenta anos. Há uns dois atores em Paris que eu quero agarrar antes de morrer. Agora havia uma garota morena e bonita no picadeiro, cavalgando um baio alto e quieto. A menina não parecia ter mais de dezesseis anos, e era pequena, séria, reta e leve na sela. Começou a fazer

um circuito dos obstáculos, e os três homens observavam enquanto ela parecia levantar o cavalo sem esforço sobre os obstáculos, com uma expressão absorta e intensa no rosto. — Olhe a cara dela — disse Delaney, a voz surpreendentemente áspera. — Quero me sentir assim antes de acabar. — É provável que você quebre o pescoço, antes disso — disse Jack. — Duvido. — Delaney viu a garota fazer o baio saltar uma cerca. No momento em que o cavalo passou pela grade de cima, as patas de trás arrumadas bem acima do travessão, Delaney fez um barulhinho estalado. Depois, sacudiu a cabeça, desfazendo algum sonho impossível, e virou-se para Bresach e Jack. — Jack, ontem falei com uma velha amiga sua. — Quem foi? — perguntou Jack. — Carlotta. — Delaney deixou o nome cair displicentemente, mas estava olhando para Jack com um lampejo de curiosidade e divertimento nos olhos. — É uma boa descrição dela — comentou Jack. — Velha amiga. Não me diga que está em Roma. — Não. Está na Inglaterra. — Semeando a discórdia e o alarme, sem dúvida. Você disse a ela que estou aqui? — Disse. — O que ela comentou? — Nada. Deu um suspiro — disse Delaney. — Ou pelo menos pareceu um suspiro. A ligação estava ruim, era difícil dizer. Ela me perguntou se eu achava que ela ia se divertir em Roma. — E o que você respondeu? — Eu disse que não. — Delaney sorriu para Bresach. — Estamos falando sobre uma das muitas esposas de Jack. — Eu sei — disse Bresach. — Estou bem-informado. — A meu respeito também? — perguntou Delaney. — Claro. — Tenho mais informações para você — disse Delaney. — Minha mulher também me deixou ontem à noite. — Pegou um lenço vermelho grande e enxugou a testa, coberta de suor. — É coisa séria? — perguntou Jack. No passado nunca era sério. Clara o havia deixado várias vezes antes, como protesto contra um dos casos do marido. — Acho que não. Ela só foi até o Grand. — Delaney sorriu. — Você não imagina como um apartamento em Roma pode ser tranquilo se a mulher da gente está hospedada no Grand Hotel. — Guardou o lenço no bolso do jeans velho. — Bom, então, pelo que eu soube, você quer ser diretor — disse ele a Bresach, em tom de negócio. . — Sim — afirmou Bresach. — Por quê? — perguntou Delaney. — Só faço esse discurso quando estou bêbado — disse Bresach, calmo. — Esta semana eu já o pronunciei. Para Andrus. Pergunte a ele. Delaney olhou para Bresach calculadamente, como um pugilista avaliando um adversário nos primeiros segundos do primeiro assalto. — Você viu meu filme, não viu? — perguntou ele. — Vi vários filmes seus — respondeu Bresach. — Quero dizer, o que estou fazendo agora. — Vi. — O que você achou? Bresach hesitou, olhando em volta para os cavaleiros no picadeiro, a garota morena afagando o pescoço do baio, enquanto falava tranquilamente com o instrutor impecável, o cavalariço junto do ruão, um garoto de sete anos de boné de veludo andando a passo, devagar, num castanho, em volta do

picadeiro. — Acha que este é um bom lugar para se falar em um filme? — É um lugar perfeito — disse Delaney. — Ninguém aqui entende inglês e há um cheiro gostoso de esterco de cavalo no ar. — Bom — disse Bresach. — O que prefere, que o lisonjeie ou que diga a verdade? Delaney riu. — Primeiro me lisonjeie, depois diga a verdade. É sempre um bom sistema. — Ótimo — começou Bresach. — Ninguém maneja uma câmera melhor do que você. — Isto serve — disse Delaney, concordando. — Para começar. — Cada cena que você filma — continuou Bresach — É cheia de informações. — O que você quer dizer com isso? — Delaney estava olhando para Bresach com atenção, cético, mas curioso. — O que eu quero dizer é que você não se interessa só pela história e os personagens no primeiro plano — prosseguiu Bresach depressa, em tom de professor dando aula. — Há sempre alguma coisa acontecendo em níveis diferentes na tela. Você está sempre à procura de dizer algo sobre outras pessoas, as pessoas no fundo, ao mesmo tempo e comentando a cena, e contando sobre o tempo e a hora do dia ou da noite e trabalhando no estado de espírito que você quer que a gente tenha. — Ah, você percebeu isso? — Delaney parecia surpreso e satisfeito. — Sim. Eu percebi isso. Não há muitos diretores que possam fazer isso sempre, mas você é um deles. E você é elegante e engenhoso em nos conduzir com a câmera de um ponto da história para outro, de modo que há sempre um sentido de movimento e sequência em todos os seus filmes. Naturalmente, neste filme, como em todos os filmes que você fez nos últimos dez anos, o sentimento é falso... Ele parou, para ver como Delaney receberia isso. Delaney estava novamente olhando para a garota no baio, e só concordou com a cabeça e disse: — Continue. — Antigamente era verdadeiro — disse Bresach, calmamente. — As cenas deslizavam umas dentro das outras, porque você achava que elas tinham de fazê-lo. Hoje, é tudo bordado hábil. Por cima. Por baixo, é caótico, acidental... Quer ouvir tudo isso? — Estou encantado — disse Delaney, secamente. — Prossiga. — Vou dizer o que sinto sobre seus filmes antigos — continuou Bresach. — Eles me davam a impressão de terem sido feitos por um homem obcecado com a ideia de que o tempo estava acabando, de que tinha tanta coisa a dizer, que tinha de juntar tudo sob uma pressão rápida e enorme. Até mesmo umas drogas de histórias que você escolhia... — E agora? — Delaney perguntou com calma. Jack ficou espantado ao ver que Delaney estava sorrindo, tolerante. — Agora, os seus filmes parecem e soam como se tivessem sido feitos por um homem vaidoso e complacente consigo mesmo, que desperdiçaria um personagem inteiro por um efeito ou uma cena vistosa — disse Bresach. A voz dele estava irritada. Era como se, ao dar uma lista de críticas, de repente a sua plena criminalidade lhe fosse revelada e o ofendesse. Se Jack não tivesse lido o roteiro de Bresach, teria achado que era insolente o que o rapaz dizia. Mas, como o leu, Jack achava que ele estava sendo justo e merecia o direito de falar. Ele estava dizendo as coisas que Jack queria dizer, e teria podido dizer a Delaney nos primeiros anos sinceros de sua amizade, e que Delaney não aceitava mais da parte dele. — Por exemplo — continuou Bresach —, neste filme, você tem aquele flashback tolo da guerra, só porque queria ter a cena comovente nas ruínas entre o herói e o garotinho. Claro, a cena dá certo, arranca lágrimas, mas você para o filme por quinze minutos só por aquele momento... A pressão cai. Só resta o bordado... Delaney tornou a balançar a cabeça, sorrindo vagamente, apertando os olhos e olhando para os outros cavaleiros. Depois, virou-se e beliscou o rosto de Bresach.

— Você é um camarada engraçadinho, não é, filhinho? — disse ele. Depois, andando para onde estava o instrutor, gritou: — Bom, commendatore, estou pronto. Vamos. Jack e Bresach ficaram olhando calados. O sangue afluiu ao rosto de Bresach. — Ele perguntou, não foi? — comentou Bresach, com dureza. — O que é que ele esperava que eu dissesse? — Ele perguntou — disse Jack. — Você disse. Viva você. Bresach pôs a mão no rosto. — Eu devia ter dado um soco na cara dele. — Ele o teria matado — falou Jack, satisfeito. — Bom, não adianta ficar por aqui agora — disse Bresach —, olhando o cowboy. Vamos embora. — Deixe de ser bobo. Você ainda quer aquele trabalho, não quer? — Tenho tanta chance de consegui-lo quanto aquele cavalo — murmurou Bresach, com amargura. — Tolice — disse Jack, olhando Delaney montar e puxar a cabeça do ruão a fim de colocá-lo de frente para o obstáculo. — Ele está resolvendo neste minuto. Eu o conheço. Está digerindo o que considera os insultos e imaginando qual a utilidade que você pode ter para ele. Na verdade, o jeito como você falou com ele foi a melhor coisa que podia ter feito. — Eu só estava começando. Tenho mais uma dúzia de... — Tudo no devido tempo — aconselhou-o Jack. — Não abuse da sorte. Delaney estava defronte do obstáculo, agora, a vinte metros de distância. O ruão, como sempre, estava agitado, sacudia a cabeça, virando os olhos e mordendo o freio. Delaney estalou a língua para ele, apertou os calcanhares e o ruão correu com um salto que fez Delaney balançar na sela. O cavalo aproximou-se do obstáculo um pouco para o lado e, no último instante, refugou. Delaney voou por cima da cabeça do cavalo, caindo com um ruído surdo do outro lado da cerca. Ficou quieto, deitado, por um momento, enquanto Jack, o instrutor e o cavalariço corriam para ele. Antes que alguém chegasse perto, ele se levantou do chão, firme, limpando a poeira do rosto. — Estou bem — falou. — Onde está esse raio de cavalo? — Acho que chega por hoje, Signor Delaney — disse o instrutor, aflito. — Foi um tombo e tanto. — Besteira — respondeu Delaney. Foi para onde estava o cavalariço, acalmando o ruão. O rapaz olhou indagadoramente para o instrutor quando Delaney se aproximou. O instrutor deu de ombros e o moço ajudou Delaney a montar. Delaney deu um puxão na cabeça do cavalo e voltou ao ponto de partida. — Ele se esquece — disse o instrutor, nervoso, para Jack — de que não é mais nenhum mocinho. Os dois ficaram perto da barreira enquanto Delaney estalava a língua para o cavalo, levava-o para o obstáculo num golpe confuso e saltava. Ele ficou bem fora da sela, mas dessa vez não caiu. Levou o cavalo até o instrutor e desmontou com um saltinho displicente no barro macio do picadeiro. — Muito bem, signore — disse o instrutor, aliviado, pegando as rédeas. — Foi horrível — confessou Delaney, e, puxando o lenço, limpou a testa, sujando-o de lama e suor. — Mas consegui. No domingo que vem estarei em forma. — O que é que está querendo provar, Maurice? — perguntou Jack, quando voltavam para onde estava Bresach. — Eu? — Delaney pareceu espantado. — Nada. Só quero um pouco de exercício e ar puro. — Mas ele mancava um pouco, e quando chegou à cerca estendeu a mão para se apoiar. — Bom, então, filhinho — disse ele a Bresach. — Estive pensando em todas as coisas interessantes que você me contou. Sob pressão, foi o que disse, não foi? — Foi — respondeu Bresach. — Acha que poderia me ajudar a pôr esse filme sob pressão também? A cortar os bordados? — Delaney parecia zangado, quase como se estivesse a ponto de bater em Bresach.

— Sim. Posso. — Ótimo. Você está empregado. Começa amanhã de manhã. — Delaney virou-se e limpou a lama dos joelhos puídos do jeans. — Agora, quero uma cerveja. Vamos... — Saltou a cerca com uma demonstração propositada de energia. Jack sorriu para Bresach, mas este estava olhando para Delaney com um ar sombrio, desconfiado. Quando Jack pulou as duas traves superiores da cerca, Delaney parou de andar. Ficou inteiramente imóvel, depois virou-se devagar sobre os calcanhares e ficou de frente para eles. Seus lábios estavam brancos. — Oh, Cristo, Jack! — gemeu ele, numa voz que não parecia nada a sua. — Oh, Cristo, como dói! E caiu de cara no chão. Na confusão de homens correndo para junto do corpo sem movimento e cheio de lama no cascalho, em meio à balbúrdia de italiano e à corrida para o carro, Jack segurando Delaney debaixo dos ombros, com a cabeça dele, bamba, batendo em seu braço, teve um pensamento claro e preciso: “Era isso; a morte de Delaney e que fora anunciada.” r

19 Deram oxigênio e anticoagulantes a Delaney e chamaram um padre. Quando o carro chegou ao moderno hospital branco, construído no morro, entre gramados e palmeiras (Califórnia e Roma numa confusão de influências, ecos, empréstimos), enquanto Delaney estava sendo delicadamente colocado na maca, a freira perguntou a Jack qual a religião do paciente. Jack hesitou e depois disse “católico”, por ser mais simples. Qualquer coisa que ele dissesse, Jack tinha certeza de que ela não teria se arriscado, com um nome como Delaney. A freira era uma mulher pequenina, rosada, de seus quarenta anos, rápida e eficiente, que falava inglês com um traço de sotaque irlandês misturado ao italiano, suave, prova musical da influência da Igreja irlandesa em Roma. Primeiro, chegou o médico, homenzinho seguro de si e esperto, que ficou muito tempo de porta trancada e não respondeu a qualquer pergunta quando saiu. Em seguida, veio o padre, jovem, pálido e magisterial, que preparou Delaney para a eternidade, sem, esperavam todos, nenhum efeito maléfico sobre a pressão arterial ou as batidas sistólicas. Quando o padre saiu do quarto de Delaney, sua expressão nada revelava, e Jack tinha certeza de que não houvera tempo para uma confissão completa. A cara do padre, por mais insensível que ele pudesse ter-se tornado aos pecados do mundo, não estaria tão serena e composta se Delaney tivesse tido forças suficientes para compor uma lista completa de suas transgressões. Depois do padre, veio o agente de publicidade do filme, magicamente chamado do meio de um campo de golfe, como que por algum instinto impulsor, para garantir que a morte — ou sobrevivência — de Delaney fosse utilizada de maneira adequada, em benefício da companhia, nos jornais, revistas e circuitos radiofônicos do mundo. O agente de publicidade era um americano grande, pesado, ainda moço, meio calvo, de óculos, que se plantou firmemente defronte da porta branca no fim do corredor de mármore, com uma pasta cheia a seus pés. Nessa pasta, conforme Jack descobriu depois, havia cópias mimeografadas de uma biografia de Delaney que o publicitário preparara logo ao ser contratado. Jack olhou para as fotografias e leu a biografia. As fotografias tinham sido tiradas dez anos antes e nelas Delaney parecia jovem, entusiasmado e feroz. A biografia mencionava apenas sua última esposa, e nenhum de seus fracassos. Lendo a folha mimeografada, podia-se crer que a vida de Delaney fora uma parada virtuosa e triunfal, sucesso seguindo-se a sucesso numa procissão ininterrupta. — Gostou? — perguntou o publicitário quando Jack leu o papel à luz da janela no fim do corredor. — Quando eu morrer, lembre-me de contratá-lo para escrever meu obituário — falou Jack. O publicitário riu, de bom humor. — Não me pagam para arrasá-los. — O nome dele era Fogel. O bolso de seu paletó esporte estava cheio de charutos. De vez em quando, pegava um charuto e o levava aos lábios. Depois, lembrando-se de que estava em presença da morte e em breve estaria em presença da imprensa, tristemente recolocava o charuto no bolso, conservando o decoro. Fogel falou rapidamente com Bresach, que estava junto da janela, fumando um cigarro depois do outro, enquanto olhava para os jardins. Depois, Fogel foi para perto de Jack e disse, num cochicho: — Leve esse garoto embora daqui. — Por quê? — perguntou Jack. — Não quero que a imprensa chegue perto dele. Tem uma atitude errada com relação ao herói. — Fogel indicou a porta fechada. — E tenho certeza de que vai falar. Jack reconheceu que estava certa a intuição de Fogel. O relato de Bresach sobre o que aconteceu

naquela manhã, com suas observações de interpretação, certamente não combinaria com o elogio mimeografado. Por isso, Jack se aproximou de Bresach e disse que não havia necessidade de ficar ali. Bresach concordou. Parecia constrangido e um pouco tonto, como jovem, sem poder compreender os desastres súbitos que podem ocorrer com a carne que envelhece. — Não posso acreditar — disse ele. — Estava tão cheio de vida e feliz naquele cavalo. Era de pensar que ele viveria para sempre. Se você conseguir falar com ele, diga que não retiro nada do que disse hoje de manhã, mas que lastimo ter dito. — Ah, que diabo, Bresach — falou Jack. — É domingo, dê uma folga à sua preciosa integridade. Vá para casa. — Ele falava duramente e com impaciência. Agora que Delaney estava indefeso, achava-se obrigado a defendê-lo contra qualquer ataque. — De qualquer maneira, espero que ele melhore. Isso você pode dizer a ele, não pode? — Direi, direi — concordou Jack. Bresach deu um último olhar à porta branca e depois encaminhou-se devagar para o elevador, enquanto o primeiro repórter, acompanhado de um fotógrafo, se apressava pelo corredor. Jack dirigiu-se ao telefone, na sala das enfermeiras, no meio do andar, procurando parecer que nada tinha a ver com o caso de Delaney. Não queria ter de driblar repórteres e nem queria sua foto nos jornais. Telefonou para o Grand Hotel e pediu para falar com Clara Delaney. O telefone tocou muito tempo e ele já ia desligar quando ouviu a voz de Clara, trêmula e baixa, do outro lado. — Clara — começou Jack —, estou no Hospital Salvatore Mundi e... — Eu sei — interrompeu-o Clara, na mesma voz baixa e sem expressão. — Já me avisaram. Já sei de tudo. — Quando é que você vem para cá? — perguntou Jack. — Quer que a apanhe no hotel? — Não precisa se incomodar — disse Clara. — Não vou aí. E desligou. Até as onze horas da noite, só o médico, o padre e as enfermeiras passaram por aquela porta branca do quarto de Delaney. Fogel instalara uma espécie de escritório para repórteres e fotógrafos no andar térreo, mas a maior parte já tinha ido embora, depois de tirar fotos do médico, de Jack, apesar de seus protestos, e de Tucino, Tasseti e Holt, que chegaram no início da tarde e ficaram, com Jack no corredor do lado de fora do quarto de Delaney. Jack não sabia por que os outros estavam fazendo aquela vigília no corredor escuro e, se lhe tivessem feito idêntica pergunta, a seu respeito, ele não teria podido responder de maneira coerente. Sem formular suas razões, nem mesmo para si, ele ficou perto da porta de Delaney, porque achava que estava mantendo seu amigo com vida por meio de sua dedicação. Enquanto ficasse ali, Delaney não morreria. Ele tinha certeza de que assim que pudesse Delaney lhe faria um sinal, o instruiria, o absolveria. Tinha de estar preparado para a comunicação que, sabia, Delaney estava lutando para fazer. Até que essa comunicação fosse feita, ele não poderia partir. Os outros poderiam achar que de nada estava adiantando a Delaney a sua presença ali, mas ninguém pensou em ir embora. Por isso. todos ficaram, por seus próprios motivos, revezando-se nas duas cadeiras de madeira que as enfermeiras tinham colocado diante da janela, no fim do corredor. O medico disse apenas que Delaney estava passando tão bem como se poderia esperar e que não podia receber visitas no momento. Falara tudo isso em italiano para Tucino e Tasseti e num inglês excelente para Holt e Jack. O médico tinha o hábito de falar num sussurro, o que fazia suas palavras parecerem cheias de significados ocultos, e forçava os seus ouvintes a se inclinarem para entender o que dizia. Às onze daquela noite, Jack estava irrazoavelmente irritado com o médico. Tucino e Tasseti passeavam de um lado para outro, inquietos, os saltos de couro batendo de maneira ritmada no chão de pedra, e falavam num sibilar abafado e excitado a noite Ioda. De vez em

quando levantavam um pouco a voz e Jack tinha a impressão de que estavam empenhados numa longa discussão que já tinham tido muitas vezes antes e que atingia picos regularmente definidos depois de cada cinquenta linhas. Holt permanecia calmamente de pé junto à janela, com um vago sorriso nos lábios. Seu chapéu de abas largas estava pendurado numa válvula de aquecedor — um toque do Oklahoma, um bafo das planícies, na doença da noite romana. — Fiz muitas perguntas ao médico — disse Holt — e tenho a impressão de que Maurice não vai morrer. Naturalmente, o médico nada quer prometer. Se ele disser que um paciente vai viver e este vier a morrer, vai ficar numa situação difícil, profissionalmente, e eu compreendo isso. Mas vários de meus amigos já passaram pela mesma coisa, no negócio do petróleo. A tensão... Esse é um dos motivos por que Mamãe insiste em que eu arrume as coisas de forma a ter seis meses por ano na Europa. Se a gente gosta de viver, não faz sentido morrer de trabalhar, não é, Jack? — É — concordou Jack. — Mas fico surpreso com Maurice — continuou Holt, sacudindo u cabeça, as marcas do chapéu formando um oval perfeito em seu cabelo grisalho. — Ele tem tanta vitalidade! Trabalha muito, e claro, mas não acho que seja isso. Tenho minhas teorias, Jack... — Ele hesitou. — Você não se importa se eu falar francamente, não é? — Claro que não. — Sei que Maurice é seu velho amigo. Também é meu amigo, espero. Fico honrado em poder dizer que ele é meu amigo — disse Holt, serio. — O que quero dizer é da maneira mais amiga possível. Não quero que você pense que estou falando pelas costas de um homem doente ou fazendo críticas. O que eu observei em Maurice, Jack, é que ele é anormalmente ambicioso. Estou certo? Estou sendo injusto nessa dedução? — Não — disse Jack. — Não é injusto. — Ele agora sente que não está correspondendo à sua ambição. Isso pode afetar o coração de uma pessoa, não pode? — Imagino que sim — respondeu Jack. Holt olhou muito sério para fora da janela. Estava chuviscando e as palmeiras reluziam aqui e ali na chuvinha escura e sem vento. — Não sei por que — disse Holt —, antes de vir para cá, nunca me ocorreu que chovesse em Roma. — Ele pigarreou. — Outra coisa a respeito de Maurice, e mais uma vez eu quero que você saiba que não é uma crítica, é que ele não leva uma vida doméstica normal. Na escuridão do corredor, Jack sorriu diante da delicadeza com que o homem do petróleo julgava o seu semelhante. — Se um homem se desilude com uma ambição — continuou Holt, olhando para a chuva — e não desiste, mas continua a lutar como Maurice, e, saiba, eu o admiro por isso, e se, ao mesmo tempo, ele estiver sob tensão em casa, se ali não encontrar paz, não admira que em certo ponto, entre os cinquenta e sessenta anos, ele tenha um colapso. Eu tenho sorte — acrescentou ele, meio sem propósito. — Depois que conheci Mamãe, tive certeza de que nunca mais olharia para outra mulher... de um modo especial, quero dizer. Maurice não teve sorte, não foi, Jack? — Ele tem olhado para outras mulheres — falou Jack. — Se é isso que você quer dizer com falta de sorte. — No entanto, ele não vai morrer. Tenho um pressentimento nesse tipo de coisa. Já entrei numa sala e vi um sujeito que parecia estar ótimo de saúde, tendo sido aprovado em exame de companhia de seguro e tudo o mais, e mais tarde disse a Mamãe, no nosso quarto: “Ainda iremos ao enterro daquele camarada antes do fim do ano.” E raramente me engano. “Olhe para mim, milionário”, Jack queria dizer. “Olhe bem. O que pensa de mim? O que você

contará a Mamãe no seu quarto, a sós?” — Não tenho esse pressentimento com relação a Maurice Delaney — continuou Holt. — Quando me permitirem visitá-lo, vou dizer-lhe isso. O que é mais, vou dizer que resolvi fazer o nosso contrato. Vou financiá-lo em três filmes nos três próximos anos. — E muita bondade sua, Sam — disse Jack, comovido mais uma vez com a bondade do homem, como já tinha ficado na noite em que conhecera Holt. — Não é bondade. É negócio. Vou fazer disso um bom negócio. Só haverá uma condição ligada a isso... — Holt parou. Jack esperou, curioso. Uma condição. O quê? Que Delaney levasse o que Holt insistia em chamar “uma vida domestica normal”? Isso seria uma cláusula interessante num contrato: “Fica estipulado ainda que a parte contratante jante com sua esposa todas as noites às oito horas durante a duração deste contrato.” — A condição é que eu só assinarei o acordo se você consentir em ser o produtor executivo — disse Holt. Tucino e Tasseti tinham chegado à quinquagésima linha em seu diálogo e suas vozes ressoavam tão alto no corredor que uma irmã pôs a cabeça por uma porta meio aberta e mandou-os se calarem. Jack ficou aliviado com esse incidentezinho. Daquele momento em diante, ele nada queria dizer a Holt sem primeiro pesar bem seus efeitos. — Você está surpreso, eu imagino — continuou Holt, quando as vozes de Tucino e Tasseti diminuíram para um zumbido baixo e zangado. — Sim. Devo confessar que estou. Afinal de contas, nunca fiz nada disso. — Não importa. Você tem muita experiência, é um homem inteligente. Estou certo de que é um homem de palavra e, o que e mais importante de tudo, você compreende Maurice. Se há alguém que possa controlá-lo, é você... — Se há alguém que possa controlá-lo... — Jack sorriu, um sorriso azedo. — E se ninguém pode controlá-lo — falou Holt —, então talvez fosse melhor que de não saísse vivo daquela porta. Melhor para ele — acrescentou Holt em sua voz suave e arrastada. Olhou para Jack e riu da expressão na cara de Jack. — Está espantado outra vez, não está, Jack? Certamente está pensando o que é que um velho caipira como eu entende dessas coisas. Escute, Jack, há muita gente que insiste em arruinar-se no negócio de petróleo, também. A gente chega a conhecer os sintomas. De qualquer forma, não é assim tanta mágica... — Ele fez um gesto com a mão. — Andei fazendo uma investigaçãozinha. Não é como se Maurice se desse ao trabalho de manter segredo das coisas a vida toda, não é? — Não — disse Jack. — Andei investigando você também, Jack. — A voz de Holt era seca, quase tímida. — Você não se importa, não é? — Tudo depende do que você descobriu — respondeu Jack. Holt tornou a rir. — Uma coisa que eu descobri é que eu posso lhe pagar muito mais do que o governo. Não vou dizer o que mais descobri, só que foi tudo tranquilizador, e tudo concordava com a excelente impressão que eu e Mamãe tivemos de você. — Deixe que eu lhe faça uma pergunta agora, Sam — disse Jack. — E ele? — Jack fez um gesto em direção de Tucino, que agora estava encostado com a cabeça na parede enquanto Tasseti cochichava em seu ouvido. — Onde é que ele entra? — Ele entra, sim — disse Holt — A companhia será um empreendimento ítalo-americano, e Tucino terá de arranjar uma quarta parte do capital. — Você já disse a ele que quer que eu faça parte? — Não quero que você apenas faça parte, Jack — corrigiu Holt. — Quero que você tome conta

do negócio. No momento oportuno, eu direi a Tucino. — Você acha que ele vai aceitar isso? Holt riu. — Não pode fazer grande coisa a respeito, Jack. Ele está à beira da falência. Não que eu queira que você se aproveite da situação dele, Jack — acrescentou Holt, quase pedindo desculpas. — Eu admiro as boas qualidades dele, como você sabe. Falei sobre elas bastante outro dia, não foi? Ele é dinâmico, tem ideias rápidas, tem um senso do que o público deseja. Mas os italianos fazem negócio de maneira diferente da nossa, Jack. Há coisas que os homens de negócio fazem uns aos outros aqui, consideradas inteiramente honradas, que em nossa terra levariam um homem à cadeia por cinco anos. Eu vou ser o presidente dessa companhia. Meu nome vai figurar nela. Você me compreende, não, Jack? — Sim. — Não é um trabalho fácil o que lhe estou oferecendo. Você vai ter de trabalhar pelo seu dinheiro. Agora você está ganhando doze mil e quinhentos dólares por ano do governo. Eu lhe darei trinta e cinco mil por ano, durante três anos, com cinco por cento dos lucros. — E no fim de três anos? Holt riu. Ele tocou na copa do chapéu, pendurado no aquecedor. — Veremos, Jack, veremos. Sou um homem de negócios, não um programa de pensão de velhice. Ouviram o bater de saltos firmes e Tucino aproximou-se de onde Jack e Holt estavam, em frente à janela. — Escute, Jack — disse Tucino, seus óculos reluzindo palidamente na luz fraca do corredor. — Acho que talvez seja boa ideia você ir dormir agora. Tem muito trabalho amanhã. Agora temos de andar depressa, acabar a dublagem o mais rápido possível, hem? Para dizer a verdade, Jack, Delaney já estourou o orçamento, já estamos com três semanas de atraso. Escutei o que você fez, gostei muito. Só que muito devagar. Sei que não é sua culpa... — Ele estendeu as mãos para mostrar como achava que Jack era inocente nisso. — Sei como o maestro trabalha devagar. Mas agora eu tomo conta, pessoalmente, no set amanhã. Agora, sem ele, você termina depressa, hein, Jack, bom rapaz, acabamos esse filme todo antes que Delaney saia do hospital, hein? — Não sei, Mr. Tucino — respondeu Jack. — Se eu apressar as coisas e Delaney não gostar quando sair do hospital, é provável que queira fazer tudo outra vez. — Quem sabe quando ele sairá do hospital? — disse Tucino, excitado. — Quem sabe se ele sairá vivo ou morto? O que devo fazer? Esperar? Pagar cento e vinte pessoas só para ficar ali porque meu diretor tem de andar a cavalo? Quando Delaney puder dizer sim e não ou talvez, esse filme estará sendo exibido em dez mil cinemas. — Mr. Tucino — disse Holt baixinho, o sotaque um pouco mais arrastado do que de costume —, não se exalte. — Mr. Holt — disse Tucino, agarrando Holt pelos dois braços —, eu o admiro. O senhor é um cavalheiro. Tem poços de petróleo. Pode esperar. Eu não tenho poços de petróleo, Mr. Holt, por isso estou com muita pressa. A porta do quarto de Delaney abriu e o medico saiu. Ele parecia descansado, distante. — Mr... hummm... Andrus — sussurrou ele. — Sim? — disse Jack. — Ele insiste em falar com o senhor. Eu lhe disse dois minutos. Não mais. Por favor, procure não excitá-lo. Jack olhou para os outros, na dúvida. — Algum recado? — perguntou. Fez-se um silêncio. Depois Holt disse: — Diga-lhe para não se preocupar com nada. Jack entrou no quarto e fechou a porta.

Havia uma única luz fraca num dos lados da cama e uma enfermeira estava sentada no escuro num canto do quarto. A luz não era suficiente para Jack poder ver a expressão do rosto de Delaney nem a cor de sua pele. Debaixo das cobertas, o corpo de Delaney parecia infantil e frágil na cama alta do hospital, e sua respiração estava áspera e irregular. Ele estava terrivelmente, pateticamente pequeno. Um dia de doença já o diminuíra. Tinha um tubo preso no rosto, enfiado nas narinas, para o oxigênio. Quando Jack entrou e ficou junto da cama, Delaney mexeu ligeiramente os dedos, em cumprimento. Jack teve um ímpeto de tomar Delaney nos braços, niná-lo, consolá-lo, pedir-lhe perdão. — Sam Holt está no corredor — disse Jack. — Diz que é para você não se preocupar com nada. Delaney fez um barulho que Jack entendeu ser um riso. — Jack — murmurou Delaney, e sua voz também parecia infantil e frágil. — Duas coisas. Primeiro, não deixe Tucino tocar no filme. — Não se preocupe com o filme — disse Jack. — Ele está louco para pôr as mãos no filme — murmurou Delaney. — Ainda falta filmar a última cena. A do bar, na estação do trem. É a cena mais importante do filme. Ele vai fazer com que pareça a Aída. Você tem que me ajudar, Jack. Não pode deixá-lo fazer isso. — Farei o possível para evitar — prometeu Jack, sentindo-se impotente e cheio de uma pena confusa por Delaney, porque mesmo naquele momento, vivendo à custa do oxigênio e mal conseguindo falar, seu primeiro pensamento era para o seu trabalho. E que trabalho! Jack sabia qual era a cena do bar na estação da estrada de ferro. Delaney tinha razão quanto a ser a cena mais importante do filme, mas o filme em si não era nada, menos do que nada. Era triste, absurdo, que um homem às portas da morte se preocupasse com alguma coisa tão inconsequente como dez minutos de celuloide. “Senhor, anuncio a minha vinda. Mas primeiro preciso fazer as marcações necessárias para certos atores.” — Se eu entrar em pane — murmurou Delaney —, não quero que a última coisa que eu faça seja massacrada por aquele italiano. — Você não vai entrar em pane — disse Jack. Delaney virou a cabeça devagar para um lado, para poder olhar diretamente para Jack. — É a coisa mais esquisita, Jack. Não estou com medo. Não sei se é porque eu sou corajoso, ou porque sou um maldito idiota ou porque tenho certeza de que vou viver. Vou dizer-lhe uma coisa, Jack, até às onze horas da manhã de hoje eu tinha um medo de merda de morrer. E agora não é nada. Houve um barulhinho no canto em que a enfermeira estava sentada no escuro. — Scusi, irmã — disse Delaney. — Tenho uma boca suja. — Signore — disse a enfermeira friamente para Jack. — O senhor está fatigando o paciente. — Mais um minuto, irmã — murmurou Delaney. — Mais um minuto, por favor. Ele é meu melhor amigo. De quando éramos jovens. — Mais um minuto, apenas — concordou a voz fria, com sotaque, no escuro. — Escute, Jack, só escute — disse Delaney rapidamente, lutando contra o tempo. — Você tem de fazer isso por mim. Tem de tomar conta. Acabar o filme por mim. Jack, está me ouvindo? — Estou ouvindo — respondeu Jack. — Que diabo — continuou Delaney, apressado. — Você pode fazê-lo. Não é nada de misterioso para você. Você já teve muita experiência. Se experimentasse seria melhor diretor do que nove em 10 dos filhos da mãe de nome hoje em dia. O que quer que faça será melhor do que Tucino. Filme todos os ângulos. Eles que gritem. Não se apresse. Abranja tudo. Vá devagar nos cortes e na dublagem. Não quero que Tucino faça nenhuma cópia até eu sair desse maldito hospital. Scusi, irmã, se Tucino reclamar, peça a Holt que o mande se calar. Holt está do meu lado. E é duro. Pode dobrar Tucino em dois, se quiser. E Tucino sabe disso. Estarei livre daqui em seis semanas, Jack, o médico tem certeza, e depois eu mesmo monto tudo... — Seis semanas — disse Jack, quase automaticamente.

— O que você disse, Jack? — Nada. — Traga aquele garoto. Aquele garoto de hoje... como se chama... na escola de equitação... — Bresach. — Faça com que o ajude. Intitule-o diretor de diálogo, assistente ou o que quiser. Li o roteiro dele... — Mas você disse que não leu — falou Jack, lembrando-se da manhã. Delaney sorriu fracamente no travesseiro. — Queria sondá-lo primeiro. O roteiro é bom demais para um garoto daquela idade. Não queria elogiá-lo de início. Há truques em todos os ofícios, Jack... Tenho um palpite sobre aquele garoto. Ele é bom. Tem o cinema no sangue. Há de aparecer com muitas ideias. Use-o... “Use-o”, pensou Jack. “Que ordem!” — Escute o que ele diz. Roube o cérebro dele — continuou Delaney, ofegante. — Talvez seja exatamente disso que esse filme precise. Um filho da puta saliente como aquele. Era assim que eu era naquela idade. Talvez esse filme me dê um novo começo. Jack, você promete?... “Seis semanas. O que vou dizer a Hélène? E Joe Morrison? O que vai acontecer com minha vida?” — Jack — insistiu Delaney —, você promete, não é? Preciso de você... Jack... — Claro — afirmou Jack. De pé ali, junto da cama alta de doente, ele sabia que desde o instante em que Delaney tinha entrado de repente no camarim, naquela noite em Filadélfia em 1937, este momento, essa promessa, esse sacrifício, esse ato desesperado de amizade tinham sido inevitáveis. — Você não vai me deixar na mão, Jack — implorou Delaney. — Não, não vou deixá-lo na mão — prometeu Jack. — Agora, acho que você deve procurar dormir. — Daqui a pouco, daqui a pouco. — Delaney agarrou o pulso de Jack. Os dedos dele estavam leves, delicados, sem força, na pele de Jack. — Mais uma coisa. — Signore... — A enfermeira levantou-se nas trevas. — Jack — disse Delaney, depressa, sua voz dissonante —, procure Clara por mim. Ela tem que vir aqui, diga a ela, tem que vir. Nem que seja por um minuto. Só entrar nesse quarto e me dar um beijo na testa. Cristo, ela pode fazer isso, não pode?... Que diabo é isso, depois de todos esses anos? — Signor Delaney — a enfermeira foi até a cama, fazendo um gesto para Jack ir embora. — Agora o senhor tem que parar de falar. Os dedos de Delaney apertaram mais o pulso de Jack. — E você tem que procurar Barzelli por mim — murmurou ele. — Diga-lhe que não venha aqui. Se ela vier, Clara não chegará perto de mim, diga a ela. Você vai procurá-la, não vai, Jack? — Signore — disse a enfermeira mais alto. — Vou chamar o médico se o senhor não sair imediatamente. — Sim, eu direi — prometeu Jack. — Boa noite. — Ele puxou a mão dos dedos de Delaney. — Ela tem que compreender — murmurou Delaney. — Clara... — Ele virou a cabeça no travesseiro. Jack saiu do quarto. — Então? — perguntou Tucino. Ele estava logo junto da porta e Jack teve a impressão de que estivera tentando escutar, através da superfície pesada e lisa, o que Delaney dizia lá dentro do quarto. — Como está ele? — Bem — disse Jack. — Muito confiante. — Ele se sentia meio tonto. Seus olhos o incomodavam e sentia dificuldade em focalizar as coisas. — Tenho certeza de que ele vai reagir — disse Holt. Já estava com o chapéu na mão, pronto para partir.

— O que foi que ele disse do filme? — perguntou Tucino. — Disse alguma coisa sobre o filme? Jack hesitou, depois resolveu não falar. No momento. Estava muito cansado e primeiro tinha incumbências a fazer. Tucino teria de esperar até de manhã. — Ele não estava muito coerente — disse Jack, pensando: “Bom, isso não é bem uma mentira." Pegou o sobretudo, que estava jogado nas costas de uma cadeira. — Acho que nós todos podíamos dormir um pouco — acrescentou. Conseguiu fazer um sinal para Holt ficar para trás e os dois italianos desceram sozinhos no elevador, deixando Jack e Holt a sós. Jack explicou rapidamente o que Delaney lhe pedira para fazer. — Não se preocupe com Tucino — disse Holt. — Eu trato dele. — Apertou a mão de Jack e disse boa noite. Embaixo, Jack encontrou Fogel, que finalmente estava fumando um charuto. — Que dia — comentou Fogel, quando saíram pelas portas de vidro para a noite chuvosa. — Vou comer alguma coisa. Quer vir comigo? — Obrigado, mas não posso. Tenho de falar com uma pessoa — desculpou-se Jack. Espiou na escuridão para ver se achava Guido e o carro. De repente, viu a luz de faróis e o carro se aproximou. — Bom, trabalhamos direitinho aqui — disse Fogel, satisfeito. — Ficamos no rádio o dia todo. No mundo inteiro. Delaney nunca teve tanta publicidade na vida. Uma pena que isso tivesse de acontecer num domingo. Não há jornais da tarde. Aposto que teríamos sido manchete em cinquenta cidades. Em todo caso, não se pode ter tudo. Jack entrou no carro, sentando-se na frente com Guido. Acenou um adeus para Fogel, que estava tragando o seu charuto molhado, fazendo jus a seu dinheiro, feliz na sua profissão, seu único pesar, no meio do século, o de não haver jornais da tarde no domingo. Quando Guido saiu do hospital, outro carro parou na entrada. Duas pessoas saltaram. Jack teve quase certeza de que um dos passageiros era Stiles, e,por um momento curioso, teve a impressão de que a mulher em sua companhia era Carlotta. Sacudiu a cabeça, aborrecido com suas fantasias. “Foi um dia difícil'’, pensou ele, “estou vendo coisas.” Recostou-se no assento do carro, pensando: “Seis semanas...” — Monsieur Delaney ainda está vivo? — perguntou Guido. — Está vivo — respondeu Jack. Guido suspirou. — Pobre homem... — Ele vai ficar bom. — Nunca — disse Guido. — Eu sei como são essas coisas. O coração. O homem nunca mais é um homem inteiro depois que isso acontece. Nem que viva mais cinquenta anos. Americanos... Gostam de se esforçar demais. Não podem esperar. Têm que correr para o túmulo e pular dentro com os dois pés.

20 A escada estava às escuras e o vento úmido da noite entrava em rajadas pelas vidraças quebradas, apagando os fósforos que Jack acendia para ver aonde ia. Esquecera qual o andar de Bresach e teve de acender fósforos em frente de cada apartamento dos andares superiores, para olhar as placas de metal com os nomes dos moradores. Passou por um casal abraçado no escuro num patamar e, quando ele tropeçou, o riso da moça o acompanhou degraus acima. Quando afinal chegou à porta de Bresach, exausto e ofegante, ele se lembrou dela e tocou a campainha com impaciência, ficando com o dedo grudado no botão. Ouviu passos que se aproximavam e tirou o dedo do botão quando Bresach abriu a porta, uma silhueta escura contra a luz fraca no teto do saguão. Bresach não o convidou logo a entrar. Ficou ali, de suéter rasgado, um cigarro nos lábios, olhando para Jack com desconfiança. — O que é agora? — perguntou Bresach. Jack passou por ele sem responder e foi pelo corredor até o quarto, nos fundos, de onde vinha uma luz. Max estava na cama, sentado, lendo à luz de uma lampadazinha de metal, com seu cachecol sempre amarrado ao pescoço, para se proteger do frio. Apesar de estar na cama, estava de suéter. — Boa noite, Mr. Andrus — disse Max, largando o livro e fazendo um movimento para sair da cama. — Já me visto... Jack fez um gesto de impaciência. — Não se incomode. Não vou demorar nada. — Virou-se para Bresach, que estava encostado à parede, perto da porta, e olhava para ele com uma expressão intrigada no rosto. — O que aconteceu, Jack? — perguntou Bresach. — Expulsaram você do hotel? Temos muito lugar aqui, como você vê... — Sorriu com maldade, gozando a própria pobreza, talvez se sentindo superior e santo por causa dela. — Você pode estar no estúdio amanhã às nove? — perguntou Jack. — Para quê? — indagou Bresach, desconfiado. — Você está empregado. — Com quem? — Comigo. Vou terminar o filme para Delaney. Você será meu assistente. Bresach estava agora com uma cara intrigada e começou a andar agitado de um lado para outro no quartinho. — Que diabos você entende de dirigir filmes? — perguntou ele. — Tudo o que eu não souber — respondeu Jack, sardônico — você poderá me ensinar. A ideia é essa. — O que é isso? — perguntou Bresach. — Uma brincadeira? Delaney está se desforrando de mim pelo que eu disse hoje de manhã? — Foi amor à primeira vista hoje de manhã — explicou Jack. — Você lembrou a ele como é que ele era na sua idade. Insuportável. Bresach deu um grunhido. — O velho filho da mãe tem mais tutano do que eu pensava — disse ele. — Ele mandou que eu roubasse o seu cérebro — continuou Jack. — Portanto, qualquer ideia que você tiver a respeito de representação, ou encenação, ou cortes ou qualquer coisa, pode falar.

— Não se preocupe. Tenho muitas ideias. Ei... — ele se aproximou de Jack. — Eu achava que você tinha que voltar para casa em alguns dias. — Tinha, mas parece que não vou. — E vai me aguentar junto de você, cochichando em seu ouvido dia após dia? — perguntou Bresach. — Não estou nisso para me divertir. Estou aqui para tentar salvar a vida de Delaney. — Jack não disse a Bresach que somente cumprindo todos os desejos de Delaney, todas as suas instruções à risca, é que sentia estar compensando os anos de indiferença, a amizade que ele egoisticamente permitira esmorecer, a ruína que ele não fizera nada para impedir. — Bem, estou com pressa. Você vai ou não vai estar no estúdio amanhã às nove horas? Bresach esfregou o rosto com as duas mãos, fazendo um ruído áspero, de barba grande, no quarto sossegado, enquanto resolvia. Max debruçou-se na cama, pegou o livro que estava lendo, virou um canto de uma página para marcar o lugar e colocou o livro com cuidado no chão. Jack viu o título. Era O Possesso. Max viu Jack olhar para o livro. — Não é uma boa língua para Dostoievski — disse Max, desculpando-se. — Mas é bom para o meu estudo do italiano. — Há uma coisa que eu detesto em tudo isso — disse Bresach. — O que é? — Jack virou-se para ele. — Que no final você vai achar que eu devia ficar contente por você ter vindo a Roma. — Prometo nunca pensar que você devia estar contente por eu ter vindo a Roma — disse Jack, cansado. — Decida logo. Tenho que ir. — Está bem — disse Bresach, de mau humor. — Estarei lá. — Ótimo. — Jack ia saindo. — Espere um pouco — disse Bresach. — É melhor eu ter um roteiro agora... Jack não pensara nisso. Refletiu um pouco. — É melhor ficar com o roteiro de Delaney. Tome... — Pegou um envelope usado do bolso e escreveu o endereço e o telefone de Hilda. — Essa é a secretária dele. Ligue para ela e diga que quero que ela lhe dê o roteiro de Delaney hoje. Depois pegue um táxi e vá buscá-lo. Ela mora na Via della Croce. — Não — Bresach estava sacudindo a cabeça. — Não posso. — Que negócio é esse, não posso? — a voz de Jack alteou-se, irritada. — Não tenho dinheiro para pagar o táxi. — Bresach riu para ele, como se estivesse contando uma boa piada. Jack pegou umas notas do bolso e entregou-as a Bresach. — Eu lhe devo três mil liras — disse Bresach. — Pagarei no fim da semana. Quando eu ficar rico e famoso. Jack virou-se e saiu do quarto sem responder. Os namorados continuavam no patamar. Jack ouviu sua respiração pesada até chegar ao térreo.

— Não — dizia Clara em voz alta. — Não vou vê-lo. Não chego perto dele. Não me importo que esteja morrendo. — Ela estava sentada na beira de uma das duas camas de seu hotel. Era um quarto pequeno, de fundos. Clara estava levando uma vida austera, para poder, em seu quarto desguarnecido, pensar no marido no apartamento opulento e supermobiliado do Circus Maximus, e ter mais um motivo de autocomiseração. Sua pele estava mais amarela que nunca. Estava com rolos no cabelo e com um roupão comprido de lã rosa, como os roupões que as mocinhas usam nos dormitórios de universidades nos anúncios de revistas. Ela tinha tirado os chinelos e Jack via o vermelho das unhas de seus pés.

— E não acredito que ele esteja morrendo — continuou Clara, mexendo nervosamente num rolo acima da testa. — Ele é perfeitamente capaz de fazer isso como um truque... — Ora, Clara — protestou Jack. — Você não o conhece como eu. É uma maneira de me fazer ficar de joelhos. Mais uma vez. — Levantou-se e foi até à cômoda, fazendo um barulho farfalhante com os pés descalços no tapete. Abriu uma gaveta e tirou uma garrafa de uísque meio vazia que estava escondida debaixo de uma pilha de camisolas — Quer beber alguma coisa? Estou precisando de uma bebida — disse ela, desafiadora. — Obrigado, Clara. Foi ao banheiro buscar copos e água. Continuou a falar, a voz monótona e queixosa soando acima do barulho da água e dos copos. — Isso é mais uma coisa para o credito de Mr. Maurice Delaney — disse ela, fora de vista no banheiro, a voz ressoando nas paredes antiquadas de mármore. — Está fazendo de mim uma bebedora solitária. — Houve um silêncio, só interrompido pelo som da água correndo da torneira. Depois, Clara recomeçou, num tom mais duro. — Ele não me tapeia. Não vai morrer. Tem uma resistência de touro. Mesmo na idade dele, pode trabalhar doze horas por dia oito meses seguidos e passar horas nos bares conversando com qualquer vagabundo que encontre e visitar mulheres que moram em cima de prédios de cinco andares sem elevador e... — Ela apareceu, com os dois copos com água pelo meio, Medusa de rolos, bancando a garçonete de bar, as dobras amareladas e esfregadas de seu rosto fixas em rugas implacáveis e vingativas. Ela serviu o uísque com cuidado, não como bebedora, mas como dona de casa. — Basta? — perguntou, segurando o copo de Jade. — Ótimo — respondeu Jack. Ela lhe deu o copo e tornou a sentar-se na beira da cama. Colocou o copo na mesa de cabeceira, sem provar. — Dessa vez — disse ela, febrilmente —, vou dar-lhe uma lição. Não vai poder ter-me de qualquer maneira. Se ele me quer, será nas minhas condições... — Clara — falou Jack, com delicadeza —, não acha que seria mais prudente esperar para resolver tudo isso depois, quando ele melhorar? — Não — respondeu ela. — Porque ele não resolve, quando melhorar. O único momento em que se consegue alguma coisa de Maurice Delaney é quando ele está sofrendo e com pena de si mesmo. Você não o conhece como eu. O fracasso e a única coisa que o humaniza. Mesmo antes de tudo isso, quando eu queria um casaco novo ou alguma coisa para a casa ou uma viagem a Nova York, tinha de esperar até ele ter uma dor de garganta ou de barriga e ficar com medo de ser câncer, ou então que ele fosse arrasado nos jornais. Quando ele está bem, tem um coração de cimento. — Ele vai ficar doente muito tempo — disse Jack. — ótimo — disse ela. — Talvez isso seja um mal que venha para bem. Talvez agora seja o fim de meus catorze anos de inferno. — O que é que você quer, Clara? — perguntou Jack, curioso. — Divórcio? — Nunca hei de me divorciar dele. — Olhou para o copo na mesinha ao lado, como se tivesse acabado de lembrar-se dele, e tomou um gole de uísque, com um ar de solteirona. — Nunca, enquanto ele viver. — Por quê? — Porque eu o amo — disse ela, calmamente. — O amor... — Jack sacudiu a cabeça, pensando. O conceito de amor de Clara Delaney parecia mais adequado para servir de base ao regulamento de um batalhão de trabalhos forçados do que ao casamento. — Vejo que está sacudindo a cabeça. Não pense que não o amo. O que é que você sabe do amor? — perguntou Clara, com desprezo. — Cada vez que uma mulher o enerva mais de dez minutos,

você passa para outra... — Ora, Clara — protestou Jack, com brandura. — Isso não é exatamente a verdade. — Eu sei o que você é, eu sei o que você é — disse ela, acusando nele tudo o que era fácil e agradável e preservável no amor. — Você não sabe de nada, porque foge cada vez que começa a doer. Eu sei — repetiu ela, a voz elevando-se, com loucura. — Sou a única que sabe. Sabe o que é o amor? — perguntou ela. — O amor é a capacidade de suportar. — Não vou discutir com você — respondeu Jack. — O que eu sei é que Maurice só pediu para ver uma pessoa, você. — Mas não é enternecedor, isso? Não é uma surpresa e tanto, depois de tudo o que fiz por ele? — O que é que você quer dele, Clara? — perguntou Jack. — O que quer que lhe diga? — Diga-lhe que quando eu estiver convencida de que ele desistiu da Barzelli e de todas as outras Barzellis, eu o aceito de volta. “O ciúme é uma forma de fé”, pensou Jack. “Os verdadeiros crentes acham que a dor generalizada é direita e santa no livre exercício de sua religião.” Jack se levantou e disse: — Há mais alguma coisa que você queira que eu transmita a ele? — Diga o que quiser — falou Clara, sem expressão. — Diga-lhe exatamente o que eu disse. — Acho que você não se dá conta do quanto ele está doente, Clara — insistiu Jack. — O médico diz que ele tem de ficar o mais sossegado possível, que deve ser poupado de todo tipo de agitação... — Você me detesta — disse Clara, os lábios pálidos, sem pintura, tremendo. — Todos me detestam ... — Deixe de ser boba, Clara. — Jack estendeu a mão e procurou pegar na mão dela, para tranquilizá-la. — Não me toque. — Puxou a mão com uma repugnância exagerada. — E não minta para mim. Você me detesta. Acha que sou sem coração, egoísta... Acha que estou disposta a deixar que ele morra. Pois vou contar-lhe como sou sem coração. Se ele morrer, eu me mato. Lembre-se do que eu disse. O dia mais feliz de minha vida foi quando ele me pediu para casar com ele. Sabe quando foi que ele me pediu para casar com ele? Eu estava sentada no escritório dele, do lado de fora, batendo a máquina, e ele entrou, com cara de quem levou uma cacetada, todo branco, com uma expressão esquisita, como se estivesse tentando sorrir, como se pensasse que estava sorrindo, só que não estava... Tinha acabado de chegar do escritório central e tinham-lhe dito que não precisavam mais dele. O contrato ainda era válido por dois anos e tinham-lhe oferecido indenizá-lo. Indenizá-lo no todo. Centenas de milhares de dólares. Mas para eles valia a pena, só para Maurice não fazer mais filmes para eles. Você pode imaginar o que isso significou para Maurice Delaney? Ele se sentou na ponta da minha mesa, contando-me tudo isso, fingindo para si mesmo que estava rindo, fingindo que não significava nada, e, de repente, sem qualquer preparação, ele me pediu para casar com ele. Naquele dia. Eu ainda o chamava Mr. Delaney. Mas ele sabia aonde tinha de procurar ajuda. Ajuda quando estava numa encrenca de verdade. Mr. Delaney. Fomos de avião para o México e nos casamos naquela noite. Ele não tem mais dinheiro algum, mas ainda tem a mim. E terá até o dia em que morrer. Eu pularia de um abismo se ele pedisse, e ele sabe disso. Não existe mais nada na minha vida. Nem filhos, nem trabalho, nem outros homens. Cristo, não vou nem ao cinema sem ele. Mas não vou visitá-lo. Por ele, bem como por mim. Temos de acertar nossas vidas, de uma vez por todas. Ele tem que parar de se dividir, desperdiçar-se, fazer papel de bobo aos olhos de todo mundo, andando atrás de prostitutas, comprando pulseiras de brilhantes para elas, não pense que não sei disso, além de tudo o mais, mesmo que tire o último tostão do banco... Se ele tiver de ser salvo, tem de ser agora. Depois será tarde, nunca mais terei oportunidade... Ela agora estava chorando, soluços grandes e feios sacudindo seus ombros estreitos no roupão rosa de mocinha, a cabeça para baixo, as mãos apertadas no colo, os pés descalços com os dedos

frivolamente pintados, mexendo-se numa espécie de dança trêmula, pendurados da cama. — Se quiser me detestar — murmurou ela —, pois deteste. Que todos me detestem. — Ninguém a detesta, Clara — falou Jack baixinho, comovido e constrangido com o repente dela. Tocou o ombro dela. Dessa vez ela não recuou. — Eu queria poder ajudar — disse ele. — Ninguém pode me ajudar. Só ele. Agora vá embora, por favor. Jack vacilou um pouco e depois dirigiu-se para a porta. — Não se preocupe — disse Clara, sem expressão, agarrando o copo nas duas mãos. — Ele é muito malvado para morrer. Jack saiu. Tinha certeza de que, assim que a porta se fechasse, Clara iria ao banheiro, despejaria a bebida dentro da pia, e guardaria a garrafa de uísque dentro da gaveta da cômoda, debaixo das camisolas, para ali ficar até ela receber sua próxima visita. Barzelli morava na Via Appia Antica. Havia pouco tráfego e Guido dirigiu depressa, passando pelos túmulos escuros e o aqueduto em ruínas, que parecia suspenso no reflexo molhado dos faróis. Ao sol, as pedras desmoronadas eram um testemunho do orgulho, da inteligência, do trabalho dos antepassados de Guido. De noite, assim, na chuva de inverno, só traziam recordações de ruínas, dissolução e o vazio da vaidade humana. Os arcos tinham levado água para uma cidade que merecera fracassar; os túmulos comemoravam reis que não mereciam ser lembrados. Guido entrou com o carro no jardim de uma casa esparramada, de dois andares e telhado plano, numa encosta. Era óbvio que ele já tinha estado lá muitas vezes. Todas as cortinas estavam cerradas, mas havia um luz acesa na porta do lado. — Não demoro — disse Jack, com otimismo. Ele tinha um certo remorso de prender Guido até tarde, longe da família. “Que importa o coração de Delaney a Guido”, pensou Jack, “para estragar o seu domingo com a mulher e os três filhos?” Tocou a campainha. Lá de dentro ouvia-se o som de jazz. Um mordomo de paletó branco engomado abriu a porta. — Miss Barzelli, por favor — disse Jack. O mordomo fez um cumprimento, pegou o sobretudo de Jack e colocou-o numa enorme cadeira dourada com brocado, que fazia par com outra junto da porta no largo saguão. Agora, a música estava mais forte. Uma vitrola tocava Cole Porter, uma voz de mulher cantava. O mordomo conduziu Jack para um par de portas altas, esculpidas e pintadas de branco com dourado, que estavam fechadas. “Barzelli gosta da aparência do ouro”, pensou Jack, “ela quer que todos saibam como ela subiu, partindo da aldeia de Catania, onde nasceu.” O mordomo não perguntou o nome de Jack. Abriu as portas sem cerimônia e indicou a Jack que entrasse. Parecia que estava habituado a ver homens desconhecidos aparecerem tarde da noite e perguntarem pela dona da casa, em qualquer língua. Barzelli estava dançando no meio da sala com um rapaz alto, de cabelos cacheados, em mangas de camisa. Ela estava de calças verdes apertadas e uma blusa preta com um profundo decote oval, e dançava descalça no chão de mármore raiado. Na sala, estavam mais dois rapazes, de terno escuro, um deles deitado num sofá branco peludo, os pés, com sapatos pretos estreitos e pontudos, confortavelmente cruzados sobre as almofadas fofas. Tinha um copo de uísque equilibrado no peito. Os homens mal olharam para Jack quando ele entrou — só um olhar sem curiosidade de olhos opacos de bebida, de pálpebras pesadas e pestanas compridas, e depois tornaram a virar as cabeças, com languidez, para olhar Barzelli dançando com seu par. Não eram os mesmos rapazes que Jack vira no bar de seu hotel e depois na boate, mas eram do mesmo tipo. “Soldados rasos da legião romana”, pensou Jack, “fáceis de obter para preencher as baixas no posto de substituição mais próximo.” Não havia outras mulheres na sala. Mesmo antes de se dizer qualquer palavra, Jack teve a impressão de que todos ali, com exceção de Barzelli, tinham passado o dia bebendo. Barzelli viu Jack por cima do ombro do seu par. Sorriu para ele e fez um gestozinho lento com

seus dedos longos para cumprimentá-lo, mas não parou de dançar. — Os drinques estão no canto, mister — disse ela. Jack ficou junto da porta, olhando para ela. Ele se sentia constrangido, como um intruso, levado por engano a assistir a um espetáculo que não desejava ver. Se houvesse outra mulher a não ser Barzelli na sala, ele se sentiria mais à vontade. Assim, era quase como se ele tivesse se metido num lugar em que se realizava algum rito obscuro e desagradável, um rito que tinha sido realizado muitas vezes no passado, um rito de um domingo chuvoso, romano, ápio, perverso e perturbador, celebrando o tédio, a saciedade, sensualidade, parasitismo, luxúria. A sacerdotisa dançava, descalça, em suas vestes cerimoniais de verde e preto, movendo seus belos quadris apertados em movimentos lentos e obscenos ao ritmo da vitrola. Seus cabelos estavam soltos e se agitavam numa massa escura sobre os ombros cheios e nus, dos quais deslizara a alça da blusa. Um sorriso distante e sonhador permanecia fixo nos lábios macios e largos enquanto ela ondulava, meio conduzindo, meio conduzida, junto de seu par, cuja camisa de seda estava manchada de suor. Jack tinha a impressão de que eles estavam dançando assim, em transe, ligados, mecânicos, entediados, excitados, havia horas. Os rapazes morenos em seus temos escuros, acólitos, sacerdotes, adoradores, participantes passados e futuros, assistiam, fascinados, fazendo viagens rituais e vagarosas ao bar para servir as libações de costume. A luz era berrante. Uma faixa de néon corria em volta de toda a sala meio metro abaixo do teto alto, por trás de uma sanca esculpida. Havia rosas por toda parte, em altas jarras de vidro, muitas murchas e perdendo as pétalas. Três imensos retratos da dona da casa, por três artistas diferentes, eram os únicos quadros nas paredes de um azul escuro. Um dos retratos era um nu, Barzelli estendida, os braços acima da cabeça, sobre um tapete vermelho. O templo estava em desordem, como se seus servos fossem mal pagos ou desmazeladamente dirigidos, mas ali havia todos os apetrechos para todas as ocasiões. O local dos sacrifícios era, sem dúvida, o comprido sofá branco, mas o rapaz deitado ali, com o copo de uísque sobre o peito, certamente não era a vítima escolhida. Frequentador assíduo do santuário, ele usava com familiaridade os objetos sagrados. A verdadeira vítima, Jack sentia, estava deitada por trás de uma porta branca num quarto escurecido, respirando oxigênio por um tubo preso ao rosto. A música parou. O braço automático da vitrola levantou-se devagar e encaixou-se sobre o seu descanso, quando o disco se calou. Os dançarinos ficaram um momento com os braços nos ombros um do outro, frouxos. Ondulavam suavemente, muito cansados ou inertes para se separarem. Aí, Barzelli disse alguma coisa em italiano e seu parceiro riu um pouco e foi para a mesa de vidro cheia de garrafas que, a um canto da sala, servia de bar. Barzelli penteou os cabelos para trás com um movimento rápido de uma das mãos e se aproximou de Jack. Parou junto dele, sorrindo sem simpatia, a mão no quadril, numa pose que lembrava seus primeiros dias na aldeia de Catânia. — Não bebe? — perguntou. — No momento, não — disse Jack. — Imagino que tenha vindo dizer-me alguma coisa sobre o pobre Maurice. — O tom dela era desafiador, hostil. — Mais ou menos — falou Jack. — Saltando a cavalo! — Ela fez um barulho denotando seu desprezo. — Ele não tem atores para dominar aos domingos, por isso usa os animais. — Olhou para Jack, sorrindo friamente, esperando que ele respondesse. — Não está de acordo? — Não tinha pensado nisso — disse Jack. — Bom — disse Barzelli, impaciente. — O que é? Que terrível mensagem secreta você traz? Jack olhou em volta. Os olhos escuros e bêbados dos rapazes estavam pousados neles, sem curiosidade mas com atenção. — Podemos falar a sós? — perguntou.

Barzelli deu de ombros. — Como quiser. — Virou-se e se dirigiu para uma porta fechada na outra extremidade da sala. Jack a acompanhou. Barzelli abriu a porta e eles entraram na sala de jantar, uma sala comprida e desguarnecida, com uma mesa de ferro e vidro e frágeis cadeiras douradas. Mais um retrato de Barzelli, este de vestido e chapéu pretos, sobre o aparador. Um complicado lustre de cristal lançava uma luz forte sobre a mesa. Jack fechou a porta. Barzelli sentou-se à cabeceira, os cotovelos em cima da mesa, as mãos apoiando o queixo. Jack viu que ela nada tinha por baixo da blusa, e seus seios cheios, que tanto contribuíam para o seu sucesso, eram claramente visíveis contra o tecido fino da blusa. — Sente-se — disse ela, indicando uma cadeira à sua direita. Jack sentou-se com cuidado. A cadeira parecia tão frágil que ele teve medo de que ela se quebrasse sob seu peso. — Então, o que e que o pobre homem quer? Ele devia vir almoçar comigo hoje. Esperei horas. Fiquei uma fúria. Por sorte, uns amigos passaram por aqui... — Com um movimento de ombros ela indicou a sala de onde eles tinham saído. — Assim não se desperdiçou a comida. “Eles estão bebendo desde a uma hora da tarde”, pensou Jack. "Não admira que seus olhos estejam assim.” — Aquele Mr. Fogel afinal me telefonou, às cinco horas — disse Barzelli, zangada. — Não tinha ocorrido a ninguém antes disso que talvez a estrela do filme devesse ser informada de que o diretor estava morrendo. É um detalhezinho insignificante. — Sinto muito — falou Jack. — Eu devia tê-lo feito. — Não faz diferença. — Barzelli deu de ombros. — Mr. Fogel disse que ele provavelmente não morrerá, de qualquer maneira. — Esticou o braço num movimento longo, fluido, e pegou um figo seco numa cesta de vidro no meio da mesa. Rasgou-o ao meio, com seus dentes fortes e iguais, e mastigou-o fazendo barulho. — O que devo fazer? — perguntou, indiferente. — Vamos filmar amanhã? — Compareça ao estúdio regularmente. Não lhe disseram? — Meu pobre homem, você não entende o cinema italiano. Caos. Talvez dentro de três semanas eles endireitem as coisas. Então, tenho de ir ao set amanhã? — Sim. — Foi isso que veio me dizer? — perguntou ela, mastigando. — Essa viagem toda, a essa hora da noite? — Não — disse Jack. — Eu... — Quem vai terminar o filme? — perguntou Barzelli. — Tucino? Eu aviso: se ele chegar perto da câmera, eu saio e não volto... — Não será Tucino — disse Jack, surpreendido e aliviado com essa aliada inesperada. — Então quem? — perguntou Barzelli, desconfiada. — Não tenho certeza. — Resolvera que não era aquele o momento certo para conversar a respeito com Barzelli, sozinho em casa dela. Tinha a impressão de que precisaria de ajuda, em relação a ela, quando ela descobrisse que ele ia tomar conta de tudo. — Será resolvido ainda esta noite. — É melhor ser resolvido à minha maneira — disse Barzelli. — Diga-lhes isso. — Direi. — Então o quê? — insistiu Barzelli. — Você veio aqui para dizer o quê? Jack respirou fundo. Estava ali para dizer o quê? “Trago uma mensagem das profundezas do casamento; ajude a salvar o meu amigo que se afunda em catorze anos de amor e ódio; compreenda os entrelaçamentos amargos, como polvo, de um homem e uma mulher que passaram uma boa parte de suas vidas se devorando mutuamente, estrangulando-se, subindo e se dividindo no demento traiçoeiro, emergindo ao ar, mergulhando, sempre terrivelmente entrelaçados, sustentando, ferindo, acariciando um ao outro.” Estava ali para dizer o que a essa mulher reluzente e impenetrável, com seus dentes brancos e

brilhantes, sua pele viçosa, seu corpo soberbo e vitorioso, sua saúde perfeita, seu cérebro astucioso e narcisista, sua corte de belos e jovens bêbados do outro lado da porta? Estava ali para dizer o quê? “Aprenda a compaixão em um momento, torne-se humana antes da meia-noite, chore uma lagriminha pelo sofrimento de uma pobre alma tola e desesperada.” Ele poderia dizer parte disso ou tudo isso a qualquer homem e mulher que conhecera desde que viera a Roma: Bresach, Max, Veronica, Holt e sua mulher, Despière, até Tasseti, e esperar que parte de tudo isso tocasse uma corda de compreensão lá dentro. Mas com Barzelli... Ficou olhando para ela. Ela estava debruçada, exibindo a curva lisa de seus seios, mastigando seu figo seco, olhando para ele impassível, esperando, pronta para rejeitar qualquer reivindicação sobre ela. “Qualquer pessoa que não Barzelli”, pensou ele. Mas' linha de dizer alguma coisa. Delaney, deitado atrás da porta branca, tinha o direito de esperar que ele dissesse alguma coisa... As instruções, à risca... — Clara Delaney — começou ele, sem expressão — recusa-se a visitar Maurice no hospital. — Ótimo — disse Barzelli. — Assim ele pode morrer em paz, se for preciso. — Não — falou Jack. — É a única coisa que ele quer, que pensa que precisa ter. — Ele disse isso? — perguntou Barzelli, asperamente. — Disse. — Imagine isso. Aquele trapo seco de mulher. — Ela sacudiu a cabeça, abismada. Depois deu de ombros. — Bom, até mesmo os piores ateus chamam o padre quando acham que vão morrer. Então a Signora Delaney não quer ir ao hospital. Tragédia. E o que isso tem a ver comigo? — Delaney recomendou-me para lhe pedir, por favor, que não o visite no hospital — disse Jack, sem jeito. — Diz que se a mulher dele souber que você o visitou, nunca irá ao quarto dele... Por um momento, uma expressão de assombro, de incredulidade, estampou-se no rosto de Barzelli. Depois, ela jogou a cabeça para trás e riu alto. Sua gargalhada era alegre, profunda e inocente. Naquele momento, Jack a detestou e sentiu um impulso avassalador de se debruçar e beijar, com o beijo mais delicado e mais ávido, o pescoço liso e vigoroso, emergindo de seus ombros nus. Propositadamente ele se recostou mais na cadeira, desviando o olhar. Abruptamente, Barzelli parou de rir. — Mamma mia — disse ela. — As mulheres americanas! Deviam estar num museu! Imagine isso! E o que é que o senhor vai fazer depois de sair daqui, Mr. Andrus? — perguntou ela, mordendo as palavras. — Vai a cada uma das cinquenta mulheres com quem Maurice Delaney dormiu, depois que se casou, para pedir, por causa de Mrs. Delaney, que não visitem o grande homem no hospital? — Levantouse de um salto e ficou andando para lá e para cá como um animal numa jaula, os pés descalços fazendo um barulho espantosamente forte e ressoante no chão de mármore. — Para seu governo, Mr. Andrus — disse ela, zangada —, e para o governo de Mrs. Delaney, também, vou dizer que eu não tinha a menor intenção de visitá-lo no hospital. Detesto pessoas doentes. Eu as evito. Elas me enojam. Diga isso a Mr. e Mrs. Delaney. Diga isso aos namoradinhos. Jack levantou-se, preparando-se para partir. Cada vez que ele mudava de posição de repente, sentia uma tonteira, e uma névoa parecia toldar-lhe a vista. Agora, o espetáculo da Barzelli, andando de um lado para outro, descalça e furiosa contra o fundo de retratos de luz néon, tudo muito fora de foco, lhe era intolerável. Queria estar sozinho no carro, com Guido, voltando pela noite quieta para o seu quarto. — Há mais uma coisa que você pode dizer a ela — falou Barzelli, os lábios crispados numa careta de escárnio. — O marido dela nunca fez amor comigo. Nunca. Já dormiu na mesma cama comigo, mas não tivemos relações. Está bem claro? Quer que escreva em italiano? Pode mandar traduzir no seu hotel. Não tivemos relações. Pode interessar a ela. A mim não interessa. Nem os homens americanos — disse ela. — Talvez eles também devessem estar num museu! De repente, ela se controlou. Ficou inteiramente quieta, debruçada nas costas de uma cadeira, olhando friamente para Jack. — Não importa — continuou ela. — Por que não ficar calma? Diga a Maurice que eu estimo que

fique bom. Por que não? — Ela deu de ombros. — Não me prejudica. Agora, está tarde e vamos todos ter um dia desagradável amanhã, precisamos dormir. — Ela mostrou uma porta que dava para o saguão. — Não precisa passar pelos rapazes outra vez. Vejo que o perturbam.

21 “Fique fora do quarto de dormir de seus amigos", pensou Jack, sentado ao lado de Guido, na estrada de volta a Roma, passando pelos túmulos; “ou, mesmo, fora das salas dos amigos de seus amigos — há mistérios desagradáveis ocultos nesses lugares.’' Fechou os olhos e cochilou, só acordando quando o carro, em disparada, subia o morro em direção ao Quirinal. Os vultos dos dois domadores de cavalos, à testa de seus imensos cavalos de pedra, surgiram na praça escura. As sentinelas estavam, com suas metralhadoras, defronte do palácio presidencial. — Por hoje é só, Guido — disse Jack quando chegaram ao pórtico do hotel, alguns minutos depois. — Mas acho que vou precisar de você de manhã, por volta das oito e quinze. Sinto muito a respeito de hoje... — Não precisa se desculpar, monsieur. Quando acontece uma calamidade, é natural que a gente perca um pouco de sono. Jack olhou para o rosto sério e bonito, pensando em como esse homem era paciente, capaz e resistente, como era delicado e compreensivo. “Ele pode dar aulas a todos nós, que lhe demos ordens neste domingo." E Guido parecia, naquele momento, representar os valores mais profundos, os dons permanentes, maravilhosos, sempre renovados de sua raça. Era um dos pontos mais negros contra a terra de Guido, achava Jack, não apresentar nada melhor para ele fazer do que dirigir os filhos mimados e invasores do século XX pela cidade de Roma. "Tenho de fazer alguma coisa por ele, tenho de fazer alguma coisa enorme.” — Diga-me, Guido, se você tivesse dinheiro, o que faria? — Dinheiro? — perguntou Guido, educadamente intrigado. — Quanto dinheiro? — Bastante dinheiro. Guido pensou um pouco. — Eu levaria minha mulher e meus três filhos a Toulon para passar uma semana e ia visitar o vinhedo e a senhora para quem trabalhei durante a guerra. “Duzentos, duzentos e cinquenta dólares”, calculou Jack. “Pouco mais. Pelos cálculos de Guido, muito dinheiro. Ótimo”, resolveu Jack, “vou dar isso a ele. Quando me pagarem. Meu tributo à Itália.” Suspirou. Estava cansado e foi preciso muito esforço para saltar do carro. — Boa noite, Guido — disse ele. — Até amanhã. — O presente seria uma surpresa. — Boa noite, monsieur. Durma bem. Ele partiu. O porteiro tinha três recados para ele. Todos diziam a mesma coisa. Chame telefonista 382 em Paris. Parigi, a telefonista do hotel tinha escrito. O primeiro chegara ao meio-dia, o último havia apenas meia hora. Jack olhou para o relógio. Só uma e dez. Tanta coisa acontecera naquele dia que parecia impossível ser só uma e dez. De repente, ele percebeu que estava com muita fome e pediu que lhe mandassem para o quarto um garrafa de cerveja, queijo e pão. Enquanto esperava o elevador, amassando os três pedacinhos de papel na mão, lembrou-se da manhã, com Bresach esperando por ele no saguão e o telegrama de Veronica: “Não se preocupe, querido". Havia quinze horas. Outra época, em que as pessoas podiam escrever: “Não se preocupe, querido." Zurique, lembrou-se. Como estavam os casos cardíacos em Zurique naquela noite, qual a opinião dos suíços sobre o assunto da fidelidade de Delaney com a mulher, qual a opinião, naquele país neutro, sobre Barzelli e seus três bêbados?

O telefone estava tocando quando ele abriu a porta do apartamento. Jack acendeu a luz e foi atender. — Alô, alô... — Não precisa gritar comigo — disse uma voz de mulher, com um risinho. — Quem é? — perguntou Jack, mas ele sabia. — Você sabe quem é, Jack. — Carlotta — disse Jack, sem expressão. Não tinha mais falado com ela desde aquela manhã na Califórnia, e só se comunicara com ela por intermédio dos advogados, isso há quase dez anos, mas ele sabia. — Achei que era você que eu vi quando saí do hospital. — Você não parece muito contente em ouvir a minha voz — disse ela. — Carlotta, tive um dia difícil, estou cansado e tenho vários telefonemas para dar... — Estou aqui no terceiro andar com Stiles e uma garrafa de champanhe. Por que não vem nos ver? — Diga a Stiles que é melhor ele ir para casa dormir — falou Jack. — Ele tem de trabalhar às nove da manhã. E pode dizer também para largar o champanhe. — Vou dizer tudo isso a ele. Vou dizer que queremos ficar sozinhos. Tenho certeza de que ele vai compreender. — Não vou descer — disse Jack. — Isso não é muito simpático de sua parte, Jack. — Não estou me sentindo muito simpático. — Depois de todos esses anos. — Agora ela estava brincando de estar sentida, zombando dele. — Esqueci qualquer queixa que pudesse ter contra você... — Queixa... — Jack começou a interrompê-la. Depois parou. Não ia discutir com Carlotta. Não naquela noite. — Que diabo você está fazendo em Roma, afinal? — Eu estava em Londres, almoçando, quando ouvi a notícia no rádio. — Que notícia? — perguntou Jack, confuso. — Sobre Maurice. Peguei o primeiro avião. Afinal de contas, ele é um dos meus amigos mais antigos. E o rádio parecia tão sinistro... como se ele... — Ela se interrompeu. — Não quiseram me deixar entrar para vê-lo no hospital e só me disseram que ele estava passando tão bem quanto possível... Jack... — A voz dela baixou. — Ele está correndo perigo? — É provável que não. — Você o viu? — Vi. Por um minuto. — Como estava ele? Jack hesitou. Como estava ele? Estava como Maurice Delaney, era assim que ele estava. Mais uma vez estava preocupado com um filme tolo e uma mulher tola, mais ou menos como sempre, só que dessa vez fazia isso deitado numa cama de hospital, tomando oxigênio. — Ele estava animado — disse Jack. Isso era aproximadamente a verdade. — Não estava com medo de morrer. — Oh, pobre Maurice! Você acha que me deixarão vê-lo amanhã? — Acho que sim. — Quer dizer a ele que estou aqui, Jack? — Sim. — E quer dizer que ficarei aqui até que ele melhore e quero vê-lo? — Sim. — Você parece estar muito impaciente comigo, Jack — disse Carlotta, repreendendo-o. — Estou querendo ligar para Paris. — Depois disso, você não quer descer aqui? Só um minuto... Estou tão... tão... curiosa a seu

respeito. — Ela riu. — Sinto muito, Carlotta. Hoje não. — Jack, quer responder a uma pergunta? — O que é? — Você me odeia? Jack deu um suspiro. Depois de Clara e Barzelli, era fácil detestar todo o sexo frágil. — Não — disse ele, sem expressão. — Não a odeio, Carlotta. Boa noite. — Boa noite — repetiu ela. Desligou e sentou-se debruçado na mesa, ainda de sobretudo, olhando fixo para o aparelho. “Carlotta. Além de tudo o mais, Carlotta.” Aí, o telefone tocou outra vez. Ele o deixou tocar três vezes, com a mão sobre ele e então pegou o fone. Era Paris, indagando se era Mr. John Andrus. Ele ouviu a voz da mulher, num fundo de música e outras vozes. — Jack, Jack, está me ouvindo? — dizia Hélène, a voz longe e indistinta, abafada pela distância e o som vibrante de uma coisa que parecia um violão. — Você está bem, Jack? Li a notícia nos jornais hoje de manhã, é horrível, e estive tentando falar com você o dia todo. Está me ouvindo, Jack? — Muito mal — respondeu Jack. Ele teve a impressão de que havia alguma coisa estranha no que ela disse, mas estava muito cansado para saber o quê. — Que barulho é esse aí? — Estou em casa de Bert e Vivian — disse Helene. — É uma festa. Há uma cigana russa aqui. Está tocando uma balalaica e cantando. Está me ouvindo? — Muito bem — disse Jack. Irracionalmente, ficou aborrecido com ela por ligar para ele de um lugar em que sua voz estava quase afogada por uma balalaica e uma cigana. — Passei o dia todo preocupada com você, chéri — disse Hélène. — Estou certa de que deve ser horrível para você. “Você não podia estar assim tão preocupada”, Jack ficou tentado a dizer, “se ainda está fora de casa à uma e meia da manhã, com todos esses beberrões em volta.” Depois, envergonhou-se por pensar isso e nada disse. Afinal de contas, o que Hélène tinha para fazer? Ela não conhecia Delaney e não se podia esperar que ela ficasse tristemente sentada junto do telefone, porque, a mais de mil quilômetros de distância, ele tinha sido abatido por uma doença. Agora, o barulho da festa aumentou e Jack não conseguia entender o que a mulher estava dizendo. Só se ouvia o timbre da voz dela, apressado, afetuoso e um pouco alto pela bebida. Ele escutou, aturdido de cansaço, vagamente reconfortado com o tom de amor e a sensação de que afinal, nesse longo dia, havia alguém interessado em ajudar a ele, em vez de exigir alguma coisa dele. Bateram à porta e ele gritou: — Entre! — Era o garçom com sua cerveja e o queijo. — O quê? — disse Hélène. No momento, a voz estava completamente clara, tinham cessado a cantoria e as vozes atrás dela, e ele a ouvia como se ela estivesse falando no quarto a seu lado. — É o garçom com queijo e pão — explicou Jack. — Não comi o dia todo. — Ele fez sinal para o garçom colocar a bandeja junto do telefone. — Ah, Jack, era isso mesmo que eu estava receando — disse Hélène. — Você não está se cuidando. Não quer que eu pegue um avião amanhã e vá para aí? Jack hesitou, olhando o garçom abrir a garrafa de cerveja. Remexeu no bolso e jogou duzentas liras na bandeja para o garçom, que, com um cumprimento cerimonioso, agradeceu. — Jack — chamou Hélène. — Você está ouvindo? — Estou — respondeu Jack. — Não seria bom eu ir até aí? A ideia de ter Hélène a seu lado nos próximos dias, afastando Carlotta, agindo como escudo contra Bresach e Clara, estando ali para conversar sobre os problemas suscitados com a oferta de Holt, de repente pareceu-lhe extraordinariamente atraente.

— Bom — ele começou. — Eu acho... Ouviu-se uma gargalhada pelo telefone, dos convidados da festa de Bert e Vivian, e a música e a voz da cigana chegaram bem altas pelo fio. “Ora, isso é demais”, pensou Jack, entregando-se irritado a seus nervos. “Se ela queria tanto falar comigo, podia pelo menos ter encontrado uma sala sossegada de onde falar.” Perversamente, ele se lembrou de que no aeroporto ela se queixara de que ele não a procurava havia duas semanas e o acusara de estar ansioso por partir. As exigências, emboscadas, imposições e armadilhas das mulheres. A música pelo telefone o enfurecia. Sentiu que estava tremendo. Sabia que não queria a mulher naquele quarto. Sentia-se frio, desligado, aliviado com a distância entre eles. Todo o amor de que era capaz em sua exaustão e preocupação ele estava poupando para Delaney. Naquele momento, ele sentiu que, se Hélène o pressionasse, ele poderia dizer que nunca mais queria vêla. — O que você disse, chéri? — perguntou Hélène. — Este raio de barulho. — Nada — disse ele. — Quando você acha que vai voltar? “Agora”, pensou ele, “a explosão.” — As coisas aqui estão todas embrulhadas — disse ele. — Pode ser que eu não consiga sair antes de mais seis semanas. — Seis semanas? — Ela parecia não querer acreditar. — E Joe Morrison? Seu trabalho? — Eu vou escrever para ele. — Ele não vai deixá-lo fazer uma coisa dessas... — Vai ter que aceitar — falou Jack. — Escute, esse telefonema está custando uma fortuna... — Não compreendo. O que foi que lhe aconteceu? Não desligue — disse ela depressa. Depois, afastando-se do telefone: — Por favor, pessoal, menos barulho, estou falando para Roma. — Depois, novamente para ele: — Jack, você está bem? Não está falando coisa com coisa. Está bêbado? Você não pode ficar fora seis semanas... Aí, ele percebeu o que o havia intrigado no princípio da conversa. — Hélène — interrompeu ele. — O que você quis dizer quando falou que leu nos jornais hoje de manhã? Delaney teve a crise às onze horas... — Delaney? — disse Hélène. — Quem falou em Delaney? Essa maldita ligação... — Hélène, fale devagar e claramente. O que foi que você leu no jornal hoje de manhã? — Jean-Baptiste. Ele foi morto ontem. Na Argélia, numa emboscada. Não sabia? Não leu os jornais esta manhã? — Não. Agora escute. Vou desligar. Amanhã eu telefono... — Jack — gritou Hélène, desesperada. — Espere um instante. Tenho que falar com você. Não posso... Ele desligou. Não conseguia emitir um som, com sua garganta apertada e dolorida. Ficou olhando para o telefone muito tempo. Queria chorar. Se ele conseguisse chorar, a dor insuportável de sua garganta e de seus olhos ficaria, aliviada. Mas as lágrimas não vieram. Ele só conseguia ficar ali, sentado, encolhido por cima da mesa, olhando para o telefone. Este entrava e saía de foco, devagar e ritmadamente. Depois, lembrou-se do envelope que Jean-Baptiste lhe entregara na noite do coquetel dos Holt, quando ele partira para sua guerrinha. Por um momento, Jack debateu mentalmente se o deixaria até a manhã ou não. Seus olhos estavam pesados, seus ossos doídos, ele queria cair na cama. de roupa e tudo, e dormir. Sentado ali, não sabia nem se teria energia suficiente para ir até o quarto. Mas fez um esforço, levantou-se e foi pegar o envelope. Quando voltou para a sala, demorou-se muito tempo com o envelope na mão, antes de abri-lo.

Caro dottore [começava a carta, em francês, numa letra cheia de garranchos]. Você não deve se surpreender. Num mundo assassino, é normal ser assassinado. Se você está lendo isso é porque estou morto. Desta vez, eu o esperava. Não sei por quê. Um pressentimento de má sorte, talvez. Já tive o pressentimento de má sorte várias vezes antes e nada me aconteceu. Talvez desta vez seja a mesma coisa e eu reaparecerei em Roma, pedirei o envelope e você nunca saberá nada do meu sentimento de má sorte, e nós festejaremos minha volta juntos, como sempre. Só que, desta vez, o sentimento é mais forte... Eh bien, o pior já passou. Agora, vamos aos negócios. Você encontrará nesse envelope, além da carta para você, algumas páginas em manuscrito. O manuscrito é o artigo sobre o seu amigo Delaney. Está inacabado. Se você o ler, verá que eu disse algumas coisas duras a respeito dele. Vivo, eu não me importaria de publicá-lo. Mas morto, eu preferia que fosse destruído. Não queria que minhas últimas palavras fossem prejudiciais e críticas. Já recebi um grande adiantamento da revista para esse artigo, e, se eles descobrissem o que escrevi sem duvida o terminariam na redação e o publicariam. O dinheiro está gasto, mas um morto tem o direito de ser ligeiramente desonesto. Por isso, leia-o, ou não, como quiser, e depois destrua. Pode até dizer ao seu amigo Delaney que eu o admirava, isto em parte é até verdade. Finalmente, se eu morrer nessa guerrinha miserável da Argélia, ficarei com muita pena. É tudo uma merda de ambos os lados, e não se deveria ter de morrer nela. Sinto muito aborrecê-lo com isso, meu caro Jack, mas ao consultar minha lista de amigos, antes de escrever esta carta, cheguei à conclusão de que todos os outros em quem eu podia confiar já estão mortos. Queira receber (como nós, franceses educados, escrevemos no fim de nossas cartas), meu caro dottore, as expressões de meus sentimentos mais dedicados e destacados. Jean-Baptiste. As duas últimas linhas eram escritas em inglês, como se Despière não quisesse terminar uma carta daquelas num tom serio. Zombando de si e irônico, cético da pomposidade e ideais elevados, Despière tinha assinado o fim de sua vida no seu estilo habitual. “Delaney”, pensou Jack, “Despière. No mesmo dia. Fui avisado, e agora está acontecendo. Jamais deux sans trois. Provérbio francês. Nunca dois sem o terceiro. A noite ainda não acabou. Foi prolongada por uma morte.” Jack arrumou o manuscrito numa pilha e colocou-a sobre a mesa. Não podia se forçar a lê-lo. Não naquele momento. Foi para o quarto. A cama fora arrumada para a noite pela camareira muitas horas antes, o lençol dobrado formando um nítido triângulo branco à luz da lâmpada da mesa de cabeceira, lembrando hospitais. Ele estava cansado demais para trocar de roupa. Tirou os sapatos com esforço, sentindo-se rígido e doído, e apagou a luz. Mas o sono não chegava. Recordações de Despière enchiam-lhe a cabeça. “... e nós festejaremos a minha volta juntos, como sempre.” Tinha ocorrido na volta da Indochina, onde Despière quase morrera, uma morte inglória, por sinal, num acidente de jipe. Despière tinha telefonado assim que chegara ao hotel, e, juntamente com Jack, Hélène e o modelo americano com quem Despière mais ou menos vivia na época, tinha saído para jantar. Foram a vários bares e boates, bebendo champanhe o tempo todo, brindando o motorista do jipe e o motorista do caminhão, que tinha batido nele, e muitas outras pessoas, à medida que eram mencionadas, de modo que, às duas da manha, estavam todos bem embriagados. Despière, que ainda sofria os efeitos do choque e estava com a cabeça envolta numa enorme atadura, que parecia um turbante torto, insistiu em executar uma dança selvagem e triunfal no meio da pista, com Hélène, embora Hélène de vez em quando tivesse de segurá-lo para que ele não fosse ao chão.

— Você devia mandá-lo parar — disse Jack à garota de Despière. — Ele vai se sentir muito mal de manhã. A garota sacudiu a cabeça. — Não há nada que o faça parar hoje. Tentei evitar que ele bebesse hoje, antes de irmos encontrar vocês, e disse a ele que amanhã ele ia passar mal. Ele só riu e disse: “Claro que sim. Mas tenho de comemorar porque estou vivo. Estou pronto para pagar a alegria de manhã.” O modelo agora estava casado com outra pessoa e morava em Nova York. Jack tinha certeza de que, quando ela lesse a notícia sobre Despière nos jornais, ao café, se lembraria da boate e de Despière, de turbante de ataduras, dançando torto e triunfante para comemorar o fato de estar vivo e dizendo: “Estou pronto para pagar a alegria de manhã.” “Fui avisado de que um morreria”, pensou Jack, deitado no quarto escuro, “talvez eu o devesse ter avisado quando ele saiu do coquetel, Mas eu pensei que estava sendo avisado a respeito de mim mesmo.” Ficou deitado quieto, de olhos fechados, para forçar-se a compreender que nunca mais haveria o telefonema com a voz divertida dizendo: “Dottore”, ou "Monsieur le ministre, estou na cidade outra vez, acho que será preciso tomar um drinque imediatamente.” “E depois, mais tarde, pensei que fosse Delaney. Mas estamos ambos vivos. Só Jean-Baptiste...” Só Jean-Baptiste... “Naturalmente”, pensou Jack, “tinha de ser ele. Como foi possível eu não ter percebido?” O mais integral dos europeus, com seu dom para línguas, suas viagens pelas fronteiras, sua história de ter lutado em tantas terras diferentes, na França, Rússia, Alemanha, África... Com sua avaliação inteligente e pessimista sobre o estágio a que chegara a Europa, misturada com uma alegria dura e francesa, aliada a uma zombeteira clareza de visão. O espectador profissional da violência da época. Por fim, o espectador tem de ser sugado, tem de se tornar ator. Despière há muito já consumira sua cota de espectador em matéria de tempo e sorte. A época não podia permitir que ele continuasse indefinidamente... O redator de atrocidades, ele se intitulara. Não havia meio de se permanecer à margem das atrocidades, afastado delas... No fim, o redator olha para sua mesa e vê que a história ali colocada, naquele dia, ó a sua. Agora, ele tinha medo de dormir. O sangue martelava suas veias e os músculos de seu pescoço estavam rígidos, como se procurassem, independentes de sua vontade, arrancar-lhe a cabeça dos travesseiros. Sentou-se na cama e acendeu a luz. Logo depois, levantou-se e foi para a sala. Uma janela se tinha aberto e o vento espalhara as páginas do manuscrito de Despière. As folhas de papel, por todo o chão, davam a impressão de uma desordem de louco ao ambiente. Cansado, ele andou por toda a sala, batendo nos móveis, abaixando-se e recolhendo todas as folhas. Não estavam numeradas e agora, em completa desordem, formavam um labirinto de parágrafos soltos, datilografados numa máquina velha, com uma fita péssima, que fazia linhas irregulares e borrões negros em algumas letras. Estava escrito em francês e Despière linha riscado umas coisas, acrescentando muitas outras a tinta, para completar a confusão. Jack leu ao acaso. Os americanos, ele leu, inclusive os artistas, são diferentes dos europeus, porque acreditam na continuidade da curva ascendente, e não num ritmo compassado de realização... “Deus”, pensou Jack, “morto ou vivo, essa frase teria de ser reescrita, passar por um redator.” Isto é, um americano, começando em qualquer ponto estabelecido, acredita que sua carreira tem de ir de sucesso em sucesso. No artista americano, de qualquer natureza, é o equivalente do credo otimista do homem de negócios da economia em expansão contínua. O fracasso intermitente, o crescimento e queda do nível do trabalho do homem, aceito e compreendido pelo artista europeu, é ferozmente rejeitado como quadro normal do processo de criação. Uma queda não é uma queda para o

artista americano, é uma descida a um abismo, uma ofensa contra seus moeurs nativos e as crenças mais queridas de seus compatriotas. Nos Estados Unidos, a incidência normal do fracasso, real ou imaginário, privado ou público, que deve ser esperada num empreendimento tão arriscado e ilusório como escrever romances ou produzir e dirigir filmes, é considerada, até mesmo pelo próprio artista, uma prova de culpa, de autotraição. A expressão de desastre que observamos nos olhos de artistas americanos, sua sensação de estarem por fora da aprovação da cultura americana, não está ali por acaso. Eles não conseguem se manter na curva continuamente ascendente de seus conterrâneos e recorrem, por causa disso, a inovações espetaculares e desesperadas, ou à bebida ou ao comércio. Em vários casos, recorreram ao suicídio. Alguns artistas de natureza mais forte apenas fazem de conta, violentamente, que nunca fracassaram. Esses artistas contestarão, afirmando que o público e os críticos é que fracassaram, nunca eles. Maurice Delaney, que há vinte anos fez dois ou três dos melhores filmes da época, é um destes... Jack tornou a pôr as folhas na mesa e sobre elas um cinzeiro, para prendê-las. “Os mortos”, pensou cie, “hoje atacam os agonizantes em Roma. Vou ler isso tudo numa outra hora, quando todas as nossas feridas estiverem curadas.” Foi para o quarto. Dessa vez ele se despiu. Deitou-se com cuidado, esperando que, mexendo-se devagar, o sangue não lhe martelasse nos ouvidos. Deu resultado. Fechou os olhos e dormiu. Pensou ter ouvido um telefone tocando em seu sono, mas, quando acordou, o quarto estava quieto. O nariz estava sangrando, não muito, embora continuamente. Foi ao banheiro, pegou uma toalha e tornou a dormir, com a toalha dobrada sobre o nariz e a boca, de modo que, no sono agitado, teve a impressão de se estar afogando. Só teve um sonho de que se lembrasse de manhã, e este foi breve e sem importância. No sonho, o telefone tornava a tocar e uma voz dizia: “Zurique está chamando, Zurique está chamando.” Ouviu música pelo fio e depois uma voz de mulher, ligeira e clara, disse: “Jamais deux sans trois”.

22 — Então — disse Delaney —, conte-me tudo. Como foi? Eram oito e meia da noite. Delaney continuava com o tubo de oxigênio preso ao rosto e estava deitado na mesma posição da véspera. Novamente, a enfermeira estava sentada nas sombras do quarto. Mas a voz de Delaney era mais forte; e sua cor, pelo que Jack podia ver à luz da lâmpada, quase normal. Delaney disse que se estava sentindo bem, que não sofria dor, e, se não fosse o médico, ele se levantaria e iria para casa. Era bem provável que estivesse mentindo, de orgulho, mas não havia dúvida de que, no momento, parecia bem melhor. Suas primeiras palavras não foram sobre a mulher, nem Barzelli, mas sobre o filme. — Como foram as coisas no set hoje? — perguntou. — Não esqueça os detalhes. — Foram bem — respondeu Jack. — Melhor do que tínhamos o direito de esperar. — Na verdade. Jack se sentiu aliviado pela tensão e confusão de um set de cinema e a necessidade de concentrar-se nos problemas dos atores, operadores de som e eletricistas. Isso impediu que ele passasse o dia todo pensando em Despière. Agora que o dia tinha terminado, ele viu que estava começando a aceitar o fato da morte de Despière. Tinha resolvido nada dizer a Delaney. Não se podia prever como Delaney, em seu estado, reagiria à notícia. — Descobri que eu sabia muito mais de dirigir cinema do que eu pensava. — Eu não disse? — falou Delaney. — Noventa por cento dos diretores não sabem nada. E o garoto, Bresach, está dando certo? — Ele é muito útil. — Eu sabia — disse Delaney, satisfeito. — Tive um palpite com aquele menino. A verdade é que Bresach tinha sido muito mais do que útil. Enquanto Jack trabalhava com o operador, arrumando as luzes e acertando os movimentos das câmeras, Bresach tinha ensaiado os atores, especialmente Barzelli e Stiles. Quando chegou a hora de passar a cena ao celuloide, os resultados foram excelentes. Barzelli, que começara o dia no pior dos humores, representou a cena com mais sentimento do que jamais mostrara em qualquer outra parte do filme. Mas foi Stiles a maior surpresa. De algum modo, cochichando com o ator num canto do set, Bresach despertara Stiles para novas dimensões e Stiles representou com uma credibilidade e um tal sentido de patético que suscitou um burburinho de cochichos espantados de todos no set. E não foi um acaso fortuito. Jack deixou que Bresach trabalhasse com os atores o dia todo, enquanto ele propositadamente lidava mais tempo do que o necessário com os aspectos mecânicos da filmagem. No fim do dia, os atores e o próprio Tucino estavam achando que Bresach era melhor do que Delaney jamais tinha sido. Mas não havia necessidade de dizer isso ao doente. E provavelmente não era bem a verdade. Bresach não era melhor do que Delaney jamais havia sido — ele era melhor do que Delaney jamais voltaria ser. Mas isso não era notícia para se dar em um quarto de hospital. Toda a violência de emoção, a crueza de maneiras e instabilidade de espírito que Jack viera a associar a Bresach pareceram desaparecer no momento em que ele se defrontou com os atores. Em vez de tudo isso', ele se mostrava paciente, com um interesse pesquisador, quase terno, a que os atores reagiram imediatamente. Jack não tinha ideia de onde Bresach aprendera o que sabia. Talvez fosse inato. Talvez no século XX um novo gene tivesse sido acrescentado à coleção humana — o gene do cinema1. — Além de tudo — falou Jack —, ele hoje à tarde realizou um milagre. — Que tipo de milagre? — O tipo mais difícil. Conseguiu que Stiles não bebesse no almoço. — O quê? — Delaney virou a cabeça, surpreendido. — Como é que ele fez isso?

— Muito simples. Viu Stiles se servir de de vinho no restaurante do estúdio, foi lá e, sem dizer uma palavra, arrancou-lhe o copo da mão. Delaney pareceu não acreditar. — Com todo mundo vendo? — Com duzentas pessoas vendo. — Stiles não bateu nele? — perguntou Delaney. Stiles era conhecido como violento. Era um homem grande, musculoso e, coisa rara, um bêbado que provocava brigas e as ganhava. — Não, não bateu nele. Ficou pálido, depois riu um pouco e pediu à garçonete um copo de água. — Que diabo! — exclamou Delaney. — E eu que perdi isso. — Ele se remexeu com dificuldade na cama. — Escute, Jack, há uma coisa sobre a qual quero conversar com você. Holt me mandou um bilhete hoje de manhã. Sobre ter falado com você para vir trabalhar conosco como produtor executivo... — Vamos com calma. Tudo isso pode esperar... — Vou-lhe dizer, Jack — falou Delaney, ignorando a interrupção —, eu é que dei essa ideia quando começamos a falar sobre a formação da companhia. Foi esse o verdadeiro motivo para pedir a você que viesse a Roma. Para que Holt pudesse conhecê-lo. E tudo saiu justamente como eu esperava. Ele está louco por você... Lembre-se, Jack, lá na Califórnia eu lhe disse que um dia havíamos de trabalhar juntos outra vez. Eu lhe disse que deixasse o endereço... — É. Eu me lembro. — Mas Jack não queria falar daquilo agora. Não num quarto de hospital, não com aquele homem febril e excitado, não naquela semana. — Não se exalte, Maurice, há muito tempo... Delaney levantou a cabeça do travesseiro e olhou fixo para Jack. — Você vai aceitar a proposta, não vai? — perguntou. — Estou pensando — respondeu Jack. — Pensando? — falou Delaney, com aspereza. — Que diabo há para pensar? Você vai ganhar pelo menos três vezes mais do que está ganhando agora... para começar. Não vai ter a merda do governo atrás de você o tempo todo. Terá a oportunidade de ficar rico. Será cem vezes mais livre, dono de seu nariz. Você é o único homem com quem já consegui trabalhar sem acabar desprezando. É verdade, Jack. Você sabe que é verdade. Holt não vai se meter em nada. Podemos fazer justamente o tipo de filmes que quisermos... “Nós. Haverá um ‘nós’ aqui? Há o tipo de filmes que você quer e o tipo de filmes que eu quero — se é que eu quero algum tipo de filme, e isso ainda não está resolvido.” — É uma oportunidade única na vida, Jack. — Delaney agora estava implorando, a voz mais rouca do que antes, e tremendo um pouco. — É o que eu estava esperando desde criança... — Eu sei — falou Jack. — Eu não disse que não queria. Só disse que estou pensando. — Escute, Jack — disse Delaney, falando depressa. — Eu sei exatamente o que eu quero fazer. O roteiro de Bresach. Estive pensando nele desde que o li. Pode ser uma beleza. Você o leu. Não acha que pode ser uma beleza? — Acho. — Vamos comprá-lo dele. Vamos trabalhar nele, com ele. Agora ainda está tosco, mas já tenho mil ideias para ele. Dar-lhe o velho toque Delaney. Poderá ser o melhor filme que eu venha a fazer. Cristo, quem me dera poder sair daqui amanhã. É o tipo de coisa que serve para mim. Até Clara disse isso. Eu o mandei para ela ler, apesar de ela estar zangada comigo. Foi a última coisa que ela me disse, na noite antes de isso acontecer. “Isso e para você”, disse ela. Nunca fiquei tão entusiasmado com nada, há vinte anos... — Não fale tanto — pediu Jack, sem saber como é que a enfermeira, em seu canto, deixava Maurice excitar-se assim. — Prometi ao médico que eu é quem ia falar. — O médico que se dane. Eu contei a Clara algumas ideias que eu tinha para as mudanças. Pode

perguntar a ela, vai ver o que vou fazer com ele... — Ela já esteve aqui? — perguntou Jack. — Clara? Delaney grunhiu. — Não. — De repente, agora que não estavam mais falando do roteiro de Bresach, ele ficou calmo outra vez. — Você falou com ela? — Falei com ela. Ou melhor, ela falou comigo. — Alguma novidade? Jack sacudiu a cabeça. — A mesma de sempre. Quando ela tiver a certeza de que você acabou com Barzelli e com todas as outras Barzellis, ela voltará. — Ela que vá para o diabo! Que fique por lá, se e isso que ela quer. — Tendo sobrevivido à noite e ao dia, e certo agora de que ia viver, Delaney estava voltando cada vez mais a seu tom normal. — Casamento — murmurou cie, sombrio. — Ela sabia no que estava se metendo. Que diabo, foi minha secretária cinco anos antes de nos casarmos. As belezas de meu caráter não devem ter sido uma surpresa completa para ela. — Ele se mexeu, agitado. — Você procurou Barzelli? — Procurei. — O que ela disse? — Não se preocupe — falou Jack, com cuidado. — Ela não virá visitá-lo. — Ela compreendeu? — perguntou Delaney. — Você a fez compreender? — Acho que sim. — Ela é uma mulher maravilhosa. Você nem sabe como é maravilhosa. — Tenho de contar uma coisa que ela me disse — Jack falava, agora, não por Delaney, mas por si, para seu esclarecimento. — O que é? — Delaney parecia desconfiado. — Ela disse que nunca teve relações sexuais com você. — Foi isso que ela disse? — Foi. Disse que eu podia contar isso a Clara, se quisesse. — Você contou a Clara? — Não. Quer que eu conte? Delaney levantou a mão num gesto cansado, defensivo. Depois, deixou a mão cair, frouxa, no cobertor. Sacudiu a cabeça no travesseiro, fechou os olhos e ficou ali sem se mexer, o som de sua respiração pelo tubo — o único ruído no quarto sossegado. A enfermeira estava quieta no canto. Jack teve a impressão de que ela estava cochilando, sem se esforçar por entender os pedaços de conversa que lhe chegavam. Assistindo tantas cabeceiras de doente, tantos leitos de agonia, já tinha ouvido todas as confissões, todas as conversas. Sua curiosidade agora se limitava a coisas como pulso e temperatura. O medico dissera que Jack podia ficar quinze minutos. Ele ainda tinha seis ou sete minutos. Antes de acabar o tempo, a enfermeira não interferiria, não importa o que ouvisse ou entendesse ou entendesse pela metade. — É verdade — falou Delaney. — Não tivemos relações. Eu a segurei nos meus braços, nua, noite após noite, mas não tivemos relações. Nunca aconteceu isso comigo, com mulher alguma. — A voz dele era baixa e fatigada. Os olhos continuavam fechados. — Não sei por que nada mais fiz. Talvez eu quisesse que, com ela, fosse completamente diferente do que era com qualquer outra pessoa... Quando eu a segurava nos braços, aquilo me fazia sentir como eu me sentia quando era mocinho. Ela me renovava, me fazia florescer... Eu a deixava às três, quatro da manhã e voltava para casa e, não sei como, tinha a sensação de que estava recomeçando tudo, como quando eu era um garoto em Nova York, como se nada me pudesse deter. Como se, negando-me o meu prazer, eu me tornasse um homem melhor. Como se realmente, afinal, eu estivesse entendendo a ideia do amor... — Abriu os olhos e virou a cabeça para fitar

Jack. Os olhos estavam brilhantes no rosto desfigurado e por barbear. — A única mulher que eu quis em toda a minha vida e que podia ter tido e não tive, e ela me fez rejuvenescer. Vá entender isso. Vá entender alguma coisa. Vá fazer a minha mulher entender isso... “O Anteu irlandês”, pensou Jack, “recaindo cada noite no belo solo italiano. Quem sou eu para despedaçar as ilusões de um homem doente e gasto? Se ele sente suas feridas curadas, será papel de amigo dizer que continua a ver sangue, mais sangue do que antes?” — Essas flores são de Carlotta — disse Delaney, de repente, como se se arrependesse de suas confidências e esperasse que Jack as esquecesse. Mostrou um grande buquê de rosas vermelhas num jarro de vidro. — Ela esteve aqui ontem à noite mas não a deixaram entrar. Mandou um cartão. Pergunta se preciso de alguma coisa. — Ele riu brevemente, amargamente. — Se você a vir, diga que sim, que preciso de uma coisa, um coração novo. Já falou com ela? — Só um instante. No telefone. — Imagine, ela vir de avião da Inglaterra — continuou Delaney. — De todas as mulheres que conheci... Ah, Deus, que embrulhada. Sabe o que estive aqui pensando o dia todo, Jack... Eu gostaria de ver todas as pessoas que já amei, ou magoei, ou utilizei, ou protegi, ou odiei e me explicar a elas. Explicar por que eu fiz o que fiz, explicar como elas me magoaram, ou como me ajudaram. Me desembrulhar... — Você precisaria de um guarda no quarto para controlar o tráfego — falou Jack, propositadamente troçando da ideia. Certamente não devia ajudar nada o moral de Delaney ficar ali, na cama, ajustando contas finais. — A maior parte das pessoas pensa que eu sou um filho da puta — disse Delaney, sem expressão. — Toda a minha vida foi a mesma coisa. Mesmo em criança. E, em toda a minha vida, fingi que não me importava. Fingi... — Vou mandar distribuir uma circular — interrompeu-o Jack. — Maurice Delaney não é um filho da puta. Vai poupar muito tempo. — Sobre as mulheres, por exemplo... — continuou Delaney, sem ligar para a piada de Jack. — Quando eu era garoto, era feio e nunca conseguia as garotas que queria. Pequena nenhuma, para falar a verdade. Depois, passei a ser o tal e de repente eu não era nada feio, era espirituoso, encantador e tão irresistível que a lotação ficava esgotada com meses de antecedência. — riu secamente. — Se eu não olhasse para o espelho eu quase podia fazer-me acreditar que tinha um metro e oitenta e era uma beleza. Por isso, compensei o tempo perdido. Acho que estava compensando as garotas que não consegui quando era mocinho e feio. Acho que sempre tive medo de que o sonho acabasse e alguma mulher olhasse para mim, risse e dissesse: “Ora, eu conheço você, e aquele pigmeuzinho feio, Maurice Delaney, do lado sul de Chicago.” Uma vez houve uma garota na Califórnia que quis se matar por minha causa, porque eu a deixei. Foi salva, mas por um triz. Quando eu soube, a primeira coisa que eu pensei não foi “Graças a Deus, ela está viva”, mas sim, “Veja só, uma mulher que acha que vale a pena morrer por minha causa.” Vou dizer uma coisa: por um segundo, até que meu sentimento de civilizado falasse, fiquei satisfeito. Bom, imagino que as pessoas que dizem que sou um filho da puta tenham uma certa razão... — Suspirou. — Acho que estou ficando cansando... — disse ele, sua voz sumindo. — É melhor eu dormir. Obrigado por vir... Não me falhe, Jack. Podemos arrasar esse pessoal, nós dois. Seja bonzinho, deixe seu endereço... — Fechou os olhos, deixando que sua fraqueza, no silêncio noturno do hospital, se apossasse dele. Jack levantou-se, cumprimentou a enfermeira, imóvel no seu canto, e saiu do quarto. Havia jornais por toda a sala, cinco ou seis jornais franceses e a edição mediterrânea do Herald Tribune de Nova York. Despière estava na primeira página dos jornais franceses e na segunda página do Tribune. A história era breve, rotineira e sem propósito. Jack a leu e releu. Despière saíra numa patrulha, tinha havido uma emboscada, atiraram uma granada. Todos os jornais traziam a idade dele errada, por

algum motivo: trinta e dois. Deixava como único parente, segundo os jornais, uma irmã em Bayonne. Seria enterrado, com honras militares, no dia seguinte, em Argel. Despière gostava de soldados e os considerava infantis, e a ideia de um funeral militar o teria divertido. Jack juntou todos os jornais e jogou na cesta de papéis, para não ficar lendo a história várias vezes. O manuscrito do artigo de Despière sobre Delaney estava ainda na mesa, debaixo de um cinzeiro. Jack abriu a gaveta da mesa e o guardou. Despière tinha escrito que queria que fosso destruído, mas Jack ainda não conseguia se forçar a fazer isso. Por enquanto. Pegou o roteiro do filme e procurou concentrar-se nele. Não se trabalharia no sei no dia seguinte, por ser um feriado qualquer. Uma vez na vida, Jack ficou satisfeito com a abundância de feriados na Europa católica. Aliviava um pouco a pressão e lhe permitia preparar-se melhor. Mas as palavras mimeografadas se transformavam num borrão confuso sob os seus olhos e uma lista de nomes batia, um ritmo cansativo e repetido, em sua cabeça — Delaney, Despière. Veronica, Hélène, Carlotta, Barzelli, Clara, Bresach, Delaney, Despière, Veronica, Hélène, Carlotta, Barzelli, Clara, Bresach... “É como uma corrida a um banco”, pensou ele. "Todos os pedidos de pagamento chegando ao mesmo tempo. O ataque é de todos os lados. Nenhum fato e isolado, nem simples, nem claro, nem desligado dos outros fatos.” Ele se forçou a estudar o roteiro na mesa diante dele. Essa era uma das coisas falsas no roteiro. Os fatos se sucediam numa ordem lógica e razoável. Era isso que era falso em todos os filmes, todos os romances, todas as histórias. Eram ordenados, e portanto não eram verdadeiros. O telefone tocou, mas era ligação errada — uma voz americana de bêbado procurando Marylou McClain e recusando-se a acreditar que Marylou McClain não estava lá. O telefone lembrou-lhe que ele tinha prometido escrever a Hélène, explicando o que aconteceu. Ele lhe enviara um telegrama de manhã, mas breve, e, do ponto de vista dela, ele tinha certeza de que era insatisfatório. Pegou papel de carta aéreo e começou a escrever rapidamente, procurando (falsamente) pôr numa ordem compreensível os motivos por que ele tinha de permanecer em Roma. Tinha acabado de escrever "todo o meu amor, Jack", quando alguém bateu. Jack pôs a carta virada na mesa e foi abrir a porta. Bresach estava ali, sem chapéu, encolhido no seu casaco duro, com dois roteiros debaixo do braço. Entrou na sala sem dizer uma palavra, atirou os roteiros no sofá e afundou-se numa poltrona, as pernas estendidas diante dele, as mãos nos bolsos. Parecia estar exausto e animadíssimo. Jack fechou a porta e ficou olhando para ele. Bresach deu um grunhido fatigado. — Posso beber alguma coisa? — pediu ele. — É uma boa ideia. — Jack serviu drinques para ambos. Ficou surpreso ao notar a satisfação com que viu Bresach. Bresach bebeu com sofreguidão. Olhou para o jornal, enfiado dentro da cesta de papéis, e comentou: — O pobre filho da mãe. Despière. Depois de passar por tantas guerras... — Se a gente insistir bastante — interrompeu-o Jack, com cuidado, não querendo dar vazão a suas emoções —, há sempre uma guerra que vai pegar a gente. — Argélia! — resmungou Bresach. — Não sei de quem eu tenho mais pena, se de Despière ou do pobre felá torturado que jogou a granada. Nunca gostei de Despière. Na verdade, eu devia detestá-lo. Se não fosse ele, você nunca teria conhecido Veronica. Mas isso... — Fez fez uma careta. — La gloire... — Você não o conhecia bem — falou Jack. — Os franceses me dão dor na bunda — disse Bresach. — Você sabe o que ele escreveu sobre a Argélia, pouco antes de morrer? — perguntou Jack. — Escreveu que era tudo uma merda, de ambos os lados. — Já disse que os franceses me dão dor na bunda. Não disse que eles não são inteligentes. — Pare com isso — disse Jack, rudemente. — Não quero falar disso. Bresach notou a tensão na voz dele.

— Desculpe. Que diabo, as pessoas morrem. Amanhã, vão lançar a bomba sobre você, sobre mim e minha tia Sally. Se eu tivesse lágrimas sobrando, derramaria uma ou duas pelo francês. Mas já chorei demais. Acordo de noite chorando, estendendo a mão na cama para tocar em Veronica. Choro pelos vivos. Poema romântico, antiquado. — Ele disse aquilo com violência. — Estou cheio de ódio por mim. Dia virá em que não me perdoarei mais por não ter me suicidado. Ah, Cristo... — Tomou um grande gole de uísque. — Não vim aqui para falar disso. Andei pensando no filme. Está interessado em saber o que eu andei pensando sobre o filme? — Estou. — Nunca poderemos fazer com que seja bom, mas poderemos fazer com que não seja de vomitar. Jack riu. Bresach olhou para ele desconfiado. — De que diabo você está rindo? — perguntou. — De nada. O telefone tocou. — Maldito seja — disse Bresach. — Você não pode dar ordem lá embaixo para não o chamarem? Era Holt. — Jack — disse a voz sem expressão, baixa e arrastada —, vou visitar Maurice no hospital. Disseram que eu podia vê-lo por dois minutos, e quero que você saiba o que vou contar a ele. Vou contar sobre a maneira maravilhosa com que você e aquele rapaz tomaram conta das coisas e como estamos todos gratos a vocês dois... — Obrigado, Sam — falou Jack, tocado novamente pela delicadeza inesperada e a graça dos modos de Holt. — Bresach está aqui comigo trabalhando e direi a ele o que você falou. — Quero que você saiba — continuou Holt — que, se houver alguma coisa de que vocês precisem, qualquer coisa que seja, não hesitem em pedir. — Não se preocupe, Sam. Pediremos. — Então? — perguntou Bresach, depois que Jack desligou. — O que é que ele queria? — Queria condecorar a nós dois, e foi o que fez — respondeu Jack. — Agora, o que é que você tem a dizer do filme? — Tudo no seu devido tempo. Primeiro, eu tenho de comer. Passei o dia vomitando e estou morto de fome. Você já comeu? Com surpresa, Jack viu que tinha esquecido de jantar. Eram dez e meia. — Não. — Eu o convido. — Bresach terminou seu drinque e se levantou. — Agora, que vou ser um famoso diretor cinematográfico — disse ele, com ironia —, preciso aprender a começar a pagar as notas. E não posso imaginar uma nota melhor para começar do que a sua. Bresach insistiu em ir jantar no Pasetto. Nunca estivera lá, mas ouvira dizer que era o melhor e provavelmente um dos mais caros restaurantes de Roma. — Eu agora tenho de cuidar da minha situação — disse ele, rindo, ao tomarem o táxi diante do hotel. — Não posso me dar ao luxo de ser visto em qualquer espelunca. Parece que Holt o levara para um canto, durante o dia, e lhe entregara um envelope com cem mil liras. “Para as despesas eventuais”, dissera Holt, diplomaticamente. — O que ele não sabe — disse Bresach — É que eu só tenho duas despesas eventuais: comida e aluguel. Quando se sentaram numa mesa no restaurante apinhado, Bresach passou em volta um olhar crítico e disse: — Você já reparou que, quando os romanos querem tornar um lugar luxuoso, eles invariavelmente recorrem à decoração dos banhos públicos? Também criticou a clientela do restaurante: — Os italianos — examinou as outras mesas com seu

olho crítico — são o povo mais bonito do mundo... até ficarem ricos. — Tome cuidado — disse Jack. — Agora que você começou, há muita probabilidade de vir a ser rico algum dia. — Nunca. Já resolvi o que vou fazer, se algum dia tiver algum dinheiro. Vou esbanjá-lo. Vou me conservar numa pobreza magra e faminta. Ninguém nunca trabalhou bem tendo atrás uma gorda conta bancária. — Você realmente acredita nisso? — perguntou Jack. Bresach riu ao responder: — Em parte. Foi quando Max entrou no restaurante, esfregando as mãos, com um ar gelado e humildemente deslocado, enquanto passava pelo corredor do centro, entre as mesas, à procura de Bresach. Estava com o mesmo paletó grosso que sempre usava e a inevitável echarpe de lã. Bresach acenou e ele se dirigiu à mesa, abrindo caminho entre os garçons. — Você não se importa se Max comer conosco, não é? — falou Bresach. — Esta é uma festa cerimonial, a quebra do longo jejum, e não seria direito se ele não estivesse aqui. — Isso é com você — disse Jack. Max sorriu encabulado e apertou as mãos dos dois antes de se sentar. — Vocês viram aquela exposição de comidas na entrada do bar? — perguntou ele, assombrado. — As pessoas comem assim todos os dias? — De hoje em diante, Max — disse Bresach —, você vai comer assim todos os dias. Vai ficar gordo e repugnante. — Espero sinceramente que sim. Sou guloso por natureza. Bresach insistiu em pedir para os três, franzindo a cara ao menu, enquanto o maître bordejava em volta deles. — Estou desapontado. Pensei que tudo fosse mais caro. Ele pediu ostras, vinho branco e fettuccini com frutas frescas e cinzentas, raspadas por cima, faisão cozido com uvas e uma garrafa de Barolo. — Você vê — disse a Jack. — Ponho minhas teorias econômicas imediatamente em funcionamento. Mas, quando a comida chegou, ele só brincou com ela, elogiando-a, mas comendo muito pouco. Max comeu de tudo com voracidade e um prazer evidente. No meio do jantar, Bresach levantou-se. — Com licença — disse ele abruptamente. — Volto já. Dirigiu-se apressado para o toalete dos homens. — Vai vomitar outra vez — disse Max, sacudindo a cabeça, preocupado. — Começou ontem à noite, depois que você chegou com a notícia, e passou o dia todo assim. Ele me disse que quando era garoto de colégio acontecia a mesma coisa cada vez que havia um exame. — Hoje houve um exame, não há dúvida — disse Jack. — E ele se saiu com notas brilhantes. Parecia o homem mais calmo de Roma o dia todo. — Como eu já disse, ele é um rapaz extraordinário. Tem um poder de autocontrole que é fantástico. — Max parou. — A maior parte do tempo. — Ele deu de ombros. — Ate conhecer Robert, eu sempre pensei que os americanos tivessem nervos de aço. Quando Bresach voltou, vinha muito pálido, a testa coberta de gotinhas de suor. Mesmo assim, pediu café, conhaque francês e grandes charutos para os três. — Esta noite — falou ele — não se regateia nada. Não foi Bismarck que disse que o homem não deve morrer até ter fumado cem mil bons charutos? Ainda me faltam alguns. Recostou-se na banqueta estofada, o charuto parecendo muito grande para seu rosto magro, puxado, de menino. — Estou fazendo o máximo — continuou ele — por parecer grosso e complacente, para que o

garçom seja polido da próxima vez que eu vier. Agora, Jack, aos negócios. Até que ponto você está disposto a chegar para tornar respeitável esse filme de Delaney? — Bem longe — respondeu Jack. — Se ficar bom, faria mais bem a Delaney do que todo aquele oxigênio que ele está tomando. — Exatamente — concordou Bresach. — Você estaria disposto a pedir a Holt e Tucino mais uma semana de filmagem com Stiles e Barzelli? — Custaria um bocado de dinheiro — falou Jack, com cuidado. — E eles já estão atrasadíssimos ... Eu teria de ter motivos muito convincentes. Em que você está pensando? — Uma coisa que estou pensando é fazer Stiles dublar a si mesmo. Depois do que ele mostrou hoje... Olhe, Jack, acho que posso falar francamente com você. Você tem muitos defeitos, mas a vaidade não parece ser um deles. — Não precisa florear. O que você quer dizer? — Esta tarde, eu ouvi todas as cenas que você dublou para Stiles, Jack. Não está mau, mas não está suficientemente bom. Não estou querendo ofendê-lo — disse ele depressa. — Você compreende isso, não? — Compreendo. Não estou ofendido. — Você não é mais ator — continuou Bresach. — Você é um homem inteligente e trabalhador, com uma boa voz, que parece estar sempre prestes a ser um ator, mas que nunca chega a atravessar a fronteira. Razoável? — Razoável — concordou Jack. — E mesmo que você fosse ator, não é Stiles, é melhor do que Stiles, é claro, no que ele fez até agora, mas isso porque ele foi horrível demais. Delaney congelou o pobre filho da mãe bêbado de tal modo que ele nunca conseguiu dizer uma palavra certa. — O que você sugere? — Sugiro que o descongelemos — disse Bresach calmamente, soprando uma imensa nuvem de fumaça de charuto. — Desalcoolizemos e descongelemos numa só operação. — E como é que você acha que vamos conseguir fazer isso? — perguntou Jack. — Li o roteiro de Sugarman essa noite — disse Bresach, parecendo ignorar a pergunta de Jack. Ele tocou os roteiros encadernados que estavam na cadeira a seu lado. — Consegui que Hilda o desencavasse para mim. Queria ver como era a história antes de Delaney mexer em tudo. Achei que talvez pudesse encontrar uma ceninha ou duas que pudessem ajudar Stiles... — Bom, e o que foi que encontrou? — Corrupção, naturalmente — respondeu Bresach. — Isso é o que encontrei. No roteiro de Sugarman, a história é do homem, mas Delaney se apaixonou por Barzelli e mudou tudo. Só que a história não aguenta isso. Esse o motivo por que temos todas aquelas cenas tristes com Barzelli no centro, sem nada fazer, só penteando o cabelo ou olhando expressivamente para fora da janela ou se despindo e mostrando as pernas bonitas, matando o filme. E o que Delaney conseguiu arrumar para Stiles foi só fazêlo andar como sonâmbulo pelo filme, como um São Bernardo melancólico, ansioso, dizendo: “Eu te amo. Estou triste. Eu te amo...” — Bresach fez um barulho demonstrando sua repugnância. — Encontrei muito mais do que uma ceninha no roteiro de Sugarman. A metade do tempo ele fazia o homem embebedar-se e se ridicularizar, dizer o oposto do que queria, tratar mal a garota e de testá-la muito mais do que a amava. É um bom papel, e Stiles pode representá-lo admiravelmente. — Se ele ficar sóbrio, talvez — disse Jack. — Você sabia que nas duas primeiras semanas da filmagem Stiles nada bebeu? — Não, não sabia disso. — Pois não bebeu. Depois ele viu o que Delaney estava fazendo com ele e desistiu. Bom, se ele o fez nas duas primeiras semanas, pode fazê-lo nas duas últimas. Se estiver convencido de que vai lucrar

alguma coisa com isso. — E como vamos convencê-lo? — Incluindo o máximo das cenas velhas, ou filmando falas avulsas e close-ups e encaixando-os onde pudermos. E mesmo as cenas que não pudermos mudar, podemos redublar com Barzelli e Stiles, mas com um ajuste completamente diferente. Bêbado, escarnecendo de si, amargo... E, sempre que não pudermos fugir das falas antigas e elas forem ruins demais, podemos ter música ou o barulho de trens ou qualquer raio de coisa no fundo, de modo que o pior ficará abafado. Provaremos a Stiles que estamos falando sério, que estamos trabalhando por ele, para conservá-lo no negócio de cinema, que confiamos nele e achamos que ele pode fazê-lo... Enquanto escutava, conservando sua expressão vazia e sem se comprometer, Jack sentiu-se contagiar pelo entusiasmo do rapaz, sua astúcia, sua impressão nervosa e quase intuitiva do que havia de errado com o filme e como poderia ser endireitado, seu desejo de fazer bem o trabalho deles. De repente, Jack sentiu-se exaltado, sem fadiga, feliz de estar sendo carregado por uma torrente de ideias para melhorar o filme. A última vez em que sentira qualquer coisa assim, ele percebeu, fora nos velhos tempos antes da guerra, quando ele e Delaney tinham ficado acordados noite após noite, discutindo, berrando, rindo, excitados, trabalhando juntos. — Está bem — concordou ele. E apontando os dois roteiros na cadeira: — Mostre o que você acha que podemos fazer. Bresach colocou os roteiros na mesa com mãos trêmulas. — Nós começamos... — Ele se levantou. — Com licença. Tenho de me aliviar outra vez. Apressou-se pelo restaurante para o toalete dos homens. — Coitado — disse Max, com tristeza. — Toda essa boa comida. Quando Bresach voltou, estava pálido, mas mais calmo. Sentou-se ao lado de Jack e eles começaram a examinar os dois roteiros, página por página. Passava da uma hora quando eles terminaram. As luzes em outras partes do restaurante tinham sido diminuídas e o garçom deles estava dormindo em pé, encostado a uma coluna. — Está bem — concordou Jack. — Pedirei a Holt que nos dê mais tempo. Agora mesmo. — Ele foi ao telefone e ligou para o número de Sam Holt. Atenderam prontamente e era a voz de Holt, viva e agradável, que disse: “Alô?” Jack explicou brevemente o que ele e Bresach tinham estado fazendo e consultou-o a respeito de mais uma semana de filmagem. — Você garante que valerá a pena? — perguntou Holt. — Numa coisa dessas — respondeu Jack —, ninguém pode garantir nada. Só posso dizer é que acho que vale a pena. — Isso basta, para mim, Jack — disse Holt. — Terá a sua semana extra. Não desligue. Tenho mais notícias para você. Fui visitar Maurice hoje e ele disse que tinha lido um novo roteiro desse rapaz, Bresach. Disse que é ótimo e que ele quer fazê-lo como seu próximo filme, quando sair do hospital. Você já o leu, Jack? — Já. — Você concorda que vale a pena fazê-lo? — Vale muito a pena fazê-lo. — Bom — disse Holt. — Diga ao rapaz que quero falar com ele a uma hora qualquer no meu escritório amanhã para combinar as condições. Estarei lá o dia lodo. Quer dizer isso a ele? — Sim. Boa noite, Sam. — Jack voltou para a mesa, que, a essa altura, estava cheia de cinzas de charuto e pedacinhos de papel. Max e Bresach tinham pedido ao garçom que lhes servisse um último conhaque. — Está certo — disse Jack. — Holt vai nos dar a semana.

— Por que não? — disse Bresach, com displicência. — É só dinheiro. — Ele se levantou. — Max, vamos dormir. — Mais uma coisa — falou Jack. — Ele quer que você vá ao escritório dele a qualquer hora, amanhã. Delaney disse a ele que quer comprar seu roteiro e fazer o filme. Holt quer fazer o acordo com você. — Robert — disse Max, entusiasmado. — Você ouviu isso? — Ouvi — respondeu Bresach. — Estúdios Leito de Agonia, o novo colosso da indústria. — Você vai fazer o negócio, não vai? — perguntou Max. Bresach bebeu o resto do seu conhaque. — É possível. — Ele olhou para Jack, estudando-o. — Delaney conversou com você a respeito disso? — Um pouco. — O que foi que ele disse? Jack ficou com pena de Bresach ter feito essa pergunta, mas se forçou a dar uma resposta honesta. — Disse que, com algumas mudanças que ele tinha em mente, pode ser a melhor coisa que ele já fez. — Ele pretende fazer mudanças? — Disse que tinha mil ideias. Dar-lhe o velho toque Delaney. — Oh, Cristo! — exclamou Bresach. — E ele quer dirigi-lo pessoalmente? — Quer. — Mesmo assim — disse Max —, é uma oportunidade boa demais para deixar escapar, Robert. Bresach empurrou seu cálice de conhaque vazio pela mesa, como um homem fazendo uma jogada de xadrez. — Andrus — falou ele —, você tem alguma coisa a dizer a respeito? — Não no momento. Bresach concordou com a cabeça. — Não no momento — repetiu ele. Começou a andar. — Vamos sair daqui. Ainda temos muito trabalho a fazer amanhã. Venha à minha casa. Lá não há telefone para nos incomodar. Não gosto de trabalhar no seu hotel. Ali há um insistente fedor de traição. Jack não fez caso da indireta. — Estarei lá ao meio-dia. Nós dois estamos precisando de um bom sono. Calados, eles passaram pelo garçom sonolento e saíram para a rua. Estava frio, ventava, e Max recomendou a Bresach, como uma solteirona: “Abotoe o casaco.” — Bom — disse Bresach, respirando fundo. — Não foi um mau trabalho, o dessa noite. — Ele esfregou os olhos, cansado. — Vou dizer alguma coisa sobre você mesmo, Jack. Tenho pena de você ser esperto como é e decente como é. Está ficando cada vez mais impossível detestá-lo. — Ele riu, pálido e de olhos fundos na luz fria das lâmpadas da rua. — Se tiver notícias de Veronica, diga-lhe que venha visitar o estúdio um dia desses. Ela me verá em toda a minha glória de lata. Talvez seja disso que estou precisando para não vomitar. A face do amor.

23 O telefone tocou, como sempre, às sete da manhã, para acordá-lo. Aturdido, ele se levantou da cama e preparou-se para fazer a barba. Só quando já estava ensaboando o rosto é que se lembrou de que não ia ao estúdio naquele dia. Ficou olhando com olhos turvos para sua imagem no espelho, a espuma fazendo-o parecer barbado, como um velho suspeito, alquebrado e desfigurado por uma vida dissipada. Lavou a espuma, enxugou o rosto e tomou a olhar para sua cara. Não parecia mais um velho, mas o rosto estava desagradavelmente enrugado, debaixo dos olhos, e doentiamente pálido. Aborrecido por não terse lembrado de cancelar a ordem para chamá-lo, na noite da véspera, voltou para a cama. Forçou-se a ficar deitado por mais uma hora, mas não conseguiu dormir, e por fim levantou-se e pediu o café. Não abriu os jornais que o garçom trouxe, com medo de haver neles alguma coisa a respeito do enterro de Despière. Quanto menos ele pensasse em Despière, naquele dia e nos dias seguintes, melhor para o controle de seus nervos. Enquanto tomava café, ocorreu-lhe que ainda tinha de esperar quase quatro horas para o seu encontro com Bresach. Pensou nos outros hóspedes do hotel, tomando café da manhã, com ele, àquela hora, em seus quartos, preparando-se para sair e aproveitar as maravilhas da cidade. “Hoje, por algumas horas, também eu vou ser turista. Pode ser a última oportunidade que eu terei.” Foi para a mesa e pegou o velho Baedeker 1928 e colocou-o na mesa, à sua frente, enquanto tomava o café e comia o pão doce. A ideia de fazer turismo em Roma, mesmo por uma manhã, com o auxílio de um guia publicado em 1928, era agradável. Na prosa dura e decorosa, a cidade de trinta anos atrás parecia mais ordenada, mais descansada, mais substancial do que a cidade de hoje. Naquela, nada de muito ruim poderia acontecer. O único perigo verdadeiro em 1928, ao que parecia, era a possibilidade de se exagerar na gorjeta aos nativos. Ele leu ao acaso. No capítulo “Igrejas e Institutos de Cultura”, havia um parágrafo intitulado “Guias-conferências” (ingleses ou de idioma inglês), Prof. L. Reynaud, Via Flavia, 6; Signora P. Canali, Via Vittorio Veneto, 146; Mr. T. B. Englefield, Via Cesare Beccaria, 94; Miss Grace Wonnacott, Via dei Gracchi, 134... “É disso que preciso, nesta cidade, um professor-guia (inglês ou de idioma inglês) para me explicar tudo.” O que teria a dizer a Signora P. Canali, depois daqueles trinta anos, sobre seus contemporâneos Veronica Rienzi, Barzelli e Tucino? Como é que Miss Grace Wonnacott, aquela senhora inglesa da Via dei Gracchi, 134, descreveria aquele complexo descendente de imigrantes irlandeses, Maurice Delaney? “Mostre-me os monumentos, Mr. T. B. Englefield, mostre-me as pedras em que estão sepultados o amor e a ambição, leve-me aos locais exatos em que ocorreram o estupro e a crucificação, onde foram dados os últimos gemidos, onde se elevaram os brados de triunfo, onde os reis marcharam diante de seus assassinos, onde os gladiadores divertiram as multidões. Tenho amigos que divertem as multidões, de maneira não muito diversa, e que também pagam um preço extremo quando perdem.” Ao acaso, Jack virou a página. PLANO DE VISITA Segundo dia. Passeio a pé de Sant'Onofrio per la Passeggiata Margherita para San Pietro in Montorio, e ali aguardar o pôr do sol... E ali aguardar o pôr do sol. “Que paz”, pensou Jack, tomando seu café, “aguardar o pôr do sol em 1928 em San Pietro in Montorio.” O telefone tocou. Um ruído metálico, impaciente, como se a telefonista tivesse dormido mal na

véspera e estivesse irritada com o mundo naquele dia. Jack inclinou-se e pegou o fone. Era Carlotta. — Desculpe ligar tão cedo — disse ela, falando depressa, amontoando as palavras —, mas eu queria pegar você antes que saísse. Ainda não me deixaram entrar para ver Maurice, e eu queria saber... — Ele está bem — interrompeu-a Jack. — Recebeu suas rosas. — Jack, não seja tão ríspido comigo. Por favor. Quero ver você. É ridículo, nós dois no mesmo hotel, depois de tantos anos... Quer me levar para almoçar? — Não posso. Tenho um compromisso ao meio-dia. — O que você vai fazer agora? — Turismo. — Onde? — À Capela Sistina. — Foi a primeira coisa que lhe veio à cabeça. — Que coisa extraordinária — disse Carlotta. — É lá mesmo que eu vou hoje de manhã. — Quando você resolveu isso? — Há dois segundos. — Ela riu. Seu riso era controlado e amigo. — Posso ir com você? “Por que não?”, pensou Jack. “Tudo já me aconteceu em Roma, posso bem visitar a Capela Sistina com minha ex-mulher.” — Estarei no saguão dentro de quinze minutos — disse ele. — Você se apronta? — Claro. Você deve lembrar-se de como eu me visto depressa. “Lembrar”, pensou Jack desligando. “As mulheres usam essa palavra como um chicote.” Ele foi para o banheiro e, pela segunda vez naquela manhã, pôs na cara o disfarce de espuma, de velho. Ela estava no saguão quando ele saiu do elevador. Conversava com outra mulher e não o viu logo, e ele teve a oportunidade de estudá-la e observar o que os anos lhe tinham feito. Ela tinha engordado e perdido a velha nitidez palpitante do rosto. Sua beleza tinha diminuído, mas sem deixar marcas de amargura. Por alguma mágica do tempo, a mulher neurótica e nervosa que ela era da última vez em que ele a viu se transformara numa matrona robusta e jovial. Olhando para ela, a conversar animadamente com a outra mulher, Jack pensou que, se lhe pedissem para descrevê-la agora, ele usaria um termo antiquado, “uma mulher bem parecida”. Seu cabelo, que tinha passado pela gama normal das cores de Hollywood, tinha agora o aspecto de louro desbotado e natural, ela enchia, talvez um pouco demais, com uma generosidade de carnes fora de moda, seu elegante vestido cinza escuro. Olhando para o rosto risonho, firme e cheio, e para o corpo por demais feminino, Jack lembrou-se de que, uma vez, uma francesa lhe dissera que as mulheres de mais de trinta e cinco anos têm de escolher entre a cara e o derrière. Ou a gente fazia dieta e ginástica, dissera a mulher, e conservava o traseiro magro e permitia que o rosto ficasse desfigurado e enrugado, ou optava pelo rosto e deixava o traseiro expandir-se. Carlotta evidentemente optara pelo rosto. “E com sabedoria”, pensou Jack. Quando ele se aproximou dela, a função de apresentações à outra mulher, uma Princesa Miranello, que tinha um lábio inferior saliente, gengivas salientes e um sotaque de Back Bay, tomou o encontro convencional e sem constrangimento. — Eu a encontro à uma hora para almoçar — disse Carlotta à outra mulher. — Em todo caso — disse a princesa, fazendo para Jack uma cara que ele imaginou ser maliciosa —, se você tiver um convite mais interessante... — Não tenho convites mais interessantes — disse Carlotta. — Até à uma. — Pôs a mão de leve no braço de Jack e eles saíram do hotel juntos. — Quem é a princesa? — perguntou Jack.

— Maggie Fahnstock, de Boston. É uma velha amiga minha. Sabe tudo sobre você. Acha que é muito comovente nós nos encontrarmos assim, em Roma, depois de tanto tempo... — O tom de Carlotta era leve e divertido. — Você está muito comovido? — Muito — disse Jack. Viu Guido esperando ao lado da Fiat do outro lado da rua e acenou para ele. Guido pulou para dentro do carro e começou a dar a volta no tráfego para chegar ao hotel. — Ela já o viu uma vez — disse Carlotta. — Num restaurante, outra noite, com dois homens. Ela o examinou com atenção. Disse que você tem cara de ser um homem feliz. — A velha Maggie — disse Jack. — Essa excelente julgadora de personalidades. — Ela também o achou muito bonitão — disse Carlotta, sem coqueteria. — Disse que você parecia que ainda estaria em forma por mais uns vinte anos. Perguntou por que eu o deixei. — O que você respondeu? — Disse que não fui eu quem o deixou. Você é que me deixou. — É assombroso — disse Jack. — Quantas opiniões diferentes as testemunhas oculares podem ter do mesmo acidente. Guido chegou e ajudou Carlotta a entrar no carro. — Cinecittà? — perguntou Guido. — San Pietro — respondeu Jack. Guido olhou pelo espelho retrovisor, para se certificar de que Jack não estava brincando. Depois, tranquilizado, engrenou o carro e saiu pela rua. A caminho do Vaticano, Carlotta falou de si. Falava num tom de conversa, amigável, como se Jack fosse um velho conhecido e nada mais que isso, com quem ela podia conversar livremente, sem complicações. Ela tinha se casado com Kutzer, o chefe do estúdio, disse ela a Jack, depois que seu divórcio de Jack se tornou definitivo. Jack balançou a cabeça. Tinha lido a respeito e tinha pensado se devia ou não mandar um telegrama. Não mandara o telegrama. Kutzer se divorciara da mulher, dando-lhe quase um milhão de dólares, e se casara com Carlotta. — Eu estava na lama — disse ela, mas sem expressão. — Estava desesperada por sua causa. Só conseguia arranjar papéis degradantes e a minha reputação era tão má que, até em Hollywood, só recebia convites para festas de bêbados, homossexuais e viciados em drogas. — Ela riu, sem pesar ou autocrítica, como uma mulher falando a respeito de algum fracasso inocente de que se lembrava, de sua infância. — Ele foi o homem mais fiel que já conheci. Fui a garota dele por sete anos e depois ele esperou quase dez anos mais para eu acabar com você e, em todo o tempo em que fiquei com você, ele nem pegou minha mão nem me falou de nada que não fosse do trabalho, quando eu estava no estúdio. Depois, um dia, ele me chamou e disse que era um absurdo eu me arruinar daquele jeito e que queria casar comigo. Eu estava com uma ressaca medonha naquele dia e faria qualquer negócio para que me deixassem em paz, de modo que concordei. E quando acabamos ele me deu os anos mais felizes de minha vida, até morrer. Você soube disso, não soube? — Soube — disse Jack. Ele tinha lido nos jornais, dois ou três anos antes, que Kutzer tinha morrido de repente, quando subia as escadas para seu escritório, uma noite depois do jantar. Taciturno, brutal, inteligente, rico, fiel, com excesso de trabalho. Mil pessoas compareceram ao enterro dele, a maioria contente por ele estar morto. Os anos mais felizes da vida de Carlotta... — As pessoas têm diferentes períodos de suas vidas em que são feitas para serem felizes — disse Carlotta. — Algumas pessoas entre os vinte e os trinta. Outras entre os trinta e os quarenta. Outras nunca, suponho. Descobri que fui feita para ser feliz depois dos quarenta. — Sorte a sua — disse Jack. — E você? — perguntou ela. — Qual o seu melhor período? O melhor período. Seria fácil dizer. A partir da noite do cachorro e o Cadillac no jardim, passando pelas manhãs no jardim da Califórnia e os telefonemas de Delaney, aquele Delaney diferente,

exuberante, inteiro, e terminando com a guerra. Mas ele não o disse. Tinha passado, e não adiantava remoer aquilo. — Ainda não calculei — disse ele. — Você ficou espantado quando eu disse que fiquei desesperada quando nos separamos? — perguntou Carlotta. — Um pouco. — Como achou que eu fiquei? — Bem — disse Jack —, se eu tivesse de definir com uma palavra, essa palavra seria "gananciosa”. Carlotta desviou o olhar dele, olhando pela janela. — Não é uma palavra muito bonita, é? — Não. Não é. — Eu não queria que você fosse embora — disse Carlotta, virando-se para ele outra vez, olhando para ele séria. — Os advogados sugeriram que, se eu fizesse com que aquilo lhe custasse muito caro, você poderia pensar mais, poderia não agir apressadamente... — No amor — disse Jack —, é sempre bom ouvir os advogados. — Não caçoe de mim, Jack. Você me disse no telefone que não me detestava. — Eu nada disse, porem, de não detestar seu advogado. É uma coisa engraçada, parece que não me lembro. Mesmo quando você viu que eu não ia voltar, não me lembro de que você tenha telegrafado, dizendo que era tudo um golpe, que ia devolver meu dinheiro... — Eu queria castigá-lo. E a essa altura eu já estava muito enterrada. E estava preocupada com dinheiro. Nunca economizei nada e estava caindo. Um homem sempre consegue se ajeitar. — Eu me ajeitei maravilhosamente bem. Há anos em que consigo até comprar dois ternos por ano. — Eu tinha que ter segurança — disse Carlotta, e por um momento sua voz soou emburrada, queixosa, e fez Jack lembrar-se do hospital na Virgínia. — Do jeito que as coisas estavam indo naquela ocasião, mais dois anos e eu teria passado a ser uma prostituta — disse ela. — Oh, não uma dessas de esquina ou de alguma casa, mas assim mesmo prostituta. — Ela deu um sorriso brutal. — Suas ações me salvaram disso. Wall Street algum dia fez melhor ato de bondade do que esse? Você devia estar encantado de ter podido me salvar. — Estou — disse Jack, sem expressão. — É o que estou, encantado. — Não preciso mais de dinheiro. Kutzer providenciou isso. De modo que, se você estiver em dificuldades, sabe que pode me procurar para um empréstimo. Jack riu. — Como quiser — disse ela, dando de ombros. — Não me procure. Escute, Jack, você não vai me magoar. Eu lhe disse, é o meu período de ser feliz. — Sou conhecido como um homem que gosta que todas as suas esposas sejam felizes. — Você está agressivo, Jack. Eu esperava que fosse diferente. Esperava que, quando nos encontrássemos, pudéssemos ser amigos. Afinal, depois de tantos anos... Jack ficou calado. — Você não gosta da palavra “amigos” — disse ela. — Nem gosto nem desgosto. — Isso não me fere. Não fico mais ferida. Mas, até você aprender a pensar em mim como sua amiga, você nunca será completamente feliz. — Se você adotou a ciência cristã — disse Jack —, o lugar é próprio para isso. São Pedro está olhando para nós. — Não importa o que você pense, estou contente de ter tido essa oportunidade de vê-lo. Pedir

que me perdoe... — Onde começo? — disse Jack, com brutalidade. — ...por aquele dia no hospital na Virgínia — disse Carlotta, ignorando a pergunta dele. — Aquilo tem me perseguido. Foi o pior desempenho da minha vida. Fui lá para reconfortá-lo, para lhe prometer que tudo estaria bem quando você saísse, para dizer que o amava, e depois, quando o vi, sentime tão culpada que não consegui dizer uma palavra do que tinha preparado. Deixei-me ser uma puta egoísta, estúpida e chorona. Eu sabia o que estava fazendo e não consegui evitá-lo. Chorei o tempo todo na volta para Washington, no trem. — Foi uma viagem curta — disse Jack, sem se comover. O carro parou e eles saltaram. Jack disse a Guido, em francês, para esperá-los, que provavelmente não demorariam. — “Sobre esta pedra construirei a minha Igreja” — disse Jack, quando ele e Carlotta atravessaram a piazza de colunas e ladearam a catedral para a capela. — O livro — disse Jack, tocando o Baedeker — diz que a melhor luz para se ver a capela é a da manhã. — Ele apertou os olhos, olhando para cima criticamente através do cinza do inverno. — Talvez eles queiram dizer uma manhã de junho. Vamos a toda parte na hora errada, não é? Ele tinha estado ali duas vezes, em outras visitas, mas ambas as vezes o lugar estava muito cheio de gente e o efeito das pinturas tinha sido perturbado pela sua consciência dos turistas arrastando os pés e cochichando em volta dele. Naquele dia, havia muito poucas pessoas ali, dois homens de preto sentados quietos nos bancos de lado e um ou dois estudantes andando de vez em quando pelo chão nu. Agora, ele sentiu todo o impacto da saia. O efeito não era como o que qualquer outra obra de arte tivera nele. Era como olhar para a cratera profunda de um vulcão, momentaneamente tranquila, mas secretamente perigosa, imprevisível, explosiva, debaixo de sua superfície calma. O efeito também não era religioso. Na verdade, ele chegou à conclusão de que era antirreligioso. Ele podia acreditar em Michelangelo depois de olhar para o teto da capela, mas não podia acreditar em Deus. A carne, anunciavam as pinturas, a carne. O homem é carne, Deus é carne, o homem faz o homem, o homem faz Deus, todos os mistérios são iguais, as sibilas e os profetas são igualmente certos, igualmente errados, acreditem em qualquer deles a seu risco. No pergaminho da sibila délfica, se nossos olhos fossem suficientemente penetrantes para distingui-lo, está a mesma mensagem que cobre as páginas do livro de Zacarias — “Estou adivinhando”. E na parede atrás do altar, os corpos dos atletas idosos contorcendo-se no Juízo Final, abaixo da figura sombria de Cristo ao alto sob a abóbada, repetiam uma mensagem semelhante. As almas salvas à direita de Cristo não se distinguiam, por qualquer marca de mérito ou santidade, das almas danadas sendo arrastadas para o inferno, à esquerda de Cristo. A salvação era o capricho do porteiro que estabelecia o plano de lugares no último dia. A pintura lhe lembrou outra pintura — Ticiano? Tiepolo? — que certa vez ele vira em Milão. Era chamada La fortuna, se ele se lembrava bem, acaso, sorte, destino, e era de uma bela mulher caminhando, com seu seio esquerdo desnudo. Do bico do seio nu jorrava um jato de leite que estava sendo bebido por um grupo de homens felizes e sorridentes, os afortunados da vida. Alimento encantador, irrisório e arbitrário. Mas, à direita da bela mulher, havia um grupo de homens em agonia, que estava sendo conduzido, espancado por um chicote que a mulher segurava na mão direita. Os desafortunados. Os que entraram na hora errada ou compraram o bilhete errado e que receberam a teta direita e o chicote. Igualmente arbitrário. “Ponha isso em sua igreja”, pensou Jack. “Faz tanto sentido quanto o outro. Intitulo-o Primeiro e Último e Único Juízo Importante e encha o altar diante dele de oferendas votivas.” Olhando para a imensa pintura escura de Michelangelo, Jack lembrou-se, mais do que de qualquer outra coisa, de fotografias que vira, logo depois da guerra, de milhares de mulheres nuas

desfilando diante de médicos das SS nos campos de concentração da Alemanha. Os médicos examinavam as mulheres rapidamente, resolviam em dez segundos se serviam para o trabalho ou para qualquer outra finalidade de que os alemães precisassem e faziam uma marca. As mulheres que eles tinham salvo eram colocadas numa fila e viviam aquele dia. As mulheres que eles mandavam para a outra fila eram enviadas para os fornos. “Talvez”, pensou Jack, olhando para o turbilhão enfumaçado de corpos por trás do altar, “Deus seja um médico SS e Michelangelo tivesse informações prévias.” Pensou em Despière, nascido e batizado católico em Bayonne e sepultado como católico naquela manhã, na África, e a ideia de Despière, ou a alma de Despière, estar sujeito, naquela manhã ou em qualquer manhã, a essa seleção imprecisa e grotesca lhe pareceu intolerável. — Para mim, basta — disse Jack a Carlotta. — Espero você lá fora. Ela tinha ficado junto dele, calada, olhando pelos óculos para o teto. Seu rosto estava sério e intrigado. — Para mim também — disse ela. — Vou com você. — Tirou os óculos, guardou-os na bolsa, e eles atravessaram o chão nu e saíram juntos, sem dizer uma palavra. O céu estava escuro quando saíram; e a piazza, cinzenta e melancólica na luz baça. Ficaram diante da fonte e olharam para o vulto enorme de São Pedro. — Tive uma sensação curiosa, lá dentro — disse Carlotta. — Tive a impressão de que Michelangelo não acreditava realmente em Deus. Jack olhou para ela de repente. De imediato, pensou se teria falado alto na capela, sem perceber. — O que é? — perguntou Carlotta. — Por que você está olhando assim para mim? — Porque foi isso que eu pensei também — disse Jack. — As pessoas casadas — disse Carlotta. — Depois de alguns anos começam a ter os mesmos pensamentos nas mesmas ocasiões. É a fidelidade final. — Não somos casados. — Desculpe — disse Carlotta. — Esqueci. — Por um momento, sem jeito, ambos ficaram olhando para a catedral. — Quantas pessoas, das que ajudaram a construir essa igreja, você acha que realmente acreditavam? — Provavelmente a maioria — respondeu Jack. — A idade da fé... — Não sei — disse Carlotta. — É difícil dizer, pela obra deles. Por exemplo, ali dentro, aquelas cenas da Bíblia. O Moisés de Botticelli ajoelhado junto ao arbusto em fogo. Mas Botticelli também pintou a Vênus nascendo da espuma. Em que ele acreditava? No milagre do arbusto em fogo ou no milagre do nascimento de Vênus do mar? Por que um mais do que o outro? Em que é que você acredita? — Quando éramos casados, em que é que você pensava que eu acreditava? — Ora, imagino que você supusesse que havia um Deus, de alguma espécie... — Talvez ainda creia — disse Jack, pensativo. — Existe um Deus. Sim, acredito nisso. Mas não acho que ele tenha qualquer interesse por nós. Ou, pelo menos, não lhe interessa que qualquer religião diga que ele tem. Isto é, não afeta a ele que assassinemos nosso semelhante, ou honremos pai e mãe, ou cobicemos a mulher do próximo. Não me posso sentir assim tão importante. Se existe um Deus, talvez ele seja um cientista, e este mundo seja um de seus laboratórios, em que ele pratica a vivissecção e observa os resultados de experiências químicas. Por que não? Somos cortados em vida, somos envenenados, morremos aos milhões, como macacos nos laboratórios. — Ele falava com selvageria, permitindo que a amargura que ele sentia por causa da morte inútil de Despière se extravasasse. — O macaco que morre porque é usado como cobaia e não é vacinado contra uma doença certamente não é mais pecador do que o macaco que foi protegido e tem apenas uma febre baixa por alguns dias. Talvez sejamos os macacos de Deus e soframos e morramos para sua informação. E o remorso que sentimos de vez em quando, ao transgredirmos o que consideramos os seus mandamentos, pode ser apenas outro vírus interessante que ele conseguiu isolar e controlar. E a fé pode ser apenas um efeito secundário ou sintoma do vírus do

remorso, como a urticária de gente que não tolera a penicilina. Carlotta estava séria quando disse: — Não gosto de ouvir você falar assim. É muito sombrio. — Na verdade, não é tão sombrio quanto o cristianismo. Afinal, você acredita na vivissecção, não é? — Não tenho tanta certeza. — Claro que sim. Se uma criança no mundo for salva pela morte de um milhão de macacos, você acha que é um bom negócio, não acha? — Creio que sim — disse Carlotta, relutante. — Bom, não é mais agradável acreditar nisso do que crer que vamos ser condenados ao castigo eterno por características que não podemos controlar e que são inerentes ao animal humano, como seus olhos e orelhas e os cinco sentidos? Pelo menos assim podemos esperar que haja algum propósito por trás de tudo isso, que em alguma parte no universo algum proveito advirá devido aos nossos sofrimentos. Até hoje, pudemos crer que as experiências dos cientistas tivessem objetivo útil e construtivo. Agora, naturalmente, com a bomba de hidrogênio, guerra biológica e lodo o resto, não temos tanta certeza. Hoje, um cientista é suspeito. E com razão. Afinal, a julgar pelos prejuízos que causou à humanidade, uma boa parte da comunidade científica devia ser trancafiada por ser criminosamente louca. Mas ainda podemos esperar que Deus seja um cientista pré-1940, cuja mão talvez tenha errado um pouco, mas cujas intenções ainda sejam razoáveis. Só que as razões de Deus, naturalmente, não devem ser confundidas com as nossas, assim como as razões do experimentador não podem ser confundidas com as do macaco, esquartejado na mesa. Carlotta estremeceu, no seu casaco leve de pano. — Detesto essas conversas. Vamos voltar para o carro. Jack pegou o braço dela e dirigiram-se para onde o carro estava estacionado. — Você achava isso tudo o tempo todo? — perguntou Carlotta. — Mesmo quando eu o conhecia? — Não — respondeu Jack. — Acho que só na última semana, por aí. Desde que vim para Roma. Passei a um novo departamento de minha Vida. Umas coisas curiosas me aconteceram nessas duas semanas. — Se eu fosse você, me afastaria dessa cidade, de agora em diante. — Talvez... talvez. Antes de entrarem no carro, onde Guido, alerta e educado, estava de pé, com a porta aberta, Carlotta virou-se e olhou pela última vez a São Pedro. — Tantas igrejas — disse ela —, por todo o mundo, e tudo por nada, por uma mentira, um sonho... Que desperdício! Jack sacudiu a cabeça e disse: — Não é desperdício. — Mas você acabou de dizer... — Eu sei o que acabei de dizer. Não obstante, não é desperdício. Nem que fosse só por isso — Jack fez um gesto para a massa da igreja. — Mas se a única coisa que tivesse resultado de todo o processo fosse o que Michelangelo fez ali, teria valido a pena. E, naturalmente, há muito mais do que isso. Não só as coisas concretas, as pedras, estátuas, vitrais, pinturas, mas o consolo que deu nesse mundo aos fiéis... — Os fiéis — repetiu Carlotta. — Presos por uma mentira. — Não presos — disse Jack. — Enobrecidos. Eu os invejo, invejo todos os verdadeiros crentes, de coração. — Então por que você não tem fé? Não está precisando de um pouco de consolo também? — Por que eu não tenho fé? — Jack deu de ombros. — “Tenha fé”, dizem eles. É o mesmo que dizer: “Seja belo.” Eu também gostaria de ser belo... Ficaram ali mais um pouco, olhando através do espaço vazio da piazza de pedra. Estava

ventando, um vento frio e cortante, e umas freiras se apressavam para as escadas da catedral. Pareciam estar flutuando pela calçada, em seus hábitos esvoaçantes. — Vai chover — disse Jack. — Estou com pena de termos vindo. Foi a manhã errada. Vamos voltar para Roma. No carro, de volta para o hotel, ficaram calados a maior parte do trajeto. Carlotta ficou sentada num canto, com uma expressão pensativa e séria, sem olhar para Jack. Depois, ela falou: — Sabe por que eu nunca lhe falei sobre religião? Porque a religião para mim está misturada com a morte. E não suporto pensar na morte. Você pensa muito na morte? — Durante a guerra, eu pensei um bocado. E recentemente, desde que vim para Roma. Carlotta tirou as luvas. Olhou para as mãos e devagar acariciou uma com a outra. — Esta carne — disse ela, baixinho, e Jack sabia o que ela queria dizer com o gesto e por que tinha pronunciado as palavras. Ela estendeu a mão esquerda, pegou a dele e se agarrou a ela. — Jack, me leve para jantar hoje, por favor? Não quero ficar sozinha hoje à noite. — Não acho que seja boa ideia — disse Jack, o mais delicadamente que pôde. Ele podia dizer que tinha um compromisso, mas queria que ela soubesse que a recusava de propósito. Ela tirou a mão de repente. — Desculpe. — Tornou a calçar as luvas, alisando as rugas com cuidado. “Quantas vezes”, pensou Jack, “eu já vi essa mulher fazer esse ato simples, de todo dia, vaidoso, cativante, feminino... Quantas viagens, grandes e pequenas, felizes e infelizes, foram apresentadas por esse barulhinho seco, de folha, de mulher.” — Jack — começou ela, e parou. — Sim? — Sabe por que vim a Roma, de verdade? — Se você disser que veio realmente para me ver, não vou acreditar. — Não, eu não ia dizer isso. Vim para ver Maurice Delaney. Conforme eu lhe disse. — Ela fez um gesto impaciente com os ombros. — Se algum dia me deixarem entrar no quarto dele. Sabe por que eu vim ver Maurice? — Ela esperou um pouco, mas Jack nada disse. — Vim vê-lo porque de todos os homens que já deixei irem para a cama comigo, foi ele quem me deu maior prazer. E eu pensei que agora, se ele está morrendo, ele gostaria de saber disso. — Estou certo que sim — disse Jack, com frieza. — Você sabe como o amor era importante para mim... Sexo, se prefere a palavra... — Era? — Era. Eu descobri que era a coisa mais importante. O centro de minha vida, de modo que, se um homem dá... — Não preciso que desenhe as coisas. — Você não está zangado por eu ter dito isso, está? — Não — disse Jack. Era quase verdade. — Agora — disse ela —, tenho quase a sensação de que posso lhe dizer qualquer coisa, contarlhe tudo. — O nosso divórcio — disse Jack, num tom leve, não querendo que ela dissesse mais coisa alguma — não foi em vão. — Goste de mim, Jack — murmurou ela. Tinha a cabeça enterrada na gola e sua voz estava fina e suplicante. — Por favor, goste de mim. Ele ficou calado. — Nós nos veremos outra vez, não é? — perguntou ela. — Antes de eu partir de Roma. — Claro — disse ele, mentindo.

24 No quartinho apinhado do quarto andar, Bresach e Jack trabalharam a tarde toda, organizando, página por página, alterações, acréscimos e cortes que tinham idealizado para o filme de Delaney, na véspera, no restaurante. Trabalhavam juntos com rapidez e eficiência, entendendo-se com um mínimo de palavras e colaborando um com o outro, pelo menos naquela tarde, como se tivessem feito pelo menos doze outros trabalhos antes. Hilda, a secretária de Delaney, que Jack tinha chamado para ajudá-los, anotou tudo em taquigrafia; e às seis horas, quando a fadiga os obrigou a parar, ela tinha um maço imenso de notas, que levou para casa para datilografar. Depois que ela saiu, Jack aceitou uma xícara de café que Max, atendendo-os solicitamente e calado, preparou. Jack tomou o café com satisfação, recostado na cadeira e pensando contente no trabalho que tinham realizado naquele dia. — Talvez eu esteja delirante ou sofrendo de choque — disse ele —, mas acho que afinal este filme vai ser uma maravilha. Bresach, também tomando café, de uma das duas xícaras do apartamento, grunhiu. — Controle-se, Andrus. Cuidado com a euforia exagerada. — Não é euforia — disse Jack. — Estou com o máximo de sangue-frio que posso ter. Repito, acho que o filme vai ser uma maravilha. — Vai dar para não vomitar — falou Bresach. — Só vou até aí. Jack largou a xícara, levantou-se e se esticou. — Está bem. Uma maravilha e de não vomitar. — Em sua opinião, qual será a reação de Delaney? — perguntou Bresach. — Vai nos agradecer por lhe salvar a vida. — Você não acha que está sendo ingênuo? — Vou lhe dizer o que acho — disse Jack. — Se ele estivesse bom e presente, provavelmente iria se opor a muita coisa que estamos fazendo. Não todas, mas muitas. Mas, assim, ele vai ver a coisa toda já feita. Pense o que pensar a respeito dele, ele não é nenhum bobo, e mesmo que queira tornar a cortar algo ou acrescentar uma ou duas coisas das antigas, vai reconhecer que está melhor. — Bem — disse Bresach, dando de ombros. — Você conhece o homem melhor do que eu. — Conheço, sim. Quer continuar hoje à noite? Posso estar de volta lá pelas nove horas. — Ah! — Fez-se um silêncio estranho e Bresach e Max trocaram olhares. — O que há? — perguntou Jack. — Não há nada — respondeu Bresach. — E só que Holt me convidou para jantar. Disse que o convidasse também. Max também. Acho que ele se sente culpado se não tiver pelo menos vinte convidados para jantar, sempre. — Quando foi que você esteve com Holt? — perguntou Jack. Ele tinha evitado conversar a respeito da proposta de Holt para Bresach e ficou aliviado quando Bresach não a mencionou. Ele teria que tomar posição, mais cedo ou mais tarde, mas queria adiar aquilo o mais possível, até quando os outros problemas tivessem sido resolvidos. — Fui lá hoje de manhã. Ao escritório dele. — O que é que ele disse? — Ele fez uma oferta muito generosa — disse Max depressa. — Ele é um homem muito generoso — concordou Jack. — O que é que ele disse? — Mais ou menos a mesma coisa que lhe disse ontem à noite — falou Bresach. — X dólares

pela história e um salário semanal para trabalhar com Delaney, quando ele sair do hospital e puder preparar o roteiro e filmá-lo. — X dólares — disse Max. Ele agitou as mãos, entusiasmado. — Por que não conta a ele? Quinze mil dólares! Uma fortuna. — Você se esquece, Max — disse Bresach, sorrindo para o amigo com um quê de malícia —, de que sou filho de pai rico e desprezo o dinheiro. — Não me importa a fortuna do seu pai — gritou Max. — Você não tem dinheiro nem para comer três vezes por dia e sabe disso. — Calma, Max, calma. — Bresach deu um tapinha no ombro de Max, para serená-lo. — Ninguém disse que vou recusar o dinheiro. — O que você disse a Holt? — perguntou Jack. — Disse que primeiro eu queria conversar com você — respondeu Bresach. — Disse que confiava em você. Não com as garotas... — Ele deu um sorriso azedo. — Mas em coisas assim. Ele disse que você ia figurar com ele e Delaney como produtor... — Isso ainda não está resolvido — atalhou Jack. — Ontem — insistiu Bresach — você disse que não queria comentar no momento. Que tal este momento, agora? Jack foi até a janela e ficou ali de costas para o quarto, olhando para os telhados escuros das casas e as janelas acesas das cozinhas, onde as mulheres preparavam o jantar. Pensou em Delaney, deitado em seu quarto no hospital, planejando, naquele momento, como ia fazer o filme do roteiro de Bresach. Lembrou-se do entusiasmo de Delaney e de sua esperança no projeto, e do quanto ele devia a Delaney. Mas sabia que tinha chegado a hora de resolver também o quanto ele devia ao rapaz. Com toda a sua violência e todo o seu talento, Bresach era vulnerável e podia facilmente ser prejudicado. Facilmente esmagado, talvez. Se esse primeiro empreendimento fracassasse, se Delaney se apropriasse dele, o corrompesse e o enchesse com os truques, babados, melodrama e sentimentalismo baratos que desfiguraram seu trabalho nos últimos dez anos, não se poderia prever quais seriam os efeitos sobre Bresach. Além do efeito sobre a história em si, que era composta delicadamente, sem sentimentalismos, e que se esfacelaria se fosse tratada erradamente. Uma terceira lealdade. A uma centena de folhas mal datilografadas. E Sam Holt... O que ele devia a Sam Holt? — Mr. Andrus — ele ouviu Max começar a falar. — Psiu — disse Bresach. — Deixe o homem pensar. Desconexamente, a voz juvenil o fez pensar em seu próprio Filho, a carta no avião e a carta de Chicago... Olhou por cima do pátio para as janelas acesas, sentindo o frio de olhos jovens sobre si, os de Bresach, os de Steve, os seus, quando tinha a idade deles, os de Delaney, quando Delaney entrou pela primeira vez no camarim, em Filadélfia. “Duas gerações de jovens1', pensou ele, “filhos e pais se misturando, estão esperando que eu os atraiçoe.” “Deixe o homem pensar...” Se uma pergunta dessas fosse apresentada àquele jovem Delaney que entrara na vida de Jack naquela noite, como ele teria respondido? Jack sorriu um pouco consigo mesmo, lembrando-se da violência do discurso de Delaney sobre a peça do pobre Myers e a expressão abalada na cara do produtor antes de fugir do camarim. “Bem”, pensou Jack, “em homenagem ao meu amigo, em gratidão pelo que ele me ensinou...” Ele se voltou para Bresach e Max. — Você seria um idiota se deixasse que outra pessoa tocasse no roteiro — disse ele. — Especialmente Delaney. Agora tenho que ir ao hospital e depois voltar ao hotel para fazer a barba e trocar de roupa. Quando você souber a qual restaurante Sam Holt vai levar vocês, telefone e deixe o recado. Encontro vocês mais tarde.

Ele sentiu o olhar triste e reprovador de Max, quando pegou o sobretudo e saiu do apartamento. Delaney estava sentado na cama, jantando, quando Jack entrou no quarto. Tinham-lhe feito a barba, estava corado e bebia vinho tinto com o jantar. Acenou com o garfo, quando viu Jack. O aparelho de oxigênio tinha sumido. Ele parecia tão sadio quanto no dia em que fora ao aeroporto receber Jack, e a voz dele tinha seu velho vigor quando disse: — Quer que peça jantar para você também? É uma droga de restaurante. Acordara aquela manhã sentindo-se bem, contou a Jack. Foi muito simples. Tinha andado pelo quarto, escondido, quando a enfermeira não estava, e as pernas não estavam bambas nem sentia dor no peito. — Se não fosse o maldito cardiograma, eu já teria arrumado a mala e saído daqui ao meio-dia. Você acha que aquele eletro podia estar todo embaralhado? — Não — disse Jack. — É possível — disse Delaney, quase como se achasse que, se convencesse Jack, poderia saltar da cama. — Não ignore essa possibilidade. Os médicos podem errar, sabe? E os italianos, com maquinaria ... — Os italianos são melhores com maquinaria do que qualquer outro povo no mundo — disse Jack. — Bem, mas de qualquer forma — disse Delaney, resmungando como um garotinho —, vou ao banheiro sozinho. Podem gritar à vontade. Acabou esse negócio de me porem na comadre. — Ele bebeu o vinho. — Este vinho é bem bom. Vou-lhe contar, os italianos sabem dirigir um hospital. — Levantou o vinho diante dos olhos e franziu a cara, como se aquilo lhe lembrasse alguma coisa. — Lembra-se do que aquele pobre filho da mãe do Despière disse sobre o vinho italiano? — Lembro. — Não precisa ter tato — disse Delaney. — Li os jornais hoje de manhã. — Acabou de beber o vinho. — Eu disse a ele que acabaria sendo morto. Sabe, tenho a impressão de que ele esperava aquilo e não se importava... — Ele se importava — disse Jack. — Então por que ele ia sempre? — Talvez ele precisasse do dinheiro. Delaney fez uma careta. — Imagino que se você vai ser morto, mais vale ser pago para isso. — Ele começou a tomar um sorvete de creme. Fazia-o com vontade, não se importando com o barulho, metendo um biscoito na boca junto com o sorvete. — Sorvete italiano, o melhor do mundo. Pequenas, sorvetes e carros ligeiros, de que mais um país precisa? Eu devia ter vindo aqui quando tinha vinte e cinco anos. Com um raio de um coração inteiro. se ele tinha de morrer, talvez fosse bom mesmo morrer agora, antes de terminar aquele artigo sobre mim. — Delaney riu. — O francês não gostava de mim. É mesmo, rapaz, o francês não me suportava. Quando ele olhava para mim e pensava que eu não estava olhando, aparecia como que um grande cartaz na cara dele: “Acho que Maurice Delaney é o filho da puta número 1.” Em francês. Você sabe traduzir isso para o francês? — Não ao pé da letra — disse Jack. Ele queria desviar Delaney desse assunto. Inquieto, procurou lembrar-se de onde teria escondido o manuscrito do artigo de Despière. — Sorvete formidável — continuou Delaney, largando a colher. Chamou a enfermeira e recostouse confortavelmente nos travesseiros arrumados nas costas inclinadas da cama. — Foi um dia revigorante. Até ligaram um telefone, hoje à tarde. — Ele mostrou o aparelho na mesa, junto da cama. — O médico me permite dois telefonemas por dia. Só dei um e ainda me devem um. Fiquei olhando para aquele telefone por uma hora antes de resolver para quem eu queria ligar primeiro. Clara ou Barzelli. Eu ia tirar cara ou coroa, mas não tinha moeda. — Sorriu, caçoando de si mesmo. — Depois, resolvi: “Que

diabo, sou um velho com um coração doente; por que me tapear, por que não fazer as pazes na família?” Só precisei de três minutos de conversa e ganhei a luta. Clara vem aqui daqui a uma hora. Vão arrumar uma cama e ela vai dormir aqui, dar uma folga à enfermeira. Já estaria aqui, mas tinha prometido ir jantar com Hilda. No fim, você não escapa das garras das mulheres, Jack. Mas a gente tem que tentar. — Ele suspirou, satisfeito. — Estou me sentido tão bem que podia fumar um charuto. E detesto charutos. Enquanto Delaney continuava a tagarelar, gozando sua sensação de vitalidade readquirida, Jack sentiu-se tranquilizado a respeito do que tinha ido dizer. Delaney podia não gostar, mas suportaria. Uma irmãzinha redonda, que fazia um barulho de engomado quando se mexia, chegou para levar a bandeja. — Signore — disse ela a Delaney. — Telefonou uma senhora, uma Signora Lee. Ela quer saber se pode vir visitá-lo. Prometi telefonar-lhe para o hotel. — Diga-lhe que não pode vir. Diga que estou morrendo de uma morte longa, lenta e agonizante. Estou em coma a maior parte do tempo e não reconheço ninguém. — Signore — disse a irmã, em tom de reprovação. — Não é assunto para brincadeira. Direi apenas que no momento não é permitido. — Ela saiu com a bandeja. — Carlotta — resmungou Delaney. — Só faltava mais essa. Você já esteve com ela? — Já. — Como ela está? — Gorda. Delaney riu. — A viúva gorducha, cheia do dinheiro. Kutzer lhe deixou uma fortuna. — Sacudiu a cabeça. — Deus, o que as pessoas viram. — Ela me disse que queria ver você. — Para quê? — Você deu a ela mais prazer na cama do que qualquer outro homem com quem ela já andou — disse Jack. — Ela achou que seria apropriado dizer-lhe isso antes de você morrer. Delaney riu brutalmente. — Todo mundo gosta de ter um motivo para a sua peregrinação a Roma. A puta. Dizer uma coisa dessas, justamente a um ex-marido. — Não, ela não é uma puta — falou Jack. — É só que ela é obcecada por isso. Ou, pelo menos, era. Agora, acho que só é obcecada pela recordação disso. — Sabe como aconteceu? — perguntou Delaney. — Não. — Quer saber? — Se você quiser contar. — Ah, por que diabo não? — disse Delaney. — Já foi há tanto tempo, e foi a única coisa que já escondi de você e me fez sentir um filho da mãe durante anos. Foi durante a guerra. Você estava na Europa e eu a levei para almoçar para passar uma espinafração nela, porque era voz comum que ela estava se espalhando na cidade. Eu disse que ela devia ter vergonha, que sujeito formidável você era, que ela ia se arrepender, que estava arruinando a vida dela. Ela olhou para mim por cima da mesa e disse: “Não vou parar. E já que não vou parar, por que você não entra na folia junto com os outros rapazes?” — Delaney suspirou e alisou umas dobras do lençol com a palma da mão. — Minha maldição, por muito tempo, era que, quando me ofereciam essas coisas, eu não conseguia recusar. Eu me convenci de que isso não o prejudicaria em nada. Sabia que quando você voltasse ia acabar com ela, mais cedo ou mais tarde, fizesse eu ou não fizesse o que quisesse. Então nós nos levantamos da mesa, fomos para um motel no vale e aproveitamos a tarde. Só durou umas semanas. Eu me sentia muito canalha. Fora do meu trabalho, tenho muito poucos princípios, e nunca me ocorreu que eu fosse universalmente amado pela

doçura de minha personalidade; mas dormir com a mulher de meu melhor amigo, enquanto ele estava se arrebentando numa guerra, nunca me fez ter grande orgulho de mim mesmo. Mesmo apesar de eu ser apenas um de uma longa lista. Por isso, pus um fim à minha negra vilania. — Ele pronunciou essa frase em voz arrastada, zombeteira. — Ah, tirei um peso da cabeça. Sempre quis contar, e agora está feito. Está zangado? — Não — disse Jack. — E não fiquei zangado na época. Não é importante. Nem foi importante na época. — Para ninguém, a não ser para mim — disse Delaney baixinho. O quarto ficou em silêncio por um momento e Jack achou que talvez Delaney estivesse adormecendo. Delaney tinha mudado a posição do abajur, de modo que a luz não incidisse sobre o seu rosto, e Jack só o distinguia vagamente, nas sombras contra o travesseiro. — Maurice... — falou Jack, experimentando. — Sim? — Você vai dormir? — Que diabo, não. Por quê? — Porque temos de ter uma conversa. — Estou ouvindo — disse Delaney. — É sobre aquele roteiro de Bresach. Não acho que você deva fazê-lo. Delaney sentou-se, espantado. — Eu entendi você dizer que gostou dele? — Gosto muito dele — disse Jack. — Mas acho que é muita coisa para você fazer agora... — Dentro de seis semanas, estarei livre daqui. O médico disse... — Você vai se matar, se recomeçar a trabalhar depois de seis semanas — disse Jack. — Matar, matar... — disse Delaney, irritado. — Estou cansado de gente profetizando a minha morte. Se eu beber, se trepar com uma garota, se andar até o banheiro, se ler um roteiro... — Vamos, Maurice — disse Jack, com brandura. — Você sabe que não é a mesma coisa. — Eu sei, eu sei. — Delaney deu um suspiro. — Por quanto tempo você acha que eu devo descansar? — Um ano. — Um ano! O que acontecerá com o roteiro? E com você? E com Holt? — A voz de Delaney começou a tomar um tom briguento, de doente. — Em um ano, tudo pode escapar. Mais vale morrer do que tentar esperar um ano. E o que é que eu faço, durante esse ano? Tricô? Desde que eu comecei, em garoto, nunca tirei férias de mais de duas semanas. Eu ficaria maluco. — Eu não disse que você tem que tirar férias completas. Só disse que você não devia ir para o estúdio dirigir, porque isso é de matar qualquer um... — Quem o fará, então? Hilda? O anjo Gabriel? Jack respirou fundo. — Bresach. Delaney sentou-se de repente, sua cabeça aparecendo na luz. Fitou Jack. — Você está brincando? — Não. — Ele só tem vinte e quatro anos... — Vinte e cinco — corrigiu Jack. — Ele tem idade para escrever a coisa, tem idade para dirigila. — Então onde é que eu entro? — perguntou Delaney. — Onde é que você entra? — Holt quer organizar uma companhia para fazer três filmes, não é? — É.

— Bem — disse Jack, falando depressa, mas com calma, procurando evitar dar um tom de discussão à sua voz. — Este pode ser o primeiro filme. Você pode ajudar a produzi-lo. Ele vai precisar de muita ajuda. Você será valiosíssimo para ele. E, ao mesmo tempo, não estará se matando dia após dia no set. E enquanto você estiver se restabelecendo, pode procurar as duas outras histórias e começar a prepará-las. Quando você estiver bem, daqui a um ano, pode começar a filmá-las. — E onde estará você nisso tudo? — perguntou Delaney. — Espero estar de volta a Paris, com minha mulher e minha família, fazendo o meu trabalho. Você não precisa de mim. — Eu preciso de você — disse Delaney, com aspereza. — Você nem sabe como preciso de você. Onde você pensa que eu estaria, que diabo, esses últimos dias, sem você? — Você encontra outra pessoa. — Diga quem — disse Delaney. — Neste momento, eu não... — Nem neste momento, nem amanhã, nem daqui a um mês, nem daqui a um ano. Já lhe disse e repito: você é o único homem com quem já consegui trabalhar por algum tempo sem uma explosão. Estou parecendo egoísta? — Está. — Foi de propósito — disse Delaney. — Mas também sou egoísta por você. Quero tirar você daquela sua rotinazinha mesquinha e obscura, empunhando uma caneta para o Governo, em Paris... — Talvez eu esteja feliz no que você chama de minha rotinazinha mesquinha e obscura — disse Jack, procurando evitar que sua voz se alteasse, com raiva. — Ou talvez eu não ache que seja tanta rotina... Talvez eu ache que estou fazendo um trabalho importante e fazendo bem. — Você não parecia estar muito feliz quando desembarcou do avião. Estava? — perguntou Delaney. — Qual é a diferença? — Estava? — Não — confessou Jack. — Acontece que eu estava desanimado. — O que foi que lhe disse? — falou Delaney, triunfante. — Eu vi os sintomas, vi os sintomas. Você estava num marasmo de melancolia burocrática, sentindo-se inútil e meio morto. Ora, mesmo no curto espaço de tempo que você passou aqui, você está mais vivo, parece dez anos mais moço. Escute, Jack, você não é mais garoto. É provável que só lhe reste uma jogada importante em sua vida. Não a perca, não a perca... — Vou pensar a respeito — falou Jack, fatigado. — Eu lhe escrevo de Paris. — Para o diabo com isso! Se você não quer o negócio, diga a Holt e Bresach que está desfeito... — Seu filho da mãe — murmurou Jack. — Ninguém nunca disse que eu não era um filho da mãe — disse Delaney, satisfeito. — Então, parceiro? Jack suspirou, depois sorriu. — OK, parceiro. — Ligue para sua mulher e diga a ela que corra à Escola Berlitz e comece imediatamente a tomar aulas de italiano. Uma vida nova e maravilhosa se abre para ela. Quem me dera ter uma garrafa aqui. Para comemorar. — Se tivéssemos uma garrafa aqui, provavelmente eu a quebraria em sua cabeça. — Guarde isso para a próxima reunião de diretoria — disse Delaney, bruscamente. — Então, parceiro, você acha que Bresach consegue fazer o negócio? — Acho. — É uma ideia, é uma ideia... — disse Delaney. — Que diabo, se alguém me tivesse dado uma

oportunidade quando eu tinha vinte e cinco anos, eu o teria deslumbrado. E não é como se o garoto estivesse sozinho. Nós estaríamos ali ao lado todo dia... Que tipo de garoto ele é, Jack? Podemos trabalhar com ele? Você gosta dele? — Podemos trabalhar com ele — afirmou Jack. — Você não gosta dele — disse Delaney. Jack deu um suspiro. — Não sei. Nunca estive tão confuso a respeito de alguém em toda a minha vida. — “Talvez eu goste muito dele. Talvez eu esteja procurando alguém para tomar o lugar de meu filho Steve, porque acabei de descobrir que meu filho me odeia, talvez eu tenha medo de que ele se mate.” — Você tem tempo sobrando? — perguntou Jack. — Vou contar-lhe uma história comprida. — Tenho a noite toda. — Ele riu, meio triste. — Tenho o ano todo, rapaz. Conte uma história. — Era uma vez... — começou Jack — um homem que foi a Roma para dar uma mãozinha a um velho amigo, por duas semanas... — Adoro o princípio da história — interrompeu-o Delaney, recostando-se mais comodamente nos travesseiros. — Continue. Aí Jack começou a repassar as duas semanas, procurando incluir tudo, sem omitir nada, o bêbado na escada, o nariz sangrando, a emoção ao se ver na tela, tantos anos depois, no The Stolen Midnight, o sonho de louros, o pressentimento da morte, o cortejo de amigos acidentados, o encontro com Veronica, os amores deles, a visita louca de Bresach com a faca, o desaparecimento de Veronica e a ligação dele com o rapaz pela necessidade de descobrir o que acontecera com ela, sua fascinação por Bresach e sua pena por ele, sua admiração pela violência e pureza de sua ambição, misturada com seu receio de que essa própria violência e pureza o destruíssem. Delaney ficou escutando sem dizer uma palavra, imóvel na cama, a luz oblíqua da lâmpada formando uma diagonal nítida sobre sua cabeça, contra a parede e o teto. — Meus sentimentos com relação a ele são todos misturados — concluiu Jack. — Eu não poderia descrevê-los. Ele me diverte. Gosto de estar com ele. Tenho esperanças por ele, de uma maneira que eu gostaria de ter por meu filho. Sinto-me culpado com relação a ele, porque fui o instrumento que o feriu, assim como me sinto culpado por haver ferido o meu filho. Preocupo-me com ele porque há algo de muito frágil nele e, por fim, embora absolutamente irrazoável, suponho, sinto-me responsável por ele. Jack se calou. Delaney estava deitado, o corpo imóvel debaixo das cobertas, as mãos entrelaçadas no peito. Depois de algum tempo, ele falou, com uma voz a um só tempo tristonha e divertida. — Deus, que duas semanas! Não admira que você pareça estar muito mais vivo. Você não tem ideia de como o invejo... Você não acha que o rapaz vai ficar tentado a usar a faca em mim, acha? — Ele riu. — Não. Acho que isso já passou. — Diga-me, Jack — disse Delaney, sua voz baixa e suave, falando de dentro dos travesseiros, sem mexer a cabeça —, se eu estivesse completamente bom, se isso não me tivesse acontecido — ele bateu no peito —, o que você teria aconselhado o rapaz a fazer? — O que você quer dizer? — perguntou Jack, apesar de saber o sentido das palavras de Delaney. — Você lhe diria para me deixar filmar o roteiro dele? — perguntou Delaney. — Ou lhe diria para se agarrar a ele e fazê-lo ele mesmo? Naturalmente, é só uma pergunta teórica. — Havia um tom de ironia na maneira como Delaney falou a última frase. — Não — disse Jack. — Não é teórica. Porque ele me perguntou hoje à noite, pouco antes de eu vir para cá. — E o que foi que você disse, Jack? — O mesmo tom leve, amigo e irônico. — Você levou muito tempo pensando? — Sim — respondeu Jack, sério. — Pensei em você...

— O amigo velho e enfermo, deitado no leito de hospital, mexendo tristemente nas cobertas com seus dedos nervosos e descarnados... — Não — falou Jack, sério. — Pensei em você naquela noite em que o conheci, em que você estava numa fúria tão honesta no camarim, em Filadélfia. — E você disse ao garoto que não o deixasse cair em minhas mãos? — perguntou Delaney, sem expressão. — Disse. Delaney bateu no peito de novo, num gesto inconsciente. — Bom, eu perguntei e você me respondeu. — Ele riu. — Nada como a honestidade entre os sócios, não é, Jack? — O que você teria feito se estivesse em meu lugar? Delaney esperou um pouco antes de responder. — A mesma coisa. A mesma coisa... — Ele sorriu, com pesar. — Se eu tivesse novamente aquela idade em Filadélfia... Agora? Hoje? — Ele sacudiu a cabeça. — Não sei. Estou muito longe de Filadélfia. Quem sabe as coisas nojentas e corruptas que eu teria dito? Você vê, Jack, eu não estava mentindo quando disse que precisava de você. — Ele se sentou na cama, seu rosto aparecendo de repente na luz. Tinha um sorriso suave e curioso nos lábios, o tipo de sorriso que se vê nos lábios dos velhos olhando as crianças brincarem. — Obrigado por ter vindo, Jack — disse ele. — Agora, pelo amor de Deus, vá jantar. Vai precisar de toda a sua força. Jack se levantou. Não tinha notado o tempo passar e não fazia ideia de que fosse tão tarde. Gostaria de poder dizer a Delaney como se sentia apegado a ele, como os anos que se interpunham entre eles haviam sido afinal vencidos pelo que eles se haviam dito naquela noite. Mas ele nunca tinha sido espontâneo com Delaney, e não conseguiu ser espontâneo naquele momento. — Jack — disse Delaney, quando ele já estava com a mão na maçaneta —, você disse que tinha esperanças para o garoto... — Disse. — E o velho, Jack? — falou Delaney, baixinho. — Eu. Tem esperança para ele? — Tenho. Muita. Delaney concordou com a cabeça, sério. / — Boa noite, parceiro — disse ele. — Beba três martinis por mim. Quando Jack saiu, Delaney estava sentado na cama, sorridente e com aspecto saudável.

25 Jack estava animadíssimo quando voltou para o hotel. Sentiu um desejo festivo de comemorar. Os receios e hesitações dos últimos dias afinal pareciam remotos e sem fundamento, agora que a decisão fora tomada. Sentiu-se aliviado porque os fatos tinham provado que ele havia subestimado a honestidade e o sentido de justiça de Delaney, e estava agradecido por ter o amigo correspondido a um conceito mais antigo de suas qualidades. Misturada a tudo isso havia uma sensação de satisfação consigo mesmo. Tinham pedido ajuda e ele deu. Embora as coisas se tornassem rapidamente mais complexas do que se pudesse imaginar, e mais perigosas, quando Jack pensava agora em Delaney ele o considerava um homem salvo. E o salvamento se devia a Jack. Era muito raro, em toda a sua vida, que Jack se sentisse satisfeito consigo mesmo, de modo que aquele momento teve ainda um dividendo extra, a originalidade. Fisicamente, estava descansado e agradavelmente consciente de estar com fome. Pensou com prazer nos três martinis que iria beber em homenagem a Delaney e no jantar com Bresach e Holt. O pesar pela morte de Despière continuava o mesmo, mas estava eclipsado em sua mente pelo otimismo e entusiasmo que lhe dava a consciência de que estava iniciando uma vida nova. Os riscos que ele estava correndo — a segurança que abandonava ao deixar o serviço público, a aposentadoria que perderia, o perigo de que nenhum dos três filmes prestasse e ele ficasse desempregado e fracassado já perto dos cinquenta anos — só serviam, naquele momento, para realçar sua sensação de bem-estar juvenil. Os riscos não levados a sério, os perigos enfrentados com alegria, isso era parte de ser jovem. Talvez a melhor parte. Não é difícil achar que Roma é a melhor cidade do mundo para se morar, e naquela noite Jack estava convencido de que era exatamente isso que acontecia. Resolveu fazer com que Hélène viesse para Roma o mais depressa possível, para começar a procurar uma casa para a família. “Uma casa na campagna, bem perto da cidade para se poder ir todo dia”, pensou ele, “com um jardim. Oliveiras, vinhas (o sonho quente, bíblico, que persegue os do norte), o som das crianças falando italiano com jardineiros e empregadas, a facilidade de ir às praias no calor.” Também seria agradável ser rico outra vez, depois de tantos anos em que não era nada rico, não ter de se preocupar com o problema de poder ou não comprar um carro novo, roupas, férias... A independência e informalidade de seu novo emprego, em que ele seria mais ou menos dono de seu nariz, podendo falar de igual para igual com qualquer pessoa, pareciam-lhe uma mudança salutar, depois dos anos de esmagamento sob o peso da pirâmide governamental, os anos de preocupação com receio de ter dito alguma palavra ou ter preparado algum documento que desavisadamente pudesse auxiliar os russos ou provocar o desprazer de algum superior. “Existe mais gente de terceira classe entre os políticos, funcionários públicos e generais”, concluiu ele, com o que achou ser uma clareza recém-adquirida, “do que entre o pessoal do cinema, e é mais difícil evitá-los e se manter fora de seu poder.” Ele estava sentado muito reto no assento dianteiro, junto de Guido, olhando feliz para a cidade de Roma, suas ruas ainda movimentadas à luz das lâmpadas, e nem mesmo a barulhada do rádio do carro, tocando “Volare, cantare”, conseguiu desanimá-lo. Nem pediu a Guido que desligasse o rádio. Quando chegou ao hotel, disse a Guido que ia tomar banho, trocar de roupa e desceria em quinze minutos. Estava assobiando baixinho quando entrou no saguão, pensando no banho que o esperava e nas roupas limpas como elementos apropriados no rito de purificação e renovação antes do próximo episódio de sua vida. Quando chegou junto da portaria, parou. Veronica estava lá.

Ela mantinha a cabeça abaixada e não o viu, porque estava escrevendo um bilhete num papel de carta do hotel. Mesmo à primeira vista, notou que ela parecia muito diferente do que ele se lembrava. Estava com um casaco de castor, claro, obviamente novo, os cabelos penteados para cima, e usava um chapéu. Parecia mais velha do que a moça a quem Despière o havia apresentado, menos vistosa, mas muito mais bem arrumada. Depois de um momento, Jack foi até o balcão e ficou ao lado de Veronica, que não levantou os olhos do que estava escrevendo. — Meia, cinco, quatro, por favor — disse ele. Quando ouviu a voz dele, Veronica parou de escrever. Olhou para o papel à sua frente, amassouo depois e o colocou num cinzeiro. Só então ela se virou para olhar para Jack. — Era para você — disse ela. — Esse bilhete. Agora não há necessidade, não é? — Não — disse Jack. Pegou a chave do homem da portaria. — Quer subir comigo? — Não. Não junto com você. — Ela estava falando em cochichos apressados, sem olhar diretamente para ele, de modo que, a distância, nem parecia que estivessem conversando. — Eu vou depois. Tomo o elevador dos fundos. Dentro de dois minutos. — O que é que está acontecendo? — perguntou Jack. — Não precisa falar comigo, se não quiser. — Não posso ser vista com você — respondeu ela. — Estou casada. Tenho de ter cuidado. Agora, vou sair daqui e dar uma volta no quarteirão. — Oh, Deus! — murmurou Jack. — Lembra-se do número do meu quarto? — Lembro, lembro — disse ela, e foi depressa para a porta. Jack ficou olhando um pouco. Casada ou não, o andar dela não tinha mudado. A batida na porta veio logo e ela entrou na sala, com um sorriso, à vontade, íntima, sacudindo seu casaco de pele novo, tocando no cabelo bem penteado. Olhou em volta, displicente, em pé no meio da sala. — As coisas não mudaram muito aqui, não é? — perguntou ela. — Está contente por me ver? — Não sei — respondeu Jack. — Ainda não estudei meus sentimentos. No momento, estou irritado. Quer tirar o casaco? — Sinto muito. Não posso — falou Veronica, com a voz de um convidado educado e falso, num coquetel. — Só tenho um minuto. Tenho de encontrar meu marido no Hassler. Ele teve um compromisso que o prendeu, senão eu não teria podido vir de jeito nenhum. Você não devia dizer que está irritado. — Ela fez um beicinho de desagrado. — Vai fazer com que eu me arrependa de ter vindo. — Oh, Cristo! — murmurou Jack. — Sentiu saudades? — perguntou ela. — Sente-se. Ela sacudiu a cabeça. — Não. — Bom, então, eu vou me sentar — disse Jack. Ele se afundou no sofá e pôs os pés na mesinha defronte. Veronica ficou de pé, no meio da sala, olhando para ele, o casaco afastado para trás, como ele se lembrava. Também se lembrou do V de batom no espelho do banheiro na primeira tarde em que se amaram, da noite na praia em Fregene e se sentiu abalado, inseguro e irritado com o marido dela, fosse quem fosse. — Eu estava com medo de não poder vê-lo de algum jeito — disse Veronica. — Só chegamos hoje de manhã. E vamos de avião para Atenas amanhã. Em lua de mel. Foi ideia minha, parar um dia aqui. Tinha de vê-lo. — Lambeu o canto da boca, nervosa. — Achei que lhe devia uma explicação. — Acho que o melhor lugar para explicar alguma coisa é lá dentro. — Jack fez um gesto para o quarto. — Tire esse maldito casaco. — Ele sabia que parecia brutal, e queria ser brutal. — Se você vai falar assim, vou ter que ir embora já.

— Está bem — resmungou ele. — Não vou falar mais. Explique. — Se bem que eu esteja satisfeita de ver que você ainda me quer — disse ela, sorrindo. — Estava com medo de que já tivesse me esquecido. — Eu não estou satisfeito de ainda querer você. Se pretende me provocar, pode ir saindo desde já. — Você não está tão simpático quanto era há duas semanas — disse ela, de mau humor. — Nem um pouco simpático. — É verdade. De duas em duas semanas, eu dou uma piorada. Ela olhou para o relógio, nervosa. Era um relógio novo, com brilhantes, e Jack não se lembrava de tê-lo visto antes. “Naturalmente”, pensou ele, “se ela acabou de chegar da Suíça.” — De qualquer forma, é uma bobagem eu ficar de pé assim. — Sentou-se na poltrona junto ao sofá, longe de Jack. Cruzou as pernas com um farfalhar de seda, e mais uma vez Jack sentiu-se invadido, quase com raiva, pela onda de desejo generalizado e impessoal que a vista daquelas pernas rosadas e perfeitas e daqueles sapatos romanos pontudos tinha provocado nele da primeira vez que a vira. — Posso suportar tudo em você — disse ele. — Menos a sua presença. — O quê? — perguntou Veronica, intrigada. — O que você disse? — Nada. — Pareceu um insulto. — De certo modo, talvez fosse. — Ele se forçou a ficar completamente imóvel. — Eu queria que tudo fosse bem claro e limpo entre nós — disse Veronica, com um ar de beicinho. — Foi por isso que vim aqui. Mas se você vai dizer coisas feias... — Está bem. Não vou dizer coisas feias. Você não falou alguma coisa de estar casada? Dê-me uma descrição clara e limpa de seu casamento. — Não me envergonho de nada que eu tenha feito — falou Veronica, com petulância, como uma menina de colégio apanhada ao entrar por uma janela depois da hora. — Fiz o que tinha de fazer para me salvar. — Com quem você se casou? — perguntou Jack. — Conheço o cavalheiro? — Não conhece, não. E nem vou dizer o nome dele. — Ele me conhece? — Não. — Sabe de alguma coisa a meu respeito? — Claro que não — disse ela com calma, tornando a cruzar as pernas. — Nem vai saber. — Vejo que está bem lançada num casamento feliz — gracejou Jack. — Pode dizer o que quiser. O seu cinismo não me afeta. — Quem é ele? — Tem trinta e um anos. Muito alinhado. É suíço. De uma das melhores famílias de Zurique. Já o conheço há quase dois anos. Desde o princípio ele queria se casar comigo, mas não podia... — Por que não? Era casado? — perguntou Jack. — O que foi que ele fez, envenenou a mulher na semana passada? — Não, não era casado. — Veronica parecia infantilmente vitoriosa por ter ganhado esse ponto. — Nunca foi casado. Mas não podia se casar comigo até que completasse trinta e um anos. — O que é isso? — perguntou Jack. — Uma antiga lei suíça? — Não caçoe de mim, Jack — pediu Veronica em voz baixa. — Por favor. Passei duas semanas tão difíceis... — Não foi só você — disse ele. Depois se arrependeu de falar naquele tom, e falou com mais delicadeza. — Não vou mais interrompê-la. Pode contar de seu jeito.

— É tudo tão complicado! — começou Veronica. — Nós nos conhecemos aqui em Roma um dia em que ele foi à agência para indagar sobre um voo para Munique. A família dele é dona de uma grande companhia de seguros e eles trabalham em todo o mundo. Vou viajar com ele para toda parte. Ele me prometeu. Pelo menos, até termos filhos. Afinal, vou sair da Itália. — O tom de vitória, de um desejo quase impossível afinal realizado, estava em sua voz. — Mas ele não podia casar comigo antes. Por causa da família. O pai já morreu, mas ele tem uma mãe horrível e três tios emproados que não aprovariam o seu casamento comigo. Afinal de contas, uma italianinha sem dinheiro, que trabalha numa agência de viagens e, além disso, católica. E, pelo testamento do pai dele, até que ele completasse trinta e um anos, a mãe e o tio mais velho podiam praticamente deserdá-lo, se desaprovassem o que ele fizesse. E o que teriam feito. Você nem sabe o que são essas grandes famílias suíças. Queriam que ele se casasse com outra pessoa, uma moça de outra grande família de Zurique. Ele teve de fazer de conta que estava prestes a propor casamento a ela... Tivemos de esconder até o fato de nos conhecermos. Só nos víamos nos fins de semana, em Florença, em segredo, num hotel... — Ah! — disse Jack. — Era essa a mãe que você ia visitar em Florença. — O que você sabe disso? — perguntou ela, desconfiada. — Bresach. Ele me disse. — Como ele veio a lhe contar isso? — Estamos ficando muito amigos. Nos dias em que ele não ameaça me matar. — Bem — disse ela, na defensiva — eu tinha de dizer alguma coisa a Robert. Não podia dizer a ele que ia me encontrar com meu noivo todo fim de semana, podia? — Não — concordou Jack. — Claro que não. E por falar nisso, só para meu governo, onde é que a sua mãe está? — Ela mora com uma irmã em Milão. — Não admira que o telegrama tenha sido devolvido — disse Jack. — Quer dizer que procurou telegrafar para mim? — Veronica parecia espantada. — Bresach e eu. Não para você. Para sua mãe. — E por que quiseram fazer isso? — Fomos tolos. Ficamos curiosos para saber se você estava viva ou morta. — Eu quis lhe falar... — Sua voz agora era insegura, irregular, próxima aos soluços. — Mas fiquei com medo de ouvir você e mudar de ideia. E foi tudo tão depressa... Georg combinara tudo com o prefeito de uma cidadezinha perto de Zurique. Eu já havia mandado meus papéis para ele, semanas antes, antes de conhecer você... E então, naquela noite, você não pôde entrar no hotel comigo, foi tão frio e superior quando estávamos na praia juntos... — Você quer dizer — falou Jack, conservando a voz calma — que, se eu tivesse feito amor com você naquela noite, você não teria se casado?... — Talvez — respondeu ela, esforçando-se para não chorar. — Quem sabe? Lembre-se, eu lhe disse que queria ir trabalhar em Paris, e você disse claramente ... — Eu me lembro — concordou Jack, interrompendo-a. Ele procurou sorrir com brandura e perdão para ela, mas não sabia como é que sairia a expressão. — Você não me queria — disse ela, asperamente, já sem qualquer traço de lágrimas. — Ou só me queria por alguns minutos de cada vez, à sua conveniência. E Robert queria me devorar. E os outros, todos os outros sobre os quais não lhe contei. Os homens não saem comigo só para se divertir ou me divertir. Querem me despedaçar... Jack concordou com a cabeça. — Sei. Entendo o que você quer dizer. Mas a culpa é sua. — Seja de quem for a culpa — disse ela com amargura —, sou eu quem sofre. E está ficando cada vez pior. Eu menti para você. Não sou tão mocinha quanto disse. Estou com vinte e sete anos. Eu

subi para aquele quarto de hotel, fiquei lá sentada sozinha e pensei: “Se é assim que é o amor, não quero o amor, não sei lidar com ele. Sou romântica demais para não me casar. Eu me dou demais.” É isso mesmo, pode rir se quiser. Mas e a verdade, e eu a compreendi naquela noite. No dia seguinte, tomei o avião para Zurique. Afinal, eu estava me protegendo, estava procedendo com juízo. Há alguma coisa de errado nisso? Você não sabe o que é ser uma moça sozinha nesta cidade. Mal ganhando o suficiente para pagar o aluguel e comprar meias. Passando de homem em homem, tudo dependendo do acaso, de quem eu conhecia, com quem eu jantava, com quem ia para a cama... Se eu não tivesse passado pela mesa, no momento em que você estava sentado com Jean-Baptiste... — Ela parou, ofegante. Todo o seu controle tinha ido por água abaixo. Seu rosto estava torturado e o chapeuzinho alegre e elegante parecia fora de lugar e lamentável. — Li a notícia na manhã do meu casamento. Chorei no casamento. Georg caçoou de mim, mas eu não estava chorando porque me estava casando. Estava chorando porque me lembrei de quando nos conhecemos e você disse que pensou que eu fosse garota de Jean-Baptiste e eu disse que não, que era a sua garota ... — Ela se levantou. Seus lábios tremiam. — Não posso chorar. Não posso ir ao encontro de meu marido com os olhos vermelhos. Pobre Jean-Baptiste! Ele estava tão alegre naquela tarde, tão malicioso... E eu disse: “E um homem malvado, misturado com um homem muito bom.” Ninguém sabia o que ia acontecer. Com nenhum de nós. Tenho de ir. Preciso ir. — Ela mexeu com a cabeça e os braços, agitada, como se estivesse se libertando de laços que a prendiam. — Diga adeus para mim. Jack levantou-se devagar, procurando controlar-se, tentando não demonstrar o quanto estava comovido com ela. “Uma palavra doce”, pensou ele, “um beijo, e ela não partirá. Não partirá nunca.” Ficou assustado com a intensidade do seu desejo de guardá-la ali, não deixar que ela partisse. Durante o tempo em que ela estivera ausente, seu desejo por ela tinha aumentado secretamente dentro dele, sem ele o saber. Agora, a presença dela era como uma luz brilhante, acesa de repente, revelando isso a ele, com uma precisão dura. — Adeus — disse ele, numa voz igual e sem expressão, e estendeu-lhe a mão. O rosto dela estava pálido, magoado e infantil. — Assim não — pediu ela, choramingando. — Não como gelo. — Seu marido a espera no Hassler — disse ele, com uma crueldade propositada. — Divirta-se em Atenas. — Não me importa o meu marido. Não me importo se eu nem vir Atenas. Quero me despedir de você como um ser humano... — As lágrimas estavam quase na superfície. — Com generosidade. Ela se aproximou dele. Jack permaneceu no mesmo lugar, sem se mexer, abstraído, como se estivesse assistindo à cena de uma grande distância. Ela pôs os braços em volta dele e beijou-o. Ele ficou de olhos abertos, sem piscar. Manteve seu corpo rígido, sem reação, ao sentir os lábios dela nos seus. O gosto conhecido. A suavidade conhecida. Ficou assim, parado, querendo tomá-la nos braços, segurá-la, pensando: “Por que não? Por que não? O começo de uma nova vida. Por que não começá-la com uma coisa que eu tanto quero? Vou contar até dez”, pensou ele, feito louco, “e depois lhe direi que a amo (mais tarde, descobriremos a verdade) e que ela não pode partir.” Uma vida nova. Era o dia do princípio da vida nova. Ele se forçou a contar. Chegou até o seis, aturdido, fora de si. Aí ela se afastou dele. — É inútil — falou ela, baixinho. — Sou uma idiota. Jack ficou ali muito tempo, parado, depois que Veronica saiu. O telefone tocou. Ele o deixou tocar várias vezes antes de atender. Era Bresach. — Estamos jantando na Osteria dell’Orso — disse Bresach. — É uma festa. Tucino, Barzelli, os Holt. Estamos bebendo champanhe. Acho que estão me lançando. Você vem? — Daqui a pouco — respondeu Jack. — Não esperem por mim. Ainda não me arrumei. — Que diabo andou fazendo todo esse tempo?

— Nada — disse Jack, pensando: “Ele nunca chegou a nos pegar juntos.” — Arrumando umas coisas. Despedindo-me de um amigo. — Você está bem? — perguntou Bresach. — Está tão esquisito! — Estou bem. Daqui a pouco estarei aí. Desligou. Esperou no telefone, esperou que tornasse a tocar ou que a porta se abrisse. Mas o telefone não tocou nem a porta se abriu. Depois de alguns minutos, dirigiu-se ao banheiro — com as duas pias e o espelho em que o v afetuoso e coquete tinha sido rabiscado com batom. Metodicamente, ele fez a barba e tomou banho, antes de vestir roupa limpa — um terno escuro bem passado. Depois saiu, com a aparência de qualquer turista americano bem-educado, para se divertir uma noite em Roma.

26 Bebeu os três martinis. Depois, mais três. Depois, champanhe ao jantar. E mais champanhe, quando subiram para a boate. Era uma maneira de tornar a noite suportável, depois da cena insuportável com Veronica. A bebida não o embriagou; deu a tudo em volta dele uma claridade cristalina. Ficou ali sentado com um sorriso fixo no rosto, com sua roupa escura e americana, olhando para as pessoas da sua mesa e os dançarinos na pista, bem delineados, seus movimentos precisos. Todo mundo na mesa estava feliz, por motivos diversos. Fizeram muitos brindes e esvaziaram muitas garrafas. Bertha Holt estava feliz porque encontrara uma mulher de Nápoles com seis filhos, que ia dar à luz, dentro de duas semanas, a um sétimo; estava disposta a dá-lo aos Holt para adotar, porque mesmo seis bocas já eram mais do que o bastante para ela e o marido alimentarem. Sam Holt estava feliz, porque a mulher estava feliz e porque Delaney lhe telefonara do hospital e contara a respeito do acordo com Jack, e novos mundos de isenção de impostos legais se abriam diante dele. Tucino estava feliz porque tinha lido o roteiro de Bresach e porque Holt lhe dissera que podiam tomar as providências para a organização da companhia, e, agora, parecia-lhe que certamente poderia evitar a falência, pelo menos por mais três anos. Tucino, apesar de esperto, era otimista, e por isso gostava mais do princípio das coisas do que do meio ou do fim. Passou a noite sorrindo por trás de seus óculos, repetindo, para Bresach: “O nosso jovem gênio”, e erguendo a taça para as fortunas que todos fariam em sua associação nova e perfeita. Tasseti não estava lá, mas Jack tinha certeza de que ele devia estar feliz naquela noite, porque uma vez na vida não tinha de escutar Tucino. Barzelli estava feliz, porque tinha tido um dia de folga e o aproveitara para dormir, de modo que estava descansada e linda e tinha certeza de que todos os homens no salão a desejavam. Com uma ou duas exceções, isso era provavelmente verdade. Ela estava sentada ao lado de Bresach e, entre os brindes, lhe falava muito. Max estava feliz, porque Bresach estava ali e os dois tinham comido bem. Bresach estava feliz, porque estava bêbado e não tinha ouvido o que Veronica dissera a Jack naquela noite. Se não estivesse bêbado, haveria muitas outras razões, todas perfeitamente válidas, para ele estar feliz naquela noite. Jack olhou para todos eles, na luz nova c‘cristalina com que os martinis e o champanhe os iluminavam, e ficou satisfeito por eles estarem felizes, e os lastimou pela curta duração de sua felicidade, pois naquela noite ele conhecia o passado de todos e todos os futuros lhe eram revelados. Ele não estava feliz nem infeliz. Estava fria e precisamente equilibrado, como os mecanismos fabricados para traçarem as órbitas dos prótons nas distâncias inimagináveis do átomo. Os martinis e o champanhe espalhavam seu brilho de estrelas de inverno também na sua alma, e ele contemplava com uma indiferença eletrônica o que lhe era revelado ali. Gelado e estático, naquela luz fria e incorpórea. ele se viu nos braços de Veronica, dilacerado entre as palavras “fique” e “vá”, forçado a dizer uma ou outra e sabendo que a tristeza esperava qualquer delas que fosse pronunciada. Por demais são e responsável para agarrar o prazer, cuja renúncia o aleijava, por demais sensual para conseguir congratular-se por ter escapado da teia de mentiras e traições necessária para reivindicar aquele prazer, ele era esse exemplo interessante da vida moderna, um homem que vivia num estado permanente de divisão. "Em consequência de muitas observações cuidadosas, conduzidas sob uma luz forte, com equipamento da maior precisão, temos agora o prazer de apresentar o retrato completo de John Andrus,

brevemente famoso como James Royal. Ele é responsável, honrado, útil a seus amigos e, quando é forçado a trair alguém, faz questão de ser a parte traída. Mais detalhes em nosso próximo boletim.” Pensando tais coisas, sentado educadamente à mesa da boate, Jack riu, o riso satisfeito de um cientista cujas experiências foram comprovadas pela teoria. “Agora”, pensou ele, olhando em volta, “posso me concentrar nos outros.” “O essencial aqui”, pensava ele, seus olhos passeando pela mesa, “é um homem chamado Delaney. Desta última vez, ele é ainda o elemento era que nos movemos, a força que nos une. O champanhe, pela última vez, é para ele. Sem ele, não estaríamos aqui, nessas posições, mas da próxima vez que nos reunirmos, não será mais por causa dele. A mocidade será servida, corações sãos serão servidos, o dinheiro será servido, o amor será servido. Bresach terá dado o seu passo para o centro do sistema.” “É como um velório”, pensou Jack. “Os amigos de Delaney estão reunidos para beber ao seu desaparecimento, num lugar em que ele foi conhecido e respeitado e onde o ausente passou suas horas mais felizes.” Um homem com a aparência de Delaney haveria de reaparecer, é claro, mas tão diferente, em qualidade e em poder, que só por delicadeza e conveniência seria chamado polo mesmo nome. Lembrando-se de Barzelli e Delaney juntos naquela outra noite, Jack olhou para ver se a mão de Barzelli estava debaixo da mesa, na coxa de Bresach, mas não estava. A substituição ainda não era total. “Daqui a trinta anos”, pensou Jack, olhando para Bresach e lembrando-se de Delaney na mesma mesa, com o sucesso e o fracasso atrás dele, “como será que Bresach vai olhar para essas cerimônias de meia-noite, com que mulheres estará cochichando, e o que é que trinta anos de dinheiro, trabalho e desilusão o farão dizer a elas?” — Lembre-se do homem no hospital, meu caro e jovem amigo — falou Jack, devagar e com clareza. Bresach olhou para cie, intrigado, por cima da deliciosa vista cataniana do busto de Barzelli, elegantemente exibido naquela noite debaixo de rendas cor-de-rosa. Jack levantou sua mão, sério, como um aviso, um cumprimento, em amizade, afeição e despedida, como os pais erguem as mãos para os capitães, seus filhos, que estão de partida, ao som de músicas, para guerras distantes. — Que diabo está se passando com você hoje, Jack? — perguntou Bresach. Jack observou que a voz dele estava mais grossa do que de costume, e sacudiu a cabeça, lembrando-se de quantos de seus amigos e de suas amantes se tinham perdido no álcool, aquele mar brilhante e enganador. — Vinho, nervos, ambição, mulheres e excesso de trabalho — respondeu Jack, enigmaticamente. Voltou seu sorriso claro de boate para Mrs. Holt, porque ela, flutuando por sobre a mesa, de filó, como uma coisa que Marc Chagall teria pintado, se tivesse nascido em Oklahoma e morasse em Roma, lhe dizia: — Tenho muita vontade de que você conheça Mrs. Lusaldi, Jack. É a senhora que teve a bondade de nos prometer o filho. Ela sabe que dessa vez vai nascer menino. Tem quatro meninos e duas meninas, e nunca adivinhou errado. Ela esteve lá em casa hoje e eu queria que você a visse, larga como um piano, tem uma linda pele morena, ficou ali sentada de xale na cabeça e, francamente, eu só conseguia pensar que uma deusa da fertilidade tinha descido sobre o nosso palazzo. “Cuidado, Bertha Holt”, Jack teve vontade de dizer, “cuidado. O que diriam as senhoras de Oklahoma City se a ouvissem falar assim? Deixariam suas filhas irem a Roma?” — Uma coisa que eu sempre gostei nos italianos — continuou Mrs. Holt, sonhadora, flutuando vaporosamente por sobre as tumbas e as abóbadas das igrejas de Roma naquela noite — É que sempre têm dentes tão bonitos. Os dentes são tão importantes! Não concorda, Jack? Jack concordou que os dentes eram importantes, e aí Tucino cortesmente a convidou para dançar, por causa da ocasião, e ela, dizendo: “Oh, que gentileza”, levantou-se e,deslizando para junto dele, o acompanhou com um sorriso modesto e bêbado, como um gatinho cujo leite foi maldosamente misturado com conhaque. Leve, frágil e estéril, ela acompanhava a dança dentro daqueles robustos braços italianos. Jack

ficou olhando para ela com pena, porque ela acreditava firmemente que um filho, o filho de qualquer pessoa, lhe traria a felicidade. Apiedar-se de Tucino exigia um ato de compaixão heroico, pois só era possível ter pena dele genericamente, como representante de uma espécie simpática mas condenada, a raça dos jogadores, aqueles otimistas que não se podem abster de dobrar suas apostas, passando de um ganho estonteante a outro, até o prejuízo final. “Dia virá, antes dos sessenta”, pensou Jack, olhando para Tucino manobrando Bertha Holt entre os dançarinos, “em que você não vai poder pagar um jantar neste lugar.” Max talvez fosse o mais digno de pena, pois estava no auge de um exílio e no princípio de outro. Nunca mais estaria tão próximo de Bresach. Bresach dividira com ele sua cama, pois só havia uma cama; compartilhara de sua fome, pois estava vivendo de migalhas; e nessa divisão espartana ele restaurara a fé de Max na bondade e no amor do homem. Agora, haveria muitas camas e os festejos diários rapidamente se tornariam rotina e passariam despercebidos. A fraternidade se tornaria caridade e a caridade é apenas uma das circunstâncias do exílio, assim como a perseguição é outra. Exultando no triunfo de Bresach naquela noite, Max, por ser sábio, sabia que cada novo triunfo afastaria mais Bresach dele. Ter pena de Barzelli era um esforço estético, impessoal e puro, porque a única coisa de que ter pena, no caso dela, é que iria envelhecer e sua beleza seria destruída pelo tempo. se se pode dizer que é possível ter pena de um prédio belo e desabitado, porque os anos inevitavelmente o reduzirão a pó, então é possível dizer-se que Barzelli podia ser lastimada. Sam Holt era outro caso. Olhando para a mulher a dançar, os olhos afetuosos, satisfeitos com o prazer dela, seu destino estava dolorosamente claro. Sua felicidade era ancorada à de sua mulher, e esse ancoradouro era perigoso e exposto. Como se estivesse consciente de que Jack o analisava, Holt virou a cabeça e sorriu para ele. — Que noite, hein? — Que noite! — Não posso nem dizer-lhe como estou contente por você entrar conosco no negócio — falou Holt. — Isso me dá uma grande sensação de confiança. Precisávamos de um homem como você. Sólido, responsável, diplomático. “Para o meu epitáfio”, pensou Jack. “Aqui jaz, desesperado, um homem responsável.” — Estive pensando — continuou Holt. — Lembra-se de que eu lhe falei a respeito de meu cunhado, o irmão mais moço de Bertha? Que queríamos colocá-lo na folha de pagamento, como assistente de produção, para fins de imposto de renda?... — Lembro sim — disse Jack. — Eu pensei melhor. Não vou fazer isso. Não vou atrapalhá-lo com ele. Não que você não fosse gostar dele — disse Holt, com sua lealdade apressada. — É um bom rapaz. Mas, afinal de contas, não é o ramo dele... — Sorriu, melancólico. — Cuido dele de outro jeito. Do mesmo jeito de sempre. À maneira do imposto de renda. Ajudar a pagar alguns daqueles foguetes que vão à lua. — Holt sorriu, resignado, enquanto, pela centésima vez, involuntariamente e se sentindo meio envergonhado por isso, calculava quanto aquele bom rapaz, o irmão de Bertha, de quarenta e cinco anos, ia custar o resto da vida. Depois seu rosto se animou. — É uma bela comemoração, não é? — Olhou com bondade por sobre a mesa para Bresach, que estava rindo de alguma coisa que Barzelli cochichava em seu ouvido. — Aposto que aquele rapaz vai se lembrar dessa noite por muito tempo. Ah, é uma pena que Maurice não possa estar aqui hoje! “O velório”, pensou Jack. “Ele está aqui, sim. O espírito vagueia entre as taças de champanhe. Só o cadáver está ausente.” — Foi um dia e tanto — prosseguiu Holt. — Acho que Mamãe lhe contou da senhora italiana que gentilmente ofereceu para adotarmos o filho dela quando... — Ele procurou uma descrição decorosa do acontecimento. — Quando... hummm.,. chegar. — Sim — disse Jack —, ela me contou. Parabéns.

— Podemos ficar logo com ele. Assim, Mamãe pode sentir realmente que é todo dela. Amanhã, ela vai comprar o enxoval do bebê e um carrinho. Será uma grande mudança na vida dela, não acha? — Em sua voz havia um tom de súplica. — Sem dúvida — concordou Jack. — Para melhor — completou Holt depressa, receoso de ter deixado margem para uma alternativa na cabeça de Jack. — Claro — concordou Jack. — Vou escrever para vários educadores nos Estados Unidos a respeito do garoto — disse Holt. — Arriscando que seja homem... — Ele riu, com malícia. — Eu gostaria que ele fosse para os melhores colégios. Groton ou Andover, um desses. Parece que nunca é cedo para se fazer a inscrição. Quero que ele sinta que tem todas as vantagens... Aí, por cima do ombro de Holt, Jack viu Veronica. Ela vinha andando pelo lado da pista, atrás do maître, que a levava para uma mesa do outro lado da sala. Ao lado dela caminhava um rapaz alto e louro, segurando-a pelo cotovelo. “Claro”, pensou Jack, em agonia, “eu já devia esperar por isso.” Aonde iria um casal em lua de mel, com apenas uma noite para passar em Roma? “Sente-se num canto escuro", rezou Jack. "Sente-se num lugar em que ninguém a reconheça." Olhou para Bresach. Ele estava virado para Barzelli, falando muito interessado. Veronica e o rapaz louro sentaram-se a uma mesa pequena. Era logo atrás do canto da sala. Jack deu um suspiro de alívio. Mas então ele viu o perfil de Veronica aparecer no canto da parede, suavemente iluminado por um dos refletores. Viu que ela se debruçara, o suficiente para ser vista do lado da sala onde estava Jack. Aí, os dançarinos passaram por sua linha de visão e ele não a viu por um momento. — Nos anos futuros — dizia Holt, continuando no assunto da educação do filho, que ainda não tinha nascido da senhora napolitana, morena —, quer nós americanos o queiramos ou não, vamos ser obrigados a conduzir o mundo, ou a nossa quarta parte do mundo. — Ele estava falando muito sério, e pôs uma mão no pulso de Jack para dar ênfase, a mão grande, rude e capaz, formada por anos de trabalhos forçados e ainda não amaciada pela fortuna. — O que temos a fazer é procurar conservar o mundo... reconhecível. Vai modificar-se, claro, mas cabe a nós fazer com que as modificações fiquem reconhecíveis nos termos do que tivemos e apreciamos até hoje. E nunca o faremos lutando por isso. Mais uma guerra e este mundo não ficará reconhecível nem ao bom Deus que o criou. Teremos de fazê-lo pelo trabalho, pelo exemplo e pela persuasão. É uma coisa engraçada — disse cie, sacudindo a cabeça. — Somos uma terra de advogados, e no entanto não conseguimos convencer um único estrangeiro nem a mijar contra o vento, a não ser que o subornemos ou ameacemos com a bomba de hidrogênio. Mas isso não quer dizer que devamos parar de persuadir. Não, senhor — continuou ele, com ênfase. — Significa apenas que temos de aprender a persuadir muito melhor. E, se um camarada for bem-educado e proceder como um cavalheiro, pode ser muito mais persuasivo, mais útil. Eu não sou cavalheiro, fui criado como bicho, por isso posso dizer essas coisas sem ofender... E se o menino descende dessa... hummm... gente comum e robusta, é de sangue europeu e, como pretendemos não romper seus laços com sua terra... Bom — disse ele, encabulado —, talvez Mamãe e eu tenhamos contribuído com alguma coisa valiosa... — Com licença — interrompeu Jack. Ele vira o homem que estava com Veronica sair de trás da parede, a caminho do banheiro dos homens. — Avistei um amigo — disse Jack, levantando-se. Ele sabia que Holt talvez ficasse melindrado com o que devia lhe parecer a falta de educação de Jack, mas não havia tempo a perder. — Com licença um momento, por favor. Tenho de dizer um alô. Procurando disfarçar ao máximo, Jack foi pela beira da pista na direção do bar. Bresach nem levantou os olhos quando Jack passou por ele. Depois Jack, com os dançarinos entre ele e a mesa de Holt, foi até a mesa onde Veronica estava sentada, sozinha, uma taça de champanhe diante dela e a garrafa

num balde de gelo, num suporte à mão. Ela estava com um vestido de brocado creme, que deixava os ombros de fora, e tinha prendido o cabelo num coque de um dos lados. O efeito geral era de sofisticação e beleza fria, que a tornava quase uma estranha para Jack. Qualquer angústia que tivesse sofrido antes, de noite, tinha sido cuidadosamente apagada do rosto saudável e lindo que ela agora apresentava ao mundo e ao marido. — Veronica — disse Jack, em voz baixa, chegando à mesa dela. — Que diabo você está fazendo aqui? Ela levantou os olhos, assustada. — Ah, Jack! — disse ela. Olhou preocupada para a porta por onde o marido tinha saído. — Por favor. Meu marido vai voltar a qualquer momento. Não posso falar com você agora. — Você tem de sair daqui — disse Jack. — Neste instante! — Ora, Jack, por favor, não vá começar com coisas. Você já me magoou bastante hoje. Não quero ter de apresentar você a meu marido. Estivemos com uns amigos dele até agora, e já foi bem ruim, tentando responder perguntas sobre gente que eu conheço em Roma... — Escute aqui — disse Jack, asperamente, segurando a mão dela. — Bresach está ali. Do outro lado da sala. — Não acredito — disse Veronica, olhando nervosa para a porta. — Robert nunca foi a um lugar desses na vida dele. — Mas veio hoje. Estou dizendo isso para seu próprio bem. — Agora ele lamentava os martinis e o champanhe. Não estava dizendo o que queria dizer. Não queria falar de Bresach. Queria falar de si. Teria gostado de poder dizer: “Agora vamos voltar ao momento, hoje no hotel, em que você me beijou e eu contei até seis e você disse: ‘Como seres humanos. Com generosidade!’” Ele de repente teve uma visão desagradável de si mesmo como espectador e intermediário, observador da paixão dos outros, agente de seus ódios e desejos, recebendo suas confissões, meio de suas comunicações, mas nunca o ator, nunca o doador, nunca inteiramente envolvido, sempre pronto para se livrar. “Envolvido”, lembrou-se da noite com os Morrison, “envolvido”, lembrou-se da acusação da esposa. — O que eu vou fazer? — perguntou Veronica. Sua voz era baixa mas quase histérica. — Eu disse a meu marido que queria dançar, ele nem queria vir. E não estamos aqui nem há dez minutos. Estamos com uma garrafa inteira de champanhe e... Ela parou. Deixou escapar um barulhinho seco, como um soluço. O marido estava passando pela porta e abrindo caminho no meio dos dançarinos. Ele chegou à mesa e ficou ali, sorrindo educadamente a Jack, esperando que Veronica o apresentasse. Tucino e Bertha Holt passaram dançando devagar. — Sim? — disse o marido de Veronica, meio inseguro, porque Veronica ainda nada falara. Era um rapaz alto, de ombros largos, louro, jovem e bonito, com olhos azuis, cautelosos e perscrutadores. — Veronica? — Ele olhou firme para Jack, o tora de pergunta no fim do nome da mulher muito pronunciado. — Ah — disse ela, ofegante. — Desculpe, Georg. Eu... Este é Mr. Andrus. Um... amigo meu. Veio me felicitar. Meu marido, Georg Strooker... — Como vai? — disse Strooker. Tinha uma voz pesada, e, pelo menos nessas poucas palavras, nenhum sotaque. Ele estendeu a mão. Jack a apertou. A mão era dura e forte. — Eu... Espero que vocês sejam muito felizes — disse Jack. Estava confuso. Tinha bebido demais naquela noite e tinham acontecido coisas demais. — Muito obrigado — disse Strooker, formal. — Estou certo de que seremos. — Agora o sotaque de Zurique se fazia notar, mas não era cômico. Não havia nada de cômico, nem de leve, nesse rapaz grande e duro, com o rosto bem feito e os olhos azuis glaciais. “Departamento da Força pelo Prazer”, pensou Jack, “Divisão Suíça.” Strooker não se sentou, nem convidou Jack a sentar-se. — Eu... eu enviei uma participação a Mr. Andrus — disse Veronica, falando alto demais. — De Zurique. Ele... — Ela parou. Jack viu que seus olhos se arregalaram e sua boca se apertou, quando olhou

para trás dele. — Ora vejam — disse a voz de Bresach, junto do ombro de Jack. — Vejam quem está aqui. De penteado novo. Bem-vinda à Cidade Eterna. — Robert — disse Veronica. Ela estava tentando parecer animada e displicente, mas só ao pronunciar o nome de Robert havia uma nota de desespero em sua voz trêmula. — Nunca esperei encontrar você num lugar como este. — Grandes mudanças se efetuaram — disse Robert, os olhos fixos em Veronica — desde a última vez em que a vi... — Veronica — falou Strooker —, quer apresentar-me ao cavalheiro, por favor? — Sim, sim, claro — respondeu Veronica depressa, — Desculpe. Ainda não voltei à terra. — Ela riu, um riso falso. — Este é meu marido, Robert, Georg Strooker... — Encantado, Georg, meu velho — disse Bresach, sem se virar, ainda olhando para Veronica. — Como foi o casamento? Divertido? Aí Jack viu que Bresach não ia poupar nada a ninguém. — Vamos embora — cochichou ele, pegando o braço de Bresach. — Deixe de ser bobo. Bresach sacudiu-se e livrou o braço, com rudeza. Strooker estava olhando para ele, friamente, confuso, desconfiado, desagradável. — O que eu acho — disse Bresach, ainda olhando para Veronica — é que nós todos devíamos ser convidados para beber à saúde do noivo e da noiva! — Com um movimento súbito, ele estendeu a mão e pegou a garrafa de champanhe de dentro do balde de gelo. Ficou ali com a garrafa na sua frente, apertando-a contra o peito, sem se importar com a umidade que se espalhava na camisa. — Eu agora o sagro Corno Primeiro — disse ele, em voz alta e lenta. Ergueu a garrafa ao alto e solenemente a virou e entornou-a sobre a própria cabeça. O champanhe espumou em seus cabelos e escorreu pelo colarinho. Durante todo esse tempo ele continuava a olhar, sem piscar, com uma cara sem expressão, para Veronica. — Pare com isso — disse Jack asperamente, pronto para saltar entre Bresach e Strooker se este se mexesse. Mas no momento Strooker estava surpreso demais para dizer ou fazer qualquer coisa. Ficou ali onde estava, olhando desconfiado para Bresach, procurando saber se Bresach era um bêbado inofensivo ou alguém com quem seria preciso lidar seriamente em poucos momentos. — Agora, amigo — disse Bresach, virando-se para Strooker —, não podemos omiti-lo da cerimônia. — Antes que Jack pudesse detê-lo, ele tinha tornado a erguer a garrafa e estava derramando champanhe nos cabelos louros e bem escovados de Strooker. — Robert! — gritou Veronica. — Eu assim o sagro Corno Segundo — dizia Bresach. Por um momento, ninguém se mexeu. A música e as danças tinham parado e na sala reinava um silêncio profundo. As pessoas em toda a sala estavam quietas, esperando, olhando para Bresach e Strooker. O próprio Strooker parecia estar confuso, sem poder acreditar naquilo, olhando para Bresach, por um segundo ou dois, parecendo ser um participante voluntário da cerimônia. Depois, ele se moveu tão depressa que não houve tempo para salvar Bresach. A mão de Strooker ergueu-se com violência, batendo no braço de Bresach. A garrafa de champanhe voou pelo ar e espatifou-se numa explosão na pista de dança. Em seguida, Strooker deu duas bofetadas em Bresach, que lhe estalaram na cara. Os óculos de Bresach se quebraram e o sangue esguichou logo em volta de seus olhos. Ele não fez o menor gesto para se defender. Só ficou ali, sério e imóvel, como se toda a cena fosse ensaiada e inevitável. Jack o agarrou pelos ombros e começou a puxálo, mas Strooker foi atrás de Bresach, dando-lhe um soco na cara. Quando Jack estava lutando sem jeito no espaço exíguo entre as mesas para tirar Bresach do perigo e ao mesmo tempo evitar os golpes de Strooker, Max apareceu, como por mágica, entre os dois homens, agarrando os braços de Strooker. Este, que era de longe o mais forte, conseguiu livrar um dos braços e deu um soco na boca de Max. Max caiu

de encontro a outra mesa, o que o impediu de esparramar-se no chão. Mas a interrupção tinha servido. Garçons saltaram sobre Strooker e o seguraram, fazendo exclamações italianas de apaziguamento. Holt e Tucino se aproximaram e levaram Max e Bresach embora, enquanto Jack ficava defronte de Strooker, preparado para lutar se ele escapasse dos braços que o prendiam e tentasse atacar Bresach outra vez." A orquestra tinha recomeçado a tocar alto e Veronica estava chorando, com a cabeça na mesa. Strooker, de repente, parou de lutar. Disse alguma coisa em alemão, mas o garçom não compreendeu. — Está bem — disse ele em inglês. — Pode me soltar. Com receio, os garçons se afastaram. Strooker estava pálido e seu cabelo ensopado de champanhe, mas ele deu a volta à mesa e sentou-se junto de Veronica, sem olhar para ela. Olhou friamente para a sala cheia de gente, que o fitava. Sua mão estava sangrando, ferida pelos óculos quebrados de Bresach, mas ele não ligou para o sangue que manchava a toalha da mesa. — Acho que precisamos de outra garrafa de champanhe — disse ele ao maître, que estava ali a seu lado, nervoso. Jack não pôde deixar de admirá-lo naquela hora. — Sinto imensamente — disse Jack a Strooker — o que houve com o meu amigo. Acho que ele bebeu um pouco demais hoje. — Sim — falou o homem, sem expressão —, acho que sim. — Depois ele se virou para Veronica. — Sente-se direito — disse ele, ainda sem expressão. — Deixe de ser criança. Devagar, os olhos cheios de lágrimas, ela se endireitou na cadeira. — Por favor... — murmurou ela. — Sente-se direito — repetiu Strooker, na mesma voz, olhando para a sala, começando o castigo dela, para toda a vida. Não havia mais nada a dizer nem a fazer naquela mesa, e Jack virou-se e atravessou a pista de dança, sentindo todos os olhos postos nele. Jack disse que levaria Bresach e Max para casa de táxi. Tinha lavado o sangue do rosto de Bresach no banheiro dos homens, na boate, e certificou-se de que nenhum caco de vidro lhe tinha afetado a vista. Bresach submeteu-se a tudo que lhe faziam com a expressão enlevada e sem paixão de um sonâmbulo. Não disse uma palavra a Jack nem deu boa noite aos Holt, Tucino ou Barzelli, que estavam esperando na rua, defronte da boate, para ver se Bresach estava bem, antes de irem para casa. — É uma pena, é uma pena — disse Holt, preocupado. Estava segurando o braço da mulher com um ar protetor, como se a briga na boate lhe tivesse lembrado outra vez como o mundo era violento e como sua mulher era frágil e vulnerável. — Que maneira de terminar uma noite como esta. — Ele sacudiu a cabeça, triste. — Não é nem um pouco o tipo de coisa que se poderia esperar num lugar como este. Em Roma, no melhor lugar de Roma. Nos Estados Unidos, é claro, a gente espera essas coisas, não é uma surpresa... — Ora, isso não é tão terrível! — disse Barzelli. Ela parecia estar ironicamente divertida com o incidente. — Ele é moço. Os moços brigam. Estará bem de manhã. Só precisa de óculos novos. Quando Jack estava embarcando Bresach e Max num táxi, ouviu Tucino reclamar: — Na única noite em que Tasseti não vem, isso acontece. Justamente quando a gente precisa dele. Se Tasseti estivesse aqui, eu lhe asseguro que ninguém teria batido num convidado meu e saído ileso. — Por que você diz convidado seu? — perguntou Barzelli. — Foi Mr. Holt quem pagou a conta. — Eu estava falando num sentido mais lato — disse Tucino, com dignidade, dirigindo-se para o seu carro. No táxi, por algum tempo, o único ruído era o de Max chupando o lábio cortado. Depois, Max disse: — Não gostei da cara daquele homem. Parecia um comissário. Aquela moça tem toda a minha compaixão, obrigada a viver com um sujeito daqueles.

Ele voltou a chupar o lábio. Durante todo o percurso para casa, Bresach ficou no seu canto, a cabeça encostada à janela, chorando quieto. Não havia nada a dizer, nenhum consolo que ele aceitasse, e os dois outros homens ficaram calados, mantendo as cabeças desviadas enquanto o táxi rolava com barulho pelas ruas estreitas da cidade adormecida. Quando o táxi parou, Max disse a Jack: — Não é preciso subir. Eu tomo conta dele. Vamos, Robert — disse ele ao rapaz, com muita brandura. Jack ficou olhando os dois desaparecerem no portal escuro e abobadado, e depois disse ao motorista do táxi que o levasse ao hotel. No caminho, ocorreu-lhe que Veronica e o marido provavelmente ainda estariam na boate, terminando seu champanhe, o homem com cara de comissário, como Max dissera, rigidamente continuando o castigo que ele iniciara quando disse a Veronica “Sente-se direito. Deixe de ser criança.” “Última chance, última chance”, pensou Jack. “Amanhã, ela estará em Atenas e estará tudo terminado.” Por um momento, ele hesitou. Chegou a debruçar-se para falar ao motorista. Ficou ali, na beira do banco, incômodo, inseguro, enquanto o táxi fazia uma curva fechada. Depois, ele se recostou, pensando: “Não, deixe a pobre garota descansar em sua cama suíça, segurada.” Cinco minutos depois, ele estava na porta de seu hotel.



27 Havia dois recados esperando por ele, ambos de Clara Delaney, ambos pedindo que Mr. Andrus ligasse para Mrs. Delaney no hospital, a qualquer hora que chegasse. A caminho de seu quarto, no elevador, ele ficou olhando para os recados, rabiscados de maneira quase ilegível pela telefonista da noite do hotel. “No hospital, no hospital”, ele leu, várias vezes. “O velório”, pensou ele, culpado. “Essa noite me diverti, fingindo que estávamos no velório de Delaney.” Jack apressou-se pelo corredor quieto, atapetado, para sua porta. Destrancou-a, deixando a chave na porta, e foi diretamente para o telefone, na mesa da sala. A empregada deixara só uma lâmpada acesa, junto ao telefone, e o aparelho reluzia no cone de luz exíguo, no quarto escuro. Ele demorou muito até conseguir falar com Clara Delaney no hospital. A enfermeira de serviço, na mesa telefônica a princípio recusou-se a ligar para o quarto de Delaney àquela hora, e ele só foi falar com Clara depois de uma acalorada discussão. Jack olhou para o relógio. Eram duas e trinta e cinco. Enquanto esperava, ele pensou em Sam Holt dizendo: “Em Roma, no melhor lugar de Roma”, e no sangue em volta dos olhos de Bresach depois que o marido de Veronica lhe quebrara os óculos. Por fim, houve uma série de estalos no telefone e a voz de Clara dizendo: — Alô. — Clara — disse Jack —, o que é? Aconteceu alguma coisa? — Quem é? — perguntou Clara. Ela parecia estar irritada e com sono. — Jack. Você deixou um recado para eu lhe telefonar. Acabei de recebê-lo e... — Ah — disse Clara, sem expressão —, Jack. — Maurice está bem? — Na mesma — disse Clara. A voz dela tinha um tom estranho e oco, uma falta de ressonância, que parecia tornar hostil tudo o que ela dissesse. — Estou satisfeito por você afinal ter resolvido vê-lo, Clara — falou Jack, pensando: “É bem de Clara isso: quando ela por fim aceita visitar seu marido inválido, faz questão de estragar o sono dele.” — Tenho certeza de que você está certa. — Agora que sabia que Maurice não tinha piorado, Jack se arrependeu de ter ligado. O que quer que Clara tivesse a lhe dizer, poderia ser dito melhor e suportado melhor de manhã. — Escute, Clara, é muito tarde. Amanhã à noite eu vou ao hospital, como sempre, e... — Não vem não. — O que foi que você disse, Clara? — Eu disse para você não vir ao hospital amanhã. Não vou deixar você entrar no quarto de Maurice. — Que diabos você está dizendo? — Os amigos de Maurice têm permissão para vir visitá-lo — disse Clara. — Você não é amigo. Jack deu um suspiro. — Clara, obviamente, seja o que for que você tem a me dizer, é muito desagradável, e já é muito tarde para se ser desagradável. Amanhã de manhã eu falo com você... — Você nunca mais vai falar comigo em sua vida — disse ela, alto. — Não pense que eu não sei o que você andou fazendo com o pobre Maurice, enquanto ele estava aqui deitado indefeso em seu leito de agonia. Ele me contou tudo.

— O que é que eu andei fazendo com o pobre Maurice? — perguntou Jack. Ele sabia que seria melhor desligar imediatamente e arriscar-se a falar diretamente com Delaney de manhã, mas não podia deixar de sentir curiosidade a respeito desse novo ataque de Clara. — Atraiçoando-o — disse Clara, com dureza, sua voz sibilando no telefone. — Depois de tudo o que ele fez por você... — Ora, Clara — disse Jack, com calma —, procure falar direito, como uma mulher na posse de seus sentidos. De que modo estou atraiçoando Maurice? — Não banque o superior comigo — disse Clara, numa voz estridente. — Isso tudo já acabou. Nós resolvemos tudo hoje, eu e Maurice, e de hoje em diante ele vai ouvir a mim, vai deixar que eu tome conta dele. Ele compreende que toda a vida foi por demais louco, insensato e crédulo, e que agora está pagando por isso. Agora — disse ela, vitoriosa —, se alguém quiser alguma coisa de Maurice Delaney, primeiro tem de vir a mim. “A carcereira nata”, pensou Jack, “por fim atingiu o auge em sua profissão, deram-lhe a chave da cadeia.” — Não quero nada de Maurice — disse Jack. — Nem quero nada de você. Mas vou já para aí esclarecer isso. — Não se incomode — disse Clara. — Você não vai conseguir entrar. Estarei na porta. De hoje em diante ele não vai desperdiçar seu tempo nem sua afeição com gente que lhe enfia uma faca pelas costas... — Está bem, Clara — disse Jack, com calma. — Acho que basta por hoje. Vou procurar entender isso de manhã. Agora vou dormir. — Ele se preparou para desligar. — Eu sei de tudo — gritou ela, e Jack ficou pensando em quantos pacientes a voz louca e seca não estaria despertando, para a dor e a angústia no hospital adormecido. — E agora Maurice também sabe de tudo. Tudo a respeito de seu bom amigo, John Andrus, que ele tirou da sarjeta quando ele era um atorzinho reles de Nova York, sem um vintém. Não pense que eu não sei o que tem acontecido por trás dele. Não pense que não tenho minhas fontes de informações. Hilda me telefona três vezes por dia, e eu falei pessoalmente com Sam Holt há dez minutos. Você não pode esconder nada de mim.... “Talvez Maurice”, pensou Jack, “se tiver sorte, morra antes do amanhecer e nunca mais tenha de ouvir a voz da mulher.” — Não estou tentando esconder nada, Clara — disse Jack, conservando a voz baixa e calma, na esperança de que seu exemplo tivesse um efeito calmante sobre ela. Ele sabia que ela estava no mesmo quarto que Maurice e ficou imaginando qual seria o efeito sobre ele de escutar aquela voz louca, lamuriosa, noturna, com seu fardo de miséria e ódio. — Você nega que tentou pôr Maurice na prateleira por um ano? — gritou Clara, mais alto do que nunca. — Procurei convencê-lo a salvar a própria vida — disse Jack. — Isso eu não nego. — Salvar a vida dele! — berrou ela. — Não se preocupe com a vida dele! Ele vai viver mais do que você ou eu. — Não havia testemunho, Jack sabia, medico ou leigo, que fizesse Clara compreender que o homem vivo e enérgico com quem ela se casara não era imortal. De uma maneira maluca, era um tributo a Delaney e um tributo ao poder do amor dela por ele. — Tentou afastá-lo por um ano, enquanto você e aquele rapaz tomavam conta. Você sabia o quanto o roteiro daquele rapaz significava para Maurice. Sabia como ele gostou daquilo. Sabia que isso o colocaria de novo no auge, se ele o fizesse, por isso você tramou para tirá-lo dele. E se aproveitou dele enquanto ele estava deitado aqui indefeso para conseguir que ele concordasse. E teve até a audácia de contar a Maurice, na cara dele, que disse ao rapaz para não deixar que Maurice o fizesse. Porque acha que ele estava por demais fraco para lutar. Você nega isso? — Não quero mais falar com você, Clara — disse Jack. — Acho que você não está no seu juízo

perfeito para poder ouvir a voz da razão. — Ah, estou em juízo perfeito, sim — disse ela, alucinada. — E é por isso mesmo que você queria esconder tudo isso de mim. Porque não quer ser descoberto. E não basta querer arruinar o futuro de Maurice, não pense que eu não sei como você e aquele garoto maluco estão tramando para modificar tudo o que ele fez no filme, todas as coisas lindas e sutis, para estragar tudo. É a última oportunidade de Maurice, seu filho da puta, e você está procurando matá-la, matá-la propositadamente, e tem a coragem de vir ao quarto de doente dele e fingir que está preocupado com ele, fingir que é amigo dele, mandar-lhe flores. “Tenho de escutar tudo”, pensou Jack, afastando o fone do ouvido. *““Deixar que ela diga o que quiser e depois falar com Maurice...” — E eu sei por que você está fazendo isso, não pense que não sei! — continuou ela. — Você tem é inveja dele. Sempre foi um invejoso. Porque ele tem sucesso e isso amargura a sua alma, o sucesso dele. E porque ele dormiu com aquela puta da sua mulher e você nunca lhe perdoou... Jack ouviu a voz de Delaney, a distância: — Clara — disse Delaney. — Pelo amor de Deus, cale a boca. — Calo a boca quando eu bem entender — respondeu Clara, descontrolada. Depois, de novo para Jack: — Não pense que você vai conseguir se safar dessa. Maurice já falou com Holt. Você está fora do filme e aquele rapaz maluco também. Tucino vai assumir o comando amanhã de manhã e ele vai terminar tudo, e você pode voltar para o seu lugar, com os outros funcionários... — Quero falar com Maurice, por favor — disse Jack. — Você nunca mais vai falar com ele, em toda a sua vida — disse ela. — Oh, Cristo! — era a voz de Delaney. — Dê-me o fone. Por um momento, só se ouviu o som de Clara respirando pesadamente, e depois a voz de Delaney, cansada, sem expressão. — O que você quer me dizer, Jack? — perguntou ele. — É verdade que você disse a Holt que queria que Tucino terminasse o filme? — perguntou Jack. — É. — Escute bem, Maurice — disse Jack. — Não é por mim que vou dizer isso, é por você. Vou conseguir que Holt mantenha Tucino afastado e deixe que eu e Bresach acabemos o filme por você. Não tem a menor chance, de outro jeito... Delaney suspirou. — Jack — disse ele, secamente. — Se eu ouvir dizer que você está perto daquele set amanhã, vou levantar da cama e vou para lá ficar atrás da câmera eu mesmo. . — Maurice, pode ser que esta seja a última oportunidade que eu tenha de lhe falar, talvez a última oportunidade de qualquer pessoa lhe falar, de modo que você vai ter de ouvir a verdade, uma vez na vida. Você se arruinou devido à vaidade, Maurice, e hoje está completando essa ruína. E sua mulher serve à sua vaidade, porque ela quer ver você arruinado. Porque só assim que você a procura, porque quando está sofrendo é só dela. Ela mesma me disse isso, na terceira noite que eu passei em Roma, Maurice. Você é um homem que está à beira de um abismo, e todo mundo sabe disso. Todo mundo menos você. Eu já fiz tudo o que pude para puxar você para trás, ainda há uma oportunidade de salvá-lo. Ainda há muita coisa a salvar. Você mesmo provou isso quando conversamos hoje à noite no hospital. Não a jogue fora... — Acabou? — perguntou Delaney. Jack suspirou. — Já. Já acabei. — Saia desta cidade, Jack — murmurou Delaney. — Depressa.

Devagar, Jack desligou o telefone. Houve um estalido mecânico e a sala ficou em silêncio. “Perdido”, pensou ele. “E eu que pensava que esta noite eu o tinha salvo.” Jack lembrou-se de sua satisfação consigo mesmo, naquela noite, antes, e sacudiu a cabeça, triste. Ainda havia mais uma coisa a fazer. Pegou o fone de novo e pediu o número de Holt. “Ele deve estar acordado”, pensou Jack. “Hoje todo mundo está acordado.” — Sam — disse ele, quando ouviu a voz de Holt —, imagino que você saiba por que estou telefonando. — Sei — disse Holt. — Mrs. Delaney me deu a honra de me telefonar há quinze minutos. — Imagino que isso liquide tudo — falou Jack. — Não necessariamente — respondeu Holt. — Eu gostaria de respeitar os desejos de Maurice ao máximo, Jack, mas há muitas outras pessoas envolvidas, e muito dinheiro. Se você concordar, continuaremos como estamos, com você como diretor, e esperaremos que Maurice acabe sendo razoável. — Não, Sam — falou Jack. — Ele não vai ser razoável e eu não vou continuar. Foi ele quem me trouxe aqui e ele me mandou embora. E eu vou embora. — Compreendo — disse Holt. — Sinto imensamente. Há alguma coisa que eu possa fazer por você? — Vou tomar o primeiro avião que puder — disse Jack. — Quer ver se encontra Bresach e explica tudo a ele? — Claro, Jack. — Se você passar por Paris, procure-me, Sam. Quero convidar você e Bertha para jantar. — Com certeza — disse Holt. — Pode contar com isso. A que horas é seu avião? — Acho que há um na hora do almoço que posso pegar. — Vou mandar seu cheque para o hotel de manhã — disse Holt. Jack riu, com pesar. — Você não está lucrando muito, não é, Sam? — Estou no negócio do petróleo — respondeu Holt — Estou habituado a arriscar. E a perder. — Você vai continuar o negócio com Delaney e Tucino? — perguntou Jack, curioso. Fez-se uma longa pausa do outro lado. — Francamente, acho que não, Jack — disse Holt. — Acho que vou ficar com o petróleo. Parece que me dou melhor nisso. — Hummm — disse Jack. — Bem, cuide do meu amigo Delaney por mim, Sam. — Acho que não há muita coisa que eu possa fazer nesse sentido — disse Sam, com calma. — Nem eu nem ninguém. Boa noite, Jack. — Boa noite. — Jack desligou. “Finito”, pensou Jack. No seu melhor italiano. Ele olhou em volta da sala vazia, escura, a não ser o cone de luz da lâmpada da mesa, brilhando sobre o telefone. Era sem vida e frio, falsamente luxuoso, um lugar para viajantes, solidão e esperanças desfeitas, Uma garrafa de uísque, pela metade, estava sobre uma mesinha junto à porta, com uma garrafa aberta de soda e uns copos. Jack serviu-se de uma dose, com um pouco de soda. Estava choca, mas ele não se importou. Bebericou o drinque, de pé, ainda de sobretudo com a gola virada para cima. “As amizades acabam”, pensou ele, “o amor morre. Com um estalinho mecânico.” Ele não estava com vontade de ir deitar-se. Ainda segurando o copo, foi ao quarto de dormir, acendeu a luz, pegou suas duas malas e começou a arrumá-las. “Arrume tudo”, pensou ele, “arrume a cidade.” Jogou o Baedeker 1928 (“e ali aguardar o pôr do sol”) no fundo da mala que um dia havia agarrado para usar como arma contra a faca de Bresach. Depois jogou o Catullo (“vejam aonde vão os jovens...”), remexeu as gavetas da cômoda e descuidadamente empilhou camisas em cima dos livros. Viu gotas escuras nas camisas e percebeu que seu nariz estava sangrando, não muito, mas sangrando. Levou

um lenço ao rosto e bebeu mais um pouco, continuando a arrumar as malas. “Arrume tudo.” Naquele quarto, nas horas mortas da noite, a morte o havia tocado, dedilhado, murmurado um aviso hesitante, contado para ele os amigos perdidos, os suicidas, os caídos na luta, os que haviam morrido de desilusão, injustiça, devassidão ou simplesmente porque era sua hora de morrer. Carrington, Despière, Davis, os homens que tinham jogado pôquer enquanto Londres ardia, Myers, Kutzer — aquela assembleia mortal, respondendo “presente” ao grito da memória, “presente” dos túmulos da Califórnia, África e França. Ele bebeu mais um pouco, encostou o lenço ensanguentado no rosto e colocou os três ternos na valise americana engenhosa, patenteada e inútil, como três fantasmas na noite romana, e pensou nos sonhos que tinha sonhado naquela cama, na moça que tinha amado ali, na faca e no lençol amarfanhado, no momento em que, por um ou dois segundos que ele nunca poderia esquecer nem se negar, ele acariciara a ideia da morte. Ele não morrera em Roma. Delaney se aproximara disso e talvez chegasse ainda mais perto. Despière morrera, embora fora da cidade. Despière, cuja alma tinha reconhecido a cidade quando ele entrou pela Porta Flaminia pela primeira vez, e que sempre estava pronto a comemorar e pagar a sua alegria de manhã. Beber e sangrar e arrumar as malas. Onde estaria a cigana cantando essa noite? O que estaria a sua mulher, aquela mulher do prazer, como Despière dissera uma vez, fazendo naquele momento? Ele pensou nas mulheres deitadas em suas camas naquela noite. Sua mulher, segura, pensou ele, em seu amor por ele, mas com seus próprios segredos, dormindo arrumadinha, que lhe daria as boasvindas em casa e diria, como dizia cada vez que ele voltava de fora: “Divertiu-se, chéri?” E se ele perguntasse a ela: “Divertiu-se, chérie?”, e ela respondesse com a verdade... Ele seria capaz de suportar isso? Veronica, em seu leito conjugal, aquele corpo cheio de êxtase, paixão de recém-casados, depois das explicações astuciosas que ela teria imaginado para acalmar as suspeitas do marido. “O champanhe do corno já seco naquela cabeça alpina bem escovada.” — Oh, Deus! — gemeu ele, com amargura, e foi para o salão, e se serviu de outro drinque. Bertha Holt, como uma dama, ensopada em álcool, sob os olhos afetuosos de seu marido fiel, feliz, sonhando com carrinhos de bebê, babás, chupetas, fraldas, esperando que o rico ventre italiano produzisse a criança que a salvaria e daria um significado a sua vida. Clara Delaney, demente numa cama no quarto escuro no hospital, em plena posse feroz das ruínas em volta de si, dissolvendo o que restava do marido no ácido de seu amor. Barzelli, cuja imagem flutuava nos sonhos de inúmeros homens todas as noites em todo o mundo, dormindo, sem remorsos, displicente, poderosa, divertida, em seu palácio dourado na Via Appia, manejando o amor e o dinheiro e a fama com a cabeça fria e rude de uma camponesa que maneja uma ninhada de crianças barulhentas e saudáveis. Carlotta, que de algum modo aprendera a se conquistar, descobrindo que estava destinada a ser feliz depois dos quarenta, que vivera para o amor ou o sexo, ou a combinação dos dois que ela conseguisse agarrar em sua ânsia, e que tinha chegado à tranquilidade, contra todas as probabilidades... Sozinha, ela que não tinha querido ficar sozinha... As linhas do amor, na teia da noite, levando aonde? A Bresach, com sangue em volta dos olhos; a Despière, morto por um ordenado; a Holt e a cruz da garrafa da mulher, à caça dos filhos dos outros; a Delaney, preso na jaula dos ciúmes da mulher, isolado dos amigos, isolado da mulher em cujos braços ele havia deitado em alegria e inocência e que, segundo ele, o havia feito florescer nas longas noites do inverno italiano. As linhas do amor, levando, no caso de Jack, a sua vida dividida, três esposas, angústia

tripla, dúvida, desilusão, raiva, ódio, rotina. “Sabe, você não me procura há mais de duas semanas.” A voz suave e acusadora no aeroporto. (“Por que ela não mandou a cigana calar a boca?”) As garras das mulheres? Palavras de Delaney. Agonia por toda parte. Qual o antídoto? Trabalho, ambição...? Holt tinha trabalhado, Maurice Delaney ainda era ambicioso. E quanto ao valor do que eles tinham realizado — quem poderia dizer que em alguma escala eterna de valores os dois ou três bons filmes que Delaney fez, quando era mocinho, não equivaliam, ou ultrapassavam, os mil poços de petróleo de Holt? Nas horas caladas, totalizadoras da noite do homem, Holt ficaria perseguido pela ideia do petróleo, Delaney ficaria curado pela recordação de duas ou três belas horas de filme que ele criara em outras eras? Despière, morto na África, tinha sido ambicioso à sua maneira, tinha trabalhado e lutado. Aquele especialista e quase sobrevivente de guerras, que só podia dizer, muito depois, ao se apresentar pela última vez, ao som dos canhões: “É uma merda de ambos os lados.” Morte, morte, as vozes lhe murmuravam. O canto que as sereias entoam em Roma, tornando o esquecimento atraente, fazendo do nada um deleite. Atado a mastro nenhum, seus ouvidos não tapados por cera, ele tinha escutado, tinha estendido sua mão na direção da música. Era incrível que isso lhe tivesse acontecido. Não àquele homem saudável e responsável, John Andrus, o olhar de esguelha à janela aberta de um sexto andar, ao vidro cheio de soporíficos. Não era dele essa inveja dos mortos que haviam, de um modo ou de outro, resolvido seus problemas, que não precisavam mais se comparar diariamente com o que haviam sido quando moços, não tinham mais de se testar em cada movimento, cada decisão, para ver sinais de declínio e conchavos. Só que lhe acontecera, sim. Nas duas últimas semanas, alguma coisa lhe acontecera que nunca lhe havia acontecido antes — ele começou a desejar a morte. Houve muitos motivos para isso — o soco à toa na escada do hotel, quando ele chegara, dizendolhe que ele tinha sido escolhido dentre todos os homens em Roma naquela noite para ser castigado ou avisado (“Foi o que cantaram quando o Doria afundou” e o riso das mulheres no táxi), o jato de sangue, o paletó manchado (de quem seria — do assassino ou de sua vítima?), o touro por cima da porta, o rapaz com a faca, o sonho dos homens calvos de avental desmembrando o seu próprio corpo na floresta, os padres alemães frustrando o seu amor, fazendo o seu amor desaparecer, os nomes dos mortos no cinema e aquele rapaz esguio que tinha sido ele e que para todos os propósitos também estava morto ("Eh bien”, tinha escrito Despière, também ele cheio de pressentimentos, “o pior já passou. Você não deve se surpreender. Num mundo assassino é normal ser assas-» sinado.”), Delaney caindo de cara no cascalho, no clube de equitação, sem salvação... o lado direito e esquerdo de Cristo no Juízo Final. Os companheiros da teta direita sob o chicote da fortuna. O primeiro e último e único juízo importante. Jack sacudiu a cabeça. “Não indague mais.” Havia muitos motivos, mas, fossem quais fossem, ele agora estava ali sozinho numa cidade de túmulos e monumentos, num quarto frio e escuro que não pertencia a ninguém e não acolhia ninguém, era mais de meia-noite e muito antes do amanhecer e ele estava lutando com a sensação de que talvez tivesse sido melhor se ele nunca tivesse sido arrastado para fora da casa em chamas, se Wilson, naquela corrida louca pelos corredores do hospital com a cadeira de rodas, nunca tivesse encontrado o gabinete do coronel, Acendeu a luz do lustre e serviu-se de mais um drinque, foi até o espelho pendurado na parede e friamente se examinou. O macaco de Deus, preso na mesa de vivissecção universal. O espelho é a faca. Ele ouviu um ruído curioso. Era baixo e rouco, animalesco, subindo e descendo, o lamento de uma fera em agonia. Vinha da rua e Jack se afastou do espelho, puxou as cortinas e foi para a sacada. Olhou para baixo. Um homem sem chapéu estava de pé no meio da rua escura e vazia, de casaco aberto e braços levantados, gritando as mesmas palavras, várias vezes, para o céu, para as janelas cerradas e

escuras, para as paredes cegas da cidade de Roma. Perto dele, duas prostitutas tinham parado para olhar. A princípio Jack não conseguiu distinguir o que o homem estava dizendo, nem mesmo em que língua estava falando. Depois ouviu, em inglês, as palavras carregadas pela bebida e pelo terror: “Oh, Deus, estou sozinho. Oh, Deus, não há ninguém para me ajudar? Oh, meu Deus. . Uma das prostitutas riu. O riso dela subiu até ele, puro e juvenil,, na fresta entre os prédios. Por um instante, olhando para aquela figura solitária de americano com os braços para cima e o casaco esvoaçando ao vento, Jack teve certeza de que era o bêbado que dera nele na sua primeira noite em Roma. Depois, o homem baixou os braços, e, gemendo, incoerente, cambaleou pelo meio da rua até chegar a um poste. Na luz, Jack pôde ver com mais nitidez. Não era o mesmo homem. — Oh, Deus — lamentava o homem, gemendo, cambaleando agora na calçada e contra as paredes de um prédio. — Oh, Deus, estou sozinho... Ninguém quer me ajudar? Aí, ele parou de se mexer por um instante. Passou a mão pelos cabelos, respirou fundo e olhou em volta, com astúcia. Depois abotoou o sobretudo depressa e, de cabeça para trás, os braços movendose dos lados como um soldado numa parada, caminhou rápido para a esquina e desapareceu. Jack piscou os olhos. Tudo tinha acontecido tão depressa, tinha sido tão bizarro e súbito, que era difícil acreditar que não tinha sido uma aparição, um sonho acordado. Jack ainda ficou olhando um pouco para a esquina onde o homem tinha desaparecido, imaginando ouvir ainda no vento que agitava as cortinas, a seu lado, o eco da voz queixosa, dizendo: “Sozinho... sozinho...” A prostituta tornou a rir e as duas mulheres se afastaram depressa. Ele voltou, fechando a janela. Ficou andando pela sala atapetada, de copo na mão. A noite era dura e perigosa. Gritos de agonia eram proferidos nas ruas. A sala tinha espelhos demais e era entristecida por um regimento de recordações. O relógio dourado do hotel batia alto demais por cima da porta e fazia sugestões intoleráveis. O “sozinho” do bêbado era uma presença na sala, um julgamento, uma ameaça. Jack viu que não podia passar a noite naqueles aposentos frios. de repente, ele se lembrou do som do riso da mulher da rua. Agora, sem lógica, ele tinha certeza de reconhecê-la, de que era a alemã de sapatos vermelhos. Ele se dirigiu para a porta. “É esse o jeito de acabar tudo isso, acabar Roma nos braços de uma puta alemã.” Por que não? Um fim amargo a essa viagem amarga. Pelo menos, não passaria o resto da noite sozinho. Aí ele parou. A palavra. Já tinha sido usada uma vez naquela noite. “... aquela puta da sua mulher...” A voz demente de Clara. “Melhor ainda”, pensou Jack, vingativo. “Para que sair de casa? Temos uma puta na família.” Ele foi para o telefone. — Miss Carlotta Lee, por favor — disse ele, astuciosamente parecendo um homem razoável e responsável, para conservar ilibada a sua reputação na mesa telefônica. Olhou para o relógio. Três e dez. “Eis um teste para um divórcio”, pensou ele, “acordar uma ex-mulher às três e dez da madrugada.” — Alô? — disse Carlotta. Sua voz estava sonolenta. — Carlotta — disse Jack. — São três e dez. Posso ir vê-la? Silêncio, por um momento. Depois, ela respondeu: — O número é 324. A porta estará aberta. Mas não houve vingança alguma. Não foi nada assim. Estavam deitados lado a lado no escuro, na cama larga. O quarto era pequeno, fechado, o ar cheio de perfumes que ele pensava ter esquecido e que agora o levavam de volta a quartos que ele deixara havia muito. Eles fizeram amor sérios, como gente que jurou cumprir um mandamento solene. Eles se tinham amado devagar, demoradamente. Tinham-se amado ternamente, como se cada qual tivesse consciência de uma fragilidade secreta e preciosa dentro de si e do outro, que tinha de ser protegida. Tinham-se amado obcecadamente, como se os anos tivessem construído dentro deles uma fome violenta que um ato de amor

isolado não pudesse jamais saciar. Tinham-se amado com o conforto e conhecimento de familiares e o encanto e o choque de um primeiro encontro. Estavam em casa e numa terra estranha, amantes e estranhos, em êxtase e displicentes. Por fim, tinham-se amado com alegria e perdão, e um prazer longo e de absolvição um no outro. Ela estava aninhada no braço dele. Com delicadeza, ele tocou nela. Sua pele estava extraordinariamente macia. “Carne”, ele se lembrou da tarde na capela, “carne.” Ela suspirou, sonolenta, feliz. “Estamos contentes com nossa carne”, pensou ele, “somos abençoados em nossa carne, somos alegres e santos em nossa carne, comemoramos em nossa carne. Aceitamos a ciência e a certeza da morte em nossa carne, estamos prontos a pagar com nossa carne pela alegria da noite, na luz da manhã.” “O macaco de Deus”, pensou ele. Mas uma boa proporção das experiências de Deus tratam do amor, prazer, compreensão. Se aí houver um contrato, não é irracional. “Eles temem a vergonha”, lembrou-se ele, "e só se acasalam de noite e em segredo, e não se juntam novamente à manada sem primeiro se banhar no rio...” “Hoje”, pensou ele, divertido, “nós nos acasalamos de noite e em segredo, e não nos juntamos novamente à manada. Estamo-nos aproximando do alto nível de conduta do elefante.” “Consequentemente”, lembrou-se ele, “quando a lua é nova eles se dirigem para os rios, ali se banham solenemente e, tendo assim saudado o astro, voltam às florestas...” “A lua hoje é nova, meu rio é o Tibre.” Ele levou a mão ao peito dela, passando-a depois pelas costelas e quadris. O corpo dela não era mais o magnífico corpo de moça das manhãs da Califórnia. As linhas tinham engrossado, os contornos estavam muito mais cheios, ela sempre pareceria muito pesada, um pouco desgraciosa, em roupas elegantes, e ele sabia que ela nunca se contemplaria no espelho sem um certo pesar por sua beleza perdida. Mas aquele corpo generoso e experiente, naquela noite, lhe dera uma intensidade de prazer, uma sensação completa, que ele nunca experimentara antes. — Não é como fazer amor — murmurou ele no ouvido dela. — É como colher a safra. Ela riu. — Há um ditado espanhol — disse ela. — Os homens fingem que não, mas eles na verdade gostam de mulheres gordas, vinhos doces e música de Tchaikowski. Eles riram juntos, debaixo do lençol. O riso era sensual, o riso sadio de velhos amigos, bons amantes, perdoadores, gozadores. Dissipava os fantasmas, tirava a dor das recordações, lançava uma luz humana e racional sobre receios e pressentimentos. — Mulher gorda — disse ele, acariciando o ombro dela, confortavelmente. — Eu sabia que isso tinha de acontecer — disse ela. — De algum modo, em alguma ocasião. — Sim — concordou ele. Agora que tinha acontecido, também lhe parecia inevitável. — Não podíamos deixar que o ódio perdurasse — disse ela. Ficaram quietos um pouco. — Você parte amanhã? — perguntou ela. — Sim. — Você vai fazer amor com sua mulher amanhã? — Vou. — Vai pensar em mim? — Não, vou pensar em minha mulher. — Naquele momento, ele sabia que desejava a mulher mais do que jamais a desejara. Sabia que a tomaria nos braços com amor, encanto, e a adoraria. O que começara em sua cabeça com um ato de vingança, Carlotta, com sua farta feminilidade, se tinha transformado num ato de compaixão e perdão. Perdoando a ela, Jack afinal derrubara o muro que construíra entre ele e o amor, entre ele e a fé no amor, o muro que ele começara a construir naquela noite em Londres, no meio do fogo, em que o piloto mocinho tinha dito: “Ela era meio velha, talvez trinta anos,

mas muito hábil.” Ele a beijou com brandura. Não contou a Carlotta o que estava pensando, mas ela ficou comovida com o carinho do beijo e sorriu para ele. — Você está contente que isso tenha acontecido? — Estou. Tenho mais motivos de lhe ser grato do que você pode saber. — Que bom — disse ela. Depois: — Vamos tornar a nos amar, você e eu? — Imagino que sim — disse ele. “Não é mais necessário”, pensou ele. Mas não disse isso a ela. — Algum dia. Em alguma cidade. Ela riu baixinho, um pouco triste. — Algum dia — murmurou ela. — Em alguma cidade. De manhã, ele comprou presentes para a mulher e os filhos, usando a nota de dez mil liras que a moça de Boston lhe tinha colocado na mão quando embarcava o bêbado no táxi. Andou pelas ruas movimentadas e ensolaradas de Roma, examinando as vitrinas iluminadas. Apesar de não ter dormido mais do que uma hora, à noite, estava com os olhos claros, nada cansado, e gostou de passar muito tempo no meio das echarpes e dos suéteres da loja feminina e entre as bonecas e modelos de automóveis das lojas de brinquedos. Estava com o cheque de Holt no bolso e sentia-se rico, como as pessoas deviam sentir-se em Roma, e comprou presentes extravagantes. Trocou duzentos e cinquenta dólares em cheques de viagem no hotel e colocou as liras num envelope, para dar a Guido no aeroporto. “O sacrifício de agradecimento aos deuses locais”, pensou ele, fechando o envelope. Não ligou para ninguém durante a manhã, nem Carlotta, nem Delaney, nem Holt, nem Veronica, nem Bresach. “Tudo acabou ontem à noite”, disse ele consigo mesmo. O avião dele partiria à uma hora e Guido o levou pela estrada calado. Guido se mostrava sério e triste no brilhante sol do meio-dia. Jack achava que Guido gostava dele e estava com pena de terem acabado as duas semanas. “Ele vai pensar bem de mim, quando chegar a Toulon para visitar a mulher em cujo vinhedo trabalhou durante a guerra.” Na entrada do aeroporto, ele deu a Guido o envelope e pediu que ele só o abrisse quando chegasse de volta a Roma. Guido concordou muito sério, seus olhos escuros e emotivos, e eles se apertaram as mãos. Jack esperou do lado de fora do terminal até ver Guido partir de volta a Roma. Depois acompanhou o carregador com suas malas para dentro do edifício. Pesou a bagagem, carimbou a passagem e já ia passar pela porta marcada Aduana, quando viu Bresach correndo pela entrada. Bresach não estava de óculos, seus olhos eram um triste emaranhado de cortezinhos, e ele ficou procurando, bem míope, até encontrar Jack. Aí, correu para junto dele. — Eu quis me despedir de você — disse ele, sem preliminares. — Holt me disse que você ia partir. Entre outras coisas. — Como vão as coisas no estúdio? — perguntou Jack. Bresach deu um riso azedo. — Um caos. Todo mundo berrando com todo mundo. Reuniões por toda parte. Até nos banheiros. Stiles está bebendo outra vez. Tucino está uma fúria. Despediu-me duas vezes hoje de manhã. Ninguém filmou coisa nenhuma. Tenho a impressão de que não terminam esse filme antes do próximo Natal. Ah, para o diabo! — Ele deu de ombros. — Tenho uma coisa para você. — Meteu a mão no bolso do casaco e tirou o canivete, fechado. — Tome isso — disse ele. Parecia amargo e infeliz. Jack pegou a faca e guardou-a no bolso do sobretudo. — Eu devia tê-la usado — disse Bresach, o rosto se contorcendo. — Em alguém. Talvez em mim. — Não seja idiota — falou Jack, tolerante. — Eu devia tê-la matado ontem à noite — disse Bresach. — Veronica. Ninguém devia poder ficar impune pelas coisas que ela me fez. Um homem que a amava como eu a amei. Em vez disso, eu fiz

aquela coisa idiota com o champanhe... Jack sorriu e disse: — Na verdade, foi meio engraçado. E foi bom para o casamento, talvez. Começou a coisa numa base realista. — E depois deixei que me levassem embora como um bebê — disse Bresach, detestando-se amargamente. — Há duas semanas, há uma semana, eu teria ficado ali e lutado, mesmo que me matassem... E isso é que é o pior. Sabe por que eu deixei que Max me levasse embora? — Por quê? — Porque quando eu estava ali, bem na hora em que aquele filho da mãe estava dando em mim, eu pensei: “Se eu brigar, vão me entregar à polícia, vão me prender, talvez me expulsem da Itália, nunca terei oportunidade de terminar o filme, fazer o meu...” — Isso poderia ser verdade — disse Jack. — Virei comodista, virei cuidadoso — lamentou Bresach, seu rosto pálido e torturado, as feridinhas parecendo mais vermelhas do que nunca contra a pele branca. — Uma baforadinha de sucesso, uma nuvenzinha, e veja o que me fez. Daqui a um mês, vou rir de tudo isso. Como todo mundo. E, quando acaba, foi tudo por nada. Bem feito, eu mereci. Dentro de cinco anos, que tipo de homem serei eu? Que diabo de coisa vai me acontecer? — Você há de sobreviver — disse Jack. — Como todo mundo. — Jack... — Bresach parecia vacilante, incomodado —, se eu precisar de você outra vez, você me ajuda? Jack olhou pensativo para o rapaz, ali nas ruínas de suas esperanças, míope e desesperado, com as feridinhas feias em volta dos olhos. Sentiu uma vontade espantosa de chorar. — Claro. Chame por mim. Sou fácil de encontrar. — Tentou sorrir para ele. — Enquanto isso — disse Bresach —, tem algum conselho para me dar? Jack passou os dedos pelo cabelo, ganhando tempo, procurando encontrar uma palavra que ajudasse. Aí se lembrou de Carrington, aquele homem maravilhoso, e o que ele dissera ao jovem ator que o havia procurado para pedir conselho sobre como ser um bom ator. — Mostre-se encantado — disse Jack. Ele tocou no ombro do rapaz e depois passou pela porta para a alfândega, deixando Bresach ali sozinho. Quinze minutos depois, o avião decolou. Elevou-se acima do verde do prado, deu a volta sobre o rio sinuoso, com seu reflexo de nuvenzinhas brancas. Jack estava na janela, para um último olhar. Embaixo dele, sob o ameno céu mediterrâneo, a linda cidade, agitada e dourada, reluzia ao sol. O avião tomou seu rumo. Jack se recostou na poltrona e soltou o cinto de segurança, enquanto o avião se dirigia para o norte, para os Alpes. “Bom”, pensou ele, “eu saudei o astro.”

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